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Por Esta Espada, Eu Reino!

Os fãs de Robert E. Howard devem reconhecer o eco de uma aventura de Kull nesta sentença, "Por esta espada, eu reino". Howard gostava de escrever sobre guerreiros fortes e poderosos. Eles podiam ser homens do Velho Oeste Americano, boxeadores no ringue, ou bravos bárbaros que atravessam os salões de civilizações tão antigas que mesmo os cidadãos esqueceram sua origem distante.
 

Em alguns aspectos, Aragorn era um bárbaro, pelo menos de uma perspectiva gondoriana. Apesar de ser criado por Elrond em uma casa Eldarin, Aragorn não era um garoto mimado. E seu pai e avô foram mortos por monstros (respectivamente, Orcs e Trolls), dos quais a maioria do povo fugiria em terror absoluto.

Como os reis-guerreiros de Howard, Conan e Kull, Aragorn descendeu de um povo "atlante". Kull foi, na verdade, um atlante, forçado ao exílio. Ele e Conan deixaram seus povos bárbaros e se transformaram em reis. Aragorn também deixou sua terra natal (Eriador) e alcançou o trono real (de Gondor e Arnor).

Mas aí acabam as comparações, ou elas viram superficiais. Howard celebrava a força primitiva da pura "barbaridade", enquanto Tolkien celebrava a sofisticada sabedoria derivada do declínio e queda de muitas civilizações. Mas os dois escritores embutiram seus personagens de um senso de poder que invoca uma simetria de paixão.

Esta paixão aumenta o conflito entre os elogios e as críticas. Os personagens são tratados com grande respeito por alguns, e profunda irritação e chateação por outros. Conan já foi comparado a um velho gagá. Aragorn já foi comparado a um nobre cavalo.

É o aspecto bárbaro de cada personagem o que mais intriga o leitor, e Conan e Aragorn viram arquétipos ou estereótipos para heróis de ação/aventura. Eles são caracterizações primárias porque os dois, de algum modo, recebem uma sofisticação deixada de seus predecessores. (As histórias de Kull derivam das histórias de Conan por muitos anos, e Aragorn é comparável a Beren, que apareceu nas histórias de Tolkien pela primeira vez 20 anos antes de Howard escrever a história final de Conan).

Nenhum dos autores viveu o bastante pra ver o quanto seu legado literário seria direcionado para o mercado de massa e, na minha opinião, é ótimo para os dois. Imagine o quanto ficariam espantados em ver maus atores atravessando pedreiras a cada filme barato, destruindo monstros de borracha e escravizando mulheres que só sabem gritar?

Embora a magia de Kull/Conan estar focada na fúria bárbara, Aragorn é o primeiro Guardião/Ranger. Todos os Guardiões/Rangers são baseados nele, e os trilheiros também. Mesmo Norda, a trilheira da imperadora no recente filme de "Dungeons & Dragons", deve algo à compostura reservada de Aragorn, sua sabedoria perspicaz, e sua suprema competência nas habilidades de caçador. Quando Aragorn expressa dúvida sobre si, ele não está se importando se consegue perseguir algumas dúzias de orcs correndo no continente. Ele se pergunta se é capaz de fazer as escolhas certas, mesmo quando todas estão erradas. Norda, em cenas cortadas o filme, expressa dúvidas similares sobre suas próprias escolhas, mas continua confiante em suas habilidades.

Os guardiões/rangers de Aragorn às vezes me lembram os homens alegres de Robin Hood, misturados à uma fina nobreza. Não hà Little John no conto do exílio de Aragorn, mas Halbarad poderia fazer um interessante Will Stutley. Legolas poderia se juntar à brincadeira como Will Scarlet: um pouco afetado, mas forte e mortal. Gimli poderia ser Frei Tuck, perigoso com uma lâmina, rápido para o sarcasmo e grande adorador de vinho. Em público os Guardiões/Rangers de eriador parecem ser estóicos e quietos, mas tenho certeza que eles freqüentavam uma taverna ou duas. A Taverna Abandonada pode ter esse nome graças à festa do Bacharel de Arathorn II, que todos nós conhecemos.

Quando Robin toca sua corneta, os homens felizes vêm correndo com armas preparadas, e eles são uma força fatal a ser enfrentada quando sua raiva está acesa. Assim também são dos Dunedain que cavalgam ao auxílio de Aragorn em resposta à sua silenciosa necessidade. Kull tinha seus Assassinos Rubros e Conan tinha seus companheiros, mas Aragorn tinha 30 rangers.

Um dos momentos mais memoráveis para mim na história de Kull é o fragmento onde Kull leva seus guarda-costas (400 homens) ao rio Styx. Lá o velho homem da balsa os avisa que, quem quer que seja que atravesse o rio, não retornará. Ele fala de um poderoso exército, milhares de soldados, que cruzaram o rio. A batalha que confrontaram contra seus inimigos desconhecidos pôde ser ouvido por milhas e durou dias. E então só se pôde ouvir o silêncio. Kull fez a coisa certa. Ofereceu a liberdade à qualquer um que estivesse com medo, mas nenhum de seus guardas queriam desertá-lo. Ele só pôde elogiá-los, dizendo "vocês são homens".

Aragorn, ao estilo de Kull, liderou seus trinta homens através das Sendas dos Mortos. Eles também, se recusaram a abandonar seu líder. É difícil imaginar um cara citadino, mesmo Boromir, comandando esse tipo de amor e respeito de seus soldados. E Boromir também não era nenhum mauricinho. Quando apareceu em Valfenda, ele tinha ficado em terras selvagens por um bom tempo. Ele deveria estar muito feio, mesmo se as donzelas élficas fizessem barba e cabelo antes do grande conselho. Então Boromir conseguiu pelo menos um título de Bárbaro Honorário.

Mas ainda há um problema em desenhar uma analogia aos Dunedain de Tolkien. Eles podem não ter vivido em cidades por muito tempo, mas eles não abandonaram a civilização. Ela pode ter se esvaído em sua volta, mas eles preservaram suas melhores qualidades. Os primitivos Rohirrim pareceriam garotos rústicos perto da pequena companhia de Rangers Eriadorianos.

Os verdadeiros bárbaros das histórias de Tolkien são geralmente chamados sumariamente, ou ficam fora de cena. Esses são os Orientais, membros de tribos sem nome sem costumes estipulados. Agora, algumas pessoas podem ser rápidas e apontar os Homens do Norte como bárbaros também. Bem, sim e não. O que é um bárbaro? No senso clássico, o bárbaro é um forasteiro. Kull e Conan eram estranhos às culturas que vieram a governar. O fato de eles vestirem roupas engraçadas, falarem estranho, e poderem matar cinco vezes mais homens do que qualquer soldado eram o que revelavam a sua barbaridade. No fundo de cada um, eles eram estranhos à maneira que as pessoas civilizadas eram.

Os homens do Norte de Tolkien não apenas eram amigos dos Dunedain, como se casavam livremente com eles, e ajudaram a criar laços estreitos em Gondor (mais de uma vez). E eles tinham suas próprias cidades, como Lake-town, Dale, Edoras, e Aldb
urg. Alguns de vocês podem dizer que Framsburg pode ter sido uma cidade, já que eram grande o bastante para conseguir um nome e uma marca no mapa.

Mas os Orientais representaram a barbaridade como os escritores bíblicos o perceberam. Eles usaram a palavra grega "bárbaro" para denotar pessoas que não falavam grego. Os Orientais não falavam Sindarin, a língua das culturas sofisticadas, nem Westron, a língua do prestígio imperial dos Dunedain. Pode haver Orientais que conhecem Westron o suficiente pra conseguir se comunicar, mas eles são orientais, e é Westron, a língua do oeste. Orientais são tão diferentes, que parece que apenas duas palavras foram preservadas em suas histórias: variag e khand.

No mundo antigo, a língua era uma poderosa ferramenta do estado. Cidadãos poderiam ser separados de estrangeiros rapidamente baseado em quem falava tal língua. E a língua também foi usada para estabelecer o poder sagrado, e recordar as tradições das culturas locais. Uma pessoa que não sabia escrever não era sofisticada, e uma pessoa que falava ou mesmo escrevia uma língua estrangeira eram estrangeiros, não tão importantes como aqueles que falavam a verdadeira língua-mãe. Quando Roma impôs suas leis através do mundo Mediterrâneo, latim virou uma grande língua, enquanto o grego ainda prevaleceu no leste.

Tolkien também usa a língua pra separar os locais dos estrangeiros. Os Noldor, que cairam em decadência, viraram estrangeiros em seu exílio. Para poderem viver entre os Sindar, eles foram forçados à adotar a língua dos Sindar. A perda de sua língua-mãe é uma marca de sua vergonha, e com certeza uma marca da supremacia dos Sindar em Beleriand. Os Noldor construíram muitas cidades de pedra, e todas as grandes fortalezas fora de Doriath, mas ainda eram estrangeiros, e nem todos os Sindar gostavam deles.

Como os Noldor em Beleriand, o povo de Aragorn eram exilados que retornaram à Terra-Média. Eles se estabeleceram junto de seus primos menos sofisticados, mas os Dunedain exilados se beneficiaram de um revés na sorte. Númenor havia se tornado um poder dominante na Terra-Média, e a civilização foi conduzida aos homens da Terra-Média pelos Numenoreanos. Portanto, foi a língua adunaica numenoreana que se espalhou por toda a terra e virou o símbolo da civilização.

Aragorn com certeza falava westron bem, mas ele também conhecia o Sindarin, e falava fluentemente. Na verdade, os Sindar viraram estrangeiros para a maioria do pessoal. Gondor, mesmo sozinha entre as nações da Terceira Era da Terra-Média, ainda retinha grande conhecimento de Sindarin. Como o Quenya foi antes, Sindarin virou um pouquinho mais que uma língua dos sábios para os Dunedain. Eles o preservaram ao invés de enriquecê-lo. Eles preferiram não o expandir.

No mundo de Tolkien, palavras são acompanhadas por ações. No mundo de Howard, ações são acompanhadas por palavras. Quando o bárbaro Kull quebra as tábuas de pedra com as leis de Valusia, ele levanta seu machado acima da cabeça e grita "Por este machado, eu reino!". Quando Aragorn revela sua verdadeira herança a Éomer e os Rohirrim, dizendo sua lista de nomes e títulos, ele levanta sua espada e grita, "Aqui está a espada que foi quebrada e foi forjada novamente!"

Como Kull e Conan, Aragorn chega à sociedade gondoriana de fora, rompendo políticos e destronando líderes locais. Denethor fica ofendido com a idéia de deixar seu cargo para "alguém como ele, o último de uma casa destruída, por muito tempo privado de dignidade e nobreza". Mesmo quando ele é presenteado com a oportunidade de entrar na cidade como o vitorioso capitão da guerra, Aragorn prefere ficar de fora como "o Capitão dos Rangers, que não precisam de cidades e casas de pedra". E com isso ele ordena que sua bandeira seja dobrada e que a Estrela do Norte.

Só resta a Aragorn assumir o comando dos exércitos de Gondor antes que ele possa clamar sua coroa formalmente. Apesar de ganhar a confiança do povo rapidamente, eles precisam de um rei-guerreiro, e não de rum rei-filósofo-de-fala-empolada. Aragorn prova que ele possui grande conhecimento e habilidade com línguas, mas suas palavras são ofuscadas por seus atos. Ele é bravo e forte, mas também deve ser decisivo.

É uma parte da magia do bárbaro que, onde um homem civilizado vai ponderar o significado de palavras e profecias, um bárbaro vai seguir em frente destruir o nó que perplexou o mundo civilizado por séculos. É preciso de um rei Macedônio para espalhar a civilização grega por metade do mundo conhecido. É preciso um rei Dunadan para levar Gondor à vitória em suas guerras com o leste. Onde Denethor e seus capitães sentam em suas torres e imaginam o quanto eles conseguirão resistir aos ataques de Mordor, Aragorn corre através das Sendas dos Mortos, recruta um exército fantasma, e usa isso para acabar com as forças dos inimigos de Gondor.

Então Tolkien nos presenteia com duas faces da barbaridade: o bárbaro puro, incorrupto ou justificado pelo longo exílio, e o bárbaro corrupto, perdido no mal e na escuridão. É o puro bárbaro que representa o melhor das idéias românticas uma vez visadas pela civilização. Sua barbaridade é a do estrangeiro. Ele não é um selvagem ou um oponente virulento que visa unicamente saquear e pilhar as cidades costeiras. Ele é um salvador vindo para completar as antigas profecias. Sua força é pura e seu coração é nobre.

Bárbaros às vezes são creditados com a revigoração de civilizações decadentes. E Aragorn é o Renovador. Ele inicia um período de crescimento e vigor renovados nas sociedades Gondorianas e Arnorianas. Ele infunde os Dunedain com sangue novo, quando se casa com Arwen, a princesa Meio-Elfa cujo povo foi renegado ao status de bárbaros.

Os bárbaros de Tolkien, então, serviram ao mesmo propósito dos bárbaros de Howard. E sem dúvida os escritores reconheceram os fins das civilizações, e apreciaram o quanto a barbaridade representa mais que somente um contraste pra a civilização. Barbaridade é a nova e constante origem de crescimento e vitalidade. À medida que o tempo tira o poder das legiões romanas, os bárbaros recuperam seu poder. E à medida que o tempo arrasa os exércitos de Gondor, forçando retiradas de Mordor, Enedwaith e Calenardhon, os Homens do Norte chegam para tomar o lugar.

Assim como o Conan de Howard procurou aventura em Aquilonia, Aragorn chegou do norte bárbaro para se aventurar no sul gondoriano, e anos depois ele tomou o trono de Gondor. Assim como Kull, Aragorn veio do mar para clamar o trono. E assim como Alexandre criou uma renascença grega, Aragorn revitalizou Gondor e carregou sua cultura para terras estrangeiras, incluindo a sua própria. Aragorn era um homem de palavras e de ações.

Tradução de Aarakocra

Questões Sobre os Beornings

Beorn – John Howe

Um dos mais fascinantes personagens de “O Hobbit” é Beorn, o raivoso madeireiro que vive sozinho exceto pela companhia de seus animais encantados. Beorn era um homem, embora com um toque de mágico de acordo com Tolkien, porque ele podia mudar sua pele [tornando-se um enorme urso]. As origens de Beorn estão ocultas em mistério. Gandalf diz a Thorin e Companhia mais de uma explicação sobre a origem de Beorn, e não é claro sobre qual delas é a verdadeira.

 

 Quando Gandalf e a Companhia de Thorin foram levados com segurança até a Carrocha pelas Grandes Águias das Montanhas Nebulosas, o mago conta a seus companheiros que existiam poucos povos vivendo na região. Existiam vilas de homens mais afastadas ao sul [provavelmente além da Antiga Estrada da Floresta], nos vales das montanhas e ao longo das margens dos rios. Este povo, que era chamado de “Homens da Floresta” em “O Hobbit” estava gradualmente retornando do norte. Eles eram parentes dos Homens da Floresta de Mirkwood de acordo com Tolkien no apêndice de “O Senhor dos Anéis”, mas dentre muitos povos pergunta-se se este era o povo que Beorn um dia veio a governar.

Pode-se apenas supor, realmente, de onde os Beornings vieram ou como eles eram. Eram todos homens, embora talvez uns poucos fossem troca-peles como Beorn. Tolkien não revela se Beorn nasceu com a habilidade de falar com animais e trocar sua pele, mas ele diz que muitos dos descendentes de Beorn possuíram a habilidade de trocar de peles. Então, em algum momento, a troca de peles tornou-se hereditária ou o segredo foi passado de geração a geração.

“O Hobbit” menciona que os dragões caçaram a maioria dos homens expulsando-os das terras no norte, e isto implica que os grandes ursos das montanhas do norte desapareceram quando os gigantes apareceram algum tempo antes da história acontecer. Beorn é associado com ambos ursos e homens do norte. Se os troca-peles não se originaram com Beorn então eles devem ter vivido nas montanhas, e Gandalf que uma vez ele ouviu por acaso Beorn expressando a esperança que ele tinha de um dia retornar para as montanhas.

Bilbo encontrou realmente poucos Homens em “O Hobbit”. Sua primeira conexão com homens depois de ter cruzado as Montanhas Nebulosas foi o ataque pretendido pelo Goblins e Wargs. Gandalf ouviu por acaso os Wargs discutindo um possível ataque às vilas do sul da fortaleza Goblin do Passo Alto. A próxima conexão de Bilbo com homens foi Beorn, que protegeu e auxiliou Thorin e Companhia e sua expedição. Embora Gandalf tenha dito que poucas pessoas viviam perto da Carrocha, ele parece indicar que Beorn não era o único habitante local, e quando Bilbo e Gandalf retornaram com Beorn no próximo ano, ele convidou muitos homens a comemorar em sua casa. Então o povo de Beorn já existia ao tempo da história, apesar de poder ter sido reforçado pelos homens da floresta que estavam migrando para o norte.

Não foi antes de Bilbo e dos Anões terem alcançado a Cidade do Lago sobre Esgaroth, o Lago Extenso, que eles encontraram mais homens. Estes homens, aparentados com os antigos homens de Valle [agora há muito destruída por Smaug], eram corajosos e fortes. Estes continuavam a viver relativamente próximos à desolação do dragão e ao leste de Mirkwood. Os homens da Cidade do Lago viviam em termos amigáveis com os Elfos do norte de Mirkwood [o povo de Thranduil e Legolas] e mantinham comércio com os homens que viviam mais ao sul no Rio. De fato, o comércio se estendia tão longe quando a terra longínqua de Dorwinion, localizada nas margens noroestes do Mar de Rhun.

Embora nunca tenhamos ouvido mais sobre os homens vivendo ao sul da Cidade do Lago, quando Bard restabeleceu o reino de Valle, recrutou homens tanto do oeste quanto do sul. Mas Mirkwood ficava a oeste de Valle e da Montanha Solitária, e além de Mirkwood estavam os Beornings, que parecem ser muito poucos em número para ajudar a popular a cidade. Talvez Bard tenha recrutado homens dos Vales do Anduin, ou então existiam homens da floresta vivendo ao norte da caverna de Thranduil na calha leste da Floresta?

Quando Tolkien escreveu “O Senhor dos Anéis”, encorpou a história destes homens do norte das Terras Ermas. Os Rohirrim tornaram-se uma facção sulista dos homens do norte, que eram todos associados com a Casa de Hador, a Terceira Casa dos Edain em Beleriand, por Faramir quando ele deu a Frodo e Sam uma breve lição de história sobre Gondor. Muito mais material do que o publicado no livro tinha sido preparado por J.R.R. Tolkien, que teve que cortar uma grande parte dos Apêndices para economizar espaço. Chistopher Tolkien publicou parte do material “perdido” no Unfinished Tales, junto a alguns ensaios tardios e histórias escritos por seu pai. O restante do material “perdido” foi finalmente publicado no “The Peoples of Middle-earth”, volume XII do “The History of Middle-earth”. É possível então investigar a história dos povos do norte durante todo o tempo até a Primeira Era.

