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E agora, cadê o resto do poema?

Poderia ser que, se não fosse por um manuscrito obscuro do século XIII, O Senhor Dos Anéis não fosse publicado. Muitas pessoas que expressaram mais que uma adoração passageira cedo ou tarde ouviram que Tolkien na verdade tinha desistido de publicar o Senhor dos Anéis através de George Allen & Unwin, e mandou o trabalho para Milton Waldman na Collins. MAs o que pode não ser conhecimento de todos é o fato que Tolkien voltou para Allen & Unwin por causa de um poema que ele escreveu anos atrás, usando-se da palavra "sigaldry".
 

 

E "sigaldry", na verdade, é uma palavra que Tolkien descobriu em um manuscrito da era de 1200. Eu não tenho idéia de sobre o que o manuscrito era, nem mesmo de que língua a palavra vem. É uma palavra perdida e esquecida, exceto pelo fato que Tolkien usou-o em poema relativamente pequeno, e que teve um profundo impacto na literatura moderna.

Tolkien compôs o poema entre o final dos anos 30 e o começo dos anos 40 e mandou para o grupo informal de literatura chamado The Inklings (algo como Os Fãs da Tinta). Em uma carta para Rayner Unwin, Tolkien especulou que o poema tomou vida própria daquele círculo de amigos, e não do Oxford Magazine, que publicou uma versão do trabalho em 9 de Novembro de 1933. O poema deve ter sido tão bom para, pelo menos, um dos membros do grupo que ele passou para mais alguém.

Tolkien esqueceu do poema à medida que outros projetos tomaram sua atenção. Ele escreveu O Hobbit, Mr. Bliss e outras coisinhas. Claro que ele continuou a escrever O Silmarillion e talvez o início do Senhor dos Anéis. Mas quando Tolkien perdeu a paciência com George Allen & Unwin, que reclamava de ter que publicar um livro tão grande no começo dos anos 50 (uma época de falta de papel, na qual o lançamento de um livro não trazia tanta renda), ele virou-se para Milton Waldman na Collins.

Agora, Collins ainda está por ai, assim como George Allen & Unwin. Eles fazem parte do conglomerado HarperCollins. Então, apesar de Tolkien ter retornado para o folde em 1952, Collins cresceu ao se mesclar com a Harper e comprando George Allen & Unwin. E apesar da história dos publicadores com os quais Tolkien lidou não ter nada a ver com este interessante poema, na verdade tem tudo a ver com ele.

Tolkien pode ter esquecido dele, mas a audiência oral não. Eles o passaram, de amigo para amigo, professor para estudante, pai para filho. Em tempo, o poema chegou às mãos de Rayner Unwin, e este escreveu para Tolkien sobre o poema. Allen & Unwin queriam, aparentemente, publicar um pouco da poesia tolkieniana. Eles estavam se dando bem com a segunda edição d´O Hobbit e tinham publicado também Farmer Giles of Ham e Smith of Wooton Major. Tolkien estava trazendo dinheito para a firma, então eles estavam motivados a explorar um pouco mais o fenômeno.

Tolkien, por sua parte, tinha sido contatado há pouco tempo por "uma senhorita desconhecida à mim fazendo uma pergunta similar" sobre o mesmo poema. Ele disse à Unwin que sua correspondente confessou "que um amigo tinha escrito recentemente, de memória, alguns versos que a tinha deixado feliz a ponto de tentar descobrir sua origem. Ele tinha pego de seu afilhado que os aprendeu em Washington, D.C. (!): mas nada se sabia sobre seu criador a não ser uma vaga idéia de que eram conectadas à universidades inglesas…"

Obviamente, a senhora encontrou a origem de seus misteriosos versos em JRR Tolkien, que reconheceu-os alegremente de sua autoria. "Devo dizer que fiquei interessado em me tornar ´folclore´." disse ele à Unwin. "Assim como foi intrigante que ele ganhasse uma versão oral — que sai da minha visão tradicional de tradição oral (de todas as maneiras): que as palavras ´difíceis´ eram bem preservadas, as palavras mais comuns, alteradas e a métrica perturbada".

A métrica de Tolkien era mais perturbante que perturbada. Ele a descreveu como "dependente em assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas, tão difícil que, exceto desta vez, eu nunca seria capaz de usá-la novamente — simplesmente saiu de uma vez só)."

Bem, Humphrey Carpenter, editor das Letters, não poderia deixar essa afirmação sair impune. Tolkien usou, ao que parece, as "assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas" novamente. E as usou em… "O Senhor dos Anéis".

Carpenter também nos diz sobre o uso da palavra "sigaldry" por Tolkien, e sua origem num manuscrito do século XIII, numa nota-final na carta para Rayner Unwin. A anedota vem de uma carta que Tolkien escreveu para Donald Swann em 1966. Swann, você talvez lembre, compôs a música para The Road Goes Ever On, publicado pela primeira vez em 1967.

Swann encontrou o poema em 1949, anos antes de Rayner saber dele. "Um amigo de escola me deu este poema," Swann escreveu no prólogo de The Road Goes Ever On. "Ele o encontrou… numa revista da escola". Swann não sabia quem era o autor, porque na cópia do poema do amigo estava escrito "Anônimo".

Swann, também, menciona a extensiva tradição oral do poema (descrito para ele por Tolkien). As pessoas continuavam a passá-lo, com muitas variações. E, ao que parece, o poema ainda é passado por aí hoje, por pessoas que talvez não tenham conhecimento de onde veio, ou qual sua relação com o livro mais popular do século XX.

Seria uma pena contar à eles o que eles encontraram, pois acabaríamos com uma tradição oral que até mesmo Tolkien teria pena de terminar. Então, se você encontrar uma cópia do poema sem o título ou origem, não diga nada. Apesar de parecer uma brecha da maneira no respeito que damos a um grande autor, pense nisso como ele fez: a prova viva de sua teoria sobre tradições orais (ou pelo menos o começo delas). Ver o pássaro ganhar asas é legal, mas observá-lo em vôo, enquanto plana por sobre as nuvens, totalmente alheio ao observador — isto é miraculoso.

Este poema não é especial apenas porque ele conseguiu algo quase impossível em uma era de leis de copyright e impérios mundiais editoriais; é especial porque deu à Rayner Unwin uma oportunidade de se aproximar de Tolkien, o qual ainda tinha uma relação de autor-publicador com sua empresa, e perguntar politamente do que houve com o Senhor dos Anéis e aquele outro trabalho, O Silmarillion.

Em tempo, Tolkien achou as palavras para responder à questão de Unwin e, apesar da carta lidar a maior parte do tempo com a tradição oral que ele semeou acidentalmente, foi uma resposta para um momento conturbado. Tolkien podia estar revoltado ou apenas envergonhado em sua falha de encontrar um publicador alternativo para O Senhor dos Anéis, por sua retirada da George A
llen & Unwin alguns anos antes.

Ao invés disso, Unwin empregou um pouco de cortesia verbal em Tolkien que o fez baixar barreiras e abrir portas que estavam há muito fechadas. Este obscuro poema, à propósito, foi influenciado por uma das histórias do Silmarillion, e conta de maneira leve a aventura de um dos menos trágicos heróis de Tolkien.

E ele foi reescrevê-lo para o Senhor dos Anéis, onde serve para acalmar o leitor para um estado sonolento de mente, similar ao de Frodo quando ouve a voz suave cantando a história do marinheiro.

Quando isto aconteceu, George Allen & Unwin percebeu que a falta de papel não era tão ruim, e Tolkien descobriu que tinha um público para partes de seu trabalho que ele nunca pensou. Como um favor para sua amada tia Jane Neave, ele publicou uma coleção de poemas em 1962 como As Aventuras de Tom Bombadil somente alguns anos antes dela passar de vez. Um desses poemas foi o que chamou a atenção de Donald Swann em 1949: "Errantry".

"Errantry" não apenas reviveu uma palavra perdida do século XIII, também revive as esperanças de ver O Senhor Dos Anéis (e talvez até o Silmarillion) publicado. Ele nunca esperou que suas negociações com publicadores viessem de inocentes pedidos de pessaos que estavam fascinados com o poema que pode ser descrito como um dos mais longos limmericks já compostos.

"Errantry" reconta a história de Earëndil o Marinheiro, que é algumas vezes citado como "O Marinheiro", e sem dúvida de muitas outras coisas. E ignorando alguns erros aqui e ali, ele sobreviveu sozinho mesmo sem ter sido em não menos de três coleções de trabalhos menores de Tolkien (que eu saiba). "Errantry", em fato, é o único poema que Tolkien escreveu publicado pelo menos 4 vezes (cinco se contar a canção de Bilbo em Valfenda, já que este trabalho é reconhecido por Christopher Tolkien e outros como um derivado de "Errantry").

O tolo marinheiro que casa com uma borboleta e desafia cavaleiros élficos demonstrou uma força literária e poética que poucos personagens de poesia musicada do século XX tem. Ele é, talvez, um dos mais memoráveis personagens de Tolkien, até mesmo porque o poema é difícil de pronunciar e possui palavras obscuras como "chalcedony" (calcedônia), "habergeon" e "sigaldry".

Claro que não acaba (e nem mesmo começa) aqui. "Sigaldry" aparece em mais outro trabalho tolkieniano, um poema extraordinariamente longo e de alto calibre. "A Balada de Leithian" é considerada por muitas pessoas (incluindo seu autor) a melhor obra de literatura composta por JRR Tolkien. Sua conexão com "Errantry" não está apenas no uso de palavras arcaicas. Os dois poemas nasceram num período em que Tolkien não tinha esperanças de ver seu trabalho publicado. Foi feito para seu próprio prazer, de sua família e amigos.

Mas "Errantry" é tão poderosa, e "A Balada de Leithian" é tão convincente que eles foram destinados para uma grandeza que, se os críticos do século XX conhecessem-os nos anos 30, teriam humilhado todas suas opiniões. Vocês podem imaginar as besteiras que foram sendo ditas ao longo dos anos numa tentativa de fabricar um passado inexistente.

Mas a Poesia provou ser maior que o desespero de Tolkien e as objeções da crítica. "Errantry" forjou caminhou que Tolkien nunca imaginou seguir, e inevitávelmente "A Balada de Leithian" seguiu atrás dele, pois esta tocava O Senhor Dos Anéis, também. O Senhor Dos Anéis oferece pedaços das duas histórias, e as coloca dentro de si mesmo, enriquecendo a Terra-Média e expandindo sua profundidade com detalhes que pre-existiram em sua própria história. Isto nunca teria acontecido se Tolkien não tivesse dividido sua ingenuidade trissilábica com alguns amigos numa noite há muito tempo atrás.

E agora, como o lendário comentador Paul Harvey diria, você conhece o resto do poema…


Tradução de Aarakocra

Conexões Terra-média: Conhecimentos sobre os Anéis

Ponto 1: Tempo ficou parado para os Anéis de Poder

"’Quanto tempo você acha que eu devo permanecer aqui?’ disse Frodo a Bilbo quando Galdalf se foi.

‘Oh, eu não sei. Eu não consigo contar os dias aqui em Valfenda,’ disse Bilbo…"

 
 
 
Esse diálogo, anotado em "O Anel vai para o Sul",
é a primeira indicação que Frodo Bolseiro e seus amigos estavam
envolvidos pela presença de um Anel do Poder que não fosse o Um Anel
que Frodo carregou por muitos anos [desde que Bilbo deixou o Condado].
Os Anéis de Poder foram criados para conter o Tempo, ou diminuir seus
efeitos. Mas qual era o alcance de seus poderes? Exitia alguma espécie
de limite absoluto para a "cronoinibição" de cada Anel? Poderiam os
efeitos se estender apenas por essa distância e não mais além?

O curioso é que o Um Anel, o mais poderoso de todos os artefatos
concebidos para conter o Tempo, apenas inibia os efeitos do Tempo sobre
seu portador. O Condado não se tornou "sem-tempo" porque Bilbo trouxera
o Anel para lá. Bilbo de fato tornou-se "sem-tempo", e Frodo depois
dele. Como é isso, então, que ninguém mais foi afetado, enquanto que em
Valfenda e Lórien toda a terra [mas aparentemente nãos os habitantes
não-Élficos] foram preservadas?

Estudando os efeitos dos
Anéis de Poder pode revelar muitas inconsistências aparentes em como
eles funcionavam, e não "é de se estranhar que Saruman tenha ficado
louco com o desejo de possuir um [ou todos] eles.

Quando Elrond descreveu os poderes dos Anéis Élficos ele disse "mas
não foram feitos para serem usados como armas de guerra ou conquista:
não é esse o poder que têm. Aqueles que os fizeram não desejavam força,
ou dominação, ou acúmulo de riquezas; mas entendimento, ações e curas."
A descrição dele é bastante diferente da descrição dos poderes dos Anéis feita por Tolkien:

"O poder principal [de todos os anéis igualmente] é a prevenção ou
diminuição da decadência [isto é, "mudança" vista como algo
lamentável], a preservação do que é desejado ou amado, ou sua visão -
este é mais ou menos um motivo Élfico. Mas eles também aumentam os
poderes naturais do portador – dessa forma se aproximando da "mágica",
um motivo facilmente corruptível para o mal, um desejo por dominação. E
finalmente eles possuíam outros poderes, mais diretamente derivados de
Sauron ["o Necromante": assim ele é chamado pois lança uma sombra
passageira e um presságio nas páginas de O Hobbit]: como fazer
invisível o corpo material, e fazer coisas do mundo invisível visíveis.


"Os Elfos de Eregion fizeram Três anéis supremamente belos e poderosos,
quase que apenas de suas próprias imaginações, e os direcionaram para a
preservação da beleza: eles não conferiam invisibilidade…" [Letters,
No. 131].

É possível inferir que a descrição de Elrond
dos poderes dos Anéis é destinada a desviar outras inquisições
apresentando apenas exemplos de seus poderes. A natureza verdadeira dos
Anéis, de conter os efeitos do Tempo, é vista apenas no breve relato de
Elrond: "Apenas nesta hora de dúvida eu posso dizer. Eles não estão ociosos."

De fato, Elrond e Galadriel [de modo não sábio] usaram seus Anéis de
Poder durante toda a Terceira Era para preservar os reinos Élficos. A
história de Galadriel não é clara, mas ela provavelmente não viveu em
Lorien durante toda a Terceira Era. Particularmente, quando se torna
claro que todo o povo de Amroth partiria de Lorien se nada fosse feito,
ela e Celeborn foram viver entre os Elfos da Florestas que ainda não
tinham partido.

Galadriel levou com ela Nenya, o Anel de
Diamante, e ela pode ter usado seu poder para induzir os Elfos da
Floresta a premanecer em Lorien. Nós não sabemos se ela realmente
utilizou o Anel antes disso [1981 ou logo após]. Tolkien diz apenas que
"o [Um] Anel foi perdido [ao início da Terceira Era], espera-se que
para sempre; e os Três Anéis dos Elfos, empunhados por guardiães
secretos, estão operativos na preservaçào da memória da beleza de
antigamente, mantendo enclaves encantados de paz onde o Tempo parece
parado e a decadência é refreada, uma visão da glória do Oeste
Verdadeiro." [Ibid.]

A partida de Amroth, que havia sido
um vigoroso defensor do Oeste durante todo o segundo milênio da
Terceira Era, pode ter estimulado os Elfos a uma ação diferente do que
haviam feito anteriormente. Pode ser que de fato Elrond e Galadriel
finalmente decidiram ativamente utilizar seus Anéis de Poder para
evitar um êxodo em massa de Elfos da Terra-média. Se isso, eles estavam
apenas retardando o inevitável, que era o propósito destinado aos
Anéis, de qualquer forma.

Ponto 2: os Elfos não podem permanecer na Terra-média

Os Elfos estavam partindo da Terra-média há eras. A catástrofe para
eles na Terceira Era era bastante diferente daquelas de eras
anteriores. Quando os Eldar originalmente navegaram sobre o Mar fora
sob o convite dos Valar, que haviam encontrado os Elfos em sua terra
natal de Cuiviénen. Mas os Elfos foram incomodados por Melkor, que
então era, de fato, governante damaior parte de Arda. Os Valar travaram
uma terrível guerra contra Melkor e seus servidores Maiar e seres
criados, tomaram-no prisioneiro e trouxeram um fim ao seu terrível
reino. Mas desejando estar em companhia dos Elfos [cuja chegada havia
sido antecipada através de incontáveis eras], e para proporcionar a
eles um lugar seguro além do alcance dos servidores de Melkor, os Valar
chamaram os Elfos para viverem com eles em Aman, o Extremo Oeste.

