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Michael Martinez

Cuidado com o Padeiro na Cozinha!

Não há nada como um bom vilão de Tolkien e, desafortunadamente, há tão poucos deles. Agora, antes que me enforquem, deixe-me explicar porque eu acho que Tolkien intencionalmente manteve seus bons vilões a um mínimo. Povos realmente malignos eram raros porque eles estariam corrompendo e manipulando todos os demais em direção ao mal. Nem Melkor nem Sauron iriam tolerar um Senhor do Escuro rival. Quase todos os outros caras eram apenas seus servos. É debatível se o Balrog de Moria estaria realmente servindo a Sauron na Terceira Era.

Mas o mal de Tolkien é diferente do mal da maioria das histórias. Ele não está focalizado no mal em seres humanos. Ele está focalizado no mal externo, o qual ele chama algumas vezes de Mal Encarnado. Quase pode-se ouvir estas palavras reverberando quando ele as fala. Trovões ressoariam nos céus, e nuvens bloqueariam o sol. Melkor e Sauron podem ter sido bons no início, mas eles percorreram aquele caminho sombrio que existe à frente de todos. Oras! Melkor abriu o caminho e Sauron o ampliou.

Existe mal humano na Terra-média: ambição, avareza, orgulho e assim por diante. Reis e heróis podem facilmente enlouquecer e deixar o caminho da Bondade e Luz. Tolkien produz sua tragédia a partir deste personagens humanos. Mas nem Melkor nem Sauron são trágicos, embora pudessem ser. Isto é, não existe retorno para a queda destes dois seres anteriormente notáveis e impressionantes. Eles eram Ainur, anjos, filhos do pensamento de Ilúvatar antes de existir um Tempo, antes dos Filhos de Ilúvatar terem sido trazidos à existência. Eles nem sempre foram da escuridão, antigamente eram da luz. E mesmo assim as escolhas que eles fizeram conduziram-nos à destruição. Suas corrupções não possuíam uma conclusão decidida de antemão.

Por outro lado, não há mal menor em Tolkien. Ninguém fica louco em sua vila e envenena o pão, por assim dizer, em um pequeno ato de vingança por zombarias e insultos. Todos os atos de maldade são universalmente desprezados. As pessoas possuem um senso do que é certo e do que é errado, e elas geralmente tentam viver por ele. Exceto por “aqueles outros caras”, os inimigos. Em cada guerra, os vencedores sãos os bons rapazes em sua própria visão. Então os seguidores de Sauron sem dúvida aproveitaram o sucesso que experimentaram porque estavam do lado certo. Eram os malignos Elfos e tirânicos Dunedain que precisariam ser destruídos.

De outra forma, alguém pode apressar-se em apontar, quem poderia pensar que os Orcs são “gente boa”? Mesmo os Orcs pareciam desprezar a si mesmos. Sim e não. Nós definimos bem e mal pelo valores que nos são ensinados ou com os quais crescemos. Os Orcs foram corrompidos. O que eles poderiam considerar bom não necessariamente faria sentido para nós, mas faria sentido para eles. “Quais são as melhores coisas da vida?” “Esmagar seus inimigos. Vê-los correr de você. Ouvir a lamentação de suas mulheres”. Não é exatamente um diálogo clássico de Tolkien, mas reflete os valores dos guerreiros na imaginação de algumas pessoas. [Nota do Tradutor: apesar de Martinez não citar a fonte, é um diálogo do filme "Conan"]

Bem, no sentido do que é o melhor para a comunidade, também existia entre os Orcs. Aragorn apontou que eles poderiam viajar grandes distâncias para vingar um capitão assassinado. Porque? O Orc estava morto, apesar de tudo, certo? O que existia para que os Orcs sobreviventes arriscassem suas vidas tentando se vingar de alguém que matou seu capitão o qual eles provavelmente odiavam? Orgulho. Mas não apenas orgulho. Eles deveriam ter um senso de bando, um sentimento tribal que daria suporte a todos os inevitáveis abusos. O rosnar e lutar e resmungar eram parte de seu sistema social de bando. Galinhas determinam uma hierarquia social e também os Orcs. Este é simplesmentemente o modo como as coisas são. E daí se o principal Orcs matou outros cinco chefes Orc para tomar o poder da tribo?

Os Orcs eram leais a seus mestres. Eles lutavam e morriam aos milhares por Melkor, Sauron e Saruman. Muitos deles devem ter perdido suas vontades próprias, mas mesmo Melkor [Tolkien fala isso em um de seus ensaios] não poderia controlar diretamente todos eles. Eles odiavam seus mestres mas os temiam. E mais, alguns dos Orcs pareciam ter orgulho de seus serviços. Shagrat, por exemplo, estava ferozmente determinado em ver Frodo entregue a Barad-dur. Porque? Gorbag e seus rapazes não pareciam tão determinados. Mesmo quando foi falado a Shagrat que um guerreiro Élfico havia ultrapassado suas defesas, ele insistia em enviar o prisioneiro para Lugburz [embora ao final apenas a cota de mithril de Frodo tenha sido levada]. Shagrat era um “bom Orc”. Ele seria o tipo de Orc que você gostaria de ter a seus serviço se você controlasse orcs. Gorbag não era assim tão bom.

Mas isso não quer dizer que os valores dos Orcs estariam lado a lado com o dos Elfos e Dunedain. Os Orcs viviam suas vidas de acordo com a vontade de seus mestres. Eles poderiam não saber que existia um padrão absoluto de bem e mal, derivados, em última instância, dos valores de Ilúvatar. Seriam os valores Dele que prevaleceriam sobre todos, e eles poderiam não necessariamente coincidir com o de Elfos e Homens. Ilúvatar, por exemplo, permitia ao mal existir. Porque? Esta é a mesma questão feita pela comunidade Judaica-Cristã há muito tempo. Porque Deus permite ao mal existir?

A resposta do Novo Testamente é que, se Deus fosse acabar com o mal hoje, então quase todos no mundo iriam perecer. Ele adia seu julgamento para dar às pessoas tanto tempo quanto Ele achar razoável para que reflitam sobre seus pecados e se afastem deles. Os propósitos de Ilúvatar não são tão claramente explicados. De fato, Tolkien estava perturbado pelas implicações de se extender aquele princípio a Ilúvatar. Ele reconhecia que os Orcs eram seres racionais encarnados, como Homens e Elfos, então Ilúvatar estaria criando espíritos que estariam condenados a liver vidas malignas. Porque Ilúvatar faria isso? Não eram tanto a predestinação quanto as circunstâncias que fariam o destino dos Orcs.

A resposta transtornou Tolkien. Ele decidiu apenas que Ilúvatar sabia o que estava fazendo, mas se os Orcs eram seres racionais encarnados, de alguma forma serviam aos propósitos de Iluvatar. Pode-se facilmente perguntar, contudo, porque Ilúvatar permitiria que um filho nascesse para crescer e se tornar Ar-Pharazon. Qual é a diferença entre o Rei de Numenor que se tornou maligno e os Orcs que foram criados malignos, exceto que aos Orcs não é dada escolha? Gandalf parece estar falando dos Orcs quando diz a Denethor, “E eu, tenho piedade até de seus [de Sauron] escravos“.

O mal existia nos dois lados da guerra. Então mal não era
realmente sobre “nós” e “eles”. É sobre as escolhas feitas dentro dos limites da vida de cada um. Uma escolha órquica de armar emboscadas e roubar pessoas é maligna. Sauron provavelmente não permitia assaltos nas estradas de seu reino. Todos os bens pertenciam a ele e servia a suas necessidades. Coitado do Orc que roubasse uma de suas caravanas de suprimento!

Mas se o mal pode ser encontrado em todo lugar, também é assim com o bem? Esta questão é mais difícil de responder. Os Orcs, em sua maioria, agiam em conformidade com as leis de Sauron. Eles o temiam e temiam a consequencias da desobediência. Mas um Orc cumpridor das leis seria “bom”? Vejamos de outra forma, um Homem vivendo sob o governo de Sauron [muitos viviam] e agindo da mesma forma que os Orcs seria menos maligno por ser um Homem? Seria melhor? Eu acho que não. Ele teria a vantagem da casta, talvez, mas apenas se os Homens em geral fossem tratados melhor que os Orcs, por Sauron. Pode ser que os Orcs tivessem um tratamento melhor [mas provavelmente todo mundo era mal tratado da mesma forma].

Saruman tentou colocar-se como um novo senhor escuro, e ele representa o que Sauron deve ter atingido num estágio bem anterior, antes da Guerra entre Elfos e Sauron. Sauron teve que começar como um Maia solitário em algum momento da Segunda Era. Deve ter levado bastante tempo para acumular seguidores e escravos. E até que se fixasse em Mordor, muito depois de fazer o Um Anel, quão efetivo era seu controle sobre outras criaturas? Quantas outras criaturas ele era capaz de subjugar sob sua vontade?

Quando Sauron começou a dominar os antigos servos de Melkor, ele deveria ser apenas um pouco pior que uma padeiro furioso. Isto é, seus pecados na Primeira Era foram, sem dúvida, numerosos, mas ele desitiu por um tempo. Um longo tempo. Pode ter levado séculos até que Sauron retornasse a seus desígnios malignos. Teria sido apenas um simples momento de fúria que levou-o a retornar ao mal e à escuridão? Teria sido assim que Saruman começou a trilhar o caminho?

A busca pelo mal na Terra-média é quase tão longa como a busca por redenção, aparentemente. Melkor esteve dividido durante o Ainulindale e aparentemente irritou Iluvatar, mas ele foi realmente mau? Quando Melkor entrou em Ea com os outros Valar, ele parece ter trabalhado bastante para ajudá-los a dar forma e substância ao universo. Não existiu nenhuma briga real até que começaram a trabalhar na região que seria conhecida como Arda. Então ele a clamou para si mesmo, ação à qual ele nào tinha direito. Quão longas foram as incontáveis Eras das Estrelas nas quais Melkor [e Sauron, e todos os outros Maiar não nomeados que eventualmente seguiram Melkor ao mal] ainda não tinha se tornado maligno?

Em uma escala menor, quanto tempo levou para os Noldor cairem nas mãos do mal? Eles não eram malignos quando alcançaram Aman. Eles ainda não tinham sucumbido ao pecado do orgulho ao qual Melkor os induziu após ser libertado. Eles não continuavam essencialmente um povo bom no dia em que Melkor foi solto de Mandos? Como aquele dia deve ter sido? E se Fëanor, que colocou-se à parte da Casa de seu pai, já estivesse sucumbindo ao orgulho [que foi sua queda] Melkor teria sentindo a marca de outro mal em Valinor?

Passou-se um longo tempo antes que Melkor de fato atingisse alguma coisa no sentido de corromper os Noldor. E embora Fëanor tenha rejeitado Melkor, os Valar acreditavam que Melkor fora de alguma forma responsável pelo temperamento de Fëanor. Se Melkor não tivesse destruído as Duas Árvores, além de Finwë, Fëanor poderia ter sido um pouco rude, mas ele não teria ultrapassado o limite. Mas fica claro que, quando ele subiu a colina de Tuna em desafio aos Valar e falou a seu povo, Fëanor tinha finalmente cruzado a linha, e os Noldor logo o seguiriam.

É difícil imaginar como os Noldor lentamente caíram pelo pecado do orgulho. Eles tornaram-se arrogantes e abertamente desconfiados uns dos outros. Devem ter havido argumentos e disputas , mas aparentemente nada chegou a brigas e espadas. Os padeiros ocasionalmente furam os bolos dos outros? Qual seria a tendência de um povo que poderia ser tão facilmente [aparentemente] dirigidos contra seus vizinhos [os Teleri de Alqualonde]? Como aconteceu isso, quando Fëanor ordenou a seu povo que roubasse os navios dos Teleri, ninguém perguntou porque Deus precisaria de uma espaçonave [ou, mais apropriadamente, porque Fëanor pensava que tinha o direito de tomar os navios]?

Seria muito tarde para divergências nas fileiras? Mesmo o bem intencionado Fingon foi correndo à batalha sem conhecer as causas justas e injustas dos combatentes e mesmo procurar conhecê-las. Seu ataque irresponsável e precipitado, originado da lealdade, parece ter condenado todo o seu povo. O que teria acontecido se Fingon primeiro tivesse perguntado o que estava acontecendo? O que aconteceria se ele tivesse se recusado a apoiar o roubo dos barcos por Fëanor? Teriam ainda os Noldor se lançado ao exílio ou apenas uma pequena fração do povo seria condenada?

O caminho para a escuridão parece ter muitas armadilhas, mas também existem algumas interrupções. Existem pontos onde pode-se avaliar o que foi feito e voltar atrás. A redenção de Boromir é um exemplo de como alguém poderia começar a trilha o caminho da escuridão mas não fazer a jornada completa. Ele continuou tendo que pagar com a vida por tentar se apoderar do Anel, mas sua morte foi uma morte nobre. Ele sacrificou-se tentando salvar seus dois companheiros.

Diz-se que mesmo Ar-Pharazon hesitou quando Sauron encorajou-o a cortar a Árvore Branca de Númenor. Foi o valente esforço de Isilidur em salvar a fruta antes da Árvore ser destruída que finalmente empurrou Ar-Pharazon para além dos limites. Pode ser afirmado que, mesmo Isildur não fazendo nada, o rei eventualmente concordaria com a sugestão de Sauron. Sauron não demonstrava piedade em seus esforços para corromper e destruir os Numenorianos. Em todo caso, a ação de Isildur estimulou a reação de Ar-Pharazon, e Ar-Pharazon retomou sua jornada na escuridão.

Earnur, o último Rei de Gondor da Linha de Anárion, não tornou-se exatamente mau, mas sucumbiu ao orgulho. E também sua queda foi atrasada. Na primeira vez que o Senhor dos Nazgul lançou um desafio ao rei, o Regente Mardil foi capaz de conter Earnur. Earnur teve uma pausa, mas a certa hora ele retomou seu percurso de auto-destruição. Ele respondeu ao segundo desafio.

Não era fácil para alguém tornar-se maligno, na Terra-média. Os Orcs não foram sempre malignos. Em algum momento em suas origens eles foram bons, tão bons quanto qualquer um. Eles não eram de fato Orcs. Então eventualmente chegou um dia em que eles puderam ser chamados Orcs, mas como foi o processo de transição? E eles teriam ido tão longe no caminho escuro que mesmo que desejassem de todo coração não poderiam retornar? A questão da redemibilidade dos Orcs perturbou Tolkien e incomodou muitos de
seus leitores. Muitas pessoas assumem que os Orcs foram todos destruídos na Guerra do Anel, mas não foi o caso. O Epílogo [que Tolkien foi persuadido a não publicar] indicava que os Orcs continuavam por aí. Sam especulou se os Orcs seriam, em algum momento, completamente destruídos e durante a Segunda Guerra Mundial Tolkien frequentemente fazia referência aos “Orcs” no exército britânico em cartas a seu filho.

Orcs, então, não seriam tão completamente malignos a ponto de sempre poderem ser distinguidos dos Homens. Ou talvez os Homens não seriam sempre tão bons a ponto de poderem ser distinguidos dos Orcs. A desobediência dos Elfos não foi universal como foi a desobediência dos Homens. Os Elfos foram capazes de aprender o erro de seus caminhos e rejeitar o caminho da escuridão. Os Homens tiveram que esperar por outra forma de redenção.

Todavia nós vemos o bem e o mal na Terra-média principalmente pelos olhos dos Hobbits. Existiram algums Hobbits malvados e Hobbits que serviram de livre vontade a Saruman. Mas em geral, os Hobbits possuiam uma inocência, uma fidelidade ao bem, que todos os Homens e Elfos uma vez dividiram. Isto não quer dizr que os Hobbits não partilharam da Queda dos Homens. Eles devem ter sido [como Tolkien disse] um ramo da raça Humana. Mas ele desistiram das trevas e nunca voltaram completamente para ela. Poucos, como Sméagol e Lotho Sacola-Bolseiro, seguiram o caminho e desapareceram no esquecimento.

Para os Hobbits, os Elfos eram bons e os Orcs eram maus. Este pensamento era ao mesmo tempo correto [pois os Hobbits julgavam Elfos e Orcs com base em suas ações] e errado [pois os Hobbits não olhavam mais profundamente em suas próprias experiências]. O que Sam pensava da rebelião de Fëanor? Bem, estaria tudo no passado para ele, sem dúvida. Seria um assunto há muito tempo resolvido. Mas ele teria entendido que os Orcs não eram de fato verdadeiramente culpados por suas naturezas? Ele compreendia por que Gandalf tinha piedade mesmo dos escravos de Sauron, e por quê?

Por outro lado, Hobbits eram geralmente de uma natureza gentil. Eles não batiam em seus filhos, aparentemente não sofriam de alcoolismo, e aparentemente não tinham muitos problemas com assalto a bancos, assassinatos e sequestros. O que um sequestrador Hobbit pediria como resgate, de qualquer forma? Uma carroça de erva-de-fumo? O orgulho e ira que derrubaram outros povos de fato não tinham muito a ver com os Hobbits. Eles eram um povo que tinham grande resistência, mas também falta de ambição. E todos os problemas dos Elfos e Homens parecem ter surgido da ambição. Ou desejo.

