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Eles, os Anões (Parte II)!

Guerreiro Anão, por Alan Lee

A maior parte do que conhecemos a respeito da cultura e costumes dos Anões deriva dos escritos de Tolkien sobre o Povo de Durin, os Anões Barbas-longas de Khazad-dûm, Erebor e as Colinas de Ferro. O Povo de Durin foi possivelmente o mais sociável de todos os povos anões, interagindo com Elfos, Homens e hobbits, em menor ou maior grau. Os Anões de Ered Luin (os Barbas-de-Fogo e Vigas-largas) também estavam intimamente associados com Elfos e provavelmente interagiram com Homens na Segunda e Terceira Eras, da mesma forma que os hobbits do Condado na Terceira Era, mas parece que, numericamente, eles se tornaram relativamente poucos após a Primeira Era.

 
 
As pessoas vêem os Anões como reservados e até certo ponto xenófobos, mas isto não é completamente correto. Tolkien disse, de fato, que “eles são uma raça dura, teimosos em sua maioria, reservados, trabalhadores, que retêm lembranças de insultos e ferimentos (e de boas ações), amantes da pedra, de pedras preciosas, e de coisas que tomam forma nas mãos dos artesãos, mais do que as coisas que vivem por meio de sua própria vida”. Então, o quão reservados eram eles? Tolkien nos diz que os Anões de Nogrod e Belegost compartilhavam seu conhecimento livremente com os Sindar, em troca dos ensinamentos de Melian, e eles também compartilharam conhecimento, mais tarde, com os Noldor. Por outro lado, os Anões-pequenos eram tão reclusos e hostis aos Sindar que pareciam animais violentos que deveriam ser caçados.

 

A extensão da natureza reservada dos Anões é percebida por meio de sua língua, que ensinavam a poucos, masTolkien não diz que eles a ensinaram a alguém (embora Gandalf faça uma declaração nesse sentido diante do Portão Oeste de Moria em “Uma Jornada no Escuro”, o autor está geralmente em desacordo com seus personagens sobre “fatos”, em relação aos quais ele é o árbitro-mor). Alguns Elfos, de fato, estudaram a língua dos Anões, e aprenderam tanto quanto puderam ou o que os Anões estiveram dispostos a ensinar (se é que havia tais limites). O estudioso de maiores recursos sobre o qual Tolkien escreveu foi Pengolod, um Elfo meio Noldo, meio Sinda de Gondolin, que se juntou aos Lambengolmor, Mestres das Línguas, que era uma escola de mestres de tradições fundada por Fëanor em Aman e que aparentemente juntou-se à rebelião dos Noldor, embora Fëanor tivesse cessado de trabalhar com línguas há muito tempo.

Sabemos pouco da história do Lambengolmor. Eles estudaram sindarin e provavelmente um pouco dos dialetos nandorin e avarin em Beleriand, mas muito do conhecimento deles se perdeu quando os reinos noldorin começaram a cair. Aqueles dos Lambengolmor que sobreviveram à destruição no norte estabeleceram-se por fim em Avernien, e mais tarde mudaram-se para a Ilha de Balar com Círdan e Gil-galad, ou então permaneceram seguidores dos filhos de Fëanor. Na Segunda Era, Pengolod estabeleceu-se em Eregion, e foi provavelmente lá que ele (e possivelmente outros) estudaram o khuzdul, a língua dos anões. Pengolod foi o único mestre de tradições dos Lambengolmor a sobreviver à catastrófica Guerra dos Elfos e Sauron, e quando as batalhas terminaram, ele tomou um navio em Mithlond e deixou a Terra-média para sempre, último de seu grupo a agraciar a Terra-média.

Dentre os segredos que os Anões não estavam dispostos a contar estavam seus verdadeiros nomes interiores, dados em khuzdul e usados apenas entre eles próprios. Todos os Anões de O Hobbit e O Senhor dos Anéis usam nomes “humanos”, de acordo com seus costumes. Pelo menos esse era o costume entre os Anões Barbas-longas da Segunda Era em diante, se não antes. Outros Anões, no entanto, usavam nomes em khuzdul. Os Anões de Nogrod e Belegost atendiam por nomes dados em khuzdul: Azaghal, senhor de Belegost, Telchar de Nogrod e Gamil Zirak, o Velho, o mestre que ensinou Telchar.

Os Anões de Ered Luin podem ter desenvolvido a civilização mais sofisticada dentre sua raça durante a Primeira Era, devido à amizade deles com os Elfos de Beleriand, cuja civilização era a mais elevada e mais avançada cultura da Terra-média. Grande riqueza fluía através de Ered Luin, e esses Anões não olhavam apenas para o oeste. Eles negociavam com vários dos Homens que se estabeleceram em Eriador, e também com os Nandor e Avari que ali moravam. É talvez um fato curioso, no entanto, que os Edain (pelo menos os maracheanos, a Terceira Casa dos Edain) tenham retido algumas tradições de discórdia ou luta com Anões que migraram do oeste. Tolkien não diz o que aconteceu, mas quando Túrin e seus foras-da-lei capturaram Mim, o anão-pequeno, um dos homens de Túrin (ele próprio um dos homens de Marach) disse de si mesmo: “Androg não gosta de Anões. O povo dele trouxe poucas boas histórias dessa raça saída do Leste”.

Bom, as histórias do povo de Androg podem ou não refletir o relacionamento entre seu povo e os Anões. Tais eventos repousam em várias gerações antes dele (esta conversa ocorreu por volta do ano 484 da Primeira Era, e o povo dele adentrou Beleriand em 314; eles haviam começado a se estabelecer em Dor-lómin mais de 100 anos antes que Angrod vivesse). Não sabemos com quais Anões o povo de Angrod teve problemas, mas eles eram provavelmente Barbas-longas, Barbas-de-fogo, ou Vigas-largas. Nenhum outro povo dos Anões parece ter vivido nas proximidades da linha migratória dos Edain, que passou em linha reta através das Terras Ermas (Rhovanion) e os Vales do Anduin, onde os Barbas-longas tinham o controle, e além do Ered Luin.

Depois que os Edain alcançaram Beleriand, as relações entre Anões e Homens melhoraram fora de Beleriand, mesmo que tenham permanecido frias no oeste. O Povo de Bór, únicos Orientais a permanecerem fiéis aos Eldar na Quinta Grande Batalha, a Nirnaeth Arnoediad, era um povo sedentário (agrícola), apenas uma das várias tribos ou clãs a migrar para Eriador no fim do Século V. Estes povos se estabeleceram nas terras setentrionais em torno das Colinas de Vesperturvo, e eram amigáveis aos Anões. De fato, o Povo de Bór dirigiu-se para o norte, contornando Ered Luin, até entrar em terras dos Eldar, e eles passaram a morar nas terras ao norte das colinas onde o povo de Maedhros residia.

Na época em que Thangorodrim caiu, a maioria (mas não todos) dos seguidores de Morgoth que haviam sido destruídos pelas forças do extremo oeste fugiram quando Morgoth foi derrotado e espalharam-se por toda a Terra-média. Alguns dos orcs aparentemente tomaram o Monte Gundabad e infestaram as montanhas do norte das Terras Ermas. Os Anões Barbas-longas passaram a defender duramente a si próprios do ataque. Eles já haviam começado a trocar serviços por comida com os Edain das Terras Ermas, mas naquele momento eles estabeleceram uma aliança com os homens, a fim de tentar expulsar os orcs das montanhas. Esta aliança única está documentada apenas em The Peoples of Middle-earth, no ensaio “Dos Anões e Homens”, que foi escrito algum tempo depois de junho de 1969 (de acordo com Christopher Tolkien).

Tolkien diz que os Barbas-longas, “embora fossem os mais orgulhosos dos sete povos, eram também os mais sábios e os mais previdentes”. Ele prossegue dizendo que “os Homens tinham grande admiração e estavam muito desejosos de aprender com eles; e os Barbas-longas estavam muito interessados em usar os Homens para seus próprios propósitos”. Esses propósitos eram dois: prover alimentação para os Anões e ajudá-los nas guerras contra os orcs. A conhecida reserva dos Anões havia sido então abandonada, graças à necessidade e o desejo de comércio com outros povos tanto em Beleriand quanto em Rhovanion. Mas parece que a reserva seria recuperada no fim.

Os Anões Barbas-longas foram os primeiros a usar nomes “exteriores”, emprestados das línguas dos Homens próximos. Tolkien escreve que os Anões estavam dispostos a ensinar sua língua aos homens, mas os Homens a consideraram difícil de aprender, e ainda assim nem todos os Anões estavam dispostos a informar seus nomes verdadeiros aos não-Anões. Dessa forma, para facilitar a aliança, os Barbas-longas aprenderam a língua dos Homens das Terras Ermas (assim como os Anões de Ered Luin aprenderam sindarin) e adotaram seus nomes “exteriores” nesta língua. Foi durante o início da Segunda Era que os Anões começaram a acumular uma lista de nomes que a tradição por fim uniu apenas à raça deles. “Durin” é a tradução que Tolkien oferece para o nome “de homem” que significava “rei”, e era mais um título do que um nome, que por fim tornou-se um nome de fato. “Narvi” seria outro exemplo da criação de nomes baseada na linguagem do norte (essencialmente um dialeto do adunaico, a língua falada pelos maracheanos).

Com o auxílio dos Homens, os Barbas-longas foram capazes de restabelecer o controle sobre aquelas regiões que eles consideravam suas por direito. Essa aliança ajudou a pavimentar o caminho para a aliança final entre os Barbas-longas e os Elfos de Eregion, mas parece que há outro pré-requisito: a migração dos Anões de Belegost para Khazad-dûm. Esses Anões não haviam participado da guerra entre Nogrod e Doriath e, portanto, não possuíam inimizade direta com os Elfos (embora Tolkien diga que a lembrança da guerra “envenenou o relacionamento entre Elfos e Anões durante eras”, ainda que quase não forneça evidências de tais relações envenenadas).

Quando o mithril foi descoberto pelos Barbas-longas, os Noldor de Lindon ficaram interessados em seus recursos, e vários deles instalaram-se nas terras a oeste de Khazad-dûm, criando o reino de Eregion. A cidade principal era Ost-in-Edhil, e eles iniciaram uma amizade e aliança muito próxima com os Barbas-longas, que durou mil anos. No fim dessa época, os Barbas-longas foram atraídos para a Guerra dos Elfos e Sauron. Eles buscaram ajudar os Eldar de Eregion, que estavam em dificuldade, e vários Elfos (inclusive Pengolod) escaparam através de Khazad-dûm até o reino oriental de Lothlórien, mas o exército de Durin IV foi empurrado de volta para as montanhas por Sauron, e o Portão Oeste foi fechado para evitar uma possível invasão. As coisas também não foram bem no leste. Sauron enviou exércitos de orcs de Mordor e instigou as tribos orientais de Homens a invadir as Terras Ermas.

Os povos dos Edain foram aniquilados e empurrados de volta para as montanhas ou para bem dentro das florestas (e foi provavelmente neste momento que os Homens da Grande Floresta Verde apareceram pela primeira vez). Os próprios Barbas-longas perderam o controle de Gundabad novamente, as Montanhas Cinzentas estavam infestadas de orcs e a comunicação com as Colinas de Ferro foi cortada por algum tempo. Quando Sauron foi finalmente derrotado, Khazad-dûm parecia uma ilha no meio de um mar vazio, cujo único vizinho amigável era, aparentemente, Lothlórien. Elrond havia estabelecido o refúgio de Imladris ao norte de Eriador, mas embora ele fosse amigável aos Anões na Terceira Era, não há indicação que ele tenha interagido muito com eles na Segunda Era.

Mîm e os anões-pequenos – Alan Lee

 Os Barbas-longas não abandonaram sua velha amizade com os Elfos, mas conforme Tolkien diz, ela diminuiu. No fim da Segunda Era, Durin V estava disposto e pronto a se juntar ao Exército da última Aliança de Elfos e Homens, então seu povo marchou contra Gondor. Mas depois parece que eles não participaram muito dos grandes assuntos da Terra-média. Por quase dois mil anos, Khazad-dûm continuou a desfrutar de grande prosperidade. As Montanhas Nevoentas e Cinzentas ficaram indubitavelmente livres de orcs, trolls e dragões por muitos séculos, e a comunicação entre Khazad-dûm e outras comunidades anãs foi assegurada.

Mas quando Sauron começou a se manifestar novamente, passados mil anos da Terceira Era, ele parece ter buscado a política de afastar seus velhos inimigos uns dos outros. Sempre que uma oportunidade se apresentava, ele destruía uma nação, ou levava vantagens sobre a queda de um inimigo. Os Anões Barbas-longas iniciaram um período de declínio quando eles acidentalmente despertaram um Balrog, aparentemente o último dos grandes demônios de fogo e sombra de Morgoth. O Balrog destruiu a civilização em Khazad-dûm, matando dois de seus reis e vários de seu povo. Os sobreviventes fugiram para o norte e leste, mas nunca recuperaram suas forças por completo. Logo depois, Amroth, rei de Lórien, liderou uma migração de Elfos para o sul, e o despertar de um grande (embora não-identificado) mal nas montanhas, assim como a partida de vários Anões, inspirou os Elfos de Lórien a proibir a entrada de qualquer Anão em suas terras.

Tolkien não diz exatamente como os Anões se dispersaram. Os reis dos Barbas-longas mudaram-se para a Montanha Solitária, a noroeste. Mas alguns dos Anões que viviam nas Montanhas Nevoentas ou nas Montanhas Cinzentas brigaram com Fram, um senhor dos Éothéod, a respeito do tesouro de Scatha, o Verme. Por fim, os Anões mataram Fram depois que ele recusou-se a entregar o tesouro. Os Anões de Belegost podem ter retornado para seus parentes em Ered Luin. Mas por fim os Barbas-longas colonizaram as Montanhas Cinzentas em grande número, onde chamaram a atenção de dragões e foram conduzidos para o sul, em Erebor novamente. Dessa vez um dos dragões, Smaug, o Dourado, seguiu-os e conquistou Erebor em 2770. Pelos 171 anos seguintes os Barbas-longas não tiveram residência permanente, exceto por uma colônia que sobreviveu nas Colinas de Ferro e algumas colônias não nomeadas nas montanhas do norte.

Ao fim da Terceira Era, as fortunas de três das sete famílias haviam caído. O povo de Nogrod havia sido maciçamente destruído na guerra com Doriath no final da Terceira Era. A maior parte do povo de Belegost deixou as Ered Luin no início da Segunda Era porque sua cidade havia sido destruída. Os Anões que permaneceram nas Ered Luin parecem ter sido poucos, mas mantiveram o controle sobre uma região de terra entre os Elfos e Homens no norte de Eriador. Estes Anões provavelmente viveram com seus vizinhos num relacionamento similar ao das grandes alianças de Khazad-dûm, mas eles eram poucos numericamente e não eram seriamente ameaçados pelos orcs ou dragões, portanto eles não têm nenhuma participação nas grandes guerras da Segunda Era. Tolkien dá a entender que eles não marcharam com a Última Aliança, pois diz ele que poucos Anões lutaram em ambos os lados naquela guerra.

A difusão do costume de adotar nomes exteriores nas línguas dos homens, dos Barbas-longas para as outras raças, provavelmente ocorreu na Terceira Era, talvez logo depois da queda de Khazad-dûm. Naquele tempo, os Barbas-longas teriam começado a vagar pelas terras, e alguns certamente estabeleceram-se entre outros Anões. Se houve de fato o retorno dos descendentes dos Anões de Belegost para as Ered Luin, eles teriam levado o costume com eles, se é que este já não os precedesse.

Tolkien fala pouco sobre as quatro casas orientais. Ele sugere que elas (ou pelo menos as duas mais orientais) podem ter tornado-se “más” de alguma forma, mas elas não apoiaram Sauron no final da Segunda Era. O relacionamento entre Sauron e os Anões é peculiar. Tendo falhado ao tentar seduzir os Elfos com os Anéis do Poder, Sauron tomou o maior número de Anéis Élficos que conseguiu durante sua guerra com os Elfos, e levou-os de volta para Mordor. Ali ele os perverteu de alguma maneira, com a intenção de usá-los para controlar os grandes senhores de outros povos. Sauron conseguiu dar sete Anéis para os Anões, presumivelmente um para cada um dos senhores das sete casas (embora isso não seja uma certeza). Se for esse o caso, então a observação de Tolkien de que, segundo a tradição, cada um dos antigos tesouros dos Anões foi criado a partir de um anel, dá a entender que os senhores de Belegost jamais deixaram Ered Luin. Parece improvável que tivessem seu tesouro em Khazad-dûm.

