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Está tudo em famí­lia: Os Finwënianos

O papel central da mitologia de Tolkien está designado à família de Finwë, o primeiro rei dos Noldor. Ao contrário dos Minyar (Primeiros), todos aqueles que migraram para Valinor e se tornaram conhecidos como os Vanyar, os Tatyar (segundos) e Nelyar (Terceiros), se dividiram em dois grupos. Aqueles Tatyar que se comprometeram a realizar a Grande Jornada se tornaram os Teleri, e Elwë e Olwë eram seus líderes. Portanto, Finwë, Elwë e Olwë eram somente reis dos membros de seus clãs que os seguiram na Grande Jornada. Os Elfos remanescentes, conhecidos coletivamente como os Avari, eram chefiados por outros (inominados) capitães.

O significado dessa distinção é que o isolamento de Finwë dos Tatyarin Avari fortalece a visão emergente de Tolkien que Finwë deveria ser um Elfo da primeira geração. Apesar de Tolkien nunca ter afirmado isso, deveria ser respeitável por parte da primazia de Fimwë, se todos os Tatyar aceitaram sua decisão de ir a Aman. Uma vez que Ingwë, Finwë e Elwë tiveram que persuadir seu povo para realizar a jornada, nós sabemos que eles não tinham o poder autocrático dos reis Eldarin, enquanto todos os Elfos viviam em Cuiviénen. A estrutura social da primitiva cultura élfica deve, portanto, ter sido substancialmente diferente daquela dos reinados Eldarin em eras posteriores. Fëanor também tentou persuadir os Noldor a segui-lo, mas ele estava fazendo um apelo emocional durante um tempo de crise, enquanto ele ainda estava sob a banição dos Valar. Sua legitimidade como rei era questionável, uma vez que Fingolfin ainda estava agindo tecnicamente como rei em Tirion. Na Terra-Média, Turgon não parece ter tido que persuadir seu povo para segui-lo quando ele se deslocou de Nevrast para Gondolin. Ele simplesmente fez essa decisão e todo o reino se mudou.

É desta maneira evidente que havia ali um processo de evolução na autoridade dos líderes Eldarin. É certamente discutível que uma sociedade menos sofisticada pode não ter providenciado aos Elfos mais velhos o poder dos monarcas. Mas se é esse o caso, então a suposição de que Finwë deve ter se identificado com Tata, o mais velho dos Tatyar, é mais adiante enfraquecida. Tal identificação não necessita ser limitada com a identificação de caráter com caráter. Não é aparente que Finwë deve ser um descendente de Tata e Tatië. Ele poderia ter vindo de qualquer família e ascendido à proeminência através de sua coragem e sabedoria.

No entanto, os Noldor, mais que qualquer outro povo élfico cuja cultura Tolkien escrevera, mantiveram um sistema muito patriarcal. Os reis Noldorin alcançaram uma autoridade quase absoluta sobre seu povo, bem como a autoridade que Melkor exercera sobre seus próprios assuntos. De um modo, os Noldor se tornaram uma paródia daquilo que eles mais desprezavam: o reino de Morgoth. Sua estrutura social deve ter sido compelida para tal autocracia por antigos costumes mais do que por experimentação. De fato, é sensato inferir a partir dos nomes de vários grupos Avarin que os Tatyar eram mais propensos a divisões que os Nelyar. Se for assim, então a habilidade de Finwë em reter a total lealdade de seu povo em Aman foi extraordinária. Fëanor era bem menos popular que seu pai.

Então, a autoridade autocrática dos últimos reis Noldorin indica que eles devem ter herdado uma autoridade primária de Tata. A personalidade de Finwë deve ter participado de um papel maior em estabelecer a autoridade, mais do que sua herança. Isto é, para os Noldor, descender de Finwë seria mais importante do que descender de Tata. Sem falar que os capitães originais dos Tatyar não devem ter descendido de Tata. Faz sentido que, se Ilúvatar selecionou Tata para ser o primeiro a acordar entre os Elfos, ele deveria ter as qualidades de um líder natural que Ilúvatar sentira que os Tatyar necessitariam. Tata deveria (se ele fosse um bom pai) criar seus filhos para serem bons líderes também. Liderança deveria ter se tornado o papel natural da família simplesmente porque a família exercia liderança. Portanto, se Finwë teve irmãos ou primos que decidiram não ir para Valinor, eles devem ter se tornado os líderes dos Tatyarin Avari.

A questão se Finwë tinha outros parentes é interessante, apesar de não ser necessariamente crucial para o entendimento da cultura Noldorin. Havia outras casas principescas entre os Noldor. Elas devem ter compartilhado uma aliança com a casa real através de descendência comum de Tata, mas Tolkien nunca explora o assunto em nenhuma obra publicada. Havia príncipes em Gondolin, como Glorfindel (de quem Gandalf comenta com Frodo que Glorfindel descende de uma casa de príncipes). Infelizmente, a história dos textos de Gondolin faz com que seja impossível determinar quantos príncipes havia em Gondolin, ou qual deveria ter sido sua relação (se é que havia) com os Finwënianos. Voronwë reinvidicou aliança com a Casa de Fingolfin. Um descendente comum de Tata pode explicar essa aparente discrepância. Um descendente através de uma filha de Fingolfin (um daqueles que foi ao exílio) deve também explicar a reinvidicação de Voronwë. Mas algumas pessoas discutem que a declaração de Voronwë pode somente explicar uma relação entre sua família e a família de Fingolfin.

Então Gondolin não nos oferece qualquer insight sobre as complexas hierarquias sociais dos Noldor. No entanto, Nargothrond é uma história diferente. Há pelo menos uma casa de príncipes que (aparentemente) não reinvidica aliança com os Finwënianos. Essa é a família de Guilin, cujo filho Gwindor iniciou a responsabilidade de chefe por lançar o desastroso ataque que iniciou a Nirnaeth Arnoediad. Gwindor também trouxe Túrin a Nargothrond, o que posteriormente levou ao fim daquele reino. Tolkien fala que Gwindor é “um príncipe muito valioso”. Em qualquer outro lugar, Gwindor é “um senhor de Nargothrond”. Seu posto é, no entanto, nobre, mas ele não é um Finwëaniano. Se a família de Guilin foi considerada nobre de tempos antigos ou foi elevada a esse status por Finwë ou um dos reis de Nargothrond, é um mistério.

O que podemos ter certeza é que, no entanto, os Finwënianos derivaram seu status especial do próprio Finwë. A monarquia Noldorin começou com Finwë e todos os reis legítimos dos Noldor exigiram a descendência dele. Mais ainda, nenhum príncipe Noldorin de fora da família já tinha estabelecido um domínio próprio. A estima cuja família de Finwë teve por seu povo foi forte o suficiente, tanto que eles limitaram sua escolha de reis somente para seus descendentes. Portanto, até mesmo se todos os capitães Tatyarin fossem descendentes de Tata, tal patrimônio era insuficiente para justificar um prestígio real.

O carisma de Finwë é também evidente pelo fato de que mais de uma mulher élfica o amava. Em “Leis e Costumes entre os Eldar” (“Morgoth’s Ring”, pg 207-253), Tolkien escreve: “Os Eldar casavam somente uma vez na vida, e por amor, ou pelo menos por livre arbítrio de ambas as partes…Casamento, exceto por raras chances ou destinos estranhos, era o curso natural da vida de todos os Eldar…Aqueles que deveriam depois se tornar casados, deveriam se escolher cedo na juventude, até mesmo quando crianças (e de fato isso acontecia de vez em quando em dias de paz)…”

Se o curso natural dos Eldar os levou a se casar somente uma vez na vida, então a habilidade de Finwë de atrair e amar mais que uma mulher era extremamente fora do comum. Sua personalidade deveria ser extremamente carismática. Não é justo falar que alguma coisa deva ter acontecido para Indis amar Finwë até mesmo quando ele estava casado com Míriel. Seu amor era sem dúvida puro e natural. Não há nunca uma dica de qualquer sinal de sombra ou corrupção em ambos Finwë ou Indis nas estórias relacionadas ao seu casamento. Até certo ponto, seu casamento é reconhecido como um sinal de cura para o pesar de Finwë sobre a morte de Míriel e a recusa de retornar à vida. Apesar da narrativa dizer que as coisas seriam melhores para os Noldor em geral se Finwë não se casasse novamente, o amor que ele e Indis compartilhavam parece ter sido tão forte e natural como o amor que seria encontrado em qualquer primeiro casamento entre os Eldar.

A personalidade distinta de Finwë deve, portanto, ter sido expressada em todos os seus filhos de uma maneira ou outra. Crescer em uma família de um líder que as pessoas devem ter idolatrado deve ter imbuído as crianças de Finwë com um senso de prestígio. Mas ver seu pai interagir com seu povo como um líder, e sem dúvida ouvi-lo palestrar sobre como governar ou liderar o povo deve ter providenciado uma educação espetacular a Fëanor, Fingolfin e Finarfin no equivalente Noldorin de uma pessoa culta. Finwë deve ter sido muito bom em julgar os humores dos outros e descobrir o que ele queria. Os Noldor assim desenvolveram um relacionamento muito próximo com seu rei, muito mais próximo (parecia) do que aquele entre os Vanyar e Ingwë ou entre os Teleri e Elwë e Olwë.

No entanto, Tolkien adicionou um pouco de divisão política lingüisticamente inspirada ao ambiente que produziu os Finwënianos. Isto é, em “The Shibboleth of Fëanor”, Tolkien documenta a transição consciente que a maioria dos Noldor incumbiram em seu diálogo entre o uso de um som (chamado Thorn, foneticamente relacionado à th) e outro (que tomava o lugar do som antigo). Os Vanyar, que aderiram à prática antiga, retiveram o antigo som. Fëanor aderiu ao antigo som como um símbolo de seu amor para com sua mãe. Finwë, por outro lado, tomou a nova pronúncia, talvez como um sinal de que ele estaria prosseguindo com sua vida. Indis também tomou a nova pronúncia, pois ela sentiu que estando unida aos Noldor, deveria falar como eles.

A intransigência de Fëanor derivou-se em parte da natureza teimosa que ele tinha herdado de sua mãe. Mas a decisão dos Valar de proibir o retorno de Míriel à vida para permitir que Finwë e Indis se casassem levou Fëanor a concluir que Indis era a fonte de sua infelicidade. Ele aparentemente não comparecera ao conselho onde os Valar debateram sobre os prós e contras de permitir que Finwë tivesse uma segunda esposa, então ele não entendia que foi a intransigência de Míriel que levou ao grande problema. Os Valar queriam somente o que era justo, e à vista deles (particularmente de Manwë), Míriel estava sendo muito egoísta. Ela tinha, portanto, perdido seus direitos como um ser vivo encarnado. Tudo o que Fëanor vira era o fato de que ele nunca falaria com sua mãe novamente, o que pareceria (em seu luto e raiva) uma promessa quebrada dos Valar. Apesar de tudo, os Elfos supostamente viveriam com a vida de Arda. Míriel deveria ter sido restaurada à vida por fim. Esse era o natural a acontecer com um Elfo.

Assim, quando Finwë e Indis se casaram, o ressentimento de Fëanor da intrusão de Indis na família assegurou que ele iria se isolar da família de Finwë. Quando Fëanor criou seus filhos, estes questionaram por que seus tios e tias falavam de uma maneira diferente da deles. Ele e sua família respeitavam a língua de sua amada mãe. Fëanor fez disso uma questão pessoal, e dessa forma alienou os contadores de estória Noldorin que iriam de outra forma ter aceitado e suportado seus argumentos contra a mudança lingüística. Como comparação, considere como (no idioma americano), muitas pessoas hoje utilizam o pronome “myself” incorretamente (de acordo com as regras antigas). Quando falamos de outra pessoa e de si mesmo, devemos usar “me” no objetivo e “I” no subjetivo. No entanto, muitas pessoas têm sido repreendidas por professores e parentes por usar “me” quando deveriam usar “I”, então acabaram substituindo “myself” por “me”.

Em outras palavras, ao invés de falar “They were speaking to my sister and me”, a maioria das pessoas fala “They were speaking to my sister and myself”. “Myself” é, de acordo com as regras gramaticais, um pronome reflexivo. Deve ser precedido somente por “I” ou “me”, e não utilizado sozinho. Agora, imaginem se o Príncipe Charles fosse lançar uma cruzada pessoal para corrigir cada pessoa que utiliza o “myself” incorretamente! Quanto tempo levaria antes que as pessoas decidissem que ele é arrogante o bastante para se respeitar? E imagine que enquanto o Príncipe Charles faz campanha contra o idioma vulgar, sua mãe, a Rainha, começa a usar o “myself” incorretamente. O amor e o respeito do povo para com uma monarca popular continuará intacto, porque ela estaria falando como eles e não faria tempestade em copo d´água acerca de uma questão tão pequena. No entanto, esse amor e respeito não seriam transferidos ao seu filho.

Fëanor assim elevou um desentendimento erudito ao status de ordem política. Todos aqueles Noldor que usavam a pronúncia nova eram contra ele, e todos aqueles que retiveram a pronúncia Thorn o apoiavam. Ironicamente, Fëanor ignorou os Vanyar, que eram praticantes da pronúncia Thorn, enquanto ele possuía uma aliança com os teleri, cuja fala era radicalmente diferente do Quenya falado pelos Noldor e Vanyar. Mais ainda, Finarfin reteve a pronúncia Thorn por motivos próprios. O “Shibboleth” diz que Galadriel mudou para a nova pronúncia, em parte devido a sua animosidade para com Fëanor.

Todas essas mudanças ameaçadoras de vida na pronúncia, desta maneira, simbolizavam a polarização das lealdades dos Noldorin. Porém, ainda mais importante, elas enfatizaram a transição entre a autoridade primitiva dos capitães Élficos e a autocracia dos reis Noldorin. Fëanor estava fazendo sua linguagem de seu modo, e ele reuniu com ele todos aqueles que se sentiram reunidos. Mas devido ao fato de ele ter sido uma pessoa tão maestral, ele chegou a dominar as decisões de seus seguidores. A transição de seus seguidores a quase autômatos políticos foi completada por suas participações voluntárias no ataque de Alqualondë. Eles devem ter pensado que estavam apenas roubando navios, mas quando a luta começou a ficar sangrenta, nenhum dos Fëanorianos pareceu ficar de lado e falado: “Esperem um pouco! O que estamos fazendo?”.

Em uma menor extensão, a divisão sobre a pronúncia deve ter influenciado os outros Noldor, não meramente para suportar Finwë e Fingolfin. A divisão deve tê-los forçado a ter um pensamento do tipo “nós e eles”. Alguns seguiram Fëanor e outros seguiram Finwë e Fingolfin. Subseqüentemente, o prestígio de Finwë entre os Noldor deve ter diminuído. Ele tinha, apesar de tudo, desonrado seu próprio filho ao não apoiar Fëanor. Deve ter sido um momento de orgulho para os Fëanorianos quando Finwë partira de Tirion para viver com seu filho em exílio. Apesar do papel de Finwë na disputa entre Fëanor e Fingolfin ser silencioso, seria somente um pequeno salto de imaginação retrata-lo controvertido, como quando ele tenta restaurar a paz entre seus filhos e descobre que os Valar tinham chegado para proferir sua própria justiça. Então, para adicionar ferida ao insulto, eles exilaram seu filho, não considerando tudo o que ele possa ter falado em nome de Fëanor (sem mencionar a tentativa de reconciliação de Fingolfin). Evidentemente, empunhar uma espada contra seu irmão em público é algo bem desagradável. Mas a autoridade de Finwë estava comprometida. Ele não podia dispensar a justiça dentro de sua família, muito menos entre seu próprio povo.

O ato da rebelião de Finwë foi o começo real da rebelião de Fëanor, apesar de todos os conflitos que precederam tal rebelião. A intromissão de Melkor deve ter inflamado o orgulho dos Noldor, mas era, no fim, a própria decisão de exilar Fëanor de Tirion, que ocasionou a seqüência final dos eventos em andamento. O que não é dizer que a rebelião deva ter ocorrido de outra forma. Fëanor deve, por fim, ter sido empurrado da beira apesar do que aconteceu. O assassinato de Finwë por Melkor jogou Fëanor numa profunda depressão final, que resultou no que pode ser caracterizado como sua loucura. Fëanor perdera toda a sua perspectiva racional, e devido a ele ter aperfeiçoado seus poderes de persuasão durante anos e devido ao fato de que os Noldor eram uma nação em luto pela morte inesperada de seu Rei e pela perda das Duas “rvores, Fëanor tinha esse como o momento perfeito para infectar seu povo com sua loucura.

A dinâmica da personalidade culta dos Finwënianos do modo como era, foi assim, fundada sobre um forte laço emocional entre os reis e o povo. Fëanor havia alienado a maioria dos Noldor quando Melkor assassinara Finwë, mas a miséria ama companhia, e Fëanor tinha muita companhia após Melkor e Ungoliant terem matado as Duas “rvores e atacaram Formenos. Todas as decisões justas e populares de Finwë através do equivalente de centenas de anos haviam preparado o caminho para o apelo emocional de Fëanor. Ele deve ter tido os poderes de um incrível locutor motivador para começar, mas Fëanor provavelmente não poderia ter influenciado os Noldor a unirem-se a ele em qualquer outra época da história. A morte de Finwë e o modo como Melkor capturara os Valar completamente sem guarda em seu próprio reino deve ter abalado a fé dos Noldor em Manwë e Varda.

No entanto, Fëanor não tinha nada a seu favor. Fingolfin, igualmente em luta por seu pai, e muito amado e respeitado pelos Noldor, discutiu contra Fëanor. O debate durou um longo tempo. Deveriam ter trocado palavras amargas e duras. O sarcasmo e ridicularização devem ter sido jorrados da língua de Fëanor rápida e furiosamente. Fingolfin deve ter parado de se conter por um tempo, e simplesmente descarregou tudo em Fëanor. Tudo o que nos é contado é que palavras violentas despertaram, e então mais uma vez a ira chegou próxima a beira das espadas. O que estava em jogo não era simplesmente o destino da nação Noldorin, nem mesmo a aliança dos Noldor. Questões pessoais estavam pressionando para frente e ambos Fëanor e Fingolfin estavam investigando (ou tinham investigado) eles próprios em questões de prestígio e poder pessoal. Isto é, Fingolfin nessa época sentia que ele deveria ser rei dos Noldor. Ele era, de certa maneira, quase orgulhoso e arrogante como seu irmão.

As ambições maquiavélicas de Fingolfin foram despertadas pelas mentiras de Melkor, que gerou dissensão entre os Noldor. Foi quando Fingolfin fez um apelo emocional ao seu pai para reprimir Fëanor por ter empunhado sua espada sobre Fingolfin. Fëanor acusou Fingolfin de abrigar ambição real. Pode ser que Fëanor estava lendo os desejos de seu irmão corretamente. Fingolfin, apesar de tudo, não falava estranhamente como Fëanor falava. Ele também não ficava por aí com espadas, ameaçando parentes na frente do rei e seu povo. Ele deve ter se julgado um candidato melhor para o reinado que seu irmão (apesar de que, naquela época, não havia razão para ninguém ficar pensando sobre quem deveria suceder ao seu pai). “Deixem que o melhor príncipe governe” era a ordem do dia, mas Fingolfin não era aparentemente melhor em evitar as manipulações de Melkor que Fëanor. Portanto, quando Finwë desistiu de sua coroa para compartilhar do exílio de Fëanor, Fingolfin não tinha outra escolha a não ser aceitar humildemente a pesada responsabilidade de governar a maioria dos Noldor em Tirion.

