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Todos os cavalos dos reis e todos os homens do rei

“Osanwë-Kenta” é um estudo interessante, porém confuso. Christopher Tolkien acredita que ele foi composto ao mesmo tempo que “Quendi e Eldar” (cerca de 1959), cuja maior parte foi publicada no War of the Jewels (N. do T.: Guerra das Jóias, um dos HoME). “Quendi e Eldar” é uma coleção de pequenos estudos que provêm o desenvolvimento etimológico de certas palavras que os elfos usavam para nomear a si mesmo e outros povos, ou para se referir a indivíduos de certas maneiras.

O primeiro texto é carregado com notas históricas e anedotas que revelam muito mais sobre a história élfica que algumas passagens do Silmarillion. Infelizmente, o material do “Quendi e Eldar” não é compatível com O Silmarillion. E apesar de sabermos que as decisões editoriais de Christopher Tolkien impactaram o texto do Silmarillion consideravelmente, as discrepâncias entre esses dois trabalhos vão bem além dos possíveis erros editoriais.

“Quendi e Eldar” é intitulado “Origens e significados do élfico referindo-se aos elfos e suas variedades. Con apêndices dos seus nomes para outros Incarnados.” “Osanwë-Kenta” é intitulado “Investigação sobre a Comunicação de Pensamento”. E se o assunto estipulado desses dois trabalhos não é diferente o bastante, um terceiro corpo de escritos também está associado à eles: um estudo sobre a origem dos Orcs, publicado no Morgoth’s Ring (HoME), com uma introdução na página 415 que menciona “Quendi e Eldar” e “Osanwë-Kenta”.

Christopher publicou o estudo de Orcs primeiramente como parte da coleção de escritos “Myths Transformed”, no qual a cosmologia da Terra-Média foi gradualmente expandida e revisava para excluir algumas das mais velhas tradições datadas de 1916-17.

A conexão entre “Orcs” e “Quendi e Eldar” fica na entrada do Apêndice C do “Quendi e Eldar”, onde Tolkien escreve:

“…Os Orcs das últimas guerras, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-Média, não eram espíritos ou fantasmas, mas sim criaturas vivas, com capacidade de fala, de manufatura e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de seus mestres. Eles se multiplicavam rapidamente sempre que não eram perturbados. É impossível, como a consideração da origem final dessa raça deixa claro, que os Quendi tenham encontrado qualquer raça ou tribo de Orcs, antes de serem achados por Orome e a separação dos Eldar e Avari.”

Christopher escreve: “Sem dúvida meu pai perdeu o controle das palavras em ´É impossível, como a consideração da origem final dessa raça deixa claro…´ para escrever aquele ´consideração´…” E este é o estudo sobre Orcs, quando Christopher colocou no Morgoth’s Ring o que deve ser um dos mais confusos e debilitantes preâmbulos da história da escolaridade literária.

Morgoth’s Ring foi publicado em 1993, e o War of the Jewels veio em 1994. Um ano depois de ler essa introdução ao estudo dos Orcs, finalmente nos permitem ver o trabalho em quase toda sua plenitude. Porém, não o seria até Vinyar Tengwar de Julho de 1998 (número 39) ser publicado, quando finalmente seríamos introduzidos à uma parte substancial do apêndice D do “Quendi e Eldar”, que Christopher tinha omitido da publicação por “falta de espaço”.

Bem, ninguém pode discutir muito com “falta de espaço”. Muitas pessoas esperaram mais de 40 anos para ver como os reais apêndices do Senhor dos Anéis pareciam, graças à “falta de espaço” que forçaram J.R.R. Tolkien a diminuir o material para até metade do conteúdo original. Mas a “falta de espaço” não deixou a coleção “Quendi e Eldar” num estado incompleto e desgrenhado. Porque, você verá, outra parte do “Osanwë-kenta” foi publicado no Vinyar Tengwar de Julho de 2000 (Número 41). As “notas etimológicas no Osanwë-Kenta” eram desconhecidas à Carl Hostetter quando ele publicou “Osanwë-kenta” numa antiga edição do VT.

A história inteira parece com isso:

Perto do ano 1959, J.R.R. Tolkien colocou de lado seus esforços n´O Silmarillion para dar a si mesmo um pouco de história. Numa entrevista à televisão datada da metade dos anos 60, Tolkien disse que ele desgostava da história se não fosse uma história das palavras. Palavras dizem muito sobre as pessoas que as usavam, e ele gostava de explorar tais assuntos. “Quendi e Eldar” é então uma aventura na história pelas palavras. As palavras sozinhas significam pouco a menos que tivessem uma história acompanhando, então Tolkien criou essa história.

Estudando as raízes das palavras élficas para “povos” (e palavras correlatas), Tolkien descobriu de onde as três famílias vieram, e daí ele aprendeu quem eram os pais elfos. Pelo caminho ele notou que os elfos de Cuivienen devem ter encontrado alguns tipos de proto-orcs mas não os verdadeiros orcs das guerras, e ele tinha que descobrir de onde esses orcs vieram para entender porque isso deveria ser.

Mas à medida que ele ia documentando a história da linguagem, seu uso e desenvolvimento, Tolkien não podia deixar de falar sobre a língua e de como os Noldor a estudava. Eles estudavam sua própria língua e o Valarin (a língua de Valinor), assim como o dialeto de Quenya falado pelos Teleri de Alqualonde e o que falavam os Vanyar. O Silmarillion nota que a língua dos Teleri mudou durante sua jornada em Tol Eressëa, e foi sem dúvida essa velha tradição que (em parte) inspirou Tolkien a devanear sobre os obscuros caminhos da história da linguística élfica.

Mas como o “Osanwë-kenta” entra nisso?

A conexão parece ser o evasivo Pengolodh, que aparece aqui e ali nos HoME. Pengolodh era um senhor da tradição Noldorin, um dos Lambengolmor (Conhecedores das Línguas). Ele era um elfo do povo de Turgon em Gondolin, e tinha uma filiagem mista, Noldor e Sindar. Pengolodh sobreviveu à queda de Gondolin e (presumivelmente) vagou com o grupo de exilados do bando de Tuor e Idril. Ele chegou em Eregion na Segunda Era, e eventualmente fugiu da Terra-Média quando aquele reino foi destruído. Pengolodh era o último membro sobrevivente dos Lambengolmor quando navegou através do Mar.

Osanwë-kenta abre com o seguinte parágrafo:

“No fim do Lammas Pengolodh discute brevemente a transmissão de pensamento (sanwë-latya “though-opening”), fazendo várias asserções sobre ele, que evidentemente são baseadas em teorias e observações dos Eldar, que em algum lugar eram dissertadas longamente. Eles estão preocupados primeiramente com os Eldar e os Valar (incluindo os Maiar nessa ordem). Homens não são especialmente considerados, exceto no caso de estarem no mesmo nível dos Incarnados (Mirroanwi). Deles Pengolodh diz apenas: “Homens tem a mesma faculdade dos Quendi, mas são mais fracos graças à força do hröa, sobre o qual a maioria dos homens tem pequeno controle.”

“Osanwë-kenta” é apresentado como o trabalho de um autor inominado – provavelmente Bilbo Bolseiro, apesar de Carl Hostetter notar “é… tentador identificar esse redator, como aquele do ´Quendi e Eldar´, como Ælfwine, o marinheiro anglo-saxão que foi o tradutor e comentador de outros trabalhos de Pengolodh, tais como o Quenta Silmarillion (LR: 201, 203-4, 275 fn) e, notavelmente, Lhammas B (cf. LR:167)”.

Porém, em 1959 Ælfwine tinha desaparecido da mitologia e todas as traduções confiáveis do élfico foram atribuídas a Bilbo (o autor oginial d´O Livro Vermelho do Marco Ocidental) e subsequentes escolados, incluindo Merry, possivelmente um ou mais Tuks, e ao menos um escolado gondoriano: Findegil, o escriba do rei, que fez a cópia do Livro do Thain, que Tolkien alega ser sua fonte para o SdA. Tolkien valida o Livro do Thain como a autoridade suprema em muitas coisas salvo as histórias de Bilbo e Frodo (no prólogo do SdA):

“O Livro do Thain foi então a primeira cópia feita do Livro Vermelho e continha muito que tinha sido omitido ou perdido. Em Minas Tirith ele receber anotações, e muitas correções, especialmente nomes, palavras, e citações nas línguas élficas; e ali lhe foi adicionado uma versão abreviada do Conto de Aragorn e Arwen, fora do conto da Guerra. O conto inteiro é dito ter sido escrito por Barahir, neto de Faramir, algum tempo depois da morte do Rei. Mas a importância maior da cópia de Findegil era que ela continha todo o trabalho do Bilbo em “Traduções do élfico”. Esses três volumes eram um trabalho de grande perícia e conhecimento, no qual, entre 1403 e 1418, ele usou todas as fontes disponíveis para ele, vivas e escritas. Mas desde que eles foram usados por Frodo, quase totalmente preocupado com os Dias Antigos, nada mais é dito dele aqui.”

É possível que o narrador inominado fosse Findegil, ou outro escolástico gondoriano (de fato, foi meu primeiro impulso sugerir isso), mas Bilbo também conquistou um status de sábio nas palavras “Esses três volumes eram um trabalho de grande perícia e aprendizado…”. Quem, devemos perguntar, notou-os serem grandes trabalhos? Talvez a pesquisa de Bilbo só fora totalmente apreciada em Gondor, e provavelmente somente depois que Peregrin retraiu-se para Gondor em FA 64, levando o Livro do Thain com ele (à pedido de Elessar)

Alguns dos comentários dos apêndices do SdA estão entre aspas, que é a maneira de Tolkien de sugerir que está citando diretamente do Livro Vermelho. Por exemplo:

“Nosso rei, nós o chamamos; e quando ele vem para o norte e fica um tempo perto do lago Evendim, então todos do Condado ficam felizes. Mas ele não entra nessa terra, e se prende à lei que criou, que ninguém do Povo Grande deve passar essas bordas. Mas ele cavalga frequentemente com alguns amigos até a Grande Ponte, e lá ele saúda seus amigos, e outros que quiserem conhecê-lo; e alguns cavalgam com eles e ficam em sua casa pelo tempo que desejarem. O Thain Peregrin esteve ali muitas vezes, assim como o Mestre e Prefeito Samwise. Sua filha Elanor a Bela é uma das donzelas da Rainha Vespertina.”

Essa passagem deveria ter sido escrita entre os anos FA 15 e 30, os anos nos quais Elanor virou uma donzela da rainha e casou-se com Fastred de Greenholm. A língua não é nada comparada com os comentários do “Osanwë-kenta” e outros trabalhos sobre os Dias Antigos. Mas não pode ser o comentário de Bilbo porque ele não estava no Condado durante essa época. O “Traduções do Élfico” do Bilbo representa então um espaço em branco que Tolkien teve que preencher com o tempo. “Quendi e Eldar”, “Osanwë-kenta” e “Orcs” (para não mencionar o próprio Silmarillion) são todos partes de trabalhos antigos que Bilbo traduziu e preservou.

Bilbo era um mestre linguista, e sua mão deve ter sofrido à cada história que gerou o Livro Vermelho. Ele sabia Quenya e Sindarin, e deve ter aprendido bastante com os elfos de Valfenda, alguns dos quais se dúvida conheciam Pengolodh. De fato, pode ser que o povo de Elrond, sendo em maioria Noldor, eram mais familiares com Pengolodh do que outros senhores élficos, dos quais muitos poucos são nomeados. O colapso total da civilização Eldarin na Primeira Era, e a perda de muitos elfos no fim da Segunda, teria diminuído o poço de recursos que Elrond lhe proveu, e até os próprios recursos de Bilbo eram limitados.

O propósito de “Osanwë-kenta” é explicar como, ou porquê, dois seres podem se comunicar por pensamento. Mas rapidamente cai numa discussão sobre o personagem de Melkor e suas motivações, opostas às de Manwë. Melkor usa a habilidade inata comum à todas as criaturas racionais (diminuídas em certas ordens, como elfos e homens) para se comunicar por pensamento como uma maneira de aproximar-se e seduzir as vontades dos seres mais fracos. Ele não poderia forçar outra vontade à fazer o que desejasse, não até ele ter iludido-a. Isto é, Melkor não pode influenciar diretamente o pensamento de outro ser, mas poderia indiretamente levar outros seres a pensar que eles quissessem fazer tal. Entre os Eldar de Aman, ele contava com a linguagem, cuja maestria impressionava até mesmo os Vanyar, apesar de Manwë ter-lhes advertido que Melkor teria adquirido tal habilidade com sua língua.

O estudo termina com uma discussão sobre a decisão de Manwë ter restaurado a liberdade à Melkor. Ele concorda dizendo que, se Manwë não tivesse feito isso, ele teria ficado como Melkor, rebelde aos olhos de Ilúvatar. Uma das notas atadas ao estudo também fala de premonição. Comunicação de pensamento, a natureza do bem e do mal, premonição – inclusive a idéia de se um Valar pode ficar preso numa forma escolhida (corpo) – “Osanwë-kenta” viaja por todo lugar, pulando de idéia em idéia quase tão rápido quanto a pena do autor.

O material do final dos anos 50 representa uma era altamente produtiva de carreira de Tolkien, apesar de insatisfatória. Quanto mais escrevia sobre a Terra-Média, mais tinha que escrever para explicar o que tinha escrito. Respostas viraram questões, questões continuaram sem resposta, e idéias rolavam de sua mão como rochedos na montanha de Caradhras.

Parece, todavia, que tudo estava levando de volta à mitologia que Tolkien escreveu para o Senhor dos Anéis. A porção do Apêndice D do “Quendi e Eldar”, que Christopher omitiu do War of the Jewels, fala principalmente com a carreira de Fëanor como um senhor da tradição élfica. O estudo da línguagem de Fëanor e suas motivações políticas são mais elucidadas no “A Senha de Fëanor”, que Christopher publicou no The Peoples of Middle-Earth, o décimo-segundo e último volume da série HoME.

Linguistas focaram-se na primeira parte do “Senha” porque ele provêm detalhes sobre o desenvolvimento do Quenya Noldorin, enquanto historiadores se focaram na segunda parte do “Senha” porque ele oferece detalhes na geneologia final dos Noldor. “A Senha de Fëanor” foi composta em 1968 ou depois, e foi terminado quase uma década depois do “Quendi e Eldar”. Parece, logo, que Tolkien se sentiu insatisfeito com o que escreveu no “Osanwë-kenta” e decidiu expandir a história de Fëanor. Christopher conclui, no HoME, que seu pai usou genealogias escritas no fim dos anos 50 enquanto escrevia no “A Senha de Fëanor”. É possível, até provável, que Tolkien tinha alguns ou todos os papéis do “Quendi e Eldar” ao alcance.

Porém, como Ælfwine, cuja última aparição ocorreu em algum lugar dos anos 50 (de acordo com a própria análise do Christopher), Pengolodh está estranhamente silencioso no “A Senha de Fëanor” e nos textos que o acompanham. Os textos de Pengolodh foram despedaçados com o tempo, e a tradição sobre Pengolodh caiu em más línguas com Tolkien. A necessidade de prover uma voz anciã para as traduções de Bilbo foi colocada de lado pela necessidade de Tolkien de revisar a cosmologia e aplacar seu senso de perfeição. No curso dessas mudanças, ele inevitavelmente esqueceu de alguns conceitos que ele tinha apenas tocado.

Nós sabemos agora que os Vanyar não apenas vagueavam pelas florestas de Valinor ou sentavam-se nos salões de Manwë e ficavam cantando o dia inteiro. “A Senha de Fëanor” (na seção publicada na Vinyar Tengwar de Julho de 2000) e, numa outra extensão, “Osanwë-kenta” indica que os Vanyar tinham seus próprios mestres de tradição, alguns dos quais argumentaram com Fëanor sobre princípios linguísticos. Podemos deduzir que os Vanyar tinham uma curiosidade quanto à linguagem que quase se igualava à dos Noldor. Mas os Vanyar podem não ter se importado com a história da linguagem tanto quanto seu uso. Os senhores de tradição Vanyarin de fato concordam com Fëanor em teoria, sobre a questão de objetar a mudança no som, mas por causa de sua veemência em condenar a mudança, Fëanor alienou seus potenciais aliados entre os Noldor e os Vanyar.

Também é possível deduzir algo da história de Aman depois do fim da Primeira Era de alguns desses escritos e outros textos. Tolkien ocasionalmente joga uma alusão à Aman no presente, talvez inconscientemente, talvez com vontade de tornar possível algum contato com as Terras Imortais. Nos disseram que muitos dos escritos sobre Númenor foram perdidos na Queda. Então, toda a correspondência com os Eldar de Tol Eressëa, e os jornais e contos sobre as visitas dos Elfos, foram perdidos. No máximo, Elendil e seu povo trouxeram alguns livros de Númenor, mas destes muitos se perderam pelos séculos e pelas guerras. A perda das fontes numenoreanas livrou Tolkien de escrever muitas histórias. Mas também reforça a visão de que qualquer texto razoavelmente completo falando dos Dias Antigos está no “Traduções do Élfico” de Bilbo Bolseiro

Apesar de Tolkien ter contemplado como produzir os 3 volumes das “Traduções”, é evidente que ele nunca procedeu muito longe nesse caminho, e preferiu escrever e reescrever as historias principais do “Quenta Silmarillion” e seus textos acompanhantes. Os estudos linguísticos são experimentais, e nos dão pequenos pedaços de sabedoria ao longo do processo de desenvolvimento. Como Humpty-Dumpty na sua cantiga de ninar, as Traduções do Élfico representam uma herança perdida que nem meso um exército de pesquisadores seriam capazes de recuperar. Não há nada realmente a recuperar, mas “Quendi e Eldar”, “Osanwë-kenta” e “Orcs” podem merecer atenção especial no futuro. Nós provavelmente só começamos a juntar as peças.

[Tradução de Aarakocra]

Compreendendo a Mágica na Terra-média de J.R.R. Tolkien

Mágica é difícil de definir. Externamente aos trabalhos literários de J.R.R Tolkien nós não a tomamos seriamente mas ao contrário a relegamos para as regiões do mito, superstição e sobrenatural [que é o que situa-se externamente ou além do universo natural]. No mundo de Tolkien o que ele chama de "mágica" é real e natural, e nós devemos compreender a natureza de seu mundo para compreendermos o que ele chama de "mágica". Existem muitos aspectos da magia de Tolkien e todos eles obrigatoriamente devem ser parte de seu mundo.
 

Tolkien desenvolveu uma robusta cosmologia para a Terra-média. Ela não é nada além de uma pequena parte de um mundo maior, e este mundo não é senão um aspecto da ordem natural geral. Todas as coisas nos preceitos de Tolkien procedem de Ilúvatar, o Pai de Todos, Deus. Ele criou os Ainur, os Salões Eternos, e mesmo o Vazio. Sem a vontade de Ilúvatar estas coisas simplesmente não poderiam existir. Então o início está na vontade [e imaginação ou concepção] de Ilúvatar. O pensamento de Ilúvatar é o Bing Bang para a Terra-média.

Os Ainur são intrinsecamente diferentes dos inanimados e não-consciente Salões Eternos e Vazio. Os Salões e o vazio eram meramente áreas do que podemos chamar "espaço" [não "espaço" como nas 3 dimensões do Espaço, mas "espaço" como em indeterminados escopos de realidade ou existência]. Podemos chamar os Salões Eternos e o Vazio um universo, ou dois universos separados. Tempo não existe nos Salões Eternos [aparentemente], e nada existe naturalmente no Vazio [mas coisas podem entrar no Vazio vindas de fora dele.]

A criação dos Salões Eternos e do Vazio por Ilúvatar indica o início do Aqui e do Ali, e além disso indica que diferentes regras podem se aplicar. Aqui tem sua próprias regras e Ali tem suas próprias regras. Nos Salões Eternos Ilúvatar ensinou aos Ainur sobre música, e cada um deles iniciou a compor uma música para ele. Um por um, como cantores ou instrumentos, eles dão expressão para o que quer que esteja em seus pensamentos. E quando eles progridem suficientemente nessas habilidades Ilúvatar comandou os Ainur a se unirem em um poderoso tema.

A Música dos Ainur, o Ainulindalë, é a fonte do terceiro local a surgir do pensamento de Ilúvatar. E música parace ter sido a fundação deste terceiro local. A história nos fala que após um tempo Melkor iniciou seu próprio tema dentro da música, causando dissensão e discórida que se espalharam entre os Ainur. E Ilúvatar comandou os Ainur para iniciarem um novo tema, mas a música de Melkor novamente invadiu a composição original, e Ilúvatar crescendo em ira iniciou um terceiro tema diferente dos dois primeiros.

Quando o conflito entre o tema arrogante e insolente e o terceiro tema de Ilúvatar tornaram-se tão desconcertantes que muitos Ainur pararam de cantar, Ilúvatar trouxe um fim à música. E ele mostrou aos Ainur uma visão que dava expressão e interpretação à sua música, mas eles não a compreenderam completamente. Então Ilúvatar criou o que nós chamamos de Universo, o que Tolkien usualmente chamou Eä. "Eä" significa "deve existir" ou "exista". Este era Tempo e Espaço, tudo que é natural para a Terra-média, a qual não era nada senão uma pequena parte de Eä.

Ilúvatar criou Eä dentro do Vazio. Ele disse, "Eu enviarei adiante no Vazio a Chama Imperecível, e ela estará no coração do Mundo, e o Mundo existirá…" A Flama Imperecível nunca é completamente descrita por Tolkien, mas Ilúvatar despertou os Ainur com a Chama Imperecível, e Melkor procurou pela Chama Imperecível em vão no Vazio. Ele não compreendeu que ela existia com Ilúvatar, era aparentemente uma parte de Ilúvatar.

A Chama Imperecível então providenciou a fundação de todas as coisas que possuem uma existência ou mesmo uma Vontade. Ela é o poder de Ilúvatar, sua fonte de energia e aparentemente a fonte de tudo o que ele criou. A Chama Imperecível, como um aspecto de Ilúvatar, deve ser o poder máximo no mundo de Tolkien: cru, vital, puro, imaculado, sujeita completamente à sua própria Vontade. Melkor entendeu-a como um mjeio de criar, algo que ele por si mesmo não poderia fazer. Criação, neste aspecto significa trazer à existência do nada, dar existência a algo que previamente não existia. Melkor poderia ser capaz de imaginar coisas novas, mas ele não poderia criá-las. Elas não poderiam Ser sem a Chama Imperecível.

De qualquer forma, Ilúvatar deu aos Ainur a permissão para entrar em Eä e fazer todas as coisas que eles tinham cantado. Aqueles que aceitaram esta oferta tornaram-se parte de Eä – "seus poderes deverão desde então ser contidos e limitados ao mundo, para estar com ele para sempre, até que este esteja completo, então eles são sua vida e o mundo é a vida deles". A entrada dos Valar, os primeiros Ainur a ligar-se a Eä, alterou o Mundo completamente. Antes ele era sem forma, escuro e vazio. Mas quando eles tomaram posse de sua tutela, os Valar trouxeram a Eä Propósito, Vontade e algo que pode ser chamado Poder. O Poder precedia de sua Vontade, sendo uma faceta de suas existências, as quais Eä por si mesma não compartilhava, pois ela não tinha Vontade, e não era um Ser Vivo.

Eä dessa forma deste seu início teve seu próprio conjunto de regras, podemos chamá-los de axiomas, sobre os quais sua cosmologia foi fundada. O Universo ou o Mundo poderia ser moldado pelos Ainur ou por Ilúvatar, mas Ilúvatar escolheu não interagir diretamente com Eä. Ele deixou o trabalho para os Ainur. Eles trabalharão por incontáveis Eras criando [com significação de construindo, e não trazer à existência do nada] estrelas e regiões além do alcance e conhecimento das ainda por vir Crianças de Ilúvatar. No decorrer destes trabalhos os Valar devem ter criado, refinado ou pelo menos descoberto as leis físicas que devem ter sido naturais a Eä. Estas leis definiram os limites de todas as coisas dentro dos limites de Eä.