A situação dos Sete Anéis parece dizer algo a respeito da história dos Anões. Sauron, por fim, decidiu tomar de volta os Anéis (em algum momento no fim da Terceira Era) e teve que ir ao encalço deles. No processo, ele apenas adquiriu três dos Anéis; dragões consumiram os outros quatro, de acordo com Gandalf. Dos três que Sauron tomou de volta, sabemos que um pertencia aos reis dos Barbas-longas. Esse Anel ele tomou de Thráin em 2845, “o último dos Sete”. Portanto, a quem pertencia os outros dois Anéis, e quando Sauron conseguiu-os?

Parece que Sauron não visitou Eriador na Terceira Era. Ele enviou o Senhor dos Nazgûl para o norte, por volta do ano 1300, para fundar o reino de Angmar, e esse reino do mal buscou a destruição de Arnor, o reino do norte dos Dúnedain. Angmar estava situada a nordeste em Eriador, longe das Ered Luin, mas efetivamente no controle de Gundabad. Pode ser que Gundabad, libertada na Segunda Era, tenha sido tomada por Angmar, ou talvez abandonada pelos Anões. Ou pode ser que Gundabad tenha resistido, o que parece improvável.

Não obstante, Angmar existiu por quase 700 anos e, no entanto, jamais foi capaz de atacar as Ered Luin. Também não há menção de dragões afligindo os Anões das Ered Luin ao longo da Terceira Era. Portanto, parece improvável que Sauron tivesse recuperado os dois Anéis dos Anões de Ered Luin, enquanto o reino de Arnor existia. E embora Arnor tenha caído em 1974, o próprio reino de Angmar foi destruído por Gondor, Lindon e Valfenda no ano seguinte. O Senhor dos Nazgûl, então, fugiu para o sul e só ouviu-se falar dele novamente no ano de 2002, quando os Nazgûl tomaram a cidade de Minas Ithil, em Gondor. O próprio Sauron fugiu para o leste em 2063, quando Gandalf entrou em Dol Guldur para tentar descobrir quem o Necromante realmente era, e Sauron não retornou para o oeste até 2460.

É provável, portanto, que Sauron não tenha feito nenhuma tentativa de recuperar os Anéis dos Anões ocidentais antes de 2460. Num período de cem anos, Sauron começou a colonizar as Montanhas Nevoentas com orcs, e dragões começaram a reaparecer no norte, atacando os Anões. Os Anões Barbas-longas fugiram para Erebor ou para as Colinas de Ferro. Pode ser que os dragões também começaram a afligir as quatro casas orientais, e que nos dois séculos seguintes todos os grandes reinos orientais dos Anões sofreram uma sina similar aos de Erebor. Isso explicaria as obscuras referências em O Hobbit e O Senhor dos Anéis sobre os infortúnios dos Anões, especialmente quando se tratava de dragões.

Se Sauron estava alarmado pela perda dos quarto Anéis no leste, pode ter agarrado a oportunidade de tomar os Anéis ocidentais no 28º século. Orcs começaram a invadir Eriador por volta de 2740 e, pelos idos de 2758, Sauron estava pronto a lançar um ataque maciço contra Gondor, Rohan e, aparentemente, até mesmo Eriador. Este foi o ano em que o Inverno Longo começou, e os orcs foram capazes de avançar a oeste até o Condado. É concebível que os Anões de Ered Luin tenham sofrido muito, tanto quanto outros povos naquele tempo, e que seus reis tenham sido atraídos para fora e capturados por orcs. Embora puramente especulativo, o período de tempo que Sauron teve para as atividades de busca pelos Anéis está limitado a um século. Tolkien não diz quando Sauron tomou de volta os Anéis dos Nazgûl, mas ele provavelmente só recebeu esses Anéis depois que seu poder estava mais seguro, o que teria ocorrido logo depois do fim da Paz Vigilante.

Com seus objetivos conquistados, ou seus recursos exauridos, Sauron parece ter desconsiderado Eriador depois do Inverno Longo. Não houve mais incursões maciças de seres malignos no noroeste, e por volta de 2845, ele havia recuperado tantos Anéis de Poder quanto possível. Os infortúnios dos Anões estavam, dessa forma, chegando ao fim, e suas fortunas (pelo menos as dos Barbas-longas) voltaram a aumentar.

Eu devo salientar que Sauron pode ter tido outra oportunidade de tomar dois dos Anéis dos Anões: a Guerra dos Anões e Orcs, de 2793 a 2799. Todas as sete casas concentraram seus exércitos para a guerra de vingança contra os Orcs das Montanhas Nevoentas. Embora Tolkien não diga que outro senhor além de Thráin (herdeiro de Durin, rei dos Barbas-longas) tenha participado diretamente da guerra, não é impossível que pelo menos dois tenham liderado tropas para ajudar Thráin, e eles poderiam ter sido capturados ou mortos, e seus corpos levados. Nesse caso, Sauron poderia ter recuperado os Anéis dessa maneira.

Apesar de seu declínio nas terras ocidentais, os Anões continuaram a viajar através de Eriador e sem dúvida através das Terras Ermas, realizando sua jornada entre Ered Luin e Erebor, ou Ered Luin e as Colinas de Ferro, e talvez viajando até as terras orientais dos Anões. Os objetivos de tais jornadas são raramente declarados. Quando Thorin e Thráin se estabeleceram nas Ered Luin depois da Guerra dos Anões e Orcs, vários dos Barbas-longas ficaram sabendo de seu novo lar e foram se juntar a eles, portanto deve ter havido um constante porém pequeno fluxo de trânsito a oeste.

Em “A Busca de Erebor” (no Contos Inacabados), Christopher Tolkien colocou fragmentos de textos que seu pai havia escrito numa tentativa de explicar (principalmente por meio de Gandalf) como a expedição de Thorin e Companhia para Erebor foi organizada em 2941. Durante uma discussão, Gandalf repreende Glóin por fazer pouco do povo do Condado, só porque os Anões jamais venderam armas para eles. Alguém pode concluir, a partir dessa observação, que os Anões estavam de fato vendendo armas a alguém, mas Tolkien não indica para quem. Talvez os Elfos precisassem de armas, mas eles deveriam ser capazes de fazer as suas próprias. Parece mais provável que os Anões tenham fornecido armas aos Dúnedain de Eriador. Os Guardiões parecem ser um incomum grupo bem equipado de soldados para ser totalmente sustentado por um “povo errante”. Se os Dúnedain precisassem recorrer a alguém para o suprimento de itens artesanais, os Anões pareceriam uma escolha lógica.

Porém, à medida que os centros populacionais de Eriador foram decaindo ao longo do final da Terceira Era, ficou cada vez mais difícil para os Anões terem uma vida lucrativa. Os Dúnedain continuavam a diminuir. Enquanto Thráin e seu pequeno grupo viveram na Terra Parda, eles provavelmente negociaram com o povo de Tharbad, porém esta foi abandonada em 2912, depois que o Inverno Mortal resultou em enchentes severas. A relutância dos povos em reconstruir sua cidade implica que havia simplesmente poucas razões econômicas para fazê-lo. Bri também passou por um período de declínio, possivelmente na mesma época, embora pareça que isso dependeu mais do trânsito na estrada leste-oeste do que do trânsito vindo do sul.

Assim, houve diminuição dos mercados para o artesanato dos Anões, no último século da Terceira Era: o Condado, a Terra dos Buques, Bri, e alguns poucos e espalhados Dúnedain. Possivelmente alguns Elfos também negociaram com eles. A restauração do Reino sob a Montanha em Erebor, em 2941, significou que os Barbas-longas provavelmente partiram logo depois para se juntarem Dáin II no leste. Isto teria reduzido a competição para os negócios, mas o subseqüente retorno de Sauron para Mordor em 2951 e a eventual migração para oeste de vários Anões deve ter prejudicado consideravelmente a economia dos mesmos. Quem eram esses Anões, viajando a partir das tumultuadas terras orientais? Não parece tratarem-se de Barbas-longas, que tinham um reino forte em Erebor e provavelmente mantinham as Colinas de Ferro sob controle. Parece mais provável que fossem das casas orientais, cujas terras podem ter sido devastadas ou ameaçadas por grandes guerras na preparação para os ataques de Sauron no oeste. Dessa forma, no final da Terceira Era, pode ter havido um fluxo de Anões orientais para ajudar a rejuvenescer as Ered Luin.

A vitória sobre Sauron, poucos anos depois, levou à restauração do Reino de Arnor e à expansão do Condado. Os Anões de Ered Luin devem ter sido finalmente beneficiados pelo fluxo de colonos vindos do sul, por meio da extensão da autoridade de Rohan sobre a Terra Parda e do crescimento do Condado. Pode ser que, quando Durin VII finalmente restabeleceu Khazad-dûm no início da Quarta Era, os Anões de Ered Luin também experimentaram uma forma de renascimento, seu último desabrochar antes da final e triste diminuição e desaparecimento de sua raça.

Quem tem medo dos puristas maus?

Já fui ver “A Sociedade do Anel” e parece-me que as pessoas devem ir ver o filme para formarem a sua própria opinião. Puristas Tolkianos ficarão provavelmente ofendidos. Eu acho que eles se meteram a si próprios nesse buraco. Não há salvação no filme para os fans intransigentes que temeram a saída do filme e que gostariam que este nunca tivesse sido produzido. No entanto, há puristas Tolkianos que, tal como eu, farão o seu melhor para separar o que sentem pela obra de Tolkien, das suas reacções ao trabalho de Peter Jackson. Tenho de dizer que não é fácil ver o filme sem pensar “Ah, aquilo era diferente no livro”. Mas de cada vez que me sinto reagir dessa maneira, relembro-me que vim ver o filme e não condená-lo ou criticá-lo. Criticar cada pequena coisa não vai fazer bem a ninguém neste momento. O filme é um facto consumado e quer queiramos quer não temos de viver com ele e continuar com as nossas vidas. De qualquer maneira, o filme de As Duas Torres vai sair daqui a um ano e os angustiosos vão precisar de um pouco de tempo antes de se começarem a preparar para lastimar a chegada desse filme.
 

Não posso dizer que este tenha sido o melhor filme do ano para mim. Certamente também não foi o pior. Acho que se fizesse uma lista de todas as falhas do filme, o balanço inclinar-se-ia a favor do final cheio de acção do filme, isto é, acho que o que é bom ultrapassa muito o que é mau na escala da Justiça purista. Peter Jackson gosta de contar uma história muito visível, e ao fazê-lo tem tendência para exagerar certos elementos. Ele traz ao écran uma intensidade que não existe nas paletas de outros realizadores. Claro que cada realizador pinta um quadro diferente. E a única coisa que nós podemos fazer é interpretar esta interpretação de acordo com os nossos desejos e experiências pessoais.

Ainda assim, o que tornou o filme mais memorável para mim foi o facto de ter partilhado a noite com mais de 1000 pessoas em dois auditórios (e tive mesmo a oportunidade de comunicar com pessoas em ambas as salas). A audiência com quem vi o filme esteve muito sossegada durante a maior parte da história. Acho que as pessoas tinham medo de falar para não perderem nenhum pormenor. E até nem é que se possa fechar os olhos e perder o fio à história. O filme era muito previsível nalgumas partes. Laboriosamente previsível. Mas a história desenvolve-se tão rapidamente que quando o genérico final apareceu acho que toda a gente olhou para o relógio e disse “Não podem ter passado três horas!”

Cinematicamente, se há uma falha no filme tem a ver com o ritmo. As cenas são tão rápidas e os personagens varrem a paisagem tão rapidamente que quando param numa cena por mais de um minuto a mudança de ritmo parece um pouco discordante. Mas, a não ser que fizessem seis filmes de três horas cada ou cortassem ainda mais da história, não vejo como fazer muito mais com a matéria prima.

Eu estava suficientemente confortável com a viagem dos ‘Portadores do anel’ (Ringbearers) que parei e procurei nas paredes de Moria alguns daqueles detalhes que nós somos supostos saber que estão lá, mas não conseguimos ver. Vi alguma coisa interessante? Bem, havia muitas runas esculpidas nas paredes. Por quem? Não faço ideia. A camara não as focou durante tempo suficiente para eu as ver bem.

Tem sido dito que Peter Jackson trata a câmara como uma pessoa diferente em cada cena. Esta é a sua maneira de dirigir a atenção das pessoas para a história. Usa ângulos diferentes, acção-inversa, truques digitais e vistas panorâmicas da paisagem, concentrando-se na acção quando as coisas aquecem. Se alguém receia que o filme se afaste do livro de Tolkien, então podem ficar tranquilos que isso acontece. Se esperam que o filme dê vida à Terra-média, então podem ficar tranquilos que isso também acontece. É a Terra-média de Tolkien? Claro que não. É a de Peter Jackson. Mas é uma visão magnifíca e que vale bem a pena absorver pelo menos uma ou duas vezes.

Devo dizer que gostei do trabalho dos actores. Algum do diálogo não estava à sua altura. Tinha a impressão de que eles queriam dizer mais e não podiam – tinham que continuar com a cena e era mesmo assim que tinha de ser. Por isso a sua interpretação tornava-se mais intensa.

Sou um grande fan da Liv Tyler o que faz com que a minha opinião não seja aqui ‘imparcial’. No entanto, acho que ela se saiu melhor do que muita gente esperava ou temia. Houve alguns risos quando apareceram as legendas (das falas em élvico). Estavam colocadas tão em baixo no écran que a metade inferior das palavras desapareceu. Mas eu gostei de ver Liv e vai ser bom vê-la mais nestes filmes. Arwen não tem de ser uma ‘fada-do-lar imaculada’. Quem insiste que ela só pode ser isso claramente não presta atenção ao que Tolkien escreveu sobre ela e sobre a sua família.

Ian Holm é um Bilbo Bolseiro perfeito. É um actor consagrado e compreendeu perfeitamente a sua personagem. Mas o que me impressionou mais sobre Bilbo foi o facto de que quase todo “O Hobbit” foi sumariado em várias cenas ao longo do filme. Não quero dizer que representaram a história. Só que a maior parte dos acontecimentos da história anterior foi mencionada ou referida. Gostei disso. O Bilbo de Ian Holm é encantador, confiante, confortável e completamente credível. Não consigo pensar em nada que quizesse feito de maneira diferente.

No entanto, a melhor actuação é a de Ian McKellen. Não sei se ele tem suficiente material de qualidade Oscariana no filme para ganhar mesmo um Oscar, mas ele devia ter uma nomeação. Não é porque ele é Gandalf, ou porque alguém pensa que ele devia ser Gandalf. É porque quando McKellen diz certas falas, ele fá-las soar duma forma tão realista e convincente. Não interessa se a personagem que as fala é Gandalf. O que interessa é que elas não parecem ser ditas por um qualquer personagem de filme.

Gandalf absorveu algumas falas de outras personagens devido à compressão. Mas são frases muitas vezes extraídas directamente de Tolkien. O que me surpreendeu, no entanto, foi como fiquei satisfeito com a inclusão fora de contexto de várias dessas falas. E quero dizer que algum do diálogo foi tão mudado do sítio em que aparece na história literária que qualquer purista o nota imediatamente. Mas não acho que esteja fora do lugar. Uma das alterações mais bem sucedidas é na cena em que Gandalf diz a Frodo a famosa frase sobre não dever ser tão rápido a dar um julgamento de morte. É uma cena incr&i
acute;vel. Toda a emoção e rectidão moral que eu imaginei em Gandalf quando ele admoesta Frodo sobre o seu julgamento de Gollum no livro está mesmo ali expressa no écran. E não é porque Peter Jackson e os outros guionistas encontrassem uma maneira inteligente de usar o texto num sítio diferente do da história literária. É porque Ian McKellen compreende a monumentalidade do que está a dizer. Ele sente-se clara e obviamente confortável a dizê-lo.

Na minha experiência, um dos comentários mais frequentes nestes últimos quatro anos era sobre a necessária compressão da história do livro. Eu e muitos outros puristas perguntávamo-nos se o intervalo de 17 anos entre a partida de Bilbo do Shire e a conversa fatídica de Frodo com Gandalf seria comprimido para poucos meses. Para ser sincero, não sei dizer de verdade. A história corre tão depressa que parece que não se passou tempo nenhum, mas quando se vê Bilbo em Valfenda eu acho que parece que se passaram 17 anos. Só não apareceu nenhum título no écran a dizer “17 anos depois”. Peter poderá ter pensado ou não em incluir nalgum momento um título “Alguns meses depois”, mas no fim preferiu deixar a audiência decidir quanto tempo se passou. Contudo, quando Frodo acorda em Valfenda Gandalf diz-lhe que é 24 de Outubro. Verifiquem no livro, puristas. Essa é a data em que Frodo acorda em Valfenda.