Aparentemente o mais ambicioso ato que um Hobbit de fora da família Sacola-Bolseiro poderia expressar seria roubar cogumelos ou conhecer tantas tavernas quanto possível. A ambição de Lotho em tornar-se o Chefe trouxe sobre ele um final triste e patético. Paladin II, o pai de Pippin, ficou horrorizado que alguém pudesse querer se estabelecer como governante do Condado, mas ele não fez nada para contestar Lotho. Os Tuks simplesmente esperaram fora da tormenta em suas próprias terras ao invés de marcharem para a guerra contra os Rufiões. Não parecia importante o suficiente para que Paladin iniciasse uma guerra que poderia resultar na morte de muitos Hobbits.

Em suas atividades de vilão, Lotho realmente parece não ter conseguido muito. No momento em que o leitor fica sabendo o que ele fez para o Condado, traindo-o para Saruman, ele já estava morto. Ele mesmo teve a desculpa de ser reconhecido como um tolo que foi além de suas capacidades. De uma certa forma, Grima Língua-de-Cobra também foi desculpado. Seu mal é mais prontamente reconhecido por Gandalf. Grima queria Eówyn. Mas ele também espera dividir o poder com Saruman. E quando Saruman é humilhado assim também é Grima, que o acompanha como um cão fiel, mas um cão cheio de amargura.

Existe uma hierarquia completa de caras maus que saqueiam os postos inferiores de alguma forma. Sauron permanece no topo, poderoso e vão, imutável. Abaixo dele ficam vários comandantes como Sauron e o Senhor dos Nazgul, poderosos à sua própria maneira, mas muito fracos para prevalecer sobre os Homens. Abaixo de Saruman ficavam servos como Grima e Lotho, criatura pequenas mas ambiciosas com pouco poder real. E mesmo assim ambos causaram grande mau a seus povos. E abaixo de Lotho estão rufiões como Bill Ferny, criminosos brutais sem ambições reais exceto serem maus e mesquinhos.

Existem muitas faces do mal nO Senhor dos Anéis, e graus de maldade e mesquinharia. Existe pouca redenção verdadeira. Boromir poderia ter sido muito pior do que Lotho e Grima. Ele poderia ter rivalizado Saruman, talvez, pois ele já era um príncipe de uma grande nação. Mas quase a totalidade dos que caem permanecem caídos. Mesmo o sábio velho Denethor, que quase voltou da beirada ao final, sofreu o destino que sua loucura decretou. Ele cedeu ao desespero.

O único personagem que Tolkien realmente desculpa completamente é Frodo. Frodo cede ao Anel no final, mas levou meses de tormento demoníaco para que Frodo reclamasse o Anel para si. A exigência não nasceu do orgulho e arrogância, não da ambição de se tornar um grande e poderoso senhor. Foi essencialmente um ato de insanidade, uma insanidade ocasionada pela ruptura de sua mente. Frodo é, de vários modos, reduzido ao estado de um Orc. Não um Orc maligno, mesquinho, cruel, sanguinário. Mas antes um Orc que teve sua livre vontade retirada, suas escolhas negadas. Ele não é melhor do que escravos Orcs que inicialmente cederam às vontade de Melkor e Sauron.

E se existe redenção para Frodo, e perdão, então deve haver redenção e perdão para os Orcs?

Tradução de Fábio Bettega

Doces ou travessuras? Uma Terra-média assustadora!

A maioria dos fãs de Tolkien geralmente vão lembrar que dia 22 de Setembro é o aniversário de Bilbo e de Frodo Bolseiro, mas o 22 de Setembro dos hobbits não era o nosso 22 de Setembro. O sistema de calendário que Tolkien criou para o Condado fez com que o o 22 de Setembro dos Hobbits caísse no nosso 14 de Setembro (13 de Setembro nos dias bissextos). Então, por muitos anos, você esteve desejando felicidades para Bilbo e Frodo com um atraso de 8 dias.

 

Halloween não é uma data tão importante nos calendários de Tolkien. Nosso 31 de Outubro (Dia de Todos os Santos) cai no dia 9 de Novembro para os Hobbits. Nesse período, o dia da colheita está próximo. Mas o Halloween não se originou num festival dde colheita, como alguns dizem. Começou como uma festa celta chamada Samhain em Gaélico Irlandes (pronunciado SÓU-rem, esqueça do "m" no meio da palavra).

De acordo com a tradição, Samhain era a hora em que os celtas extinguiam suas fogueiras, colocavam roupas especiais e tomavam conta de fogueiras feitas por druidas. Os celtas acreditavam que esta era a época do ano em que, assim como o Verão dava lugar ao Outono, os mortos retornavam ao mundo dos vivos. Era esperado que estes espíritos os ajudassem, prevendo seus futuros (e talvez causar um pouco de confusão). Os Celtas também vestiam roupas especiais ao celebrar o Ano Novo. Quando as festividades acabavam, os druidas entregavam à cada família da comunidade uma brasa da fogueira, e eles deveriam usá-la para reacender as suas próprias fogueiras, no novo ano. 

Os Eldar de Imladris consideravam seu Ano Novo sendo em volta do dia 6 de Abril do Condado, o que seria o nosso dia 29 de Março. O Ano Novo Hobbit era o nosso dia 23 de Dezembro. E os pobres Anões, vivendo por um Calendário Lunar pela maior parte de sua sombria história, celebravam por volta da última lua nova do Outono o seu Ano Novo, chamndo-o de Dia de Durin (talvez comemorando o dia em que Durin I acordou, ou o dia em que morreu). 

Lalaith sugere que o Dia de Durin pode ter sido o 14º dia do décimo mês do ano de 2941 TE (o único ano em que o Dia de Durin aparece destacada em uma história – sendo esta O Hobbit). Bem, nosso 14 de Outubro seria o 22 de Outubro do Condado, que é o mais perto que você pode conseguir para um feriado na Terra-Média no dia 31 de Outubro. 

A metade de outubro marca o período do Outono no Condado e terras adjacentes. E apesar do povo do Condado, que eram grandes fazendeiros, colocar enfase em suas colheitas, eles não ofereciam suas primeiras frutas para deuses pagãos, como os Celtas faziam. Os Hobbits também não faziam profecias ou se vestiam diferente. Eles provavelmente gostariam do costume atual de "doces-ou-travessuras", cuja criação é creditada à tradição da prática, patrocinada pela Igreja, de se oferecer doces para as pessoas pobres que pediam por comida no Dia De Todos Os Santos. As pobres pessoas deveriam agradecer rezando pelos parentes mortos dos doadores de bolo.

É possível que Frodo acordou em Valfenda por volta do Dia de Durin. Ninguém está realmente certo de quando isso aconteceu, apesar de Tolkien usar o Almanaque de 1942 pra calcular as fases da lua nO Senhor Dos Anéis. Frodo acordou em 24 de Outubro (Calendário do Condado, dia 18 de Outubro no nosso calendário).

Talvez não seja coincidência quando Gandalf conta a Frodo que ele esteve na beira do Mundo das Sombras. O machucado de Frodo causado pela faca de Morgul quase o transformou num fantasma, e Frodo só voltou para uma saúde perfeita com a ajuda de Elrond. E então Frodo começou um período de auto-exame que demorou por volta de uns dois meses. A marca mais profunda disso foi, com certeza, o Conselho de Elrond, onde vários representantos dos povos livres juntaram as peças do grande quebra-cabeça que Tolkien criou. Gandalf inclusive refletiu um pouco no dia em que Frodo acordou: ele olhou para Frodo e disse a si mesmo que Frodo poderia virar como um vidro cheio de uma clara luz para olhos que a podem ver.

Quando Frodo acordou de seu sono, Elrond promoveu celebrações para seu convidado, o Portador do Anel, e Frodo percebeu estar sentado perto de Gloin, um Anão. Depois disso, os festejantes se retiraram para o Salão do Fogo, onde Frodo estava reunido com Bilbo. Os Elfos cantaram muitas músicas homenageando Elbereth e os outros Valar. Passolargo foi desmascarado como sendo o Dunadan, e Gandalf foi comparado (por Frodo, ao que ele observava o mago na festa) à um sábio rei das lendas antigas.

Outro costume associado ao Halloween (e seus feriados derivados, como o antigo feriado romano da Feralia, no qual o dia da passagem dos mortos era comemorado) é o de contar histórias, geralmente sobre parentes e heróis mortos. Depois que Frodo se reuniu com Bilbo, ele começou a se sentir tonto e estranho, mas a canção de Bilbo sobre Earendil despertou o jovem Hobbit. Bilbo teve a coragem de cantar sobre Earendil, pai de Elrond, na casa de Elrond. De uma maneira sinistra, Bilbo estava honrando o "morto" de Elrond, apesar de Earendil não ter mesmo morrido. Ele sumiu no mundo mortal, mas Elrond ainda esperava ver seu pai algum dia. Viver para os Eldar em Aman era como viver um pouco num mundo e no outro (e Gandalf também disse a Frodo que no mesmo dia em que os Elfos estabeleceram moradia em Aman viviam ao mesmo tempo no mundo Conhecidos e Desconhecidos).

Apesar do Dia de Durin nunca mais ter aparecido em qualquer evento da Guerra do Anel, o Conto dos Anos diz que a guerra acabou oficialmente no começo de Novembro, o que seria perto do nosso dia 31 de Outubro. Saruman foi morto no Bolsão e seu espírito passou do mundo dos vivos pro mundo dos mortos. Em um ano, do Dia de Durin de 3018 para o Dia de Durin de 3019, a Terra-Média mudou para sempre. Os poderosos Maiar foram-se e seu trabalho na Terra-Média foi terminado. Os aflitos espíritos dos homens mortos (os Nazgul e as Criaturas Tumulares) foram libertados do aprisionamento e puderam procurar o descanso eterno.

Tolkien dizia que O Senhor Dos Anéis é uma história sobre morte e procura pela imortalidade. Mas também é sobre a vida, e sobre a procura em um propósito na vida. Uma renovação. É a passagem do velho e chegada do novo. Assim como os Celtas celebravam o fim do ano velho e a chegada do ano novo com um banquete e uma festa, nós também o fazemos, embora a gente o faça num período de tempo históricamente estranho (virtualmente, não há grande significado religioso para os cristãos ou os celtas em 31 de Dezembro e 1º de Janeiro).

Os Anéis do Poder, em sua maioria, conferiam aos usuários o poder de ver o Invisível, de interagir com os espectros. Essas habilidades foram aparentemente procuradas pelos Eldar de Eregion pelo seu medo de sumir. Este destino, contado aos Noldor pelos Valar, quando os Noldor marcharam para seu exílio de revolta, amedrontou até mesmo os poderosos elfos. Tolkien diz que os elfos queriam "vivar na mortal e histórica Terra-Média por
que acabaram se afeiçoando a ela (e talvez porque lá eles teriam as vantagens de ser uma raça superior), e então tentaram mudar sua história"
(Letter 154).

Por tentar mudar a história, os elfos esperavam evitar o futuro que Ilúvatar os reservou: a morte. Agora muitos podem dizer que para os Elfos lhes era reservada uma vida tão longa quanto a vida do mundo. Isto é verdade, eles viveriam naturalmente em Arda enquanto esta ainda existisse. Homens, no entanto, se entediaram do mundo e procuraram outro lugar. Por este lado, Tolkien parece estar falando de uma tipo diferente de morte. A morte em Tolkien geralmente se refere à morte do corpo. Mas este corpo é apenas uma casca física, nada mais que vestimentas segundo os Valar, que eram naturalmente espíritos desencarnados.

Para os Elfos, morte física significaria que seus espíritos foram convocados pelos Salões de Mandos. Se eles aceitassem a convocação, eles teriam a esperança de viver uma vida física novamente, apesar de deverem permanecer em Aman. Porém, se eles recusassem os pedidos, eles poderiam continuar na Terra-Média, onde residiam. Mas continuariam como espíritos incorpóreos, Seriam sombras, fantasmas. Os Elfos deveriam assombrar suas terras natais.

Tolkien discutiu o assunto dos espíritos élficos em "Leis e Costumes entre os Eldar", publicado no HoME: Morgoths Ring. Ele tratou os Elfos mortos de "sem-casa", e referiu-se aos seus espíritos descarnados de "fëa desabrigado". Os primeiros Elfos, que sabiam pouco ou nada dos Valar, freqüentemente recusavam as Convocações de Mandos. Quanto Morgoth tomou a posse de Angband, ele forçou à escravidão todo e qualquer espírito élfico que recusaram às Convocações. Estes espíritos viraram almas atormentadas, e especula-se que as Criaturas Tumulares e outros horrores possam ser espíritos élficos corrompidos à serviço do mal.

Elfos com certeza eram capazes de fazer o mal. Os Noldor atacaram os outros elfos nos três Fratricídios, e os Eldar de Beleriand muitas vezes lutaram entre si por ambição, inveja, e até medo. Traição parecia até comum, especialmente entre os elfos que escaparam de Angband. Mas depois da queda de Morgoth, os elfos foram libertos do perigo de serem forçados ao seu serviço. Os Elfos que amavam a Terra-Média não precisavam abandona-lá por completo na hora de sua morte. Em "Leis e Costumes", Tolkien nota:

"…e nesses dias mais e mais os elfos que viviam na Terra-Média , sejam eles da Eldalie original ou de outros grupos, agora se recusam as convocações de Mandos, e vagueiam sem casa pelo mundo, não querendo deixá-lo e não podendo habitá-lo, assombrando árvores, fontes e outros lugarem que só eles conheciam. Nem todos são bonzinhos ou intocados pela Sombra. Para falar a verdade, a recusa das convocações é em si própria um sinal da mácula."

Elfos mortos ainda estão espalhados pelo mundo, e talvez fossem abundantes na Segunda Era. Será que os antigos espíritos-escravos de Morgoth procuraram, depois de sua queda, cura em Aman? Talvez sim, talvez não. Pode ser que os Noldor, procurando a cura para o mal do mundo (que foi um de seus objetivos quando fizeram os Anéis do Poder), tentaram contactar seus irmãos mortos, e talvez comunar com eles, persuadindo-os a procurar conforto no Oeste. Estas práticas, porém, seriam totalmente proibidas, pelo menos pra homens. Tolkien comentou o assunto acima:

"É uma coisa tola e perigosa, além de ser uma coisa errada e proibida só por que foi dito pelos Senhores de Arda, se os vivos quiserem se comunicar com os Incorpóreos, apesar dos espíritos assim o desejarem, mesmo entre os mais desonrados entre eles. Para os fantasmas, andando pelo mundo, eles são os que recusaram a porta da vida e agora "vivem" no arrependimento e auto-piedade. Alguns estão imbuídos de amargura, sofrimento e inveja. Alguns, inclusive, foram escravizados pelo Senhor do Escuro e ainda fazem seu trabalho, apesar deste ter sido derrotado. Eles já não falam verdades ou sabedoria. Chamá-los é tolice. Tentar dominá-los e fazê-los servos de sua vontade é malícia. Estas são práticas de Morgoth; e os necromantes são tropas de Sauron seu servo."

Muitas vezes, os homens que praticam necromancia podem descobrir que seus corpos foram demonados pelos espíritos élficos, e eles mesmos estão agora sem corpo. E o que acontece com os espíritos humanos? Esta edição não fala, mas condena a necromancia em muitos termos. A prática poderia ser conhecia entre os elfos, e pode ser que suas tentativas em necromancia levaram os Valar a crer que esta comunicação estava passando dos limites. Mas o dano já fora feito. Pessoas sabiam que podiam falar com os mortos, apesar de não ter certeza de com quais mortos havia se comunicado.

A Guerra do Anel representa, então, uma limpeza no mundo, restauração da ordem natural. Apesar dos elfos poderem continuar na Terra-Média depois da morte, ao mundo foi garantido um alívio. Com os Anéis do Poder destruídos, os elfos não mais ficaram preocupados em cair na tentação de entrar em sua própria forma de necromancia. Muitos deles, especialmente aqueles que ficaram dependentes dos efeitos dos Três Anéis, sentiram o cansaço e o desgaste do mundo e viajaram através dos mares para procurar sua própria cura. Em Aman eles continuarão a ter vidas físicas, sustentadas pelos Valar.

O Senhor dos Anéis é, de alguma maneira, o melhor conto de Halloween, honrando heróis caídos e revelando grandes feitos para aqueles que seguem as regras e fazem o certo. A história reconhece a passagem do mundo mítico ao mundo histórico. Ele mostra a herança de povos esquecidos e de batalhas que removeram as representações físicas do mal do mundo, e ajudaram a dividir o mundo dos vivos do mundo dos mortos.