Dez anos de reinado devem representar uma estabilidade muito dependente. Fingolfin deve ter restituído a coroa para seu pai, mas ele não desejava renunciá-la a Fëanor. Quando Melkor assassinou Finwë, o reinado Noldorin entrou em disputa imediata. Apesar dos Valar não terem ainda restabelecido seu local entre os Noldor, Fëanor entrou em Tirion e convocou Finwë. Tal intimação era uma clara usurpação da autoridade real. Mais encolerado, Fëanor se declarou como o legítimo Rei dos Noldor. Fingolfin não abdicara sua própria autoridade, embora temporariamente isso era destinado a ocorrer. Como Finwë havia enfrentado os Tatyar muito tempo atrás e ofereceu a eles uma nova vida em Aman, Fëanor agora enfrentava os Noldor e propunha uma oferta similar de vida nova na Terra-Média. A antiga estrutura social não estava trazendo sentido. Fingolfin tinha que responder a Fëanor, mas se sua esperança era restaurar o reinado de Finwë através de suas próprias leis, isso provou ser inútil. A maioria dos Noldor não queria mais nada com os Valar e Valinor. Alguns deles foram convencidos a se unir à rebelião, apesar da afeição por Valinor. E uma menor parte da nação recusou a aceitar ambos Fëanor ou Fingolfin se eles estavam determinados a liderar os Noldor ao exílio, mesmo se Fingolfin somente concordasse em ir apenas para ter certeza de que Fëanor não deixaria que ninguém fosse morto.

No fim, Finarfin provou ser o único filho de Finwë com qualquer bom senso real. Ele aparentemente nunca caiu nas mentiras que Melkor semeara entre os Noldor. Quando um grande mentiroso espalha confusão, normalmente há algumas pessoas que ficam acima da discórdia, e Finarfin era esse tipo de indivíduo. Ele, também, tentou persuadir os Noldor a não seguir Fëanor ao exílio. E assim como Fingolfin, ele concordou em ir relutantemente, em maior parte porque seus filhos queriam tentar a sorte na Terra-Média, e porque ele temia o que poderia acontecer com as pessoas se elas fossem deixadas à mercê da liderança de Fëanor. Quando os Noldor atacaram Alqualondë e os Valar os condenaram a um destino terrível, Finarfin silenciosamente retirou-se da rebelião e procurou o perdão dos Valar (e, esperançosamente, dos Teleri, seu povo por casamento). No fim, o reinado foi outorgado a Finarfin, cujas mãos não eram manchadas de sangue e cujo coração tinha a menor ambição dentre os filhos de Finwë.

Outros membros da família de Finwë que receberam praticamente nenhuma atenção ao longo dos anos foram as filhas de Finwë com Indis. Finwë tinha filhas? Bem, isso é o que “The Shibolleth of Fëanor” nos passa. Findis foi, de fato, a filha primogênita de Finwë e Indis. Ela era aparentemente muito parecida com a sua mãe em temperamento. Indis ficou em Tirion quando Finwë se uniu a Fëanor em Formenos. Ela não participou de nenhuma parte no governo dos Noldor, parecia, e Findis parece ter permanecido próxima de sua mãe. Quando a notícia da morte de Finwë chegou a elas, ambas partiram e retornaram aos Vanyar.

Originalmente, Finwë teria três filhas com Indis. Christopher Tolkien menciona que, de 1959 até 1968, foi a época que seu pai preparara várias genealogias para os Finwënianos. No entanto, a segunda filha, Faniel, nunca é mencionada em “The Shibboleth”, e pode ser que Tolkien pretendia tira-la da família. Como dito no Shiboleth, Irien (originalmente chamada Irimë, a terceira filha) nasceu entre Fingolfin e Finarfin. Ela era também chamada de Lalwendë, e foi o nome que em Sindarin se tornou Lalwen. Fingolfin e Lalwen eram muito próximos, e ela o acompanhou no exílio. Não sabemos mais nada sobre ela, mas algumas pessoas se perguntavam se Aranwë, pai de Voronwë, não poderia ser o marido ou filho de Lalwen. Presumivelmente, Lalwen permaneceu em Hithlum e deve ter sido morta ou capturada após a Nirnaeth. E uma vez que ela era próxima a Fingolfin, ela deve ter ativamente apoiado suas reinvidicações para o reinado.

Fingolfin afirmou sua realeza ao usar seu nome paterno. Finwë nomeou seus três filhos a partir de seu nome: Curufinwë (Fëanor), Nolofinwë (Fingolfin) e Aranfinwë (Finarfin). Fingolfin, ao que parece, iniciou o costume de usar o nome de seu pai como um símbolo de autoridade real. Portanto, ele se autodenominava Finwë Nolofinwë, talvez durante o debate com Fëanor em Tirion, mais provavelmente após o ataque em Alqualondë. O Shibboleth diz: “Fingolfin prefixou o nome Finwë a Nolofinwë antes dos Exílios alcançar a Terra-Média. Isto foi devido a dedicação a sua reinvidicação de ser o capitão de todos os Noldor após a morte de Finwë, e então enraiveceu Fëanor de tal forma que essa foi sem dúvida uma das razões para de sua traição ao abandonar Fingolfin a roubar todos os navios.”

Finafin não usou o nome Finwë. Curiosamente, o Shibboleth fala que Finrod criou o nome “Finwë Arafinwë”, ou Finarfin, após a morte de Fingolfin, numa época em que os Noldor se dividiram em reinados separados. Apesar de que essa afirmação pareceria contradizer “O Silmarillion” (que menciona explicitamente os reis dos Noldor anteriores à morte de Fingolfin), as intenções de Tolkien não são claras. Contudo, o uso do nome de Finwë como um prefixo se tornou uma prerrogativa real. De alguma forma, o nome de Finwë deve ter se tornado um sinônimo da palavra-título rei, e seria apropriado falar do governador dos Noldor como “O Finwë”. Após a Primeira Era, Gil-Galad teria sido o “Finwë” na Terra-Média.

As esposas dos filhos de Finwë receberam pouca atenção de Tolkien. A esposa de Fëanor, Nerdanel, era filha de um ferreiro chamado Mahtan em “O Silmarillion”. A família de Mahtan possuía cabelo castanho-avermelhado e ele deve ter sido o líder de uma comunidade de Noldor que morava perto dos salões de Aulë. Nerdanel tinha uma tez avermelhada, cujo filho Caranthir herdara. Numa nota adicionada ao “The Shibboleth of Fëanor”, o pai de Nerdanel é chamado Aulendur e Urundil, e fala-se que Aulendur suplantou Mahtan, que, no entanto, foi o nome que Christopher utilizou para ele em “O Silmarillion”. Outro nome para sua personagem, do qual Christopher não tem muita certeza, deve ter sido “Sarmo”. Ele usava uma auréola de cobre em volta de sua cabeça e gostava muito de cobre. Maedhros era aparentemente muito parecido com ele em temperamento e aparência, e também usava uma auréola de cobre. Quando Fëanor se tornou beligerante demais a ponto de Nerdanel não suporta-lo mais, ela retornou para a casa de seu pai. Aulë persuadiu Aulendur e sua família para não seguir Fëanor ao exílio. Nerdanel pediu que Fëanor deixasse os filhos mais novos em Aman, mas ele recusara. Ela então previu que os mais novos nunca chegariam a Terra-Média.

A esposa de Fingolfin era Anairë. Ela era uma Noldo, mas tudo o que sabemos é que ela era amiga de Eärwen (esposa de Finarfin) e que ela recusou a seguir Fingolfin ao exílio “em grande parte devido a sua amizade com Earwën”. Earwën era filha de Olwë de Alqualondë. Ela tinha cabelos prateados como outros membros de sua família. Numa primitiva história de Galadriel publicada em “Contos Inacabados”, Tolkien escreveu que Finrod “tinha também de sua mãe Teleri um amor pelo mar e sonhos de terras longínquas que ele jamais vira” Não está claro se Eärwen era antiga o bastante para ter nascido na Terra-Média, mas o texto parece dar a entender que os Teleri de Alqualondë (ou pelo menos Eärwen), não eram totalmente alheios a Terra-Média. Os Teleri haviam passado grande parte de seu tempo vivendo na ilha de Tol Eresseä antes de Ulmo comandar Ossë a ensina-los a arte da construção de barcos para que eles pudessem finalmente navegar até Aman e se unir aos Eldar ali.

Fëanor e Nerdanel tiveram sete filhos, como O Silmarillion nos fala: Maedhros, Maglor, Celgorm, Curufin, Caranthir, Amrod e Amras. O Shibboleth fala que seus nomes paternos (dados em Quenya) eram Nelyafinwë (“Finwë Terceiro”, como em Finwë III, Finwë o Terceiro), Karafinwë, Kurufinwë (Curufinwë no Silmarillion), Morifinwë, Pityafinwë (“Pequeno Finwë”) e Telunfinwë (“Último Finwë”). Fala-se que Maedros era o mais belo dos filhos, e Curufin era o favorito do pai porque ele era o mais parecido com Fëanor em espírito e habilidade. Curufin também parecia com sua mãe mais do que os outros filhos. Seus nomes maternos eram Maitimo, Makalaure, Tyelkormo, Atarinke (“Pequeno Pai”), Carnistir (“Cara Avermelhada”), Ambarusso e Ambarusso. Os dois Ambarussos eram gêmeos e Fëanor pedira a Nerdanel para dar a um deles um nome diferente. Ela escolhera Umbarto (“Destinado”), que Fëanor mudara para Ambarto (“Exaltado”), e ele deu esse nome ao mais novo.

“The Shibboleth of Fëanor” conta que Nerdanel pedira a Fëanor para deixar os gêmeos com ela, ou pelo menos um deles, quando ele estava preparando para a liderança dos Noldor ao exílio. Ele recusou, repreendendo-a por seguir o conselho de Aulë ao invés da vontade de seu marido, e Nerdanel profetizou que um de seus filhos não chegaria a Terra-Média. Quando Fëanor queimou os navios roubados em Losgar, ele reuniu seus filhos na costa e encontrou somente seis deles. Então Ambarussa contou a ele que Ambarto havia dormido em seu navio. “Aquele navio eu destruí primeiro”, Fëanor respondeu. “Então certo você estava em nomear o mais novo dos seus filhos”, Ambarussa respondeu, “e Umbarto o Destinado era a sua forma verdadeira”. Uma nota final diz que o nome de Ambarussa se tornou Amros em Sindarin (e não Amrod, como registrado no Silmarillion). Onde quer que o Silmarillion fale de Amros e Amras após a queima em Losgar, é mais correto entender que somente Amros estava presente.

Dos filhos de Fëanor e Nerdanel, somente três tiveram esposas: Maglor, Curufin e Caranthir. Na nota sete, adicionada ao ensaio “Dos Anões e Homens” (“The Peoples of Middle-Earth”, pp. 295-330), Christopher cita uma nota que seu pai fez em 1966 após a segunda edição de Senhor dos Anéis ter sido publicada. Nela, Tolkien decidiu que Celebrimbor (chamado senhor de Eregion nos apêndices) deve ser o filho de Curufin, pois Maedhros e os gêmeos não tiveram esposas. Curufin, herdando a maior parte da habilidade paterna dentre os sete, passou sua habilidade (e provavelmente muita história) para Celebrimbor, que desaprovou o comportamento de seu pai em Nargothrond. Celebrimbor ficou para trás. A mulher de Curufin escolheu não seguir seu marido no exílio, então ela permaneceu em Aman dentre as pessoas governadas por Finarfin (e era, portanto, provavelmente uma Noldo). Não há menção de quaisquer outros netos de Fëanor e Nerdanel, e os destinos das esposas de Maglor e Caranthir não são dados.

Fingolfin e Anairë tiveram quatro filhos: Findekano (Fingon), Turukano (Turgon), Irissë (Aredhel) e Arakano (Argon). Apesar de Anairë ter permanecido em Valinor quando Fingolfin foi ao exílio, todos seus filhos seguiram Fingolfin. Fingon liderou a vanguarda da multidão de Fingolfin, e ele foi acompanhado de sua mulher, Elenwë dos Vanyar. Irissë era próxima a Turgon como sua tia Irien (Lalwen) era próxima a Fingolfin. Irissë permanecera com o povo de Turgon até persuadir que ele a deixasse visitar Fingon em Hithlum. Em vez disso, após deixar Gondolin, ela fugiu de sua escolta e vagou ao leste em Nan Elmoth. Ali ela casou-se com Eöl e teve um filho, Maeglin, com quem ela retornou a Gondolin muitos anos depois.

Arakano surgiu relativamente atrasado, provavelmente após a segunda edição de Senhor dos Anéis ter sido publicada. Ele é descrito como “o mais alto dos irmãos e o mais impetuoso”. Tolkien achou difícil designa-lo um papel na história completa em geral, e primeiro ele criou mortes para Arakano em Aman. Mas por fim Tolkien decidiu que a multidão de Fingolfin seria atacada por um exército de Orcs quando os Noldor passassem ao sul ao longo da costa da Terra-Média. Ali Arakano distinguiria e se sacrificaria por seu povo:

Quando o começo do ataque dos Orcs pegou a multidão desprevenida como se ela estivesse marchando ao sul e as fileiras dos Eldar estavam abrindo caminho, ele saltou e cortou um caminho através dos inimigos, amedrontando por sua estatura e pela terrível luz de seus olhos, até chegar o capitão Orc e ele render-se. Então apesar de estar cercado e morto, os Orcs estavam consternados, e os Noldor os perseguiram com matança.

O nome de Arakano assim nunca foi formalmente transformado para o Sindarin, “mas a forma Sindarim Argon foi mais para frente por vezes utilizada como um nome pelos Noldor e Sindar em memória de seu valor” (“Peoples of Middle-Earth”, p.345).

Fingon também era impetuoso. Ele não apenas se apressou para ajudar Fëanor, ele liderou os ataques opostos contra as forças de Morgoth, quando quer que Hithlum fosse atacada. E quando Gwindor liderou sua companhia de soldados Nargothrondianos contra o exército de Morgoth na Nirnaeth, Fingon não podia mais se conter. Ao invés de esperar por Maedhros, como ele devia, ele pôs seu capacete, montou em seu cavalo, e encarregou-se para a glória, morte e derrota. Fingon era sem dúvida um dos maiores guerreiros dos Eldar, pois foi preciso mais do que um Balrog para mata-lo no fim, e suas realizações pessoais registradas no campo de batalha superaram àquelas de outros príncipes Élficos.

Turgon era sem dúvida o mais sábio dos filhos de Fingolfin, e por uma razão não revelada, ele era um dos favoritos de Ulmo entre os príncipes Noldorin. Pode ser que, uma vez que Turgon tomou o governo sobre os Elfos Sindarin de Nevrast, Ulmo sentiu que Turgon seria o único rei Noldorin a encomendar a construção de navios com o propósito de procurar ajuda para Aman. O Shibboleth registra que a mulher de Turgon, Elenwë, pereceu em Helcaraxë. Ela e sua filha, Itaril se renderam, e Turgon resgatara Itaril, mas Elenwë foi esmagada pelo gelo. Parecia, através de uma observação enigmática no Shibboleth, que Irissë e Elenwë eram amigas muito próximas.

Quando Fingolfin nomeou Findekano, ele não necessariamente usou o termo originário de “Finwë”, um antigo nome Élfico dado em uma época quando nomes eram outorgados a alguém conforme eles soavam. Nem, o Shibboleth nos conta, deve ter sido necessário. O uso de uma palavra similar honrava o nome ancestral. Findekano é descrito usando “seu longo cabelo escuro em grandes tranças amarradas com ouro”. Tolkien tinha várias considerações sobre a vida pessoal de Findekano. Apesar do Silmarillion nos contar que Gil-Galad era seu filho, Christopher Tolkien admite em ambas as obras “The War of The Jewels” e “The Peoples of Middle-Earth” que ele estava errado quando incorporou Gil-Galad no livro como um filho de Fingon. Christopher menciona que todas as tabelas genealógicas mostram Fingon com uma esposa não nomeada e dois filhos: Ernis (mais tarde Erien) e Finbor. Mas sua família foi retirada da genealogia final e Tolkien escreveu uma nota dizendo que Fingon “não tivera mulher ou filhos”.

Deveria ser, sem dúvida, necessário interpretar algum destino deprimente para ambos Erien e Finbor, uma vez que Finbor seria o herdeiro de Fingon. Serviu para o propósito de Tolkien mover Gil-Galad para a família de Finarfin. Então, o Alto Reinado passou de Fingon, que não tinha filhos, para Turgon, e então para a família de Fingolfin (a linhagem masculina que terminava com Turgon) para a família de Finarfin.

Os filhos de Finarfin e Eärwen eram Findarato Ingoldo (Finrod), Angarato (Angrod), e Newendë Artanis (mais tarde chamada Altariel, Galadriel). O Silmarillion coloca Orodreth (Artaher ou Arothir) entre os filhos de Finarfin, mas a decisão final foi que ele fosse filho de Angrod e Eldalote (Edhellos em Sindarin). Ela era uma Noldo, e Arothir nascera em Aman. O Silmarillion fala que Orodreth ficou ao lado de Finarfin quando este defendeu com os Noldor a decisão de não seguir Fëanor para o exílio.Seria totalmente inconsistente com a genealogia final para Arothir manter esse papel. Ele era um rei guerreiro relutante e somente gradualmente ele se permitiu influenciar pelas medidas agressivas de Túrin.

A decisão final de Tolkien acerca de Finrod é intrigante. Em agosto de 1965, ele escreveu uma breve explicação sobre a descendência de Gil-Galad. O texto diz “Finrod deixou sua mulher em valinor e não teve nenhum filho no exílio”. A esposa de Finrod (não nomeada aqui) deve ser Amarie dos Vanyar. Mas a frase pode significar uma das três coisas: que Finrod e Amarië tiveram filhos que permaneceram em Valinor, que eles não tiveram filhos, ou que eles tiveram filhos após os Valar terem restaurado sua vida. É tentador racionalizar a afirmação de Gildor Inglorion, quem Frodo, Sam e Pippin conheceram no Condado, com sua declaração um tanto quanto ambígua. Isto é, Gildor contou a Frodo que ele era “da casa de Finrod”. Até aonde sabemos, havia somente um Finrod. Originalmente, o nome Finrod foi dado ao pai, e o príncipe que fundou o reino de Nargothrond foi chamado de Inglor. Mas ao revisar O Senhor dos Anéis para a segunda edição, Tolkien modificou Finrod para Finarphir (mais tarde se tornou Finarphin, Finarfin) e Inglor para Finrod. Mas ele não mudou o nome de Gildor.

Se Gildor é realmente um descendente de Finrod, ele deve ter nascido em Valinor. Mas se é esse o caso, como ele chegou na Terra-Média, e quando? Tolkien parece ter omitido Gildor completamente. E as pessoas são rápidas a notar que Gildor nomeia a si mesmo como um Exilado (ou, melhor, ele diz, “Nós somos Exilados”). Como Gildor poderia ser um Exilado se ele nasceu após Finrod ter sua vida restaurada? A resposta para essa questão é simples: qualquer filho dos Noldor que foi para o exílio, e que estava vivendo na Terra-Média, seria um Exilado (um subgrupo dos Noldor) tanto quanto ainda era um Noldor. No entanto não há nenhum texto que associa Gildor com o renomeado Finrod/Finarfin ou o renomeado Inglor/Finrod (exceto seu próprio nome, que significa “parente de Inglor”).

