Arquivo da categoria: Textos de J. R. R. Tolkien

tolkien_beowulf

Novo livro de Tolkien sobre Beowulf será publicado em maio

O dragão da capa é de autoria do próprio Tolkien
O dragão da capa é de autoria do próprio Tolkien

Quase 90 anos depois de J. R. R. Tolkien traduzir o poema Beowulf, do século XI, a versão do autor de O Senhor dos Anéis para esta épica história será publicada pela primeira vez em maio por seu filho Christopher Tolkien, o responsável por gerenciar o legado literário do autor e por publicar todas as suas obras póstumas, como todo o legendarium da Terra-média (exceto O Hobbit e O Senhor dos Anéis) e os textos que não fazem parte dele, como os mais recentes A Queda de Artur (2013) e A Lenda de Sigurd e Gudrún (2009). O texto da vez é Beowulf: A Translation and Commentary (“Beowulf: Uma Tradução e Comentário”, em tradução livre).

Continue lendo

Mitos Transformados VII – Notas sobre os motivos no Silmarillion

The Histoy of Middle-earth XEste ensaio é encontrado em duas formas. A mais antiga (‘A’) é um texto bastante curto, manuscrito, contendo quatro páginas, entitulado ‘Algumas notas sobre a ”filosofia” do Silmarillion’; é rapidamente expresso e não possui um final claro. O segundo (‘B’) é uma versão grandemente ampliada contendo doze páginas, também manuscritas, de uma expressão mais cuidadosa e iniciando com uma bela caligrafia, mas encerrado também sem um fim, de fato no meio de uma frase. Este é entitulado ‘Notas sobre os motivos no Silmarillion’.

A relação entre as duas formas é tal que em sua maior parte não é necessário fornecer nenhum trecho de A pois todo seu conteúdo é encontrado inserido em B. A partir do ponto onde os Valar são condenados pela elevação das Pelori, contudo, os textos divergem. Em B meu pai insere uma longa amenização da conduta dos Valar, e o ensaio se encerra antes do assunto da seção que encerra A fosse atingida (ver nota 6); esta, portanto, é fornecida no final de B.

O texto de B é subsequentemente dividido e marcado como três seções distintas, sendo elas (i), (ii) e (iii).

Notas sobre os motivos no Silmarillion


(i)

Sauron foi ‘superior’, efetivamente, na Segunda Era do que Morgoth ao fim da Primeira. Porque? Por que, embora ele fosse muito inferior em estatura natural, ele ainda não havia caído tão baixo. Eventualmente ele também dispersou seu poder (de ser) no empreendimento de ganhar controle sobre  outros. Mas ele não foi obrigado a dispender tanto de si mesmo. Para obter domínio sobre Arda Morgoth deixou que a maior parte de seu ser passasse para os constituintes físicos da Terra – de forma que todas as coisas que nascessem na Terra e vivessem nela e por ela, animais ou plantas ou espíritos encarnados, seriam passíveis de ‘mácula’. Morgoth no período da Guerra das Jóias se tornou permanentemente ‘encarnado’: por esta razão ele tinha medo, e travou a guerra quase inteiramente por intermédio de aparatos  ou de subordinados e criaturas dominadas.

Sauron, contudo, herdou a ‘corrupção’ de Arda, e apenas gastou seu poder (muito mais limitado) nos Anéis; pois eram as criaturas da terra, em suas mentes e vontades, que ele desejava dominar. Nesta forma Sauron também foi mais sábio do que Melkor-Morgoth. Sauron não era um iniciante em discórdia; e ele provavelmente conhecia mais da ‘Música’ do que Melkor, cuja mente sempre esteve repleta com seus próprios planos e aparatos, e dava pouca atenção a outras coisas. O momento de maior poder de Melkor, portanto, foi no início físico do Mundo; um vasto desejo demiúrgico por poder e a realização de sua própria vontade e desígnios, em uma grande escala. E mais tarde após as coisas terem ficado mais estáveis, Melkor estava mais interessado em e mais capaz de lidar com uma erupção vulcânica, por exemplo, do que (digamos) uma árvore. É de fato provável que ele simplesmente não fosse consciente das produções menores e mais delicadas de Yavanna: tais como pequenas flores. *

(* [nota de rodapé ao texto] Se tais coisas fossem forçadas à sua atenção ele se enfurecia a as odiava, como vindo de outras mentes que não a dele mesmo.)

Portanto, enquanto ‘Morgoth’, quando Melkor foi confrontado pela existência de outros habitantes de Arda, com outras vontade e inteligências, ele se enraiveceu pelo mero fato de suas existências, e sua única noção que tinha de lidar com elas era pela força física, ou do medo dela. Seu único e último objetivo era a destruição das mesmas. Elfos, e ainda mais Homens, ele desprezava por causa de suas ‘fraquezas’:  que são a falta de força física, ou poder sobre ‘matéria’; mas ele também os temia. Ele estava ciente, ao menos originalmente quando ainda era capaz de pensamento racional, ele não os poderia ‘aniquilar’ **: isto é, destruir seus seres; mas suas ‘vidas’ físicas e formas encarnadas se tornaram gradativamente em sua mente a única coisa que valia a pena ser considerado (+).

(** [nota  entre parênteses inserida no texto] Melkor não poderia, é claro, ‘aniquilar’ nada que fosse feito de matéria, ele poderia apenas arruinar ou destruir ou corromper as formas dadas à materia por outras mentes em suas atividades sub-criativas.)

(+ [nota de rodapé sem indicação de referência ao texto] Por isto)

Ou ele se tornou tão avançado em Mentir que mentiu até mesmo para si mesmo, e fingiu que poderia destruí-los e livrar Arda completamente deles. Por isso ele tinha como objetivo sempre quebrar vontades e subordiná-las ou absorvê-las em sua própria vontade e ser, antes de destruir seus corpos. Isto era niilismo irrestrito e negação seu único último objetivo: Morgoth, sem dúvida, se tivesse sido vitorioso, teria destruído mesmo suas próprias ‘criaturas’, como os Orcs, quando tivessem cumprido seu único objetio ao utilizá-las: a destruição de Elfos e Homens. A impotência e desespero finais de Melkor advem disso: que enquanto ao mesmo tempo os Valar (e na devida proporção Elfos e Homens) podiam amar a ‘Arda Desfigurada’, isto é, a Arda com um ingrediente-Melkor, e podiam ainda curar este ou aquele ferimento, ou produzir a partir de seu próprio desfigurar, do estado em que estava, coisas belas e amáveis, Melkor não podia fazer nada com Arda, a qual não era de sua mente e estava interconectada com os trabalhos e pensamentos de outros: mesmo deixado sozinho ele poderia apenas continuar tempestuosamente até tudo estar nivelado e de volta ao caos sem forma. E mesmo assim ele teria sido derrotado, porque continuaria tendo ‘existido’, independente de sua própria mente, e um mundo em potencial.

Sauron nunca atingiu este nível de loucura niilística. Ele não se opunha à existência do mundo, desde que pudesse fazer com ele o que quisesse. Ele ainda tinha os resquícios de propósitos positivos, que surgiram do bem da natureza da qual ele se originou: havia sido sua virtude (e também, portanto, a causa de sua queda, e do seu retrocesso) amar a ordem e a coordenação, e desgostar toda confusão e fricção excessiva. (Foi a aparente vontade e poder de Melkor em realizar seus desígnios rapidamente e com maestria que inicialmente atraiu Sauron a ele). Sauron fora, de fato, muito semelhante a Saruman, e dessa forma o compreendia rapidamente e poderia adivinhar o que possivelmente pensaria e faria, mesmo sem a ajuda dos palantíri e de espiões; enquando Gandalf o eludia e confundia. Mas, assim como todas as mentes desta origem, o amor (originalmente) ou (mais tarde) mera compreensão por parte de Sauron de outras inteligências individuais era correspondentemente mais fraco; e mesmo sendo o único bem em, ou motivo racional para, todo este ordenamento e planejamento e organização ser o bem de todos os habitantes de Arda (mesmo admitindo o  direito de Sauron como seu senhor supremo), seus ‘planos’, a idéia vinda de sua própria mente isolada, tornou-se o único objetivo de sua vontade, e um fim, o Fim, em si mesma*.

(razão pela qual ele mesmo veio a temer a ‘morte’ – a destruição de sua forma física assumida – acima de tudo, e procurar evitar qualquer tipo de dano a sua própria forma)

Morgoth não possuía um ‘plano’: a menos que a destruição e redução a nada de um mundo no qual ele tinha apenas uma parte possa ser chamada de ‘plano’. Mas isto é, claro, uma simplificação da situação. Sauron não poteria ter servido Morgoth, mesmo em seus últimos estágios, sem se tornar infectado por seu desejo por destruição e sua raiva contra Deus (a qual deve terminar em niilismo). Sauron não poderia, claro, ser um ateísta ‘sincero’. Embora um dos espíritos menores criados antes do mundo, ele conhecia Eru, de acordo com sua capacidade. Ele provavelmente enganou a si mesmo com a noção de que tendo os Valar (incluindo Melkor) falhado, Eru tinha simplesmente abandonara Eä, ou pelo menos Arda, e não se importaria mais com ela. Ele parece ter interpretado a ‘mudança do mundo’ na Queda de Numenor, quando Aman foi removida do mundo físico, desta forma: Valar (e Elfos) foram removidos do controle efetivo, e Homens colocados sob a maldição e ira de Deus. Quando pensava nos Istari, especialmente Saruman e Gandalf, ele os imaginava como emissários dos Valar, procurando reestabelecer o poder perdido e ‘colonizar’ a Terra-média, como um mero esforço de imperialistas derrotados (sem o conhecimento ou sanção de Eru). Seu cinismo, o qual (sinceramente) considerava os motivos de Manwë como precisamente os mesmos que os seus, parecia completamente justificado em Saruman. Gandalf ele não compreendia. Mas certamente ele já hvai se tornado maligno, e portanto estúpido, o sucifiente para imaginar que o comportamente diferente deste era simplesmente devido a uma inteligência mais fraca e a falta de um firme propósito imperioso. Ele seria apenas um Radagast um pouco mais esperto – mais esperto por ser mais lucrativo (mais produtivo em poder) ficar absorvido no estudo de pessoas do que no de animais.

Sauron não era um ateísta ‘sincero’, ele pregava o ateísmo, porque reduzia a resistência a si mesmo (e ele parara de teme as ações de Deus em Arda).  Como visto no caso de Ar-Pharazon. Mas lá foi visto o efeito de Melkor sobre Sauron: ele falava de Melkor nos próprios termos de Mekor: como um deus ou mesmo como Deus. Isto pode ter sido o resíduo de um estado o qual era de uma certa forma uma sombra de bem: a habilidade em Sauron de pelo menos admiriar ou admitir a superioridade de um ser que não ele mesmo.

(* [nota de rodapé ao texto] Mas sua capacidade de corromper outras mentes, e mesmo cooptar seus serviços, era um resíduo do fato de que seu desejo original por ‘ordem’ tinha realmente considerado o bom estado (especialmente bem-estar físico) de seus ‘sujeitos’.)

Melkor, e mais ainda o próprio Sauron mais tarde, ambos lucraram com esta sombra escurecida do bem e os serviços dos ‘adoradores’. Mas pode ser duvidoso mesmo se tal sombra de bem estava sinceramente operativa em Sauron àquele tempo. Seu motivo mais sagaz é povavelmente assim expresso. Para alienar um dos tementes-a-Deus de sua lealdade é melhor propor outro objeto invisível de lealdade e outra esperança de benefícios; propondo a ele um Senhor que irá sancionar o que ele deseja e não proibi-lo. Sauron, aparentemente um rival derrotado na disputa pelo poder mundial, agora um mero prisioneiro, dificilmente poderia propor si mesmo;  mas como antigo servo e discípulo de Melkor, a adoração de Melkor o elevará de prisioneiro a sumo sacerdote. Mas embora o real motivo fosse a destruição dos Numenorianos, este era um motivo particular de vingança contra Ar-Pharazon, pela humilhação. Sauron (ao contrário de Morgoth) ficaria satisfeito com a existência dos Numenorianos, como seus seguidores, e de fato usou muitos deles os quais ele corrompeu à sua lealdade.

(ii)

Ninguém, nem mesmo um dos Valar, pode ler a mente de outro ‘ser igual’:*  ou seja, não pode ‘vê-lo’ ou compreendê-lo completa e diretamente por simples inspeção. Pode-se deduzir muitos de seus pensamentos, a partir de comparações genéricas levando a conclusões relativas à natureza e tendências das mentes e pensamentos, e do conhecimento particular de indivídeuos, e circunstâncias especiais. Mas isso não é leitura ou inspeção de outra mente e sim dedução relativa ao conteúdo de uma sala fechada, ou eventos que acontecem fora de vista. Tampouco a assim chamado ‘transferência de pensamento’ é um processo de leitura-mental: nada mais é do que a recepção, e interpretação pela mente receptora, do impacto de um pensamento, ou padrão de pensamento, emanando de outra mente, a qual tanto é a mente em sua totalidade por si mesma quanto a distante visão de um homem correndo é o próprio homem. Mentes podem exibir ou revelar a si mesmas a outras mentes pela ação de suas próprias vontades (embora seja duvidoso se, mesmo desejando ou permitindo isso, uma mente pode realmente revelar a si mesma completamente a outra mente).

(* [nota marginal]  Todas as mentes racionais ??? espíritos derivando diretamente de Eru são ‘iguais’ – em ordem e posição – embora não necessariamente ‘covalentes’ ou de mesmo poder original.)

É, portanto, uma tentação para as mentes de maior poder governar ou conter a vontade de outras, e mais fracas, mentes, de forma a induzi-las ou forçá-las a se revelar. Mas forçar tal revelação, ou induzi-la por qualquer mentira ou engano, mesmo por supostamente ‘bons’ propósitos (incluindo o ‘bem’ da pessoa assim persuadida ou dominada), é absolutamente proibido. Fazê-lo é um crime, e o ‘bem’ nos propósitos daqueles que cometem este crime rapidamente se corrompe.

Portanto muito poderia ‘acontecer às costas de Manwë’: de fato o âmago de todas as outras mentes, grandes e pequenas, estavam ocultas dele. E com respeito ao Inimigo, Melkor, em particular, ele não podia penetrar por visão-mental à distância seu pensamento e propósitos, uma vez que Melkor permanecia em uma vontade fixa e poderosa em ocultar sua mente: o que, fisicamente expresso, tomava forma na escuridão e nas sombras que o envolviam. Mas Manwë podia usar, claro, e usou, seu grande conhecimento, sua vasta experiência de coisas e de pessoas, sua memória da ‘Música’ e sua própria far sight, e as notícias trazidas por seus mensageiros.

Manwë, como Melkor, praticamente nunca é visto ou ouvido fora ou distante de seus próprios salões e residência permanente.  Por que isso? Por nenhuma razão muito profunda. O Governo é sempre no Salãobranco. Rei Arthur normalmente está em Camelot ou Caerlon, e novidades e aventuras chegam até lá e surgem de lá. O ‘Rei Mais Antigo’ obviamennte não será derrotado ou destruído totalmente, pelo menos não antes de algum ‘Ragnarok’ (1) final – o qual mesmo para nós está no futuro, de forma que ele não pode ter ‘aventuras’ reais. Mas, se você o mantém em casa, o resultado de qualquer evento em particular (uma vez que não pode resultar em um ‘cheque-mate’ final) pode permanecer em suspense literário. Mesmo na guerra final contra Morgoth é Fionwe filho de Manwë que personifica o poder dos Valar. Quando movermos Manwë será a última batalha, e o fim do Mundo (ou da ‘Arda Desfigurada’) como os Elfos diriam.

[A permanência de Morgoth ‘em casa’ tem, como descrito acima, uma razão bastante diferente: seu medo de ser morto ou mesmo ferido (o motivo literário não está presente, pois uma vez que ele está em oposição contra o Rei Mais Antigo, o resultado de qualquer uma de suas ações está sempre em dúvida).]

Melkor ‘encarnou-se’ (como Morgoth) permanentemente. Ele o fez para controlar o hroa (2), a ‘carne’ ou matéria física de Arda. Ele tentou identificar-se com ela. Um procedimento mais vasto e mais perigoso,, embora similar em operação a Sauron com os Anéis. Portanto, fora do Reino Abençoado, toda matéria presumivelmente tinha um ‘ingrediente Melkor’ (3), e aqueles que possuíam corpos, alimentados pelo hroa de Arda, tinham uma tendência, pequena ou grande, em direção a Melkor : não havia nenhum deles completamente livre dele em sua forma encarnada, e seus corpos tinham um efeito sobre seus espíritos.

Mas desta forma Morgoth perdeu (ou trocou ou transmutou) a maior parte de seus poderes ‘angelicais’ originais, de mente e espírito, enquanto ganhava um terrível domínio sobre o mundo físico. Por esta razão ele tinha que ser enfrentado principalmente através de força física, e uma enorme ruína material era a provável consequência de qualquer combate direto com ele, vitorioso ou não. Esta é a principal explicação pela constante relutância dos Valar em confronta Morgoth em batalha aberta. A tarefa e problema de Manwë eram muito mais difíceis do que os de Gandalf. O poder de Sauron, relativamente menor, estava concentrado; o vasto poder de Morgoth estava disseminado.  O todo da ‘Terra-média’ era o Anel de Morgoth, embora temporariamente sua atenção estivesse principalmente no Noroeste. A menos que rapidamente bem sucedida, Guerra contra ele poderia muito bem terminar reduzindo toda a Terra-média ao caos, possivelmente mesmo toda Arda. É fácil dizer: ‘Era a tarefa e função do Rei Mais Antigo governar Arda e tornar possível aos Filhos de Eru viveram nela sem serem molestados’. Mas o dilema dos Valar era este:  Arda só poderia ser liberada por uma batalha física; mas um provável resultado de tal batalha seria a irrecuperável ruína de Arda. Além disso, a erradicação final de Sauron (como um poder direcionando o mal) era alcançável pela destruição do Anel. Tal erradicação de Morgoth não era possível, uma vez que isso requereria a completa desintegração da ‘matéria’ de Arda. O poder de Sauron não estava (por exemplo) no ouro propriamente dito, mas em uma forma particular feita de uma porção em particular do total de ouro. O poder de Morgoth foi disseminado através do Ouro, embora não fosse absoluta em qualquer lugar (pois ele não criou o Ouro) também não estava ausente de parte alguma. (Era este elemento-Morgoth na matéria, de fato, o pré-requisito para a tal ‘magia’ e outras malignidades que Sauron pratricava com ele e sobre ele.)

É bastante possível, claro, que certos ‘elementos’ ou condições da matéria tenham atraído a atenção especial de Morgoth (principalmente, exceto no passado remoto, por razões de seus próprios planos). Por exemplo, todo o ouro (na Terra-média) parece ter tido um aspecto especialmente ‘maligno’ – mas não a prata. A água é representada como sento quase inteiramente livre de Morgoth. (Isto, é claro, não significa que qualquer mar, corrente, rio poço ou mesmo repositório de água em particular não pudesse ser envenenada ou maculada – todas as coisas podiam).

(iii)

Os Valar ‘esvaecem’ e se tornam mais impotentes, precisamente na proporção em que a forma e constituição das coisas se tornaram mais definidas e fixas. Quanto maior o Passado, mais precisamente definido o Futuro e menos espaço para mudanças importantes (ação ilimitada, em um plano físico, que não seja destrutiva em propósito). O Passado, uma vez ‘atingido’, se tornava parte da ‘Música encarnada’. Apenas Eru teria permissão ou poderia alterar a ‘Música’. O último grande esforço, deste tipo demiúrgico, feito pelos Valar foi a elevação da cadeira das Pelori à sua grande altura. É possível ver isto como, se não realmente uma má ação, pelo menos uma ação equivocada. Ulmo a desaprovou (4). Ela tinha um bom, e legítimo, objetivo: a preservação incorrupta de ao menos uma parte de Arda. Mas pareceu ter um motivo egoísta ou negligente (ou desesperado) também; pois o esforço para preservar os Elfos incorruptos lá se provou falho se eles fossem deixados livres: muitos haviam recusado ir ao Reino Abençoado, muito haviam se revoltado e o deixaram. Por outro lado, com relação aos Homens, Manwë e todos os Valar sabiam muito bem que eles não poderiam ir a Aman de forma alguma; e a longevidade (co-extensiva com a vida de Arda) dos Valar e Eldar era expressamente não permitida aos Homens. Portanto o ‘Ocultar de Valinor’ chegou perto de imitar a possessividade de Morgoth com uma posssessividade rival, fixando um domínio privado de luz e benção contra um de escuridão e dominação: um palácio e um jardim prazeiroso (5) (bem cercado) contra uma fortaleza e uma masmorra (6).

Esta aparência de indolência egoísta nos Valar na mitologia como contada (embora eu não a tenha explicado ou comentado) eu acredito ser apenas uma ‘aparência’, e uma na qual estamos aptos a acreditar como verdade, uma vez que todos somos afetados em algum grau pela sombra e mentiras de seu Inimigo, o Caluniador. Deve ser lembrado que a ‘mitologia’ é representada como sendo dois palcos afastados de um registro verdadeiro: é beseada inicialmente nos registros e conhecimentos Élficos sobre os Valar e seus próprios negócios com eles; e estes nos alcançaram (fragmentariamente) apenas através de relíquias das tradições Numenorianas (humanas), derivadas dos Eldar, em seus trechos mais antigos, embora mais tarde suplementada por histórias e contos  antropocêntricos (7). Estes, se verdade, chegaram através dos ‘Fiéis’ e seus descendentes na Terra-média, mas não podiam escapar de todos do enegrecimento devido à hostilidade dos Numenorianos rebeldes aos Valar.

Mesmo assim, e baseando nas histórias como recebidas, é possível ver o assunto de outra forma. O fechamento de Valinor contra os rebeldes Noldor (que a deixaram voluntariamente e depois de avisados) era em si mesmo justo. Mas, se ousarmos tentar penetrar na mente do Rei Mais Antigo, atribuindo motivos e procurando falhas, há coisas a lembrar antes de darmos nosso veridicto. Manwë era o espírito de maior sabedoria e prudência em Arda. Ele é representado como tendo maior conhecimento da Música, como um todo, do que o possuído por qualquer um com uma mente finita; e apenas ele de todas as pessoas ou mentes daquele tempo é representado como tendo o poder de recorrer diretamente a e se comunicar com Eru. Ele deve ter entendido com grande clareza o que podemos perceber apenas de relance: que era o modo essencial do processo da ‘história’ em Arda que o mal deveria constantemente surgir, e que dele um novo bem deveria constantemente advir. Um especial aspecto disso é a estranha maneira pela qual os males do Desfigurador, ou seus herdeiros, são transformados em armas contra o mal. Se considerarmos a situação após a fuga de Morgoth e o reestabelecimento de sua fortaleza na Terra-média, veremos que os heróicos Noldor eram a melhor arma possível com a qual manter Morgoth em cheque, virtualmente sob cerco, e de qualquer forma totalmente ocupado, no limite norte da Terra-média, sem o provocá-lo a um fenesi de destruição niilística. E no meio termo, Homens, ou os melhores elementos na Humanidade, se livrando de sua sombra, entraram em contato com um povo que tinha realmente visto e experimentado o Reino Abençoado.

Em sua associação com os beligerantes Eldar os Homens foram elevados à sua máxima estatura alcançável, e pelos dois casamentos a transferência a eles, ou infusão na Humanidade, da mais nobre linhagem-Élfica foi obtida, em prontidão para o ainda distante, mas inevitável, dia nos quais os Elfos iriam ‘esvaecer’.

A última intervenção dos Valar através de força física, terminando com a destruição de Thangorodrim, pode ser vista não como relutante ou mesmo desnecessariamente atrasada, mas cronometrada com precisão. A intervenção veio antes da aniquilação dos Eldar e dos Edain. Morgoth embora localmente triunfante negligenciou a maior parte da Terra-média durante a guerra; e com isso ele foi de fato enfraquecido: em poder e prestígio (ele perdeu e falhou em recuperar uma das Silmarils), e acima de tudo em mente. Ele ficou absorvido em ‘reinar’, e embora fosse um tirano de tamanho ógrico e poder monstruoso, isto foi uma vasta queda mesmo de sua anterior iniquidade de ódio e seu terrível niilismo. Ele caiu a ponto de apreciar ser um rei-tirano com escravos conquistados, e vastos exércitos obedientes (8).

A guerra foi bem sucedida, e a ruína limitada à pequena (embora bela) região de Beleriand. Morgoth foi então de fato feito prisioneiro em forma física (9), e naquela forma tomado como um mero criminoso para Aman e entregue a Namo Mandos como juiz – e executor. Ele foi julgado, e eventualmente levado para fora do Reino Abençoado e executado: isto é, morto como um dos Encarnados. Ficou então claro (embora deva ter sido compreendido antes por Manwe e Namo) que, embora ele tenha ‘disseminado’ seu poder (sua maligna e possessiva e rebelde vontade) longe e amplamente na matéria de Arda, ele perdeu o controle direto disso, e tudo que ‘ele’, enquanto um resto sobrevivente de um ser inteiro,  manteve como ‘si mesmo’ e sob controle era o espírito terrivelmente diminuído e reduzido que habitava seu auto-imposto (mas agora amado) corpo. Quanto este corpo foi destruído ele estava fraco e inteiramente ‘desabrigado’, e àquele tempo  perplexo e ‘desancorado’ como estava. Nós lemos que ele então foi arremessado no Vazio (10). Isto deve significar que ele foi colocado fora do Tempo e Espaço, toalmente fora de Eä; mas se assim o foi então isto implicaria em uma intervenção direta de Eru (com ou sem súplica dos Valar). Isto pode, contudo, se referir inacuradamente * à extrusão ou fuga de seu espírito de Arda.

(* [nota de rodapé ao texto] Uma vez que as mentes dos Homens (e mesmo dos Elfos) eram inclinadas a confundir o ‘Vazio’, enquanto o conceito de Não-ser, fora da Criação ou Eä, com o sentido de vastos espaços dentro de Eä, especialmente aqueles concebidos para se situarem no insular ‘Reino de Arda’ ( o qual nós deveríamos provavelmente chamar o Sistema Solar).)

Em qualquer caso, ao buscar absorver ou melhor infiltrar-se através da ‘matéria’, o que então restava dele não era mais poderoso o suficiente para revestir-se novamente. (Ele ficaria então fixo no desejo de o fazer: não havia ‘arrependimento’ ou possibilidade de: Melkor havia abandonado para sempre todas as ambições ‘espirituais’, e existia quase unicamente como um desejo de possuir e dominar a matéria, e Arda em particular). Ao menos ele não poderia ainda revestir-se. Não precisamos supor que Manwe foi enganado ao supor que isto tenha sido uma guerra para acabar com as guerras, ou mesmo para acabar com Melkor. Melkor não era Sauron. Nós falamos deles como ‘enfraquecido, diminuído, reduzido’; mas isto é em comparação com os grandes Valar. Ele havia sido um ser de imensa potência e vida. Os Elfos certamente mantinham e ensinavam que os fëar ou ‘espíritos’ podiam crescer com vida própria (independentemente do corpo), assim como poderiam ser feridos e curados, ser diminuídos e renovados (11). Poder-se-ia esperar, portanto, que o espírito negro do ‘restante’ de Melkor, eventualmente e após longas eras crescesse novamente, e mesmo (como alguns defendem) recuperar para si alguma parte de seu poder anteriormente dissipado. Ele o faria (mesmo Sauron não poderia) devido à sua relativa grandeza. Ele não se arrependeu, ou finalmente se livrou de sua obsessão, mas mantinha ainda resquícios de sabedoria, de forma que ele ainda poderia buscar seu objetivo indiretamente, e não simplesmente cegamente. Ele descansaria, buscaria curar a si mesmo, se distrairia com outros pensamentos e desejos e aparatos – mas tudo simplesmente para recuperar força suficiente para retornar a atacar os Valar, e à sua antiga obsessão. Enquanto crescesse ele se tornaria, como fora, uma sombra escura, aguardando nos confins de Arda e a desejando.