Então, quando pequenos Hobbits e Goblins venham fazer "doces ou travessuras" na sua porta da frete, lembre-se de lhes oferecer doces e ter certeza de ter uma cópia da música "Soul Food To Go" do Manhatten Transfer no CD-Player. Mas, principalmente, tenha uma cópia do melhor conto fantasma do século XX para o caso de alguem começar uma fogueira e começarem a contar histórias de terror. Eu lhe digo que será divertido e talvez faça um amigo ou dois. Só tenha certeza que aqueles são seus verdadeiros corpos…

Antes dos Numenoreanos Virem

As coisas na Terra Média mudaram radicalmente como resultado da Guerra da Fúria. A Guerra durou cerca de 42 anos , começando no ano 545 da Primeira Era e terminando no ano 587. Durante esse tempo vastas áreas da Terra Média- Beleriand, as distantes terras setentrionais, o mar interior de Helcar – foram destruídas ou mudaram de forma. Em Morgoth`s Ring Cristopher Tolkien apresenta um até então inédito ensaio do seu pai que reflete os motivos das várias forças no Silmarillion. Na primeira e segunda partes do ensaio JRRT esclarece como Melkor reduziu-se gradualmente ao se encarnar

[como Morgoth] permanentemente. Ele fez isso para controlar o hroa, a “carne” ou matéria física , de Arda. Ele procurou se identificar com ela. Um procedimento maior e mais perigoso, embora de feição similar às operações de Sauron com os Anéis. Assim, fora do Reino Abençoado, toda “matéria” tendia a possuir um “ingrediente Melkor”, e aqueles que tinham corpos, nutridos pelo hroa de Arda, possuíam, como ela própria uma tendência, pequena ou grande, de seguirem Melkor [1]: nenhum deles era completamente livre dele em suas formas encarnadas, e seus corpos tinham um efeito sobre seus espíritos”.

 

Essa notável conclusão [ em si própria nada além de uma premissa para conclusões posteriores abordadas mais tarde no ensaio] foi decidida ou talvez ponderada por Tolkien no fim dos anos cinquenta ou no início doa anos 60, menos de dez anos depois da publicação do Senhor dos Anéis e é aproximadamente contemporânea com os textos que formaram a base para muito do Silmarillion como foi publicado. Ë, portanto, razoável aceitar a explicação que segue a citação feita acima como o motivo por detrás da relutância dos Valar em agir diretamente contra Melkor no Silmarillion [ na forma com que foi publicado]:

Mas dessa forma, Morgoth perdeu [ ou trocou ou transmutou] a maior parte dos seus poderes “angélicos”, de mente e espírito, enquanto adquiria um terrível controle sobre o mundo físico. Por essa razão, ele tinha que ser combatido, principalmente por força física, e uma enorme ruína material seria a provável consequência de qualquer confronto direto com ele, vitorioso, ou não. Essa é a explicação principal da constante relutância dos Valar em entrar em combate aberto contra Morgoth. A tarefa e o problema de Manwë eram muito mais difíceis do que os de Gandalf. O poder relativamente menor de Sauron estava concentrado ; o vasto poder de Morgoth estava disseminado. Toda a Terra Média era o Anel de Morgoth, não obstante, de momento, a sua atenção estivesse principalmente concentrada no Noroeste. A menos que tivesse êxito rapidamente, a Guerra contra ele poderia muito bem transformar toda a Terra Média num caos, possivelmente até mesmo Arda inteira. É fácil dizer: “é o dever e função do Rei mais Velho governar Arda, e tornar possível para as Crianças de Eru viverem nela sem serem molestadas.


Mas o dilema dos Valar era esse: Arda só poderia ser liberada por uma batalha física mas o provável resultado de tal batalha seria a ruína irreparável de Arda”…

Portanto, na realidade, o ataque contra Morgoth, teria que se iniciar com um assalto sobre a própria Terra Média. Morgoth teria sido capaz de usar a própria terra para enfrentar a Hoste de Valinor, .E os Valar teriam que destruir a terra com o fito de minar a força de Morgoth. Então faz sentido que a Hoste de Valinor chegasse o mais distante para o Norte quanto fosse capaz, o mais próximo de Angband quanto fosse possível..Eles estariam evitando a maior parte da força disseminada de Morgoth. Mais importante do que isso, eles estariam mais perto da encarnação física de Morgoth , a qual era, essencialmente, o objetivo da Guerra deles.

A Guerra das Jóias, para todos os intentos e propósitos, terminou com o assalto contra Gondolin. Os Elfos nunca mais organizaram uma campanha contra Morgoth e ele nunca mais tomou qualquer medida direta contra eles. Com a Queda de Gondolin, os elfos foram reduzidos para três pequenos e inócuos agrupamentos: Ossiriand, onde uns poucos Feanörianos tinham se refugiado com os Elfos-verdes, Arvenien, onde refugiados de Doriath e Gondolin estabeleceram uma nova colônia com alguns dos Edain; e Balar, onde fugitivos de Hithlum [ Sindar como Annael], Nargothrond, e das Falas criaram uma colônia depois da Nirnaeth Arnoediad.

Muitos outros elfos vaguearam através de Beleriand, exilados ou Avari, ou foram escravizados em Angband .Alguns desses elfos, pode-se supor, eventualmente alcançaram Arvenien, e a partir de lá prosseguiram para Balar. Mas quando os Feanorianos destruíram Arvenien no ano 538, um número significativo de Elfos morreu. A população élfica de Beleriand foi reduzida ao seu menor tamanho. Dos Feanorianos, do povo de Balar e dos elfos de Ossiriand eventualmente provieram os Eldar que estabeleceram o reino de Lindon na Segunda Era.

Mas Gil-galad e Círdan devem ter de alguma forma se reconciliado com os Feanorianos remanescentes durante os três anos finais da Primeira Era. Isso deve ter ocorrido no tempo que os Elfos abandonaram Balar. A ilha teria afundada ou Gil-galad e Círdan simplesmente sentiram que era hora de retornar para o continente agora que Morgoth se fora? Nós nunca saberemos.

Os Edain de Estolad também migraram para o leste, mas eles se fixaram em Lindon ao longo da nova linha costeira. Nos Contos Inacabados a terceira nota de “Aldarion e Erendis” diz que os Numenoreanos acreditavam “que os homens deixados para trás descendiam dos homens perversos que, nos últimos dias da guerra contra Morgoth, haviam sido chamados por ele do Leste". Os Edain de Beleriand devem, portanto, ter perdido toda memória dos seus antigos parentes no leste, e essa perda implica que todos os seus mestres de sabedoria devem ter perecido nas guerras. As gerações que cresceram na escravidão devem ter aprendido muito pouco das suas origens, e os elfos, provavelmente, poderiam ter muito pouco a dizer a eles.

Essa divisão dos Edain teve um efeito profundo sobre suas culturas. Quando os Numenoreanos voltaram para a Terra Média no ano 600 da Segunda Era “eles viram homens que poderiam ter caminhado em Númenor sem serem reconhecidos como estrangeiros salvo por suas roupas e armamentos.”. Para os Edain de Eriador os Numenoreanos “pareciam antes com senhores Élficos do que homens mortais em comportamento e vestuário”. Os primeiros Edain haviam recebido as boas vindas em Númenor pelos Eldar de Tol Eressëa, sobreviventes de Beleriand, que presentearam os Edain com muitas dádivas e que ensinaram a eles novos conhecimentos. Mas os Edain haviam sido tutelados , também por Eonwë na Terra Média.

De fato, os Edain viveram em Lindon p
or cerca de 35 anos antes deles começarem a viajar através do Oceano, e em The Peoples of Middle Earth é dito que a migração para Númenor demorou pelo menos 50 anos.. Então os Edain de Lindon migraram através do Oceano entre o ano 32 da Segunda Era e o ano 82, aproximadamente. Durante esse tempo ele foram tutelados pelos Valar e ensinados por Eonwë e talvez por outros Maiar. .Mas eles parecem não ter tido contato com seus parentes no leste.

A primeira frota a rumar para Númenor consistiu de pelo menos 150 navios, talvez contasse até mesmo 300.Cada um era comandado por um dos marinheiros de Círdan, que, presumivelmente, retornaram para Lindon quando sua viagem foi concluída. Alquém pode se perguntar o que teria sido feito dos navios quando os Elfos terminaram de transportar os Edain através do mar .Alguns , sem dúvida, foram usados para viajar para Tol Erëssea, mas o restante deve ter sido incorporado à nova economia de Lindon Os navios eram pequenos, comportando entre 30 e 40 passageiros com utensílios e animais. Pode-se indagar quanto tempo terá levado para os Elfos contruírem os barcos? Círdan teve que treinar novos marinheiros?

Como os Edain deixaram Lindon os Anões de Belegost começaram a abandonar Ered Luin e a migrar para Khazâd-dum. Estes Anões muito possivelmente reforçaram os Anões Barbaslongas [ O povo de Durin] em suas novas guerras com os Orcs, que vindos da ruína de Angband , pareciam numerosos para o Povo de Durin .Se uma razão para a migração dos Anões deve ser procurada, é de se supor que os Barbaslongas convidaram os Anões de Belegost a se lhes juntarem como resultado das invasões dos Orcs.

Contudo,a migração dos Anões deve ter empobrecido Eriador, Os Edain devem ter tido Elfos Nandor para comerciar, mas poucos Anões. Então pode ser que seu desenvolvimento cultural tenha prosseguido através de diferentes caminhos em relação àqueles dos Edain das Terras Selvagens muitos dos quais se tornaram aliados dos Anões e se beneficiaram do comércio feito por eles. Ao que tudo indica uma diferença entre os [ principalmente ] Edain “Beorianos” de Eriador e os [ em sua maioria ] Edain “Marachianos” das Terras Selvagens foi o uso de cavalos. Os Marachianos usaram cavalos ainda em Beleriand, mas os Beorianos parecem não tê-los utilizado. Os Edain de Eriador fixaram residência nos Montes de Evendim, nas Colinas Setentrionais, nos Montes do Tempo, e nas terras entre eles tão distante para o oeste quanto o rio Baranduin. De acordo, tanto com o Contos Inacabados quanto com o The Peoples of Middle Earth, os Edain algumas vezes vagaram nas terras além do Baranduin mas aquele era um país élfico e eles não permaneceram lá.

Os Elfos que residiam entre Baranduin e Lhun devem ter sido Nandor em sua maioria. Os Noldor se fixaram em Forlindon com Gil-galad e Elrond . Esses eram provavelmente em sua maioria descendiam dos Noldor de Gondolin e do povo de Angrod [ da região setentrional de Nargothrond], muitos dos quais tinham fugido para Balar. Quase nenhum dos Noldor de Hithlum deve ter sobrevivido à Nirnaeth Arnoediad, ou, se eles o fizeram, devem ter sido escravizados. Então os Noldor restantes devem ter derivado do punhado de Feanorianos que sobreviveram à terceira Matança entre Famílias e de quaisquer refugiados que escaparam à queda de Nargothrond.

Muito embora o povo de Círdan tenha se estabelecido nos portos gêmeos de Mithlond, os Sindar de Doriath e os Elfos verdes de Ossiriand fixaram-se em Harlindon. Mas muitos desses Elfos eventualmente migraram para o leste , para os Vales do Anduin. Tolkien diz apenas que eles partiram " antes da contrução da Barad-dûr" [ que Sauron iniciou por volta do ano 1000]. Muitas pessoas acreditam que a migração sindarin deve ter ocorrido antes dos Noldor fundarem Eregion [ circa 700-750] . Porque Sauron começara a agir contra os Elfos por volta do ano 500[ aparentemente instigando homens do leste a molestarem os Elfos]. É possível que as migrações sindarin o levaram a fazer alguma coisa.[ é de se notar que em um esboço primitivo do Conto dos Anos da Segunda Era , a migração Sindarin coincidiu com a migração Noldorim para Inladris e Eregion.]

As populações em Lindon aumentaram e elas provavelmente cresceram tão rapidamente quanto as populações de Beleriand haviam crescido. Quer dizer, entre a reconciliação dos Noldor em Beleriand no início da Primeira Era e a Dagor Bragollach, os Noldor e Sindar aumentaram consideravelmente suas populações. Um período comparável de tempo sem qualquer intrusão dos Orcs como os que ocorreram ocasionalmente durante o Cerco de Angband teve lugar entre a partida e o retorno dos Numenoreanos.

O reino de Gil-galad, consequentemente, deve ter se tornado mais rico e poderoso. Os marinheiros de Círdan devem ter continuado a singrar os mares. Por que não? Eles tinham os navios, tinham a perícia. Tolkien nunca disse que eles visitaram Aman, mas a região norte de Aman, pelo menos teria estado facilmente dentro do seu alcance. E não teria sido uma jornada muito longa viajar de Númenor para Tol Erëssea enquanto eles estavam conduzindo os Edain através do Oceano .Em algum ponto o povo de Gil-galad travou contato com os Edain de Eriador. Esses homens , pensando que seus primos ocidentais tinham sido destruídos, nunca perguntaram a respeito deles quando visitavam os elfos. E os Elfos , tendo perdido contato com os Numenoreanos, nunca pensaram em informar o povo de Eriador que alguns dos seus parentes haviam sobrevivido. Se nós supormos que em média uma geração dos Edain, durava 25-30 anos, então houve cerca de 24 a 29 gerações entre o povo de Eriador depois que Estolad foi abandonada até os Numenoreanos retornarem para a Terra Média.

Aparentemente não houve interação entre esses Edain e os Homens de Minhiriath, os quais os Numenoreanos vieram a chamar os Gwathuirim .O povo de Haleth em Brethil tinha se originado desse povo, e eles também eram pertencentes aos Edain, mas falavam uma língua diferente daquela dos Beorianos e Marachianos. Os homens de Bree, muitos milhares de anos depois, descenderam dos Gwathuirim, mas parece que Bree não foi fundada até algum tempo depois da Guerra dos Elfos e Sauron. Os povos de Eriador devem ter estado relativamente isolados durante os primeiros séculos da Segunda Era. Os Elfos se mantiveram principalmente além do Baranduin mas eles eram amigáveis com os Edain. Gil-galad seguiu a política dos reis Eldarin de Beleriand em manter uma separação entre Elfos e Homens. Não havia uma Guerra da qual se falar que poderia tê-los unido. Os Elfos devem ter se tornado mais internalizados, aprimorando sua civilização até que a população e a perspectiva de comercio com Khazâd-dum se tornaram grandes o suficiente para desencadear as migrações para o leste.. Os Gwathuirim viveram sossegados em suas florestas. No Leste, os Anões e seus aliados Edain erigiram uma grande civilização. Mas a menção ocasional de interação sugere qu
e uma vasta rede de comunicação de algum tipo existiu entre todos esses povos. Gil -galad, eventualmente, ouviu rumores de algum poder negro que era hostil a Elfos e Homens .Quando os Barbaslongas descobriram Mithril os Noldor decidiram estabelecer uma colônia em Eregion para iniciar o comércio com Khazâd dum, e o relacionamento entre os dois povos foi tão forte que os Anões escavaram um túnel por todo o caminho através das montanhas para criar um portal ocidental para o uso dos Elfos.

A questão de quando esta rede se formou pode nunca ser solucionada. É possível que os Anões sempre preservaram seus antigos contatos, e que pelos primeiros séculos da Segunda Era eles trouxeram notícias entre o leste e o oeste, Elfos, Anões e Homens. Pode ser que os Nandor que perambulavam por Eriador eventualmente fizeram contato com o reino de Gil-galad e levaram notícias em direção ao oeste. E, talvez, os próprios Edain comerciaram livremente uns com os outros e com os Anões trazendo notícias e riqueza para o oeste proveniente de Khazâd-dum.

Nós sabemos que doze Edain foram corajosos o suficiente para encontrar Vëantur e seus Numenoreanos no ano 600. E nós sabemos que os Edain de Beleriand tinham mantido pelo menos um grande conselho onde seus líderes se reuniam para debater a guerra com Angband. Pode ser que conselhos similares fossem ocasionalmente feitos entre o povo de Eriador, e que os doze homens fossem líderes ou chefes de diversas tribos ou clãs. Um conselho de chefes de Eriador pode implicar que os Beorianos e Marachianos tinham desenvolvido uma cultura sofisticada, cooperando uns com os outros em tempos de necessidade. Tal confedereção de povos teria sido suficientemente forte para desencorajar ou rechaçar invasões e pode explicar por que os Easterlingues e Orcs não se fixaram no centro de Eriador, e por que os Gwathuirim não foram mais para o norte do que a orla das suas florestas.

O encontro com Vëantur sugere que o povo de Eriador falava a mesma língua ainda que essa língua, em mais de 700 anos tivesse se distanciado do Adunaic dos Numenoreanos. Então a inferência de que os Edain de Eriador tivessem mantido ou desenvolvido uma unidade cultural é forte. Eles teriam trocado livremente estórias e canções, retiveram as mesmas tradições e memórias, praticavam os mesmos costumes, e provavelmente continuaram com o antigo costume dos Edain de casarem seus filhos e filhas [ aos menos entre seus chefes com famílias de outras comunidades a fim de estabeler ou preservar vínculos fortes.

Esse Edain enterravam seus mortos em montes, e muito possivelmente, residiam em cidades e vilas fortificadas, criando ovelhas e bois e [ muito provavelmente, no caso dos poucos Marachianos em Eriador] cavalos. Eles devem ter sido principalmente fazendeiros e lenhadores, conservando um pequeno grupo de manufatureiros. Eles deveriam ter sido ávidos por conhecerem novas técnicas e artigos para o comércio através dos Numenoreanos. Aos Numenoreanos eles devem ter parecido muito com seus ancestrais em Beleriand, e Eriador deve ter proporcionado a aventureiros como Aldarion um vislumbre do passado.

