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As Guerras dos Glorfindels

J.R.R. Tolkien criou muitos personagens
"dispensáveis", personagens que aparecem para uma história ou apenas
para parte de uma história e que nunca reemergem completamente de novo.
E de todos esses personagens dispensáveis, aquele que recebe quase
tanta atenção e discussão quanto qualquer um dos personagens principais
é Glorfindel. Ou melhor, os Glorfindels. Havia um ou dois do mesmo?
Mentes indagadoras querem saber (ou querem apenas questionar para
sempre e nunca realmente saberem?).
 
 
 
Por que Glorfindel é tão cool? Ele aparece próximo
do final de "Fuga para o Vau", é visto mas não ouvido em "Muitos
Encontros" (ah, Gandalf e Frodo falam sobre ele brevemente), participa
do "Conselho de Elrond" o bastante para confundir os assuntos acerca de
Bombadil e então desaparece até que Arwen chegue a Gondor para casar-se
com Aragorn em "O Regente e o Rei". A não ser por colocar Frodo em seu
élfico cavalo branco e brilhar como uma árvore de natal quando os
Nazgûl tentam atravessar o Vau do Bruinen, o que o Glorfindel faz de
tão especial? Sua verdadeira declaração de de fama aparece em uma
anedota no Apêndice A quando sua chegada com um exército élfico em
Angmar ajuda na derrota do Rei-Bruxo (no norte) de uma vez por todas.

É claro, nenhuma discussão sobre Glorfindel está completa (e poucas são
começadas) sem que alguém pergunte, "O Glorfindel de Gondolin tinha
relação com o Glorfindel de Valfenda?". Por vezes alguém é tentado a
responder com algo como "Sim, eles eram irmãos gêmeos, e o malvado
matou o bom e tomou o seu lugar na família. Os elfos teriam ainda que
compreender a verdade."

Pode ser facilmente dito que a relação
entre os dois Glorfindels não é óbvia. De fato, não é realmente claro
para muitas pessoas que estudaram o assunto por décadas. Por alguma
razão, a revelação em O Retorno da Sombra que "anos depois, muito
posteriormente à publicação de O Senhor dos Anéis" J.R.R. Tolkien
decidiu, após muito pensar, que o Glorfindel de Valfenda era de fato o
Glorfindel de Gondolin retornado dos mortos, não tem muito peso para
alguns. Por quê? Porque a decisão de ligar os dois personagens foi
feita anos depois, após a publicação de O Senhor dos Anéis. Isso
implicaria (ou seria inferido, dependendo de como você examina a
questão) que o Glorfindel de Valfenda não era originalmente concebido
como o Glorfindel de Gondolin.

Bem, isso é bom o suficiente. Na verdade, originalmente, Tolkien escreveu que "Glorfindel conta de sua origem ancestral em Gondolin",
em uma nota que esquematizava os acontecimentos do Conselho de Elrond.
Claramente J.R.R.T. tinha a intenção de conectar o Glorfindel de
Valfenda com o Glorfindel de Gondolin, embora àquela época (início dos
anos 40) dificilmente alguém que não J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis e
alguns poucos amigos íntimos tenham sabido sobre o Glorfindel de
Gondolin.

Glorfindel duramente marcou seu caminho através das
páginas da imaginação de Tolkien. Ele aparece em uma história no Livro
dos Contos Perdidos, que é "A Queda de Gondolin". Lá ele não aparece
até o início da batalha pela cidade, quando chega com o batalhão da
Casa da Flor Dourada. Sua "casa" trazia um emblema de um "sol radiante
em seus escudos", mas o próprio Glorfindel "descobriu um manto
bordado a ouro que parecia ornado de celidônias como um campo na
primavera; e suas armas também eram adornadas com delicado ouro."

Das onze casas de Gondolin (que serviam ao Rei Turgon), Glorfindel é o
único cujo emblema próprio é descrito. Glorfindel era um dos senhores
mais hábeis. Ele não se precipitou e foi morto com todos os seus
guerreiros, mas a maioria deles morreu, não obstante, defendendo
Turgon. Os guerreiros da Casa da Harpa (cujo senhor, Salgant, foi
retido pelo medo) salvaram Glorfindel e alguns de seus guerreiros
quando eles estavam quase sendo esmagados. Daquele ponto em diante
Glorfindel permaneceu próximo a Tuor, mas ele não fez muito de fato até
que Tuor começou a fugir da cidade com todas as mulheres e crianças que
ele podia manter juntos. Então Glorfindel tomou a retaguarda e
enfrentou dragões, orcs e balrogs com sua cada vez menor força de
guerreiros.

Tuor recuou da cidade para as montanhas e lá a
coluna dos exilados, aproximadamente mil resistentes, foram emboscados.
Orcs haviam sido enviados para as colinas e montanhas para prevenir
quaisquer fugas da cidade, e lançaram rochas sobre a coluna de altos
despenhadeiros enquanto tropas atacavam-na em sua parte principal e sua
retaguarda. E com o ataque na retaguarda veio o Balrog. Thorondor e
suas �?guias interromperam os orcs que estavam a lançar rochas, mas o
Balrog forçou sua passagem pelos guerreiros de Glorfindel e finalmente
o atacou sozinho. A batalha de Glorfindel com o Balrog foi breve, mas
ele a conduziu para matá-lo. Ele acabou por cair de um penhasco com a
criatura, e então ele mesmo morreu, e os elfos fizeram canções sobre
sua vitória e morte por durante muito tempo depois.

Há algo de
comovente no sacrifício de Glorfindel, e eu não posso deixar de
imaginar se Tolkien não estava projetando algo sobre seus amigos Rob
Gilson e Geoffrey Bache Smith, ambos mortos na Primeira Guerra Mundial.
Gilson morreu na batalha em La Boiselle, liderando um contingente de
soldados britânicos em batalha no dia primeiro de Julho, de acordo com
o biógrafo de Tolkien, Humphrey Carpenter. Smith escreveu uma carta a
Tolkien, ele que sobrevivera ileso a 48 horas na frente de combate em
Ovillers. Quando a companhia de Tolkien recebeu ajuda e ele retornou ao
quartel, encontrou a carta de Smith.

Ninguém pode dizer o
suficiente em algumas breves frases o que os amigos da juventude de
Tolkien significavam para ele: Tolkien, Smith, Gilson e Christopher
Wiseman formavam o coração de um pequeno clube que eles chamavam Tea
Club, Barrovian Society (T.C.B.S.) [1] quando freqüentavam a escola.
Esses quatro eram particularmente próximos, e todos eles serviram na
guerra em alguma posição. Tolkien e Wiseman sobreviveram a essa
experiência. Quando respondeu a carta de Smith sobre a morte de Gilson,
Tolkien escreveu: "Eu não me sinto um membro de um corpo completo agora. Eu, honestamente, sinto que a T.C.B.S. terminou." Smith não permitiria que aquilo acontecesse, entretanto. "A T.C.B.S. não acabou e nunca acabará.",
ele disse. Ao final daquele ano, o próprio Smith estaria morto. Em 16
de dezembro, 1916, Christopher Wiseman escreveu ao seu amigo Ronald
Tolkien: "Eu acabei de receber notícias de casa sobre G.B.S., que
sucumbiu a ferimentos de obus que sofreu, em 3 de dezembro. Não posso
dizer muito a esse respeito agora. Humildemente rogo a Deus
todo-poderoso que posso me considerar digno dele."

O
espírito de Smith deve ter sido infeccioso a Tolkien, como foi o de
Gilson. O pai de Gilson era o diretor da King Edwards Chiou em
Birmingham, e foi o veterano Gilson que encorajara Tolkien a prosseguir
no estudo de Letras Clássicas. Foi por meio da T.C.B.S. que Tolkien
tornou-se fascinado por "Beowulf", "The Pearl" ["A Pérola"], "Sir
Gawain" e "Volsungsaga". Carpenter [2] diz que Smith, membro tardio da
T.C.B.S., era tão erudito e de tamanha influência sobre os outros que
eles começaram "a despertar para a significação da poesia – como Tolkien já despertara."

Uma das últimas cartas que Smith escreveu a Tolkien dizia o seguinte:


"Meu principal consolo é que, se eu morrer hoje – vou sair em missão
daqui a alguns minutos -, ainda restará um membro da grande T.C.B.S.
para expressar o que sonhei e no que todos concordamos. Pois a morte de
um dos seus membros não pode, tenho certeza, dissolver a T.C.B.S. A
morte pode tornar-nos repugnantes e indefesos como indivíduos, mas não
pode acabar com os quatro imortais! Uma descoberta que vou comunicar a
Rob antes de sair hoje à noite. E você, escreva-a também a Christopher.
Deus o abençoe, meu caro John Ronald, e que possa você dizer as coisas
que tentei dizer, muito tempo depois de eu não estar aqui para
dizê-las, se tal for o meu destino."

No ano seguinte,
Tolkien contrairia febre de trincheiras e assim terminaria sua
participação na guerra. Mas ele imortalizaria seu senso trágico de
perda e desespero na primeira de uma série de histórias que
eventualmente viriam a ser O Livro dos Contos Perdidos: "A Queda de
Gondolin". Carpenter diz que Tolkien não criou sua história a partir de
nenhum acontecimento ou conto anterior, mas isso não é totalmente
verdade. Gondolin deve muito à história de Tróia. A idéia de uma cidade
perdida, destruída por uma força opressiva, a despeito dos esforços
heróicos dos seus defensores – fadada à traição e perfídia -, é um tema
poderoso que é raramente relido em literatura antiga. Homero de Tróia é
simbólico em relação aos desesperos e loucuras da guerra, da irritação
de Aquiles por causa da escrava à ridícula insistência de Menelau em
conseguir Helena de volta a qualquer custo.

A história de
Gondolin não é a história humana de Tróia recontada. Gondolin é uma
cidade élfica, e embora a concepção dos valores e filosofia élfica
ainda tivessem que surgir, aqueles que lamentaram pela queda de
Gondolin eram Elfos, não Homens. Gondolin é para os elfos como Tróia
era para os Homens: a inspiração para grandes canções e literatura. E é
da mesma forma para Tolkien. Muito da sua melhor prosa nos anos entre
1917-25 está em "A Queda de Gondolin", o primeiro conto élfico completo
que ele escreveu. E quando ele incorporou a história em seu livro de
Contos Perdidos, um de seus elfos narradores diz que "A Queda de
Gondolin" "é a maior das histórias dos Gnomos [os Gnomos se
tornaram os Noldor na mitologia tardia], e mesmo nessa casa é Ilfiniol,
filho de Bronweg, que conhece esses feitos com maior verdade que
qualquer outro que está hoje sobre a Terra."

[1] O nome do
grupo era uma referência às suas reuniões de leitura regadas a chá
durante as horas vagas, inicialmente na biblioteca da King Edwards
School ("Escola Rei Eduardo"), e posteriormente em uma loja chamada
Barrow (daí o nome Barrovian).

[2] Humphrey Carpenter, autor
da biografia oficial de Tolkien e editor do The Letters of J.R.R.
Tolkien ["As Cartas de J.R.R. Tolkien"]

Àquela época, não
havia na vida de Tolkien nenhuma história mais importante para a sua
nascente mitologia. "A Queda de Gondolin" representou o claro
cumprimento das longas promessas de sua juventude e das lendas
Gnômicas. O reluzente Earendel iria sobreviver à queda de Gondolin para
se tornar o salvador de elfos e Homens, semelhante a como Aeneas
sobreviveu à queda de Tróia para se tornar o antepassado de Roma.
Tolkien sobreviveu à queda da T.C.B.S., e ele começou a dedicar-se à
tarefa de garantir que seus sonhos permaneceriam vivos, exatamente como
G.B. Smith havia lhe dito anteriormente.

Mas a história de
tamanha tragédia não pode ser contada sem algum grande sacrifício.
Tolkien tinha muitos exemplos de sacrifício para escolher. Ele
precisava refinar o tema e criar um personagem que fosse intocado pela
corrupção, incólume pela perda de seu lar e casa. Um personagem que, à
despeito da intrusão da morte em sua vida, determinaria a continuidade
de Gondolin. A morte não poderia destruir Gondolin, nem mesmo o exílio.
Esta foi a contribuição de Glorfindel. Gondolin havia sido fundada
pelos Noldoli (Gnomos) que sobreviveram à Batalha das Lágrimas
Incontáveis. Quando a própria Gondolin foi destruída, um remanescente
de seu povo escapou, e eles perseveraram. Era muito parecido com a
T.C.B.S.. Geoffrey Smith havia decidido que a morte e a perda não
dissolveriam o grupo. Os sobreviventes continuariam, e ao menos um
deles iria contar grandes histórias, revitalizar a literatura inglesa
de uma forma que poucos homens poderiam esperar.

Então,
Glorfindel se torna uma figura trágica que, sozinho entre uma hoste de
personagens trágicos, é memorável. Há algo profundo e tocante no
sacrifício de Glorfindel. Ecos da batalha heróica com o Balrog iria
perpassar a trabalhos mais tardios como o "Quenta Noldorinwa" e o
"Later Annals of Beleriand" ["Anais tardios de Beleriand"]. Mas a
história de Gondolin propriamente iria desfalecer e ser deixada à
margem. Tolkien nunca voltou à batalha pela cidade, mas voltou a
Glorfindel.

Enquanto escrevia "O Conselho de Elrond", Tolkien,
em certo ponto, considerou ter Glorfindel contando (de) seu passado
antigo em Gondolin. Algo de Gondolin estava, desta maneira, sendo
levado adiante para o novo Hobbit. Mas Tolkien desistiu da idéia. O
Glorfindel de Valfenda tornou-se simplesmente Glorfindel, e não havia
referência a um Glorfindel anterior ou a uma história anterior. A
transformação de Glorfindel não deve representar nada mais do que a
necessidade de um autor de contar uma história concisa. Ele iria, no
fim das contas, remover material concernente ao romance de Aragorn e
Arwen para um apêndice.

Então o conto de Glorfindel iria
continuar e, de fato, Tolkien vezes mais tarde quando ele escreveu o
material para os apêndices. Lá agora aparecia o relato da chegada de
Glorfindel com um exército élfico ao campo de batalha, completando a
vitória de Gondor sobre o Rei-Bruxo de Angmar e, de certa forma,
replicando a vitória esmagadora de Melkor e escravidão de Gondolin.
Onde as trevas reinavam, Glorfindel trouxe luz. Mas a sua luz iria logo
cair e os elfos iriam retornar aos seus retiros para finalmente
navegarem através do Mar em grandes contingentes, deixando a
Terra-Média. Glorfindel permaneceria, mas ele era um elfo excepcional e
a exceção iria perseguir os pensamentos de Tolkien nos anos seguintes.

Quem era Glorfindel, e o que ele estava fazendo na Terra-Média? Ele não
era tão enigmático para os fãs. Em 1958 Rhona Beare perguntou a Tolkien
(em nome dos fãs) por que Asfaloth, o cavalo de Glorfindel, tinha uma
rédea e arreios "quando elfos montam sem arreios, selas ou rédeas?"
Tolkien respondeu rapidamente que ele deveria ter escrito "testeira", e
essa mudança seria conseqüentamente feita ao texto. E isso (a não ser o
pedido do uso do nome de Glorfindel em uma vaca) representa a soma
total do interesse dos fãs no mais enigmático elfo da Terra-Média.

A lenda de Glorfindel havia se acalmado. Tolkien tentou reescrever a
história de Tuor e Gondolin, mas ele apenas conseguiu prosseguir até
ter Tuor olhando através da planície de Tumladen sobre Gondolin pela
primeira vez. Glorfindel apareceu brevemente na história de Aredhel e
Maeglin como um dos senhores que Turgon indicou para escoltá-la, mas
Tolkien decidiu que Glorfindel, Egalmoth e Ecthelion eram escolhas
inapropriadas para senhores élficos que tornar-se-iam tão consternados
por Nan Dungortheb que retornariam em desespero e dessa forma perderiam
seu encargo. Ele decidiu que seria melhor não nomeá-los na história.
Essa decisão, (e) uma nota acerca da morte de elfos e a possível
ressurreição que acompanha o "Athrabeth Finrod ah Andreth", representa
uma elevação na estatura de Glorfindel no caldeirão de pensamentos de
Tolkien.

A questão sobre como o Glorfindel de Elrond deveria
ser diminuído em importância enquanto a fama do Glorfindel de Gondolin
aumentava… na mente de Tolkien. Os leitores não tinham idéia de que
essas questões existiam para o autor. Glorfindel era mais importante
para J.R.R. Tolkien do que ele era para O Senhor dos Anéis. Mas para
encontrar um lugar para Glorfindel na mitologia, Tolkien teve que ser
consistente com o que Gandalf disse sobre o elfo em "Muitos Encontros":

"Que me diz de Valfenda e dos elfos? Valfenda é um lugar seguro?"

"Sim, atualmente, até que todo o resto tenha sido conquistado. Os elfos
podem temer o Senhor do Escuro, e podem fugir de sua presença, mas
nunca mais irão escutá-lo ou servi-lo. E aqui em Valfenda ainda vivem
alguns dos maiores inimigos dele: os Sábios élficos, senhores dos
Eldar, de além dos mares mais distantes. Estes não temem os Espectros
do Anel, pois os que moram no Reino Abençoado vivem ao mesmo tempo nos
dois mundos, e têm grande poder contra os Visíveis e os Invisíveis."

"Pensei ter visto uma figura branca que brilhava e não se apagava como as outras. Então era Glorfindel?"

"Sim. Por um momento você o viu como ele é do outro lado: um dos
poderosos entre os Primogênitos. Ele é um senhor élfico de uma casa de
príncipes. Na verdade, existe um poder em Valfenda capaz de resistir à
força de Mordor, por um tempo: e em outros lugares ainda moram outros
poderes…"

Glorfindel é, então, um elfo que viveu em Aman. Então o
texto publicado faz com que seja virtualmente impossível para ele ser
descendente de um elfo de Gondolin. Ele poderia ter morado em Gondolin,
mas não poderia ter nascido lá ou após isso, entre os Exilados de
Gondolin. Conseqüentemente, a decisão de não fazer de Glorfindel um
descendente de outro Glorfindel foi, de fato, uma decisão tomada bem
cedo, anteriormente à publicação de O Senhor dos Anéis. Mas isso não
significa que Glorfindel era necessariamente o Glorfindel de Gondolin.

Apesar das freqüentes concepções errôneas, Tolkien não pretendia
reutilizar nomes entre os elfos. Embora não haja dois elfos em O Senhor
dos Anéis que tenham o mesmo nome, um (ao menos) carrega o nome de um
elfo mais antigo: Rúmil, um dos guias de Lórien, tem o mesmo nome de um
elfo noldorin que criou as primeiras Tengwar (e este Rúmil mais antigo
é mencionado no Apêndice E). Mas outro nome de Gondolin aparece no
Conselho de Elrond: Galdor, o elfo dos Portos, o emissário de Círdan.
Christopher Tolkien chega (á) à conclusão de que não pode ser o mesmo
Galdor que liderou a vanguarda da coluna de refugiados de Tuor em "A
Queda de Gondolin". O Galdor de Gondolin não apenas sobreviveu, ele
retornou ao final da Primeira Era e nunca mais voltou á Terra-Média.

Dessa forma, há casos peculiares mesmo em O Senhor dos Anéis, quando
Tolkien reutilizou nomes élficos, e ele não foi totalmente claro sobre
onde esse uso era apropriado. Anos mais tarde, enquanto considerava a
história de Círdan, J.R.R.T. notou para si mesmo que o Galdor de
Gondolin poderia ter sobrevivido à queda e permanecido na Terra-Média,
embora nunca tivesse adquirido a sabedoria que Glorfindel obteve no
Oeste. Christopher foi ágil em apontar que seu pai expressou a
especulação de forma a indicar que ele não estava certo, e Christopher
concluiu que seu pai não poderia ter localizado o manuscrito de "A
Queda de Gondolin" para conferir e, portanto, estaria meramente
sugerindo a possibilidade a si mesmo (para futura referência, talvez).