Uma nova dificuldade surgindo da conexão de Gildor com Finrod é que, se ele estava vivo na Terra-Média quando Gil-Galad perecera, não deveria ele ser apto para reinvidicar a Alta Soberania sobre os Noldor? Pode ser que tal reinvidicação seria julgada inválida, uma vez que o reinado passara para a linhagem de Orodreth (assim como passara da linhagem de Fëanor para a de Fingolfin e depois para a de Finarfin). O reinado poderia descer, mas não subir. No entanto isso é insatisfatório. Poderia ser também que Gildor tenha chegado com um dos Istari, apesar de ser falado que apenas Glorfindel chegou a Terra-Média após a Queda de Númenor. De fato, há uma frase associada ao Shibboleth que afirma que “pouco foi ouvido na Terra Média sobre Aman após a partida dos Noldor. Aqueles que retornaram para aquela direção nunca mais voltaram, desde a mudança do mundo. Eles foram para Númenor muitas vezes em seus primeiros dias, mas pequena parte das lendas e histórias de Númenor sobreviveram a sua Queda”.

Novamente temos aqui uma frustrante frase ambígua. “Aqueles que retornaram (para Aman) nunca voltaram, desde a mudança do mundo”. O que seria a mudança do mundo, senão o evento no qual Ilúvatar transformara o mundo, removendo Aman dos círculos do mundo e destruindo Númenor? A frase a seguir parece indicar que os Noldor (de Tol Eressëa) somente navegaram para o leste como para Númenor em seus anos primordiais. Mais ainda, a passagem não descarta completamente uma travessia para o leste por alguém de uma geração mais nova. De fato, em uma de suas últimas notas sobre Glorfindel, Tolkien decidiu que ele realmente retornou a Terra-Média por meio de Númenor em meados da Segunda Era, quando Gil-Galad estava se preparando para o ataque de Sauron no século XVII (A Guerra entre os Elfos e Sauron durou de 1695 a 1701).

Qualquer que seja a verdadeira relação de Gildor com os Finwënianos, ele não pode ser um descendente de Finwë que passou para o exílio com Fëanor e Fingolfin. Ele também nem pode ser um filho de Finrod nascido na Terra-Média. Se ele fosse um descendente de Finrod, apesar de que ele pode originalmente ter sido um filho de Finrod, seu nome, como preservado no cânone de Senhor dos Anéis indica que deveria haver um Inglor, que poderia talvez ser filho de Finrod e Amarië, nascido em Valinor após Finrod ter voltado à vida. Mas tais especulações não vão longe, faltando apoio textual.

A história de Galadriel é tão intrigante e complicada quanto à ancestralidade de Gildor. Tolkien mudou sua história mais de uma vez e, fazendo tais mudanças, Tolkien alterou suas relações com ambos Celebrimbor e Celeborn. Celeborn era originalmente um elfo da floresta, mas como o tempo ele foi modificado para ser um Elfo Sindarin com parentesco com Elwë, através de um irmão mais novo, Elmo. Porém, no último ano de sua vida, Tolkien decidiu que Celeborn deveria ser um neto de Olwë, nascido em Alqualondë. Parece que Tolkien esqueceu (em períodos de sua vida) as antigas restrições Eldarin contra o casamento entre dois primos de primeiro grau. (cujo princípio é referido na estória de Maeglin, apesar de, como publicado em “O Silmarillion”, essa estória é em maior parte trabalho de edição de Christopher e redução de materiais mais antigos).

Apesar disso, podemos ter certeza de que Galadriel era filha de Finarfin e Eärwen, e que ela nunca se deu bem com Fëanor. No entanto, ela compartilhou dos sonhos de Finrod de outras terras, e ela era ambiciosa. Ela desejava governar seu próprio reino. Apesar de quer ela tenha seguido para o exílio com Fëanor ou (como conta a última estória de 1972) precedeu ele com Celeborn, Galadriel foi levada para o destino dos Noldor. Como seu povo, ela estava proibida de retornar a Aman. Também permanece certo que Galadriel, de alguma forma, se tornou proximamente ligada a Melian em Doriath por um tempo, e que ela e Celeborn passaram por Ered Lindon antes de Nargothrond e Gondolin terem sido destruídas.

A partida de Galadriel de Beleriand não é mencionada no Silmarillion. Eu suspeito que isso teria acontecido em alguma ocasião entre a Dagor Bragollach (455) e a Nirnaeth Arnoediad (473). Muitos Sindar do norte fugiram para o leste através de Ered Lindon durante ou imediatamente em seguida a Dagor Bragollach. A melhor oportunidade para Galadriel e Celeborn de partir seria quando esses Sindar estavam abandonando a guerra. Galadriel e Celeborn teriam sido acolhidos entre eles, e a desaprovação de Galadriel das medidas Noldorin deve ter induzindo-a a sair de Beleriand enquanto estava tudo bem.

Angarato (Angrod) trouxe sua esposa, Eldalote, e seu filho, Arothir (Orodreth), para o exílio. Eles se estabeleceram em Dorthonion com Aikanaro (Aegnor), que nunca se casou. Angrod possuía uma grande força e ele ganhou o apelido de “Angamaite” (mãos de ferro). Angrod pereceu na Dagor Bragollach, mas Arothir escapou e fugiu para o sul para se juntar a Finrod na Nargothrond.

Conta-se que Aikanaro (Aegnor) foi “renomado como um dos mais valentes dos guerreiros, muito temido pelos Orcs: em ira ou batalha a luz de seus olhos eram como chamas, apesar de que, de outra maneira, ele era de natureza generosa e nobre. Mas no começo da juventude a luz ardente podia ser observada; enquanto seu cabelo era notável: dourado como o de seus irmãos e irmãs, mas forte e duro, erguendo-se de sua cabeça como chamas”. Aegnor não teve esposa, mas emerge em “Athrabeth Finrod ah Andreth” (“Morgoth´s Ring) que ele se apaixonou por Andreth, uma sábia mulher Beoriana, enquanto ela era um tanto jovem. Apesar de ele desejar casar com ela, ele aparentemente confiou a Finrod (ou Finrod entendeu implicitamente) o fato de que ele previra sua própria morte em batalha, e ele não desejava deixa-la viúva, ou qualquer criança que ela poderia ter com ele órfã. Andreth viveu até envelhecer e deve ter vivido até a Dagor Bragollach, apesar da data de sua morte não ser registrada.

A genealogia dos Finwënianos envolve alguns nomes espalhados nas gerações seguintes: Celebrimbor, filho de Curufin; Idril (Itaril), filha de Turgon; Arothir (Orodreth), filho de Angrod e Eldalote; e Celebrian, filha de Galadriel e Celeborn. Idril se casou com Tuor e teve um filho dele, Eärendil. Ela era sábia o bastante para prever a necessidade de um caminho escondido para escapar de Gondolin, e seu cabelo era tão dourado quanto o de sua mãe Vanyarin. Arothir (Orodreth) permaneceu próximo de Finrod e estava entre os poucos nobres que apoiaram Finrod quando ele se sentiu obrigado a pagar sua dívida a Beren. Finrod fez de Arothir seu capataz em Nargothrond, e quando se ouviu falar da morte de Finrod, Arothir guiou Celegorm e Curufin fora do reino.

Arothir casou com uma dama Sindarin do norte, apesar de seu nome não ser registrado. Seus filhos foram Erenion (descendente de reis) e Finduilas. Finduilas era loira, e o próprio Arothir devia ter sido loiro. Apesar de que ela amava Gwindor, quando ela conheceu Túrin, ela não podia fazer nada além de se apaixonar por ele. E, no entanto, Túrin não correspondera aos seus sentimentos. Finduilas foi aprisionada quando Nargothrond rendeu-se a Glaurung e seus Orcs, mas os Orcs mataram-na e também os outros prisioneiros quando eles caíram numa cilada armada pelos Homens de Brethil.

Ereinion escapou do saque de Nargothrond e seguiu seu caminho ao sul para a desembocadura do Sirion. Dali ele chegou a Círdan na ilha de Balar e foi nomeado Alto Rei dos Noldor no Exílio. Sua mãe nomeou-o Gil-Galad.

A autoridade real de Finwë terminou com Gil-Galad. Mas a ambição dos príncipes Finwënianos parece ter parado com Gil-Galad também. Pois apesar dele ter estabelecido um reino poderoso em Lindon, que durara mais de 3000 anos, ele, aparentemente não teve uma esposa. Eärendil deixara a Terra-Média para sempre, e as ambições de seus ancestrais parecem somente ter sido realizadas por seu filho Elros, quem dada a oportunidade entre escolher a mortalidade e o reino dos Elfos, escolheu ser Rei de Númenor, porém mortal. Seu irmão Elrond escolheu ser do povo dos Elfos, mas nunca estabelecera seu próprio reino. Ele governara Imladris como um posto avançado do reino de Gil-Galad na Segunda Era e manteve-o como uma fortaleza do poder Eldarin na Terra-Média. Mas Elrond nunca teve o título de rei. Pode ser que, legalmente, ele sentia que não podia exigir um reinado, uma vez que Eärendil era filho de um homem mortal e não de um Rei Élfico.

Mas talvez Elrond reconheceu que o tempo dos Finwënianos Élficos tinha vindo e acabado. Por quatro mil anos eles governaram reinos poderosos na Terra-Média, e opuseram-se aos seus inimigos. Apesar de suas falhas, os Finwënianos forneceram grande sabedoria aos Homens, e através do casamento de Idril com Tuor eles outorgaram um antigo e nobre patrimônio às grandes casas de Númenor e seus reinos sucessores. Enquanto os príncipes Eldarin desapareciam, um por um, seus primos Númenoreanos ascenderam à cena principal e assumiram o papel central na obra em andamento da história da Terra-Média.

[Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts]

A Mágica dos Menestréis

Duas coisas que você não
encontrará mencionadas na Terra-média de Tolkien são os palhaçoes e
atores. Tampouco irá encontrar referências a jogos, dramatizações,
malabaristas, acrobatas ou teatros, carnavais, feiras e circos.

 

 

 
O que o povo da Terra-média fazia para seu próprio
entretenimento? Ele pareciam não ter nenhuma grande arena como os
Romanos, nem casas teatrais, nem humoristas nômades, nem nenhum dos
enfeites da tradição do drama ou comédia.

As duas grandes
forma de apresentação na Terra-média eram a narração de histórias e a
música. Mas embora pareça que todo mundo parecia apreciar uma boa
história ou música, existem poucas evidências do desenvolvimento
profissional para ambas as formas de apresentação. De fato, apenas dois
menestrés profissionais são mencionados em O Senhor dos Anéis. Gleowine
era o menstrel de Théoden, e depois que escreveu a canção fúnebre que
os Cabaleiros de Rohan cantaram ao redot do túmulo de Théodin ele nunca
mais fez outra música novamente. E algum menestrel anônimo de Gondor
compôs a balada de "Frodo dos Nove Dedos e o Anel da Destruição"
[auxiliado no título da balada por Sam].

Para um livro que
está repleto de canções e referências a antigas baladas, poder-se-ia
quase esperar encontrar um bardo ou trovador saltando de cada capítulo,
vagando de cidade em cidade para manter as massas entretidas. Mas ao
contrário, não existe indicação real de uma classe vagante de
entretenedores. Em Eriador os Dunedain do Norte ocasionalmente traziam
história para o povo de Bree, e os Hobbits qye viajavam entre o
Condado, Terra dos Buques e Bree compartilhavam histórias, mas é tudo
que temo sobre isso.

A mais forte implicação parece ser de que
o entretenimento profissional era raro e limitado a grandes grupos.
Rohan e Gondor poderia manter menestréis mas não as pequenas populações
dos países do norte. E pode ser que um patrocínio real ou nobre fosse
necessário para sustentar entretenedores profissionais. Patroçinio é um
costume antigo que de fato morreu apenas com o advento dos direitos
autorais e da produção em massa. Artistas e escritores podem agora
gerar suas rendas diretamente, mas por um milênio tiveram que contar
com alguma outra pessoa para pagar as contas.

Em um mundo como
a Terra-média de Tolkien poderia não haver nenhum possibilidade de um
artista ganhar a vida pela produção de uma música ou pintura, exceto em
uma sociedade bastante grande e rica como Gondor. E mais, a Terra-média
retartada pelO Senhor dos Anéis não é a imagem completa. Sauron esteve
em ação por dois mil anos, enfraquecendo seus inimigos, afastando
Elfos, Homens e Anões uns dos outros. Existe, de fato, fracos ecos de
uma tradição mais rica de entretenimento na história que Tolkien nos
conta.

"Existe uma canção Élfica que fala disso," diz Barbárvore a Merry e Pippin quando conta a eles da longa separação de Ents e Entesposas. "Costumava ser cantada acima e abaixo no Grande Rio." Ele a canta para eles, tomando as funções de Ent e Entesposa, e diz que a canção é Élfica. E Barbárvore também diz "existem canções sobre a busca dos Ents pelas Entesposas cantadas entre Elfos e Homens de Mirkwood até Gondor".

Todas as grandes cancões e histórias, claro, parecem ser Élficas em sua
origem. Aragorn canta parte de uma canção sobre Beren e Luthien para
Frodo e os Hobbits no Topo dos Ventos. "Não existe ninguém agora, exceto Elrond, que se lembre corretamente como era contada nos tempos antigos," diz ele. "É um belo conto, embora seja triste, como são todos os contos da Terra-média".

Porque todos os contos da Terra-média eram tristes? Pode ser que os
Elfos fossem mais tocados pelos contos tristes que pelos felizes, e
portanto compunham seus maiores poemas sobre seus maiores pesares. A
única canção composta em Aman que é nomeada é o "Aldudenie", feito por
Elemmire dos Vanyar. Foi levado para a Terra-média aparentemente pelos
Exilados, ou aprendido por eles após a Guerra da Ira quando o Exército
de Valinor reuniu-se com os Exilados no que restou de Beleriand. E
"Aldudenie" relembra a tristeza de Elfos e Valar pela destruição das
Duas �?rvores.

O dom Élfico para a canção era suplementado
pelos seus poderes sub-criativos, sua "mágica". No conto de Aragorn e
Arwen, ele pensou ter conjurado uma imagem de Luthien quando viu Arwen
pela primeira vez, porque ele estava cantanto uma parte da balada de
beren e Luthien, "e ele parou surpreso, pensando que estivesse
penetrado em um sonho, ou tivesse recebido o dom dos menestréis
Élficos, que podiam fazer as coisas sobre as quais cantavam aparecerem
ante os olhos daqueles que ouviam."

Se a arte dos Elfos
estava quase esquecida ao final da Terceira Era, nós devemos dar uma
"chacoalhada total" [Nota do Tradutor: que trocadilho infeliz,
Michael...] e verificar seu início. Os Eldar foram a civilização
dominante na Terra-média por milhares de anos. Após a Guerra da Ira não
restou muito da civilização, exceto pelas cidades Anãs nas Montanhas
Nebulosas e além. Então Gil-galad e seu povo iniciaram a reconstrução
da civilização bem como os Dunedain partiram sobre o Mar para criar sua
própria civilização na distante Númenor.

Os Eldar de Lindon
espandiram-se através de Eriador, e estabeleceram o reino de Eregion, e
alguns dos Sindar migraram para o leste e possivelmente para o sul para
estabelecer novos reinos bem além do alcance de Gil-galad. Os reinos
Sindarin podem não ter alcançado o mesmo que suas contrapartes
Noldorin, em termos de contruir uma grande civilização, mas continuavam
a ser reinos Élficos, e todos os Elfos tinham o dom da música.

Embora algumas poucas facções reacionárias como a de Oropher podem ter
desejado negar a cultura Eldarin e tornar-se mais como os Avari e
Nandor do leste, eles continuavam sendo membros de uma antiga raça com
antigas tradições. Eles construíam suas casas nas florestas dos Vales
do Anduin mas continuavam a viver em cidade e mantiveram comércio ou
alguma forma de contato com seus vizinhos. As canções Élficas devem ter
sido ouvidas através de todo o norte da Terra-média durante grande
parte da Segunda Era.

Um aspecto da cultura Élfica que
permanece grandemente obscuro é a tradição das Companhias Errantes.
Embora Frodo, Sam e Pippin tenham encontrado Gildor Inglorion e seu
povo, eles eram Exilados, Noldor, que estavam retornando de uma espécie
de perigrinação em Lindon para suas casas em ou perto de Valfenda. Eles
não estavam muito interessados em assuntos da Terra-média e os
mantinham para si mesmos.

No início da Segunda Era existiam
muitas Companhias Errantes em Eriador, e estas pareciam ser compostas
principalmente de Nandor. Seus interesses parecem ter sido muito
diferentes daqueles do povo de Gildor, que estavam apenas "enrolando"
um pouco antes de finalmente partirem para o Mar. As Companhias
Errantes Nandorin devem ter sido eventualmente integradas com a
civilização Eldarin de Lindon, tanto porque os Elfos de Lindon
aumentaram sua população e expandiram-se para o leste quanto porque os
Nandor teriam sido forçados a tomar refúgio com os Noldor e Sindar em
Lindon durante a Guerra dos Elfos e Sauron.

As Companhias
Errantes podem então ter tido um papel significativo na grande cultura
dos Elfos durante a maior parte da Segunda Era. Eles devem ter se
tornado condutores de notícias e canções. Eles podem ter se tornado
entretenedores viajantes. Embora Tolkien nunca tenha comparado as
Companhias Errantes a ciganos ou trupes circenses, eles devem ter
compartilhado algumas similaridades com essas culturas. Famílias ou
clãs viajantes desenvolvem seus próprios costumes e tradições. Eles
podem assimilar alguns aspectos das culturas que eles visitam mas eles
são frequentemente vistos como estranhos e suas existências exige que
eles mantenham costumes que um povo sedentário não possui.

Então é razoável perguntar se as Companhias Errantes não se tornaram, a
certo tempo, os entretenedores da Terra-média. Quandos os Eldar eram a
civilização dominante e as cidades do norte da Terra-média falavam
Sindarin as Companhias Errantes poderiam ter provido uma maneira fácil
de espalhar novas canções e histórias pelas regiões. os menestréis
Élfico não precisavam estudar os grandes segredos de mineração de Aulë
ou aprender os mistérios dos oceanos de Ulmo e Osse para que pudessem
compor e executar sas canções mágicas.

Visões de grande
guerreiros, belas damas, árvores encantadas e outros contos Élficos
podem ter dançado ante os olhos de multidões através da Terra-média.
Homens podem ter achado tal entretenimento estranho e diferente ou
talvez mesmo assustador, mas tem-se a impressão que os povos Edainicos
de Eriador dividiam com os Elfos algo parecido com a amizade que ps
Edain de Beleriand haviam conhecido. Se os Elfos não saíam de seus
caminhos para entreter os Homens, eles podem, em todo caso, ter
permitido aos Homens visitar suas comunidade e compartilhar de sua
mágica.

Tal ligação entre Elfos e Homens podem ter se tornado
mais fortes quando os Numenorianos começaram a se ficar em Eriador. Os
Numenorianos Fiéis migraram para o norte da Terra-média quando os
Homens do Rei tornavam sua antiga terra natal mais e mais inamistosa.
Ao tempo em que Elendil chegou em Lindon Eriador deveria possuir um
grande população de Dunedain ou Homens de sangue misturado. A amizade
entre os Eldar e os Dunedain deve ter sustentado e promovido a
interação entre as duas raças.