Notas do tradutor:

[1] Ao contrário do que Michael Martinez sugere, os Valar não vieram eles próprios para a Terra Média na época da Guerra da Fúria como o haviam feito no tempo da Guerra dos Valar quando Utumno foi destruído e Melkor levado cativo pela primeira vez. Nessa ocasião, eles optaram por enviar um grande grupo de Maiar [cujo número não pode ser estimado mas que poderia corresponder ao de um exército], que era liderado pelo arauto de Manwë, Eonwë [ muito provavelmente o mais poderoso de todos os Maiar] e contando com o auxílio dos elfos Vanyar e dos Noldor que ficaram em Beleriand.

[2] Estas notas esclarecem muitas das sugestões e idéias feitas por Tolkien no capítulo da Narn i Hîm Húrin do Contos Inacabados [ a ser publicado este ano no Brasil], "As Palavras de Húrin e Morgoth".

[3] O mar de Helcar foi criado no fim da Era das Lâmpadas com a destruição causada pela queda de Iluin e uma das suas baías era justamente o lago de Cuiviénen onde os elfos despertaram.

Os mapas encontrados nos seguintes links darão uma idéia aproximada da sua localização relativa na Primeira e Segunda Eras, sendo que, no caso do segundo mapa, ele fornecerá uma noção das terras então existentes nas regiões outrora situadas em Helcar.

A comparação entre os mapas elucidará ao leitor a natureza das transformações ocorridas entre a Primeira e a Segunda Era [ tornando o texto traduzido mais transparente] e fornecerá dados para o cálculo aproximado das posições relativas de todas as localidades geográficas da mitologia tolkieniana.

Primeira Era de Arda

 

Tradução de Paulo ´Ilmarinen´ Lages

Shhhhhh! É um Anel Secreto!

Eu sou questionado sobre muitas perguntas a respeito do mundo de Tolkien e certas vezes, eu apenas arquivo as mais interessantes para futura referência. Mas outro dia alguém me perguntou algo que eu não acreditava nunca ter passado pela minha cabeça. Quem sabia sobre os anéis? Um leitor muito astuto ressaltou a mim que Boromir reconheceu o Anel imediatamente, Faramir compreendeu que havia um Anel que envolvia Gandalf e Denethor parecia saber de tudo sobre o Anel…Quando se trata exatamente disso, todos que entram em contato com Frodo parecem saber sobre o “Anel precioso” (como Bombadil o chamou).

 

Se eu puder pegar emprestada uma das comparações que Tolkien tanto detestava, é quase equivalente para todo frentista de posto de gasolina da Rota 66 pedindo a J. Robert Oppenheimer se ele pode dar uma olhada no Fat Man e Little Boy enquanto ele dirige para Los Alamos. O Anel de Sauron era para ser um grande segredo, no entanto, muitas pessoas que Frodo encontrou pareciam saber sobre ele. Gildor Inglorion compreendeu o que estava acontecendo (e como ele sabia que Frodo estava “suportando um grande fardo sem conselhos“, como Glorfindel diz, não é explicado em nenhum lugar).

Como poderia ser que tantas pessoas soubessem algo sobre o Um Anel ao fim da Terceira Era, principalmente considerando-se que estava limitado ao conhecimento daqueles que estavam mais envolvidos com ele por três mil anos?

A resposta deve estar nos dias de Elendil e Gil-Galad, quando eles primeiro formaram sua grande aliança. Tolkien escreveu muito pouco sobre o que realmente aconteceu, mas sabemos que Sauron atacou Gondor e tomou Minas Ithil. Isildur escapou com sua mulher e filhos. Anárion fortificou o Anduin e repeliu as forças de Sauron enquanto Isildur navegava para Arnor. Ali Isildur consultou-se com Elendil, que em troca, consultou-se com Gil-Galad.

Até esse tempo, podemos ter certeza, o total conhecimento dos Anéis de Poder estava limitado somente aos Elfos. Mas o quanto eles sabiam em geral? Qualquer Elfo mais velho saberia que existiam Anéis de Poder, ou o conhecimento era confinado a um grupo seleto? Bom, não há fatos para responder a essas questões. Isto é, não há nenhum ensaio ou nota de Tolkien já publicados que expliquem como o conhecimento sobre os Anéis se espalhou. Elrond contou às pessoas em seu conselho a história completa dos Anéis. “Uma parte de sua lenda era conhecida por alguns aqui, mas a lenda completa por nenhum”, Tolkien escreve no “Conselho de Elrond”.

Isso parece extraordinário. Nem mesmo Gandalf saberia toda a história dos Anéis? Bem, Gandalf não sabia da tradição do Anel até Bilbo aparecer, então talvez ele estava ainda alcançando o conhecimento. Mas a impressão é que a estória de Elrond foi rotulada como: “Segredo de Estado, Necessidade de saber e VOCÊ não precisa saber!” Exceto para ele, Galadriel e Círdan (e talvez Celeborn, mas todos sabem que ele era um forasteiro).

Quando Sauron primeiro se aproximou dos Elfos na Segunda Era, muitos suspeitaram dele, de acordo com a história descartada de Celeborn e Galadriel em Contos Inacabados. Galadriel não reconheceu Sauron (que se nomeou Aulendil por conta própria, apesar de que em outro lugar dizem que ele se nomeou Annatar). Ela desconfiou de um Maia que apareceu de repente e afirmou estar agindo em prol dos interesses dos Valar. É interessante que nenhuma tentativa foi feita para confirmar essa história com Valinor. Os Númenoreanos retornaram a Terra-Média em 600 da Segunda Era e Sauron começou a procurar por alguns bons trouxas alguns séculos depois. Devido a tal questão, os Eldar deveriam ter sido capazes de rezar para os Valar por algum tipo de conselho.

Então parece estranho começar com o fato de que as credenciais de Aulendil/Annatar nunca foram checadas. Talvez alguém tentou espiona-lo, mas talvez havia tantos Maiar que os antigos Noldor coçaram suas cabeças e falaram: “Bom, talvez…” Eu não posso deixar de pensar no prefeito em “The Music Man”, mandando os quatro conselheiros da cidade para descobrir quais eram as credenciais do Professor, e ele os transforma em um quarteto de barbeadores. Talvez Sauron era bastante como Robert Preston, especialmente dada à propensão dos Elfos para canções. Talvez Maglor foi mandado para verificar as credenciais e Sauron o perguntou por que parecia tão deprimido e…

O fato é que Sauron meneou seu caminho em Eregion numa época em que havia muitos Elfos por todos os lados da Terra-Média. O reinado de Gil-Galad se estendeu das costas de Lindon até o rio Brandevin. Os Nandor, Sindar e Noldor estavam aparentemente vagando ao redor do resto de Eriador. Muitos dos Noldor e Sindar estava vivendo alegremente em Eregion, comercializando com os Anões, construindo cidades e fazendo o que quer que os Elfos façam. No outro lado das Montanhas Sombrias os Sindar estabeleceram dois ou mais reinos entre os Elfos Silvan. E Edhellond era um canto calmo e refúgio ao sul das Ered Nimrais (Montanhas Brancas). Era, sobretudo, um mundo muito Élfico. Os Homens apenas por acaso andavam por ali, mas à parte dos numenoreanos, os Homens não faziam muito.

Sauron supostamente visitou mais de uma terra élfica em sua jornada por mentes élficas sugestionáveis. Presumivelmente os Elfos Silvan teriam tido pouco interesse na preservação da Terra-Média. E quanto a morrer? O que é a morte para eles? Talvez Eönwë tenha mencionado a probabilidade da morte dos Elfos, quando ele viajou convocando todos a Valinor, ou talvez não.

Em Lindon, Elrond e Gil-Galad recusaram-se a tratar com Sauron. Eles nem ao menos admitiriam ele no reino. Sauron deve ter mandado uma carta ou mensagem oferecendo-se para ensinar os Eldar em questões elevadas e nobres. Talvez foi um pouco de arrogância da parte de Sauron em fazer tal oferta, mas a reação de Gil-Galad deve ter sido de surpresa. Ele era apenas um rapaz quando Beleriand estava sendo invadida pelo mar pelos Valar. O que ele sabia sobre Valinor e sua felicidade?

Então pode ser que o povo de Gil-Galad era de fato composto, em sua maior parte, por Elfos mais jovens. Poucos dos Exilados originais realmente sobreviveram às Guerras de Beleriand. Destes, muitos aparentemente retornaram para o Oeste após a Interdição dos Valar foi dissipada. Então somente um punhado dos reais antigos Elfos deve ter permanecido na Terra-Média. Destes, a maior e mais bem conhecida era Galadriel, e por alguma razão, ela não ficou em Lindon por muito tempo; Então Galadriel devia estar em Eregion quando Sauron chegou farejando ao redor. De fato, é isso o que a história descartada conta, desde que ela e Celeborn eram (de acordo com esse relato) os soberanos originais de Eregion.

Sauron dedicou sua atenção a “Celebrimbor e seus companheiros ferreiros, que formaram uma sociedade ou irmandade, muito poderosa em Eregi
on, a Gwaith-i-Mirdain; mas ele trabalhou em segredo, desconhecido à Galadriel e Celeborn
”. Nesse relato, o sumário de Christopher Tolkien de um esboço que nunca foi totalmente publicado, Celebrimbor e a Gwaith-i-Mirdain tinham muitos segredos profissionais. Eles não dividiam seu conhecimento livremente com outros Noldor.

Os Noldor, os Fëanorianos em particular, eram muito sigilosos, até mesmo em Valinor. Eles eram de um tipo que não pareciam se dar bem uns com os outros. Até mesmo seus primos Avari, os Tatyar, parecem ter sido mais divididos que os Nelyarin Avari (que eram relacionados com os Teleri, os Eldar que vieram dos Sindar). Fëanor nunca chegou a revelar muitos de seus segredos para os outros Elfos. Então quando ele morreu, muito da sua sabedoria morreu com ele. É claro que muito da sabedoria antiga foi perdida nas Guerras de Beleriand de qualquer maneira. Celebrimbor e seus companheiros devem ter sido os últimos herdeiros dos grandes segredos da Primeira Era. Ou eles podem ter sido um grupo de renascimento, pegando emprestado tudo o que podiam dos Anões e descobrindo coisas por conta própria.

O resultado final foi que os Anéis de Poder eram um projeto originalmente secreto. A maioria dos Elfos não sabia nada sobre eles. As primeiras propostas de Sauron devem ter parecido um tanto quanto vagas, tirando proveito de suas dúvidas e preocupações de uma maneira geral. Não seriam vagas até que Sauron pudesse ter uma longa e sincera conversa de ambas as partes com Celebrimbor sobre o futuro dos Elfos que Sauron estaria apto para lançar o Grande Plano sobre o senhor Élfico. E não é provável que Celebrimbor tenha sido idiota. De fato, ele era provavelmente um dos Elfos mais inteligentes do início da Segunda Era. Sua penetrante sabedoria e insight se juntaram ao seu brilho. Isso teria feito dele um alvo crucial para a fraude de Sauron.

E essa fraude deve ter requerido séculos de trabalho. Sauron deve ter ensinado muito pacientemente aos Gwaith-i-Mirdain muitos segredos sobre a manufatura de várias coisas antes de ganharem sua total confiança. Tolkien nos oferece apenas um vislumbre dos tipos de artefatos que os Elfos eram capazes de fazer: os barcos de Lórien, as cordas e mantos dos Elfos Silvan e a bacia da Galadriel. Esses eram os mais modestos, aparentemente, assim como encantamentos diários, coisas de pouco interesse para os mestres ferreiros. Os Palantíri, criados em Valinor, devem ter sido o tipo de artefato que os Gwaith-i-Mirdain devem ter perseguido. Ou talvez eles se esforçaram para recriar as Silmarils, mesmo porque a Luz das Duas Árvores estava preservada somente na luz do Sol, da Lua e da Estrela de Eärendil.

A explicação de Elrond sobre os motivos dos fazedores de anéis implica que eles eram muito nobres em seus objetivos: “Aqueles que os fizeram não desejariam força, ou dominação, ou acúmulo de riquezas; mas entendimento, ações e curas, para preservar todas as coisas imaculadas.” Nós compreendemos o desejo de “preservar todas as coisas imaculadas”. Os Elfos quiseram criar um pouco de Valinor na Terra-Média através da retenção dos efeitos do Tempo. Mas “entendimento, ações e curas” parece um pouco desnecessário. O que precisaria ser entendido, o que precisaria ser curado, que todos os talentos naturais dos Elfos não seriam suficientes para entender ou curar?

Tolkien dá a entender em um ensaio que era a própria Terra-Média que precisava de cura. Estava poluída, manchada por Melkor, e danificada pela Guerra da Ira. Talvez os Gwaith-i-Mirdain tinham a esperança de criar algo que purificasse o elemento Melkor da Terra-Média. Irônica e tragicamente, eles confiaram nesse mesmo elemento para a criação dos Anéis.

Há uma outra estória envolvendo Galadriel e Celebrimbor. Esse é o conto de Elessar, a pedra élfica que Galadriel deu a Aragorn em nome da Arwen. A estória é, certamente, inacabada, e Tolkien mudou de idéia sobre muitos detalhes. No final, Celebrimbor era para se tornar um ferreiro de Gondolin (mas a estória foi composta antes de Celebrimbor estar incorporado à família de Fëanor) e fez duas Elessar. Uma foi levada para o Oeste por Eärendil e a segunda repôs a primeira e chegou até Aragorn.

O poder das Elessar estava envolvido com a cura e a preservação, e a segunda Elessar é dita como ter sido a maior criação de Celebrimbor depois dos Anéis de Poder. Deve ter sido um objeto muito potente, e a habilidade de Aragorn de curar muitas pessoas em Gondor deve, portanto, ser atribuída em certa medida pela sua posse de uma Elessar.

Desta maneira, parece que os Gwaith-i-Mirdain passavam a maior parte do seu tempo construindo itens mágicos que os Elfos usavam para curar ou preservar pequenas partes da Terra-Média, ou, de outra forma, aumentar seus talentos naturais. A ajuda de Sauron deve ter aumentado a efetividade de seus objetos. Por um tempo eles devem ter transformado os Anéis menores meros “ensaios na arte antes de estar totalmente crescido”, como Gandalf diz. Ele os descreve como sendo “de vários tipos, alguns mais potentes e outros menos”. A frase “vários tipos” é curiosa. Talvez dê a entender que os Anéis menores tinham apenas poderes e propriedades específicas, enquanto os Grandes Anéis, os Anéis de Poder, possuíam muitas propriedades.

Uma preocupação com a preservação e a cura teria dado a Sauron uma linha interna com os Elfos. Ele poderia introduzir mais e mais idéias e ajuda-los em avançar suas metas ao frustrar pequenos saltos. E então, um dia, ele seria capaz de implantar a idéia de criar artefatos poderosos novamente. Eu não acho que Sauron deva ter proposto essa idéia diretamente. Os elfos parecem ter se entusiasmado com tal projeto e, portanto, eles devem ter acreditado que era uma idéia deles mesmos. Uma fraude seria mais engenhosa desse modo. Mas também a fraude pareceria menos manipulativa na superfície, se Sauron estivesse meramente suportanto os Elfos em seus próprios esforços, ao invés de apenas dar a eles instruções explícitas sobre o que deveria ser feito.

E então deve ter ocorrido um razoável número de conversas e planejamentos. Analisar os objetivos do projeto sozinho poderia ter levado meses ou anos. E Por quê? Porque os Gwaith-i-Mirdain provavelmente não queriam que ninguém soubessem o que eles estavam fazendo. As implicações morais do que eles esperavam tentar para retardar os efeitos do Tempo não seriam totalmente compreendidas. Os Anéis de Poder representavam uma nova tecnologia, cujo impacto sobre a sociedade ainda não havia sido medido – uma sociedade que, naquele momento, era dominada pelos Elfos.

Além disso, a natureza secreta do projeto deve ter exigido o menor número de pessoas quanto fosse possível para estar inteiradas a ele. Pode ser que não mais qu
e dezessete Elfos sabiam sobre os Anéis: Celebrimbor e dezesseis outros Gwaith-i-Mirdain, talvez constituindo todos os membros da sociedade. Muitas pessoas dizem que é melhor procurar pelo perdão que pedir. Os Noldor em particular parecem ter favorecido essa filosofia. Quando chegou o tempo de decidir se deviam fazer a tentativa, Celebrimbor e seus companheiros devem ter tido longas discussões sobre as conseqüências morais de fazer qualquer coisa. Talvez no fim eles justificaram sua decisão final ao pesar todo o bem que eles esperavam alcançar contra o possível dano que eles estavam arriscando. Afinal ninguém nunca suspeitou que Sauron pudesse traí-los.