Por outro lado, muito da história é alterado e não vejo razão porquê. De facto, certos aspectos específicos da personagem de Sauron foram alterados radicalmente e não percebo porquê. É bom? Não faço ideia. Não direi que seja mau. Mas é um abandono de Tolkien. No entanto, tentaram deixar Sauron em segundo plano, como muitos fans queriam. Eu acho que o deixaram aí de mais. Bem, ia ser sempre uma daquelas coisas em que se é “preso por ter gato e preso por não ter”. O papel de Sauron no filme não determina a história e ele aparece, na minha humilde opinião, melhor do que o típico vilão tenebroso e assustador de capa e espada e feitiçaria. Contudo, perdeu-se alguma da grandiosidade dos Dunedain de Tolkien. Mas muita gente tem argumentado que se se parar e der uma lição de história e cultura de cada vez que Tolkien o faz, então o filme nunca passaria de Bree. Bombadil é forte em história, por exemplo.

Acho que não fazem justiça a Aragorn. Viggo Mortensen tem um admirável trabalho a representar este personagem, mas, que chatice, precisava de mais tempo no écran. Passolargo aparece fraco e quase vazio no princípio da história e gradualmente ganha o respeito do leitor e dos Hobbits. O filme simplesmente atira-o para a situação e, pum-pum, Passolargo é Aragorn, o herdeiro há muito tempo perdido de Isildur. Claro, a não ser que produzissem seis filmes de três horas, não tenho a certeza de que pudessem ter ilustrado muito da transição de Passolargo para Aragorn sem cortar o resto do filme. Mas, de novo, os guionistas foram inteligentes e alteraram a história de Passolargo, adiando alguns dos seus pontos chave para o segundo ou talvez para o terceiro filme. Puristas intransigentes vão pôr-se aos berros mas, se o resto das pessoas os ignorar, tornar-se-ão rapidamente irrelevantes.

Por outro lado, dão-nos um espectáculo quase completo dos Cavaleiros Negros que Tolkien mostra no livro. Não me lembro de nada de errado com estas cenas e não vale a pena ser picuínhas com o design dos fatos, dado que cada pessoa os conceberia de maneira diferente. Mas a ênfase colocada nos Cavaleiros Negros na primeira parte do filme e o tratamento leve de Aragorn na segunda parte deixam-me com uma sensação de algum desequilíbrio.

A Sociedade do Anel conta duas histórias. Uma é a de um Hobbit chamado Frodo que é apanhado nas malhas de uma responsabilidade assustadora. A outra história é a de um homem misterioso que se oferece para ajudar Frodo e que faz a sua própria travessia incerta enquanto Frodo caminha cada vez mais próximo de Mordor. O Aragorn de Tolkien não precisa de ser enfiado à força em nenhuma comitiva. Ele tem o seu lugar próprio e definido no mundo e ao leitor só são cuidadosamente dadas pistas suficientes sobre o lugar de Aragorn para perceber que, quando Gandalf se auto-sacrifica, Aragorn é capaz de assumir a liderança da comitiva, mas que essa liderança não dá garantias. Notei a falta dessa dúvida. Viggo é bem capaz de representar um Aragorn inseguro, e fá-lo de facto, mas a incerteza foi transferida para uma parte diferente da história. Fiquei surpreendido com isso. Para ser sincero, tive algumas surpresas no filme. E a única maneira de criar essas surpresas com sucesso era alterando a história. Pode-se apreciar o momento em que se reconhece que um personagem diz uma fala originária de outra parte da história, ou pode-se lamentar as alterações ao original de Tolkien. Dizer se as trocas do diálogo foram necessárias dum ponto de vista cinemático ou responsáveis é uma discussão que pode esperar.

A Sociedade do Anel cria o ambiente para o próximo filme da maneira clássica e habitual: levanta questões sobre o que irá acontecer a algumas das personagens. Como o Aragorn de Peter Jackson não segue o Aragorn de J.R.R. Tolkien à letra, a audiência fica a pensar se, e quando, as peças do puzzle de Aragorn vão encaixar no puzzle de Peter Jackson. Possivelmente, esta foi a decisão mais acertada que podiam ter tomado. Frodo é quase idêntico ao Frodo literário. Elijah Wood tem a tarefa ingrata de ir alimentando as expectativas da audiência. A única parte em que ele poderá falhar a sua missão é em representar um Frodo Hobbit de 50 anos no corpo dum jovem Hobbit. É difícil de dizer. O filme tem um ritmo tão rápido que não se pode julgar suficientemente bem a perplexidade de Frodo quando este vê as coisas irem de mal a pior para ele. Por isso não há nenhuma maneira em que o primeiro filme da trilogia possa agarrar perguntas da audiência sobre Frodo.

Orlando Bloom não é totalmente utilizado no primeiro filme, o que parece justo. A relação Legolas-Gimli não começa mesmo a funcionar até ao meio da história. Mas há um admirável momento clássico quando Legolas reage ao Gimli de John Rhys-Davies de uma tal maneira que a audiência tem de se rir, tanto em apreciação do gesto subtil, como em antecipação do que de certeza vai surgir mais tarde. Fiquei contente que não tivessem abusado de efeitos especiais para mostrar o enorme talento de Legolas com o arco e flechas. Ele é rápido, ele é mortífero e ele é credível. Não é costume ver isso num Elvo dos filmes. Pelo menos em nenhum que eu me lembre. A minha única decepção com Legolas é quando é um outro personagem que diz uma das suas falas muito importantes. Não percebo porque o fizera
m, mas isso não me estragou o filme. De facto até ajudou um pouco na construção do outro personagem. Mas não pude evitar pensar que os guionistas falharam nesse aspecto importante sobre Legolas, aspecto esse que até é referido por Tolkien numa das suas cartas.

John Rhys-Davies foi sempre um dos meus actores favoritos. É um prazer vê-lo no écran e, depois de saber as atribulações que ele sofreu durante as filmagens, só o posso respeitar ainda mais pela sua belíssima actuação. Eu não acho que na mente de Tolkien Gimli fosse um personagem tão exagerado, mas ele tem a feliz, ou infeliz, responsabilidade de explicar alguns dos antecedentes da história. Ele corresponde bem a várias das expectativas dos fans, o que irá acalmar alguns ânimos mais exaltados, acho eu, mas poderá deitar ainda mais achas na fogueira dos sacrilégios dos puristas.

Merry e Pippin não têm papeis importantes na maior parte do filme, mas a sua cena final é muito comovedora. Dominic Monaghan and Billy Boyd trabalham bem juntos e estou ansioso de ver a sua história em As Duas Torres.

O Boromir de Sean Bean, tal como o Aragorn de Viggo, fica amputado devido à compressão. Eu acho que neste caso a equipa de guionistas percebeu muito bem que tinham de encontrar um compromisso e, para compensar, mudaram de novo a história para darem a Sean uma oportunidade de expressar as emoções e prioridades contraditórias de Boromir numa cena muito bem escrita. De facto, em duas cenas muito bem escritas. Mas, mesmo assim, ele precisava de ainda mais tempo no écran para criar Boromir da forma que seria de exigir. No entanto, a audiência ficou verdadeiramente comovida quando chegou o momento de glória de Boromir. A cena podia ser mais fiel ao livro, e em minha opinião seria então mais forte, mas Sean and Viggo pegaram no material que tinham e ‘deitaram a casa abaixo’. Não é habitual ver um cinema cheio de gente a aplaudir tal e qual como quando a equipa da casa marca um golo decisivo. De facto, nunca tinha visto uma reacção deste tipo num cinema. As pessoas gritavam, batiam palmas, aplaudiam. Peter, uma cena completamente conseguida. E mesmo que não contassem com as actuações fantásticas de Ian McKellen e Ian Holm para criar o que é basicamente a espinha dorsal do filme, eu acho que a maior parte do público vai sair do cinema com a cena entre Viggo e Sean tão bem marcada na memória que se vai sentir muito satisfeito.

Finalmente, tenho que renovar a minha queixa sobre o fumar. É completamente desnecessário. Não há justificação para pôr personagens a fumar nos filmes. Tolkien não sabia que os efeitos de fumar eram tão mortais e perigosos. Não é justo mostrar o uso do tabaco como um passatempo inofensivo à sua audiência e assim pôr em perigo vidas futuras. O filme é agradável, mas se o uso do tabaco foi incluído para satisfazer os desejos puristas das pessoas, isso não era necessário. Não acrescenta nada à história e a caracterização das personagens não depende disso. As pessoas morrem por usar produtos de tabaco. As pessoas sofrem danos físicos sérios por usar produtos de tabaco. Hollywood precisa de entender que tem uma responsabilidade para com as suas audiências para não glorificar comportamentos que se sabe serem fatais. Não vimos nenhuns Hobbits a beber veneno de ratos ou a porem-se à frente de trens de mercadorias. Nenhuns Hobbits apontaram armas às suas cabeças ou se fizeram ir pelos ares. Não precisamos de ver Hobbits, Feiticeiros ou Batedores (Rangers) a fumar. Sei que vou ser atacado e criticado por tomar esta posição forte. Mas eu sou apenas alguém que acha que a vida humana é mais importante do que uma tentativa pouco ajuízada de ser fiel a um livro quando se faz um filme.

Assim, espero que as pessoas apreciem o filme. Estou ansioso por o ir ver outra vez. Mas fico triste com o facto de terem tomado uma decisão tão irresponsável num assunto muitíssimo importante. Para o filme em geral, Peter, dou um “Bem feito”. Pelo tabaco, dou um “uma lástima”. Câncro não é para rir. Espero que essa doença nunca lhes faça perder um familiar. Eu já perdi de mais.

Tradução de Isabel Castro

Os Mistérios da Terra-média

Parte do prazer de ler sobre a Terra-média está em descobrir mais a respeito de temas obscuros após estes aparecerem em algum lugar "canônico". Pegue os Druedain; Woses, como são chamados em "O Senhor dos Anéis". Quando você lê o livro pela primeira vez, vê que eles mal aparecem e conduzem os Rohirrim ao redor de um exército de Orcs e Orientais.

 

Eles têm alguma importância além desta no decorrer da história? Sim e não. Eles estão lá para dar aos Rohirrim uma passagem viável ao redor do bloqueio da tropa, e a finalidade deste bloqueio é mostrar ao leitor que Sauron é tão poderoso que pode espalhar exércitos por todo o mapa. Mas os Druedain também servem para lembrar ao leitor que a Terra-média está cheia de criaturas estranhas e misteriosas de todos os tipos.

Talvez Tolkien tenha pensado "Aqui será bom acrescentar outra raça mágica de criaturas" quando ele esboçou aquela parte da história, mas evidentemente ele não parou por aí. Muitos anos depois ele escreveu um longo ensaio o qual falava muito da história sobre os Anões e os Homens, mas também falava dos Druedain, e explicava quem eles eram, de onde eles vieram, e como eles acabaram na Floresta Druedain. A escolha do nome "Druadan" pode ter sido conveniente, ou pode ter sido intencional.

Tolkien de fato começou chamando o povo de Ghan-buri-Ghan de "homens escuros de Eilenach" e a floresta era "Floresta Eilenach". Mas então eles se tornaram os Druedain da Floresta Druadan, e no publicado Senhor dos Anéis, eles se tornaram os Woses, mas a floresta permaneceu Floresta Druadan. A associação da palavra "adan" com uma raça não-edain é muito peculiar, e confundiu muitas pessoas. Mas em 1980, Christopher Tolkien publicou muito material dos Druedain em "Contos Inacabados" e o mistério foi esclarecido.

Esta foi a quarta tribo associada aos Edain, não numerada entre as "casas" dos Edain, mas, apesar de tudo, foi dado a eles acesso a Númenor como uma recompensa por seus serviços e sofrimento em Beleriand. E na prática, não há menção deles em "O Silmarillion", porque foi somente em 1960 que Tolkien concluiu as origens e destino dos Druedain, muito depois do material do Silmarillion ter sido feito até o ponto onde Christopher o encontrou após a morte do pai.

Por sinal, Tolkien gostava da palavra "wose". Ele a usava como um dos apelidos de Túrin [Saeros o chamava de woodwose em "Narn i Hîn Húrin"] e "woodwose" é a forma moderna do Anglo-Saxão "wusu-wasa", "homens selvagens das florestas" [um dos apelidos de Túrin]. "Woses" é então destinado a ser uma tradução da atual palavra Rohirrica "Rogin" [sing. Rog], com o mesmo significado, "homens selvagens das florestas". Os Rohirrim ignoravam [assim como Tolkien, quando escreveu o Senhor dos Anéis] a antiga história dos Woses.

Há muitos mistérios confinados nas florestas da Terra-média. Tolkien amava as árvores, e ele as honrou de uma forma especial. Ele sempre achou que elas tinham recebido um amargo quinhão em compartilhar o mundo com os homens. Tolkien baseou-se na "vinda da "Grande Floresta Birnam para a alta Colina Dunsinane"", em Shakespeare, e quis que as árvores realmente marchassem para a guerra, realizando esse desejo através dos Ents.

Alguém deve perguntar como os Ents vieram a habitar a Floresta de Fangorn. Tolkien não diz claramente. O próprio Fangorn [Barbárvore] diz que vagou em Beleriand por terras há muito não molestadas por Morgoth, mesmo durante a guerra contra os elfos. Evidentemente, se os Ents sobreviveram à destruição de Beleriand no fim da Primeira Era, eles devem ter rumado para o leste, para Eriador, onde havia em tempos idos uma antiga floresta sobre a qual Elrond disse: "foi-se o tempo em que um esquilo podia ir de árvore em árvore do que é agora o Condado até a Terra Parda, a oeste de Isengard. Por aquelas terras eu viajei uma vez, e muitas coisas selvagens e estranhas eu conheci."

Deixando a viagem de Elrond à parte, alguém deve se perguntar como os esquilos [e os Ents] cruzaram o poderoso rio Gwathló. Ele era amplo e bastante profundo, pois os navios vindos do Oceano podiam navegar longe para o interior, até Tharbad, onde, possivelmente, as águas se tornavam suficientemente rasas para que os Ents pudessem atravessar.

Mas por que eles fariam isso? Quando eles deixaram as florestas do norte? Aparentemente, o eles fizeram antes da Guerra entre os Elfos e Sauron, e em outro texto Tolkien diz que o próprio Fangorn encontrou o Rei de Lothlórien nos primeiros anos da Segunda Era e combinaram as fronteiras de seus reinos. A migração dos elfos de Beleriand para o leste na Segunda Era levou os Ents para o leste também? Ou os ents em alguma época se tornaram tão numerosos que tinham se espalhado pelas terras? Há muitas coisas que nunca saberemos da história dos Ents, infelizmente.

Outras criaturas das florestas que têm um passado misterioso são as aranhas gigantes de Mirkwood. Onde e quando estas criaturas surgiram? Dizem ser descendentes de Ungoliant, e Mirkwood era a Grande Floresta Verde até Sauron despertar na Terceira Era e se estabelecer em Dol Guldur. Ele, sem dúvida induziu algumas da prole de Ungoliant que habitavam o norte da floresta, mas como elas chegaram lá? Não parece provável que Isildur desejasse construir uma cidade próxima a aranhas monstruosas que se alimentavam de Homens e Elfos.

Uma coisa que sempre me incomodou é quem eram aqueles misteriosos homens que comercializavam com a Cidade do Lago em "O Hobbit". Eles viviam ao sul do Lago Comprido e eram aparentados aos Homens do Norte, mas onde eles viviam? A Velha Estrada da Floresta, de acordo com o livro, "era coberta de vegetação e não utilizada no final, ao leste, e conduzia a pântanos intransponíveis onde os caminhos estavam há muito perdidos." A estrada foi originalmente feita pelos Anões. Eles usavam-na para alcançar o Celduin e, de lá, passavam para o nordeste de alguma forma até as Colinas de Ferro.

Se houvessem homens ainda vivendo ao longo do Celduin [o Rio Corrente, que vem de Erebor], por que eles não se estabeleceram no ponto onde a Velha Estrada da Floresta encontrava o rio? Ou talvez eles tivessem vivido lá por algum tempo, mas tivessem deixado o local.

Então há dúvida do por que Gandalf e Beorn decidiram levar Bilbo de volta pela borda norte de Mirkwood quando retornaram para o oeste. Havia, de fato, homens vivendo naquelas regiões em tempos antigos, e provavelmente homens ainda habitavam lá no fim da Terceira Era, mas não há indicação no mapa de "O Hobbit" ou no texto. Parece uma decisão muito e
stranha, visto que o Rei Elfo teria assegurado a sua passagem a salvo através da floresta.

Voltando ao sul, nós podemos olhar para Pelargir e perguntar que fim levou a frota de Gondor. A incursão de Aragorn a Umbar foi a última vez que navios gondorianos se moveram contra o inimigo na Terceira Era. No tempo da Guerra do Anel, a ameaça de Umbar e outros portos do sul era tão grande que Denethor desejou nove décimos das forças de Gondor nas costas, protegendo-a de ataques vindos do mar. Ele teria dispensado as frotas de Gondor após tornar-se Regente, talvez por ter sido Thorongil, seu rival, quem liderou o ataque contra a Cidade dos Corsários?