Então talvez os Elfos visitaram
a corte de Elendil em Annuminas, e Elfos entreteram os Dunedain de
Tharbad, Fornost Erain, Osgiliath e Pelargir. Pode ser que o
estabelecimento dos reinos de Arnor e Gondor tenha iniciado um breve
período de quase igualdade entre Elfos e Homens em termos de trocas
culturais. Como os Eldar de Tol Eressea sentiam prazer em visitar
Numenor, pode ser que os Eldar de Lindon também visitassem Arnor e
Gondor, trazendo presentes e compartilhando lembranças e antigas
experiências.

De fato, todas as boas coisas eventualmente
chegam a um fim, e a amizade entre Eldar e Edain esvaneceu, na
Terra-média. Gil-galad e Elendil foram lançados em uma grande guerra
com Sauron e muitos Elfos morreram nos campos de batalha. No
pós-batalha a Terra-média teve uma trégua, mas a civilização Élfica
estava diminuída. Cirdan e Elrond mantiveram suas antigas amizades com
os Dunedain, mas a Terceira Era marcou o declínio da cultura Eldarin na
Terra-média.

As Companhias Errantes devem eventualmente ter
tornado-se poucas. As cidades Dunadan definharam e sumiram. Os Homens
passaram a temer e a não confiar nos Elfos, os Elfos tornaram-se
cautelosos com os Homens, e o tempo continou adiante na inevitável
alienação das duas raças. Os Elfos que passavam acima e abaixo no
Anduin cantando canções sobte os Ents e as Entesposas provavelmente
acabaram-se com o surgimento de Dol Guldur. Thranduil liderou seu povo
para o norte e perderam contato com os Elfos de Lothlorien. Os
amigáveis Homens dos Vales do Anduin foram gradualmente desalojados
pelos Orientais trazidos por Sauron.

Em Gondor sul pode ter
permanecido uma amizade estreita com os Elfos de Edhellond, mas aquela
cidade foi eventualmente abandonada por seu povo antes do último Rei de
Gondor desaparecer. Nos dias dos Regentes os Homens que visitavam os
Elfos eram poucos. Se os Elfos da Floresta passassem por Gondor em seus
caminhos para o Mar eles não seriam molestados, mas também não seriam
convidados a ficar. A história de Mithrellas, criada de Nimrodel, e seu
marido Dunadan termina cheia de tristezas, pois ela o deixa durante a
noite.

A certo tempo aconteceu dos Dunedain relembrarem as
canções Élfica e as executarem. Mas os Dunedain diminuiram e
definharam, tornaram-se mais preocupados em sobreviver em um mundo
hostil e lentamente esqueceram seus antigos contos. E quando os
Dunedain de Arnor passaram para o ermo os Homens e Elfos que ficaram
para lembravam pouco, se lembravam algo, da grande civilização Élfica.
As Companhias Errantes ficaram para si mesmas.

Os Hobbits do
Condado tornaram-se tão conservadores que eles não iam além mesmo das
fronteiras de suas próprias terras. Então é improvável que algum deles
tenha viajado através do Condado cantando canções cou contando
histórias. Estas tradições foram reduzidas a um costume local. Todos
contavanm as histórias e cantavam as cancões, e ninguém ganhava
reconhecimento especial por algum talento ou dom particular. As
famílias e comunidades entretinham a si mesmos. As estalagens algumas
vezes contavam com viajantes ocasionais [em sua maioria Anões] que
podiam compartilhar novas canções e histórias, ou contos há muito
esquecidos, e por um processo lento o amálgama de culturas e
experiências diferentes continuou.

De uma certa maneira o
processo de desenvolver grandes tradições de contar histórias e criar
canções deve ter começado novamente. Privados da influência dos Elfos
os Homens continuavam precisando trocar notícias e relembrar grandes
feitos de seus heróis. Mas embora eles pudessem ter alcançado grande
beleza com seus próprios meios, eles careciam da mágica que deve ter
aprimorado a arte dos mestréis Élficos. os feitos dos Homens
sobreviveram aos feitos dos Elfos, mas as canções dos Homens seriam não
mais do que uma recordação do encantamento que a Terra-média uma vez
possuiu.

Uma História da Última Aliança de Elfos e Homens, Parte 3

Notas

1. O Silmarillion, pág. 365. “Sauron descobriu que os Homens eram os mais fáceis de influenciar dentre todos os povos da Terra; mas por muito tempo procurou convencer os Elfos a lhe prestarem serviço, pois sabia que os Primogênitos tinham maior poder. E andava livremente em meio a eles, e sua aparência ainda era de alguém belo e sábio.

2. Contos Inacabados, pág. 266. “…A nota prossegue dizendo que Galadriel não foi enganada, pois aquele Aulendil não pertencia ao séqüito de Aulë em Valinor….” Esta e todas as referências subseqüentes à Galadriel e Celeborn fazem uso do ensaio “Acerca de Galadriel e Celeborn”, fornecido no Contos Inacabados, que na maior parte encaixa-se com os eventos detalhados em outras obras de Tolkien. Entretanto, esta narrativa determina que Amroth era filho deles, uma idéia que Tolkien posteriormente abandonou, cuja decisão é aceita e incorporada nesta obra.

3. Ibid., pág. 229. “Uma nova sombra ergue-se no Leste…” A carta que Gil-galad escreveu para Tar-Meneldur foi composta em 882 S.E. Uma vez que Tolkien declara em outro lugar Sauron começara a movimentar-se novamente por volta de 500 S.E., é possível que Gil-galad estivesse ciente de algum mal crescente bem antes do final do nono século.

4. Ibid., pág. 268-69. “…Finalmente os atacantes irromperam em Eregion com ruína e devastação, e capturaram o principal objeto do ataque de Sauron…Então Celebrimbor foi torturado…Acerca dos Três Anéis, Sauron nada pôde saber por Celebrimbor; e mandou matá-lo.

Apesar de outras partes desta história divergirem de algumas das fontes, esta concorda em muito com “Dos Anéis de Poder e da Terceira Era “ em O Silmarillion (pág. 367), o qual indica que Celebrimbor morrera lá.

5. O Retorno do Rei, pág. 1147. “O Conto dos Anos” relata apenas que os Númenorianos começaram a construir portos permanentes por volta do ano 1800 S.E. O Contos Inacabados revela algo de Lond Daer (Vinyalondë) nas seções sobre Númenor e a História de Galadriel e Celeborn. Umbar e Pelargir são mostrados em várias fontes, e outros portos sem nome são ditos terem sido construídos mais ao sul e ao leste.

6. O Silmarillion, pág. 340. “Sauron, porém, sempre fora astuto. E o que se diz é que, entre aqueles que ele apanhou na armadilha dos Nove Anéis, três eram grandes senhores da raça númenoriana.” Uma vez que Sauron não visitou Númenor anteriormente ao seu “aprisionamento” lá, ele teria que ter seduzido os três Númenorianos na Terra-média. É interessante que ele fora capaz de fazer isto em relativamente pouco tempo após a Guerra dos Elfos e Sauron. Talvez eles já fossem muito velhos para sua raça quando aceitaram os Anéis.

O Contos Inacabados (pág. 251) indica que a Sombra primeiro caiu sobre Númenor nos dias de Tar-Atanamir, mas seu pai, Tar-Ciryatan, foi o primeiro rei “voluntarioso”, e seu registro em “A Linhagem de Elros” sugere que a Sombra pode ter caído em sua época. Então, é possível que os Númenorianos estivessem se tornando desconfortáveis com sua mortalidade na época da Guerra dos Elfos e Sauron e, logo, três idosos senhores Númenorianos poderiam ser facilmente seduzidos por Sauron.

7. O Silmarillion., pág. 343. “…Pois Pharazôn, filho de Gimilkhâd…muitas vezes viajara como líder nas guerras que os Númenorianos iniciavam então na região litorânea da Terra-média…Pois ele soubera na Terra-média da força do reino de Sauron, e de seu ódio por Ponente. E agora lhe chegavam os mestres de navios e comandantes que voltavam do leste, a relatar que Sauron vinha demonstrando seu poder desde que Ar-Pharazôn deixara a Terra-média e estava investindo contra as cidades litorâneas….

8. Ibid., pág. 370. “…Lá [Sauron] descobriu que o poder de Gil-galad se tornara imenso nos anos de sua ausência; e agora cobria vastas regiões do norte e do oeste, tendo ultrapassado as Montanhas Nevoentas e o Grande Rio até chegar aos limites da Grande Floresta Verde, e se aproximava dos locais fortificados onde no passado ele se sentia seguro.

9. Contos Inacabados, pág. 276. “…Mais tarde ele [o Glanduin], juntamente com o Gwathló, que era formado por sua confluência com o Mitheithel, representou o limite sul do Reino do Norte.

10. O Silmarillion diz de Elendil que “seu povo habitava muitos lugares em Eriador, junto aos cursos do Lûn e do Baranduin; mas sua cidade principal era Annúminas, às margens do Lago Nenuial. Em Fornost, nas Colinas do Norte, também moravam os Númenorianos; assim como em Cardolan e nas Colinas de Rhudaur…” (pág. 370).

11. Contos Inacabados, pág. 277. “…Antes da decadência do Reino do Norte…ambos os reinos tinham um interesse compartilhado nessa região [Enedwaith], e juntos construíram e mantiveram a Ponte de Tharbad bem como os longos diques que levavam a estrada até ela, de ambos os lados do Gwathló e do Mitheithel, atravessando os pântanos das planícies de Minhiriath e Enedwaith….

12. O Retorno do Rei, pág. 1193. “…Também estranha, ou apenas remotamente aparentada, era a língua dos habitantes da Terra Parda. Estes eram remanescentes dos povos que haviam habitado os vales das Montanhas Brancas em épocas passadas. Os Mortos do Templo da Colina eram da sua estirpe. Mas nos Anos Escuros outros haviam se mudado para os vale meridionais das Montanhas Sombrias, e de lá alguns haviam migrado para as terras vazias ao norte, até as Colinas do Túmulos. Deles descendiam os Homens de Bri…

13. Ibid., pág. 1104. “Este [Lossoth] é um povo estranho e hostil, remanescente dos Forodwaith.” Onde os Forodwaith realmente viviam no final da Segunda Era é matéria de especulação, na medida em que Tolkien realmente não nos conta nada de sua história. Cf. nota 14 abaixo.

14. The War Of The Jewels, pág. 61. “Não era sabido que o povo de Ulfang já estavam secretamente a serviço de Morgoth antes que chegassem a Beleriand. Assim não era com o povo de Bór, que era um povo valoroso e lavradores da terra. Deles, é dito, vieram os mais antigos dos Homens que habitavam o norte de Eriador na Segunda Era e posteriormente.

A conexão entre o Povo de Bór (e Ulfang) e os homens mais setentrionais de Eriador na Segunda Era indica que os Lossoth (e, portanto, os Forodwaith, dos quais os Lossoth eram “remanescentes”) eram de fato os descendentes destes clãs.

15. O Retorno do Rei, pág. 1099. “…Elendil tornou-se o Alto Rei e morava no norte, em Annúminas; o governo do sul foi entregue a seus filhos, Isildur e Anárion. Ali eles fundaram Osgiliath, entre Minas Ithil e Minas Anor, não muito longe das fronteiras de Mordor. Acreditavam que pelo menos uma coisa boa resultara da ruína, que Sauron também perecera.

16. O Silmarillion, pág. 371. “…A principal cidade desse reino meridional era Osgiliath, que era cortada ao meio pelo Grande Rio…” De fato, a narrativa não faz tal conexão. Mas por que Isildur e Anárion contruiriam suas cidades ao norte de Pelargir e Emyn Arnen? O fato de que a narrativa menciona Herumor e Fuinur indica que eles eram de algum modo significantes para os historiadores de Gondor.

17. Ibid., pág. 371. “…e a oeste, Minas Anor…como um escudo contra os homens selvagens das várzeas…

Tolkien diz muito pouco sobre as “tribos” que compunham esta raça. O grupo que quebrou seu juramento a Isildur prestou-o em Erech mas assombrava a Senda dos Mortos, no lado setentrional das montanhas. Havia provavelmente outras tribos no que se tornou Lamedon, uma habitando os vales superiores na fonte do Lefnui, outra morando próxima ao Adorn, outra ao norte do Isen, e outra tribo morando em Calenardhon. Obviamente outros grupos viviam ao norte daquela região até Bri.

18. O Silmarillion diz “outras construções fortes e maravilhosas [os Númenorianos] realizaram na Terra nos tempos de seu poder, nas Argonath, e em Aglarond, assim como no Erech. E no círculo de Angrenost…” (pág. 371). Nenhuma data específica é dada para quando essas obras foram erguidas, embora o contexto indique os primeiros anos da história de Gondor.

Contudo, O Retorno do Rei diz que Minalcar “construiu os pilares dos Argonath e a entrada para Nen Hithoel” (pág. 1108), enquanto é dito que Isildur erigiu a pedra em (pág. 826). Também sabemos que um dos Palantíri, dados a Amandil pelos Eldar de Tol Eressëa e levadas para a Terra-média por Elendil e seus filhos, foi colocado em Orthanc, em Angrenost; logo, a fortaleza deve ter sido construída não muito depois do início do reino de Gondor.

Se Angrenost e Aglarond eram mais antigas do que Gondor, então talvez foram construídas como uma defesa contra Mordor; mas se Isildur e Anárion construíram a fortaleza, eles as teriam usado para proteger Calenardhon contra os Terrapardenses (os quais por muito tempo haviam sido inamistosos aos Dúnedain), já que os Dúnedain pensavam que Sauron havia perecido na Queda de Númenor.

19. O Silmarillion, pág. 193. Tolkien diz aqui que somente (após a morte de Fingolfin) “seu jovem filho Ereinion (que mais tarde foi chamado de Gil-galad) [Fingon] enviou para os Portos.” “Jovem” indica que Ereinion ainda não era um Elfo completamente adulto. O Morgoths Ring afirma que os Elfos precisavam de cerca de cinqüenta anos (do Sol) para atingir a maturidade completa (pág. 210). Assim, Ereinion provavelmente nasceu algum tempo após o ano 405 P.E. (supondo que a Dagor Bragollach e a morte de Fingolfin ocorreram em 455 P.E.).

20. O Retorno do Rei, pág. 364. Esta entrada no “Conto dos Anos” concorda com a decrição dada no Contos Inacabados em “Acerca de Galadriel e Celeborn”, que descreve a guerra detalhadamente publicada até esta data.

21. O Silmarillion, pág. 137. Na Mereth Aderthad, Tolkien escreve, os Elfos fizeram juramentos de aliança. Círdan era um dos senhores que estavam presentes na festa. Ele subsequentemente ajudou os Noldor em várias ocasiões (págs. 157-58, 201 e 247).

22. Contos Inacabados., págs. 193, 196. “…Mas existiam armadores entre eles que haviam sido formados pelos Eldar…” e “…Diz-se que seu atraso [de Aldarion] foi devido à sua avidez em aprender de Círdan tudo o que pudesse, tanto na feitura e manejo dos navios quanto na construção de muralhas que resistissem à ânsia do mar.

23. A Sociedade do Anel, pág. 252. “…Fazia-me recordar da glória dos Dias Antigos e das tropas de Beleriand, nas quais tantos príncipes importantes e capitães foram reunidos. E, mesmo assim, nem tantos, e nem tão belos como na ocasião em que as Thangorodrim foram quebradas…

24. Contos Inacabados, pág. 269. Como com o destino de Celebrimbor, parece razoável usar “Acerca de Galadriel e Celeborn” como uma fonte com respeito a outros indivíduos, tais como Elrond. A fundação deThe Imladris é certamente confirmada no “Conto dos Anos”. Cf. nota 20 acima.

25. Ibid, pág. 290. “…Oropher…retirara-se para o norte, além dos Campos de Lis. Fez isto para livrar-se do poder e das transgressões dos Anões de Moria…e também se ressentia das intrusões de Celeborn e Galadriel em Lórien.” Os motivos e a história de Oropher, como os de Galadriel e Celeborn, contêm algumas inconsistências. Cf. também págs. 291-2.

26. Ibid. Na verdade, a passagem afirma que “os Elfos Silvestres eram vigorosos e valentes, mas mal equipados com couraças ou armas em comparação com os Eldar do Oeste. Eram também independentes e não estavam dispostos a se submeter ao comando supremo de Gil-galad.

27. O nome deste Rei-elfo é duvidoso. Em uma narrativa ele é chamado Amdír e em outra Malgalad (Contos Inacabados, pág. 272, 276, 291). Christopher Tolkien é incapaz de estabelecer qual nome seu pai preferia para este personagem; assim, adotei a convenção de me referir a ele como Amdír Malgalad, ou simplesmente Amdír, que é usado mais freqüentemente e é compatível com o estilo de Amroth, o nome de seu filho.

28. O Silmarillion, pág. 367. “Daquela época em diante, a guerra nunca mais cessou entre Sauron e os Elfos….” Sendo o mais perto de Mordor de todos os reinos élficos, o reino de Amdír em Lorinand deve ter suportado o impacto deste período prolongado do conflito, e o fluxo de Noldor e Sindar vindos de Eregion após a queda daquele reino élfico teria fornecido impulso para uma amizade entre o povo de Amdír e os Anões, embora certamente não uma tão próxima como existia entre Eregion e Khazad-dûm.

29. Ibid, pág. 347. “…Pois [Isildur] entrou sozinho e disfarçado em Armenelos e chegou aos pátios do Rei, acesso que agora era proibido aos Fiéis. Foi ao local da Árvore, que era interditado a todos por ordens de Sauron; e a Árvore era vigiada dia e noite por guardas a seu serviço…E Isildur passou pelos guardas, tirou da Árvore um fruto que dela estava suspenso…

30. Ibid, pág. 373. “Portanto, quando Sauron julgou chegada a hora, investiu com força enorme contra o novo reino de Gondor, tomou Minas Ithil…Contudo, Isildur escapou…e, velejando, partiu das Fozes do Anduin à procura de Elendil. Enquanto isso, Anárion resistia em Osgiliath contra o Inimigo, e por algum tempo conseguiu rechaçá-lo para as montanhas…

31. Ibid, pág. 294. Sustentar que este rei era realmente chamado Durin pode ser errôneo. A passagem diz apenas: “Dos Anões, poucos lutaram, fosse de um lado, fosse do outro. Mas a linhagem de Durin de Moria combateu Sauron.” Se ele fosse chamado Durin, então ele não poderia ter sido Durin III, porque este era o Durin que se opôs a Sauron a Guerra dos Elfos e Sauron (Contos Inacabados, pág. 269). Assim, ou ele era Durin IV, ou Durin V. Preferi chamá-lo Durin IV pela falta de qualquer informação acerca dos dois.

Também é estranho que Tolkien diga “…a linhagem de Durin…” ao se referir a estes Anões. Em outro lugar ele escreve que a maioria dos Anões de Nogrod e Belegost migrou para Khazad-dûm no início da Segunda Era. Eles parecem ter mantido suas linhagens distintas até o final da Teceira Era como o Apêndice em O Retorno do Rei diz “Bifur, Bofur e Bombur descendiam dos Anões de Moria mas não eram da linhagem de Durin” (pág. 1144).