Em The Peoples of Middle-Earth [Os Povos da Terra-Média] Christopher
publicou pela primeira vez dois ensaios acerca de Glorfindel, que seu
pai escrevera por volta de 1972. O primeiro ensaio está incompleto, sua
página inicial está faltando, mas aparentemente J.R.R.T. decidira que
alguns elfos foram enviados de volta à Terra-Média com os Istari "como
guardas ou ajudantes". Um desses seria Glorfindel, junto com Gandalf.
Esse ensaio supõe que Glorfindel, devido ao seu grande sacrifício,
havia sido liberto de Mandos em pouco tempo e restituído à inocência
original dos elfos. Vivendo com os Maiar e entre os elfos que nunca se
rebelaram, ele provavelmente se tornou um amigo de Olórin (Gandalf) e
cresceu em sabedoria e poder.

Mas após ter escrito esses
pensamentos, Tolkien mudou de idéias. Em uma nota, Christopher
refere-se ao seu pai como tendo decidido, logo após ter escrito o
primeiro ensaio sobre Glorfindel, que o elfo teria mais provavelmente
retornado à Terra-Média na Segunda Era. Em seguida, Tolkien escreveu o
segundo ensaio acerca de Glorfindel e ele decidiu finalmente que os
dois Glorfindels eram a mesma pessoa, que após ter sido expurgado de
seus pecados em Mandos, foi liberto e permitido que vivesse em Aman.
Mas então ele retornou à Terra-Média para ajudar Gil-galad a se
preparar para as batalhas contra Sauron.

O fato de o
Glorfindel de Valfenda ter vivido no reino Abençoado, de certa forma
pressionou Tolkien a considerar como ele teria estado lá. A chegada de
Glorfindel na Terra-Média não havia sido tão fortemente ordenada, mas
Tolkien não diz realmente por que Glorfindel teve de retornar na
Segunda Era, a não ser ao dizer no segundo ensaio que tal viagem dos
elfos teria sido impedida após a Queda de Númenor. Portanto, os Istari
não poderiam ter sido acompanhados pelos guardas e assistentes do
primeiro ensaio.

A restrição a viajar de Aman para a
Terra-Média é atestada em suas cartas, então Tolkien não estava apenas
adicionando um novo elemento à história para racionalizar sua escolha.
Ao contrário, ele estava assegurando que a escolha era consistente com
o que ele havia dito a outras pessoas.

A última decisão, na
qual Glorfindel aparentaria grande poder, é compartilhada com a
sugestão de que como um elfo reconstituído, ele estaria mais próximo em
poder de um Maia do que qualquer outro elfo vivente normal. O enigma
sobre o poder de Glorfindel na Terra-Média está, dessa forma,
explicado. Não seria qualquer elfo que poderia fazer os Nazgûl fugirem.
Um Nazgûl, sozinho no Condado, havia afastado anteriormente a companhia
de Gildor Inglorion (ele mesmo um Exilado). Mas os Nove reunidos
estavam determinados a enfrentar Elrond e Glorfindel juntos, caso fosse
necessário, quando, afinal, parecia certo que Frodo escaparia deles.
Então, Glorfindel ter sido enviado sozinho para encontrar Frodo foi uma
decisão que refletiu a grande confiança em suas habilidades.

Se aceitarmos que Glorfindel retornou à Terra-Média na Segunda-Era,
provavelmente ao tempo da Guerra entre Elfos e Sauron (o que Tolkien
sugere como o acontecimento mais provável para justificar o seu
retorno), então Glorfindel deve ter sido muito atuante na defesa de
Lindon e Eriador contra Mordor. Após a guerra, ele deve ter acompanhado
Galadriel e Celeborn em algumas de suas viagens, ou talvez tenha sido o
emissário de Gil-galad a outros reinos élficos (estes permaneceriam
ainda: o reino de Oropher na Floresta Verde, Amdír em Lothlórien e o
porto de Edhellond são tudo o que conhecemos com certeza).

E
então Glorfindel teria marchado com o exército de Lindon e Imladris na
Guerra da Última Aliança. Elrond era o arauto de Gil-galad, um papel
que teria-lhe deixado com pouco tempo para comandar exércitos, uma vez
que ele teria sido vital para as relações de Gil-galad com os outros
líderes da aliança, e também teria enviado declarações às forças de
Sauron. Gil-galad teria tido Celeborn, Círdan e Glorfindel para
convocar como seus capitães em suas várias forças. E é claro, outros
senhores élficos teriam servido como segundos-comandantes, capitães
menores, conselheiros, etc. Lá haveria uma horda de senhores élficos. A
posição de Glorfindel durante a Guerra da Última Aliança é, sem sombra
de dúvida, certa.

Foi ainda Glorfindel que liderou os
exércitos de Valfenda e Lothlórien para o último combate com o
Rei-Bruxo de Angmar. O seu status deveria ser aumentado muito na
Terceira Era? Por que Amroth não liderou seu próprio exército? Ele
estava mesmo presente na batalha, ou ele estava em casa em Lothlórien
para guardar o reino? Considerar que Glorfindel liderou os exércitos
combinados implica que ele era uma pessoa de grande estatura entre os
elfos, um grande e nobre senhor, sem dúvida.

Tolkien conta ao
leitor apenas o suficiente sobre Glorfindel em O Senhor dos Anéis para
demonstrar que ele era um senhor élfico muito importante, mas não diz
mais. É apenas quando vamos ao O Silmarillion e lemos sobre seu grande
sacrifício que aprendemos sobre a história trágica de Glorfindel. E
mesmo a história de Gondolin deixa algo a desejar. O conto em O
Silmarillion é um pasticho adaptado por Christopher Tolkien de "A Queda
de Gondolin" e "De Tuor e sua Chegada a Gondolin". Ele não conta
realmente os grandes eventos que "A Queda de Gondolin" pretendeu nos
transmitir. Além do comando de um dos flancos de Turgon na Nirnaeth
Arnoediad, Glorfindel não é mencionado em nenhum outro lugar d O
Silmarillion.

Ele deveria ser um dos Exilados, impelido pela
demanda de Fëanor na qual os Noldor seguiram-no de volta até a
Terra-Média. Ele provavelmente não tomou parte no Fratricídio de
Alqualondë, uma vez que da hoste de Fingolfin apenas o povo de Fingon
ajudou os feanorianos diretamente. Turgon, pode-se presumir, veio após
o grupo noldo (se) de seu pai. Então Glorfindel sobreviveu à travessia
de Helcaraxë e esteve com Fingolfin quando a maior parte dos Noldor
marchou para Angband inutilmente. E ele deve ter estado presente quando
os grandes príncipes noldor reuniram-se em assembléia após o resgate de
Maedhros por Fingon.

Glorfindel está sempre lá, no
pano-de-fundo, uma face no meio de legiões de personagens anônimos que
compõem a antiga hoste dos Noldor. O curioso é que O Silmarillion
lançou mais questões sobre o passado de Glorfindel do que sobre sua
história pessoal. Ele era um dos Vanyar? Ele era apenas parte vanyarin?
Por que ele tinha cabelos dourados, se (como Tolkien diz em O Senhor
dos Anéis) apenas os descendentes de Finarfin e Eärwen tem cabelos
dourados entre os noldor?

Cabelos dourados são, supostamente,
uma coisa rara entre os elfos, e mesmo o rei-élfico do norte da
Floresta das Trevas tem cabelos dourados em O Hobbit, um guerreiro elfo
anônimo de Lothlórien tem cabelos dourados em O Senhor dos Anéis, e
tanto Glorfindel quanto Idril Celebrindal têm cabelos dourados. Idril,
ao menos, é uma descendente de Indis, segunda esposa de Finwë, que veio
dos Vanyar, e a própria mãe de Idril, Elenwë, era dos Vanyar. As idéias
de Tolkien sobre atributos físicos dos elfos não deveriam estar
completamente desenvolvidas quando ele escreveu a frase que apenas os
descendentes de Finarfin tinham cabelos dourados entre os noldor.

Mas isso não explica a ascendência de Glorfindel. Quem eram seus pais?
Ele era parte Vanya, como Idril? Parece claro que ele deveria ter tido
algum sangue vanyarin. Muitos sentem que os Vanyar estiveram acima da
rebelião, mas a decisão de Elenwë de se unir a Turgon no exílio é uma
indicação de que eles não estiveram. Se uma esposa foi levada a seguir
seu marido, então por que não outras? E pode ser que Elenwë tenha
seguido seu marido apenas porque ela e Turgon não haviam estado casados
por muito tempo. Idril era apenas uma criança quando Elenwë foi perdida
no gelo. Então, Idril nasceu durante a residência provisória em Araman,
após o Fratricídio.

Se alguns dos noldor "antigos" partiram
para o exílio, não parecem ter sido muitos. Nerdanel, esposa de Fëanor,
não foi com ele. Assim como não foi seu pai, Mahtan, ou qualquer membro
da sua família (exceto os filhos de Fëanor e Nerdanel). Então,
Glorfindel provavelmente não deveria ser um dos "antigos" entre os
noldor ao tempo da rebelião. Ele deve ter sido o filho de um senhor
noldorin e de uma donzela vanyarin que auxiliou Turgon e, como um dos
amigos de Turgon, deve tê-lo seguido por lealdade e senso juvenil de
aventura.

Uma outra possibilidade é a de que Glorfindel fosse
o filho de um senhor vanyarin e uma esposa noldorin. Menos provável
seria alguma ascendência vanyarin remota. Poucos dos vanyar parecem ter
vivido em Tirion sobre Túna ao tempo da rebelião de Fëanor. A maioria
deles havia se mudado para o sopé de Taniquetil ou para terras
silvestres de Valinor, ou a área de Valmar. Se ele veio dos Vanyar, a
família de Glorfindel deveria, por essa razão, ter tido laços estreitos
com os Noldor.

Na última análise, Glorfindel permanece tão
misterioso quanto sempre. Não sabemos praticamente nada acerca do seu
lugar na sociedade eldarin, quem seus parentes eram, (aparentemente
todos, ou a maioria, morreram na Terra-Média, como Tolkien mencionou,
ele foi o primeiro de sua família a ser libertado de Mandos em um dos
dois ensaios sobre Glofindel), ou mesmo como era sua relação específica
com Turgon (a não ser um seguidor na hierarquia da nobreza de Gondolin).

E a história de Glorfindel está longe de estar completa. Nós podemos
apenas traçar seus movimentos de maneira geral. Talvez ele tenha gasto
um tempo razoável com Gandalf, vagando pelas terras do norte. Seria
difícil imaginar um livro que tratasse apenas de Glorfindel, apesar de
ele e Gandalf terem se envolvido em um número razoável de aventuras.
Talvez lá pelo ano de 2061 seja lançada uma série de televisão tratando
dos dois, e os fãs de Tolkien poderão finalmente explorar um pouco do
fascínio que esse personagem exerce sobre eles.

[notas do tradutor]

Os Elfos sonham com sono ecléctico?

J.R.R. Tolkien dedicou muito tempo e reflexão à
clara identificação do que significa ser um Elfo. Ele descreveu os
Elfos na sua carta número 144 como representando “Homens com
faculdades criativas e estéticas muito aumentadas, maior beleza e vida
mais longa, e nobreza – os Filhos mais Velhos, condenados a definhar
perante os Filhos mais Novos (Homens) e finalmente a sobreviverem
apenas através do pequeno fio do seu sangue que foi misturado com o
sangue dos Homens, para quem essa herança era a única genuína
reinvidicação a ‘nobreza’"?.
 
 
 
Mas o que é que tudo isso quer dizer? Na sua carta número 73, Tolkien menciona num àparte que os Elfos “representam a beleza e graciosidade da vida e dos artefactos�?. Na sua carta número 153, Tolkien diz que “Elfos
e Homens são representados como biologicamente semelhantes nesta
‘história’ porque os Elfos correspondem a certos aspectos dos Homens,
dos seus talentos e desejos�? e “eles têm certas liberdades e poderes
que nós gostaríamos de possuir, e a beleza e o perigo e a mágoa da
posse desses sentimentos vêm-se neles…�?

Dor e tristeza
são habitualmente associados à natureza Élvica. Os Elfos expressam
esses sentimentos tão facilmente como nós expressamos esperança ou
desejo. Quando Frodo se encontra com Gildor Inglorion no Condado,
Gildor diz-lhe que “Os Elfos têm os seus próprios trabalhos e as
suas próprias mágoas e estão pouco interessados nos costumes dos
Hobbits ou de quaisquer outras criaturas terrenas.�?
Esta é uma afirmação muito curiosa pois difere radicalmente do quadro que outros, como Gandalf ou Treebeard, pintam dos Elfos.

Gandalf diz a Frodo que alguns dos maiores inimigos de Sauron continuam
a viver em Valfenda, os sábios-Elfos, senhores dos Eldar de além-mar.
Enquanto que outros Elfos fugiram da Terra-média e alguns apenas aqui
continuam temporariamente tal como a companhia de Gildor, alguns dos
Eldar estão aqui de pedra e cal na sua determinação de se oporem a
Sauron.

E Treebeard diz a Merry e Pippin que foram os Elfos
que primeiro despertaram as árvores e lhes ensinaram a falar.
Anteriormente, os Elfos eram muito curiosos e queriam saber o mais
possível sobre o mundo em que tinham despertado.

Numa
entrevista feita para ser incluída num documentário dedicado à vida do
seu pai, Christopher Tolkien refere que os Elfos quase que se consomem
em dor. Na altura da Guerra do Anel, os Elfos já não se voltam para o
futuro. Pelo contrário, voltam-se para o passado. E, ao voltarem-se
para o passado, eles provocam o seu próprio eclipse ou crepúsculo, ou
recebem-no de braços abertos. Pois de facto o seu destino é definharem,
desaparecerem do mundo e da luz, deixando tudo o que atingiram nas mãos
implacáveis dos Homens.

Mas como é que os Elfos se enredaram
tão profundamente na dor? Qual é a diferença entre a natureza Élvica e
a natureza Humana que leva as raças Élvicas a viver na dor?

Em
numerosas ocasiões, Tolkien escreveu ou tornou claro que os Elfos eram
imortais durante o tempo em que a Arda existisse, mas que não eram
eternos. Era uma das suas características existirem como seres vivos
enquanto o próprio Tempo durasse, Tempo esse medido pela “vida da
Arda�?. E, no entanto, a Arda não tinha existido desde o princípio do
Tempo e o seu destino não era necessariamente existir até ao fim do
Tempo. A Arda pode acabar e Eä, o resto do universo, pode continuar.
Mas, por outro lado, Eä é identificado através do Tempo e do Espaço.
Então, se os Elfos sobrevivem até a Arda acabar, será que a Arda acaba
simultaneamente com o Tempo e, vice-versa, o Tempo com a Arda, ou será
que o Tempo continua até ter um outro fim?

Os Elfos não sabiam
a resposta a esta pergunta. Nem se conseguiam aperceber de, ou prever,
qual era o seu destino final para lá da conclusão inevitável da sua
existência. Num comentário incluído em "Athrabeth Finrod ah Andreth"
(Debate entre Finrod e Andreth), Tolkien especifica que “a
‘imortalidade’ Élvica�? está limitada a uma parte do Tempo (a que
[Finrod] chamaria a História de Arda), e por isso estritamente deveria
ser antes chamada de ‘longevidade em série’, o limite máximo da qual é
a duração da existência da Arda…"
O seu corolário é que o fëa
(‘espírito’) Élvico está também limitado ao Tempo da Arda, ou pelo
menos está aí preso e não o pode deixar enquanto ele existir.

Ao tentar elucidar melhor este aspecto, Tolkien disse que “o
pensamento Élvico não podia penetrar para lá do ‘Fim da Arda’, e não
havia quaisquer instruções específicas… Parecia-lhes óbvio que os
seus [corpos] tinham de acabar, e portanto qualquer tipo de
reincarnação seria impossível…
" Todos os Elfos iriam pois
‘morrer’ no Fim da Arda. Eles não sabiam o que isso significava. Diziam
então que os Homens tinham uma sombra atrás deles, mas os Elfos tinham
uma sombra à sua frente. Agora, a sombra atrás dos Homens era a sombra
da sua Queda, enquanto que a sombra à frente dos Elfos era a sombra do
seu Fim. Na percepção dos Elfos, aos Homens tinha sido permitido
libertarem-se da vida, da ligação ao mundo que para eles Elfos se tinha
tornado um fardo pesado. Era-lhes difícil perceber que os Homens
quizessem tanto ficar no mundo, pois o que eles queriam era ter a
certeza de que continuavam para lá do mundo. Era como a tripulação dum
navio prestes a afundar-se a observar admirada os passageiros a
saltarem de volta dos salva-vidas para o barco condenado.

O
desejo Élvico de libertação não fazia necessariamente parte do seu
estado natural. Quando os Valar descobriram que os Elfos viviam em
Cuivienen, já eles tinham sido importunados por Melkor e seus lacaios.
Alguns dos Elfos tinham desaparecido e como o próprio Mandos
aparentemente não sabia nada do seu destino, eles devem ter sido
encarcerados por Melkor em Utumno ou noutra temível prisão. Os Elfos
perderam assim a sua inocência original ainda antes de se terem
encontrado com os Valar.

A perda da inocência foi o primeiro
passo na longa via dolorosa, uma estrada cheia de sofrimento e perda.
Mas dor e sofrimento não eram sinónimos para os Elfos. Aparentemente, o
sofrimento passava, enquanto a dor não. O sofrimento podia avolumar-se
e tornar-se dor, mas para a maior parte da raça Élvica parece ter-se
simplesmente transformado em dor. Ultrapassar o sofrimento era uma
coisa que eles faziam muitas e muitas vezes.

Por exemplo, Tolkien explica na Carta 212 (de facto um rascunho para a continuação da Carta 211 que nunca foi enviado) que “nas
lendas Élvicas há registo dum caso estranho de um Elfo (Míriel, a mãe
de Fëanor) que tentou morrer, o que teve consequências desastrosas e
levou à ‘Queda’ dos Elfos Superiores (Elfos da Luz)… Míriel queria
deixar de existir…�?

A morte de Míriel era tão pouco
habitual que os Eldar tiveram de inventar uma palavra nova para a
descrever. Eles já tinham antes sentido morte física, quando membros da
sua raça sucumbiram a sofrimento ou violência e os seus corpos
morreram. Mas os Eldar aprenderam em Aman que os seus espíritos eram
supostos passar para os Salões de Mandos e, depois de um período de
reflexão durante o qual seriam curados dos seus sofrimentos, eles
podiam e deviam ser readmitidos no número dos vivos.

Míriel
não queria viver de novo. Ela queria morrer, morrer de verdade, e não
ter mais nada a ver com o mundo. A escolha, ou teimosia, de Míriel
levou a um debate importante entre os Valar e à aprovação duma lei que
alterou a evolução natural do destino dos Elfos. Ilúvatar deu aos Valar
o poder de administrar a morte permanente a um Elfo durante a vida da
Arda. Isto é, eles podiam recusar-se a deixar um Elfo viver de novo.


Míriel recusou-se a aceitar a vida apesar de ter sido praticamente
obrigada a viver de novo. Então, relutantemente, os Valar confinaram-na
aos Salões de Mandos até ao fim do Tempo da Arda. O seu marido Finwe
tornou-se assim livre para procurar uma nova esposa. Mas, depois de ter
sido assassinado por Melkor, o espírito de Finwe ficou em comunhão com
o de Míriel em Mandos, um acontecimento aparentemente raro. Quando
Míriel soube de tudo o que tinha acontecido ao seu povo, ela
arrependeu-se da sua decisão de ficar morta e apelou aos Valar. Finwe
aceitou então ficar morto porque não podia voltar à vida e ter duas
esposas, uma situação que os Elfos achavam anormal.

A decisão
de Míriel foi tomada pelo menos em parte como resultado da dor. E
apesar de lhe ser permitido viver de novo, ela escolheu não viver com o
seu povo, os Elfos, mas em vez disso foi aceite no serviço dum dos
Valar. A partir dessa altura, Míriel documentou os feitos do seu povo.
Em vez de fazer novas coisas ou procurar novos conhecimentos, ela
concentrou-se a registar os acontecimentos da história do seu povo.
Assim, Míriel foi o primeiro Elfo, pelo menos entre os Eldar, a
sucumbir à dor , escolhendo viver de novo por causa da dor e talvez
devotando a sua vida a lembrar essa dor.