E por que ninguém tentou recolonizar Eriador depois da destruição de Angmar? A presença das Criaturas Tumulares em Tyrn Gorthad, as Colinas dos Túmulos, explica por que ninguém se estabeleceu por lá novamente. Mas e quanto às planícies ao sul de Vau Sarn que eram inabitadas? E ao redor das Colinas do Sul? O que impedia as pessoas de viverem lá? O que houve ao povo de Tharbad quando aquela foi finalmente abandonada? Eles rumaram para o norte, para o Ângulo, e se uniram aos Dúnedain que moravam lá? Pelo jeito, parece que os Dúnedain prosperaram e também muitos deles partiram para outras partes do mundo [talvez indo para o sul, até Gondor], ou muitos devem ter perecido nos ermos de Eriador.

Existem tantas perguntas sobre a Terra-média que alguém pode até descrever um "Baseado em…" durante anos, propondo teorias bizarras numa tentativa de resolver tais mistérios. Estas questões sem resposta nos fazem perceber a "profundidade" com que nós falamos da Terra-média. Elas são como um vislumbre de montanhas num horizonte distante, do qual nunca nos aproximaremos. As respostas estão lá, além de nosso alcance, para sempre perdidas.

Tradução de Fábio Bettega

A ponta do iceberg: Bem vindo í  Terra-Média, peregrino!

Em "Rios e Faróis das Colinas de Gondor", J.R.R. Tolkien
adicionou novos elementos para a complexa pseudo-história da
Terra-Média. Ele inventou histórias para as palavras, explicando o
porquê de certas regiões de Gondor terem os nomes que têm.

 

 

 
Arnach é dito ser de origem pré-numenoreana nos
apêndices do Senhor dos Anéis (SdA), e essa hipótese é repetida no
"Rios e Vales de Gondor". Mas uma história conhecida é atribuída ao
nome Arnen, assim como uma explicação intuitiva é oferecida logo após,
como correção. Arnen, ao que parece, foi o nome que Isildur deu à todas
as terras que tomou como suas (Ithilien). Mas eventualmente ficou
associado apenas com os vales, propriamente chamados de Emyn Arnen, que
o autor anônimo de um documento gondoriano chamou de Ondonore
Nomesseron Minaþurie (o símbolo þ é chamado de "thorn" e é associado
com um som similar ao "th-" em "thanks").


O
estudo "The Ondonore Nomesseron Minaþurie" é traduzido como "Estudo
sobre os Nomes dos Locais de Gondor" e é atribuído ao período em que
Meneldil reinou, já que "nenhum evento depois desse foi mencionado".
O documento é citado apenas brevemente (e pode não existir, embora o
texto "Rios e Vales" — publicado no Contos Inacabados e Vinyar Tengwar
nº 42 — diz nada sobre Tolkien ter escrito um documento).


O nome Arnen, como argumenta esse escolástico gondoriano, deve ter sido
uma errônea composição Quenya-Sindarin feita pelos numenoreanos que
exploraram e colonizaram a região (eram soldados, colonizadores e
marinheiros — com certeza, a linha de frente da sociedade
numenoreana). Apesar de derivar principalmente dos numenoreanos Fiéis
do oeste de Numenor, onde muitos Beorians fluentes em Sindarin tinham
feito moradia, essas pessoas tinham pouco ou nenhum conhecimento de
Sindarin e Quenya. Ainda, o autor deduz, Arnen provavelmente
significava originalmente "perto da água" (do Anduin), e Emyn Arnen
simplesmente significava "os vales nascendo em Arnen"


Pelos numenoreanos Fiéis, num aparente ato de rebelião contra os Reis
falantes de Adunaico, terem colocado nomes élficos nos marcos do norte
da Terra-Média, os novos regentes (a Casa de Elendil) aceitaram os
nomes incorretos que "se tornaram comuns". Isto é, os reis e senhores
de tradição aceitaram qualquer nome que eram usados em larga escala no
reino de Gondor.


A Casa de Elendil trouxe
ordem ao caos linguístico que reinou na Terra-Média. Na região de
Gondor, por exemplo, os Numenoreanos acharam "muitos povos
misturados, e numerosas ilhas de povos isolados, que dominam velhas
construções e constroem refúgios montanhosos contra invasores"
. Os "muitos povos misturados",
infelizmente, são mencionados numa nota interminada sobre o nome Bel-,
que coloca Círdan entre os Noldor. Christopher especula que seu pai
percebeu a gafe e decidiu esquecer a passagem inteira. É esta nota que
oferece a história alternativa pro porto de Edhellond, onde diz que
este foi fundado por Sindar ressentido com os Noldor.


Apesar de tudo, ignorando a clara indicação de que Tolkien abandonou a
nota etimológica em Bel-, parece claro que ele estava tentando
permanecer fiel à informação que ele proveu nos apêndices do SdA.
Também parece que ele estava tentando desenhar duas influências
históricas como modelos para o começo de Gondor. Um desses modelos era
pós-romano, pré-Bretanha medieval (por volta do meio do século V).
Durante esse tempo toda a área estava em desenvolvimento, e as línguas
migravam livremente entre os povos.


Alguns
estudiosos acreditavam, mesmo durante a época de Tolkien, que os
Romano-Celtas foram apenas parcialmente doutrinados na cultura Romana
depois de 400 anos, possuído as baixadas e residiram nas costas da
Bretanha. Mais primitivos ou menos romanizados, os celtas moraram em
País de Gales, Cornwall e Escócia. E, claro, ainda haviam celtas na
Irlanda cujos contatos com Roma eram poucos (ao menos, na época de
Tolkien, havia pouca evidência da intrusão romana na Irlanda). Nestes
vários grupos de Celtas (sendo que alguns chegaram pouco antes que os
romanos, e absorveram ou expulsaram povos ainda mais antigos) estavam
mercenários alemães da Saxônia e Dinamarca, os seguidores de Hengist e
Horsa.


O latim estava, então,
misturando-se com os dialetos celtas e germânicos, e era eventualmente
substituído pelos invasores germânicos, apesar de sobreviver em nomes
de lugares (como Londres, de Londinium, Colechester, etc.) que os
germânicos adotaram. Os germânicos aceitavam os nomes que estavam em
uso corrente para regiões e cidades, mas deram seus próprios nomes para
suas cidades, fortalezas, reinos e marcos.


Um desenvolvimento paralelo, do qual Tolkien estava plenamente atento,
ocorreu na América do Norte entre os séculos XVII e XVIII. À medida que
os colonizadores ingleses se espalhavam pela costa norte-americana,
eles se misturaram com os povos nativo-americanos, espanhóis, franceses
e alemães. Os exploradores ingleses , trouxeram consigo as fundações da
língua e cultura inglesas, mas eles não eram pouco mais que
foras-da-lei e rebeldes fugindo da opressão de sua terra natal,
particularmente pela opressão religiosa. Os puritanos que colonizaram a
Nova Inglaterra de certa forma lembram os Fiéis numenoreanos, que
evitavam as crenças adotadas pelos seus reis.


A América do Norte, como a Inglaterra no começo, e como Gondor, está
recheada de nomes de lugares de várias línguas. A mais antiga colônia
européia na costa leste, por exemplo, é St. Augustine (São Agostinho),
fundado pelos franceses, roubado pelos espanhóis, e ultimamente cedido
aos EUA como parte da Florida. Mas há nomes de lugares de línguas
nativo-americanas, e construtos híbridos, assim como feitos do latim e
do grego (como Augusta de Filadélfia, respectivamente).


Quando a Bretanha virou Inglaterra, a antiga cultura romana foi jogada
de lado ou abandonada, e os invasores germânicos tinham que construir
uma herança cultural totalmente nova em termos de literatura, cultura e
arquitetura. Enquanto as revoltadas colônias americanas formavam sua
própria nação, eles batalhavam para reter sua identidade inglesa. Por
décadas as famílias ricas mandavam seus filhos para estudarem em
universidades inglesas. Eles esperavam a última moda sair da Inglaterra
e da França. O novo EUA, como o novo Gondor, teve que começar sua nova
sociedade quase do nada.


A América do
Norte foi abençoada com uma leva de jovens filhos e filhas que, saindo
das altas classes mercantis inglesas, trouxeram um riquezas,
conhecimento e determinação para estabelecer suas famílias no Novo
Mundo, nas colônias. Eles construíram uma fundação educacional,
literária e industrial onde a cultura norte-americana foi aparecendo
geração após geração (influenciada por imigrantes de todo o mundo).


No começo, Arnor e Gondor foram cortados de Númenor, assim como a
Inglaterra cortou os EUA. Elendil e seu povo tiveram que construir sua
civilização com menos recursos que os EUA possuíam. Os nove barcos dos
Fiéis que sobreviveram à Queda de Númenor devem ter provido para as
regiões fronteiras de Arnor e Gondor com uma pequena mas
auto-sustentável classe intelectual. O "Rios e Vales" diz que os
intelectuais – pessoas estudadas que entendiam Quenya e Sindarin -
vieram por último. É então razoável dizer que a chegada de Elendil na
Terra-Média inferiu uma revolução cultural que mudou para sempre o mapa
socio-tecnológico do mundo do Norte.


O
significado da chegada tardia da classe intelectual não pode ser
enfatizada. Tudo pode ter mudado. Onde previamente os homens das
fronteiras sobreviviam parcamente, possivelmente juntando-se com os
clãs nativos de Gwathuirim e outros povos que habitavam o Ered Nimrais,
Elendil e seus filhos trouxeram um grupo militar de puristas
numenoreanos para as praias e decidiu reconstruir Númenor à sua imagem.
O "Rios e Vales" diz que eles retiveram algumas das tradições botânicas
numenoreanas (por falta de uma frase melhor).


Discutindo o significado de Arnach e Lossarnach, Tolkien decidiu que
loss- referia-se às flores das árvores frutíferas da região, plantadas
nos pomares pelos numenoreanos. Esses pomares ofereciam frutas frescas
para Minas Tirith mesmo durante a Guerra do Anel. Eram importantes para
Gondor como as oliveiras para os gregos. As flores de Lossarnach eram
tão variadas e belas que o povo de Minas Tirith/Anor faziam "expedições rumo a Lossarnach para ver as flores e árvores…"


Ioreth, a idosa senhora que trabalha nas Casas de Cura de Minas Tirith,
falou de vaguear pelas matas com suas irmãs, e ela mencionouas rosas de
Imloth Melui, que ela apreciava quando jovem. Ela era versada em velhas
rimas e conhecia os nomes comuns das plantas (pelo menos, do athelas,
que ela reconheceu como folha-do-rei). Algo da tradição fronteiriça
sobreviveu à influência civilizante do grupo de Elendil, ou a
civilização foi perdendo-se pelos anos nos altos e baixos da
civilização gondoriana.


O People of
Middle-Earth indica que Isildur e Anarion fundaram as cidades de Minas
Anor, Minas Ithil e Osgiliath. De fato, Osgliath foi a primeira cidade
que eles construíram. Eles devem ter juntado o maior número possível de
pessoas locais que encontraram e tentaram explicar-lhes como se
constrói uma cidade. Cada passageiro nos 9 barcos deveria valer seu
peso em mithril, pois seu conhecimento em como Númenor funcionava era
insuperável. Os numenoreanos nativos deveriam ser para seus primos da
Terra-Média como Noldor recém-chegados de Aman se hospedando em meio
aos Nandor.


Acerca dos povos da
Terra-Média, o "Rios e Vales" também contém uma passagem – cancelada
por Tolkien – que discute a prática de construir templos, que os
numenoreanos não seguiam por ser contra a doutrina de Sauron. Nas
Sendas dos Mortos há um templo ancião, que o malfadado Baldor tentou
invadir. Ele foi atacado por trás (provavelmente por Gwathuirim que
reverenciavam a área), seguindo-o até as Sendas dos Mortos. Leitores
tolkienianos resolveram assumir como certo a morte inexplicada de
Baldor causada pelos Mortos, mas este aparentemente não é o caso.


Este ensaios proporcionam novos vislumbres da visão de Tolkien sobre a
Terra-média. Mas também criam novas perguntas tanto quanto se esforçam
para responder questões antigas. Uma porta foi aberta mas nós não
podemos fazer mais nada além de espiar no canto, pois os tesouros que
permanecem daquela porta antes proibida são inimigináveis. Nós nunca
iremos, claro, tomá-los corretamente, pois o próprio Tolkien nunca o
teve completamente. Mas com cada revelação nós chegamos um passo mais
perto de ver o panorama se seu coração. As legiões paradas nas colinas
e os clâs movendo-se silenciosamente pelas florestas, as garotas rindo
nas campinas, os fazendeiros com seus pomares – mesmo os velhos
marinheiros consertando seuas redes e relembrando como foram para o mar
pela primeira vez – tudo se combina para nos mostrar um mundo repleto
de maravilhas e prazeres da juventude do homem.


[Tradução de Aarakocra]

Balrogs Têm Asas? Balrogs Voam?

Nenhuma questão parece incitar maior medo nos fã-clubes on-line de Tolkien do que estas duas, porque o debate sobre as Grandes Asas de Balrog começou inocentemente no final de 1997 e tem se enfurecido desde então, cada vez que alguém descobre um novo grupo de discussões, ou emociona-se, toma coragem e faz a pergunta de novo e de novo. Porque tão grande medo? Porque algumas pessoas sempre cedem e mudam de idéia. E estes que mudam de idéia o fazem mais de uma vez. O debate sobre Asas de Balrogs têm levado a uma grande quantidade de xingamentos e difamações. Tudo isso torna-se muito infantil rapidamente.

 

 

E, desafortunadamente, esforços recentes de colocar o debate de uma forma "justa" e não-crítica têm tido falhas espetaculares porque as partes não apresentam todos os fatos. É difícil condensar uma discussão que ruge por duas ou três semanas antes de morrer em um sumário conciso. É difícil estar certo de quais pontos estão corretos e quais estão descartados. O debate da Grande Metáfora e Similaridades surgiu do debate das Grandes Asas de Balrog, e se nada providenciar mais evidência as pessoas não poderão concordar em nada. Muitos dos que permanecem firmemente juntos no assunto das asas caem em disputa sobre o que constitui metáfora e similaridade, e como são normalmente utilizadas, e como poderiam ser utilizadas, e como J.R.R. Tolkien as utilizou.

Esta página é relacionada apenas com as questões originais. Balrogs têm asas? balrogs voam? E as respostas são…

Sim, Balrogs têm asas… de cerca de 1940 em diante.

Sim, Barlog voam… pelo menos desde 1940 em diante, talvez 1948 em diante, ou possivelmente de 1952 ou perto disso em diante.

As Origens dos Balrogs

Tolkien usou a palavra "Balrog" para descrever um terrível tipo de guerreiro que ele inventou para o THE BOOK OF LOST TALES, a primeira história que ele inventou, em 1916/1917. Esta era a "The Fall of Gondolin". Ali existem centanas ou mesmo milahres deles. Em algumas descrições de batalhas Tolkien descreve cerca de 1.000 balrogs cavalgando através do campo [eles eram uma força de cavalaria].

THE BOOK OF LOST TALES foi uma tentativa de Tolkien de criar uma mitologia para a Inglaterra, e ele abandonou o projeto em 1925, que foi aproximadamente a data em que ele decidiu criar uma mitologia completamente nova que reusava temas e muitos personagens de THE BOOK OF LOST TALES. Então esta mitologia, que ele chamou de "Silmarillion", era uma versão bastante primitiva da coleção de textos que Christopher publicou como O SILMARILLION em 1977, mas não era diretamente relacionada.

A nova mitologia "Silmarillion" manteve os Balrogs, e nos anos de 1930 Tolkien a reescreveu, produzindo a única versão completa do "Quenta Silmarillion" que ele escreveu. Christopher realmente utilizou algumas porções deste texto para o livro, e isto, desafortunadamente, contribuiu para a confusão que muitos sentem sobre os Balrogs.

Um Novo Balrog Surge

Quando Tolkien começou a trabalhar em O SENHOR DOS ANÉIS, ele realmente desejava seu "Silmarillion" publicado [agora concebido como O SILMARILLION, mas permanece conceitualmente muito pouco com o livro final]. Ele não possuía uma inclinação real para escrever nenhum outro livro sobre hobbits, mas como ele estava trabalhando em uma nova história de hobbits a idéia de casar o mundo dos hobbits com o mundo do "Silmarillion" o atraiu, ele acreditava que isso eventualmente o ajudaria a publicar O SILMARILLION.