Tempo é uma das medidas de Eä, assim como Espaço e Distância. Com a passagem do Tempo os Valar preencheram mais do Espaço, cobriram mais Distância, com o fruto de seus trabalhos. Míriades de estrelas e provavelmente mundos inimagináveis espalhavam-se atrás deles. E eventualmente ele chegaram àquela região de Eä onde eles construíram Arda, o Dom;inio ou Reino, que seria a casa das Crianças de Ilúvatar. Como os Ainur, as Crianças seriam estritamente os produtos do Pensamento de Ilúvatar. E como os Valar [e seus companheiros, os Maiar as Crianças seriam ligadas ao Tempo e Espaço, com uma excessão. Ilúvatar decidiu que os Homens, ao contrário dos Elfos, não deveriam permanecer em Eä, mas deveriam ir a outra lugar. Talvez isto fosse o desejo de Ilúvatar que Eä retornasse algo de si mesmo. O trabalho dos Valar em Arda revela alguma coisa sobre suas habilidades. Eles deram forma às terras, mares e céus. Os "céus" se referem aos ares sobre Arda, mais particularmente do que à extensão ilimitada além deles. Água eleva-se dos mares e terras para tornarem-se nuvens, e os ventos sopram e cruxam Arda livremente. O interesse de Melkor pelos trabalhos de seus colegas Valar produziu a beleza do gelo ao invés da ruína e destruição que ele esperava causar. A ambição de Melkor de fazer Arda seu domínio levou a empreender um garnde subterfúgio que alteraria Arda para sempre e deixaria os Valar perplexos. Ainda que não sabemos de que Arda foi moldada ou feita, após os Valar darem a ela substância e definição às terras, mares e ares eles os utilizaram para refinar o mundo. Eles csausaram o surgimento da Vida Biológica, seres vivos que não tinham espíritos, não foram despertados com a Chama Imperecível [exceto pelo fato de que elas eram feitos da substância de Eä, logo possuíam alguns aspectos do fogo vivo que existia no coração do mundo]. Estes seres vivos, divididos entres Kelvar [animais, seres vivos que se movem] e Olvar [seres que crescem com raízes na terra], agiam de acordo com sua própria vontade. Eles não eram simples extensões dos pensamentos dos Valar. Eles cresciam, multiplicavam-se e desenvolviam-se individualmente sem precisar utilizar instruções dos Valar.

Kelvar e Olvar devem consequentemente representar alguns aspectos da própria Vontade de Ilúvatar. Eles não tinham "espíritos", não eram Filhos do Pensamento de Ilúvatar como os Ainur e as Crianças de Ilúvatar eram, mas eles moviam e agiam independentemente, de acordo com sua necessidades básicas e desejos. Os Ainur deram forma aos Kelvar e Olvar mas eles poderiam ter dado vida a eles? Este assunto não é explorado por Tolkien, mas muitas questões possuem respostas que são melhor desenvolvidas através de alguma associação com a Chama Imperecível. Pelo objetivo desta discussão nós deveremos assumir [sem procurar provar ou refutar] que a vida dos Kelvar e Olvar deriva da Chama Imperecível, indiretamente, a qual Ilúvatar utilizou para despertar o Mundo pois a chama é dita estar no coração do Mundo.

É importante distinguir entre vida "sem alma" como a dos Kelvar e Olvar e vidas "com alma" como a dos Ainur e das Crianças. O que é "vida" dentro de Eä? O que é "morte"? Estes termos não podem ser ambos definidos biologicamente. Os Ainur, não tendo corpos físicos em um primeiro momento, eram apaesar de tudo seres "vivos" em seu início. Eles não tinham vida biológica mas mesmo assim viviam. Em Eä, quando eles assumiram corpos similares àqueles dos Filhos de Ilúvatar, eles deram a si próprios vida biológica — ,as mas eles não estavam criando seres vivos. Os corpos dos Ainur era como roupas. Tolkien escreve:

Agora os Valar deram a si mesmo forma e tom; e porque eles foram atraídos para o Mundo pelo amor dos Filhos de Ilúvatar, os quais eles esperavam, eles tomaram forma segundo a maneira que eles comtemplaram na Visão de Ilúvatar, exceto apenas em majestade e esplendor. Além disso suas formas chegaram ao seu conhecimento do Mundo visível, ao contrário do Mundo por si mesmo; e eles não a necessitavam, salvo como usamos vestimentas, e como nós podemos ser desnudos e não sofrer perda de nossa existência…. [Tolkien, "Silmarillion"]

Esta passagem fornece dicas importantes sobre mais do que como os Valar tomaram forma. Suas formas foram derivadas de seus CONHECIMENTOS do Mundo, e não do Mundo por si próprio. As formas dos Kelvar e Olvar, contudo, devem por definição ter derivados do Mundo. Por "formas" Tolkien parece querer dizer a substância física, os corpos, dos Ainur e dos seres vivos. Então os corpos dos animaise plantas são parte do Mundo, enquanto que os corpos dos Ainur não são. Mas mesmo os corpos dos Ainur devem se adequar a certas limitações do Mundo de modo a interagir com ele.

Outro aspecto que vemos é a referência ao "Mundo visível". Os corpos adotados pelos Ainur eram feitos em referência ao "Mundo visível" ou o "Visível". Por definição, então, eles como espíritos são parte do "Mundo invisível" ou o "Invisível". A distinção entre Kelvar/Olvar e os Ainur e Crianças de Ilúvatar "com alma" deve incluir algum aspecto do "Invisível". Seus espíritos ou almas constituem o Mundo Invisível, do qual os Kelvar e Olvar não podem fazer parte.

Aqui, na divisão entre o Visível e o Invisível encontramos a base para um dos aspectos da "mágica" em Tolkien: necromancia [algumas vezes chamada de bruxaria]. Tolkien faz referência a ela em muitos locais, direta ou indiretamente. Sauron o terrível é também o Nigromante de Dol Guldur. Ele ensina os Elfos de Eregion a fazerem Anéis de Poder os quais ele então roubou e perverteu de forma a criar os Espectros do Anel, espíritos sem corpo escravizados pela sua própria Vontade. Necromancia é uma mágica poderosa em Tolkien mas isso não significa que seja a única mágica.

Outro tipo de mágica em Tolkien é vista na expressão da Vontade por vários Ainur e Elfos. Pode ter sido por essa mágica que os Ainur moldaram os elementos de Eä e então trouxeram ordem ao Mundo. Arda foi produzida através desta mágica, não tanto uma expressão de poder cru como os atos de Ilúvatar na criação do mundo podiam ser, mas uma expressão de um poder secundário dentro da criação. Nenhuma criação original ocorre, mas a novas idéias são dadas forma ou expressão. Melkor, o maior dos AInur em força e Vontade, era o maior sub-criador em muitos aspectos, mas ele gradualmente tornou-se destrutivo e niilista, desejando apenas dominar outras Vontades, para possuir o que já estava criado ou para controla-la, ou para destrui-la se ele não pudesse atingir estes objetivos.

O foco do desejo de Melkor era Arda, a morada das muito aguardadas Crianças de Ilúvatar. Os valar podem ter dado especial consideração quando a fizeram, pois Melkor foi consumido pelo desejo de possuir Arda para si mesmo. O desejo de Melkor de fazer Arda completamente sua levou-o a difundir uma grande parte de sua força natural por toda Arda. Ele era um ser de puro espírito que fez a si mesmo permanentemente físico, permanentemente ligado ao Mundo [dentro de Arda, para ser mais exato], de forma a ser "Um" com ele, fazê-lo parte de si próprio. Pela introdução desta parte de si mesmo em Arda, Melkor estabeleceu a fundação para mais um tipo de mágica. De acordo com Tolkien:

"Melkor encarnou a si mesmo [como Morgoth] permanentemente. Ele assim o fez para controlar o hroa, a "carne" ou matéria física, de Arda. Ele tentou identificar-se com o hroa. Um procedimento mais vasto, e mais perigoso, embora de espécie similar às operações de Sauron com os Anéis. Dessa forma, fora do Reino Abençoado, toda "matéria" provavelmente tinha um "ingrediente Melkor", e aqueles que possuiam corpos, criados pelo hroa de Arda, o tinham como uma tendência, pequena ou grande, em direção a Melkor: nenhum deles era completamente livre dele em suas formas encarnadas, e seus corpos tinha um efeito sobre seus espíritos. Mas desta forma Morgoth perdeu [ou trocou, ou transformou] a maior parte de seus poderes "angelicais" originais, de mente e espírito, ganhando um terrível poder sobre o mundo físico. Por esta razão ele tinha que ser combatido, principalmente por força física, e uma enorme ruína material era a provável consequência de qualquer combate direto com ele, vitorioso ou não. Esta é a principal explicação para a constante relutância dos Valar a batalharem abertamente contra Morgoth. O problema e tarefa de Manwe era muito mais difíceis que os de Gandalf. O poder de Sauron, relativamente menor, estava concentrado; o vasto poder de Morgoth estava disseminado. O todo da "Terra-média" era o Anel de Morgoth, embora temporariamente sua atenção estivesse principalmente no Noroeste. A Não ser que rapidamente bem sucedida, Guerra contra ele poderia muito bem terminar reduzindo toda a Terra-média ao caos, possivelmente toda Arda… além disso, a erradicação de Sauron [como um poder dirigindo o mal] foi alcançada pela destruição do Anel. Tal erradicação de Morgoth não era possível, uma vez que esta requeriria a completa desintegraçõ da "matéria" de Arda. O poder de Sauron não estava [por exemplo] no ouro como tal, mas em uma particular forma ou modelo feito de uma porção particular do total do ouro. O poder de Morgoth era disseminado por todo o Ouro, mesmo que em local algum absoluto [pois ele não criou o Ouro] ele não era ausente em nenhum lugar. [Este elemento-Morgoth na matéria, de fato, pré-requisito para tal "mágica" e outras perversidades como as que Sauron praticou com ela e sobre ela]. É bastante possível, com certeza, que certos "elementos" ou condições da matéria atraíram a especial atenção de Morgoth [principalmente, exceto no passado remoto, por razões de seus próprios planos]. Por exemplo, todo o ouro [na Terra-média] parece ter uma tend6encia especialmente "maligna" – mas não a prata. Água é descrita como quase inteiramente livre de Morgoth [Isto não significa, certamente, que algum mar, córrego, rio, poço ou mesmo navio na água em particular não pudesse ser envenenado ou poluido - como todas as coisas podiam]. [Tolkien, "Morgoth"s Ring", pp. 399-401]"

A infusão do elemento Morgothiano em Arda então alterou a suscetibilidade daquela parte do Mundo à Vontade de outros. Sauron utilizou o poder de Morgoth para alcançar o que podemos chamar de um estado de encantamento. Encantamento não pode ser limitado apenas ao uso do elemento Morgothiano – ele pode também ser aplicado a outros atos pelos Ainur, Elfos, Anões e mesmo Homens os quais poderiam não ter utilizado os mesmo princípios que Sauron. Mas deve ser aceito que Sauron ensinou as técnicas aos Elfos e provavelmente a Homens. Tal uso dos aspectos não-naturais de Arda devem consequentemente ser considerado como "bruxaria", embora não com respeito à conjuração de espíritos. Melkor não foi o único Vala a extender seu poder em porções de Eä, contudo. Ulmo, o Vala associado com todas as águas, parece ter se engajado em uma identificação similar porém mais restrita. Sua identificação não era permanente – não era um aspecto físico de sua encarnação. Melkor parece ter pervertido o princípio de identificar a si próprio com um "elemento nativo", aparentemente. Ulmo não tinha um local de moradia permanente mas se movia através da águas de Arda. Ele podia tentar inspirar Homens e Elfos se eles pudessem ouvir as vozes ou músicas de suas águas. Mas mesmo o poder de Ulmo era finito, ou apenas finitamente colocado com as águas. Quando ele encontrou com Tuor em Vinyamar, em Nevrast, ele disse:

"…mas a Maldição é forte, e a sombra do Inimigo se alonga; e eu estou diminuído, até que na terra-média me torne não mais do que um murmúrio secreto. As águas que correm para o oeste feneceram, e suas fontes estão envenenadas, e meu poder é expulso da terra; pois Elfos e Homens crescem cegos e surdos a mim devido ao poder de Melkor…" [Tolkien, "Unfinished Tales"]

A imagem de uma luta entre Melkor e Ulmo sobre as águas de Terra-média implica em um imenso consumo de Vontade. Melkor era mais forte que Ulmo e estava constantemente expulsando Ulmo de seu domínio natural. É talvez razoável sugerir que Ulmo se retirou de livre vontade porque ele compreendia o que estava em jogo – que se ele resistisse a Melkor com muita força Arda [e consequentemente a Terra-média] poderia sofrer. O tempo ainda não havia chegado. Ele precisava agir com compaixão em relação a Elfos e Homens. Mas a implicação era que um grande poder estaria ativo por toda Arda – nas terrasm nas águas e nos ares. O poder tinha mais de uma fonte, mas apenas uma dessas fontes poderia ser utilizada na "mágica": a fonte Morgothiana.

Tolkien utiliza a palavra "feitiçaria" de várias formas. Algumas vezes ele fala das feitiçarias de Sauron e seus servidores, e somos lembrados da necomância que eles praticavam. Algumas vezes Tolkien parece usar a palavra de uma maneira mais genérica. Quando os Rohirrim falam da Dama da Floresta e a chamam de feiticeira, isto realmente implica que eles acreditavam que Galadriel consorciava com espíritos, ou implica simplesmente que eles percebiam nela um grande poder do qual eles não compartilhavam?

Na concepção Élfica não existe "magia" mas sim "Arte". Os Elfos simplesmente possuíam a habildade natural de envolver-se com sub-criação. Tudo o que os Ainur podiam fazer era "sub-criar" – manipular a criação de Ilúvatar dentro daqueles limites que ele fixou durante a criação de Eä. Os Elfos possuíam uma capacidade similar embora muito diminu;ida, em comparação aos Ainur, exceto talvez em alguns casos raros. Fëanor, o maior dos Eldar, rivalizava com os feitos dos Ainur em alguns aspectos, até mesmo provocando inveja no coração de Melkor. E Lúthien, sendo meio Elfo e meio Maia, executou um golpe considerável contra Melkor pessoalmente, cantando e fazendo dormir ele e todos os seus servos, dentro de Angband.

Desesperando-se com seu próprio uso da palavra "mágica", Tolkien escreveu a Milton Waldman [um editor a quem ele submeteu O Senhor dos Anéis antes de sua aceitação final por Allen & Unwin]:

"Eu não usei a palavra "mágica" consistentemente, e realmente a Rainha Élfica Galadriel é obrigada a advertir os Hobbits em seus usos confusos da palavra tanto para os artificios e operações do Inimigo quanto para os Elfos. Eu não diferenciei as duas formas porque não existe uma palavra para a segunda forma [uma vez que todas as histórias humanas sofrem da mesma confusão]. Mas os Elfos estão lá [em meus contos] para demonstrar a diferença. Sua "mágica" é Arte, que os livra de muitas de suas limitações humanas: menos esforço, mais rápido, mais completo [produto e visão numa correspondência sem falhas]. E seus objetivos são Arte e não Poder, sub-criação e não dominação e reforma tirânica da Criação. Os "Elfos" são "imortais", pelo menos até quando o mundo existir: e portanto são preocupados principalmente com os sofrimentos e aflições da imortalidade no tempo e nas mudanças, do que com a morte. O Inimigo em sucessivas formas é sempre "naturalmente" interessado na Dominação completa, logo Senhor da magia e máquinas. Então o problema: este mal assustador pode e realmente surge de uma raiz aparentemente boa, o desejo de beneficiar o mundo e outros* – rapidamente e de acordo com os próprios planos do benfeitor – é um motivo recorrente." "*Não no Iniciador do Mal: a sua Queda foi uma Queda sub-criativa, e portanto os Elfos [os representantes da sub-criação por excelência] eram particularmente seus inimigos, e o objeto especial de seu desejo e ódio – abertos às suas fraudes. Suas Quedas seriam na possessividade e [em um grau menor] na perversão de suas artes em poder." [Tolkien, "Letters", Letter 131]

Em um rascunho de uma carta escrita a Naomi Mitcheson [embora esta parte não tenha sido enviada a ela], Tolkien acrescentou detalhes às distinções entre as percepções "mortal" e "Élfica" da magia: "Receio que eu tenha sido muito fortuito sobre "mágica" e especialmente no uso da palavra; apesar de Galadriel e outros se mostrarem críticos ao uso "mortal" da palavra, este pensamento não é completamente casual. Mas esta é uma questão muito ampla, e difícil; e uma história na qual, como você com razão diz, é grandemente sobre motivos [escolhas, tentações, etc.] e as intenções de usá-la não importa como seja encontrada no mundo, poderia facilmente ser soterrada com uma dissertação pseudo-filosófica! Eu não tenho intenção de me envolver em qualquer debate onde "mágica" em qualquer sentido seja real ou realmente possível no mundo. Mas eu suponho que, para os própositos do conto, alguns poderiam dizer que existe uma latente distinção assim como foi chamada a distinção entre "magia" e "goeteia"[1]. Galadriel fala das "fraudes do Inimigo". Bem, suficiente, mas magia poderia ser, e era, boa [per si mesma], e goeteia má. Nenhuma das duas é, neste conto, boa ou má [por si mesmas], mas apenas por motivo e propósito de uso. Ambos os lados usam ambas as formas, mas com diferentes motivos. O supremo motivo maligno é a dominação de outra "vontades livres". As operações do Inimigo não era de forma alguma fraudes goéticas, mas "mágica" que produz efeitos reais no mundo físico. Mas sua magia ele utiliza para intimidar povos e coisas, e sua goeteia para aterrorizar e subjugar. Os Elfos e Gandalf usam [de forma reduzida] sua magia: uma magia, produzindo resultados reais [como fogo em madeira molhada] para fins específicos e benévolos. Seus efeitos goéticos são inteiramente artísticos e não possuem a intenção de ludibriar: eles nunca enganam os Elfos [mas podem enganar ou confundir Homens desatentos] uma vez que a diferença para eles é tão clara como a diferença para nós entre ficção, pintura e escura e "vida".

Ambos os lados vivem principalmente por modos "normais". O Inimigo, ou aqueles que se tornaram como ele, dedicam tempo com "maquinaria" – com efeitos destrutivos e maléficos – porque "mágicos" que tornaram-se principalmente preocupados com o uso da magia para seu próprio poder, poderiam assim o fazer [e assim o fazem]. O motivo básico para a magia – completamente aparte de qualquer consideração filosófica que como ela funciona – é a urgência: velocidade, redução de trabalho, e a redução para um mínimo [ou ao ponto de desaparecer] da lacuna entre a idéia ou desejo e o resultado ou efeito. Mas a magia pode não ser fácil de obter e se de qualquer modo você possui comando de abundante trabalho escravo ou maquinaria [frequentemente a mesma coisa oculta], pode ser tão rapida ou rápida o suficiente para por de lado montanhas, destruir florestas ou construir pirâmides com tais recursos. Certamente outro fator então vêm à tona, um fator moral ou patológico: os tiranos perdem contato com os objetivos, tornam-se cruéis e satisfazem-se esmagando, feriando e poluindo. Não existe dúvida que seria possível defender a idéia do pobre Lotho de moinhos mais eficientes; mas não o uso que Sharkey e Ruivão fazem dele.

De qualquer forma, uma diferença no uso da "mágica" nesta história é que ela não se realiza por "doutrinas" ou feitiços; pois este é um poder inato não possuído pelo Homem como tal. O poder de "cura" de Aragorn pode ser considerado como "mágico", ou pelo menos um misto de mágica com processos famacêuticos e "hipnóticos". Mas ele é [em teoria] relatado por hobbits que têm poucas noções de filosofia e ciência; enquanto Aragorn não é um "Homem" puro, mas uma "criança de Lúthien" há muito tempo separado."

[1] o equivalente grego de goetial a forma Inglesa Goética é definida no O.E.D. como "bruxaria ou mágica executada pela invocação ou uso de espíritos malignos; necromancia" [Ibid., Letter 155]

Tolkien empresta as palavras "magia" e "goeteia" em uma tentativa de distinguir entre as formas de mágica, mas ele complica o assunto. Mais adiante ele fracassa quando diz que "mágica" não pode ser praticada pelos Homens – mas lembra a si mesmo que os Numenorianos sem dúvida utilizaram feitiços em suas espadas. Sua análise dos poderes na Terra-média falhou em notar este fato.

Apesar de tudo Tolkien distingue magia de goeteia sugerindo que a primeira constitui aquelas ações que produzem efeitos, como o feitiço de Gandalf para acender o fogo em madeira molhada na montanha Caradhras. O jogo de anéis de fumaça entre Gandalf e Thorin também poderia ser considerado magia [Tolkien, "Hobbit"]. Goeteia deve consequentemente representar a criação de itens mágicos, como as lâmpadas usadas pelos Elfos que davam luz sem o necessidade de chama; as harpas mágicas dos Anões em Erebor; o Portão Oeste de Moria que abria quando a palavra Sindarin para "amigo" era dita; e assim por diante.

A mágica goética é o lado artístico da sub-criação: Arte quando o motivo é realçar, preservar ou curar; Feitiçaria quando o motivo é dominar, controlar ou destruir. Os Elfos eram capazes de utilizar suas habilidades em ambas as direções, mas mas frequentemente preferiam Arte à Feitiçaria. Feitiçaria poderia ser útil na confrontação de Finrod com Sauron na ilha de Tol Sirion durante a Primeira Era. Ela também poderia ser a expressão natural da vontade Élfica como na caótica perseguição de Fëanor a Melkor. Feitiçaria não estava nunca além do alcance dos Elfos, mas raramente estava no seu arsenal de preferências.

E mesmo a feitiçaria era praticada or Homens por toda a Terra-média: os nove Homens que aceitaram os Anéis de Poder de Sauron [apenas três deles eram Numenorianos] "tornaram-se poderosos em seus dias, reis, feiticeiros e guerreiros de tempos antigos" antes de finalmente sucumbirem aos Anéis e desaparecerem; os homens das colinas que tomaram o controle de Rhudaur [ou os Homens malignos que o Rei-Bruxo enviou para substituí-los] parecem ter praticado feitiçaria; e o Boca de Sauron era um feiticeiro [ainda que Numenoriano].

A feitiçaria dos Homens deve ser diversa. Tolkien fala de Homens tentando se comunicar com espíritos Élficos. Quand os Elfos se esvaem seus corpos desaparecem. Aqueles que eram tão enamorados da Terra-média que preferiam esvair-se a navegar sobre o Mar era provável que se tornassem "assombrações", espíritos morando em ou perto de seu local favorito. De descobertos por Homens eles poderiam responder a certos estímulos de feitiçaria, mas era perigoso aos Homens lidar com eles. Os espíritos poderiam tentar ocupar os corpos dos Homens e expulsar o espítiro nativo, o quela era mais fraco por natureza ou juventude. Tais atos poderiam ser provocados não tanto por maldade mas mais por desespero. Elfos eram tão desesperados para viver na terra-média como os Homens, mas como os Homens eles tinham um destino que limitava o tempo de sua vida Biológica.

Outras feitiçarias que os Homens podem ter praticado incluem o controle de animais. Beruthiel, esposa de Tarannon Falastur, era originalmente uma princesa dos Numenorianos Negros. Ela aprendeu as artes da feitiçaria de sue povo e as praticou em Gondor. Seus gatos eram lendários por sua devoção à sua mestra e ela os utilizava para espiar o povo do reino. Tarannon vivia em uma grande casa perto do Mar, em pelargir, mas Beruthiel preferiu viver em uma casa na grande ponte de Osgiliath. Ela preencheu o jardim com árvores e plantas tortas e mal-formadas, e ela aterrorizou tanto so Dunedain que Tarannon foi eventualmente forçado a removê-la a força e enviá-la para o exílio. Ela foi vista pela última vez navegando sozinha em um navio para o sul além de Umbar, acompanhada apenas por seus gatos, um à proa e outro à popa.