Nem todos os Elfos estavam querendo deixar a Terra-média, que era sua
terra natal e o único lugar que eles conheciam. E daqueles Elfos que
aceitaram os chamados, muitos nunca cruzaram [vivos] o Mar. Ainda, as
primeiras ondas de migração para fora da Terra-média foram "saudáveis",
ou feitas quando os Elfos era jovens e fortes e ainda não estavam
cansados do mundo. tampouco eles estavam profundamente envolvidos na
Terra-média.

Quando Feanor se rebelou contra os Valar, ele
liderou a maior parte dos Noldor de volta à Terra-média [ou, melhor,
liderou a maioria deles para fora de Eldamar, e então abandonou a maior
parte de seu povo, a maioria dos quais decidiu seguir Fingolfin para a
Terra-média]. Destes exilados, a vasta maioria [e seus descendentes]
foram mortos ou escravizados por Melkor, que agora retornara à
Terra-média como um Senhor Negro. os espíritos destes Elfos mortos
retornaram a Aman onde esperaram um "renascimento" ou "reincorporação",
se tal recompensa pudesse ser merecida por seus feitos em vida.

Para os restantes, uma terrível maldição foi imposta. Não a Maldição
dos Noldor, que foi a maldição que os valar colocaram sobre eles, que
fracassassem na guerra contra Melkor. Especialmente, a eles foi dito
que "aqueles que permanecessem na Terra-média deverão cansar-se do
mundo com uma grande aflição, e deverão declinar, e tornar-se como
sombras de pesar antes da raça mais jovem que virá depois."
[Silmarillion, "Da Fuga dos Noldor"]

Esta maldição foi
aplicada, na realidade, a todos os Elfos, e foi, talvez, mais um aviso
do que um julgamente. Ao descrever os eventos da Segunda Era para
Milton Waldman [um editor que considerara O Senhor dos Anéis a certo
momento quando Tolkien tinha retirado o livro da Allen & Unwin],
JRRT escreveu "os três temas principais são A Demora dos Elfos que
hesitavam em deixar a Terra-média; o crescimento de Sauron como um novo
Senhor Negro, mestre e deus de Homens; e Numenor-Atlantis."

Após a derrota final de Morgoth na Guerra da Fúria, Eonwë [arauto de
Manwë e líder da Hoste de Valinor] viajou por toda a Terra-média,
convocando todos os Elfos mais uma vez para navegarem sobre o Mar. O
convite que anteriormente havia sido retirado, para incluir apenas os
Eldar [os Elfos originais que realmente aceitaram as convocaçoes na
primeira vez] foi agora extendido a TODOS os Elfos. Muitos dos Noldor e
Sindar de Beleriand sobreviventes responderam e deixaram a Terra-média.
Mas os remanescentes Noldor e Sindar uniram-se aos Nandor e Avari na
Terra-média. Eles "hesitaram".

Tolkien aponta que "no
primeiro [tema da Segunda Era] nós vemos uma espécie de queda ou pelo
menos "erro" dos Elfos. Não existe nada essencialmente errado em suas
hesitações em atender ao conselho, permanecendo tristemente nas terras
mortais de seus antigos feitos heróicos. mas eles queriam ter seu bolo
sem comê-lo. Queriam a paz e a bem-aventurança e memória perfeita do
"Oeste", e mesmo assim permanecer na terra ordinária onde seu prestígio
como o povo maior, sobre Elfos da florestas, Anões e Homens era maior
do que estar na base da hierarquia de Valinor. Eles então tornaram-se
obcecados com o "esvair-se", o modo pelo qual as mudanças do tempo [a
lei do mundo mortal sob o sol] eram sentidas por eles. Eles tornaram-se
tristes, e suas artes [poderíamos dizer] de antiquários, e seus
esforços eram todos uma espécie de embalsamação – mesmo que eles também
tenham mantido a antiga razão de sua espécie que eram o adorno da terra
e a cura de seus ferimentos…." [Ibid.]

Em outro lugar Tolkien reitera esta situação dizendo "os
Elfos não são completamente bons ou corretos. Não tanto por terem se
envolvido com Sauron quanto que com ou sem sua assistência eles eram
"embalsamadores"
. Eles queriam ter seu bolo e comê-lo: viver na
Terra-média mortal e histórica porque haviam se tornado apreciadores
dela [e talvez porque eles ali tinham as vantagens de uma casta
superior] e então tentaram parar suas madanças e história, parar seu
crescimento, mantê-la como um prazer, mesmo que na maior parte um
deserto, onde poderiam ser "artistas" – e eles foram sobrecarregados
com tristeza e pesar nostálgico…." [Letters, No. 154]

Sauron também hesitou na Terra-média. Tendo visto a completa derrota de
Morgoth, ele realmente se arrependeu [de acordo com Tolkien]. vendo que
os poderes da Luz realmente suplantavam o poder da Escuridão, ele
percebeu que talvez suas escolhas anteriores não eram as corretas para
ele. Mas quando Eonwë convocou-o para valinor para ser julgado pelo
Valar, Sauron recusou, e ele fugiu para esconder-se no exílio. Ou ele
temeu que poderia sofrer o mesmo destino de Melkor [que foi executado e
forçado a deixar Ea, o universo, em um estado de fraqueza terrível] ou
que ele poderia ser aprisionado por algum período de tempo
interminavelmente longo.

O Sauron "reformado" em um primeiro
momento desejou apenas ajudar a curar a terra que ele originalmente
havia auxiliado a danificar. Tolkien aponta que "seus motivos e aqueles dos Elfos pareciam caminhar parcialmente juntos: a cura das terras desoladas." [Letters, No. 131]
Mas as intenções de Sauron mudaram, e a certo tempo ele decidiu que ele
poderia "curar" melhor as terras direcionando os esforços dos Elfos, e
este tornou-se em última instância um desejo por dominação sobre os
Elfos [e através deles, sobre a Terra-média].

E então Sauron "encontrou
o ponto fraco [dos Elfos] sugerindo que, ajudando-se mutuamente, eles
poderiam fazer a Terra-média Ocidental tão bela quando Valinor. Foi
realmente um ataque velado aos deuses, um incitamento a tentar e fazer
um paraíso separado e independente. Goilgalad [sic] recusou todas as
sondagens, bem como Elrond. Mas em Eregion um grande trabalho fora
iniciado – e os Elfos chegaram o mais próximo de caírem para a "magia"
e maquinaria. Com a ajuda do conhecimento de Sauron eles fizeram os
Anéis de Poder…." [Ibid.]

Em essência, Sauron estava dizendo, "Vocês
não precisam esvair-se. Vocês não precisam navegar por sobre o Mar.
Vocês podem recriar Valinor aqui na Terra-média e usufruir todos os
benefícios que ela tem a oferecer a vocês."
A oferta era por demais
tentadora para alguns Elfos, os Noldor de Eregion. Sauron [disfarçado
de Annatar, ou Aulendil, um Maia do próprio povo de Aulë em Valinor]
estava oferecendo aos Eldar uma chance de evitar a inevitável maldição
que fora decretada para eles.

Mas o que Tolkien quis dizer quando ele fala "os Elfos chegaram o mais próximo de caírem para a "magia" e maquinaria"?

Ponto 3: Arte versus Magia

Tolkien tentou explicar seu uso de "magia" em mais de uma ocasião, e
nem sempre foi bem sucedido. "Temo que eu tenha sido muito casual sobre
"magia" eespecialmente o uso da palavra," ele escreveu em um rascunho
de complemento de uma carta que nunca foi enviado [Letters, No. 155].
"Apesar de Galadriel e outros mostrarem pela crítica ao uso "mortal" da
palavras, o pensamento sobre isto não é geralmente casual."

Em sua carta a Milton Waldman, Tolkien tentou explicar Arte e a Máquina
falando de "Queda, Mortalidade e Máquina." A história é relacionada com
"Queda inevitável, e esta ocorre de muitas maneiras. Com a Mortalidade,
especialmente como afeta a arte e a desejo criativo [quero dizer,
sub-criativo] que parece não ter função biológica, e estar à parte das
satisfações da vida ordinária comum, com a qual, em nosso mundo, está
de fato usualmente em conflito.

O desejo é imediatamente
unido a um amor apaixonado pelo mundo primário real, e então preenchido
com o senso da mortalidade e insatisfeito por ele. Existem várias
oportunidades de "Queda". Pode tornar-se possessivo, agarrado a coisas
feitas "por si mesmo", o sub-criador deseja ser Senhor e Deus de sua
criação particular. Ele irá se rebelar contra as leis do Criador -
especialmente contra a mortalidade. Ambos estes motivos [separados ou
juntos] irão conduzir a um desejo de Poder, para fazer a vontade mais
rapidamente efetiva – e então para a Máquina [ou Magia]. Mas ao final
eu pretendi que todo o uso de planos externos ou dispositivos
[apparatus] ao contrário do desenvolvimento de poderes inerentes ou
talentos – ou mesmo o uso desses talentos com o motivo corrompido de
dominar: amedrontando o mundo real, ou coagindo outras vontades. A
Máquina é nossa mais óbvia forma moderna apesar de mais próxima à Magia
do que normalmente reconhecido."

Tolkien continua para ceder
novamente [ou, de fato, anterior à sua concessão acima] que "Eu não
usei "magia" consistentemente, e realmente a Rainha Élfica Galadriel é
obrigada a advertir os Hobbits pelo seu uso confuso da palavra tanto
para os dispositivos e operações do Inimigo quanto para aqueles dos
Elfos. Eu não usei consistentemente porque não existe uma palavra para
a última [uma vez que todas as histórias humanas sofrem da mesma
confusão]. Mas os Elfos estão lá [em meus contos] para demonstrar a
diferença. Sua "mágica" é Arte, livre de muitas de suas limitações
humanas: exige menos esforço, é mais rápida, mais completa [produto e
visão em correspondência sem falhas]. E seu objetivo é Arte não Poder,
sub-criação não dominação e tirânica transformação da Criação. Os
"Elfos" são "imortais", pelo menos tão longe quanto este mundo dure: e
portanto são preocupados especialmente com os pesares e aflições da
imortalidade no tempo e nas mudanças, do que com a morte. O Inimigo em
sucessivas formas está sempre "naturalmente" preocupado com a Dominação
absoluta, e portanto é o Senhor da magia e das máquinas; mas o
problemas: o que este terrível mal pode e faz surgir de uma raiz
aparentemente boa para beneficiar o mundo e os outros – rapidamente e
de acordo com os próprios planos do benfeitor – é um motivo recorrente."

Arte então faz uso do mundo natural, e desenvolve suas tendências
naturais, enquanto que a Máquina impões uma vontade externa [não
natural] sobre o mundo, ou outras vontades. Tolkien aponta que os Elfos
de Eregion "chegaram o mais próximo de cair para a "magia" e
maquinaria." Ao criar os Anéis de Poder, eles usaram suas Artes para
criar uma Máquina, mas era uma Máquina que eles pretendiam utilizar
apenas para preservação, não alteração. Em todo caso, a contenção do
Tempo é uma ação muito séria, contrária às leis da natureza. É um ato
de rebelião "contra as leis do Criador".

Os Anéis de Poder
são, dessa forma, um paradoxo: eles proporcionam cura e restauração,
mas também uma preservação não natural. O motivo final por detrás dos
Anéis, reduzir ou evitar o inevitável esvair-se que os Elfos deveriam
sofrer, e um motivo rebelde. Os dispositivos são externos aos ambientes
que eles controlam, e os Elfos [de Eregion] não perceberam de início o
erro que estavam cometendo. Eles pagaram um terrível preço por sua
tolice. Sauron destruiu seu reino e tomou a maior parte dos Anéis para
si próprio, quando ele percebeu que seu plano para controlar os Elfos
através dos Anéis não funcionara. Deve ser enfatizado que a maioria dos
aspectos de Máquina presente nos Anéis derivam de Sauron, porque a
intenção de utilizá-los para controlar outros seres era estritamente
dele próprio.

A combinação de Arte e Magia é ao mesmo tempo
poderosa e destrutiva para os Elfos. Eles alcançaram uma pequena porção
de seu objetivo final, mas as coisas realmente nunca funcionaram como
eles pretendiam.

Ponto 4: O Produto de Arte e Máquina

Quando Sauron tomou os Sete e os Nove, Tolkien escreveu, ele retornou a
Mordor [de fato, ele foi eventualmente rechaçado para Mordor pelos
Eldar de Lindon e seus aliados Numenorianos, que a este tempo não
tinham idéia do motivo da guerra]. Lá Sauron "perverteu" os Anéis, e
ele os deu aos Anões e Homens em um novo plano pretendendo extender a
influência de Sauron sobre estas raças assim como ele pretendia
utilizá-los para controlar os Elfos.

Tolkien não diz
exatamente como Sauron perverteu os Anéis, mas seu objetivo final era
criar poderosos senhores que seriam seus escravos. Os Nove funcionaram
perfeitamente, e os nove homens que aceitaram os Anéis os utilizaram
para se tornarem grandes senhores, mas eventualmente perderam seus
livre-arbítrios e seus corpos. Eles se tornaram espectros, para sempre
invisíveis e incapazes de interagir diretamente com o mundo exceto
através de alguma forma de procedimento pela qual poderiam tomar forma
quando utilizando certas vestimentas. Eram vestimentas naturais ou
mágicas? Não sabemos.

Mas como os Nove e os Sete eram
imbuídos com as habilidades de fazer seus portadores invisíveis ou
permitir que vissem normalmente coisas invisíveis [presumivelmente
espectros, os espíritos de outros seres], segue que Sauron utilizou
estas habilidade para garantir poderes de necromancia [a prática de
comunicar-se ou controlar os mortos] aos portadores dos Anéis. Tolkien
não fala de qualquer Anão que tenha praticado necromancia. De fato, os
Anéis não podiam deixar os Anões invisíveis. parece que, portanto, os
Anéis não ofereciam nada de valor aos Anões em termos de lidar com os
mortos. Seus espíritos não devem se demorar na Terra-média quando eles
morrem.

Os Elfos, por outro lado, nem sempre iam
imediatamente para Mandos em Aman quando morriam [ou se esvaiam]. Eles
poderiam recusar os chamados, abandonando qualquer esperança de reobter
um corpo físico. Dessa forma faz sentido que Sauron tenha induzido os
Elfos de Eregion a incluir poderes Necromânticos em seus Anéis. Em
Aman, os Elfos estavam acostumados a viver junto aos Valar e Maiar, que
poderiam aparecer a eles em uma forma física ou em forma "espíritual"
[e os Valar e Maiar podiam controlar se seriam percebidos pelos Elfos,
quando em forma de espírito].

Espíritos Élficos podem não ser
equivalentes aos dos Valar e Maiar, mas presumivelmente os Elfos
esperavam falar com Mamãe e Papai na ocasião, desde que não tivessem
ido rapidamente para Aman quando da morte de seus corpos. Ou pode ser
que o processo de esvair-se já tivesse se iniciado ou os Elfos estavam
antecipando uma rápida transição para aos Anos do Esvair-se.

Quem seria mais provável para esvair-se? Um Elfo antigo,
presumivelmente. E quanto mais antigo o Elfo, mais provavelmente teria
vivido em Valinor [se fosse Noldor] ou ter vivido em Cuivienen. Ele ou
ela poderiam ser a cabeça de uma família. Então os Anéis de Poder foram
provavelmente criados para vários senhores Élficos, príncipes e reis.
Os Elfos mais novos, nascidos na Terra-média – mesmo na Segunda Era -
poderiam ou ter que esperar sua vez ou poderiam esperar que os Anéis os
pudessem ajudar também.

Quando Gandalf estava discutindo a
confrontação com os Nazgul no Vau de Bruinen com Frodo, Frodo
perguntou-lhe se a figura brilhante que ele vira era Glorfindel. "Sim,"
Gandalf respondeu. "Você o viu por um momento como ele é no outro lado:
um dos mais poderosos dos Primogênitos. Ele é um senhor Élfico de uma
casa de príncipes."
Um pouco antes na mesma conversa, Gandalf também aponta que Valfenda era uma casa para "os
sábios Élficos, senhores dos Eldar de além do mais distante dos mares.
Eles não temem os Espectros do Anel, pois aqueles que moraram no Reino
Abençoado vivem ao mesmo tempo em ambos os mundos, e tanto contra o
Visível como contra o Invisível eles possuem grande poder."

Desta forma, talvez os Anéis não necessartiamente seriam para os Elfos
que tinham vivido em Aman. Preferencialmente os Anéis podem ter sido
destinados a seus jovens filhos ou sobrinhos, Elfos que nasceram na
Terra-média, que não aprenderam a viver "ao mesmo tempo nos dois
mundos".

Deve ter sido importante para os Elfos possuir tal
habilidade, e talvez significasse que eles seriam menos propensos a se
esvair, uma vez que ele seriam capazes de se mover entre os dois
mundos, por assim dizer. Não se mover fisicamente, mas via suas
vontades. Eles deveriam ser capazes de perceber e interagir com
espíritos desimcorporados [espectros] em Aman, e desejariam fazer o
mesmo na Terra-média.