Então Tolkien começou a criar o que nós hoje conhecemos como Terra-média [que não existia antes disso, e Tolkien apenas raramente usara o nome "Terra-média" nos anos de 1930, e ele não aparece em nenhum texto publicado de antes de 1930]. Como parte daquele mundo ele precisava de uma série de pergidos que Frodo e seus companheiros poderiam encontrar, e um desses foi colocado nas antigas minas de Moria, que O HOBBIT estabeleceu como abandonada e em posse dos Orcs.

O perigo em Moria começou como alguma outra coisa e não um Balrog [Tolkien a principio não estava certo do que o perigo seria], e quando ele decidiu que DEVERIA ser um Balrog ele tornou-se insatisfeito com a forma que ele retartou Balrogs no passado. Tolkien já avia começado o processo de transformar os balrogs em Maiar corrompidos mas esta decisão não foi posta em forma escrita até 1948. Apesar de tudo, ele mudou a descrição física do Balrog de Moria e alterou suas habilidades substancialmente daquelas determinadas para os Balrogs nas histórias antigas [e abandonadas].

Este Balrog tinha asas, e era capaz de exercer grande poder, e era quase invencível. O Balrog detectou a magia de Gandalf quando ele tentou bloquear a saída da Câmara de Mazarbul, e o próprio Balrog começou um contra-feitiço, de acordo com Gandalf. Então o mago usou uma Palavra de Comando para quebrar o teto, e o resultado foi um desmoronamento parcial que soterrou a Câmara de Mazarbul e aparentemenre o Balrog nela.

O Balrog sobreviveu ao soterramento e reuniu seu exército, que encontrou a Sociedade do Anel no Segundo Salão de Khazad-dum por uma rota alternativa. Ali o Balrog se revelou completamente, e a escuridão com que disfarçava a si mesmo se expandiu. As asas eram ou protegidas pela escuridão ou formadas pelo Balrog imediatamente ou também a escuridão [ou parte da escuridão] era transformada pelo Balrog para tomar a forma de asas [e portanto TORNAVA-SE asas].

Objeções às Asas de Balrog

Aqui é onde muitas pessoas cometem seu primeiro engano. Argumentam que uma vez que Tolkien introduz as asas com um similaridas, dizendo, "a sombra ao seu redor estendeu-se COMO duas grandes asas" ["the shadow around it reached out LIKE two vast wings"], as asas não poderiam ser reais. Mas o argumento é falho, porque Tolkien sempre introduz a escuridão [a "sombra"] com uma similaridade também: "o que era não podia ser visto: era COMO uma grande sombra, no meio da qual uma forma escura, humanóide talvez ainda maior". Se o uso de Tolkien da palavra "como" aqui significa que não existiam asas, segue-se que não existia sombra, e se não existia sombra então não seria possível que ela tenha se "estendido como duas grandes asas".

Então, para existir uma sombra devem existir asas, porque mais tarde Tolkien escreveu "adiantou-se lentamente na ponte, e repentinamente levantou-se a grande altura, e suas asas se estenderam de parede a parede". A Sociedade do Anel claramente viu as asas neste ponto, e o que Tolkien estava fazendo com as duas similaridades [e outras partes da passagem] era providenciar uma transição da imprecisão para a claridade. Nada mais.

Objeções aos Balrogs Voadores

As pessoas então perguntam "Porque o Balrog não voou sobre Gandalf se ele podia voar?"

A resposta é que o autor nunca deu indicação de que o Balrog desejava fazer nada mais do que atacar Gandalf. Ele nunca sequer tentou ir atrás de Frodo e do Anel. Muitas pessoas assumem que ele queria o Anel, mas não existe base para fazer tal suposição. A indicação mais próxima que nós temos de que outra coisa qualquer além de Sauron e Saruman estarem ativamente perseguindo o Anel é quando ser na Água, ante a porta de Moria, pega Frodo. Mas não existe uma conexão óbvia entre o ser e o Balrog.

E se o Balrog PUDESSE ter voado com aquelas grandes asas, como ele o faria dentro do Segundo Salão de Khazad-dum, de qualquer forma? Existiam duas colunas de GRANDES pilares esculpidos, indo do teto ao chão, circundando o centro do salão. O Balrog não poder ter voado em direção à Sociedade do Anel com as asas plenamente extendidas.

Então as pessoas perguntam "Bem, porque ele não tentou se salvar quando caiu no abismo?"

A resposta começa aqui com outra questão: "Porque devemos assumir que ele desejaria salvar a si mesmo?" O Balrog acabara de sair debaixo de toneladas de pedra, que poderiam ter matado Gandalf, Aragorn, Boromir e todo o resto da Sociedade. O que, exatamente, ele deveria temer? Porque ele deveria tentar "salvar" a si mesmo quando o autor tinha acabado de mostrar que os Balrogs não morrem tão facilmente?

Além disso, a primeira coisa que o Balrog faz e atacar Gandalf e puxá-lo pra baixo. Claramente o principal pensamento era continua a atacar Gandalf. Mesmo que existisse espaço no abismo para o Balrog voar para fora, porque ele deveria puxar Gandalf para baixo com ele se tinha a intenção de sair do abismo, de qualquer forma? Porque não apenas "salvar" a si mesmo e deixá-lo cair com a ponte? Porqie Tolkien não escreveu desta forma. Obviamente ele anteviu o Balrog como uma criatura ativa e não reativa.

A descrição de Gandalf da batalha com o Balrog deixa claro que eles lutaram durante a queda, e que eles caíram por um longo tempo. Então o balrogs estava, em última instância, enganjado com Gandalf e mais provavelmente ativamente tentando queimá-lo até a morte [Gandalf diz que ele foi queimado].

E então temos de nos virar para a questão de porque tomou tanto tempo para alcançarem a água. Algumas pessoas argumentaram que era uma LONGO caminho até embaixo. Talvez, mas se Tolkien conhecia qualquer coisas sobre a velocidade de corpos caindo [e ele provavelmente conhecia], então ele entenderia que as palavras de Gandalf não fariam sentido se o mago e o Balrog realmente caíssem à velocidade normal.

Então parece aparente que a taxa de queda foi diminuída, provavelmente pelo Balrog, mas claramente estes dois eram seres de grande poder que, se desejassem, poderiam se movem através do universo à vontade. Suas existência e habilidades de afetar o universo não dependiam de seus corpos físicos [embora deva ser notado que mais tarde Tolkien decidiu que muitos dos Maiar corrompidos tornaram-se presos a seus corpos devido à atuação em atividades biológicas].

Portanto, existe pouca razão em perguntar porque o balrog não voou para fora do abismo. Ele obviamente tinha outras coisas em mente, e a batalha que Gandalf descreve não é o tipo de batalha que qualquer criatura de carne e sangue pudesse esperar sobreviver [e ele pessoalmente não era uma criatura normal de carne e sangue]. A batalha durou 11 dias, e culminou com o chouqe de poderes no cume da montanha.

Um Balrog Voador Poderia Salvar a Si Mesmo?

Então mais uma objeção é levantada: "porque o Balrog não se salvou quando caiu da montanha?" A resposta é que Balrogs mortos ou morrendo, assim como dragões mortos ou morrendo, não voam. Quando Earendil lançou Ancalagon do céu o dragão já estava acabado e destruiu as Thangorodrim em sua ruína assim como o Balrog de Moria destruiu o lado da montanha em sua ruína. E quando a flecha de Bard atingiu o peito de Smaug, o grande dragão caiu dos céus e atingiu as ruína da Cidade do Lago.

Gandalf atirou para baixo seu inimigo. Esta expressão é um dos pseudo-arcaísmos de Tolkien, e claramente se refere à vitória de Gandalf sobre o Balrog. Ele estava tão fisicamente exausto após ter sido atingido com uma espada Élfica e Relâmpagos por 11 dias ou estava morto ou em morrendo quando ele caiu da montanha. Se o balrog poudesse ter agido de forma a salvar-se de alguma forma, ele poderia no mínimo ter levado Gandalf consigo, se não até mesmo ter virado a mesa. Quantas vezes durante os 11 dias juntos tanto Gandalf quanto o Balrog QUASE mataram seus oponentes? Tolkien não diz. E;e deixa para o leitor imaginar quão terrível a batalha deve ter sido. Mas ele deixa claro que Gandalf venceu porque o Balrog não podia mais atacá-lo.

Mas os Balrogs Podiam Realmente Voar?

Então nos voltamos para a questão de se os balrogs podiam REALMENTE voar. A resposta curta para tal seria de que eles eram Maiar e os Maiar poderiam fazer o que quisessem. A resposta mais longa é que Tolkien PROPORCIONOU um exemplo de Balrogs voadores, e foi quando eles voaram sobre Hithlum para resgatar Morgoth de Ungoliant.

Aqui muitas pessoas levantam objeções dissecando uma única sentença e tomando frases específicas fora do contexto. "velocidade alada" ["winged speed"], eles dizem, pode ser utilizada como uma metáfora. Sim, pode, mas não existe indicação no texto de que Tolkien a tenha usado assim. "Levantou" ["Arose"], eles dizem, pode se referir ao ato de voar para o céu ou simplesmente ao de escalar de uma moradia subterrânea, e os Balrogs estavam de fato no subterrâneo quando ouviram o grito de Morgoth. Sim, assim é. Mas não existe indicação no texto de que era isso que Tolkien queria dizer sem também implicar que os Balrogs voassem.

"Passar sobre" ["Passed over"] não significa necessariamente voar, também, eles dizem. O cavalo de Fingolfin passou sobre ["passed over"] a planície de Aufauglith após a Dagor Bragollach, e o cavalo obviamente não estava voando. Verdade, mas "passar sobre" deve ser dado em um contexto para ter significado.

O que J.R.R. Tolkien realmente escreveu foi "rapidamente eles se levantaram, e passaram com velocidade alada sobre Hithlum, e chegaram a Lammoth como uma tempestade de fogo" ["swiftly they arose, and they passed with winged speed over Hithlum, they came to Lammoth as a tempest of fire."]. Desafortunadamente, apenas parte deste texto foi usado por Christopher Tolkien em O SILMARILLION. O que ele escreveu foi "e então rapidamente el
es se levantaram, e passaram sobre Hithlum chegaram a Lammoth como uma tempestade de fogo.
" ["and now swiftly they arose, and passing over Hithlum they came to Lammoth as a tempest of fire."]

Porque Christopher mudou o texto? Ele não fala. Pode ter sido apenas um erro de omissão. Mas não é simplesmente uma omissão, ele mudou a frase verbal completamente de "eles passaram com velocidade alada sobre Hithlum" para "passaram sobre Hithlum".

A frase chave em ambas as versões da sentença, contudo, é a metáfora "tormenta de fogo". Uma tormenta é uma tempestade. Algumas pessoas argumentaram que uma tempestade pode simplesmente se referir a um distúrbio, mas Tolkien não usa a palavra "tormenta" ["tempest"] dessa forma. Ele a usa para se referir de coisas vindas do céu. Quando Morgoth libera os dragões alados no Exército dos Valar ao final da Guerra da Fúria, eles irrompem como uma "tormenta de fogo". Claramente os dragões alados estavam voando e expelindo chamas.

A "tormenta de fogo" de Tolkien em Lammoth data dos anos 1950, APÓS Tolkien ter chegado à conclusão de que Balrogs eram Maiar caídos alados. Além disso, funciona com "rapidamente eles se levantaram, e passaram com velocidade alada sobre Hithlum" para denotar uma passagem através do céu. Existiam Elfos em Hithlum a este tempo [Sindar] que perceberam esta passagem [essa é a forma como Tolkien justificava suas histórias - ou alguém as testemunhou ou deduziu]. Hithlum não foi queimada, nem sofreu qualquer tipo de dano pela chama ou fumaça. Tolkien não diz que os Balrogs flamejantes correram através de Hithlum, e eles em seu estado de fogo não poderiam cavalgar através dele como nas antigas histórias.

Algumas pessoas apesar de tudo argumentam que são apenas palavras, e pode-se mostrar que significam outra coisa além de voar. Contudo, quando eu pedi a pessoas em muitos fóruns para tentarem, nenhuma teve sucesso. Você deve usar todas as quatro partes da sentença. Você não pode deixar de lado nenhuma parte. Simplesmente não é possível reescrever a sentença de forma a mostrar outra coisa que não seja um vôo. Então, não existe ambiguidade na passagem relacionada ao modo de viajar dos Balrogs.

A Caravana de Balrogs de Glaurung

Uma última objeção é levantada, e situa-se na descrição da Dagor Bragollach, O SILMARILLION diz "à frente do fogo vinha Glaurung o dourado, pai dos dragões, em seu poder pleno; e atrás dele estavam os Balrogs, e atrás deles vinham os exércitos negros de Orcs em multidão como os Noldor nunca haviam visto antes ou imaginado."

Pode-se perguntar de onde essa sentença veio, e a resposta pode surpreender muitos. Ela não veio de J.R.R. Tolkien. O que JRRT realmente escreveu, no último "Quenta Silmarillion" completo da década de 1930, foi "à frente daquele fogo vinha Glaurung o dourado, pai dos dragões, e atrás dele estavam Balrogs, e atrás deles vinham os exércitos negros de Orcs em multidão como os Gnomos nunca haviam visto ou imaginado."

Estes Balrogs não eram os Balrogs flamejantes, envoltos em sombra, alados e voadores dos anos de 1940 e 1950. No mesmo texto, quando Tolkien descreveu a luta entre Morgoth e Ungoliant, tudo que ele escreveu foi "tão grande Ungoliant tornara-se que ela capturou Morgoth em suas teias sufocantes, e seu terrível grito escoou através do mundo que estremeceu. Em sua ajuda vieram os Balrogs que viviam nos mais profundos lugares de sua antiga fortaleza, Utumno no Norte. Com seus chicotes de fogo os Balrogs golperaram as teias separadamente…"

Nenhuma menção de passagem sobre Hithlum, levantar-se rapidamente, ou chegando como uma tempestade de fogo. Estes não eram Balrogs de fogo e voadores. Eles continuavam sendo os Balrogs montados de algum tempo atrás. No mesmo texto do "Quenta Silmarillion", ao descrever a Nirnaeth, Tolkien escreveu "mas enquanto a vanguarda de Maedhros vinha sobre os Orcs, Morgoth soltou suas últimas forças, e o inferno foi esvaziado. Vieram lobos e serpentes, e vieram mil Balrogs, e veio Glomund o Pai dos Dragões." O Número de 1000 Balrogs sobreviveu até os anos de 1950, mas Tolkien sem demora fez um nota para si mesmo nos "Annals of Aman" qie não deveriam existir mais de 7 ao todo.

Ao descrever os resultados da Guerra da Ira neste "Quenta Silmarillion", Tolkien escreveu "os Balrogs foram destruídos, exceto alguns poucos que fugiram e se esconderam em cavernas inacessíveis nas raízes da terra." Esta foi a linguagem que Chistopher incorporou no SILMARILLION publicado, porque seu pai nunca terminou de reescrever o "Quenta Silmarillion". Chistopher adotou tanto material quando pode do "Annals of Aman" e "Grey Annals", mas o material mais tardio cobrindo a história dos Eldar na Terra-média após o retornos dos Noldor e este era inadequado para uso nos textos publicados.

A entrada no "Grey Annals" que descreve a Dagor Bragollach é radicalmente diferente da descrição de 1930 que Chistopher utilizou, dizendo, em parte, "rios de fogo corriam das Thangorodrim, e Glaurung, Pai dos Dragões, veio em sua força plena. As planícies verdes de Adrgalen foram queimadas e se tornaram um deserto sombrio sem nenhuma coisa que cresce; e a partir desse momento foi chamada ANFAUGLITH, a Poeira Arfante."

E lá se foram todas as menções de Balrogs atrás de dragões.

A Palavra Final Sobre Balrogs

Tolkien nunca escreveu uma história sobre Balrogs novamente. O que nós encontramos em O SILMARILLION, então, é virtualmente informação inútil, amalgamadas de fontes antigas, pré-Senhor dos Anéis [e portanto incompatíveis]. E os fãs de Tolkien frequentemente esquecem a admoestação de Chistopher no prefácio de O SILMARILLION: "Uma consistência completa [seja dentro do compasso do próprio O SILMARILLION ou entre O SILMARILLION e outros escritos publicados de meu pai] não deve ser procurada, e poderia ser apenas obetida, se puder, a um alto e inútil custo."

Portanto, para aprender sobre a natureza e habilidades de Balrog de Moria deve-se dissecar os vários textos dos THE HISTORY OF MIDDLE-EARTH, e as histórias de THE BOOK OF LOST TALES e outros materiais pré-Senhor dos Anéis não podem ser utilizados para o Balrogs de Moria. Muitas pessoas tentaram fazê-lo, mas devido a Tolkien ter substancialmente mudado os Balrogs enquanto escrevia o "Ainulindale" e O SENHOR DOS ANÉIS, os Balrogs do THE BOOK OF LOST TALES e o "Quenta Silmarillion" inicial são criaturas completamente diferentes.