Alguns dos revoltosos
Noldor deixaram-se derrotar pela dor antes de avançarem demais na
estrada do Exílio. Estes Noldor comandados por Finarfin voltaram à sua
cidade de Tirion e foram perdoados pelos Valar pela sua parte na
revolta. Mas a maioria dos Noldor continuaram resolutamento no seu
caminho, talvez principalmente por causa da determinação de Fëanor.

Na Terra-média a maior parte dos Noldor tentou voltar-se para o futuro
apesar da inutilidade da guerra contra Melkor. Mas Turgon, que foi
inspirado a construir a maior cidade de sempre, parece ter-se atolado
na dor. Gondolin foi modelada em Tirion e o povo de Turgon raramente
partiu para a guerra. Ulmo avisou-o de que a altura chegaria em que
Turgon teria que desistir de tudo para salvar o seu povo, mas quando
esse momento chegou, Turgon não quiz fazer esse sacrifício. Em vez de
guiar o seu povo a abandonar Gondolin em segurança, Turgon confiou nas
defesas naturais da cidade. Ele queria preservar o seu modo de vida
mesmo arriscando-se a assim perder a vida.

Depois da queda de
Gondolin, os Noldor desperdiçaram os seus recursos nos conflitos azedos
sobre a posse do Silmaril que Beren e Luthien tinham recuperado a
Melkor. Os filhos de Fëanor, incapazes de recuperar as outras jóias,
destruíram primeiro Doriath e depois Arvernien em tentativas
infrutíferas de capturar aquela jóia. Eles já não pensavam em vingar as
mortes do seu pai e do seu avô nem em recuperar os Silmarils. Em vez
disso, só queriam saber daquilo que achavam que era seu por direito,
não percebendo que tinham perdido esse direito devido aos seus delitos.
Os seus espíritos estavam presos num passado que não podia ser
recuperado.

Depois da Primeira idade, os Noldor começaram de
raíz. Gil-galad criou um reino no que tinha sido Ossiriand e alguns dos
Noldor emigraram para leste e criaram Eregion. Mas com o passar dos
séculos os Elfos sucumbiram à preocupação sobre o seu definhar. E
quando Sauron disfarçado lhes ofereceu uma oportunidade para parar ou
atrasar os efeitos do Tempo, os Noldor de Eregion decidiram actuar
contra esse definhar.

Tolkien disse sobre esta segunda “Queda�? que os “Elfos queriam ao mesmo tempo ter o bolo na mão e comê-lo�?.
Eles queriam permanecer na Terra-média durante o resto do Tempo em vez
de atravessar o mar para evitar um destino pior do que a morte. Em vez
de manufacturar nova beleza, os Elfos voltaram a sua atenção para a
preservação da antiga beleza da Terra-média e para a cicatrização das
suas feridas. Por isso eles criaram os Aneis do Poder. Mas mesmo depois
dos Elfos terem descoberto a perfídia de Sauron, eles não tiveram a
força para eles próprios destruírem os Aneis, que Sauron claramente
queria usar contra eles.

A dor a que Gildor aludia começou sem
dúvida com o conflicto entre os Elfos e Sauron na Segunda Idade. Pois
eles não só perderam muitos Aneis de Poder, como também perderam a
maior parte das terras que tentavam conservar. Casas Élvicas com todas
as suas recordações e artefactos especiais devem ter-se esvaído em fumo
em grandes áreas de centenas de kilómetros (milhas). Os Elfos não
teriam preservado nada do seu mundo antigo, no qual, como Tolkien
afirma, eram uma casta superior.

A tristeza devia ter
consumido os Elfos não só pelo que eles perderam, mas também pelo que
eles tinham feito. Traição e perda vão de mãos dadas ao longo da
história Élvica, e a sua traição da ordem natural na Segunda idade fez
com que perdessem quase tudo. Os Elfos que sobreviveram a guerra,
especialmente aqueles que nada sabiam sobre os Aneis do Poder, devem
ter seguramente questionado o que tinha originado o conflito.

Nos finais da Terceira idade Frodo arreliou Gildor repetindo um dizer
sobre os Elfos que era popular entre os Hobbits: não peças conselhos
aos Elfos, pois eles dirão tanto que sim como que não. E Gildor riu-se,
dizendo que “os Elfos raramente dão conselhos irreflectidos pois,
mesmo entre os sábios, aconselhar é um presente perigoso e todos os
caminhos podem sair mal.�?
Todas as escolhas históricas feitas pelos
Elfos, talvez tomadas depois de longas deliberações entre os seus
líderes mais sábios, parecem tê-los levado por caminhos cheios de dor e
sofrimento. Assim, pelo menos na Terceira idade, os Elfos parecem
ter-se tornado relutantes a aconselhar outros.

Na Terceira
idade os Eldar concentraram-se a manter os seus domínios, sem pensar em
expandir o seu poder e influência. Enquanto que os Homens se tornavam
mais numerosos, os Elfos refugiaram-se em enclaves. Na sua seclusão, os
Elfos só podiam aperfeiçoar os seus dotes para a poesia e a música,
celebrando acontecimentos do passado e as glórias da sua juventude, e
antecipando o seu regresso a Valinor. Os Elfos não estavam tanto a
olhar para o futuro, mas antes para o passado. O seu futuro tornou-se
um movimento reaccionário para o além-mar.

Enquanto que na
Segunda idade os Eldar tinham esperado exercer a sua arte sobre toda a
Terra-média, ou pelo menos grande parte dela, na Terceira idade eles
escolheram restringir a sua arte a pequenas áreas protegidas pelos três
Aneis do Poder que ainda controlavam. Os Elfos da Terceira idade
relembravam todos os grandes contos que os Elfos das Primeira e Segunda
idades tinham criado.

A transição entre criar o passado e
relembrar o passado foi sem dúvida lenta. Os Elfos não decidiram
simplesmente dum dia para o outro não procurar realizar mais nada. Pelo
contrário, devem-se ter acomodado aos poucos a gozar a vida e a
celebrar os seus êxitos. Mas à medida que o mundo se tornava escuro e
solitário, os Elfos escolheram não se expandir, não comunicar com os
outros. Durante um curto período, os Elfos Cinzentos de Lothlórien
tornaram-se os maiores campeões da liberdade no Ocidente, mas com a
partida e subsequente morte do Rei Amroth, recolheram-se `a sua
floresta e pouco mais se ouviu falar deles.


Todas as escolhas feitas pelos Elfos estavam cheias de gravíssimos
perigos. Tudo o que faziam, tudo em que tocavam, acabava por ser
consumido pelas consequências das suas acções. Eles tentaram evitar
sofrer o destino que lhes estava marcado. Em vez de destruir os Aneis
do Poder, na Terceira idade os Eldar usaram-nos. E quando o O Anel foi
finalmente destruído, tudo o que os Eldar tinham conseguido em termos
de preservação e cura foi desfeito. Eles não mais conseguiam pensar em
termos de contruir um futuro. Só queriam preservar um passado que para
eles era ideal.

A sombra que os Eldar viam no seu horizonte
deve, nos finais da Terceira idade, ter parecido pairar enorme e
disforme sobre todos eles. A ascenção e retorno de Sauron a Mordor eram
inevitavelmente o resultado do falhanço dos Elfos em resolverem os seus
conflictos do passado. A mudança de poder e estrutura da Terra-média
era mais uma lança apontada contra eles. ‘A corda estava a chegar ao
fim.’ Apesar dos seus melhores esforços para travar a mudança, eles não
a tinham podido conter. Ela continuava sem eles. A partir do momento em
que os Aneis saíram do caminho, o Tempo puxou simplesmente os Elfos de
novo para a via da evolução natural dos acontecimentos.

E
assim que os Aneis do Poder desapareceram, os Elfos não tinham outra
alternativa senão enfrentar o seu futuro, futuro esse que a eles
parecia um não futuro. Para um Homem mortal, a incerteza da
imortalidade seria uma oportunidade para criar novos contos. Mas para
um Elfo imortal, a certeza do fim dessa imortalidade significava que
havia cada vez menos tempo para celebrar os grandes contos do passado.
Esvaziá-los de conteúdo para criar novos contos só lhes ia retirar a
sua audiência de direito. Ou, pior, viver um novo conto poderia trazer
mais dor e sofrimento e assim aumentar o fardo da dor que se tornava
mais pesado de ano para ano.

Tudo estava dependente de
escolhas: as escolhas que tinham feito, as escolhas que tinham de
fazer. Os Elfos estavam mesmo sobrecarregados pela necessidade de fazer
escolhas, pois queriam escolher ambas as opções. Para um Elfo, o Tempo
na Terceira idade era só uma maneira de adiar a escolha última. Tolkien
sugere que muitos escolheram permanecer na Terra-média e definhar,
vivendo perto dos lugares que tinham amado em vida, relembrando os
acontecimentos que lhes eram mais queridos.

Talvez no fundo,
os únicos Elfos que de facto se libertaram do passado foram os que
finalmente resolveram deixar a Terra-média para sempre. Era um destino
melhor do que a morte e um destino da sua própria escolha. Para serem
coerentes com a sua própria natureza, os Elfos perceberam que tinham de
escolher entre a certeza do passado com toda a sua grandeza conhecida e
a incerteza do futuro com todo o seu grande desconhecido. A viagem
além-mar era pois o grande passo para ultrapassar a dor e a tristeza.

[Tradução de Isabel Castro]

Todos os Dragões se Foram?

Eu semprei achei que o filme "Dragonslayer" era um pouco tolo e lento em algumas partes mas existe uma cena memorável que realmente vale o filme, eu acho, para aqueles que o assistem. É aquela onde a cabeça do dragão se eleva até o anão, o jovem mago que na realidade não tem idéia do que está enfrentando.
 

Eu acho quem propôs a cena deve ter lido Tolkien. Na história de Turin Turambar em O Silmarillion, após Galurung ter destruído Nargothrond e remeteu Turin para o norte, para Dor-lomin em uma expedição sem esperanças, Morwen e Nienor deixaram a segurança de Doriath. Foram alcançadas por Mablung e uma companhia de Elfos cavaleiros que foram, apesar de tudo, persuadidos a acompanhar as mulheres até Nargothrond.

Lá pelo rio Narog Galurung criou uma névoa e dispersou a companhia de Mablung. Morwen é levada para longe por seu cavalao enlouquecido e os Elfos nunca mais tiveram notícias dela. Mas Nienor recupera seu bom senso e retorna até o Amon Ethir, a Colina dos Espiões, que fica diretamente a leste de Nargothrond [atravessando o rio]. "E olhando para o oeste," é dito na história, "ela olhou diretamente nos olhos de Glaurung, cuja cabeça descansava no topo da colina."

Era realmente um grande dragão.

Eu acho que muitos fãs poderiam dizer que dragões e Tolkien andavam lado a lado. Tolkien definitivamente gostava de contar histórias de dragões. Mesmo que surpreendentemente ele tenha nos contado apenas duas histórias completas sobre dragões. Em 1954 Naomi Mitchson perguntou a Tolkien algumas questões sobre a Terra-média após ter examinado todos os porões de O Senhor dos Anéis. Na Carta 144 ele respondeu a uma pergunta sobre dragões com:

Algumas respostas desgarradas. Dragões. Eles não pararam; uma vez que estiveram ativos em tempos muito mais tardios, próximos do nosso. Teria dito alguma coisa para sugerir o final dos dragões? Se sim, deve ser alterado. A única passagem que posso lembrar é no Vol. I p. 70: "não existe atualmente nenhum dragão na terra cujo fogo seja quente o suficiente". Mas isso implica, eu acho, que continuam a existir dragões, apenas não da estatura primordial…

O primeiro conto sobre dragões, de Tolkien, está perdido desde há muito tempo atrás, e provavelmente não era muito longo, de qualquer forma. Dessa história ele pôde se lembrar apenas um detalhe, anos mais tarde, quando escreveu para W. H. Auden na Carta 163: "Eu tentei escrever uma história pela primeira vez quando tinha cerca de sete anos. Era sobre um dragão. Não me lembro de nada dela exceto um fato filológico. Minha mãe não disse nada sobre o dragão, mas apontou que não se podia dizer "um verde grande dragão" ["a green great dragon"], mas deveria se dizer "uma grande dragão verde" ["a great green dragon"]. Eu fiquei curioso em saber porquê, e ainda estou."

Quando chegou o tempo de contar a história de um Hobbit, Tolkien precisou de um monstro maior do que todos os outros monstros. Ele tinha goblins e lobos e aranhas, mas ele queria alguma coisa mais aterrorizante, mais poderoso. Ele queria um dragão. De todas as criaturas encontradas em O Hobbit, apenas Smaug parece invencível exceto pela pequena área sem proteção em seu peito. Pode-se muito bem imaginar Beorning desafiando o dragões em sua forma de urso apenas para terminar queimado até torrar. Mesmo uma grande guerreiro e herói como Beorn era, ele não era desafio para um dragão.

Bard o Arqueiro, por outro lado, era descendente de antigos reis cujo reino foi destruído por Smaug. O destino estava ao seu lado, e o poder de falar com os pássaros. Mas talvez se Bard não tivesse a flecha negra que chegou a ele de seus ancentrais mesmo sua habilidade e coragem poderiam não ser suficientes para derrotar o grande dragão [que não era verde].

A flecha negra fora feita pelos Anões de Erebor antes de Smaug ter destruído seu reino. Porque seria uma arma poderoso contra dragões? Anões não gostavam de dragões, e os dragões certamente foram uma praga para os Anões. Mas a flecha era realmente um "flecha mata-dragões" ou era apenas uma flecha de qualidade excepcionalmente boa?

O conflito entre os Anões e os Dragões de Tolkien extende-se desde a Primeira Era. Os Anões de Nogrod e Belegost foram aliados dos Noldor contra Morgoth. Telchar de Nogrod fez um elmo moldado à imagem de Glaurung, pai dos dragões. Este elmo foi dado a Azaghal, senhor de Belegost, que o deu a Maedhros, que o deu a Fingon, que o deu a Hador, primeiro Senhor de Dor-lomin.

Enquanto Hador usou o elmo-Dragão ele foi invencível em batalha. Hador poderia não estar usando o elmo de dragão quendo liderou a ação de retaguarda para Fingolfin logo após a Dagor Bragollach. Hador e Gundor, seu filho mais novo, caíram ante os muros de Eithel Sirion, a mais poderosa fortaleza que protegia ums das principais passagens sobre o Ered Wethrin para Hithlum. Galdor, o Alto, filho mais velho de Hador, herdou o elmo de dragão junto com a nobreza de seu pai, mas "Narn i Hin Hurin" diz que "por azar Galdor não o usava quando defendia Eithel Sirion", sete anos após a morte de seu pai, "pois o ataque foi repentino, ele correu de cabeça descoberta para os muros e uma flecha órquica atingiu seu olho."

Hurin podia usar o elmo, mas devido à sua baixa estatura ele ficava desconfortável com ele, ele ele preferia olhar seus inimigos diretamente nos olhos. Então o elmo ficou em Hithlum quando Hurin cavalgou para lutar na Nirnaeth Arnoediad, e Morwen, sua esposa, enviou o elmo com seu filho Turin para Doriath. Quando Turin cresceu até a idade adulta e deixou Doriath, Beleg levou a ele o elmo de dragão e com essa herança de sua casa, Turin começou a granhar fama para si mesmo. Desafortunadamente, devido ao orgulho e desafio de Túrin, Morgoth lançou sua vontade contra as crianças de Húrin, e todos os esforços de Turin tornaram-se tristezas.

E chegou o dia em que Turin convenceu Orodreth a cavalgar para uma batalha aberta contra os exércitos de Morgoth, e Glaurung destruiu Orodreth e seu povo. Quando Turin retornou a Nargothrond ele usava o elmo e Glaurung estava com medo dele. Mas o drgão estimulou Turin a levantar o visor, e fazendo assim, expôs-se ao poder de Glaurung.

O elmo de drgão era, portanto, um artefato muito poderoso, e como ele Turin poderia ter tido uma chance em uma batalha contra Glaurung. Ele deveria tentar isso? Mesmo Glaurung não podendo enfeitiça-lo, o drgão teria sido tão vulnerável a Turin?

A primeira aparição de Glaurung dois séculos antes resultou em uma vitória para Fingon e os arqueiros Élficos de Hithlum. Eles cavalgaram ao redor do jovem dragão e o furaram
com muitas flechas, fazendo-o recuar para Angband. Galurung saiu-se melhor na Dagor Bragollach e indubitavelmente forjou sua vingança contra os Elfos com regozijo. Mas menos de uma geração depois ele liderou um grupo de dragões contra o exército de Maedhros na Nirnaeth Arnoediad e desta vez ele foi enfrentado pelos Anões.

Azaghal de Belegost foi de encontro a Glaurung e o feriu, embora este feito tenha custado a vida de Azaghal. Glaurung e suas crias recuaram do campo de batalha. Quando o dragão reapareceu mais tarde ele parecia evitar tentar esmagar guerreiros com sua barriga, como ele tentou esamagar Azaghal, que caiu por baixo dele.

Na confrontação final de Turin com Glaurung ele causou ao dragão um ferimento mortal de modo quase exatamente igual ao que Azaghal feriu a besta, e a espada que Turin usou fora feita por Eol, que aprendeu muito sobre forja de metais com os Anões de Nogrod e Belegost. Glaurung era esperto e cuidadoso, mas quando ele cruzou a ravina de Teiglin, ele não tinha a menor idéia de que Turin o esperava logo abaixo.

Quando Glaurung sentiu a dor ele pulou através da ravina e arrasou o lado mais distante, expelindo chamas até que se tornou muito fraco para continuar. A visão do dragão moribundo deve ter sido aterrorizante para qualquer um próximo. Turin simplesmente caminhou pela ravina e enfiou sua espada na barriga do dragão. E mesmo assim Galurung continuo vivo, e teve força suficiente para fitar os olhos de Turin novamente, e usar o restante de seu poder para sobrepujar a vontade de Turin e fazê-lo desmaiar.

Matar o velho dragão não foi uma tarefa fácil, e não existia guerreiro maior do que Turin, em seu tempo. Então Turin poderia ter realizado o feito sem o elemento surpresa? Eu acho que não. Simplesmente apunhalar Glaurung na barriga não era o suficiente. Azaghal fez isso, mas sua lâmina era muito curta. O ferimento teria que ser profundo e duvido que a maioria das armas teria penetrado tão profundamente. Os Noldor muito provavelmente não tinham dragões em mente quando faziam suas armas.

Os Elfos não se saíram expecialmente mal anos mais tarde quando os drgões ajudaram a destruir a cidade de Gondolin. O povo de Turgon tinha aprendido muito de Maeglin, o filho de Eol, sobre mineração e forja de metais. mas não quer dizer que eles tenham matado algum dragão. Realmente levou toda uma noite para que os dragões, orcs e Balrogs destruíssem a maioria do povo de Turgon. Estes dragões provavelmente não estavam completamente crescidos. Mas também pode ser que Gondolin simplesmente era mais bem defendida que Nargothornd, cujo exército havia perecido principalmente em campo aberto.

Portanto, desde a Dagor Bragollach o placar marcava dragões 4, elfos 0, anões 1/2. Turin continuava como o único indivíduo a ter matado um dragão até o final da Primeira Era. Então Morgoth liberou os dragões alados contra o Exército de Valinor. Se os dragões terrestres era formidáveis, os alados eram devastadores, e o Exército cedeu até que Earendil e as Águias de Manwë chegaram para a batalha.

Tolkien nãos nos fala quanto tempo a batalha durou, mas provavelmente não foi curta. Muitas Águias devem ter perecido mas também muitos dragões, incluindo o próprio Ancalagon. Ancalagon aparece apenas brevemente em O Silmarillion, mas Gandalf o menciona de forma sábia quando estava falando com Frodo. Deduzo, a partir da afirmação de Gandalf, que o grande dragão deve ter aterrorizado o Exército de Valinor por algum tempo. Ele não foi apenas nomeado, mas continuava sendo lembrado com um certo medo e temor cerca de 7.000 anos mais tarde.