A interação deve ter incluído "fazer as
coisas "do mundo invisível visíveis". Poderiam os poderes restauradores
dos Anéis trazer um Elfos de volta à vida? Os Anéis poderiam ser usados
para dar aos Elfos novos corpos? Ou podiam ser utilizados simplesmente
para fazer espectros-Élficos visíveis a todos? No "Conto de Aragorn e
Arwen" Aragorn brevemenre imagina que "ele festivera tendo um sonho, ou
recebera o dom dos menestréis Élficos, que poderiam fazer as coisas que
cantavam aparecerem diante dos olhos daqueles que ouviam."

Algo desta habilidade é também colhida no conto do duelo de feitiçaria
de Finrod com Sauron na forteleza de Tol Sirion. Finrod cantou sobre
sua vida em Valinor, mas sua música se voltou contra ele quando foi
obrigado a cantar sobre o Fratricídio, e Sauron foi capaz de capitazar
a culpa e o retorno de Finrod [embora Finrod não tenha pessoalmente
participado do Fratricídio]. Esta habilidade de criar imagens visíveis
com o poder da música implica que os Elfos, com um grande esforço em
direção à Máquina, poderiam perverter sua Arte [ou pelo menos fazer mau
uso dela] para criar coisas visíveis a partir do mundo invisível.
Sauron pode ter preciso dar uma pequena ajuda a eles.

Celebrimbor fez os Três Anéis por ele mesmo, e estes Anéis não
conferiam invisibilidade a seus portadores. Presumivelmente eles não
faziam coisas invisíveis visíveis, tampouco. Os Três eram, portanto,
mais concordantes com a descrição de Elrond dos Poderes dos Anéis.

Mas continua a não responder a questão de como os Anéis trabalhavam.
Porque todos os Hobbits do Condado [ou pelo menos da Vila dos Hobbits]
não sofreram os efeitos do Um Anel?
 
 
Ponto 5: Usando a Máquina através da Arte

A resposta parece ser uma questão de vontade. Tolkien escreveu que os
Três Anéis efetivamente continham o Tempo mesmo quando não era
ativamente utilizados. Então, durante a Segunda Era, os Elfos de Lindon
aproveitaram os benefícios pretendidos para os Elfos de Eregion mesmo
não ousando usar nenhum dos Anéis. Celebrimbor deve portanto ter
conferido aos Três a habilidade natural de verdadeiramente extender
seus poderes sobre uma região. O campo de efeito não pode ser medido em
milhas, contudo, mas antes em pessoas e objetos. Isto é para dizer que
se alguém estivesse usando um dos Três, ele [ou ela] poderia ser capaz
de decidir que todos os Mallorn e todos os Elfos seriam preservados. Os
efeitos poderiam ser de alguma forma randômicos se os Anéis não fossem
ativamente usados.

Desta forma, gandalf poderia
intencionalmente reter os efeitos de contenção de tempo de Narya, o
Anel de Fogo que Cirdan lhe deu. Ou Gandalf poderia deixar que o Anel
afetasse apenas os Elfos. Cirdan disse que o Anel estava inativo quando
o deu a Gandalf, então aparentemente ele não o estava usando o Anel e
direcionando seus benefícios. Gandalf, então, nao precisaria usar Narya
usar Narya para conter o processo de esvair-se para ninguém [incluindo
a si mesmo, embora ele não corresse risco de esvair-se].

Elrond e Galadriel podem ter pego uma pista de Cirdan. Gil-galad
originalmente possuía tanto Vilya quanto Narya, e os deu a Elrond e
Cirdan perto do final da Segunda Era [talvez tendo um pouco de visão
sobre sua batalha final contrea Sauron]. Celebrimbor parece ter dado o
Anel a Galadriel.

Uma vez que Elrond e Cirdan aconselharam
Isildur a destruir o Um Anel quando Isildur o cortou da mão de Sauron,
parece estranho que eles simplesmente tenham voltado para casa e
começado a utilizar seus Anéis de Poder no mesmo momento. Talvez eles
tenham tomado seus Anéis quando compreenderam que Isildur e o Um Anel
se perderam. Mas também pode ser que os tr6es portadores tenham
mantidos seus Anéis inativos por pelo menos mil anos.

Então
Gandalf apareceu, Cirdan lhe deu Narya, e o gênio foi tirado da
garrafa. Elrond pode ter começado a usar Vilya antes, uma vez que ele
reunira muitos Alto Elfos [Noldor] em e ao redor de Valfenda. Ele
poderia ter tido em suas mãos uma porção de Elfos se esvaindo. Tolkien
não diz quando foi que os compreenderam que Elrond portava um dos
Anéis, mas parecem ter sabido isso ao final da Terceira Era. Se
lentamente o fato de que alguém não se esvaia se permanecesse em ou
perto de Valfenda se espalhava, poderia ser um sinal de que um dos Três
era mantido ali.

Muito do mesmo poderia ser verdade para
Galadriel. Ela poderia ter chegado em Lorien e oferecido para guardar
os Elfos da Floresta de se esvaírem. Eles devem ter sabido sobre os
Anéis do Poder então. Eles haviam perdido um rei, o pai de Amroth, na
guerra contra Sauron ao final da Segunda Era. E Amroth ajudara Elrond
mais de uma vez nas guerras contra Angmar. Haldir especificamente se
refere ao "poder da Senhora dos Galadrim" quando Sam menciona que se
sentia "como se dentro de uma música". Haldir parecia saber que
Galadriel estava usando um Anel. Ele pode não ter falado abertamente,
mas tanto Elrond quanto Galadriel indicavam que todos os Elfos estavam,
unidos na crença de que seria melhor perder os Três do que permitir ao
Um continuar existindo. Muitos Elfos, então, deve ter tido uma idéia
bastante boa de onde Vilya e Nenya estavam escondidos.

Mas se
os Anéis podiam ser direcionados concientemente, tanto para extender a
certos limites ou para trabalhar apenas em certas criaturas e plantas,
então faz sentido que existisse um limite físico para o poder dos Três.
No ponto em que a Sociedade do Anel penetrou no domínio do poder de
Galadriel, e este poderia ou não ser coincidente com as fronteiras
físicas de Lorien [de fato, uma vez que os Elfos retiraram-se para o
interior da florestas, poderia ser que a extensão da influência de
Nenya era consideravelmente menor que os limites da floresta].

Círculo Completo: Os Anéis, Tempo e Espectros

Então, porque o Condado não se beneficiou da presença do Um Anel?
Provavelmente porque apenas os Três agiam de alguma forma geográfica, e
embora o Um possuísse os poderes dos outros Anéis, ele pode não ter
possuído o alcance dos Três Anéis porque Sauron não estava presente
quando Celebrimbor os fez. Sauron mesmo não teria um motivo real para
criar uma valinor na Terra-média, então porque usar o Um Anel para
conter a decad6encia ao redor dele? Por outro lado, Smeagol, Bilbo e
Frodo todos ficaram sem usar o Um Anel por longos períodos de tempo.
Então ele, também, deveria ter um alcance geográfico mínimo que era,
talvez, mais ajustado a quem possuía o Anel do que qualquer outra coisa.

Os Anéis não continham realmente o tempo. Eles apenas diminuiam o seu
impacto em um corpo biológico. Para alguma coisa como uma árvore, que
não tinha espírito [Ents e Hurons não são considerados], nao existia
dano real. Um animal, de qualquer forma inteligente, também poderia se
beneficiar dos efeitos dos Anéis porque eles não possuíam um espírito.
Um Elfo, cujo espírito estava destinado a permanecer em Arda até o
final do Tempo, não se sentiria esticado, como Bilbo bem colocou.

O problema para "mortais" era que seus espíritos desejavam ir para
outro lugar. Após um certo período de tempo, Homens mortais tinham que
morrer. Eles tinham que abrir mão de seus espíritos. Um Anel de Poder
obstruía essa tendência natural. O corpo poderia continuar vivendo,
funcionando da mesma forma como no dia em que veio a possuir o Anel.
Mas o espírito estaria constantantemente se esforçando para partir.
Então, a luta entre espírito e corpo [ou espírito e Anel] deve produzir
a sensação de "esticamento" da qual Bilbo se queixou. Ele não estava
fisicamente esticado, mas dividido entre forças poderosas.

Dessa forma, quando Sauron perverteu os Sete e os Nove, ele deve ter
alterados suas tendências naturais de preservação para obter o efeito
oposto. Os Nove portadores não se tornaram espectros poque usaram os
Anéis, mas porque os possuíram. A utilização dos Anéis pode ter
acelerado o processo de esvair-se, mas provavelmente qualquer Elfo que
pudesse ter tomado um dos Nove ou Sete alterados teria se esvaído
também, e se tornado tão escravizado quanto os nove Homem eventualmente
se tornaram.

Pessoas frequentemente perguntam se um homem se
esvairia se possuísse um dos Três. Eu não acredito nisso. Eu acho que
ele apenas continuaria, dia após dia, e eventualmente perderia a conta
do tempo. Ele poderia ver o sol passar sobre sua cabeça, e talvez
notasse as fases da lua [embora a Sociedade do Anel não as tivesse
notado enquanto estavam em Lórien]. Mas para ele o tempo se tornaria,
eventualmente, uma armadilha. Seu corpo não ficaria mais velho. Ele
apenas viveria e viveria e viveria, e a vida se tornaria um tormento
constante para ele, porque ele estaria sempre em conflito com sua
própria natureza.

O mundo se arrastaria para tal alma
desafortunada, que poderia, no final das contas, não sentir nada a não
ser um profundo desejo de libertação de seu tormento.

Estratégias de Sauron – Passos para a Derrota (Parte I)

Sun Tzu  nos aponta as vantagens da estratégia de "dividir e conquistar", mas ele também pregava o uso da força massiva e devastadora sempre que for possível. A arte da guerra com certeza é uma arte, já que os dois lados de qualquer guerra tem o potencial de crescer e se adaptar. Uma das notáveis qualidades da história da Terra-Média é a mutabilidade de Sauron. Ele altera suas estratégias.
 

 

Na Primeira Era, Sauron era apenas mais um dos capitães servindo Morgoth. O posto de Sauron nunca é realmente explorado. Nós lemos muito mais sobre a sua habilidade de destroçar inimigos, e sua disposição em entrar em combate mano-a-mano à um risco considerável à si mesmo. Já Morgoth, por outro lado, se mantinha sobre altos e impressionante números. Parece que a fraqueza perpétua de Morgoth é que ele confunde números com força.

Com certeza, Morgoth conseguiu algumas vitórias. Em fato, ele destruiu a civilização Eldarin em Beleriand e reduziu os anões de Nogrod e Belegost à alguns poucos sobreviventes. Mas Morgoth não percebeu o grande lance. Enquanto ele se divertia no norte com os Noldor, a maior parte da Terra-Média escapou de sua atenção. Os Valar tomaram vantagem do intenso interesse de Morgoth por Beleriand para isolá-lo aí e infringir a derrota final sobre ele.

Como consequência da Guerra da Ira, Morgoth foi capturado e suas forças foram reduzidas a provavelmente nada mais que alguns Orcs, Trolls e Homens vagabundos. Provavelmente, somente alguns poucos Maiar corrompidos escaparam, e pelo menos um casal de dragões alados (já que uma população crescente de dragões sobreviveram pela Terceira Era em diante). Dos Maiar, podemos ter certeza que dois desses eram Sauron e o Balrog de Khazad-Dûm. O Balrog se distanciou de qualquer complicação social por mais de 5000 anos.

Sauron, por sua vez, foi aparentemente perdoado. "Dos anéis do poder e da Terceira Era" (publicado no Silmarillion) nos diz que Sauron "voltou a assumir sua bela aparência, prestou votos de obediência à Eönwë, arauto de Manwë, e repudiou todos os seus atos maléficos." Mas Eönwë não pode perdoar Sauron, e o comandou a retornar à Valinor para aguardar o julgamento de Manwë. Com isso Sauron não consentiu, e continuou na Terra-Média enquanto Eönwë retornava para o Oeste.

Pelas próximas 5 ou 6 centenas de anos, Sauron sumiu da história. Não é provável que Sauron dormiu assim como o Balrog fez, se enrolando debaixo de uma conveniente montanha gigante e sonhando com os festejos passados pelos próximos milênios. Provavelmente, Sauron fugiu até o extremo leste da Terra-Média e ali ele fez qualquer coisa, como plantar um jardim ou fundar um monastério para ensinar aos Homens, Anões e Elfos o Caminho da Paz. O que quer que ele tenha feito, depois de algumas centenas de anos Sauron percebeu que aquilo não ia dar certo – ou então que ele poderia lidar com qualquer tipo de situação, então lançou uma nova iniciativa.

O perigo gradual de Sauron não passou despercebido nos assuntos da Terra-Média, e pode ser o catalisador da migração oriental dos Sindar. Tolkien observou que, "vendo a desolação do mundo, Sauron concluiu em seu íntimo que os Valar, tendo destronado Morgoth, tinham mais uma vez se esquecido da Terra-Média, e seu orgulho cresceu rapidamente".

No ensaio chamado "notas nos motivos do Silmarillion" (publicado no HoME: Morgoths Ring), Tolkien escreveu: "[Sauron] não tinha oposições à existência do mundo, já que podia fazer o que quisesse com ele. Ele ainda tinha resquícios de boa vontade, que descendiam da bondade em que foi criado: era sua virtude (e então também a causa de suas duas derrotas) que ele amava ordem e coordenação, e odiava todo tipo de confusão e confrontos inúteis."

Sauron acreditava fundamentalmente que ele poderia colocar o mundo em ordem, trazendo-o do caos que as guerras entre Morgoth, os Valar e os Eldar criaram, e restaurá-lo à sua antiga forma. Mas, por causa de seu orgulho, "seus planos… viraram o único objeto de sua vontade" (ibidem). Sauron se concentrou em trazer ordem ao mundo, esquecendo-se o porque de trazer ordem a este.

Ele claramente via os Elfos como instrumentos potenciais de sua vontade. Eles tinham as habilidades sub-criativas de transformar o mundo em grandes proporções de uma maneria que outras raças, como os Homens, não conseguiam. Anões parecem não ter aparecido nos desígnios de Sauron, e pode ser tanto culpa da desinformação, por parte de Sauron, sobre eles (tal perspectiva é reforçada pelo fato que Sauron falhou em converter os Anões em Espectros do Anel) ou sobre suas habilidades (embora tenhamos muita pouca informação sobre a capacidade dos anões para compará-los com os Elfos desta maneira).

De qualquer jeito, Sauron começou organizando o remanescente das criaturas de Morgoth. Seria fácil para ele recrutá-los para seu serviço – ele os conhecia bem e eles provavelmente se lembravam dele – mas ele pareceu ter trabalhado lentamente no começo. Gil-galad suspeitou que um servo de Morgoth estava organizando um exército no leste antes do ano 1000 da Segunda Era.

Ele recrutou Anardil, príncipe de Númenor, para servir como embaixador dos homens vivendo no norte e oeste da Terra-Média. Até este ponto, Gil-Galad pareceu ter tentado coletar informação e construir amizade com povos se movendo para perto de seu reino, que fica nas terras costeiras do noroeste da Terra-Média, no último remanescente de Beleriand. As atividades de Anardil na Terra-Média, e a presença crescente dos Numenoreanos nas praias (através de viagens exploradoras e colônias temporárias como Vinyalondë) induziram Sauron a escolher uma base de operações permanente perto do ano 1000.

Podemos deduzir do assentamento em Mordor que Sauron não teve uma base segura permanente no leste. Ele deve ter tido uma ou mais fortalvezas de onde ele dirigia seu crescente império, mas ele aparentemente acreditava que ele tinha que estar mais perto das terras orientais para planejar e implementar uma nova estratégia. Esta estratégia foi criada em base da esperança de induzir os Eldar a aceitá-lo como um professor e guia. Então, ou ele inicialmente populou Mordor com servos inofensivos aos olhos dos Eldar, ou então suprimiu o conhecimento de sua presença na região.

As missões diplomáticas de Sauron com os Eldar parecem ter ocorrido no breve período de um ano. A entrada para 1200 na Segunda Era do "Conto dos Anos" (Apêndice B do Senhor dos Anéis) diz: "Sauron tenta seduzir os eldar. Gil-Galad se recusa a fazer acordo com ele, mas os ferreiros de Eregion passam para o seu lado." Ele provavelmente nunca visitou outros reinos élficos, onde os eldar eram poucos ou então tinham adotado os costumes bárb
aros dos elfos Silvan. Claramente, Sauron queria atingir o coração do poderio élfico.