Quando Tolkien escreveu “O Senhor dos Anéis”, encorpou a história destes homens do norte das Terras Ermas. Os Rohirrim tornaram-se uma facção sulista dos homens do norte, que eram todos associados com a Casa de Hador, a Terceira Casa dos Edain em Beleriand, por Faramir quando ele deu a Frodo e Sam uma breve lição de história sobre Gondor. Muito mais material do que o publicado no livro tinha sido preparado por J.R.R. Tolkien, que teve que cortar uma grande parte dos Apêndices para economizar espaço. Chistopher Tolkien publicou parte do material “perdido” no Unfinished Tales, junto a alguns ensaios tardios e histórias escritos por seu pai. O restante do material “perdido” foi finalmente publicado no “The Peoples of Middle-earth”, volume XII do “The History of Middle-earth”. É possível então investigar a história dos povos do norte durante todo o tempo até a Primeira Era.

Os homens do norte, freqüentemente chamados de Homens dos Vales do Anduin, aparentemente dividiam-se em dois grupos. Vamos chamá-los de grupo leste e grupo oeste. Originalmente, os da Casa de Beor [a Primeira Casa dos Edain] e os Marachs [a Terceira Casa] migraram para leste ao longo do mar interior. Os Marchs eram o grupo mais ao norte e eles aparentemente se fixaram nas terras entre os rios Carnen e Celduin. Após restabelecer contato com os da Casa de Beor, alguns dos Marachs continuaram a migrar para o oeste. A maioria dos Beorians os seguiu.

Em Eriador os Beorians alcançaram os Marchs e fixaram-se por todas as amplas terras. A maioria dos Marachs continuou a jornada para o oeste, acompanhados por uma pequena parte dos Beorians. Sob seus líderes Beor e Marach, apenas uma pequena porção de ambos os povos realmente entrou em Beleriand. O resto permaneceu no leste em Eriador e por todas as Terras Selvagens.

Os Edain das Terras Selvagens eventualmente formaram uma aliança com os Anões Barbalonga, o povo de Dúrin. Esta aliança, formada no início da Segunda Era para auxiliar a expulsar os Orcs e outras criaturas que fugiram da destruição de Angband para as terras do leste, prosperou por mais de mil anos até a Guerra dos Elfos e Sauron. Naquela guerra os povos Edaínicos foram quase destruídos, e apenas pequenos enclaves sobreviveram nas Terras Selvagens, tanto em Greenwood a Grande [mais tarde chamada Mirkwood] quanto nas montanhas.

Estes homens que fugiram para as montanhas parecem ser os ancestrais dos Beornings e dos homens do norte que foram para o leste. O grupo leste fixou-se perto da área norte de Greenwood, e no começo da Terceira Era começaram a migrar para o sul ao longo da borda da floresta. Foi destes homens que os povos de Valle, Cidade do Lago e o reinado de Rhovanion descenderam. Em “O Hobbit” parece que os recrutas oeste de Bard podem ter vindo de uma comunidade de homens da floresta vivendo ao norte do reino de Thranduil. Não existe indicação que aqueles homens tinham parado de viver no nordeste da floresta.

Os Beornings e Homens da Floresta, contudo, não são necessariamente um povo “puro”. No “The Disaster of the Gladden Fields” [publicado no Unfinished Tales], o sobrevivente solitário da companhia de Isildur foi auxiliado por homens da floresta vivendo nas bordas oeste de Greenwood, perto de Amon Lanc [mais tarde Dol Guldur]. Estes homens da floresta parecem ser alguns daqueles povos Edaínicos que fugiram para a Floresta durante a Guerra entre os Elfos e Sauron.

Em “Cirion and Eorl” [também publicado no Unfinished Tales], Tolkien relata a parte mais tardia da história do Reino de Rhovanion. Este reino, situado ao leste do sul de Mirkwood, foi destruído pelos Carroceiros em 1860 da Terceira Era. O exército de Rhovanion foi destruído, mas alguns de sua cavalaria escaparam e fugiram para os Vales do Anduin. Mais tarde, muitos foras-da-lei vindo através da Floresta se juntaram a eles. Estes eram os ancentrais dos Eotheod. Embora seja possível que os foras-da-lei incluíssem muitas mulheres e crianças, parece altamente provável que os homens da cavalaria tiveram que casar com mulheres das vilas locais – eles misturaram-se com os homens da floresta que viviam em Mirkwood ou ao longo do rio.

Cerca de 100 anos mais tarde, logo após o reino nortista de Angmar ter sido destruído, os Eotheod migraram para o norte, para os vales onde os rios formadores do Anduin corriam. Lá eles se fixaram por várias centenas de anos. Eles assim o fizeram, Tolkien nos conta no Apêndice dO Senhor dos Anéis, porque os homens estavam aumentando nos Vales do Anduin. Nem todos eram Homens do Norte. Alguns eram leais a Sauron, Orientais, aparentados aos Carroceiros. Os outros homens poder ter sido dos homens da floresta e possivelmente os ancestrais dos Beornings.

Quando Eorl o Jovem conduziu os Eotheod para o sul cinco séculos mais tarde, alguns de seu povo permaneceram no norte. Estes cavaleiros escolheram – seja qual for a razão – não seguir Eorl? Possivelmente, mas se isso realmente ocorreu eles não deram origem a uma grande nação de guerreiros montados. Ao contrário, desapareceram na história e foram esquecidos. O que aconteceu com eles?

Beorn como Urso na Batalha dos Cinco Exércitos

Retornando aO Hobbit, devemos recordar que Gandalf mencionou os dragões como tendo expulso homens do norte. Como Smaug e Valle, os dragões podem facilmente ter destruído muitas cidades e vilas. O primeiro dragão conhecido no norte foi Scatha, mas este dragão foi morto por Fram, filho de Frumgar, o líder que conduziu os Eotheod para o norte por volta do ano 1977. De acordo com o Conto dos Anos em O Senhor dos Anéis, os dragões não começaram a se multiplicar novamente até cerca do ano 2570. A entrada declara especificamente que os dragões começar a afligir os Anões. Eorl tinha conduzido seu povo para o sul cerca de 60 anos antes, então poderia não restar muitos homens no norte distante. Mesmo que existissem alguns, estes deveriam ter sido expulsos para o sul pelos dragões.

Nós também devemos considerar que uma das principais razões pelas Gondor pediu ajuda a Eorl e os Eotheod em 2509/10 era que os Vales sul do Anduin estavam se tornando perigosos para Gondor e seus aliados. Os Balchoth, ou povo Oriental aparentado aos Carroceiros, estavam então vivendo ao longo da borda sul da Floresta. Eles podem, portanto, ter destruído ou expulso muitos dos Homens do Norte restantes, então talvez apenas os Homens da Floresta restaram.

Com os dragões vindo do norte e os Balchoth mantendo o sul, os Homens do Norte dos Vales do Anduin foram fortemente pressionados a encontrarem um local seguro para viver. Eles devem ter entrado em um longo período de declínio a este tempo, e não foi antes do trigésimo século que eles começaram a recuperar suas terras perdidas. Os Orcs começaram a colonizar as Montanhas Nebulosas no final do século 25, e eles foram uma ameaça significativa até a Guerra dos Anões e Orcs [2793-99].

Em algum momento de todos esses anos e guerras, os Beornings devem ter se ramificado dos outros Homens do Norte. É concebível que eles fossem descendentes tanto dos Eotheod remanescentes quanto dos Homens das Florestas que foram para o norte antes que os dragões começassem a inquietar a região. Os cavalos e pôneis de Beorn não são apenas extraordinários [assumindo que o conto de Bilbo foi apenas levemente enfeitado com o objetivo de contá-lo], ele possuía um grande amor por eles – o qual lembrava a devoção dos Rohorrim a seus cavalos. É portanto concebível que os Beornings tenham mantido a tradição da montaria à cavalo.

Da mesma forma que os Rohirrim viviam nas Ered Nimrais e pastoreavam seus rebanhos e manadas nos amplos campos gramados de Calenardhon, então, também os Beornings podem ter morado nas montanhas e pastoreado seus cavalos nas terras baixas. Então segue-se que se Beorn desejava retornar para as montanhas, ele deve ter sido expulso de lá pelos Orcs, e seu povo em geral pode ter sido destruído ou expulso pelos Orcs. Um guerra anterior com os Orcs poderia explicar o pouco número dos Beornings quando Bilbo e Gandalf os visitaram, mas as enormes perdas sofridas pelos Orcs das Montanhas Nebulosas na Batalha dos Cinco Exércitos poderia ter dado os homens do Vale do Anduin uma tão necessária trégua.

Beorn poderia, portanto, ter recrutado novos seguidores dentre os Homens da Floresta que estavam migrando para o norte para ampliar os números de seu povo, e uma vez que Gloin contou a Frodo que os Beornings mantiveram a Passagem Alta aberta ao tempo da Guerra do Anel, os Beornings parecem ter se tornado fortes o suficiente para terem retornado às montanhas.

A cultura dos Beornings pode então lembrar aquela dos Rohirrim, mas em alguns modos deveria ser similar àquela dos Homens da Floresta. Quanto aos Homens da Floresta, contudo, não temos evidências diretas sobre seus modos de vida e costumes. Porém Tolkien descreveu um outro grupo de Homens da Floresta, na Primeira Era: o Povo de Haleth, que vivia de modo similar ao dos Beornings. Como Beorn, o Povo de Haleth freqüentemente vivia sozinho, ou apenas com poucas pessoas juntas. Eles construíam grandes cercas ao redor de suas casas, e a maioria vivia dentro da floresta, na floresta de Brethil.

Tais similaridades podem ser apenas superficiais, Tolkien pode não ter previsto nenhum paralelo próximo entre as culturas do Povo de Haleth e o povo de Beorn; mas por outro lado, ele parece ter enfatizado o relacionamento entre os Rohirrim e os outros Homens dos Vales do Anduin. Fazendo isso, ele poderia estar sugerindo que as culturas de Rohan e dos Beornings não eram muito distanciadas.

[Tradução de Fábio 'Deriel' Bettega]

Michael Martinez

Mágica, por Melkor. Não Aceitam-se Devoluções

Porque ouro? Eu tive essa questão feita para mim algumas vezes. De onde eu tirei a idéia que os dragões poderiam retirar poder do ouro, ou, mais especificamente, que existe alguma coisa especial no ouro no que se trata de mágica? [Nota do Tradutor: Martinez está se referindo ao ensaio Todos os Dragões se Foram? , de sua própria autoria]
Bem, eu esqueci de mencionar um parágrafo crucial
quando estava citando um ensaio de Tolkien [o qual, a propósito,
Chistopher Tolkien chamou de "Notas Sobre os Motivos do Silmarillion" - os parágrafos sobre o elemento-Morgoth foram movidos do início para o final de seção II]. 

Quando ao final nos referimos à visão de Tolkien de como a mágica funcionava para Sauron, temos as seguinte palavras: “O
poder de Morgoth estava disseminado através de todo o Ouro, se em
nenhuma parte absoluto [pois ele não criara o Ouro] em nenhuma parte
estava ausente. [Era este elemento-Morgoth na matéria, de fato, que era
o pré-requisito para a "mágica" e outras perversidades que Sauron
praticou com ele e sobre ele.]“

Mas o que se segue explica
minha fascinação pelo ouro, e porque eu acho que dragões seriam capazes
de se sustentar a partir dele:

“É bastante possível, claro,
que certos “elementos” das condições da matéria tenham atraído a
atenção especial de Morgoth [principalmente, exceto no passado remoto,
por razões de seus próprios planos]. Por exemplo, todo o ouro [na
Terra-média] parece ter uma tendência especialmente “maligna” – mas não
a prata. A água é representada como quase inteiramente livre de
Morgoth. [Isto, claro, não significa que um mar, rio, poço ou mesmo
vasilhame de água em particular não pudesse ser envenenado ou poluído -
como todas as coisas podiam.]“

Então, não existe uma
conecção específica com dragões, mas Tolkien pelo menos reservou alguns
pensamente para o lugar em particular ocupado pelo ouro na hierarquia
do que podemos chamar “substâncias mágicas” na Terra-média. Ouro é um
elemento fascinante. É o terceiro metal mais condutivo que conhecemos
[apenas cobre e prata são mais efetivos]. Em sua forma mais pura o ouro
pode ser ingerido com segurança [embora sopa de ouro seja muita cara,
segundo me contaram] mas não possui um valor nutritivo para nós.
Dragões podem ou não ter se beneficiado da absorção de algumas libras
de ouro. [Nota do tradutor: libras no sentido de peso]

De
fato, me foi apontado que o tesouro dos dragões incluem mais coisas do
que apenas ouro. A barriga de Smaug, por exemplo, estava incrustrada
com jóias. Mas qualquer um que viu o desenho de Bilbo e Smaug que
Tolkien fez para O Hobbit [entitulada "Conversação com Smaug"] não
poderá deixar de notar que a maior parte da cama do dragão é composta
de ouro. Sim, existe todo tipo de coisas brilhantes espalhadas pela
pilha [incluindo a Pedra Arken no topo da pilha] mas a maior parte do
tesouro é ouro.

Isso não quer dizer que as jóias não sejam
especiais a seu próprio modo. Lembre-se como Ungoliant cobiçou as gemas
que Melkor roubou dos Noldor em Formenos. Ela comeu todas exceto as
Silmarilli e ficava mais poderosa enquanto o fazia. Estas gemas
possivelmente não continham o que Tolkien se referia como
elemento-Morgoth, mesmo Morgoth tendo sido mantido em Aman por um longo
tempo. Então, a questão que surge é se existia algum outro elemento
“mágico” com o qual Ungoliant estava se alimentando ou se ela estava
simplesmente se alimentando da própria essência das pedras preciosas.

Quando Ungoliant sugou a vida das Duas Árvores e depois sorveu a luz
líquida dos Poços de Varda ela cresceu a um tamanho imenso. Ela
tornou-se tão grande e poderosa que Melkor a temeu. Luz era o sustento
de Ungoliant, mas a luz das Duas Árvores seria um produto do que
poderíamos considerar “mágica pura”, o poder de um Vala. Yavanna trouxe
as Duas Árvores à vida pelo poder de sua canção, um ato de sub-criação
inigualado dentro dos Salões de Eä, e que ela disse não ser capaz de
repetir. Assim alimentada pelo poder do encantamento mais poderoso de
Yavanna, Ungoliant tornou-se imensa e mais poderosa do que antes.

Da mesma forma as gemas roubadas dos Noldor eram encantadas. Fëanor
aprendeu como fazer pedras preciosas que brilhavam sob a luz das
estrelas ou que brilhava de acordo com sua vontade. Ele teve muitos
anos, durante os quais construiu um grande tesouro, e este tesouro foi
transportado para Formenos quando Fëanor, Finwë e os filhos de Fëanor e
os Noldor que os seguiram fixaram lá ao norte de Valinor durante o
período do banimento de Fëanor de Tirion. Portanto Ungoliant foi capaz
de se alimentar não apenas com a essência das jóias Noldorin mas também
com o poder que Fëanor [e quaisquer outros artesãos] colocou nelas.

Se os Noldor eram capazes de crias gemas mágicas em Aman, eles não
seriam menos capazes de criá-las na Terra-média. E assim como os Noldor
foram ensinados pelos Valar e Maiar, especialmente por Aulë, também os
Anões foram ensinados pessoalmente por Aulë. Os Anões possuíam suas
próprias habilidade e poderes especiais. Eles podem ter sido menos
poderosos que os Eldar, ou talvez menos ambiciosos [pois eles nunca
fizeram artefatos como os Anéis de Poder ou as Silmarilli]. Mas os
Anões também colocavam seus pensamentos nas coisas que faziam, como o
elmo-dragão de Dor-lomin, que protegia seus portadores de qualquer
dano. E a Flecha Negra de Erebor que Bard usou para matar Samug pode
ter sido um produto de mais do que um artesão experiente. Talvez algum
mestre Anão, morto pelo dragão fazendo com que todo seu conhecimento
fosse perdido com ele, tenha posto um grande esforço na sua criação e
embuiu nela algo de seu poder.

O poder dos Elfos – e dos Anões
- podia não ser igual ao poder de Morgoth ou Yavanna, mas ainda sim
seria uma fonte de encantamento. Um dragão sobre um tesouro Élfico
[como em Nargothrond] ou um tesouro Anão [como em Erebor] poderia sugar
ou simplesmente banhar-se nas energias dos criadores dos itens
encantados tanto quanto ou quase tanto como no elemento-Morgoth contido
no ouro. O que não quer dizer que os dragões tivessem que fazer isso,
mas claramente a passagem de poder de um ser para um objeto é uma idéia
que Tolkien usou várias e várias vezes, e um após o outro ele nos deu
exemplos de poder passando de um objeto para uma criatura. As imensas
energias que Melkor dispersou através de Arda em seus esforços para
identificá-la consigo mesmo poderiam, coletivamente, ofuscar aquelas
dos Elfos e Anões criadores de itens. Mas um tesouro de ouro e gemas
não importa o quão grande fosse seria apenas uma pequena fração da
essência de Arda. Assim cada pequena partícula ajudaria.

Um
senso de escala desenvolve-se quando pesamos os grande poderes
[malignos] da Primeira Era contra aqueles das Eras posteriores. Melkor
governou seu reino a partir de Angband, onde ele estava cercado por
seus servos: Sauron, os Balrogs, Draugluin e os lobisomens, Orcs,
Trolls, Thuringwethil e talvez outras criaturas como morcegos, e outros
monstros não nomeados nas lendas dos Elfos e Edain. Ele criou lá alguns
dragões e nutriu Carcharoth, o grande Lobo. Mas suas criaturas também
residiam por toda a Terra-média. O cerco de Angband foi mais um show do
que qualquer outra coisa, pois as forças de Melkor eram capazes de ir e
vir como queriam através de rotas no norte. E Melkor recrutara muitos
Homens do leste.

Na Segunda Era Sauron começou a agir por si
mesmo. Ele eventualmente reuniu todas as criaturas malignas novamente
mas quase todos os servos Maiar de Melkor haviam perecido ou se
ocultado. E se existiam dragões a seu serviço eles parecem não ter
conseguido muito em Eriador [a menos que quando Sauron queimou as
grandes florestas de Minhiriath e Enedwaith na Guerra dos Elfos e
Sauron ele o tenha feito com a ajuda dos dragões]. Ao final da Era
Sauron tinha escravizado os Nazgul. Uma vez que um vasto exército de
Elfos, Anões e Homens foi capaz de derrotá-lo, Sauron não era tão
poderoso [militarmente] quanto Melkor havia sido ao final da Primeira
Era. Parte da força militar sem dúvida vinha do número de magos ao
serviço de Melkor, e de suas qualidades. Mesmo em seus estado decaídos
os Maiar corrompidos eram bastante poderosos.

Na Terceira Era
Sauron tomou forma muito lentamente, e concentrou seus esforço ao redor
de Dol Guldur por um longo tempo. Ele enviou o Senhor dos Nazgul ao
norte para fundar o Reino-Bruxo de Angmar e de Angmar Sauron atingiu os
Dunedain do Norte [e em uma extensão menor aos Eldar também]. Parte da
estratégia de Angmar parecia ser corromper o Povo das Colinas de
Rhudaur, alguns dos quais se tornaram feiticeiros. Mas, embora temidos
pelos Homens, estes feiticeiros não parecem ter deixado marcas na
história. Eles foram virtualmente eliminados durante ou após a guerra
de 1409.