De qualquer forma a destruição das Thangorodrim e a extrusão de Mekor foi o fim de ‘Morgoth’ como tal, e daquela era (e muitas eras depois). Foi também, portanto, em um sentido o fim da função e tarefa primordiais de Manwe enquanto Rei Mais Antigo, até o Fim. Ele havia sido o Adversário do Inimigo.

É bastantante razoável supor que Manwe soubesse que sem tardar (pois ele via o ‘tempo’) o Domínio dos Homens começaria, e a criação da história então seria transferida a eles: para sua batalha com o Mal arranjos especiais haviam sido feitos! Manwe sabia de Sauron, é claro. Ele havia comandado que Sauron viesse perante ele para julgamento, mas deixou espaço para o arrependimento e a reabilitação final. Sauron recusou e fugiu, escondendo-se. Sauron, contudo, era um problema com o qual os Homens teriam que lidar afinal: a primeiras de muitas concentrações do mal em pontos-de-poder definidos que eles teriam que combater, assim como era também a última daquelas formas ‘mitológicas’ personalizadas (mas não-humanas).

Deve ser notado que a primeira derrota de Sauron foi obtida pelos Numenorianos sozinhos (embora Sauron não foi de fato derrotado pessoalmente; sua ‘catividade’ foi voluntária e um truque). Na primeira derrota e desencarnamento de Sauron na Terra-média (ignoranto o assunto de Lúthien) (12)


Aqui a versão longa em B se interrompe, ao pé da página. Eu forneço agora a conclusão da versão A a partir do ponto onde o texto diverge (ver nota 6), começando com a sentença correspondente a B ‘O último esforço maior, deste tipo demiúrgico, feito pelos Valar… ’


O último esforço maior, deste tipo demiúrgico, feito pelos Valar foi a elevação das Pelori – mas este não foi um ato bom: chegou próximo a imitar Morgoth em sua própria maneira de agir – à parte o elemento de egoísmo em seu objetivo de preservar Aman como uma região abençoada para viver.

Os Valar eram como arquitetos trabalhando com um plano ‘passado’ pelo Governo. Eles se tornaram menos e menos importantes (estruturalmente!) enquanto o plano se tornava mais e mais completo. Mesmo na Primeira Era nós os vemos após incontáveis eras de trabalho já perto do fim de seu tempo de trabalho – não de sabedoria ou conselho. (Quanto mais sábios eles se tornavam menos poder eles tinham para fazer qualquer coisa – exceto por aconselhamento).

De forma similar os Elfos esvaeceram, tendo introduzido ‘arte e ciência’ (13). Homens também irão ‘esvaecer’, caso se prove que é o plano que as coisas deverão continuar, quando eles completarem sua função. Mas mesmo os Elfos tinham a noção de que este não seria o caso: que o fim dos Homens seria de alguma maneira associado com o fim da história, ou como eles chamavam ‘Arda Desfigurada’ (Arda Sahta), e a obtenção da ‘Arda Curada’ (Arda Envinyanta) (14). (Eles não parecem ter sido claros ou precisos – como poderiam ser! – se Arda Evinyanta era um estado permanente, o qual portanto poderia ser aproveitado apenas ‘fora do Tempo’,  como era: examinando o Conto como um todo englobado; ou um estado de benção intacta dentro do Tempo e em um ‘lugar’ que era de alguma forma um descendente linear e histórico de nosso mundo ou ‘Arda Desfigurada’. Ele frequentemente parecem ter querido dizer ambos. ‘Arda Imaculada’ não existia de fato, mas permanecia em pensamento – Arda sem Melkor, ou melhor, sem os efeitos dele ao se tornar maligno; mas esta é a fonte da qual todas as idéias de ordem e perfeição são derivadas. ‘Arda Curada’ é portanto o encerramento do ‘Conto de Arda’ o qual leva em consideração todos os feitos de Melkor, mas que devem, de acordo com a promessa de Iluvatar, serem vistos como bons; e também um estado de reparação e benção além dos ‘círculos do mundo’.) (15)

O Mal é fissíparo. Mas infértil em si mesmo. Melkor não poderia ‘gerar’, ou ter qualquer esposa (embora tenha tentado violar Arien, isto seria para destruí-la e distanciá-la (16), não para gerar uma descendência ígnea). A partir das dissonâncias na Música – isto é, não diretamente de nenhum de seus dois temas (17), de Eru ou de Melkor, mas a partir de sua dissonância de um em relação ao outro – coisas malignas surgiram em Arda, as quais não se originaram de qualquer plano direto ou visão de Melkor: eles não eram ‘seus filhos’; e, portanto, uma vez que todo o mal odeia, o odiava também. A progenitura das coisas estava corrompida.  Então Orcs? Parte da idéia Elfo-Homem dando errado. Em relação aos Orcs, os Eldar acreditavam que Morgoth de fato os ‘gerou’ capturando Homens (e Elfos) no início e ampliando ao máximo quaisquer tendências corruptas que eles possuíssem.


Apesar de seu estado incompleto (seja devido à perda da conclusão da versão completamente desenvolvida do ensaio ou ao seu abandono, ver nota 6) este é o mais completo registro que meu pai escreveu de como, em seus anos tardios, veio a ‘interpretar’ a natureza do Mal em sua mitologia; nunca em nenhum outro lugar ele escreveu tal exposição da natureza de Morgoth, ou seu declínio, e de sua corrupção de Arda, nem explicitou a distinção entre Morgoth e Sauron: ‘o todo da Terra-média era o Anel de Morgoth’.

Situar este ensaio em relação sequencial aos demais escritos ‘filosóficos’ ou ‘teológicos’ fornecidos neste livro [HoME XI] com qualquer grau de certeza parece dificilmente possível, embora Fionwë filho de Manwë (ao invés de Eonwe arauto de Manwe) pode sugerir que ele se situa em um período relativamente antigo com relação a eles. Ele mostra uma semelhança evidente em tom a muitas das cartas de exposição que meu pai escreveu no final dos anos 1950 e de fato parece-me muito possível que a correspondência que se seguiu à publicação de O Senhor dos Anéis tenha tido parte significativa no desenvolvimento desta examinação das ‘imagens e eventos’ da mitologia (18).

NOTAS

1. Ragnarok: ‘o Destino dos Deuses’ (Nórdico Antigo): ver HoME IX

2. hroa: assim escrito aqui e na segunda ocorrência abaixo (e no texto A), não como em outros lugares hröa, onde significa o corpo de um ser encarnado. A palavra usada para ‘matéria física’ no Leis e Costumes era hrón, mais tarde alterada para orma (nota 26); no Comentário sobre o Athrabeth e no ‘Glossário’ de nomes a palavra é erma.

3. Sobre esta sentença ver p. 271

4. Condenação explícita, fortemente expressa aos Valar pelo Ocultar de Valinor é encontrado na história de mesmo nome em O Livro dos Contos Perdidos (HoME I), mas desaparece em versões posteriores. Da história antiga eu registrei (HoME I) que ‘no Silmarillion não há vestígios do tumultuoso conselho, nenhuma sugestão de desacordo entre os Valar, com Manwe, Varda e Ulmo ativamente desaprovando o trabalho e se distanciando dele’, e eu comentei:

É muito curioso observar que a ação dos Valar aqui surge essencialmente da indolência misturada com medo. Em nenhum lugar a concepção inicial de meu pai sobre os indolentes Deuses aparece mais claramente. Ele manteve, contudo, de forma bastante explícita que a falha deles em travar guerra contra Melko àquele tempo e naquele lugar fora um erro profundo, diminuindo a si mesmos, e (assim parece) irreparável. Eu seu escritos posteriores o Ocultar de Valinor de fato permaneceu, mas apenas como um grande fato de mitológica antiguidade; não há nenhum indício de sua condenação.

As últimas palavras se referem à narrativa constante no Silmarillion. A desaprovação de Ulmo agora reaparece, e é uma evidência adicional de seu isolamento nos conselhos dos Valar (ver nota 11); isto é, suas palavras a Tuor em Vinyamar (tendo falado a ele, entre outras coisas, da ‘ocultação do Reino Abençoado’, embora o que ele disse não seja registrado): Portanto, embora nestes dias de escuridão eu pareça me opor à vontade de meus irmãos, os Senhores do Oeste, dos quais faço parte, para o que fui indicado antes da criação do Mundo’ (Contos Inacabados).

5.  No original pleasaunce (=  pleasance):  um ‘jardim prazeiroso’. Meu pai uso a palavra várias vezes em O Livro dos Contos Perdidos, por exemplo com relação aos jardins de Lorien.

6. A este ponto meu pai mais tarde escreveu no manuscrito:  ‘Ver a forma original curta de Esvaecer dos Elfos (e Homens)’. Esta parece uma clara indicação de que B não foi completado, ou que se o foi a conclusão foi perdida logo no princípio.

7. Confira a afirmação sobre este assunto no breve texto I

8. Uma vez que esta discussão é introduzida em justificação para o Ocultar de Valinor, o ponto em que argumento se baseia parece ser que a história da Terra-média nos últimos séculos da Primeira Era não teriam sido possíveis de conclusão se Valinor tivesse continuado aberta ao retorno dos Noldor.

9. Assim, claro, como aconteceu a Melkor muito antes, após o saque a Utumno.

10. Confira na conclusão de QS (HoME V): ‘Mas o próprio Morgoth os Deuses atiraram através da Porta da Noite no Vazio Atemporal, além das Muralhas do Mundo’.

11. O seguinte foi adicionado marginalmente após a página ter sido escrita:

Se eles não mergulharam abaixo de certo nível. Uma vez que nenhum fëa poderia ser aniquilado, reduzido a zero ou à não-existência,  não é claro o que significa. Portanto Sauron é dito ter caído abaixo do ponto de recuperação, embora anteriormente tenha se recuperado. O que provavelmente significa é que um espírito ‘malicioso’ se torna fixado em um certo desejo ou ambição, e se não pode se arrepender então seu desejo se torna virtualmente seu ser como um todo. Mas o desejo pode estar completamente além da fraqueza para onde caiu, e ele será incapaz de retirar sua atenção do desejo inalcançável, mesmo para cuidar de si mesmo. Permanecerá para sempre em impotente desejo ou memória do desejo.

12. Uma referência para a lenda da derrota de Sauron por Luthién e Huan na ilha de Tol-in-Gaurhoth, onde Beren foi aprisionado (O Silmarillion).

13. Confira na Carta #181 (1956): ‘Neste mundo mitológico os Elfos e Homens são parentes, em suas formas encarnadas, mas com relação a seus “espíritos” para o mundo representam diferentes “experimentos”, cada um dos quais com sua própria tendência natual, e fraqueza. os Elfos representam os aspectos artísticos, estéticos e puramente científicos da natureza Humana elevados a um nível mais alto do que o de fato visto nos Homens’.

14. No texto FM2 de ‘Finwe e Miriel’ (HoME XI, nota de rodapé) ‘Arda Desfigurada’ é Arda Hastaina. Arda Envinyanta, em ambas as ocorrências, foi inicialmente escrita Arda Vincarna.

15. Com relação a esta passagem em parenteses confira especialmente  a nota (iii) no final de Leis e Costumes;

16. No original ‘distain’, um antigo verbo significando ‘manchar’, ‘descolorir’, ‘profanar’.

17. Os Três Temas de Iluvatar na Música dos Ainur são aqui tratados como um único tema, em oposição ao ‘tema’ discordante de Melkor.

18. Em uma carta de junho de 1957 (Carta #200) ele escreveu:

Eu lamento que tudoisso pareça monótono e ‘pomposo’. Mas assim o são todas as tentativas de ‘explicar’ as imagens e eventos de uma mitologia. Natuaralmente as histórias surgem primeiro. Mas isto é, suponho, algum teste de consistência de uma mitologia como tal, se é capaz de algum tipo de explicação racional ou racionalizada.

Os Anais de Aman – Quinta Seção

A Valinor tem a honra de publicar a quinta parte de um total de seis que compõem os Anais de Aman, um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. Esta quinta parte (leia também a primeira, a segunda, a terceira e a quarta) engloba a morte de Finwë, o roubo das Silmarils, o Juramento de Fëanor e a Fuga dos Noldor..

Quinta Seção dos Anais de Aman

§117      Então veio a acontecer que após algum tempo uma grande aglomeração de pessoas seu juntou ao redor do Círculo do Destino; e os deuses sentaram nas sombras, pois era noite. Mas noite como apenas pode ser em algumas terras do mundo quando as estrelas brilham fracas e intermitentemente através de fendas em grandes nuvens, e nevoeiros frios chegam de um escuro litoral do mar. Então Yavanna pôs de pé no Monte Verdejante, e este agora estava vazio e enegrecido, e ela olhou para as Árvores e estavam ambas mortas e negras. Então muitas vozes se levantaram em lamentação, pois pareceu àqueles que lamentavam que eles haviam sorvido até o fim a taça de sofrimento que Melkor havia enchido para eles. Mas não era verdade.

§118      Pois Yavanna falou perante os Valar, dizendo: “A Luz das Árvores se foi daqui, e vive agora apenas nas jóias de Fëanor. Previdente ele foi. Percebam! pois mesmo para os mais poderosos existem alguns feitos que eles  podem realizar uma vez, e apenas uma. A Luz das Árvores eu trouxe à existência e não posso fazê-lo novamente dentro de Ëa. Mas se eu tivesse um pouco daquela Luz, eu poderia trazer de volta a vida às Árvores, antes de suas raízes morrerem; e então nossa ferida seria curada, e a malícia de Melkor seria desfeita”.

§119      E Manwë falou, e disse, Ouviste, Fëanor, as palavras de Yavanna? Darás o que ela pedirá? E então houve um grande silêncio, e Fëanor não disse uma palavra. Então Tulkas pediu: Fala, Oh Noldo, sim ou não! Mas quem poderia recusar a Yavanna? E a luz das Silmarils não veio do trabalho dela, inicialmente? Mas Aule o Criador (1) disse, “Não seja tão apressado! Nós pedimos uma coisa maior do que sabes. Deixe-o ter paz por algum tempo”.

§120      Mas então Fëanor falou, e anunciou amargamente: “Verdadeiramente para o menor tanto quanto para o maior existem alguns feitos que ele pode realizar apenas uma vez. E naquele feito seu coração deverá repousar. Talvez eu possa destrancar minhas jóias, mas nunca novamente eu poderei fazer semelhantes; e se forem quebradas, então quebrado será meu coração. e eu morrerei: o primeiro de todos os Filhos de Eru”.

§121      “Não o primeiro”, falou Mandos, mas eles não compreenderam suas palavras, e de novo  houve silêncio, enquanto Fëanor meditava no escuro. E pareceu a ele que estava cercado por um círculo de inimigos, e as palavras de Melkor retornaram a ele, dizendo que as Silmarils não estavam a salvo,  se os Valar pudessem possuí-las. “E não é ele Vala como eles são”, pensou ele, “e compreende seus corações? Sim, um ladrão revelará ladrões”. Então ele anunciou alto: “Não, isto eu não farei de livre vontade. Mas se os Valar me obrigarem, então eu verdadeiramente saberei que Melkor é de sua raça”.

§122      “Assim falastes”, disse Mandos; Então todos sentaram em silêncio, enquanto Niënna chorava sobre Korlairë e lamentava pela amargura do mundo. E enquanto ela lamentava chegaram mensageiros de Formenos, e eles eram Noldor, e traziam novas notícias do mal. Pois eles contaram como uma Escuridão cegante chegou ao norte, e no meio dela andava algum poder para o qual não havia nome, e a Escuridão partia dele. E Melkor também estava lá, e foi à casa de Fëanor, e lá matou Finwë, rei dos Noldor, antes as portas, e derramou o primeiro sangue dos Filhos de Ilúvatar. Pois apenas Finwë não havia fugido do horror do Escuro. E o forte de Formenos Melkor quebrou, e o destruiu completamente, e toda a riqueza em gemas foi levada; e as Silmarils se foram.

§123      Então Fëanor se levantou e amaldiçoou Melkor, nomeando-o Morgoth (2); e ela amaldiçoou também os chamados de Manwë, e a hora na qual ele foi a Taniquetil, pensando em sua tolice que se estivesse em Formenos, sua força teria permitido mais do que apenas ser morto também, como Melkor desejava (3). E então Fëanor correu da aglomeração e fugiu pela noite, louco tanto de fúria quanto de pesar: pois seu pai era mais querido para ele do que a Luz de Valinor ou os incomparáveis trabalhos de suas mãos; e quem dentro dos filhos, Elfos ou Homens, teve pai de maior valor?

§124      E aqueles que testemunharam a partida de Fëanor lamentaram grandemente por ele; e Yavanna estava desencorajada, temendo agora que a Grande Escuridão pudesse engolir os últimos raios da Luz para sempre. Pois embora os Valar ainda não compreendessem inteiramente o que se sucedeu, eles perceberam que Melkor chamara alguma ajuda que veio de Fora. As Silmarils se foram, e apesar da pouca importância que parecia então, se Fëanor tivesse dito (4) sim ou não afinal; mas se tivesse dito sim de início e assim limpado seu coração antes das terríveis notícias terem chegado, seus feitos posteriores poderiam ter sido diferentes dos que foram. Mas agora o funesto destino dos Noldor se aproximava.

§125      Enquanto isso, é dito, Morgoth fugindo da perseguição dos Valar chegou à terra erma de Araman, que ao norte, como Arvalin ao sul, fica entre as muralhas das Montanhas e o Grande Mar. Então ele foi para Helkaraxë onde o Estreito entre Araman e a Terra-média é cheio de gelo atritante, e ele cruzou e retornou ao Norte do mundo. Então tão logo eles colocaram os pés lá e escaparam da terra dos Valar, Ungoliantë convocou Morgoth a entregar a ela sua recompensa. Metade de seu pagamento era a seiva das Árvores; a outra metade seriam todas as jóias que pudesse conseguir. Morgoth entregou estas relutantemente, uma por uma, até que ela tivesse devorado todas e suas belezas removidas da terra, e então maior e mais escura cresceu Ungoliante e ainda sim desejava mais.

§126      Mas Morgoth não daria a ela nenhuma parte das Silmarils: estas ela tomou para sim eternamente. Por isso ali aconteceu a primeira disputa entre ladrões, e o medo de Yavanna não veio a se concretizar: que a Escuridão pudesse engolir os últimos raios da Luz. Mas Ungoliantë ficou irada, e tão grande ela se tornou que Morgoth não podia controlá-la; e ela envolveu-o em suas teias sufocantes, e seu terrível grito ecoou através do mundo. Então vieram em seu auxílio os Balrogs, que ainda permaneciam em locais profundos do Norte onde os Valar não os descobriram. Com seus chicotes de chamas eles romperam suas teias e expulsaram Ungoliantë, e ela desceu para Beleriand e habitou por algum tempo abaixo de Ered Orgoroth no vale que mais tarde foi chamado Nan Dungorthin, devido ao medo e horror que ela gerou lá. E quando ela se curou de seus ferimentos e gerou lá uma terrível descendência ela deixou as Terras do Norte, e retornou ao Sul do mundo, onde ele ainda reside, de acordo com tudo que os Eldar ouviram.

§127      Então Morgoth, estando livre, reuniu novamente seus servidores que pode encontrar, e escavou novamente seus vastos salões subterrâneos e suas masmorras naquele local que os Noldor mais tarde chamaram Angband, e acima deles ele elevou as fumegantes torres de Thangorodrim. Lá incontáveis se tornaram as hordas de suas bestas e seus demônios, e de lá agora saíam em hordas além da conta a sinistra raça dos Orkor, que cresceu e se multiplicou no interior da terra como uma praga. Estas criaturas Morgoth gerou por inveja e escárnio aos Eldar. Em forma (5) eles eram como os Filhos de Ilúvatar, embora terrível de se observar, pois eles foram gerados (6) em ódio, e de ódio estavam cheios; e ele repugnava as coisas que ele fizera, e com repugnação elas o serviam. Suas vozes eram como o bater de rochas, e eles não riam a não ser em tormento ou feitos cruéis. Os Glamhoth, horda de tumulto, os Noldor os chamaram. (Orcs podemos nomeá-los, pois nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios. Mas não eram da raça dos demônios, mas filhos (7) da terra corrompidos por Morgoth, e eles podiam ser mortos ou destruídos pelo bravo com armas de guerra. [Mas de fato uma lenda mais negra alguns ainda contam em Eressëa, dizendo que os Orcs eram verdadeiramente em sua origem parte dos Quendi, um grupo dos Avari insatisfeitos a quem Morgoth enganara, e os fizera cativos, e então os escravizara, e então os conduzira à total ruína*. Pois, disse Pengoloð, Melkor não mais poderia de forma alguma fazer algo que tivesse vida ou semelhança de vida desde o Ainulindalë, e poderia menos ainda após sua traição em Valinor e a completude de sua própria corrupção (8)] Falou Ælfwine.)

(* [nota de rodapé ao texto] Nos Anais de Beleriand é dito que isto ele fizera na Escuridão antes mesmo dos Quendi terem sido encontrados por Oromë)

§128      Então escura caiu a sombra sobre Beleriand, como em outro lugar é contado; e em Angband Morgoth forjou para si mesmo uma grande coroa de ferro; e nomeou-se Rei do Mundo (9). Como uma comprovação disso ele fixou as Silmarils em sua coroa. Suas mãos malignas foram queimadas negras pelo toque daqueles jóias abençoadas, e negras elas foram para sempre deste então; e ele nunca mais esteve livre da dor da queimadura. A coroa ele nunca retirava de sua cabeça, embora seu peso tenha tornado fatiga em tormento, e nunca mais com exceção de uma vez, enquanto seu reino durou, ele saiu por algum tempo secretamente de seu domínio no Norte (10). E apenas uma vez também ele empunhou uma arma, até a Última Batalha. Pois agora, mais do que nos dias de Utumno seu orgulho fora humilhado, seu ódio o devorava, e na dominação de seus servos e na inspiração deles com o desejo do mal, ele gastava seu espírito. Contudo sua majestade como um dos Valar durou por longo tempo, mudada para terror, e ante sua face todos, exceto os mais poderosos, afundavam em um poço escuro de medo.

Do Discurso de Fëanor em Túna

§129      Quando foi conhecido que Morgoth escapara de Valinor e a perseguição fora infrutífera, os Valar permaneceram por longo tempo sendo na escuridão no Círculo do Destino, e os Maiar e Vanyar ficaram com eles e lamentaram; mas os Noldor  em sua maior parte retornaram tristemente a Túna. Escura agora estava sua bela cidade de Tirion, e névoas vinham dos Mares Sombrios, e ocultavam suas torres. A lâmpada de Mindon queimava pálida na escuridão.

§130      Então repentinamente Fëanor apareceu na cidade e chamou a todos para a alta Corte do Rei sobre o topo de Túna. A sentença de banimento que havia sido posta sobre ele ainda não havia sido retirada, e ele se rebelou contra os Valar. Uma grande multidão se reuniu rapidamente, portanto, para ouvir o que ele iria dizer, e a colina e todas as ruas, e as escadas que subiam para a Corte foram atulhadas com as muitas tochas que todos levavam à mão.

§131      Fëanor era um mestre das palavras, e sua língua tinha grande poder sobre os corações quando ele a usava. E agora ele estava em fogo, e naquela noite ele fez um discurso ante os Noldor que para sempre eles lembraram. Terríveis e sinistras foram suas palavras, e cheias de ira e orgulho, e elas levaram o povo à loucura como os vapores de vinho quente. Sua fúria e seu ódio eram em maior parte dirigidos a Morgoth, embora quase tudo que ele disse tenha vindo das próprias mentiras de Morgoth. Ele reclamava agora o reinado de todos os Noldor, uma vez que Finwë estava morto, e ele desdenhava os decretos dos Valar.

§132      ‘Por que, Oh meu povo’, ele falou, ‘por que devemos continuar servindo a estes deuses ciumentos, que não podem nos manter, nem seu próprio reino, seguros de seu Inimigo? E embora ele seja agora seu rival, não são eles todos de uma única raça? Por isso a vingança me chama, mas mesmo se fosse de outro modo, eu não residiria mais na mesma terra com a raça do assassino de meu pai e o ladrão de meu tesouro. E eu não sou o único corajoso deste povo. E todos vós não perdestes vosso rei? E o que mais não perdestes, enclausurados aqui em uma terra estreita entre as montanhas ciumentas e o Mar estéril? Aqui uma vez houvera luz, que os Valar recusaram à Terra-média, mas agora a escuridão iguala tudo. Devemos lamentar aqui, sem novos feitos, para sempre, um povo-sombra, caçando na neblina, derramando lágrimas vãs no ingrato Mar salgado? Ou devemos ir para casa? Em Kuiviénen doce correm as águas sob estrelas sem nuvens, e existem terras amplas onde um povo livro pode andar. Lá eles ainda continuam e nos esperam, nós que em nossa tolice os abandonamos. Partamos! Deixe que os covardes tenham esta cidade. Mas, pelo sangue de Finwë! A menos que eu fique senil, se apenas os covardes ficarem, então a grama irá crescer nas ruas.  Não, podridão, mofo e fungos.”

§133      Longamente ele falou, e sempre incentivando os Noldor a segui-lo e por suas próprias grandes habilidades ganhar a liberdade e grandes reinos nas terras do Leste antes que fosse tarde demais, pois ele ecoava as mentiras de Melkor de que os Valar os enganara e os manteria cativos de forma que os Homens pudessem reinar na Terra-média; e muitos dos Eldar ouviram então pela primeira vez dos Posteriores. “Belo o fim será”, ele disse, “mas longa e dura será a estrada! Digam adeus à escravidão! Mas digam adeus também à calmaria! Digam adeus aos fracos! Digam adeus também a seus tesouros – mais ainda faremos! Viajem leves. Mas tragam consigo suas espadas! Pois iremos mais longe do que Tauros, resistiremos mais do que Tulkas: nunca desistiremos de nossa perseguição. Atrás de Morgoth até os confins da Terra! Guerra teremos e ódio sem fim. Mas quando tivermos conquistado e recuperado as Silmarils que ele roubou, então contemplem! Nós, apenas nós, seremos os senhores da Luz imaculada, e mestres da felicidade e da beleza de Arda! Nenhuma outra raça nos suplantará!” (11)

§134      Então Fëanor fez um terrível juramento. Imediatamente seus sete filhos saltaram para seu lado e cada um fez o mesmo juramento, e vermelhas como sangue brilharam suas espadas desembainhadas à luz das tochas.