Já que seu objetivo era impor uma ordem no mundo (presumivelmente para reparar os machucados feitos pela guerra em Beleriand, e para eliminar ou reduzir o caos que sobreveio ao regime de Morgoth no final da Primeira Era), Sauron tinha que atrair o desejo interior dos eldar de trazer ordem ao seu mundo. Ao ver de Tolkien, os Elfos "queriam ter o bolo só para eles". Ou, mais precisamente, os eldar "queriam a paz e tranquilidade refletidos numa cópia perfeita do Oeste, e ainda por cima continuar a terra ordinária onde seu prestígio como pessoas superiores, acima de elfos selvagens, homens e anões, era bem maior que a base da hierarquia de Valinor." (Letters of JRR Tolkien, Letter 131)

Então, logo cedo, o desejo de Sauron de dominar a Terra-Média foi rivalizado pelo desejo crescente dos eldar de adquirir um status similar. Os dois procuravam controle e influência. Ao invés de criar uma guerra logo de cara, porém, Sauron preferiu trazer os eldar em sua comunidade com pretextos. Ao recorrer as suas qualidades, ele acreditava que podia tirar proveito de suas vulnerabilidades. Mas, realmente existia uma vulnerabilidade? Poderia Sauron enganar os elfos?

Provavelmente não mais do que ele fez. Isto é, Sauron parece ter subestimado os poderes perceptivos dos eldar. Ele não percebeu que os ferreiros élficos tinham consciência de seus atos, quando ele criou o Um Anel e o colocou em seu dedo. Neste momento, os elfos o perceberam, entenderam sua natureza e seus planos, e removeram seus anéis. Sauron nunca teve a oportunidade de influênciá-los como queria.

Eu às vezes me pergunto porque levou quase 100 anos deste ponto (1600 da Segunda Era) para Sauron lançar a guerra com os eldar. Parece que ele simplesmente esperou os eldar e numenoreanos construirem suas defesas. Mas é mais provável que Sauron não tinha o poder de lançar uma campanha massiva conhtra o Oeste. Ele conhecia muito bem as capacidades dos eldar. Sauron lutou contra eles em Beleriand, e testemunhou mais que uma vitória élfica contra números extremamente altos.

Os 90 anos de preparação para a guerra com os elfos proveu tempo para Sauron aumentar as habilidades de sua infantaria órquica, mas também o deu tempo o suficiente para ele aprender a usar seu Um Anel para ganhar melhor controle sobre seus servos. Sauron deve ter usado seu Anel para estender sua influência em muitas pessoas ao mesmo tempo, mas é aparente, vendo os resultados do resultados, que ele não controlava totalmente a Terra-Média oriental. Ele trabalhava com recursos limitados.

Os orcs foram derrotados nas terras do norte por uma aliança de homens e anões no começo da Segunda Era. Se Mordor fosse a única região onde os Orcs viviam no ano de 1500, eles não seriam muito numerosos. As preocupações com os eldar de Eregion por cerca de 1200 a 1500 sugerem que ele prestou pouca atenção aos orcs. Eles podem ter sustentado seus números mas não foi permitido a eles aumentar seu número a um ponto em que chegariam a ser incontroláveis. Isto é, a estratégia de Sauron naquele momento não era a de lançar hordas de orcs sobre o mundo. Podemos ter uma certeza razoável disso porque ele não lançou uma invasão imediata no norte em 1600.

Se os orcs levaram 90 anos para aumentar seus números, será que Sauron utilizou este tempo para fazer contatos com outros povos? Por exemplo, como ele ganhou a confiança dos terrapardenses, especialmente esses vivendo no Enedwaith e Minhiriath? Esses homens ajudaram Sauron durante a guerra, mas eles simplesmente se juntaram a ele quando viram o estandarte de seu bando de orcs, ou será que Sauron se demorou entre eles, ganhando sua lealdade e brincando com seus medos e ressentimentos. Os terrapardenses sentiam-se ameaçados pelas colônias numenoreanas e suas indústrias de madeira. Eles invadiam as terras numenoreanas desde que Anardil (Tar-Aldarion) primeiramente construiu Vinyalondë nos últimos 800.

90 anos também proveram a Sauron tempo para explorar as terras a leste das Montanhas Nevoentas. No "The Peoples of Middle-Earth" (Povos da Terra-Média) nos dizem que Sauron acabou com as terras dos povos edain que viviam nos vales do Anduin e a leste da Floresta das Trevas, trazendo à vida a sua antiga aliança com os anões Barba-Comprida. Seu objetivo ao lançar a guerra parece ter sido destruir as resistências à seu reinado na Terra-Média. Não seria suficiente para Sauron controlar Eregion e os Anéis do Poder. Ele queria eliminar todos os possíveis rivais do poder.

Por conseguinte, os Anões Barba-Comprida foram uma ameaça considerável para os planos de Sauron. Seu reino foi reforçado no começo da Segunda Era por um influxo de anões vindos de Ered Luin. A maioria destes eram anões de Belegost, aliados dos Eldar em Beleriand e inimigos de Morgoth. Khazad-dûm, a cidade principal dos Barba-Comprida, mantinham uma rota vital de suprimento e reforço entre Eregion e os vales do Anduin. Um comércio considerável deve ter sido feito pelas mãos destes anões. Mas o mais importante, os Barba-Comprida eram o poder central do império anão. Eles eram os guardiões de Gundabad, onde o povo anão viveu por incontáveis anos.

Se os Eldar eram uma ameaça ao controle de Sauron na Terra-Média, os anões eram, no mínimo, um obstáculo no caminho. Eles não aceitavam sua dominação e eram, nas terras ocidentais, aliados dos Eldar e dos povos humanos aliados a estes. Sauron tinha consciência do que os humanos poderiam fazer, pois lutou com esses em Beleriand. Entre os homens, os numenoreanos apresentavam o mais perigo, mas sua terra natal era bem distante da Terra-Média. Poucos numenoreanos moravam na Terra-Média. O povo Edain proveram a Gil-Galad e seus aliados um grande poder de batalha.

Por isso, o ataque de Sauron nas terras a leste das Montanhas Nevoentas faz sentido. Enquanto ele sitiava Eregion, as prioridades de Khazad-Dûm ficaram divididas. Sauron pode não ter previsto o assalto que Durin III lançou contra os invasores do Portão Oeste de Khazad-Dûm. Ou então pretendia batalhar no leste para acabar com uma parte do exército de Durin. Os Edain foram expulsos de suas terras, e a maioria foi morta. Os sobreviventes fugiram para as montanhas, onde os anões poderiam protegê-los, ou para as florestas, onde estavam isolados dos outros povos. De qualquer jeito, a maioria dele fugiu para o extremo norte.

Os elfos Silvan provavelmente sofreram terrivelmente. Eles deveriam ser incapazes de fazer ou sustentar o tipo de guerra que os Eldar poderiam fazer, mas eles eram mais numerosos que os Eldar e, em alguns reinos, eram liderados por príncipes Eldarin. Pode ser que muitos reinos menores fossem derrotados ou levados a procurar refúgio na Floresta das Trevas e Lothlórien, apesar da falha de Sauron em destruir os reinos de Amdir (pai de Amroth) e Oropher (pai de Thranduil) implica que lhe faltavam recursos para fazer uma guerra em florestas. Ele deveria ter poucas tropas treinadas para lutar em florestas, se é que ele tinha alguma.

A falha em capitalizar suas vitórias no leste pode ser a razão pela qual Sauron decid
iu queimar as florestas de Eriador. Seus exércitos podem ter acabado com os humanos e elfos dos campos, mas foram impedidos pelas matas. Até mesmo as forças orientais foram exterminadas em batalhas desesperadas, ou então se retiraram quando não podiam chegar mais perto. O ataque de Durin às forças ocidentais de Sauron foi completamente inesperado, e Sauron percebeu que se ele levasse seu exército através das grandes florestas de Eriador, os Eldar e Edain destruiriam suas tropas.

Portanto, depois de destruir Eregion, Sauron mandou tropas para o norte, o suficiente para ter certeza que o exército de Elrond fora derrotado, e então terminar de acabar com toda Eriador. De certa maneira, a destruição que Sauron impôs no mundo serviria como uma coroação, algo como uma declaração de soberania. "Isto é meu e eu faço com ele o que me agrada". Ele estaria dizendo aos elfos indiretamente que ele iria controlar a Terra-Média, e não eles. O bolo era de Sauron, não dos elfos. Estes também entenderam isso.

Depois que a guerra acabou, e Sauron foi derrotado, aparentemente não se falava sobre marchar para Mordor e derrotar Sauron de vez. Alguns elfos fugiram da Terra-Média e Gil-Galad resolveu estabelecer um novo posto em Imladris, que ficava no extremo norte (distante de Mordor) e mais defensível que Eregion foi. Os exércitos que perseveraram a volta de Sauron para Mordor não tinha recursos o suficiente para forçar seu caminho para dentro da região. Então o verdadeiro significado do retrocesso dos Eldar e Numenoreanos é que estes não estavam preparados para o que provocaram.

Mordor, rodeado de altas montanhas, era bem protegida, e sem dúvida Sauron a escolheu como sua fortaleza por causa da geografia. Mas Gil-galad tinha poucos recursos para manter um cerco tão extenso longe de Lindon, se é que tinha algum recurso pra isso. Numenor não tinha bases na área (Pelargir não apareceria por mais 600 anos) e os únicos povos da área não eram amigáveis (com a possível exceção das Entesposas, que queriam ajudar na causa, mas também ficaram neutras.)

"O Conto dos Anos" diz que, no começo do ano 1800, Sauron extendeu seu poder para o leste. Parecia que Sauron, como os Eldar e Numenoreanos, percebeu que era hora de uma mudança na tática. Ao invés de atacar os Eldar diretamente, ele preferiu aumentar seu poder sobre outros povos (provavelmente entre os homens do leste, cujos ancestrais eram leais a Morgoth). A mudança no objetivo de Sauron vem como consequência de uma série de falhas: falhou em aceitar a responsabilidade pela sua rebelião e recusou ir para Valinor; falhou em seduzir os Eldar para seu serviço; e falhou em destruir os eldar, eliminando os rivais em potencial pelo controle da Terra-Média.

A falta de ambição de Gil-galad foi a grande sorte de Sauron. Enquanto Gil-galad se concentrava em curar as terras e povos que Sauron destruiu na guerra, Sauron investiu seu tempo em criar mais recursos. E ele não esqueceu dos anões. Tendo adquirido os Nove e os Sete Anéis do Poder de Gwath-i-Mirdain em Eregion, Sauron perverteu os Anéis e os deu para Hoemns e Anões. Três dos Anéis foram dados para Numenoreanos, possívelmente capitães ou lordes que estavam liderando esforços de colonização na Terra-Média. Apesar dos Numenoreanos começarem a fazer portos permanentes a partir do ano de 1200, eles começaram "estabelecer domínios na costa [da Terra-Média]" por volta do ano de 1800 ("Conto dos Anos").

Por dar os Anéis do Poder aos homens e anões do leste, onde ele já tinha influência, Sauron provavelmente conseguiu um rígido controle sobre muitas terras rapidamente, num espaço de alguns anos ou gerações. Apesar dos homens que receberam anéis terem virado espectros, os senhores anões não poderiam ser corrompidos. E ainda, o estudo "Homens e anões" (publicado no Peoples of Middle-Earth) diz que todos os povos anões do oeste caíram nas sombras. Se Sauron não tivesse dominado os anões através dos anéis, não teria sentido ganhar influência e amizade entre eles através da entrega de presentes.

Os Anéis dados para os anões ocidentais são um assunto mais complicado. Não há indicação de que algum deles ficaram maus. Seus Anéis foram o começo de grandes tesouros (e a prova desta tradição, recordada no Apêndice A dO Senhor dos Anéis, é que as casas reais de Ered Luin não só sobreviveram mas tiveram sucesso na Segunda Era). Como Sauron fez para conseguir entregar os Anéis do Poder para os Anões? E quando? Ele com certeza não os visitou como sua antiga pessoa. Durin III, pelo menos, deve ter resistido a tal tentativa de suborno.

Todo o esforço de redistribuir os Anéis do Poder roubados é a chave do malfeito "Plano B". Sauron não sabia bem o que fazer. Ele precisava de servos mais poderosos com os quais ele poderia conquistar a Terra-Média, mas estes servos não o trazia vantagem sobre os elfos. Em fato, apesar de Sauron ter continuado a atacar os elfos pelos próximos 1300 anos, ele nunca mais montou um tipo de campanha massiva contra os Eldar como ele tentou na guerra. Por quê?

Os numenoreanos com certeza começaram a ganhar mais importância nos assuntos da Terra-Média. A medida que séculos passavam, novas fortalezas numenoreanas e portos foram estabelecidos ao longo da costa. O poderio numenoreanos lentamente marchou para as fronteiras de Mordor. E então Sauron se viu confrontado com dois rivais: Os Eldar no norte e Númenor no sul. E ainda, com a destruição de Eregion, toda a ambição pareceu fugir dos Eldar. Enquanto os Anéis do Poder existissem, os elfos tinham alguma proteção a morte. Então seu objetivo chefe foi cumprido. Mas parecia que eles deixaram que sua alma fosse derrotada. Nunca mais houve grandes reinos élficos na Terra-Média.

Sauron pode ter construído sua força, mas parece ter devotado mais de 1000 anos guerreando com os numenoreanos em várias regiões menores. Sua estratégia ficou mais complicada quando começou a ponderar sobre os dois problemas. A flexibilidade de Sauron sem dúvida fez com que seu reino sobrevivesse. Trocando de direções e controlando facilmente os novas terras no leste, ele estabeleceu um império capaz de aguentar a maioria das incursões de Numenor. Mas ele pareceu ter medo de confrontar o poderio numenoriano. Não há menção a nenhum ataque massivo a uma fortaleza numenoriana. Uma vez que Umbar foi estabelecida, continuou em controle numenoriano. Uma vez que Pelargir foi construída, Numenor teve uma guarda permanente do rio Anduin.

Porém, pode ser que Sauron hesitou antes, e sua relutância aparente em lançar um segundo ataque foi porque percebeu um de seus erros. Quando os elfos perceberam que foram traídos, Sauron poderia se deixar levar pela raiva e orgulho. Ele mandou que rendessem seus Anéis do Poder para ele. Claro que eles recusaram. Logo, Sauron reagiu furiosamente e lançou uma guerra contra eles. Apesar de que ele tenha se acalmad
o-se depois de uma dúzia de anos, qualquer problema que ele sofria na guerra (como perder os exércitos orientais, ou falhar em destruir os reinos florestais) reacendiam ou alimentavam sua raiva. E continuaria assim até que Sauron e seus guarda-costas retornassem para Mordor, derrotados, e se acalmasse o bastante para perceber que ele não iria ganhar o controle da Terra-Média pela guerra.

Logo, os séculos seguintes onde Sauron guerreava com os numenoreanos pelo controle do que deve ter sido territórios relativamente pequenos (a maioria provavelmente no sul) pode ter sido tempo bam gasto na opinião de Sauron. Isto é, ele pode provar e perceber as fraquezas dos numenoreanos, e deve ter estudado-as. Pode ser que Sauron tenha estudado o jovem príncipe que chegou a ser Ar-Pharazôn, já que lá era um indivíduo que poderia ser manipulado, e consequentemente atiçou Ar-Pharazôn (de longe) a desafiar Sauron para um desafio.

Se este era o objetivo de Sauron, ele se surpreendeu. Já que Ar-Pharazôn trouxe um exército tão imenso do oeste que os aliados de Sauron os desertaram. Com certeza, Sauron recorreu a um subterfúgio, rendendo-se para que possa ser levado para Numenor como um prisioneiro. Lá ele adquiriu gradualmente a confiança do rei como um conselheiro e seduziu a vasta maioria dos numenoreanos, muitos destes já rebelados contra os Valar, a cultuar Morgoth e desafiar os Valar. "Akallabeth" lembra que Sauron tinha esperanças de destruir toda Numenor, mas também recorda que ele ficou impressionado com o que encontrou na ilha, já que os feitos dos dunedain ultrapassaram qualquer expectativa sua.

A mudança dos planos de Sauron preservou Mordor como uma base de poder e abriu para ele uma oportunidade de minar a civlização numenoreana. Ele estava claramente agindo oportunisticamente, e talvez preparando coisas a medida que ele continuava. Mas sua jornada em Numenor foi uma aproximação repentina que resultou em reveses temporários (Gil-galad pôde extender seu poder durante a ausência de Sauron na Terra-Média), mas também na realização de um de seus objetivos: a destruição de Numenor.