Se mágica em algumas formas é acessível aos Homens, não é menos acessível aos Anões, os Filhos Adotados de Ilúvatar. Eles também eram Encarnados – espíritos habitando em corpos vivos, no final das contas enviados por Ilúvatar. COmo os Elfos os Anões são presos em Eä e devem permanecer em Arda até o Fim. Como os Homens seus corpos se enfraquecem, envelhecem e morrem naturalmente. Os Anões são uma curiosa mistura das características Élficas e Humanas, mas eles possuem suas próprias idéias sobre seu lugar em Eä e nos planos de Ilúvatar. Como Homens os Anões utilizam feitiços mas eles parecem exercer uma capacidade sub-criacional semelhante à dos Elfos.

O que Tolkien quer dizer com "sub-criação"? Ele a aplica aos meios naturais pelos quais os Ainur e Elfos alcançam seus fins Artísticos. É através da sub-criação que os Ainur trouxeram à complitude ou próximo à complitude o aspecto e forma do Mundo. Através da sub-criação os Ainur criaram os Kelvar e Olvar. Através da sub-criação os Elfos criaram as Silmarils, os Anéis de Poder e todas as coisas "mágicas" se sua sociedade. Através da sub-criação so Anões produziram suas portas mágicas, lâmpadas e armaduras.

O processo sub-criativo não é descrito de nenhuma outra forma a não ser Arte. E tolkien invoca a idéia principal da música por todos os seus trabalhos. Os Ainur cantaram seus grandes temas e a partir deles Ilúvatar planejou Eä. No mito das Duas Árvores, após os Valar terem se retirado antes do ataque de Melkor so Extremo Oeste, Yavanna cantou ante o monte Ezelohhar, fazendo as Árvores tomarem forma como sementes, criar raízes e crescer. No embate de poder com Sauron, o Rei Élfico Finrod Felagundcantou canções de magia e feitiçaria, e Sauron cantou em resposta. Lúthien, enquanto presa na Hirilorn por seu pai, cantou para fazer seu cabelo crescer comprido o suficiente para que ela pudesse tecer um manto encantado de escuridão a partir dele. Os Anões cantam em suas forjas enquanto criam seus grandes artefatos. Aragorn canta ou recita suavemente sobre a lâmina Morgul que ele encontra no Topo do Vento, enquanto ele se preparava para se ocupar com a tentativa de cura em benefício do gravemente ferido Frodo. Tom Bombadil canta o tempo todo, e ele usa música para lidar com o Velho Salgueiro e a Criatura Tumular:

"Colocando cuidadosamente seus lírios na grama, ele correu para a árvore. Ali ele viu o pé de Merry destacando-se – o resto já tinha sido puxado para dentro. Tom colocou sua boca na fenda e começou a cantar com uma voz baixa. Eles não conseguiam entender as palavras mas evidentemente Merry foi animado. Suas pernas começaram a chutar. Tom afastou-se, e quebrando um galho suspenso golpeou o lado do salgueiro com ele. "Deixe-o sair novamente, Velho Salgueiro!" ele disse. "O que você está pensando? Você não devia estar acordado. Coma terra! Cave fundo! Beba água! Vá dormir! Bombadil está falando!" Ele então segurou o pé de Merry e o puxou para fora da fenda repentinamente alargada." [Tolkien, "A Sociedade do Anel"]

E:

"Caia fora, criatura! Desapareça na luz do sol!
Encolha como a neblina fria, como os ventos que gemem,
Fora nas terras áridas muito além das montanhas!
Nunca venha aqui novamente! Deixe seu túmulo vazio!
Perdido e esquecido seja, mais escuro que a escuridão,
Onde os portões ficam eternamente fechados, até que o mundo seja reparado."
[Ibid.]

Para chamá-lo quando necessério, Bombadil ensinou os Hobbits a cantar uma canção:

"Ho! Tom Bombadil, Tom Bombadillo!
Pela água, floresta e colina, pela grama e pelo salgueiro,
Pelo fogo, sol e lua, escute agora e nos ouça!
Venha, Tom Bombadil, pois nossa necessidade está próxima!"
[Ibid.]

Tolkien nos fala que "Hobbits nunca, de fato, estudaram magia de nenhum tipo" e que "existe pouca ou nenhuma magia neles, exceto a ordinária de todo dia do tipo que os ajuda a desaparecer rápida e silenciosamente quando gente grande e estúpida como você e eu vem desabaladamente andando". Mas ele não diz que eles não pode usar mágica – eles simplesmente não desejam usar. A música de Bombadil mostra-nos que os Hobbits poderiam realmente chamar uma grande poder para ajudá-los. A magia pode ser de Tom Bombadil, mas é Frodo quem quenta a canção de chamado.

Música permeia os registros de "mágica" na Terra-média. Não é parte de toda cena ["O espelho de Galadriel" é evidente pela ausência de canto no encontro de Galadriel com Sam e Frodo em seu jardim]. Mas por outro lado, pode ser que a magia é mais sutilmente invocada se uma fonte externa de poder é utilizada. O espelho de Galadriel consiste de água derramada de uma fonte próxima vertida em uma base de prata. Tolkien registrou que água e prata não eram muito maculados com o pdoer de Morgoth, pois Ulmo é o Senhor das Águas e ele era a fonte de muitos sonhos e visões para Homens e Elfos. Poderia ser que Galadriel estivesse utilizando o poder de Ulmo em seu espelho mágico?

O relacionamento dos Elfos com os Valar precisa ser examinado em detalhes. Os Vanyar, Noldor e Teleri de Alqualonde [os Elfos da Luz, Elfos Profundos e Elfos do Mar de O Hobbit] passaram sobre o Mar para viver com os Valar e aprender com eles. Estes Elfos que tinham vivido no Reino Abençoado, Gandalf contou a Frodo, possuíam grande poder contra tanto o Visível quanto contra o Invisível, e viviam ao mesmo tempo nos dois mundos. O Visível [o Mundo visível, dois quais os Kelvar, Olvar, e corpos físicos dos Ainur, Elfos, Homens e Anões fazem parte] e o Invisível [o Mundo invisível, do qual apenas os espíritos dos seres vivos fazem parte, e não coisas como Kelvar e Olvar] são dois lados da mesma moeda. Mas requerem diferentes mágicas ou poderes para lidar com cada um deles. Entre as práticas dos Eldar encontramos a canção de hinos a Elbereth, Varda, a maior Rainha entre os Valar, esposa de Manwe o Rei Sábio, Governante de Arda. Embora os hinos são em sua maior parte reverencial, sua influência em outras pessoas pode ser considerável.

"Aiya Eärendil Elenion Ancalima!" Frodo clama quando expõe o frasco de Galadriel no covil de Laracna. Por algum poder ele não consegue entender o frasco brilhante, que contém luz capturada da Estrela de Eärendil, a última das Silmarils, protege Frodo e Sam da Laracna. Ela esconde-se medrosamente na escuridão.

Quando Sam está lutandio para vencer os Guardiães nos portões de Cirith Ungol, ele tira o frasco e o segura no alto, e por um momento um misterioso espírito abre caminho ante ele. Ao deixar a fortaleza Sam e Frodo são confrontados com os Guardiães novamente, e Sam grita "Gilthoniel! A Elbereth!" Em seguida Frodo fala "Aiya elenion ancalima!" E com isso "a vontade dos Guardiães foi quebrada com a rapidez do estalar de uma corda". O nome de Elbereth trouxe subitamente a atenção desta, reforçando a potência do frasco? Ou foi suficiente que Frodo falasse as mesmas palavras que vieram a ele espontaneamente no covil de Laracna?

A invocação dos Valar não pode ser negligentemente ignorada. Talvez seja nada mais do que uma reverência devida, uma sinal de respeito. Quando coroa Aragorn Gandalf diz "Agora vêem os dias do Rei, e que ele seja abençoado enquanto os tronos dos Valar permanecerem!" Os dias de Aragorn parecem ter sido abençoados realmente: Arnor e Gondor foram restaurados em sua grandiosidade, e ele teve sucesso nas guerras que se seguiram à Guerra do Anel [ou pelo menos não foi morto nela], e no tempo correto ele abri mão alegremente de sua vida, sem relutância ou mancha do medo da morte que inquietou tantos de seus ascendentes.

E também, quando os Nazgûl, servos de Sauron, Espectros do Anel, atacaram Aragorn, Frodo e seus companheiros no Topo do Vento, Frodo estocou o Senhor dos Nazgûl enquanto o Espectro do Anel procurava acertá-lo com a mortal lâmina Morgul. Frodo gritou "O Elbereth! Gilthoniel!" Um grito estridente é ouvido na noite. Quando tudo está acabado e os Nazgûl bateram em retirada, Aragorn percebeu que a espada de Frodo cortou apenas a capa do Senhor dos Nazgûl. "Mais mortal a ele foi o nome de Elbereth", Aragorn fala ao Hobbit. O nome de Elbereth causou o grito dos Nazgûl? Quando Frodo fala o nome de Elbereth novamente no Val de Bruinen ele não obteve efeito aparente. Mas naquele momento ele quase tinha sumido devido ao ferimento Morgul que ele tinha recebido, e sua vontade e força estavam grandemente diminuídas. Frodo estava no limite do próprio mundo dos espectros, o mundo Invisível. nem estava usando o Um anel como no Topo do Vento. Pode ser que o nome de Elberethde fato feriu os Nazgûl sob as circunstâncias corretas.Enquanto viajava Frodo tornou-se mais forte na sua vontade, mais do que havia sido anteriormente, e Sam notou-o com outra visão como uma figura brilhante vestida de branco. Poderiam existir benefícios consideráveis benefícios em utilizar o Um Anel, mesmo para um Hobbit, quando invocava-se grandes poderes, a despeito do perigo de sucumbir à natureza maligna do Anel.

Os Valar não abandonaram completamente a Terra-média após a Primeira Era. Eles enviaram os Istari, os Magos, para aconselhar Homens e Elfos e ajudá-los a resistir a Sauron. Quando Saruman foi morto seu espírito elevou-se acima de seu corpo, como uma névoa fina, e pareceu olhar para o Oeste, mas um vento soprou-o longe para o Leste. Têm-se a impressão que Manwë estava prestaando atenção aos eventos na Terra-média todo o tempo, não desejando tomar uma ação direta, mas também recusando-se a abandonar os Povos Livres aos mals liberados por seu próprio povo, os Ainur. Quando os Rohirrim estavam prontos para partir ao ataque nos campos de Pelennor, e enquanto Aragorn conduzia a frota capturada dos Corsários pelo rio Anduin, um forte vento começou a soprar do Oeste, empurrando a imensa nuvem que Sauron tinha enviado para cobrir Gondor e Rohan. Mesmo que Manwë pudesse empurrar a nuvem de escuridão a qualquer momento, eles deveria esperar até que as forças do Oeste estivessem em posição de rechaçar as hostes de Sauron. Os Corsários já haviam sido derrotados, e Saruman não era mais uma ameaça a Rohan – a Batalha dos Campos de Pelennor foi um ponto de virada na Guerra do Anel. Durante a Batalha dos Campos de Pelennor duas formas de mágica colidiram quando Merry atingiu o Senhor dos Nazgûl por trás com a lâmina que Tom Bombadil lhe deu. Nombadil, quando resgatou Merry e seus companheiros da Colina dos Túmulos, pegou o tesouro da Criatura Tumular e amontou-o fora do túmulo onde tinha permanecido por tanto tempo. Ele tirou do tesouro quatro adagas que tinham sido feitas pelos Dunedáin de Cardolan muitos séculos atrás. Mesmo à primeira olhada, "as lâminas pareciam intocadas pelo tempo, sem ferrugem, afidas, brilhando ao sol".

As armas são claramente especiais, e nais tarde Aragorn disse que as lâminas de Pippin e Merry foram reconhecidas pelos Orcs que os tinham capturados como "trabalhos do Oeste, recobertas de magias para a destruição de Mordor". Com esta lâmina Merry golpeou cegamente o Senhor dos Nazgûl quando este se colocou ante Éowyn de Rohan. "Nenhuma outra lâmina", escreveu Tolkien, "não importa quão poderosas fossem as mãos que a segurasse, poderia ter causado naquele inimigo um ferimento tão amargo, partindo a carne desfeita, quebrando a magia que ligava sua força invisível à sua vontade".

Feitiços Numenorianos contra magia Saurônica. Por milhares de anos o Senhor dos Nazgûl servira a Sauron fielmente. Ele poderia, Ele poderia, quando seu mestre estivesse fore [e talvez em outras ocasiões] "tomar forma" e andar entre os vivos novamente, empunhando a lâmina Morgul e maça, cavalgando cavalos, comandado exércitos. Como poderia um espectro tomar forma? A natureza do "feitiço que ligava sua força invisível à sua vontade" não é explicado, mas Gandalf fala a Frodo em Valfenda que "suas capas negras eram capas reais que [os Nazgûl] usavam para dar forma ao seu nada quando tinham que lidar com os vivos".

Não era o suficiente que Merry atingisse a capa do Nazgûl. Após o encontro no Topo do vento Aragorn um pedaço de capa esfarrapada que a lâmina de Frodo tinha cortado do traje do Senhor dos Nazgûl. "Todas as lâminas que atingem aquele Rei terrível estragam-se" ele disse aos Hobbits. A espada de Frodo continuava inteira e utilizável. Seu golpe tinha errado o espectro. As capas podiam ser artefatos mágicos ou simplesmenta capas, utilizadas como ingredientes em algum feitiço que dava aos Nazgûl a habilidade de se mover entre os vivos. Despojados de seus trajes elas deveriam "retornar como pudessem a seu Mestre em Mordor, vazios e sem forma"conclui Gandalf logo após os Nazgûl terem sido derrotados no Vau de Bruinen . Se as capas lhes dava, forma, elas não "ligava [sua] força invisível a vontade [dos Nazgûl]". As forças invisíveis eram as forças de um espectro, mas um espectro mantido de modo não natural na Terra-média por algum poder. Quando morrem, os Homens devem deixar o mundo. Seus espíritos devem ir para algum outro lugar. Sauron transgrediu este princípio natural pelo imprisionamento dos espíritos dos Nazgûl no mundo, de modo que pudessem continuar agindo e atuando como seres independentes. Eles eram escravos de sua vontade, mas suas próprias vontades permaneciam intactas, meramente subvertidas aos propósitos de Sauron, mas não substituídas pela própria vontade de Sauron.

Então o feitiço que a lâmina de Merry quebrou foi o feitiço desenvolvido por Sauron, o poder do Anel do Nazgûl. A sabedoria dos Numenorianos alcançou um grande feito contra o poder dos Anéis Élficos corrompidos. E mesmo assim o espírito do Senhor dos Nazgûl não deixou a Terra-média imediatamente quando foi derrotado. Após o golpe mortal de Éowyn o Senhor dos Nazgûl elevou-se no ar e seu espírito voou lamentando para Mordor, passando sobre Sam e Frodo em sua jornada, sem dúvida indo para seu Mestre em Barad-dûr. Um espírito fraco e impotente, o Senhor dos Nazgûl não servia mais para nenhum próposito a Sauron, mas permanecia sujeito a seu poder apesar de tudo até que aquele poder fosse destruído com o Um Anel.

Os Anéis de Poder são de fato os maiores artefatos mágicos feitos na Terra-média. Sauron ensinou aos Elfos de eregion os princípios da sub-criação que eles ainda não haviam aprendido, e podemos imaginar se então este conhecimento não seria uma "arte proibida". Porque os Valar e Maiar não dividiram este conhecimento com os Elfos em Aman? Um elemento chave no poder dos Anéis é o elemento Morgothiano difundido por toda Arda, e especialmente aquela porção do elemento que existe no ouro. Com estes Anéis os Elfos esperavam "compreender, criar e curar" de acordo com Elrond, segundo ele revelou em seu Conselho. Sobre os Três, Tolkien escreveu: "aqueles que os tivesse em sua posse poderia evitar a decadência do tempo e postergar o desgate do mundo". E "após a queda de Saruman [ao final da Segunda Era] seus poderes estavam sempre em ação, e onde eles estavam também o júbilo residia, e todas as coisas não eram manchadas pelas tristezas do tempo". Tolkien explicou os poderes dos Anéis mais completamente quando escreveu ao editor Milton Waldman:

"O poder principal [de todos os anéis] era prevenir ou diminuir a decadência [isto é, "mudança" vista como algo lamentável], a preservação do que é desejado ou amado, ou sua imagem – este é mais ou menos um motivo Élfico. Mas também aumentavam os poderes naturais de seu dono – de forma parecida com "mágica", um motivo facilmente corrompível em mal, um desejo de dominação. E finalmente eles tinham outros poderes, mais diretamente derivados de Sauron… como o de tornar invisível o corpo material, e fazendo coisas do mundo invísivel visíveis.

Os Elfos de Eregion fizeram Três anéis supremamente belos e poderosos, quase que apenas de suas próprias imaginações, e dirigidos à preservação da beleza: eles não conferiam invisibilidade. Mas secretamente no Fogo subterrâneo, em sua própria Terra Negra, Sauron fez o Um Anel, o Anel Governante que continha o poder de todos os outros, e os controlava, então seu portador poderia ver os pensamentos de todos aqueles que usavam os anéis menores, poderia controlar tudo o que eles fizessem e ao final poderiam escravizá-los completamente. Ele não contava, contudo, com a sabedoria e sútil percepção dos Elfos. No momento em que ele usou o Um, os Elfos ficaram conscientes dele, e de seu propósito secreto, e tiveram medo. Eles esconderam os Três Anéis, de forma que nem mesmo Sauron descobriu onde eles estavam e eles permaneceram imaculados. os outros eles tentaram destruir." [Tolkien, "Letters", Carta 131]

De acordo com "Sobre os Anéis de Poder e a Terceira Era", "Sauron acumulou em suas mãos todos os Anéis de Poder restantes; e ele os distribuiu para outros povos da Terra-média, esperando dessa forma trazê-los sob sua influência todos aqueles que desejassem secretamente poder além da medida de sua própria espécie… e todos aqueles Anéis que ele dominou ele perverteu, facilmente uma vez que ele tinha uma parte em sua confecção, e eles se tornaram malditos…" [Tolkien, "Silmarillion"]

O motivo de Sauron era basicamente a corrupção dos Elfos. Na Carta 131 Tolkien diz "os Três Anéis dos Elfos, mantidos por guardiões secretos, estão operativos na preservação da memória da beleza de antigamente, mantendo enclaves encantados de paz onde o Tempo parece parar e a decadência é contida, uma visão da felicidade do Verdadeiro Oeste". Os Elfos, Tolkien diz na carta 154, "desejavam ter seu bolo e comê-lo: viver na Terra-média história e mortal porque eles se tornaram apreciadores dela [e talvez porque eles tinham as vantagens de uma casta superiora], e então eles tentaram parar suas mudanças e história, parar seu crescimento, mantendo-a como uma terra de prazer, mesmo que em sua maior parte deserta, onde eles podiam ser "artistas" – e eles estavam sobrecarregados com tristeza e pesar nostálgico".

Na Carta 181 Tolkien nota que "[os Elfos] caíram em uma certa medida na fraude de Sauron: eles desejavam algum "poder" sobre a situação [o que é completamente distinto de arte], para fazer suas vontades particulares de preservação efetivas: para interromper a mudança, e manter as coisas sempre frescas e belas". E na Carta 144 ele diz "Apesar de imaculados, porque não foram feitos por Sauron nem tocados por ele, [os Três] eram sem dúvida parcialmente produtos de sua instrução, e no final das contas sob o controle do Um. Dessa forma… quando o Um se foi, os últimos defensores da sabedoria e beleza dos Altos Elfos foram despojados do poder de para o tempo, e partiram".

A magnitude desse feito Élfico, e sua arogância, é dessa forma imenso. Como o Mundo é medido por Tempo e Espaço, os Elfos desejavam "para o tempo", para "para a história e as mudanças [da Terra-média], parar seu crescimento", meramente para que eles pudessem ser "artistas", praticando suas magias, deleleitando-se na beleza de sua própria juventude e da juventude do mundo que tinha dado nascimento a eles. Poderia Celebrimbor sozinho ter produzido tais efeitos? Sem dúvida não. Ele estava utilizando o conhecimento que Sauron lhe deu, e apesar de apenas Celebrimbor ter forjado os Três Anéis, o que os Gwaith-i-Mirdain faziam enquanto ele trabalhava? Eles podem ter de fato se reunido ao redor dele, cantando e projetando a partir de si mesmos parte do poder e força que eles tinham como reserva.

A derrota de Eregion na guerra pode não ter sido simplesmente devida às impressionantes forças que Sauron trouxe contra os Elfos. Os Elfos tinham vencido forças superiores no passado. As forças de Sauron lançaram-se contra mais do que Eregion: eles atacaram outra terra Élfica no leste, e os povos Edaínicos de Rhovanion e dos Vales do Anduin. Uma civilização inteira ao leste das Montanhas Nebulosas foi destruída e as terras de Eriador devastadas. O povo Élfico de Eregion pode ter sido drenado de muita força, pois seu poder sobreviveu a eles e continuou a trabalhar através dos Três [e mesmo através dos Sete e dos Nove, os quais eles ajudaram a fazer]. Os Elfos encontrarm uma forma de transgredit a ordem natural do mundo. Eles de fato trabalharam uma magia mais potente. No material original sobre linguagens que Tolkien escreveu para os Apêndices do Senhor dos Anéis, ele incluiu o seguinte parágrafo:

"$12 Além disso, aqueles eram os dias dos Três Anéis. Agora, como contado em outro lugar, aqueles anéis estavam ocultos, e os Eldar não os usavam para a criação de qualquer coisa nova enquanto Sauron continuasse usando o Anel Governante; mas sua virtude principal estava sempre secretamente trabalhando, e aquele virtude era proteger os Eldar que habitavam na Terra-média [adicionado: e todas as coisas relativas a eles] da mudança e degeneração e desgaste. E assim foi em todo o longo tempo desde a forja dos Anéis até seu fim, quando a Terceira Era acabou, e os Eldar na Terra-média não mudaram em mil anos mais do que os Homens em 10; e da mesma forma sua linguagem". [Tolkien, "Peoples of Middle-Earth"]

A ação de parar o Tempo trabalhava mesmo enquanto os Anéis não eram usados pelos Elfos, e como os Sete e Nove eram feitos com intenções similares ele, também, poderiam ter um efeito no Tempo onde quer que eles fossem mantidos. Mas os Três eram imensamente mais poderosos que os outros Anéis, e Celebrimbor dava tanto valor aos Três que morreu ao invés de revelar suas localizações a Sauron, mas sob grande tormento ele abriu mão dos Sete.

Mas por maior que fosse o poder que os Anéis Élficos tivessesm, o poder tinha seus limites. Os efeitos parecem ter sido localizados ao invés de completamente difundidos por toda a Terra-média. Talvez se os Elfos fossem capazer de possuir [e usar] todos os Grande Anéis ele poderiam ter alcançado seu objetivo em uma escala mais ampla. Mas na Terceira Era nós encontramos evidências dos efeitos totais dos Anéis eram sentidos em apenas dois locais: Valfenda e Lórien. Quando Bilbo e Frodo estavam conversando em Valfenda, Frodo pergunta a Bilbo quanto tempo levará para que Frodo precise sair na Expedição do Orodruin. "Oh, Eu não sei. Eu não consigo contar os dias em Valfenda", Bilbo lhe conta. Meses mais tarde, após a Sociedade ter partido de Lórien e ter estado no Anduin por alguns dias, Sam fica confuso:

Sam sentou batendo na guarda de sua espada como se estivesse contando em seus dedos, e olhando para o céu. "Isto é muito estranho", murmurou ele. "A Lua é a mesma no Condado e nas Terras Ermas, ou deveria ser. Mas ou ela está fora de seu curso ou eu estou errado em meus cálculos. Você se lembra, Sr. Frodo, que a Lua estava minguante quandonós estávamos naquele tabuleiro na árvore: uma semana para a totalidade, eu calculo. E nós estamos viajando há uma semana completas na última noite, quando surge uma Lua Nova como se nós não tivessemos ficado tempo algum no reino Élfico.