Amigo ou imigo, com mácula ou limpo,

cria de Morgoth ou claro Vala,

Elda ou Maia ou a Outra Raça,

Mortal que há de vir na Terra-média,

nem lei, nem amor, nem liga de espadas,

medo ou muro, nem mesmo o Destino

será defesa contra Fëanor, e os filhos de Fëanor,

para o que nas mãos tomar, ou em seu meio ocultar,

consigo guardar ou lançar longe

uma Silmaril. Assim dizemos nós:

Morte lhe traremos quando termine o Dia,

mal até o fim do mundo! O juramento ouvi,

Eru Pai-de-Todos! À treva eternal

condenai a nós se não o cumprirmos.

No sacro monte sede testemunhas

e a promessa lembrai, Manwë e Varda!  (11 A)

Assim falaram Maidros e Maglor, e Celegorn, Curufin e Cranthir, Damrod e Díriel, príncipes dos Noldor. Mas por aquele nome ninguém deveria fazer um juramento, bom ou mal, e nem em fúria chamar por tais testemunhas, e muitos recuaram com medo ao ouvir as palavras sinistras. Pois uma vez feito, bom ou mal, um juramento não pode ser quebrado, e perseguirá aquele que o mantiver ou quebra até o fim do mundo.

§135      Fingolfin e seu filho Turgon então falaram contra Fëanor, e palavras agressivas surgiram, e mais uma vez a fúria chegou próxima ao fio das espadas. Mas Finrod, que também era habilidoso com as palavras, falou suavemente, como era de seu costume, e procurou acalmar os Noldor, persuadindo-os a parar e ponderar antes que os feitos não pudessem ser desfeitos. Mas de seus filhos apenas Orodreth falou também desta maneira, pois Inglor estava com Turgon seu amigo (12), enquanto que Galadriel, a única mulher dos Noldor a permanecer altiva e valente naquele dia entre os príncipes revoltados, estava ávida por partir. Ela não fez nenhum juramento, mas as palavras de Fëanor relativas à Terra-média tinham acendido seu coração, e ela desejava ver as amplas terras não-trilhadas e governar lá um reino talvez à sua própria vontade. Pois a mais jovem da Casa de Finwë ela veio ao mundo a oeste do Mar, e nada sabia das terras desprotegidas. De igual pensamento era Fingon filho de Fingolfin, também tendo sido tocado pelas palavras de Fëanor, embora ele o amasse pouco (13); e com Fingon como sempre ficaram Angrod e Egnor, filhos de Finrod.  Mas estes mantiveram a calma e não falaram contra seus pais.

§136      Ao final depois de longo debate Fëanor prevaleceu, e a maior parte dos Noldor ali reunida ele acendeu com o desejo de novas coisas e estranhas regiões. Por isso quando Finrod falou novamente a favor de considerar melhor e aguardar, um grande grito se levantou: “Não, deixe-nos partir! deixe-nos partir”. E imediatamente Fëanor e seus filhos começaram a se preparar para a marcha adiante.

§137      Pouca prudência poderia existir para aqueles que ousaram tomar tal caminho tão escuro. E tudo foi feito com máxima rapidez; pois Fëanor os incentivava, apressando-os por medo de que em seus corações esfriando suas palavras poderiam esvaecer e outros conselhos ainda prevalecerem. Pois apesar de todas as suas palavras orgulhosas ele não esqueceu o poder dos Valar. Mas de Valmar não vinha nenhuma mensagem, e Manwë estava em silêncio. Ele não iria proibir ou obstruir o propósito de Fëanor; pois os Valar estavam ofendidos por terem sido acusados de terem intenções malignas para os Eldar, ou que qualquer um fosse mantido cativo por eles contra sua vontade. Agora eles observavam e aguardavam, pois eles ainda não acreditavam que Fëanor pudesse atar a hoste dos Noldor à sua vontade.

§138      E de fato quando Fëanor começou a organização dos Noldor para sua partida, então imediatamente a dissensão surgiu. Pois embora ele tenha tornada a aglomeração disposta a partir, de forma alguma todos estavam dispostos a aceitar Fëanor como rei. Maior amor era dado a Fingolfin e seus filhos, e sua casa e a maior parte dos moradores de Tirion se recusaram a renunciar a ele, se ele fosse com eles. Então finalmente os Noldor partiram divididos em dois grupos. Fëanor e seus seguidores estavam na vanguarda; mas o maior grupo vinha atrás sob Fingolfin. E ele marchava contra sua sabedoria, porque Fingon seu filho assim o encorajou, e porque ele não seria separado de seu povo que estava ávido por partir, nem deixá-los aos imprudentes conselhos de Fëanor. Com Fingolfin partiu também Finrod, e por igual razão; mas ele estava mais relutante em partir.

§139      Está registrado que de todos os Noldor em Valinor, que agora cresceram em número e formavam um grande povo, apenas um décimo recusou a partir: alguns pelo amor que tinham aos Valar (e não menos a Aulë), alguns por amor a Tirion e às muitas coisas que eles fizeram; nenhum pode medo do perigo, diga-se. Pois eles eram de fato um povo corajoso.

§140 Mas tão logo ressoaram as trombetas e Fëanor atravessou os portões de Tirion um mensageiro de Manwë finalmente veio, dizendo “Contra a tolice de Fëanor se colocará colocado apenas meu conselho. Não sigais adiante! Pois a hora é má, e a estrada leva a pesares que ainda não percebestes. Nenhuma ajuda vos darão os Valar nesta empreitada; mas vedes! eles não vos impedirão; pois isto deveis saber: assim como viestes para cá livremente, livremente devereis partir. Mas tu Fëanor filho de Finwë por teu juramento estás exilado. As mentiras de Melkor deverás desaprender com amargura. Vala ele é, disseste. Então jurastes em vão, pois nenhum dos Valar podes suplantar agora ou nunca dentro dos salões de Eä (14), nem se Eru a quem nomeaste tivesse te feito três vezes maior do que és”. (15)

§141      Mas Fëanor riu, e não falou ao enviado e sim aos Noldor, dizendo: “Então! Este povo valoroso enviará o herdeiro de seu Rei sozinho em banimento, apenas com seus filhos, e retornará a sua escravidão? Mas se alguém vier comigo, a eles então eu digo: ‘Pesar foi profetizado para você’. Verdadeiramente em Aman nós o vimos. Em Aman através da felicidade à tristeza. A outra forma tentaremos agora: através do pesar encontrar felicidade. Ou pelo menos: liberdade!”

§142      Então, se dirigindo ao enviado ele bradou: “Diga isto a Manwë Sulimo, Alto-rei de Arda: Se Fëanor não pode suplantar Morgoth, pelo menos ele não se demora em atacá-lo, e não se senta imóvel em lamentação. E Eru, talvez, tenha me posto um fogo maior do que vós conhecestes. Tais ferimentos, ao menos, eu causarei ao Inimigo dos Valar que mesmo os poderosos no Círculo do Destino se espantarão em ouvir. Sim, no final eles me seguirão. Adeus!”

§143      Naquela hora a voz de Fëanor ficou tão alta e tão potente que mesmo o enviado dos Valar se curvou perante ele como alguém com uma resposta completa, e partiu; e os Noldor foram rechaçados. Portanto eles continuaram sua marcha; e a Casa de Fëanor si adiantou a eles ao longo do litoral de Elendë: e nenhuma vez eles voltaram os olhos para Tirion sobre Túna. Após eles, mais lentamente e com menos vontade, vinha a hoste de Fingolfin. Destes Fingon era o mais adiantado; e na retaguarda iam Finrod e Inglor, e muitos dos mais belos e mais sábios dos Noldor; e frequentemente olhavam para trás para ver sua bela cidade, até que a lâmpada de Mindon Eldaliéva se perdeu na noite. Mais do que quaisquer outros exilados eles carregaram dali lembranças da felicidade que haviam desprezado, e alguns até mesmo as belas coisas que haviam feito carregaram consigo: um conforto e um peso na estrada.

Sobre o Primeiro Fratricídio e o Destino dos Noldor

§144      Então Noldor os conduziu para o norte, porque seu primeiro propósito era seguir Morgoth. Além disso, Túna abaixo de Taniquetil estava situada no equador de Arda, e lá o Grande Mar era imensuravelmente largo, enquanto que para o norte os mares que separavam ficam mais estreitos e os ermos de Araman e o litoral da Terra-média  se aproximavam. Mas as hostes não foram longe, quando veio à mente de Fëanor, tarde demais, que todas estas grandes companhias, tanto de adultos e aptos à guerra e muitos outros, e a grande quantidade de mantimentos com eles, nunca superariam as longas distâncias para o Norte, nem cruzariam os mares finalmente, exceto com o auxílio de navios.

§145      Portanto Fëanor decidiu persuadir os Teleri, sempre amigos dos Noldor, a se juntarem a eles; pois dessa forma ele esperava diminuir a riqueza de Valinor ainda mais e aumentar seu próprio poder de guerra. E também ele iria obter navios rapidamente. Pois seria preciso um grande tempo e exaustivos trabalhos para construir uma grande esquadra, mesmo se os Noldor tivessem habilidades e madeiras suficientes para tal construção, como de fato não tinham. Então ele se apressou para Alqualondë, e falou aos Teleri como havia falado em Tirion.

§146      Mas os Teleri não foram afetados por nada que ele lhes dissesse. Eles estavam de fato entristecidos pela partida de seus parentes e amigos de longa data, mas preferiam dissuadi-los a ajudá-los; e nenhum navio eles cederiam, nem auxílio na construção, contra a vontade dos Valar. Para si mesmos eles não desejavam outro lar que não as praias de Eldamar, e nenhum outro senhor que não Olwë, príncipe de Alqualondë. E ele nunca dera ouvido a Morgoth, nem o recebeu em sua terra e ele ainda acreditava que Ulmo e os outros grandes entre os Valar iriam desfazer as feridas de Morgoth, e que aquela noite passaria, em um novo amanhecer.

§147      Então Fëanor ficou irado, pois ele ainda temia os atrasos; e falou de maneira irritada a Olwë. “Renunciastes vossa amizade, mesmo na hora de nossa necessidade”, disse ele. “Mas ávidos por nossa ajuda estivestes quando chegastes finalmente a estes litorais, procrastinadores inseguros, e quase de mãos vazias. Em cabanas nas praias ainda moraríeis se os Noldor não tivessem esculpido seu porto e erguido seus muros”.

§148      Mas Olwë respondeu: “Não, não renunciamos à nossa amizade. Mas pode ser a difícil tarefa de um amigo refutar a tolice de outro. E quando seu povo nos saldou e nos ajudou, diferentemente então falastes: na terra de Aman iremos residir para sempre, como irmãos cujas casas ficam lado a lado. E sobre nossos navios brancos: esses não nos destes. Sua construção não aprendemos dos Noldor, mas dos Senhores do Mar; e a madeira branca nós moldamos com nossas próprias mãos e as velas brancas foram tecidas por nossas belas esposas e damas. Portanto nós nem os daremos nem os venderemos por nenhum acordou ou amizade. Pois eu te digo, Fëanor, estes são para nós como as gemas dos Noldor: o trabalho de nossos corações, iguais aos quais nunca mais poderemos fazer”.

§149 Após isso Fëanor o deixou, e sentou-se além dos muros meditando sombriamente, até sua hoste estar reunida. Quando ele considerou que sua força era suficiente ele foi ao Porto dos Cisnes e começou a invadir os navios que estavam ancorados lá e a tomá-los à força. Mas os Teleri resistiram e ele de forma determinada, e atiraram muitos dos Noldor ao mar. Então espadas foram desembainhadas e uma batalha amarga foi lutada nos navios, e ao redor das docas e píeres do Porto, e mesmo sobre o grande arco de seu portão. Três vezes o povo de Fëanor foi escorraçado, e muitos foram mortos de ambos os lados; mas a vanguarda dos Noldor foi socorrida por Fingon com os mais avançados do povo de Fingolfin. Estes chegando, encontraram a batalha e seu próprio povo sendo derrotado, e se apressaram antes de saberem devidamente a razão da disputa: alguns acharam de fato que os Teleri procuraram emboscar a marcha dos Noldor, sob as ordens dos Valar.

§150      Então finalmente os Teleri foram sobrepujados, e uma grande parte de seus marinheiros que residiam em Alqualondë foram cruelmente mortos. Pois os Noldor se tornaram selvagens e desesperados, e os Teleri tinham menos força, e estavam em sua maioria armados apenas com arcos leves. Então os Noldor levaram seus navios brancos, e manejaram seus remos o melhor que puderam, e em fila rumaram para o norte ao longo da costa. E Olwë chamou por Ossë, mas ele não veio; pois ele havia sido convocado a Valmar para a vigília e o conselho dos deuses; e não fora permitido pelos Valar que a Fuga dos Noldor fosse obstruída por força, Mas Uinen chorou pelos marinheiros dos Teleri; e o mar se levantou em fúria contra os assassinos, de forma que muitos dos navios naufragaram e os que estavam neles se afogaram. Do Fratricídio de Alqualondë mais é dito no lamento nomeado Noldolantë (16), A Queda dos Noldor, que Maglor fez compôs antes de desaparecer.

1496

§151      Apesar de tudo a maior parte dos Noldor escaparam, e quando a tempestade terminou eles continuaram em seu trajeto, alguns nos navios, alguns por terra; mas o caminho era longo e ainda mais maligno quanto mais seguiam em frente.  Após terem marchado por um grande tempo na  noite imensurável eles chegaram finalmente ao norte do Reino Vigiado, no limite da vastidão vazia de Araman, que era montanhosa e fria. Lá eles perceberam repentinamente uma figura escura parada sobre um rochedo alto que se estendia sobre o mar. Alguns dizem que era o próprio Mandos e não um enviado menor de Manwë. E eles ouviram uma voz alta, solene e terrível, que os convocou a parar e ouvir (17).

§152      Todos pararam e ficaram imóveis, e de começo a fim das hostes dos Noldor a voz foi ouvida falando a Profecia do Norte e o Destino dos Noldor. “Retornais! Retornais! Buscais o perdão dos Valar antes que a maldição deles recaia sobre vós!”. Assim a voz começou, e muitas calamidades ela previu com palavras sombrias, os quais os Noldor não compreenderam até que as calamidades tivessem de fato caído sobre eles. “Lágrimas incontáveis vertereis; mas se fordes adiante, tenhais certeza de que os Valar irão isolar Valinor de vocês, e trancar-vos-á para fora, de forma que nem mesmo o eco de vossas lamentações deverão passar por sobre as montanhas”.

§153      “Vedes! Sobre a Casa de Fëanor recai a ira dos deus, desde o Oeste até o extremo Leste, e sobre todos que o seguir também recairá. Vosso Juramento conduzir-vos-á, e vos trairá, e afastar-vos-á dos próprios tesouros que prometestes perseguir. Um fim maligno terão todas as coisas que vós começardes bem; e pela traição de raça por raça, e o medo da traição, isto virá a acontecer. Os Despossuídos eles deverão ser para sempre”.

§154      “Observem! Derramastes o sangue de vossa raça injustamente e manchardes a terra de Aman. Pois sangue gerará sangue, e além de Aman habitareis à sombra da Morte. Pois saibais que apesar de Eru ter designado que não morrêsseis em Eä e que nenhuma doença vos acometais, morto podereis ser: por arma e por tormento e por pesar; e então vosso espírito desabrigado virá a Mandos. Lá por longo tempo devereis habitar e ansiar por vossos corpos e encontrar pouca piedade dedica a vós por aqueles que tiverdes matado. E todos aqueles que permanecerem na Terra-média e não forem a Mandos, cansarão do mundo como de um grande fardo, e esvaecerão, e se tornarão como sombras de arrependimento ante a raça mais jovem que virá depois. Os Valar falaram.”

§155      Então muitos recuaram amedrontados. Mas Fëanor endureceu seu coração e disse: “Nós juramos, e não foi levianamente. Este Juramento iremos manter. E veja! fomos ameaçados com muitos males, traição não o menor deles; mas uma coisa não foi dita: que sofreremos de acanhamento; de covardia ou do medo da covardia entre nós. Por isso eu digo que continuaremos, e a este destino acrescento: os feitos que realizaremos serão assunto de canções até os últimos dias de Arda”. E a previsão de Fëanor também se mostrou verdadeira.

§156      Mas naquela hora Finrod abandonou a marcha, e retornou, estando cheio de pesar, e amargo com relação à casa de F6eanor, por seu parentesco com Olwë de Alqualondë; e muitos de seu povo partiram com ele, refazendo seus passos em tristeza, até que contemplaram novamente os raios distantes de Mindon sobre Túna ainda brilhando na noite, e entraram finalmente em Valinor. Lá receberam o perdão dos Valar, e Finrod foi posto como regente o restante dos Noldor do Reino Abençoado. Mas seus filhos não estavam com ele, pois não deixariam os filhos de Fingolfin; e todo o povo de Fingolfin continuou em frente, sentindo a coerção de seu parentesco e a vontade de Fëanor, e temendo enfrentar o julgamento dos deuses, uma vez que nem todos eles foram inocentes no fratricídio de Alqualondë. Além disso Fingon e Turgon eram corajosos e com corações em fogo e relutante em abandonar qualquer tarefa na qual haviam colocado as mãos até o amargo fim, se amargo deva ser. Assim a hoste principal continuou, e rapidamente o mal que fora previsto começou seu trabalho.

1497

§157      Os Noldor chegaram bem longe no Norte de Arda, e viram os primeiros dentes do gelo que flutuava no mar, e souberam que estavam se aproximando de Helkaraxë. Pois entre a Terra Ocidental de Aman que no norte de curvava para leste e os litorais leste de Endar (que é a Terra-média) que avançava para o oeste havia um estreito, através do qual as águas frias do Mar Circundante e as ondas do Grande Mar fluíam juntas, e lá existiam vastos nevoeiros e névoas de frio mortal, e as correntes marinhas estavam cheias de colinas de gelo que se chocavam e o ranger do gelo no fundo do mar. Assim era Helkaraxë, e lá nenhum ainda se atrevera a atravessar exceto apenas os Valar e Ungoliantë.

§158      Então Fëanor parou e os Noldor debateram qual curso deveriam seguir agora. E logo os Noldor começaram a sofrer com os tormentos do frio, e da espessas neblinas através as quais o brilho de nenhuma estrela podia atravessar; e muitos deles se arrependeram da jornada e começaram a murmurar, especialmente aqueles que seguiram Fingolfin, amaldiçoando Fëanor, e o nomeando causa de todos os males dos Eldar. Mas Fëanor, sabendo de tudo que era dito, entrou em conselho com seus filhos. Duas formas apenas eles viram para escapar de Araman e chegar a Endar: pelo estreito ou por navio. Mas Helkaraxë eles julgaram intransponível, enquanto que os navios eram muito poucos. Muitos haviam sido perdidos durante sua longa jornada e não restaram suficientes para atravessar toda a grande hoste junta; e nenhum desejava permanecer na costa oeste enquanto os outros eram transportados antes: pois o medo da traição já acordara entre os Noldor.

§159      Em conseqüência disso surgiu no coração de Fëanor e seus filhos a idéia de pegar todos os navios e partir repentinamente; pois eles haviam mantido o comando da frota desde a batalha do porto; e eram operados apenas por aqueles que lá lutaram e estavam ligados a Fëanor. E veja! Como se tivesse vindo a seu chamado um vento surgiu de repente de noroeste, e Fëanor saiu secretamente (18) com todos aqueles que ele julgava leais a ele, e embarcou e se pôs ao mar, e deixou Fingolfin em Araman. E uma vez que o mar era estreito ali, manejando para leste e um pouco para sul ele atravessou sem perdas, o primeiro de todos os Noldor a colocar novamente os pés no litoral da Terra-média. E o aportar de Fëanor foi na entrada do braço de mar que era chamado Drengist, e que adentrava Dor-lómin (19).

§160      Mas quando aportaram, Maidros o mais velho de seus filhos (e uma vez amigo de Fingon antes das mentiras de Morgoth terem ficado entre eles) falou a Fëanor: “Agora quais navios e homens irás separar para o retorno, e quem eles trarão até aqui primeiro? Fingon o valente?

§161      Então Fëanor como alguém insano, e sua fúria foi liberada: “Nenhum e ninguém!” ele falou. “O que eu deixei para trás eu não considero perda: provou-se bagagem desnecessária na estrada. Deixe aqueles que amaldiçoaram meu nome, que continuem amaldiçoando! Que voltem choramingando para as celas dos Valar, se não podem encontrar outras! Que os navios queimem!

§162      Então apenas Maidros ficou de lado, mas Fëanor e seus filhos colocaram fogo nos navios brancos dos Teleri. Assim naquele lugar que foi chamado Losgar na desembocadura do Estuário de Drengist (20) terminaram em um grande incêndio luminoso e terrível os mais belos navios que já cortaram o mar (21), E Fingolfin e seu povo viram a luz ao longe, vermelha abaixo das nuvens. Este foi o primeiro fruto do Fratricídio e do Destino dos Noldor.

§163      Então Fingolfin soube que for a traído, e deixado para morrer miseravelmente ou retornar em vergonha. E seu coração ficou amargo, mas desejou como nunca antes chegar de alguma forma até a Terra-média e reencontrar Fëanor. E ele e sua hoste vagaram longa e miseravelmente; mas seu valor e resistência cresceram com a dificuldade; pois eles ainda eram um povo poderoso, os imortais filhos mais velhos de Eru Ilúvatar, recém saídos do Reino Abençoado e ainda não cansados com o cansaço da Terra; e o fogo de seus corações era jovem. Portanto, liderados por Fingolfin e seus filhos, e por Inglor e Galadriel a valente e bela, eles ousaram atravessar o inacessível Norte, e não encontrando outro caminho eles enfrentaram afinal o terror de Helkaraxë e as cruéis colinas de gelo. Poucos dos feitos dos Noldor posteriores ultrapassaram a travessia desesperada em coragem ou em desgraças. Muitos lá pereceram, e foi com uma hoste reduzida que Fingolfin chegou finalmente às terras do Norte de Endar. Pouco amor por Fëanor e seus filhos tinham aqueles que marcharam atrás dele, e sopraram suas trombetas na Terra-média ao primeiro nascer da Lua.

Aqui os Noldor saem de Aman e

os Anais de Aman não falam mais deles.

NOTAS

1.‘Aulë o Criador’ substituiu ‘Ulmo’.

2. Riscado daqui, provavelmente de imediato: ‘(o Inimigo Escuro)’.

3. Riscado daqui (mais tarde): ‘o Inimigo Negro de Arda não seria dispensado uma segunda vez com palavras orgulhos de escárnio’.

4. Este trecho é uma substituição do texto original:

mas Yavanna ficou desalentada, pois agora a Luz das Árvores havia passado completamente para uma grande Escuridão, a qual os Valar ainda não haviam compreendido que deveria ter vindo de algum auxílio que Morgoth chamara de Fora, e eles temerem que estivesse perdido até o Fim. Therefore all was one, whether Fëanor said…

5. Este trecho foi editado no texto original, que era:

Lá incontáveis se tornaram as hostes de suas bestas e seus demônios e ele trouxe à existência então a raça caída dos Orkor, e eles cresceram e se multiplicaram no interior da terra como uma praga. Estas criaturas Morgoth fez em inveja e escárnio aos Eldar. Portanto em forma…

6. ‘gerados’ é uma correção para ‘feitos’.

7. ‘filhos’ é uma correção para ‘uma cria’

8. Este trecho, começando em ‘Mas de fato uma lenda mais negra…’ e incluindo a nota de rodapé, foi riscado em um momento posterior ao das alterações dadas nas notas 5-7 e talvez na revisão do texto antes da criação da versão datilografada, na qual não aparece. Toda a adição de Ælfwine está entre colchetes na versão como originalmente escrita.

9. O texto original era ‘Aran Endór, Rei da Terra-média’. Aran Endór então foi corrigido para Tarumbar; finalmente a leitura ‘Rei do Mundo’ foi inserida.

10. O texto originalmente escrito tinha aqui: ‘e nunca mais exceto com exceção de uma vez ele saiu das profundezas que escavara, enquanto seu reino durou’. Quando meu pai alterou este para o texto impresso ele acrescentou o que se segue até o final do parágrafo.

11. Neste parágrafo o trecho desde ‘antes que fosse tarde demais’ até ‘muitos dos Eldar ouviram então pela primeira vez dos Posteriores’ e a sentença final ‘Nenhuma outra raça nos suplantará’, são adições posteriores.

11 A. A tradução do Juramento de Fëanor em verso aliterativo é da autoria de Ronaldo José Lopes. O mesmo autor criou uma tradução literal do poema, a qual pode ser encontrada no artigo.  Conheça o texto completo do Juramento de Fëanor

12. As associações dos príncipes Noldorin eram diferenças neste trecho quando escrito pela primeira vez: ‘Fingolfin e seus filhos Fingon e Turgon então falaram contra Fëanor’, e ‘mas de seus [de Finrod] filhos apenas Inglor falou também desta maneira, pois Angrod e Egnor estavam com Fingon, e Orodreth ficou de lado; enquanto que Galadriel… ’. Mas as alterações que aparecem no texto impresso parecem ter sido feitas imediatamente uma vez que o trecho no fim do parágrafo pertence ao texto como originalmente escrito.

13. Riscado daqui: ‘e seus filhos menos’ (compare com o trecho em §160 onde se refere à amizade entre Fingon e Maidros).

14. é escrito desta forma aqui e novamente em §154, mas nas duas últimas ocorrências do texto está escrito Ëa.

15. Riscado daqui: ‘e Melkor menos ainda, que é o mais poderoso de todos exceto um’.

16.  O nome Noldolantë foi acrescentado à margem. Ele não aparece no texto datilografado.

17. A página começando aqui e contendo os §§152-4 é escrita muito mais irregularmente que o resto do manuscrito, e meu pai a riscou completamente e a substituiu. Pode ser pensado à primeira vista que este era o único local onde o primeiro rascunho do AAm sobrevive, mas não é o caso. A irregular página de ‘rascunho’ foi escrita no reverso daquela contendo §§149-51, e está na mesma caligrafia clara dos outros lugares (com algum número de mudanças feitas no ato da composição).  Fica claro então que a página rejeitada não começou como um ‘rascunho irregular’ (e a caligrafia elimina esta possibilidade), mas se degenerou nisto; e esta instância é, se algo, mais uma evidência contra a idéia de um primeiro rascunho perdido dos Anais de Aman.