32. O Silmarillion, pág. 373. Também, O Retorno do Rei, pág. 1148.

33. O Silmarillion, pág. 373. Cf. nota 30 acima.

34. O Retorno do Rei, pág. 826. “…Pois em Erech se ergue uma pedra negra…e ela foi colocada sobre uma colina, e sobre ela o Rei das Montanhas jurou fidelidade a ele [Isildur] no início do reino de Gondor. Mas, quando Sauron retornou e ficou outra vez poderoso, Isildur convocou os Homens das Montanhas para que cumprissem seu juramento, e eles não cumpriram: tinham adorado Sauron durante os Anos Escuros.

35. The Treason Of Isengard, pág. 310. Este passo era a nascente do rio Harnen nas montanhas meridionais de Mordor.

36. O Silmarillion, pág. 374. A existência de tal conselho é especulativa. A passagem diz apenas “Ora, Elendil e Gil-galad examinaram juntos a questão…” Entretanto, é improvável que uma decisão tão séria fosse tomada apenas por esses dois.

37. Deduzi que Gildor e Glorfindel podem ter se envolvido na Última Aliança. A história de Gildor só é mostrada a partir do ano 3001 da Terceira Era, quando Bilbo diz adeus ao povo de Gildor no Condado (A Sociedade do Anel, pág. 82). Contudo, ele era o senhor de uma companhia de Noldor e seu sobrenome, Inglorion, significa “filho de Inglor”. Inglor era o nome original de Finrod Felagund. Gildor também disse ser “da Casa de Finrod”, e Finrod era o nome original de Finarfin. Parece que Tolkien originalmente pretendia uma conexão entre a família de Gildor e Galadriel, mas esta conexão não foi mantida quando revisões foram feitas a’O Senhor dos Anéis. Logo, Gildor é enigmatico, mas supondo que ele estivesse cansado das terras mortais ao final da história, concluí que ele devia ser muito velho no final da Terceira Era.

Glorfindel é mais provavelmente um participante na guerra. De acordo com Christopher Tolkien, seu pai “chegou à conclusão de que o Glorfindel de Gondolin, que caiu para morte em combate com um Balrog após o saque da cidade, e o Glorfindel de Valfenda eram a mesma pessoa; ele foi liberado de Mandos e retornou à Terra-média na Segunda Era” (The Return Of The Shadow, págs. 214-5). A implicação profunda dessa conclusão é que Glorfindel desempenhou algum papel na Guerra da Última Aliança, embora talvez um não tão grande como é aqui pressuposto.

38. O Silmarillion, pág. 374. “…Criaram portanto aquela liga que é chamada de Última Aliança, e marcharam para o leste, para o interior da Terra-média, reunindo um imenso exército de Elfos e Homens…

39. A Sociedade do Anel, pág. 192. “…Conta-se que Elendil ficava ali [na torre de Amon Sûl] olhando, à espera de Gil-galad que vinha do Oeste, nos dias da Última Aliança.

40. O Retorno do Rei, pág. 1156. “O Conto dos Anos” indica apenas a duração da estada em Imladris. Realmente não há algum texto que conte como Gil-galad convenceu Oropher e Amdír a se unirem à Aliança.

41. Sauron de fato enviou tropas para o norte, pois os Orcs que emboscaram Isildur vários anos mais tarde eram de tal grupo. Contudo, o exército pressuposto aqui é admitido como sendo uma força qualquer que se dirigiu para o sul e entrou na Batalha de Dagorlad.

42. Em algum ponto durante a guerra, Isildur enviou seus filhos Aratan e Ciryon para defender Minas Ithil contra a fuga de Sauron: “Todos os três [filhos de Isildur] haviam combatido na Guerra da Aliança, mas Aratan e Ciryon não haviam estado na invasão de Mordor e no cerco a Barad-dûr, pois Isildur os enviara para guarnecer sua fortaleza de Minas Ithil, para que Sauron não escapasse a Gil-galad e Elendil e tentasse forçar uma passagem através de Cirith Duath…” (Contos Inacabados, pág. 484).

43. The Letters of J.R.R. Tolkien, pág. 179. “Eu penso que as Entesposas desapareceram para sempre, sendo destruídas com seus jardins a Guerra da Última Aliança…quando Sauron insistiu em uma política de terra queimada e incendiou sua terra contra o avanço dos Aliados descendo o Anduin….

44. Os Dúnedain parecem não ter usado a cavalaria nesta época. O Contos Inacabados (pág. 305, Cf. nota 7) diz que a maioria do cavalos usados pelos Dúnedain na guerra foram mortos, mas se os animais eram usados por emissários ou para mover arqueiros mais leves, os Dúnedain provavelmente não possuíam uma força de cavalaria efetiva.

Lindon, por outro lado, representava a última grande nação Noldorin na Terra-média, e Gil-galad provavelmente ainda possuía muitos cavalos élficos. É possível que os Elfos vivendo em e perto de Imladris também tenham contribuído para tal força.

Em O Hobbit, o Rei-élfico cavalga para caçar várias vezes, mas ele não usa cavalos na Batalha dos Cinco Exércitos; logo, não parece provável que Oropher possuísse uma cavalaria. O exército de Amdír era pequeno, mas possuía Noldor e Sindar de Eregion. Apesar disso, os poucos fatos publicados sobre a guerra não indicam que Lorinand tinha cavalaria.

45. Contos Inacabados, pág. 290. “…Malgalad e mais da metade de seus seguidores pereceram na grande batalha de Dagorlad, pois foram apartados da hoste principal e expulsos para os Pântanos Mortos.” Os sobreviventes podem ter sido subseqüentemente incorporados ao exército de Oropher, mas talvez tenham sido mantidos na reserva as batalhas seguintes.

46. Ibid., pág. 280. A suposição da participação de Edhellond na guerra é sustentada apenas por uma passagem em “Dos anéis de poder e da Terceira Era”: “Naquele dia, todos os seres vivos estavam divididos; e alguns de cada espécie, mesmo entre os animais selvagens e as aves, eram encontrados dos dois lados, à única exceção dos Elfos. Somente eles não se dividiram e seguiram a liderança de Gil-galad” (O Silmarillion, pág. 374).

A suposição de que ainda outros reinos élficos (isto é, Avari) estavam envolvidos é vagamente sustentada por uma passagem anterior descrevendo como Sauron eventualmente seduziu os Elfos de Eregion (Cf. nota 1 acima).

47. O Silmarillion, pág. 374. “Dos Anões, poucos lutaram, fosse de um lado, fosse do outro…” Tolkien não oferece nenhuma explicação de quem eram esses Anões ou por que eles lutaram por Sauron. Pode ser que ele fosse capaz de influenciar um ou dois de seus reis através de um Anel de Poder, a despeito de sua incapacidade de dominá-los completamente como ele dominou os Nazgûl. Ou pode ser que houvesse um grupo malicioso de Anões que escolheram ficar ao lado do Senhor do Escuro.

48. As Duas Torres, pág. 659. Sam, Frodo, e Gollum viram as faces dos Homens, Orcs e Elfos mortos nos pântanos. Os Orcs obviamente serviam Sauron, mas talvez também os Homens. Cf. nota 45 acima.

49. A Sociedade do Anel, pág. 252. “…Estive na Batalha de Dagorlad diante do Portão Negro de Mordor, onde vencemos: pois à Lança de Gil-galad e à Espada de Elendil, Aiglos e Narsil, ninguém podia resistir…

50. Contos Inacabados, pág. 290. “…Oropher foi morto no primeiro ataque a Mordor, precipitando-se à frente de seus guerreiros mais audazes antes que Gil-galad tivesse dado o sinal para avançar.

51. Ibid. “Seu filho Thranduil sobreviveu; mas, quando a guerra terminou…ele levou de volta para casa menos de um terço do exército que marchara para a guerra.

52. O Silmarillion, pág. 374. “Então Gil-galad e Elendil entaram em Mordor e cercaram o reduto de Sauron. Sitiaram a fortaleza por sete anos e sofreram graves perdas pelo fogo, por lanças e por setas do Inimigo, e Sauron fez muitas investidas contra eles.

53. Ibid. “…Ali, no vale de Gorgoroth, Anárion, filho de Elendil, foi morto, além de muitos outros.

54. Morgoths Ring, pág. 420. “Mas Sauron conseguiu em tempo unir a todos em ódio irracional a elfos e aos homens que se associaram a eles; enquanto que os orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sob sua vontade que sacrificariam a si mesmos, sem hesitação, ao seu comando.

O Retorno do Rei, pág. 1006. “…Como formigas que vagam sem destino e sem propósito, para depois morrerem exauridas, quando a morte golpeia o ser inchado e incubante que habita o formigueiro e a todas mantém sob controle, da mesma maneira as criaturas de Sauron, orcs ou trolls ou animais escravizados por encantamento, corriam de um lado para o outro sem rumo; alguns se matavam ou se jogavam em abismos, ou ainda fugiam gemendo para se esconderem em buracos e lugares escuros e sem luz, distantes de qualquer esperança.

55. Ibid., “…Mas os Homens de Rhûn e Harad, Orientais e Sulistas, viram a destruição de sua guerra e a grande majestade e glória dos Capitães do Oeste. E aqueles que havia mais tempo estavam mais envolvidos na servidão maligna, odiando o oeste, e contudo eram homens altivos e corajosos, por sua vez se ajuntaram numa resistência desesperada.

56. O Silmarillion, pág. 375. “A Torre Escura caiu ao chão, arrasada, mas seus alicerces permaneceram, e ela não foi esquecida. Os Númenorianos com efeito montaram guarda sobre a terra de Mordor…

57. Ibid., pág. 379. “Em Eriador, Imladris era a principal morada dos Altos-Elfos; mas nos Portos Cinzentos de Lindon vivia também um remanescente do povo de Gil-galad, o Rei élfico.” Círdan de fato manteve Elfos suficientes, ou seus números recuperaram-se o suficiente, para ajudar os Dúnedain de Arnor em pelo menos três ocasiões na Terceira Era, mas ele nunca foi capaz de erguer um exército como o de Gil-galad.

Bibliografia:

Tolkien, J.R.R.. O Senhor dos Anéis, vol. único, Martins Fontes Editora, 2001.

Carpenter, Humphrey. The Letters Of J.R.R. Tolkien, Houghton Mifflin Company, 1981.

Tolkien, Christopher, ed.

Contos Inacabados, Martins Fontes Editora, 2002.

Morgoths Ring, Houghton Mifflin Company, 1993.

O Silmarillion, Martins Fontes Editora, 1999.

The Return Of The Shadow, Houghton Mifflin Company, 1988.

The Treason Of Isengard, Houghton Mifflin Company, 1990.

The War Of The Jewels, Houghton Mifflin Company, 1994.

As Pessoas de Eriador 2000 a 3017 da Terceira Era

“As terras vazias onde nenhum homem vive”

Esse artigo discute o cenário desolado da povoação de Eriador na época da Guerra do Anel. No início da Terceira Era, Eriador havia sido habitada principalmente por Elfos de Lindon, os Anões de Khazad-dûm e Pessoas de Anor. Anor foi arrasada por conflitos internos 861+, a guerra com Angmar 1300+ e a Grande Praga de 1636, “…na qual muitas partes de Eriador foi desolada” (SDA, Conto dos Anos 1636). Em 1974 Anor foi conquistada por Angmar e sua cidade que se mantinha (Fornost Erain) arruinada. Apesar da completa derrota de Angmar em 1975, o Reino do Norte poderia ainda ser revivido. Em 1981 a cidade dos Anões de Khazad-dûm foi perdida para um Balrog. Calmamente colonizadores entraram em Eriador durante a Terceira Era: os Hobbits desde 1050 instalaram-se por Anor e Anões reassentaram-se nas Montanhas Azuis desde 2799, mas a tendência era o declive da população.

No milênio antes da Guerra Do Anel, os sobreviventes de Eriador encararam desastres naturais (como por exemplo, o Inverno Longo em 2758 e o Inverno em) e a ameaça de criaturas do mal (trolls, orcs, lobos). Algumas povoações deterioraram-se (ex. Tharbad), outros sobrevivente (a Aldeia de Bri) e até mesmo prosperaram (ex. O Condado, de onde habitantes instalaram-se na Terra dos Buquês). Na época da Guerra do Anel, no entanto, “… uma grande parte de Eriador estava deserta” (SDA Apêndice F, p.1161). No sul a terra erma de Minhiriath ” tinha sido quase toda deserta … desde a Grande Praga” ( Unf Parte 2, IV, apêndice D, p.262), enquanto no leste, a Elfica Eregion não tinha sido colonizada desde a Segunda Era e Rhudaur era descrita como inabitada: “Ninguém vive nessa terra, Homem uma vez morou aqui, mas nenhum permanece agora.” (Aragorn, SDA L1, CXII, p.218;veja também TH C2 p.40).Exemplos de tipos de comunidades Hobbits ou povoações que continuaram em Eriador entre o ano de 2000 a 3017 da Terceira Era, inclui grupos de caçadores/nômades como os Lossoth, um camarada Másculo que vivia ao longo da Baia de Gelo de Forochel do extremo norte (SDA Apêndice A, I, iii, p.1078); Também na época da Guerra do Anel “… alguns caçadores sigilosos viviam na floresta” de Minhiriath (Unf P.262).

Tharbad: Oficialmente um porto maior, essa cidade declinou depois da Grande Praga em 1636, ainda sobreviveu até ser arruinada pela enchente de 2911 (SDA, Conto dos Anos), quanto então seus habitantes a deixaram deserta; a ‘ Hospedaria Esquecida’: uma casa publica um dia ao leste de Bri, na Estrada Leste-Oeste (SDA L1, CXI, p.204): Aldeia de Bri: Essa consiste nas vilas de Staddle, Coombe, Archet and Bri “Próximo às colinas de Bri estava um interior de campos e florestas insípidas, há apenas algumas milhas de distância. .” (SDA L1, CIX, p.165). Havia necessariamente uma comunidade auto-suficiente, embora eles fizessem negócios com o Condado para a Erva de Fumo e servirem viajante na estrada: O Condado: uma terra bem acentuada e de grande extensão, excepcional em Eriador, embora indique que fosse possível para colonização sobreviver e vicejar. Era em sua maioria agrícola e mantinha pouco contato com outras pessoas e comunidades. Uma variedade tão grande de tamanho de povoamento, mas tinham uma existência em comum: cultivo, colheita ou caça, enfrentando perigos ocasionais causados por bestas caídas, vigiados pelos Guardiões, visitados de tempo em tempo por Anões ferreiros e outros estranhos, pouco tocada por forças do mundo exterior.

Está claro pelos argumentos a cima que os povoamentos eram raros: A Aldeia de Bri é descrita como “… uma região habitada, como uma ilha com terras inabitadas em volta dela”. (SDA L1, CIX, p.165). A maioria dos povoamentos eram raças não Masculinas: Os Elfos de Lindon e Valfenda, os Anões das Montanhas Azuis, Criaturas selvagens ou malignas ( de Charneca Etten, Colinas dos Tumulos, Floresta Velha, etc), e os Hobbits do Condado. As pessoas do Condado, os moradores de Bri e os Guardiões do Norte são as únicas referencias claras de pessoas que ainda habitam de região antiga de Arnor (SDA, L1, CIX, p.165). Isso era tudo que restou?

Eu prefiro a existência de outras povoações pequenas de Homens (e Hobbits), isolados por distância, auto suficiência, e governo próprio, desde a passagem do Reino do Norte (1975). Essa visão faz mais sentido de vários comentários feitos no Senhor dos Anéis e nos Contos dos Anos (por exemplo: o esforço dos Guardiões em repelir os Orcs de Eriador 2740+), e ainda preservar a imagem de Eriador dada pelo professor Tolkien, porque em comparação com as terras do leste das Montanhas Sombrias e no contexto de uma região maior que a Península Ibérica na Europa, a terra ainda seria uma muito escassamente habitada.

As evidências para haver vários outros povoamentos inominados vem de dois comentários gerais. O primeiro diz respeito aos Hobbits:

“Os Hobbits do Condado se referiam a aqueles de Bri, e outros que viviam além das fronteiras como Forasteiros, e eles se interessavam pouco por eles, os considerando enfadonhos e rudes. Havia provavelmente mais Forasteiros dispersados no Oeste do Mundo naqueles dias do que as pessoas do Condado imaginavam”. (SDA L1,CIX, p.166)

O Leste do Mundo se refere a uma região entre o Mar de Rhûn e o Mar do Oeste. Então essa passagem não exclui a idéia que comunidades de Hobbits existiam em Eriador, outras além daqueles do Condado e da Aldeia de Bri, especialmente porque os Hobbits tinha se assentado primeiramente em outro lugar em Eriador, antes do Condado ser estabelecido no ano de 1601 da Terceira Era.

A próxima evidencia diz respeito aos Homens e Hobbits em geral. Os Guardiões do Norte eram descendentes dos Dunedain de Arnor, os quais, depois da queda do Reino, haviam se tornado protetores dos habitantes comuns de seu antigo reino. Eu presumo que eles viviam em acampamentos pequenos, talvez próximos as antigas cidades chefe nas Colinas Vesperturvo e nas Colinas do Norte, ou ainda viviam em casas élficas. Eles eram uma pequena família (SDA L2, CII, p.264): por exemplo, os trintas que vieram do Norte em ajuda a Aragorn na Guerra do Anel eram: “… foram todos de nossos parentes que pudemos reunir em pressa.” (Halbarad, SDA L5, CII, p.806). Quem eles protegiam? Aragorn no Conselho de Elrond falou a respeito de seus papéis e a quem eles serviam:

“Paz e liberdade, você diz? O Norte as conheceriam um pouco, mas por nós. Que estradas alguém ousaria viajar, que segurança haveria em terras tranqüilas, ou nas casas de homens simples à noite, se os Dúnedain estivessem dormindo?” (SDA L2, CII, p.265).

Essa gente “o homem simples”, são as pessoas restantes em Eriador (Pequenos e Homens), vivendo em paz em pequenas vilas ou fazendas. Mas como seus guardiões os Dúnedain, eles são pouco e escassos. Eriador entre o Rio Lune e as Montanhas Sombrias era menos habitada do que a maioria das partes de Rohan, Gondor, Harad ou Rhun e era desolado em partes. De qualquer forma mais povoamentos sobreviveram do que está diretamente mencionado em O Senhor Dos Anéis. Seus nomes e locação exata são desconhecidos a mim, mas com tudo, eu acho que é possível imaginar suas existências.

(* Artigo citado em sua maioria de O Lamento de Aragorn por Boromir*)

[Tradução de Taís 'Linda Sacola' Bachega]

Explorando a Quarta Era de Tolkien

Muitas pessoas têm curiosidade sobre o que teria se desenrolado se Tolkien tivesse continuado sua história. Desafortunadamente para os fãs curiosos, Tolkien achou que o encanto da Terra-média morreu com Aragorn. Após seu tempo "as dinastias descendentes de Aragorn tornaram-se apenas reis e governadores – como Denethor ou pior." [Tolkien, "Letters", p. 344].

 

Tolkien iniciou uma história situada na Quarta Era, cujo título era The New Shadow [A Nova Sombra]. Deveria ser uma continuação para O Senhor dos Anéis, mas ele abandonou o trabalho depois de algumas poucas páginas, sentindo que não existia mais nada a dizer que fosse fantástico e encantador. Não existia mais uma personificação do mal no mundo. Não existia mais um inimigo universal. Sauron e Melkor haviam sido ambos derrotados e tornados impotentes, então os Povos livres não estavam mais sob o risco de serem subjugados contra suas vontades, do mesmo modo que nenhum homem poderia dominar outros.