Earendil deve ter tido algumas discussão impressionante para obter a permissão de Manwë para liderar um contra-ataque contra os dragões. Ele fora proibido de retornar à Terra-média, e a vontade dos Valar não era algo fácil de alterar. Então a situação em Beleriand [ou no que restou dela] deve ter sido desesperada. E pode-se perguntar como Earendil podia, de qualquer forma, lutar com dragões a partir de um barco voador? Ele tinha a Silmaril com ele, mas seria tudo? Ou ele tinha, como Bard milhares de anos depois, envergado um arco e uma flecha de grande potência Quem poderia ter feito o arco, o próprio Aulë?

A batalha de Earendil com Ancalagon durou um dia e uma noite. A luta deve ter coberto um vasto território, então apenas os Valar e Maiar poderiam ser capazes de ver o conflito final. Earendil deveria ser sido um ponto brilhante no céu, mas seu oponente deve ter feito chover fogo ao redor dele. O reprojeto Vingilot possuía escudos multi-fase moduláveis ou alguém o estava protegendo Earendil. Apesar de tudo, o marinheiro no céu deve ter sido duramente pressionado na ocasião. Pode não ter sido apenas um caso de caça ao dragão, para ele. Ele deveria conduzir o navio e calcular de onde Ancalagon atacaria da próxima vez.

A batalha de Earendil com Angalagon deve ter sido a mãe de todas as lutas dragão-herói, e a palavras falham ao descrever adequadamente o que pode ser vislumbrado apenas pela imaginação. Mas quando Ancalagon caiu e se tornou claro que tudo estava perdido, o que aconteceu aos dragões restantes? Teriam não mais de dois, um macho e uma fêmea, sobrevivido ao ataque final? E, se asim foi, porque os dragões não ressurgiram na Segunda Era?

Aproveitando o assunto, que diabos é um dragão frio [cold-drake]? A única menção de um dragão frio é um breve fato no Apêndice A de O Senhor dos Anéis onde Tolkien diz que um rei Anão e um de seus filhos foram mortos por um dragão frio em frente a seus salões. As pessoas se perguntaram durante os anos quais seriam as diferenças entre um dragão frio e um dragão normal. Sistemas de jogos nos dizem que os dragões frios deve ser um dragão que lança ar frio, usando gelo como arma de sofro ao invés de fogo.

Não estou tão certo de que Tolkien tenha previsto várias armas de sopro. Os dragões frios podem simplesmente ter sido dragões que não lançavam fogo. Embora pareçam um pouco desapontadores, dragões não precisam lançar fogo para serem terríveis e poderosos. As pessoas têm problemas suficientes racionalizando como Morgoth poderia ter gerado dragões e depois dragões alados de dragões não-alados como Glaurung. Seus tamanhos massivos, a habilidade de apenas fita-lo nos olhos e mesmerizá-lo, sua incrível força – seriam armamentos suficientes para o típico dragão faminto. Apostando em lançadores de gelo, dragões de água, e todas as variantes do D&D trivializamos os monstros da Terra-média. Os dragões de Tolkien eram criaturas que você simplesmente não desejaria ter que lidar. Por exemplo, ninguém parece ter matado o misterioso dragão frio.

Os únicos dois dragões nomeados na Terceira Era foram Scatha e Smaug. Smaug, como se percebe, é retratado de forma destacada em O Hobbit. Podemos ler muito sobre ele
. Scatha, por outro lado, mal merece apenas uma nota de rodapé em um apêndice e um comentário de Éowyn no texto principal de O Senhor dos Anéis. O que se passa com ele? Scatha nem mesmo entrou no cânone até que Tolkien estivesse revisando as provas de O Senhor dos Anéis. Portanto, desafortunadamente, não temos muita história para contar aqui.

Mas nós sabemos que Fram era filho de Frumgar, que foi Frumgar quem liderou os Eotheod para o norte, no ano de 1977, para reclamar as terras lestes do que havia sido o reino de Angmar. Os Eotheod não deveriam saber que existiam dragões na área, ou sentiriam que não tinha outra chance a não ser partir de lá. Se Frumgar era um homem no pleno vigor no ano de 1977 então ele provavelmente morreu por volta do ano 2000. Mas quando Fram morreu? Minha aposta é que foi provavelmente em algum momento depois do ano 1981. Este foi o ano no qual os Anões deixaram Khazad-dum, e muitos deles fixaram-se mas Montanhas Cinzentas, que ficavam a leste das Montanhas Nebulosas.

Com Anões e Homens se mudando para a região, e com o legado de Angmar, um punhado de dragões do norte devem ter sido provocados. Mas porque teria havido ali apenas uns poucos dragões? Pode-se pensar que o Rei-bruxo de Angmar desejaria manter uma ou duas ninhadas em mão para ajudar nas guerras. Mas não existem menções de dragões inquietando os Dunedain em Eriador. nem sequer existia um dragão na guerra final de Gondor e Elfos. O amor de Tolkien pelos grandes monstros parece ter sido temperado com cautela. Como as Águias, que ele sentia que não deveriam ser abusados como dispositivos literários, o autor parece ter se refreado de atirar um dragão na mistura cada vez que um grande monstro era necessário.

Os dragões podem ter sido para Melkor o que as Águias eram para Manwë: emissários especiais com uma missão específica. Mas Melkor foi removido do mundo e sua vontade maligna diminuída. Alguns aspectos de Melkor [ou Morgoth] permaneceram em Arda, na Terra-média em particular, porque ele infundiu uma parte de sua força, seu espírito, porto todo o mundo e suas criaturas. Dragões, em particular, devem ter tido uma grande parte de seus espírito maligno. Isto faria deles criaturas "mágicas" e bastante poderosas [bem como totalmente malignas – então não existe esperança de encontrar um dragão bom na Terra-média]. Tolkien parece relembrar isso em "Narn i Hin Hurin":

Embora andando por suposição [Nienor] encontrou a colina [de Amon Ethir], que estava de fato bem próxima, pela elevação do terreno aos seus pés; e lentamente ele escalou o caminho que conduzia para cima, a partir do leste. Enquanto subia a névoa tornava-se mais fina, até que ela finalmente pode sair dela para a luz do sol no pico nu. Então ela adiantou-se e olhou para o oeste. E lá logo na frente dela estava a cabeça de Galurung, que havia se arrastado para cima pelo outro lado; e antes dela estar ciente de ter olhado em seus olhos, que eram terríveis, sendo preenchidos com o cruel espírito de Morgoth, seu mestre.

Quando Turin pediu aos Homens de Brethil que o ajudassem na luta contra o dragão ele disse: "Eu conheço algo sobre ele. Seu poder está especialmente no espírito maligno que reside nele do que em seu corpo, embora grande ele seja." Eu por muito tempo pensei no que essas passagens poderiam significar. Morgoth teria aprisionado ou embutido algum espírito no corpo do dragão? Se sim, de onde ele veio? Apenas Iluvatar poderia criar um espírito, e Tolkien era preocupado com a idéia de que Iluvatar poderia criar alguma coisa que ele sabia que se voltaria para o mal, que deveria se tornar maligno. Claro, Iluvatar deveria saber que Melkor eventualmente se tornaria maligno. Então, de alguma forma é razoável dizer que se existe liberdade de escolha para o espírito, então Iluvatar poderia criá-lo. Mas existe liberdade de escolha para monstros como os dragões?

Uma explicação alternativa destas passagen é mais simples: o espírito mencionado é literalmente o espírito de Morgoth. Não a vontade primária de Morgoth, sua atenção ou consciência, se desejar, mas simplesmente uma parte de seu poder, sua força. O Um Anel proporciona um exemplo de como, quando o poder de um grande ser é parcialmente externalizado, a coisa parece ter uma vontade e cosciência como se fosse própia. O Um Anel tentava retornar para Sauron, e de muitas maneiras ele tentava corromper e controlar aqueles que o usavam, ou aqueles que potencialmente poderiam tomá-lo e usá-lo. Através dos anos muitas pessoas tentaram racionalizar como este Anel poderia agir por si mesmo se ele não era de fato um objeto consciente. Analogias com computadores foram formuladas, mas eu acho que tais analogias não entendem bem o ponto.

A energia primordial de um espírito Ainu é uma força encarnada. Ilúvatar deu vontade a estas forças, mas as vontades era apenas aspectos. Um espírito é uma coisa em si mesmo, mas Melkor e Sauron mostraram que eles podiam difundir seus espíritos, dividir suas essências entre múltiplas cascas físicas. Sauron pôs uma grande parte de si no Anel, mas ele permaneceu em sua forma encarnada, seu corpo. Era no corpo que ele continua residindo. E mesmo assim Sauron era capaz de perceber eventos e seres através do Anel, mesmo que de uma forma grosseira. Quando Frodo pos o Anel e usou a Alto Trono no Amon Hen, ele olhou para Barad-dur na visão que se estendeu ante ele e Sauron ficou consciente dele instantaneamente. Tolkien registra que Sauron estava ligado ao Anel enquanto este existisse, mas ele não estava em comunicação com ele. Ser separado do Anel seria como ter um braço dormente, talvez, embora continuemos a sentir formigamento nos dedos – mesmo na escuridão da noite – não podemos ter certeza de onde o mão está.

Em "Myths Transformed" explica este processo com mais detalhes, em um ensaio que explora a natureza dos Valar e Ainur em geral:

Melkor "encarnou" a si próprio [como Morgoth] permanentemente. Ele assim o fez para controlar o hroa, a "carne" ou matéria física, de Arda. Ele tentou identificar-se com ele. Um procedimento mais vasto e mais perigoso, embora de similar espécie às ações de Sauron com os Anéis. Portanto, fora do Reino Abençoado, toda "matéria" provavelmente possui um "ingrediente Melkor", e aqueles que possuem corpos, nutridos pelo hroa de Arda, possui como que uma tendência, maior ou menor, em direção a Melkor: não existe nenhum deles totalmente livre em suas formas encarnadas, e seus corpos possuem um efeito sobre seus espíritos.


Tolkien, mais além, explica que:

…Além disso, a erradicação final de Sauron [como um poder direcionando o mal] foi alcançada pela destruição do Anel. Tal erradicação de Morgoth não era possível, uma vez que seria necessário a completa desintegração da "matéria" de Arda. O
poder de Sauron não estava [por exemplo] no outo como tal, mas em um aspecto ou forma particular de uma porção particular do ouro total. O poder de Morgoth estava disseminado através de todo o Ouro, se em nenhuma parte absoluto [pois ele não criara o Ouro] em nenhuma parte estava ausente. [Era este elemento Morgoth na matéria, de fato, que era o pré-requisito para a "mágica" e outras perversidades que Sauron praticou com ele e sobre ele.]

Dragões têm uma afinidade por ouro. Eles gostam de reuni-lo em um grande monte e deitar sobre ele. A justificativa de Tolkien poderia ser que que eles eram, dessa forma, nutridos pelo elemento Morgoth que está presente no ouro, uma vez que ele é realmente mais forte no ouro do que em outras substâncias [como prata e água]. Isto poderia explicar como dragões eram capazes de persistir por grandes períodos de tempo sem comer nada. O ouro os sustentava, e é tão importante para eles como comida seria para um homem faminto em uma olha deserta. Poderia também explicar porque os dragões experimentaram um período de declínio. Seus poderes seriam diminuídos sem Morgoth para controlá-los, e até que pudessem acumular novos tesouros eles estariam muito fracos.

Pode ser que os dragões, quando fugiram de Beleriand, tiveram de fugir para as vastidões norte porque eles estavam simplesmente muito fracos para lidar com Anões, Elfos e Homens. Eles tinham se exaurido no suporte a Morgoth e sobreviveram com dificuldade. E uma dependência por ouro e pelo espírito de Morgoth pode explicar porque aparentemente existiam tão poucos dragões até perto do final da Terceira Era. Eles poderiam precisar de ouro para procriar. Morgoth certamente não deveria carecer de ouro em Angband, onde ele poderia minar as profundezas da terra por quaisquer minerais e metais que desejasse. E como os tesouros Élficos eram levados para ele, Morgoth seria capaz de gerar ainda mais dragões, maiores e mais poderosos do que as primeiras gerações.

Dragões seriam, dessa forma, essencialmente artefatos vivos. Especula-se como Morgoth poderia criar dragões. Isto é, que criaturas ele teria unido em um programa controlado de procriação para produzir dragões? Eu não acho que era isso que Tolkien intencionava, tampouco. Particularmente pode ser que ele anteviu Morgoth iniciando com poucas criaturas, digamos lagartos ou cobras, exercendo sua vontade sobre seus corpos. Seu objetivo poderia ter sido produzir uma prole que seriam os dragões. Glaurung era, então, um experimento, um protótipo, e Ancalagon era o modelo de produção final. Cada ninhada de dragões então produzidos teria sido imbuída com parte do poder de Morgoth. Eles tinham "vontades", mas não necessariamente vontades independentes. Eles eram mais do que fantoches mas menos do que criaturas verdadeiramente sencientes.

Sem a ajuda de intervenção direta de Morgoth, a procriação para os dragões pode ter se tornado uma tarefa grande e onerosa. De fato, deixados por si mesmos, os dragões parecem ter sido menos eficientes do que quando liderando os exércitos de Morgoth. Glaurung levou um longo tempo para fazer seu caminho de Nargothrond para Brethil. Ele aparentemente queimou um caminho através da paisagem, queimando árvores e tudo mais, de vez em quando deitando e dormindo. A turbulência de fogo poderia ser apenas uma expressão da malícia do dragão, ainda que isto provavelmente asseguraria que ninguém permaneceria por perto para perturbá-lo durante as sonecas. Mas deve ter representado um incrível gasto de energia. Em "Narn i Hin Hurin", Glaurung envia um exército para atacar Brethil e Turin destrói o exército. O dragão aguardou vários meses antes de se movimentar contra os homens da floresta pessoalmente. Ele poderia estar recarregando as baterias, por assim dizer, construindo suas reservas de energia.

Tal limitação torna os dragões incapazes de tomar o mundo sem um grande poder por detrás deles. E também torna possível que pessoas vivam relativamente próximo aos dragões [como os Homens do Lago Comprido e os Elfos de Mirkwood Norte] sem ter que procurar proteção a cada dia. Os dragões, enquanto não fossem perturbados, poderiam sustentar-se em seus tesouros dourados até que fossem movidos à ação por algum motivo. Eles deveriam ter pouco instinto de reprodução, e talvez existisse um conflito entre a necessidade de reproduzir e a de simplesmente existir. Um dragão que tivesse uma cria poderia enfraquecer a si mesmo, talvez até mesmo morrer, a menos que tivesse um tesouro de ouro muito muito grande. Smaug parece ter sido o maior e mais bem sucedido dragão de sua geração. Mas se os tesouros de Erebor e Valle eram mais vastos do que qualquer coisa que sua espécie tenha acumulado desde o final da Primeira Era, ele pode ter ficado de certo modo embriagado com o poder, muito confuso para procurar uma parceira.

Uma depedência pelo ouro e a força de sobrepujar todas menos a mais poderosas das vontades também explica porque o Rei-Bruxo de Angmar seria incapaz de controlar ou criar dragões. Ele poderia simplesmente ser muito fraco para executar a tarefa. Sauron poderia ter sido capaz de exercer sua vontade plena e tomar controle dos dragões. Gandalf certamente temia muito isto de acordo com Tolkien, mas Sauron aparentemente recobrou quase toda a sua força perto do final da Terceira Era [menos a porção armazenada no Anel]. Quando Angmar surgiu por volta do ano 1300, Sauron continuava fraco e se escondendo em Mirkwood. Ele poderia não ser capaz de lidar com os dragões até muito mais tarde.

Mas o ressurgimento dos dragões no norte no século 26 pode ter sido uma indicação de que Sauron estava fazendo alguma coisa com eles. Ele retornou a Dol Guldur em 2460 "pode poder aumentado", de acordo com o Conto dos Anos no Apêndice B de o Senhor dos Anéis. Os dragões reapareceram no norte por volta do ano 2570. Coincidência? Sauron certamente poderia ter arranjado para os dragões alguns poucos carregamentos de ouro. De fato, ele poderia ter começado a trabalhar em um programa de criação de dragões logo após ter deixado Dol Guldur em 2063 em preparação para seu eventual retorno.

Então parece que a história de Scatha foi um pouco casual. Os dragões seriam incapazes de causar destruição entre os povos do norte até que os Anões começaram a se fixar em grandes números nas Montanhas Cinzentas. Alguma colônia de Anões pode ter acordado Scatha e ele os matou, tomando seu tesouro. Uns poucos sobreviventes podem ter espalhado a história de que um dragão estaria vivendo nas montanhas. Então, o que trouxe Fram para a história? Teria ele partido para matar o dragão esperando ficar com o tesouro? Isto parece tão estranho para os heróicos Rohirrim e seus ancestrais, os Eotheod que ajudaram Gondor. Fram pode ter sido um homem orgulhoso e arrogante, com pouco amor pelos Anões, mas eu acho que não seria característico dele ser ávido e pretencioso o suficiente para ir à caça de dragão. Scatha deve
ter parecido uma ameaça real aos Eotheod.

Se, abastecido por um pequeno tesouro de Anões, Scatha decidiu procurar sua sorte no mundo, ele poderia ter entrado em conflito com os Eotheod. Como um Senhor, Fram deveria ter que tomar uma ação contra o lagarto, assim como Turin fez contra Glaurung na Primeira Era e Bard faria mais tarde contra Smaug. Homens bravos não saem procurando dragões a menos que sejam tolos ou desesperados. Scatha era chamado de "o grande dragão das Ered Mithrin", então ele deve ter sido o mais poderoso dos dragões de seu tempo. Se ele acumulou um tesouro e ficou mais forte com ele, sua malícia pode tê-lo levado a um alcance cada vez maior.

A aventura de Fram pode ter sido similar à de Turin. Ele poderia ter recrutado uns poucos bravos companheiros para ajudá-lo a caçar o dragão. Talvez tenha havido mais de um encontro. Pode ter ficado apenas entre Scatha e Fram no final, tendo os companheiros de Fram morrido ou fugido em terror. Fram deve ter planejado algumas formas de matar o dragão, mais provavelmente perfurando-o por baixo. O confronto final deve ter sido uma batalha corajosa, de consequências incertas. As montanhas devem ter ecoado com os urros do dragão, e a noite deve ter se acendido por milhas ao redor com as chamas do dragão. Os Eotheod podem ter se aconchegado em suas casas e cantados canções para acalmar seus filhos. Os Anões teriam posto de lado seus martelos e harpas, e escutado a rocha de seus salões ressoar com o som do homem confrontando o dragão.

Ao final Fram derrotou o dragão, e viveu para ostentar o feito. E Tolkien escreveu que "as terras do norte ficaram em paz das grandes lagartos após isto". Os dragões devem ter sofrido um golpe devastador com a perda de Scatha. Como quando Azaghal feriu Glaurung e os dragões recuaram para Angband com medo, assim os grandes lagartos devem ter voltado para a Urze Seca além das montanhas. Seria medo a única razão de evitarem os Homens? Ou seria o fato de que Scatha possuía o maior poder, e com sua morte aquele poder foi perdido para os dragões? Poderiam eles dividir forças para sobreviver, e se um dragão morria longe dos outros eles se tornavam mais fracos?

A partida de Smaug do norte pode explicar porque os dragões tornaram-se uma ameaça menor e não maior. Enquanto estavam juntos eles eram fortes. Mas quando o mais forte dentre eles partiu, seu total de força deve ter diminuído. Sua força soletiva tinha sido sustentada e nutrida por longos séculos de acúmulo e roubo de ouro dos Anões. Os Anões estiveram fugindo das montanhas por gerações, de qualquer forma. Qual o sentido de permanecer em uma terra onde é provável que você seja assasinado por um dragão? Se nós supusermos que Sauron estava por trás do ressurgimento dos dragões, então ele deve ter fica satisfeito com a conquista de valle e Erebor por Smaug. E como consequência da morte de Smaug teria havido a perda de grande parte do poder-dragão do norte.