Embora Tolkien não fale das magias realizadas pelo
Povo das Colinas ele revela alguma coisa sobre os tipos de magia
utilizadas pelo Senhor dos Nazgul e pelos Espectros Tumulares, que
foram enviados pelo Rei Bruxo para habitar os túmulos de Tyrn Gorthad
após a Grande Praga ter destruído a maior parte do povo de Cardolan. Os
Nazgul e os Espectros parecem ter sido adeptos de matar seres vivos, e
os Nazgul especialmente [com suas lâminas Morgul] escravizavam os
espíritos daqueles que matavam. O Espectro Tumular que capturou Frodo e
os Hobbits estava pronto a sacrificá-los, presumivelmente para enviar
seus espíritos a Sauron ou ao Senhor dos Nazgul.

No Morgoth’s
Ring, o ensaio sobre “Morte e separação do fea e hrondo [>hroa]“,
Tolkien fala de como os espíritos dos Elfos assassinados podiam
prolongar-se na Terra-média:

“Mas pareceria que nestes dias
posteriores mais e mais elfos, sejam eles dos eldalië em origem, sejam
de outras raças, que demoram-se agora na Terra-média recusando a
convocação de Mandos, e vagam desabrigados no mundo, negando-se a
deixá-lo e incapazes de habitá-lo, assombrando árvores, fontes ou
lugares ocultos que conheciam. Nem todos destes são amigáveis ou
intocados pela Sombra. De fato, a recusa à convocação é em si um sinal
de mácula.”

“É, portanto, algo imprudente e arriscado,
além de ser um ato errado, proibido pelos Governantes de Arda, os vivos
tentarem se comunicar com os desencarnados, embora os desabrigados
possam desejá-lo, especialmente os mais indignos entre eles. Pois os
desencarnados, vagando pelo mundo, são aqueles que no mínimo recusaram
a porta da vida e continuaram pesarosos e auto-piedosos. Alguns são
preenchidos com rancor, desgosto e inveja. Alguns eram escravizados
pelo Senhor do Escuro e ainda fazem o seu trabalho, apesar de ele ter
partido. Eles não dirão verdades ou sabedoria. Apelar-lhes é uma
tolice. Tentar dominá-los e fazê-los servos da própria vontade de
alguém é perversidade. Tais práticas são as de Morgoth; e os
necromantes são da hoste de Sauron, seu servo.”

Alguns
dizem que aqueles Desabrigados desejavam corpos, embora não desejassem
consegui-los através da lei pela submissão ao julgamento de Mandos. Os
mal intencionados dentre eles iriam tomar corpos, se pudessem, sem
seguir a lei. O perigo de se comunicar com eles era, portanto, não
apenas o perigo de ser iludido por fantasias ou mentiras: também
existia o perigo da destruição. Para um dos famintos Desabrigados, se
fosse admitido à amizade dos Viventes, poderiam procurar expulsar o fëa
do corpo; e na disputa pelo controle o corpo poderia ficar gravemente
ferido, mesmo que não tivesse sido arrancado de seus morador de
direito. Ou os Desabrigados poderiam implorar abrigo, e se admitido,
procurariam escravizar seu anfitrião e usar tanto sua vontade como seu
corpo para seus próprios objetivos. É dito que Sauron fez tais coisas,
e ensinou ao seus seguidores como alcança-las.

Alguém pode se
espantar com o que a última frase significa. Sauron foi conhecido com o
Necromante durante os longos anos em que residiu em Dol Guldur. Ele
operou sem corpo para escravizar outros enquanto recuperava sua força?
Ele algumas vezes abandonava o próprio corpo para trabalhar com
feiticeiros que pensavam que podiam escravizá-lo? O que veio a ser dos
escravos que Sauron obteve desta forma, e quem seriam seus seguidores
que podiam praticar tais enganações? Estariam os Nazgul tomando posse
de tais possíveis feiticeiros? Tais ligações arriscadas com Sauron
poderiam explicar tanto porque ele era capaz de manipular tantos
líderes dos Homens como porque eles se sentiam atraídos por ele em
primeiro lugar. Os xamãs e reis e líderes não saberiam, até ser tarde
demais, que seus predecessores que se tornaram poderosos não eram nada
mais do que avatares de Sauron. Isto não quer dizer que todos os servos
de Sauron seriam diretamente manipulados. Mas os mais poderosos dentre
seus servos e aliados de fato poderiam ser feiticeiros-marionete.

Talvez isto explique o costume bárbaro onde os reis queimavam-se em uma
pira. Denethor II escolher morrer desta maneira e Gandalf o repreendeu
por isso, dizendo que apenas os reis bárbaros eram tratados dessa
forma. Se Sauron não tivesse mais uso para um de seus escravos poderia
ser conveniente destruir todas as evidências de sua possessão do que
deixar que seus seguidores aprendessem a verdade, ou alguma porção
dela. Por outro lado, pode-se argumentar, se Sauron e os Nazgul podiam
controlar pessoas, porque o Senhor dos Nazgul não usou o corpo de
Earnur para ter controle sobre toda Gondor? Pode ser que, se ele
fizesse a tentativa, o Senhor dos Nazgul não tivesse o poder
necessário. Earnur não iria coloborar de livre vontade com um Nazgul ou
mesmo com o próprio Sauron. Sua vontade seria rompida mas ele
provavelmente morreria, consumido pelo esforço.

O medo que
alguns dos Rohirrim demonstram, perguntando-se se Aragorn e seus
companheiros poderiam ser espectros Élficos quando ele toma as Sendas
dos Mortos, também pode dar fundamento à suspeita de que talvez ele
tenham sido possuídos por espíritos Élficos. A especulação implica que
os Rohirrim teriam experiência com homens possuídos por espíritos
Élficos, ou talvez tenham ouvido contos o bastante sobre tais homens
para acreditar que seriam verdade. E finalmente sabemos que Tolkien não
estava apenas revendo o tema quando escreveu o ensaio sobre morte e
conitnuidade do espírito e corpo. Ele estava preenchenco algumas
lacunas na estrutura já estabelecido pelO Senhor dos Anéis.

E
dessa forma nós podemos seguramente deduzir que, no mundo de Aragorn e
seus companheiros, existiam ou existiram homens que tolamente tentaram
tornar-se poderosos através de meios não-naturais. Talvez inspirados
por ou invejosos dos Istari e Elfos, que possuiam tais habilidades
naturalmente, homens foram conduzidos em direção das trevas. E o
aparente aumento no força e sofisticação dos inimigos de Arnor e Gondor
também podem mostrar aqueles homens sucumbindo à tentação de forjar
alianças com espíritos malignos, embora pudessem não ter idéia do que
estavam fazendo.

O que nos traz de volta ao assunto de como os
homens podem ter começado tal experimentação. Mesmo Sauron precisou de
um primeiro voluntário para sucedê-lo. Será que ele descobriu que os
homens já estavam brincando com esta idéia quando tomou forma
novamente? Terá ele plantado as sementes de tais práticas durante a
Segunda Era? Se sim, a antiga sabedoria recuado para o leste distante
mas não poderia estar completamente perdida. Talvez os nazgul tivessem
mantido o conhecimento vivo em antecipação ao eventual retorno de
Sauron. E homens buscando poder poderiam procurar por objetos de poder.
Ouro seria valioso, mas ouro trabalhado pelos Elfos e Anões seria mais
mágico do que qualquer coisa que os Homens pudessem conquistar por si
mesmos.

Portanto, pessoas desejando tornar-se feiticeiro
poderiam barganhar com Elfos e Anões se possuíssem riquezas e recursos
que os Elfos e Anões desejassem. De outra forma, Homens poderiam pilhar
Elfos e Anões na esperança de obter tesouros. A animosidade e
estranhamento que se criou entre Homens e as outras raças durante a
Terceira Era podem ter tido muitas causas, mas Tolkien cita que os
Anões eram frequentemente saqueados pelos Homens, provavelmente mais do
que pelos dragões. E assim geração após geração de feiticeiros e
estudantes de necromancia poderiam lutar e obter artefatos preciosos e
gemas, valorizando-os não por sua beleza mas sim por seus encantamentos.

Não que todos os praticantes de magia tivessem que ser malignos. Os
Numenorianos de Cardolan, pelo menos, tinham modos de criar espadas
encantadas. As espadas do túmulos que Tom Bombadil deu aos Hobbits eram
“imbuídas com feitiços para a destruição de Mordor”. Faramir fala a
Frodo e Sam que mesmo em Gondor alguns de seu povo continuavam a fazer
elixires na desesperada busca por vida longa, e alguns homens
continuavam a se relacionar com os Elfos. Em uma carta para um leitor,
Tolkien fala que Beorn era um homem “ainda que um Troca-Peles e um pouco de mago”.
Tais homens não haviam procurado comunicar-se com espíritos Élficos, os
Desencorporados, ou com Sauron e os Nazgul. Eles teriam procurado uma
sabedoria mais pura.

E uma vez que o poder de Melkor estava
disseminado através do mundo físico existia muito material com o qual
trabalhar. Não é necessário encantar material que já está encantado.
Ouro era um material ruim para armas mas podia ser inserido nas lâminas
de espadas de ferro [como nas lâminas tumulares]. As lâminas tumulares
eram também decoradas com gemas, e feitas de um estranho metal que os
Hobbits não reconheceram. E Denethor reconheceu imediatamente que a
espada de Pippin havia sido feita pelos Dunedain do norte. Ele
reconheceu a arma pelo seu desenho, seus materias ou por alguma outra
coisa?

Os Numenorianos também contruiram a grande torre de
Orthanc, cuja pedra era tão lisa e forte que não podia ser quebrada
pelos Ents. Exista magia envolvida ali? Estaria a pedra negra com a
qual os Numenorianos trabalharam cheia com uma quantidade
extraordinariamente grande da essência de Melkor ou seria simplesmente
suficiente que eles pudessem murmurar ou cantar seus pensamento nela e
a torre se tornaria quase impenetrável? E do que a pedra negra de Erech
era feita? Por que era tão importante para os Homens Mortos de
Dunharrow? Isildur a colocou ali, e seu rei havia feito um juramente
sobre ela. Seria, talvez, a pedra um repositório de elemento-Morgoth
maior do que, digamos, outras pedras de forma e tamanhos similares?

Mas então Isildur teria sido capaz de fazer uso do elemento-Morgoth
para amaldiçoar os Homens de Dunharrow por quebrarem seu juramento?
Como um Homem ele era desprovido do poder necessário para confinar os
espíritos de uma tribo inteira na Terra-média por milhares de anos.
Mesmo o mais poderoso dos feiticeiros entre os Homens parece não ter
atingido nada comparável. Então a maldição de Isildur deve ter sido
ampliada por algo maior, algo mais puro. Mesmo os Valar não tinham a
autoridade de manter os Homens nos Salões de Eä para sempre. Seria um
ato de desafio e rebelião para com Námo manter um espírito Humano tanto
tempo, ao final das contas. Então a vontade e a autoridade que reforçou
a maldição de Isildur deve ter vindo de um poder maior, e este poderia
ser apenas o próprio Ilúvatar.

Como um Rei de Gondor, Isildur era, de fato, um sacerdote de Ilúvatar por parte de seu povo. “Parece que,” Tolkien aponta na Carta 156, “que existia uma “área santificada” no Mindolluin, aproximável apenas pelo Rei…”


“…onde ele antigamente oferecia graças e louvores por parte de seu
povo; mas isto foi esquecido. Foi relembrado por Aragorn, e lá ele
encontrou um broto da Árvore Branca, e a replantou no Pátio da Fonte. É
presumível que com o ressurgimento da linha dos reis sacerdotes [da
qual Lúthien, a Abençoada Dama Élfica, era uma antepassada] o culto a
Deus poderia ser renovado, e Seu Nome [ou título] seria novamente
ouvido com mais frequência. Mas não existiriam templos do Deus
Verdadeiro enquando a influência Numenoriana persistisse.”

Os Reis de Gondor [e, presumivelmente, os Reis de Arnor] estariam
apenas continuando ou revivendo o antigo culto que seus povos
praticavam em Numenor.

“Os Numenorianos então começaram um grande novo bem, como monoteístas;
mas como os Judeus com um único centro físico de “adoração”: o pico da
montanha Meneltarma “Pilar do Céu” – literalmente, pois eles não
concebiam o céu como a residência divina – no centro de Númenor; mas
não possuía construções nem templos, e todas essas coisas tinham uma
associação com o mal….”

Ilúvatar não encheu Arda com sua
essência pessoal como Melkor fez, mas não havia necessidade. Ilúvatar
criou Eä com a Chama Imperecível, e colocou a Chama em seu interior. Os
Salões de Eä eram incontestavelmente identificados com a vontade de
Ilúvatar, e as maquinações mesquinhas de Melkor podiam apenas inserir
uma identificação com Arda. Portanto Ilúvatar é livre para agir em sua
criação assim que desejar. E Gandalf aponta para Frodo que existiam
alguns propósitos-guia funcionando em Arda, quando ele diz “Existe
mais do que um poder funcionando, Frodo. O Anel está tentando voltar
para seu mestre… por trás disso algo mais trabalha, além de qualquer
propósito do Criador do Anel. Não posso colocar isso de forma mais
simples do que dizendo que Bilbo estava marcado para encontrar o Anel,
e não o criador do mesmo…”

E podemos estar certos que Gandalf falava de Ilúvatar pois Tolkien o diz na Carta 156 “Então
Deus e os deus “angelicais”, os Senhores ou Poderes do Oeste, apenas
olhavam através de certos locais como a conversação de Gandalf com
Frodo”
. Tendo os Valar alguma parte na decisão de se Bilbo
encontraria o Anel ou não, Tolkien está claramente incluindo Ilúvatar
na decisão.

A inserção de um elemento divino na “mágica” da
Terra-média então levanta uma questão sobre aplicabilidade. Estaria a
palavra “mágica” sendo muito usada? Nesse ponto Tolkien demonstra
arrependimento em ter usado a palavra, que descreve tanto os trabalhos
sub-criacionais dos Elfos quanto “as fraudes do Inimigo”. Ainda quele
ele defina dois aspectos da mágica, magia [efeitos físico] e goétia
[efeitos na mente e espírito], ele insistiu que tanto um quanto outro
tipo poderiam ser bom ou mau dependendo do motivo do usuário, e que
tanto os personagens bons [Valar, Elfos] quando os Maus [Melkor,
Sauron] utilizaram ambos os tipos de mágica. E mais: todos as “mágicas”
ou poderes vieram em última instância da vontade ou pensamento de
Ilúvatar, que criou os seres que praticavam mágica. Então, se os
poderes de Melkor, ou Ulmo, são o produto do pensamento de Ilúvatar,
ele difere em natureza das intervenções diretas de Ilúvatar?

Em um aspecto, o poder de Melkor é dele próprio: dado a ele
irrevogavelmente por Ilúvatar. Apenas Ilúvatar ou Melkor poderiam
alterar sua força natural. Outros seres, como Manwe e Namo, poderiam
ser capazes de capturas e executar Melkor, e portanto enfraquecê-lo
como resultado dele ser forçadamente desalojado de sua encarnação
física. Mas tal desalojação seria resultado das leis físicas da
Criação. Isto é, Ilúvatar fez as regras que mesmo Melkor tinha que
obedecer. Ele não poderia simplesmente recusar ser morto. Sua
encarnação física era sujeita às consequências da fisicalidade.
Portanto existia uma chance real, embora mínima, de Fingolfin matar
Melkor. E por isso também que Gil-galad e Elendil [ou Isildur, como
alguns acreditam] foram capazes de matar Sauron. Sauron morreu em
Númenor mas a destruição de Númenor foi causada por Ilúvatar. A morte
de Sauron na encosta do Orodruin foi atingida por um ser ou seres com
poderes e estatura muito inferiores a Manwe.

O aspecto divino
da “mágica” é, portanto, identificável com as leis da natureza. Isto é,
a vontade de Ilúvatar não pode ser distinguida de um aspecto de si
mesmo ou de sua criação. Se a Criação deve comportar-se de uma certa
forma, e a própria Criação é atingida pelo poder de Ilúvatar, então
todas as coisas da Criação estão, por extensão, exibindo o poder de
Ilúvatar, embora porções desse poder tenham sido dados irrevogavelmente
a elas.

Pode existir, portanto, um aspecto de Arda [e todos os
Salões de Eä, a Criação] que é muito parecido com o elemento-Morgoth,
embora mais puro e mais consistente: um elemento-Ilúvatar. Não
utilizável com finalidade de conduzir “mágica”, talvez, mas
irrevogavelmente estampado com sua vontade. Coisas existem porque
Ilúvatar disse que ela poderiam existir, e elas funcionam de acordo com
as Leis da Criação que ele definiu. Então, todo o poder dos Ainur e
Elfos e Anões, seja por eles retido ou inserido em outros itens, devem
existir e funcionar de acordo com as leis naturais de Ilúvatar. E o
próprio Ilúvatar portanto não precisaria transgredir suas próprias leis
para executar sua vontade sobre o mundo. O mundo irá executar sua
vontade para ele porque as leis da natureza fderivam de sua própria
vontade.

Isto é, não existe distinção real entre a “mágica” de
Ilúvatar e a “mágica” de Melkor, exceto em escala e pureza de
propósito. O poder de Melkor é incomparavelmente menor do que o de
Ilúvatar, mas a perversão de Melkor também corrompeu seu poder então
ele é impuro. Todo o poder é retirado da mesma forma e corre a partir
da mesma fonte. Mas Ilúvatar concedeu irrevogavelmente poderes, em
alguma proporção, às criaturas de seu pensamento. Os esforços de Melkor
para identificar-se com Arda através da disseminação de sua força
através do mundo foi, de fato, um ato de desafio. E amplamente
infrutífero. Ilúvatar não irá cancelar seus presentes a Melkor, mas
também não é barrado pela vontade de Melkor.

Por outro lado,
tendo feito os Salões de Eä e os populado com os Ainur e outras
criaturas de estatura similar porém inferior, Ilúvatar nãoprecisa
infundir continuamente seu poder em Eä. Então existe um aspecto finito
na mágica. Apenas uma certa quantia desse poder veio para o universo e
apenas uma certa quantia foi adicionada através do nascimento de seres
que possuem a habilidade de encantar coisas. A separação de Aman da
Terra-média de uma certa forma limita ou mesmo reduz a mágica que pode
ser “utilizada” pelos Homens e outros seres. O que Melkor deixou para
trás trata disso disso. Novos Elfos e Anões podem ter nascido, mas seus
poderes são incomparavelmente pequenos perto do poder de Melkor. Assim
que os Elfos partem ou morrer, assim que os Anões morrem, e seus
artefatos desaparecem ou são destruídos, a reserva de mágica disponível
e passível de utilização diminui.

Isto é, com o passar dos
milênios tornar-se-ia mais e mais difícil para os Homens praticarem a
“verdadeira” mágica porque as fontes de mágica dais quais necessitavam
se tornariam cada vez menos. Uma das mais fortes críticas levantadas
contra Tolkien por escritores atuais de fantasia é que parece não haver
limite para a mágica em seu mundo, e nada poderia estar mai longe da
verdade. “Mágica” é extremamente difícil de definir, mas as expressões
de poder, a criação de “artefatos mágicos”, diminuíriam em tamanho e
número com o passar das Eras porque o poder estaria deixando a
Terra-média.

Portanto as Silmarilli de Fëanor e os Anéis de
Poder definem um limite superior da expressão de poder na Terra-média.
Sem dúvida outros grandes trabalhos foram realizados: as cidades de
Gondolin, Mengroth e Khazad-dum eram, de muitas maneiras, “mágicas”.
Mas elas eram os produtos de populações inteiras, o resultados de eras
de trabalho. E mesmo assim nada como elas poderá ser contruído
novamente. Mesmo na Quarta Era, quando Durin VII liderou seu povo
novamente para Khazad-dum, é improvável que eles pudessem reviver a
antiga glória de sua cidade. Apenas um eco do passado poderia ser
alcançado, em parte porque seu número havia se reduzido, mas também
porque eles haviam perdido muito da antiga sabedoria. Khazad-dum era a
última relíquia de eras onde cidades mágicas eram possíveis. Agora elas
são simplesmente lendas.

O medo de Galadriel de que seu povo
pudesse diminuir na Era dos Homens, condenado a se tornar um povo
rústico de cavernas e vales, é portanto assentado sobre um problema
bastante real. Uma vez que os Anéis de Poder deixaram de existir, os
Elfos [que haviam sido protegidos dos efeitos do Tempo] teriam que
deixar a Terra-média. Os Elfos perderam não apenas grande parte de seu
conjunto de talentos, mas também suas “reserva de poder”. Isto é,
restaram menos Elfos para construir novas cidades. Alguns dos Alto
Elfos permaneceram em Imladris e Lindon mas eles nunca mais poderiam
ser uma grande nação Eldarin. Não existiriam mais artefatos, nem
cidades a serem cionstruídas nas terras dos Homens. E os Elfos que
compreendiam que Arda continuava possuindo o elemento-Morgoth poderiam
relutar em utilizá-lo novamente na mesma escala da criação dos Anéis de
Poder. Eles aprenderam através de muitas lições amargas qual era o
preço de trabalhar com tal mágica.

Algo pode ser dito aqui
sobre o Mithril. Se ouro é altamente mágico, Mithril seria ainda mais?
Eu acho que sim. Desafortunadamente é extremamente difícil obtê-lo.
Ouro é bem mais abundante. Também o são as jóias. E muito do mithril
que foi trazido à luz está perdido. Tar-Telemmaite, décimo-quinto rei
de Númenor, coletou todo o mithril que pode encontrar. Sauron também
coletou todo o mithril que pode. Embora seja duvidoso que os
Numenorianos tivessem sido feiticeiros, Sauron pode realmente ter
encontrado usos mágicos para o seu mithril. E quando Barad-dur foi
destruída uma grande quantidade de mithril pode ter sido destruída com
ela. Lentamente o mithril desapareceu da Terra-média.

Pode ter
havido uma boa razão porque o Balrog de Moria escondeu-se em ou perto
de um veio de mithril. O mithril em seu estado natural pode ter
mascarado seu poder. E pode ser que se os dragões pudessem realmente
drenar poder do ouro e jóias que pudessem drená-lo do mithril também.
Mas se prata [prata normal] possuía menos elemento-Morgoth que o ouro,
o mithril possuíram mais do que a prata? Ou, sendo “prata verdadeira”,
o mithril estava praticamente livre do elemento-Morgoth? Nós
provavelmente nunca vamos saber.

[Tradução de Fábio 'Deriel' Bettega]

As Profecias da Terra-Média

As profecias têm um papel importante nas histórias
da Terra-Média. De fato, alguns argumentam que Tolkien tencionava a
Terra-Média como tendo um destino pré-determinado ou linha do tempo,
uma vez que aparentemente todas as profecias mencionadas tornam-se
verdade de alguma forma. Bem, há falsas profecias nas histórias, mas
elas são raras. Ou, se não são falsas, no mínimo não realizadas.
 
 
 
A questão sobre se há poder nas profecias ou poder
detrás delas é virtualmente impossível de se resolver satisfatoriamente
a todos. Muitos acreditam que a história desdobra-se de acordo com a
Música dos Ainur (o que não é verdade, uma vez que foi Ilúvatar quem
deu à Música esse sentido através da sua Visão). Desconsiderando-se o
que vem em seguida à Música ou à Visão, o Tempo certamente desvela
muito enquanto os Ainur e Ilúvatar criam seus temas. Mas O Silmarillion
nos conta que cada Era revela novas maravilhas aos Valar sobre as quais
eles não conheciam nada, e que não haviam sido previstas na Música ou
na Visão.

De fato, muito da história que é prevista não vem a
ocorrer na Música ou na Visão. Depois que Ilúvatar pára a música, ele
fala aos Ainur. "E muitas outras palavras disse Ilúvatar aos Ainur naquele momento", Tolkien escreve no "Ainunlindalë". "E,
em virtude da lembrança de suas palavras e do conhecimento que cada um
tinha da música que ele próprio criara, os Ainur sabem muito do que
foi, do que é e do que será, e deixam de ver poucas coisas. Mas algumas
coisas há que eles não conseguem ver, nem sozinhos nem reunidos em
conselho: pois a ninguém a não ser a si mesmo Ilúvatar revelou tudo o
que tem guardado; e em cada Era surgem novidades que não haviam sido
previstas, pois não derivam do passado."

Ilúvatar então
mostrou muito na Visão que os Ainur não haviam cantado, e mesmo quando
os Ainur entraram em Eä, Ilúvatar revelou novidades. Sua liberdade de
alterar Eä ao que o Tempo desdobra-se deixa Ilúvatar como o último
árbitro da presciência. Assim, ele pode (se ele assim escolher)
invalidar a presciência que um Ainu individualmente possa ter produzido
de partes da Música ou da Visão. Mas Ilúvatar nega algo que havia sido
previsto? Essa é uma questão interessante, ainda que ainda não possa
ser respondida.

Nós sabemos de muitas ocasiões em que Ilúvatar
intervém. Por exemplo, quando Aulë cria os Anões, Ilúvatar fala a ele e
no final das contas aceita os Anões como seus Filhos adotivos. Ilúvatar
dá a eles verdadeira vida e pensamento independente. Não há, é claro,
texto algum que diga que a impaciência de Aulë e a criação dos Anões
havia sido predita ou prevista na Música ou na Visão. Mas Aulë
construiu os Anões em segredo. Ele poderia trabalhar com afinco e em
segredo se os resto dos Ainur soubessem através do pré-conhecimento
advindo do Ainunlindalë. Portanto, a criação dos Anões por Aulë, e a
intervenção de Ilúvatar, são fortemente possíveis de serem
acontecimentos novos, desconhecidos dos Valar.

Quando
Ar-Pharazôn invadiu Aman para se apropriar da imortalidade, conta-se
que os Valar dispensaram sua guarda. Ilúvatar então interveio e alterou
o mundo, removendo Aman de Arda e transformando o que restou em um
mundo redondo. Os Valar poderiam saber que os Numenoreanos iriam se
rebelar contra sua autoridade? Eu não acredito nisso. Estando armados
de tal pré-conhecimento, eles teriam condenado efetivamente uma
multidão de numenoreanos a se tornarem maus.

Tolkien escreveu
que Manwë não podia, não iria compelir Melkor ao arrependimento, ou
usar contra Melkor os artifícios que ele próprio usara. No
Ósanwë-kenta, Tolkien explica que "Se Manwë tivesse quebrado esta
[sua] promessa [de libertar Melkor do aprisionamento no tempo
determinado] para seus próprios propósitos, ainda que "bons", ele teria
dado um passo em direção aos caminhos de Melkor. Este é um passo
perigoso. Naquela hora e ato, ele poderia ter deixado de ser o
vice-regente do Uno, tornando-se somente um rei que toma vantagem sobre
um rival que ele conquistou pela força."

Manwë igualmente
controlou a compulsão com a qual Sauron estava preocupado. Sauron
recebeu a ordem de se apresentar a Manwë para o julgamento, mas quando
Sauron falhou em mostrar-se, os Valar não o capturaram. A primeira
guerra para aprisionar Melkor foi iniciada em virtude dos Filhos. A
segunda guerra, ao final da Primeira Era, foi lançada por um propósito
similar. Não era a intenção de Manwë compelir Melkor ou forçar o Tempo
para um certo caminho.

Então, ao pronunciar o destino, como
quando os Valar expulsaram os Noldor de Aman e impuseram-lhes uma
condenação, na verdade uma maldição, não foi um ato em que os Valar
compeliram a escolhas específicas ou alteraram as atitudes dos Filhos.
Quando os Valar amaldiçoaram os Noldor, eles não poderiam compeli-los a
praticar o mal adiante (e de fato praticaram), mas de preferência
deveriam libertar os Filhos de quaisquer graça que sua convivência com
os Valar os tivesse concedido. Os Valar removeram suas influências
sobre os corações dos Noldor, que trilhavam um caminho (assim
deduziram) que os levaria apenas à autodestruição.

Pengolodh escreveu no Ósankë-kenta, "Eu
digo que isto não é assim. Tais coisas podem parecer-se, mas se em
gênero elas são totalmente diferentes, elas devem ser distintas.
Previdência, que é a previsão, e prognóstico, que é a opinião tomada
pelo raciocínio sobre a presente evidência, podem ser idênticas em sua
predição, mas são completamente diferentes em modo, e deveriam ser
distinguidas por mestres de tradição, mesmo se a língua habitual, tanto
de Elfos como de Homens, lhes dê o mesmo nome como áreas da sabedoria".

O Ósanwë-kenta diz que "Os
Valar entraram em Eä e no Tempo de livre vontade, e eles agora estão no
Tempo, enquanto este durar. Eles não podem perceber nada fora do Tempo,
salvo pela memória de sua existência antes dele começar: eles podem
recordar a Canção e a Visão�?.

A primeira nota acrescida ao
comentário sobre o "Athrabeth Finrod ah Andreth" diz respeito à
liberdade de Ilúvatar em oposição às limitações dos Valar:


"Os Eldar acreditavam que Eru era e é livre em todos os estágios. Esta
liberdade foi mostrada na Música por Sua introdução, após o surgimento
das dissonâncias de Melkor, de dois novos temas, representando a
chegada de elfos e homens, que não estavam no Seu primeiro comunicado.
Portanto Ele pode, no estágio cinco, introduzir diretamente coisas que
não estavam na Música e que assim não são realizadas através dos Valar.
Não obstante, isto continua em geral verdadeiro no que diz respeito a
Eä como concluído através da intervenção deles."

A
intervenção dos Valar na criação (ou sub-criação) de Eä, bem como sua
memória da Música e da Visão, os provêm com o conhecimento intrincado
de Eä e do Tempo em que eles projetaram o que se daria. Eles também
podiam prever acontecimentos ainda não revelados, mas apenas caso
Ilúvatar transmitisse tal conhecimentos a eles. A sua própria
intervenção deu a eles pré-conhecimento, mas não previsão. Ilúvatar
falou aos Ainur quando lhes mostrou a Visão, e disse-lhes muito que não
estava incluído nela.

Desse modo, o livre-arbítrio não colide
com as ações e intenções dos Valar, exceto Melkor, que desejava
compelir todas as criaturas viventes à sua obediência. Ele desejava que
fosse adorado pelos Filhos assim Ilúvatar deveria ter sido. Ele queria
ser obedecido pelos Ainur como Ilúvatar deveria ter sido. Melkor tentou
engajar-se no tipo de corrupção que iria eliminar ou reduzir o
livre-arbítrio. Tolkien tentou explicar esse resumo do dom de Ilúvatar
a todas as criaturas encarnadas pensantes nos ensaios a respeito da
origem dos Orcs.

No seu último ensaio sobre os Orcs, Tolkien escreveu:
verdade, claro, que Morgoth mantinha os orcs em horrenda escravidão;
pois em sua corrupção, eles haviam perdido quase toda a possibilidade
de resistir à dominação de sua vontade. De fato, tão grande era a sua
pressão sobre eles que, antes de Angband cair, se direcionasse seu
pensamento na direção deles, eles ficariam conscientes de seu "olho"
onde quer que estivessem; e quando Morgoth finalmente foi removido de
Arda, os orcs que sobreviveram no oeste se dispersaram, sem liderança e
quase sem sagacidade, e estiveram por um longo tempo sem controle ou
propósito."

A compulsão de Melkor por outras vontades deve
ser reduzida a mera influência, como na influência que ele parece ter
manifestado nas escolhas feitas pelos filhos de Húrin. Quando Melkor
aprisionou Húrin sobre as Thangorodrin, ele disse, "No entanto
posso chegar a você e a toda sua casa amaldiçoada, e serão quebrados
pela minha vontade, mesmo que sejam todos feitos de aço… Olhe! A
sombra de meu pensamento pesará sobre eles aonde quer que vão, e meu
ódio há de persegui-los até os confins do mundo�?.

Desde
que Túrin foi criado em Doriath sob a proteção de Melian, é improvável
que Melkor pudesse ter tido muita influência sobre a vida de Túrin. Mas
Saeros, em seu orgulho, abriu a si mesmo ao mal. Melkor deve apenas ter
necessitado de deduzir que onde quer que Túrin fosse, ele iria
encontrar alguém que tivesse alguma mácula sobre si. Nesse encontro, a
escolha de Túrin seria pré-influenciada para suspeitar do que é certo.
Tão pequena semente deve falhar em florescer uma centena de vezes, mas
conseguir usufruto ao menos uma. O conto dos filhos de Húrin poderia
estar repleto de casos em que eles eram tentados a escolher errado, mas
não o fazem.

No final, apenas as escolhas que levaram ao
destino que Melkor desejou para eles compreendem os elementos-chave do
Conto dos filhos de Húrin. Isso é o mais próximo que Tolkien chega de
impor qualquer coisa como predestinação sobre seus personagens. E ainda
que Húrin tenha revelado a localização geral de Gondolin aos espiões de
Melkor, este apesar de tudo deveria contar com o engano e aproveitar-se
das circunstâncias para alcançar seu objetivo. Ele não poderia
simplesmente decretar que Húrin trairia Turgon. Tal traição teria
acontecido antes e com menos complicações.

A maldição de
Melkor, assim como a maldição dos valar sobre os noldor rebelados, não
era, então, profecia, e certamente não impôs limitação ao
livre-arbítrio. Essas eram as ações de grandes poderes, possuidores de
grande conhecimento e compreensão, e capazes de considerável
discernimento acerca das motivações e prováveis escolhas das criaturas
com as quais lidavam.

Profecias verdadeiras acontecem algumas
vezes, mas isso é ofuscado pela previsão. Se pudermos distinguí-los,
devemos concluir que previsão apenas confirma intuitivamente que algo
deve ou irá ocorrer. Por exemplo, quando a Comitiva do Anel está
decidindo qual rumo tomar em Eregion, Aragorn alerta Gandalf sobre a
escolha do caminho através de Moria. Aragorn não tem uma idéia clara do
motivo para ele se sentir compelido a alertar Gandalf sobre aquele
caminho. E Gandalf certamente não pressente tal perdição. Mas a
premonição de Aragorn prova-se certa: eles encontram o Balrog e Gandalf
é afastado de seus companheiros.

Por outro lado, Elrond prediz alguns acontecimentos concernentes a jornada de Frodo: "Consigo
prever muito pouco do seu caminho, e como sua tarefa deve ser
desempenhada eu não sei. A Sombra agora já chegou aos pés das
Montanhas, e avança até a região próxima ao rio Cinzento; sob a Sombra
tudo fica escuro aos meus olhos. Você vai se deparar com muitos
inimigos, alguns declarados, alguns disfarçados; e poderá encontrar
amigos em seu caminho, quando menor esperar."

Quem pode
duvidar de que Boromir deve ser um inimigo não-declarado, e Faramir um
amigo inesperado? Mas a predição de Elrond é enganada pela Sombra,
quase como se ele estivesse literalmente vendo a jornada de Frodo
enquanto ela se desenrola. Por que deveria a Sombra (presumivelmente a
influência ou vontades de Sauron e Saruman) impedir a visão de Elrond?
A nota seis no Ósanwë-kenta nos oferece uma sugestão:


"Pengolodh aqui elabora (embora não seja necessário ao seu argumento)
esta questão de previsão. Nenhuma mente, ele afirma, conhece o que nela
não está. Tudo o que fora experimentado está nela, apesar de que no
caso dos Encarnados, dependendo dos instrumentos do hröa, algumas
coisas podem ser esquecidas, não estando imediatamente disponíveis para
recordação. Mas nenhuma parte do futuro lá está, pois a mente não pode
vê-lo nem tê-lo visto: isto é, uma mente situada no tempo. Tal mente
pode aprender sobre o futuro apenas a partir de outra mente que o tenha
visto. Mas isto significa apenas diretamente de Eru, ou por intermédio
de alguma mente que tenha visto em Eru alguma parte de Seu propósito
(assim como os Ainur, que agora são os Valar em Eä). Só assim um
Encarnado pode conhecer algo do futuro: por instrução derivada dos
Valar, ou por uma revelação vinda diretamente de Eru. Mas qualquer
mente, seja dos Valar ou dos Encarnados, pode deduzir pela razão o que
pode ou irá ocorrer. Isto não é previsão, mesmo que possa parecer claro
em termos e, de fato, mesmo mais preciso do que vislumbres de previsão.
Nem mesmo se isto é formado por visões vistas em sonho, um meio segundo
o qual a previsão é freqüentemente revelada à mente."

A
previsão do Elrond não pode ser uma dedução baseada em seu
conhecimento. Ele não sabia quem poderia ou iria trair Frodo, bem como
quem poderia ou iria aparecer em seu caminho. Elrond não sabia nem
mesmo por qual caminho Frodo seguiria até Mordor. Ainda que pudesse ser
argumentado que Elrond e Gandalf haviam despedido um bom tempo
discutindo sobre o caminho que a Comitiva do Anel poderia seguir, e
quem vivia naquela estrada. A remoção de Gandalf em Moria dá um limite
à sua influência sobre o pensamento de Elrond.

Então, deve ter
sido enviado um sutil conselho a Elrond pelos Valar, ou talvez pelo
próprio Ilúvatar. Da mesma forma, os sonhos que Faramir e Boromir
tiveram alertaram-nos para procurar Valfenda, isso não pode ser produto
de seus pensamentos. Eles simplesmente não tinham conhecimento
suficiente para deduzirem sobre tais possíveis acontecimentos. Eles
devem ter ouvido algo sobre Imladris quando crianças e esquecido-se
disso; eles sem dúvida sabiam que a espada de Elendil havia sido
quebrada. Mas eles não poderiam saber que um Pequeno tinha um símbolo
de grande poder, ou que um conselho seria desvelado em Imladris quando
seria decidido sobre uma grande perdição.

Outros exemplos de
previsão entre Elfos e Homens incluem as profecias de Malbeth, o
Vidente (acerca do nome de Arvedui e a jornada de Aragorn pelas Sendas
dos Mortos), a predição de Glorfindel de que o Senhor dos Nazgûl não
cairia pelas mãos de um homem, e a predição de Isildur de que a guerra
contra Sauron não terminaria rapidamente.

As deduções
intuitivas dos Lossoth (de que o barco élfico enviado para resgatar
Arvedui não era seguro) e os Druedain (que Númenor não sentia mais
segurança sob seus pés, e que uma mudança viria previamente à batalha
dos Campos de Pelennor) parecem estar mais proximamente alinhadas com a
idéia de previsão, embora esses (primitivos) povos tenham estado mais
intimamente direcionados a conselhos sutis dados por Ilúvatar (ou os
Valar).

E sobre as palavras de Elrond acerca do Condado, e seu
desejo de enviar Merry e Pippin de volta como mensageiros? Tolkien não
revela quanto Elrond sabe (ou descobre) das atividades de Saruman em
Eriador. Mas Gandalf e Aragorn estavam cientes do crescente interesse
no Condado. Gandalf pediu a Aragorn que aumentasse a guarda no Condado.
Então, se Gandalf e Aragorn sabiam que alguém estava atento para algo,
Elrond deve ter sabido, também, o que estava acontecendo. E a revelação
de Gandalf acerca da traição de Saruman teria ajudado Elrond a concluir
que o Condado não era mais um lugar seguro de influências externas. Sua
preocupação é muito vaga, embora prove-se bem fundamentada.

A
advertência de Celeborn a Aragorn é outro exemplo da previsão élfica, e
também é um pouco mais avançada que a previsão de Elrond. Celeborn
explica a situação e sobre as terras para a Comitiva do Anel, dado o
curso que eles haviam escolhido. E ele lhes dá mais tempo para pensar
melhor sobre as escolhas que irão fazer ao dá-los barcos, então eles
podem prosseguir para o sul pelo Anduin. Mas no final, ele aponta, eles
devem escolher se irão para o leste ou ao oeste. E ele relembra Boromir
que os velhos contos de avós podem guardar mais do que os Sábios acerca
de determinados assuntos. Talvez a advertência de Celeborn para não
passarem por Fangorn tenha sido um vislumbre de verdadeira previsão,
onde os Valar ou Ilúvatar podiam estar sugerindo de forma vaga que os
problemas estavam crescendo.

A inabilidade de Elrond para ver
com clareza o que irá acontecer nas terras onde a Sombra cresce implica
em uma limitada capacidade de previsão. Isto é, se Ilúvatar o estivesse
enviando visões, então por que seriam curtas? Malbeth parecia estar
muito bem informado nos problemas de Estado e catástrofe. Sua previsão
é quase como pré-conhecimento, e isso significa que ele estava
recebendo suas visões de Ilúvatar, ou talvez de Manwë.

Mas
Tolkien diz que Ilúvatar intervém apenas após a morte de Gandalf. É
nesse ponto que o plano dos Valar para derrotar Sauron falha. Por dois
mil anos, então, os Valar estiveram conduzindo o espetáculo. O quanto
eles sabem do que está por vir, e o quanto eles estão deduzindo? E eles
devem estar deduzindo algumas coisas. De outra forma, por que iria
Gandalf ser pego desprevenido pela traição de Saruman e a aparição do
Balrog? A incerteza do plano dos Valar implica fortemente que eles não
poderiam prever o final do conflito. A intervenção de Ilúvatar implica
fortemente que ele queria que o conflito terminasse de uma determinada
forma.

Ao falar sobre a recusa dos Valar em intervir diretamente em Beleriand antes do término da Primeira Era, Tolkien sugere que "a
última intervenção com força física pelos Valar, que resultou na queda
das Thangorodrim, pode então ser vista como não de fato relutante ou
indevidamente postergada, mas precisamente ao seu tempo. A intervenção
veio antes da aniquilação dos Eldar e dos Edain. Morgoth, apesar de
logicamente triunfante, havia negligenciado a maior parte da
Terra-Média durante a Guerra; e de fato ele havia sido enfraquecido: em
poder e prestígio (ele havia perdido e falhado em recuperar uma das
Silmarils), e acima de tudo, em mente … A guerra foi bem-sucedida, e
a ruína limitou-se à pequena (porém bela) região de Beleriand."

Os Valar não foram, assim, sempre atuantes baseados no
pré-conhecimento, ou previsão, mas ao menos em algumas ocasiões -
especialmente depois que muito Tempo já havia passado – baseados em
suas próprias deliberações. Eles estavam a calcular quando e o quanto
deveriam intervir diretamente na História. Seu conhecimento do que
estava por vir era incompleto, e tornando-se ainda mais incompleto com
o passar de cada era. No fim, eles equivocaram-se (na verdade, eles
calcularam mal mais de uma vez, mas Ilúvatar precisou intervir
diretamente ao menos em duas ocasiões para preservar a ordem natural).

O que parece ser profecia em muitas ocasiões, assim, resulta da
imposição, quando é o produto de uma vontade maléfica como as de Melkor
ou Sauron; ou da previsão, o cálculo do que deve ou pode vir a
suceder-se baseado no conhecimento sobre os acontecimentos e pessoas;
ou do pré-conhecimento, que é derivado da Música, da Visão, ou
Ilúvatar; ou de Ilúvatar propriamente dito. Apenas deste é a verdadeira
predição profética, mas profecia não é simplesmente predição. Profecia
em seu sentido mais completo é revelação. Caso os Valar revelem algo a
Elfos ou Homens, eles estão transmitindo conhecimento profético ou
previsão.

As limitações da previsão podem explicar por que Tom
Bombadil não pôde oferecer aos Hobbits, muitos conselhos acerca de seu
caminho. Ele não acreditava que os Nazgûl fossem incomodá-los durante
um longo tempo (ele estava, na verdade, errado). Os Nazgûl estavam
vigiando Bri quando Frodo e seus companheiros chegaram. Tom estava
aparentemente contando com seu conhecimento sobre a região e as
criaturas que conhecia. Sua experiência com os Nazgûl era limitada, e
então, ele não era muito bom para predizer o que eles poderiam vir a
fazer. E ele disse tanto quanto podia aos Hobbits.

A incerteza
das predições de Tom é compável com a incerteza das revelações do
Espelho de Galadriel. Sua pequena bacia cheia dágua claramente revela
acontecimentos, então as visões de Frodo e Sam percebem nele são
profecias verdadeiras. Mas Galadriel os alerta que não é fácil
descernir em que ocasiões as revelações são sobre o passado, o
presente, ou o futuro. E ela também aponta que nem tudo "predito" pelo
espelho vêm a acontecer. Então, qual a fonte das visões do espelho?
Estará a magia de Galadriel captando pensamentos aleatórios de Ainur
que dormem? Ou estaria Ilúvatar distribuindo visões como
biscoitos-da-sorte?

Internamente ao Conto do Tempo, profecias
desempenham um papel variado que informa e ilumina, mas isso não
domina. Em mãos erradas isso é tanto uma ferramenta de imposição,
quanto evidência de imposição. Mas em boas mãos são um sinal do
contínuo interesse e intervenção de Ilúvatar, que sozinho sabe como
tudo irá arrumar-se. Mas, apesar de tudo, ele permite a todos os Filhos
de seu pensamento, tanto Ainur quando Encarnados, que tomem suas
próprias decisões.

E agora, cadê o resto do poema?

Poderia ser que, se não fosse por um manuscrito obscuro do século XIII, O Senhor Dos Anéis não fosse publicado. Muitas pessoas que expressaram mais que uma adoração passageira cedo ou tarde ouviram que Tolkien na verdade tinha desistido de publicar o Senhor dos Anéis através de George Allen & Unwin, e mandou o trabalho para Milton Waldman na Collins. MAs o que pode não ser conhecimento de todos é o fato que Tolkien voltou para Allen & Unwin por causa de um poema que ele escreveu anos atrás, usando-se da palavra "sigaldry".
 

 

E "sigaldry", na verdade, é uma palavra que Tolkien descobriu em um manuscrito da era de 1200. Eu não tenho idéia de sobre o que o manuscrito era, nem mesmo de que língua a palavra vem. É uma palavra perdida e esquecida, exceto pelo fato que Tolkien usou-o em poema relativamente pequeno, e que teve um profundo impacto na literatura moderna.

Tolkien compôs o poema entre o final dos anos 30 e o começo dos anos 40 e mandou para o grupo informal de literatura chamado The Inklings (algo como Os Fãs da Tinta). Em uma carta para Rayner Unwin, Tolkien especulou que o poema tomou vida própria daquele círculo de amigos, e não do Oxford Magazine, que publicou uma versão do trabalho em 9 de Novembro de 1933. O poema deve ter sido tão bom para, pelo menos, um dos membros do grupo que ele passou para mais alguém.

Tolkien esqueceu do poema à medida que outros projetos tomaram sua atenção. Ele escreveu O Hobbit, Mr. Bliss e outras coisinhas. Claro que ele continuou a escrever O Silmarillion e talvez o início do Senhor dos Anéis. Mas quando Tolkien perdeu a paciência com George Allen & Unwin, que reclamava de ter que publicar um livro tão grande no começo dos anos 50 (uma época de falta de papel, na qual o lançamento de um livro não trazia tanta renda), ele virou-se para Milton Waldman na Collins.

Agora, Collins ainda está por ai, assim como George Allen & Unwin. Eles fazem parte do conglomerado HarperCollins. Então, apesar de Tolkien ter retornado para o folde em 1952, Collins cresceu ao se mesclar com a Harper e comprando George Allen & Unwin. E apesar da história dos publicadores com os quais Tolkien lidou não ter nada a ver com este interessante poema, na verdade tem tudo a ver com ele.

Tolkien pode ter esquecido dele, mas a audiência oral não. Eles o passaram, de amigo para amigo, professor para estudante, pai para filho. Em tempo, o poema chegou às mãos de Rayner Unwin, e este escreveu para Tolkien sobre o poema. Allen & Unwin queriam, aparentemente, publicar um pouco da poesia tolkieniana. Eles estavam se dando bem com a segunda edição d´O Hobbit e tinham publicado também Farmer Giles of Ham e Smith of Wooton Major. Tolkien estava trazendo dinheito para a firma, então eles estavam motivados a explorar um pouco mais o fenômeno.

Tolkien, por sua parte, tinha sido contatado há pouco tempo por "uma senhorita desconhecida à mim fazendo uma pergunta similar" sobre o mesmo poema. Ele disse à Unwin que sua correspondente confessou "que um amigo tinha escrito recentemente, de memória, alguns versos que a tinha deixado feliz a ponto de tentar descobrir sua origem. Ele tinha pego de seu afilhado que os aprendeu em Washington, D.C. (!): mas nada se sabia sobre seu criador a não ser uma vaga idéia de que eram conectadas à universidades inglesas…"

Obviamente, a senhora encontrou a origem de seus misteriosos versos em JRR Tolkien, que reconheceu-os alegremente de sua autoria. "Devo dizer que fiquei interessado em me tornar ´folclore´." disse ele à Unwin. "Assim como foi intrigante que ele ganhasse uma versão oral — que sai da minha visão tradicional de tradição oral (de todas as maneiras): que as palavras ´difíceis´ eram bem preservadas, as palavras mais comuns, alteradas e a métrica perturbada".

A métrica de Tolkien era mais perturbante que perturbada. Ele a descreveu como "dependente em assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas, tão difícil que, exceto desta vez, eu nunca seria capaz de usá-la novamente — simplesmente saiu de uma vez só)."

Bem, Humphrey Carpenter, editor das Letters, não poderia deixar essa afirmação sair impune. Tolkien usou, ao que parece, as "assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas" novamente. E as usou em… "O Senhor dos Anéis".

Carpenter também nos diz sobre o uso da palavra "sigaldry" por Tolkien, e sua origem num manuscrito do século XIII, numa nota-final na carta para Rayner Unwin. A anedota vem de uma carta que Tolkien escreveu para Donald Swann em 1966. Swann, você talvez lembre, compôs a música para The Road Goes Ever On, publicado pela primeira vez em 1967.

Swann encontrou o poema em 1949, anos antes de Rayner saber dele. "Um amigo de escola me deu este poema," Swann escreveu no prólogo de The Road Goes Ever On. "Ele o encontrou… numa revista da escola". Swann não sabia quem era o autor, porque na cópia do poema do amigo estava escrito "Anônimo".

Swann, também, menciona a extensiva tradição oral do poema (descrito para ele por Tolkien). As pessoas continuavam a passá-lo, com muitas variações. E, ao que parece, o poema ainda é passado por aí hoje, por pessoas que talvez não tenham conhecimento de onde veio, ou qual sua relação com o livro mais popular do século XX.

Seria uma pena contar à eles o que eles encontraram, pois acabaríamos com uma tradição oral que até mesmo Tolkien teria pena de terminar. Então, se você encontrar uma cópia do poema sem o título ou origem, não diga nada. Apesar de parecer uma brecha da maneira no respeito que damos a um grande autor, pense nisso como ele fez: a prova viva de sua teoria sobre tradições orais (ou pelo menos o começo delas). Ver o pássaro ganhar asas é legal, mas observá-lo em vôo, enquanto plana por sobre as nuvens, totalmente alheio ao observador — isto é miraculoso.

Este poema não é especial apenas porque ele conseguiu algo quase impossível em uma era de leis de copyright e impérios mundiais editoriais; é especial porque deu à Rayner Unwin uma oportunidade de se aproximar de Tolkien, o qual ainda tinha uma relação de autor-publicador com sua empresa, e perguntar politamente do que houve com o Senhor dos Anéis e aquele outro trabalho, O Silmarillion.

Em tempo, Tolkien achou as palavras para responder à questão de Unwin e, apesar da carta lidar a maior parte do tempo com a tradição oral que ele semeou acidentalmente, foi uma resposta para um momento conturbado. Tolkien podia estar revoltado ou apenas envergonhado em sua falha de encontrar um publicador alternativo para O Senhor dos Anéis, por sua retirada da George A
llen & Unwin alguns anos antes.

Ao invés disso, Unwin empregou um pouco de cortesia verbal em Tolkien que o fez baixar barreiras e abrir portas que estavam há muito fechadas. Este obscuro poema, à propósito, foi influenciado por uma das histórias do Silmarillion, e conta de maneira leve a aventura de um dos menos trágicos heróis de Tolkien.

E ele foi reescrevê-lo para o Senhor dos Anéis, onde serve para acalmar o leitor para um estado sonolento de mente, similar ao de Frodo quando ouve a voz suave cantando a história do marinheiro.

Quando isto aconteceu, George Allen & Unwin percebeu que a falta de papel não era tão ruim, e Tolkien descobriu que tinha um público para partes de seu trabalho que ele nunca pensou. Como um favor para sua amada tia Jane Neave, ele publicou uma coleção de poemas em 1962 como As Aventuras de Tom Bombadil somente alguns anos antes dela passar de vez. Um desses poemas foi o que chamou a atenção de Donald Swann em 1949: "Errantry".

"Errantry" não apenas reviveu uma palavra perdida do século XIII, também revive as esperanças de ver O Senhor Dos Anéis (e talvez até o Silmarillion) publicado. Ele nunca esperou que suas negociações com publicadores viessem de inocentes pedidos de pessaos que estavam fascinados com o poema que pode ser descrito como um dos mais longos limmericks já compostos.

"Errantry" reconta a história de Earëndil o Marinheiro, que é algumas vezes citado como "O Marinheiro", e sem dúvida de muitas outras coisas. E ignorando alguns erros aqui e ali, ele sobreviveu sozinho mesmo sem ter sido em não menos de três coleções de trabalhos menores de Tolkien (que eu saiba). "Errantry", em fato, é o único poema que Tolkien escreveu publicado pelo menos 4 vezes (cinco se contar a canção de Bilbo em Valfenda, já que este trabalho é reconhecido por Christopher Tolkien e outros como um derivado de "Errantry").

O tolo marinheiro que casa com uma borboleta e desafia cavaleiros élficos demonstrou uma força literária e poética que poucos personagens de poesia musicada do século XX tem. Ele é, talvez, um dos mais memoráveis personagens de Tolkien, até mesmo porque o poema é difícil de pronunciar e possui palavras obscuras como "chalcedony" (calcedônia), "habergeon" e "sigaldry".

Claro que não acaba (e nem mesmo começa) aqui. "Sigaldry" aparece em mais outro trabalho tolkieniano, um poema extraordinariamente longo e de alto calibre. "A Balada de Leithian" é considerada por muitas pessoas (incluindo seu autor) a melhor obra de literatura composta por JRR Tolkien. Sua conexão com "Errantry" não está apenas no uso de palavras arcaicas. Os dois poemas nasceram num período em que Tolkien não tinha esperanças de ver seu trabalho publicado. Foi feito para seu próprio prazer, de sua família e amigos.

Mas "Errantry" é tão poderosa, e "A Balada de Leithian" é tão convincente que eles foram destinados para uma grandeza que, se os críticos do século XX conhecessem-os nos anos 30, teriam humilhado todas suas opiniões. Vocês podem imaginar as besteiras que foram sendo ditas ao longo dos anos numa tentativa de fabricar um passado inexistente.

Mas a Poesia provou ser maior que o desespero de Tolkien e as objeções da crítica. "Errantry" forjou caminhou que Tolkien nunca imaginou seguir, e inevitávelmente "A Balada de Leithian" seguiu atrás dele, pois esta tocava O Senhor Dos Anéis, também. O Senhor Dos Anéis oferece pedaços das duas histórias, e as coloca dentro de si mesmo, enriquecendo a Terra-Média e expandindo sua profundidade com detalhes que pre-existiram em sua própria história. Isto nunca teria acontecido se Tolkien não tivesse dividido sua ingenuidade trissilábica com alguns amigos numa noite há muito tempo atrás.

E agora, como o lendário comentador Paul Harvey diria, você conhece o resto do poema…


Tradução de Aarakocra

Conexões Terra-média: Conhecimentos sobre os Anéis

Ponto 1: Tempo ficou parado para os Anéis de Poder

"’Quanto tempo você acha que eu devo permanecer aqui?’ disse Frodo a Bilbo quando Galdalf se foi.

‘Oh, eu não sei. Eu não consigo contar os dias aqui em Valfenda,’ disse Bilbo…"

 
 
 
Esse diálogo, anotado em "O Anel vai para o Sul",
é a primeira indicação que Frodo Bolseiro e seus amigos estavam
envolvidos pela presença de um Anel do Poder que não fosse o Um Anel
que Frodo carregou por muitos anos [desde que Bilbo deixou o Condado].
Os Anéis de Poder foram criados para conter o Tempo, ou diminuir seus
efeitos. Mas qual era o alcance de seus poderes? Exitia alguma espécie
de limite absoluto para a "cronoinibição" de cada Anel? Poderiam os
efeitos se estender apenas por essa distância e não mais além?

O curioso é que o Um Anel, o mais poderoso de todos os artefatos
concebidos para conter o Tempo, apenas inibia os efeitos do Tempo sobre
seu portador. O Condado não se tornou "sem-tempo" porque Bilbo trouxera
o Anel para lá. Bilbo de fato tornou-se "sem-tempo", e Frodo depois
dele. Como é isso, então, que ninguém mais foi afetado, enquanto que em
Valfenda e Lórien toda a terra [mas aparentemente nãos os habitantes
não-Élficos] foram preservadas?

Estudando os efeitos dos
Anéis de Poder pode revelar muitas inconsistências aparentes em como
eles funcionavam, e não "é de se estranhar que Saruman tenha ficado
louco com o desejo de possuir um [ou todos] eles.

Quando Elrond descreveu os poderes dos Anéis Élficos ele disse "mas
não foram feitos para serem usados como armas de guerra ou conquista:
não é esse o poder que têm. Aqueles que os fizeram não desejavam força,
ou dominação, ou acúmulo de riquezas; mas entendimento, ações e curas."
A descrição dele é bastante diferente da descrição dos poderes dos Anéis feita por Tolkien:

"O poder principal [de todos os anéis igualmente] é a prevenção ou
diminuição da decadência [isto é, "mudança" vista como algo
lamentável], a preservação do que é desejado ou amado, ou sua visão -
este é mais ou menos um motivo Élfico. Mas eles também aumentam os
poderes naturais do portador – dessa forma se aproximando da "mágica",
um motivo facilmente corruptível para o mal, um desejo por dominação. E
finalmente eles possuíam outros poderes, mais diretamente derivados de
Sauron ["o Necromante": assim ele é chamado pois lança uma sombra
passageira e um presságio nas páginas de O Hobbit]: como fazer
invisível o corpo material, e fazer coisas do mundo invisível visíveis.


"Os Elfos de Eregion fizeram Três anéis supremamente belos e poderosos,
quase que apenas de suas próprias imaginações, e os direcionaram para a
preservação da beleza: eles não conferiam invisibilidade…" [Letters,
No. 131].

É possível inferir que a descrição de Elrond
dos poderes dos Anéis é destinada a desviar outras inquisições
apresentando apenas exemplos de seus poderes. A natureza verdadeira dos
Anéis, de conter os efeitos do Tempo, é vista apenas no breve relato de
Elrond: "Apenas nesta hora de dúvida eu posso dizer. Eles não estão ociosos."

De fato, Elrond e Galadriel [de modo não sábio] usaram seus Anéis de
Poder durante toda a Terceira Era para preservar os reinos Élficos. A
história de Galadriel não é clara, mas ela provavelmente não viveu em
Lorien durante toda a Terceira Era. Particularmente, quando se torna
claro que todo o povo de Amroth partiria de Lorien se nada fosse feito,
ela e Celeborn foram viver entre os Elfos da Florestas que ainda não
tinham partido.

Galadriel levou com ela Nenya, o Anel de
Diamante, e ela pode ter usado seu poder para induzir os Elfos da
Floresta a premanecer em Lorien. Nós não sabemos se ela realmente
utilizou o Anel antes disso [1981 ou logo após]. Tolkien diz apenas que
"o [Um] Anel foi perdido [ao início da Terceira Era], espera-se que
para sempre; e os Três Anéis dos Elfos, empunhados por guardiães
secretos, estão operativos na preservaçào da memória da beleza de
antigamente, mantendo enclaves encantados de paz onde o Tempo parece
parado e a decadência é refreada, uma visão da glória do Oeste
Verdadeiro." [Ibid.]

A partida de Amroth, que havia sido
um vigoroso defensor do Oeste durante todo o segundo milênio da
Terceira Era, pode ter estimulado os Elfos a uma ação diferente do que
haviam feito anteriormente. Pode ser que de fato Elrond e Galadriel
finalmente decidiram ativamente utilizar seus Anéis de Poder para
evitar um êxodo em massa de Elfos da Terra-média. Se isso, eles estavam
apenas retardando o inevitável, que era o propósito destinado aos
Anéis, de qualquer forma.

Ponto 2: os Elfos não podem permanecer na Terra-média

Os Elfos estavam partindo da Terra-média há eras. A catástrofe para
eles na Terceira Era era bastante diferente daquelas de eras
anteriores. Quando os Eldar originalmente navegaram sobre o Mar fora
sob o convite dos Valar, que haviam encontrado os Elfos em sua terra
natal de Cuiviénen. Mas os Elfos foram incomodados por Melkor, que
então era, de fato, governante damaior parte de Arda. Os Valar travaram
uma terrível guerra contra Melkor e seus servidores Maiar e seres
criados, tomaram-no prisioneiro e trouxeram um fim ao seu terrível
reino. Mas desejando estar em companhia dos Elfos [cuja chegada havia
sido antecipada através de incontáveis eras], e para proporcionar a
eles um lugar seguro além do alcance dos servidores de Melkor, os Valar
chamaram os Elfos para viverem com eles em Aman, o Extremo Oeste.

Nem todos os Elfos estavam querendo deixar a Terra-média, que era sua
terra natal e o único lugar que eles conheciam. E daqueles Elfos que
aceitaram os chamados, muitos nunca cruzaram [vivos] o Mar. Ainda, as
primeiras ondas de migração para fora da Terra-média foram "saudáveis",
ou feitas quando os Elfos era jovens e fortes e ainda não estavam
cansados do mundo. tampouco eles estavam profundamente envolvidos na
Terra-média.

Quando Feanor se rebelou contra os Valar, ele
liderou a maior parte dos Noldor de volta à Terra-média [ou, melhor,
liderou a maioria deles para fora de Eldamar, e então abandonou a maior
parte de seu povo, a maioria dos quais decidiu seguir Fingolfin para a
Terra-média]. Destes exilados, a vasta maioria [e seus descendentes]
foram mortos ou escravizados por Melkor, que agora retornara à
Terra-média como um Senhor Negro. os espíritos destes Elfos mortos
retornaram a Aman onde esperaram um "renascimento" ou "reincorporação",
se tal recompensa pudesse ser merecida por seus feitos em vida.

Para os restantes, uma terrível maldição foi imposta. Não a Maldição
dos Noldor, que foi a maldição que os valar colocaram sobre eles, que
fracassassem na guerra contra Melkor. Especialmente, a eles foi dito
que "aqueles que permanecessem na Terra-média deverão cansar-se do
mundo com uma grande aflição, e deverão declinar, e tornar-se como
sombras de pesar antes da raça mais jovem que virá depois."
[Silmarillion, "Da Fuga dos Noldor"]

Esta maldição foi
aplicada, na realidade, a todos os Elfos, e foi, talvez, mais um aviso
do que um julgamente. Ao descrever os eventos da Segunda Era para
Milton Waldman [um editor que considerara O Senhor dos Anéis a certo
momento quando Tolkien tinha retirado o livro da Allen & Unwin],
JRRT escreveu "os três temas principais são A Demora dos Elfos que
hesitavam em deixar a Terra-média; o crescimento de Sauron como um novo
Senhor Negro, mestre e deus de Homens; e Numenor-Atlantis."

Após a derrota final de Morgoth na Guerra da Fúria, Eonwë [arauto de
Manwë e líder da Hoste de Valinor] viajou por toda a Terra-média,
convocando todos os Elfos mais uma vez para navegarem sobre o Mar. O
convite que anteriormente havia sido retirado, para incluir apenas os
Eldar [os Elfos originais que realmente aceitaram as convocaçoes na
primeira vez] foi agora extendido a TODOS os Elfos. Muitos dos Noldor e
Sindar de Beleriand sobreviventes responderam e deixaram a Terra-média.
Mas os remanescentes Noldor e Sindar uniram-se aos Nandor e Avari na
Terra-média. Eles "hesitaram".

Tolkien aponta que "no
primeiro [tema da Segunda Era] nós vemos uma espécie de queda ou pelo
menos "erro" dos Elfos. Não existe nada essencialmente errado em suas
hesitações em atender ao conselho, permanecendo tristemente nas terras
mortais de seus antigos feitos heróicos. mas eles queriam ter seu bolo
sem comê-lo. Queriam a paz e a bem-aventurança e memória perfeita do
"Oeste", e mesmo assim permanecer na terra ordinária onde seu prestígio
como o povo maior, sobre Elfos da florestas, Anões e Homens era maior
do que estar na base da hierarquia de Valinor. Eles então tornaram-se
obcecados com o "esvair-se", o modo pelo qual as mudanças do tempo [a
lei do mundo mortal sob o sol] eram sentidas por eles. Eles tornaram-se
tristes, e suas artes [poderíamos dizer] de antiquários, e seus
esforços eram todos uma espécie de embalsamação – mesmo que eles também
tenham mantido a antiga razão de sua espécie que eram o adorno da terra
e a cura de seus ferimentos…." [Ibid.]

Em outro lugar Tolkien reitera esta situação dizendo "os
Elfos não são completamente bons ou corretos. Não tanto por terem se
envolvido com Sauron quanto que com ou sem sua assistência eles eram
"embalsamadores"
. Eles queriam ter seu bolo e comê-lo: viver na
Terra-média mortal e histórica porque haviam se tornado apreciadores
dela [e talvez porque eles ali tinham as vantagens de uma casta
superior] e então tentaram parar suas madanças e história, parar seu
crescimento, mantê-la como um prazer, mesmo que na maior parte um
deserto, onde poderiam ser "artistas" – e eles foram sobrecarregados
com tristeza e pesar nostálgico…." [Letters, No. 154]

Sauron também hesitou na Terra-média. Tendo visto a completa derrota de
Morgoth, ele realmente se arrependeu [de acordo com Tolkien]. vendo que
os poderes da Luz realmente suplantavam o poder da Escuridão, ele
percebeu que talvez suas escolhas anteriores não eram as corretas para
ele. Mas quando Eonwë convocou-o para valinor para ser julgado pelo
Valar, Sauron recusou, e ele fugiu para esconder-se no exílio. Ou ele
temeu que poderia sofrer o mesmo destino de Melkor [que foi executado e
forçado a deixar Ea, o universo, em um estado de fraqueza terrível] ou
que ele poderia ser aprisionado por algum período de tempo
interminavelmente longo.

O Sauron "reformado" em um primeiro
momento desejou apenas ajudar a curar a terra que ele originalmente
havia auxiliado a danificar. Tolkien aponta que "seus motivos e aqueles dos Elfos pareciam caminhar parcialmente juntos: a cura das terras desoladas." [Letters, No. 131]
Mas as intenções de Sauron mudaram, e a certo tempo ele decidiu que ele
poderia "curar" melhor as terras direcionando os esforços dos Elfos, e
este tornou-se em última instância um desejo por dominação sobre os
Elfos [e através deles, sobre a Terra-média].

E então Sauron "encontrou
o ponto fraco [dos Elfos] sugerindo que, ajudando-se mutuamente, eles
poderiam fazer a Terra-média Ocidental tão bela quando Valinor. Foi
realmente um ataque velado aos deuses, um incitamento a tentar e fazer
um paraíso separado e independente. Goilgalad [sic] recusou todas as
sondagens, bem como Elrond. Mas em Eregion um grande trabalho fora
iniciado – e os Elfos chegaram o mais próximo de caírem para a "magia"
e maquinaria. Com a ajuda do conhecimento de Sauron eles fizeram os
Anéis de Poder…." [Ibid.]

Em essência, Sauron estava dizendo, "Vocês
não precisam esvair-se. Vocês não precisam navegar por sobre o Mar.
Vocês podem recriar Valinor aqui na Terra-média e usufruir todos os
benefícios que ela tem a oferecer a vocês."
A oferta era por demais
tentadora para alguns Elfos, os Noldor de Eregion. Sauron [disfarçado
de Annatar, ou Aulendil, um Maia do próprio povo de Aulë em Valinor]
estava oferecendo aos Eldar uma chance de evitar a inevitável maldição
que fora decretada para eles.

Mas o que Tolkien quis dizer quando ele fala "os Elfos chegaram o mais próximo de caírem para a "magia" e maquinaria"?

Ponto 3: Arte versus Magia

Tolkien tentou explicar seu uso de "magia" em mais de uma ocasião, e
nem sempre foi bem sucedido. "Temo que eu tenha sido muito casual sobre
"magia" eespecialmente o uso da palavra," ele escreveu em um rascunho
de complemento de uma carta que nunca foi enviado [Letters, No. 155].
"Apesar de Galadriel e outros mostrarem pela crítica ao uso "mortal" da
palavras, o pensamento sobre isto não é geralmente casual."

Em sua carta a Milton Waldman, Tolkien tentou explicar Arte e a Máquina
falando de "Queda, Mortalidade e Máquina." A história é relacionada com
"Queda inevitável, e esta ocorre de muitas maneiras. Com a Mortalidade,
especialmente como afeta a arte e a desejo criativo [quero dizer,
sub-criativo] que parece não ter função biológica, e estar à parte das
satisfações da vida ordinária comum, com a qual, em nosso mundo, está
de fato usualmente em conflito.

O desejo é imediatamente
unido a um amor apaixonado pelo mundo primário real, e então preenchido
com o senso da mortalidade e insatisfeito por ele. Existem várias
oportunidades de "Queda". Pode tornar-se possessivo, agarrado a coisas
feitas "por si mesmo", o sub-criador deseja ser Senhor e Deus de sua
criação particular. Ele irá se rebelar contra as leis do Criador -
especialmente contra a mortalidade. Ambos estes motivos [separados ou
juntos] irão conduzir a um desejo de Poder, para fazer a vontade mais
rapidamente efetiva – e então para a Máquina [ou Magia]. Mas ao final
eu pretendi que todo o uso de planos externos ou dispositivos
[apparatus] ao contrário do desenvolvimento de poderes inerentes ou
talentos – ou mesmo o uso desses talentos com o motivo corrompido de
dominar: amedrontando o mundo real, ou coagindo outras vontades. A
Máquina é nossa mais óbvia forma moderna apesar de mais próxima à Magia
do que normalmente reconhecido."

Tolkien continua para ceder
novamente [ou, de fato, anterior à sua concessão acima] que "Eu não
usei "magia" consistentemente, e realmente a Rainha Élfica Galadriel é
obrigada a advertir os Hobbits pelo seu uso confuso da palavra tanto
para os dispositivos e operações do Inimigo quanto para aqueles dos
Elfos. Eu não usei consistentemente porque não existe uma palavra para
a última [uma vez que todas as histórias humanas sofrem da mesma
confusão]. Mas os Elfos estão lá [em meus contos] para demonstrar a
diferença. Sua "mágica" é Arte, livre de muitas de suas limitações
humanas: exige menos esforço, é mais rápida, mais completa [produto e
visão em correspondência sem falhas]. E seu objetivo é Arte não Poder,
sub-criação não dominação e tirânica transformação da Criação. Os
"Elfos" são "imortais", pelo menos tão longe quanto este mundo dure: e
portanto são preocupados especialmente com os pesares e aflições da
imortalidade no tempo e nas mudanças, do que com a morte. O Inimigo em
sucessivas formas está sempre "naturalmente" preocupado com a Dominação
absoluta, e portanto é o Senhor da magia e das máquinas; mas o
problemas: o que este terrível mal pode e faz surgir de uma raiz
aparentemente boa para beneficiar o mundo e os outros – rapidamente e
de acordo com os próprios planos do benfeitor – é um motivo recorrente."

Arte então faz uso do mundo natural, e desenvolve suas tendências
naturais, enquanto que a Máquina impões uma vontade externa [não
natural] sobre o mundo, ou outras vontades. Tolkien aponta que os Elfos
de Eregion "chegaram o mais próximo de cair para a "magia" e
maquinaria." Ao criar os Anéis de Poder, eles usaram suas Artes para
criar uma Máquina, mas era uma Máquina que eles pretendiam utilizar
apenas para preservação, não alteração. Em todo caso, a contenção do
Tempo é uma ação muito séria, contrária às leis da natureza. É um ato
de rebelião "contra as leis do Criador".

Os Anéis de Poder
são, dessa forma, um paradoxo: eles proporcionam cura e restauração,
mas também uma preservação não natural. O motivo final por detrás dos
Anéis, reduzir ou evitar o inevitável esvair-se que os Elfos deveriam
sofrer, e um motivo rebelde. Os dispositivos são externos aos ambientes
que eles controlam, e os Elfos [de Eregion] não perceberam de início o
erro que estavam cometendo. Eles pagaram um terrível preço por sua
tolice. Sauron destruiu seu reino e tomou a maior parte dos Anéis para
si próprio, quando ele percebeu que seu plano para controlar os Elfos
através dos Anéis não funcionara. Deve ser enfatizado que a maioria dos
aspectos de Máquina presente nos Anéis derivam de Sauron, porque a
intenção de utilizá-los para controlar outros seres era estritamente
dele próprio.

A combinação de Arte e Magia é ao mesmo tempo
poderosa e destrutiva para os Elfos. Eles alcançaram uma pequena porção
de seu objetivo final, mas as coisas realmente nunca funcionaram como
eles pretendiam.

Ponto 4: O Produto de Arte e Máquina

Quando Sauron tomou os Sete e os Nove, Tolkien escreveu, ele retornou a
Mordor [de fato, ele foi eventualmente rechaçado para Mordor pelos
Eldar de Lindon e seus aliados Numenorianos, que a este tempo não
tinham idéia do motivo da guerra]. Lá Sauron "perverteu" os Anéis, e
ele os deu aos Anões e Homens em um novo plano pretendendo extender a
influência de Sauron sobre estas raças assim como ele pretendia
utilizá-los para controlar os Elfos.

Tolkien não diz
exatamente como Sauron perverteu os Anéis, mas seu objetivo final era
criar poderosos senhores que seriam seus escravos. Os Nove funcionaram
perfeitamente, e os nove homens que aceitaram os Anéis os utilizaram
para se tornarem grandes senhores, mas eventualmente perderam seus
livre-arbítrios e seus corpos. Eles se tornaram espectros, para sempre
invisíveis e incapazes de interagir diretamente com o mundo exceto
através de alguma forma de procedimento pela qual poderiam tomar forma
quando utilizando certas vestimentas. Eram vestimentas naturais ou
mágicas? Não sabemos.

Mas como os Nove e os Sete eram
imbuídos com as habilidades de fazer seus portadores invisíveis ou
permitir que vissem normalmente coisas invisíveis [presumivelmente
espectros, os espíritos de outros seres], segue que Sauron utilizou
estas habilidade para garantir poderes de necromancia [a prática de
comunicar-se ou controlar os mortos] aos portadores dos Anéis. Tolkien
não fala de qualquer Anão que tenha praticado necromancia. De fato, os
Anéis não podiam deixar os Anões invisíveis. parece que, portanto, os
Anéis não ofereciam nada de valor aos Anões em termos de lidar com os
mortos. Seus espíritos não devem se demorar na Terra-média quando eles
morrem.

Os Elfos, por outro lado, nem sempre iam
imediatamente para Mandos em Aman quando morriam [ou se esvaiam]. Eles
poderiam recusar os chamados, abandonando qualquer esperança de reobter
um corpo físico. Dessa forma faz sentido que Sauron tenha induzido os
Elfos de Eregion a incluir poderes Necromânticos em seus Anéis. Em
Aman, os Elfos estavam acostumados a viver junto aos Valar e Maiar, que
poderiam aparecer a eles em uma forma física ou em forma "espíritual"
[e os Valar e Maiar podiam controlar se seriam percebidos pelos Elfos,
quando em forma de espírito].

Espíritos Élficos podem não ser
equivalentes aos dos Valar e Maiar, mas presumivelmente os Elfos
esperavam falar com Mamãe e Papai na ocasião, desde que não tivessem
ido rapidamente para Aman quando da morte de seus corpos. Ou pode ser
que o processo de esvair-se já tivesse se iniciado ou os Elfos estavam
antecipando uma rápida transição para aos Anos do Esvair-se.

Quem seria mais provável para esvair-se? Um Elfo antigo,
presumivelmente. E quanto mais antigo o Elfo, mais provavelmente teria
vivido em Valinor [se fosse Noldor] ou ter vivido em Cuivienen. Ele ou
ela poderiam ser a cabeça de uma família. Então os Anéis de Poder foram
provavelmente criados para vários senhores Élficos, príncipes e reis.
Os Elfos mais novos, nascidos na Terra-média – mesmo na Segunda Era -
poderiam ou ter que esperar sua vez ou poderiam esperar que os Anéis os
pudessem ajudar também.

Quando Gandalf estava discutindo a
confrontação com os Nazgul no Vau de Bruinen com Frodo, Frodo
perguntou-lhe se a figura brilhante que ele vira era Glorfindel. "Sim,"
Gandalf respondeu. "Você o viu por um momento como ele é no outro lado:
um dos mais poderosos dos Primogênitos. Ele é um senhor Élfico de uma
casa de príncipes."
Um pouco antes na mesma conversa, Gandalf também aponta que Valfenda era uma casa para "os
sábios Élficos, senhores dos Eldar de além do mais distante dos mares.
Eles não temem os Espectros do Anel, pois aqueles que moraram no Reino
Abençoado vivem ao mesmo tempo em ambos os mundos, e tanto contra o
Visível como contra o Invisível eles possuem grande poder."

Desta forma, talvez os Anéis não necessartiamente seriam para os Elfos
que tinham vivido em Aman. Preferencialmente os Anéis podem ter sido
destinados a seus jovens filhos ou sobrinhos, Elfos que nasceram na
Terra-média, que não aprenderam a viver "ao mesmo tempo nos dois
mundos".

Deve ter sido importante para os Elfos possuir tal
habilidade, e talvez significasse que eles seriam menos propensos a se
esvair, uma vez que ele seriam capazes de se mover entre os dois
mundos, por assim dizer. Não se mover fisicamente, mas via suas
vontades. Eles deveriam ser capazes de perceber e interagir com
espíritos desimcorporados [espectros] em Aman, e desejariam fazer o
mesmo na Terra-média.

A interação deve ter incluído "fazer as
coisas "do mundo invisível visíveis". Poderiam os poderes restauradores
dos Anéis trazer um Elfos de volta à vida? Os Anéis poderiam ser usados
para dar aos Elfos novos corpos? Ou podiam ser utilizados simplesmente
para fazer espectros-Élficos visíveis a todos? No "Conto de Aragorn e
Arwen" Aragorn brevemenre imagina que "ele festivera tendo um sonho, ou
recebera o dom dos menestréis Élficos, que poderiam fazer as coisas que
cantavam aparecerem diante dos olhos daqueles que ouviam."

Algo desta habilidade é também colhida no conto do duelo de feitiçaria
de Finrod com Sauron na forteleza de Tol Sirion. Finrod cantou sobre
sua vida em Valinor, mas sua música se voltou contra ele quando foi
obrigado a cantar sobre o Fratricídio, e Sauron foi capaz de capitazar
a culpa e o retorno de Finrod [embora Finrod não tenha pessoalmente
participado do Fratricídio]. Esta habilidade de criar imagens visíveis
com o poder da música implica que os Elfos, com um grande esforço em
direção à Máquina, poderiam perverter sua Arte [ou pelo menos fazer mau
uso dela] para criar coisas visíveis a partir do mundo invisível.
Sauron pode ter preciso dar uma pequena ajuda a eles.

Celebrimbor fez os Três Anéis por ele mesmo, e estes Anéis não
conferiam invisibilidade a seus portadores. Presumivelmente eles não
faziam coisas invisíveis visíveis, tampouco. Os Três eram, portanto,
mais concordantes com a descrição de Elrond dos Poderes dos Anéis.

Mas continua a não responder a questão de como os Anéis trabalhavam.
Porque todos os Hobbits do Condado [ou pelo menos da Vila dos Hobbits]
não sofreram os efeitos do Um Anel?
 
 
Ponto 5: Usando a Máquina através da Arte

A resposta parece ser uma questão de vontade. Tolkien escreveu que os
Três Anéis efetivamente continham o Tempo mesmo quando não era
ativamente utilizados. Então, durante a Segunda Era, os Elfos de Lindon
aproveitaram os benefícios pretendidos para os Elfos de Eregion mesmo
não ousando usar nenhum dos Anéis. Celebrimbor deve portanto ter
conferido aos Três a habilidade natural de verdadeiramente extender
seus poderes sobre uma região. O campo de efeito não pode ser medido em
milhas, contudo, mas antes em pessoas e objetos. Isto é para dizer que
se alguém estivesse usando um dos Três, ele [ou ela] poderia ser capaz
de decidir que todos os Mallorn e todos os Elfos seriam preservados. Os
efeitos poderiam ser de alguma forma randômicos se os Anéis não fossem
ativamente usados.

Desta forma, gandalf poderia
intencionalmente reter os efeitos de contenção de tempo de Narya, o
Anel de Fogo que Cirdan lhe deu. Ou Gandalf poderia deixar que o Anel
afetasse apenas os Elfos. Cirdan disse que o Anel estava inativo quando
o deu a Gandalf, então aparentemente ele não o estava usando o Anel e
direcionando seus benefícios. Gandalf, então, nao precisaria usar Narya
usar Narya para conter o processo de esvair-se para ninguém [incluindo
a si mesmo, embora ele não corresse risco de esvair-se].

Elrond e Galadriel podem ter pego uma pista de Cirdan. Gil-galad
originalmente possuía tanto Vilya quanto Narya, e os deu a Elrond e
Cirdan perto do final da Segunda Era [talvez tendo um pouco de visão
sobre sua batalha final contrea Sauron]. Celebrimbor parece ter dado o
Anel a Galadriel.

Uma vez que Elrond e Cirdan aconselharam
Isildur a destruir o Um Anel quando Isildur o cortou da mão de Sauron,
parece estranho que eles simplesmente tenham voltado para casa e
começado a utilizar seus Anéis de Poder no mesmo momento. Talvez eles
tenham tomado seus Anéis quando compreenderam que Isildur e o Um Anel
se perderam. Mas também pode ser que os tr6es portadores tenham
mantidos seus Anéis inativos por pelo menos mil anos.

Então
Gandalf apareceu, Cirdan lhe deu Narya, e o gênio foi tirado da
garrafa. Elrond pode ter começado a usar Vilya antes, uma vez que ele
reunira muitos Alto Elfos [Noldor] em e ao redor de Valfenda. Ele
poderia ter tido em suas mãos uma porção de Elfos se esvaindo. Tolkien
não diz quando foi que os compreenderam que Elrond portava um dos
Anéis, mas parecem ter sabido isso ao final da Terceira Era. Se
lentamente o fato de que alguém não se esvaia se permanecesse em ou
perto de Valfenda se espalhava, poderia ser um sinal de que um dos Três
era mantido ali.

Muito do mesmo poderia ser verdade para
Galadriel. Ela poderia ter chegado em Lorien e oferecido para guardar
os Elfos da Floresta de se esvaírem. Eles devem ter sabido sobre os
Anéis do Poder então. Eles haviam perdido um rei, o pai de Amroth, na
guerra contra Sauron ao final da Segunda Era. E Amroth ajudara Elrond
mais de uma vez nas guerras contra Angmar. Haldir especificamente se
refere ao "poder da Senhora dos Galadrim" quando Sam menciona que se
sentia "como se dentro de uma música". Haldir parecia saber que
Galadriel estava usando um Anel. Ele pode não ter falado abertamente,
mas tanto Elrond quanto Galadriel indicavam que todos os Elfos estavam,
unidos na crença de que seria melhor perder os Três do que permitir ao
Um continuar existindo. Muitos Elfos, então, deve ter tido uma idéia
bastante boa de onde Vilya e Nenya estavam escondidos.

Mas se
os Anéis podiam ser direcionados concientemente, tanto para extender a
certos limites ou para trabalhar apenas em certas criaturas e plantas,
então faz sentido que existisse um limite físico para o poder dos Três.
No ponto em que a Sociedade do Anel penetrou no domínio do poder de
Galadriel, e este poderia ou não ser coincidente com as fronteiras
físicas de Lorien [de fato, uma vez que os Elfos retiraram-se para o
interior da florestas, poderia ser que a extensão da influência de
Nenya era consideravelmente menor que os limites da floresta].

Círculo Completo: Os Anéis, Tempo e Espectros

Então, porque o Condado não se beneficiou da presença do Um Anel?
Provavelmente porque apenas os Três agiam de alguma forma geográfica, e
embora o Um possuísse os poderes dos outros Anéis, ele pode não ter
possuído o alcance dos Três Anéis porque Sauron não estava presente
quando Celebrimbor os fez. Sauron mesmo não teria um motivo real para
criar uma valinor na Terra-média, então porque usar o Um Anel para
conter a decad6encia ao redor dele? Por outro lado, Smeagol, Bilbo e
Frodo todos ficaram sem usar o Um Anel por longos períodos de tempo.
Então ele, também, deveria ter um alcance geográfico mínimo que era,
talvez, mais ajustado a quem possuía o Anel do que qualquer outra coisa.

Os Anéis não continham realmente o tempo. Eles apenas diminuiam o seu
impacto em um corpo biológico. Para alguma coisa como uma árvore, que
não tinha espírito [Ents e Hurons não são considerados], nao existia
dano real. Um animal, de qualquer forma inteligente, também poderia se
beneficiar dos efeitos dos Anéis porque eles não possuíam um espírito.
Um Elfo, cujo espírito estava destinado a permanecer em Arda até o
final do Tempo, não se sentiria esticado, como Bilbo bem colocou.

O problema para "mortais" era que seus espíritos desejavam ir para
outro lugar. Após um certo período de tempo, Homens mortais tinham que
morrer. Eles tinham que abrir mão de seus espíritos. Um Anel de Poder
obstruía essa tendência natural. O corpo poderia continuar vivendo,
funcionando da mesma forma como no dia em que veio a possuir o Anel.
Mas o espírito estaria constantantemente se esforçando para partir.
Então, a luta entre espírito e corpo [ou espírito e Anel] deve produzir
a sensação de "esticamento" da qual Bilbo se queixou. Ele não estava
fisicamente esticado, mas dividido entre forças poderosas.

Dessa forma, quando Sauron perverteu os Sete e os Nove, ele deve ter
alterados suas tendências naturais de preservação para obter o efeito
oposto. Os Nove portadores não se tornaram espectros poque usaram os
Anéis, mas porque os possuíram. A utilização dos Anéis pode ter
acelerado o processo de esvair-se, mas provavelmente qualquer Elfo que
pudesse ter tomado um dos Nove ou Sete alterados teria se esvaído
também, e se tornado tão escravizado quanto os nove Homem eventualmente
se tornaram.

Pessoas frequentemente perguntam se um homem se
esvairia se possuísse um dos Três. Eu não acredito nisso. Eu acho que
ele apenas continuaria, dia após dia, e eventualmente perderia a conta
do tempo. Ele poderia ver o sol passar sobre sua cabeça, e talvez
notasse as fases da lua [embora a Sociedade do Anel não as tivesse
notado enquanto estavam em Lórien]. Mas para ele o tempo se tornaria,
eventualmente, uma armadilha. Seu corpo não ficaria mais velho. Ele
apenas viveria e viveria e viveria, e a vida se tornaria um tormento
constante para ele, porque ele estaria sempre em conflito com sua
própria natureza.

O mundo se arrastaria para tal alma
desafortunada, que poderia, no final das contas, não sentir nada a não
ser um profundo desejo de libertação de seu tormento.

Estratégias de Sauron – Passos para a Derrota (Parte I)

Sun Tzu  nos aponta as vantagens da estratégia de "dividir e conquistar", mas ele também pregava o uso da força massiva e devastadora sempre que for possível. A arte da guerra com certeza é uma arte, já que os dois lados de qualquer guerra tem o potencial de crescer e se adaptar. Uma das notáveis qualidades da história da Terra-Média é a mutabilidade de Sauron. Ele altera suas estratégias.
 

 

Na Primeira Era, Sauron era apenas mais um dos capitães servindo Morgoth. O posto de Sauron nunca é realmente explorado. Nós lemos muito mais sobre a sua habilidade de destroçar inimigos, e sua disposição em entrar em combate mano-a-mano à um risco considerável à si mesmo. Já Morgoth, por outro lado, se mantinha sobre altos e impressionante números. Parece que a fraqueza perpétua de Morgoth é que ele confunde números com força.

Com certeza, Morgoth conseguiu algumas vitórias. Em fato, ele destruiu a civilização Eldarin em Beleriand e reduziu os anões de Nogrod e Belegost à alguns poucos sobreviventes. Mas Morgoth não percebeu o grande lance. Enquanto ele se divertia no norte com os Noldor, a maior parte da Terra-Média escapou de sua atenção. Os Valar tomaram vantagem do intenso interesse de Morgoth por Beleriand para isolá-lo aí e infringir a derrota final sobre ele.

Como consequência da Guerra da Ira, Morgoth foi capturado e suas forças foram reduzidas a provavelmente nada mais que alguns Orcs, Trolls e Homens vagabundos. Provavelmente, somente alguns poucos Maiar corrompidos escaparam, e pelo menos um casal de dragões alados (já que uma população crescente de dragões sobreviveram pela Terceira Era em diante). Dos Maiar, podemos ter certeza que dois desses eram Sauron e o Balrog de Khazad-Dûm. O Balrog se distanciou de qualquer complicação social por mais de 5000 anos.

Sauron, por sua vez, foi aparentemente perdoado. "Dos anéis do poder e da Terceira Era" (publicado no Silmarillion) nos diz que Sauron "voltou a assumir sua bela aparência, prestou votos de obediência à Eönwë, arauto de Manwë, e repudiou todos os seus atos maléficos." Mas Eönwë não pode perdoar Sauron, e o comandou a retornar à Valinor para aguardar o julgamento de Manwë. Com isso Sauron não consentiu, e continuou na Terra-Média enquanto Eönwë retornava para o Oeste.

Pelas próximas 5 ou 6 centenas de anos, Sauron sumiu da história. Não é provável que Sauron dormiu assim como o Balrog fez, se enrolando debaixo de uma conveniente montanha gigante e sonhando com os festejos passados pelos próximos milênios. Provavelmente, Sauron fugiu até o extremo leste da Terra-Média e ali ele fez qualquer coisa, como plantar um jardim ou fundar um monastério para ensinar aos Homens, Anões e Elfos o Caminho da Paz. O que quer que ele tenha feito, depois de algumas centenas de anos Sauron percebeu que aquilo não ia dar certo – ou então que ele poderia lidar com qualquer tipo de situação, então lançou uma nova iniciativa.

O perigo gradual de Sauron não passou despercebido nos assuntos da Terra-Média, e pode ser o catalisador da migração oriental dos Sindar. Tolkien observou que, "vendo a desolação do mundo, Sauron concluiu em seu íntimo que os Valar, tendo destronado Morgoth, tinham mais uma vez se esquecido da Terra-Média, e seu orgulho cresceu rapidamente".

No ensaio chamado "notas nos motivos do Silmarillion" (publicado no HoME: Morgoths Ring), Tolkien escreveu: "[Sauron] não tinha oposições à existência do mundo, já que podia fazer o que quisesse com ele. Ele ainda tinha resquícios de boa vontade, que descendiam da bondade em que foi criado: era sua virtude (e então também a causa de suas duas derrotas) que ele amava ordem e coordenação, e odiava todo tipo de confusão e confrontos inúteis."

Sauron acreditava fundamentalmente que ele poderia colocar o mundo em ordem, trazendo-o do caos que as guerras entre Morgoth, os Valar e os Eldar criaram, e restaurá-lo à sua antiga forma. Mas, por causa de seu orgulho, "seus planos… viraram o único objeto de sua vontade" (ibidem). Sauron se concentrou em trazer ordem ao mundo, esquecendo-se o porque de trazer ordem a este.

Ele claramente via os Elfos como instrumentos potenciais de sua vontade. Eles tinham as habilidades sub-criativas de transformar o mundo em grandes proporções de uma maneria que outras raças, como os Homens, não conseguiam. Anões parecem não ter aparecido nos desígnios de Sauron, e pode ser tanto culpa da desinformação, por parte de Sauron, sobre eles (tal perspectiva é reforçada pelo fato que Sauron falhou em converter os Anões em Espectros do Anel) ou sobre suas habilidades (embora tenhamos muita pouca informação sobre a capacidade dos anões para compará-los com os Elfos desta maneira).

De qualquer jeito, Sauron começou organizando o remanescente das criaturas de Morgoth. Seria fácil para ele recrutá-los para seu serviço – ele os conhecia bem e eles provavelmente se lembravam dele – mas ele pareceu ter trabalhado lentamente no começo. Gil-galad suspeitou que um servo de Morgoth estava organizando um exército no leste antes do ano 1000 da Segunda Era.

Ele recrutou Anardil, príncipe de Númenor, para servir como embaixador dos homens vivendo no norte e oeste da Terra-Média. Até este ponto, Gil-Galad pareceu ter tentado coletar informação e construir amizade com povos se movendo para perto de seu reino, que fica nas terras costeiras do noroeste da Terra-Média, no último remanescente de Beleriand. As atividades de Anardil na Terra-Média, e a presença crescente dos Numenoreanos nas praias (através de viagens exploradoras e colônias temporárias como Vinyalondë) induziram Sauron a escolher uma base de operações permanente perto do ano 1000.

Podemos deduzir do assentamento em Mordor que Sauron não teve uma base segura permanente no leste. Ele deve ter tido uma ou mais fortalvezas de onde ele dirigia seu crescente império, mas ele aparentemente acreditava que ele tinha que estar mais perto das terras orientais para planejar e implementar uma nova estratégia. Esta estratégia foi criada em base da esperança de induzir os Eldar a aceitá-lo como um professor e guia. Então, ou ele inicialmente populou Mordor com servos inofensivos aos olhos dos Eldar, ou então suprimiu o conhecimento de sua presença na região.

As missões diplomáticas de Sauron com os Eldar parecem ter ocorrido no breve período de um ano. A entrada para 1200 na Segunda Era do "Conto dos Anos" (Apêndice B do Senhor dos Anéis) diz: "Sauron tenta seduzir os eldar. Gil-Galad se recusa a fazer acordo com ele, mas os ferreiros de Eregion passam para o seu lado." Ele provavelmente nunca visitou outros reinos élficos, onde os eldar eram poucos ou então tinham adotado os costumes bárb
aros dos elfos Silvan. Claramente, Sauron queria atingir o coração do poderio élfico.

Já que seu objetivo era impor uma ordem no mundo (presumivelmente para reparar os machucados feitos pela guerra em Beleriand, e para eliminar ou reduzir o caos que sobreveio ao regime de Morgoth no final da Primeira Era), Sauron tinha que atrair o desejo interior dos eldar de trazer ordem ao seu mundo. Ao ver de Tolkien, os Elfos "queriam ter o bolo só para eles". Ou, mais precisamente, os eldar "queriam a paz e tranquilidade refletidos numa cópia perfeita do Oeste, e ainda por cima continuar a terra ordinária onde seu prestígio como pessoas superiores, acima de elfos selvagens, homens e anões, era bem maior que a base da hierarquia de Valinor." (Letters of JRR Tolkien, Letter 131)

Então, logo cedo, o desejo de Sauron de dominar a Terra-Média foi rivalizado pelo desejo crescente dos eldar de adquirir um status similar. Os dois procuravam controle e influência. Ao invés de criar uma guerra logo de cara, porém, Sauron preferiu trazer os eldar em sua comunidade com pretextos. Ao recorrer as suas qualidades, ele acreditava que podia tirar proveito de suas vulnerabilidades. Mas, realmente existia uma vulnerabilidade? Poderia Sauron enganar os elfos?

Provavelmente não mais do que ele fez. Isto é, Sauron parece ter subestimado os poderes perceptivos dos eldar. Ele não percebeu que os ferreiros élficos tinham consciência de seus atos, quando ele criou o Um Anel e o colocou em seu dedo. Neste momento, os elfos o perceberam, entenderam sua natureza e seus planos, e removeram seus anéis. Sauron nunca teve a oportunidade de influênciá-los como queria.

Eu às vezes me pergunto porque levou quase 100 anos deste ponto (1600 da Segunda Era) para Sauron lançar a guerra com os eldar. Parece que ele simplesmente esperou os eldar e numenoreanos construirem suas defesas. Mas é mais provável que Sauron não tinha o poder de lançar uma campanha massiva conhtra o Oeste. Ele conhecia muito bem as capacidades dos eldar. Sauron lutou contra eles em Beleriand, e testemunhou mais que uma vitória élfica contra números extremamente altos.

Os 90 anos de preparação para a guerra com os elfos proveu tempo para Sauron aumentar as habilidades de sua infantaria órquica, mas também o deu tempo o suficiente para ele aprender a usar seu Um Anel para ganhar melhor controle sobre seus servos. Sauron deve ter usado seu Anel para estender sua influência em muitas pessoas ao mesmo tempo, mas é aparente, vendo os resultados do resultados, que ele não controlava totalmente a Terra-Média oriental. Ele trabalhava com recursos limitados.

Os orcs foram derrotados nas terras do norte por uma aliança de homens e anões no começo da Segunda Era. Se Mordor fosse a única região onde os Orcs viviam no ano de 1500, eles não seriam muito numerosos. As preocupações com os eldar de Eregion por cerca de 1200 a 1500 sugerem que ele prestou pouca atenção aos orcs. Eles podem ter sustentado seus números mas não foi permitido a eles aumentar seu número a um ponto em que chegariam a ser incontroláveis. Isto é, a estratégia de Sauron naquele momento não era a de lançar hordas de orcs sobre o mundo. Podemos ter uma certeza razoável disso porque ele não lançou uma invasão imediata no norte em 1600.

Se os orcs levaram 90 anos para aumentar seus números, será que Sauron utilizou este tempo para fazer contatos com outros povos? Por exemplo, como ele ganhou a confiança dos terrapardenses, especialmente esses vivendo no Enedwaith e Minhiriath? Esses homens ajudaram Sauron durante a guerra, mas eles simplesmente se juntaram a ele quando viram o estandarte de seu bando de orcs, ou será que Sauron se demorou entre eles, ganhando sua lealdade e brincando com seus medos e ressentimentos. Os terrapardenses sentiam-se ameaçados pelas colônias numenoreanas e suas indústrias de madeira. Eles invadiam as terras numenoreanas desde que Anardil (Tar-Aldarion) primeiramente construiu Vinyalondë nos últimos 800.

90 anos também proveram a Sauron tempo para explorar as terras a leste das Montanhas Nevoentas. No "The Peoples of Middle-Earth" (Povos da Terra-Média) nos dizem que Sauron acabou com as terras dos povos edain que viviam nos vales do Anduin e a leste da Floresta das Trevas, trazendo à vida a sua antiga aliança com os anões Barba-Comprida. Seu objetivo ao lançar a guerra parece ter sido destruir as resistências à seu reinado na Terra-Média. Não seria suficiente para Sauron controlar Eregion e os Anéis do Poder. Ele queria eliminar todos os possíveis rivais do poder.

Por conseguinte, os Anões Barba-Comprida foram uma ameaça considerável para os planos de Sauron. Seu reino foi reforçado no começo da Segunda Era por um influxo de anões vindos de Ered Luin. A maioria destes eram anões de Belegost, aliados dos Eldar em Beleriand e inimigos de Morgoth. Khazad-dûm, a cidade principal dos Barba-Comprida, mantinham uma rota vital de suprimento e reforço entre Eregion e os vales do Anduin. Um comércio considerável deve ter sido feito pelas mãos destes anões. Mas o mais importante, os Barba-Comprida eram o poder central do império anão. Eles eram os guardiões de Gundabad, onde o povo anão viveu por incontáveis anos.

Se os Eldar eram uma ameaça ao controle de Sauron na Terra-Média, os anões eram, no mínimo, um obstáculo no caminho. Eles não aceitavam sua dominação e eram, nas terras ocidentais, aliados dos Eldar e dos povos humanos aliados a estes. Sauron tinha consciência do que os humanos poderiam fazer, pois lutou com esses em Beleriand. Entre os homens, os numenoreanos apresentavam o mais perigo, mas sua terra natal era bem distante da Terra-Média. Poucos numenoreanos moravam na Terra-Média. O povo Edain proveram a Gil-Galad e seus aliados um grande poder de batalha.

Por isso, o ataque de Sauron nas terras a leste das Montanhas Nevoentas faz sentido. Enquanto ele sitiava Eregion, as prioridades de Khazad-Dûm ficaram divididas. Sauron pode não ter previsto o assalto que Durin III lançou contra os invasores do Portão Oeste de Khazad-Dûm. Ou então pretendia batalhar no leste para acabar com uma parte do exército de Durin. Os Edain foram expulsos de suas terras, e a maioria foi morta. Os sobreviventes fugiram para as montanhas, onde os anões poderiam protegê-los, ou para as florestas, onde estavam isolados dos outros povos. De qualquer jeito, a maioria dele fugiu para o extremo norte.

Os elfos Silvan provavelmente sofreram terrivelmente. Eles deveriam ser incapazes de fazer ou sustentar o tipo de guerra que os Eldar poderiam fazer, mas eles eram mais numerosos que os Eldar e, em alguns reinos, eram liderados por príncipes Eldarin. Pode ser que muitos reinos menores fossem derrotados ou levados a procurar refúgio na Floresta das Trevas e Lothlórien, apesar da falha de Sauron em destruir os reinos de Amdir (pai de Amroth) e Oropher (pai de Thranduil) implica que lhe faltavam recursos para fazer uma guerra em florestas. Ele deveria ter poucas tropas treinadas para lutar em florestas, se é que ele tinha alguma.

A falha em capitalizar suas vitórias no leste pode ser a razão pela qual Sauron decid
iu queimar as florestas de Eriador. Seus exércitos podem ter acabado com os humanos e elfos dos campos, mas foram impedidos pelas matas. Até mesmo as forças orientais foram exterminadas em batalhas desesperadas, ou então se retiraram quando não podiam chegar mais perto. O ataque de Durin às forças ocidentais de Sauron foi completamente inesperado, e Sauron percebeu que se ele levasse seu exército através das grandes florestas de Eriador, os Eldar e Edain destruiriam suas tropas.

Portanto, depois de destruir Eregion, Sauron mandou tropas para o norte, o suficiente para ter certeza que o exército de Elrond fora derrotado, e então terminar de acabar com toda Eriador. De certa maneira, a destruição que Sauron impôs no mundo serviria como uma coroação, algo como uma declaração de soberania. "Isto é meu e eu faço com ele o que me agrada". Ele estaria dizendo aos elfos indiretamente que ele iria controlar a Terra-Média, e não eles. O bolo era de Sauron, não dos elfos. Estes também entenderam isso.

Depois que a guerra acabou, e Sauron foi derrotado, aparentemente não se falava sobre marchar para Mordor e derrotar Sauron de vez. Alguns elfos fugiram da Terra-Média e Gil-Galad resolveu estabelecer um novo posto em Imladris, que ficava no extremo norte (distante de Mordor) e mais defensível que Eregion foi. Os exércitos que perseveraram a volta de Sauron para Mordor não tinha recursos o suficiente para forçar seu caminho para dentro da região. Então o verdadeiro significado do retrocesso dos Eldar e Numenoreanos é que estes não estavam preparados para o que provocaram.

Mordor, rodeado de altas montanhas, era bem protegida, e sem dúvida Sauron a escolheu como sua fortaleza por causa da geografia. Mas Gil-galad tinha poucos recursos para manter um cerco tão extenso longe de Lindon, se é que tinha algum recurso pra isso. Numenor não tinha bases na área (Pelargir não apareceria por mais 600 anos) e os únicos povos da área não eram amigáveis (com a possível exceção das Entesposas, que queriam ajudar na causa, mas também ficaram neutras.)

"O Conto dos Anos" diz que, no começo do ano 1800, Sauron extendeu seu poder para o leste. Parecia que Sauron, como os Eldar e Numenoreanos, percebeu que era hora de uma mudança na tática. Ao invés de atacar os Eldar diretamente, ele preferiu aumentar seu poder sobre outros povos (provavelmente entre os homens do leste, cujos ancestrais eram leais a Morgoth). A mudança no objetivo de Sauron vem como consequência de uma série de falhas: falhou em aceitar a responsabilidade pela sua rebelião e recusou ir para Valinor; falhou em seduzir os Eldar para seu serviço; e falhou em destruir os eldar, eliminando os rivais em potencial pelo controle da Terra-Média.

A falta de ambição de Gil-galad foi a grande sorte de Sauron. Enquanto Gil-galad se concentrava em curar as terras e povos que Sauron destruiu na guerra, Sauron investiu seu tempo em criar mais recursos. E ele não esqueceu dos anões. Tendo adquirido os Nove e os Sete Anéis do Poder de Gwath-i-Mirdain em Eregion, Sauron perverteu os Anéis e os deu para Hoemns e Anões. Três dos Anéis foram dados para Numenoreanos, possívelmente capitães ou lordes que estavam liderando esforços de colonização na Terra-Média. Apesar dos Numenoreanos começarem a fazer portos permanentes a partir do ano de 1200, eles começaram "estabelecer domínios na costa [da Terra-Média]" por volta do ano de 1800 ("Conto dos Anos").

Por dar os Anéis do Poder aos homens e anões do leste, onde ele já tinha influência, Sauron provavelmente conseguiu um rígido controle sobre muitas terras rapidamente, num espaço de alguns anos ou gerações. Apesar dos homens que receberam anéis terem virado espectros, os senhores anões não poderiam ser corrompidos. E ainda, o estudo "Homens e anões" (publicado no Peoples of Middle-Earth) diz que todos os povos anões do oeste caíram nas sombras. Se Sauron não tivesse dominado os anões através dos anéis, não teria sentido ganhar influência e amizade entre eles através da entrega de presentes.

Os Anéis dados para os anões ocidentais são um assunto mais complicado. Não há indicação de que algum deles ficaram maus. Seus Anéis foram o começo de grandes tesouros (e a prova desta tradição, recordada no Apêndice A dO Senhor dos Anéis, é que as casas reais de Ered Luin não só sobreviveram mas tiveram sucesso na Segunda Era). Como Sauron fez para conseguir entregar os Anéis do Poder para os Anões? E quando? Ele com certeza não os visitou como sua antiga pessoa. Durin III, pelo menos, deve ter resistido a tal tentativa de suborno.

Todo o esforço de redistribuir os Anéis do Poder roubados é a chave do malfeito "Plano B". Sauron não sabia bem o que fazer. Ele precisava de servos mais poderosos com os quais ele poderia conquistar a Terra-Média, mas estes servos não o trazia vantagem sobre os elfos. Em fato, apesar de Sauron ter continuado a atacar os elfos pelos próximos 1300 anos, ele nunca mais montou um tipo de campanha massiva contra os Eldar como ele tentou na guerra. Por quê?

Os numenoreanos com certeza começaram a ganhar mais importância nos assuntos da Terra-Média. A medida que séculos passavam, novas fortalezas numenoreanas e portos foram estabelecidos ao longo da costa. O poderio numenoreanos lentamente marchou para as fronteiras de Mordor. E então Sauron se viu confrontado com dois rivais: Os Eldar no norte e Númenor no sul. E ainda, com a destruição de Eregion, toda a ambição pareceu fugir dos Eldar. Enquanto os Anéis do Poder existissem, os elfos tinham alguma proteção a morte. Então seu objetivo chefe foi cumprido. Mas parecia que eles deixaram que sua alma fosse derrotada. Nunca mais houve grandes reinos élficos na Terra-Média.

Sauron pode ter construído sua força, mas parece ter devotado mais de 1000 anos guerreando com os numenoreanos em várias regiões menores. Sua estratégia ficou mais complicada quando começou a ponderar sobre os dois problemas. A flexibilidade de Sauron sem dúvida fez com que seu reino sobrevivesse. Trocando de direções e controlando facilmente os novas terras no leste, ele estabeleceu um império capaz de aguentar a maioria das incursões de Numenor. Mas ele pareceu ter medo de confrontar o poderio numenoriano. Não há menção a nenhum ataque massivo a uma fortaleza numenoriana. Uma vez que Umbar foi estabelecida, continuou em controle numenoriano. Uma vez que Pelargir foi construída, Numenor teve uma guarda permanente do rio Anduin.

Porém, pode ser que Sauron hesitou antes, e sua relutância aparente em lançar um segundo ataque foi porque percebeu um de seus erros. Quando os elfos perceberam que foram traídos, Sauron poderia se deixar levar pela raiva e orgulho. Ele mandou que rendessem seus Anéis do Poder para ele. Claro que eles recusaram. Logo, Sauron reagiu furiosamente e lançou uma guerra contra eles. Apesar de que ele tenha se acalmad
o-se depois de uma dúzia de anos, qualquer problema que ele sofria na guerra (como perder os exércitos orientais, ou falhar em destruir os reinos florestais) reacendiam ou alimentavam sua raiva. E continuaria assim até que Sauron e seus guarda-costas retornassem para Mordor, derrotados, e se acalmasse o bastante para perceber que ele não iria ganhar o controle da Terra-Média pela guerra.

Logo, os séculos seguintes onde Sauron guerreava com os numenoreanos pelo controle do que deve ter sido territórios relativamente pequenos (a maioria provavelmente no sul) pode ter sido tempo bam gasto na opinião de Sauron. Isto é, ele pode provar e perceber as fraquezas dos numenoreanos, e deve ter estudado-as. Pode ser que Sauron tenha estudado o jovem príncipe que chegou a ser Ar-Pharazôn, já que lá era um indivíduo que poderia ser manipulado, e consequentemente atiçou Ar-Pharazôn (de longe) a desafiar Sauron para um desafio.

Se este era o objetivo de Sauron, ele se surpreendeu. Já que Ar-Pharazôn trouxe um exército tão imenso do oeste que os aliados de Sauron os desertaram. Com certeza, Sauron recorreu a um subterfúgio, rendendo-se para que possa ser levado para Numenor como um prisioneiro. Lá ele adquiriu gradualmente a confiança do rei como um conselheiro e seduziu a vasta maioria dos numenoreanos, muitos destes já rebelados contra os Valar, a cultuar Morgoth e desafiar os Valar. "Akallabeth" lembra que Sauron tinha esperanças de destruir toda Numenor, mas também recorda que ele ficou impressionado com o que encontrou na ilha, já que os feitos dos dunedain ultrapassaram qualquer expectativa sua.

A mudança dos planos de Sauron preservou Mordor como uma base de poder e abriu para ele uma oportunidade de minar a civlização numenoreana. Ele estava claramente agindo oportunisticamente, e talvez preparando coisas a medida que ele continuava. Mas sua jornada em Numenor foi uma aproximação repentina que resultou em reveses temporários (Gil-galad pôde extender seu poder durante a ausência de Sauron na Terra-Média), mas também na realização de um de seus objetivos: a destruição de Numenor.

Com Numenor fora do caminho Sauron retornou para a Terra-Média, machucado mas não ferido gravemente. Ele pode ter tornado seu pensamento totalmente para Gil-galad, mas aprendeu rápido que sobreviventes numenoreanos liderados por Elendil estavam estabelecendo dois novos reinos no norte. Apesar de muitas colônias numenoreanas agora ajudavam Sauron, os dunedain Fiéis estavam ajudando Gil-galad a consolidar seu poder no norte. Em efeito, Sauron trocou uma imensamente poderosa Numenor, que ele não poderia vencer militarmente, com uma imensamente poderosa aliança de homens e elfos.

Sauron atacou Gondor de repente, mas o Apêndice A diz que ele "atacou cedo demais, antes que seu próprio poder fosse refeito; enquanto isso o poder de Gil-galad aumentou em sua ausência". "Dos Anéis do Poder e a Terceira Era" é menos pessimista: "Quando Sauron julgou chegada a hora, investiu com força enorme contra o novo reino de Gondor, tomou Minas Ithil e destruiu a Árvore branca de Isildur que lá estava plantada." Apesar de Minas Ithil ter caído, Anarion resistiu em Osgiliath e mandou Sauron de volta para as montanhas. Sauron pareceu não ter integrado totalmente seus aliados em seu reino, ou então não esperou o bastante para os exércitos chegarem.

O ataque em Gondor foi similar ao ataque em Eregion. Sauron estava selecionando alvos estratégicos e tentando isolá-los dos poderes aliados. Ele conseguiu parcialmente em Eregion: Elrond não pode quebrar as linhas de Sauron, apesar de Durin III ter resgatado alguns do pvo de Eregion. O ataque à Gondor foi outra falha, e revelou a fraqueza dos ataques de Sauron: ele deixava que seus inimigos trabalhassem pelo benefício um do outro, mesmo se não coordenassem seus esforços contra ele. Ambos Elrond e Durin salvaram porções do povo de Eregion porque Sauron estava focado em conseguir os Anéis do Poder. Gondor aguentou seu ataque porque era muito nova para lançar a guerra.

Isildur pode navegar para o norte e incitar Elendil e Gil-galad. A aliança que eles fizeram mostrou ser forte o bastante para destruir o reino de Sauron. De fato, eles criaram um exército maior que Ar-Pharazôn trouxe para a Terra-Média perto de 200 anos antes. Se os aliados de Sauron foram incapazes de encarar o exército de Ar-Pharazôn, é graças a ele que o exército ficou até a batalha final da Segunda Era. Mas eles não eram páreo para a Última Aliança.

Guerra após guerra, Sauron deixou que seus inimigos ajudassem uns aos outros e às vezes trabalhar junto. Ele não percebeu que estava fazendo tudo errado até que Barad-dûr fosse cercada e os planos de Sauron morressem frustrados no sangue derramado nas batalhas. Ele precisava isolar seus inimigos um do outro. Ele lançou um ataque final e desesperado contra Gil-galad e matou o Rei-elfo, mas Elendil ficou perto o bastante para fazer um ataque mortal a Sauron. O último combate ao pé de Orodruin foi mais um ato de decepção do que qualquer outra coisa. Mesmo sem Gil-galad, a Última Aliança venceu a guerra. O império de Sauron foi desmantelado. Seu reino pessoal em Mordor foi ocupado.

Uma segunda morte deu um descanso merecido a Sauron. A Terra-Média estabeleceu um longo período de paz onde os homens esqueceram o Lorde Negro e os elfos só poderiam torcer para que ele não voltasse. Sauron agora tinha muito tempo para refletir seus erros, e quando ele finalmente retornou ele tinha uma nova estratégia, que levou quase um milênio e levou em consideração todas as variáveis que ele não considerou bem o bastante na Segunda Era.