Em última análise, deve-se aceitar que o Balrog de Moria têm asas porque J.R.R.
Tolkien disse que eles tinham asas, e que os Balrogs voaram para Lammoth porque a sentença não pode significar nenhuma outra coisa. Se alguém escolhe não aceitar estes fatos, está em desacordo com J.R.R. Tolkien, e não existe nada que possa ser dito ou feito para contrapor um argumento que recusa a aceitar fatos simples e planos.

Tradução de Fábio Bettega

As Guerras dos Glorfindels

J.R.R. Tolkien criou muitos personagens
"dispensáveis", personagens que aparecem para uma história ou apenas
para parte de uma história e que nunca reemergem completamente de novo.
E de todos esses personagens dispensáveis, aquele que recebe quase
tanta atenção e discussão quanto qualquer um dos personagens principais
é Glorfindel. Ou melhor, os Glorfindels. Havia um ou dois do mesmo?
Mentes indagadoras querem saber (ou querem apenas questionar para
sempre e nunca realmente saberem?).
 
 
 
Por que Glorfindel é tão cool? Ele aparece próximo
do final de "Fuga para o Vau", é visto mas não ouvido em "Muitos
Encontros" (ah, Gandalf e Frodo falam sobre ele brevemente), participa
do "Conselho de Elrond" o bastante para confundir os assuntos acerca de
Bombadil e então desaparece até que Arwen chegue a Gondor para casar-se
com Aragorn em "O Regente e o Rei". A não ser por colocar Frodo em seu
élfico cavalo branco e brilhar como uma árvore de natal quando os
Nazgûl tentam atravessar o Vau do Bruinen, o que o Glorfindel faz de
tão especial? Sua verdadeira declaração de de fama aparece em uma
anedota no Apêndice A quando sua chegada com um exército élfico em
Angmar ajuda na derrota do Rei-Bruxo (no norte) de uma vez por todas.

É claro, nenhuma discussão sobre Glorfindel está completa (e poucas são
começadas) sem que alguém pergunte, "O Glorfindel de Gondolin tinha
relação com o Glorfindel de Valfenda?". Por vezes alguém é tentado a
responder com algo como "Sim, eles eram irmãos gêmeos, e o malvado
matou o bom e tomou o seu lugar na família. Os elfos teriam ainda que
compreender a verdade."

Pode ser facilmente dito que a relação
entre os dois Glorfindels não é óbvia. De fato, não é realmente claro
para muitas pessoas que estudaram o assunto por décadas. Por alguma
razão, a revelação em O Retorno da Sombra que "anos depois, muito
posteriormente à publicação de O Senhor dos Anéis" J.R.R. Tolkien
decidiu, após muito pensar, que o Glorfindel de Valfenda era de fato o
Glorfindel de Gondolin retornado dos mortos, não tem muito peso para
alguns. Por quê? Porque a decisão de ligar os dois personagens foi
feita anos depois, após a publicação de O Senhor dos Anéis. Isso
implicaria (ou seria inferido, dependendo de como você examina a
questão) que o Glorfindel de Valfenda não era originalmente concebido
como o Glorfindel de Gondolin.

Bem, isso é bom o suficiente. Na verdade, originalmente, Tolkien escreveu que "Glorfindel conta de sua origem ancestral em Gondolin",
em uma nota que esquematizava os acontecimentos do Conselho de Elrond.
Claramente J.R.R.T. tinha a intenção de conectar o Glorfindel de
Valfenda com o Glorfindel de Gondolin, embora àquela época (início dos
anos 40) dificilmente alguém que não J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis e
alguns poucos amigos íntimos tenham sabido sobre o Glorfindel de
Gondolin.

Glorfindel duramente marcou seu caminho através das
páginas da imaginação de Tolkien. Ele aparece em uma história no Livro
dos Contos Perdidos, que é "A Queda de Gondolin". Lá ele não aparece
até o início da batalha pela cidade, quando chega com o batalhão da
Casa da Flor Dourada. Sua "casa" trazia um emblema de um "sol radiante
em seus escudos", mas o próprio Glorfindel "descobriu um manto
bordado a ouro que parecia ornado de celidônias como um campo na
primavera; e suas armas também eram adornadas com delicado ouro."

Das onze casas de Gondolin (que serviam ao Rei Turgon), Glorfindel é o
único cujo emblema próprio é descrito. Glorfindel era um dos senhores
mais hábeis. Ele não se precipitou e foi morto com todos os seus
guerreiros, mas a maioria deles morreu, não obstante, defendendo
Turgon. Os guerreiros da Casa da Harpa (cujo senhor, Salgant, foi
retido pelo medo) salvaram Glorfindel e alguns de seus guerreiros
quando eles estavam quase sendo esmagados. Daquele ponto em diante
Glorfindel permaneceu próximo a Tuor, mas ele não fez muito de fato até
que Tuor começou a fugir da cidade com todas as mulheres e crianças que
ele podia manter juntos. Então Glorfindel tomou a retaguarda e
enfrentou dragões, orcs e balrogs com sua cada vez menor força de
guerreiros.

Tuor recuou da cidade para as montanhas e lá a
coluna dos exilados, aproximadamente mil resistentes, foram emboscados.
Orcs haviam sido enviados para as colinas e montanhas para prevenir
quaisquer fugas da cidade, e lançaram rochas sobre a coluna de altos
despenhadeiros enquanto tropas atacavam-na em sua parte principal e sua
retaguarda. E com o ataque na retaguarda veio o Balrog. Thorondor e
suas �?guias interromperam os orcs que estavam a lançar rochas, mas o
Balrog forçou sua passagem pelos guerreiros de Glorfindel e finalmente
o atacou sozinho. A batalha de Glorfindel com o Balrog foi breve, mas
ele a conduziu para matá-lo. Ele acabou por cair de um penhasco com a
criatura, e então ele mesmo morreu, e os elfos fizeram canções sobre
sua vitória e morte por durante muito tempo depois.

Há algo de
comovente no sacrifício de Glorfindel, e eu não posso deixar de
imaginar se Tolkien não estava projetando algo sobre seus amigos Rob
Gilson e Geoffrey Bache Smith, ambos mortos na Primeira Guerra Mundial.
Gilson morreu na batalha em La Boiselle, liderando um contingente de
soldados britânicos em batalha no dia primeiro de Julho, de acordo com
o biógrafo de Tolkien, Humphrey Carpenter. Smith escreveu uma carta a
Tolkien, ele que sobrevivera ileso a 48 horas na frente de combate em
Ovillers. Quando a companhia de Tolkien recebeu ajuda e ele retornou ao
quartel, encontrou a carta de Smith.

Ninguém pode dizer o
suficiente em algumas breves frases o que os amigos da juventude de
Tolkien significavam para ele: Tolkien, Smith, Gilson e Christopher
Wiseman formavam o coração de um pequeno clube que eles chamavam Tea
Club, Barrovian Society (T.C.B.S.) [1] quando freqüentavam a escola.
Esses quatro eram particularmente próximos, e todos eles serviram na
guerra em alguma posição. Tolkien e Wiseman sobreviveram a essa
experiência. Quando respondeu a carta de Smith sobre a morte de Gilson,
Tolkien escreveu: "Eu não me sinto um membro de um corpo completo agora. Eu, honestamente, sinto que a T.C.B.S. terminou." Smith não permitiria que aquilo acontecesse, entretanto. "A T.C.B.S. não acabou e nunca acabará.",
ele disse. Ao final daquele ano, o próprio Smith estaria morto. Em 16
de dezembro, 1916, Christopher Wiseman escreveu ao seu amigo Ronald
Tolkien: "Eu acabei de receber notícias de casa sobre G.B.S., que
sucumbiu a ferimentos de obus que sofreu, em 3 de dezembro. Não posso
dizer muito a esse respeito agora. Humildemente rogo a Deus
todo-poderoso que posso me considerar digno dele."

O
espírito de Smith deve ter sido infeccioso a Tolkien, como foi o de
Gilson. O pai de Gilson era o diretor da King Edwards Chiou em
Birmingham, e foi o veterano Gilson que encorajara Tolkien a prosseguir
no estudo de Letras Clássicas. Foi por meio da T.C.B.S. que Tolkien
tornou-se fascinado por "Beowulf", "The Pearl" ["A Pérola"], "Sir
Gawain" e "Volsungsaga". Carpenter [2] diz que Smith, membro tardio da
T.C.B.S., era tão erudito e de tamanha influência sobre os outros que
eles começaram "a despertar para a significação da poesia – como Tolkien já despertara."

Uma das últimas cartas que Smith escreveu a Tolkien dizia o seguinte:


"Meu principal consolo é que, se eu morrer hoje – vou sair em missão
daqui a alguns minutos -, ainda restará um membro da grande T.C.B.S.
para expressar o que sonhei e no que todos concordamos. Pois a morte de
um dos seus membros não pode, tenho certeza, dissolver a T.C.B.S. A
morte pode tornar-nos repugnantes e indefesos como indivíduos, mas não
pode acabar com os quatro imortais! Uma descoberta que vou comunicar a
Rob antes de sair hoje à noite. E você, escreva-a também a Christopher.
Deus o abençoe, meu caro John Ronald, e que possa você dizer as coisas
que tentei dizer, muito tempo depois de eu não estar aqui para
dizê-las, se tal for o meu destino."

No ano seguinte,
Tolkien contrairia febre de trincheiras e assim terminaria sua
participação na guerra. Mas ele imortalizaria seu senso trágico de
perda e desespero na primeira de uma série de histórias que
eventualmente viriam a ser O Livro dos Contos Perdidos: "A Queda de
Gondolin". Carpenter diz que Tolkien não criou sua história a partir de
nenhum acontecimento ou conto anterior, mas isso não é totalmente
verdade. Gondolin deve muito à história de Tróia. A idéia de uma cidade
perdida, destruída por uma força opressiva, a despeito dos esforços
heróicos dos seus defensores – fadada à traição e perfídia -, é um tema
poderoso que é raramente relido em literatura antiga. Homero de Tróia é
simbólico em relação aos desesperos e loucuras da guerra, da irritação
de Aquiles por causa da escrava à ridícula insistência de Menelau em
conseguir Helena de volta a qualquer custo.

A história de
Gondolin não é a história humana de Tróia recontada. Gondolin é uma
cidade élfica, e embora a concepção dos valores e filosofia élfica
ainda tivessem que surgir, aqueles que lamentaram pela queda de
Gondolin eram Elfos, não Homens. Gondolin é para os elfos como Tróia
era para os Homens: a inspiração para grandes canções e literatura. E é
da mesma forma para Tolkien. Muito da sua melhor prosa nos anos entre
1917-25 está em "A Queda de Gondolin", o primeiro conto élfico completo
que ele escreveu. E quando ele incorporou a história em seu livro de
Contos Perdidos, um de seus elfos narradores diz que "A Queda de
Gondolin" "é a maior das histórias dos Gnomos [os Gnomos se
tornaram os Noldor na mitologia tardia], e mesmo nessa casa é Ilfiniol,
filho de Bronweg, que conhece esses feitos com maior verdade que
qualquer outro que está hoje sobre a Terra."

[1] O nome do
grupo era uma referência às suas reuniões de leitura regadas a chá
durante as horas vagas, inicialmente na biblioteca da King Edwards
School ("Escola Rei Eduardo"), e posteriormente em uma loja chamada
Barrow (daí o nome Barrovian).

[2] Humphrey Carpenter, autor
da biografia oficial de Tolkien e editor do The Letters of J.R.R.
Tolkien ["As Cartas de J.R.R. Tolkien"]

Àquela época, não
havia na vida de Tolkien nenhuma história mais importante para a sua
nascente mitologia. "A Queda de Gondolin" representou o claro
cumprimento das longas promessas de sua juventude e das lendas
Gnômicas. O reluzente Earendel iria sobreviver à queda de Gondolin para
se tornar o salvador de elfos e Homens, semelhante a como Aeneas
sobreviveu à queda de Tróia para se tornar o antepassado de Roma.
Tolkien sobreviveu à queda da T.C.B.S., e ele começou a dedicar-se à
tarefa de garantir que seus sonhos permaneceriam vivos, exatamente como
G.B. Smith havia lhe dito anteriormente.

Mas a história de
tamanha tragédia não pode ser contada sem algum grande sacrifício.
Tolkien tinha muitos exemplos de sacrifício para escolher. Ele
precisava refinar o tema e criar um personagem que fosse intocado pela
corrupção, incólume pela perda de seu lar e casa. Um personagem que, à
despeito da intrusão da morte em sua vida, determinaria a continuidade
de Gondolin. A morte não poderia destruir Gondolin, nem mesmo o exílio.
Esta foi a contribuição de Glorfindel. Gondolin havia sido fundada
pelos Noldoli (Gnomos) que sobreviveram à Batalha das Lágrimas
Incontáveis. Quando a própria Gondolin foi destruída, um remanescente
de seu povo escapou, e eles perseveraram. Era muito parecido com a
T.C.B.S.. Geoffrey Smith havia decidido que a morte e a perda não
dissolveriam o grupo. Os sobreviventes continuariam, e ao menos um
deles iria contar grandes histórias, revitalizar a literatura inglesa
de uma forma que poucos homens poderiam esperar.

Então,
Glorfindel se torna uma figura trágica que, sozinho entre uma hoste de
personagens trágicos, é memorável. Há algo profundo e tocante no
sacrifício de Glorfindel. Ecos da batalha heróica com o Balrog iria
perpassar a trabalhos mais tardios como o "Quenta Noldorinwa" e o
"Later Annals of Beleriand" ["Anais tardios de Beleriand"]. Mas a
história de Gondolin propriamente iria desfalecer e ser deixada à
margem. Tolkien nunca voltou à batalha pela cidade, mas voltou a
Glorfindel.

Enquanto escrevia "O Conselho de Elrond", Tolkien,
em certo ponto, considerou ter Glorfindel contando (de) seu passado
antigo em Gondolin. Algo de Gondolin estava, desta maneira, sendo
levado adiante para o novo Hobbit. Mas Tolkien desistiu da idéia. O
Glorfindel de Valfenda tornou-se simplesmente Glorfindel, e não havia
referência a um Glorfindel anterior ou a uma história anterior. A
transformação de Glorfindel não deve representar nada mais do que a
necessidade de um autor de contar uma história concisa. Ele iria, no
fim das contas, remover material concernente ao romance de Aragorn e
Arwen para um apêndice.

Então o conto de Glorfindel iria
continuar e, de fato, Tolkien vezes mais tarde quando ele escreveu o
material para os apêndices. Lá agora aparecia o relato da chegada de
Glorfindel com um exército élfico ao campo de batalha, completando a
vitória de Gondor sobre o Rei-Bruxo de Angmar e, de certa forma,
replicando a vitória esmagadora de Melkor e escravidão de Gondolin.
Onde as trevas reinavam, Glorfindel trouxe luz. Mas a sua luz iria logo
cair e os elfos iriam retornar aos seus retiros para finalmente
navegarem através do Mar em grandes contingentes, deixando a
Terra-Média. Glorfindel permaneceria, mas ele era um elfo excepcional e
a exceção iria perseguir os pensamentos de Tolkien nos anos seguintes.

Quem era Glorfindel, e o que ele estava fazendo na Terra-Média? Ele não
era tão enigmático para os fãs. Em 1958 Rhona Beare perguntou a Tolkien
(em nome dos fãs) por que Asfaloth, o cavalo de Glorfindel, tinha uma
rédea e arreios "quando elfos montam sem arreios, selas ou rédeas?"
Tolkien respondeu rapidamente que ele deveria ter escrito "testeira", e
essa mudança seria conseqüentamente feita ao texto. E isso (a não ser o
pedido do uso do nome de Glorfindel em uma vaca) representa a soma
total do interesse dos fãs no mais enigmático elfo da Terra-Média.

A lenda de Glorfindel havia se acalmado. Tolkien tentou reescrever a
história de Tuor e Gondolin, mas ele apenas conseguiu prosseguir até
ter Tuor olhando através da planície de Tumladen sobre Gondolin pela
primeira vez. Glorfindel apareceu brevemente na história de Aredhel e
Maeglin como um dos senhores que Turgon indicou para escoltá-la, mas
Tolkien decidiu que Glorfindel, Egalmoth e Ecthelion eram escolhas
inapropriadas para senhores élficos que tornar-se-iam tão consternados
por Nan Dungortheb que retornariam em desespero e dessa forma perderiam
seu encargo. Ele decidiu que seria melhor não nomeá-los na história.
Essa decisão, (e) uma nota acerca da morte de elfos e a possível
ressurreição que acompanha o "Athrabeth Finrod ah Andreth", representa
uma elevação na estatura de Glorfindel no caldeirão de pensamentos de
Tolkien.