O primeiro texto originalmente começava, seguindo QS §71, ‘Uma vez mais ele alertou os Noldor a retornarem e buscarem perdão, ou no final eles retornariam finalmente apenas após amarga tristeza e desgraças inenarráveis’. O Destino dos Noldor na forma final foi alterado do rascunho apenas no rearranjo de suas partes e em muitos detalhes de fraseamento. Dois pontos podem ser notados. Depois de ‘…sobre as montanhas’ no final de §152 havia ‘Sereis livres deles e eles de vós’; e a sentença em §154 começando com ‘Lá por longo tempo devereis habitar…’ lia-se ‘Lá por longo tempo devereis habitar e não serão libertos até que aqueles que matastes os perdoastes’

18. Esta sentença substitui a que se segue: ‘Aguardando então um pouco por um vento norte que trouxe uma névoa profunda sobre a hoste ele partiu… ‘

19. A última sentença de §159 foi uma adição posterior.

20. O trecho ‘naquele lugar o Estuário de Drengist’ foi uma adição posterior.

21. Alterado de ‘os mais belos navios dos Dias Antigos’.

Comentários sobre a quinta seção

dos Anais de Aman

Esta seção dos Anais corresponde em conteúdo ao Capítulo 5 do QS Da Fuga dos Noldor (HoME V) e aos registros 2990 –2994 do AV 2 (HoME V). Após os parágrafos iniciais a narrativa dos Anais é novamente assemelhada em estrutura ao capítulo no QS, e do §125 em diante muitas frases são mantidas a partir dele (mais, de fato, do parece a partir do texto publicado, uma vez que em alguns casos meu pai adotou frases do QS sem mudanças e então as alterou). Por outro lado, a narrativa é grandemente ampliada em escopo.

§§117-24              Inicia-se agora uma nova e sutil articulação na história, com a afirmação de Yavanna de que com a luz sagrada reobtida das Silmarils ela poderia reavivar as Árvores antes de suas raízes morrerem, a demanda feita a Fëanor, e sua recusa – antes das notícias chegarem de Formenos.

§121      Mandos disse ‘Não o primeiro’ porque ele sabia que Finwë havia sido assassinado. Veja também § 120.

§122      Korlairë: a primeira ocorrência deste nome (vide §122) – um novo elemento na narrativa é que ‘Pois apenas Finwë não havia fugido do horror do Escuro’. No QS (§60) e AV 2 Morgoth mata também muitos outros. Onde os filhos de Fëanor estavam, ou para onde eles foram (pois Fëanor foi ao festival sozinho, §112), não é dito.

§123      É agora dito pela primeira vez que foi Fëanor quem nomeou Melkor Morgoth (‘o Inimigo Escuro’, ver Nota 2 acima). Em AAm (ao contrário do QS) Melkor é sempre assim nomeado até este ponto, mas depois isto quase invariavelmente Morgoth.

§125      Araman: QS Eruman. A mudança apareceu anteriormente no mapa V do Ambarkanta (HoME IV), onde fora colocado muitos anos após a confecção do mapa.

§126      No QS (§62) nada mais sobre o destino de Ungoliantë é dito além de que os Balrogs a expulsaram ‘para o extremo Sul, onde por muito tempo ela permaneceu’, agora surge a história de que ele morou primeiro em Nan Dungorthin, e apenas mais tarde, após ter deixado uma descendência lá, ela recuou para o Sul do mundo. Mas as aranhas de Nan Dungorthin ‘da raça caída de Ungoliantë’ são citadas mais tarde  em QS, na história da fuga de Beren de Dorthonion (ver HoME V e o Silmarillion publicado).

§127      A origem dos Orcs. No QS (§62) a idéia já havia surgido de que os Orcs se originaram em escárnio aos Elfos, mas ainda não surgira idéia de que os Orcs eram de qualquer forma associados a eles: eles eram uma ‘criação’ própria de Morgoth, ‘feitos de pedra’, e foram trazidos à existência quando ele retornou à Terra-média. Quando AAm foi escrito pela primeira vez (ver Notas 5 – 7 acima) esta visão ainda se mantinha; a palavra ‘feitos’ ainda foi usada – embora não as palavras ‘feitos de pedra’. Mas na nota de Ælfwine que se segue (e que foi escrita continuadamente com o que a precede) eles são chamados ‘crias da terra corrompidas por Morgoth’, e o ‘mais negra lenda’ contada em Eressëa – que os Orcs eram inicialmente Elfos escravizados e corrompidos (Avari) – certamente é a primeira aparição desta idéia, contradizendo o que a precede, ou talvez a este ponto apresentando uma teoria alternativa. É atribuída a Pengoloð; e Pengoloð argumento com Ælfwine que Melkor não poderia fazer algo que tivesse vida, mas apenas corromper o que já estava vivo. A implicação desta segunda teoria seria de que provavelmente, embora não necessariamente, os Orcs teriam surgido muito mais cedo, antes do Aprisionamento de Melkor; e que está implicação está presente é sugerido pela nota de rodapé referenciando os Anais de Beleriand – significando a última versão destes Anais, os Anais Cinzentos, companheiro dos Anais de Aman: ‘é dito que isto ele fez na Escuridão antes mesmo dos Quendi terem sido encontrados por Oromë’.

A este ponto meu pai retorna a uma parte anterior do AAm (§42) e interpola o trecho ‘Ainda assim por conhecimento posterior …’ onde a idéia da captura de Quendi vagantes em seus dias iniciais é completada, embora permaneça apenas uma suposição dos ‘mestres do conhecimento’. Talvez ao mesmo tempo erro corrigiu o presente trecho, alterando ‘trouxe à existência’ para ‘e de lá agora saíam em hordas além da conta’, ‘fez’ para ‘gerou’, e ‘crias da terra’ para ‘filhos da terra’. Ele então (eu conjecturo) desenvolveu a interpolação no ponto inicial de forma muito mais completa (§§43  – 5), onde a idéia se torna menos uma suposição e mais uma certeza da história: a incapacidade de Melkor de fazer coisas vivas é um fato conhecido (‘assim dizem os sábios’). Finalmente, em um momento posterior (veja a Nota 8), ele elimina todo o trecho no final do §127 começando com  ‘Mas de fato uma lenda mais negra alguns ainda contam em Eressëa …’ seja por ele só então ter percebido que o trecho fora suplantado pelos §§43  –  5 e não era, de toda forma, o local apropriado, ou porque ele rejeitou esta teoria da origem dos orcs. Veja mais além, §127.

O termo pois eles em ‘Orcs podemos nomeá-los, pois nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios’ (uma observação de  Ælfwine) sugere que Orcs é Inglês Arcaico (vide orc-nēas em Beowulf linha 112), convenientemente similar à palavra Élfica. Isto poderia explicar porque AElfwine disse, de fato, ‘Orcs podemos nomeá-los, pois nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios. Mas não eram de fato  demônios’. Em uma carta que meu pai escreveu em 25 de abril de 1954 (Cartas $144) ele disse que a palavra Orc ‘é, tanto quanto sei, derivada do Inglês Arcaico orc “demônio”, mas apenas porque é foneticamente apropriado’ (e também: Orcs… não são em lugar algum claramente definidos como sendo de uma origem em particular. Mas uma vez que são servos do Poder Negro, e mais tarde de Sauron, nenhum dos quais poderia, ou iria, produzir coisas vivas, eles devem ser “corrupções”’).

§128      A versão final aqui ‘Rei do Mundo’ (ver nota 9) remonta àquela do QS (§63), o qual remonta ao Q (HoME IV). – Sobre o assunto da partida de Morgoth de Angband QS tem: ‘nunca foi seu hábito deixar os locais profundos de sua fortaleza’, e lá não há menção de sua ausência.

§§132-3                O relato do discurso de Fëanor é grandemente ampliado daquele em QS (§§66 – 7).

§133      Tauros: Oromë;  vide  QS  §8: ‘Ele é um caçadior, e ele ama todas as árvores; por essa razão ele é chamado Aldaron, e pelos Gnomos Tauros, o senhor das florestas’; e também o Etimologias, raiz TÁWAR (HoME V): ‘N[oldorin] Tauros “Terror-Floresta”, usual N apelido de Oromë (N Araw)’. É notável que Fëanor use este nome (§8). Na versão datilografada, sem uma razão clara, o datilógrafo deixou um espaço em branco aqui, no qual mais tarde meu pai escreveu a lápis Oromë’

§135      Quanto AAm foi inicialmente escrito (ver Nota 12 acima) os alinhamentos dos príncipes Noldorin já haviam mudado do registro em QS  (§68),  uma vez que Angrod e Egnor eram agora opositores a Fëanor – e Galadriel agora tem parte no assunto, sendo ansiosa por deixar Aman. Quando reescrito um alinhamento mais sutil é desenhado: pois Fingon agora independentemente demanda a partida, e Angrod e Egnor partem com ele. Dos filhos de Fingolfin apenas Turgon apóia o pai, mas Inglor fica com ele; e Orodreth se move para a posição de Inglor como o único de seus filhos a apoiar Finrod.

A amizade próxima de Turgon com Felagund (Inglor) já havia aparecido na versão mais antiga dos Anais de Beleriand (HoME IV); em uma adição tardia ao texto datilografado de AAm (§85) eles nascem no mesmo Ano das Árvores.

A citação de que Galadriel, ‘a mais jovem da Casa de Finwë’, ‘ veio ao mundo a oeste do Mar, e nada sabia das terras desprotegidas ‘,  é estranha, porque toda a progênie de Finwë nasceu em Aman (AAm §§78, 81 – 2).

§136      O Noldor foram afetados pelo ‘desejo de novas coisas e estranhas regiões’; no QS eles estavam ‘cheio de desejo pelas Silmarils’.

§137      A marcha a partir de Tirion foi empreendida com pouca preparação e muita pressa; vide AV 2 (anal 2992): ‘A grande marcha dos Gnomos teve longa preparação’.

§139      Apenas um décimo dos Noldor permaneceram em Tirion.

§§140-2                As palavras do mensageiro de Manwë são citadas, e o episódio é muito ampliado. O arauto não diz, como no QS (§68),  que os Valar proibiam a marcha, mas sim que Fëanor exilara a si mesmo por seu próprio juramento; e Fëanor em sua resposta acusa os Valar de se sentarem impávidos e não fazerem nada contra Morgoth.

§143      Elendë (Casadelfo, Terra dos Elfos): ver §67.

§§145-8                O próprio Fëanor (e não mensageiros como em QS §70) foi a Olwë em Alqualondë, e suas palavras são completamente fornecidas. Em §147 Fëanor fala da construção do Porto pelos Noldor, o que é mencionado anteriormente em (§76).

§§149-50              O registro no AAm da batalha de Alqualondë e suas consequências segue QS §70 de maneira bem próxima e mantém muitas de suas frases; mas em §149 é agora dito que aqueles da segunda hoste que se uniram à batalha se equivocaram quanto à sua causa.

§150      Sobre as armas dos Teleri vide §97. – A canção da Fuga dos Gnomos (QS §70) é agora chamada Noldolantë, a Queda dos Noldor, ‘que Maglor fez compôs antes de desaparecer’.

§§152-4                A Profecia do Norte, agora chamada ‘a Profecia do Norte e o Destino dos Noldor’, é significativamente ampliada: pelo aviso de que os Noldor que morrerem dali em diante permanecerão longamente em Mandos ‘ansiando por seus corpos’, e aqueles que permanecerem na Terra-média se tornarão cansados do mundo e esvaecerão. Nisto o AAm se parece com o AV 2 (anal 2993, HoME V; quase o mesmo em AV 1, HoME IV):

Uma porção de mortalidade visitará os Noldor, e eles poderão ser mortos com armas, e com tormentos, e pela tristeza, e no distante fim eles desaparecerão gradualmente da Terra-média e esvaecerão ante a raça mais jovem.

Eu discuti estas passagens no HoME IV.

§156      Assim como no AV (ambos os textos), muito do povo de Finrod retornaram com ele a Valinor; no QS (§72) apenas ‘uns pouco de sua casa’ voltaram. Um novo elemento no motivo de retorno de Finrod é seu parentesco com Olwë de Alqualonde, pois sua esposa era Earwen filha de Olwë.

§157      Endar ‘Terra-média’.  A forma Endon foi usada anteriormente no AAm como ‘o ponto central’ da Terra-média (§38), onde foi alterado na versão datilografada para Endor. Estas formas Endon e Endor apareceram no Ambarkanta e mapas (§38). Em O Senhor dos Anéis Quenya Endórë, Sindarin Ennor, significam não o ponto central mas a própria Terra-média, e em uma carta de 1967 (Carta #297) meu pai se referiu a Q. Endor,  S. Ennor = Terra-média, com a etimologia en(ed) ‘terra’ e (n)dor ‘terra (massa de)’; vide também Aran Endór ‘Rei da Terra-média’, nota 9 acima. Mas no presente trecho a forma Endar é perfeitamente clara, e também em §§158, 163. O datilógrafo, contudo, em cada caso, por alguma razão, datilografou Endor e meu pai não o alterou. Por outro lado, no título da próxima seção em AAm o datilógrafo colocou Endar como no manuscrito, e novamente meu pai deixou-o ficar. No Simarillion publicado eu pus, hesitantemente, a forma Endor.

Esta passagem referente ao Helkaraxë deriva não do QS mas do AV 2 (anal 2994, quase o mesmo que em AV 1), e é bastante notável que permaneça completamente congruente com a cosmografia do Ambarkanta (ver HoME IV).

§159      A história de que Angrod e Egnor foram à Terra-média nos navios dos Fëanorianos é agora abandonada, com a perda da história de que eram amigos próximos dos filhos de Fëanor, e especialmente de Celegorn e Curufin (QS §§42, 72-3).

§160-2   Maidros não tomou parte no incêndio dos barcos, e se lembra de Fingon, seu antigo amigo. O motivo de Fëanor neste ato é suficientemente explicado nos textos mais antigos, mas no AAm o orgulho insano e a fúria que o dominam são muito mais fortemente expressos; ele era de fato ‘feérico’.

§162      A adição (nota 20 acima) do nome Losgar ao local do incêndio dos navios é derivado de sua única ocorrência em textos mais antigos, no início dos Anais de Beleriand tardio (AB2, HoME V e comentários).

§163      Sobre a diferença entre a sentença final daquela em QS (‘e chegaram a Beleriand ao nascer do sol’) ver HoME 5, comentário do §73.

Entre as notas e correções escritas por meu pai na cópia datilografada desta seção do AAm, das quais nem todas precisam ser registradas, há várias indicando ampliações da narrativa.

§120      ‘Eu morrerei’ > ‘Eu serei morto’; ‘primeiro de todos os Filhos de Eru’ sublinhado; e uma nota na margem ao lado das palavras ‘Não o primeiro’ (ao começo do §121): ‘X Isto não mais é válido nem mesmo para os Eldar de Valinor. Finwë o pai de Fëanor foi o primeiro a ser morto dentre os Alto-Elfos, Míriel mãe de Fëanor a primeira a morrer’.

Deve ser lembrado que quando AAm foi escrito a história de Míriel ainda não havia sido criada; as entradas que citam que Míriel ‘adormeceu e passou a Mandos’ e que Finwë mais tarde casou-se com Indis (notas 1 e 4) foram adições tardias (encontradas na cópia datilografada).

§122      O datilógrafo deixou um espaço em branco para Korlairë, o qual meu pai preencheu com a forma Korolairë. Mais tarde ele sublinhou isto a lápis e escreveu Ezellohar sobre isto (§113).

§126      Ered Orgotoh > Ered Gorgorath; Nan Dungorthin > Nan Dungortheb. Ver HoME V.

§127      Ao lado do início deste parágrafo meu pai escreveu: ‘A construção desta fortaleza como uma proteção contra uma invasão do Oeste viria mais tarde”. Ver §12.

Na cópia datilografada a passagem relativa aos Orcs segue como no texto impresso a partir do manuscrito até ‘eles podem ser mortos ou destruídos pelos valentes com armas de guerra’; o restante do parágrafo foi riscado no manuscrito (nota 8), exceto pelas palavras ‘Quoth Ælfwine’  no final (as quais o datilógrafo não percebeu e omitiu, terminando o parágrafo em ‘armas de guerra’ sem fechar os parênteses). Ao lado da primeira parte do trecho meu pai escreveu um X na cópia datilografada e uma breve e ilegível instrução da qual a primeira palavra pode ter sido ‘cortar’, com uma referência à passagem no cabeçalho em §45. Não está claro o que precisamente deveria ser cortado (se eu li a palavra corretamente), mas vendo que ele anotou na cópia manuscrita ao lado da passagem anterior (§43) ‘Alterar isto. Orcs não são Élficos’, parece provável que a mesma objeção se aplicava aqui. Ele consertou o erro do datilógrafo em omitir as palavras ‘Quoth Ælfwine’ eliminando as palavras ‘(Orcs podemos nomeá-los, pois’, de forma que o texto se torna ‘Os Glamhoth, horda de tumulto, os Noldor os chamaram. Nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios …’ Possivelmente isto foi feito sem concultar o manuscrito.

§132      Em ‘no ingrato Mar salgado’ a palavra sal foi riscada.

§134      Uma nota marginal ao lado dos nomes dos Filhos de Fëanor: ‘X Nomes serão revisados’. No texto Cranthir > Caranthir, Damrod e Díriel foram riscados (mas sem outro nome a substituí-los) e o n de Celegorn foi sublinhado.

§135      Nota marginal ao lado do início deste parágrafo: ‘Nomes e relacionamentos agora alterados’. No texto Finrod > Finarphin (e subsequentemente) e Inglor > Finrod (e subsequentemente); ta,bém Orodreth sublinhado e marcado com um X.

§137      Ao lado da sentença ‘Ele [Manwë] não iria proibir ou obstruir o propósito de Fëanor’ há uma nota marginal: ‘Manwë e os Valar não podiam – ou seja, não era permitido interferir com os Noldor exceto por conselhos – não por força’.

§149      Uma nota marginal ao lado do trecho descrevendo o envolvimento da Segunda hoste na batalha: ‘Finrod e Galadriel (cujo marido era dos Teleri) lutaram contra Fëanor em defesa de Alqualondë’. Sobre isto veja a nota bastante tardia (1973) do meu pai referente à conduta de Galadriel no tempo da rebelião do Noldor em Contos Inacabados: ‘Durante a revolta de Fëanor que se seguiu ao Escurecer de Valinor Galadriel não tomou parte: de fato ela e Celeborn lutaram heroicamente em defesa de Alqualondë contra o ataque dos Noldor…’

§162      ‘Fëanor e seus filho colocaram fogo em’ alterado para ‘Fëanor fez com que fogo fosse posto em’. Uma nota marginal no final do parágrafo diz: ‘Tragédia da queima de um dos filhos [adicionado: 2 filhos mais jovens] de Fëanor, que retornara para dormir em seu barco’. Outra nota no mesmo lugar diz: ‘Os filhos mais jovens de Fëanor eram gêmeos’; a isto se segue uma palavra entre parênteses que foi riscada, provavelmente ‘(improvável)’. É dito no QS (§41) que Damrod e Diriel eram ‘irmãos gêmeos iguais em temperamento e aparência’.

§163      Nota marginal ao lado de ‘Muitos lá pereceram’ (isto é, ao cruzar o Helkaraxë): ‘A esposa de Turgon foi perdida e ele tinha então apenas uma filha e nenhum outro herdeiro. Turgon quase perdeu a si mesmo em tentativas de resgatar sua esposa – e ele tinha menos amor pelos Filhos de Fëanor do que qualquer outro’.

home1.jpg

Os Anais de Aman – Quarta Seção

The History of Middle-earth X - Morgoth's RingA Valinor tem a honra de publicar a quarta parte de um total de seis que compõem os Anais de Aman,
um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. Esta quarta parte (leia também a primeira, a segunda e a terceira) engloba o período desde a Libertação de Melkor até a Destruição das Árvores.
Quarta Seção dos Anais de Aman
[Esta seção dos Anais possui uma grande quantidade de mudanças feitas durante a escrita, e também várias alterações e adições – algumas substanciais – que certamente parecem pertencer basicamente à mesma época. Estas foram incorporadas ao texto fornecido aqui, com detalhes das alterações mais importantes registrados nas notas que se seguem. Algumas poucas adições curtas que são decididamente posteriores estão colocadas nas notas.]

1179

§78 Fëanor, filho mais velho de Finwë, nasceu em Tirion sobre Túna. Sua mãe foi Byrde Míriel (1).


§79 Então os Noldor (2) passaram a apreciar todos os conhecimentos e todos os trabalhos práticos e Aulë e seu povo vinham com freqüência entre eles. Mas tal era a habilidade que Ilúvatar dera a eles que, em muitos aspectos, especialmente naqueles que demandavam destreza e grande qualidade no trabalho manual, eles logo ultrapassaram seus professores. É dito que a este tempo os construtores da Casa de Finwë, escavando as montanhas em busca de pedras para suas construções (pois eles apreciavam a construção de altas torres), descobriram pela primeira vez as gemas da terra, nas quais a Terra de Aman eram, de fato, incrivelmente ricas. E seus artífices desenvolveram ferramentas para cortar e modelar as gemas, as esculpiram em muitas formas de radiante beleza e não as guardavam em tesouros mas as davam livremente para todos que as desejassem, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos (3).

§80 Neste ano Rúmil, o mais renomado dos mestres do conhecimento da fala, criou pela primeira vez letras e começou a registrar em escrita os idiomas dos Eldar e suas canções e sabedoria (4).


1190

§81 Neste ano nasceu Fingolfin filho de Finwë, que mais tarde foi Rei dos Exilados.


1230

§82 Finrod filho de Finwë nasceu.


1250

§83 A este tempo começou a se desenvolver a habilidade de Fëanor filho de Finwë, que era dentre todos os Noldor o maior criador e artífice. E ele pensou e desenvolveu novas letras, melhorando os sistemas de Rúmil, e estas letras os Eldar têm usado desde aquele dia. Isto foi senão o início dos trabalhos de Fëanor. Ele amava grandemente as gemas, e ele começou a estudar como, pela habilidade de sua mão e mente, ele poderia fazer outras maiores e mais brilhantes do que aquelas escondidas na terra (5).

§84 [A este tempo também, é dito entre os Sindar, os Naugrim (6) a quem também chamamos os Nornwaith (os Anões) vieram por sobre as montanhas para Beleriand e foram conhecidos pelos Elfos. E os Anões eram grandes ferreiros e construtores, sendo, de fato (assim se acredita) trazidos à existência por Aulë; mas antigamente pouco beleza havia em suas obras. Portanto cada povo teve grande benefício no outro, embora sua amizade sempre tenha sido fria. Mas àquele tempo não havia desavenças entre eles e o Rei Thingol deu-lhes as boas-vindas, e os Barbalongas de Belegost ajudaram-no na escavação e construção dos grandes salões de Menegroth, onde ele passou a morar com Melian, sua Rainha. Assim disse Pengolod] (6)

1280

§85 Neste ano Finrod filho de Finwë casou-se com Ëarwen filha do Rei Olwë de Alqualondë, e houve uma grande desta na terra dos Teleri. Portanto os filhos de Finrod, Inglor e Galadriel, eram parentes do Rei Thingol Capacinzenta em Beleriand.

1350

§86 [A este tempo, parte dos Elfos perdidos do povo de Dân após longas andanças chegaram a Beleriand a partir do Sul.  Seu líder era Denethor filho de Dâ, e ele os conduziu a Ossiriand onde sete rios corriam das Montanhas de Lindon. Estes são os Elfos Verdes. Eles tinham a amizade de Thingol. Quoth Pengolod.](8)

1400

§87 Veio a acontecer que Melkor residiu sozinho sob Mandos forçadamente pelas três eras definidas pelos Valar, e veio ante seu conclave ser julgado. E Melkor implorou por perdão aos pés de Manwë, humilhou-se, jurou seguir suas regras e a ajudar os Valar de todas as formas que pudesse pelo bem de Arda e o benefício dos Valar e dos Eldar, se a ele fosse concedida liberdade e um lugar como o último dentre todos os povos de Valinor.

§88 E Niënna auxiliou no seu pedido (devido ao seu parentesco) e Manwë o concedeu, pois sendo livre de todo o mal ele não viu as profundezas do coração de Melkor, e acreditou em seus juramentos. Porém Mandos ficou em silêncio e o coração de Ulmo ficou em dúvida.

1410

§89 Então Melkor residiu sob vigilância por algum tempo em uma casa humilde em Valmar, e não tinha permissão de andar sozinho livremente. Mas, uma vez que àquele tempo todas as suas palavras e trabalhos eram belos e ele se tornara em todas as formas e aparências como os Valar seus irmãos, Manwë deu a ele liberdade dentro de Valinor. Mas a alegria de Tulkas ficava enevoada sempre que ele via Melkor passar, e as unhas de seus dedos marcavam a palma de suas mãos, devido aos esfoço que fazia para se conter.

§90 E realmente Melkor fora falso e traiu a clemência de Manwë, e usou sua liberdade para espalhar amplamente mentiras e envenenar a paz de Valinor. Então uma sombra caiu sobre a Terra Abençoada e seu Meio Dia dourado passou; mas ainda levaria tempo para que as mentiras de Melkor frutificassem, e os Valar continuaram vivendo em felicidade.

§91 Em seu coração Melkor odiava mais os Eldar, tanto por sua beleza e alegria e porque neles ele via a razão do destaque dos Valar e sua própria queda e humilhação. Portanto mais do que tudo ele fingia amor por eles, procurava suas amizades, e oferecia a eles o serviço de seu conhecimento e trabalho em qualquer grande feito que eles fizessem. E muitos dos Noldor, devido ao seu desejo por todo conhecimento, lhes deram ouvidos e se deliciaram com seus ensinamentos. Mas os Vanyar não se envolveram com ele.

1449

§92 Neste Ano Fëanor começou aquele trabalho que é renomado acima de todos os trabalhos da Eldalië; pois seu coração concebeu as Silmarils, e ele fez muitos estudos e muitos ensaios antes que sua fabricação pudesse começar. E embora Malkor tenha dito mais tarde que Fëanor teve sua instrução naquele trabalho, ele mentiu em seu desejo e sua inveja; pois Fëanor foi conduzido apenas pelo fogo de seu próprio coração, e era ávido e orgulhoso, trabalhando sempre rapidamente e sozinho, não pedindo ajuda e não buscando conselho.

1450



As Silmarilli de Fëanor são feitas

§93 Neste ano as Silmarils ficam completamente prontas, a maravilha de Arda. Como três grandes jóias elas eram em forma. Mas não até o Fim, quando Fëanor deverá retornar, ele que pereceu quando o Sol era jovem e senta-se agora nos Salões da Espera e não virá mais entre sua raça, não antes do Sol passar e a Lua cair, será conhecida a substância com a qual foram feitas. Como o cristal dp diamante ela se parecia mas era mais forte que o adamante, de forma que nenhuma violência dentro dos muros deste mundo pode marcá-la ou quebrá-la. Aquele cristal era para as Silmarils como é o corpo para os Filhos de Ilúvatar: a casa de seu fogo interior, que está dentro dela e também em todas as partes dela, e sua vida. E o fogo interno das Silmarills Fëanor fez com a Luz misturada das Árvores de Valinor que ainda vive nelas, embora as Árvores há muito tenham secado e não brilhem mais. Portanto mesmo na mais completa escuridão as Silmarils brilham por sua própria luz como as estrelas de Varda, e mais, como são de fato coisas vivas, elas se deliciam na luz, a recebem e a dão de volta em tons ainda mais belos que antes.

§94 E todo o povo de Valinor ficou impressionado com o trabalho manual de Fëanor, e ficaram maravilhados e deliciados, e Varda abençoou as Silmarils, de forma que dali em diante nenhum mortal nem coisa maligna ou suja poderia tocá-las, ou seriam marcados e queimados com intolerável dor. E Melkor desejou as Silmarils e a simples memória de sua luz era como um fogo queimando em seu coração.