Então, antes dos Anéis serem feitos, os Gwaith-i-Mirdain devem ter tido boas razões para não revelar o que estava acontecendo a ninguém além da própria sociedade. Os Anéis, enquanto iam sendo produzidos, devem ter parecido anéis normais para os outros Elfos, se eles pudessem ser de fato notados. O véu de sigilo deve ter sido sobrecarregado com vergonha e culpa, assim que os Elfos perceberam a traição de Sauron. Imaginem como Celebrimbor deve ter se sentido, sabendo que ele forjou os Anéis em segredo, sabendo agora que Sauron era um antigo servidor de Melkor, agora com o seu próprio Anel Mestre. Quer Tolkien preservasse a rebelião de Celebrimbor (que foi registrada na história descartada de Galadriel e Celeborn) ou mudasse a estória, Celebrimbor teria que confrontar Galadriel com a verdade. Algo terrível havia acontecido, mas algo ainda pior estava para recair sobre os Elfos.

Então, uma vez que Galadriel soube sobre os Anéis, ela aconselhou Celebrimbor a esconde-los. Os Elfos não aceitavam em seus corações o fato de ter que destruir seus próprios trabalhos. Dois anéis foram dados a Gil-Galad, que deve ter sido informado sobre tudo. Quaisquer que tenham sido os sentimentos sobre a imprudência de Celebrimbor, ele também escolheu não destruir os Anéis. O medo de desaparecer deve ter sido muito impregnante na sociedade Noldorin. Então devemos nos perguntar a quem foi contado primeiramente, Elrond ou Círdan? Por um lado, Celebrimbor, Galadriel e Gil-Galad deviam saber que haveria uma guerra. Sauron tinha acabado de tentar escravizar os maiores e mais poderosos dos Noldor. Ele falhou, sua cobertura foi arrancada, e os Elfos souberam que a Terra-Média tinha um Senhor do Escuro novamente. Não era o tipo de situação que exigia que Sauron se escondesse até que a tempestade acalmasse.

De sua parte, Gil-Galad pediu ajuda aos Númenoreanos, mas não contou a eles sobre os Anéis. Tolkien menciona essa omissão nas relações Elfo-Dúnadan na Carta 211 (Letter211): “Eu não creio que Ar-Pharazon soubesse algo sobre o Um Anel. Os Elfos mantinham a questão dos Anéis bastante secreta, conforme podiam…" Então o apelo de Gil-Galad a Númenor deve ter sido muito cuidadosamente escrito. Ele tinha previamente requerido a ajuda de Númenor, enquanto Sauron estava atrapalhando toda a Terra-Média, incitando criaturas maléficas. Antes de Sauron decidir se estabelecer em Mordor, Gil-Galad estava apenas consciente de que algum poder maléfico estava organizando homens e antigos servidores de Morgoth. Mas ele não conseguia achar a fonte de suas preocupações. A revelação de Sauron como o forjador do Um Anel confirmou os piores medos de Gil-Galad. No mínimo ele tinha uma justificativa para começar uma guerra com Sauron.

Númenor mandou homens e mantimentos à Terra-Média, e durante o curso de 100 anos, os Númenoreanos construíram fortes e estoques ao longo dos rios Lhun e Gwathlo. A estratégia total parece ter sido defensiva. Os Elfos sabiam que uma guerra estava se aproximando, mas não sabiam quando. Sauron era poderoso, mas ele não controlou a Terra-Média do jeito que Morgoth fez. E Númenor ainda não comandava os enormes exércitos e navios que um dia iria formar. Um ataque prematuro ainda não havia sido considerado, aparentemente. Talvez Gil-Galad ainda não soubesse onde se estabelecia o domínio de Sauron. Mordor não parecia tão longe de Eriador quando olhamos no mapa, mas havia uma grande distância de cerca de 1000 milhas entre Barad-Dûr e Lindon. E Gil-Galad podia ainda não saber até mesmo em que direção começar a procurar.

Então os Elfos não falaram nada aos seus aliados sobre os Anéis de Poder, ou sobre o que a guerra era realmente. Isso pode ter sido apropriado para a política de sigilo deles de deixar Sauron atacar primeiro. Depois do ataque, justificaria o fato chamar Númenor para mais ajuda. Os Elfos seriam o grupo aflito. Eles já eram, considerando que Sauron havia tentado escravizar os Gwaith-i-Mirdain. Mas o motivo de queixa era moralmente fraco. Que interesse os Noldor tinham ao brincar com o Tempo de qualquer maneira? Porém, mais importante ainda, Gil-Galad parece não ter compartilhado a verdade com o seu povo. Eu duvido que muitos de seus conselheiros teriam conhecimento sobre os Anéis. Alguns dos Noldor podem apenas ter decidido jogar Celebrimbor e os Gwaith-i-Mirdain aos wargs que gastar seu sangue em outra guerra insana.

É claro, quanto mais pessoas descobrem um segredo, menos secreto ele é. Gil-Galad tinha capitães com potencial para mandar ao leste a fim de reforçar Eregion. Por que ele escolheu Elrond? Círdan era um antigo senhor dos Eldar, tendo como experiência as guerras de Beleriand (de fato, ele era o único comandante de campo que sobrevivera às guerras). Glorfindel havia retornado a Terra-Média para ajudar na guerra, de acordo com um breve ensaio que Tolkien escreveu tarde em sua vida. Ele também seria uma boa opção para mandar a Eregion. Mas foi Elrond quem Gil-Galad mandou. Eu acharia que Elrond devia estar presente quando Celebrimbor contou a Gil-Galad sobre os Anéis. Não que os nobres de Gil-Galad teriam se rebelado, mas para que sobrecarregá-los com uma culpa que não era deles?

Mas se o silêncio de Gil-Galad estaria condenando, o que Celebrimbor poderia ou deveria contar aos Elfos de Eregion? Muitos deles parecem ter escapado, por Moria ou fugindo por terra. No entanto, será que eles sabiam sobre o que era a guerra? Eu não acho que a tragédia da loucura de Celebrimbor seria aumentada se sua vergonha o tivesse proibido de confessar o que ele e os Gwaith-i-Mirdain haviam feito. Se eles não estavam contando nada aos Dúnedain pelo bem do sigilo, então também seria melhor não contar nada ao povo de Eregion. E então isso significa que os Anões de Moria não podiam saber sobre o que era a guerra. Tudo o que ia ser falado a todos era que o grande Senhor do Escuro estava chegando.

E ele chegou. Sauron espalhou-se para o norte e atacou tudo o que viu. Ele não apenas invadiu Eregion, como também foi para os Vales do Anduin e as terras ao leste da Grande Floresta Verde. Os Homens do Norte se dirigiram para as florestas e montanhas. Sua cultura foi virtualmente apagada. Muitos Elfos também devem ter perecido. Eregion tombou rapidamente e Sauron a destruiu. Assim como muitos Elfos
escaparam, muitos outros sofreram mortes horríveis enquanto Sauron procurava desesperadamente os Anéis de Poder. Se ele não podia ter os Elfos, ele certamente não queria que os Elfos tivessem sua Valinor na Terra-Média.

A defesa de Ost-Em-Edhil (Fortaleza dos Eldar) deve ter sido particularmente amarga. Na história descartada de Galadriel e Celeborn, conta-se que Celeborn liderou um ataque. O propósito do ataque não é de fato estabelecido, mas pode indicar que Celeborn havia reconhecido a falta de esperança na situação. Celeborn pode ter comandado os Elfos mais inocentes, enquanto os Gwaith-i-Mirdain e seus seguidores teriam ficado para trás para dar resistência à cidade. A última posição de Celebrimbor pode ter sido uma tentativa de reparar o que ele havia feito. Mas ao invés de morrer em batalha e guardar os segredos dos Anéis para sempre com ele, foi dirigido novamente para os degraus da Casa dos Mirdain. Sauron deve ter dado ordens para captura-lo vivo a todo custo. Imaginem os orcs sacrificando a si mesmos, assim como seus ancestrais fizeram ao levar Húrin após a Nirnaeth.

A perda de Eregion mais provavelmente significou que todos os Gwaith-i-Mirdain haviam perecido, e seu segredo vergonhoso foi preservado apenas pelos poucos senhores Eldarin que conheciam a contagem total. Os Gwaith nunca são mencionados novamente, em nenhum escrito. É interessante notar que outra sociedade, ou “escola”, os Lambengolmor (mestres de Línguas), sobreviveram à Guerra. Seu último membro foi Pengolod, que viveu em Eregion. Ele escapou, e após a guerra ele pegou um navio e deixou a Terra-Média. A destruição de Eregion parece indicar que muitos outros grupos antigos e eruditos também pereceram, ou sofreram tão terrivelmente que seus sobreviventes fugiram quando puderam. Numa nota encontrada no apêndice de “O Senhor dos Anéis”, Tolkien diz que os Eldar não tentaram nada de novo na Terceira Era. Pode simplesmente ser que não restou ninguém suficientemente talentoso nas artes sub-criativas para criar novos artefatos.

No despertar da guerra, Gil-Galad teve que reconstruir seu reino. Lindon sobreviveu, mas, sem sombra de dúvidas, sofreu muitos danos. Elrond também sobreviveu. Ele nunca teve sucesso ao reforçar Celebrimbor, mas ao invés disso ele foi dirigido para o norte (talvez com Celeborn). Elrond havia reunido tantos Homens e Elfos quanto pode e resistiu em Imladris. Naquele tempo muitas pessoas aflitas teriam perguntado: “Por quê? Por que essa guerra aconteceu?” E Elrond não seria capaz de responde-las. No entanto, ele tinha que saber a verdade. Sua defesa foi leal e valente, mas foi talvez fortalecida por uma solução nascida da culpa e do desejo de reparar as decisões terríveis que Celebrimbor – seu amigo – havia feito. De certo modo, a Guerra dos Elfos e Sauron marca uma perda final da inocência dos Noldor. Na Primeira Era, aqueles Noldor que eram nascidos em Beleriand conheciam sua história e patrimônio. Na Segunda Era, nenhum realmente sabia a contagem. Era muito perigoso contar a qualquer um. Os Anéis parecem ter tido um efeito muito debilitante no julgamento das pessoas que sabiam sobre eles. Nem Galadriel ou Gil-Galad, que não tinham nada a ver com a forja dos Anéis, conseguiam achar forças para destruir os Três.

Depois da guerra Gil-Galad convocou um Conselho em Imladris. Talvez ali ele finalmente revelou aos outros senhores Élficos o que realmente havia acontecido. Tolkien não nos conta quem compareceu, mas é possível que até mesmo os Númenoreanos foram excluídos do Conselho. Númenor ainda não estava realmente envolvida com a Terra-Média. Gil-Galad teria agradecido e recompensado os Númenoreanos profusamente, com certeza, mas ele não os contou sobre os Anéis de Poder. Seria presumido que Sauron teria achado os Nove e os Sete, uma vez que nenhum dos Elfos sobreviventes os possuíam. Não parece provável que os Elfos pudessem prever o que Sauron pretendia fazer com os Anéis. Por que eles permaneceriam calados se eles sabiam que os Homens e os Elfos poderiam estar sendo pressionados? E ainda, Gil-Galad e seus conselheiros devem ter percebido que Sauron poderia adquirir coisas terríveis com aparatos tão potentes. Então eles devem ter tomado uma postura do tipo “esperar para ver”.

Mas a decisão dos Eldar de não contar a ninguém sobre o Anel dificultou os erros dos Gwaith-i-Mirdain. Pois agora Sauron era capaz de influenciar Anões e Homens com impunidade. Certamente, muitas pessoas perguntam como Sauron ainda podia se locomover sem ser rotulado como inimigo público número 1. Ele deve ter assumido uma nova aparência. Tolkien escreveu que sua forma real era de esplendor, humanóide, embora mais largo que um Homem. Ele parecia gigantesco. E ainda ele poderia ter tomado a forma de um Anão ou de um modesto Drúadan Ele poderia se aproximar virtualmente de qualquer um no disfarce perfeito, ganhar sua confiança, e, finalmente, dado um Anel a eles. Ou pior, ele pode ter incitado tentado as pessoas a procurar os tesouros perdidos dos Elfos. Ambos os Homens e Anões estavam querendo procurar tesouros. Eles provaram isso antes. Então os Dezesseis Anéis de Poder capturados podem ter sido bem engenhosamente deixados em lugares secretos, para um punhado escolhido de Homens e Anões acharem. E eles não te
riam contado a ninguém sobre suas descobertas.

O véu de sigilo, portanto, trabalhou para os fins de Sauron. Ele pode ter falhado ao tentar escravizar os senhores Anões que pegaram os Sete Anéis, mas ele ainda era capaz de corromper seus corações. Os Nove Homens que pegaram os Anéis de Poder se transformaram em espectros e se tornaram os servidores mais terríveis de Sauron. Os Homens que se espalharam pela Terra-Média não imaginariam o que eram esses espectros do Anel, mas os Númenoreanos teriam se lembrado que Sauron era um antigo mestre de fantasmas e feitiçaria. Os servidores do Escuro não necessariamente deviam ser chamados de espectros do Anel. Eles podem ser percebidos como espectros, demônios, ou alguma outra coisa.

Ao passo que a Segunda Era avançara, os Númenoreanos se tornaram mais poderosos, mas então eles tornaram-se divididos. Então mesmo se Gil-Galad pudesse ter considerado revelar o segredo dos Anéis aos seus aliados, a crescente antipatia para com os Elfos entre os Reis e seus seguidores teria desencorajado tal política. Para que jogar lenha no fogo crescente? Os Númenoreanos podiam apenas tão facilmente ter culpado os Elfos por seus problemas como não.

E, no entanto, os fiéis Númenoreanos ficaram ao lado dos Elfos. Eles até mesmo colonizaram terras próximas ao reino de Gil-Galad a fim de continuar a aproveitar a companhia dos Elfos. Quão freqüentemente poderia Gil-Galad e Elrond ter olhado nos olhos dos Homens que os acolheram com total confiança e amizade, e que nada sabiam sobre os Anéis? Séculos de tal amizade deve ter provado ser um grande fardo a eles.

Finalmente, após Númenor ter sido
destruída e todos esperarem que Sauron pudesse estar morto por algum tempo, ele reapareceu com um exército e atacou Gondor. E Isildur espalhou as notícias sobre o ataque a Arnor, e ali Elendil se consultou com Gil-Galad. Obviamente, Sauron não ia ser fácil de se matar, mas os Dúnedain conheciam sua história. Aparentemente, não havia registro de nenhum Maia retornando à vida na Primeira Era. A morte para eles também era uma experiência muito potente. Como Sauron poderia ter sobrevivido? Imaginem as faces culpadas que devem ter confrontado Elendil e Isildur se eles tivessem feito essas questões a Gil-Galad e seus conselheiros. “Ei, caras, vocês não estão nos contando tudo, estão?”.

Então a Última Aliança dos Elfos e Homens teve que ser formada na base da absolvição.Isto é, Gil-Galad teria que contar a Elendil e Isildur o que estava acontecendo. E da parte deles, Elendil e Isildur tinham que perdoar Gil-Galad. Não apenas por si próprios, mas por incontáveis gerações de Homens que não podiam falar por si próprios. Em adição, eles tinham que se dar conta do que aconteceu com os Anéis de Poder perdidos. Os Nazgûl eram conhecidos por aproximadamente mil anos. Naquele tempo, os senhores Eldarin que sabiam sobre os Anéis de Poder devem ter imaginado se havia alguma conexão. De fato, quando os Nove Homens que se tornaram os espectros ainda estavam vivos, Tolkien conta que eles eram grandes reis e feiticeiros. Se eles foram famosos, será que os Elfos ouviram falar sobre seus estranhos poderes? Havia alguma curiosidade sobre eles?

Deve ter sido difícil para Gil-Galad saber tanto sobre os Anéis de Poder. Se Galadriel e ele não conseguiam achar o conhecimento que eles precisavam através de algum tipo de visão (como ela fez com o espelho em Lórien na Terceira Era), eles teriam que falar aos seus espiões e batedores o que procurar, ou eles apenas teriam que esperar e juntar bocados e pedaços de informações ao longo dos séculos.

Alguns leitores são da opinião que a rima do Anel em “O Senhor dos Anéis” deve ter sido composta logo após a Guerra dos Elfos e Sauron. Mas quem quer tenha composto a rima teria que saber quais eram os destinos dos Sete e dos Nove. Até então, não há como demonstrar que os Elfos sabiam algo sobre os Sete antes de estarem livres para falar com os Anões. Os Anões certamente não estavam andando por aí contando às pessoas que eles tinham Anéis mágicos. Então os Nove reis-bruxos que surgiram entre os Homens devem ter sido conspícuos somente em sua longevidade e sua aproximada expectativa contemporânea de vida. E ainda, se os Elfos estavam procurando por sinais dos Anéis de Poder, eles estavam procurando por Dezesseis, não Nove, ou Sete Anéis. O fato de Sauron ter pervertido os Anéis antes de distribuí-los iria, mais para frente, complicar as coisas para os Elfos. Gil-Galad pode não ter realmente entendido o que estava acontecendo até Durin IV ser convidado para a aliança.