É dito que quando Augustus Cesar soube que Quintillius Varus tinha sido derrotado pelos Alemães em Teutoberg Wald, e que três legiões romans foram massacradas, Augustus irrompeu pelo palácio gritando "Varus! Devolva minhas legiões!" Sauron pode ter sentido raiva e desespero similares quando soube da morte de Smaug. Ele não necessariamente tinha imbuído nos dragões alguma parte de sua força [a qual, sem o Anel, era preciosa e pouca]. Mas ele poderia ter gastado uma grande quantidade de recursos nutrindo-os. Tal retrocesso pode ter mudado radicalmente os planos de Sauron. Sua esperança de enviar tropas inrrompendo através do norte do munto teria diminuído.

A vitória sobre Smaug, portanto, anunciava algo mais do que a chance de restauração dos Anões Barbalongas à sua glória anterior. Assinalava a última vez na qual os dragões poderiam estar em aliança com um poder encarnado maior do que si mesmos. Sauron vou vencido menos de 100 anos mais tarde, e embora os dragões tenha sobrevivido sem ele eles estavam completamente por si mesmos. Ele podem ter começado o longo e lento processo de reconstruir suas forças sem ajuda. Mas eles nunca produziram novamente um Smaug ou Scatha, ou qualquer lagarto capaz de destruir um reino inteiro. No máximo eles podiam aterrorizr o campo ou assustar pequenas tribos. E eles estariam sem um propósito real. Embora alguma coisa da vontade de Morgoth tenha sobrevivido neles, não exestiria direção externa através de poderes como Sauron e não existia harmonia ou um senso real de comunidade entre eles.

Os dias dos dragões estariam então contados, e eventualmente se tornaria possível para os homens caçá-los e pegar seus tesouros. E estando sem tesouros eles eventualmente dormiriam para nunca acordar, e as últimas criaturas encantadas de Morgoth estariam restritas a um passado distante, folclore e lendas.

 

Elfos, em Números

De tempos em tempos alguém irá perguntar quantos Elfos existem em algum ponto do tempo. Não existe resposta correta porque J.R.R. Tolkien não nos proporcionou números de censo. Tudo o que podemos fazer é supor e brincar com números.

É possível sugerir algumas estimativas razoáveis, embora tais estatísticas possam variar bastante. Algumas pessoas acreditam que nunca poderiam existir mais do que, digamos, duas centenas de milhar de Elfos em qualquer momento. Sou da opinião de que eles devem ser contados na casa dos milhões pelo tamanho de suas civilizações.

Todas as discussões sobre as populações Élficas inevitavelmente afundam-se no opressivo assunto sobre o que constitui “Cânone” e como interpretar algumas das passagens não-tão-precisas. E então precisa-se escolher como lidar com textos que podem não ser consistentes uns cm os outros mesmo se todos parecem ser “canônicos”. Depois de tudo, a história dos Elfos passou por muitas fases, e é ligada com decisões lingüísticas na maioria das vezes.

O ponto de partida para qualquer estimativa reside no ensaio “Quendi and Eldar”, publicado por Christopher Tolkien em The War of the Jewels. Este material, escrito tardiamente na vida de J.R.R. Tolkien, é em sua maior parte consistente com O Senhor dos Anéis e de certa forma consistente com o Silmarillion publicado. “Maior parte” e ” de certa forma”, contudo, abrem as portas para todos os tipos de disputas e debates. Mas o fato é: se você quer calcular quantos Elfos podiam existir em um determinado ponto de sua história, você poderá começar com “Quendi and Eldar” ou nada.

Assim, nós começamos com “Quendi and Eldar” e veremos o que funciona melhor com ele.

O ensaio estipula que existiram originalmente 144 Elfos [72 masculinos e 72 femininos]. Eles eram divididos em 14 Minyar [primeiros], 56 Tatyar [segundos] e 72 Nelyar [terceiros]. Os três grupos foram nomeados de acordo com os primeiros três Elfos a acordar: Imin [um], Tata [dois] e Enel [três]. “Quendi and Eldar” é acompanhado por uma história única, uma espécie de conto de fadas Élfico que conta como os primeiros Elfos acordaram. Algumas pessoas através dos anos desconsideraram a história como uma fonte confiável porque é apresentada na forma de uma história para crianças, como uma espécie de lenda.

Apesar de tudo, porque ele confirma ou concorda com coisas escritas no “Quendi and Eldar” eu escolhi aceitar a história como essencialmente verdadeira, de algum modo pasteurizada. Isto é, um genuíno relato da história Élfica, como um livro de estudos sociais da terceira série seria considerado um genuíno relato de nossa história a despeito de suas muitas simplificações de muitos eventos históricos.

Na história, Imin, Tata e Enel acordam nesta ordem. Eles vêem deitadas ao lado deles as Elfas que foram destinadas a serem suas esposas. Os três Elfos acordaram as Elfas e eles começaram a falar uns com os outros, criando a linguagem Élfica primitiva conforme continuavam. Eventualmente os Elfos foram caminhar e encontraram um grupo de 12 Elfos adormecidos. Imin, parecendo um pouco pretensioso e arrogante, repentinamente reivindicou este 12 como seus companheiros especial e seguidores.

Os 18 Elfos trataram de conhecer uns aos outros por um momento antes de saírem caminhando novamente. Então encontraram um grupo de 18 Elfos dormindo no chão, e Tata seguiu o exemplo de Imin e reivindicou estes 18 como seus companheiros especiais. Então encontraram 24 Elfos, os quais Enel reivindicou, e Imin decidiu ser mais esperto. Ele sentou-se próximo às duas descobertas pensando que ele terminaria com o maior grupo de Elfos. Então Tata recruta mais 36 Elfos e Enel recruta os últimos 48 a serem acordados. E era tudo. Existiam 144 Elfos, divididos em 72 casais.

Toda a raça Élfica descende destes 144 Primeiros Elfos.

Quando compara-se a informação no conto dos Primeiros Elfos [como confirmado por “Quendi and Eldar”] ao capítulo do Silmarillion “Da Chegada dos Elfos e a Prisão de Melkor”, pode-se achar que muitas concepções padrão são alteradas. Por exemplo, muitos leitores acreditam [bastante razoavelmente, suponho, tendo apenas O Silmarillion para considerar] que Ingwë, Finwë e Elwë podem ter sido os mais antigos Elfos. Contudo, O Silmarillion não diz realmente que eles eram os mais antigos. Mas eles são os primeiros Elfos a serem nomeados na narrativa, e todos estavam vivos e ativos quando Oromë precisou de três “exemplares” para levar até Aman.

Quando Christopher Tolkien publicou os The History of Middle-earth, os primeiros volumes parecem confirmar a crenças que os três reis Eldarin poderiam ser os mais antigos dos Elfos. Ingwë é dito em mais de um local ter acordado primeiro. Finwë é dito pertencer à primeira geração de Elfos em uma versão antiga do “Quenta Silmarillion”. Apenas a posição de Elwë é suspeita, uma vez que ele sempre parece ter tido um irmão Olwë através das várias mitologias que Tolkien desenvolveu com o decorrer dos anos.

Contudo, enquanto os anos passavam e Tolkien reescrevia e recompunha e re-editava os vários textos que englobavam o “Quenta Silmarillion” ou suas fontes alegadas, as histórias dos reis Élficos foram alteradas. Em um momento as referência a eles como tendo acordado em Cuiviénen foram obscurecidas ou completamente apagadas. E as famílias de Ingwë e Elwë foram expandidas. A Ingwë foi dada uma irmã, Indis, que tornou-se a segunda esposa de Finwë. Mas eventualmente ela tornou-se um dos “parentes próximos de Ingwë e finalmente a filha de sua irmã. E tanto Círdan quanto Eöl são ditos membros da família de Elwë [Thingol].

Eöl possui sua própria história retorcida. Ele mudou de família para família mas parece ter terminado na família de Elwë. No “Quendi and Eldar” ele é realmente um Elfo Tatyarin, um dos Avari descendentes da segunda família. Círdan, por outro lado, é dito ser um dos parentes de Elwë [a relação exata nunca é definida] em alguns locais. E então surge a questão de Elmo, o “impreciso” irmão mais novo de Elwë e Olwë que foi avô de Celeborn [por uma das genealogias].

A presença de irmãos e irmãs implicam fortemente que nem Elwë nem Ingwë estavam entre os primeiros Elfos. Foi argumentado que o nome de Ingwë, derivado de “ing-“, poderia ainda significar “primeiro” [ainda que no “The Etymologies” Ingwë é traduzido como “príncipe dos Elfos”, e não “mais antigo” ou “primeiro Elfo”]. Tomando a história de Imin, Tata e Enel como canônica, devemos aceitar que nem Ingwë nem Elwë poderiam ser a primeira geração de Elfos. Então o nome de Ingwë mais provavelmente poderia se referir à sua posição entre os Minyar [e os Eldar] ao invés de ele ter sido o “primeiro a acordar”.

Mas Finwë permanece anômalo. Ele não possui irmãos ou irmãs, pelo menos até agora. E também não tinha uma esposa até que se casou com Miriel Serindë. Originalmente Finwë e Miriel casaram-se antes que os Noldor alcançassem Beleriand, e ela morreu enquanto cruzavam o Hithaeglir [as Montanhas Nebulosas]. Mas aquela tradição foi abandonada então Féanor pode ter nascido em Aman. mas mudando o local de nascimento de Fëanor para Aman não implica que Finwë não era da primeira geração de Elfos.

De fato, apenas Miriel, dentre todos os Noldor, tinha cabelo prateado. Cabelo prateado é supostamente a marca registrada da família de Elwë. Bem, cor de cabelo entre os Elfos mudava como nome de hobbits nos primeiros textos de O Senhor dos Anéis. Ainda que muitas pessoas acreditem que apenas os Vanyar podiam ter cabelos dourados, existem uns poucos exemplos de cabelos dourados fora dos Vanyar [e da Casa de Finarfin]. O cabelo prateado de Miriel pode eventualmente ter forçado Tolkien a considerar que ela era aparentada com Elwë de alguma forma, mas não existe indicação de que ele tenha atingido este ponto.

Então, para encontrar um contexto próprio para Miriel, devemos olhar no “The Shibboleth of Fëanor”. Este trabalho, publicado no “The Peoples os Middle-earth”, indica que Miriel nascera em Valinor. O “Shibboleth” aponta que “Ingwë” significa, mais ou menos, “líder”, e que os Vanyar chamavam a si mesmos “Ingwëron”, “os líderes”, os primeiros Elfos. Eles eram, tecnicamente, o mais antigo grupo por todos os registros. O título de Ingwë entre eles era Ingwë Ingwëron “líder dos líderes”. Nada em tais nomes implicam em que Ingwë deveria ter acordado por primeiro em Cuiviénen, mas a menos que Ingwë tenha tomado o nome Ingwë quando iniciou a Grande Jornada, parece razoável inferir que ele era o líder dos Minyar quando Oromë os encontrou.

Finwë era claramente de uma geração mais antiga que a de Míriel, uma vez que ela nascera em Valinor. Mas como Miriel foi a primeira esposa de Finwë, ela e ele não poderiam ser tatie e Tata, o segundo casal de Elfos a acordar. Além disso, temos pouco com o que trabalhar.

Ingwë e Finwë podem muito bem ser Elfos de segunda geração. Tampouco precisam ser afastados de seus ancestrais por quaisquer propósitos dramáticos, e com certeza não existe razão lógica para sugerir que eram muito jovens quando foram a Valinor. De fato, eles devem ser considerados maduros o suficiente para viverem por si mesmos quando Oromë os escolheu como embaixadores para os Valar.

Elwë e Olwë, por outro lado, possuem seus vários parentes. A extensa família destes dois irmãos implica que eles devem ser pelo menos a terceira geração de Elfos. Se aceitarmos que tanto Círdan como Eöl são de fato parentes de Elwë e Olwë, e assumirmos que são primos de primeiro grau dos dois irmãos, deve haver uma geração de irmãos para servir como seus pais. Portanto a geração de irmãos não pode [ou não deveria poder, pois algumas pessoas argumentam que devem ter existido irmãos entre os grupos maiores de Elfos] ser Primeiros Elfos.

Então, se nós concluirmos que Elwë e Olwë vieram pelo menos da terceira geração e que Ingwë e Finwë vieram pelo menos da segunda geração, nós devemos fazer a pergunta óbvia: o que aconteceu com a primeira geração? Porque estes caras foram os líderes dos Eldar e não seus pais?

Em primeiro lugar, não quer dizer que Imin, Tata e Enel são necessariamente os ancestrais de Ingwë, Finwë e Elwë [e Olwë]. Mas se estes quatro reis Eldarin vieram destas três primeiras famílias, precisariam eles terem sido os filhos mais velhos dos filhos mais velhos?

O Silmarillion, a despeito de sua confusa história textual, foi em sua maior parte escrita por J.R.R. Tolkien, e o capítulo “Of the Coming of the Elves” é bastante canônico. Então, podemos perceber pelo texto que Oromë escolheu Ingwë, Finwë e Elwë quase aleatoriamente dentre os atemorizados Elfos. E ainda, se nós olharmos em um texto levemente mais antigo, “Annals of Aman”, nós podemos ver que em uma versão prévia da história apenas estes três [dos líderes dos Elfos] estavam querendo ir com Oromë para Valinor. Neste antigo conto os outros líderes eram Morwe e Nurwe, e eles aparentemente conduziam suas duas próprias famílias. Então devemos concordar que não é inteiramente claro que na concepção mais tardia Ingwë, Finwë e Elwë tiveram rivais para a liderança entre seus povos.

Apesar de tudo, tendo estabelecido que existiam pelo menos três gerações de Elfos vivendo em Cuiviénen ao tempo da Grande Jornada, podemos procurar um limite superior para o número de gerações que existiram lá? Com certeza podemos.

Em “Laws and Customs among the Eldar” Tolkien escreveu que crianças Élficas lembravam crianças mortais nos primeiros anos de suas vidas, mas no tempo em que as crianças mortais atingiam sua estatura plena as crianças Élficas continuavam parecendo ter cerca de sete anos de idade. Este ensaio estabelece que as crianças Élficas amadureciam a uma velocidade muito menor que as crianças mortais, e atingiam a maioridade não antes de seu quinquagésimo ano [embora algumas vezes continuassem a crescer até cem anos].

Além disso, “Laws and Customs” diz que a maioria dos Eldar casava logo após seus quinquagésimos anos, e eles poderiam [em tempos de paz, pelo menos] logo começar a ter filhos. Mas os Elfos espaçavam seus filhos com alguns anos. Esta prática permitia aos pais gastarem vários anos focalizando nas necessidades de cada criança.

Podemos ter certeza [devido à comparação entre crianças Élficas e crianças mortais] que Tolkien estava, de maneira anacrônica, falando em termos de Anos do Sol, não Anos das Árvores. Isto é importante entender pois “Annals of Aman”, que nos fornece um sistema de calendário para datação de eventos, é dado em Anos das Árvores. Morgoth’s Ring nos dá duas taxas de conversão para equalizar Anos das Árvores com Anos do Sol.

Eu prefiro utilizar a antiga taxa de 9,58 Anos do Sol para cada Ano das Árvores porque a taxa posterior de 144 Anos do Sol para 1 Ano das Árvores é bastante inconsistente com muitos textos. O fato de que coincide com o yen descrito nos apêndices de O Senhor dos Anéis provavelmente significa apenas que Tolkien não estava considerando os outros textos, então não publicados, porque ele estava em processo de revisão da sua mitologia completa [ainda não publicada].

Finalmente, “Laws and Customs” também diz:

Os eldar casavam-se em sua maioria na juventude e logo após o quinquagésimo ano. Eles tinham poucos filhos, mas estes eram muito caros a eles. Suas famílias, ou casas, eram mantidas unidas por amor e por um sentimento profundo pelo parentesco em mente e corpo; e as crianças necessitavam de pouca supervisão ou ensinamentos. Era raro haver mais de quatro crianças em cada casa, e o número crescia menos com o passar das eras; mas nos dias antigos, enquanto os eldar eram poucos e ansiavam por aumentar sua raça, Fëanor foi renomado por ser pai de sete filhos, e as histórias não mencionam ninguém que o tenha superado.

Algumas pessoas argumentam que esta passagem diz que os Eldar tinham mesmo do que quatro filhos em média, mas Tolkien diz: “era raro haver mais de quatro crianças em cada casa”. Podemos inferir que isso significa que frequentemente existiam quatro crianças, uma vez que se fosse raro existirem mais de três crianças por casa ele o teria dito. Portanto, se frequentemente existiam quatro crianças por família, o número médio de filhos [nas gerações antigas, pelo menos] era provavelmente mais próximo de quatro do que de três.

Colocando todos estes dados juntos, podemos ver como os Elfos aumentaram sua população nos anos que levaram à Grande Jornada. Os Elfos acordaram no Ano das Árvores 1050 e os Eldar deixaram Cuiviénen no Ano das Árvores 1102. Eles provavelmente tinham poucas, se é que tinham alguma, crianças enquanto viajavam através da Terra-média, mesmo que a Grande Jornada tenha durado muitos Anos das Árvores. Então a Grande Jornada parece ser um ponto de quebra razoável, quando calculando o crescimento da população Élfica.

Agora, uma vez que os Elfos não tinham seus filhos todos de uma vez, ou todos juntos, parece razoável calcular uma geração média de 50 anos. Mas o problema em espaçar as gerações tão longe é que terminaríamos com poucos Elfos. Os Eldar, de acordo com O Silmarillion, partiram na Grande Jornada em quatro “hostes”. Uma “hoste” é um monte de pessoas. Tolkien poderia ter usado a palavra “companhia” para descrever os grupos Élficos mas ele optou por chamá-los “hostes”. Então ele estava dizendo que estes grupos eram maiores do que “companhias”, embora ele em parte alguma tenha definido o tamanho de uma companhia.

Ainda, pode ser que Tolkien pretendia que o leitor compreendesse que milhares de Elfos iniciaram a Grande Jornada. Se simplesmente fosse assumido que uma nova geração de Elfos nascesse a cada cinquenta anos [do Sol], e que existiam aproximadamente quatro filhos por casal, então ao tempo da Grande Jornada terminaríamos com aproximadamente 150.000 Elfos. Este parece ser um número muito grande por vários motivos, e um deles seria que os Elfos continuavam com medo de se aventurar no mundo por si mesmos. Portanto, simplesmente não poderiam existir tantos deles.

Muitos dos Elfos desapareceram com o passar dos anos. O desaparecimento pode explicar como jovens Elfos como Ingwë, Finwë e Elwë poderiam chegar a posições de liderança. Então mesmo que pudéssemos concordar com um algoritmo que produzisse um menor número de Elfos, de fato Oromë provavelmente teria menos Elfos com os quais lidar porque não temos modos confiáveis de estimar quantos Elfos se perdiam a cada geração.

Um modo de estimar as populações Élficas seria assumir que os elfos casavam e tinham seus primeiros filhos mais ou menos ao mesmo tempo que seus pais estavam tendo um segundo [ou terceiro, ou quarto] filho. Então, balanceando a contagem de Elfos por geração, obtém-se um menos número, mas que continua na casa dos milhares.

Por exemplo, existiam 72 casais entre os Primeiros Elfos. Cada casal poderia ter tido um filho. Vamos assumir uma distribuição igual de Elfos e Elfas. Portanto, cinquenta anos depois, os 72 casais-pai e seus 72 filhos [formando 36 casais de segunda-geração] teriam 108 novos filhos [72 de segunda-geração e 36 de terceira geração].

Cinquenta anos depois, os 72 casais de primeira-geração teriam seus terceiros filhos, os 36 casais mais velhos de segunda-geração teriam seus segundos filhos, os 36 casais mais novos de segunda-geração teriam seus primeiros filhos e as 18 crianças de terceria geração iriam produzir seus primeiros filhos.

Confuso? É suficiente dizer que este sistema produziria cerca de 18.314 Elfos ao tempo da Grande Jornada. Agora nós temos uma população relativamente pequena de Elfos que continuaria podendo ser dividida em “hostes” de razoável tamanho.

“Quendi e Eldar” proporciona uma divisão proporcional de Eldar e Avari. Todos os Minyar se tornaram Vanyar. Isto é, de cada 144 Elfos, 14 eram Minyar [Vanyar], 56 eram Tatyar e 74 eram Nelyar. Dos Tatyar, precisamente metade tornaram-se Noldor. Dos Nelyar, 46 tornaram-se Teleri [e os Teleri foram divididos em 20 Amanyar Teleri e 26 Sindar e Nandor].