1450 – 1490

§95 Devido a isso, embora continuasse a dissimular seus propósitos com grande sutileza, Melkor procurava agora ainda mais ansiosamente como poderia destruir Fëanor e encerrar a amizade de Valar e Eldar. Longamente esteve ele trabalhando, e lento e infrutífero era seu esforço inicialmente. Mas aquele que semeia mentiras no final não deixará de ter uma colheita, e de fato logo ele pode descansar do esforço, enquanto outros colhiam e semeavam em seu lugar. Mesmo Melkor encontrou alguns ouvidos que o ouviriam, e algumas línguas que aumentariam o que ouviram. Pois as mentiras de Melkor criavam raízes pela verdade que havia nelas.

§96 Então aconteceu que surgiram murmúrios em Eldamar de que os Valar haviam trazido os Eldar a Valinor por inveja de suas belezas e habilidades, e temendo que eles pudessem crescer fortes demais para serem governados nas terras livres do Leste. E então Melkor predisse a chegada dos Homens, dos quais os Valar ainda não haviam falado aos Elfos, e novamente foi murmurado que os deuses tinham a intenção de reservar os reinos da Terra-média para a raça mais jovem e mais fraca, os quais eles poderiam dominar mais facilmente, destituindo os Elfos da herança de Ilúvatar.

§97 Então finalmente os príncipes dos Noldor começaram a murmurar contra os Valar, e muitos ficaram cheios de orgulho, esquecendo tudo que os Valar os havia ensinado e dado. E naquele tempo (tendo criado ira e orgulho) Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido; pois os arsenais dos Valar foram fechados após o acorrentamento de Melkor. Mas agora os Noldor começaram a fundição de espadas e machados e lanças; e escudos eles fizeram contendo os símbolos de muitas casas e grupos que competiam uns contra os outros.

§98 Um grande ferreiro era Fëanor naqueles dias, e um príncipe orgulhoso e dominante, vigilante de tudo que ele tinha; e Melkor o vigiava. Pois ainda desejava as Silmarils; mas agora raramente Fëanor as trazia à luz, e as mantinha trancadas na escuridão do tesouro de Túna; e ele começou a limitar a visão delas a todos exceto a seu senhor e seus sete filhos. Por isso Melkor lançou novas mentiras de que Fingolfin estava planejando suplantar Fëanor e seu pai aos olhos dos Valar, e conseguiria, pois os Valar estavam aborrecidos pelo fato das Silmarills não terem sido deixadas a seus cuidados. Por essas mentiras disputas surgiram entre os orgulhosos filhos de Finwë e Melkor estava satisfeito; pois tudo ia conforme seu planejamento. E repentinamente os Valar ficaram cientes que a paz de Valinor fora quebrada e as espadas desembainhadas em Eldamar.

1490

§99 Então os Deuses se enfureceram, e eles chamaram Fëanor perante eles. E eles expuseram todas as mentiras de Melkor; mas por ter sido Fëanor o primeiro a quebrar a paz e ameaar violência em Aman ele foi, pelo julgamento deles, banido por vinte (10) anos de Tirion. E ele partiu  e residiu ao norte de Valinor perto dos salões de Mandos, e construiu um novo tesouro e forte em Formenos, e grande riqueza em jóias ele colocou no tesouro, e as Silmarils foram trancadas em uma sala de ferro. E para este lugar veio Finwë, pelo amor que dedicava a Fëanor, e Fingolfin governou os Noldor de Túna. Desta forma as mentiras de Melkor foram aparentemente feitas verdade, e o amargor que ele criou permaneceu por muito tempo entre os filhos de Fingolfin e Fëanor.

§100 Diretamente do Círculo do Destino Tulkas foi rapidamente colocar as mãos em Melkor, mas Melkor sabendo que seus esquemas foram revelados (11) ocultou-se, e uma nuvem estava ao redor dele, e pareceu ao povo de Valinor que a luz das Árvores tornou-se mais fraca do que costumava ser, e as sombras eram mais negras e longas.

1492

§101 E é dito que Melkor não foi visto novamente por algum tempo; mas repentinamente ele apareceu ante as portas da casa de Finwë e Fëanor em Formenos e buscou falar com eles. E disse a eles: Contemplem a verdade de tudo que eu falei, e como você está, de fato, banido injustamente. E não pense que as Silmarils estejam seguram em qualquer tesouro dentro do reino dos deuses. E se o coração de Fëanor ainda é livre e corajoso como suas palavras o foram em Túna, então eu irei ajudá-lo e levá-lo para longe desta terra estreita. Pois não sou eu um Vala tal como eles? Sim, e mais do que eles, e sempre fui um amigo dos Noldor, o mais habilidoso e valoroso de todos os povos de Arda.

§102 Então o amargor aumentou no coração de Fëanor e se encheu com medo pelas Silmarils, e naquele estado de espírito permaneceu. Mas as palavras de Melkor tocaram fundo demais, e despertaram um fogo mais terrível do que ele pretendia; e Fëanor olhou para ele com olhos brilhantes, e veja! viu através da aparência de Melkor e vislumbrou as secritudes de sua mente, percebendo ali o desejo pelas Silmarils. Então o ódio suplantou todo o medo e ele amaldiçoou Melkor e ordenou sua partida. ‘Partais de meu portão, andarilho (12), corvo da prisão de Mandos’, disse ele, e fechou as portas de sua casa no rosto do mais poderoso de todos os habitantes de Ëa.

§103 E àquele tempo, estando ele próprio em perigo, Melkor partiu, consumido pela raiva, e vingança amarga ele planejou por sua humilhação. E Finwë se encheu com grande medo e rapidamente enviou mensageiros a Manwë em Valmar.

§104 Então Oromë e Tulkas partiram em perseguição a Melkor, mas antes que tivessem cavalgado longe mensageiros chegaram de Eldamar, relatando que Melkor fugira através do Kalakiryan (13), passando pela colina de Túna em fúria, como uma nuvem de tempestade. Com a fuga de Melkor a sombra foi retirada de Valinor e por algum tempo toda a terra foi bela novamente. Mas os deuses procuraram em vão por sinais de seu inimigo, e dúvida desceu sobre seus corações sobre qual seria o novo mal que ele poderia tentar.

§105 É dito que Melkor chegou à região escura de Arvalin. Aquela terra estreita ficava ao sul da Baía de Eldamar, mas a leste das montanhas das Pelóri, e seu longo e melancólico litoral se estendia até o Sul do mundo, sem luz e inexplorado. Ali, entre os lisos muros das montanhas e o Mar frio e escuro, as sombras eram as mais profundas do mundo. E ali secretamente Ungoliantë fizera sua morada. De onde viera nenhum dos Eldar sabe, mas talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa, no tempo em que Melkor destruiu as luzes de Illuin e Ormal, e devido às suas moradas no Norte a atenção dos Valar foi voltada principalmente para lá e o Sul ter ficado por muito tempo esquecido. Dali ela ela rastejava lentamente em direção ao reino de luz dos Valar. Pois ela ansiava pela luz e a odiava. Em uma fenda profunda das montanhas ela residia, e tomou forma como se fosse uma aranha monstruosa, sugando toda a luz que podia encontrar ou que passava por sobre os muros de Valinor, e a lançava de volta na forma de teias negras de opressiva escuridão, até que nenhuma luz pudesse mais chegar à sua morada e ela estivesse faminta.

§106 Pode muito bem ser que Melkor, se nenhum outro, soubesse dela, sua existência e sua morada, e que ela fosse no início um daqueles que ele corrompeu a seu serviço. E chegando finalmente a Arvalin, procurou por ela e exigiu ajuda em sua vingança. Mas ela estava relutante em enfrentar os perigos de Valinor e a grande fúria  dos deuses, e não partiria de seu esconderijo antes de Melkor ter jurado dar a ela uma recompensa que curaria a persistente dor de sua fome e raiva.

1495

§107 E finalmente tendo organizado bem seus planos Melkor e Ungoliantë partiram. Uma grande escuridão que Ungoliantë tecera estava ao redor deles, e cordas negras ela também lançara e fixara entre as rochas e depois de longo esforço, de teia a teia, ela escalou finalmente até o pico de Hyarantar, que é o mais alto pináculo das montanhas ao sul de Taniquetil. Lá, de fato (exceto por aquela torre de vigia do Sul), as Pelóri era menos imponentes e menor era a vigilância dos Valar, pois eles tinha sempre estado em guarda principalmente contra o Norte.

§108 Então Ungoliantë teceu uma escada de cordas e a lançou para baixo, Melkor a escalou e então chegou àquele local elevado, de onde podia observar o Reino Vigiado abaixo. E abaixo ficavam as verdejantes florestas selvagens de Oromë, e longe no oeste os brilhantes campos e pastos de Yavanna, de um dourado pálido abaixo dos altas plantações de grãos dos deuses. E Melkor olhou para o norte, e viu ao longe a planície radiante, os domos prateados de Valmar reluzindo na junção das luzes de Telperion e Laurelin. Então Melkor gargalhou alto e desceu rapidamente ao longo da encosta oeste; Ungoliantë estava a seu lado e sua escuridão os cobria.

§109 Ora, era um tempo de festival, como Melkor bem sabia. Pois, embora todas as marés e estações estivessem sob a vontade dos Valar e não existisse em Valinor inverno de morte, os deuses residiam então no reino de Arda que não era mais do que um pequeno reino nos salões de Ëa, cuja vida é Tempo, que flui sempre desde a primeira nota ao último acorde de Eru. E era então o prazer dos Valar (como dito no Ainulindalë) vestirem-se nas formas dos Filhos de Ilúvatar, e comiam e eles bebiam e colhiam os frutos de Yavanna, e retiravam força da Terra a qual sob Eru eles fizeram.

§110 Portanto Yavanna fixou tempos para o florescer e a maturação de todas as coisas que crescem: crescimento, florescimento e tempo da semente. E de cada primeiro colher de frutos Manwë fazia um clímax de exaltação a Eru, e todo o povo de Valinor externava sua felicidade em música e canção. E tal era esta hora; e Manwë, esperando de que fato a sombra de Melkor tivesse sido removida da terra, e temendo nada pior do que, talvez, uma nova guerra com Utumno e uma nova vitória para encerrar tudo, decretou que esta comemoração deveria ser mais gloriosa do que qualquer outra feita desde a chegada dos Eldar. Ele também desejou curar o mal que surgiu entre os Noldor, e todos eles foram chamados, por isso, para ir até ele e compartilhar com os Maiar em seus salões sobre o Taniquetil e lá deixar de lado todos os pesares que permaneciam entre seus príncipes e esquecer de uma vez por todas as mentiras de seu Inimigo.

§111 Lá foram os Vanyar, e lá foram os Noldor, e os Maiar estavam reunidos, e os Valar estavam adornados em sua beleza e majestade, e cantaram ante Manwë em seus altos salões, ou se divertiram sobre as encostas gramadas a oeste do Taniquetil , em direção às Árvores. Naquele dia as ruas de Valmar estavam vazias e as escadas de Túna silenciosas, apenas os Teleri além das montanhas continuavam cantando no litoral do Mar, pois eles se importavam pouco com estações ou tempos, e não pensavam nas preocupações dos Regentes de Arda ou na sombra que caíra sobre Valinor, pois ela não os tocara, ainda.

§112 Apenas uma coisa maculou os desígnios de Manwë. Fëanor de fato veio, pois apenas a ele Manwë comandou que viesse; mas Finwë não veio nem nenhum outro dos Noldor de Formenos. Pois disse Finwë, ‘Enquanto o banimento permanecer sobre Fëanor meu filho, que ele não possa ir a Túna, eu me mantenho afastado da coroa, e não encontrarei meu povo, nem aqueles que governam em meu lugar’. E Fëanor não foi em vestimentas de festival, e não usava nenhum ornamento, nem prata nem ouro nem nenhuma gema; e vetou a visão das Silmarils aos Eldar e Valar, e as deixou trancadas nas escuridão de sua sala de ferro. Contudo, ele encontrou Fingolfin ante o trono de Manwë e se reconciliou em palavras, e Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada.

§113 É dito que enquanto Fëanor e Fingolfin estavam perante Manwë, ocorreu a União das Luzes e ambas as Árvores estavam brilhando e a silenciosa cidade de Valmar foi preenchida com radiância como de prata e ouro, e naquela hora Melkor e Ungoliantë vieram à planície e pararam à frente do Monte Verdejante. Então Melkor veio e com sua lança negra feriu cada Árvore até seu centro, um pouco acima das raízes, e suas seivas escorreram, como se fosse seu sangue, e se esparramaram sobre o chão. E Ungoliantë a sugou, e indo então de Árvore a Árvore ela colocou seus lábios imundos em suas feridas, até que estivessem exauridas; e o veneno que existia nela passou para seus corpos e as murchou; e elas morreram. E Ungoliantë continuava sedenta, e foi aos Vasos de Varda e tomou deles até secarem; e Ungoliantë expelia vapores negros enquanto bebia, e cresceu para uma forma tão vasta e horrível que mesmo Melkor ficou aterrorizado.

§114 Então a Escuridão caiu sobre Valinor. De todos os feitos daquele dia muito é dito no Aldudénië (o Lamento pelas Árvores) que Elemírë dos Vanyar compôs e é conhecido de todos os Eldar. Mas nenhuma canção ou conto poderia conter todo o pesar e terror que então caiu. A Luz falhou, e isto era já era calamidade suficiente, mas a Escuridão que se seguiu era mais do que a perda de luz. Naquela hora foi criada a Escuridão que parecia não ausência mas uma coisa com existência própria: pois era de fato feita por malícia a partir da Luz, e tinha o poder de atingir os olhos, adentrar coração e mente, e estrangular a própria vontade.

§115 Varda olhou para baixo da Montanha Sagrada e contemplou a Sombra subindo em repentinas torres de escuridão; Valmar foi encoberta em um profundo mar de noite. Logo Taniquetil ficou sozinho, como uma última ilha de luz em um mundo que afundara. Toda música cessou. Houve silêncio em Valinor e nenhum som podia ser ouvido, exceto apenas aquele de longe que vinha com o vento através da fenda nas montanhas, o lamento dos Teleri como o grito frio das gaivotas. Pois ventou gelado do Leste naquela hora, e as vastas sombras do Mar se voltaram contra os muros do litoral.

§116 E Manwë de seu alto trono olhou, e apenas seus olhos atravessavam a escuridão, e viu ao longe como uma Escuridão além do escuro se movia para o norte pela terra, e ele soube que Melkor estava lá. Então a perseguição começou, e terra tremeu sob os cavalos da hoste de Oromë, e o fogo que saiu dos cascos de Nahar foi a primeira luz que retornou a Valinor. Mas tão logo quanto chegavam à Nuvem de Ungoliantë os cavaleiros dos Valar eram cegados e desencorajados, e se separaram e não sabiam mais para onde ir; e o som da Valaróma hesitou e falhou.  E Tulkas era como um homem pego em uma teia negra na noite, e ele ficou impotente e golpeava o ar em vão. E quando a Escuridão passou, era tarde demais: Melkor tinha ido para onde queria, e sua vingança estava totalmente realizada.


NOTAS


1.
Este registro é uma substituição antiga, o registro original, referente ao casamento de Finrod e Ëarwen filha de Olwë, reaparece em forma bastante no manuscrito como originalmente escrito sob o ano de 1280. Mais tarde, com caneta esferográfica, meu pai alterou a data deste registro para 1169 e adicionou novos registros para 1170, ‘Míriel adormeceu e passou para Mandar’, e 1172 ‘Julgamento de Manwë com relação aos casamentos dos Eldar’. Sobre estes assuntos ver nota 4 abaixo. os novos registros aparecem na versão datilografada original.


2.
O nome Noldor é aqui escrito com um til, Noldor (representando a nasal posterior, o ng de king, ver HoME IV). Esta se tornou a forma normal em todos os escritos tardios de meu pai, embora frequentemente omitido de maneira casual (nenhum de seus datilógrafos possuía este sinal); ele não é representado na escrita do nome Noldor neste livro.


3.
A parte final deste trecho, referente às gemas, é em grande parte uma adição. Como inicialmente escrito, tudo que foi dito sobre o assunto era:

É dito que a por volta desta época os artífices da Casa de Finwë (de quem Fëanor seu filho mais velho era o mais habilidoso) primeiramente divisaram gemas, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos.

Ver nota 5.


4.
Um novo registro foi adicionado aqui ao mesmo tempo daqueles dados na nota 1: ‘1185 Finwë se casa com Indis dos Vanyar’.


5.
Esta sentença (‘Ele amava grandemente as gemas…’) é uma adição acompanhando a mudança e expansão citadas na nota 3.


6.
Naugrim foi escrito a lápis sobre o original Nauglath (o qual, contudo, não foi riscado), e a palavra ‘também’ (em ‘a quem também chamamos’) adicionada ao mesmo tempo.


7.
Esta interpolação feita em Beleriand por Pengolod, entre colchetes no original, foi uma adição ao manuscrito; confira nota 8. Ao lado dela meu pai mais tarde escreveu a lápis: ‘Transferir para os A[nais] de B[eleriand]’.


8.
Esta interpolação de Pengolod, entre colchetes, foi uma adição ao manuscrito; e como aquela citada na nota 7 foi marcada mais tarde para ser transferida para os Anais de Beleriand. O nome do líder dos Nandor foi inicialmente escrito Enadar, alterado imediatamente para Denethor (o nome em AV2, QS e o Lhammas).

Mas tarde meu pai adicionou aqui a lápis um novo registro, para 1362: ‘Aqui nasceu Isfin filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 9).

9. Uma adição rápida a tinta, subsequentemente riscada, dá um registro para 1469: ‘Aqui nasceu a primeira filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 8). Não é dito em outro lugar que Fingolfin tinha outra filha além de Isfin.


10.
O manuscrito tem ‘três’ o ‘ten’ > ‘vinte’ (Anos dos Valar).


11.
Do inglês bewrayed: ‘revelado’, ‘traído’.


12.
Do inglês gangrel (‘vagabundo’) substituindo beggarman (‘pedinte’, ‘mendigo’).


13.
Meu pai inicialmente escreveu Kalakilya, a forma antiga, mas alterou-a imediatamente para Kalakirya; -n foi adicionado mais tarde (ver §67).


Comentários sobre a quarta seção dos


Anais de Aman
Esta seção dos Anais corresponde em conteúdo ao Capítulo 4 de QS ‘Das Silmarils e o Escurecimento de Valinor‘ (HoME V), e a AV 2 registros 2500 até o começo de 2990 (HoME V). O registro em AAm não tem comparação com o rápido AV 2, e representa um impulso totalmente diferente; de fato, nesta seção nós vemos a forma de registros desaparecendo enquanto narrativas completas surgem. Com frequentemente no caso dos trabalhos de meu pai, a história toma conta e se amplia seja quais forem as restrições de forma que ele optou. A nova narrativa tem o dobro do tamanho daquela em QS, à qual é relacionada em estrutura. Em expressão é quase inteiramente nova, mas mesmo assim uma comparação entre eles mostrará que AAm tende antes a uma maior definição da narrativa do que a mudanças significativas na estrutura ou novas adições notáveis – embora ambas estejam presentes. Os comentários a seguir de forma alguma têm a intenção de serem uma análise de todas as diferenças de ênfase, sugestão e detalhe entre AAm e QS.


§
78 Cedo no AAm, sob o ano 1115, aparecem inserções rejeitadas (ver a Terceira Seção dos Anais de Aman, notas 3 e 5) nas quais estão registradas o nascimento de Fëanor por Indis esposa de Finwë na Terra-média durante a Grande Jornada, e a subseqüente morte dela numa queda nas Montanhas Nebulosas. Escritas com caneta esferográfica estas inserções parecem ser relativamente tardias; aqui, por outro lado, no que parece ser uma adição antiga (escrita cuidadosamente com tinta, veja nota 1 acima), Fëanor nasceu em Tirion, e sua mãe foi Morial, chamada Byrde Míriel (do Inglês antigo byrde ‘bordadeira’). Em adições tardias (notas 1 e 4 acima) é registrado que em 1170 Míriel ‘adormeceu’ e passou para Mandos e em 1185 Finwë casou-se com Indis dos Vanyar.

§79 Em um ponto do começo de QS (§40) é dito que os Noldor ‘desenvolveram a criação de gemas'; similarmente em AV 2 (HoME V) eles ‘inventaram gemas’ e novamente em Ainulindalë B (HoME V). Esta idéia é encontrada em todos os textos antigos, retrocedendo até o elaborado registro no antigo conto de ‘A Chegada dos Elfos‘ (ver HoME I). No período posterior ela sobreviveu na versão final D do Ainulindalë (§35), e continua presente inicialmente em AAm (ver nota 3 acima). A reescrita deste trecho rejeita a idéia de ‘invenção': as gemas dos Noldor foram minadas em Aman.


§80 A associação dos Noldor com escrita alfabética retorage até os Contos Perdidos, onde esta arte é associada principalmente a Aulë (HoME I); ‘naqueles dias Aulë auxiliado pelos Gnomos desenvolveu alfabetos e escritas’ (HoME I). No Ainulindalë B (HoME V) os Noldor ‘acrescentaram muito aos ensinamentos [de Aulë] e tinham grande prazer em idiomas e alfabetos’, e isto sobreviveu em versões posteriores. Agora Rúmil e (em §83) Fëanor surgem como os grandes inventores. Confira O Senhor dos Anéis, Apêndice E (II):

Os Tengwar… foram desenvolvidos pelos Noldor, a família dos Eldar mais habilodosa em tais assuntos, muito antes de seu exílio. As letras Eldarin mais antigas, os Tengwar de Rúmil, não foram usadas na Terra-média. As letras posteriores, os Tengwar de Fëanor, foram amplamente uma invenção nova, embora devesse algo às letras de Rúmil.

Se Rúmil foi o autor dos Anais de Aman, como é dito no preâmbulo, ele está aqui se descrevendo com as palavras ‘mais renomado dos mestres de conhecimento de idiomas’.


§82 Finrod: nome inicial de Finarfin (Finarphin).


§84 A forma Nauglath (ver nota 6) é, curiosamente, uma reversão ao nome original em Gnômico para os Anões no Contos Perdidos (ver HoME I), embora Naugrim ocorra como uma forma original em QS em um ponto posterior na narrativa (§122). [A entrada Naugrim foi inadvertidamente excluída do índice para o HoME V. As referências são 273, 277, 405.] – Sobre o nome Sindar veja §74.

Sobre referências antigas aos Anões em Beleriand veja IV.336; como eu comentei lá, a afirmação na segunda versão do primeiro Anais de Beleriand (HoME IV) de que os Anões tinham ‘de antigamente’ uma estrada para Beleriand é o primeiro sinal da idéia posterior de que os Anões tinham estado ativos em Beleriand muito antes do Retorno dos Noldor. Mas o presente trecho é a primeira referência aos Anões ajudando Thingol na escavação e contrução de Menegroth. – A lenda da criação dos Anões por Aulë é citada nos textos do período inicial: AB 2 (HoME V), o Lhammas (HoME V e comentários) e QS (§123 e comentários).


§85 Aqui aparece o importante desenvolvimento de acordo com o qual os príncipes da Terceira Casa dos Noldor se tornaram próximos a Thingol de Doriath (Elwe Singollo, irmão de Olwë de Alqualondë, §58); e Galadriel é introduzida dO Senhor dos Anéis. Confira Apêndice F (I, Dos Elfos): ‘A dama Galadriel da casa real de Finrod, pai de Felagund, Senhor de Nargothrond’ (uma afirmação que foi alterada na Segunda Edição de O Senhor dos Anéis, quando Finrod se tornou Finarphin e Inglor se tornou Finrod (Felagund)).

§86 Em AV 2 (HoME V, também em uma interpolação de Pengolod) e em QS (§115) os Elfos sob Denethor não chegaram a Beleriand ‘a partir do Sul’, mas por sobre as Montanhas Azuis; o significado aqui provavelmente é que eles cruzaram as montanhas em uma região ao sul de Ossiriand. Não haviam sete rios correndo das montanhas, mas seis: o sétimo rio de Ossiriand era o grande rio Gelion, para o qual os seis fluíam.


§88 devido ao seu parentesco: em AAm §3 (assim como em AV 2 e em QS §9) Niënna era ‘irmã de Manwë e Melkor’. Em AAm* ela é dita ser apenas irmã de Manwë.

§92 Em AV 2 duas eras se passaram (A.V. 2500 – 2700) entre a criação das Silmarils e a libertação de Melkor; da maneira similar em QS (§§46-7). Em AAm a relação dos dois é invertida, com a libertação de Melkor colocada no Ano das Árvores 1400 e o término das Silmarils em 1450.

§93 Com o que é dito aqui sobre o destino de Fëanor confira QS §88: ‘tão cheio de fogo era seu espírito que seu corpo se transformou em cinzas assim que seu espírito partiu; e nunca mais apareceu sobre a terra nem deixou o reino de Mandos’.

§87 Sobre a ignorância dos Elfos com relação a armas ver §97.

§98 Nenhuma menção é feita em QS (§52) das dissensões chegando a ponto de desembainhar espadas. Em AAm §112 ‘Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada’, e na margem do texto datilografado a este ponto meu pai escreveu ‘se refere a que?’. Uma expansão posterior do capítulo no QS, próxima em tempo à escrita de AAm, conta que Fëanor ameaçou Fingolfin com a espada desembainhada (§52); e em vista de §112 parece provável que isto tenha sido inadvertidamente omitido aqui.


§99 O termo do banimento de Fëanor (ver nota 10 acima) não é citado em textos mais antigos. O nome formenos agora aparece, em uma adição ao texto.


§102 o mais poderoso de todos os habitantes de Ëa: ver §2.


§105 O tempo da chegada de Ungoliantë a Arda é colocado (como uma suspeita) junto com a entrada de Melkor e sua hoste antes da derrubada das Lâmpadas (ver §19). Compare ‘talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa’ com QS §55: ‘da Escuridão Exterior, talvez, aquela que se estende além das Muralhas do Mundo’.


§106 Embora novamente colocada como uma suspeira, a origem de Ungoliantë é agora encontrada em sua antiga corrupção por Melkor, e é sugerido que ele foi para Arvalin com o próximo definido de encontrá-la.

§107 A alta montanha na cadeia sul das Pelóri agora recebe um nome, Hyarantar (mais tarde substituído por Hyarmentir).

§109 No Contos Perdidos a razão do grande festival era a comemoração da chegada dos Eldar a Valinor (HoME I), mas em textos posteriores sua razão não é especificada. Agora um novo e notável registro é dado, com uma referência à passagem no Ainulindalë (§25) onde as formas visíveis assumidas pelos Valar em Arda são descritas; e aqui a idéia destas ‘formas’ é ampliada (como parece) ao ponto onde os grandes espíritos podem comer, e beber, e ‘retirar força da Terra’. Completamente nova também nesta passagem é o elelemtno do propósito de Manwë em obter concórdia entre os Noldor.

§112 Em QS (§60) Fëanor estava presente ao festival na Taniquetil; agora entra a história de que ele foi sozinho de Formenos, sendo comandado a fazê-lo por Mnwe, em vestimentas sóbrias, que Finwë se recusou a ir enquanto seu Filho vivesse em banimento, e que Fëanor se reconciliou ‘em palavras’ com Fingolfin perante o trono de Manwë. A este ponto, é claro, Fëanor e Fingolfin ainda eram irmãos (e não meio-irmãos).