"Bem, eu posso recordar de três noites ali com certeza, e pareço recordar muitas mais, mas posso jurar que nunca completaria um mês inteiro. Poderia pensar que lá o tempo não conta!" "E talvez seja isso mesmo", disse Frodo. "Naquele terra, talvez, nós estávamos em um tempo que em outro lugar há muito se passara. Não antes, eu acho, de Silverlode ter nos colocado de volta ao Anduin que retornamos ao tempo que corre pelas terras mortais até o Grande Mar. E eu não me lembro de nenhuma lua, nova ou velha, em Caras Galadhon: apenas estrelas à noites e sol pelo dia". Legolas mexeu-se em seu barco. "Não, tempo não pára para sempre", ele disse, "mas as mudanças e crescimentos são diferente para todas as coisas e lugares. Para os Elfos o mundo se move, mas se move muito rápido e muito devagar. Rápido, porque eles mesmo mudam pouco, e tudo o mais passa por eles: é uma grande tristeza para eles. Devagar, porque eles não contam os anos passantes, nem para si mesmo. As estações passantes são apenas ondas repetindo-se ao longo de uma corrente muito longa. Mas sob o Sol todas as coisas devem chegar a um final". "Mas o desgaste é lento em Lórien", disse Frodo. "O poder da Senhora está lá. Ricas são as horas, embora curtas elas pareçam, em Caras Galadon, onde Galadriel usa o Anel Élfico". "Isto não deve ser dito fora de Lórien, nem mesmo para mim", disse Aragorn. "Não fale mais disso! Mas é assim, Sam: naquela terra você perdeu sua conta. Lá o tempo passou rapidamente por nós, como para os Elfos. A velha lua passou, e uma nova lua cresceu e diminuiu no mundo lá fora, enquanto nos demorávamos lá. E ontem uma nova lua veio novamente. O inverno quase se foi. O tempo corre para uma primavera de pouca esperança". [Tolkien, "Sociedade do Anel"]

Embora pareça aqui que Legolas discorde das avaliações de Frodo, ele nota que "mudanças e crescimentos são diferente para todas as coisas e lugares". Talvez legolas esteja dissimulando um pouco para proteger um segredo Élfico? Ou seria apenas que, sendo do reino de Thranduil no norte de Mirkwood, Legolas experimentou muito raramente de perto o poder dos Três Anéis para reconhecer seus efeitos? Aragorn confirma a dedução de Frodo: "lá o tempo passou rapidamente por nós, como para os Elfos". A diferença seria mais notável para Mortais do que para Legolas.

Os Anéis de Poder são os maiores artefatos de magia de todos os trabalhos de Tolkien. Mesmo as sagradas Silmarils feitas por Feanor, embora mais antigas e perenes que os Anéis, não trabalhavam ativamente sobre seu ambiente. Elas preservam a luz das Duas Árvores e não toleram o toque de nenhuma criatura maligna. Pelo poder de uma Silmaril Earendil navegou através dos Mares Sombrios e pelas Ilhas Encantadas para alcançar os litorais de Aman, a despeito do considerável poder dos Valar. Mas Feanor não procurou perverter a ordem natural do Mundo. Ele meramente procurou criar uma nova Beleza, e embora seu orgulho e arrogância tenha feito ele esconder tal Beleza de todos os outros, ela não é completamente sua criação [ou, sub-criação]. Varda consagrou as Silmarils, e sem aquele benção especial Ainuriana elas teriam sido menos do que foram. Elas poderiam não ter sido a chave para a solução da grande e terrível guerra que foi travada por elas.

O poder das Silmarils foi, mais adiante, aumentado pela Maldição de Mandos, e quando Thingol impôs uma Silmaril como o preço pela mão de sua filha, ele embaraçou-se na trama envolvendo o poder das jóias, e assim trouxe desgraça a seu reino e a todo seu povo. Melian previu que a busca de Thingol traria a Maldição sobre ele e sobre seu povo, e ela não tinha o poder de evitar. O destino de Doriath foi selado tão logo Thingol estabeleceu a Silmaril como o preço por Lúthien.

No final, a própria Lúthien abandonou Doriath e auxiliou Beren em sua missão. Ela busco por muito tempo e muito longe, e o encontrou aprisionado na ilha de Tol Sirion, onde Sauron [então apenas um servo de Morgoth] havia tomado a fortaleza élfica de Minas Tirith. Finrod Felagund e Beren estavam aprisionados nas masmorras quando Luthien e o cão de caça dos Valar, Huana, chegaram ao portão de Minas Tirith. Enquanto Luthien cantava sua tristeza e esperança de reencontrar Beren, Sauron enviou lobisomem após lobisomem para capturá-la, e Huan matou a todos até Draugluin, o último e mais antigo, arrastar-se mortalmente ferido para arfar aos pés de Sauron "Huan está aqui!"

Sauron tomou forma de um grande lobo, esperando trazer a maldição há muito prevista para Huan. Mas ele foi derrotado, e capitulou do domínio da ilha e da fortaleza em favor de Luthien antes de fugir para Taur-nu-Fuin em Dorthonion:

"O demon dark, O phantom vile
of foulness wrought, of lies and guile,
here shalt thou die, thy spirit roam
quaking back to thy master"s home
his scorn and fury to endure;
thee he will in the bowels immure
of groaning earth, and in a hole
everlastingly thy naked soul
shall wail and quiver — this shall be,
unless the keys thou render me
of thy black fotress, and the spell
that bindeth stone to stone thou tell,
and speak the words of opening."
With gasping breath and shuddering
he spake, and yielded as he must,
and vanquished betrayed his master"s trust.
Lo! By the bridge a gleam of light,
like stars descended from the night
to burn and tremble here below.
There wide her arms did Luthien throw,
and called aloud with voice as clear
as still at whiles may mortal hear
long elvish trumpets o"er the hill
echo, when all the world is still.
The dawn peered over mountains wan,
their grey heads silent looked thereon.
The hill trembled; the citadel
crumbled, and all its towers fell;
the rocks yaned and the bridge broke,
and Sirion spumed in sudden smoke.
[Tolkien, "Lays", pp. 253-4, linhas 2774-2803]

O poder de Lúthien era considerável. Ela era, de toda forma, uma feiticeira Élfica, e a mais poderosa feiticeira Élfica de todos os tempos:

Now Luthien doth her counsel shape;
and Melian"s daughter of deep lore
knew many things, yea, magics more
than then or now know elven-maids
that glint and shimmer in the glades.
[Ibid., p. 204, linhas 1425-9]

Enquanto tramava a figa da prisão onde seu pai a havia colocado, Luthien chamou seu amigo, Daeron o Menestrel, para fazer um tear para ela.

Isso [Daeron] fez e pediu a ela então:

"O Luthien, O Luthien,What wilt thou weave?
What wilt thou spin?"
"A marvellous thread, and wind therein
a potent magic, and a spell
I will weave within my web that hell
nor all the powers of Dread shall break."
Then [Daeron] wondered, but he spake
no word to Thingol, though his heart
feared the dark purpose of her art.
And Luthien now was left alone. A magic song to Men unknown
she sang, and singing then the wine
with water mingled three times nine;
and as in golden jar they lay
she sang a song of growth and day;
and as they lay in silver white
another song she sang, of night
and darkness without end, of height
uplifted to the stars, and flight
and freedom. And all names of things
tallest and longest on earth she sings:
the locks of the Longbeard dwarves; the tail
of Draugluin the werewolf pale;
the body of [Glaurung] the great snake;
the vast upsoaring peaks that quake
above the fires in Angband"s gloom;
the chain Angainor that ere Doom
for Morgoth shall by Gods be wrought
of steel and torment. Names she sought,
and sang of Glend the sword of Nan;
of Gilim the giant of Eruman;
and last and longest named she then
the endless hair of Uinen,
the Lady of the Sea, that lies
through all the waters under skies.
Then did she lave her head and sing
a theme of sleep and slumbering,
profound and fathomless and dark
as Luthien"s shadowy hair was dark –
each thread was more slender and more fine
than threads of twilight that entwine
in filmy web the fading grass
and closing flowers as day doth pass.
Now long and longer grew her hair,
and fell to her feet, and wandered there
like pools of shadow on the ground.
Then Luthien in a slumber drowned
was laid upon her bed and slept,
till morning through the windows crept
thinly and faint….
[Ibid., pp. 205-6, linhas 1466-1516]

A mágica de Luthien a exauriu tanto que ela teve que dormir após ter feito seu cabelo crescer. Pela manhã ela tomou o cabelo e o teceu em uma capa de sombra que permitiu a ela escapar de Doriath. Ela passou três dias trabalhando no tear, tendo cortado seu cabelo próximo à orelha. E a "Balada" diz que seu cabelo, quando cresceu novamente, era ainda mais negro do que havia sido antes do feitiço.

Em Angband Luthien mais uma vez utilizou seu poder, sem disfarce frente Morgoth e cercada por seus servos:

With arms upraised and drooping head
then softly she began to sing
a theme of sleep and slumbering,
wandering, woven with deeper spell
than songs wherewith in ancient dell
Melian did once the twilight fill,
profound, and fathomless, and still.
The fires of Angband flared and died,
smouldered into darkness; through the wide
and hollow walls there rolled and unfurled
the shadows of the underworld.
All movement stayed, and all sound ceased,
save vaporous breath of Orc and beast.
One fire in darkness still abode:
the lidless eyes of Morgoth glowed;
one sound the breathing silence broke:
the mirthless voice of Morgoth spoke.
[Ibid., p. 298, linhas 3977-93]

Grande como era, até mesmo Morgoth eventualmente sucumbiu ao feitiço de Luthien. Aqui um elemento raro é adicionado ao encantamento: Luthien dança para Morgoth e sua horda. Ela voa pelas cavernas de Angband, drapejando sua capa mágica sobre seus olhos, e um por um eles caem no sono. Sua canção não era suficiente, ela teve que fortalece-la com uma dança "como nunca elfo ou fada vira antes, nem viu desde aquele dia".

Como previamente citado, na carta 155 Tolkien tenta distinguir entre as habilidades de Elfos e Homens, e pensando em Aragorn ele traz à tona o assunto da descendência de Luthien:

De qualquer forma, uma diferença no uso da palavra "mágica" nesta história é que ela não é adquirível por "conhecimento" ou feitiços; mas como um poder inato possuído porHomens como ele. A "cura" de Aragorn pode ser considerada como "mágica", ou pelo menos uma combinação de magia com farmácia e processos "hipnóticos". Mas isto é [em teoria] relatado pelos Hobbits, que tinham muito pouca noção de filosofia e ciência; e Aragorn não era um "Homem" puro, mas um dos distantes descendentes dos "filhos de Lúthien".[Tolkien, "Letters", Carta 155]

Talvez, mas na margem próximo a este parágrafo Tolkien escreveu: "Mas os Numenorianos usavam "feitiços" ao fazerem suas espadas?". De fato, eles parecem ter feito isso. Talvez o ferreiro que fez as lâminas da Colina dos Túmulos fosse um descendente de Luthien também – Tolkien nunca retornou ao assunto. Mas ele demoliu, com este pensamento, todo o argumento de que os Homens não podiam usar magia. De fato, Tolkien diz:

Beorn está morto; ver vol. I p. 241. Ele apareceu em O Hobbit. Era então o ano 2940 da Terceira Era [1340 do calendário do Condado]. Estamos agora nos anos 3018-19 [1418-19]. Embora um troca-peles e sem dúvida um pouco mago, Beorn era um Homem.[Ibid., Carta 144]

Luthien praticou a troca-de-peles: ela assumiu a forma vampiresca de Thuringwethil quando ela e Beren foram para Angband. E ela era com certeza uma maga feminina de grande poder. Mas é bastante improvável que Beorn seja um descendente de Luthien, apesar de Gandalf acreditar que ele era descendente de uma raça de Homens que vivia nas Montanhas Sombrias. Poderiam esses Homens ter se misturado com os Dunedain de Eriador? Talvez, mas não é provável. A magia de Beorn parece ter sido, de alguma forma, Xamanística. Ele lidava com animais e tinha uma amizade com eles como nenhum outro Homem:

Dentro do salão estava agora completamente escuro. Beorn bateu palmas, e para dentro do salão trotaram quatro belos ponêis brancose vários grandes cachorros cinzentos de corpo grande. Beorn disse alguma coisa a eles em uma língua estranha como sons animais transformados em fala. Eles sairam novamente e logo retornaram carregando tochas em suas bocas, as quais acenderam no fogo e prenderam em suportes baixos na parede ao redor da lareira central. Os cães podiam ficar em pé sobre as patas traseiras quando quisessem, e carregavam coisas com as patas da frente. Rapidamente eles retiraram tábuas e suportes das paredes laterais e os prepararam perto do fogo.[Tolkien, "Hobbit", pp. 135-6]

Estas eram criaturas extraordinárias, mas indubitavelmente Beorn tinha alguma coisa a ver com suas habilidades, embora seja debatível se sua fala com eles "em uma língua estranha como sons animais transformados em fala" pudesse ser um feitiço. À noite Bilbo ouviu um som de arranhar e arrastar fora da casa de Beorn, e na segunda noite lá o Hobbit sonhou com ursos dançando no pátio, antes deles acordar e ouvir os sons novamente. A dança pode ser um sinal da magia de Beorn, embora ele não tenha produzido grandes artefatos como os Elfos.

Nem todos os artefatos Élficos eram coisas grandes e poderosas. Estes eram os Palantiri, as Pedras da Visão, as Silmarilli e os Anéis de Poder. Mas os Elfos parecem ter feito muitas outras coisas de menor poder: existiam as espadas dos Noldor que brilhavam quando perto de alguma criatura como os Orcs, e as espadas de Eol que pareciam possuir grande poder; haviam as lamparinas douradas e prateadas que os Elfos usavam e que nunca apagavam ou necessitavam de combustível. As cordas e barcos dados à Sociedade do Anel parecem mágicos de várias maneiras, permitindo à Companhia realizar tarefas que de outra maneira seriam impossíveis, e um barco sobrevive até mesmo às temerosas Quedas de Rauros, preservando o corpo de Boromir. E as capas cinzas que os Elfos de Lórien dão  à Sociedade claramente possuem um efeito mágico aos olhos dos Mortais: ela praticamente torna os seus usuários invisíveis aos olhos Mortais, pelo menos.
 
‘São capas mágicas?’ – perguntou Pippin, olhando-as admirado
‘Não sei o que quer dizer – respondeu o líder dos elfos. – São trajes bonitos, e o fio é de boa qualidade, pois foi feito nesta terra. São vestimentas élficas, com certeza, se é isso que quer dizer. Folha e ramo, água e rocha: elas têm a cor e a beleza de todos esses elementos sob nosso amado crepúsculo de Lórien, pois colocamos o pensamento de tudo o que amamos nas coisas que fazemos. Mas são vestes, não armaduras, e não repelirão lanças ou lâminas.  Mas vão servi-los bem: são leves de usar, quentes o suficiente e frescas o suficiente, conforme a necessidade. E vão encontrar nelas uma grande ajuda quando precisarem se esconder dos olhos inimigos, se andarem entre as rochas ou entre as árvores. Realmente, a Senhora os tem em alta conta! Pois ela mesma, com suas aias, teceu este material, e nunca antes tínhamos vestido forasteiros com as roupas de nosso próprio povo!’
[Tolkien, A Sociedade do Anel, pg 394]
 
Por meramente colocarem o pensamento de tudo o que eles amam no que fazem, os Elfos são capazes de imbuir as capas com “a cor e a beleza” de coisas como “folha e ramo, água e rocha”.
Como Lúthien pensa em sono e em esconder-se, a capa que ela usa lhe dá a habilidade para passar sem ser vista por seu próprio povo, e para encantar Morgoth em um profundo sono. Essa era a maneira Élfica, de praticar sua “arte” em todas as coisas que eles faziam. 
Os únicos outros fabricantes de artefatos verdadeiros da Terra Média eram os Anões. Sua motivações, porém, eram diferentes daquelas dos elfos. Eles não pensavam tão alto, nem se tornaram tão arrogantes a ponto de pretender para o tempo e preservar o passado contra o futuro. Os Anões pareciam mais dispostos a aceitar seu destino do que Elfos ou Homens. Assim não encontramos entre os Anões tentativas de criar refúgios mágicos, ou de extender ou preservar suas vidas.
 
 Os Anões preocupavam-se com coisas mais práticas. Pensamos neles como os forjadores de armas da terra Média, e muitas vezes eles o eram realmente. Telchar de Nogrod foi provavelmente o maior dos seus forjadores de metal. Vivendo na Primeira Era, estudante do mestre ferreiro Gamil Zirak, ele indubitavelmente foi um dos Anões que adquiriu grande conhecimento e habilidade dos Noldor. Os anões em sua juventude foram educados por Aule, mas eles não viveram em Aman nem residiram em meio aos Valar e Maiar. Eles aprenderam muito dos Exilados Noldorin que passaram milhares de anos aprendendo com os Ainur. Telchar é melhor lembrado por ter forjado a espada Narsil. Embora era dito que ela brilhava com uma fria luz, ela não possuía muito mais. A espada deve ter sido imbuída com um dom para resistir à destruição do tempo: mesmo nos tempos de Aragorn, os fragmentos puderam ser reforjados em uma nova espada. Narsil era feita meramente de aço, ou Telchar usou alguma liga metálica a muito esquecida?
 
Outro artefato dos Anões foi o Elmo de Dragão de Dor-lómin. Ele não é necessariamente distinguível de outros elmos usados pelos Anões em suas guerras, exceto que ele foi feito para Azaghal, senhor de Belegost. De Azaghal o elmo passou de mão para mão, dono à dono, como presente, até que ele veio à Hador Lorindol , primiero senhor de Dor-lómin entre os Edain. Hador e seus herdeiros usaram o elmo em batalha, e suas virtudes incluíam proteger o usuário de danos e derrotas na batalha.
 
Em Khazad-dum, enquanto os Anões de Nogrod e Belegost forjavam grandes armas e armaduras, os Barbalonga construíram as fundações do que se tornaria um dia a maior da civilizações dos Anões. Durin, o Imortal, primeiro dos Barbalonga, fundou a cidade, sobre a qual Gimli o Anão cantou milhares de anos depois:
 

“Rei era ele em trono entalhado,
Salão de Pedra encolunado,
No teto ouro, prata no chão,
E as fortes runas no portão.
A luz da lua, de estrela e sol
Presa em lâmpada de cristal,
Por noite ou nuvem não tolhida,
Brilhava bela toda a vida”
[Ibid, p. 335-6]
 
 As runas de poder talvez fosse o trabalho mágico mais cuidadoso dos Anões, com as quais eles conseguiram proteger Khazad-dum contra seus inimigos. Em eras posteriores os Anões de Erebor fizeram harpas mágicas que, tomadas pelos membros da companhia de Thorin após a morte de Smaug, permaneciam em sintonia e prontas para serem tocadas quase 200 anos após o Reino sob a Montanha ter sido destruído pelo dragão. “Operavam encantos anões de outrora” eles cantaram na casa de Bilbo, Bolsão.
 
“Para o antigo rei e seu elfo senhor
Criaram tesouros de grã nomeada;
As pedras plasmaram, a luz captaram
Prendendo-a nas gemas do punho da espada

Em colares de prata eles juntaram
Estrelas floridas; fizeram coroas
De fogo-dragão e no mesmo cordão
Fundiram a luz do sol e da lua.”
[Tolkien, “O Hobbit”, p. 22-3]
 
Capturar a luz do sol, das estrelas, e da lua e armazena-la nas gemas em armas, ou a luz do fogo do dragão, era uma mágica similar àquela dos Elfos. Os Anões procuravam aumentar a beleza do mundo ao seu redor, mas eles se aproximaram do objetivo de maneira concreta. Do outro lado, como pode ser visto nos anéis de fumaça de Thorin (Tolkien, “O Hobbit”, p. 12), os Anões eram capazes de se ocupar com coisas despreocupadas e “artísticas”. Alguns dos presentes que Bilbo dá em sua festa são mágicos em natureza, e vieram dos Anões (Tolkien, “A Sociedade do Anel”, p. 27).
Suas ambições então talvez não fossem grandiosas como as dos Elfos, mas a aptidão dos Anões para a sub-criação parece não ser menos capaz do que a dos Elfos. As runas de poder no portão Leste de Khazad-dum  são “magias de proibição e exclusão em Khuzdul” (Tolkien, “Peoples”, p. 319). As runas da lua ou letras da lua dos Anões representam uma mistura do artístico com o prático, sendo usadas para um propósito funcional mas não necessariamente requerido.
 
Desta forma a magia é uma mistura de talentos naturais e poderes e de uma tecnologia de construção de forma que só pode ser exercida por aquelas raças com o dom da sub-criação, a capacidade de moldar o mundo ao redor deles à suas vontades. Homens (e Hobbits) parecem ser incapazes de praticar a sub-criação, a menos que herdassem uma descendência de sangue Élfico, mas poderiam apesar de tudo adquirir grandes poderes, ou serem atraídos para as técnicas que Sauron desenvolveu para utilizar o elemento Morgothiano distribuído por toda Arda.
 
Combinando esses talentos e conhecimentos com uma comunicação com os espíritos de Elfos e possivelmente Homens, Tolkien dá vida às tradições da magia para nosso próprio legado. A necromancia parece ser a mais arriscada das magias da terra Média, e parece ser completamente destinada às Artes Negras por Tolkien. Quando se fala dos espíritos élficos e de como eles se tornaram “sem lar” após deixar seus corpos, Tolkien aponta que eles possuíam a liberdade para recusar a convocação natural para Mandos, onde eles poderiam, através de um tempo de contemplação, curar seus pesares e consertar seus erros. Mas por causa que Melkor, enquanto esteve na Terra Média, compeliu todos aqueles que recusaram a convocação a vir para ele, a recusa tornou-se associada a influência negra de Melkor.
 
 “É então algo tolo e perigoso, além de ser um ato errado proibido justamente pelo Governadores de Arda, se os vivos procuram comunicar-se com os sem corpo, apesar de que os sem lar possam deseja-lo, especialmente os mais desprovidos de valor entre eles. Para os sem corpo, vagando pelo mundo,  há aqueles que pelo menos recusaram a porta da vida e permaneceram em pesar e auto-piedade. Alguns são cheios de amargura, desgosto e inveja. Alguns foram escravizados pelo Senhor do Escuro e realizam seu trabalho silenciosamente, apesar dele próprio já ter partido. Eles não falarão a verdade ou o bom senso. Visita-los é tolice. Tentar comanda-los e torna-los servos da vontade de alguém é crueldade. Essas práticas são de Morgoth; e os necromantes são das hostes de Sauron, seu servo.

Alguns dizem que os sem lar desejam um corpo, apesar de eles não poderem procura-los legalmente por submissão ao julgamento de Mandos. Os maus entre eles tomarão corpos, se puderem, deslealmente. O perigo de comunicar-se com eles é então, não apenas o perigo de ser iludido por fantasias ou mentiras: há mesmo o perigo de destruição. Para um sem lar faminto, se for permitido que torne-se amigo dos vivos, ele pode tentar expelir o fëa do corpo; e na tentativa de dominar o corpo pode feri-lo gravemente, mesmo se não arrancado com força de seu dono verdadeiro. Ou os sem lar podem implorar por abrigo, e se for permitido, então ele irá procurar escravizar seu anfitrião e usar tanto sua vontade como seu corpo para seus próprios propósitos. É dito que Sauron fez essas coisas, e ensinou seus seguidores a executar tais atos.”
[Tolkien, “Morgoth’s Ring”, p. 224]
 
Portanto, através da ilusão de poderosos espíritos élficos, Homens podem procurar adquirir os poderes que eles vêem nos Elfos e invejam. Mas o perigo para eles pode ser muito grande. Quando se fala em como ele e outros foram confrontados pelos espíritos hesitantes dos Homens Mortos de Dunharrow, legolas diz, “não temi as sombras dos homens, que considerei frágeis e desprovidas de poder.” [Tolkien, “O Retorno do Rei”, p. 143]
 
‘Frágeis e desprovidas de poder” de fato. Então elas devem ter parecido para  um príncipe Élfico que certamente sabia o que poderia acontecer aos espíritos Élficos sem lar. Esses Homens Mortos foram amaldiçoados por Isildur milhares de anos antes. Por causa que eles mostraram deslealdade em uma guerra anterior contra Sauron, eles foram condenados a esperar como espíritos assombrados nas Ered Nimrais até que o Herdeiro de Isildur os chamasse para cumprir seu juramento. Como um descendente de Lúthien, Isildur talvez possuísse o poder para amaldiçoar os homens, mas ele estava transgredindo a ordem natural das coisas. Espíritos masculinos supostamente não podem permanecer na Terra Média. Um poder maior, então, deve ter aprovado as palavras de Isildur, ou talvez mesmo as concedido ao rei. E apenas Ilúvatar possuía o poder e autoridade para alterar o destino dos Homens. Legolas então sabe que esses espíritos não eram perigo para ele – eles eram desprovidos de força para recusar seu próprio destino, diferentemente dos Elfos.
 
Apesar de tudo, interação com os mortos, ou com os sem lar, encheu os homens de temor e maus presságios, e até mesmo Aragorn, que como Herdeiro de Isildur possuía o direito e talvez até mesmo a obrigação de comandar os Homens Mortos para cumprir seu antigo juramento, foi relutante. De todas as magias encontradas na Terra Média, esta chega mais perto de contrariar a ordem natural definida por Ilúvatar.
O que podemos então concluir? Que Tolkien usou a palavra “magia” para descrever ações que não eram naturais para Homens Mortais, mas que eram porém naturais ou dentro do escopo das habilidades naturais dos Ainur e dos Elfos. A Magia da Terra Média era uma expressão da vontade dos praticantes da mesma, de seus desejos artísticos. Era uma espada de duas lâminas, e cada invocação poderia ser usada para o bem ou para o mau. A diferença entre magia “boa” e “má”, então, era muitas vezes o motivo. Apenas a comunicação com os mortos foi proibida, e mesmo assim essa convenção foi transgredida para um bem maior. Elfos e Anões da mesma forma possuíam talentos especiais mas os Elfos demonstravam maior ambição ou aptidão. Talvez nas escuras cavernas os Anões produzir artefatos poderosos que nunca viram a luz do dia, mas desta maneira seus feitos não podem ser avaliados, e eles pareciam possuir um dom menor.
 
Mas dos Ainur, Elfos e Anões a mágica descendeu para os Homens de diversas maneiras e seus desejos foram inflamados. Pode ser que a grande tecnologia desenvolvida (e perdida) pelos Númenoreanos  durante a Segunda Era em algumas maneiras represente uma tentativa de rivalizar a magia Élfica. Mas os Dúnedain da Terceira Era reteram apenas uma sombra desse conhecimento perdido. Os Homens roubaram os Anões procurando tesouros e talvez mais, mas no fim foram forçados a trocar por bugigangas e brinquedos. E com cada fracasso e atraso, cada derrota e derrota e tragédia, os Anões esqueceram um pouco mais que seu conhecimento antigo, especialmente conhecimentos e habilidades.
Se os Elfos sozinhos reteram seu grande poder e conhecimento antigo, seus números diminuíam a cada barco que estendeu vela aos Mares. Século a século a Terra Média perdiam um pouco mais dos encantamentos dos dias Élficos. Os ecos das poderosas magias de outrora chega à nós através dos mitos e lendas dos Homens que apenas vagamente e imprecisamente lembram o que se foi antigamente. A Ciência e a tecnologia representam o que os cientistas podem estudar e o que os tecnólogos podem construir, e se eles não podem ver o invisível, ou cantar à existência alguma beleza, então eles não possuem arte nem técnica para estudar, e então lança um olho cético para o que uma vez foi um aspecto natural do seu mundo. 
 

 
 
 
 

O Conto de Um Hobbit Caí­do (Sméagol/Gollum)

“Nas profundezas da água escura viveu o velho
Gollum, uma criatura pequena e repugnante. Eu não sei da onde veio, nem
o que era. Ele era um Gollum tão escuro quanto a própria escuridão,
exceto pelos grandes olhos pálidos na sua face magra. Ele tinha um
barquinho, e ele navegava silenciosamente pelo lago, já que esse lago
era grande, fundo e mortalmente frio. Ele remava com seus pés grandes
pendendo pelos lados do barco, mas ele nunca criou uma onda sequer…"?
 
 
 
A nossa primeira impressão de Gollum não nos
remete à fisionomia dos Hobbits. Quando nós o conhecemos, ele nos
pareceu um monstrinho horrível, predando peixes cegos e goblins nas
profundezas escuras da terra, determinado a matar o respeitável Bilbo
Bolseiro. J.R.R. Tolkien diz, “Eu não sei da onde ele veio, nem quem ou o que ele era." A criatura, ele continua, é um “Gollum". Dali por diante, O Gollum se tornou, simplesmente “Gollum".


“…e lá vivia nas margens do Grande Rio perto de uma terra selvagem
pessoas de mãos leves e pés silenciosos. Eu acho que eles eram da
espécie dos Hobbits: parentes dos pais dos pais dos Stoors, “Gandalf
diz ao sobrinho e herdeiro de Bilbo, Frodo Bolseiro muitos anos depois:
“Havia entre eles uma família de alta reputação,"
ele continua. “Os
mais inquisidores e curiosos daquela família era chamado Sméagol. Ele
estava interessado nas raízes e no início de tudo; ele cavava poços
profundos; se enfiava sob árvores e plantas crescidas; criava túneis em
barragens; se recusava a olhar para os topos das montanhas, ou para as
folhas nas árvores, ou para as flores desabrochando no ar: sua cabeça e
olhos miravam sempre para baixo."

Smeágol era uma criatura
miserável enquanto viveu: ninguém o queria, era infeliz, amargo e
invejoso. Ele virou as costas para o mundo e seu próprio povo muito
tempo antes de ser gravemente expulso. As profundezas de seu coração se
tornaram negras de cheias de ódio muito antes de sua aparência externa
se tornar hedionda. Seu espírito pouco lembrava o de um Hobbit.

Existiam três grandes tribos Hobbit: Harfoots, os mais numerosos;
Fallowhides, os mais aventureiros; e os Stoors. Os Stoors viviam nas
margens dos rios, mas eles eram muito mais dedicados ao comércio e à
viagens. Eles freqüentemente se associavam aos anões e aprenderam muito
com eles. Os Stoors eram os mais duros e territorialistas dentre os
Hobbits, isso antes deles encontrarem um lar seguro.

Os
Hobbits viveram nos vales do Anduin por muito tempo. Eles provavelmente
se instalaram por lá perto do fim da Segunda Era, errantes ou
refugiados vindos de terras orientais distantes nos dias em que os
exércitos de Sauron conquistavam vastas regiões no oriente da
Terra-Média. Os Hobbits fizeram amigos entre os Edain de Rhovanion, os
Homens Livres do Norte, de onde depois veio a linhagem dos Beornings,
os Homens do Vale e Long Lake, e os Rohirrim. Nesses primeiros anos os
Hobbits procuraram pelos homens e se instalaram perto de suas cidades,
ou compartilharam cidades, como Bri na Terceira Era.

Muitos
Hobbits – Harfoots e Fallowhides – devem ter migrado para o norte, pois
os Edain foram empurrados para as montanhas e terras distantes durante
a grande guerra entre os elfos e Sauron. Isso deve ter ocorrido muitos
e muitos anos antes deles se tornarem suficientemente numerosos para
colonizar as terras do sul próximas a Lothlórien. Mas enquanto os
homens se multiplicavam e migravam lentamente para o sul, aparentemente
foram deixando os Hobbits para trás. Exceto os Stoors. Esse povo
parecia ter se estabelecido perto do Rio Gladden, originalmente, onde
eles poderiam estar próximos dos anões de Khazad-dûm, onde estariam
relativamente protegidos pelo poder de Khazad-dûm e Lothlórien.

Perto do ano 1000 da Terceira Era, Sauron começou a tomar forma
novamente, e descobriu que Mordor estava suficientemente fortificada
para o seu retorno que se deu nas planícies de Amon Lanc no sul da
grande Greenwood. A colina um dia foi o coração de um reino élfico, mas
desde que os elfos migraram para o norte não há nada na floresta que se
oponha a Sauron. Ele construiu uma grande fortaleza na colina, que
passou a ser conhecida como Dol Guldur [a colina da bruxaria]. E Sauron
começou a colonizar as terras do sul de Greenwood e os vales do sul do
Anduin com as suas criaturas: Orcs, Trolls, Lobisomens, Wargs e homens.
Criaturas orientais sempre foram fontes de problemas para o grande
reino de Gondor, mas agora as tribos chegaram e se assentaram nos vales
do Anduin e os rumores da força negra no sul se espalharam pelo norte.

Os Harfoots, talvez lembrando seu passado ou histórias contadas sobre
as guerras entre os elfos e os antigos poderes negros, passaram pelas
montanhas sombrias indo para Eriador, para nunca mais retornar. Os
Fallowhides os seguiram 100 anos depois, e ao mesmo tempo que os Stoors
abandonaram sua terra natal no rio Gladden atravessando Redhorn para o
antigo reinado élfico de Eregion. De lá os Stoors foram para o norte,
para uma terra chamada Angle, que ficava entre os rios Mitheithel e
Bruinen, ou passaram para o sudoeste até as fronteiras de Dunland.

Os Stoors do Angle viviam sob as leis dos Dunadain de Rhudaur. Os
Hobbits aumentaram o poder desse reino, mas menos de 200 anos depois o
reino de Angmar cresceu nonorte e ameaçou Rhudaur. Os Hobbits deixaram
seus lares mais uma vez. Os Stoors do Angle se dividiram: alguns
migraram de volta pelas montanhas sombrias para os vales do Anduin. O
terror de Angmar parecia maior que o de Dol Guldur. E ao menos nos
vales do Anduin eles estariam próximos de reinos poderosos dos anões e
elfos.

Então, por mais de 1000 anos os Stoors viveram
relativamente em paz. Os Edain que viviam nas proximidades aparentavam
ser amistosos com relação à eles, ou simplesmente não queriam arrumar
problemas com esse povo. Durante esses anos remanescentes de um reino
dos homens ao norte do que hoje seria Mirkwood se alojaram no vale do
Anduin próximo aos Stoors. Esses eram os pais do Éothéod, o povo
cavalo, que migrou para extremo norte anos depois. Mas esse povo
lembrava os Stoors, a quem chamavam cava-buracos, e eles levaram
memórias como essa com eles quando Lord Eorl os levou para o sul e
fundou o reino de Rohan.

No 25o. século da Terceira Era, não
muito depois do nascimento de Eorl, Sméagol o Stoor e seu primo Déagol
foram fazer uma expedição de barco. Era o aniversário de Sméagol.
Déagol pulou na água, talvez para pegar um peixe e achou um anel
dourado caído no meio da lama. Ao emergir, mostrou o anel para Sméagol,
que o ordenou que o desse como presente. “Mas eu já lhe dei o meu presente", Déagol respondeu. “Eu o encontrei e vou ficar com ele."

Mas o desejo pelo anel consumou Sméagol, pois era o Um Anel, o anel
mestre de Sauron, que há muito tempo atrás Isildur cortou da mão de
Sauron e o manteve para si. No final, o anel traiu Isildur, que
resultou na sua morte nas águas do Anduin, e agora o anel foi desperto
pela malícia de Sauron e desejava retornar para seu mestre. Sméagol
matou seu primo e pegou para si o anel. Com o tempo ele aprendeu que,
enquanto usasse o anel ele não poderia ser visto. Ele passou a usar o
anel para benefício próprio e logo se tornou impopular entre seu povo.
Foi então que ele começou a resmungar consigo mesmo “gollum….
gollum", e os Stoors o apelidaram de Gollum.

Um dia, os Stoors
expulsaram Gollum e ele nunca mais foi visto entre seu povo. Ele vagou
pelas terras, só e miserável, até que resolveu ir para as montanhas e
descobrir suas raízes e segredos. Assim ele desapareceu do mundo da luz
e se perdeu na escuridão da terra e levou consigo o Um Anel. Por mais
de 500 anos ele vagou na escuridão, predando Orcs e peixes. O anel
extendeu a vida de Gollum, mas ao invés de garantir-lhe mais vigor,
lentamente o drenou e o escravisou. Ele estava consumido pelo anel, com
quem ele falava constantemente e o chamava de Precioso. Na sua mente, o
Precioso era seu por direito, não por assassinato. O anel o procurou. E
mesmo assim, não lhe deu nenhuma alegria, e não tinha nenhum conforto
ou consolo na sua solidão.

Quando Bilbo entrou na caverna de
Gollum por acidente, os primeiros pensamentos que vieram à mente de
Gollum foram de comida e assassinato, porém, logo depois vieram
memórias de sua juventude, de coisas que costumava gostar. Por uns
momentos, Gollum chegou a gostar do jogo de charadas que mantinha com
Bilbo, até que ele confundiu a preocupação de Bilbo com o que havia em
seu bolso com uma charada de verdade. Nas regras do jogo, Gollum
perdeu, e aceitou a derrota. Mas ao retornar à sua ilha, descobriu que
o se querido anel havia desaparecido.

Bilbo encontrara o anel,
e Gollum descobriu que era ele que estava no bolso do Hobbit. A partir
daquele momento, Gollum foi tomado pela necessidade de reaver o anel.
Ele caçou Bilbo sem sucesso, pois o Hobbit descobriu o poder do anel e
se escondeu da vil criatura. Depois da saída de Bolseiro, Gollum brigou
consigo mesmo na escuridão, com medo da luz, mas com a dor de ter
perdido seu Precioso. Com o tempo ele se lançou ao ar livre e começou a
procura por seu tesouro perdido.

Muitos anos passaram até que
Gollum finalmente encontrou o Um anel. Na época Sauron envocou todas as
criaturas malignas, pois o Senhor do Escuro havia retornado para seu
antigo domínio e começou a reconstruir Barad-dûr. E Gollum, que até
então estava obstinado em sua caça por Bilbo Bolseiro e pelo Anel
acabou por obedecer ao chamado. Ele rumou em direção a Mordor, onde foi
aprisionado e levado à frente de Sauron, onde falou tudo o que ocorrera
com o anel após a morte de Isildur.

Solto por Sauron por algum
propósito oculto, Gollum se tornou um peão num jogo mortal entre os
poderes da Terra Média. Ele logo foi capturado por Aragorn, capitão dos
Dúnedais do norte e levado aos elfos de Mirkwood. Lá ele foi
interrogado por Gandalf, que aprendeu com ele tanto quanto Sauron
havia. Mas, com o tempo, Gollum escapou e rumou para o sudoeste, até
chegar a Moria. Incapaz de escapar, Gollum permaneceu lá na miséria e
esperando morrer [ou talvez querendo morrer]. Em vez disso, a sorte
pareceu sorrir para ele, pois um dia os portões do oeste, que ele não
tinha forças para abrir, se abriram e nove aventureiros entraram: o
mago Gandalf, Aragorn e seus companheiros: a sociedade do anel.

Daquele momento em diante, Gollum perseguiu o anel desesperadamente,
levado por sua malícia e poder. Quando a sociedade foi dividida no
ataque dos orcs, Gollum seguiu Frodo e Sam pelo Anduin, e no vale de
Emyn Muil os interceptou. Mas Frodo e Sam o derrotaram, e o fizeram
prisioneiro, e forjaram uma perigosa parceria com ele.

A
jornada de Gollum com Frodo praticamente o redimiu. Com a gentileza e
sabedoria de Frodo, Gollum passou a se ver novamente como um indivíduo,
e se lembrou de quando ainda era Sméagol, e como era viver e amar
outras criaturas.Mas o servo de Frodo, Sam, impediu sua total redenção.
No momento crucial da redenção de Gollum, Sam não quis ajuda-lo, dando
suas costas para ele. Em retorno, Gollum endureceu seu coração e traiu
Frodo e Sam.

Ainda assim, havia uma grande maldição associada
ao anel e a todos que o desejasse. Escravizado pelo anel, e seguindo
Frodo para onde quer que ele fosse, Gollum não pode dar as costas e
procurar por terras mais seguras. Ele caminhou pelo coração de Mordor e
tentou novamente recuperar o anel. Mas agora ele estava fraco, e o
espírito de Frodo estava muito forte. Mas além disso, o poder do anel
havia crescido também, já que se aproximava da mão de seu mestre e do
local de sua forja.

“Saia!" gritou uma voz vinda do anel.
“E não me importune mais! Se você me tocar novamente, será lançado no
fogo da Montanha da Perdição!"

E era no fogo da perdição,
o Sammath Naur, onde um milênio antes Sauron forjara o anel, que Frodo
pretendia joga-lo. Lá ele esperava lança-lo nas chamas e então
destruí-lo e acabar com as forças de Sauron, pois esse depositou grande
parte de seu poder no anel. Gollum agora entendera o objetivo de Frodo,
e ao tentar desesperadamente impedir a destruição de seu Precioso, ele
passou por cima de Sam na Montanha da Perdição e seguiu Frodo até a
borda. Lá ele atacou Frodo novamente e, na briga, arrancou o dedo e o
anel de Frodo.

No júbilo de sua vitória, Gollum pulou alto e
dançou em êxtase, mas errou ao não notar a proximidade que estava da
borda, e assim, tropeçou e caiu nas profundezas do vulcão. E com ele
foi o anel, e quando o fogo destruiu o anel do poder de Sauron, seu
reino maligno caiu. Sauron ficou tão fraco que seu corpo foi destruído
quando as ruínas de sua fortaleza negra ruiu sobre ele, e seu espírito
negro desapareceu, impotente.

A história da relação de Gollum com Frodo é longa e comovedora. “Para mim," Tolkien escreveu para seu filho Christopher, “eu
estava particularmente comovido pela descrença de Sam na história, e,
na cena em que Frodo adormece em seu colo, e a tragédia de Gollum que,
naquela hora veio com um sinal de arrependimento, freado por uma
palavra dura proferida por Sam."

A história de Gollum e
seu relacionamento com o anel é trágica e patética, ainda que Tolkien
nota que o anel não era a causa da natureza ruim de Gollum:


“A dominação do anel foi muito forte para a alma má de Sméagol. Mas ele
não teria sentido-a se não tivesse se tornado um ladrão quando o anel
chegou até ele. A necessidade nunca havia cruzado o seu caminho? A
necessidade de algo perigoso nunca atravessou nenhum de nossos
caminhos? A resposta para isso pode ser encontrada ao tentar imaginar
Gollum superando a tentação. A história teria sido bem diferente!
Contemporizando, sem arrumar a semi-corrompida vontade de Sméagol, ele
ruma para a bondade com os bons tratos de Frodo e se enfraquece,
perdendo a chance, quando o amor dirigido a ele por Frodo é amargado
pela inveja de Sam na cova de Laracna. Depois disso ele se perdeu."

Existe uma dualidade na natureza da tragédia: Gollum se redime porque
existe algo nele que pode ser redimido, e Sam falha ao perceber ou
apreciar esse fato. “Para mim o momento mais trágico na história é quando Sam falha ao notar a completa mudança no tom de voz e aspecto de Gollum",
Tolkien escreveu para um fã. Sua recuperação é interrompida e toda a
piedade de Frodo é [de certa forma] desperdiçada. A toca de Laracna
parecia inevitável.

Isso é devido, claro, ao curso lógico da
história. Sam dificilmente teria agido de forma diferente. [Ele chega
ao ponto da piedade, mas tarde demais para Gollum.] Se tivesse sido
antes, o que teria acontecido? O caminho da entrada para Mordor e a
luta para chegar à Montanha da Perdição teria sido diferente, assim
como o final. O interesse teria sido redirecionado à Gollum, eu creio,
e a batalha seria travada entre seu arrependimento e seu novo amor de
um lado, e o anel de outro. Apesar de que o amor seria fortificado
dia-a-dia, ele não seria páreo para a vontade de ser o senhor do anel.
Eu acho que de alguma forma Gollum teria tentado [talvez não
conscientemente] satisfazer os dois lados. Certamente em algum ponto
não muito antes do fim, ele teria roubado o anel, ou tomado-o por meios
violentos [como acontece na história original]. Mas tendo satisfeita a
necessidade da “posse", eu creio que ele teria se sacrificado em nome
de Frodo e voluntariamente se jogado nas chamas do vulcão.

Mas
da forma como ocorreu, a redenção de Gollum nunca aconteceu. Sam
endureceu seu coração, destruindo com uma palavra toda a mudança que
Frodo operou em Gollum. Frodo perdeu todo o interesse pela Terra Média
por causa do Um anel, mas apesar de que, através de seu sacrifício a
Terra Média foi salva e Frodo encontrou a paz no extremo oeste. Gollum,
por sua vez, fez o maior dos sacrifícios: ele perdeu sua alma.

Caro Gandalf…

Em um dos muitos ensaios que ele escreveu sobre os Istari, J.R.R. Tolkien disse: "Entre os Homens (inicialmente), aqueles que tratavam com eles supunham que eram homens que haviam adquirido tradições e artes através de estudos longos e secretos". Essa é uma observação interessante, uma vez que muitas pessoas geralmente citam uma parte rejeitada de uma carta que Tolkien escrevera, na qual ele pensava que os Homens não poderiam ganhar magia através de tradução e estudos (ele se deu conta de que O Senhor dos Anéis invalidara esse ponto de vista, e escreveu "Mas os Númenoreanos usaram feitiços para forjar espadas?" na margem e decidiu não mandar esta parte da carta).

 

 

 

Tolkien provavelmente escreveu o ensaio sobre os Istari um pouco antes da carta a Naomi Mitcheson (Letters 154 e 155). Ele abandonou o ensaio, que seria uma parte de um catálogo extendido de O Senhor dos Anéis nunca publicado, quando se deu conta de que o projeto era muito pesado para a publicação inicial da estória (ele já tinha adaptado os apêndices propostos para obedecer à necessidade de espaço). A carta a Naomi Mitcheson representa um ponto tangencial, que ascendera rapidamente e perecera nas rochas do cânone publicado – uma ocorrência incomum nos meandros filosóficos de Tolkien através da Terra-Média. Mas o abandono do discurso sobre magia é, provavelmente, a melhor justificativa que os Tolkienologistas têm para argumentar a validade do ensaio sobre os Istari (que se contradisse a escritos posteriores). Mas o ensaio é, pelo menos, consistente em tema e contexto com a versão original de O Senhor dos Anéis.

Continuando a análise do ensaio, Tolkien disse: "(Os Istari) Apareceram pela primeira vez na Terra-Média por volta do ano 1000 da Terceira Era, mas por muito tempo andaram com aparência simples, como de homens já velhos, mas sãos de corpo, viajantes e caminhantes, adquirindo conhecimento da Terra-Média e de todos os que ali habitavam, porém sem revelar a ninguém seus poderes e propósitos".

Assim, os Istari foram inicialmente ignorados pelos Homens, até que a Sombra aumentou e a Terra-Média passou a ficar perigosa, ocasião em que eles começaram a se "intrometer" nos assuntos dos Elfos e dos Homens. Os Homens, por fim, perceberam que os Istari não morriam, então concluíram que eles deveriam ser Elfos. Essa conclusão só poderia ter sido elaborada após a Guerra de 1409. Nessa altura do campeonato, os Istari (provavelmente Gandalf e Saruman) que estavam envolvidos com os Dunedain e os Elfos de Eriador deveriam se tornar conhecidos, pelo menos para os líderes dos Elfos e Homens, e parece razoável supor que precisariam alguns séculos até que os Homens percebessem que aqueles dois caras não eram apenas Númenoreanos de vida longa, e sim, que eram alguma outra coisa.