Com Numenor fora do caminho Sauron retornou para a Terra-Média, machucado mas não ferido gravemente. Ele pode ter tornado seu pensamento totalmente para Gil-galad, mas aprendeu rápido que sobreviventes numenoreanos liderados por Elendil estavam estabelecendo dois novos reinos no norte. Apesar de muitas colônias numenoreanas agora ajudavam Sauron, os dunedain Fiéis estavam ajudando Gil-galad a consolidar seu poder no norte. Em efeito, Sauron trocou uma imensamente poderosa Numenor, que ele não poderia vencer militarmente, com uma imensamente poderosa aliança de homens e elfos.

Sauron atacou Gondor de repente, mas o Apêndice A diz que ele "atacou cedo demais, antes que seu próprio poder fosse refeito; enquanto isso o poder de Gil-galad aumentou em sua ausência". "Dos Anéis do Poder e a Terceira Era" é menos pessimista: "Quando Sauron julgou chegada a hora, investiu com força enorme contra o novo reino de Gondor, tomou Minas Ithil e destruiu a Árvore branca de Isildur que lá estava plantada." Apesar de Minas Ithil ter caído, Anarion resistiu em Osgiliath e mandou Sauron de volta para as montanhas. Sauron pareceu não ter integrado totalmente seus aliados em seu reino, ou então não esperou o bastante para os exércitos chegarem.

O ataque em Gondor foi similar ao ataque em Eregion. Sauron estava selecionando alvos estratégicos e tentando isolá-los dos poderes aliados. Ele conseguiu parcialmente em Eregion: Elrond não pode quebrar as linhas de Sauron, apesar de Durin III ter resgatado alguns do pvo de Eregion. O ataque à Gondor foi outra falha, e revelou a fraqueza dos ataques de Sauron: ele deixava que seus inimigos trabalhassem pelo benefício um do outro, mesmo se não coordenassem seus esforços contra ele. Ambos Elrond e Durin salvaram porções do povo de Eregion porque Sauron estava focado em conseguir os Anéis do Poder. Gondor aguentou seu ataque porque era muito nova para lançar a guerra.

Isildur pode navegar para o norte e incitar Elendil e Gil-galad. A aliança que eles fizeram mostrou ser forte o bastante para destruir o reino de Sauron. De fato, eles criaram um exército maior que Ar-Pharazôn trouxe para a Terra-Média perto de 200 anos antes. Se os aliados de Sauron foram incapazes de encarar o exército de Ar-Pharazôn, é graças a ele que o exército ficou até a batalha final da Segunda Era. Mas eles não eram páreo para a Última Aliança.

Guerra após guerra, Sauron deixou que seus inimigos ajudassem uns aos outros e às vezes trabalhar junto. Ele não percebeu que estava fazendo tudo errado até que Barad-dûr fosse cercada e os planos de Sauron morressem frustrados no sangue derramado nas batalhas. Ele precisava isolar seus inimigos um do outro. Ele lançou um ataque final e desesperado contra Gil-galad e matou o Rei-elfo, mas Elendil ficou perto o bastante para fazer um ataque mortal a Sauron. O último combate ao pé de Orodruin foi mais um ato de decepção do que qualquer outra coisa. Mesmo sem Gil-galad, a Última Aliança venceu a guerra. O império de Sauron foi desmantelado. Seu reino pessoal em Mordor foi ocupado.

Uma segunda morte deu um descanso merecido a Sauron. A Terra-Média estabeleceu um longo período de paz onde os homens esqueceram o Lorde Negro e os elfos só poderiam torcer para que ele não voltasse. Sauron agora tinha muito tempo para refletir seus erros, e quando ele finalmente retornou ele tinha uma nova estratégia, que levou quase um milênio e levou em consideração todas as variáveis que ele não considerou bem o bastante na Segunda Era.

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Eles, os Anões (Parte II)!

Guerreiro Anão, por Alan Lee

A maior parte do que conhecemos a respeito da cultura e costumes dos Anões deriva dos escritos de Tolkien sobre o Povo de Durin, os Anões Barbas-longas de Khazad-dûm, Erebor e as Colinas de Ferro. O Povo de Durin foi possivelmente o mais sociável de todos os povos anões, interagindo com Elfos, Homens e hobbits, em menor ou maior grau. Os Anões de Ered Luin (os Barbas-de-Fogo e Vigas-largas) também estavam intimamente associados com Elfos e provavelmente interagiram com Homens na Segunda e Terceira Eras, da mesma forma que os hobbits do Condado na Terceira Era, mas parece que, numericamente, eles se tornaram relativamente poucos após a Primeira Era.

 
 
As pessoas vêem os Anões como reservados e até certo ponto xenófobos, mas isto não é completamente correto. Tolkien disse, de fato, que “eles são uma raça dura, teimosos em sua maioria, reservados, trabalhadores, que retêm lembranças de insultos e ferimentos (e de boas ações), amantes da pedra, de pedras preciosas, e de coisas que tomam forma nas mãos dos artesãos, mais do que as coisas que vivem por meio de sua própria vida”. Então, o quão reservados eram eles? Tolkien nos diz que os Anões de Nogrod e Belegost compartilhavam seu conhecimento livremente com os Sindar, em troca dos ensinamentos de Melian, e eles também compartilharam conhecimento, mais tarde, com os Noldor. Por outro lado, os Anões-pequenos eram tão reclusos e hostis aos Sindar que pareciam animais violentos que deveriam ser caçados.

 

A extensão da natureza reservada dos Anões é percebida por meio de sua língua, que ensinavam a poucos, masTolkien não diz que eles a ensinaram a alguém (embora Gandalf faça uma declaração nesse sentido diante do Portão Oeste de Moria em “Uma Jornada no Escuro”, o autor está geralmente em desacordo com seus personagens sobre “fatos”, em relação aos quais ele é o árbitro-mor). Alguns Elfos, de fato, estudaram a língua dos Anões, e aprenderam tanto quanto puderam ou o que os Anões estiveram dispostos a ensinar (se é que havia tais limites). O estudioso de maiores recursos sobre o qual Tolkien escreveu foi Pengolod, um Elfo meio Noldo, meio Sinda de Gondolin, que se juntou aos Lambengolmor, Mestres das Línguas, que era uma escola de mestres de tradições fundada por Fëanor em Aman e que aparentemente juntou-se à rebelião dos Noldor, embora Fëanor tivesse cessado de trabalhar com línguas há muito tempo.

Sabemos pouco da história do Lambengolmor. Eles estudaram sindarin e provavelmente um pouco dos dialetos nandorin e avarin em Beleriand, mas muito do conhecimento deles se perdeu quando os reinos noldorin começaram a cair. Aqueles dos Lambengolmor que sobreviveram à destruição no norte estabeleceram-se por fim em Avernien, e mais tarde mudaram-se para a Ilha de Balar com Círdan e Gil-galad, ou então permaneceram seguidores dos filhos de Fëanor. Na Segunda Era, Pengolod estabeleceu-se em Eregion, e foi provavelmente lá que ele (e possivelmente outros) estudaram o khuzdul, a língua dos anões. Pengolod foi o único mestre de tradições dos Lambengolmor a sobreviver à catastrófica Guerra dos Elfos e Sauron, e quando as batalhas terminaram, ele tomou um navio em Mithlond e deixou a Terra-média para sempre, último de seu grupo a agraciar a Terra-média.

Dentre os segredos que os Anões não estavam dispostos a contar estavam seus verdadeiros nomes interiores, dados em khuzdul e usados apenas entre eles próprios. Todos os Anões de O Hobbit e O Senhor dos Anéis usam nomes “humanos”, de acordo com seus costumes. Pelo menos esse era o costume entre os Anões Barbas-longas da Segunda Era em diante, se não antes. Outros Anões, no entanto, usavam nomes em khuzdul. Os Anões de Nogrod e Belegost atendiam por nomes dados em khuzdul: Azaghal, senhor de Belegost, Telchar de Nogrod e Gamil Zirak, o Velho, o mestre que ensinou Telchar.

Os Anões de Ered Luin podem ter desenvolvido a civilização mais sofisticada dentre sua raça durante a Primeira Era, devido à amizade deles com os Elfos de Beleriand, cuja civilização era a mais elevada e mais avançada cultura da Terra-média. Grande riqueza fluía através de Ered Luin, e esses Anões não olhavam apenas para o oeste. Eles negociavam com vários dos Homens que se estabeleceram em Eriador, e também com os Nandor e Avari que ali moravam. É talvez um fato curioso, no entanto, que os Edain (pelo menos os maracheanos, a Terceira Casa dos Edain) tenham retido algumas tradições de discórdia ou luta com Anões que migraram do oeste. Tolkien não diz o que aconteceu, mas quando Túrin e seus foras-da-lei capturaram Mim, o anão-pequeno, um dos homens de Túrin (ele próprio um dos homens de Marach) disse de si mesmo: “Androg não gosta de Anões. O povo dele trouxe poucas boas histórias dessa raça saída do Leste”.

Bom, as histórias do povo de Androg podem ou não refletir o relacionamento entre seu povo e os Anões. Tais eventos repousam em várias gerações antes dele (esta conversa ocorreu por volta do ano 484 da Primeira Era, e o povo dele adentrou Beleriand em 314; eles haviam começado a se estabelecer em Dor-lómin mais de 100 anos antes que Angrod vivesse). Não sabemos com quais Anões o povo de Angrod teve problemas, mas eles eram provavelmente Barbas-longas, Barbas-de-fogo, ou Vigas-largas. Nenhum outro povo dos Anões parece ter vivido nas proximidades da linha migratória dos Edain, que passou em linha reta através das Terras Ermas (Rhovanion) e os Vales do Anduin, onde os Barbas-longas tinham o controle, e além do Ered Luin.

Depois que os Edain alcançaram Beleriand, as relações entre Anões e Homens melhoraram fora de Beleriand, mesmo que tenham permanecido frias no oeste. O Povo de Bór, únicos Orientais a permanecerem fiéis aos Eldar na Quinta Grande Batalha, a Nirnaeth Arnoediad, era um povo sedentário (agrícola), apenas uma das várias tribos ou clãs a migrar para Eriador no fim do Século V. Estes povos se estabeleceram nas terras setentrionais em torno das Colinas de Vesperturvo, e eram amigáveis aos Anões. De fato, o Povo de Bór dirigiu-se para o norte, contornando Ered Luin, até entrar em terras dos Eldar, e eles passaram a morar nas terras ao norte das colinas onde o povo de Maedhros residia.

Na época em que Thangorodrim caiu, a maioria (mas não todos) dos seguidores de Morgoth que haviam sido destruídos pelas forças do extremo oeste fugiram quando Morgoth foi derrotado e espalharam-se por toda a Terra-média. Alguns dos orcs aparentemente tomaram o Monte Gundabad e infestaram as montanhas do norte das Terras Ermas. Os Anões Barbas-longas passaram a defender duramente a si próprios do ataque. Eles já haviam começado a trocar serviços por comida com os Edain das Terras Ermas, mas naquele momento eles estabeleceram uma aliança com os homens, a fim de tentar expulsar os orcs das montanhas. Esta aliança única está documentada apenas em The Peoples of Middle-earth, no ensaio “Dos Anões e Homens”, que foi escrito algum tempo depois de junho de 1969 (de acordo com Christopher Tolkien).

Tolkien diz que os Barbas-longas, “embora fossem os mais orgulhosos dos sete povos, eram também os mais sábios e os mais previdentes”. Ele prossegue dizendo que “os Homens tinham grande admiração e estavam muito desejosos de aprender com eles; e os Barbas-longas estavam muito interessados em usar os Homens para seus próprios propósitos”. Esses propósitos eram dois: prover alimentação para os Anões e ajudá-los nas guerras contra os orcs. A conhecida reserva dos Anões havia sido então abandonada, graças à necessidade e o desejo de comércio com outros povos tanto em Beleriand quanto em Rhovanion. Mas parece que a reserva seria recuperada no fim.

Os Anões Barbas-longas foram os primeiros a usar nomes “exteriores”, emprestados das línguas dos Homens próximos. Tolkien escreve que os Anões estavam dispostos a ensinar sua língua aos homens, mas os Homens a consideraram difícil de aprender, e ainda assim nem todos os Anões estavam dispostos a informar seus nomes verdadeiros aos não-Anões. Dessa forma, para facilitar a aliança, os Barbas-longas aprenderam a língua dos Homens das Terras Ermas (assim como os Anões de Ered Luin aprenderam sindarin) e adotaram seus nomes “exteriores” nesta língua. Foi durante o início da Segunda Era que os Anões começaram a acumular uma lista de nomes que a tradição por fim uniu apenas à raça deles. “Durin” é a tradução que Tolkien oferece para o nome “de homem” que significava “rei”, e era mais um título do que um nome, que por fim tornou-se um nome de fato. “Narvi” seria outro exemplo da criação de nomes baseada na linguagem do norte (essencialmente um dialeto do adunaico, a língua falada pelos maracheanos).

Com o auxílio dos Homens, os Barbas-longas foram capazes de restabelecer o controle sobre aquelas regiões que eles consideravam suas por direito. Essa aliança ajudou a pavimentar o caminho para a aliança final entre os Barbas-longas e os Elfos de Eregion, mas parece que há outro pré-requisito: a migração dos Anões de Belegost para Khazad-dûm. Esses Anões não haviam participado da guerra entre Nogrod e Doriath e, portanto, não possuíam inimizade direta com os Elfos (embora Tolkien diga que a lembrança da guerra “envenenou o relacionamento entre Elfos e Anões durante eras”, ainda que quase não forneça evidências de tais relações envenenadas).

Quando o mithril foi descoberto pelos Barbas-longas, os Noldor de Lindon ficaram interessados em seus recursos, e vários deles instalaram-se nas terras a oeste de Khazad-dûm, criando o reino de Eregion. A cidade principal era Ost-in-Edhil, e eles iniciaram uma amizade e aliança muito próxima com os Barbas-longas, que durou mil anos. No fim dessa época, os Barbas-longas foram atraídos para a Guerra dos Elfos e Sauron. Eles buscaram ajudar os Eldar de Eregion, que estavam em dificuldade, e vários Elfos (inclusive Pengolod) escaparam através de Khazad-dûm até o reino oriental de Lothlórien, mas o exército de Durin IV foi empurrado de volta para as montanhas por Sauron, e o Portão Oeste foi fechado para evitar uma possível invasão. As coisas também não foram bem no leste. Sauron enviou exércitos de orcs de Mordor e instigou as tribos orientais de Homens a invadir as Terras Ermas.

Os povos dos Edain foram aniquilados e empurrados de volta para as montanhas ou para bem dentro das florestas (e foi provavelmente neste momento que os Homens da Grande Floresta Verde apareceram pela primeira vez). Os próprios Barbas-longas perderam o controle de Gundabad novamente, as Montanhas Cinzentas estavam infestadas de orcs e a comunicação com as Colinas de Ferro foi cortada por algum tempo. Quando Sauron foi finalmente derrotado, Khazad-dûm parecia uma ilha no meio de um mar vazio, cujo único vizinho amigável era, aparentemente, Lothlórien. Elrond havia estabelecido o refúgio de Imladris ao norte de Eriador, mas embora ele fosse amigável aos Anões na Terceira Era, não há indicação que ele tenha interagido muito com eles na Segunda Era.

Mîm e os anões-pequenos – Alan Lee

 Os Barbas-longas não abandonaram sua velha amizade com os Elfos, mas conforme Tolkien diz, ela diminuiu. No fim da Segunda Era, Durin V estava disposto e pronto a se juntar ao Exército da última Aliança de Elfos e Homens, então seu povo marchou contra Gondor. Mas depois parece que eles não participaram muito dos grandes assuntos da Terra-média. Por quase dois mil anos, Khazad-dûm continuou a desfrutar de grande prosperidade. As Montanhas Nevoentas e Cinzentas ficaram indubitavelmente livres de orcs, trolls e dragões por muitos séculos, e a comunicação entre Khazad-dûm e outras comunidades anãs foi assegurada.

Mas quando Sauron começou a se manifestar novamente, passados mil anos da Terceira Era, ele parece ter buscado a política de afastar seus velhos inimigos uns dos outros. Sempre que uma oportunidade se apresentava, ele destruía uma nação, ou levava vantagens sobre a queda de um inimigo. Os Anões Barbas-longas iniciaram um período de declínio quando eles acidentalmente despertaram um Balrog, aparentemente o último dos grandes demônios de fogo e sombra de Morgoth. O Balrog destruiu a civilização em Khazad-dûm, matando dois de seus reis e vários de seu povo. Os sobreviventes fugiram para o norte e leste, mas nunca recuperaram suas forças por completo. Logo depois, Amroth, rei de Lórien, liderou uma migração de Elfos para o sul, e o despertar de um grande (embora não-identificado) mal nas montanhas, assim como a partida de vários Anões, inspirou os Elfos de Lórien a proibir a entrada de qualquer Anão em suas terras.