Não sabemos com certeza se Durin IV era o Rei dos Longbeards no final da Segunda Era, mas há uma pequena evidência apontando para o seu nome. E a questão dele entrando na aliança não é fornecida. Parece que Gil-Galad e Elendil formaram sua aliança e então marcharam para Imladris. Dali, eles parecem ter mandado mensageiros para a Grande Floresta Verde, Lórien, Khazad-dûm e talvez outras regiões. Eu diria que é mais provável que Gil-Galad teria um segundo “conselho branco” em Imladris. Seria momentâneo como o Conselho de Elrond 3000 anos depois, ou talvez até mais. Nesse Conselho devem ter comparecido reis em atendimento e muitos senhores e príncipes. E seria a primeira vez que os Elfos falariam abertamente sobre os Anéis de Poder para todos os seus aliados.

Seria natural para os convidados querer saber por que eles deveriam se unir à aliança. Sauron vinha aterrorizando a Terra-Média por um longo período de tempo. Mas a sua morte em Númenor e reaparecimento 100 anos depois indicou que ele não estava apenas indo embora. E devido ao fato do problema dos Anéis ter se originado na Terra-Média, pode ser que quaisquer apelos a Valinor tenham chegado em ouvidos surdos. Os Elfos criaram o problema e precisavam resolve-lo. Mas eles não poderiam fazer isso sozinhos. E não serviria para nenhum propósito para os vários reis não-Eldarin proferir recriminação após recriminação. Principalmente uma vez que Celebrimbor e os forjadores dos Anéis estavam todos mortos. As pessoas verdadeiramente responsáveis pelo problema já haviam pagado com as suas vidas, e seu legado estava se tornando um fardo equivalente para todos.

Mas se os Elfos podiam enfrentar e admitir o que eles haviam feito, talvez os Anões fossem convencidos a confessar que foram dados Anéis aos seus ancestrais. Pode ser que Gil-Galad foi capaz, junto com a ajuda de Durin, trazer todos os Sete senhores dos Anões a Imladris. E ao ouvir que os Elfos tinham traído todos não uma vez, mas duas, a maioria dos Anões deve ter escolhido se afastar. Eles manteriam seus Anéis, que obviamente não iam prolongar suas vidas, ou transforma-los em espectros. E eles deixariam o mundo decidir seus próprios assuntos. Isso parece uma atitude bem típica dos Anões. Somente os Longbeards desenvolveram alguma real afinidade com os Eldar, mas os Nogrodians tinham um antigo motivo de rancor para com os Eldar. Os Quatro grupos do leste devem ter sido a minoria, mas eles certamente tinham pouca, senão nenhuma, conexão com os Elfos e os Dúnedain.

Então, deve ser que a rima dos Anéis foi criada nos anos iniciais da Última Aliança. Mais provavelmente foi composta em Imladris, logo após (senão durante) qualquer outro conselho que Gil-Galad realizara com os outros soberanos da Terra-Média. A natureza dos Nazgûl e a possessão dos Nove Anéis desaparecidos deveriam ser inferidas, mas era, a essa altura do tempo, certeza de quem estava com os Anéis. E o melhor segredo guardado da Terra-Média já não era mais de fato um segredo. No entanto, Gil-Galad não teria divulgado quem possuía os Três Anéis. Para mantê-los em segurança, ele deu seus dois Anéis a Elrond e Círdan. No entanto, a rima dos Anéis diz que os Três foram concedidos aos reis Élficos. O compositor da rima, portanto, não poderia ter sabido onde os Três estavam. Ele (ou ela) deve ter acreditado que Gil-Galad, Oropher e Amdir possuíam os Três. Convenientemente, todos os Três morreram em guerra, e ninguém reinvidicou os Três de seus corpos. Então os Elfos e seus aliados devem ter ficado em dúvida sobre quem tinha os Três logo após a morte de Gil-Galad. E essa dúvida seria refletida na rima do Anel se tivesse sido composta após a morte de Gil-Galad.

E isso nos traz à Terceira Era. A Última Aliança foi vitoriosa, e os vencedores semp
re escrevem as histórias das guerras. Sábios em Arnor, Gondor, Khazad-dûm e outras terras devem ter registrado muitas coisas sobre guerras. As bibliotecas de Arnor foram eventualmente perdidas ou destruídas. A sabedoria de Gondor declinou, e a maioria de seu povo esqueceu a maior parte de sua história. Khazad-dûm foi tomada por um balrog, e a maioria do povo de Durin se dispersou ou foi morta. No entanto, algumas pessoas preservaram a sabedoria de antigos eventos aqui e ali. Se a maioria dos homens de Arnor e Gondor em certa época entendeu sobre o que era a Guerra da Última Aliança, eles teriam passado a sabedoria para frente. Pois ainda havia Anéis de Poder ali, e eles eram coisas perigosas.

No fim da Terceira Era, Gandalf tinha poucos recursos para consultar em questões da sabedoria dos Anéis, mas Saruman havia sido o especialista. Ele pode ter achado muitos arquivos que Gandalf não tinha acesso. E Elrond deve ter tido muitas conversas com Saruman sobre os Anéis e aqueles que os fizeram. Ele, sem sombra de dúvidas, conhecera Celebrimbor pessoalmente, e deve ter conhecido alguns outros ferreiros do Anel. Outros membros da casa de Elrond, ou talvez senhores Élficos próximos, assim como Gildor Inglorion, podem ter sido capazes de contar a Saruman sobre a estada de Sauron em Eregion. Algo que Tolkien não nos conta é se Saruman acumulou sua própria biblioteca em Orthanc, após ele ter se estabelecido lá, com cópias de livros e pergaminhos, preservando o conto do Anel.

Deve ter sido útil estudar o conto dos Anéis, para ser capaz de imaginar quem poderiam ser os próximos “caras maus”. Saruman (e os Eldar) não poderiam saber se Sauron pegou os Anéis de volta dos Nazgûl. Não até Gandalf descobrir que Sauron estava reunindo todos os Anéis, em 2851. Mas os Reis Anões estavam desaparecendo. Estavam eles sendo consumidos por dragões, ou caindo nas mãos de aventureiros? O conhecimento de Saruman teria sido muito útil para os Eldar e Istari, uma vez que eles precisavam entender o que Sauron havia feito com os Anéis. E eles precisavam saber quem podia brandi-los também.

No final, o conhecimento dos Anéis deve ter escasseado nos cantos mofados da elite. Os sábios da Terra-Média tinham a tendência de vir de famílias abastadas. E assuntos de contos antigos, que poderiam um dia afetar o bem estar das nações, seriam cuidadosamente acumulados e cultivados pelos senhores dessas nações. Denethor era mestre de muitos segredos, e ele parecia estar totalmente consciente do que o Anel era. O intercâmbio que Gandalf comunica no Conselho de Elrond dá a impressão que Denethor não sabia sobre o pergaminho de Isildur, mas eu não estou convencido. Gandalf não estava exatamente dividindo suas preocupações com Denethor, então por que Denethor deveria ter dividido o que ele sabia sobre os Anéis? Denethor não tinha nenhuma razão para dar informações voluntárias, informações que ele não sabia que Gandalf estava procurando.

Faramir, certamente, era leal a Gandalf, e pôde muito bem ter estado com Gandalf quando o mago estava remexendo entre os antigos registros. Se Gandald confiou em Faramir para ser discreto, então o príncipe pode muito bem ter visto o pergaminho em que Gandalf estava mais interessado, e, portanto, ele pode tê-lo estudado. Então quando Faramir conheceu Frodo e Sam, ele foi capaz de conversar sabiamente sobre o Um Anel. Ele não necessariamente divulgou tudo o que sabia de prontidão, mas Faramir parece ter concordado muito rapidamente com o plano de Gandlaf. Por que isso? Ao menos que tenham contado a ele a história completa da guerra da Última Aliança, Faramir deveria ser bem leigo. Boromir revela que ele sabia sobre o Anel no Conselho de Elrond, mas se surpreende ao saber que Isildur o pegou. É dele a declaração que “se alguma vez tal conto foi contado no Sul, já foi esquecido há tempos”, o que nos leva a crer que ninguém em Gondor lembra do Um Anel.

A resposta deve ser que Boromir somente prestou atenção aos fatos do caso. Isto é, ele estava, provavelmente, somente interessado nos detalhes do poder, e não nas motivações que levavam à criação, nem nos eventos que o cercavam. Boromir era um guerreiro de coração e não muito um sábio de fato. Então Boromir passa uma primeira impressão pobre no leitor até então, enquanto os sábios de Gondor estão preocupados. Faramir conta a Frodo e Sam que a ele e seu irmão foi contada a estória de sua cidade e condados, e que os Stewards preservaram muita sabedoria antiga que somente poucas pessoas acessaram.

O fato da existência do Um Anel (e a existência de um grupo geral de “Anéis de Poder” mágicos) era assim, se não parte da sabedoria comum, então um fato ainda bem conhecido aos soberanos e as classes elitistas da Terra-Média de uma época. Até mesmo Glóin parece saber algo sobre os Anéis quando ele fala no Conselho de Elrond, embora ele saiba menos sobre os Anéis Élficos do que ele indica saber. Pode ser que Dáin tinha aberto a biblioteca de Erebor e havia dado informações a Glóin. Mas Glóin era primo de Dáin, um membro da família real. Parece pouco provável que ele seria completamente excluído dos registros de família. Ele provavelmente sabia tanto sobre a história geral dos Anéis de Poder quanto os mais sábios nobres de seus dias.

O conhecimento dos Anéis de Poder não estaria disponível entre as pessoas mais novas e nações. Os Homens do Norte eram antigos, mas suas culturas haviam evoluído e divergido através dos longos anos da Terceira Era. Os Rohirrim não mantiveram registros escritos, e eles não estavam interessados em questões antigas, exceto quando seus ancestrais figuravam como heróis de canções. Os Homens de Dale e os Woodmen de Mirkwood, mesmo se mantivessem alguns registros, não tinham de fato uma história antiga para sustentar um total relato sobre os Anéis de Poder. Arnor e seus reinos sucessores, Arthedain, Rhudaur e Cardolan, havían caído. Todos os que permaneceram foram os habitantes de Bri, os Hobbits do Condado e o povo de Aragorn. E os Hobbits não estavam muito preocupados com a história em absoluto, quanto mais com história antiga!

E assim que os séculos passaram, os Anéis se tornaram menos e menos importantes para os povos da Terra-Média. Sauron os queria, e o Conselho Branco sabia que eles ainda causariam uma ameaça para os Povos Livres. Mas não havia novas buscas para encontra-los, pois as pessoas que sabiam dos Anéis sabiam que eles eram perigosos. Ou ao menos elas deviam saber que grandes e terríveis guerras foram travadas devido aos Anéis no passado. A história completa provavelmente era conhecida somente por Elrond, Galadriel e Círdan, e mais provavelmente, por Saruman e Gandalf. Talvez alguns outros membros do Conselho Branco conheceram o relato completo também.
Para todos os outros, havia pedacinhos do conto passados de geração em geração.

Então, quando o primeiro ataque de Mordor foi derrotado e Aragorn e Gandalf se encontraram com Éomer e os senhores de Gondor e Rohan, eles foram capazes de falar abertamente sobre o Um Anel. Gandalf parece até mesmo ter confidenciado a Theóden um pouco sobre a jornada do portador do Anel, quando ele trouxe o rei envelhecido ao seu lado e falou com ele. Já era suficiente mencionar o Um Anel. Os Senhores sabiam sobre o que Gandalf estava falando. Eles entenderam que um grande e poderoso talismã estava sendo arriscado. Eles entenderam, essencialmente, que a guerra toda estava realmente sendo travada devido ao Anel.

Poderia-se dizer que gerações de nobres devem ter passado para frente o conhecimento mais básico sobre os Anéis de Poder de uma forma quase religiosamente dedicada. Quando todos os outros contos de dias antigos estavam perdidos ou esquecidos em meio a pergaminhos ilegíveis, os Homens se lembrariam de contar a seus filhos que, em uma certa época, havia um Senhor do Escuro que tinha um Anel terrível. E esse Anel era diferente de todas as outras coisas mágicas na Terra-Média. O conhecimento persistiu onde era mais preciso, então quando o dia chegou, serviu para aumentar a resolução dos Homens que tinham que enfrentar o Senhor do Escuro e rir na sua cara enquanto alguns Hobbits saíam correndo ao lado do Orodruin. Ninguém realmente precisava entender a história dos Anéis para lembrar que eles existiam. As pessoas estavam conscientes de que eles existiam, de uma forma geral e vaga. Mas os longos anos e as devastações arruinaram os Homens, Elfos e Anões que serviram para guardar o segredo contra a antiga vergonha dos Eldar.

Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

legolas

Legolas

Decidi fazer um desafio a mim mesmo e escrever algo a respeito de Legolas, que não tivesse sido dito antes. Parece haver muitas curiosidades acerca desse Elfo. As pessoas querem saber todo tipo de coisas a seu respeito, como a cor de seus cabelos, quem era sua mãe, quando ele nasceu, se ele estava presente na Batalha dos Cinco Exércitos.

Se alguém fosse produzir uma série de TV baseada na Companhia do Anel [a Companhia, não o livro], eles teriam de inventar sua própria história de Legolas. A inevitável exploração do background de cada personagem resultaria em episódios onde Gandalf primeiramente descobre que a Terra Média é perigosa mesmo para os Maiar [digamos, dentro de um ano após ele sair do barco]; onde Aragorn rastreia seu primeiro Orc; onde Gimli aprende a lidar com o fato de ser o filho de Glóin; onde Frodo se lembra do dia em que seus pais se afogaram; onde Pippin observa sua irmã Pearl levar Lalia the Fat para seu último raio de sol; onde Merry entra na Velha Floresta pela primeira vez; onde Sam brinca com Rosie Cotton e os irmãos dela, e quando se dá conta de que a ama, e onde Boromir tenta aceitar o fato de que nunca será Rei de Gondor.Quais seriam os conflitos passados de Legolas? Que tipo de experiência teria um Elfo das Florestas, imortal, para ajudar a definir o caráter de Legolas conforme ele se revelava à Companhia? Há na realidade apenas um momento de dúvida para Legolas na história que Tolkien nos contou, e foi quando ele reconheceu o Balrog. Isso não quer dizer que Legolas tivesse sempre certeza quanto ao que fazer. À maneira típica dos elfos, ele não dá um conselho claro a Aragorn sobre o que fazer quando eles e Gimli estão perseguindo os Orcs que haviam capturado Merry e Pippin. “Meu coração manda seguir em frente,” ele diz. “Mas devemos permanecer juntos. Eu seguirei seu conselho.”O momento de hesitação de Legolas ante o Balrog foi um evento definitivo. Ele entrou em pânico; reconheceu o Balrog pelo que ele realmente era e perdeu a coragem. “Ai! Ai!” gemeu Legolas. “Um Balrog! Um Balrog está vindo!” Ele deixou sua flecha cair no chão ao invés de atirar na coisa. Porém, o encontro pode tê-lo preparado melhor para confrontar o Nazgul alado sobre o Anduin. Legolas tinha pulado sobre o banco e armado uma flecha, procurando um alvo. “Elbereth Gilthoniel!” Ele gritou quando sentiu a aproximação do Nazgul alado. Ele estava assustado e movido pelo medo, mas agora tinha maior coragem.Tal crescimento no caráter de Legolas é bom, mas me lembra de uma premissa tola [engraçada] que foi atribuída ao Tenente Comandante Data na história de “Encounter at Farpoint”. Supostamente, ele estaria servindo à Frota Estelar por coisa de 27 anos; em todo esse tempo, ele não aprendeu virtualmente nada sobre os humanos e suas emoções. O que eles fizeram, designaram-no para servir apenas Vulcanos até que o Capitão Picard o recrutou para a Enterprise?Legolas refere-se a seus companheiros como crianças, e quando ele, Gimli, Aragorn, e Gandalf estão se aproximando de Meduseld, diz que as folhas haviam caído quinhentas vezes em Mirkwood desde que os Rohirrim vieram do norte. Ele também faz esse comentário soar como se ele próprio tivesse vivido por todos estes quinhentos anos. Em outro trecho, ele diz que já havia visto muitas nozes crescerem e morrerem como um carvalho muito velho. Em se tratando de elfos, Legolas provavelmente não é antigo, mas ele parece ter já uma certa idade. E ainda assim, Lórien é um lugar misterioso para ele; Legolas jamais estivera lá. Parece estranho que ele não saiba nada sobre uma terra dos Elfos da Floresta.

Assim, podemos sugerir que Legolas talvez tenha nascido depois que seu pai deixou as Emyn Duir [as Montanhas de Mirkwood] e liderou seu povo para o Norte para fixar-se ao longo do Rio da Floresta. Isso teria sido logo depois de que Sauron se reergueu e estabeleceu-se na colina de Amon Lanc, construindo a fortaleza de Dol Guldur. E ainda assim, uma das inconsistências peculiares da personagem de Legolas é que ele conhece a Balada de Nimrodel. A balada em si tinha de ter sido composta algum tempo depois de 1981, o ano em que Nimrodel e Amroth deixaram Lórien. Quem a escreveu? Como a história chegou a Mirkwood de modo que Legolas pudesse aprendê-la?