Quando Faramir perguntou a Gandalf sobre ele próprio em Gondor, o Mago diz: "Tenho muitos nomes em diferentes lugares. Mithrandir entre os Elfos, Tharkûn para os Anões; eu era Olórin em minha juventude no Ocidente que está esquecido; no sul, Incánus, no norte, Gandalf…" Gandalf era o nome que os Homens do Norte deram a ele, e Tolkien tirou esse nome do Norueguês antigo, da Elder Edda, onde "Gandalfr" é o nome de um anão. O nome significa "Elfo da Peregrinação".

Outro nome entre os Homens nórdicos era Orald, o nome que deram a Tom Bombadil, um nome Anglo-Saxão que significa "Muito velho". O Anglo-Saxão e o Norueguês antigo já foram línguas intimamente associadas, até que uma mudança na fonética dividiu os diálogos do mundo nórdico. É, portanto, interessante notar que Tolkien dá nomes em Norueguês Antigo (o idioma que representava a língua de Valle e da Cidade do Lago) aos Istari mais associados a Eriador, e dá a Bombadil um nome Anglo-Saxão (idioma que representava a língua dos Rohirrim).

Podemos inferir que, talvez, ou o Westron de Eriador nos meados da Terceira Era estava mesclado com mais palavras nórdicas do que o Westron de Gondor, ou Gandalf e Bombadil passaram um bocado de tempo a mais nas Terras Selvagens. E vice-versa. O nome de Gandalf indica que ele não tinha negócios casuais com os Homens quando ele começou a ser notado significativamente entre eles. Eles decidiram que ele era um Elfo.

Às vezes eu penso que Gandalf estava à altura de um Elfo antes dele ser mencionado no Conto dos Anos. Ele provavelmente se encontrou com os Reis de Arthedain e Arnor em tempos de perigo – isso seria, provavelmente, durante a Guerra de 1409, a Grande Praga de 1636, a guerra de Araval com Angmar em 1851, e provavelmente no último século da existência de Arthedain, quando Araphant e Ostoher de Gondor restabeleceram as relações entre os dois reinos.

Pode-se apenas palpitar se Gandalf passara algum tempo entre os Éothed de outros Homens do Vale do Anduin. Será que ele inspirou Fram a encarregar-se de qualquer aventura que aparecesse, resultando na escravidão de Scatha, o Verme? Talvez não. É difícil imaginar Gandalf permitindo que um guerreiro valente e orgulhoso como Fram mandasse uma mensagem insultando os Anões como ele fez, a menos que a troca de descortesias tenha ocorrido após Gandalf ter se mudado.

Suas opiniões, no entanto, deveriam ser altamente respeitadas entre os Elfos e os Senhores Mortais, e pode-se facilmente ter a impressão de que Gandalf vagava de reino a reino nos meados da Terceira Era, distribuindo conselhos como uma espécie de "Caro Fulano" ambulante. Sua feroz espirituosidade e sarcasmo não poupariam rei ou príncipe que, imprudentemente, o procurassem para obter conselhos mundanos.

Caro Gandalf,

Há rumores de que o Rei-Bruxo de Angmar está movimentando seus exércitos pelas colinas. O que o povo de Arthedain deve fazer?

Argeleb.


Caro Argeleb,

Você já pensou em deixar alguns barris de cidra forte para os Orcs? Você poderia emboscar todos, uma vez que estarão caindo de bêbados. Se isso falhar, então eu sugiro que você mande um mensageiro veloz até Círdan nos Portos, para ver se ele pode dispensar alguns marinheiros para uma expedição por terra. Não há nada que um Orc ame mais do que um barril de cidra élfica forte.

Gandalf.


Caro Gandalf,

Estamos em dificuldades aqui. Um mensageiro chegou de Minas Anor com uma gripe atemorizante. Parece que todo o interior contraiu essa praga maldita. Você por um acaso não teria alguns pós mágicos para nos ajudar?

Argeleb II


Caro Argeleb,


Conheci brevemente seu bisavô. Desagradável aquele negócio com os Angmarianos, mas no fim tudo ficou bem. Quanto aos pós – sinto muito não poder ajuda-lo. Estão em falta, pois acabei de borrifar o último nos Homens dos Vales do Sul do Anduin. No entanto, você deveria pensar em mandar todos para as colinas para trocar estórias até que tudo passe. O quer que você faça, não aceite mais mensageiros de Gondor por um tempo! Boa sorte e aqueça-se. Beba muito Miruvor! Estarei em Bri no próximo Yule, se é que até lá restará Bri.


Gandalf.



Caro Gandalf,

Estávamos começando a tentar recolonizar Gondor, mas agora parece que Criaturas Tumulares malignas infestaram as antigas colinas e não há ninguém capaz de enfrenta-las. Você estaria disponível para nos dar uma mão?

Araval.


Caro Araval,

Sinto muito saber dos seus novos vizinhos. Essas Criaturas podem ser muito irritantes e problemáticas. Infelizmente, eu estou esperando um longo tempo pela manicure em Lothlórien e não estarei disponível pelos próximos cem anos, mais ou menos. No entanto, estou mandando um camarada que não se importará em ter as Criaturas como vizinhos e fará o melhor para que o mal não se espalhe. Você acha, no entanto, que pode arranjar uma bela donzela jovem para ele, que não dê bola para nenúfares e canções bobinhas?

Gandalf.



Caro Gandalf,

Não tenho certeza se podemos resistir a Angmar por muito tempo. Ouvi dizer que Gondor teve problemas, mas eles não parecem estar tão mal. Você acha que podemos pedir ajuda a eles?

Araphant.

P.S.: Ainda estamos procurando por uma bela donzela. Infelizmente, todas parecem estar prometidas, quando as apresentamos ao velho Bombadil.



Caro Araphant,

Não se preocupe quanto a Bombadil. Ele é do tipo paciente e saberá quando encontrar a garota certa. Quanto as suas relações com Gondor, bem, me parece que você poderia pedir ajuda um pouco parcialmente. Ouvi dizer que eles têm uma donzela de personalidade forte que recusou cada pretendente. Arrume o jovem Arvedui e mande ele lá para pedir sua mão em casamento.

Gandalf.



Caro Gandalf,

Apenas queria escrever para dizer: "Muito Obrigado!" Firiel é a melhor coisa que já aconteceu comigo, e não digo isso apenas porque seu pai tem alguns exércitos realmente grandes. Eu posso prever coisas ótimas para Arnor.

Arvedui, futuro rei de Arnor e Gondor.


Caro Arvedui,

Bom saber que o casamento anda bem. Mas deixe as previsões para Malbeth e os Elfos, se possível. Eles estão nesse barco há um pouquinho de tempo há mais que você, e possuem melhor dom para isso.

Gandalf.


Caro Gandalf,

Isto é para informa-lo de que Arnor não necessitará mais de seus serviços. Nada pessoal, velho camarada, mas estivemos fora da cidade e não temos previsão para voltar. Obrigado por séculos de bons conselhos e felicidades em todos seus futuros esforços. Vença uma para os Dunedain!

Arvedui.

P.S.: Acho que agora entendo o que você tentava dizer. Preciso ir. Tenho que tratar com um homem sobre um cavalo.


Caro Arvedui,

Conforme esperado, sua carta chegou atrasada devido à sorte da guerra. Gostaria que você não a tivesse mandado pelo caminho de Bri. Eu fiz uma checagem em Fornost Erain, mas não achei ninguém, exceto alguns milhares de Orcs e Trolls. Tentarei ver se você está em Lindon. O que quer que você faça, não rume para o norte. Ouvi dizer que há um inverno terrível por vir.

Gandalf.



Caro Gandalf,

Dizem que você não está mais trabalhando em Eriador. Eu estava pensando se você não poderia dar uma passadinha aqui em Lothlórien no próximo século. Tenho um pequeno trabalho que eu gostaria que você fizesse e que seria um verdadeiro estímulo para sua carreira. Diga Olá para Elrond e Círdan, e estou ansiosa para ver vocês.

Galadriel.

P.S.: Como está a espera pela manicure?

Quem foram os verdadeiros heróis da Terra-Média?

Provavelmente a história mais tocante em todo o legendário de Tolkien é aquela de Beren e Lúthien. Eles são os verdadeiros heróis da Terra-Média, os primeiros e únicos dentre os Elfos e Homens a conseguirem qualquer resultado palpável contra Morgoth na nefasta Guerra das Silmarils. Eles também são os únicos heróis da Primeira Guerra a serem atribuídas quaisquer considerações significativas nas páginas de O Senhor dos Anéis.

Muitos fãs de Tolkien sabem que Beren e Lúthien eram uma metáfora para o relacionamento romântico de Ronald Tolkien e Edith Bratt, mas é raro o impacto da realidade de seu romance sobre as estórias de Tolkien tomados em total consideração pelos críticos ou eruditos. Tolkien era três anos mais novo que Edith, assim como Beren era equivalente em milhares de anos mais novo que Lúthien. O tutor de Tolkien, Padre Francis Morgan, cultivou a educação de Ronald e pretendia que ele alcançasse algo maior na vida do que apenas se juntar com uma garota e ter uma família. Ele parecia sentir que o relacionamento de Tolkien com Edith ameaçava o alcance de uma educação superior. Thingol achava que Lúthien merecia um melhor companheiro do que um simples Homem, especialmente um cuja casa havia sido destruída na guerra.

O Padre Francis obteve sucesso ao separar Ronald e Edith por um período de três anos, mas quando o jovem alcançou a maioridade, ele escreveu a Edith e garantiu que seus sentimentos eram fortes como sempre. Humphrey Carpenter, biógrafo de Tolkien, escreve “Houve declarações e promessas … que Ronald achava que não seriam fáceis de quebrar. Além do mais, Edith havia sido seu ideal nesses últimos três anos, sua inspiração e sua esperança para o futuro. Ele alimentou e cultivou seu amor por ela de forma que cresceu em segredo, mesmo tendo sido alimentado unicamente em suas memórias de adolescência e fotos de Edith em sua infância..” (Carpenter, “Biography”, p.68).

Seu romance inicial incluía excursões secretas e confidenciais, assim como Beren e Lúthien, que se encontravam secretamente em Doriath, principalmente após Padre Francis ter descoberto pela primeira vez o relacionamento deles e ter demandado que Ronald terminasse-o. Como Beren nos bosques de Doriath, Ronald começou seu “pagamento de angústia pelo destino que foi dado a ele” quando ele teve que se despedir de Edith por três anos. “Três anos é algo terrível”, escrevera Ronald em um diário que manteve em períodos que se sentia mal.

O relacionamento de Beren e Lúthien trouxe imensas mudanças pessoais as suas vidas, assim como às vidas das pessoas que os cercavam. Apesar de que alguns paralelos podem ser encontrados no relacionamento de Ronald e Edith, seria fantástico e poético identificá-los fortemente. Beren era um guerreiro, mas também um fora-da-lei e crescera para a humanidade com seu pai, e perdera sua mãe quando Emeldir levou as últimas mulheres e crianças de Dorthonion.

A Guerra ofuscara o início da vida de ambos os casais. O povo de Beren foi assassinado ou levado na Dagor Bragollach e seus resultados, e o povo de Lúthien foi finalmente levado para a periferia da longa guerra entre os Noldor e Morgoth quando os Orcs começaram a atacar as fronteiras de Doriath. Tolkien partira para servir o exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial, e, enquanto se recuperava de um caso atípico de Febre das Trincheiras, o que o levou a voltar para a Inglaterra, Tolkien começou a escrever os Lost Tales. Nessa altura, todos seus antigos amigos de Oxford, menos um, haviam sido mortos na guerra, tal como Beren, cujos companheiros, em sua maioria, morreram em Dorthonion. Tolkien estava isolado de seu passado.

Talvez a morte mais comovente dentro do pequeno círculo de amigos do Tolkien foi a de Geoffrey Bach Smith, que se uniu ao grupo de amigos de Ronald no colégio, conhecido informalmente como T.C., B.S. (Tea Club, Barrovian Society). Com a influência de Smith e o amor de Ronald por grandes épicos, o grupo começou a desenvolver um total apreço por poesia, e perto do fim de sua breve vida, Smith escreveu a Tolkien: “O meu consolo é que se falhei hoje – estarei indo descansar em alguns minutos – ainda haverá um membro do grande T.C.B.S. para divulgar o que sonhava e naquilo em que todos concordávamos. Pois a morte de um de seus membros não pode, de maneira alguma, desfazer o T.C.B.S. A morte pode nos deixar relutantes e incompetentes como indivíduos, mas não pode pôr um fim aos quatro imortais!…” (Ibid., p. 97).

Em muitas maneiras eu acho que Tolkien manteve vivo o sonho divulgado por Smith, e ele provou as palavras de Smith profeticamente, pois muitos anos após a morte do próprio Tolkien, seu “Lay of Leithian”, apesar de incompleto, é idolatrado pelos muitos fãs que foram privilegiados ao lê-lo. O poema é rico e comovente, romântico e épico em tema e estilo. E ele detalha o amor de Beren e Lúthien com uma paixão que nunca morrerá.

Nós conhecemos apenas um vislumbre do fogo e profundidade da estória, quando Aragorn procura confortar os Hobbits do Condado na escuridão do Topo do Vento. “Vou contar-lhes a história de Tinúviel – disse Passolargo. – Resumida, pois essa é uma longa história da qual não se sabe o fim; e ninguém atualmente, com exceção de Elrond, pode lembrá-la exatamente como era contada há tempos…” (Tolkien, “Sociedade do Anel”, p.203). O mesmo pode ser dito sobre a estória de Ronald e Edith, pois na época que ele escrevera essa passagem, eles tinham ainda muitos anos pela frente, e ele não sabia como seu conto terminaria.

As palavras de Aragorn foram pronunciadas, no entanto, na observação do próprio Sam muitos capítulos (e meses) depois em “As escadarias de Cirith Ungol” onde ele e Frodo estavam no mesmo conto que Beren e Lúthien, pois eles estavam carregando parte da luz da Silmaril resgatada por Beren e Lúthien em um frasco preparado por Galadriel, e eles estavam perseguindo a destruição de Sauron, que havia lutado com o casal eras antes, quando ele mesmo era um servo do grande Senhor do Escuro.

E na vida real, as palavras de Aragorn se refletiram no fato de que Tolkien nunca completara seu conto. Ele sabia, mais ou menos, como as vidas de Beren e Lúthien terminariam, mas os detalhes não foram escritos. Aragorn não poderia ter contado o fim da estória, independentemente de quão relevante fosse a estória para o Senhor dos Anéis. Mas como muitos apontaram, a própria estória de Aragorn é muito similar àquela de Beren. Assim como Beren, Aragorn perdeu seu pai para os servidores do inimigo, mas o pai de Aragorn morreu quando ele ainda era uma criança e Aragorn nunca o conhecera. Aqui o paralelo é mais próximo entre Aragorn e Tolkien, cujo pai morrera quando ele tinha apenas 3 anos de idade, a mesma idade em que Aragorn perdera seu pai.

O patrimônio de Aragorn nunca fora realmente polido, apesar de ter diminuído através dos séculos. Ele era um descendente de reis cujos herdeiros se tornaram capitães de um misterioso povo vagante. Os Tolkiens emigraram da Alemanha para a Inglaterra no século XVIII. Eles construíram um negócio familiar na indústria de pianos, mas o pai de Arthur Reuel Tolkien falira, e foi forçado a procurar sua fortuna em outro lugar, aceitando um cargo na “frica do Sul, onde seus filhos John Ronald e Hillary nasceram. Arthur nunca vira a Inglaterra novamente e sua esposa Mabel retornou a Inglaterra com seus filhos um pouco antes de sua morte.

Aragorn crescera com sua mãe, Gilraen, cujo pai se opusera ao seu casamento com Arathorn II de maneira similar ao modo como o pai de Mabel, John Suffield se opôs ao seu casamento com Arthur Tolkien. Aragorn crescera com seu padrasto, Elrond, que era sábio e desenvolvera uma profunda afeição pelo garoto. O tutor de Tolkien após a morte de sua mãe, Padre Francis, não era de fato sábio, mas ele e Ronald tinham uma afeição um pelo outro e Ronald respeitava as decisões de Padre Francis, apesar de discordar de algumas delas. Portanto, há uma ressonância do problema entre Ronald e Padre Francis em relação ao seu relacionamento com Edith, quando Elrond convoca Aragorn e o avisa que ele está sonhando muito alto, e também o proíbe de ter uma esposa até que haja provas de ele ser digno de tal.

Através dos longos anos em que Aragorn e Arwen trabalharam constantemente para seu objetivo, ela parece ter contribuído pouco, aos olhos de muitos fãs de Tolkien, exceto pelo misterioso estandarte que proclamava o patrimônio de Aragorn ao povo de Gondor. Mas nos raros vislumbres de Arwen, Tolkien nos mostra algo de uma sabedoria mais profunda e uma força e fé que são tão duradouras quanto o amor de Aragorn. Ela é a primeira pessoa que percebe a profundidade do ferimento espiritual de Frodo, e em uma de suas cartas, Tolkien credita a Arwen o papel de pôr em ação os eventos que levam Frodo a embarcar para o Mar a fim de encontrar descanso e cura antes que ele morra.

A luta de Aragorn no amplo mundo é longa e difícil, mas sua luta pessoal é mais profunda e mais comprometida do que a maioria daqueles que o rodeiam. Pode ser que somente os Sábios, assim como Gandalf, Elrond, Galadriel e Arwen (e seus irmãos) entenderam o quanto que o futuro de Aragorn estava comprometido devido a sua escolha. A linhagem de Isildur não continuaria se ele não guiasse o Oeste à vitória sobre Sauron. Não foi simplesmente um modo da linhagem direta de herdeiros acabar com Aragorn. Seu povo era pequeno em número e se perderiam na tempestade se Sauron tivesse sucesso ao recuperar o Um Anel.

A vida de Tolkien nunca alcançou aposta tão grande, mas ele viveu através da Segunda Guerra Mundial e há épocas em que as pessoas se imaginam como tudo se finalizará. Quando Londres e outras cidades estavam sendo bombardeadas, os Ingleses certamente se justificavam sobre o quanto demoraria para os Alemães chegarem em suas praias. Dois dos filhos de Tolkien serviram nas Forças Armadas Britânicas durante a guerra e, tendo visto as devastações provocadas por grandes nações em sua juventude, ele sabia muito bem sobre os perigos que seus filhos enfrentavam na batalha.

Há um certo eco sobre a Segunda Guerra Mundial na estória de Tolkien, mas a Primeira Guerra Mundial parece ter deixado um senso indelével de perseverança determinada, mas desesperada em seu espírito. A futilidade dos ofensivos anéis é claramente mostrada na desesperançosa guerra dos Noldor contra Morgoth. A matança sem sentido e o gradual abandono da civilização sobre a paisagem severa e desnuda de Eriador como no “Conto dos Anos” de Tolkien registra o gradual desaparecimento dos domínios Dúnadan na Terra-Média. E, no entanto, os Dúnedain sobreviveram. Os Dúnedain de Arnor não sumiram ou morreram quando seus reinos chegaram ao fim. Eles passaram pelos ermos, continuando sua antiga guerra contra as criaturas do mal e, através de dez séculos, preservaram a linhagem de seus líderes, mesmo com circunstâncias desfavoráveis a eles.

O sucesso da família sobre as adversidades da vida é o centro da força na personagem de Aragorn, e é um tributo silencioso à perseverança familiar do próprio Tolkien. Arthur Tolkien e Mabel Suffield Tolkien fizeram o melhor que puderam para si próprios e seus filhos, e Ronald foi deixado aos cuidados de um guardião austero, porém preocupado, que tinha certeza que o garoto conseguiria algo como Homem.

Aragorn é uma reflexão tardia sobre Tolkien, assim como Beren é uma reflexão precoce. Beren é um tanto quanto esperto e fora-da-lei, opondo-se aos limites impostos sobre ele pela autoridade, sem realmente contestar a autoridade, atitude esta intensificada devido a sua resolução ao firme amor por Lúthien. Aragorn não é um fora-da-lei, mas sim um homem desprovido de seu patrimônio e que constrói um novo patrimônio para seus descendentes, encorajado e sustentado pelo amor e fé de Arwen.

A estória de Aragorn e Arwen é, em certas maneiras, uma continuação da estória de Beren e Lúthien. Ao invés de deixar Doriath para a solidão quieta de Ossiriand, os heróis permaneceram no norte e ajudaram a conter as forças da escuridão. O último casal não corresponde ao primeiro em ousadia e feitos, mas sua realização provou ser a mais duradoura. A coroação e o subseqüente casamento de Aragorn é, talvez, uma reconciliação de Tolkien com suas paixões mais profundas. Ele passou a compreender que ele, de fato, alcançou seu potencial, que talvez não fora o que Padre Francis via, mas que é de qualquer forma, extremamente válido.

Algo Perverso vem nessa direção.

A inesperada migração dos clãs dos Pequenos moradores dos vales altos do Anduin através das Montanhas Sombrias, começando no ano de 1050 da terceira era, avisados da grande sombra que se erguia em direção ao sul da Grande Floresta Verde. O Sábio não podia ter certeza de quem ou o que havia se instalado na floresta, mas eles compreendiam que algo que não tinha vivido por ali previamente tornou-se então ativo.

 

 

Em todas suas obras publicadas, JRR Tolkien apontou apenas uma observação curiosa sobre o evento intrigante. No ensaio "Anões e Homens" publicado em "As pessoas da Terra Media", Tolkien notificou: " Claramente os Hobbits tinham percebido, mesmo antes que Magos e os Eldar tivessem total conhecimento sobre isso, o despertar de Sauron e sua ocupação em Dol Guldur." Os Hobbits não eram exatamente conhecidos por terem habilidade com as coisas do mundo. O que eles poderiam ter percebido, que os recém chegados Istari e os senhores Eldar haviam deixado passar?

Por essa causa. Por que, então Sauron decidiu acomodar-se em Amon Lanc? Gondor havia ocupado Mordor com a intenção de prevenir seu retorno ao seu velho reino. Mas Sauron poderia ter se estabelecido no extremo leste ou sul, mas ele escolheu perdurar na sulista Grande Floresta Verde, perto dos inimigos. Por quê?

Embora possa parecer obvio que ele tenha sido atraído pelo anel, que na época (o 11º século da Terceira Era) ainda permanecia inexplorado algum lago ao logo do Anduin próximo aos Campos de Lis. Foi dito que primeiramente Sauron acreditava que O Um Anel havia sido destruído. Sua ressurreição nas proximidades onde se encontrava o Um Anel pode ter sido uma conseqüência natural da afinidade que Sauron retinha com o Anel, mas ele não tinha conhecimento do fato. Então o que o compelia na permanecer perto do Anel?

Se aceitarmos que o espírito de Sauron tomou forma física algum lugar próximo ao Anel, então ele deveria aparecer primeiramente ao longo dos bancos do Anduin, talvez mesmo no rio. Ou se o poder de Ulmo era muito grande para ele, repelindo a malicia de Sauron e prevenindo que ele não reconhecesse que o Anel ainda existia, então Sauron pode ter assumido sua nova forma corpórea, nas terras baixas próximas ao rio. E não necessariamente alguém deveria ter visto Sauron. Melhor que sua ressurreição tenha ocorrido em segredo fora da visão dos Elfos, Homens do Oeste e todos q eram inimigos a ele.

Mas já havia outros homens vivendo na região. Embora os primeiros 1000 anos da Terceira Era tenha provado ser relativamente estável na região Oeste da Terra Media. No ano de 1050, Anor, havia sido dividida em 3 reinos em guerra e Gondor estava preso em um conflito mortal com seus vizinhos sulistas. O ano de 1050 foi, de fato, o ano em que Hyarmendacil I derrotou os Reis de Harad (e conquistou Umbar). Todos os olhos do mundo se voltaram a Gondor, o qual atingiu o sua maior dimensão naquela época, e chegou perto de todas as nações para competir com o, há muito perdido, quase esquecido, poder de Numenor.

Numenor tinha afundado no mar há quase 1200 antes de Hyarmendacil I ganhar sua vitória final. Foi há quase 1230 anos desde que Ar-Pharazon humilhou Sauron perto de Umbar trazendo, o que foi na época, o mais forte posto do exercito de Beleriand para a Terra Media. A memória de Numenor deve ter sido ofuscada entre as outras nações, pelo (um tanto), mais recente memória da Ultima Aliança de Homens e Elfos, o qual tinha assumido o posto de maior exercito de todos os tempos e destruído o poder militar de Sauron completamente. Sauron também foi morto e seu império totalmente derrubado, o qual, efetivamente nunca mais se ergueu.

Como resultado da derrubada de Sauron, três esferas de influência emergiram ao noroeste da Terra Media. O reino Elfico antigo de Gil Galad de Lindon ainda existe, mas se tornou tão fraco que muitos de seu povo ou velejaram pelo mar ou migraram leste para viver perto de Elrond em Imladris. Os Reis Supremos de Arnor se tornaram os poderes dominantes da região norte do mundo. Mas ao leste das Montanhas Sombrias ainda perduraram ali pelo menos dois reinos Elficos, e o vasto reino dos Anões BardaComprida. E Gondor anexada, mas nunca colonizou Mordor eventualmente expandindo-se externamente.

O poder de Arnor diminuiu, e o poder de Gondor cresceu. Mas e o poder dos Anões BarbaComprida? Seu capitólio de Khazad-dum era sua cidade chefe, mas eles reivindicaram toda a Montanhas Sombrias e as Montanhas Cinzentas até ao leste das Colinas de Ferro. Aparentemente eles tinham mais que uma cidade ou colônia. Eles mantiveram o antigo Homem-i-Naugrim, a grande estrada ao leste, a qual corrida desde a Passagem Alta até o Anduin, atravessando o rio por uma ponte de pedra viajando lesta pela Floresta Verde, e então virando noroeste estendendo-se até as Colinas de Ferro. Aquela estrada deveria servir para algum propósito útil. Não foi feita simplesmente porque os BardaComprida queriam ocupar-se de um oficio. Eles precisavam manter e a paz e estabilidade que nutria o comércio.

Lothlorien o pequeno reino Elfíco que se encontra entre Khazad-dum e o Anduin era a casa para os Elfos Noldor, Sindar e Silvan. Mas embora mantivessem um vínculo intimo com Khazad-dum e Imladris, Lothlorien parecia estar muito fraca para dominar a região. Havia Homens de descendência dos Edainic vivendo nas proximidades em ambos os lados do Anduin. Os homens da Floresta Verde tinham, de acordo com "O Desastre dos Campos de Lis", juntado-se, ou ao menos se tornaram simpatizantes, da Ultima Aliança. Eles, assim como seus parentes no norte próximos a Erebor aparentemente prosperaram nos séculos de paz, que seguiram após a ruína de Sauron.

Mas o sul da Floresta Verde não estava totalmente a salvo. Durante a Guerra da Ultima Aliança, Saurou tinha ocupado uma ou mais regiões da Floresta. Os dois mil ou mais Orcs que armaram uma emboscada para Isildur na Terceira Era, eram restantes daquelas forças ocupantes. Embora os Homens da Floresta tivessem dito que dispersaram os Orcs que sobreviveram à batalha de Isildur, alguns dos Orcs sobreviveram o ataque neutralizador dos Homens da Floresta.

Em um dos seus ensaios, Tolkien apontou que a maioria dos Orcs seria dificilmente capaz de defenderem-se após a derrubada de Sauron. O ataque a Isildur foi compelido, ele sugeriu em "O Desastre nos Campos de Lis", pela proximidade que Orcs estavam do Um Anel, os quais na época ainda estavam esperando pela volta de Sauron (obviamente pela sua impossibilidade de se juntar a ele fisicamente). Portanto depois do ataque a Isildur, aqueles poucos Orcs com habilidade de sobreviver por conta própria, devem ter retirado-se para as profundezas da floresta. Lá eles viveram sozinhos, vagarosamente desenvolvendo seu próprio senso de independência e comunidade.

Às vezes nos séculos após a morte de Sauron, os Hobbits fizeram seus caminhos até os Vales do Anduin. Eles instalaram-se próximos
a casas e vilas dos Edain e gradualmente foram se adentrando em uma co-exitência de Bri com aqueles Homens (de acordo com "Anões e Homens"). A chegado dos hobbits deve ter sido anterior a primeira invasão de Gondor pelos Easterlings no ano de 490 da Terceira Era. Naquela época Gondor teria se estendido ao longo do Anduin até os Undeeps (próximos aos Campos de Celebrant). As terras entre a Floresta Verde e Mordor não faziam parte do reino.

Estes mais prematuros Easterlings (na experiência da Terceira Era de Gondor), aparentemente viveram nas terras entre Mordo e a floresta de Turambar, filho de Romendacil I, conquistou aquelas terras algum tempo depois da morte de seu pai no ano de 541 da Terceira Era. A região inteira deve ter sido completamente hostil e impassível para os Hobbits. E embora eles possam ter passado pela Floresta Verde para atingir os Vales do Anduin, os ancestrais dos Stoods e dos Harfoots podem ter passado pela borda sulista da floresta. Os Follohides sendo o grupo do norte, são os mais cogitados em terem passado pela Floresta Verde.

Uma migração Hobbit pode ter encorajado os Homens da Floresta Verde a colonizar as terras abertas de campo ao longo do Anduin, e atravessar o rio. Os anões proveriam aos homens oportunidades de ofícios e trabalhos habilidosos em construir estradas e fortalezas. A amizade entre os Homens da Floresta e o povo de Thranduil (então morando em Emyn Duir, as montanhas no meio da floresta) assegurou uma fronteira norte para expandir população mortal. Os Homens tornaram-se uma comunidade importante na parte superior do Anduin.

E como os Homens da Floresta expandiram em direção as montanhas, eles também devem ter feito contato com Gondor. Havia muitas tribos de Homens do Norte (e um desses grupos eram os Homens da Floresta), espalhando-se ao sul, leste e oeste naqueles séculos. Eles se mudaram da Floresta Verde em ambas as direções. Após a atenção de Gondor ser direcionada ao leste, os Dunedain fizeram contato com os Homens do Norte. Amizade surgiu entre Gondor e os Homens do Norte e embora Tolkien não fale muito a respeito de sua relação, ele dá atenção ao desenvolvimento metódico dos Homens nas terras norte onde Arnor e Gondor detinham influencias.

Contudo como alguns Orcs sobreviveram durante a Terceira Era na região sul da Floresta Verde, por volta da metade do século Seis, havia Easterlings – cujos ancestrais serviram ou foram amigos de Sauron – Também vivendo dentro ou perto da região sul da floresta. E ao longe no norte perdurou Laracna, que havia se estabelecido em Ephel Duath, antes de Sauron construir Barad-Dur. De seu covil sua prole se espalhou pelo norte das montanhas. Sem duvida a Ultima Aliança de Elfos e Homens lutaram com as aranhas gigantes, as quais seriam guardiãs naturais das marchas de Sauron. Mas embora Gondor tenha assistido a marcha por mil anos, algumas aranhas manejaram-se e alcançaram a Floresta Verde ao mesmo tempo em que Sauron se instalou em Dol Guldur. Talvez ele mesmo tenha arranjado para que elas tenham sido trazidas ao norte.

Orcs, Easterlings e aranhas devem ter servido a fundação do novo reino de Sauron. Ele teria ido a floresta para revelar-se para os descendentes de seus escravos formados. Incapazes de resistir a sua vontade, os Orcs e os Easterlings (alguns mais rápidos que outros), teriam voltado a servi-lo. E eles teriam construído a fortaleza de Dol Guldur em segredo, longe dos olhos intrometidos dos Elfos, Anões, Homens, Hobbits e Magos.

Os Magos, Istari, enviados de Valinor, seriam muito novos para a Terra Media. Eles sabiam porque eles estavam lá. Eles estavam mantendo um olhar cauteloso para sinais do retorno da sombra. Mas eles não sabiam onde Sauron surgiria e se manifestaria, ou se algum outro mal antigo se ergueria em seu lugar. Eles sabiam que o mal estava vindo, mas não de onde ou quando. As grandes guerras no sul, talvez tenham levado todos a pensar que a ascendência de Gondor significaria que Sauron não poeria ainda retornar. Poderia ainda haver tempo para preparar-se.

O surgimento de Dol Guldur não poderia ter ocorrido da noite para o dia. Um pequeno castelo ou fortaleza consistindo em um pouco mais que uma torre e uma parede externa podem ser construído no espaço de alguns meses, com material e trabalhadores suficientes. Mas Dol Guldur era provavelmente uma enorme fortaleza, uma pequena cidade, desde o principio Sauron teria necessitado de uma base segura da qual lançaria suas varias campanhas. Mas ele também perseguia uma estratégia diferente da qual ele tinha na Segunda Era. Ao invés de conquistar um grande império e construir sua força militar em confrontos diretos com sos Eldar e Dunedain, Sauron, atacou seus inimigos por procuradoria.

Isto é, ele estabeleceu sua base em Dol Guldur e a fez segura o suficiente para desencorajar visitantes casuais e pequenos ataques. Mas ele também se privou de usar Dol Guldur para ativamente participar em eventos desdobrando-se em terras próximas a região sul da Floresta Verde. Em vez disso ele aumentou a população de Easterlings. "Anões e Homens" nos diz que os Hobbits começaram a fugir dos Vales do Anduin após "constante crescimento invasores do Leste … importunando os velhos ‘Atanic’ inabitados, e mesmo nos lugares ocupados, a Floresta e entrando no vale do Anduin.".

Claro, deve ter algum outro mau envolvido. Trolls podem ter sobrevivido por mil anos em Ettenmoors norte de Imladris, mas parece mais provável que eles tenham sido dirigidos para o leste de Mordor no final da Segunda Era. Como Sauron recrutou Easterlings para sua causa, ele teria trazido Troll de volta para o oeste. E como ele era conhecido como Necromante, Sauron dever ter consorciado com espíritos sem corpos. Ele deve ter criado Wargs e convocou antigos lobisomens e vampiros para servir a ele novamente.

Homens devem ter permanecido na Floresta das Trevas por uma razão muito boa. Ela tinha que se transformar rapidamente num lugar de pavor e ameaça, uma terra onde somente as tribos mais corajosas teriam ousado a viver e lutar com criaturas uma vez relegadas aos contos de fadas e folclore. Monstros tinham que andar pela terra novamente repugnando as arvores e escurecendo a floresta com uma sombra depressiva, que não tinha nada a ver com a luz do sol.

Mas o que os Hobbits, com sua falta de curiosidade mágica (exceto "o tipo comum") tinham notado, que até os Istari não tinham? Os animais do norte da Floresta Verde migraram em massa, procurando novas casas longe do mal? A chegada dos Easterlings, levou a constantes rixas e ataques entre as pessoas? Fantasmas e lobisomens caçaram nas colinas e nas margens do rio, onde os Hobbits viviam quietos e sozinhos?

O Prólogo de "O Senhor dos Anéis" nos diz que os Pés Peludos "tinham muito em comum com anões nos tempos antigos, e por muito tempo viveram nos pés das montanhas". Eles devem ter ouvido rumores de mudanças na Floresta de ambos, anões e Stoors. Os Stoors tinham permanecido perto do Anduin e provavelmente viviam mais próximos dos Campos de Lis. Os Campos de Lis haviam sido originalmente um lago que se estendia até as montanhas onde Isildur foi atacado. Através do tempo o lago se transform
ou em pântano e gradualmente o pântano secou e escasseou até o curso normal do Anduin.

Os Stoors teriam notado alguma coisa estranha acontecendo na mata além dessas montanhas. Os homens que viviam na floresta teriam se mudado quando os Homens da Floresta foram afastados pelos Easterlings, Trools, Orcs, Wargs e outras criaturas peçonhentas que iriam gradualmente sair dos contos das esposas para entrarem diretamente em suas fazendas. No espaço entre uma ou duas gerações Gaffers e Gammers, os quais lembravam de tempos melhores reclamariam de plantações perdidas, escassez de peixes, e numa má situação criada por homens desagradáveis. Seria uma transição gradual dos bons dias antigos para os maus tempos novos. A cada ano, vida se tornaria cada vez mais ansiosa. Clãs circulariam novas historias de medonhos encontros todas as temporadas.

O repertorio dos rumores e das incertezas iriam se acumular gradualmente enquanto as influncias de Sauron ocuparam as terras tranqüilas de Hobbits e Homens. O Elfos e Anões concentravam-se em suas próprias preocupações, prestariam pouca atenção a ô que aconteceu. Talvez um dia eles saberiam que uma cidade ou vila amiga tinha sido abandonada ou ocupada por forças inimigas. Mas os homens estavam sempre brigando entre si. O mapa político não mudaria muito como o mapa social. Clãs de Homens, Hobbits devem ter, simplesmente tentado mudar a algumas milhas mais ao longe. Seria um pouco diferente das outras eras, velhas tradições de cidades mandando colonizadores para construir novas cidades. Clãs teriam que, ocasionalmente, separar-se e procurar novas terras.

Mas um dia alguém importante o suficiente para ser ouvido para notar que havia Algo de Errado. Parentes não viviam mais onde eles costumavam viver. As pessoas agora olhavam através do Rio com receio. Talvez um ataque de muitos tenha saído da escuridão da floresta. Talvez o perigo de Orcs, Wargs tenha se tornado muito real e as tribos ao longo do Anduin tenham se tornado mais simpatizante da guerra e mais vigilantes do que seus avôs precisavam ser em sua juventude. Deveria haver um tipo de conselho, uma decisão em comum de o processo a seguir.

Talvez ele meramente tenha começado com um clã ficando muito assustador para ficar nos Vales do Anduin por mais tempo. Eles teriam ouvido historias sobre terras fartas além das montanhas. Um único líder de um clã levantou e disse: "Atenção todos! Estamos deixando essas terras, empacotem o que quiserem, deixem o resto." E quando seus visinhos viu o que ele estava fazendo, Eles disseram: "Nós também nos cansamos. Estamos indo com você".

Famílias, cidades, indivíduos solitários, casais jovens aventureiros fugindo do ódio de seus pais que teriam atravessado as montanhas. Isso pode ter começado como uma marcha de vagantes, atraindo alguns olhares curiosos das pessoas locais em Eriador. "Quem são essas estranhas pessoas pequenas?" Os homens devem ter se perguntado "Eles parecem crianças. Onde estão seus pais?".

E onde os Hobbits entraram Rhudaur e Cardolan, procurando novas terras para morar, Homens teriam perguntado porque eles deixaram suas terras antigas. "Há algo escuro e mal por lá". Eles responderiam. "É como se uma grande nuvem escura tivesse se desferido na floresta. Terras onde nossos antepassados se sentiam seguros, já não são livres para nós. Homens maus do leste perturbaram nossos amigos. Criaturas horríveis ameaçando nossas famílias. É como se uma grande ameaça tivesse surgido".

Rumores passariam de hospedaria para hospedaria, de cidade para cidade. Soldados, mercantes e vagantes iriam escutar igualmente, historias da transformação da Grande Floresta Verde em Floresta das Trevas. Eventualmente, príncipes, reis e magos também acabariam ouvindo sobre as mudanças no leste, na verdade isso ocorreria cinqüenta anos após os primeiros hobbits chegassem em Eriador, até o Sábio averiguar que Dol Guldur tinha se tornado um baluarte do mal.

Imagine o conselho que pode ter sido realizado. Istari, Senhores dos Eldar e talvez Reis dos Dunedain teriam juntado-se. Um relatório completo dos eventos seria dado. Batedores retornariam da Floresta das Trevas para confirmar os contos. E haveria rostos severos, trocas de olhares austeros entre os Sábios e seus amigos. E apesar de toda a vigilância que eles tinham mantido ao longo dos anos, eles não sabiam que algo estava acontecendo até ser tarde demais. Apenas os Hobbits tinha sentido algo de errado. E ironicamente somente os Hobbits iram proferir uma solução final para o problema

Tradução de Tais"Linda Sacola" Bachega

Estratégias de Sauron – Passos para a Derrota (Parte II)

Na Primeira Era, Morgoth tentou
derrotar seus inimigos Eldarin jogando tudo o que fosse possível contra
eles. Logo, seus exércitos conseguiam sucesso misto. Mesmo a Nirnaeth
Arnoediad provou ser uma vitória tão cara que Morgoth não pode
conseguir a vitória definitiva dos exércitos élficos e seus aliados.
Ele tomou controle de Hithlum e da Marcha de Maedhros, restaurou suas
tropas em Dorthonion, e tomou controle total sobre a parte superior do
Sirion. Mas Falas, Nargothrond, Doriath (e Brethil, que tecnicamente
era parte de Doriath), e Gondolin tiveram que ser tratadas
separadamente.

 

 

 
Na Segunda Era, Sauron tentou duplicar os sucessos
dúbios de Morgoth com ataques repentinos, tentando adquirir grandes
vitórias militares. Ainda, ele não tinha as vantagens de Morgoth.
Apesar de que muito da Terra-Média esteve sobre o controle de Morgoth,
Sauron teve que continuar a manter seu império. E apesar de que a
fortaleza-chefe de Morgoth, Angband, estava perto de seus aliados,
Sauron posicionou-se em Mordor com a intenção de lançar agentes que
trabalhassem ao mesmo tempo para os eldar no norte e os numenoreanos no
sul.

A colonização numenoreana não avançou para o extremo
norte já que Sauron forjou o Um Anel por volta do ano 1600. As grandes
fortalezas do Pelargir, no baixo Anduin, e Umbar não seriam
estabelecidas em menos de 600 anos. O poder numenoreano era no máximo
uma ameaça futura distante de conflito. Mas quando Gil-galad chamou
Númenor para ajudar na guerra iminente, os numenoreanos investiram
perto de 100 anos fortificando posições perto dos rios Gwathlo e Lhûn.
Enquanto Sauron começava a mover suas forças para o Norte, seus
inimigos tinham linhas múltiplas de defesa.

Mas não quer dizer
que Sauron foi derrotado. As histórias deixam claro que Sauron dominou
Tharbad e abriu caminho sobre Eregion com relativa facilidade.
Ost-en-Edhil foi possuída por algum tempo, possivelmente em torno de um
ano. Os esforços de Elrond de reforçar Eregion falharam e ele teve que
se retirar para o norte. Sauron mandou em exército para tirar Elrond do
caminho. E, aparentemente, ao mesmo tempo em que ele estava destruindo
Eregion, sauron mandou um exército para o leste das Montanhas Nevoentas
para expulsar os povos Eldar e Edain, o último desses que foram grandes
aliados dos anões Barbalonga.

Então, Sauron não somente deu a
seus inimigos grande tempo para se preparar para a guerra, ele espalhou
bem suas forças quando lançou a guerra. Gil-galad foi capaz de
consolidar muitas de suas forças sobreviventes no Lhûn depois de ser
empurrado do rio Baranduin. Sauron derrotou Eriador, mas Tolkien nota
que Sauron matou ou expulsou os homens e elfos vivendo na região. Os
expulsos alcançaram o acampamento de Elrond em Imladris ou o reino de
Gil-galad. As duas regiões foram reforçadas pela campanha crescente de
Sauron.

No final das contas, foi precisa uma intervenção
massiva de Númenor para derrotar Sauron, mas a lição que ele aprendeu
da guerra foi que Númenor ia dar mais trabalho que Lindon. Tolkien nos
diz que a guerra entre os elfos e Sauron nunca acabou depois daquele
dia, apesar de Sauron ter alterado seus objetivos estratégicas. Ele
começou conquistando mais territórios no leste. E, gradualmente,
enquanto Sauron estendia seu poder para o sul ele entrou em confronto
com colônias numenoreanas ao longo das costas meridionais da
Terra-Média. Númenor vinha colonizando a Terra-Média desde o ano 1200,
mas por todo o ano 1800 os numenoreanos começaram a estabelecer
fortalezas, cobrar tributo dos povos locais, e conquistando terras
ocupadas. Númenor virou um poder rival que Sauron tinha que conter. Em
fato, provou-se ser impossível para este derrotar Númenor no campo de
batalha, e ele finalmente os derrotou através de um subterfúgio que
trouxe destruição para Númenor e a morte de grande parte de seu povo.

E ainda, apesar da queda de Númenor, Sauron não tinha se livrado ainda
da ameaça numenoreana. Elendil e seus Dunedain Fiéis exilados
estabeleceram reinos em Arnor e Gondor, na Terra-Média setentrional.
Apesar de ser apenas um resto da nação poderosa que fora e que
humilhava Sauron militarmente, os Dunedain Fiéis eram poderosos demais
para serem aniquilados rapidamente. Sauron entendeu isso quando tomou
Minas Ithil e foi empurrado para fora de Osgiliath. Vocês podem até
ouvi-lo pensando: "Opa, isto estava fora dos planos". Se ele esperasse
mais 100 anos, Arnor e Gondor teriam ficado mais poderosos, mas Sauron
teria restabelecido total controle sobre sua rede de aliados e assuntos
de estado. Ele teria muito mais recursos à disposição do que possuía
quando atacou Gondor em 3429.

Esperando demais, atuando cedo
demais — esses eram os erros que Sauron cometeu na Segunda Era. Ele
permitiu a seus inimigos o tempo para crescer fortes enquanto ele mesmo
dispersou suas forças e criou guerra em muitas frentes. Depois de sua
derrota, Sauron teve 1000 anos para refletir sobre suas falhas e
fraquezas. E quando ele ficou forte o bastante para reencarnar, ele
entendeu que para conseguir tomar controle da Terra-Média, ele tinha
que trabalhar vagarosa e cuidadosamente. Ele tinha que aumentar seus
poderes enquanto acabava com seus inimigos.

O primeiro passo
era escolher um porto seguro. Mordor foi ocupada por Gondor, que no 11º
século da Terceira Era quase chegou ao topo de sue poder. Não tinha
chance de lutar pelo controle de Mordor com os Dunedain nesta era. E
ainda, Sauron precisava estar perto de seus inimigos. A Grande Floresta
Verde, porém, oferecia uma posição atrativa. As densas florestas
ofereciam uma privacidade relativa e alguma defesa, e a região de Amon
Lanc, por muito tempo abandonada pelos elfos, seria fácil de se
fortificar.

Sendo o Necromante de Dol Guldur (o novo nome que
os elfos deram para Amon Lanc), Sauron construiu um grupo de servos do
mal que se espalharam pela floresta. A Grande Floresta Verde ficou tão
aterrorizante que os homens a renomearam Floresta das Trevas. E à
medida que Orcs, Trolls, Wargs, aranhas e outras criaturas se juntavam
em Dol Guldur, Sauron renovou seus contatos com alguns servos orientais
que serviram a ele no passado. Induzindo alguns dos Orientais a migrar
para o sul da Floresta das Trevas, Sauron começou uma onda de migrações
que aconteceram em Eriador. Os Hobbits, criando moradia nos Vales do
Anduin por muitos anos, cresceram com medo já que o influxo de
Orientais ameaçava seus vizinhos, e começaram a ir para terras mais
seguras, no oeste.

Perto do ano 1300, Sauron mandou o Rei dos
Nazgûl para o norte, a fim de estabelecer o reino de Angmar. Angmar
serviu a dois propósitos. Primeiro, era uma base remota de operações
que trabalhava contra os povos de Arnor que viviam nas proximidades.
Sauron não precisava se preocupar em estabelecer e proteger longas
linhas de suprimentos. Segundo, Angmar pareceria somente mais uma terra
inimiga aos elfos e dunedain. Um único inimigo implacável traria muita
atenção. Mas se reinos hostis surgissem em vários lugares, ninguém
teria certeza do que estaria acontecendo. Havia Sauron retornado, ou
seus servos apenas ficaram mais ambiciosos e poderosos? Inspirar a
dúvida e a demora em seus inimigos deu tempo para que Sauron crescesse
em força.