Tolkien não diz exatamente como os Anões se dispersaram. Os reis dos Barbas-longas mudaram-se para a Montanha Solitária, a noroeste. Mas alguns dos Anões que viviam nas Montanhas Nevoentas ou nas Montanhas Cinzentas brigaram com Fram, um senhor dos Éothéod, a respeito do tesouro de Scatha, o Verme. Por fim, os Anões mataram Fram depois que ele recusou-se a entregar o tesouro. Os Anões de Belegost podem ter retornado para seus parentes em Ered Luin. Mas por fim os Barbas-longas colonizaram as Montanhas Cinzentas em grande número, onde chamaram a atenção de dragões e foram conduzidos para o sul, em Erebor novamente. Dessa vez um dos dragões, Smaug, o Dourado, seguiu-os e conquistou Erebor em 2770. Pelos 171 anos seguintes os Barbas-longas não tiveram residência permanente, exceto por uma colônia que sobreviveu nas Colinas de Ferro e algumas colônias não nomeadas nas montanhas do norte.

Ao fim da Terceira Era, as fortunas de três das sete famílias haviam caído. O povo de Nogrod havia sido maciçamente destruído na guerra com Doriath no final da Terceira Era. A maior parte do povo de Belegost deixou as Ered Luin no início da Segunda Era porque sua cidade havia sido destruída. Os Anões que permaneceram nas Ered Luin parecem ter sido poucos, mas mantiveram o controle sobre uma região de terra entre os Elfos e Homens no norte de Eriador. Estes Anões provavelmente viveram com seus vizinhos num relacionamento similar ao das grandes alianças de Khazad-dûm, mas eles eram poucos numericamente e não eram seriamente ameaçados pelos orcs ou dragões, portanto eles não têm nenhuma participação nas grandes guerras da Segunda Era. Tolkien dá a entender que eles não marcharam com a Última Aliança, pois diz ele que poucos Anões lutaram em ambos os lados naquela guerra.

A difusão do costume de adotar nomes exteriores nas línguas dos homens, dos Barbas-longas para as outras raças, provavelmente ocorreu na Terceira Era, talvez logo depois da queda de Khazad-dûm. Naquele tempo, os Barbas-longas teriam começado a vagar pelas terras, e alguns certamente estabeleceram-se entre outros Anões. Se houve de fato o retorno dos descendentes dos Anões de Belegost para as Ered Luin, eles teriam levado o costume com eles, se é que este já não os precedesse.

Tolkien fala pouco sobre as quatro casas orientais. Ele sugere que elas (ou pelo menos as duas mais orientais) podem ter tornado-se “más” de alguma forma, mas elas não apoiaram Sauron no final da Segunda Era. O relacionamento entre Sauron e os Anões é peculiar. Tendo falhado ao tentar seduzir os Elfos com os Anéis do Poder, Sauron tomou o maior número de Anéis Élficos que conseguiu durante sua guerra com os Elfos, e levou-os de volta para Mordor. Ali ele os perverteu de alguma maneira, com a intenção de usá-los para controlar os grandes senhores de outros povos. Sauron conseguiu dar sete Anéis para os Anões, presumivelmente um para cada um dos senhores das sete casas (embora isso não seja uma certeza). Se for esse o caso, então a observação de Tolkien de que, segundo a tradição, cada um dos antigos tesouros dos Anões foi criado a partir de um anel, dá a entender que os senhores de Belegost jamais deixaram Ered Luin. Parece improvável que tivessem seu tesouro em Khazad-dûm.

A situação dos Sete Anéis parece dizer algo a respeito da história dos Anões. Sauron, por fim, decidiu tomar de volta os Anéis (em algum momento no fim da Terceira Era) e teve que ir ao encalço deles. No processo, ele apenas adquiriu três dos Anéis; dragões consumiram os outros quatro, de acordo com Gandalf. Dos três que Sauron tomou de volta, sabemos que um pertencia aos reis dos Barbas-longas. Esse Anel ele tomou de Thráin em 2845, “o último dos Sete”. Portanto, a quem pertencia os outros dois Anéis, e quando Sauron conseguiu-os?

Parece que Sauron não visitou Eriador na Terceira Era. Ele enviou o Senhor dos Nazgûl para o norte, por volta do ano 1300, para fundar o reino de Angmar, e esse reino do mal buscou a destruição de Arnor, o reino do norte dos Dúnedain. Angmar estava situada a nordeste em Eriador, longe das Ered Luin, mas efetivamente no controle de Gundabad. Pode ser que Gundabad, libertada na Segunda Era, tenha sido tomada por Angmar, ou talvez abandonada pelos Anões. Ou pode ser que Gundabad tenha resistido, o que parece improvável.

Não obstante, Angmar existiu por quase 700 anos e, no entanto, jamais foi capaz de atacar as Ered Luin. Também não há menção de dragões afligindo os Anões das Ered Luin ao longo da Terceira Era. Portanto, parece improvável que Sauron tivesse recuperado os dois Anéis dos Anões de Ered Luin, enquanto o reino de Arnor existia. E embora Arnor tenha caído em 1974, o próprio reino de Angmar foi destruído por Gondor, Lindon e Valfenda no ano seguinte. O Senhor dos Nazgûl, então, fugiu para o sul e só ouviu-se falar dele novamente no ano de 2002, quando os Nazgûl tomaram a cidade de Minas Ithil, em Gondor. O próprio Sauron fugiu para o leste em 2063, quando Gandalf entrou em Dol Guldur para tentar descobrir quem o Necromante realmente era, e Sauron não retornou para o oeste até 2460.

É provável, portanto, que Sauron não tenha feito nenhuma tentativa de recuperar os Anéis dos Anões ocidentais antes de 2460. Num período de cem anos, Sauron começou a colonizar as Montanhas Nevoentas com orcs, e dragões começaram a reaparecer no norte, atacando os Anões. Os Anões Barbas-longas fugiram para Erebor ou para as Colinas de Ferro. Pode ser que os dragões também começaram a afligir as quatro casas orientais, e que nos dois séculos seguintes todos os grandes reinos orientais dos Anões sofreram uma sina similar aos de Erebor. Isso explicaria as obscuras referências em O Hobbit e O Senhor dos Anéis sobre os infortúnios dos Anões, especialmente quando se tratava de dragões.

Se Sauron estava alarmado pela perda dos quarto Anéis no leste, pode ter agarrado a oportunidade de tomar os Anéis ocidentais no 28º século. Orcs começaram a invadir Eriador por volta de 2740 e, pelos idos de 2758, Sauron estava pronto a lançar um ataque maciço contra Gondor, Rohan e, aparentemente, até mesmo Eriador. Este foi o ano em que o Inverno Longo começou, e os orcs foram capazes de avançar a oeste até o Condado. É concebível que os Anões de Ered Luin tenham sofrido muito, tanto quanto outros povos naquele tempo, e que seus reis tenham sido atraídos para fora e capturados por orcs. Embora puramente especulativo, o período de tempo que Sauron teve para as atividades de busca pelos Anéis está limitado a um século. Tolkien não diz quando Sauron tomou de volta os Anéis dos Nazgûl, mas ele provavelmente só recebeu esses Anéis depois que seu poder estava mais seguro, o que teria ocorrido logo depois do fim da Paz Vigilante.

Com seus objetivos conquistados, ou seus recursos exauridos, Sauron parece ter desconsiderado Eriador depois do Inverno Longo. Não houve mais incursões maciças de seres malignos no noroeste, e por volta de 2845, ele havia recuperado tantos Anéis de Poder quanto possível. Os infortúnios dos Anões estavam, dessa forma, chegando ao fim, e suas fortunas (pelo menos as dos Barbas-longas) voltaram a aumentar.

Eu devo salientar que Sauron pode ter tido outra oportunidade de tomar dois dos Anéis dos Anões: a Guerra dos Anões e Orcs, de 2793 a 2799. Todas as sete casas concentraram seus exércitos para a guerra de vingança contra os Orcs das Montanhas Nevoentas. Embora Tolkien não diga que outro senhor além de Thráin (herdeiro de Durin, rei dos Barbas-longas) tenha participado diretamente da guerra, não é impossível que pelo menos dois tenham liderado tropas para ajudar Thráin, e eles poderiam ter sido capturados ou mortos, e seus corpos levados. Nesse caso, Sauron poderia ter recuperado os Anéis dessa maneira.

Apesar de seu declínio nas terras ocidentais, os Anões continuaram a viajar através de Eriador e sem dúvida através das Terras Ermas, realizando sua jornada entre Ered Luin e Erebor, ou Ered Luin e as Colinas de Ferro, e talvez viajando até as terras orientais dos Anões. Os objetivos de tais jornadas são raramente declarados. Quando Thorin e Thráin se estabeleceram nas Ered Luin depois da Guerra dos Anões e Orcs, vários dos Barbas-longas ficaram sabendo de seu novo lar e foram se juntar a eles, portanto deve ter havido um constante porém pequeno fluxo de trânsito a oeste.

Em “A Busca de Erebor” (no Contos Inacabados), Christopher Tolkien colocou fragmentos de textos que seu pai havia escrito numa tentativa de explicar (principalmente por meio de Gandalf) como a expedição de Thorin e Companhia para Erebor foi organizada em 2941. Durante uma discussão, Gandalf repreende Glóin por fazer pouco do povo do Condado, só porque os Anões jamais venderam armas para eles. Alguém pode concluir, a partir dessa observação, que os Anões estavam de fato vendendo armas a alguém, mas Tolkien não indica para quem. Talvez os Elfos precisassem de armas, mas eles deveriam ser capazes de fazer as suas próprias. Parece mais provável que os Anões tenham fornecido armas aos Dúnedain de Eriador. Os Guardiões parecem ser um incomum grupo bem equipado de soldados para ser totalmente sustentado por um “povo errante”. Se os Dúnedain precisassem recorrer a alguém para o suprimento de itens artesanais, os Anões pareceriam uma escolha lógica.

Porém, à medida que os centros populacionais de Eriador foram decaindo ao longo do final da Terceira Era, ficou cada vez mais difícil para os Anões terem uma vida lucrativa. Os Dúnedain continuavam a diminuir. Enquanto Thráin e seu pequeno grupo viveram na Terra Parda, eles provavelmente negociaram com o povo de Tharbad, porém esta foi abandonada em 2912, depois que o Inverno Mortal resultou em enchentes severas. A relutância dos povos em reconstruir sua cidade implica que havia simplesmente poucas razões econômicas para fazê-lo. Bri também passou por um período de declínio, possivelmente na mesma época, embora pareça que isso dependeu mais do trânsito na estrada leste-oeste do que do trânsito vindo do sul.

Assim, houve diminuição dos mercados para o artesanato dos Anões, no último século da Terceira Era: o Condado, a Terra dos Buques, Bri, e alguns poucos e espalhados Dúnedain. Possivelmente alguns Elfos também negociaram com eles. A restauração do Reino sob a Montanha em Erebor, em 2941, significou que os Barbas-longas provavelmente partiram logo depois para se juntarem Dáin II no leste. Isto teria reduzido a competição para os negócios, mas o subseqüente retorno de Sauron para Mordor em 2951 e a eventual migração para oeste de vários Anões deve ter prejudicado consideravelmente a economia dos mesmos. Quem eram esses Anões, viajando a partir das tumultuadas terras orientais? Não parece tratarem-se de Barbas-longas, que tinham um reino forte em Erebor e provavelmente mantinham as Colinas de Ferro sob controle. Parece mais provável que fossem das casas orientais, cujas terras podem ter sido devastadas ou ameaçadas por grandes guerras na preparação para os ataques de Sauron no oeste. Dessa forma, no final da Terceira Era, pode ter havido um fluxo de Anões orientais para ajudar a rejuvenescer as Ered Luin.

A vitória sobre Sauron, poucos anos depois, levou à restauração do Reino de Arnor e à expansão do Condado. Os Anões de Ered Luin devem ter sido finalmente beneficiados pelo fluxo de colonos vindos do sul, por meio da extensão da autoridade de Rohan sobre a Terra Parda e do crescimento do Condado. Pode ser que, quando Durin VII finalmente restabeleceu Khazad-dûm no início da Quarta Era, os Anões de Ered Luin também experimentaram uma forma de renascimento, seu último desabrochar antes da final e triste diminuição e desaparecimento de sua raça.

Quem tem medo dos puristas maus?

Já fui ver “A Sociedade do Anel” e parece-me que as pessoas devem ir ver o filme para formarem a sua própria opinião. Puristas Tolkianos ficarão provavelmente ofendidos. Eu acho que eles se meteram a si próprios nesse buraco. Não há salvação no filme para os fans intransigentes que temeram a saída do filme e que gostariam que este nunca tivesse sido produzido. No entanto, há puristas Tolkianos que, tal como eu, farão o seu melhor para separar o que sentem pela obra de Tolkien, das suas reacções ao trabalho de Peter Jackson. Tenho de dizer que não é fácil ver o filme sem pensar “Ah, aquilo era diferente no livro”. Mas de cada vez que me sinto reagir dessa maneira, relembro-me que vim ver o filme e não condená-lo ou criticá-lo. Criticar cada pequena coisa não vai fazer bem a ninguém neste momento. O filme é um facto consumado e quer queiramos quer não temos de viver com ele e continuar com as nossas vidas. De qualquer maneira, o filme de As Duas Torres vai sair daqui a um ano e os angustiosos vão precisar de um pouco de tempo antes de se começarem a preparar para lastimar a chegada desse filme.
 

Não posso dizer que este tenha sido o melhor filme do ano para mim. Certamente também não foi o pior. Acho que se fizesse uma lista de todas as falhas do filme, o balanço inclinar-se-ia a favor do final cheio de acção do filme, isto é, acho que o que é bom ultrapassa muito o que é mau na escala da Justiça purista. Peter Jackson gosta de contar uma história muito visível, e ao fazê-lo tem tendência para exagerar certos elementos. Ele traz ao écran uma intensidade que não existe nas paletas de outros realizadores. Claro que cada realizador pinta um quadro diferente. E a única coisa que nós podemos fazer é interpretar esta interpretação de acordo com os nossos desejos e experiências pessoais.

Ainda assim, o que tornou o filme mais memorável para mim foi o facto de ter partilhado a noite com mais de 1000 pessoas em dois auditórios (e tive mesmo a oportunidade de comunicar com pessoas em ambas as salas). A audiência com quem vi o filme esteve muito sossegada durante a maior parte da história. Acho que as pessoas tinham medo de falar para não perderem nenhum pormenor. E até nem é que se possa fechar os olhos e perder o fio à história. O filme era muito previsível nalgumas partes. Laboriosamente previsível. Mas a história desenvolve-se tão rapidamente que quando o genérico final apareceu acho que toda a gente olhou para o relógio e disse “Não podem ter passado três horas!”

Cinematicamente, se há uma falha no filme tem a ver com o ritmo. As cenas são tão rápidas e os personagens varrem a paisagem tão rapidamente que quando param numa cena por mais de um minuto a mudança de ritmo parece um pouco discordante. Mas, a não ser que fizessem seis filmes de três horas cada ou cortassem ainda mais da história, não vejo como fazer muito mais com a matéria prima.

Eu estava suficientemente confortável com a viagem dos ‘Portadores do anel’ (Ringbearers) que parei e procurei nas paredes de Moria alguns daqueles detalhes que nós somos supostos saber que estão lá, mas não conseguimos ver. Vi alguma coisa interessante? Bem, havia muitas runas esculpidas nas paredes. Por quem? Não faço ideia. A camara não as focou durante tempo suficiente para eu as ver bem.

Tem sido dito que Peter Jackson trata a câmara como uma pessoa diferente em cada cena. Esta é a sua maneira de dirigir a atenção das pessoas para a história. Usa ângulos diferentes, acção-inversa, truques digitais e vistas panorâmicas da paisagem, concentrando-se na acção quando as coisas aquecem. Se alguém receia que o filme se afaste do livro de Tolkien, então podem ficar tranquilos que isso acontece. Se esperam que o filme dê vida à Terra-média, então podem ficar tranquilos que isso também acontece. É a Terra-média de Tolkien? Claro que não. É a de Peter Jackson. Mas é uma visão magnifíca e que vale bem a pena absorver pelo menos uma ou duas vezes.

Devo dizer que gostei do trabalho dos actores. Algum do diálogo não estava à sua altura. Tinha a impressão de que eles queriam dizer mais e não podiam – tinham que continuar com a cena e era mesmo assim que tinha de ser. Por isso a sua interpretação tornava-se mais intensa.

Sou um grande fan da Liv Tyler o que faz com que a minha opinião não seja aqui ‘imparcial’. No entanto, acho que ela se saiu melhor do que muita gente esperava ou temia. Houve alguns risos quando apareceram as legendas (das falas em élvico). Estavam colocadas tão em baixo no écran que a metade inferior das palavras desapareceu. Mas eu gostei de ver Liv e vai ser bom vê-la mais nestes filmes. Arwen não tem de ser uma ‘fada-do-lar imaculada’. Quem insiste que ela só pode ser isso claramente não presta atenção ao que Tolkien escreveu sobre ela e sobre a sua família.

Ian Holm é um Bilbo Bolseiro perfeito. É um actor consagrado e compreendeu perfeitamente a sua personagem. Mas o que me impressionou mais sobre Bilbo foi o facto de que quase todo “O Hobbit” foi sumariado em várias cenas ao longo do filme. Não quero dizer que representaram a história. Só que a maior parte dos acontecimentos da história anterior foi mencionada ou referida. Gostei disso. O Bilbo de Ian Holm é encantador, confiante, confortável e completamente credível. Não consigo pensar em nada que quizesse feito de maneira diferente.

No entanto, a melhor actuação é a de Ian McKellen. Não sei se ele tem suficiente material de qualidade Oscariana no filme para ganhar mesmo um Oscar, mas ele devia ter uma nomeação. Não é porque ele é Gandalf, ou porque alguém pensa que ele devia ser Gandalf. É porque quando McKellen diz certas falas, ele fá-las soar duma forma tão realista e convincente. Não interessa se a personagem que as fala é Gandalf. O que interessa é que elas não parecem ser ditas por um qualquer personagem de filme.

Gandalf absorveu algumas falas de outras personagens devido à compressão. Mas são frases muitas vezes extraídas directamente de Tolkien. O que me surpreendeu, no entanto, foi como fiquei satisfeito com a inclusão fora de contexto de várias dessas falas. E quero dizer que algum do diálogo foi tão mudado do sítio em que aparece na história literária que qualquer purista o nota imediatamente. Mas não acho que esteja fora do lugar. Uma das alterações mais bem sucedidas é na cena em que Gandalf diz a Frodo a famosa frase sobre não dever ser tão rápido a dar um julgamento de morte. É uma cena incr&i
acute;vel. Toda a emoção e rectidão moral que eu imaginei em Gandalf quando ele admoesta Frodo sobre o seu julgamento de Gollum no livro está mesmo ali expressa no écran. E não é porque Peter Jackson e os outros guionistas encontrassem uma maneira inteligente de usar o texto num sítio diferente do da história literária. É porque Ian McKellen compreende a monumentalidade do que está a dizer. Ele sente-se clara e obviamente confortável a dizê-lo.

Na minha experiência, um dos comentários mais frequentes nestes últimos quatro anos era sobre a necessária compressão da história do livro. Eu e muitos outros puristas perguntávamo-nos se o intervalo de 17 anos entre a partida de Bilbo do Shire e a conversa fatídica de Frodo com Gandalf seria comprimido para poucos meses. Para ser sincero, não sei dizer de verdade. A história corre tão depressa que parece que não se passou tempo nenhum, mas quando se vê Bilbo em Valfenda eu acho que parece que se passaram 17 anos. Só não apareceu nenhum título no écran a dizer “17 anos depois”. Peter poderá ter pensado ou não em incluir nalgum momento um título “Alguns meses depois”, mas no fim preferiu deixar a audiência decidir quanto tempo se passou. Contudo, quando Frodo acorda em Valfenda Gandalf diz-lhe que é 24 de Outubro. Verifiquem no livro, puristas. Essa é a data em que Frodo acorda em Valfenda.

Por outro lado, muito da história é alterado e não vejo razão porquê. De facto, certos aspectos específicos da personagem de Sauron foram alterados radicalmente e não percebo porquê. É bom? Não faço ideia. Não direi que seja mau. Mas é um abandono de Tolkien. No entanto, tentaram deixar Sauron em segundo plano, como muitos fans queriam. Eu acho que o deixaram aí de mais. Bem, ia ser sempre uma daquelas coisas em que se é “preso por ter gato e preso por não ter”. O papel de Sauron no filme não determina a história e ele aparece, na minha humilde opinião, melhor do que o típico vilão tenebroso e assustador de capa e espada e feitiçaria. Contudo, perdeu-se alguma da grandiosidade dos Dunedain de Tolkien. Mas muita gente tem argumentado que se se parar e der uma lição de história e cultura de cada vez que Tolkien o faz, então o filme nunca passaria de Bree. Bombadil é forte em história, por exemplo.

Acho que não fazem justiça a Aragorn. Viggo Mortensen tem um admirável trabalho a representar este personagem, mas, que chatice, precisava de mais tempo no écran. Passolargo aparece fraco e quase vazio no princípio da história e gradualmente ganha o respeito do leitor e dos Hobbits. O filme simplesmente atira-o para a situação e, pum-pum, Passolargo é Aragorn, o herdeiro há muito tempo perdido de Isildur. Claro, a não ser que produzissem seis filmes de três horas, não tenho a certeza de que pudessem ter ilustrado muito da transição de Passolargo para Aragorn sem cortar o resto do filme. Mas, de novo, os guionistas foram inteligentes e alteraram a história de Passolargo, adiando alguns dos seus pontos chave para o segundo ou talvez para o terceiro filme. Puristas intransigentes vão pôr-se aos berros mas, se o resto das pessoas os ignorar, tornar-se-ão rapidamente irrelevantes.

Por outro lado, dão-nos um espectáculo quase completo dos Cavaleiros Negros que Tolkien mostra no livro. Não me lembro de nada de errado com estas cenas e não vale a pena ser picuínhas com o design dos fatos, dado que cada pessoa os conceberia de maneira diferente. Mas a ênfase colocada nos Cavaleiros Negros na primeira parte do filme e o tratamento leve de Aragorn na segunda parte deixam-me com uma sensação de algum desequilíbrio.

A Sociedade do Anel conta duas histórias. Uma é a de um Hobbit chamado Frodo que é apanhado nas malhas de uma responsabilidade assustadora. A outra história é a de um homem misterioso que se oferece para ajudar Frodo e que faz a sua própria travessia incerta enquanto Frodo caminha cada vez mais próximo de Mordor. O Aragorn de Tolkien não precisa de ser enfiado à força em nenhuma comitiva. Ele tem o seu lugar próprio e definido no mundo e ao leitor só são cuidadosamente dadas pistas suficientes sobre o lugar de Aragorn para perceber que, quando Gandalf se auto-sacrifica, Aragorn é capaz de assumir a liderança da comitiva, mas que essa liderança não dá garantias. Notei a falta dessa dúvida. Viggo é bem capaz de representar um Aragorn inseguro, e fá-lo de facto, mas a incerteza foi transferida para uma parte diferente da história. Fiquei surpreendido com isso. Para ser sincero, tive algumas surpresas no filme. E a única maneira de criar essas surpresas com sucesso era alterando a história. Pode-se apreciar o momento em que se reconhece que um personagem diz uma fala originária de outra parte da história, ou pode-se lamentar as alterações ao original de Tolkien. Dizer se as trocas do diálogo foram necessárias dum ponto de vista cinemático ou responsáveis é uma discussão que pode esperar.

A Sociedade do Anel cria o ambiente para o próximo filme da maneira clássica e habitual: levanta questões sobre o que irá acontecer a algumas das personagens. Como o Aragorn de Peter Jackson não segue o Aragorn de J.R.R. Tolkien à letra, a audiência fica a pensar se, e quando, as peças do puzzle de Aragorn vão encaixar no puzzle de Peter Jackson. Possivelmente, esta foi a decisão mais acertada que podiam ter tomado. Frodo é quase idêntico ao Frodo literário. Elijah Wood tem a tarefa ingrata de ir alimentando as expectativas da audiência. A única parte em que ele poderá falhar a sua missão é em representar um Frodo Hobbit de 50 anos no corpo dum jovem Hobbit. É difícil de dizer. O filme tem um ritmo tão rápido que não se pode julgar suficientemente bem a perplexidade de Frodo quando este vê as coisas irem de mal a pior para ele. Por isso não há nenhuma maneira em que o primeiro filme da trilogia possa agarrar perguntas da audiência sobre Frodo.

Orlando Bloom não é totalmente utilizado no primeiro filme, o que parece justo. A relação Legolas-Gimli não começa mesmo a funcionar até ao meio da história. Mas há um admirável momento clássico quando Legolas reage ao Gimli de John Rhys-Davies de uma tal maneira que a audiência tem de se rir, tanto em apreciação do gesto subtil, como em antecipação do que de certeza vai surgir mais tarde. Fiquei contente que não tivessem abusado de efeitos especiais para mostrar o enorme talento de Legolas com o arco e flechas. Ele é rápido, ele é mortífero e ele é credível. Não é costume ver isso num Elvo dos filmes. Pelo menos em nenhum que eu me lembre. A minha única decepção com Legolas é quando é um outro personagem que diz uma das suas falas muito importantes. Não percebo porque o fizera
m, mas isso não me estragou o filme. De facto até ajudou um pouco na construção do outro personagem. Mas não pude evitar pensar que os guionistas falharam nesse aspecto importante sobre Legolas, aspecto esse que até é referido por Tolkien numa das suas cartas.

John Rhys-Davies foi sempre um dos meus actores favoritos. É um prazer vê-lo no écran e, depois de saber as atribulações que ele sofreu durante as filmagens, só o posso respeitar ainda mais pela sua belíssima actuação. Eu não acho que na mente de Tolkien Gimli fosse um personagem tão exagerado, mas ele tem a feliz, ou infeliz, responsabilidade de explicar alguns dos antecedentes da história. Ele corresponde bem a várias das expectativas dos fans, o que irá acalmar alguns ânimos mais exaltados, acho eu, mas poderá deitar ainda mais achas na fogueira dos sacrilégios dos puristas.

Merry e Pippin não têm papeis importantes na maior parte do filme, mas a sua cena final é muito comovedora. Dominic Monaghan and Billy Boyd trabalham bem juntos e estou ansioso de ver a sua história em As Duas Torres.

O Boromir de Sean Bean, tal como o Aragorn de Viggo, fica amputado devido à compressão. Eu acho que neste caso a equipa de guionistas percebeu muito bem que tinham de encontrar um compromisso e, para compensar, mudaram de novo a história para darem a Sean uma oportunidade de expressar as emoções e prioridades contraditórias de Boromir numa cena muito bem escrita. De facto, em duas cenas muito bem escritas. Mas, mesmo assim, ele precisava de ainda mais tempo no écran para criar Boromir da forma que seria de exigir. No entanto, a audiência ficou verdadeiramente comovida quando chegou o momento de glória de Boromir. A cena podia ser mais fiel ao livro, e em minha opinião seria então mais forte, mas Sean and Viggo pegaram no material que tinham e ‘deitaram a casa abaixo’. Não é habitual ver um cinema cheio de gente a aplaudir tal e qual como quando a equipa da casa marca um golo decisivo. De facto, nunca tinha visto uma reacção deste tipo num cinema. As pessoas gritavam, batiam palmas, aplaudiam. Peter, uma cena completamente conseguida. E mesmo que não contassem com as actuações fantásticas de Ian McKellen e Ian Holm para criar o que é basicamente a espinha dorsal do filme, eu acho que a maior parte do público vai sair do cinema com a cena entre Viggo e Sean tão bem marcada na memória que se vai sentir muito satisfeito.

Finalmente, tenho que renovar a minha queixa sobre o fumar. É completamente desnecessário. Não há justificação para pôr personagens a fumar nos filmes. Tolkien não sabia que os efeitos de fumar eram tão mortais e perigosos. Não é justo mostrar o uso do tabaco como um passatempo inofensivo à sua audiência e assim pôr em perigo vidas futuras. O filme é agradável, mas se o uso do tabaco foi incluído para satisfazer os desejos puristas das pessoas, isso não era necessário. Não acrescenta nada à história e a caracterização das personagens não depende disso. As pessoas morrem por usar produtos de tabaco. As pessoas sofrem danos físicos sérios por usar produtos de tabaco. Hollywood precisa de entender que tem uma responsabilidade para com as suas audiências para não glorificar comportamentos que se sabe serem fatais. Não vimos nenhuns Hobbits a beber veneno de ratos ou a porem-se à frente de trens de mercadorias. Nenhuns Hobbits apontaram armas às suas cabeças ou se fizeram ir pelos ares. Não precisamos de ver Hobbits, Feiticeiros ou Batedores (Rangers) a fumar. Sei que vou ser atacado e criticado por tomar esta posição forte. Mas eu sou apenas alguém que acha que a vida humana é mais importante do que uma tentativa pouco ajuízada de ser fiel a um livro quando se faz um filme.

Assim, espero que as pessoas apreciem o filme. Estou ansioso por o ir ver outra vez. Mas fico triste com o facto de terem tomado uma decisão tão irresponsável num assunto muitíssimo importante. Para o filme em geral, Peter, dou um “Bem feito”. Pelo tabaco, dou um “uma lástima”. Câncro não é para rir. Espero que essa doença nunca lhes faça perder um familiar. Eu já perdi de mais.

Tradução de Isabel Castro

Os Mistérios da Terra-média

Parte do prazer de ler sobre a Terra-média está em descobrir mais a respeito de temas obscuros após estes aparecerem em algum lugar "canônico". Pegue os Druedain; Woses, como são chamados em "O Senhor dos Anéis". Quando você lê o livro pela primeira vez, vê que eles mal aparecem e conduzem os Rohirrim ao redor de um exército de Orcs e Orientais.

 

Eles têm alguma importância além desta no decorrer da história? Sim e não. Eles estão lá para dar aos Rohirrim uma passagem viável ao redor do bloqueio da tropa, e a finalidade deste bloqueio é mostrar ao leitor que Sauron é tão poderoso que pode espalhar exércitos por todo o mapa. Mas os Druedain também servem para lembrar ao leitor que a Terra-média está cheia de criaturas estranhas e misteriosas de todos os tipos.

Talvez Tolkien tenha pensado "Aqui será bom acrescentar outra raça mágica de criaturas" quando ele esboçou aquela parte da história, mas evidentemente ele não parou por aí. Muitos anos depois ele escreveu um longo ensaio o qual falava muito da história sobre os Anões e os Homens, mas também falava dos Druedain, e explicava quem eles eram, de onde eles vieram, e como eles acabaram na Floresta Druedain. A escolha do nome "Druadan" pode ter sido conveniente, ou pode ter sido intencional.

Tolkien de fato começou chamando o povo de Ghan-buri-Ghan de "homens escuros de Eilenach" e a floresta era "Floresta Eilenach". Mas então eles se tornaram os Druedain da Floresta Druadan, e no publicado Senhor dos Anéis, eles se tornaram os Woses, mas a floresta permaneceu Floresta Druadan. A associação da palavra "adan" com uma raça não-edain é muito peculiar, e confundiu muitas pessoas. Mas em 1980, Christopher Tolkien publicou muito material dos Druedain em "Contos Inacabados" e o mistério foi esclarecido.

Esta foi a quarta tribo associada aos Edain, não numerada entre as "casas" dos Edain, mas, apesar de tudo, foi dado a eles acesso a Númenor como uma recompensa por seus serviços e sofrimento em Beleriand. E na prática, não há menção deles em "O Silmarillion", porque foi somente em 1960 que Tolkien concluiu as origens e destino dos Druedain, muito depois do material do Silmarillion ter sido feito até o ponto onde Christopher o encontrou após a morte do pai.

Por sinal, Tolkien gostava da palavra "wose". Ele a usava como um dos apelidos de Túrin [Saeros o chamava de woodwose em "Narn i Hîn Húrin"] e "woodwose" é a forma moderna do Anglo-Saxão "wusu-wasa", "homens selvagens das florestas" [um dos apelidos de Túrin]. "Woses" é então destinado a ser uma tradução da atual palavra Rohirrica "Rogin" [sing. Rog], com o mesmo significado, "homens selvagens das florestas". Os Rohirrim ignoravam [assim como Tolkien, quando escreveu o Senhor dos Anéis] a antiga história dos Woses.

Há muitos mistérios confinados nas florestas da Terra-média. Tolkien amava as árvores, e ele as honrou de uma forma especial. Ele sempre achou que elas tinham recebido um amargo quinhão em compartilhar o mundo com os homens. Tolkien baseou-se na "vinda da "Grande Floresta Birnam para a alta Colina Dunsinane"", em Shakespeare, e quis que as árvores realmente marchassem para a guerra, realizando esse desejo através dos Ents.

Alguém deve perguntar como os Ents vieram a habitar a Floresta de Fangorn. Tolkien não diz claramente. O próprio Fangorn [Barbárvore] diz que vagou em Beleriand por terras há muito não molestadas por Morgoth, mesmo durante a guerra contra os elfos. Evidentemente, se os Ents sobreviveram à destruição de Beleriand no fim da Primeira Era, eles devem ter rumado para o leste, para Eriador, onde havia em tempos idos uma antiga floresta sobre a qual Elrond disse: "foi-se o tempo em que um esquilo podia ir de árvore em árvore do que é agora o Condado até a Terra Parda, a oeste de Isengard. Por aquelas terras eu viajei uma vez, e muitas coisas selvagens e estranhas eu conheci."

Deixando a viagem de Elrond à parte, alguém deve se perguntar como os esquilos [e os Ents] cruzaram o poderoso rio Gwathló. Ele era amplo e bastante profundo, pois os navios vindos do Oceano podiam navegar longe para o interior, até Tharbad, onde, possivelmente, as águas se tornavam suficientemente rasas para que os Ents pudessem atravessar.

Mas por que eles fariam isso? Quando eles deixaram as florestas do norte? Aparentemente, o eles fizeram antes da Guerra entre os Elfos e Sauron, e em outro texto Tolkien diz que o próprio Fangorn encontrou o Rei de Lothlórien nos primeiros anos da Segunda Era e combinaram as fronteiras de seus reinos. A migração dos elfos de Beleriand para o leste na Segunda Era levou os Ents para o leste também? Ou os ents em alguma época se tornaram tão numerosos que tinham se espalhado pelas terras? Há muitas coisas que nunca saberemos da história dos Ents, infelizmente.

Outras criaturas das florestas que têm um passado misterioso são as aranhas gigantes de Mirkwood. Onde e quando estas criaturas surgiram? Dizem ser descendentes de Ungoliant, e Mirkwood era a Grande Floresta Verde até Sauron despertar na Terceira Era e se estabelecer em Dol Guldur. Ele, sem dúvida induziu algumas da prole de Ungoliant que habitavam o norte da floresta, mas como elas chegaram lá? Não parece provável que Isildur desejasse construir uma cidade próxima a aranhas monstruosas que se alimentavam de Homens e Elfos.

Uma coisa que sempre me incomodou é quem eram aqueles misteriosos homens que comercializavam com a Cidade do Lago em "O Hobbit". Eles viviam ao sul do Lago Comprido e eram aparentados aos Homens do Norte, mas onde eles viviam? A Velha Estrada da Floresta, de acordo com o livro, "era coberta de vegetação e não utilizada no final, ao leste, e conduzia a pântanos intransponíveis onde os caminhos estavam há muito perdidos." A estrada foi originalmente feita pelos Anões. Eles usavam-na para alcançar o Celduin e, de lá, passavam para o nordeste de alguma forma até as Colinas de Ferro.

Se houvessem homens ainda vivendo ao longo do Celduin [o Rio Corrente, que vem de Erebor], por que eles não se estabeleceram no ponto onde a Velha Estrada da Floresta encontrava o rio? Ou talvez eles tivessem vivido lá por algum tempo, mas tivessem deixado o local.

Então há dúvida do por que Gandalf e Beorn decidiram levar Bilbo de volta pela borda norte de Mirkwood quando retornaram para o oeste. Havia, de fato, homens vivendo naquelas regiões em tempos antigos, e provavelmente homens ainda habitavam lá no fim da Terceira Era, mas não há indicação no mapa de "O Hobbit" ou no texto. Parece uma decisão muito e
stranha, visto que o Rei Elfo teria assegurado a sua passagem a salvo através da floresta.

Voltando ao sul, nós podemos olhar para Pelargir e perguntar que fim levou a frota de Gondor. A incursão de Aragorn a Umbar foi a última vez que navios gondorianos se moveram contra o inimigo na Terceira Era. No tempo da Guerra do Anel, a ameaça de Umbar e outros portos do sul era tão grande que Denethor desejou nove décimos das forças de Gondor nas costas, protegendo-a de ataques vindos do mar. Ele teria dispensado as frotas de Gondor após tornar-se Regente, talvez por ter sido Thorongil, seu rival, quem liderou o ataque contra a Cidade dos Corsários?

E por que ninguém tentou recolonizar Eriador depois da destruição de Angmar? A presença das Criaturas Tumulares em Tyrn Gorthad, as Colinas dos Túmulos, explica por que ninguém se estabeleceu por lá novamente. Mas e quanto às planícies ao sul de Vau Sarn que eram inabitadas? E ao redor das Colinas do Sul? O que impedia as pessoas de viverem lá? O que houve ao povo de Tharbad quando aquela foi finalmente abandonada? Eles rumaram para o norte, para o Ângulo, e se uniram aos Dúnedain que moravam lá? Pelo jeito, parece que os Dúnedain prosperaram e também muitos deles partiram para outras partes do mundo [talvez indo para o sul, até Gondor], ou muitos devem ter perecido nos ermos de Eriador.

Existem tantas perguntas sobre a Terra-média que alguém pode até descrever um "Baseado em…" durante anos, propondo teorias bizarras numa tentativa de resolver tais mistérios. Estas questões sem resposta nos fazem perceber a "profundidade" com que nós falamos da Terra-média. Elas são como um vislumbre de montanhas num horizonte distante, do qual nunca nos aproximaremos. As respostas estão lá, além de nosso alcance, para sempre perdidas.

Tradução de Fábio Bettega

A ponta do iceberg: Bem vindo í  Terra-Média, peregrino!

Em "Rios e Faróis das Colinas de Gondor", J.R.R. Tolkien
adicionou novos elementos para a complexa pseudo-história da
Terra-Média. Ele inventou histórias para as palavras, explicando o
porquê de certas regiões de Gondor terem os nomes que têm.

 

 

 
Arnach é dito ser de origem pré-numenoreana nos
apêndices do Senhor dos Anéis (SdA), e essa hipótese é repetida no
"Rios e Vales de Gondor". Mas uma história conhecida é atribuída ao
nome Arnen, assim como uma explicação intuitiva é oferecida logo após,
como correção. Arnen, ao que parece, foi o nome que Isildur deu à todas
as terras que tomou como suas (Ithilien). Mas eventualmente ficou
associado apenas com os vales, propriamente chamados de Emyn Arnen, que
o autor anônimo de um documento gondoriano chamou de Ondonore
Nomesseron Minaþurie (o símbolo þ é chamado de "thorn" e é associado
com um som similar ao "th-" em "thanks").


O
estudo "The Ondonore Nomesseron Minaþurie" é traduzido como "Estudo
sobre os Nomes dos Locais de Gondor" e é atribuído ao período em que
Meneldil reinou, já que "nenhum evento depois desse foi mencionado".
O documento é citado apenas brevemente (e pode não existir, embora o
texto "Rios e Vales" — publicado no Contos Inacabados e Vinyar Tengwar
nº 42 — diz nada sobre Tolkien ter escrito um documento).


O nome Arnen, como argumenta esse escolástico gondoriano, deve ter sido
uma errônea composição Quenya-Sindarin feita pelos numenoreanos que
exploraram e colonizaram a região (eram soldados, colonizadores e
marinheiros — com certeza, a linha de frente da sociedade
numenoreana). Apesar de derivar principalmente dos numenoreanos Fiéis
do oeste de Numenor, onde muitos Beorians fluentes em Sindarin tinham
feito moradia, essas pessoas tinham pouco ou nenhum conhecimento de
Sindarin e Quenya. Ainda, o autor deduz, Arnen provavelmente
significava originalmente "perto da água" (do Anduin), e Emyn Arnen
simplesmente significava "os vales nascendo em Arnen"


Pelos numenoreanos Fiéis, num aparente ato de rebelião contra os Reis
falantes de Adunaico, terem colocado nomes élficos nos marcos do norte
da Terra-Média, os novos regentes (a Casa de Elendil) aceitaram os
nomes incorretos que "se tornaram comuns". Isto é, os reis e senhores
de tradição aceitaram qualquer nome que eram usados em larga escala no
reino de Gondor.


A Casa de Elendil trouxe
ordem ao caos linguístico que reinou na Terra-Média. Na região de
Gondor, por exemplo, os Numenoreanos acharam "muitos povos
misturados, e numerosas ilhas de povos isolados, que dominam velhas
construções e constroem refúgios montanhosos contra invasores"
. Os "muitos povos misturados",
infelizmente, são mencionados numa nota interminada sobre o nome Bel-,
que coloca Círdan entre os Noldor. Christopher especula que seu pai
percebeu a gafe e decidiu esquecer a passagem inteira. É esta nota que
oferece a história alternativa pro porto de Edhellond, onde diz que
este foi fundado por Sindar ressentido com os Noldor.


Apesar de tudo, ignorando a clara indicação de que Tolkien abandonou a
nota etimológica em Bel-, parece claro que ele estava tentando
permanecer fiel à informação que ele proveu nos apêndices do SdA.
Também parece que ele estava tentando desenhar duas influências
históricas como modelos para o começo de Gondor. Um desses modelos era
pós-romano, pré-Bretanha medieval (por volta do meio do século V).
Durante esse tempo toda a área estava em desenvolvimento, e as línguas
migravam livremente entre os povos.


Alguns
estudiosos acreditavam, mesmo durante a época de Tolkien, que os
Romano-Celtas foram apenas parcialmente doutrinados na cultura Romana
depois de 400 anos, possuído as baixadas e residiram nas costas da
Bretanha. Mais primitivos ou menos romanizados, os celtas moraram em
País de Gales, Cornwall e Escócia. E, claro, ainda haviam celtas na
Irlanda cujos contatos com Roma eram poucos (ao menos, na época de
Tolkien, havia pouca evidência da intrusão romana na Irlanda). Nestes
vários grupos de Celtas (sendo que alguns chegaram pouco antes que os
romanos, e absorveram ou expulsaram povos ainda mais antigos) estavam
mercenários alemães da Saxônia e Dinamarca, os seguidores de Hengist e
Horsa.


O latim estava, então,
misturando-se com os dialetos celtas e germânicos, e era eventualmente
substituído pelos invasores germânicos, apesar de sobreviver em nomes
de lugares (como Londres, de Londinium, Colechester, etc.) que os
germânicos adotaram. Os germânicos aceitavam os nomes que estavam em
uso corrente para regiões e cidades, mas deram seus próprios nomes para
suas cidades, fortalezas, reinos e marcos.


Um desenvolvimento paralelo, do qual Tolkien estava plenamente atento,
ocorreu na América do Norte entre os séculos XVII e XVIII. À medida que
os colonizadores ingleses se espalhavam pela costa norte-americana,
eles se misturaram com os povos nativo-americanos, espanhóis, franceses
e alemães. Os exploradores ingleses , trouxeram consigo as fundações da
língua e cultura inglesas, mas eles não eram pouco mais que
foras-da-lei e rebeldes fugindo da opressão de sua terra natal,
particularmente pela opressão religiosa. Os puritanos que colonizaram a
Nova Inglaterra de certa forma lembram os Fiéis numenoreanos, que
evitavam as crenças adotadas pelos seus reis.


A América do Norte, como a Inglaterra no começo, e como Gondor, está
recheada de nomes de lugares de várias línguas. A mais antiga colônia
européia na costa leste, por exemplo, é St. Augustine (São Agostinho),
fundado pelos franceses, roubado pelos espanhóis, e ultimamente cedido
aos EUA como parte da Florida. Mas há nomes de lugares de línguas
nativo-americanas, e construtos híbridos, assim como feitos do latim e
do grego (como Augusta de Filadélfia, respectivamente).


Quando a Bretanha virou Inglaterra, a antiga cultura romana foi jogada
de lado ou abandonada, e os invasores germânicos tinham que construir
uma herança cultural totalmente nova em termos de literatura, cultura e
arquitetura. Enquanto as revoltadas colônias americanas formavam sua
própria nação, eles batalhavam para reter sua identidade inglesa. Por
décadas as famílias ricas mandavam seus filhos para estudarem em
universidades inglesas. Eles esperavam a última moda sair da Inglaterra
e da França. O novo EUA, como o novo Gondor, teve que começar sua nova
sociedade quase do nada.


A América do
Norte foi abençoada com uma leva de jovens filhos e filhas que, saindo
das altas classes mercantis inglesas, trouxeram um riquezas,
conhecimento e determinação para estabelecer suas famílias no Novo
Mundo, nas colônias. Eles construíram uma fundação educacional,
literária e industrial onde a cultura norte-americana foi aparecendo
geração após geração (influenciada por imigrantes de todo o mundo).


No começo, Arnor e Gondor foram cortados de Númenor, assim como a
Inglaterra cortou os EUA. Elendil e seu povo tiveram que construir sua
civilização com menos recursos que os EUA possuíam. Os nove barcos dos
Fiéis que sobreviveram à Queda de Númenor devem ter provido para as
regiões fronteiras de Arnor e Gondor com uma pequena mas
auto-sustentável classe intelectual. O "Rios e Vales" diz que os
intelectuais – pessoas estudadas que entendiam Quenya e Sindarin -
vieram por último. É então razoável dizer que a chegada de Elendil na
Terra-Média inferiu uma revolução cultural que mudou para sempre o mapa
socio-tecnológico do mundo do Norte.


O
significado da chegada tardia da classe intelectual não pode ser
enfatizada. Tudo pode ter mudado. Onde previamente os homens das
fronteiras sobreviviam parcamente, possivelmente juntando-se com os
clãs nativos de Gwathuirim e outros povos que habitavam o Ered Nimrais,
Elendil e seus filhos trouxeram um grupo militar de puristas
numenoreanos para as praias e decidiu reconstruir Númenor à sua imagem.
O "Rios e Vales" diz que eles retiveram algumas das tradições botânicas
numenoreanas (por falta de uma frase melhor).


Discutindo o significado de Arnach e Lossarnach, Tolkien decidiu que
loss- referia-se às flores das árvores frutíferas da região, plantadas
nos pomares pelos numenoreanos. Esses pomares ofereciam frutas frescas
para Minas Tirith mesmo durante a Guerra do Anel. Eram importantes para
Gondor como as oliveiras para os gregos. As flores de Lossarnach eram
tão variadas e belas que o povo de Minas Tirith/Anor faziam "expedições rumo a Lossarnach para ver as flores e árvores…"


Ioreth, a idosa senhora que trabalha nas Casas de Cura de Minas Tirith,
falou de vaguear pelas matas com suas irmãs, e ela mencionouas rosas de
Imloth Melui, que ela apreciava quando jovem. Ela era versada em velhas
rimas e conhecia os nomes comuns das plantas (pelo menos, do athelas,
que ela reconheceu como folha-do-rei). Algo da tradição fronteiriça
sobreviveu à influência civilizante do grupo de Elendil, ou a
civilização foi perdendo-se pelos anos nos altos e baixos da
civilização gondoriana.


O People of
Middle-Earth indica que Isildur e Anarion fundaram as cidades de Minas
Anor, Minas Ithil e Osgiliath. De fato, Osgliath foi a primeira cidade
que eles construíram. Eles devem ter juntado o maior número possível de
pessoas locais que encontraram e tentaram explicar-lhes como se
constrói uma cidade. Cada passageiro nos 9 barcos deveria valer seu
peso em mithril, pois seu conhecimento em como Númenor funcionava era
insuperável. Os numenoreanos nativos deveriam ser para seus primos da
Terra-Média como Noldor recém-chegados de Aman se hospedando em meio
aos Nandor.


Acerca dos povos da
Terra-Média, o "Rios e Vales" também contém uma passagem – cancelada
por Tolkien – que discute a prática de construir templos, que os
numenoreanos não seguiam por ser contra a doutrina de Sauron. Nas
Sendas dos Mortos há um templo ancião, que o malfadado Baldor tentou
invadir. Ele foi atacado por trás (provavelmente por Gwathuirim que
reverenciavam a área), seguindo-o até as Sendas dos Mortos. Leitores
tolkienianos resolveram assumir como certo a morte inexplicada de
Baldor causada pelos Mortos, mas este aparentemente não é o caso.


Este ensaios proporcionam novos vislumbres da visão de Tolkien sobre a
Terra-média. Mas também criam novas perguntas tanto quanto se esforçam
para responder questões antigas. Uma porta foi aberta mas nós não
podemos fazer mais nada além de espiar no canto, pois os tesouros que
permanecem daquela porta antes proibida são inimigináveis. Nós nunca
iremos, claro, tomá-los corretamente, pois o próprio Tolkien nunca o
teve completamente. Mas com cada revelação nós chegamos um passo mais
perto de ver o panorama se seu coração. As legiões paradas nas colinas
e os clâs movendo-se silenciosamente pelas florestas, as garotas rindo
nas campinas, os fazendeiros com seus pomares – mesmo os velhos
marinheiros consertando seuas redes e relembrando como foram para o mar
pela primeira vez – tudo se combina para nos mostrar um mundo repleto
de maravilhas e prazeres da juventude do homem.


[Tradução de Aarakocra]