Então, deveriam existir cerca de 1780 Vanyar, cerca de 3560 Noldor e cerca de 5850 Teleri. Os Teleri estavam originalmente divididos em duas hostes lideradas por Elwë e Olwë, mas Tolkien não nos dá suas proporções. Lenwe, que liderou os nandor para o sul, tomou seu povo da hoste de Olwë. Embora eu não possa estar certo de nenhum númer, no texto “The Wild, Wild Wood-elf West”eu sugeri que talvez Elwë e Olwë lideravam 20/144 e 26/144 dos Elfos, e que aproximadamente metade do povo de Olwë seguiu Lenwe.

Em algum lugar da minha mente eu continuo pensando que talvez Lenwe tenha liderado apenas 8/144 dos Elfos, mas não consigo achar uma referência para isto. Portanto, continuarei usando o texto “Wild, Wild Wood-Elf West” como referência, uma vez que faz pouca diferença nesta discussão.

Lenwe pode ter liderado cerca de 1650 de seu povo, e deles eventualmente surgiram os Elfos Verdes de Ossiriand, os Nandor de Eriador, e os Elfos da Floresta [que se mesclaram com pelo menos um grupo de Avari, provavelmente todos os Avari Nelyarin].

Olwë eventualmente liderou 3300 Teleri sobre o Mar. Os Teleri que permaneceram em Beleriand tornaram-se divididos em três grupos: povo de Círdan [os Falathrim, os mais numerosos], os Mithrim, e os Iathrim [o povo de Thingol de Doriath]. Neste ponto, trabalhar em quantos Teleri existiam em Beleriand torna-se sem esperança, mas existe alguma ainda em calcular as populações de Aman.

Os Noldor eram o maior grupo de Eldar em Aman, mas eles não permaneceram assim. Sua batalha com os Teleri de Alqualonde reduziu a população de ambos os grupos, e muitos Noldor subsequentemente pereceram na tempestade erguida por Uinen, e muitos mais morreram enquanto tentavam cruzar o Helcaraxë, então no máximo podemos esperar chegar a alguma adivinhação da maior população possível de Noldor em Aman que não requereria a matança completa de todo o estoque de caça de Oromë apenas para alimentar a multidão.

Os Noldor chegaram em Aman no Ano das Árvores 1133 e eles viveram ali em relativa paz até o Ano das Árvores de 1495. isto significa 362 Anos das Árvores ou aproximadamente 3468 Anos do Sol. Embora possa se planejar muitas diferentes fórmulas para reduzir ou parar a multiplicação dos Elfos, o fato é que eles tiveram muito tempo em Aman. A única forma razoável de diminuir sua progressão é olhar adiante para um ensaio em “Mitos Transformados” [escrito muitos anos depois que estes outros textos] onde Tolkien diz que o tempo em Aman parece passar aproximadamente como o tempo na Terra-média.

Este é o ensaio no qual ele equaliza o Ano Valariano [Ano das Árvores] com 144 Anos Solares. Ignorando a discrepância entre taxas de conversão, se nós meramente considerarmos que os Eldar podem ter levado um tempo realmente longo para atingir a maturidade em Aman, podemos argumentar que temos que trabalhar apenas com 362 anos de geração de Elfos. Porque? Porque 3500 anos de bebês Élficos produzem populações de magnitudes inacreditáveis. Os Noldor poderiam ter enxameado sobre Angband e enterrado-a sem problema.

Mas 362 Anos das Árvores nos dá 8 ciclos de expansão. No total, terminamos com 19 gerações de Noldor, Vanyar e Amanyar teleri [mas não 19 gerações de Elfos]. Os Noldor, ao tempo da rebelião, poderiam ser contados em cerca de 130.000. Dez por cento deles [13.000] se recusaram a ir para o exílio. Outro número não especificado, sob Finarfin, voltou atrás. Correndo o risco de ser presunçoso, vamos dizer que aproximadamente 1/2 dos Noldor rebelados seguiram Fingolfin e que 1/4 seguiram Fëanor e os restantes 1/4 seguiram Finarfin.

Supondo que Finarfin e metade de seu povo voltaram atrás deixaria 7/8 dos Noldor rebelados [menos suas baixas na batalha e na tempestade] seguindo para o exílio. Claro, quase qualquer conjunto de números serviria, mas parece razoável que dos 130.000 Noldor do início da rebelião de Fëanor, menos de 100.000 alcançaram a Terra-média.

Em Beleriand eles encontraram os Sindar [os Mithrim, Falathrim e Iathrim] os os Elfos Verdes os ultrapassando em número [por algum valor ridículo que não vale a pena calcular, uma vez que essas populações podem ter sofrido perdas pela invasão de Morgoth].

Pelos próximo 500 Anos do Sol [aproximadamente] os Noldor continuaram a aumentar sua população, sofrendo derrotas ocasionais. Eles terminariam com uma população bem acima de 1.000.000 de Elfos.

Claro que, no momento em que você obtém o valor de centena de milhares de Elfos, as pessoas começam a levantar as mãos e dizer “Desculpe-me! E sobre os dez mil de Turgon?”. Isto é, Turgon liderou dez mil soldados na Nirnarth Arnoediad. E ele supostamente tomou um terço do povo de Fingolfin com ele quando fundou a cidade de Gondolin. Dez mil soldados não parecem muitos dado o imenso número de Elfos que estamos vendo.

Mas onde diz que Turgon trouxe todos os seus guerreiros de Gondolin? Ele realmente esvaziou a cidade de todos os seus defensores? Minha opinião é de que Gondolin continuou bem defendida. Os Noldor já tinham sofrido grandes perdas na Dagor Bragollach. Dorthonion tinha sido perdida, os Vale de Sirion caído, e os filhos de Fëanor expulsos de suas terras por um tempo. Maedhros conseguiu tomar de volta as terras que perdera, mas ele não tinha todos os Noldor a seu lado. Orodreth se recusou a se juntas a União de Maedhros, e Orodreth supostamente tinha uma dos maiores, senão o maior reino em Beleriand. Então os dez mil soldados de Turgon não implicam realmente que existiam menos de 1.000.000 de Noldor ao tempo da Nirnaeth.

Bem, os números podem ser tão falsos quanto qualquer outro e poderíamos continuar chamá-lo de uma discussão sobre Tolkien e Terra-média. Mas não importa como você trabalhe através das gerações, os Noldor terminarão com uma imensa população em Beleriand, e os Sindar devem ser ainda mais numerosos. Então quando Tolkien tem Morgoth virando a mesa sobre os Eldar e tendo suas legiões de Orcs jorrando por toda a região, a devastação é pior do que qualquer uma anterior às guerras Napoleônicas na história real. Talvez pior do que as próprias guerras Napoleônicas. O que os Eldar alcançaram em Beleriand parece Frágil porque nós temos apenas um mapa feito por Christopher Tolkien, e nomeia menos de uma dúzia de cidades.

Mas imagine o mapa da Europa onde apenas duas dúzias são nomeadas. Quão esparsa e vazia a região iria parecer para alguém olhando o mapa. E nós sabemos a verdade. Se existiram muitas cidades não nomeadas nas histórias, existiram muitos Elfos. Não parece estranho, no final das contas, que Eärendil estivesse tão desesperado que abandonou sua esposa e filhos para passar anos procurando um caminho através do Mar para que pudesse entregar a súplica dos Elfos e Homens aos Valar.

E os feitos de Morgoth parecem muito mais horríveis e imponentes. Ele enfrentou pelo menos uns dois milhões de Elfos. É muito poder sub-criacional dirigido contra ele. Tais coisas mudam o nosso ponto de vista, não acha?

[Tradução de Fábio ‘Deriel’ Bettega]

Amor, estilo Terra-média

Uma das histórias mais conhecidas da Terra-média é o Conto de Beren e Lúthien. O clássico drama do "garoto pobre se apaixona por uma garota rica" combinado com muita aventura, intriga, corrupção e magia. Parece que existe algo para agradar a todos os gostos. Quando os Hobbits pedem a Aragorn que lhes conte uma história naquela noite em que são atacados no Topo do Vento, ele decide falar sobre Beren e Lúthien. De certa forma, Aragorn se vê seguindo os passos de Beren. Como seu antepassado, Aragorn é um Senhor por direito, que perdeu terras e riquezas devido à guerra. E como Beren, Aragorn conhece uma linda princesa em um reino élfico e imediatamente apaixona-se perdidamente por ela.

 

 

O tratamento de Elrond para com Aragorn é muito mais gentil e tolerante do que o tratamento de Thingol para com Beren, pois Elrond é um dos descendentes de Beren e Lúthien, mesmo que ambos tenham morrido muito antes dele ter nascido. Mesmo assim, Elrond pede algo quase tão caro para o casamento com Arwen quanto o que Thingol pediu para o de Lúthien. Para ambos foram pedidas coisas que pareciam tarefas impossíveis de serem realizadas. Aragorn, pelo menos, tinha a vantagem de saber que Elrond queria ver a derrota de Sauron, ao contrário de Thingol, que tencionava enviar Beren para uma possível morte.

Infelizmente, nem todas as histórias de amor da Terra Média terminam tão bem como a de Beren e Lúthien e a de Aragorn e Arwen. Ambos os casais viveram juntos por muitos anos depois que as grandes tarefas impostas sobre eles foram cumpridas; no entanto, esses felizes anos jamais ocorreriam sem que antes se passasse por grande sofrimento, de modo que poderiam ser considerados recompensas realmente difíceis de se conseguir. Beren e Lúthien tiveram que passar por muitos perigos em Angband, e finalmente morreram antes de poderem ser ressucitados e viverem juntos em relativa tranqüilidade. A jornada de Aragorn não foi tão perigosa quanto a de Beren, mas sem dúvida ele sentiu muito mais solidão. Pelo menos, Beren foi acompanhado por Lúthien durante muito tempo na busca pela Silmaril, enquanto que Aragorn teve que viver muitos anos longe de Arwen, sem ter grandes esperanças que ela iria ao menos sentir o mesmo que ele sentia por ela.

O divórcio não é nunca mencionado em qualquer história de Tolkien. Algumas pessoas podem refletir pouco sobre a questão e falar: "Bem… Tolkien foi criado como um Católico e acreditou nos ensinamentos da Igreja por toda a sua vida". Sim, isso é verdade, mas Tolkien era também um indivíduo bastante realista. O divórcio parece não participar de seus romances porque a separação trágica ocupa sua posição. A separação nem sempre faz o amor ficar mais forte, às vezes pode até destruir o relacionamento. O primeiro conto de um casamento que termina em ruínas é o de Húrin e Morwen. Húrin era filho de Galdor, o alto, lorde de Dor Lómin, e considerado por muitos o maior dos guerreiros dentre os humanos. Morwen nasceu em Dorthonion, terra natal dos descendentes de Béor que foram aceitos no Reino de Finrod, Nargothrond. Eles residiam na fronteira ao Norte do Reino de Finrod, atrás da linha de fortalezas dos Noldor que protegiam Ard-galen, a planície entre Angband e os Reinos Élficos.

Morwen era a filha de Baragund, o filho mais velho [e, estranhamente, o herdeiro] de Bregolas, que era o Senhor de Ladros de 448 até 455. Bregolas morreu na luta pouco depois de Dagor Bragollach [A batalha da "Chama Súbita", na qual as legiões de Morgoth quebraram o Cerco de Angband, que tinha durado mais de 400 anos] começar. Barahir assumiu o controle de Dorthonion. Ele era já era mais velho, tendo 55 anos quando Bragollach começou. Talvez tenha sido por ter resgatado Finrod que ele assumiu o posto de Senhor de Ladros, ou porque Baragund abdicou de seu direito em favor de seu tio, pois, ele era claramente um grande líder, como as pessoas precisavam.

Morwen nasceu em 443, tendo apenas 12 anos quando a Dagor Bragollach começou. Muitos de seu povo fugiram para Dor Lómin assim que Bregolas e muitos outros homens morreram em batalha, mas Baragund e outros continuaram ao lado de Barahir, e seguiram ele com fé. Barahir e os descendentes de Beór que mantiveram-se junto a ele agüentaram a situação por um ano, mas em 456 a situação se tornou tão alarmante que a esposa de Barahir, Emeldir, juntou todas as mulheres e crianças que sobraram e as conduziu para o sul de Dorthonion. O caminho de Emeldir passava pelas Ered Gorgoroth, as Montanhas do Horror, aonde aranhas gigantes viviam desde séculos atrás, tornando quase impossível a passagem tanto para humanos quanto para elfos.

Emeldir e sua filha Haril somem subitamente da história após alcançarem Brethil, onde alguns de seus seguidores ficaram, mas Morwen e seu primo Rían [que na época tinha 6 anos] passaram pra Dor Lómin para se juntar ao resto de seu povo. Mesmo que a maioria dos humanos tivesse sido morta em guerra, os descendentes de Beór não deixaram de existir como um povo. Seus filhos cresceram para formar uma nova geração de guerreiros, mas tornaram-se quase que fundidos com os "Marachians" de Dor Lómin.

Ao mesmo tempo em que Morwen estava viajando pelas Ered Gorgoroth, o jovem Húrin e seu irmão Huor estavam apreciando a hospitalidade de Turgon em Gondolin. Eles estavam com parentes em Brethil quando a Dagor Bragollach começou e a tribo de Haleth mandou guerreiros para ajudar a resistir a investida de Morgoth; sendo que a maioria deles morreu, e Húrin e Huor foram separados de seus companheiros e resgatados pelas águias de Manwë, que os levaram para Gondolin, onde ficaram por um ano. Eventualmente, Turgon aceitou deixá-los voltar para Dor Lómin. Tolkien não deixa claro quando Húrin e Morwen se conheceram, mas deve ter sido logo na ocasião de sua chegada a Dor Lómin, ou pouco depois desta [dependendo de quem chegou em Dor-lomin por último]. Ela ainda era muito nova para o casamento, mas no ano 461 teria 18 anos. Túrin nasceu em 464, então Morwen ainda era bastante nova quando casou com Húrin, mas pelos primeiros oito anos seu casamento pareceu ser bom. Eles tiveram três filhos: Túrin, Urwen [que morreu] e Nienor. Húrin nunca viu sua caçula, pois ela nasceu depois da Nirnaeth Arnoediad, no final da qual Húrin foi feito prisioneiro.

Por quase trinta anos, Húrin foi prisioneiro de Morgoth, e Morwen fez tudo o que pôde para proteger Túrin; mas o destino dele e o de Nienor foram obscurecidos pela maldade de Morgoth, e Húrin foi finalmente libertado quando seus filhos já estavam todos mortos. Ele encontrou Morwen em Brethil, esperando por ele perto da pedra que marcava o local onde Túrin havia morrido, e no fim sua reunião foi curta e amarga.

Uma história mais trágica é o conto de Aldarion e Erendis. Por anos, os fãs de Tolkien não tiveram nenhum real conhecimento sobre esse conto, exceto que ele existia, pois Tolkien o mencionou se
m grande ênfase na carta enviada a Dick Plotz [Líder da Sociedade Tolkeniana da América] em 1966, em "A Esposa do Marinheiro", que contava a história de Tar-Aldarion e sua relação trágica com seu pai e esposa. Essa informação foi passada para Robert Foster, que a mencionou na seção de Tar-Aldarion em "O Guia da Terra-média" [Editora Mirage, 1971] e "O Guia Completo da Terra-média" [Del Rey, 1978].

Em 1980, Christopher Tolkien publicou "A Esposa do Marinheiro" em Contos Inacabados, e ela é geralmente mencionada como "Aldarion e Erendis". Aldarion era o sucessor por direito ao trono de Númenor, e descendente de Rian e Huor. Erendis era também descendente de Beór, e descendia de Beleth, a filha de Baragund. Ela não descendia de Elros [Tar-Minyatur], e apesar de viver bastante, ela não tinha o Dom de viver muito mais do que qualquer humano que pertencia aos descendentes de Elros. Aldarion se tornou um marinheiro em sua juventude e apesar de se apaixonar por Erendis e eventualmente se casar com ela, o seu amor por ela era sempre menor em comparação ao seu amor pelo mar.

Erendis foi ficando amarga devido à falta de atenção que o marido lhe dedicava, e parecia odiar o mar. Ela eventualmente o deixou e foi criar sua filha Ancalime sozinha, longe da Corte em Armenelos. O ciúme de Erendis e o seu ressentimento primeiramente foram vistos muito calorosamente pela família de Aldarion e pelo povo de Númenor, mas ela foi ficando tão amarga que caiu em esquecimento. A separação entre Aldarion e Erendis impossibilitou que eles tivessem mais filhos, e Aldarion acabou por criar uma nova Lei de Sucessão na qual permitia Ancalime se tornar a Rainha em exercício de Númenor.

A vida de Ancalime acabou não sendo muito melhor que a de seus pais. Ela era perseguida pelos jovens rapazes de Númenor e acabou se escondendo ainda muito cedo para evitar a "caçada". Disfarçando-se como uma pastora, Ancalime passou seus dias em paz e silêncio até que um jovem pastor a encontrou. Ele se chamava Mamandil e eles se tornaram amigos. Mamandil era um grande cantor e freqüentemente entretinha Ancalime com canções antigas que seus ancestrais descendentes de Edan haviam cantado enquanto cuidavam de seus pastos em Eriador [ mais de 1300 antes ].

Mamadil eventualmente revelou seu verdadeiro nome, Hallacar, filho de Hallatan de Hyarstorni, um dos maiores Lordes Numenorianos e um descendente de Elros. A história de Ancalime e Hallacar nunca foi totalmente criada por Tolkien, mas ela por fim casou-se com ele por razões aparentemente políticas. Qualquer amor que ela sentisse por ele acabou se tornando amargura e mais tarde ódio, quando ela soube a verdade por trás de Hallacar, e é dito que ela o perseguiu a vida inteira. Hallacar realmente pregou-lhe uma peça muito cruel. Ancalime havia proibido que suas criadas se casassem, e em uma festa em sua casa [que Ancalime estava tirando dele], ele casou todas elas. Ele a humilhou, e aquele evento pode ter sido o golpe de misericórdia para a separação final entre eles.

Mesmo assim, Hallacar e Ancalime tiveram um filho, Anarion, que se tornou Rei de Númenor. O casamento de Anarion parece ter sido mais feliz que o de seus pais e o de seus avós. Ele teve no mínimo três filhos, dos quais o terceiro foi Tar-Surien.

Casamentos trágicos não foram confinados apenas aos Numenorianos. Durante a Terceira Era, Minalcar, Regente de Gondor, enviou seu filho Valacar para fechar a aliança com os homens do norte de "Rhovanion" [que é apenas um pequeno reino a leste de "Mirkwood" e não cobria toda a "Wilderland" que também é chamada de "Rhovanion"]. Valacar se casou com Vidumavi, filha de Vidugavia, rei de Rhovanion. O seu filho, Eldacar, nasceu em Rhovanion e foi chamado Vinitharya em sua primeira infância. A linhagem misturada de Eldacar, acabou levando a um conflito para a sucessão do trono de Gondor, que se desenrolou em uma sangrenta guerra civil, que quase arruinou o reino e iniciou o processo de declínio de Gondor.

Os Hobbits também tiveram seus casamentos trágicos, mesmo que o conflito não tivesse sempre sido entre marido e mulher, e nunca tenham levado a uma Guerra Civil. Drogo Bolseiro casou com Primula Brandebuque. Ele foi viver na Terra dos Buques, e acabou por adotar os costumes de seus novos parentes, como o de navegar no rio Baranduin [Brandywine]. Um dia, Drogo e Primula se afogaram em um acidente de barco, deixando seu filho, Frodo, órfão. Frodo foi viver com seu tio Bilbo Bolseiro, chefe oficial da família dos Bolseiros. Mesmo que fosse predestinada a grandeza de Frodo, nenhum Hobbit jamais pensou que este provocaria a Queda de Sauron. Ele pagou um grande preço por isso, pois teve que agüentar um grande tormento espiritual, mesmo depois que Sauron já havia sido vencido. Frodo foi tão "machucado" pela experiência de ser um portador do anel que acabou por ser admitido na Terra Abençoada além do mar, onde ele poderia ter seu espírito curado e uma morte em paz digna de seus feitos.