§114 Não há sinal do texto Aldudénië entre os papéis de meu pai. Compare a passagem relativa à Escuridão que veio com a extinção da Luz das Árvores com o Ainulindalë §19: ‘e pareceu [aos Ainur] que naquele momento eles perceberam uma nova coisa, Escuridão, a qual eles não conheciam antes, exceto em pensamento’.

§116 Sobre o chifre Valaróma de Oromë ver Ainulindalë D, §34.


*

Há um grande número de notas e alterações feitas no texto datilografado, algumas acrescentadas pelo datilógrafo sob a instrução de meu pai; mas apenas algumas poucas precisam ser registradas.


§78 Os dois novos registros dados na nota 1 acima, e aquele na nota 4, aparecem no texto datilografado original.

§81 Após a entrada para 1190 uma nova entrada foi acrescentada para o ano 1200: ‘Luthien nasce’ (com uma interrogação).

§84 Um espaço em branco é deixado no texto datilografado onde o manuscrito tem Naugrim escrito sobre Nauglath, possivelmente porque o datilógrafo não sabia qual forma colocar (ver nota 6). O espaço em branco não foi preenchido, mas o nome Nornwaith que se segue foi riscado.

§85 Após o registro para 1280 as seguintes entradas Beleriândricas foram colocadas:

1300    Daeron, mestre do conhecimento de Thingol, desenvolve as Runas
Turgon, filho de Fingolfin, e Inglor, filho de Finrod, nascem.

1320    Os Orcs aparecem pela primeira vez em Beleriand

§86 Após o registro para 1350 duas entradas foram adicionadas:

1362    Galadriel, filha de Finrod, nasce em Eldamar Isfin, Dama Branca dos Noldor, nasce em Tirion

A segunda destas aparece como uma adição a lápis ao manuscrito (nota 8).

§97 Ao lado das palavras ‘Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido’ meu pai escreveu no texto datilografado: ‘Não! Eles devem ter possuído armas na Grande Jornada’. Compare com a passagem em QS sobre este assunto (nota de rodapé para o §49): ‘Os Elfos antes haviam possuído apenas armas de caça, lanças e arcos e flechas’.

§99 A duração do banimento de Fëanor foi alterado mais uma vez (ver nota 10), de ‘vinte’ para ‘doze’.

§113 Após ‘o Monte Verdejante’ foi adicionado: ‘de Ezellohar’. Este nome foi acrescentado em ocorrências anteriores: §25. ‘Os Vasos de Varda’ se tornaram ‘Os Poços de Varda'; ver §28.

§114 O datilógrafo leu incorretamente Elemírë, e meu pai corrigiu o erro para a forma Elemmírë.

Eu não sei qual intenção está por trás da introdução dos registros Beleriândricos dados sob §§81,85 acima.

The History of Middle-earth X

Mitos Transformados II

The History of Middle-earth X
E se quase tudo que que você leu no O Silmarillion fosse diferente? É isso que você pode ler abaixo, em um texto de J. R. R. Tolkien datado de 1951 e incluído na seção Mitos Transformados do The History of Middle-earth X . O Sol surge junto com a Terra (e não é fruto das Duas Árvores), Arda se refere a todo o Sistema Solar e há citações sobre os “Filhos de Deus”. Os comentários em itálico e as notas são de Christopher Tolkien.


II

Este é um texto de natureza mais problemática, um manuscrito a tinta que se divide em duas partes, ambas claramente associadas: uma discussão, com propostas para a “regeneração” da mitologia; e uma narrativa abandonada. Nenhuma das duas possui título ou cabeçalho.
A Criação do Sol e da Lua deve ocorrer muito antes da chegada dos Elfos; e não pode acontecer após a morte das Duas Árvores – se isso de alguma forma aconteceu em conexão com a permanência temporária dos Noldor em Valinor. O tempo disponível é curto demais. Tampouco poderiam existir florestas e flores etc. na terra, se não houve luz desde a derrubada das Lâmpadas! (1)

Mas como poderiam, apesar de tudo, os Eldar serem chamados de “Povo da Estrela”?

Uma vez que se supõe que os Eldar são mais sábios e tem um conhecimento mais verdadeiro da história e natureza da Terra do que os Homens (ou os Elfos Selvagens), suas lendas deveriam ter uma relação mais próxima com o conhecimento agora possuído, pelo menos da forma do Sistema Solar (= Reino de Arda) (2); embora ele não precise, é claro, seguir qualquer teoria “científica” de sua criação ou desenvolvimento.

Portanto parece claro que a mitologia cosmogônica deve representar Arda como ela é, mais ou menos: uma ilha no vazio “entre as inumeráveis estrelas”. O Sol deve ser contemporâneo com a Terra, embora seu tamanho relativo não precise ser considerado,  enquanto que a revolução aparente do Sol sobre a terra será aceita. *

(* [nota marginal] É ou seria de qualquer forma um “fato da vida” para qualquer inteligência que escolhesse a Terra como um lugar de vida e trabalho. [Não há indicação de onde isto deveria ir, mas nenhum outro lugar na página parece adequado.])

As Estrelas, portanto, em geral serão partes distintas e mais remotas do Grande Conto de Eä, que não dizem respeito aos Valar de Arda. Contudo, mesmo se não explicitamente, será uma premissa implícita que o Reino de Arda é de importância central, selecionado entre toda a imensurável vastidão de Eä como cenário para o drama principal do conflito de Melkor com Ilúvatar e os Filhos de Eru. Melkor é o supremo espírito de Orgulho e Revolta, não apenas o principal Vala da Terra, que se voltou para o mal (3).

Varda, conseqüentemente, como um dos grandes Valar de Arda, não pode ser dita ter “acendido” as estrelas, como um ato subcriativo original – pelo menos não as estrelas em geral (4).

A História, parece, deve seguir uma linha como esta. A entrada dos Valar em Eä no começo do Tempo. A escolha do Reino de Arda como seu principal local de moradia (? pelos maiores e mais nobres dos Ainur (5), a quem Ilúvatar tinha intenção de encarregar do cuidado do Eruhíni). Manwë e seus companheiros evitam Melkor e começam a ordenação de Arda, mas Melkor procura por eles e afinal encontra Arda (6), e disputa o reinado com Manwë.

Este período irá, grosseiramente, corresponder às supostas épocas primevas antes da Terra se tornar habitável. Um tempo de fogo e cataclismos.  Melkor desordenou o Sol de forma que em certos períodos ele era quente demais, e em outros frio demais. Se isto foi devido ao estado do Sol ou alterações na órbita da Terra, não é necessário ser definido precisamente: ambos são possíveis.

Mas após uma batalha Melkor é expulso da própria Terra. (A Primeira Batalha?).  Ele percebe que pode adentrar apenas com grande secritude. Neste tempo ele começa a se voltar principalmente para o frio e a escuridão. Seu primeiro desejo (e arma) foi fogo e calor. Foi no controle da chama que Tulkas (? originalmente Valar do Sol) o derrotou na Primeira Batalha. Então Melkor vinha principalmente à noite e especialmente ao Norte e no inverno. (Foi após a Primeira Batalha que Varda fixou certas estrelas como sinais ameaçadores para os habitantes de Arda verem).

Para se opor a isto os Valar fizeram a Lua. De matéria terrena ou do Sol? Ela deve ser uma luz subsidiária para mitigar a noite * (como Melkor a havia feito), e também um “veículo de observação e proteção” para circundar o mundo (7). Mas Melkor reuniu no Vazio espíritos de frio etc. e repentinamente a atacou, expulsando o Valar Tirion (8). A Lua ficou, depois disso, por muito tempo sem condutor e sem rumo e foi chamada Rana (neutro) (9).

(* [nota marginal] Mas não para eliminá-la. Era necessário ter uma alternação, “porque em Eä de acordo com o Conto nada pode perdurar eternamente sem cansaço e corrupção”).

[Se Tulkas veio do Sol, então Tulkas foi a forma que este Vala adotou na Terra, sendo em origem Auron (masculino). Mas o Sol é feminino; e é melhor que o Vala seja Áren, uma dama que Melkor pretendeu tornar sua esposa (ou violou) (10); ela se elevou em uma chama de fúria e tormento e seu espírito foi liberado de Eä, mas Melkor foi enegrecido e queimado, e sua forma depois disso foi escura, e ele se associou à escuridão. (O próprio Sol era neutro Anar ou Úr, comparar com Rana, Ithil.)]

O Sol permaneceu um Fogo Solitário, maculado por Melkor, mas após a morte das Duas Árvores Tilion retornou à Lua, que permaneceu portanto um inimigo de Melkor e seus servos e criaturas da noite – e portanto mais tarde amada pelos Elfos etc.

Após a captura da Lua Melkor começou novamente a ser mais corajoso. Ele estabelece moradas permanentes  no Norte, profundamente abaixo da terra. Dessas moradas ele procede à secreta corrupção que perverte os trabalhos dos Valar (especialmente de Aulë e Yavanna).

Os Valar ficam cada vez mais fatigados. Finalmente descobrindo Melkor e onde ele habitava procuram expulsá-lo novamente, mas Utumno se prova forte demais.

Varda preservara um pouco da Luz Primordial (sua principal preocupação original no Grande Conto). As Duas Árvores são criadas. Os Valar fazem seus locais de repouso e moradia em Valinor, no Oeste.

Um dos objetivos das Árvores (como mais tarde das Jóias) era a cura dos ferimentos de Melkor, mas isto poderia facilmente ter um aspecto egoísta: a permanência da história – não indo adiante com o Conto. Este efeito elas tiveram nos Valar. Eles se tornaram mais e mais enamorados de Valinor, e iam para lá mais freqüentemente e ficavam mais tempo. A Terra-média foi deixada com poucos cuidados, e muito pouco protegida contra Melkor.

Ao final dos Dias de Felicidade, os Valar encontraram a mesa virada. Eles foram expulsos da Terra-média por Melkor e seus espíritos malignos e monstros;  e apenas podiam ir para a Terra-média secreta e brevemente (principalmente Oromë e Yavanna).

Este período deve ser breve. Ambos os lados sabem que a chegada dos Filhos de Deus é iminente. Melkor deseja dominá-los imediatamente com medo e escuridão e escravizá-los. Ele escurece o mundo [adicionado na margem: por 7 anos?] eliminando toda a visão do céu tanto quanto pode, e no extremo sul  (é dito) isto não foi efetivo. Desde o extremo Norte (onde [eram] densas) até o meio (Endor) (11) grandes nuvens surgiram. A Lua e as estrelas estão invisíveis. O dia é apenas um pálido crepúsculo quando muito. A única luz [está] em Valinor.

Varda se eleva em poder com Manwë dos Ventos e lutam contra a Nuvem da Não-Visão. Mas tão rápido quanto ela se parte Melkor fecha a cobertura novamente – ao menos sobre a Terra-média. Então vem o Grande Vento de Manwë, e a cobertura é aberta. As estrelas brilham claras mesmo no Norte (Valakirka) e após a longa escuridão parecem terrivelmente brilhantes.

É na escuridão logo antes disso que os Elfos acordam. As primeiras coisas que eles vêem na escuridão são as estrelas. Mas Melkor traz negrumes do Leste e as estrelas desaparecem no oeste. Por isso eles pensaram desde o início da luz e beleza no Oeste.

A Chegada de Oromë.

A Terceira Batalha e o aprisionamento de Melkor. Os Eldar vão para Valinor. As nuvens lentamente se dispersam após a captura de Melkor, embora Utumno ainda as expila. É mais escuro a leste, mais distante do sopro de Manwë.

A Marcha dos Eldar é através de grandes Chuvas?

Homens despertam em uma Ilha em meio às inundações e portanto saúdam o Sol que parece vir do Leste. Apenas quando o mundo está mais seco eles deixam a Ilha e se espalham.

São apenas os Homens que encontraram Elfos e ouvem os rumores sobre o Oeste que vão naquela direção. Pois os Elfos disseram: “Se você se delicia no Sol, deve andar no caminho que ele faz”.

A chegada dos Home portanto seria bem antes (12).

Isto será melhor; pois meros 400 anos são bastante inadequados para produzir a variedade  e os avanços (por exemplo dos Edain) ao tempo de Felagund (13).

Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está em Arda? – devido à sua Queda (14). Portanto em algum momento durante a Grande Marcha.


O texto acaba aqui. Agora se segue e a narrativa associada, idêntica em aparência à discussão anterior (ambos estão escritos na mesma caligrafia bastante incomum).

Após os Valar, que antes eram os Ainur da Grande Música, terem entrado em Eä, aqueles que eram os mais nobres entre eles e compreendiam mais a mente de Ilúvatar procuraram em meio as imensuráveis regiões do Início por aquele lugar  onde deveriam estabelecer o Reino de Arda no tempo que viria. E quando eles escolheram aquele ponto e região onde deveria ela deveria existir, começaram os trabalhos que eram necessários. Existiam outros, incontáveis para nosso pensamento mas cada um conhecido e numerado na mente de Ilúvatar, cujos trabalhos ficavam em outros locais e em outras regiões e histórias do Grande Conto, entre estrelas remotas e mundos além do alcance do pensamento mais distante. Mas destes outros não sabemos nada e não podemos saber, embora os Valar de Arda, talvez, lembrem-se de todos eles.

Líder dos Valar de Arda era aquele a quem os Elfos mais tarde chamaram Manwë, o Abençoado: o Rei Mais Antigo, uma vez que ele foi o primeiro de todos os reis em [Arda>] Eä. Irmão dele era Melkor, o poderoso, e ele havia, como fora contado, caído no orgulho e no desejo de seu próprio domínio. Portanto os Valar o evitaram, e começaram a construção e ordenamento de Arda sem ele. Por essa razão é dito que apesar de agora existir grande mal em Arda e muitas coisas dentro dela estarem em discórdia, de forma que o bem para um parece ser o mal para outro, as fundações deste mundo são boas, e se voltam naturalmente para o bem, curando a si mesma com o poder que foi colocada nela em sua criação; e o mal em Arda falharia e desapareceria se não fosse renovado de fora: isto é : aquele que vem de vontades e ser [sic] outros que não a própria Arda.

E como é bem sabido, o primeiro dentre estes é Melkor. Apesar de serem imensuráveis as regiões de Eä, ainda assim no Início, quando ele poderia ter sido Mestre de tudo que fora feito – pois muitos dos Ainur da Música estavam dispostos a segui-lo e servi-lo, se ele os chamasse – mesmo assim ele não estava satisfeito. E ele procurou por Arda e Manwë, seu irmão, desejando seu reinado, embora pequeno ele pudesse parecer ao seu desejo e ao seu poder; pois ele sabia que àquele reino Ilúvatar designou a maior realeza em Eä, e sob o reino daquele trono surgiriam os Filhos de Deus. E em seu pensamento ele se enganava, pois o mentiroso deve mentir para si mesmo, ele acreditava que sobre os Filhos ele deveria ter poder absoluto e ser deles o único senhor e mestre, de maneira como ele não poderia ser para espíritos de sua própria estirpe, mesmo os subservientes a ele. Pois eles sabiam que o Um É, e devem aquiescer com a rebelião de Melkor por sua própria escolha; enquanto que ele planejava esconder dos Filhos este conhecimento e ser para sempre uma sombra entre eles e a luz.

Melkor não concebia a si mesmo como uma sombra. Pois em seu início ele amava e desejava a luz, e a forma que ele assumiu era excessivamente brilhante; e ele disse em seu coração: “Em tal brilho como o que eu sou os Filhos dificilmente suportarão olhar; portanto o conhecimento de algo mais ou além ou mesmo forçar suas pequenas menter a entender isso não seria bom para deles”. Mas o brilho menor que fica perto de um maior se torna uma escuridão. E Melkor estava ciumento, portanto, de todos os outros brilhos, e desejava tomar toda a luz em si mesmo. Por isso Ilúvatar, na entrada dos Valar em Eä, adicionou um tema à Grande Música que não estava no primeiro Cantar, e chamou um dos Ainur a ele. Este era o Espírito que mais tarde se tornou Varda (e tomando forma feminina veio a ser a esposa de Manwë). A Varda Ilúvatar disse: “Eu te darei um presente de despedida. Deverás levar a Eä uma luz que é sagrada, vindo nova de Mim, não maculada pelo pensamento e desejo de Melkor, e contigo ela deverá entrar em Eä, e ser em Eä, mas não de Eä”. Por esta razão Varda é o mais sagrado e mais reverenciado de todos os Valar, e aqueles que dizem o nome da a luz de Varda dão nome ao amor que Eru tem por Eä, e ficam temerosos, menos apenas do que de nomear o Um. Apesar de tudo este presente de Ilúvatar aos Valar tem seu próprio perigo, assim como todos os seu presentes gratuitos: que no final nada mais é do que dizer que eles têm uma parte no Grande Conto, de forma que este possa ser completo; pois sendo sem perigo eles seriam também sem poder e o ato de dar seria vazio.

Quando então finalmente Melkor descobriu a morada de Manwë e seus amigos e foi para lá com grande rapidez, como um fogo ardente. E vendo que grandes trabalhos já haviam sido realizados em o seu conselho, ele se enfureceu, e desejou desfazer tudo que fora feito ou alterar de acordo com sua própria mente.

Mas isto Manwë não iria permitir, e portanto houve guerra em Arda.  Mas, como está escrito em outro lugar, àquele tempo Melkor foi derrotado com a ajuda de Tulkas (que não estava entre aqueles que começaram a construção de Eä) e foi expulso novamente para o Vazio que circunda Arda. Esta foi chamada a Primeira Batalha; e embora Manwë tenha a vitória, grande dano foi feito ao trabalho dos Valar; e o pior dos feitos da fúria de Melkor podia ser visto no Sol. O Sol foi feito para ser o coração de Arda, e os Valar tinham o propósito de que ele deveria dar luz a todo aquele Reino, incessantemente e sem cansaço ou diminuição, e que de sua luz o mundo deveria receber bem estar e vida e crescimento. Por isso Varda colocou lá o mais ardente e belo de todos aqueles espíritos que haviam entrado com ela em Eä, e que era chamada Ar(i) (15), e Varda deixou sob seus cuidados uma porção do presente de Ilúvatar de forma que o Sol pudesse ser permanente e ser abençoado e dar bênçãos. O Sol, os mestres de conhecimento nos dizem, era no princípio chamado As (que pode ser interpretado da melhor forma possível como Calor, ao qual são assemelhados Luz e Conforto), e que o espírito portanto foi chamado Azië (ou mais tarde Arië).

Mas Melkor, como já foi dito, ansiava por toda a luz, desejando-a ciumentamente para si mesmo. Além disso ele logo percebeu que em As havia uma luz que havia sido oculta dele, a qual tinha um poder, e sobre o qual ele não havia pensado. Portanto, imediatamente cheio de desejo e ira, ele foi até Âs [escrito acima: Asa], e falou a Árië, dizendo: “Eu te escolhi, e deverás ser minha esposa, assim como Varda é para Manwë, e juntos iremos empunhar todo o poder e comando. Então o reino de Arda será meu de fato como de direito, e serás a parceira em minha glória”.

Mas Árië rejeitou Melkor e o refutou, dizendo: “Não fales de direito, coisa que há muito esquecestes. Nem para ti nem apenas por ti Eä foi feita; e não serás Rei de Arda. Cuidado, portanto; pois há no coração de As uma luz na qual não tens parte, e um fogo que não te servirás. Não ponhas tua mão nele. Pois embora teu poder possa destruí-lo, ele irá te queimar e teu brilho será transformado em escuridão”.

Melkor não deu ouvidos ao alerta dela, e falou em sua fúria: “O presente que é negado eu tomo!” e ele violentou Árië, desejando tanto humilhá-la quanto tomar para si os poderes dela. Então o espírito de Árië se elevou como uma chama de tormento e fúria, e partiu para sempre de Arda*, e o Sol foi destituído da Luz de Varda, e foi manchado pelo ataque de Melkor. E ficando por longo tempo sem comando ele queimava com calor excessivo ou ficava frio demais, tão sério era o dano feito a Arda e a forma do mundo foi desfigurada e atrasada, até que com grande esforço os Valar estabeleceram uma nova ordem+. Mas assim como Arie previu, Melkor foi queimado e seu brilho escureceu, e ele não brilhava mais, e a luz doía excessivamente nele, e ele a odiava.

Apesar de tudo Melkor não deixaria Arda em paz; e acima de tudo ele invejava aos Valar suas moradas na Terra, e desejava ferir seus trabalhos lá, ou transformá-los em nada, se pudesse. Portanto ele retornou para a Terra, mas por medo do poder dos Valar e de Tulkas acima de tudo ele, desta vez chegou em segredo. E em seu ódio do Sol ele foi para o Norte à noite no inverno. Inicialmente ele partia quando o longo dia do verão chegava; mas após algum tempo, se tornando corajoso novamente, e desejando um local de moradia seu, ele começou a escavação subterrânea de sua grande fortaleza no extremo Norte, que mais tarde foi chamada Utumno (ou Udun).

(* [nota marginal] De fato alguns dizem que ela foi liberta de Eä.)
(+ [nota marginal] Também alguns dos Sábios disseram que a ordenação de Arda, no que se refere ao local e curso de suas partes, foi desorganizada por Melkor, de forma que a Terra algumas vezes chegava perto demais do Sol, e em outras ficava distante demais.)

Então os Valar, quando ficaram cientes através dos sinais malignos que foram vistos sobre a Terra de que Melkor secretamente retornara, procuram por ele em vão, embora Tulcas e Oromë tenham vagado por toda a Terra-média até o extremo Leste. Quando eles perceberam que Melkor agora usava a escuridão e a noite para seus propósitos, assim como ele anteriormente empunhava a chama, eles se entristeceram,  pois era parte de seu planejamento que deveria haver mudanças e alterações na Terra, sem dia perpétuo nem noite sem fim *. Pois através da Noite os Filhos de Arda deverão conhecer o Dia, e descobrir e amar a Luz; e mesmo a Noite deveria a seu próprio modo ser boa e abençoada, sendo um tempo de repouso, e de introspecção, e também uma visão de coisas elevadas e belas que estão além de Arda, mas são ocultas pelo esplendor de Anar. Mas Melkor a transformaria em um tempo de perigos invisíveis, de medo sem forma, uma vigília insegura; ou um sonho assombrado, levando através desespero à sombra da Morte.

(* [nota de rodapé ao texto] Pois isto era demandado pela natureza de Eä e a Grande História de que nada pudesse permanecer imutável no tempo, e coisas que o fizessem, ou parecessem fazê-lo, ou buscassem fazê-lo, se tornariam um cansaço, e não seriam mais amadas (ou, no melhor caso, negligenciadas).)

Por isso Manwë se aconselhou com Varda, e eles chamaram o auxílio de Aulë. E eles resolveram alterar o comportamento de Arda e da Terra, e em seus pensamentos eles conceberam Ithil, a Lua.  De que forma e com quais esforços eles criaram este grande artefato de seus pensamentos, quem poderá dizer: pois quais dentre os Filhos viram os Valar no ápice de seus poderes ou ouviu seus conselhos na flor de suas juventudes? Quem observou seus esforços enquanto trabalhavam, quem viu a novidade do novo?

Alguns dizem que foi da própria Terra (16) que Isil foi feita, e assim Ambar (17) foi diminuída; outros dizem que a Lua foi feita de coisas iguais à da Terra e das quais é feita a própria Eä no Conto (18).

Agora quanto a Luz estava totalmente completa ela foi colocada acima de Ambar, e direcionada para ir sempre ao redor e retornar, trazendo luz a locais escuros dos quais o Sol partira. Mas era uma luz menor, de forma que o luar não era o mesmo que a luz do sol, e mesmo assim havia mudança de luz sobre a Terra; além disso continuava também a noite sob as estrelas, pois a Lua e o Sol em certos tempos estavam ambos ausentes.

Pelo menos é isto que veio a ser pela profecia dita por Ilúvatar….. o mal de Melkor deveria em sua própria malícia trazer coisas mais belas do que o planejado por ele… Pois alguns afirmam que a Lua estava inicialmente em chamas, mas foi mais tarde tornada [?forte] e vida..: mais tarde, mas enquanto Arda estava sem direção e continuava nos tumultos de Melkor.

Tal é conhecido dos Sábios, que Tilion – [sic] e que Melkor se encheu de uma nova fúria com o nascer da Lua. Portanto por algum tempo ele novamente deixou Ambar e foi para a Noite Exterior, e reuniu para si alguns daqueles espíritos que responderam seu chamado.


Uma página de notas rápidas e disconexas obviamente precedeu este texto, mas deve pertencer mais ou menos ao mesmo tempo: idéias encontradas na discussão e sinopse precedendo a narrativa também são encontradas aqui, tais como “grande escuridão de sombra” criada por Melkor que obstruiu o Sol. Nestas notas continuava perguntando a si mesmo se ele deveria “manter o antiga história mitológica da criação do Sol e da Lua, ou alterar o pano de fundo para uma versão ‘terra redonda'”, e observando que neste caso a Lua seria um trabalho de Melkor para propiciar um ‘refúgio seguro’ – dessa forma retornando à idéia da origem da Lua encontrada anos antes no texto C* do Ainulindalë ($31). Dúvidas e ausência de uma direção certa estão fortemente presentes, enquanto ele lutava com os intratáveis problemas colocados pela presença no Sol nocéu sob o qual os Elfos acordaram, e que estava iluminado apenas pelas estrelas (19).

Há certas características no atual texto que claramente o associam com o Comentário sobre o
Athrabeth (ver notas 2 e 3 abaixo), entre eles o uso do nome Arda para significar o Sistema Solar; mas enquanto que a Terra é chamada de Imbar nos Comentários ela tem aqui o nome mais antigo de Ambar (ver nota 17). Não há dúvidas, acho eu, que o presente texto é o mais antigo dos dois. Por outro lado, nenhuma outra apresentação mais completa ou finalizada das novas concepções em geral, a “nova mitologia”, existe; parece razoável que enquanto estava comprometido em mente com o abandono do antigo mito da origem do Sol e da Lua meu pai deixou em suspenso a formulação e expressão do novo. Pode ser que, embora eu não tenha evidência sobre a questão para um ou outro lado, que ele tenha vindo a perceber a partir de tal escrita experimental como este texto que a antiga estrutura era por demais compreensiva, por demais interconectada em todas as suas partes, de fato suas raízes profundas demais, para suportar tal cirurgia devastadora.


NOTAS


1.
No AAm $15 “aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram” à luz das Lâmpadas: aquela foi a Primavera de Arda. Mas depois da destruição das Lâmpadas Yavanna “adormeceu muitas coisas belas que surgiram durante a Primavera, tanto árvore e erva e besta e pássaro, de forma que não envelheceriam mais e aguardariam por um tempo de acordar que ainda estava por vir” ($30).


2.
Sobre o conhecimento astronômico ser presumido entre os Alto-elfos veja Nota 2 do Comentário sobre o Athrabeth - onde, como aqui, Arda é igualada ao Sistema Solar – e o Texto I do Mitos Transformados.


3.
A idéia deste parágrafo é paralelada na Nota 2 do Comentário sobre o Athrabeth, e a sentença final é bastante similar ao que é dito no próprio Comentário (“Melkor não era apenas um Mal local na Terra…”).


4.
No AAm $24 é dito que após a Queda das Lâmpadas a “Terra-média ficou num crepúsculo sob as estrelas que Varda fizera nas eras esquecidas de seus trabalhos em Eä”, e em $34 Varda olho de cima de Taniquetil e “contemplou a escuridão da Terra sob as estrelas inumeráveis, fracas e distantes”, antes de começar a fazer estrelas novas e mais brilhantes; desta forma também é no Quenta Silmarillion ($19): “Então Varda fez novas estrelas e mais brilhantes devido à chegada dos Primogênitos. E por esta razão ele cujo nome vindo das profundezas do tempo e dos trabalhos de Eä era Tintalle, a Acendedora, que mais tarde foi chamada pelos Elfos Elentári, a Rainha das Estrelas”. Mas se ela talvez ainda pudesse ser chamada Elentári, ela não mais poderia ser chamada Tintalle (contudo, ver nota 3).

Na edição posterior do texto final D do Ainulindalë ($36) as palavras relativas a Varda “ela foi quem construiu as Estrelas” foi alterado para “ela foi quem construiu as Grandes Estrelas”; é possível que isso tenha sido feito à luz das idéias apresentadas aqui.


5.
Compare a Nota 2 de Comentário sobre o Athrabeth, com a  note 13 e com este trecho.


6.
Isto é, claro, bastante diferente da forma da lenda no Ainulindalë ($23): “Mas Melkor, também, estava lá desde o início, e ele interferiu em tudo que foi feito”; enquanto que no texto C* Melkor entrou em Arda antes dos demais Ainur.


7.
A lenda em no Ainulindalë C* de que o próprio Melkor fez a Luz de forma que ele “pudesse observar de lá tudo que acontecesse embaixo” ($31) foi abandonada.


8.
No AAm ($172) e no QS ($75) Tilion não era um Vala, mas “um jovem caçador da companhia de Oromë”. Em AAm $179 aparece a história de que Morgoth atacou Tilion, “enviando espíritos de sombra contra ele”, mas sem sucesso.


9.
Sobre os nomes do Sol e da Lua ver QS $75 e o comentário (HoME V) e a revisão posterior daquele trecho; e também AAm $171 e comentário.


10.
No AAm ($179) é dito que “Arien Morgoth temia com grande medo, e não ousava se aproximar dela”.


11.
Sobre o nome Endor ver AAm $38.


12.
Ver Athrabeth Finrod ah Andreth, nota 16.


13.
“ao tempo de Felagund”: isto é, ao tempo em que Finrod Felagund encontrou os Homens, o primeiro dos Alto-elfos a fazê-lo.


14.
“Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está em Arda?”: “Arda” deve ser um erro para “Terra-média” (isto é, ante de seu aprisionamento em Aman).


15.
Um s a lápis está sobre o r de Ar(i).


16.
Acima de Terra meu pai escreveu Ambar, então o riscou, e escreveu “Mar = Casa”. Veja a próxima nota.


17.
Na Nota 2 do Comentário sobre o Athrabeth (e veja nota 12 daquele trecho) aparece Imbar, traduzido “a Habitação”, =Terra, “a principal parte de Arda” (= o Sistema Solar).


18.
A partir deste ponto o manuscrito se torna bastante irregular, ilegível em alguns locais, e logo se encerra.


19.
Em outras notas rápidas (escritas ao mesmo tempo em que o texto II e constituindo uma parte do manuscrito) meu pai escreveu que Varda deu a luz sagrada recebida como um presente de Ilúvatar não apenas ao Sol e às Duas Árvores mas também para a “importante Estrela”. O significadodisso nãoé explicado em parte alguma. Abaixo disso ele escreveu Signifer e muitos nomes Élficos experimentais, como Taengyl, Tengyl, Tannacoli ou Tankol, Tainacolli; e também uma raiz verbal tana “mostrar, indicar”; tanna “sinal”; e kolla “usar, vestir, especialmente uma vestimenta ou capa”, com a nota “Sindikoll-o é masculinizado”.

Textos de Apoio

Os Anais de Aman – Terceira Seção

The History of Middle-earth X - Morgoth's Ring
A Valinor tem a honra de prosseguir com a publicação da tradução dos Anais de Aman,
um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a
Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. O texto está dividido em seis partes,
publicadas quinzenalmente na Valinor (a primeira se encontra aqui e a segunda aqui). Esta terceria parte engloba o período desde o Acorrentamento de Melkor até a partida do último Vanyar de Tirion.
 
 

Terceira Seção dos Anais de Aman


1100

 
O Acorrentamento de Melkor


$51    Então os Valar retornaram à Terra de Aman, e Melkor foi levado cativo, com pés e mãos amarrados e olhos vendados; e foi levado ao Círculo do Destino. Lá se atirou sobre o próprio rosto aos pés de Manwë,  pediu perdão e liberdade, relembrando seu parentesco com Manwë. Mas seu pedido foi negado, e é dito que naquela hora os Valar teriam de bom grado o condenado à morte. Mas morte ninguém poderia impor a qualquer um da raça dos Valar, nem ninguém podia, à exceção de Eru, removê-los de Eä, o Mundo que é, eles desejando ou não. Portanto Manwë colocou Melkor na prisão, e ele foi encerrado na fortaleza de Mandos, de onde ninguém pode escapar.

$52    E os Valar condenaram Melkor a permanecer lá por três eras de Valinor, quando então deveria retornar e ser julgado por seus pares, e pedir novamente perdão. E isto foi feito, e a paz retornou ao reino de Arda; e este foi o Meio Dia do Reino Abençoado. Mas muitas coisas malignas que haviam fugido da ira dos Senhores do Oeste ainda vagavam pela Terra-média, ou estavam escondidas nas profundezas da terra. Pois os porões de Utumno eram muitos e dissimuladamente ocultos, e nem todos foram descobertos pelos Valar.

1101

$53    Então os Valar sentaram-se novamente em Conselho e debateram o que deveriam fazer para o conforto e condução dos Filhos de Ilúvatar. E finalmente, devido ao grande amor que os Valar tinham pelos Quendi, enviaram chamados a eles, requisitando que se mudassem e morassem em felicidade em Aman e na Luz das Árvores. E Oromë levou a mensagem dos Valar a Kuiviénen.


1102

$54    Os Quendi ficaram consternados com os chamados dos Valar, e não estavam dispostos a partir da Terra-média. Portanto Oromë foi enviado de novo a eles, e escolheu dentre eles embaixadores que deveriam ir a Valinor e falar por seu povo. Mas apenas três dos líderes dos Quendi estavam dispostos a se aventurar na jornada: Ingwë, Finwë e Elwë, que mais tarde se tornaram reis.


$55
    Os três senhores Élficos foram levados, portanto, a Valmar, e lá falaram com Manwë e os Valar; e ficaram maravilhados, e a beleza e o esplendor da terra de Valinor sobrepujou seus medos, e eles desejaram a Luz das Árvores.


1104

$56    E após terem residido em Valinor por algum tempo Oromë os levou de volta a Kuiviénen, e eles falaram a seus povos e os aconselharam a acatar os chamados dos Valar e mudar para o Oeste.

1105

$57    Então ocorreu a primeira divisão do povo Élfico. Pois o povo de Ingwë e a maior parte dos povos de Finwë e Olwë foram convencidos pelas palavras de seus senhores e estavam dispostos a partir e seguir Oromë. Estes ficaram conhecidos para sempre como os Eldar, o nome que Oromë deu na própria língua deles. Mas os povos de Morwë e Nurwë não estavam dispostos a partir e recusaram os chamados, preferindo a luz das estrelas e os amplos espaços da Terra aos rumores sobre as Árvores. Estes eram os que residiam mais longe das águas de Kuiviénen, vagando pelas colinas, e não haviam visto Oromë em sua primeira vinda e dos Valar eles não sabiam mais do que formas e rumores de fúria e poder enquanto marchavam para a guerra. E possivelmente as mentiras de Melkor sobre Oromë e Nahar (que acima foram relembradas) ainda vivessem entre eles, de forma que eles o temiam como a um demônio que os devoraria (1). Estes são os Avari, os Relutantes, e eles foram separados àquele tempo dos Eldar,  e não mais se encontraram até muitas eras terem passado.


$58
    Os Eldar então se prepararam para sua Grande Marcha, e partiram em três grupos. Primeiro vieram os Vanyar, os mais ávidos pela estrada, o povo de Ingwë. A seguir vieram os Noldor, um grupo maior (embora alguns tenha ficado para trás), o povo de Finwë. Por último vieram os Teleri, e eles eram os menos dispostos. Mesmo assim o grupo deles que começou a Marcha era o maior de todos, e por isso tinham dois senhores: Elwë Singollo e Olwë, seu irmão. E quando tudo foi preparado Oromë cavalgou Nahar à frente deles, branco sob a luz das estrelas. E eles começaram sua longa jornada e passaram pelo Mar de Helkar onde eles viraram um pouco a oeste (2). E é dito que adiante deles ainda havia grandes nuvens negras no Norte, sobre as ruínas da guerra, e as estrelas naquela região estavam ocultas. Então não poucos ficaram com medo e se arrependeram e voltaram e estão esquecidos.

1115

$59    Longa e lenta foi a Marcha dos Eldar para o Oeste, pois as léguas da Terra-média eram incalculáveis,  cansativas e sem caminhos. E os Eldar não desejavam se apressar, pois estavam maravilhados com tudo que viam, e em muitas terras e rios eles de bom grado residiriam; e embora todos ainda estivessem dispostos a vagar, não poucos mais temiam o fim de sua jornada do que a desejavam. Portanto, sempre que Oromë partia, como às vezes ele fazia, tendo outros assuntos a atender, eles paravam e não avançavam mais até que ele retornasse a guiá-los.


$60
    E veio a acontecer que após dez Anos viajando desta forma (que é o mesmo que dizer cerca de cem anos na nossa maneira atual de contar o tempo) os Eldar atravessaram uma floresta e chegaram a um grande rio, maior e mais largo do que todos que já haviam visto. Além dele havia montanhas cujos picos pontiagudos pareciam perfurar o reino das estrelas (3).

$61    Este rio, é dito, era o mesmo rio que mais tarde foi chamado de Anduin o Grande, e foi sempre a fronteira das Terras Ocidentais da Terra-média. E as montanhas eram as Hithaeglir, as Torres de Névoa sobre os limites de Eriador; mas eram mais altas e mais terríveis naqueles dias, pois foram elevadas por Melkor para obstruir as cavalgadas de Oromë (4). Então os Teleri residiram por um longo tempo na margem leste do Rio e desejaram permanecer lá, mas os Vanyar e Noldor atravessaram o Rio com a ajuda de Oromë, e ele os conduziu aos paços das montanhas (5). Mas quando Oromë partiu à frente os Teleri olharam as alturas enevoadas e tiveram medo.


$62
    Então se rebelou um no grupo de Olwë, que sempre foi o mais atrasado na marcha, e seu nome era Nano (ou Dan na língua de seu próprio povo). E ele abandonou a marcha para o oeste, e, conduzindo um povo numeroso, foram para o sul acompanhando o rio e saíram do conhecimento dos Eldar até que muitos anos se passaram. Estes eram os Nandor.


1125

$63    E quando mais dez anos de passaram, os Vanyar e Noldor ultrapassaram finalmente as montanhas que ficavam entre Eriador e a terra mais ocidental da Terra-média, que mais tarde os Elfos chamaram de Beleriand. As companhias mais avançadas passaram sobre o Vale do Sirion e chegaram ao litoral do Grande Mar. Então um grande medo se abateu sobre eles, e muitos se arrependeram amargamente de sua jornada e recuaram para as florestas de Beleriand. E Oromë retornou a Valinor para buscar o conselho de Manwë.


1128

$64    Então o grupo dos Teleri chegou finalmente a Beleriand e residiu na região mais a leste além do Rio Gelion. Eles chegaram a contra-gosto, sendo incentivados por Elwë seu rei; pois ele estava ávido para retornar a Valinor e para a luz que ele vislumbrou (embora seu destino o proibisse); e ele desejou não ser separado dos Noldor, pois tinha grande amizade com Finwë seu senhor.

1130

$65    Há este tempo Elwë se embrenhou nas florestas de Beleriand e se perdeu, e seu povo o procurou longamente em vão. Pois enquanto viajava para casa de um encontro com Finwë, ele passou pelas bordas de Nan Elmoth. Lá ouviu os rouxinóis cantando e foi enfeitiçado, pois eram os pássaros de Melian a Maia, que veio dos jardins de Lórien no Reino Abençoado. E Elwë seguiu os pássaros para dentro de Nan Elmoth, e lá viu Melian parada em uma clareira aberta sob o céu, e uma névoa iluminada pelas estrelas estava ao redor dela. Assim começou o amor de Elwë Capacinzenta e Melian a bela; e ele tomou sua mão e é dito que assim eles permaneceram enquanto as estrelas mediram a passagem de muitos Anos, e as árvores de Nan Elmoth cresceram altas e escuras ao redor deles.


1132

$66    Então Ulmo, pelo conselho dos Valar, veio ao litoral da Terra-média e falou com os Eldar; e devido às suas palavras e à música que fez para eles com suas conchas, seu medo do Mar se transformou em desejo. Então Ulmo e seus servos pegaram uma ilha que por muito permanecera solitária no meio do Mar desde os tumultos com a queda de Illuin, e a moveram, e a trouxeram para a baía cinzenta de Balar, como se fosse um poderoso navio. E os Vanyar e os Noldor embarcaram na ilha, Eressëa, que foi levada sobre o Mar e chegou finalmente à terra de Aman (6). Mas os Teleri permaneceram na Terra-média; pois muitos moravam em Beleriand Leste e não ouviram os chamados de Ulmo até ser tarde demais; e muitos ainda procuravam por Elwë Singollo, seu rei, e não partiriam sem ele. Mas quando os Teleri souberam que Ingwë e Finwë e seus povos haviam partido, eles correram para o litoral e lá residiram desejando estar com seus amigos que partiram. E tomaram Olwë, irmão de Elwë, como seu rei. E Ossë e Uinen foram a eles e fizeram amizade e os ensinaram tudo sobre conhecimento e música do mar. Por isso os Teleri, que desde o início amavam a água e eram os mais belos cantores do povo Élfico, ficaram enamorados dos mares e suas canções eram repletas do som das ondas no litoral.

1133

$67    Neste Ano os Vanyar e os Noldor chegaram a Aman, e a passagem de Kalakiryan (7) foi feita nas Pelóri; e os Elfos tomaram posse de Eldamar, e começaram a construção na colina verdejante de Tuna com vista ao Mar. E sobre Tuna eles levantaram os muros brancos da Cidade Vigilante, Tirion a Sagrada.


1140

$68    Neste ano Tirion estava completamente construída e a Torre de Ingwë foi feita, Mindon Eldaliéva, e sua lâmpada prateada acesa. Mas Ingwë e muitos dos Vanyar ansiavam pela Luz das Árvores, e ele e muitos de sua casa partiram para Valinor, e moraram para sempre com o povo de Manwë. E embora outros dos Vanyar ainda morassem em Tirion por amizade aos Noldor a separação destes grupos e de sua língua começara; pois de tempos em tempos ainda mais dos Vanyar partiam.

1142

$69    Neste ano Yavanna deu aos Noldor a Árvore Branca, Galathilion, imagem da Árvore Telperion, que foi plantada abaixo da Mindon e cresceu e floresceu.

1149

$70    Neste ano Ulmo ouviu aos pedidos de Finwë e voltou à Terra-média para trazer Elwë e seu povo para Aman, se quisessem ir. E a maioria deles de fato agora queria; mas Ossë se entristeceu. Pois seu cuidado era para com os mares da Terra-média e o litoral das Terras de Fora, e ele ia raramente a Aman, a não ser se chamado a conselho; e ele estava descontente que as belas vozes dos Teleri não seriam mais ouvidas na Terra-média. Alguns ele convenceu a ficar, e estes foram os Eldar que por muito habitaram as costas de Beleriand, os primeiros marinheiros sobre a terra e os primeiros construtores de navios. Seus portos eram em Brithombar e Eglarest. Cirdan o Armador era seu senhor.

1150


$71
    Os parentes e amigos de Elwë também não estavam dispostos a partir; mas Olwë estava e finalmente Ulmo tomou a todos que embarcaram em Eressëa e os levou por sobre as profundezas do Mar. E os amigos de Elwë foram deixados para trás e por isso se nomearam, em sua própria língua, os Eglath, o Povo Esquecido. E eles ainda procuravam por Elwë, tristemente. Mas não era seu destino jamais retornar a ver a Luz das Árvores, embora ele desejasse isso grandemente. Mas a Luz de Aman estava na face de Melian a bela, e naquela luz ele estava satisfeito.

1151

$72    Então Ossë seguiu os Teleri e quando eles chegaram à Baía de Eldamar ele os chamou, e eles reconheceram sua voz, e imploraram a Ulmo para interromper sua viagem. E Ulmo permitiu, e a seu comando Ossë fixou a ilha e a enraizou nas fundações do Mar; e lá os Teleri residiriam como quiseram sob a luz das estrelas do céu e ainda assim à vista de Aman e do litoral imortal; e eles podiam ver ao longe a Luz das Árvores ao passar através do Kalakiryan, marcando as ondas escuras com prata e ouro.
                                                                    
$73    Ulmo atendeu o pedido com presteza, pois compreendia o coração dos Teleri, e no conselho dos Valar principalmente ele havia falado contra os chamados, considerando que seria melhor para os Quendi permanecerem na Terra-média. E os Valar ficaram pouco contentes ao saber o que ele havia feito; e Finwë lamentou que os Teleri não viessem e ainda mais quando soube que Elwë fora esquecido, e soube que não o veria novamente, a não ser nos salões de Mandos.


1152

       
$74    A este tempo Elwë Singollo, como é dito, acordou de seu transe, e residiu com Melian nas florestas de Beleriand. E ele era um grande senhor e nobre, o maior em estatura dentre todos os Filhos de Ilúvatar,  como um senhor dos Maiar; e um grande destino estava reservado a ele. Pois ele se tornou um rei renomado, e seu povo era formado por todos os Eldar de Beleriand; eles foram chamados de Sindar, os Elfos Cinzentos, os Elfos do Crepúsculo, e Rei Capacinzenta ele era, Elu Thingol na língua dos Sindar. E Melian era sua Rainha, mais sábia do que qualquer filho da Terra-média; e do amor de Thingol e Melian veio ao mundo o mais belo de todos os Filhos de Ilúvatar que jamais haveria de existir.
                                                            

1161

$75    Veio a acontecer que após os Teleri terem morado na Ilha Solitária por uma centena de anos segundo as nossas contagens seus corações mudaram, e eles foram movidos em direção à Luz que fluía de Aman. Então Ossë (8) ensinou a eles a arte da construção de navios, e quando seus navios estavam prontos ele trouxe, como um presente de despedida, muitos cisnes de asas fortes. E os cisnes puxaram os navios brancos dos Teleri por sobre o mar sem vento. Então finalmente e por último chegaram a Aman e ao litoral de Eldamar, e lá os Noldor os recepcionaram com alegria.

1162

$76    Neste ano Olwë senhor dos Teleri, com a ajuda de Finwë e dos Noldor, começou a construção de Alqualondë, o Porto dos Cisnes, no litoral de Eldamar, a norte do Kalakiryan.


1165

$77    Neste ano o último dos Vanyar partiu de Tirion, e os Noldor residiriam lá sozinhos, e suas conversas e amizade a partir de então foi com os Teleri.

 

NOTAS

1. Esta sentença é uma interpolação no manuscrito, e é uma reescrita de uma interpolação anterior:

    E este, talvez, foi também um dos primeiros resultados das mentiras de Melkor para enganar os Quendi, pois apesar de sua permanência temporária entre eles muitos ainda o temiam e a Nahar sua montaria.

A versão datilografada tem a forma dada no texto.

2. Esta é uma modificação de ‘foram a norte até Helkar ser ultrapassado e depois noroeste’, o texto datilografado tem a sentença modificada.

3. Meu pai acrescentou rapidamente aqui, usando uma caneta esferográfica e portanto aparentemente muito mais tarde (ver p. 102, $78):

    Aqui residiram por um ano, e aqui Indis esposa de Finwë deu a ele um filho, o mais velho de todos da segunda geração dos Eldar. Ele foi inicialmente chamado Minyon Primeiro-nascido, mas depois Curufinwë ou Fëanor.

    Isto foi riscado, talvez tão logo quanto escrito, ver nota 5.

4. ‘e elas foram elevadas por Melkor para obstruir as cavalgadas de Oromë’ é uma adição a lápis que aparece como texto normal na versão datilografado.

5. Adicionado aqui ao texto ao mesmo tempo e da mesma forma que o trecho dado na nota 3 (e riscado ao mesmo tempo em que este):

Aqui Indis esposa de Finwë foi perdida, e caiu de uma grande altura. Seu corpo foi encontrado em uma ravida profunda e lá enterrado. E quando Finwë não queria mais seguir, e desejou permanecer lá, Oromë falou com ele do destino dos Quendi e de como eles poderiam retornar, se desejassem, após um certo tempo.  Pois seus espíritos não morrem e não deixam Arda, e por ordem de Eru um local de residência foi feito para ele em Aman. Então Finwë ficou ávido por seguir adiante.

6. Após isto existe no manuscrito: ‘e Ingwë e sua casa foram a Valinor, e moraram para sempre com o povo de Manwë’. Isto foi riscado e não aparece na versão datilografada, mas reaparece no registro para 1140.

7. Kalakiryan é uma correção a lápis para Kalakirya, e para ocorrências subseqüentes (mas bem ao final dos Anais, p. 133, $180, Kalakiryan é a forma usada no manuscrito).

8. Ulmo no manuscrito como escrito inicialmente, alterado logo para Ossë.


Comentários sobre a terceira seção dos


Anais de Aman

Esta seção de AAm corresponde ao Capítulo 3 do QS Da Chegada dos Elfos (incluindo 3(b) De Thingol e 3(c) De Kôr e Alqualondë) de $22 a $39 e elementos de $$43-5, e até AV 2, Anos dos Valar 1980 – 2111. Estes textos são encontrados em V.213 ff., 112 – 13.

Uma comparação apressada mostra que uma ocorreu uma ampliação extensão geral e em certos detalhes; e apesar de um desenvolvimento concorrente ter ocorrido também na tradição ‘Silmarillion’ (com o qual AAm não tem poucas frases em comum), AAm é uma narrativa bastante distinta, com um grande número de características ausentes em outras tradições e algumas divergências. Aqui, como antes, eu cito os desenvolvimentos mais importantes no AAm com relação às narrativas pré-Senhor dos Anéis; e em muitos casos eu me limito a uma simples referência aos novos elementos que entraram nas lendas, ficando implícito em tais casos que o assunto em questão é completamente novo.

$51    Melkor implorou por perdão no Círculo do Destino, os Valar desejaram condená-lo à morte, mas ninguém pode matar qualquer um da raça dos Valar, nem removê-los de Ea, a não ser Eru.


$52
    Melkor foi condenado por Mandos a três eras (trezentos Anos dos Valar), em AV 2 e em QS ($47) ele foi condenado a sete eras.


$54
    Elwë, o terceiro dos ‘embaixadores’, é agora o próprio Thingol, enquanto que no QS ele era o irmão de Thingol, ver V.217 $ 23, e confira AV 2 (V.112): ‘Thingol, irmão de Elwë, senhor dos Teleri’. O irmão de Elwë-Thingol agora se torna Olwë ($58).


$57
    Apenas ‘a maior parte’ dos povos de Finwë e Olwë desejavam partir. Os Avari eram o povo de Morwë e Nurwë (e presumivelmente aqueles dos outros povos que não partiriam); e uma explicação é dada para sua não partida: eles residiam mais longe de Kuiviénen e não viram Oromë em sua primeira vinda.

$58    O Primeiro Grupo agora recebe o nome Vanyar, e não Lindar com antes (confira p. 34, $36). O Terceiro Grupo, os Teleri, tinham dois senhores, os irmãos Elwë e Olwë, e Elwë é agora chamado Singollo (‘Capacinzenta’, $65, em QS Sindo ‘o Cinzento’, $30). – A rota tomada pelos Eldar na Grande Marcha é descrita (e concorda bastante bem com o caminho mostrado no mapa do Ambarkanta, IV.249). Muitos desistiram com medo das grandes nuvens que ainda permaneciam no Norte.

$59    A lentidão da jornada é descrita: o maravilhamento dos Elfos, a relutância de muitos em completar a jornada, as longas paradas. A jornada tomou vinte Anos dos Valar; em AV 1 ele demora dez (IV.272), e aparentemente o mesmo em AV 2.


$$60-1
    Nomes importantes entram a partir de O Senhor dos Anéis: Anduin, Eriador, Hithaeglir (‘as Torres de Névoa’); a floresta a leste do rio não é nomeada, mas é claro que é a Floresta das Trevas. A origem das Hithaeglir é contada: elas foram elevadas por Melkor para obstruir as cavalgadas de Oromë.  Eu observei (IV. 256-7) em conexão com o mapa do Ambarkanta que não há sinal ali das Montanhas Nebulosas ou do Anduin (que apareceu inicialmente, assim como a Floresta das Trevas, em O  Hobbit, onde o rio é chamado de Grande Rio das Terras Ermas).

    Os Teleri permaneceram na margem leste do Anduin enquanto os Vanyar e os Noldor cruzaram o rio e subiram às passagens das Montanhas Nebulosas.


$63
    É a este ponto da Grande Marcha que os Nandor se separaram, e vão ao sul acompanhando o Anduin; eles eram dos Teleri (do grupo de Olwë), e o nome de seu líder era Nano, ou Dân na fala de seu próprio povo. Em QS ($28) e AV 2 este povo era dos Noldor, e em QS eles eram chamados Danas em sua própria língua, devido ao seu primeiro líder, Dân, similarmente ao Lhammas (V. 175-6). O nome Nandor não aparecer nestes textos, mas veja o Etimologias, raízes DAN e NDAN (V.353, 375), e também V.188.


$63
    O medo do Mar entre os Vanyar e Noldor fez muitos fugirem do litoral para as florestas de Beleriand, e Oromë retornou a Valinor em busca do conselho de Manwë.


$64
    Os Teleri relutantemente chegaram a Beleriand, incentivados por Elwë, e residiram inicialmente no leste, além do Rio Gelion. Elwë tinha grande amizade para com Finwë.


$65
    Elwë estava viajando de volta para casa de um encontro com Finwë quando entrou em Nan Elmoth. Este nome surge inicialmente na re-escrita pós-Senhor dos Anéis da Balada de Leithian (III.346 – 7, 349). Em QS ($32) não é dito onde o encontro de Thingol e Melian ocorreu, em AV 2 ‘Melian o encantou nas florestas de Belerian’. O transe no qual Elwë caiu durou muitos Anos dos Valar (registros 1130, 1152:  o que é mais do que dois séculos medidos pelo Sol).


$66
    Ulmo fez música para os Elfos e tornou seu medo do Mar em desejo. Os Teleri chegaram ao litoral do Mar quando ouviram que os Vanyar e Noldor partiram, e tomaram Olwë como seu rei.