A explicação mais cabível parece ser que durante a ausência de Sauron de Dol Guldur [os anos da Paz Vigilante, TA 2063 - 2460], os Elfos de Mirkwood saíram de seu país e viajaram até Gondor. A população de Calenardhon estava em declínio durante estes anos, mas Gondor ainda podia proteger o Anduin de seus inimigos. Celeborn e Galadriel subiram ao trono em Lórien depois da partida de Amroth, e pode ser que não tenham decretado sua política de segredo logo de início. Então alguns Elfos do povo de Thranduil pode de fato ter viajado a Lórien durante esses anos e aprendido a Balada. Legolas diz simplesmente: “Há muito que ninguém de meu povo retornou à terra por que passamos há eras atrás, mas ouvimos que Lórien ainda não foi desertada.”

É algo curioso de se dizer. De quem ouviram que a terra não estava desertada? Provavelmente do povo de Elrond, e Legolas aparentemente aprendeu a tradução Westron da balada em Rivendell. Então, parece que ele era jovem o bastante para nunca ter estado em Lórien, e nem mesmo se aproxinado de lá enquanto seus habitantes ainda eram ativos no resto do mundo. Pode ser, assim sendo, que Legolas tenha nascido durante a Paz Vigilante, e talvez perto de seu fim. Assim, ele seria relativamente velho, mesmo comparado com os vividos Gimli e Aragorn.

E novamente Tolkien coloca uma aparente inconsistência diante de nós. Quando Aragorn e Legolas discutem o aviso de Celeborn sobre a Floresta de Fangorn, Legolas declara não saber de nada, a não ser que antigas canções falam sobre os Onodrim, os Entes. Ele não viajou tão longe quanto Aragorn. Porém, mais tarde, quando adentram Fangorn em busca dos hobbits desaparecidos, Legolas diz: “Ela é velha, muito velha. Tanto que quase me sinto jovem novamente, como não me sentia desde que viajei com vocês, crianças.”

É um comentário bastante estranho para um Elfo que não tenha viajado muito. Mirkwood é uma floresta antiga por si só – mas Mirkwood, ao contrário de Fangorn, tornou-se o lar de criaturas que cortam árvores, abrem caminhos e outras coisas que retiram os anos de uma floresta. Elfos, Homens, Orcs, e mesmo as aranhas gigantes fazem de Mirkwood uma floresta muito diferente. Talvez Legolas estivesse experimentando o sentimento de maravilha que qualquer criança sentiria na primeira vez que visita o mundo lá fora.

Legolas pode ter ido a Rivendell mais de uma vez, pois ele parece se sentir familiarizado com o povo de Elrond. A jornada de Mirkwood a Rivendell não seria muito perigosa por muitos anos após a Batalha dos Cinco Exércitos [haja visto que a maioria dos Orcs das Montanhas Nebulosas foram mortos naquela batalha]. Algumas pessoas já questionaram se Legolas não seria um filho mais jovem de Thranduil; seu papel como mensageiro para Elrond, e mais tarde a permissão de Thranduil para que ele liderasse parte de seu povo para Gondor parece indicar que Legolas talvez não seja o herdeiro de seu pai. É claro que Thranduil pode ter apenas se curvado ao inevitável, a ponto de permitir que Elfos partissem para Gondor.

Se ele tivesse pouco mais de 500 anos na época da Guerra do Anel, Legolas teria vivido vários eventos significativos. Ele se lembraria da chegada de Smaug a Erebor, e da destruição dos reinos de Dale e Erebor. Ele se lembraria do Longo Inverno, e provavelmente teria sido um dos Lordes élficos defendendo Thranduil na Batalha dos Cinco Exércitos. Assim, ele teria conhecido alguns perigos e dificuldades, e seria perfeitamente capaz de cuidar de si mesmo. Ele parece enfrentar os Orcs muito bem em Parth Galen, e depois no Abismo de Helm, para mostrar que é um guerreiro formado; ele também ameaça a vida de Éomer em defesa de Gimli com a segurança de um veterano.

Como Tolkien não menciona Legolas nos escassos relatos da Guerra da Última Aliança, muitos parecem aceitar que ele tenha nascido na Terceira Era, mas pode soar radical para alguns afirmar que ele tenha provavelmente nascido no fim da Terceira Era, ou talvez até durante a Paz Vigilante. Porém, há um precedente para um Elfo “relativamente jovem” chegar à proeminência – quando os Noldor partiram em exílio, Turgon e sua esposa Elenwë provavelmenta não tinham filhos. Sua filha Idril ainda era uma criança quando Elenwë perdeu-se durante a travessia do Helcaraxë; portanto, Idril cresceu na Terra-média.

Orodreth também aparentemente nasceu e foi criado na Terra-média, filho de Angrod e uma Elfa Sindarin [de acordo com a última informação publicada em The Peoples of Middle-earth]. Os filhos de Orodreth eram Finduilas e Gil-galad que seriam ainda mais jovens durante a queda de Nargothrond do que Legolas parece ter sido durante a Guerra do Anel. Voronwë, amigo de Tuor, era filho de Aranwë dos Noldor e uma Elfa Sindarin aparentada de Círdan. E Maeglin, o filho de Eöl e Aredhel, contava apenas duas centenas de anos quando morreu na queda de Gondolin

Thranduil pode ter tido três ou quatro filhos, e Legolas pode muito bem ter sido o caçula da prole. Assim, para ele os eventos da Primeira Era e mesmo a história de Nimrodel e Amroth pareceriam distantes no tempo. Ele seria um estranho em Lórien, e devido aos perigos habitando a Terra-média ele pode não ter começado a se afastar do reino de seu pai antes da Batalha dos Cinco Exércitos. É possível que a Batalha dos Cinco Exércitos tenha sido o primeiro evento de impacto na carreira de Legolas.

Certamente quando o Rei Élfico dO Hobbit parte com seu exército ele não espera por uma batalha. Smaug estava morto e havia muito pouca gente para disputar o tesouro do dragão. Exceto pelo fato de que ele era um Rei em busca de um enorme tesouro de ouro e jóias, ele sequer sentiria a necessidade de um exército. Assim, faria sentido se levasse seu filho caçula com ele.

E depois de tudo isso, ainda temos dúvidas quanto a Legolas. Não podemos afirmar, infelizmente, certeza de nada a respeito de seu passado. Ele provavelmente conhecia Aragorn e Gandalf antes do Conselho de Elrond, mas não há sinal de reconhecimento. Ele provavelmente esteve em Dale e Erebor, mas ele e Gimli não parecem ter se conhecido antes do Conselho de Elrond. É claro, eles viajaram juntos por algumas semanas antes de começarem a se tornar amigos. Legolas parece ter feito os primeiros pasos de amizade quando tentou suavizar suas palavras sobre a história do Balrog na fronteira de Lórien.

É claro que Legolas também perdeu a paciência quando Gimli se recusou a entrar sozinho vendado em Lórien. Aquela foi a única vez em que Legolas jamais foi duro com alguém. Ele estava falando como um orgulhoso Príncipe Élfico ou como um jovem Lord Elfo que ainda não queimara todo o fogo de sua juventude? Legolas ainda tinha curiosidade sobre o mundo, seguindo Aragorn por todo o caminho até Gondor, buscando os caminhos secretos de Fangorn e se deixando envolver pela beleza de Aglarond.

Talvez muitos Elfos tivessem apreciado as vistas que Legolas encontrou  em sua jornada, mas há algo de jovem e revigorante na maneira com que ele olha para trás, aos espíritos seguindo a companhia de Aragorn: “…Legolas, voltando-se para falar a Gimli olhou para trás e o Anão viu diante de si o brilho nos olhos do Elfo….”

Há algo de brincalhão no modo com que Legolas se empenha em um jogo mortal com Gimli no Abismo de Helm. Alguém consegue imaginar Elrond fazendo apostas sobre Orcs no meio de uma séria batalha que decidiria o destino de Rohan? Ou Feanor nessa situação? Embora cheio de fúria como estava, no fim de sua vida ele ainda era o pai severo e controlador; qualquer jovialidade que tenha apresentado em sua juventude há muito tinha se acabado. Assim também foi quanto à jovialidade de Fingolfin, há muito afastada de si quando ele cavalgou para desafiar Morgoth para um duelo. E o Maedhros que repreendeu seus irmãos irados com risosquanto à cessão de Thingol de terras vazias aos Noldor, tornou-se um Lord austero e determinado que, ao término da Terceira Era, estava consumido pelo cansaço e pelo legado da culpa.

Legolas parece muito mais impetuoso quando ele e Gimli estão cavalgando através da massa de Huorns e Entes que salvaram Rohirrim no Abismo de Helm. Ele mal pode se conter enquanto cavalgam por entre as árvores e descobre olhos os observando; dá as costas para a estrada e começa a adentrar a estranha mata. Apenas o cuidado de Gandalf pode trazê-lo de volta de sua curiosa euforia Élfica. É difícil imaginar Celeborn ou Galadriel sendo tão tomados pela curiosidade a ponto de abandonarem sua missão para descobrir mais sobre os olhos na mata.

A personagem Legolas não é tão atraente quanto confusa. Creio que muitas pessoas se questionam a seu respeito porque ele parece um tremendo paradoxo, tão velho quanto jovem, sábio e inexplicavelmente ignorante quanto ao mundo que o cerca. Legolas é um súbito toque de juvetude Élfica no fim dos Dias Antigos. Pode ser que tenha havido poucos Elfos jovens na época, e essa pode ter sido a última grande aventura de um Elfo jovem na Terra-média. Quando Celeborn finalmente cruzou o Mar, Tolkien observa,a última memória viva dos Dias Antigos foi com ele. Mas quando Legolas construiu seu navio e partiu, pode ser que a última fagulha de juventude Élfica tenha desaparecido da Terra-média também.

A ponta do iceberg: novas informações sobre a Terra-Média

Por aproximadamente um ano, discussões online sobre o mundo de Tolkien vem sido apimentadas — em alguns lugares — com referências a um obscuro estudo chamado "Osanwë-Kenta". Este ensaio foi publicado pela primeira vez em Vinyar Tengwar Mº 39, o exemplar de Julho de 1998 do jornal oficial da Elvish Linguistic Fellowship (Sociedade Da Linguística Élfica), um grupo de interesse da Mythopoeic Society. "Osanwë-Kenta" ("Acerca da comunicação de pensamentos") foi premiada como um dos textos de Tolkien mais reveladores daqueles que não foram publicados. Eu acho que "Osanwë-Kenta" deve ser colocado de lado, pois há um texto mais interessante. Se chama "Os Rios e Vales de Gondor".
 

Os dois estudos são importantes na pesquisa sobre Tolkien, e os aspectos linguísticos não são necessariamente primários. Você pode perceber detalhes interessantes sobre a filosofia e história do povo de Aman em "Osanwë-Kenta". "Rios e Vales de Gondor" também nos fornecem nova informação e revelações sobre a história de Gondor e os povos que lá moram. Supondo que mais pessoas querem saber sobre os eventos na Terceira Era que eventos do começo de Aman, eu acho que "Rios e Vales de Gondor" prova ser o mais importante.

Vinyar Tengwar é primeiramente preocupado com material linguístico, de onde restam um imenso número de ensaios e notas não publicados. As reflexões linguísticas de Tolkien porém, geralmente incluem apartes, muitas vezes grandes ensaios sobre as histórias e filosofias das principais raças. O material linguístico é então de interesse especial para pesquisadores que estudam a construção do mundo de Tolkien, sua pseudo-história e filosofias artificiais.

 
Christopher Tolkien publicou fragmentos do "Rios e Vales de Gondor" no Contos Inacabados. Infelizmente, Vinyar Tengwar também publica apenas fragmentos. Assim como a situação com "Narn i Hîn Húrin" (A História dos Filhos de Húrin), que foi publicado em pedaços no Contos Inacabados e no Silmarillion, precisamos juntar o trabalho inteiro junto. Se o suficiente das duas escrituras foram publicadas nessas duas partes, cabe à HarperCollins publicar um volume com os Trabalhos Completos de JRR Tolkien, combinando-os. Tal livro seria uma marca na tentativa de fazer uma representação coerente de algo escrito fora o Hobbit e o Senhor dos Anéis.

As passagens relevantes do Contos Inacabados são encontrados no capítulo da história de Galadriel e Celeborn, especificamente nos apêndices tratando de Amroth e Nimrodel, e o porto de Lond Daer. Algum material também foi publicado na seção "Notas sobre os Druedain" no capítulo sobre os Druedain. Aquela seção do Contos Inacabados também começa com um fragmento sobre os Druedain que Christopher Tolkien tirou do "Sobre os Anões e os Homens", cuja maioria foi publicada no Peoples of Middle-Earth (Povos da Terra-Média). Na maioria dos casos, não veremos os textos inteiros publicados juntos, mas ainda podemos sonhar com a oportunidade.

Na carta que acompanha o "Rios e Vales de Gondor", Vinyar Tengwar lança uma cascata de minúsculas revelações que vai nos forçar a refazer muitas teorias sobre a Terra-Média. Por exemplo, Tolkien escreve:

"…No primeiros séculos dos Dois Reinos Enedwaith foi uma região entre o reino de Gondor e o pequeno reino de Arnor (originalmente incluía Minhiriath (Mesopotâmia)). Os dois reinos tinham interesse na região, mas eram mais preocupados com a manutenção, sua principal fonte de informação exceto pelo mar e pela ponte de Tharbad. Povos de origem numenoreana não viviam ali, exceto em Tharbad, onde um grande número de soldados e guardiões do rio era mantido. Naqueles dias eles praticavam drenagem, e as margens do Hoarwell e Greyflood eram reforçados. Mas nos dias do Senhor dos Anéis a região tinha sido arruinada e voltou para um estado primitico: um rio largo e lento que corria por uma rede de pântanos e lagos: um lugar assombrado por cisnes mortos e outros pássaros aquáticos."

"Mesopotâmia" é uma velha palavra para "terra entre rios", e Tolkien estava sem dúvida fazendo uma pequena piada sugerindo a tradução de "Mesopotamia" para "Minhiriath" (que significa a mesma coisa"). Vocês podem imaginar o quanto essa tradução vai chatear os geógrafos que fazem correlações precisas entre o mapa da Terra-Média de Tolkien e mapas da Europa e Ásia.

Mas, para mim, o comentário mais interessante é a referência indireta para "guardiões do rio". A que Tolkien estaria se referindo? Seriam aqueles homens que atravessavam os rios para cima e para baixo, prendendo piratas e ladrões? Ou seriam aqueles que faziam viagens de um lado para outro do rio? Seriam os guardiões de Tharbad os engenheiros que mantinham os trabalhos de drenagem" e as margens reforçadas dos rios Hoarwell e Greyflood? E, se não haviam numenoreanos na região, porque as margens eram reforçadas?

Tharbad já é um lugar curioso. No Contos Inacabados aprendemso que a grande ponte e os cais da cidade foram construídos por Arnor e Gondor, aparentemente para substituir o destruído porto de Lond Daer Ened. E ainda, Tar-Aldarion diz que encontra Galadriel em Tharbad numa nota acompanhando o texto "Aldarion e Erendis". Em outro lugar, a segunda história de Galadriel e Celeborn, Tharbad diz ter defendido Eriador contra a invasão de Sauron em 1695 SE. Pode ser que Tharbad seja originalmente uma colônia élfica, talvez um entreposto estabelecido por Círdan para facilitar o comércio e comunicação com Eregion. Os numenoreanos também podem ter sido o primeiro povo a fortificar Tharbad (em preparação para a guerra contra Sauron, eles também fortificaram os rios Baranduin/Brandevin e Luin).

Outro nome que merece atenção especial é "Gilrain", o nome de um rio em Gondor. Tolkien o compara a "Gilraen", o nome da mãe de Aragorn. "O significado de Gilraen é um nome feminino sem dúvida. Significava ´Aquela que é decorada com um conjunto de pequenas jóias em uma malha´, como o tesouro de Arwen descrito no SdA I 239." (Este tesouro é a "touca de renda prateada, enredada com pequenas pedras, de um brilho branco" que Arwen usa no banquete dado em honra de Frodo em Valfenda.)

Tolkien sugere que Gilraen poderia ter conseguido esse nome como um apelido, mas "provavelmente era seu verdadeiro nome, já que tornou-se um nome dado às mulheres de seu povo, as remanescentes dos numenoreanos do Reino do Norte, de sangue puro. As mulheres dos Eldar estavam acostumadas a usar tais jóias; mas entre os outros povos, eram usadas apenas por mulheres de alto nível entre os Guardiões, descendentes d
e Elros, como diziam. Nomes como Gilraen, e outros de significado similar, virariam então nomes pessoais dados às crianças nobres da família dos ´Senhores dos Dunedain´
".

Uma forte implicação dessa passagem é que os Guardiões eram um subgrupo de um povo maior, e que eles eram todos de sangue nobre, descendendo de Elros, e provavelmente os únicos Dunedain de sangue puro restantes em Arnor. Mas se aquele foi o intento de Tolkien ou uma nota mal-escrita, não podemos dizer.

Numa nota secundária, Tolkien revela que a raiz de -raen, em Gilraen, vinha do trabalho de tricô e que o adorno que Arwen e outras donzelas élficas — assim como as mulheres nobres do povo de Aragorn — usavam foi feita com um único fio.

A história de Amroth e Nimrodel é um pouco mais elaborada, também. E descobrimos a extensão completa da nota que sugere que Edhellond pode ter sido estabelecida por antigos Doriathrim que deixaram Mithlond (Portos Cinzentos). Foi abandonado no meio pois, como Christopher Tolkien opinou, seu pai percebeu que, sua dissertação sobre Círdan ser um Noldo do qual os Sindar queriam se afastar, era totalmente inconsistente com os outros textos. Então, a lenda de Edhellond ter sido fundada pelos primeiros elfos de Doriath deve ser descartada. O porto deve ter sido fundado por outros motivos, e talvez a lenda a respeiro de Brithombar e Eglarest é a mais provável de todas.

Apesar de tudo, a nota abandonada concorda com outra fonte publicada no Silmarillion dizendo onde os Nandor se estabeleceram em Eriador. Quer dizer, o fragmento de nota diz que os Eldar de Lindon "encontraram acampamentos abandonados dos Nandor" nos dois lados das Montanhas Nevoentas. O Silmarillion inclui um passagem em "Dos Sindar´ onde os anões dizem à Thingol que "seu antigo povo que lá mora [na terra à leste das montanhas] estão voando das planícies para os vales." Parece, então, que as criaturas de Melkor mandaram os Nandor em direção ao leste e para as Montanhas Nevoentas antes que Melkor retornasse para a Terra-Média.

Muitos pedaços situam-se além desses, e as implicações para os historiadores de Tolkien são extensivos. A Terra-Média revela mais uma face — aliás, muitas outras — para nós. O significado do tesouro de Arwen pode implicar em algum tipo de referência à Varda. É Arwen, afinal, que aparentemente canta o hino a Elbereth à medida que Frodo e Bilbo saem do Salão do Fogo em Valfenda. Gilraen e outras mulheres de sua família devem ter dividido tal reverência élfica à Varda.

A idéia de que povos com apenas parte do sangue numenoreano continuaram a viver em Eriador é aterrorizante. Apesar de sabermos que não poderíamos ter comunidades dos homens a oeste de Mitheithel, isto não dá novo sentido às palavras de Elrond no conselho, onde ele diz que poucos do povo de Aragorn ainda vivem? Estava Elrond talvez omitindo alguma referência á um povo maior governado pelo clã de Aragorn? Aquelas pessoas que se perguntavam onde Aragorn achou tantos guerreiros para retomar Eriador têm agora razão o suficiente para argumentar que um grande povo vivia perto de Valfenda no Ângulo.

Mais revelações nos aguardam, especialmente sobre os primeiros anos de Arnor e Gondor. Também veremos que os elfos tinham um sistema decimal e duodecimal. Então, todos estão certos. Todos nós ganhamos de novo. E é só a ponta do iceberg…

Tradução de Aarakocra

Uma História da Última Aliança de Elfos e Homens, Parte 1

A lenda da guerra de Gil-galad e Elendil contra Sauron no final da Segunda Era da Terra-média tem sido assunto de muita pesquisa e especulação entre os fãs de Tolkien. Assim como com todos os aspectos de sua mitologia, as poucas menções desta grande luta implicam uma profundidade que direciona a imaginação à uma descrição completa que certamente deve ter existido na mente do autor, se não em alguma de suas obras existentes. A maioria de nós está familiarizada com linhas gerais da guerra, e muitos podem traçar os eventos em uma progressão geral a partir do primeiro ataque à Minas Ithil até o combate final em Orodruin.

Mesmo assim muitas questões permanecem, as quais alguém pode imaginar se Tolkien não as fez a si mesmo. Quem eram os grandes príncipes e capitães, cuja lembrança de seus estandartes fez Elrond parar e suspirar em seu conselho uma Era mais tarde? De onde vieram estes exércitos, e quais eram suas razões para se unirem à Aliança? Se não sabemos os números deles, sabemos realmente algo da sua ordem e progressos de batalha?Talvez.

Muito do que se segue é necessariamente especulativo. Não pode ser de outra forma, pois existem lacunas no que está registrado. Mesmo Tolkien espalhou aqui e ali partes de informações a respeito desta grande guerra na qual “todos os seres vivos estavam divididos…à única exceção dos elfos” (O Silmarillion, p. 374).

A guerra final da Segunda Era reuniu muitos povos em ambos os lados para um combate cataclísmico que rivalizou com a grande Guerra da Ira no final da Primeira Era do Sol. Apesar de os Valar não terem participado nesta guerra, o conflito culminou em uma série longa e pendente de disputas entre Sauron, os Elfos e os Homens de Númenor. A guerra representou a última ação desesperada de Sauron pelo poder na Terra-média na sua antiga campanha para ganhar controle sobre os Elfos e Homens.

As sementes da guerra foram estabelecidas um milênio antes, quando Sauron, na aparência de “Aulendil” (“Annatar”), começou a se aproximar dos Elfos em uma tentativa de seduzi-los [1]. Galadriel não confiou nele, afirmando não ter conhecido tal Maia em Valinor [2], e Gil-galad desconfiou dele, tendo há muito sentido que algum poder maligno havia se erguido na Terra-média [3]. De fato, a maioria dos senhores élficos recusou-se a tratar com Sauron, exceto pelo ferreiro Celebrimbor, cujas razões para recusar o conselho de Gil-galad não são dadas. Mas talvez ele tivesse herdado o grande orgulho de sua casa, e como o último herdeiro sobrevivente de Fëanor, tenha rejeitado o aviso de Gil-galad em um ato de rebelião.

Celebrimbor não viveu para ver os frutos das sementes que ele ajudou Sauron plantar e nutrir nos Anéis de Poder. Embora ele tenha vindo a entender sua tolice ates da Guerra dos Elfos e Sauron, Celebrimbor pereceu quando Sauron tomou Ost-in-Edhil [4]. Como Fëanor antes dele, Celebrimbor conduziu os Noldor a um caminho cujo final ele nunca viu, e a trágica história deles tanto foi enriquecida como reduzida por causa das escolhas que ele fez.

Por terem auxiliado Gil-galad durante a Guerra dos Elfos e Sauron, os Dúnedain ficaram enredados de maneira irrevogável nos acontecimentos da Terra-média, obtendo a inimizade eterna de Sauron. Dentro de 100 anos da guerra, os Dúnedain começaram a construir portos permanentes a Terra-média: Lond Daer Ened, Pelargir, Umbar, e outros agora esquecidos [5]. Destes portos vieram pelo menos três dos Nazgûl, os Espectros do Anel que por volta do ano 2251 revelaram-se pela primeira vez, conduzindo os exércitos de Sauron contra seus inimigos [6].

Os conflitos entre os Dúnedain e Sauron eventualmente diminuíram a progressiva luta entre Sauron e os Elfos. Enquanto muitos dos Eldar abandonavam a Terra-média, mais e mais Dúnedain lá se assentavam, vindos de ambas as facções de Númenor: os Homens do Rei e os Fiéis. Os Dúnedain buscaram conquistas próprias, confrontando-se com os tenentes de Sauron e obtendo seu imenso ódio [7]. A rivalidade de Sauron com os Dúnedain levou ao seu aprisionamento voluntário em Númenor, onde ele seduziu a maior parte dos Dúnedain para sua causa. Suas fortalezas na Terra-média ao sul de Pelargir estenderam assim o verdadeiro poder de Sauron, onde antes eles o haviam contestado.

Sobrevivendo à destruição de Númenor, Sauron retornou para a Terra-média muito transformado. Gil-galad havia recuperado seu antigo poder e estendido seu poder à novas terras [8]. Todos os Elfos estavam agora aparentemente unidos em propósitos e fortalecidos pelo longo período de paz que sua ausência lhes havia dado. Os Dúnedain que sobreviveram à Queda de Númenor ainda estavam divididos em dois grupos, mas os Fiéis haviam agora estabelecido dois reinos que, embora cultivados pelo poder de Gil-galad, guarneceram Lindon com uma barreira mais poderosa contra a invasão do que Eregion ou Imladris jamais tiveram.

O reino de Elendil em Arnor era maior em tamanho e força do que o reino de Gondor de seus filhos. Os Dúnedain e os povos que lá se assentaram entre eles viviam entre os rios Lhûn e Gwathló [9]. O povo de Elendil vivia principalmente entre os rios Lhûn e Baranduin, e entre as Colinas de Vesperturvo e as Colinas do Norte [10]. Alguns também se assentaram em Tyrn Gorthad e nas Colinas do Sul. Tharbad, um antigo porto e posto avançado Dúnadan no rio Gwathló, tornou-se um elo entre os dois reinos com uma fortaleza dos dois lados do Gwathló e uma ponte atravessando o rio [11].

Outros Homens viviam em Eriador além dos Dúnedain. Os Homens de Bri, a maioria representantes nortistas de sua raça, possuíam parentesco com a maior parte dos povos de Minhiriath e Enedwaith, assim como com as tribos selvagens das Ered Nimrais e Calenardhon que viviam na fronteira ocidental de Gondor [12]. As tribos das colinas que viviam entre o Bruinen e o Mithieithel podem ter sido amigáveis aos Elfos, mas parece que não reconheciam a autoridade de Elendil. Nem o fazia as tribos que viviam no norte, membros de Forodwaith que mais tarde deram origem a Lossoth e talvez aos Homens de Carn Dum [13]. Entretanto, o povo de Elendil provavelmente também incluía descendentes dos clãs relacionados ao Povo de Bór e Ulfang na Primeira Era [14].

O povo de Gondor vinha principalmente dos Dúnedain e seus parentes que viviam em e próximo a Pelargir, assim como ao longo da costa de Belfalas. Eles construíram as novas cidades de Osgiliath, Minas Anor, e Minas Ithil, imaginando que Sauron não era mais uma ameaça [15]. Os filhos de Elendil também estenderam seus domínios para o norte em direção a Calenardhon.

Mas a escolha da localização para suas novas cidades indica que os Númenoreanos Negros do sul eram motivo de preocupação [16]. E embora o antigo porto élfico de Edhellond se situasse a oeste do coração de Gondor, os vales das Ered Nimrais de Lamedon até as nascentes dos rios Lefnui e Adorn eram o lar de uma raça de homens que havia servido Sauron em séculos anteriores [17]. Quando se tornou evidente que Sauron havia sobrevivido à Queda de Númenor, Isildur concluiu uma aliança com pelo menos um grupo destes homens, mas seu rei temia demais Sauron para cumprir seu juramento.

Havia outros homens em Enedwaith, aparentados com o povo das montanhas das Ered Nimrais e com os Homens de Bri, que por muito se opuseram às incursões Númenoreanas. Sua antipatia forçou Gondor a construir as fortalezas gêmeas de Angrenost e Aglarond, que guardavam o passo de Calenardhon contra o oeste, ao invés do leste [18]. Desse modo, a necessidade de uma forte guarnição em Tharbad foi ressaltada pela necessidade de uma forte guarda na própria Enedwaith.

Embora Sauron fosse um Maia de grande poder e sabedoria, ele parece ter subestimado a determinação e a habilidade de seus adversários. Gil-galad, nascido em Beleriand na Primeira Era [19], era um filho nativo da Terra-média, governando seu povo no último vestígio da própria Beleriand, agora chamada de Lindon. Ele pode ter parecido fraco a Sauron, não tendo feito algo contra Morgoth na Primeira Era, e incapaz ou não disposto a derrotar os exércitos do próprio Sauron em Eriador sem o auxílio dos Dúnedain. Mas a estratégia que os Eldar usaram na sua guerra com Sauron era de Gil-galad, que liderou o exército vitorioso de Lindon e Númenor, varrendo as forças de Sauron do norte. Como Alto Rei dos Elfos do Oeste, ele enviou Elrond contra Sauron nos primeiros anos da Guerra dos Elfos contra este [20].

Ao lado de Gil-galad ficou Círdan, o mais velho dos senhores Élficos e sábio pelas amargas lições aprendidas na longa guerra contra Morgoth. Círdan havia sido o único senhor Élfico Sindarin a se aliar com os Noldor contra Morgoth na Guerra das Jóias [21]. Uma vez que Gil-galad viveu com Círdan desde uma idade prematura, o rei Noldorin deve ter sido grandemente influenciado por Círdan, que era tão corajoso e valente quanto qualquer rei Élfico. Na Segunda Era ele auxiliou os Dúnedain, ensinando-lhes como construir e navegar navios, e como administrar os portos que eles construíram na Terra-média [22]. Círdan, também, via profundamente nos corações dos outros, e ele nunca se absteve da necessidade de se opor tanto a Morgoth quanto a Sauron. Círdan parece ter sido um oponente formidável a Sauron.

Elrond, sendo meio-elfo, não esquecera seus laços com os Dúnedain. Ele marchou com os pais deles contra Thangorodrim na Guerra da Ira [23], e ele estava em Lindon quando Veantur velejou primeiro para a Terra-média. Ele teria conhecido Aldarion em sua juventude, o grande rei navegador de Númenor. Apesar de ter falhado em abrir caminho através das forças de Sauron para socorrer Eregion, Elrond salvou muitos Elfos e Homens da morte ou captura na Guerra dos Elfos e Sauron, e ele impôs um cerco prolongado. Descendendo de uma poderosa Maia e tanto de reis Sindarin quanto Noldorin, Elrond foi educado por um filho de Fëanor, permaneceu com o Exército de Valinor na destruição das Thangorodrim e, ao escolher ser da raça Élfica, teve aumentadas sua sabedoria e suas habilidades por Eönwë. Come ele era o vice-regente de Gil-galad em Eriador [24], Elrond pode então ter representado o Alto Rei dos Elfos do Oeste nas suas relações com outros senhores élficos.

Oropher era provavelmente o maior dos outros senhores Élficos. Orgulhoso e independente, um sobrevivente de Doriath, seu reino dominava a Floresta Verde, a Grande, além do Anduin. Embora não amigável tanto aos Noldor como aos Anões [25], ele pode ter reverenciado a linhagem Sindarin de Elrond, e evidentemente viu a necessidade de se unir à aliança contra Sauron. Oropher, porém, era resoluto e orgulhoso, e ele se recusou a marchar sob o estandarte de Gil-galad, pois via a si mesmo como um igual [26].

Amdir, também conhecido como Malgalad [27], era provavelmente o menos poderoso dos reis Élficos da Segunda Era. Ele governava um povo menor do que o de Oropher, ainda que fosse favorável aos Noldor, recebendo muitos refugiados de Eregion em seu reino. Ele também deve ter mantido termos amigáveis com os Anões de Khazad-dûm, seus vizinhos e, talvez, às vezes aliados [28].

Isildur era o mais imprudente dos reis Dúnedain. Ele era orgulhoso e bravo, renomado por salvar uma muda de Nimloth, a Árvore Branca de Númenor, a despeito das precauções de Sauron contra tal tentativa [29]. Ele ousadamente estabeleceu-se (e plantou a muda) nas Ephel Dúath, na fronteira de Sauron. Mas Isildur pode não ter sido um capitão na guerra como o eram seu pai e irmão, e talvez não fosse o líder de Homens que Elendil era. Ainda assim, foi a cidade de Isildur que Sauron escolheu para o primeiro ataque, talvez buscando vingança contra o senhor Dúnadan por seus feitos em Númenor.

Elendil, o Alto, era um poderoso capitão marítimo, um mestre de tradição e, como Alto Rei dos Dúnedain-em-Exílio, reuniu um grande exército de Homens em Arnor. Ele parece não ter tido disputas com subalternos e aliados, diferente de Isildur, apesar de que a distância entre Sauron e os povos de Eriador certamente fez sua influência lá bastante fraca. Elendil foi profundamente afetado pela destruição de Númenor, e pela perda de seu pai, Amandil.

Após Isildur partir para Arnor, Anarion governou Gondor sozinho, defendendo-o contra as forças de Sauron [30]. Anárion parece ter comandado a campanha meridional inteira para a Aliança. Ele não apenas empurrou os exércitos de Sauron de volta a Mordor: ele mesmo, eventualmente, atravessou as montanhas.

Dúrin IV de Khazad-dûm também se uniu à Aliança [31]. Uma vez que seu reino situava-se tão perto de Lorinand, ele deve ter reunido seu exército próximo ao de Amdir. E ainda, a conhecida antipatia de Oropher pelos Anões pode ter forçado Dúrin a marchar ao lado do exército de Gil-galad, talvez ainda para se colocar como um quarto igual entre os líderes da aliança completa: Gil-galad, como senhor dos Elfos do Oeste; Elendil, como senhor dos Homens do Oeste; Oropher, como senhor dos Elfos do Leste; e Dúrin, como senhor dos anões de Khazad-dûm (abrangendo duas ou três casas de Anões). Pelos Anões de Nogrod e Belegost terem há muito tempo aumentado os números de Khazad-dûm, o exército de Dúrin pode ter sido a maior hoste de Anões reunida naquele tempo ou em qualquer outro.

[Fim da parte 1]