The New Shadow se passaria em Gondor, ou pelo menos começaria ali, na casa de Borlas, o filho mais novo de Beregond, o sentinela da Cidadela que se tornou Capitão da Companhia Branca, a guarda de Faramir, após a Guerra do Anel. Existe um problema em se datar a história; contudo, Tolkien originalmente a colocou 100 anos após a Queda de Sauron, ao início do reino de Eldarion, mas anos mais tarde mudou o tempo para 100 anos após a ascensão de Eldarion ao trono. Contudo, Tolkien manteve Borlas como personagem principal, e alguém pode perguntar porque ele fez isso. Borlas deveria estar com cerca de 200 anos, o que é um tempo inacreditavelmente longo mesmo para um Dúnadan viver, a menos que fosse descendente de Elros. Provavelmente Borlas teria se tornado o neto ou bisneto de Beregond.

Borlas estava preocupado com os rumores de um culto estranho e secreto que estava ganhando popularidade em Gondor. Tornara-se moda entre os jovens Gondorianos fingirem serem Orcs, tendo atitudes de Orcs [como destruir árvores sem razão aparente]. Mas agora os homens estavam sussurrando sobre um novo líder, Herumor [que significa "Senhor Negro" em Quenya], ao redor do qual um culto se formara [Tolkien o chamou de culto Satânico, e presumivelmente seria uma restauração da adoração a Melkor]. A história continua não muito além de Borlas recebendo uma carta de Saelon, um jovem que cresceu com o filho de Borlas, para que comparecesse a um encontro secreto [sem dúvida dos seguidores de Herumor]. Não fica claro se Saelon era um membro do culto tentando recrutar [ou assassinar] Borlas, ou se ele estava engajado em alguma campanha contra o culto e pedia a ajuda de Borlas.

Tolkien decidiu que poderia ter escrito um thriller sobre a descoberta e destruição do culto, que estaria planejando a queda de Eldarion. Mas tal história não o interessou, embora certamente pudesse ter interessado a seus vários leitores. Borlas poderia não ter continuado como personagem principal, mas ter sido o instrumento em iniciar ou catalisar quaisquer que fossem as contra-medidas que os seguidores de Eldarion pudessem vir a tomar contra o culto.

A Terra-média seria sem dúvida um lugar muito diferente do mundo descrito em O Senhor dos Anéis. Se nós assumirmos a última datação da história, cerca de 220 da Quarta Era, que permaneceu fixa, podemos deduzir algumas poucas coisas sobre o estado do mundo. Por exemplo, em The Peoples of Middle-earth nós aprendemos que Durin VII o rei dos Anões que estava destinado a restaurar os Anões barbalonga em Moria, seria provavelmente o filho de Thorin III Elmo-de-pedra, o filho de Dain II Pé-de-ferro. Thorin III nasceu em 2866 da Terceira Era e teria cerca de 153 anos quando seu pai morreu na Guerra do Anel. Thorin provavelmente não viveu até o final do reinado de Aragorn [embora Gimli, que nascera em 3879 da Terceira Era, viveu]. Portanto, Durin VII tornou-se Rei sob a Montanha por volta do ano 100 da Quarta Era.

Quando os Barbalonga retornaram a Moria? Talvez no início do reino de Durin, mas provavelmente não antes da morte de Aragorn. Sem dúvida o evento ocorreu antes do ano 172 da Quarta Era, quando Findegil fez a última anotação na Cópia do Thain do Livro Vermelho do Marco Ocidental. Então, a recuperação de Moria provavelmente aconteceu entre os anos 120 e 172. Tal evento pode ter resultado, talvez, na última guerra com Orcs antes do tempo de The New Shadow. Borlas, o idoso protagonista de The New Shadow, poderia ter percebido "o velho mal", que aparentemente era o mal representado pelos verdadeiros Orcs, antigos servos de Sauron, e outras criaturas. Talvez ele tivesse lutado contra essas criaturas em sua juventude.

De fato, em uma carta que Tolkien escreveu para um leitor em 1963, ele apontou sobre Faramir: como "Princípe de Ithilen, o mais nobre após Dol Amroth no revivido estado Numenoriano de Gondor, prestes a ter prestígio e poder imperiais, não era um "serviço de guarda de jardim"… até que muito tivesse feito pelo Rei restaurado, o Príncipe de Ithilien seria o guarda-limites de Gondor, em seu principal posto avançado do leste – e também tinha muita responsabilidade em reabilitar o território perdido, e em limpá-lo dos foras-da-lei e orcs remanescentes, isso sem citar o terrível vale de Minas Ithil [Morgul]" [Tolkien, "Letters", p. 323].

Embora Faramir provavelmente tenha completado a maioria das funções necessárias, senão todas elas, seus sucessores podem ter lutado contra os Orcs nas Ephel Duath, as Montanhas da Sombra. E pode ser que o Príncipe de Ithilien [Faramir ou seus sucessores] tenha comandado quaisquer forças expedicionárias enviadas para ajudar a livrar a área dos Orcs. Expedição semelhante pode ter sido feita aos Vales do Anduin, para auxiliar os Anões Barbalonga a limpar Moria. Borlas, como um oficial na Companhia Branca, teria sido um candidato ideal a membro em tal expedição. Embora Tolkien provavelmente teria alterado muito tal história, nós podemos supor que o jovem Borlas teria visitado Moria por volta do tempo no qual Findegil estava escrevendo a Cópia do Thain do Livro vermelho. Findegil pode ter tido conhecimento da intenção de Durin de retornar a Moria, mas o evento poderia não ter sido completamente concluído. Portanto, a informação no Livro vermelho é reduzida, mas ao tempo de The New Shadow seria uma antiga lembrança para o idoso Borlas.

Outra possível fonte para o antigo mal que Borlas reconheceu ao final do fragmento de The New Shadow poderiam ser os Espectros Tumulares. Estes eram criaturas malignas enviadas para habitar as antigas colinas de Tyrn Gorthad no noroeste de Cardolan após a Grande Praga ter destruído a maioria do povo de Cardolan. Tom Bombadil manteve vigilância sobre Tyrn Gosthad ao final da Terceira Era [ele expulsou um Espectro que havia capturado Frodo e seus companheiros], mas Gandalf lembrou no Conselho de Elrond que Bombadil apenas isolou a si mesmo, talvez, até
que existisse alguma mudança no mundo. A restauração do Reino de Arnor por Aragorn pode ter sido esta mudança.

Aragorn reconstruiu a antiga cidade de Annuminas ao norte do Condado, e visitou a região no ano 15 da Quarta Era. Gandalf contou ao Cervejeiro Carrapicho que, no devido tempo, muitas pessoas migrariam pela Estrada verde para recolonizar as antigas terras de Arnor. Aragorn parece ter se concentrado nas áreas norte primeiramente, mas a seu tempo Cardolan pode ter sido recolonizada também. Uma antiga tentativa durante o 19°. século da Terceira Era foi frustrada pelos Espectros, então Aragorn [ou Eldarion] provavelmente teria que lidar com eles em algum momento. Novamente, Borlas pode ter sido parte desta expedição.

E um Espectro faz certamente mais sentido para um culto Satânico do que a mera presença de orcs em Gondor. Sauron era associado com feitiçaria e necromancia, e era servido por muitos espíritos, não apenas os Nazgul. Embora os Nazgul tenham sido reduzidos à impotência quando o Um Anel foi destruído, os Espectros Tumulares e outros espíritos podem ter continuado a perturbar os vivos por muitos séculos ainda. Se Herumor e seus seguidores tivessem encontrado e envolvido-se com um Espectro, o terror que ele poderia exercer e o poder que ele possuiria seriam consideráveis.

O que era um Espectro? Tolkien na verdade não esclarece. Eles eram espíritos que originalmente vieram de Angmar e Rhudaur. No ano da Grande Praga [1636 da Terceira Era], Rhudaur havia sido abandonado há tempos, mas o povo das colinas que havia suplantado dos Dunedain em uma aliança secreta com Angmar praticava feitiçaria, e sem dúvida isto significa que eles invocavam e lidavam com espíritos ao serviço de Sauron. Os Espectros eram provavelmente estes espíritos, mas nós não sabemos que espíritos eles eram. É mais provável, pelos poderes exibidos pelo Espectro que capturou Frodo, que os espíritos fossem de elfos corrompidos [escravizados por Melkor na Primeira Era] ou Maiar menores, não tão poderoso quanto, digamos, um Balrog, nem mesmo como um Nazgul, mas mais poderoso que os espíritos dos Homens.

No Morgoth’s Ring, Christopher Tolkien publicou um ensaio de seu pai, onde J.R.R. Tolkien discutia o esvair-se dos Elfos. Após a derrota final de Melkor, Eonwe viajou por toda a Terra-média e novamente chamou todos os Elfos para que migrasse a Aman. Embora muitos recusassem, foram colocados sob a maldição dos Valar, de que deveriam se esvair e eventualmente tornar-se espíritos desincorporados se ao final não cruzassem o Mar. Este processo de esvair-se parece ter sido necessário para induzir os Elfos a deixarem a Terra-média, que estava em tempo de se tornar de posse dos Homens. Mas neste ensaio, Tolkien sugere que alguns Elfos se recusaram a deixar a Terra-média mesmo quando o esvair-se tornou-se inevitável, e a seu tempo se tornaram assombrações residindo em regiões que uma vez habitaram. Tais espíritos algumas vezes eram contatados por homens, através da feitiçaria ou necromancia, e eles poderiam até mesmo ter permitido a estes espírito possuí-los.

É concebível, portanto, que o culto Satânico tivesse alguma coisa a ver com a comunicação com Elfos que se esvaíram [assumindo que algum Elfos tivesse se esvaído a este tempo]. Por outro lado, Elfos podiam morrer por acidente ou na guerra, e quando isto acontecia, eles não precisavam responder ao chamado de Mandos se não desejassem eventualmente reencarnar. É dito que muitos dos Avari fizeram esta escolha, e o que era arriscado no tempo do reino de Melkor pode ter se tornado menos arriscado mais tarde. Então, alguns dos mais amargos e malignos Elfos poderiam ter permanecido na Terra-média após a morte, talvez envolvendo-se com o culto de Herumor.

A despeito da possibilidade de esvair-se, e a presença de espíritos Élficos, é mais provável que continuassem a existir alguns enclaves de Elfos na Terra-média ao tempo de The New Shadow. Legolas partiu cruzando o Mar quando Aragorn morreu, mas Tolkien não diz que todo seus povo partiu com ele. Alguns dos Elfos da Floresta podem ter permanecido em Ithilien por muitos anos. Thranduil parece ter permanecido satisfeito no norte de Greenwood [Mirkwood, que foi rebatizada após a Guerra do Anel]. O povo de Celeborn poderia ter permanecido muito tempo em Lórien Leste, o reino fundado por ele na parte sul da floresta, nas terras antes dominadas por Dol Guldur [que Galadriel e Celeborn derrotaram]. Celeborm foi viver em Valfenda com seus netos Elladan e Elrohir antes de finalmente partir através do Mar, e o ano de sua partida não é registrado. Então, poderiam existir alguns Elfos vivendo em Valfenda, e em Mithlond, embora alguns tenham sentido Círdan partindo com Elrond e Galadriel.

Dunland tornou-se parte de Rohan durante o reino de Éomer, talvez como conseqüência das ações dos Dunlendings na Guerra do Anel. Pode parecer estranho que os Rohirrim poderiam tentar coexistir com os Dunlendings, mas parece que eles compreenderam que teriam que aprender a viver juntos. Erkenbrand mostrou grande misericórdia para com os Dunlendings após a Batalha do Forte da Trombeta, e isto pode ter começado o processo de cura entre os dois povos, que tinham sido inimigos por mais de 500 anos.

As populações de Rohan e Dunland provavelmente se expandiram, e podem ter contribuído com muitos dos colonizadores que se fixaram em Eriador. Nós sabemos que o Condado se expandiu, pois colonizaram as Colinas das Torres e todo o Marco Ocidental, e é possível que toda a terra de Bree tenha experimentado um novo período de crescimento enquanto a atividade econômica aumentava, proporcionando tal ímpeto. Annuminas pode ter sido dependente do comércio com o Condado, mas se Fornost foi recolonizada Bree pode novamente ter se tornado um importante centro de comércio, notícias e viagens em Eriador.

O mundo de The New Shadow deveria ser mais abarrotado do que o mundo de O Senhor dos Anéis. Provavelmente existiriam menos Elfos perto do final do reinado de Eldarion, mas provavelmente existiam mais Anões. E Homens aumentariam e se expandiriam muito e amplamente, enquanto os Hobbits também prosperariam. Os planos de Herumor podem ter sido confinados às terras do sul, mas é mais provável para mim que Herumor estendesse sua influência tão distante e amplamente quanto possível. Mesmo os Hobbits do Marco Ocidental poderiam sentir algum traço de sua influência, mesmo que apenas em murmúrios medrosos comentassem a origem que não poderiam saber com certeza. Embora não houvesse grandes inimigos como Sauron para causar inquietação, a Quarta Era poderia, apesar de tudo, tornar-se um tempo perigoso para os Povos Livres novamente.

Tradução de Fábio Bettega

Eles, os Anões!

Gimli, por John Howe

Vamos falar sobre Anões. Eu imagino que a atuação que John Rhys-Davies fará de Gimli irá resultar em alguns Web sites de homenagem tanto para o autor quanto para o personagem. Neste momento eu não consigo encontrar nada útil pesquisando Anões. Oh, existem dezenas, talvez centenas de Web sites que mencionam o fato de que os Anões eram uma das raças da Terra-média, e podem citar os Apêndices de alguma maneira e reprocessar o que todo mundo com uma cópia de O Senhor dos Anéis e talvez mesmo O Silmarillion podem facilmente descobrir virando algumas poucas páginas.

 
 
 
Mas alguém realmente conhece o papel total dos Anões de Tolkien? Tolkien conhecia todo o papel? Bem, provavelmente nem o próprio Tolkien conhecia o suficiente sobre seus Anões para escrever além do que foi publicado, mas uma grande quantidade de informação veio à luz através dos anos. Vamos dar uma olhada em como a civilização dos Anões surgiu, e ver o que Tolkien nos contou, e o que nós podemos razoavelmente inferir sobre isso. Mas é importante compreender como a concepção de Tolkien sobre os Anões se desenvolveu, pois como suas idéias mudaram também mudou sua história imaginária.

A maioria das pessoas sabe que aos Anões de O Hobbit foram dados nomes retirados da mitologia nórdica de uma maneira particularmente casual. Quando Tolkien visualizou a demanda para uma continuação dessa história popular como uma oportunidade para publicar alguma coisa de sua mitologia pessoal, ele confrontou-se com a necessidade de incorporar aos nome nórdicos dos Anões em um mundo complexo que ele vinha inventando há anos.

Inicialmente Tolkien tentou explicar os nomes como uma “concessão editorial”: “Estes Anões não são como os Anões de contos mais conhecidos. A eles foram dados nomes nórdicos, é verdade; esta foi uma concessão editorial. Muitos nomes na língua própria ao período poderia ser alarmante…” [J.R.R. Tolkien, "Letters of J.R.R. Tolkien"].

De fato, Tolkien foi ligeiramente desistimulado pelo uso inicial de nomes nórdicos. A história de O Hobbit era, apesar de tudo, planejada originalmente para entreter seus filhos. Tolkien inventou muitos contos, a maioria dos quais foram perdidos por nunca terem sido escritos ou apenas começados. Mas é aparente de pelo menos três dos contos de fadas de Tolkien que ele gostava de emprestar nomes de sua mitologia linguisticamente inspirada para proporcionar alguma cor e profundidade a estas histórias.

Então, Elrond e a Queda de Gondolin se intrometem nos negócios de Bilbo com os Anões, e mais tarde existe uma referência obscura ao misterioso conflito de Thingol com uma família de Anões não relacionada ao povo de Thorin Escudo-de-Carvalho. Em Roverandom o cão de brinquedo encantado vaga através do mundo e eventualmente é trazido próximo ao litoral de Aman, o Reino Abençoado, que aparece novamente como a fantástica Terra dos Elfos visitada pelo Ferreiro em Smith of Wootton Major.

O empréstimo casual de elementos da mitologia nunca foi intencional, mas sim boa sorte ao contar histórias. Contadores de histórias frequentemente reusam as mesmas idéias, nomes, temas, e mesmo descrições para manter suas histórias movimentadas. A repetição de passagens inteiras é comum nas tradições orais onde poetas e contadores de histórias memorizam grandes sagas em pedaços e recontam os antigos contos com frases e descrições familiares que podem ou não ser usadas da mesma forma a cada nova narrativa.

Em dezembro de 1937, J.R.R. Tolkien escreveu a E.G. Selby: “Eu não aprovo muito O Hobbit por mim mesmo, preferindo minha própria mitologia [da qual ele apenas se aproxima] com sua nomenclatura consistente – Elrond, Gondolin e Esgaroth escaparam dela – e história organizada, a esta multidão de Anões saído do Voluspa nomeados como nos Eddas, Hobbits modernos e Gollums [inventados em uma hora ociosa] e runas anglo-saxãs.” [Christopher Tolkien, "The Return of the Shadow"].

Claramente quando Tolkien publicou pela primeira vez O Hobbit ele o viu como um trabalho separado, um conto que sustentava-se por si mesmo e que meramente emprestara algumas coisas, por motivo de conveniência, de uma mitologia maior e mais antiga que àquele tempo havia sido dividida apenas com a família, C.S. Lewis e outros conhecidos próximos.

Christopher Tolkien discute este assunto com alguma extensão no The Peoples of Middle-earth: “Neste, a “língua de Valle = Escandinavo [utilizada pelos Anões daquela região]” mostra claramente um obstáculo maior, talvez o obstáculo principal, para uma “autentificação” coerente ser resolvida a este tempo. Quando meu pai escreve O Hobbit ele certamente não tinha noção de os nomes em escandinavo antigo dos Anões requeririam qualquer explicação, dentro dos termos da história: aqueles eram seus nomes e aquilo era tudo que deveriam ser… mas agora este inescapável elemento Nórdico teria que ser considerado; e daquela “multidão de Anões saído do Voluspa nomeados como nos Eddas” surgiu a concepção de que os Anões tinham “nomes externos” derivados das línguas dos Homens com os quais tinham contatos…” [Christopher Tolkien, "Peoples of Middle-earth"].

Esta aparente dificuldade, tão facilmente resolvida por uma nota rapidamente rabiscada que definiu a ficção linguística que Tolkien utilizou para explicar os relacionamentos das linguagens que ele empregou em O Senhor dos Anéis, eventualmente levou Tolkien a inventar uma complexa e [para mim, pelo menos] interessante história para os Anões que originalmente ele não previra. Claro, tudo que ocorreu na Segunda e Terceira Era foi planjeado diretamente como um resultado do fato de Tolkien ter concordado em escrever uma continuação para O Hobbit, com exceção da história de Númenor. Sua queda, pelo menos, já tinha sido escrita em forma de história por Tolkien vários anos antes dele escrever O Senhor dos Anéis.

A concepção original de Tolkien sobre os Anões era radicamente diferente da raça nobre embora oh-tão-arrogante de bravos guerreiros e reis que nós encontramos em O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Em sua primeira mitologia, a “mitologia para a Inglaterra” que está contida [quase completa] no The Book of Lost Tales, os Anões eram uma raça maligna, liderados por Fangli ou Fangil [um servo de Melko, o Senhor Escuro]. Este primeiros Anões eram inimigos das fadas [Elfos] e eles lutaram uma terrível guerra contra os Eldar.