Um casamento muito mais feliz, sem dúvida, foi o casamento entre Sam Gamgee e Rose Cotton. Sam e Rose eram primos de terceiro grau, então não eram tão próximos. A família de Sam pertencia à classe trabalhadora dos Hobbits. Alguns deles eram "fazedores de corda", e alguns eram jardineiros. O pai de Sam, Hamfast, se tornou um jardineiro na Rua dos Bolseiros, servindo primeiramente Bilbo e mais tarde Frodo, e depois Sam tomou suas responsabilidades de jardineiro para com os Bolseiros.

A família de Rose vivia próxima da cidade de Bywater. Eles eram fazendeiros, mas bastante respeitados e apreciados. Quando Sam ainda era criança, muitas vezes passava seu tempo com os filhos dos Cotton, e até relembrou brincar com eles no lago enquanto ele e Frodo atravessavam Mordor a caminho da Montanha da Perdição. A coragem de Sam e sua fidelidade são geralmente a razão pelos seus créditos. Quando Galadriel recebeu os oito membros que sobreviviam do "Conselho do Anel" em Lórien, ela testou o espírito de cada um deles, e parece que o teste de Sam foi ter a oportunidade de voltar para o Condado e viver ao lado de Rose.

A história de Sam e Rose Cotton dificilmente pode ser percebida entre as páginas do Senhor dos Anéis, e muitos leitores parecem surpresos quando Sam de repente aparece com uma namorada que é orgulhosa dele, mesmo sem que saiba um de seus feitos junto a Frodo pelo bem do mundo, e pouco depois já estão casados. Rose tem uma vida longa pela frente, e nem tudo é fácil, pois, ela e Sam tiveram 13 pequenos hobbits para ser criados e alimentados [e crianças hobbit comem muito!].

Não existe nada realmente trágico quanto ao casamento de Sam e Rose. Ele é quase o casamento ideal. O único porém é que Sam fica dividido entre o amor por Frodo e o seu amor pela Terra-média. Ele se sente preso no próprio mundo que salvou, e Rose, enquanto viva, era a única razão para ele continuar vivendo, sendo o único remédio para a sua alma; pois Sam também havia usado
o Um Anel, e ainda sentia as cicatrizes em sua alma, mesmo que durante sua juventude a ferida não parecesse tão perigosa nem visível quanto a de Bilbo e Frodo. No final, depois da Senhora Rose morrer, e Sam cumprir tudo o que podia, ouve um chamado para o mar, e deixa a Rua dos Bolseiros e sua vida para trás, tomando passagem em um barco que com certeza esperava por ele há muito tempo.

Mas seu casamento, como o de Aragorn, terminou feliz, pois ele estava com Rose e Aragorn estava com Arwen, e mesmo que um ou o outro acabe por deixar a vida, pelo menos tinham memórias felizes para consolá-los, e sabiam que suas vidas haviam sido cheias de amor. E para um Hobbit, viver tão cheio de amor quanto um Rei ou Rainha de Númenor,talvez não seja algo tão pequeno assim.

Tradução de Fábio Bettega

Estranho como as notí­cias que vêm de Bri

(Nota – O texto foi publicado pelo autor Michael Martinez em 03/12/1999, antes do lançamento da Trilogia de O Senhor dos Anéis).
 
Dizem que não veremos muito Bri nos filmes de Peter Jackson. Bri é um
pequeno vilarejo ao leste do Condado, onde Frodo e seus companheiros se
encontram com Aragorn (lá conhecido como Passolargo). Espero que a
maioria das cenas de Bri explore como os Hobbits passam a viajar com o
Guardião, e assim o filme continuaria. Será que veremos Bri no Terceiro
filme? Ainda é cedo para dizer.
 
 
 
É uma pena que haverá pouco espaço para Bri no
filme, mas acredito que se alguém um dia criasse uma série televisiva
baseada nos filmes, haveria uma grande chance desta se basear em Bri. A
mini-série dos anos 80 “Anne of Green Gables�?, estrelando Megan
Follows, levou a uma seqüência de mini-séries e, finalmente uma série
televisiva, em que não aparecia nem Anne, nem Megan e nem ao menos
tinha a ver com as estórias de Anne/Green Gables. A série foi apenas
filmada na cidade onde Anne crescera.

Tal série televisiva
mostraria Bri corretamente? Infelizmente os filmes não o fazem. A Bri
de Jackson é um local pseudomedieval e ainda não está claro se a Colina
de Bri estará por perto (Esta é uma das pegadinhas lingüísticas de
Tolkien, pois “Bree�? quer dizer “Colina�?. Portanto, a cidade de Bri é
na verdade a cidade da “Colina�? – poderia esta ser a mesma sem a
Colina?).

Tolkien diz tão pouco sobre Bri que eu não me
surpreenderia ao encontrar muitas pessoas que não reparam em uma grande
parte da informação que ele providencia ao leitor. Bri dificilmente
seria considerada uma metrópole surpreendente. Tolkien diz que Bri
continha cerca de cem casas de pedra, pertencentes ao “Povo Grande�?. A
maioria dessas casas situava-se ao lado da colina e possuíam janelas
que apontavam para o Oeste (portanto eles estavam na parte oeste da
colina). O vilarejo era protegido por um dique profundo e uma cerca que
delimitava um semicírculo a partir da colina, no lado oeste. A estrada
passava pelo lado oeste da cerca e acabava na extremidade sudeste,
rodeando a colina.

Um dique e uma cerca para cem casas de
pedra. Essa descrição implica em ter existido uma grande quantia de
bens em alguma época do passado de Bri. Construções com pedras não são
difíceis de se achar aonde é fácil obter rochas, mas mesmo os Hobbits
tinham o hábito de construir casas de tijolo no Condado. Portanto, Bri,
aparentemente, tinha acesso a uma razoável quantia da grande economia
de Eriador em tempos passados, quando havia mais pessoas e certa
demanda por rochas.

A localização de Bri nos cruzamentos das
grandes estradas de Eriador provavelmente favoreceu sua sobrevivência
ao longo da Terceira Era, mais do que qualquer outro fator. As estradas
percorriam de Fornost Erain ao norte até Tharbad ao sul, e também dos
Portos Cinzentos a oeste, percorrendo todo o caminho até as Montanhas
Sombrias e além. A estrada leste-oeste aparentemente foi construída
pelos Anões, mas parece que os Númenorianos a tomaram quando fundaram
Arnor.

Os dias de glória de Bri provavelmente ocorreram a
partir dos anos 1300-1600 na Terceira Era. Esse foi o período em que os
Hobbits migraram para o oeste, de Rhudaur a Arthedain, sendo que muitos
deles se estabeleceram em Bri. Arthedain foi o mais poderoso dos três
reinos dos Dúnadan em Eriador, e seus habitantes eram os ancestrais do
povo de Aragorn. Outros povos viveram em Arthedain durante esses anos
também; alguns com certa descendência Dúnadan, alguns com descendência
dos Edain que se estabeleceram em Eriador (em sua maioria Beorianos) e
alguns descendentes dos Gwathuirim, o misterioso povo das florestas de
Enedwaith e Minhiriath, que lutaram por Sauron na guerra entre os Elfos
e Sauron. Os homens de Bri eram descendentes deste último grupo, sendo
o único grande grupo de homens (a não ser os Dúnadan) que sobreviveu à
Queda de Arnor.

Os reis de Arthedain proclamaram soberania
sobre toda a antiga Arnor a partir de 1356 e, após a Guerra de 1409,
Arthedain se tornou Arnor novamente. Mas seu povo havia diminuído em
número. Muitos pereceram nas várias guerras. Famílias inteiras e
vilarejos devem ter desaparecido na grande invasão de 1409.

Bri deve ter assumido um papel estratégico na guerra de 1409. Cardolan,
o reino sulista de Eriador, estava invadido. A maioria dos Dúnedain de
Cardolan vivia nas Colinas do Sul, uma cadeia de colinas ao sudeste de
Bri. Angmar invadiu e tomou essas colinas, matando muitas pessoas e
fazendo com que os sobreviventes migrassem na direção oeste. Alguns dos
Dúnedain se refugiaram em Tyrn Gorthad, as colinas ao sudoeste de Bri.
Nesta época não havia criaturas tumulares nas colinas e foi por muito
tempo um lar para os Dúnedain e Edain. Porém o exército de Angmar
também atacou Tyrn Gorthad e o último príncipe de Cardolan ali morreu.

Arthedain recebeu ajuda de Lindon. Círdan enviou um exército de Elfos
para ajudar os Dúnedain. Este exército deve ter unido suas forças ao
exército de Arthedain ao passar por Bri. Tal encontro ajudaria a
explicar por que o exército de Angmar não chegou ao norte, em
Arthedain. Os soldados do Rei Bruxo estavam no final de uma longa
linhagem. Eles estavam praticando uma política de destruição, enquanto
o exército dos Elfos havia surgido há pouco tempo. Elrond, que estava
sitiado em Valfenda, trouxe um exército de Lórien e ajudou a enfrentar
o exército do Rei Bruxo.

Após a guerra de 1409, Cardolan se
tornou uma parte da Arnor reunida, mas seu povo era pequeno e
dificilmente algum Dúnedain havia permanecido em Cardolan. Bri foi,
provavelmente, a primeira grande cidade ao norte de Tharbad. Devia
existir trânsito entre Fornost Erain e Tharbad, onde Arnor já havia
mantido uma guarnição ao lado de uma guarnição Gondoriana e,
provavelmente, os reis de Cardolan haviam mantido a guarnição sob seu
controle. Mas Arnor teve apenas duzentos anos para se recuperar da
guerra devastadora até a Peste Negra vir do Norte.

Além de
Tharbad, havia nas colinas ao norte de Dunland uma grande comunidade de
Grados. Alguns dos Grados viveram ali desde que seus ancestrais
cruzaram as Montanhas Sombrias por volta do ano 1150 da Terceira Era,
mas outros migraram para o Sul a partir de Rhudaur em 1300, quando
Angmar ergueu-se no norte. Os Grados de Dunland não parecem ter
estabelecido muitas interações com os Pés-Peludos e os Cascalvas de
Arthedain, mas havia algum tipo de comunicação, uma vez que muitos
Grados migraram para o Norte, quando o Condado foi fundado por Marcho e
Blanco em 1601.

É difícil imaginar como teria sido Bri antes
dos Hobbits chegarem ao oeste, a partir de Rhudaur. Provavelmente foi
uma cidade fronteiriça calma, aproveitando o fato de estar no
cruzamento entre dois reinos. Os Hobbits provavelmente devem ter dado
uma olhadinha na colina e então se apaixonaram. Muitos deles se
estabeleceram no lado leste da Colina, na cidade de Estrado. Como todos
sabemos, Estrado foi fundada nessa época.

Dentre os viajantes
que passavam por Bri devia haver Dúnedain, Anões, Elfos e vários homens
de muitos povos. O trânsito leste-oeste provavelmente era mais
utilizado por Elfos e Anões, e o trânsito norte – sul era utilizado
principalmente por Homens e Hobbits. Os Hobbits (e Homens)
provavelmente viviam ao norte da terra de Bri. As terras ao longo da
estrada ao norte devem ter sido bastante populosas.

Tudo isso
começou a mudar em 1601. Primeiro os Hobbits migraram para o Oeste, se
estabelecendo nas terras além do Rio Baranduin (Brandevin). Marcho e
Blanco partiram de Bri, mas nem todos os Hobbits de Bri saíram à
procura de novas terras. E como havia outras comunidades de Hobbits
naquele tempo, a maioria dos colonizadores deve ter vindo de fora de
Bri.

Por que os Hobbits decidiram colonizar novas terras? Tolkien escreve no prólogo que os Pés-Peludos “eram
a variedade mais comum e representativa de Hobbits, e sem dúvida a mais
numerosa. Eram os mais inclinados a se acomodar em um único lugar, e
preservaram por mais tempo o hábito ancestral de viver em túneis e
tocas�?
.

Minha opinião é a de que os Hobbits estavam
sofrendo um grande aumento populacional. Todos os povos de Arnor
poderiam estar em crescimento e o rei Argeleb II deve ter achado que já
era tempo de proclamar algumas das terras perdidas e abandonadas. O
exército de Elendil sofreu graves perdas durante a Guerra da Última
Aliança (Segunda Era, 3329-41). A principal parte do exército
sobrevivente voltou a Arnor no ano 1 da Terceira Era, mas Isildur
permaneceu em Gondor até o próximo ano e, subseqüentemente, sofreu uma
emboscada junto de seus três filhos mais velhos e 200 soldados Dúnadan.
Portanto, Arnor entrou na Terceira Era com menos homens do que tinha no
começo, quando Elendil fundou o reino, no ano 3320 da Segunda Era.

Não era somente o fato de que muitas famílias não tinham pais. Muitos
homens jovens devem ter corrido antes de ter se casado, ou mesmo antes
de poder criar muitos filhos. Famílias completas devem ter morrido
dentre os Dúnedain e outros homens de Arnor. Valandil, filho mais novo
de Isildur, vivia em Annúminas, a cidade do governo de Elendil, durante
os anos de seu reinado (Terceira Era, 10-299). Mas Tolkien escreve que
seus herdeiros (presumivelmente começando com Amlaith de Fornost, filho
mais velho do último Grande Rei de Arnor e primeiro rei de Arthedain)
mudaram a residência real para Fornost Erain.

É sensato
inferir que a maioria dos Dúnedain estava, nesta época, vivendo nas
Colinas do Norte, ao leste das Colinas de Evendim. Annúminas situava-se
nas Colinas de Evendim, ao norte das terras que se tornaram o Condado.
Elendil pode ter feito um forte recrutamento nas famílias dessa região
e esses soldados podem ter formado o núcleo do seu exército. A
afirmação de que os homens das Colinas de Evendim e a conduta real
entre o Baranduin e o Lune enfrentaram a maior parte das perdas de
Arnor na Guerra sugere uma razão pela qual tal região deixou de ser
populosa.

Sabemos que os reis se mudaram para o leste em
Fornost porque não havia pessoas suficientes para habitar Annúminas.
Presumivelmente, havia poucas pessoas vivendo perto da cidade também.
Portanto a cultura Dúnadan centralizou-se nas Colinas do Norte. Outros
homens de descendência Beoriana haviam vivido nas terras baixas entre
as Colinas do Norte e Bri. Sauron invadiu essas terras durante a Guerra
dos Elfos e Sauron (Segunda Era, 1695-1701), mas se alguns dos
Beorianos sobreviveram à guerra, eles provavelmente se restabeleceram
nas terras que haviam perdido.

Devido ao fato de que os
Dúnedain possuíam as Colinas do Norte, e de que ninguém escolhera viver
nas Colinas do Vento (que formavam a fronteira entre Arnor e Angmar),
parece que os Hobbits tinham poucos lugares para cavar seus túneis. Bri
teria sido o local ideal, mas pode não ter suportado todos os Hobbits.
Desta forma, Argeleb II teve que achar uma solução para os Hobbits que
queriam viver em túneis nas colinas.

As terras além do
Baranduin eram repletas de colinas. Eram as Colinas Verdes, Colinas
Brancas e as Colinas Distantes, menores do que as grandes colinas do
leste, porém suficientes para abrigar as muitas comunidades Hobbits. O
encorajamento para os Hobbits se estabelecerem nas terras ao oeste
teria reduzido a pressão sobre os homens que viviam ao norte de Bri, se
sua própria população já estava aumentando. Argeleb e seus conselheiros
devem ter achado que o futuro de Arnor seria um tanto quanto generoso.
Sauron deve ter concluído o mesmo também.

Gondor havia passado
por uma crise (1432-48) logo após Angmar ter sido derrotada em 1409.
Mas apesar dos rebeldes Gondorianos terem fugido para Umbar e se
separado do reino sulista, Gondor permaneceu forte e foi reforçada por
muitos homens do Norte que se estabeleceram no reino. Sauron deve ter
concluído que seus esforços para enfraquecer os reinos dos Dúnadan,
através de guerra após guerra não estavam funcionando. Então ele
preparou a Peste Negra e a liberou sobre a Terra-Média. Não parecia
importar a ele que os homens que o serviam também sofreriam. Seu
objetivo parece ter sido enfraquecer os reinos Dúnadan, e nisto ele
obteve sucesso.

A Peste Negra devastou o Norte e o Oeste, e
terras atrás de terras. Os habitantes de Dunland sobreviveram porque
eles ainda eram um povo essencialmente primitivo, provavelmente ainda
vivendo em clãs e famílias espalhadas, assim como seus ancestrais
haviam feito centenas de anos antes. Mas os Grados de Dunland viviam
unidos em comunidades e morreram como resultado da Peste. Tharbad,
provavelmente, também sofreu muito, mas sendo a base para as guarnições
reais, provavelmente devia ter certo contingente de sábios e
curandeiros que poderiam ajudar a preservar a cidade.

As
pessoas infelizes de Minhiriath e ao norte de Cardolan, por outro lado,
foram devastadas.Todos os Dúnedain remanescentes de Cardolan (que nesta
altura do campeonato já deviam ser poucos) pereceram e muitos dos
outros povos, que ali viviam, morreram também. Cidades inteiras
provavelmente desaparecendo no período de uma estação. Num dado mês,
pessoas estavam cultivando os campos, vendendo mercadorias; no outro
mês elas estavam mortas ou muito doentes para continuar.

A
Peste diminuiu assim que chegou às regiões situadas mais ao norte de
Eriador, portanto os Hobbits além do Baranduin sofreram intensamente,
mas sobreviveram. No entanto, pode ser que muitos outros Hobbits que
viviam fora do Condado e de Bri tenham morrido nesta época. Bri também
devia ter sábios e curandeiros, sendo uma cidade importante, mas seu
povo deve ter sofrido tanto quanto os Hobbits.

Portanto, Arnor
sofreu um contratempo mais sério nos dias da Peste Negra do que havia
sofrido na Guerra de 1409. Arthedain emergiu da guerra como uma Arnor
renascida. Muitas pessoas morreram na Guerra, mas os Elfos ajudaram a
atacar Angmar, enquanto não puderam ser muito úteis contra a Peste
Negra, mesmo tendo dons de cura. Homens e Hobbits tiveram que deixar a
natureza seguir seu curso.

Desta forma, Bri deve ter declinado
devido à Peste Negra. Muito do tráfego do Sul deve ter desaparecido
completamente. Tharbad ainda devia mandar mensageiros ao norte, mas
Gondor havia retirado suas guarnições (se é que algum dos soldados
havia sobrevivido) e após essa época os dois reinos Dúnadan se isolaram
por muitos anos. Sem os Grados não havia mais razão de esperar trânsito
proveniente de Dunland.

O povo do Condado permaneceu próximo
do povo de Bri nos primeiros anos, no entanto havia um grande tráfego
entre Bri e o Condado. Provavelmente os Anões também mantiveram um
trânsito estável, pois isso foi antes da desgraça fazer com que os
Anões Barbas-Longas deixassem sua terra natal para partir rumo a uma
migração de centenas de anos. Os grandes dragões ainda não haviam
chegado do Norte para perturbar os Homens e os Anões. A Terra-Média
devia parecer um lugar razoavelmente seguro após a Peste Negra.

O Rei Araval tentou recolonizar Cardolan, provavelmente após ele obter
vitória sobre Angmar em 1851. O ano de 1851 marcou o começo dos
problemas de Gondor com os ferozes orientais que derrubaram os homens
do norte de Rhovanion. Sauron deve ter se sentido ameaçado por três
poderes: Os reinos de Rhovanion, Arnor e Gondor.

Rhovanion
foi destruída, Gondor havia perdido um rei e suas tropas ao leste, e
Arnor havia vencido uma breve guerra. Mas os esforços de Araval para a
colonização falharam, pois Angmar havia enviado espíritos para
enfrentar as Colinas dos Túmulos em Tyrn Gorthad, após a Peste Negra.
Ninguém podia enfrentar o terror emanado por esses monstros.


A conseqüência, portanto, é que a população de Arnor estava crescendo
novamente, apesar de não sabermos que povo Araval tentou enviar como
colonizador. Bri deve ter permanecido serena para se beneficiar do
comércio renovado com Cardolan (que, de qualquer maneira, deve ter se
recuperado um pouco após a Peste), portanto seu povo deve ter ficado
muito desapontado com o fracasso da colonização.

O fracasso de
Araval precedeu, por algumas décadas, uma renovação do combate com
Angmar. Desta vez, os ataques de Angmar começaram a implicar em perdas
significantes para Arnor. A população deve ter diminuído e sua
habilidade em manter um grande exército se tornou deficiente. O Rei
Araphant retomou a comunicação com Gondor em 1940. Tal comunicação,
presumivelmente realizada através do palantíri, não deve ter surtido
impacto sobre Bri. Notícias da guerra passavam através da cidade, mas
eram notícias antigas e defasavas quando lá chegavam.

Em 1974,
Angmar invadiu Arnor. As Colinas do Norte se renderam, Fornost Erain
foi tomada e os Dúnedain que evitaram ser assassinados, em sua maioria
fugiram para Lindon a oeste. Tolkien escreve que “o povo do Condado sobreviveu, apesar da guerra atingi-los e a maioria deles fugiu, se escondendo�?.
Onde eles se esconderiam? Provavelmente nas colinas e bosques. Suas
cidades, como a Vila dos Hobbits e Beirágua, foram provavelmente
destruídas.

Que destino teve Bri? Não sabemos, mas deve ter
sofrido por ter sido privada de suporte e comunicação com o resto de
Arnor. O povo de Bri subitamente se encontrou sozinho, e pode ter sido
atacado ou talvez até mesmo afastado. Mas acho improvável que Bri tenha
sido diretamente atacada. O Rei-Bruxo parece ter se concentrado
primeiramente na destruição do poder dos Dúnedain. O povo do Condado
deve ter sofrido somente porque a guerra havia explodido próxima a eles.

Após Gondor, Lindon e Valfenda terem destruído Angmar, as pessoas
restantes de Eriador tinham que retomar suas vidas. Mas Arnor não foi
restabelecida por Aranarth, filho de Arvedui, o último Rei de Arnor. Ao
invés disso, ele assumiu o título de Capitão dos Dúnedain do Norte. É
possível imaginar como tais notícias foram recebidas pelo povo de Bri.
Ao invés de ver seu Rei retornar ao trono e Arnor se fortalecer
novamente, eles foram, basicamente, abandonados nas terras amplas e
desoladas. O Condado permaneceu, e ainda havia Anões para viajar nas
estradas, mas provavelmente não havia outros tráfegos nesses dias.

Além disso, Khazad-Dûm havia sido destruída apenas alguns anos depois.
Com o falecimento da grande civilização dos Barbas-Longas, Eriador
provavelmente vivenciou um breve influxo de Anões e depois uma baixa no
tráfego. Tharbad permaneceu, mas nesta época deve ter sido quase uma
sombra de si mesma, sem quaisquer soldados para protege-la. O Condado
também permaneceu, agora governado por seus próprios capitães e Thain,
mas o povo do Condado estava ocupado em reconstruir suas vidas após a
guerra também, e não era provável que eles participassem de grande
comércios.

Portanto o longo declínio de Bri começou após a
guerra final com Angmar. Os Dúnedain provavelmente se estabeleceram nas
terras ao leste de Bri, pois Tolkien diz que os habitantes de Bri
sabiam ou acreditavam que os Guardiões viajavam principalmente nas
terras ao leste e sul de Bri. E também sabemos que os Guardiões
mantinham guarda sobre o Condado, mas sua guarda mais visível foi
estabelecida no Vau Sarn, na Quarta Sul. É possível que o povo de
Aranarth, ou seus descendentes, tenham se estabelecido nas Colinas do
Sul por estar perto de Valfenda e se situar entre Tharbad, Bri e o
Condado?

Os Guardiões parecem ter atribuído a si mesmos a
tarefa de limpar Eriador. O Rei-Bruxo havia preenchido Angmar com
criaturas e homens malignas, e apesar de muitos destes terem sido
destruídos quando Gondor e Lindon derrotaram o exército do Rei-Bruxo na
Batalha de Fornost, parece que o norte de Eriador nunca esteve
totalmente livre de criaturas malignas novamente.

Em “No Pônei Saltitante�?, Tolkien escreve que no final da Terceira Era, “não
havia outros homens (com exceção daqueles de Bri) que tivessem fixado
residência em ponto tão extremo do oeste, ou dentro de cem léguas do
Condado�?
. Se tomarmos uma légua para medir aproximadamente três
milhas, isto significaria que os estabelecimentos humanos mais próximos
estavam nas Montanhas Sombrias. Uma vez que não é impossível afirmar
que os Dúnedain viveram nos pés das montanhas a oeste, próximo de
Valfenda, parece que os Guardiões deveriam passar bastante tempo fora
de casa. No entanto, a maioria das atividades dos Guardiões mencionadas
por Tolkien, de fato ocorreram próximas a Valfenda.

 
Ambas as Colinas do Sul e as Montanhas Sombrias parecem se encaixar às
palavras de Tolkien, apesar de que as Colinas do Sul estão mais
próximas do Condado do que cem léguas. Então, pode ser que o povo de
Aragorn tenha mesmo se estabelecido nas Montanhas, e só mandavam
Guardiões a Eriador para manter vigilância sobre o Condado, a Terra dos
Buques e Bri.

O declínio de Bri a partir do final do século XX
deve ter sido relativamente lento e gradual. Nunca houve alguma
esperança de recuperarem o antigo status que a cidade outrora havia
vivenciado, mas permanecia no cruzamento entre oeste, leste e sul.
Tharbad, o Condado e os Anões de Ered Luin providenciavam pelo menos
algumas trocas e comércio, e traziam notícias a Bri para serem
divididas com outros povos. Os Guardiões também devem ter visitado a
cidade em suas muitas viagens. O povo de Bri devia, em principio, saber
quem eram os Guardiões, mas com o passar dos séculos eles acabaram
esquecendo a conexão e se tornaram um tanto quanto desconfiados e
desdenhosos em relação aos Guardiões.

O século XXIV vivenciou
um retorno de coisas maléficas a Eriador, assim como a fundação da
Terra dos Buques. Tolkien menciona que havia transito entre a Terra dos
Buques e Bri por muitos anos, e entre a Quarta Leste e Bri. Acho isso
curioso, uma vez que a Quarta Leste parecia ter uma ampla população de
Grados. Mas talvez os Grados foram influenciados por seus antigos
hábitos de negociações com homens, portanto eram atraídos até Bri.

Assim que Eriador tornou-se mais e mais perigosa através dos séculos,
Bri deve ter sido como uma ilha no mar para muitos viajantes. Eles
deviam encontrar alojamentos seguros após muitos dias nas terras
selvagens, ou deviam se preparar para longas jornadas ao leste e sul,
obtendo provisões para seus grupos em Bri.A alimentação e equipamento
de grupos de viajantes não deve ter proporcionado muita renda, mas deve
ter ajudado a trazer o tráfego que Eriador podia proporcionar.

O último século da Terceira Era, no entanto, deve ter sido realmente
difícil para Bri. Tharbad fora desertada em 2912 após ter sido alagada.
Qualquer transito que passava por Bri deve, então, ter diminuído ou
desaparecido completamente. O Condado e a Terra dos Buques estavam se
tornando um tanto quanto insulares, e no final do século, Saruman de
Isengard se interessou pelo Condado, o que parece ter desviado uma
grande quantidade de negócios de Bri.

Tudo o que deve ter
restado para o povo de Bri seriam Anões, Guardiões e a migração
ocasional de Elfos fugitivos. É provável que a população local tenha
diminuído constantemente através das ultimas décadas, pois não havia
comércio suficiente para sustentar uma cidade grande. Mas para onde as
pessoas foram? Será que todas morreram?

 
Provavelmente não. Se Bri sofreu um declínio, sem duvida, alguns de seu
povo estabeleceram-se em fazendas fora das vilas da Terra de Bri, mas
ainda dentro das fronteiras da Terra de Bri e (desconhecidamente)
protegidas pelos Guardiões. Ou pode ser que alguns dos habitantes de
Bri viajaram ao Sul para Minhiriath, para tentar a sorte nos ermos.

Cevado Carrapicho parece ter sobrevivido principalmente devido ao
comércio local, clientes freqüentes que comiam e bebiam no Pônei
Saltitante, mas não usavam os serviços de quarto. A estalagem
provavelmente serviu como um salão de encontros e sede em épocas
problemáticas. Cevado também cuidava do único estábulo da Vila de Bri.
Portanto, parece ter havido poucos (se é que restou algum) mercadores
no final da Terceira Era. O povo da cidade deve ter continuado seus
trabalhos, independentemente de quais eram, e provavelmente eram
moderadamente ativos em carpintaria e trabalhos de fazenda. Assim como
Cevado havia contratado ajudantes parece plausível que as fazendas
maiores contratassem moradores da vila para ajudar a plantar e colher,
limpar campos, e talvez, ocasionalmente, construir um celeiro ou casa.

Tudo o que o povo de Bri precisava deve ter sido cultivado ou feito por
eles mesmos no final da Terceira Era. Eles cultivavam sua própria
erva-de-fumo (Borda do Sul era a variedade da erva-de-fumo que Cevado
deu a Gandalf e aos Hobbits após a Guerra do Anel). Eles, de vez em
quando, provavelmente chamavam um Anão para trabalhos de ferreiro, ou
contratavam Anões para projetos especiais, mas caso contrário, parecem
ter se tornado bem independentes e auto-suficientes durante os longos
anos do final da Terceira Era.

Indiana Jones e os Tesouros da Terra-média

A notícia é que Harrison Ford finalmente concordou em fazer um quarto
filme do Indiana Jones. Não consigo imaginar nada a não ser de qual
fantástico artefato perdido ele irá atrás neste momento; mas acho que
poderia ser natural se Lucas e Spielberg enviassem o pseudo-arqueólogo
mais renomado e cheio de recursos de Hollywood atrás de alguma coisa da
Terra-média.
 
 
 
Tal filme poderia ser a expressão final de ficção
de fãs de Tolkien, até ser sobrepujado por alguma coisa no futuro do
cinema e da história.

O que seria importante o suficiente para
atrair o interesse de Jones, contudo? No primeiro filme ele foi atrás
da Arca da Aliança na esperança de mantê-la fora do alcance das mãos
dos Nazistas. O segundo colocou o Dr. Jones contra um revivido culto
Thuggi que estava roubando as cinco pedras de Shiva [e quatro delas,
desafortunadamente, foram derrubadas em um rio cheio de crocodilos]. O
terceiro filme tinha os rapazes Jones lutando contra os Nazistas uma
vez mais pelo controle sobre o Santo Graal.

A Terra-média
proporciona alguns artefatos interessantes que não foram completamente
explicados. Os primeiros grandes artefatos foram as Silmarils. Estas
jóias, criadas por Fëanor em Valinor, preservavam a luz das Duas
Árvores dos Valar, e eram por si mesmas abençoadas pelos Valar. Os
Noldor lutaram sua longa e desesperada guerra contra Morgoth pelas
Simarils, mas eles falharam. Beren e Lúthien recuperaram uma das
pedras, e apenas esta gema, das três, foi preservada, retornando aos
Noldor em Valinor por meio de Earendil e Elwing.

As outras
duas Silmarils foram perdidas. Maedhros jogou-se com uma das pedras em
um vulcão ou uma fissura que irrompeu durante as lutas entre o exército
de Morgoth e o exército de Valinor. Seu irmão Maglor jogou a outra jóia
no mar e passou a errar a esmo.

Pessoas familiarizadas com a
Bíblia podem relembrar que Pedro encontrou uma jóia na boca de um
peixe. Embora eu não esteja sugerindo que a jóia de Pedro fosse uma
Silmaril, é igualmente plausível que algum peixe eventualmente tenha
engolido a Silmaril. Por milhares de anos esta jóia passou através das
vísceras de peixe após peixe por várias razões, ocasionalmente
encontrando seu caminho de volta para as profundas águas escuras.
Eventualmente, poderia encontrar seu caminho de volta para a terra
através dos auspícios de um pescador muito afortunado.

E então
as aventuras poderiam começar. A jóia poderia passar por vários donos
através dos séculos, recebendo menção em um ou dois tomos perdidos, até
que finalmente algum rico capitalista com atração por jóias que podem
prover poder ilimitado decide que ele absolutamente precisa ter a
Silmaril. Isto poderia ser maior do que a bomba atômica. Mas agora, ao
invés dos Nazistas, Jones deveria lutar com os Comunistas, que também
estariam desesperadamente procurando pelo artefato perdido como um meio
de derrotar a Alemanha nazista.

Jones deveria descobrir todas
as pistas vitais que levariam à antiga pedra dos Elfos sem deixá-la
cair não mãos dos capitalistas malignos os comunistas desencaminhados.
E, claro, alguns Nazistas podem estar procurando a solução final para
seus próprios problemas de energia. Que a Silmaril estivesse escondida
em um antigo templo Inca nos Andes não seria nenhuma surpresa para a
audiência, porque todo mundo sabe que foi dado ao Dalai Lama o cuidado
da jóia sagrada gerações atrás, e ele a enviou para o último refúgio
dos Elfos na Terra.

Claro, toda esta intriga pode parecer
demais para uma Silmaril. Talvez o artefato perdido seja um Palantir.
Imagine o que sua agência local de espionagem poderia fazer com um
desses bebês, e sabe-se que dois são sabidos terem sobrevivido
sobreviveram à Terceira Era. Um, é claro, estava completamente
inutilizável exceto por alguém de vontade muito forte e autoridade
absoluta, mas o outro Palantir [a Pedra de Orthanc] foi preservado
intacto. Aragorn a usou para manter a ordem em seu reino e descobrir
onde no mundo ele deixou seus chinelos.

O Reino Reunificado de
Arnor e Gondor permaneceu por muitas gerações após a morte de Aragorn.
Seus descendentes, embora de vida longa, gradualmente perderam sua
longevidade ao estilo do Gênesis e eventualmente tornaram-se
indistinguíveis dos outros Homens. Os herdeiros de Eldarion foram reis
por 100 gerações dos Homens [cerca de 2500 anos], e a Quarta Era
provavelmente terminou quando o último rei foi retirado de seu trono em
algum canto perdido e há muito esquecido do norte do mundo.

O
Palantir e o jovem filho do rei poderiam ter sido levados em segurança
por servos leais e um número limitado de Elfos da Floresta que eram
incapazes de construir navios para navegar cruzando o Mar. Os Elfos da
Floresta recuaram para as altas montanhas e educaram o garoto para
ser… o primeiro VERDADEIRO Dalai Lama [alguém que viveu séculos antes
de Sonam Gyatso, que foi apontado o primeiro Dalai Lama em 1578].
Incapazes de continuar suas vidas no mundo físico, os Elfos entregaram
a guarda do Palantir ao Verdadeiro Dalai Lama e seus seguidores, que
mantiveram o Palantir em segredo por mil anos antes de atreverem-se a
usá-lo novamente.

Finalmente, um descendente dos Altos Reis e
verdadeiro Herdeiro de Eldarion [de uma linha jovem da antiga família
real] reivindicou o Palantir e levou-o dos monges Tibetanos para buscar
por fortuna e restaurar seu reino, mas ele deparou-se com os inimigos
de Buddha e foi destruído. O Palantir foi perdido e os monges do Tibet
dispersos. Aos subseqüentes Dalai Lamas foi dado o nobre propósito de
governar o Tibet, mas eles não eram mais guardiões da Orbe Sagrada.

Em sua insana busca por poder sobre o mundo todo, Napoleão encontrou o
Palantir no Egito [onde estava escondido no nariz da Grande Esfinge, e
ele ordenou aos soldados que a liberassem atirando no nariz
repetidamente]. Napoleão levou o Palantir à França e com este ele
tornou-se o homem mais poderoso do mundo, mas um descendente de
Eldarion surgiu nas fileiras dos exércitos de Napoleão para tornar-se
um Marechal da França, e ele reivindicou o Palantir, levando-o para a
Suécia [sim, Marechal Bernadotte, que tornou-se Rei da Suécia e inimigo
jurado de Napoleão].

Percebendo que o Palantir era perigoso e
que não poderia ser protegido do mundo moderno, o governante Sueco
enviou-o através do mar para ficar escondido por décadas em um antigo
monastério Espanhol controlado por um braço secreto da ordem Jesuíta.
Contudo, enquanto o poder e a influência dos papas declinava, um monge
renegado começou a usar o Palantir para fazer fortuna ao tempo da
Primeira Guerra Mundial. Ele retornou para a França em 1914 e quando se
preparava para liberar seu terrível poder do conhecimento sobre o
mundo, os Alemães bombardeiam a vila na qual ele estava. O monge foi
morto e seu furtivo e esperto servo escapa com o Palantir, sem saber o
que a pedra faz, mas supondo que ela possui algum valor intrínseco
acima da riqueza normal.

30 anos depois, durante a Segunda
Guerra Mundial, o antigo assistente do monge renegado é agora
responsável por uma organização de espiões super-secreta que está
vendendo informações para ambos o lados da guerra. O governo dos
Estados Unidos suspeita da dupla traição, mas não pode arriscar seu
relacionamento com a organização de espiões. Então ele contrata o Dr.
Jones para investigar uma antiga ruína no Norte da África que parecer
ser a localização do esconderijo dos espiões. Jones chega à escavação
apenas para descobrir que os espiões já sabiam de sua chegada. Eles o
jogam em um poço com cobras e…

Por outro lado, o artefato
não precisa necessariamente ser Élfico. A Pedra Arken, por exemplo,
poderia ser uma fonte bastante poderosa de energia a seu próprio modo.
Indiana e Marcus Brody poderiam estar vagabundeando na antiga Casa dos
Arqueólogos e escutar algum conto fantástico sobre uma jóia lapidada
por antigos Anões. "Anões!" Brody poderia dizer. "Que besteira!
Certamente você não acredita neste conto fantástico, acredita, Indy?"

"Nah, Marcus. Mas existe um grão de verdade dentro de cada fantasia.
Existe algum tipo de jóia lá fora. Ela poderia salvar o museu."

"Você acha? Nós poderíamos pagar a hipoteca e evitar o fechamento do museu!"

"Yeah, Marcus, mas existe apenas um problema. A única pessoa que sabe onde encontrar a Pedra Arken é… o Dalai Lama."

E claro, existiriam Anões vagabundeando por aí e eles estariam
guardando com muito ciúme o segredo da Pedra Arken em sua fortaleza
secreta nos Andes. A estrada para a fortaleza subterrânea é guardada
por estátuas estranhas que parecem estar vivas, Druedain acocorados.
Estes homens humildes de boa natureza vivem primitivamente nas
florestas tropicais das montanhas Andinas, guardando o caminho de todos
os intrusos. Mas eles possuem um teste sagrado que irá revelar se
alguém é um herdeiro verdadeiro de Eldarion. Se ele puder passar pelas
Sete Estátuas os Anões saberão que ele é verdadeiramente digno de
herdar a Pedra Arken.

Então Indiana encontra o caminho na
encosta da montanha, vencendo uma estátua mágica após a outra e
descobrindo pouco a pouco que ele é o verdadeiro herdeiro de Eldarion,
encontrado pelo destino para restaurar os antigos tesouros da
Terra-média para um mundo que precisa desesperadamente de suas
virtudes…

Ou, poderia existir uma companhia de lenhadores
que procura o aposentado Indiana Jones para perguntar a ele sobre
algumas estranhas árvores que eles encontraram vivendo na floresta
tropical da África. Enquanto Jones escuta o seu fantástico relato sobre
como as árvores parecem ter vida e defender a floresta contra todas as
tentativas de cortar a madeira da floresta, ele se lembra de uma
aventura de seus dias de juventude, quando ele estava procurando a
coroa perdida de Gondor na Etiópia e subseqüentemente encontra um
caminho para o centro da África. Lá, em uma cidade cercada por árvores
que se movem vivia uma bela rainha Élfica cujo povo era ameaçado por
trolls e orcs.

Claro, pode ser também que eles apenas enviem
Harrison para procurar por um artefato pré-histórico do espaço, uma
espécie de arma, uma espada de luz, que foi usada muito tempo atrás em
uma galáxia muito, muito distante…

[Tradução de Fábio ‘Deriel’ Bettega]