$67
    O nome Kalakilya ‘Fenda de Luz’ é encontrado em QS e no Lhammas; confira Quenya kilya ‘fenda, passo entre colinas, ravina’, no Etimologias, raiz KIL (V.365). A forma no AAm, Kalakiryan, alterado rapidamente para Kalakirya (ver nota 7 acima).

    ‘Os Elfos tomaram posse de Eldamar, e começaram a construção na colina verdejante de Tuna'; confira também $$75-6 ‘o litoral, a costa, de Eldamar’. Isto contradiz a nota de rodapé em QS $39 (nunca alterada subseqüentemente, p. 176), onde Eldamar é um nome da cidade Élfica em si e Eldanor ou Elende a região onde os Elfos residiam (anteriormente, no mapa do Ambarkanta (IV.249), Casadelfos era nomeada Eldaros). O uso aqui (encontrado também na Balada de Leithian reescrita) é de fato uma reversão para o mais antigo significado de Eldamar; ver 1.251.

    A cidade é agora Tirion sobre Tuna, não Tuna sobre Kor, ver QS $39 e comentários, e também 1.258 (Kortirion). Mas meu pai continuou a usar Tuna também como o nome da cidade: por exemplo p. 97, $101, onde Melkor fala das palavras de Feanor ‘em Tuna’. Tirion é chamada aqui Tirion a Sagrada, assim no na canção de Bilbo em Valfenda. (VII.93, 98, 101).

$68    A Torre de Ingwë (Ingwemindon no QS) é agora Mindon Eldaliéva. No AAm Ingwë e ‘muitos de sua casa’ se mudaram de Tirion apenas sete Anos dos Valar depois da chegada dos Vanyar e Noldor a Aman, e no ano do término de Tirion e do acender da lâmpada de Ingwë; e a partida dos demais Vanyar é representado como um longo movimento durante 25 Anos dos Valar (ver $77). No QS ($45) uma impressão diferente é dada, pois é dito que ‘com o passar das eras os Lindar começaram a amar a terra dos Deuses e a luz plena das Árvores, e eles esqueceram a cidade de Tuna’.


$69
    Em QS ($16) Galathilion é o nome Gnômico de Silpion (Telperion), e não há menção de uma ‘imagem’ da Árvore Mais Velha sendo dada por Yavanna aos Noldor de Tirion (ver IX.58).

$70    O retorno de Ulmo ao litoral da Terra-média foi devido aos pedidos de Finwë. A afirmação de que Ossë ‘ia raramente a Aman, a não ser se chamado a conselho’ reflete a preservação no AAm (p. 48, $1) de sua antiga posição como um dos Valar. O meridional Porto de Falar agora reverte para a forma Eglarest, que precedeu o Eglarost de QS e AV 2. Círdan o Armador, senhor dos Portos, aparece do Senhor dos Anéis.


$71
    Embora não seja dito no QS que quaisquer outros dos Teleri, além dos Elfos de Falas, permaneceram na Terra-média quando Ulmo retornou, mas apenas aqueles do povo de Thingol ‘que procuravam por ele em vão’ ($32), é dito no Lhammas $6 (V.174) que Thingol era ‘rei em Beleriand dos muitos Teleri que … permaneceram em Falasse, e de outros que não partiram porque se demoraram procurando por Thingol nas florestas’. Em AAm ‘os parentes e amigos de Elwë também não desejavam partir’, e foram deixados para trás, e chamaram a si mesmo de Eglath, o Povo Esquecido.


$$72-3
    Ulmo concedeu rapidamente o pedido dos Teleri, pois ele tinha se oposto ao chamado dos Quendi a Valinor, e Ossë enraizou Tol Eressea no fundo do mar ao comando de Ulmo; mas os Valar não ficaram satisfeitos, e Finwë se entristeceu (principalmente pelo conhecimento de que Elwë Singollo seu amigo não estava em Tol Eressea). A forma final da lenda está agora, portanto, presente: ver QS $37 e comentários.

$74    O povo de Thingol eram ‘todos os Eldar de Belerind’, e eles foram chamados os Sindar, os Elfos Cinzentos. Esta é a primeira vez que encontramos o nome nos textos (como aqui apresentado); ele não ocorre em O Senhor dos Anéis exceto nos Apêndices. O nome Sindarin de Elwë Singollo é Elu Thingol (ver II.50).

$75    Os Teleri residiram por 100 anos do Sol em Tol Eressea, em QS ($43) e em AV 2 eles residiram lá por 100 Anos dos Valar (ver p. 183, $43).

    Foi Ossë, e não Ulmo como em QS, que ensinou ao Teleri a arte da construção de navios, mas quando o texto foi escrito (nota 8 acima) foi Ulmo quem o fez, e também foi Ulmo quem lhes deu os cisnes (Ossë no QS).

$76    Os Teleri tiveram a ajuda de Finwë e dos Noldor na construção de Alqualondë.

Os dois trechos relativos a Indis esposa de Finwë, escritos com rapidez nos $$60 e 61 (notas 3 e 5 acima) e depois riscados, são notáveis como os primeiros indícios do que teria se tornado um desenvolvimento posterior  importante da lenda Valinoriana, embora as histórias contadas aqui não mantenham relação com a narrativa posterior. Estas breves idéias rascunhadas, podem ter apenas passado, rejeitadas tão logo escritas, mas eles mostram a preocupação de meu pai com relação a Fëanor, sentindo que a grandeza de seus poderes e sua natureza formidável estavam relacionadas a uma origem singular – ele era o primogênito dos Eldar: isto quer dizer, ele não ‘acordou’ em Kuiviénen, mas teve um pai e uma mãe e nasceu na Terra-média. A idéia de que Finwë ficou desconsolado também surge; e esta é a primeira aparição do nome Curufinwë, para Fëanor.

*

Finalmente eu registro umas poucas notas tardias de um ou outro dos textos datilografados (cópia principal e cópia em carbono) dos Anais de Aman:

$65    ‘as árvores de Nan Elmoth’ > ‘as jovens árvores de Nan Elmoth’


$66
    Ao lado da palavra conchas está flauta de conchas em forma de chifre, com uma interrogação


$70
    Na primeira sentença meu pai escreveu ‘Necessita revisão'; mas eu não sei em que aspecto ele pretendia fazê-lo. Em ‘chamado a conselho’ ele escreveu um X e ‘ele [Ossë] não era um Vala, mas um líder dos Maiar, servo de Ulmo’. Ele fora removido dos Valar por uma correção no texto datilografado em $1 (p. 69).

orcs1.jpg

Mitos Transformados X – Orcs

The History of Middle-earth 10

Forneço aqui ((Christopher Tolkien escrevendo em primeira pessoa)) um texto de um tipo completamente diferente, um ensaio praticamente finalizado sobre a origem dos Orcs (( Este é o terceiro dos três artigos (numerados de VIII a X) sobre Orcs contidos no Mitos Transformados do The History of Middle-earth X e que a Valinor tem a honra de publicar. Os dois anteriores podem ser vistos em VIII e IX. )). É necessário explicar algo sobre as relações deste texto.

 

Existe um trabalho maior, o qual eu espero publicar no The History of Middle-earth, chamado Essekenta Eldarinwa ou Quendi e Eldar. Ele existe em uma boa cópia datilografada feita por meu pai em sua última máquina de datilografia, tanto a cópia principal quanto a cópia em carbono; e é precedido em ambas as cópias por uma página manuscrita descrevendo o conteúdo do trabalho:Questionamento sobre as origens dos nomes Élficos para os Elfos e seus variados clãs e divisões: com Apêndices sobre seus nomes por outros Encarnados: Homens, Anões e Orcs; e sobre a análise de sua própria língua, Quenya: com uma nota sobre a “Língua dos Valar”.Contando com os apêndices, Quendi e Eldar ocupa perto de cinqüenta páginas datilografadas, e sendo um trabalho altamente finalizado e lúcido do maior interesse.A uma das páginas de rosto meu pai acrescentou o seguinte:Ao qual está acrescentado um resumo do Ósanwë-kenta ou “Comunicação de Pensamento” que Pengolodh colocou ao final de seu Lammas ou “Registro das Línguas”Este é um trabalho em separado ocupando oito páginas datilografadas, paginadas separadamente, mas encontrado junto com ambas as cópias de Quendi e Eldar. Em adição, e não citado nas páginas de rosto, existe ainda outro texto datilografado de quatro páginas (também encontrada com ambas as cópias de Quendi e Eldar) intitulado Orcs; e este é o texto fornecido aqui.Todos os três elementos são idênticos em aparência geral, mas Orcs fica à parte dos demais, não tendo nenhuma relação lingüística; e em vista disso eu pensei que seria legítimo resumi-lo e imprimi-lo neste livro junto com as outras discussões sobre a origem dos Orcs dadas como os textos VIII e IX.Para datar este grupo de textos, uma das cópias está preservada em um jornal dobrado de Março de 1960. Neste meu pai escreveu: “’Quendi e Eldar’ com Apêndices”, e abaixo há uma breve lista dos Apêndices, todos os itens escritos à mesma época, e incluem tanto o Ósanwë quanto Origem dos Orcs (o mesmo é verdade com relação à capa da outra cópia do grupo de textos Quendi e Eldar). Todo o material, portanto já existia quando o jornal foi utilizado para este propósito, e embora, como em outros casos similares, não forneça um terminus ad quem perfeitamente certo, não há razão para duvidar que ele pertença a 1959 – 60.O Apêndice C de Quendi e Eldar, “Nomes Élficos para os Orcs”, é primariamente relacionado com etimologia, mas inicia-se com o seguinte trecho:

Não é aqui o lugar para debater a questão da origem dos Orcs. Eles foram engendrados por Melkor, seu engendramento era o mais maligno e lamentável de seus trabalhos em Arda, mas não o mais terrível. Pois claramente eles, em sua malícia, representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, mas completamente subservientes à sua vontade, e criados com um implacável ódio a Elfos e Homens.

Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë e da separação entre Eldar e Avari.

Mas é sabido que Melkor tornara-se ciente dos Quendi antes dos Valar terem começado sua guerra contra ele, e a felicidade dos Elfos na Terra-média já havia sido escurecida pelas sombras do medo. Formas terríveis começaram a assombrar os limites de suas moradias, e alguns de seu povo desapareceram na escuridão e deles não se ouviu mais nada. Algumas dessas coisas podem ter sido fantasmas e ilusões, mas algumas eram, sem dúvida, formas assumidas pelos servos de Melkor, escarneando e degradando as próprias formas dos Filhos. Pois Melkor tinha a seu serviço um grande número de Maiar, que tinham o poder, assim como seu Mestre, de tomar forma visível e tangível em Arda.

Sem dúvida meu pai foi levado por suas próprias palavras “É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë” e escrever aquela “consideração”, que segue abaixo. Será visto que uma passagem desta afirmação inicial foi re-utilizada.

 


Orcs ((a partir deste ponto, o texto é do próprio J. R. R. Tolkien))

A origem dos Orcs é um assunto de discussões. Alguns os chamaram de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios dizem: não, os escravos de Melkor, mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos (( E uma cópia do texto meu pai escreveu a lápis ao lado desta sentença os nomes Eruseni, Melkorseni. )). Contudo, foi pela malícia de Melkor que os Orcs surgiram, e claramente eles representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, sendo gerados para ser completamente subservientes à sua vontade e cheios de um implacável ódio a Elfos e Homens.Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. Tanto quanto pode ser vislumbrado a partir das lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos (( ‘lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos'; isto tinha a intenção de ser um texto Élfico. Sauron é citado subseqüentemente como estando no passado; mas na última sentença do ensaio os Orcs são uma praga que ainda aflige o mundo )), parece que os Quendi ainda não haviam encontrado nenhum Orc deste tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.Aqueles que acreditam que os Orcs foram gerados a partir de alguma raça de Homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que seria impossível para os Quendi ter conhecimento dos Orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois, embora o tempo do acordar dos Homens não ser conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de conhecimento que o colocam mais cedo não dão a ele uma data muito anterior ao início da Grande Marcha (( O tempo do Acordar dos Homens é agora colocado bem para trás; compare com o texto II, A Marcha dos Eldar atravessa grandes Chuvas? Homens despertam em uma ilha em meio à enchente'; ‘A chegada dos Homens será, portanto, muito anterior'; ‘Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está [na Terra-média] – por causa de sua Queda. Portanto em algum período durante a Grande Marcha’. Na cronologia dos Anais de Aman e Anais Cinzentos a Grande Marcha começa no Ano das Árvores 1105, e as companhias mais avançadas de Elfos chegaram ao litoral do Mar em 1125; Homens acordaram em Hildorien no ano do primeiro nascer do Sol, que foi no Ano das Árvores 1500. Portanto, se o Acordar dos Homens está colocado mesmo na parte final do período da Grande Marcha dos Eldar ele terá sido trazido mais de 3500 Anos do Sol para trás. )), certamente não suficiente antes dela de forma a permitir a corrupção de Homens em Orcs. Por outro lado, é claro que logo após seu retorno Morgoth tinha a seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele sem demora começou a atacar os Elfos.  Houve ainda menos tempo entre seu retorno e esses ataques para a geração dos Orcs e para a transferência de suas hordas para o oeste.Esta visão das origens dos Orcs, portanto, encontra dificuldades de cronologia. Mas embora Homens possam se confortar com isso, a teoria ainda permanece como a mais provável.

Ela está de acordo com tudo que é conhecido de Melkor, e da natureza e comportamento dos Orcs – e dos Homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas habilidoso na corrupção de coisas que não procediam de si mesmo, se ele pudesse dominá-las. Mas se ele de fato tivesse tentado fazer criaturas de si mesmo em imitação ou escárnio dos Encarnados, ele teria, como Aule, tido sucesso em produzir apenas títeres: suas criaturas agiriam apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não mostrariam nenhuma relutância em executar qualquer comando dele, mesmo se fosse para destruírem a si mesmas.Mas os Orcs não eram desse tipo. Eles certamente eram dominados por seu Mestre, mas seu domínio era pelo medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram, de fato, tão corrompidos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou vileza que eles não cometeriam; mas esta era a corrupção de vontades independentes, e eles tinha  prazer em seus feitos. Eles eram capazes de agir por si mesmos, realizando feitos malignos para seu próprio divertimento, sem terem sido ordenados; ou se Morgoth ou seus agentes estivesse longe, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles algumas vezes lutavam [> Eles odiavam uns aos outros e freqüentemente lutavam] entre eles mesmos, em detrimento dos planos de Morgoth.Além disso, os Orcs continuavam a viver e se reproduzir e a continuar com seus próprios atos destrutivos e saques após Morgoth ter sido derrubado. Eles possuíam também outras características dos Encarnados. Eles tinham idiomas próprios, e falavam entre eles em várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram dicerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem, por treinamento, tão resistentes quando os Anões em resistir a interpéries. Eles poderiam ser mortos, e estavam sujeitos a doenças; mas mesmo sem doenças eles morriam e não eram imortais, nem mesmo de acordo com as maneiras dos Quendi; de fato eles parecem naturalmente ter vidas curtas comparadas com Homens de raça superior, como os Edain.Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth tinha muitos servos, dos quais os mais antigos e mais poderosos eram imortais, pertencendo aos Maiar, inicialmente; e estes espíritos malignos, assim como seu Mestre, podiam assumir formas visíveis. Aqueles cujas responsabilidades eram comandar os Orcs freqüentemente assumiam formas Órquicas, embora fossem maiores e mais terríveis ((  Confira com o texto IX: ‘Mas sempre entre eles [Orcs] (como servidores especiais e espiões de Melkor, e como líderes) devem ter existido numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas similares; e também o texto VIII. )). Por isso que as histórias contam de Grandes Orcs ou capitães-Orc que nunca eram mortos, e que reapareciam em batalhas através de períodos muito maiores do que a duração das vidas dos Homens (( A nota de rodapé neste ponto, iniciando com ‘Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra’ e ‘é possível que não seja um nome pessoal’, é curiosa. Boldog aparece inúmeras vezes na Balada de Leithian como o nome do capitão-Orc que lidera um ataque a Doriath (referência no Índice para As Baladas de Beleriand); ele reaparece no Quenta (HoME IV), mas não é mencionado depois. Eu não conheço nenhuma outra referência a um Orc chamado Boldog. )). ((* [nota de rodapé ao texto] Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra. Mas é possível que Boldog não seja um nome pessoal e sim um título ou mesmo o nome de um tipo de criatura: os Maiar em forma de Orc, apenas menos formidáveis do que os Balrogs)) 

E finalmente, há um ponto relevante, embora horrível de se relatar. Com o tempo ficou claro que os Homens poderiam, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, em algumas poucas gerações ser reduzidos quase a um nível Órquico em mente e hábitos; e então eles iriam ou poderiam ser induzidos a cruzar com Orcs, produzindo novas linhagens, freqüentemente maiores e mais espertos. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isso no conhecimento passado, e em seu desejo por comando ele o cometeu, eu feito mais vil: o intercruzamento de Orcs e Homens, produzindo tanto Homens-orc grandes e espertos quanto Orcs-homens traiçoeiros e vis.

Mas mesmo antes de existirem suspeitas quanto a esta maldade de Morgoth os Sábios dos Dias ensinavam que os Orcs não foram ‘feitos’ por Morgoth, e, portanto, não eram originalmente malignos. Eles podem ter se tornado irredimíveis (ao menos para Elfos e Homens), mas eles permaneciam dentro da Lei. Ou seja, embora por necessidade, sendo os dedos da mão de Morgoth, eles devessem sem combatidos com a máxima severidade, eles não poderiam ser lidados nos próprios termos de crueldade e traição. Cativos não deveriam ser torturados, nem mesmo para descobri informação para a defesa das casas dos Elfos e Homens. E se qualquer Orc se rendesse e pedisse misericórdia, isso lhe deveria sem concedido, mesmo a um custo. ((  [nota de rodapé ao texto] Poucos Orcs o fizeram nos Dias Antigos, e em qualquer época nenhum Orc trataria com um Elfo. Pois uma coisa que Morgoth conseguira fora convencer os Orcs além de refutação que os Elfos era mais cruéis que eles mesmos, fazendo prisioneiros apenas para ‘divertimento’ ou para comê-los (como os Orcs faziam, em caso de necessidade)  )) Este era o ensinamento dos Sábios, embora no horror da Guerra ele nem sempre fosse seguido.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os Orcs em selvagem servidão; pois em suas corrupções eles tinham perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de suas vontades. Tão grande, de fato, esta pressão sobre eles se tornou antes da queda de Angband que, se ele colocasse seu pensamento em direção a eles, eles estariam conscientes de seu ‘olho’ seja lá onde estivesse; e quando Morgoth foi finalmente removido de Arda os Orcs que sobreviveram no Oeste se espalharam, sem líder e quase sem juízo, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão a uma vontade central que quase reduziu os Orcs a uma vida parecida com a de formigas foi vista ainda mais claramente na Segunda e Terceira Era sob a tirania de Sauron, segundo-em-comando de Morgoth. Na verdade Sauron conseguiu um controle ainda maior sobre seus Orcs do que Morgoth conseguira. Ele estava, claro, operando em um escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão sinistros quanto os Noldor em ápice nos Dias Antigos. Mas ele também tinha herdado daqueles dias  algumas dificuldades, como a diversidade de linhagens e línguas dos Orcs, e a disputas entre eles;e em muitos lugares da Terra-média, após a queda de Thangorodrim e durante o tempo de ocultamento de Sauron, os Orcs, recuperando-se de sua impotência, estabeleceram pequenos reinos próprios e se tornaram acostumados à independência. Apesar disso Sauron conseguiu uni-los todos em um ódio sem limites a Elfos e a Homens que se unissem a eles; e os Orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sobre sua vontade que se sacrificariam sem hesitação a seu comando.* E ele também se provou ainda mais habilidoso do que seu Mestre na corrupção de Homens que estavam além do alcance dos Sábios, e em reduzi-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os Orcs, e competiriam com eles em crueldade e destruição.

É, portanto, provavelmente a Sauron que devemos olhar em busca da solução do problema de cronologia. Embora imensamente menor em poder nativo do que seu Mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais frio e mais calculista. Isso ao menos nos Dias Antigos e antes dele ter sido afastado de seu mestre e cair na tolice de imitá-lo, se esforçando para tornar a si mesmo supremo Senhor da Terra-média. Enquanto Morgoth continuava, Sauron não buscou sua própria supremacia, mas trabalhou e manipulou para outro, desejando o triunfo de Melkor, a quem no começou ele adorou. Então ele era freqüentemente capaz de obter coisas, inicialmente escondido de Melkor, as quais seu mestre não concluía ou não podia concluir na furiosa velocidade de sua malícia.

(* [nota de rodapé ao texto] Mas restou uma falha em seu controle, inevitável. No reino de ódio e medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus Orcs odiavam uns aos outros, e deveriam ser mantidos em guerra com algum ‘inimigo’ para prevenir que se matassem uns aos outros.)

Nós podemos assumir, então, que a idéia da geração dos Orcs veio de Melkor, inicialmente não tanto para a provisão de servos ou infantaria para suas guerras de destruição, como para a desecração dos Filhos e o blasfemo escárnio dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização desta vilania foram, contudo, deixados principalmente à sutileza de Sauron. Neste caso a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor, embora o começo de sua geração de fato devesse esperar o acordas dos Homens.

Quando Melkor foi feito cativo, Sauron fugiu e se escondeu na Terra-média; desta forma pode-se compreender como o cruzamento de Orcs (sem dúvida já iniciado) seguiu em frente com velocidade acelerada durante a era que Noldor residiram em Aman; de tal forma que quando eles retornaram à Terra-média encontraram-na já infestada com esta praga para o tormento de todos que ali residiam, Elfos ou Homens ou Anões. Também foi Sauron que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando ele retornasse (( Sobre a história posterior de que Angband fora construída por Melkor nos dias antigos e que esta era comandada por Sauron ver HoMe 10, “The Later Quenta Silmarillion”. Lá não há referência a uma reparação de Angband ao retorno de Morgoth, e confira o último desenvolvimento da narrativa no Quenta Silmarillion da história de seu retorno: Morgoth e Ungoliant ‘estavam chegando perto das ruínas de Angband onde sua grande fortaleza ocidental havia estado’ )); e lá os escuros lugares subterrâneos já estariam povoados com hordas de Orcs antes de Melkor finalmente retornar, como Morgoth o Inimigo Negro, e enviá-los para trazer ruína sobre tudo quer fosse belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth removido, eles continuam a surgir de locais sem luz e com a escuridão em seus corações, e a terra murchava sob seus pés impiedosos.

Esta então, como parece, foi a visão final de meu pai sobre o assunto: Orcs foram gerados dos Homens, e se ‘a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor’ foi Sauron quem, durante as eras de prisão de Melkor em Aman, trouxe à existência os exércitos negros que estavam disponíveis a seu Mestre quando este retornou.

Mas, como sempre, não é assim tão simples. Acompanhando uma cópia do texto datilografado deste ensaio estão algumas páginas manuscritas das quais meu pai usou o reverso em branco de papéis dados pelos editores, datado de 10 de Novembro de 1969. Estas páginas possuem duas notas sobre o ensaio ‘Orcs': uma discutindo a grafia da palavra orc; a outra é uma nota surgida de algo do ensaio que não está citado, mas que obviamente é a passagem discutindo a natureza de títeres das criaturas trazidas à existência por algum dos próprios grandes Poderes: a note tinha a intenção de estar relacionadas às palavras ‘Mas os Orcs não eram desse tipo’.

Os orks, é verdade, algumas vezes pereciam ter sido reduzido a uma condição bastante similar, embora continue a existir uma diferença profunda. Aqueles orks que por muito tempo viveram sob a atenção imediata de sua vontade – como vigias de suas fortalezas ou elementos dos exércitos treinados para propósitos especiais em seus desígnios de guerra – agiriam como rebanhos, obedecendo instantaneamente, como tendo uma única vontade, seus comandos mesmo se ordenados a sacrificar suas vidas a seu serviço. E como foi visto quando Morgoth foi finalmente subjugado e excluído, aqueles orks que haviam sido assim absorvidos se espalharam impotentes, sem propósito a não ser fugir ou lutar, e logo morreram ou se mataram.

Outras criaturas originalmente independentes, e Homens entre elas (mas não Elfos ou Anões), também poderiam ser reduzidas a uma condição semelhante. Mas ‘títeres’, sem vida ou vontade independentes,  iria simplesmente parar de se mover  ou fazer qualquer coisa quando a vontade de seu criador fosse reduzida a nada. Em qualquer caso o número de orks que era de tal forma ‘absorvida’ sempre foi uma pequena parte de seu total. Mantê-los em absoluta servidão requeria um grande esforço de vontade. O poder possuído por Morgoth no início era vasto, mas finito; e foi este gasto de vontade nos orks, e ainda mais sobre as outras e muito mais poderosas criaturas a seu serviço, que eventualmente dissiparam tanto seus poderes mentais que a derrubada de Morgoth. Então a maior parte dos orks, embora sob suas ordens e com a sombra escura de seus medos dele, eram apenas intermitentemente objetos de seu pensamento e preocupações imediatas, e quando este era removido eles retornavam à independência e se tornavam consciente de seu ódio dele e de sua tirania. Então eles poderiam negligenciar suas ordens ou se engajar em

 


Aqui o texto é interrompido. Mas a coisa curiosa é que um rascunho para o segundo parágrafo desta nota (escrito no mesmo papel, tendo a mesma data) assim começa:

Mas Homens podiam (e ainda podem) ser reduzidos a tal condição. ‘Títeres’ simplesmente parariam de se mover ou ‘viver’, quando não colocados em movimento pela vontade direta de seu criador. De qualquer forma, embora o número de orks no ápice do poder de Morgoth, e ainda após o retorno dele da prisão, pareça ter sido muito grande, aqueles que eram ‘absorvidos’ foram sempre uma pequena parte do total.

As palavras que eu coloquei em itálico refutam uma concepção essencial do ensaio.A outra nota diz assim:

Orcs
Esta grafia foi retirada do Inglês Antigo. A palavra parecia, por si mesma, bastante adequada às criaturas que eu tinha em mente. Mas o significado de orc no Inglês Antigo – tanto quanto é sabido – não se encaixava (( Ver os Comentários à Quinta Seção dos Anais de Aman. )). Também a grafia do que, na situação lingüística posterior mais organizada deve ter sido uma forma na Língua Comum de uma palavra ou grupo de palavras similares, deveria ser ork. Se nenhuma outra razão então pelas dificuldades de grafia no Inglês moderno: um adjetivo orc + ish se torna necessário, e orcish não satisfaria (( ‘orcish não satisfaria': porque seria pronunciado ‘orsish’. A língua Orkish (Órquica) foi grafada dessa forma em O Senhor dos Anéis desde a Primeira Edição. )). Em qualquer publicação futura eu usarei ork.
No texto IX (a texto breve no qual meu pai declarou a teoria da origem Élfica ser correta) ele grafou a palavra Orks, e disse ‘dessa forma eu deverei grafar em O Silmarillion’. No atual ensaio, obviamente posterior ao texto IX, está gravado Orcs; mas então, em 1969 ou mais tarde, ele afirmou novamente que deveria ser Orks.
Notas