Estes primeiros Anões malignos deram vez a uma raça mais neutra, que era antiga e imortal. “Nunca vem uma criança entre eles, nem eles riem,” Tolkien escreveu no “The Nauglafring”, a primeira história na qual seus Anões tem um papel proeminente. “Eles são baixos em estatura, mas mesmo assim fortes, e suas barbas atingem até seus dedos dos pés, e as barbas dos Indrafengs são as mais longas de todas, e são divididas, e eles a prendem pelo meio quando saem andar.” [Tolkien, "The Book of Lost Tales, Part Two"].

Os Nauglath eram mestres ferreiros e cientistas nesta concepção primária. Eles negociavam livremente com Elfos, Homens e Orcs, não tendo antipatia especial por nenhuma das raças. No “The Nauglafring” o tesouro do dragão Glómund é trazido a Tinwelint, rei dos Elfos da floresta e pai de Tinuviel, e embora a princípio ele busque se desfazer do ouro amaldiçoado ele é persuadido por Ufedhin, um Gnomo que vivia entre os Nauglath, para fechar um contrato com eles para trabalharem o tesouro em uma nova coleção de maravilhas. Mas a maldição de Urin imediatamente teve efeito, e Tinwelint tào logo fez sua barganha com Ufedhin começou a suspeitar dos motivos do Gnomo.

Então Tinwelint altera os termos da barganha e mantém Ufedhin e a maior parte de seus seguidores prisioneiros enquanto os Nauglath trabalhavam em metade do tesouro. Fiéis à sua palavra os Nauglath apareçaram no tempo combinado com o tesouro retrabalhado e Tinwelint autorizou-os a trabalhar na outra metade do tesouro. Mas agora Ufedhin estava amargurado por meses de aprisionamento, e ele persuadiu os Nauglath a demandar um preço não razoável de Tinwelint para moldar o ouro em um novo tesouro. Então a maldição enlaçou os Nauglath, que demandaram sacos de ouro e prata e donzelas Élficas para irem com eles, e Tinwelint ficou enfurecido.

A história quase não lembra a reconstrução que Chistopher Tolkien publicou em O Silmarillion, e não pode ser comparada de perto com “A Ruína de Doriath”. “The Nauglafring” pertence a uma mitologia diferente, um mundo completamente diferente. E seus Anões malignos, como velhos homens impregnados pela forja e ciência e privados de contrapartes femininas em sua raça, não tinham lugar na Terra-média que tomou forma nos anos de 1930 e 1940.

Tolkien manteve algumas das idéias do relacionamento entre Tinwelint e os Nauglath, mas quando ele expandiu sua história e mundo para englobar os hobbits e seu mundo, os Anões tornaram-se uma nova raça. Eles mantiveram sua tradicional afinidade com mineração e forja, viviam sob a terra, mas agora eles se tornaram produto da intromissão bem intencionada de Aulë o Ferreiro, o impetuoso Vala que não pode esperar os Filhos de Ilúvatar despertarem.

Os filhos de Aulë, os primeiros Anões, experimentaram um breve período de consciência antes de Ilúvatar e Aulë pô-los pra dormir. Aulë então os colocou em cavernas bastante separadas através do norte do mundo, e lá dormiram até algum tempo após o acordar dos Elfos. Muitas pessoas têm especulado precisamente quando os Anões acordaram e se aventuraram no mundo. É quase certo que, uma vez que os Elfos não encontraram nenhum Anão na Grande Jornada, os Anões continuassem a dormir. Os Eldar passaram através de pelo menos duas cordilheiras de montanhas onde os Anões foram deixados por Aulë.

De acordo com o “Annals of Aman” [Christopher Tolkien, "Morgoth"s Ring"], os Anões primeiramente apareceram em Beleriand no Ano dos Valar de 1250 [cerca de 250 Anos dos Valar antes da morte das Duas Árvores, e 200 Anos dos Valar depois dos Elfos acordarem em Cuiviénen. "Grey Annals" [Tolkien, "The War of the Jewels"] concorda com o trabalho antigo mas adiciona e revisa uns poucos detalhes. Aqui os Anões possuem moradias mais antigas no leste distante do que Nogrod e Belegost, as cidades que eles construíram nas Ered Luin. E mais, no The Peoples of Middle-earth o ensaio “of Dwarves and Men” [escrito aproximadamente ao mesmo tempo que O Senhor dos Anéis] sugere que os Vigas-largas e os Barbas-de-fogo acordaram nas Ered Luin ao norte.

Nós podemos conciliar essas contradições aparentes sugerindo que os Anões, quando acordaram, podem ter vagado pelo mundo buscando uns aos outros. Durin acordou sozinho no Monte Gundabad de acordo com o ensaio no Peoples, e os pais dos Cachos-negros e Pés-de-pedra acordaram tão ao leste dos Punhos-de-ferro e dos Barbas-duras quanto de Durin. É difícil imaginar onde este Anões foram colocados, mas se nós usarmos os mapas fornecidos no The Shaping of Middle-earth como guia, pode-se inferir que existem duas cadeias de montanhas que Tolkien não desenhou nos mapas.

A primeira cordilheira “desaparecida” seriam as Montanhas Nebulosas, localizadas a leste das Ered Luin e provavelmente ao norte a partir do mar de Helcar. A segunda cadeia “desaparecida” [sem nome] poderia estar a meio caminho entre as Montanhas Nebulosas e as Orocarni, as Montanhas do Leste. Estas montanhas não precisam ser tão extensas quanto as Montanhas Nebulosas, que Melkor supostamente ergueu para barra o caminho de Oromë quando este caçava as criaturas malignas do Senhor Escuro na Terra-média.

Alternativamente, os Punhos-de-ferro e Barbas-duras podem simplesmente ter sido colocados nas montanhas bem ao norte, e de alguma forma protegidos das Guerra dos Poderes que resultou na destruição da fortaleza de Melkor, Utumno. Seja qual for o lugar onde acordaram, se os Anões primeiramente procuraram uns aos outros, a tradição de que eles teriam mantido conclaves em Gundabad começa a fazer mais sentido. Durin acordou sozinho e vagou pelas Montanhas Nebulosas por um longo tempo, aparentemente por anos. Ele deve eventualmente ter vagado para o norte e lá, talvez, ter encotnrado seu povo.

Gundabad pode ter sido, portanto, a mais antiga cidade dos Anões na Terra-média, e como a população de Anões cresceu eles eventualmente retornaram à suas terras natais para contruir novas cidades, Durin pode ter permanecido nas terras centrais onde ele acordou, mas a certo tempo ele levou alguns Anões para o sul para fundar a cidade de Khazad-dum. Então, podemos supor que os Anões se dispersaram em algum momento por volta do Ano dos Valar de 1250, e eles teriam acordado não mais do que 100-122 Anos dos Valar antes disso [os Teleri cruzaram as Ered Luin no Ano dos Valar de 1128]. Estes Anos dos Valar eram equivalentes a aproximadamente 9.58 anos do Sol [Tolkien, "Morgoth"s Ring", p. 58].

Vamos assumir, por questão de conveniência, que os Anões acordaram não antes do Ano dos Valar [A.V.] de 1130. Os próximos 120 Anos dos Valar seriam equivalentes a 1149.6 anos do Sol. Durin provavelmente viveu durante todo este tempo, e por isso ele foi chamado Durin, o Imortal. A vida média para um Anão, baseado na genealogia fornecida pelo O Senhor dos Anéis, parece estar por volta dos 250 anos. Os Anões parecem casar por volta do seu centésimo aniversário, então poderiam estra na 12a. geração no A.V. 1250. Se os outros pais dos Anões viveram apenas 250 anos [do Sol], os reis que lideraram a dispersão podem ter sido os 10os. de suas respectivas linhagens.

Os Anões de Belegost e Nogrod então viviam como vizinhos próximos dos Sindar por cerca de 2400 anos antes do surgimento do Sol e da Lua [em termos de anos do Sol]. Devem ter existido, no mínimo, cerca de 23-24 reis tanto em Belegost quando Nogrod durante os longos anos sob as estrelas. Durante aquele tempo os Anões estabeleceram um amizade próxima com o reino de Thingol [mas eles não se aventuravam próximo ao Mar nem visitavam o povo de Círdan no oeste de Beleriand].

A históra dos Anões Pequenos, os Noegyth Nibin, requer alguma consideração, contudo. Eles reinvidicavam estar em Beleriand antes dos Elfos chegarem. Isto pode significar que os Anões devem ter acordado antes de 1130. Os primeiros Eldar alcançaram Beleriand no A.V. 1115. Os Noegyth Nibin eram párias das outras sete casas, não sendo realmente uma oitava casa mas aparentemenre seu número era insuficiente para manter uma comunidade pelo equivalente a muitas gerações [o último de sua raça morreu na Primeira Era, no ano 500 do Sol, quando Húrin matou Mîm].

Uma vez que os Elfos acordam no V.A. 1050, haviam apenas 65 V.A. [pouco mais de 600 anos do Sol] disponíveis para os Anões acordarem, se dirigirem para o Monte Gundabad, e livrarem-se dos Noegyth Nibin. As coisas ficam um pouco apertadas mesmo se supormos que os Anões acordaram logo após os Elfos. Novamente, podemos supor que os Anões acordaram antes da Grande Jornada e que começaram a procurar uns aos outros antes da Guerra dos Poderes. Isto os livraria de caminhos perigosos e locais de despertar no mínimo no V.A. 1090 [o ano em que os Valar começaram seu ataque a Melkor].

De fato, pode ser conveniente supor que os Anões acordaram durante a guerra. Então eles teriam partido sem serem notados pelos Valar, que já tinham encontrado os Quendi, e nós ganhamos um espaço razoável de 25 V.A. [cerca de 239.5 anos do Sol] antes dos Eldar entrarem em Beleriand. Naquele tempo, os primeiros párias da comunidade dos Anões devem ter sido relativamente poucos, provavelmente muito poucos para realmente estabelecerem uma comunidade, mas eles podem ter vivido em Beleriand tempo suficiente para receber outros párias.

O único desentendimento real que permanecia entre os Anões e os Elfos nos tempos antigos era a acaça acidental dos Noegyth Nibin pelos Sindar. Os Sindar não reconheceram os Anões Pequenos como colegas racionais Encarnados, e parece ter sido devido à natureza secreta e ocasionalmente hostil a estranhos, dos Noegyth Nibin. Os Elfos pararam de caçar os Noegyth Nibin quando eles encontraram os Anões de Belegost e Nogrod, mas eles aparentemenre divulgaram suas ações aos Anões, que levaram essas notícias a outros Anões. Tolkien escreveu que os Anões ficaram ofendidos pela caça aos Anões Pequenos, e este pode ter sido o antigo rancor que permanecia latente na Terceira Era [como Tolkien registrou nos Apêndices de O Senhor dos Anéis].

Através das muitas gerações os Anões de Belegost e Nogrod expandiram seus contatos com os Elfos. Eles aparentemente negociavam com os Elfos de Eriador, ou pelo menos tinham algum conhecimento deles, pois eles informaram os Sindar quando os Elfos do leste começaram a fugir para florestas mais profundas e colinas para escapar das criaturas de Melkor [primeiramente os Orcs, ao que pare ce] que começavam a se espalhar pela Terra-média.

Tolkien menciona dois outros fatos sobre estes primeiros Anões que raramente são discutidos. O primeiro é o fato de que os primeiros Anões, antes do contato com os Sindar, se especializaram em trabalhar com ferro e cobre e preferiam trabalhar com pedra do que madeira. Mas eles não eram artísticos e muito funcionais em seus designs arquiteturais e ao fazer ferramentas e armas. Tolkien registra que os Anões foram profundamente influenciados por sua associação com os Elfos, adquirindo influências artísticas a partir deles.

O outro fato é que os Anões lutavam entre si. Ainda que a natureza dessas rixas ou guerras nunca seja discutida, pode ser que se existiu uma primeira comunidade de Anões ela pode ter se dispersado não apenas devido à pressão populacional mas também, talvez, me parte devido a disputas entre as várias casas. Como a população de Anões crescia, comida seria mais e mais díficil de conseguir [exceto através de comércio com os Elfos] a menos que os Anões cultivassem a própria comida, e o ensaio “Dwarves and Men” diz que eles preferiam não cultivar se pudessem evitar. E mais, como a população dos Anões aumentou, eles poderiam ter desenvolvido uma sofisticação maior em governar a si mesmos, e então facções rivais podem ter aparecido.

Isto é, claro, completamente especulativo, mas parece evidente que Tolkien anteviu algumas interações próximas entre os primeiros Anões que eventualmente foi subistituída por relações mais distantes e frias. Durin, o Imortal, parece ter sido grandemente reverenciado por todos os Anões como o mais antigo da raça e o de mais longa vida. Ele poderia ter possuído uma considerável presença entre os primeiros reis após os outros pais terem morrido. O Povo de Durin, os Barbalongas, não descendiam diretamente dele – não nas primeiras gerações. Ao contrário dos outros pais, Durin não teve uma parceira criada por Aulë. Então ele teve que encontrar uma esposa entre as filhas ou netas de outros pais. E seu povo foi originalmente recrutado de outras casas tanbém. Os Barbalongas podem ter sido, portanto, o grupo mais cosmopolita e objetivo de Anões quando as variações de costumens e preferências começaram a aparecer entre eles.

A presença de Durin entre os primeiros Anões traz a questão de quando eles realmente começaram a fundar cidades. A ele é creditada a fundação de Khazad-dum, que recebe a distinção [entre as outras cidades de Anões] de ter sido a única nomeada para a inteira raça dos Anões ["Khazad-dum" = "mansão dos Anões"]. Pode ser incorreto supor que Gundabad serviu de moradia para os Anões por muito tempo. Durin pode ter levado o povo Anão para o sul para Khazad-dum, e embora ele tenha sido chamado Imortal devido à sua longa sobrevida aos outros pais dos Anões, chegou o dia em que ele morreu.

Suponha que aquele evento crítico que levou à dispersão dos Anões através da Terra-média foi a morte de Durin? Se ele tivesse sido a cola ligando-os em uma tradição única, e se seu número crescente tivesse gradualmente dificultado suas habilidade de susteram a si próprios, então o sucessor de Durin e seus reis seguidores podem ter decidido que o tempo de uma mudança na sociedade dos Anões era chegado. Ao contrário de todos os Anões viverem juntos, as outras seis casas partiram de Khazad-dum e retornaram às terras onde seus antepassados acordaram.

Então, os Vigas-largas e os Barbas-de-fogo viajaram para o oeste seguindo os passos dos Eldar e fixaram nas Ered Luin. Eles construíram as cidades de Belegost e Nogrod e, olhando para o oeste, vagaram em Beleriand para ver como era a nova vizinhança.

Pelo equivalente aos próximos 3000 anos [do Sol] os Anões do oeste participaram da história dos Eldar, até o final da Primeira Era do Sol. Então o mundo mudou para todos.

Ele deverá ser como uma árvore plantada ao longo de rios de água

As árvores da Terra Média revelam o profundo amor de Tolkien pelos graciosos gigantes da natureza. Mas apesar de os Ents defenderem a causa das árvores num mundo de lenhadores de duas pernas, eles parecem ter revelado um pouco mais sobre eles. Devemos aumentar as palavras de Tolkien com nossas imaginações, uma vez que estamos prestes a contemplar todas as árvores dos silenciosos e selvagens bosques.
 

Como os Ents foram parar na Floresta Fangorn? Como, e quando, eles fizeram a jornada através da Terra Média para o extremo sul das Montanhas Cinzentas? E por que eles se moveram por todo esse caminho até lá? Fangorn conta a Merry e Pippin que ele uma vez vagou pelos prados de salgueiro de Tasarinan. Prados de salgueiro é uma expressão curiosa, uma vez que árvores não crescem em prados. Porém, Tolkien adorava espalhar salgueiros por toda a Terra Média, ao longo de rios e lagos. E salgueiros realmente crescem junto de rios e lagos.

O salgueiro há muito tempo tem sido usado como um símbolo de arrependimento e amor perdido na literatura Inglesa. Quando Fangorn conta sobre sua juventude em Beleriand, ele começa com os prados de salgueiro de Tasarinan (Nan-Tathren no mapa de Beleriand, uma região entre as fozes do Sirion e seus Portões, para o sul de Doriath). Quando Frodo e Sam vagam por Mordor e estão com sede, Sam pensa melancolicamente, onde eles pararam em sua jornada, em salgueiros ao lado de rios. E quando Théoden conduz os Cavaleiros de Rohan fora de Harrowdale, eles passam por salgueiros ao longo do Riacho de Neve..
A mais poética descrição de salgueiros na Terra Média é provavelmente a descrição de Voronwë, de Nan-Tathren, para Tuor em “De Tuor e sua chegada a Gondolin”:

…Naquela terra o Narog se une ao Sirion, e os dois não mais se apressam, mas seguem largos e silenciosos através de prados cheios de vida; e em toda a volta do rio reluzente há lírios como um bosque em flor, e a relva é repleta de flores, como pedras preciosas, como sinos, como chamas de vermelho e ouro, como uma extensão de estrelas multicoloridas em um firmamento verde. Porém o mais belo de tudo são os salgueiros de Nan-Tathren, de um verde-pálido, ou prateados ao vento, e o farfalhar de suas inúmeras folhas é um encanto de música: o dia e a noite passavam palpitando, sem conta, enquanto eu ainda me detinha, submerso em relva até os joelhos, a escutar. Lá fui encantado, e esqueci o Mar em meu coração…

Apesar de toda sua beleza e felicidade, no entanto, Nan-Tathren parece nunca ter atraído uma população élfica permanente. Tuor e Idril conduziram os exilados de Gondolin para a região e permanecerem ali por um tempo, realizando banquetes e fazendo canções de arrependimento e mágoa por Gondolin, e para lembrar a coragem de Glorfindel. Mas eles não continuaram por muito tempo na região.

A canção de Fangorn para os Hobbits fala que ele ficaria em Nan-Tathren (Tasarinan – ele preferia usar Quenya) na primavera, e dali passar ao leste para Ossiriand, para vagar pelos bosques de olmo. No outono ele vagaria em Neldoreth, uma das florestas de Doriath, e dali passaria ao norte para Dorthonion no inverno.

É fácil inferir que os Ents rodearam Beleriand durante a Primeira Era, mas também deve-se perguntar como ou quando. Doriath era supostamente impenetrável, porém os Sindar podiam passar livremente para dentro e fora. Talvez Melian, sabendo quem e o que os Ents eram, permitiram que eles passassem livremente. Mas a antiga canção dos Ents não deve realmente retratar um modelo ou rota que qualquer Ent deve ter vagado em Dorthonion depois da Dagor Bragollach, quando Sauron conduziu um exército de Angband até a região mencionada.

Em todas as probabilidades, os Ents devem ter se retirado para Ossiriand. Ali, aliados com os elfos verdes e talvez com alguns dos feänorianos, eles teriam ajudado a manter a região livre do poder de Morgoth. Os Ents estavam, desta maneira, disponíveis a ajudar a destruir o exército de Nogrod quando retornou de Doriath, embora a estória da destruição de Doriath nunca foi totalmente desenvolvida para o Silmarillion. Por que os Entes deveriam ajudar a destruir um exército de anões? Tolkien não dá nenhuma resposta, apesar de que pode-se supor que no saque de Doriath muitas árvores teriam sido destruídas, acordando a raiva dos Ents.