A questão sobre como o Glorfindel de Elrond deveria
ser diminuído em importância enquanto a fama do Glorfindel de Gondolin
aumentava… na mente de Tolkien. Os leitores não tinham idéia de que
essas questões existiam para o autor. Glorfindel era mais importante
para J.R.R. Tolkien do que ele era para O Senhor dos Anéis. Mas para
encontrar um lugar para Glorfindel na mitologia, Tolkien teve que ser
consistente com o que Gandalf disse sobre o elfo em "Muitos Encontros":

"Que me diz de Valfenda e dos elfos? Valfenda é um lugar seguro?"

"Sim, atualmente, até que todo o resto tenha sido conquistado. Os elfos
podem temer o Senhor do Escuro, e podem fugir de sua presença, mas
nunca mais irão escutá-lo ou servi-lo. E aqui em Valfenda ainda vivem
alguns dos maiores inimigos dele: os Sábios élficos, senhores dos
Eldar, de além dos mares mais distantes. Estes não temem os Espectros
do Anel, pois os que moram no Reino Abençoado vivem ao mesmo tempo nos
dois mundos, e têm grande poder contra os Visíveis e os Invisíveis."

"Pensei ter visto uma figura branca que brilhava e não se apagava como as outras. Então era Glorfindel?"

"Sim. Por um momento você o viu como ele é do outro lado: um dos
poderosos entre os Primogênitos. Ele é um senhor élfico de uma casa de
príncipes. Na verdade, existe um poder em Valfenda capaz de resistir à
força de Mordor, por um tempo: e em outros lugares ainda moram outros
poderes…"

Glorfindel é, então, um elfo que viveu em Aman. Então o
texto publicado faz com que seja virtualmente impossível para ele ser
descendente de um elfo de Gondolin. Ele poderia ter morado em Gondolin,
mas não poderia ter nascido lá ou após isso, entre os Exilados de
Gondolin. Conseqüentemente, a decisão de não fazer de Glorfindel um
descendente de outro Glorfindel foi, de fato, uma decisão tomada bem
cedo, anteriormente à publicação de O Senhor dos Anéis. Mas isso não
significa que Glorfindel era necessariamente o Glorfindel de Gondolin.

Apesar das freqüentes concepções errôneas, Tolkien não pretendia
reutilizar nomes entre os elfos. Embora não haja dois elfos em O Senhor
dos Anéis que tenham o mesmo nome, um (ao menos) carrega o nome de um
elfo mais antigo: Rúmil, um dos guias de Lórien, tem o mesmo nome de um
elfo noldorin que criou as primeiras Tengwar (e este Rúmil mais antigo
é mencionado no Apêndice E). Mas outro nome de Gondolin aparece no
Conselho de Elrond: Galdor, o elfo dos Portos, o emissário de Círdan.
Christopher Tolkien chega (á) à conclusão de que não pode ser o mesmo
Galdor que liderou a vanguarda da coluna de refugiados de Tuor em "A
Queda de Gondolin". O Galdor de Gondolin não apenas sobreviveu, ele
retornou ao final da Primeira Era e nunca mais voltou á Terra-Média.

Dessa forma, há casos peculiares mesmo em O Senhor dos Anéis, quando
Tolkien reutilizou nomes élficos, e ele não foi totalmente claro sobre
onde esse uso era apropriado. Anos mais tarde, enquanto considerava a
história de Círdan, J.R.R.T. notou para si mesmo que o Galdor de
Gondolin poderia ter sobrevivido à queda e permanecido na Terra-Média,
embora nunca tivesse adquirido a sabedoria que Glorfindel obteve no
Oeste. Christopher foi ágil em apontar que seu pai expressou a
especulação de forma a indicar que ele não estava certo, e Christopher
concluiu que seu pai não poderia ter localizado o manuscrito de "A
Queda de Gondolin" para conferir e, portanto, estaria meramente
sugerindo a possibilidade a si mesmo (para futura referência, talvez).

Em The Peoples of Middle-Earth [Os Povos da Terra-Média] Christopher
publicou pela primeira vez dois ensaios acerca de Glorfindel, que seu
pai escrevera por volta de 1972. O primeiro ensaio está incompleto, sua
página inicial está faltando, mas aparentemente J.R.R.T. decidira que
alguns elfos foram enviados de volta à Terra-Média com os Istari "como
guardas ou ajudantes". Um desses seria Glorfindel, junto com Gandalf.
Esse ensaio supõe que Glorfindel, devido ao seu grande sacrifício,
havia sido liberto de Mandos em pouco tempo e restituído à inocência
original dos elfos. Vivendo com os Maiar e entre os elfos que nunca se
rebelaram, ele provavelmente se tornou um amigo de Olórin (Gandalf) e
cresceu em sabedoria e poder.

Mas após ter escrito esses
pensamentos, Tolkien mudou de idéias. Em uma nota, Christopher
refere-se ao seu pai como tendo decidido, logo após ter escrito o
primeiro ensaio sobre Glorfindel, que o elfo teria mais provavelmente
retornado à Terra-Média na Segunda Era. Em seguida, Tolkien escreveu o
segundo ensaio acerca de Glorfindel e ele decidiu finalmente que os
dois Glorfindels eram a mesma pessoa, que após ter sido expurgado de
seus pecados em Mandos, foi liberto e permitido que vivesse em Aman.
Mas então ele retornou à Terra-Média para ajudar Gil-galad a se
preparar para as batalhas contra Sauron.

O fato de o
Glorfindel de Valfenda ter vivido no reino Abençoado, de certa forma
pressionou Tolkien a considerar como ele teria estado lá. A chegada de
Glorfindel na Terra-Média não havia sido tão fortemente ordenada, mas
Tolkien não diz realmente por que Glorfindel teve de retornar na
Segunda Era, a não ser ao dizer no segundo ensaio que tal viagem dos
elfos teria sido impedida após a Queda de Númenor. Portanto, os Istari
não poderiam ter sido acompanhados pelos guardas e assistentes do
primeiro ensaio.

A restrição a viajar de Aman para a
Terra-Média é atestada em suas cartas, então Tolkien não estava apenas
adicionando um novo elemento à história para racionalizar sua escolha.
Ao contrário, ele estava assegurando que a escolha era consistente com
o que ele havia dito a outras pessoas.

A última decisão, na
qual Glorfindel aparentaria grande poder, é compartilhada com a
sugestão de que como um elfo reconstituído, ele estaria mais próximo em
poder de um Maia do que qualquer outro elfo vivente normal. O enigma
sobre o poder de Glorfindel na Terra-Média está, dessa forma,
explicado. Não seria qualquer elfo que poderia fazer os Nazgûl fugirem.
Um Nazgûl, sozinho no Condado, havia afastado anteriormente a companhia
de Gildor Inglorion (ele mesmo um Exilado). Mas os Nove reunidos
estavam determinados a enfrentar Elrond e Glorfindel juntos, caso fosse
necessário, quando, afinal, parecia certo que Frodo escaparia deles.
Então, Glorfindel ter sido enviado sozinho para encontrar Frodo foi uma
decisão que refletiu a grande confiança em suas habilidades.

Se aceitarmos que Glorfindel retornou à Terra-Média na Segunda-Era,
provavelmente ao tempo da Guerra entre Elfos e Sauron (o que Tolkien
sugere como o acontecimento mais provável para justificar o seu
retorno), então Glorfindel deve ter sido muito atuante na defesa de
Lindon e Eriador contra Mordor. Após a guerra, ele deve ter acompanhado
Galadriel e Celeborn em algumas de suas viagens, ou talvez tenha sido o
emissário de Gil-galad a outros reinos élficos (estes permaneceriam
ainda: o reino de Oropher na Floresta Verde, Amdír em Lothlórien e o
porto de Edhellond são tudo o que conhecemos com certeza).

E
então Glorfindel teria marchado com o exército de Lindon e Imladris na
Guerra da Última Aliança. Elrond era o arauto de Gil-galad, um papel
que teria-lhe deixado com pouco tempo para comandar exércitos, uma vez
que ele teria sido vital para as relações de Gil-galad com os outros
líderes da aliança, e também teria enviado declarações às forças de
Sauron. Gil-galad teria tido Celeborn, Círdan e Glorfindel para
convocar como seus capitães em suas várias forças. E é claro, outros
senhores élficos teriam servido como segundos-comandantes, capitães
menores, conselheiros, etc. Lá haveria uma horda de senhores élficos. A
posição de Glorfindel durante a Guerra da Última Aliança é, sem sombra
de dúvida, certa.

Foi ainda Glorfindel que liderou os
exércitos de Valfenda e Lothlórien para o último combate com o
Rei-Bruxo de Angmar. O seu status deveria ser aumentado muito na
Terceira Era? Por que Amroth não liderou seu próprio exército? Ele
estava mesmo presente na batalha, ou ele estava em casa em Lothlórien
para guardar o reino? Considerar que Glorfindel liderou os exércitos
combinados implica que ele era uma pessoa de grande estatura entre os
elfos, um grande e nobre senhor, sem dúvida.

Tolkien conta ao
leitor apenas o suficiente sobre Glorfindel em O Senhor dos Anéis para
demonstrar que ele era um senhor élfico muito importante, mas não diz
mais. É apenas quando vamos ao O Silmarillion e lemos sobre seu grande
sacrifício que aprendemos sobre a história trágica de Glorfindel. E
mesmo a história de Gondolin deixa algo a desejar. O conto em O
Silmarillion é um pasticho adaptado por Christopher Tolkien de "A Queda
de Gondolin" e "De Tuor e sua Chegada a Gondolin". Ele não conta
realmente os grandes eventos que "A Queda de Gondolin" pretendeu nos
transmitir. Além do comando de um dos flancos de Turgon na Nirnaeth
Arnoediad, Glorfindel não é mencionado em nenhum outro lugar d O
Silmarillion.

Ele deveria ser um dos Exilados, impelido pela
demanda de Fëanor na qual os Noldor seguiram-no de volta até a
Terra-Média. Ele provavelmente não tomou parte no Fratricídio de
Alqualondë, uma vez que da hoste de Fingolfin apenas o povo de Fingon
ajudou os feanorianos diretamente. Turgon, pode-se presumir, veio após
o grupo noldo (se) de seu pai. Então Glorfindel sobreviveu à travessia
de Helcaraxë e esteve com Fingolfin quando a maior parte dos Noldor
marchou para Angband inutilmente. E ele deve ter estado presente quando
os grandes príncipes noldor reuniram-se em assembléia após o resgate de
Maedhros por Fingon.

Glorfindel está sempre lá, no
pano-de-fundo, uma face no meio de legiões de personagens anônimos que
compõem a antiga hoste dos Noldor. O curioso é que O Silmarillion
lançou mais questões sobre o passado de Glorfindel do que sobre sua
história pessoal. Ele era um dos Vanyar? Ele era apenas parte vanyarin?
Por que ele tinha cabelos dourados, se (como Tolkien diz em O Senhor
dos Anéis) apenas os descendentes de Finarfin e Eärwen tem cabelos
dourados entre os noldor?

Cabelos dourados são, supostamente,
uma coisa rara entre os elfos, e mesmo o rei-élfico do norte da
Floresta das Trevas tem cabelos dourados em O Hobbit, um guerreiro elfo
anônimo de Lothlórien tem cabelos dourados em O Senhor dos Anéis, e
tanto Glorfindel quanto Idril Celebrindal têm cabelos dourados. Idril,
ao menos, é uma descendente de Indis, segunda esposa de Finwë, que veio
dos Vanyar, e a própria mãe de Idril, Elenwë, era dos Vanyar. As idéias
de Tolkien sobre atributos físicos dos elfos não deveriam estar
completamente desenvolvidas quando ele escreveu a frase que apenas os
descendentes de Finarfin tinham cabelos dourados entre os noldor.

Mas isso não explica a ascendência de Glorfindel. Quem eram seus pais?
Ele era parte Vanya, como Idril? Parece claro que ele deveria ter tido
algum sangue vanyarin. Muitos sentem que os Vanyar estiveram acima da
rebelião, mas a decisão de Elenwë de se unir a Turgon no exílio é uma
indicação de que eles não estiveram. Se uma esposa foi levada a seguir
seu marido, então por que não outras? E pode ser que Elenwë tenha
seguido seu marido apenas porque ela e Turgon não haviam estado casados
por muito tempo. Idril era apenas uma criança quando Elenwë foi perdida
no gelo. Então, Idril nasceu durante a residência provisória em Araman,
após o Fratricídio.

Se alguns dos noldor "antigos" partiram
para o exílio, não parecem ter sido muitos. Nerdanel, esposa de Fëanor,
não foi com ele. Assim como não foi seu pai, Mahtan, ou qualquer membro
da sua família (exceto os filhos de Fëanor e Nerdanel). Então,
Glorfindel provavelmente não deveria ser um dos "antigos" entre os
noldor ao tempo da rebelião. Ele deve ter sido o filho de um senhor
noldorin e de uma donzela vanyarin que auxiliou Turgon e, como um dos
amigos de Turgon, deve tê-lo seguido por lealdade e senso juvenil de
aventura.

Uma outra possibilidade é a de que Glorfindel fosse
o filho de um senhor vanyarin e uma esposa noldorin. Menos provável
seria alguma ascendência vanyarin remota. Poucos dos vanyar parecem ter
vivido em Tirion sobre Túna ao tempo da rebelião de Fëanor. A maioria
deles havia se mudado para o sopé de Taniquetil ou para terras
silvestres de Valinor, ou a área de Valmar. Se ele veio dos Vanyar, a
família de Glorfindel deveria, por essa razão, ter tido laços estreitos
com os Noldor.

Na última análise, Glorfindel permanece tão
misterioso quanto sempre. Não sabemos praticamente nada acerca do seu
lugar na sociedade eldarin, quem seus parentes eram, (aparentemente
todos, ou a maioria, morreram na Terra-Média, como Tolkien mencionou,
ele foi o primeiro de sua família a ser libertado de Mandos em um dos
dois ensaios sobre Glofindel), ou mesmo como era sua relação específica
com Turgon (a não ser um seguidor na hierarquia da nobreza de Gondolin).

E a história de Glorfindel está longe de estar completa. Nós podemos
apenas traçar seus movimentos de maneira geral. Talvez ele tenha gasto
um tempo razoável com Gandalf, vagando pelas terras do norte. Seria
difícil imaginar um livro que tratasse apenas de Glorfindel, apesar de
ele e Gandalf terem se envolvido em um número razoável de aventuras.
Talvez lá pelo ano de 2061 seja lançada uma série de televisão tratando
dos dois, e os fãs de Tolkien poderão finalmente explorar um pouco do
fascínio que esse personagem exerce sobre eles.

[notas do tradutor]

Os Elfos sonham com sono ecléctico?

J.R.R. Tolkien dedicou muito tempo e reflexão à
clara identificação do que significa ser um Elfo. Ele descreveu os
Elfos na sua carta número 144 como representando “Homens com
faculdades criativas e estéticas muito aumentadas, maior beleza e vida
mais longa, e nobreza – os Filhos mais Velhos, condenados a definhar
perante os Filhos mais Novos (Homens) e finalmente a sobreviverem
apenas através do pequeno fio do seu sangue que foi misturado com o
sangue dos Homens, para quem essa herança era a única genuína
reinvidicação a ‘nobreza’"?.
 
 
 
Mas o que é que tudo isso quer dizer? Na sua carta número 73, Tolkien menciona num àparte que os Elfos “representam a beleza e graciosidade da vida e dos artefactos�?. Na sua carta número 153, Tolkien diz que “Elfos
e Homens são representados como biologicamente semelhantes nesta
‘história’ porque os Elfos correspondem a certos aspectos dos Homens,
dos seus talentos e desejos�? e “eles têm certas liberdades e poderes
que nós gostaríamos de possuir, e a beleza e o perigo e a mágoa da
posse desses sentimentos vêm-se neles…�?

Dor e tristeza
são habitualmente associados à natureza Élvica. Os Elfos expressam
esses sentimentos tão facilmente como nós expressamos esperança ou
desejo. Quando Frodo se encontra com Gildor Inglorion no Condado,
Gildor diz-lhe que “Os Elfos têm os seus próprios trabalhos e as
suas próprias mágoas e estão pouco interessados nos costumes dos
Hobbits ou de quaisquer outras criaturas terrenas.�?
Esta é uma afirmação muito curiosa pois difere radicalmente do quadro que outros, como Gandalf ou Treebeard, pintam dos Elfos.

Gandalf diz a Frodo que alguns dos maiores inimigos de Sauron continuam
a viver em Valfenda, os sábios-Elfos, senhores dos Eldar de além-mar.
Enquanto que outros Elfos fugiram da Terra-média e alguns apenas aqui
continuam temporariamente tal como a companhia de Gildor, alguns dos
Eldar estão aqui de pedra e cal na sua determinação de se oporem a
Sauron.

E Treebeard diz a Merry e Pippin que foram os Elfos
que primeiro despertaram as árvores e lhes ensinaram a falar.
Anteriormente, os Elfos eram muito curiosos e queriam saber o mais
possível sobre o mundo em que tinham despertado.

Numa
entrevista feita para ser incluída num documentário dedicado à vida do
seu pai, Christopher Tolkien refere que os Elfos quase que se consomem
em dor. Na altura da Guerra do Anel, os Elfos já não se voltam para o
futuro. Pelo contrário, voltam-se para o passado. E, ao voltarem-se
para o passado, eles provocam o seu próprio eclipse ou crepúsculo, ou
recebem-no de braços abertos. Pois de facto o seu destino é definharem,
desaparecerem do mundo e da luz, deixando tudo o que atingiram nas mãos
implacáveis dos Homens.

Mas como é que os Elfos se enredaram
tão profundamente na dor? Qual é a diferença entre a natureza Élvica e
a natureza Humana que leva as raças Élvicas a viver na dor?

Em
numerosas ocasiões, Tolkien escreveu ou tornou claro que os Elfos eram
imortais durante o tempo em que a Arda existisse, mas que não eram
eternos. Era uma das suas características existirem como seres vivos
enquanto o próprio Tempo durasse, Tempo esse medido pela “vida da
Arda�?. E, no entanto, a Arda não tinha existido desde o princípio do
Tempo e o seu destino não era necessariamente existir até ao fim do
Tempo. A Arda pode acabar e Eä, o resto do universo, pode continuar.
Mas, por outro lado, Eä é identificado através do Tempo e do Espaço.
Então, se os Elfos sobrevivem até a Arda acabar, será que a Arda acaba
simultaneamente com o Tempo e, vice-versa, o Tempo com a Arda, ou será
que o Tempo continua até ter um outro fim?

Os Elfos não sabiam
a resposta a esta pergunta. Nem se conseguiam aperceber de, ou prever,
qual era o seu destino final para lá da conclusão inevitável da sua
existência. Num comentário incluído em "Athrabeth Finrod ah Andreth"
(Debate entre Finrod e Andreth), Tolkien especifica que “a
‘imortalidade’ Élvica�? está limitada a uma parte do Tempo (a que
[Finrod] chamaria a História de Arda), e por isso estritamente deveria
ser antes chamada de ‘longevidade em série’, o limite máximo da qual é
a duração da existência da Arda…"
O seu corolário é que o fëa
(‘espírito’) Élvico está também limitado ao Tempo da Arda, ou pelo
menos está aí preso e não o pode deixar enquanto ele existir.

Ao tentar elucidar melhor este aspecto, Tolkien disse que “o
pensamento Élvico não podia penetrar para lá do ‘Fim da Arda’, e não
havia quaisquer instruções específicas… Parecia-lhes óbvio que os
seus [corpos] tinham de acabar, e portanto qualquer tipo de
reincarnação seria impossível…
" Todos os Elfos iriam pois
‘morrer’ no Fim da Arda. Eles não sabiam o que isso significava. Diziam
então que os Homens tinham uma sombra atrás deles, mas os Elfos tinham
uma sombra à sua frente. Agora, a sombra atrás dos Homens era a sombra
da sua Queda, enquanto que a sombra à frente dos Elfos era a sombra do
seu Fim. Na percepção dos Elfos, aos Homens tinha sido permitido
libertarem-se da vida, da ligação ao mundo que para eles Elfos se tinha
tornado um fardo pesado. Era-lhes difícil perceber que os Homens
quizessem tanto ficar no mundo, pois o que eles queriam era ter a
certeza de que continuavam para lá do mundo. Era como a tripulação dum
navio prestes a afundar-se a observar admirada os passageiros a
saltarem de volta dos salva-vidas para o barco condenado.

O
desejo Élvico de libertação não fazia necessariamente parte do seu
estado natural. Quando os Valar descobriram que os Elfos viviam em
Cuivienen, já eles tinham sido importunados por Melkor e seus lacaios.
Alguns dos Elfos tinham desaparecido e como o próprio Mandos
aparentemente não sabia nada do seu destino, eles devem ter sido
encarcerados por Melkor em Utumno ou noutra temível prisão. Os Elfos
perderam assim a sua inocência original ainda antes de se terem
encontrado com os Valar.

A perda da inocência foi o primeiro
passo na longa via dolorosa, uma estrada cheia de sofrimento e perda.
Mas dor e sofrimento não eram sinónimos para os Elfos. Aparentemente, o
sofrimento passava, enquanto a dor não. O sofrimento podia avolumar-se
e tornar-se dor, mas para a maior parte da raça Élvica parece ter-se
simplesmente transformado em dor. Ultrapassar o sofrimento era uma
coisa que eles faziam muitas e muitas vezes.

Por exemplo, Tolkien explica na Carta 212 (de facto um rascunho para a continuação da Carta 211 que nunca foi enviado) que “nas
lendas Élvicas há registo dum caso estranho de um Elfo (Míriel, a mãe
de Fëanor) que tentou morrer, o que teve consequências desastrosas e
levou à ‘Queda’ dos Elfos Superiores (Elfos da Luz)… Míriel queria
deixar de existir…�?

A morte de Míriel era tão pouco
habitual que os Eldar tiveram de inventar uma palavra nova para a
descrever. Eles já tinham antes sentido morte física, quando membros da
sua raça sucumbiram a sofrimento ou violência e os seus corpos
morreram. Mas os Eldar aprenderam em Aman que os seus espíritos eram
supostos passar para os Salões de Mandos e, depois de um período de
reflexão durante o qual seriam curados dos seus sofrimentos, eles
podiam e deviam ser readmitidos no número dos vivos.

Míriel
não queria viver de novo. Ela queria morrer, morrer de verdade, e não
ter mais nada a ver com o mundo. A escolha, ou teimosia, de Míriel
levou a um debate importante entre os Valar e à aprovação duma lei que
alterou a evolução natural do destino dos Elfos. Ilúvatar deu aos Valar
o poder de administrar a morte permanente a um Elfo durante a vida da
Arda. Isto é, eles podiam recusar-se a deixar um Elfo viver de novo.


Míriel recusou-se a aceitar a vida apesar de ter sido praticamente
obrigada a viver de novo. Então, relutantemente, os Valar confinaram-na
aos Salões de Mandos até ao fim do Tempo da Arda. O seu marido Finwe
tornou-se assim livre para procurar uma nova esposa. Mas, depois de ter
sido assassinado por Melkor, o espírito de Finwe ficou em comunhão com
o de Míriel em Mandos, um acontecimento aparentemente raro. Quando
Míriel soube de tudo o que tinha acontecido ao seu povo, ela
arrependeu-se da sua decisão de ficar morta e apelou aos Valar. Finwe
aceitou então ficar morto porque não podia voltar à vida e ter duas
esposas, uma situação que os Elfos achavam anormal.

A decisão
de Míriel foi tomada pelo menos em parte como resultado da dor. E
apesar de lhe ser permitido viver de novo, ela escolheu não viver com o
seu povo, os Elfos, mas em vez disso foi aceite no serviço dum dos
Valar. A partir dessa altura, Míriel documentou os feitos do seu povo.
Em vez de fazer novas coisas ou procurar novos conhecimentos, ela
concentrou-se a registar os acontecimentos da história do seu povo.
Assim, Míriel foi o primeiro Elfo, pelo menos entre os Eldar, a
sucumbir à dor , escolhendo viver de novo por causa da dor e talvez
devotando a sua vida a lembrar essa dor.

Alguns dos revoltosos
Noldor deixaram-se derrotar pela dor antes de avançarem demais na
estrada do Exílio. Estes Noldor comandados por Finarfin voltaram à sua
cidade de Tirion e foram perdoados pelos Valar pela sua parte na
revolta. Mas a maioria dos Noldor continuaram resolutamento no seu
caminho, talvez principalmente por causa da determinação de Fëanor.

Na Terra-média a maior parte dos Noldor tentou voltar-se para o futuro
apesar da inutilidade da guerra contra Melkor. Mas Turgon, que foi
inspirado a construir a maior cidade de sempre, parece ter-se atolado
na dor. Gondolin foi modelada em Tirion e o povo de Turgon raramente
partiu para a guerra. Ulmo avisou-o de que a altura chegaria em que
Turgon teria que desistir de tudo para salvar o seu povo, mas quando
esse momento chegou, Turgon não quiz fazer esse sacrifício. Em vez de
guiar o seu povo a abandonar Gondolin em segurança, Turgon confiou nas
defesas naturais da cidade. Ele queria preservar o seu modo de vida
mesmo arriscando-se a assim perder a vida.

Depois da queda de
Gondolin, os Noldor desperdiçaram os seus recursos nos conflitos azedos
sobre a posse do Silmaril que Beren e Luthien tinham recuperado a
Melkor. Os filhos de Fëanor, incapazes de recuperar as outras jóias,
destruíram primeiro Doriath e depois Arvernien em tentativas
infrutíferas de capturar aquela jóia. Eles já não pensavam em vingar as
mortes do seu pai e do seu avô nem em recuperar os Silmarils. Em vez
disso, só queriam saber daquilo que achavam que era seu por direito,
não percebendo que tinham perdido esse direito devido aos seus delitos.
Os seus espíritos estavam presos num passado que não podia ser
recuperado.

Depois da Primeira idade, os Noldor começaram de
raíz. Gil-galad criou um reino no que tinha sido Ossiriand e alguns dos
Noldor emigraram para leste e criaram Eregion. Mas com o passar dos
séculos os Elfos sucumbiram à preocupação sobre o seu definhar. E
quando Sauron disfarçado lhes ofereceu uma oportunidade para parar ou
atrasar os efeitos do Tempo, os Noldor de Eregion decidiram actuar
contra esse definhar.

Tolkien disse sobre esta segunda “Queda�? que os “Elfos queriam ao mesmo tempo ter o bolo na mão e comê-lo�?.
Eles queriam permanecer na Terra-média durante o resto do Tempo em vez
de atravessar o mar para evitar um destino pior do que a morte. Em vez
de manufacturar nova beleza, os Elfos voltaram a sua atenção para a
preservação da antiga beleza da Terra-média e para a cicatrização das
suas feridas. Por isso eles criaram os Aneis do Poder. Mas mesmo depois
dos Elfos terem descoberto a perfídia de Sauron, eles não tiveram a
força para eles próprios destruírem os Aneis, que Sauron claramente
queria usar contra eles.

A dor a que Gildor aludia começou sem
dúvida com o conflicto entre os Elfos e Sauron na Segunda Idade. Pois
eles não só perderam muitos Aneis de Poder, como também perderam a
maior parte das terras que tentavam conservar. Casas Élvicas com todas
as suas recordações e artefactos especiais devem ter-se esvaído em fumo
em grandes áreas de centenas de kilómetros (milhas). Os Elfos não
teriam preservado nada do seu mundo antigo, no qual, como Tolkien
afirma, eram uma casta superior.

A tristeza devia ter
consumido os Elfos não só pelo que eles perderam, mas também pelo que
eles tinham feito. Traição e perda vão de mãos dadas ao longo da
história Élvica, e a sua traição da ordem natural na Segunda idade fez
com que perdessem quase tudo. Os Elfos que sobreviveram a guerra,
especialmente aqueles que nada sabiam sobre os Aneis do Poder, devem
ter seguramente questionado o que tinha originado o conflito.

Nos finais da Terceira idade Frodo arreliou Gildor repetindo um dizer
sobre os Elfos que era popular entre os Hobbits: não peças conselhos
aos Elfos, pois eles dirão tanto que sim como que não. E Gildor riu-se,
dizendo que “os Elfos raramente dão conselhos irreflectidos pois,
mesmo entre os sábios, aconselhar é um presente perigoso e todos os
caminhos podem sair mal.�?
Todas as escolhas históricas feitas pelos
Elfos, talvez tomadas depois de longas deliberações entre os seus
líderes mais sábios, parecem tê-los levado por caminhos cheios de dor e
sofrimento. Assim, pelo menos na Terceira idade, os Elfos parecem
ter-se tornado relutantes a aconselhar outros.

Na Terceira
idade os Eldar concentraram-se a manter os seus domínios, sem pensar em
expandir o seu poder e influência. Enquanto que os Homens se tornavam
mais numerosos, os Elfos refugiaram-se em enclaves. Na sua seclusão, os
Elfos só podiam aperfeiçoar os seus dotes para a poesia e a música,
celebrando acontecimentos do passado e as glórias da sua juventude, e
antecipando o seu regresso a Valinor. Os Elfos não estavam tanto a
olhar para o futuro, mas antes para o passado. O seu futuro tornou-se
um movimento reaccionário para o além-mar.

Enquanto que na
Segunda idade os Eldar tinham esperado exercer a sua arte sobre toda a
Terra-média, ou pelo menos grande parte dela, na Terceira idade eles
escolheram restringir a sua arte a pequenas áreas protegidas pelos três
Aneis do Poder que ainda controlavam. Os Elfos da Terceira idade
relembravam todos os grandes contos que os Elfos das Primeira e Segunda
idades tinham criado.

A transição entre criar o passado e
relembrar o passado foi sem dúvida lenta. Os Elfos não decidiram
simplesmente dum dia para o outro não procurar realizar mais nada. Pelo
contrário, devem-se ter acomodado aos poucos a gozar a vida e a
celebrar os seus êxitos. Mas à medida que o mundo se tornava escuro e
solitário, os Elfos escolheram não se expandir, não comunicar com os
outros. Durante um curto período, os Elfos Cinzentos de Lothlórien
tornaram-se os maiores campeões da liberdade no Ocidente, mas com a
partida e subsequente morte do Rei Amroth, recolheram-se `a sua
floresta e pouco mais se ouviu falar deles.


Todas as escolhas feitas pelos Elfos estavam cheias de gravíssimos
perigos. Tudo o que faziam, tudo em que tocavam, acabava por ser
consumido pelas consequências das suas acções. Eles tentaram evitar
sofrer o destino que lhes estava marcado. Em vez de destruir os Aneis
do Poder, na Terceira idade os Eldar usaram-nos. E quando o O Anel foi
finalmente destruído, tudo o que os Eldar tinham conseguido em termos
de preservação e cura foi desfeito. Eles não mais conseguiam pensar em
termos de contruir um futuro. Só queriam preservar um passado que para
eles era ideal.

A sombra que os Eldar viam no seu horizonte
deve, nos finais da Terceira idade, ter parecido pairar enorme e
disforme sobre todos eles. A ascenção e retorno de Sauron a Mordor eram
inevitavelmente o resultado do falhanço dos Elfos em resolverem os seus
conflictos do passado. A mudança de poder e estrutura da Terra-média
era mais uma lança apontada contra eles. ‘A corda estava a chegar ao
fim.’ Apesar dos seus melhores esforços para travar a mudança, eles não
a tinham podido conter. Ela continuava sem eles. A partir do momento em
que os Aneis saíram do caminho, o Tempo puxou simplesmente os Elfos de
novo para a via da evolução natural dos acontecimentos.

E
assim que os Aneis do Poder desapareceram, os Elfos não tinham outra
alternativa senão enfrentar o seu futuro, futuro esse que a eles
parecia um não futuro. Para um Homem mortal, a incerteza da
imortalidade seria uma oportunidade para criar novos contos. Mas para
um Elfo imortal, a certeza do fim dessa imortalidade significava que
havia cada vez menos tempo para celebrar os grandes contos do passado.
Esvaziá-los de conteúdo para criar novos contos só lhes ia retirar a
sua audiência de direito. Ou, pior, viver um novo conto poderia trazer
mais dor e sofrimento e assim aumentar o fardo da dor que se tornava
mais pesado de ano para ano.

Tudo estava dependente de
escolhas: as escolhas que tinham feito, as escolhas que tinham de
fazer. Os Elfos estavam mesmo sobrecarregados pela necessidade de fazer
escolhas, pois queriam escolher ambas as opções. Para um Elfo, o Tempo
na Terceira idade era só uma maneira de adiar a escolha última. Tolkien
sugere que muitos escolheram permanecer na Terra-média e definhar,
vivendo perto dos lugares que tinham amado em vida, relembrando os
acontecimentos que lhes eram mais queridos.

Talvez no fundo,
os únicos Elfos que de facto se libertaram do passado foram os que
finalmente resolveram deixar a Terra-média para sempre. Era um destino
melhor do que a morte e um destino da sua própria escolha. Para serem
coerentes com a sua própria natureza, os Elfos perceberam que tinham de
escolher entre a certeza do passado com toda a sua grandeza conhecida e
a incerteza do futuro com todo o seu grande desconhecido. A viagem
além-mar era pois o grande passo para ultrapassar a dor e a tristeza.

[Tradução de Isabel Castro]