Mas apesar de Angmar ter vantagem sobre as divisões
que nasceram em Arnor (dividida em três reinos menores pelos Dunedain
em 863), Dol Guldur ficou isolada do leste. Enquanto Sauron contemplava
o que poderia fazer com os reinos do norte, Minalcar estabeleceu as
diferenças entre os homens do Norte e os Orientais atacando as terras
perto do lado sul da Floresta Das Trevas, terras que Gondor clamou há
muito tempo, mas viraram moradia dos Orientais e de muitos homens do
Norte. Minalcar destruiu ou mandou embora os Orientais perto do mar de
Rhûn, e se aliou com o reino de Rhovanion, leste da Floresta das
Trevas, comandado por Vidugavia.

A falha de Minalcar em atacar
Dol Guldur é curiosa. Possivelmente, Sauron estava usando seus
Orientais como uma farsa, e o Necromante de Dol Guldur acabou com
Minalcar como se fosse uma pequena ameaça (ou ameaça nenhuma) para
Gondor. Ainda, Sauron tinha que esperar que seus Orientais recuperassem
seus números. Mas pode ser que ele sentiu que um novo tipo de cultura
oriental foi criada. Nos últimos séculos, Tolkien nos disse, haveria
guerras entre os Orientais. O controle de Sauron sobre os povos do
leste poderia não estar completo, ou então ele sentiu que os melhores
guerreiros seriam aqueles que sobreviveram a grandes contendas e
guerras.

Mas Gondor também era poderosa. Mesmo quando os
Fratricidas morreram, e os Eldacar levaram seus inimigos para o sul,
Sauron não tinha como ter vantagem no conflito. Estava muito longe de
Umbar, onde os rebeldes procuraram abrigo, para fazer contato com os
dissidentes. Apesar de ser um porto seguro, Dol Guldur era bem
confinante. A Grande Praga de 1636, que Sauron lançou no leste e
direcionou para o oeste, abriu novas oportunidades para ele. Gondor
perdeu tanta gente que não poderia mais sustentar os exércitos em
Mordor. Quando os dunedain saíram, orcs e outras criaturas entraram.
Mas ao invés de se mudar para lá, Sauron meramente usou Mordor como
corredor para expansão. Ele provavelmente mandou agentes para o sul
para fazer alianças com os haradrim.

200 anos após a Grande
Praga, os Carroceiros atacaram os homens do norte e Gondor. Os povos do
oeste foram derrotados e Sauron conseguiu domínio da Floresta das
Trevas e de Mordor. O Lorde dos Nazgûl trouxe então a derrota final à
Arthedain, o últimos dos reinos dos Dunedain. Mas apesar de Lindon e
Imladris continuarem no norte, e os dois terem papéis significantes na
derrota de Angmar, Sauron tornou sua atenção para Gondor, suja
intervenção foi responsável pela derrota de Angmar. Os reinos do norte
foram destruídos, mas eles eram a menor das ameaças.

Assim,
quando os anões de Khazad-dûm acordaram o Balrog em 1980, eles
inesperadamente mudaram o balanço de poder no norte. Apesar de
Khazad-dûm não ter tido (aparentemente) um papel importante nas guerras
contra Angmar, ele estava na Última Aliança de Homens e Elfos contra
Sauron, e então enfrentou Sauron novamente. A destruição da civilização
anã efetuada pelo Balrog, e a fuga subseqüente de muitos elfos de
Lothlórien, virtualmente asseguraram que Sauron não tinha quase nenhum
inimigo de poder significante no norte. Tolkien sugere que foi por
causa da presença do Necromante no sul da Floresta das Trevas que
Galadriel resolveu intervir em Lothlórien. Se ela e Celeborn não
tivessem restaurado a ordem ao reino élfico, não teria ninguém para
opor Dol Guldur exceto por alguns homens das florestas e alguns povos
pequenos chamados Eotheod, o restante do outrora poderoso reino de
Rhovanion, Vidugavia. O reino de Thranduil no norte da Floresta das
Trevas continuou forte, mas ele não participou de nenhuma grande guerra
desde a Segunda Era.

O século XX da Terceira Era provou ser um
período tumultuado para Sauron e seus aliados. A perda de Arthedain e
Khazad-dûm deveria ter alarmado os eldar e os Istari. As perdas de
Gondor para os Orientais e a fuga final dos Eotheod para os Vales do
Anduin assegurou que o oeste não tinha força para impulsionar o fluxo
de guerreiros para a Floresta das Trevas e Mordor. E o problema com os
Nazgûl em 2002, quando eles atacaram Minas Ithil, que durou apenas dois
anos, foi um sinal que o mal derrotado no norte sofreu pouco.

Apesar de tudo, Dol Guldur, mesmo com má reputação, parece não ter
feito muito neste período. Os reis de Arnor e Gondor concluíram no meio
do século XX que uma vontade única estava orquestrando suas quedas para
um propósito desconhecido. Pelo século XXI, os Sábios (lordes dos Eldar
e Istari) concluíram que o poder de Dol Guldur era o candidato mais
provável para Inimigo-Mor. Mas quem era o Necromante? Os Sábios
suspeitavam ser um Nazgûl. Apesar de tudo, o Lorde dos Nazgûl era o Rei
Bruxo de Angmar. Os Nazgûl dominaram Minas Ithil. Nazgûl obviamente
estavam ativos na Terra-Média. Mas alguns, provavelmente incluindo
Galadriel e Gandalf, temiam que o Necromante fosse Sauron. Logo, em
2063, Gandalf investigou Dol Guldur e Sauron fugiu para o leste.

Pelos próximos 400 anos, que os Sábios diziam ser a Paz Vigilante,
Sauron preparou novas forças. Os Balchoth, parecidos com os
Carroceiros, cresceram em proeminência no leste. Os Uruks nasceram em
Mordor. Umbar, destruída por Gondor no século XIX, foi recriada com
novas forças totalmente leais a Sauron, e ele finalmente começou a
desafiar o controle numenoreano dos mares. A influência de Sauron entre
os Haradrim aumentou.

Quando ele viu ser a hora certa, em 2460
Sauron retornou para Dol Guldur com novas forças, e Minas Ithil lançou
os Uruks contra Ithilien. Sauron mandou Orcs e Trolls para colonizar as
Montanhas Nevoentas. E os Corsários de Umbar começaram a atacar Gondor.
O retorno à Dol Guldur, porém, implica que Sauron ainda temia a união
de seus inimigos. Os Anões Barbalonga estavam fortes novamente. Os
Eotheod ficaram mais numerosos, e havia outros povos humanos nos Vales
do Anduin que se aliavam com Gondor. Lothlórien virou uma marca do
poderio élfico, e Thranduil controlava o norte da Floresta das Trevas.
Sauron provavelmente procurou deixar seus inimigos do norte
desbalanceados enquanto o Nazgûl, os Balchoth e Corsários acabavam com
os recursos de Gondor.

Mas Sauron também voltou para Dol
Guldur por outro motivo: o Um Anel. Ele acreditava que este fora
destruído. Até ele perceber que não era bem assim. Ele investiu grande
parte de sua força no Anel. Se ele fosse destruído, provavelmente ele
teria ficado fraco demais para ficar poderoso de novo. Sua força
continuou a voltar, porém, e século após século ele conseguiu enxertar
sua vontade sobre mais pessoas e criaturas. Em alguns pontos, a
sobrevivência do Anel virou um fato óbvio para Sauron. Sauron não
apenas sobreviveu à derrota, como estava se recuperando do anel.

E então virou um dever de Sauron recuperar o Anel antes que seus
inimigos o encontrassem e o usassem contra ele. Ele nunca imaginou que
alguém pudesse destruir o Anel, mas havia na Terra-Média Eldar
poderosos que, se viessem a ter o Anel, poderiam usá-lo para construir
exércitos contra ele novamente: Círdan, Elrond, Galadriel, Celeborn.
Eram todos parentes dos antigos reis elfos, e tinham alto conhecimento
e força. E o que Sauron sabia ou suspeitava dos Istari? Com certeza
eles eram imortais. Eles já vagueavam por mais de 1000 anos.

Quando Sauron soube do fim de Isildur, ele se posicionou em Dol Guldur
para ganhar controle sobre os Campos de Lis para que seus servos
pudessem procurar pelo Anel. Mas Sauron não entenderia por muitos
séculos que o Anel estava bem do outro lado do rio, ou que ele foi
encontrado, muito antes dele ter começado a procurar, por um Grado
chamado Déagol, cujo primo Sméagol o assassinou e roubou o Anel.

O ataque dos Balchoth contra o norte de Gondor em 2510 teve dois
propósitos: primeiro, acabar com as forças de Gondor; segundo, limpar o
caminho para a procura de Sauron pelo Anel. A borda norte de Gondor
ficava perto demais de Dol Guldur para que eles mantivessem o segredo.
Os objetivos de Sauron sofreram um revés, porém, quando Eorl liderou um
exército de Eotheod para o norte, em auxílio de Gondor. A Batalha nos
Campos de Celebrant não foi uma derrota ameaçadora para os Balchoth.
Eles continuaram uma efetiva força guerreira para Sauron, mas o
controle sobre os Meandros passou de Gondor para os Eotheod, ao invés
de para Sauron. Gondor e Lothlórien continuaram, então, a ser uma
grande ameaça aos seus planos.

Ainda, quando Cirion cedeu
Calernadhon para Eorl e seu povo, Sauron teve que alterar sua
estratégia uma vez mais. Cirion consolidou suas forças em Anórien e
Ithilien, e Calenardhon veio a ser controlada por um forte povo do
norte, que Sauron percebeu não poder controlar. Os Rohirrim, como o
povo de Eorl veio a ser chamado, não poderia ser simplesmente ignorado.
E a oportunidade de cuidar deles veio no 28º século. Helm, rei de Rohan
(como Calernadhon veio a ser chamado), consolidou seu poder sobre as
terras ocidentais matando Lorde Freca e destruindo sua família. O filho
de Freca, Wulf, se aliou com os Terrapardenses, cujos ancestrais
serviram Sauron na Segunda Era.

Em 2758, Wulf lançou um ataque
à Rohan de Dunland. Ao mesmo tempo, Corsários de Umbar e outras partes
de Harad atacaram o lado oeste de Rohan, e os Balchoth ou outros
Orientais atacaram Rohan do leste. Até mesmo Gondor foi atacada,
ficando então bloqueada de ajudar Rohan. Os Rohirrim foram derrotados
em campo aberto e fugiram para as montanhas. Wulf tomou posse da
maioria das terras. Sauron com certeza planejou o ataque, e o extenso
período de frio, chamado o Longo Inverno, assegurou que o povo de Rohan
(e Eriador) sofreriam terrivelmente. Mas se o objetivo de Sauron era
destruir os Rohirrim neste conflito, ele falhou. Apesar de Helm ter
perecido no Longo Inverno, seu sobrinho Frealaf derrotou Wulf e seus
aliados, na primavera, com a ajuda de Gondor, que reprimiu os ataques
do sul. Mas o conflito produziu outro problema, que Sauron preferiu
ignorar.

Em 2590, os Anões Barbalonga re-estabeleceram o Reino
sobre a montanha de Erebor, que ficava a leste da parte norte da
Floresta Das Trevas. Enquanto Erebor não era ameaça para Dol Guldur,
ele se aliou ao Reino de Valle. Os dois reinos cresceram em riqueza,
fama e poder. Em 2770 o dragão Smaug veio do distante norte e destruiu
Erebor e Dale. Os anões sobreviventes se exilaram e a família real foi
parar em Terra Parda. Em 2990, Thror, que era rei sobre a Montanha,
decidiu retornar para o leste. Foi assassinado por Azog, chefe dos Orcs
em Khazad-Dûm, que decapitou Thror e mutilou a cabeça do Rei-Anão.

Thrain, filho de Thror, fez uma aliança entre todos os povos anões por
uma guerra de 7 anos contra os Orcs das Montanhas Nevoentas. Apesar dos
anões sofrerem grandes perdas, eles quase exterminaram os Orcs. O
controle de Sauron sobre as Montanhas Nevoentas foi efetivamente
destruído na guerra. Junto com sua falha de destruir ou tomar controle
sobre Rohan, perder as Montanhas Nevoentas diminuiu as chances de
Sauron de destruir Lothlórien ou achar o Um Anel.

Para não
ficar totalmente frustrado, Sauron começou então a recuperar os outros
Anéis do Poder que ele cedeu na Segunda Era. Os Anões tinham os Sete e
os Nazgûl tinham os Nove. Mandar os Nazgûl devolverem seus anéis não
era problema. Mas Sauron tinha que caçar os Reis-Anões um a um e pegar
os Anéis deles. E, desses reis, apenas três tinham anéis. Quatro dos
Anéis foram aparentemente destruídos por dragões. Thrain foi o último
Portador Do Anel a cair nas mãos de Sauron. Apesar de Tolkien não
explicar porque Sauron pegou os Anéis de volta, podemos concluir que
era para aumentar sua própria força. Ou então pretendia, futuramente,
distribuí-los para novos escravos. Glóin reportou para o Conselho de
Elrond em 3018 que Sauron ofereceu 3 Anéis para o Rei Dain II, apesar
de não podermos dizer que Sauron devolveu os Anéis para os anões.

Ao que o Conselho Branco corria, no qual Galadriel se juntou aos Istari
e lordes elfos depois que a Paz Vigilante acabou, Gandalf retornou para
Dol Guldur em 2851. Foi lá, então, confirmado que o Necromante
realmente era Sauron, e Gandalf descobriu que Sauron estava juntando os
Anéis de Poder novamente, assim como procurava pelo Um Anel. Tais
notícias alarmaram Saruman, que tinha ido morar na fortaleza gondoriana
de Isengard depois do Longo Inverno. Saruman, neste momento, percebeu
que o Um Anel poderia, sim, ser encontrado, e ele o queria para si. Ele
começou a recrutar Orcs e Terrapardenses para servi-lo, e mandou
espiões para procurar pelo Anel nos Campos de Lis.

Apesar de
Saruman apresentar uma ameaça pequena para Sauron, a procura pelo Anel
descobriu outro problema. Enquanto Arnor foi completamente destruída
(ou assim Sauron acreditava – ele não percebeu que descendentes de
Isildur sobreviveram no norte), Gondor provava ser muito mais forte e
resiliente, graças à aliança com os Rohirrim. O crescimento de um poder
rival em Isengard poderia complicar, mas se Sauron pudesse encontrar o
Um Anel ele poderia rapidamente conseguir controle sobre muitas pessoas.

Em 2941, Sauron provavelmente se convenceu que o Um Anel não estava
mais na região dos Campos de Lis. O Conselho Branco moveu-se contra ele
e ele fugiu de Dol Guldur. Dizem que a Floresta das Trevas ficou um
lugar mais calmo por um tempo. Tal transição implica que Sauron não
fugiu simplesmente de Dol Guldur. Ele sugere que foi uma grande
migração de orcs, homens e outras criaturas sobre seu controle.
Enquanto alguns argumentam que a ação do Conselho Branco foi um tipo de
ataque mágico, é mais provável que Lothlórien mandou um exército contra
a Floresta das Trevas. Os Istari e os senhores elfos desafiaram o poder
de Necromante diretamente, mas Sauron retraiu-se e então preservou
grande parte de suas forças.

A fuga sugere que Sauron não
estava mais a fim de arriscar seus exércitos principais em combate
aberto. Por outro lado, no norte, Bolg (filho de Azog) lançou uma
campanha contra um pequeno grupo de anões liderados por Thorin, filho
de Thrain, que retornou a Erebor. Após a morte de Smaug, elfos, homens,
anões e orcs se convergiram para a montanha, para recuperar o tesouro
que Smaug guardou à 170 anos. Estava Bolg seguindo ordens de Sauron, ou
Sauron perdeu o controle sobre os orcs das Montanhas Nevoentas? Se
Sauron aprovasse ou permitisse à Bolg lançar o ataque, então ele o
supriria com recursos o suficiente para executar uma ação que, além de
segurar uma base no norte, poderia ser usada para atacar Thranduil. Mas
isso também deixaria Sauron sem ajuda próxima das Montanhas Nevoentas.
Se Bolg ganhasse controle sobre Erebor, Sauron estaria em posição para
acabar com Thranduil e trazer reforços para atacar Lothlórien num
minuto. Mas quando Bolg retirou os exércitos órquicos, Lothlórien tinha
uma oportunidade única de ação.

Se Bolg fosse o comandante de
Sauron no norte, Sauron poderia retornar para Mordor com todas as
forças de Dol Guldur. Ao invés de espalhar seus recursos pelas três
maiores bases (Mordor, Dol Guldur e Erebor), Sauron poderia consolidar
sua força em duas regiões bem protegidas, que poderiam ser suprimidas e
reforçadas pelo leste. Então, por não ter arriscado tudo, a derrota de
Bolg em Erebor somente atrasou os planos de Sauron. Tolkien diz que
três quartos dos Orcs do norte pereceram na Batalha dos Cinco
Exércitos. Levaria décadas para que eles pudessem se recuperar
totalmente. Enquanto isso, enquanto os homens do Norte refaziam o Reino
de Dale e os Anões Barbalonga reconstruíam o reino de Erebor, Sauron
retornou para Mordor.

Sauron se declarou abertamente em 2951.
Ele agora se sentia confiante o bastante, apesar de sua falha em
recuperar o Anel, para agüentar qualquer ataque que o Oeste lançasse
sobre ele. O efeito psicológico do "Estou de volta" sobre os elfos não
deve ser subestimado. Muitos dos elfos simplesmente perderam a fé.
Talvez muitos deles acreditassem que Sauron tinha recuperado o Um Anel,
ou que estava quase encontrando. Pelo ano 3000 anões começaram a se
mover para o oeste, e trouxeram do leste relatos de movimentos de
povos, guerras predatórias e o poder crescente de Sauron. Muitos dos
eldar restantes fizeram uma onda massiva de migração para o Mar,
deixando a Terra-Média para sempre. Os Elfos Silvan continuaram
decididos, mas Lindon e Imladris nunca mais puderam reconstruir
exércitos.

À medida que os orcs das Montanhas Nevoentas
recuperavam seus números, novos inimigos ameaçavam a borda leste de
Dale. Mordor forjou novas alianças com os Orientais e os Haradrim, e
Saruman caiu no encanto de Sauron quando o mago usou o Palantír que
encontrou em Isengard para espiar Mordor. Apesar da fidelidade de
Saruman para com o oeste já ter se esvaecido, até agora ele se opunha a
Sauron. Foi útil para Saruman ajudar o Conselho Branco a livrar Dol
Guldur em 2941. Ele queria procurar pelo Anel livremente. Perto da
Guerra do Anel, Saruman encontrou os restos de Isildur, mas não o Anel
(que, com certeza, foi levado para o Condado).

Gondor
continuava a decair ante os repetidos ataques de Mordor e Harad, mas a
força militar de Gondor já não era vital para a estratégia de Sauron. O
Anel virou a prioridade-mor de Sauron. Ele finalmente soube de Sméagol
do destino do Anel, e em 3018 ele mandou os Nazgûl para o Condado para
recuperar o Anel e trazê-lo de volta. Apesar dele estar se preparando
para a guerra, e que ninguém acreditava que ele podia perder, Sauron
precisava ter certeza que seus inimigos não usariam o Anel contra ele
antes que ele lançasse a guerra. Seus capitães poderiam mudar de lado
caso alguém poderoso o bastante para usar o Anel aparecesse e tomasse
posse deste.

A grande lista de reinos e tribos que Sauron
juntou assegurava-o de qualquer vitória em qualquer guerra em que
ninguém usasse o Anel. A recuperação do Anel o assegurava, então, de um
controle indisputável sobre a Terra-Média. Os elfos que sobraram não
eram fortes o bastante para desafiá-lo. Os Dunedain definharam e eram
poucos demais para chegar a ter os poderosos exércitos que comandavam
no auge de seu poder. E os homens do norte, apesar de fortes em lugares
como Dale, os Vales do Anduin, e Rohan, estavam divididos em reinos
demais e incapazes de formar uma aliança forte o bastante para
desafiá-los.

Em 3018, Sauron esteve preste a atacar Dale e
Erebor, passando pela Floresta das Trevas, e limpar os Vales do Anduin
dos homens, elfos e anões. Mesmo Lothlórien provavelmente não
sobreviveria por muito tempo. Gondor, por outro lado, possuía força o
suficiente, especialmente se reforçado por Rohan, para agüentar ao
menos um ataque massivo. O dever de Saruman ele prevenir ou adiar o
reforço de Rohan. Os orcs das Montanhas Nevoentas poderiam atacar os
Beornings, os Homens das Florestas, Lothlórien, e sem dúvida alguma
Imladris e Eriador. Dol Guldur, agora reconstruída, poderia deixar
Thranduil dificultado. Não tinha chance dos povos do norte formarem uma
aliança no último minuto e chegar em auxílio de Gondor. Todas as peças
estavam no lugar. Vitória era certa. O Senhor do Escuro estava se
divertindo.

A análise de Gandalf das intenções e prioridades
de Sauron (revelada no Conselho de Elrond em 3018 e no último debate
dos capitães do Oeste em 3019) oferece um discernimento das estratégias
mutantes de Sauron na Terceira Era. Quando ele acordou e assumiu uma
força física uma vez mais, Sauron acreditou que ele fora ferido pela
destruição do Um Anel. Determinado a se vingar de seus inimigos, e
talvez reconquistar o controle sobre a Terra-Média, ele começou o
trabalho de dividir e enfraquecer seus inimigos. Seus tenentes
trouxeram a destruição de Arnor. O Balrog (direcionado por Sauron, ou
mesmo por pura sorte) destruiu Khazad-dûm e grande parte de Lothlórien.
Os Orientais e Haradrim enfraqueceram Gondor, reduzindo-o de um império
extremamente poderoso a um estado murcho, ainda orgulhoso mas temeroso
e com uma paranóia de ameaça e derrota. E muitos dos elfos restantes
fugiram da Terra-Média quando viram que a batalha final estava para
começar

Descartando problemas ocasionais, em 3019 Sauron
estava confiante de sua habilidade de adquirir vitória suprema sobre a
oposição. Ele sabia que o Um Anel ainda existia, e ele sabia quem o
possuía. Ele temia que alguém mais tomasse o Anel e usasse contra ele.
O grande perigo, ao ver de Sauron, estava na possibilidade que a
divisão e as brigas poderiam surgir entre seus exércitos. As forças que
ele conseguiu poderiam se virar contra ele. Aragorn e Gandalf
concluíram, então, que a chance de Frodo em concluir a sua missão
dependia do medo de Sauron. Eles fizeram Sauron acreditam que um novo
Senhor do Anel, presumavelmente Aragorn, estava aparecendo.
Penetrantemente atento ao que o atraso custou a ele na Segunda Era (e
talvez fazendo-o sentir que não estava agindo tão cedo), Sauron lançou
um ataque massivo contra Gondor na esperança de capturar o Anel. E
quando esse ataque falhou, ele lançou tudo o que ele tinha num assalto
selvagem que ele acreditava que iria trazer rapidamente o Anel para ele.

Como deve ter sido devastante para Sauron a verdade, quando Frodo
clamou o Anel na cova de Sammath Naur, que ele, o mestre da
manipulação, foi um tolo. Todo seu planejamento cuidadoso e manobras
sagazes por dois mil anos foram para nada. Força massiva, poder
impressionante, e as estratégias mais sutis foram sabotados pela
completa equivocação de Sauron quanto aos fatos que ele descobriu. Ele
acreditava que seus inimigos queriam ser como ele. Se ele entendesse
que eles simplesmente queriam se livrar dele e de todos os Lordes
Negros para sempre, ele teria ficado mais retraído. Em tal mundo,
Sauron estaria sem ação por um tempo. Ele ainda teria que temer que
alguém tomasse o Anel e o usasse contra ele. Mas ele também temeria que
eles o destruíssem. Ele teria que refazer sua estratégia. Não devemos
duvidar que ele deveria ter feito isso, e que o Conselho de Elrond
acertou no ponto quando concluiu que eles tinham uma única chance de
derrotar Sauron.