Ossiriand teria se tornado populosa com antecedência na Segunda Era, no entanto. Não somente moravam os elfos verdes ali, como também os Sindar e Noldor, e por um tempo alguns dos Edain moraram na região. Os Ents devem ter se retirado para o leste do outro lado das montanhas para Eriador a fim de encontrar um pouco de paz. É claro, havia alguns Sindar que os haviam precedido, mas já havia muitos elfos Nandorin e Homens também.

Fangorn fala de um tempo onde uma enorme floresta se estendeu a partir das Montanhas Sombrias para as Montanhas Azuis (Ered Luin): “… Aqueles foram dias grandiosos! Houve um tempo em que eu podia caminhar e cantar o dia todo e escutar apenas o eco de minha própria voz nas concavidades das colinas. As florestas eram como a floresta de Lothlórien, apenas mais densas, mais fortes, mais jovens. E o aroma de ar! Eu costumava passar uma semana só respirando.

Os Ents parecem ter gostado de sua privacidade, de seu tempo quieto nos bosques. Então eles naturalmente evitaram o abarrotamento da civilização. Até os Elfos eram grandes construtores de cidades, e os marinheiros de Círdan eram lenhadores que necessitavam de madeira para seus navios. Especialmente os Ents não estavam muito contentes com os Falathrim ou quaisquer Elfos que usavam madeira extensivamente.

Por outro lado, as Entesposas eram muito organizadas, e até certo ponto em suas andanças, elas se dispersaram dos Ents. É impossível dizer quando a separação dos Ents e das Entesposas começou, mas é bem possível que tenha começado depois dos Ents terem se estabelecido nos bosques que se tornaram a Floresta Fangorn. E quando os Ents se estabeleceram nesse local? Provavelmente por volta desta época os Sindar estavam migrando em direção ao leste e estabelecendo reinos nos Vales do Anduin. “Os limites de Lórien” (Apêndice C de “A História de Galadriel e Celeborn” em Contos Inacabados) conta que “Pois a lenda relatava que o próprio Fangorn se encontrara com o Rei dos Galadhrim em dias antigos, e Fangorn dissera: – Conheço o meu, e você conhece o seu; que nenhum dos lados moleste o que é do outro. Mas se um elfo desejar caminhar na minha terra por prazer, será bem vindo; e se um ent for avistado na sua terra não tema nenhum mal.

Por que havia necessidade de Fangorn estabelecer limites sobre os Elfos, e dividir as terras? A resposta deve ser que os Ents vivenciaram certo atrito até mesmo com os Elfos, e esse atrito deveu-se ao uso de árvores. Os Elfos de Lórien usavam as árvores assim como a maior parte das pessoas as utiliza: eles constroem casas, móveis e barcos.
Os Ents devem ter percebido que até certo ponto não podiam mais contes os Elfos e Homens em Eriador, então eles retiraram-se para os bosques ao sul e estabeleceram um acordo aonde as árvores poderiam crescer livres e selvagens.

Mas Fangorn também conta a Merry e Pippin que havia lugares na floresta onde as árvores eram antigas, algumas até mais velhas que ele, e a sombra nunca aterrisou sobre elas. A sombra, ou escuridão, a qual ele se refere parece ser de Morgoth e não Sauron. Fangorn fala de um tempo onde os Elfos começaram a fugir para o Mar. Isso só pode se referir ao período após a Guerra dos Elfos e Sauros. Mas desde que ele próprio vagou por Beleriand, e relembrou de Tasarinan, ele era mais velho que a guerra. Portanto, as árvores que eram mais velhas que ele estiveram vivas por séculos, talvez milênios, antes que Sauron invadisse Eriador.

Também, se os Ents estiveram presentes em Eriador quando Sauron queimou as florestas, eles deveriam relembrar a catástrofe e se opor a Sauron diretamente. Ao invés disso, Fangorn somente sabe que as florestas foram destruídas. Ele e seu povo parecem ter estado habitando próximos ao fim das Montanhas Sombrias quando Sauron invadiu Eriador. Então a migração Ent ocorreu primariamente à Guerra dos Elfos e Sauron, e dessa forma parece lógico que os Ents procuraram uma terra onde eles poderiam obter algum benefício (dissipando a escuridão antiga das árvores ou evitando que as árvores más machucassem inocentes e espalhassem o mal), assim como estabelecendo um refúgio onde as árvores pudessem ser protegidas e alimentadas.

De sua parte, as Entesposas parecem ter morado próximo do extremo sul das Montanhas Sombrias dos primeiros dias. Fangorn conta a Merry e Pippin que as Entesposas cruzaram o Anduin “quando a escuridão veio para o Norte”. O evento o qual se refere só pode ser o retorno de Morgoth a Terra-Média, e o estabelecimento de Angband. O poder de Morgoth se estendeu através de toda a Terra Média, mas após os Noldor retornarem à Terra Média, ele começou a concentrar sua atenção em Beleriand. Então deve ter havido um breve período em que Morgoth encontrou os jardins das Entesposas e as ameaçou ou as importunou.

Mas a situação das Entesposas levanta uma interessante questão: o que elas estavam fazendo ali em primeiro lugar? A resposta deve ser que a Floresta Fangorn representa não apenas o último refúgio dos Ents na Terceira Era, mas também a terra de sua origem. Fangorn diz que os Elfos originalmente acordaram os Ents e os ensinou linguagem. Os elfos poderiam ter feito isso em Cuiviénen, mas Fangorn nunca menciona Cuiviénen, e Ents nunca estão associados com Cuiviénen. Também, a Grande Jornada marca o início da real expansão e curiosidade Élfica. Pode ser que alguns dos Eldar, ou talvez alguns dos Nandor, acordaram os primeiros Ents, logo que os Elfos cruzaram o Anduin.

Quando os Elfos passaram para o oeste, ou se dispersaram através de outras terras, os Entes devem ter se movido, para aprender mais sobre o mundo. As Entesposas ficaram em casa, e o eventual separatismo entre os dois sexos dos Ents começou logo cedo. Os Ents retornavam para as Entesposas de tempos em tempos, mas os dois grupos gradualmente foram à deriva. Finalmente, as Entesposas cruzaram o Anduin. A passagem deve ter sido facilmente alcançada nos vaus, e as Entesposas se estabeleceram nas terras ao sul da Floresta das Trevas, e então a leste de sua floresta original. Elas deviam estar próximas dos Elfos e dos Homens, mas elas poderiam ter permanecido relativamente intactas.

Na Segunda Era, como os Ents se retiraram para o leste de sua antiga morada, eles acharam antigos bosques infectados pelos mal e que as Entesposas haviam partido. Mas eles continuaram tendo contato com as Entesposas durante um tempo. A separação final deve ter sido o resultado final de Guerra dos Elfos e Sauron. Os Ents observaram enquanto o mundo revolvia-se em tumultos ao redor deles. Pois Sauron não apenas invadiu Eriador, ele mandou exércitos de Mordor para marchar ao norte para destruir as pessoas Edaínicas das Terras Selvagens, assim como quaisquer reinos Élficos que pudessem alcançar. Provavelmente, os Ents permaneceram na Floresta Fangorn pelo resto da Segunda Era. Eles prestaram pouca atenção quando a Última Aliança dos Elfos e Homens marchou ao sul contra Mordor. Mas um dia Fangorn decidiu visitar seu antigo amor Fimbrethil, e passando ao leste através dos Vaus ele chegou a uma terra devastada pela guerra. As Entesposas haviam partido, e seus jardins haviam sido destruídos.

E então começou uma aventura que deve ter durado mil anos. De vez em quando os Ents arriscavam-se para adiante e perguntavam às pessoas se haviam visto as Entesposas. Certamente, os Ents nunca encontraram as Entesposas. Quando questionado sobre elas por um leitor, Tolkien respondeu:

Eu acredito que de fato as Entesposas desapareceram pelo bem, sendo destruídas com seus jardins na Guerra da Última Aliança (Segunda Era 3429-3441), quando Sauron lutou por uma política de terra seca e queimou a terra delas contra o avanço dos Aliados abaixo do Anduin (vol.II p.79 refere-se a isso). Elas sobreviveram somente na “agricultura” transmitida aos Homens (e Hobbits). Algumas, é claro, devem ter escapado para o leste, ou até se tornado escravizadas: tiranos mesmo em tais contos devem ter um fundo econômico e agricultural para seus soldados e metalúrgicos. Se alguma então sobreviveu, elas estariam bem diferentes dos Ents, e alguma reaproximação seria difícil – a não ser que a experiência da agricultura militarizada e industrializada tenha as tornado um pouco mais anárquicas. Eu espero que sim. Eu não sei. (Letter 144)

A procura dos Ents pelas Entesposas inspirou muitas músicas e canções, e até mesmo Aragorn parecia saber algo da longa procura dos Ents, pois ele disse a Fangorn que novas terras seriam abertas a ele. Fangorn naquela altura tinha pouca esperança de encontrar sua amada Fimbrethil novamente, e ele pode nunca ter deixado seus bosques na Quarta Era. Os Ents parecem se contentar em permanecer no bosque selvagem, e vigiar Orthanc, para assegurar que o mal nunca retornará àquela região.

Naturalmente, as pessoas rapidamente notam que os Ents ou criaturas do tipo moravam próximos do Condado. E quando Fangorn questiona Merry e Pippin sobre sua terra, ele concluiu que seria uma terra favorável para as Entesposas. Mas não havia Entesposas no Condado, e é improvável que elas já tenham se estabelecido lá. A famosa árvore andante de Sam, que é reportada por seu primo Hal, poderia de fato ser uma árvore andando e não um Ent. As árvores da Floresta Velha podiam se mover, o que Frodo e seus companheiros aprenderam quando perderam seu caminho em meio aos bosques zangados. Mas não havia Ents na Floresta. Apenas árvores antigas como o Velho Salgueiro e outras curiosas, perigos inominados. Árvores podiam acordar por si próprias, por razões inexplicadas. Fangorn descreveu o processo para Merry e Pippin:

As árvores e os Ents – disse Barbárvore. – Eu mesmo n&ati
lde;o entendo tudo o que está acontecendo, por isso não posso lhes explicar. Alguns de nós ainda somos ents verdadeiros, e bastante vivos à nossa própria maneira, mas muitos estão ficando sonolentos, ficando arvorescos, por assim dizer. A maioria das árvores são árvores verdadeiras, é claro; mas muitas estão semi-acordadas. Outras estão bastante acordadas, e algumas estão, bem, ah, bem, ficando entescas. Isso está acontecendo o tempo todo.

Quando isso acontece a uma árvore, você descobre que algumas têm corações maus. Não tem nada a ver com a madeira: não quero dizer isso. Vejam, eu conheci alguns bons salgueiros velhos, descendo o Entágua, que se foram há muito tempo, infelizmente! Estavam bem ocos, na verdade estavam caindo aos pedaços, mas eram tranqüilos e falavam suavemente como uma folha jovem. E também há algumas árvores nos vales sob as montanhas, vendendo saúde e totalmente más. Esse tipo de coisa parece estar se espalhando. Costumava haver umas partes muito perigosas neste lugar. Ainda há alguns trechos muito negros.

Numa carta para o Daily Telegraph Tolkien explicou a diferença entre as florestas na Terra Média. Um artigo associou tristeza e escuridão com os bosques de Tolkien e ele deu exceções para a comparação:

Com referência ao Daily Telegraph de 29 de Junho, página 18, eu sinto que não é justo usar meu nome associado à tristeza e escuridão, especialmente num contexto lidando com árvores. Em todos os meus trabalhos, eu assumo a parte das árvores contra todos os seus inimigos. Lothlórien é linda porque as árvores são amadas; em outros lugares as árvores são representadas como o despertar para a consciência delas próprias. A Floresta Velha era hostil com criaturas de duas pernas devido às memórias de antigas feridas. A Floresta Fangorn era antiga e bela, mas naquele momento tenso da estória, com hostilidade porque estava ameaçada por um inimigo amante das máquinas. A Floresta das Trevas declinou diante da dominação do Poder que odiou todos os seres vivos, mas foi restaurada e se tornou a Floresta das Trevas antes do final da estória.

É difícil pensar em Beren encantado pela beleza e graça de Lúthien em uma floresta triste e escura, ou em Finrod olhando os ancestrais de Beren dormindo numa floresta esquecida, condenada e cheia de ódio. Os bosques de Doriath, Ossiriand, e até os do Condado são amistosos e locais abertos. Seus habitantes devem ser insulares e protetores de suas terras e vidas, mas eles não são possuídos pela malícia. A Floresta Velha e a Floresta Fangorn herdaram alguns toques do mal dos dias de Morgoth. Mas ao passo que os Ents retornaram a Fangorn para purificar ou vigiar seus bosques ancestrais, a Floresta Velha foi roendo a si mesma com malícia, pelo menos até que Tom Bombadil decidiu se estabelecer por ali. Gandalf observou no Conselho de Elrond que Bombadil havia se “retirado para uma região pequena, dentro de limites que ele mesmo fixou, embora ninguém consiga enxerga-los, talvez esperando uma mudança dos dias, e não sai dali.” Bombadil contou a Frodo e seus companheiros que ele, Bombadil, nunca poderia sair de sua terra, pois ele deveria vigia-la. O mal da Floresta Velha e das Colinas dos Túmulos havia se tornado tão grande que Bombadil se sentia obrigado a checa-la constantemente.

Mas apesar de que as Colinas dos Túmulos terem sido mandadas para infestar os antigos montes dos Dunedain por ambos Sauron ou o Senhor dos Nazgul, por que a Floresta Velha se tornou escura e ameaçadora? Tolkien notifica que os bosques mantinham “a memória de muitas feridas”. O que eram essas feridas? Nós podemos apenas ter certeza de algumas. A queimada das florestas de Eriador por Sauron deve ter começado o vagaroso processo. De algum modo, poucos lugares como A Floresta Velha e Eryn Vorn sobreviveram à destruição provocada pela guerra. Mas ao passo que alguns dos Gwathuirim (homens relacionados ao Dunlendings e os Homens de Brethil em Beleriand) se retiraram a Eryn Vorn, e sem sombra de dúvida deram seu amor aos bosques como os melhores homens são capazes, nenhum homem se retirou à Floresta Velha.

Milhares de anos antes, homens se refugiaram na Floresta Velha. Na Guerra de 1409 na Terceira Era, o reino de Angmar invadiu Cardolan. Os Dunedain se retiraram para o oeste de suas casas nas Colinas do Sul. Alguns dos Dunedain resistiram nos montes de Tyrn Gorthad, mas alguns fugiram para a Floresta Velha. Ali a luta foi violenta, e talvez muitas árvores foram perdidas ou feridas. Um retiro similar deve ter ocorrido quando Angmar finalmente destruiu o reino de Arnor. Muito do povo de Arnor foi destruído, mas alguns fugiram para se esconder. A Floresta Velha pode provavelmente ter servido de refúgio. E séculos depois, os Buqueburgos cruzaram o rio Brandevin a partir do Condado e colonizaram uma faixa de terra adjacente à Floresta Velha. Os hobbits e as árvores entraram em conflito, e Merry conta que houve uma batalha de resolução. Os Hobbits queimaram muitas árvores e cresceram o feno para ser uma barreira entre sua terra e a Floresta. Mas Hobbits ainda ocasionalmente arriscam-se a entrar na Floresta Velha. Ali ainda podem acontecer alguns poucos acidentes.

Sem Ents para vigiá-la, e com Bombadil apenas checando o mal, procurando nem destruir nem domina-la, a Floresta Velha se ferveu com malícia e a “memória de muitas feridas”. Algumas das árvores se tornaram Entescas, como Fangorn diz. E sem dúvida alguma, de quando em quando, algumas delas, saiu vagando por terras selvagens. Talvez elas acharam um bom pedaço de terra e por fim se estabeleceram. Talvez elas foram destruídas por terríveis criaturas de duas pernas ou pior. Mas ainda havia uma pequena esperança de que os Ents encontrassem as Entesposas novamente, então deveria haver uma pequena esperança de uma reconciliação da Floresta Velha com as criaturas de duas pernas. Finalmente, Tom Bombadil desistiria de sua função e prosseguiria com sua vida.

Se existia algum povo que mantinha grandes esperanças de qualquer coisa relacionada às árvores, este seria os Elfos. Fangorn observa que os Ents e os Elfos cresceram à parte. Mas no final da Terceira Era e no começo da Quarta Era, a cultura Élfica era substancialmente diferente do que das Eras iniciais. As sábias civilizações Eldarin foram reduzidas a alguns encraves. Os Elfos Silvan de Floresta das Trevas eram o maior e mais poderoso grupo. E muitos dos Noldor haviam ambos se tornado nativos, para falar, como Galadriel, ou estavam apenas permanecendo na prazerosa memória dos dias passados, como o povo de Gildor. Quando Legolas e Gimli visitaram a Floresta Fangorn após a Guerra do Anel, pode ser que uma fase final de amizade e entendimento tenha começado entre os Ents e os Elfos, e até mesmo entre os Ents e os Anões.

Mas tais tréguas ou retomadas de amizades poderiam apenas ser temporárias. Não há dicas sobre o que fez-se dos Ents e das Entesposas, salvo apenas em uma canção Élfica em que Fangorn lem
brou com prazer para dividir com Merry e Pippin. A canção tentava representar a divisão do povo Entes, mas Fangorn notou que era “Élfica, é claro: alegre, com poucas palavras e curta.” Após descrever a diferença entre os Ents e as Entesposas, a canção oferecia uma esperança de reconciliação. Juntos pegaremos a estrada de leva ao Oeste, e ao longe encontraremos uma terra onde ambos nossos corações poderão descansar.

Esse Oeste só pode ser Aman, e como tal, representa uma esperança Élfica, ou melancolia. Galadriel, em sua separação com Fangorn, o avisa que eles não voltarão a se encontrar “até que as terras que estão embaixo das ondas estarão levantadas novamente”. Ela não considerava a passagem de nenhum Ent pelo Mar. E não deveria passar nenhum. Ilúvatar criou os Ents para vigiar as árvores da Terra Média. Em Aman eles não seriam necessários, apesar de que talvez seus espíritos, após morrerem, pode ter sido reunido ali por Namo. Não há realmente nada de misticismo Ent em nenhuma das discussões de Fangorn com as pessoas. Não sabemos se para eles existe uma outra vida, ou preocupações espirituais. Mas eles eram encarnados racionais, como Tolkien mesmo colocou, e eles entendiam o arrependimento, a perda e até mesmo a esperança. Então talvez, quando Elrond, Galadriel, Gildor, Frodo, Bilbo e Gandalf rumaram para o Mar no fim da Terceira Era, no momento em Sam, Merry e Pippin observaram eles desaparecem na distância na Estrada para os Portos Cinzentos, havia olhos antigos vigiando a partir das árvores, dando silenciosas despedidas às antigas amizades e vínculos.

E talvez, apenas talvez, os Elfos e os Hobbits plantaram salgueiros em Lindon e no Condado, ao longo das margens gramadas dos rios, em memória dos antigos bosques e seus orgulhosos pastores. Até mesmo as Entesposas teriam gostado, apesar de que nada poderia ser comparado à beleza dos prados de salgueiro de Tasarinan na Primavera. A vanimar, vanimalion nostari. Namarie!


Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts