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Michael Martinez

Viajando na maionese de Asas e Cabelos

Michael Martinez

Novos livros de autoridade sobre a Terra-média são escassos e demandam enorme espera. Frequentemente, quando um novo livro é publicado fornecendo novas informações sobre a Terra-média, nossas queridas ideias que nutrimos por tanto tempo sofrem um sério desafio e devem ser reavaliadas.

The History of Middle-earth (HoME) caminha a passos tímidos para um nada profundo desfecho através das notas finais de Christopher Tolkien sobre “Tal-Elmar” finalizando The Peoples of Middle-earth. Seu papel no longo e meticuloso processo de organizar e publicar as anotações e manuscritos de seu pai termina de forma silenciosa. Tantas questões permanecem sem resposta no 12º volume da HoME que muitas pessoas expressam uma enorme frustração com este trabalho. “Isso é tudo que há para se falar sobre a Terra-média?”, perguntam elas.

A resposta dada então em 1996 era tanto “sim” como “não. “Sim”, pois a megalítica subestrutura dos detalhes foi cuidadosamente exposta, exceto por uma área que recebeu menor atenção. “Não”, pois Christopher prestou escassa atenção ao desenvolvimento de O Hobbit, uma tarefa delegada ao falecido Taum Santoski. Após o falecimento de Santoski, a responsabilidade recaiu sobre John Rateliff, que ainda tem de produzir a muito esperada história de O Hobbit (que em determinado momento possuiu o título provisório de Mr. Baggins ["Sr. Bolseiro"]).

O Annotated Hobbit, de Douglas Anderson, revisado e atualizado em 2002, serve como a fonte primária da comunidade tolkeniana para o estudo do desenvolvimento de O Hobbit. Uma fonte secundária vital é o livro J. R. R. Tolkien: Artist and Illustrator, editado por Wayne Hammond e Christina Scull. Alguns poucos comentários feitos por Christopher e espalhados pelos livros da História da Terra-média, impõem mais limites nas já limitadas fontes à disposição para o estudo do trabalho de JRRT em O Hobbit.

Muito dos materiais linguísticos restantes não-publicados de Tolkien foram colocados aos cuidados editoriais de um pequeno grupo de linguistas que trabalham com Christopher Gilson (Parma Eldalamberon) e Carl Hostetter (Vinyar Tengwar). Por conta das severas condições para o  uso desses escritos (fotocópias – os manuscritos originais não foram liberados), os materais-fonte estão presos no meio do fogo cruzado de disputas e acusações que permeiam a relativamente escassa e pequena comunidade linguística tolkeniana. Alguns dos principais lingüistas tolkenianos pressionam duro para que haja uma maior velocidade na disponibilização do material. O conflito ocasionalmente espalha-se para o domínio de discussões não-lingüísticas, mas em geral manteve-se contido dentro dos círculos de estudo linguísticos sobre Tolkien. Alguns materiais adicionais originários dos arquivos de Tolkien na Marquette University e da Bodleian Library de Oxford também fornecem aos linguistas novas informações.

Muitos dos entusiásticos leitores Tolkien estão familiarizados com as brigas. Os mundos dos estudos tolkienianos, tanto formais quanto informais, reverberam com as palavras acaloradas de debates inflamados. Não conheço nenhum estudioso de Tolkien que já não tenha me dito em particular “Você pode encontrar uma resposta com fulano ou sicrano, mas não mencione meu nome pois isso não vai abrir portas para você”. Realmente, até eu tenho me pego dizendo coisa parecida em certas ocasiões.

Alguém poderia pensar que, com a morte de Tolkien em 1973, já tenha passado tempo suficiente para que todo mundo tenha estudado tudo que seja possível imaginar sobre sua obra. A arte de analisar Tolkien, se não for apenas crítica barata contra Tolkien, deveria ser a esta altura uma análise bem definida e considerada quase científica. Mas a magia da arte de Tolkien é que ela continua a produzir novas descobertas, num ritmo quase anual. A última parte significativa do material lançado relacionado a Terra-média, durante a vida de Tolkien, foi provavelmente o mapa de Pauline Baines em 1969. O mapa inclui talvez meia dúzia de nomes de lugares que ninguém já tinha visto antes (tais como Edhellond, Lond Daer Ened e Framsburg).

Há entrevistas que Tolkien deu entre 1965 e 1971 nas quais ele revelou pequenos detalhes sobre personagens ou aspectos particulares da Terra-média. Há o famoso comentário no qual ele compara o idioma dos Anões (Khuzdul) ao hebraico. Há a entrevista onde ele discute a história de Tarannon Falastur e a Rainha Beruthiel, comparando-os ao deus nórdico Njord e sua esposa-giganta Skadi. Mas, na verdade, após a publicação da segunda edição oficial de O Senhor dos Anéis e da terceira edição especial de O Hobbit, o desenvolvimento da Terra-média ficou paralisado pelo resto da vida de Tolkien.

Somente quando Christopher Tolkien publicou O Silmarillion em 1977 (casualmente mencionando no Prefácio que não era realmente o Silmarillion de seu pai) é que as informações começaram fluir livremente. Com Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média (publicado em 1980), Christopher liberou uma torrente de informações sobre o mundo de O Senhor dos Anéis. Claro que havia uma enorme quantidade de informações em O Silmarillion, mas era difícil lê-lo e digerir tudo. Como um amigo meu colocou “Parece que há uns 20 nomes por página que você precisará lembrar para o resto do livro”.

A habilidade fecunda de Tolkien em criar nomes, personagens e genealogias inspirou muitos a escreverem livros de referência, sites de internet e FAQs. A maioria deles não vale a pena em ser consultada, na minha opinião, uma vez que as chances de estarem errados é considerávelmente grande de tal forma que você quase precisa memorizar tudo para saber se os livros de referência estão certos. Eles apresentam detalhes fundamentais de forma errada com tal freqüência que não se deve confiar neles. Mesmo o Complete Guide to Middle-earth, escrito por Robert Foster, que é geralmente aceito como uma fonte confiável, foi denunciado como fonte de erros e confusão, e ele parou de documentar a Terra-média com O Silmarillion.

Lembro tudo isso antes de dizer que, com cada novo lançamento de material anteriormente não-publicado, a tarefa de conferir, organizar e compreender tudo que foi realmente escrito por J. R. R. Tolkien a respeito da Terra-média torna-se cada vez mais complexa e desafiadora com o lançamento de cada novo livro. No decorrer dos anos, enquanto via pessoas endossar pessoalmente um livro de referência em específico sobre o trabalho de Tolkien, fui provavelmente um dos piores críticos que imediatamente apontava os defeitos de tal obra.  E metade do tempo pessoas retrucavam indignadas: “Bem, então por que você não escreve um você mesmo?”; e metade do tempo pessoas me pediam encarecidamente para fazer um trabalho melhor.

Desculpe, pessoal. Se eu achasse que poderia fazer melhor que qualquer outro, já eu teria tentado. Eu sei que cometeria enganos, e esses enganos me atormentariam pelo resto da vida, mesmo se eu fosse a única pessoa a enxergá-los. Algumas vezes você pode fazer tudo certinho e mesmo assim ainda dar errado.

Por exemplo, por vários anos depois que li pela primeira vez O Senhor dos Anéis, eu ficava me perguntando quem eram os Homens do Norte. De onde eles vinham? Porque diziam que eles estavam ligados aos Dunedain de Arnor e Gondor? Quando Contos Inacabados foi publicado, eu pensei que finalmente tinha a resposta.

Em O Senhor dos Anéis, Faramir diz a Frodo: “Nossos mestres de tradição dizem que eles detêm desde tempos antigos esta afinidade conosco e que eles provêm daquelas mesmas Três Casas dos Homens, como os Numenorianos o foram no princípio: talvez não de Hardor, o Louro, Amigo-dos-Elfos, mas ainda assim de seu povo e de seus filhos que não singraram o Mar para o Oeste, recusando o chamado”.

Ora, essa foi uma declaração bem específica, e por toda sua vida foi a única pista real que Tolkien nos forneceu sobre a origem dos Homens do Norte. O Silmarillion de fato confirma que alguns Edain retornaram a Eriador, e nenhum dos descendentes de Hador estava entre eles. Os “filhos” a quem Faramir se referia deviam ser portanto ser considerados de forma figurativa, exatamente como os Rohirrim referiam-se a si mesmos como Eorlingas (os filhos ou povo de Eorl).

Contos Inacabados menciona os descendentes daqueles Edain que retornaram para Eriador. Eles encontraram Veantur e os Numenorianos várias centenas de anos depois. Cerca de mil anos depois, Sauron invadiu Eriador, expulsando ou matando todos os Elfos e Homens. Então, o que aconteceu com o povo de origem Edainica? Por um bom tempo, achei que eles fugiram para leste, passando pelas Montanhas Nevoentas para os Vales do Anduin. Pareceu então plausível para mim. E quando compartilhei tal idéia com outras pessoas, várias concordaram.

No entanto, em 1996, The Peoples of Middle-earth dissipou essa especulação. No ensaio “Anões e Homens” descobrimos que os povos Edainicos fixaram-se por Rhovanion e Eriador. Isto é, antes que quaisquer Edain tivessem alcançado Beleriand, havia assentamentos Edainicos desde Carnen (o Rio Vermelho, que flui para o sul das Colinas de Ferro) para o oeste de Baranduin. As Três Casas dos Edain eram na verdade somente subgrupos daqueles povos maiores. Os Homens do Norte da Terceira Era eram simplesmente descendentes originários dos grupos provenientes mais ao leste que os primeiros colonos Edainicos.

As palavras de Faramir são consistentes tanto com minha interpretação dos textos e quanto com o ensaio canônico “Anões e Homens”. Esse ensaio é canônico no sentido que oferece uma explicação do próprio J. R. R. Tolkien sobre os fatos apresentados por Faramir para Frodo (e para o leitor). A Terra-média é criação dele, e assim ele decide onde as coisas devem ficar. Eu não. É claro, em uma observação anexada ao texto “Anões e Homens”, Tolkien especificamente faz referência à conversa de Faramir com Frodo. O ensaio, que ele escreveu mais ou menos em 1969, data assim de um período no final dos anos 60, quando Tolkien estava escrevendo uma enorme quantidade de “histórias de pano de fundo”. Ele estava preenchendo as lacunas, e em alguns casos, mudando de idéia sobre o que havia sido publicado 15 anos antes.

Uma das ironias curiosas sobre o trabalho de Tolkien é aquilo que Christopher Tolkien enfatiza, especialmente em The Peoples of Middle-earth, de que seu pai sentia-se compelido a respeitar o que havia sido publicado. Por este motivo, quando escrevia um bom pedaço sobre o significado de “-ros” do nome de Elros, J. R. R. Tolkien teve de se controlar e parar com tudo.

Mas, infelizmente, essa explicação complica-se por um pequeno fato que passou desapercebido por meu pai, e que foi algo fatal. Ele anotou no texto que boa parte dessa explicação é falha por conta do nome Cair Andros (um nome Sindarin, como eram praticamente todos os topônimos de Gondor), a ilha do Anduin ao norte de Minas Tirith, que foi mencionada no Apêndice A (RdR, p. 334, nota de rodapé) como significando “Navio de longíneas espumas”, uma vez que a ilha tinha a forma de um enorme navio, com a proa apontando para o norte, contra a qual a espuma branca do Anduin quebrava nas escarpadas rochas. Assim, ele foi forçado a aceitar que o elemento -ros de Elros tinha de ser o mesmo que em Cair Andros, que a palavra deveria ser Eldarin e não Atanica (Beoriana) e que não devia haver qualquer relação histórica entre essa palavra e o Rothinzil Adunaico Numenoriano (The Peoples of Middle-earth, p. 371, Houghton Mifflin Co. [HMCo])

Tolkien encontrava-se navegando nas águas perigosas dos domínios “das histórias de fundo”, muito antes de 1969. De fato, logo após ter começado a trabalhar nos Apêndices de O Senhor dos Anéis, em 1950 (ele terminou o primeiro texto em 1948), Tolkien elaborou notas sobre a história dos Anões. E então a sua editora, a George Allen & Unwin, surpreendeu-o com a prova tipográfica para a segunda edição de O Hobbit. Em 1947, Tolkien escreveu para a Allen & Unwin sugerindo que se algum dia viessem a produzir uma segunda edição de O Hobbit, ele sentia que seria melhor revisá-lo de forma a ser compatível com O Senhor dos Anéis que, embora iniciado como uma seqüência de O Hobbit (por conta da requisição do editor), havia evoluído de forma a se tornar uma consolidação de várias histórias e mitos que previamente não estavam associados a este (Hobbits, os Eldar, os Numenorianos, etc.).

Depois de ler as provas tipográficas, Tolkien percebeu que teria de mudar o material em seus Apêndices em invés de lutar para conseguir mudanças substanciais em O Hobbit.

O estágio de correções é considerado muito tardio para que um escritor possa reescrever uma quantidade substancial de sua obra (apesar das declarações de Tolkien sobre ter feito consideráveis edições em provas tipográficas de vários de seus livros). Os Apêndices de SdA são assim o primeiro texto pós-SdA a sofrer considerável influência de uma fonte extra-SdA. E de modo algum este é o último texto desta natureza.

“A Caçada ao Anel” é outro texto pós-SdA que foi, de fato, composto (ou ao menos iniciado) antes da publicação de O Senhor dos Anéis propriamente dito. Christopher Tolkien sugere que ele foi iniciado após o primeiro volume de O Senhor dos Anéis ter sido publicado em 1954, mas antes da publicação do terceiro volume (o que ele deduziu por conta dos conflitos de datas entre “A Caçada ao Anel” e o livro). Tencionava-se incluir a “A Caçada ao Anel” em um “volume especialista” que Tolkien mencionou em uma carta de 1956 (No. 187, As Cartas de J. R. R. Tolkien). Sua intenção original era produzir um glossário de topônimos a partir do livro, sendo complementado por notas lingüísticas.

Mas os problemas (prazerosos se eu tivesse tempo) que o volume extra apresentará ficarão claros se eu lhe disser que, enquanto muitos como o senhor exigem mapas, outros desejam indicações geológicas ao invés de lugares; muitos querem gramáticas, fonologias e amostras Élficas; alguns querem métrica e prosódias – não apenas das breves amostras Élficas, mas também dos versos “traduzidos” nos modos menos familiares, tais como aqueles escritos na forma mais rígida do verso aliterativo anglo-saxão (como por exemplo o fragmento no final de Batalha de Pelennor, V vi 124). Músicos querem melodias e notações musicais; arqueólogos querem cerâmica e metalurgia. Botânicos querem uma descrição mais precisa do mallorn, da elanor, niphredil, alfirin, mallos e symbelmynë; e historiadores querem mais detalhes sobre a estrutura política e social de Gondor; questionadores gerais querem informações sobre os Carroceiros, o Harad, origens Anãs, os Mortos, os Beornings e os dois magos que faltam (dos cinco). Será um volume grande, mesmo que eu me atenha apenas às coisas reveladas à minha limitada compreensão!

Está claro que, ao produzir Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média, Christopher Tolkien esperava – pelo menos até certo ponto – realizar o desejo de seu pai de publicar um volume complementar de O Senhor dos Anéis. Mas Contos Inacabados não poderia ser o livro que seu pai teria escrito mais do que O Silmarillion poderia ser. Ambos são apenas aproximações imperfeitas do que poderia ter sido produzido, se o Tempo e a Imaginação não tivessem escorridos das mãos de JRRT. Enquanto que com O Silmarillion Christopher tentou construir uma narrativa completa, ele dispensou tais intromissões editoriais consideráveis na compilação de Contos Inacabados. O segundo livro estabelece a base para o extraordinário estudo de Christopher na série The History of Middle-earth. Contos Inacabados provou que Christopher podia, até certo grau, separar sua voz da de seu pai e que podia atrair os leitores tanto no processo subcriativo quanto na análise editorial.

Christopher cometeu erros pelo caminho. Ninguém poderia produzir estes 14 livros e não cometer erros. Ele freqüentemente anotava seus erros nos comentários iniciais de cada volume ou nas observações finais de seções especiais. Às vezes, Christopher era extremamente duro consigo mesmo, como podemos ver na página 141 de The Peoples of Middle-earth onde, após citar a si mesmo de um volume anterior, ele escreveu:

Esta última observação é um absurdo óbvio. A longuíssima linha de reis Numenorianos, que entrou no curso do desenvolvimento de Akallabeth, estava presente no Apêndice A (e uma olhada rápida pelos textos da obra é suficiente para mostrar, pelo simples fato de sua aparição, que eles não poderiam datar de maneira concebível de uma data tão tardia)…

O fardo de Preciso-Estar-Certo somente aumenta para alguém como Christopher ou Wayne Hammond, com as súplicas dos leitores ao redor do mundo para que produzam evidências conclusivas a favor ou contra várias questões. Sendo o mais respeitado e conhecido bibliógrafo de Tolkien, Hammond ganhou seu espaço nos estudos tolkienianos que rivaliza com o do próprio Christopher em termos de autoridade. Poucas pessoas desejariam desafiar algum ponto fornecido por Hammond, apesar de nem Christopher Tolkien nem Wayne Hammond jamais afirmarem ter a última palavra de autoridade em qualquer assunto. Ambos de livre e espontânea vontade reconhecem as contribuições e correções de outras pessoas.

Ainda assim, Hammond foi a autoridade a quem apelei há não muito tempo atrás, quando alguém me perguntou por que freqüentemente eu dizia que J. R. R. Tolkien traduziu o Livro de Jó para a Bíblia de Jerusalém. Afinal de contas, “todo mundo sabe que foi o livro de Jonas”.* Bem, minha fonte era uma nota bibliográfica acima de qualquer contestação que Wayne Hammond e Douglas Anderson haviam publicado. A informação não foi contestada com sucesso durante quase 30 anos. Ela parecia bem confiável. Mas com o objetivo de ser o mais completo possível, eu perguntei para membros da Mythopoeic Society se havia evidência em contrário. O próprio Wayne Hammond respondeu com um longo resumo de sua recente e minuciosa pesquisa sobre o assunto. Ele chegou à conclusão que JRRT não traduziu Jó como afirmava um editor. Seu raciocínio – que é muito comprido para reproduzir aqui – convenceu-me (e a outros) a oferecer uma retratação pública pelo engano.

* Ambos livros do Velho Testamento; um contando sobre as súplicas de Jó para Deus (e a resposta dEste) e outro sobre Jonas e a baleia. [N. da T.]

Mas este é o motivo pelo qual não escrevo enciclopédias sobre Tolkien. Eu batalho para usar somente as fontes mais confiáveis e, além de quaisquer enganos que eu cometa de minha parte, serei ocasionalmente forçado a viver com as conseqüências pelo resto de minha vida. Outras pessoas podem achar que vale a pena tentar, e se alguém reclama ou os critica, eles podem dizer “Pelo menos eu tentei”. Talvez, mas tentar não justifica os erros. Nem Christopher Tolkien ou Wayne Hammond (ou outros cujos trabalhos eu respeito) se encolhem em um canto com uma justificativa tão medíocre.

Mas a combinação de erros de estudo que surgem a partir de textos secundários e terciários é tanto sua própria recompensa quanto sua punição. Eu acho mais fácil revisar as obras e fornecer os esclarecimentos. Pelo menos, quando consideradas com as explicações, essas obras tornam-se mais úteis do que se ninguém dissesse nada simplesmente porque “pelo menos eles tentaram”. O Atlas da Terra-Média de Karen Fonstad é, em minha opinião, o melhor de vários livros que procuram documentar a cartografia da Terra-média.

De qualquer maneira, eu não concordo com todas as conclusões dela, e ela comete sérios alocamentos errôneos em alguns dos mapas (ela dá até mesmo duas localizações para Rhosgobel). Em correspondência particular, uma pessoa da família Fonstad (que achou que minha resenha do Atlas foi muito rude e crítica) reclamou que Fonstad esperava publicar uma versão revisada e corrigida do atlas, mas o editor matou a idéia pois eles não queriam mudar um livro obviamente popular (e agora altamente lucrativo).

Desta forma, quando alguém faz o esforço de documentar algo tão complexo e com diversidade cronológica tão ampla e multifacetada como as mitologias de Tolkien, ainda assim não há garantias que as correções serão publicadas. Ou, pior ainda, elas podem ser divulgadas por uma terceira pessoa. Há um velho ditado: escolha com cuidado as batalhas que queira lutar, pois a próxima pode ser sua última. Ou pior, pela minha própria experiência, pode ser uma batalha que nunca terminará.

Vamos dar uma olhada no livro recém publicado de Wayne Hammond e Christina Scull, The Lord of the Rings: A Reader’s Companion. Muitas pessoas estão curiosas em saber do que trata o livro. Eu direi do que não se trata: não é o guia definitivo que responderá cada pergunta já feita pelos leitores de Tolkien. Hammond e Scull não fingem que seu trabalho deva ser tratado desta forma, mas eles parecem cientes da inevitabilidade de ganhar esta distinção particular. Em seu Prefácio, eles convidam as pessoas a partilhar idéias e correções com eles (e reconhecem os esforços feitos por várias pessoas cujos nomes e trabalhos também apreciei).

O Reader’s Companion fornece notas informativas e confiáveis sobre O Senhor dos Anéis. Parece que ele esclarece e explica várias palavras e citações que geralmente são obscuras para o leitor médio. O livro é um guia muito melhor que vários outros que já li ou dei uma olhada, mas não se preocupa muito em resumir os detalhes. Incluindo o glossário, minha edição em brochura tem quase 900 páginas. Os autores confessam que é o dobro do que eles originalmente pretendiam.

Para ajudar os leitores a entender o que repousa além das meras palavras no livro, Hammond e Scull esforçaram-se em uma das mais sérias, considerativas e detalhadas pesquisas que eu vi ser publicada até hoje. A abrangência de seu trabalho vai bem além das observações breves e comuns e de páginas de referência. Alguns tópicos ganharam vários parágrafos de discussões e citações detalhadas. E os pesquisadores tolkienianos ficarão contentes em perceber que vários textos previamente não-publicados são mencionados, e por vezes até são citados. Infelizmente, esses textos propriamente ditos permanecem fora do alcance do público comum, e é minha esperança sincera que, algum dia, alguém tenha permissão de publicá-los com um mínimo de manipulação editorial.

Os editores precisam manipular textos. Sendo eu próprio um autor que já trabalhou com mais de um editor, entendo o processo. Algumas vezes o autor não deixa claro um assunto tão bem quanto poderia. Mas os manuscritos e notas de Tolkien estão sendo usados como fontes de autoridade para alguns dos estudos mais obscuros e intrincados que alguém poderia associar com a Terra-média. A Terra-média em si não possui o mesmo valor na pesquisa formal que a criação da Terra-média, e ainda assim a maioria das pessoas quer saber mais sobre a Terra-média e menos sobre como as coisas surgiram e o que elas podem significar na vida do autor. Há ainda muito a ser compreendido naqueles textos não-publicados que gerações inteiras de estudiosos e comentaristas de Tolkien ainda estão para nascer, gerações que terão coisas para dizer nunca antes expressadas. Não estou certo se a comunidade tolkeniana aprecia completamente a profundidade do legado dele.

Para ser honesto, há alguns tópicos abordados em Reader’s Companion que eu acabei enxergando sob uma nova perspectiva. Eu realmente espero ser necessário cerca de 2 anos para conseguir captar toda a profundidade deste trabalho, não apenas por conta das novas citações e referências, mas também porque eles reescreveram alguns velhos pontos de vista melhor que do eu já vi serem expressos antes. Mas, claro, o novo material fornecerá combustível considerável para reflexão nos anos que virão.

Por exemplo, fiquei surpreso em perceber que “Earendil era um marinheiro” (canção de Bilbo, ouvida em Valfenda, publicada em “Muitos encontros” em A Sociedade Do Anel) nunca apareceu em O Senhor dos Anéis na forma que J. R. R. Tolkien pretendia que aparecesse. Houve tantas edições do livro que presumi (erroneamente) que todos os esforços possíveis foram feitos para tornar cada nova edição fiel aos desejos de Tolkien. Porém, esse não foi o caso.

Não há um texto de SdA publicado que seja completamente fiel às intenções de Tolkien. A versão final do poema está publicada tanto em The Treason of Isengard (pp. 103-104, Houghton Mifflin Co.) e em The Lord of the Rings: a Reader’s Companion, mas não em qualquer edição de O Senhor dos Anéis propriamente dito. Mesmo assim, esse poema é bastante revelador com relação a um considerável número de pequenos detalhes na história de Tolkien e com respeito ao seu estilo de escrita. Por exemplo, uma das mais interessantes estrofes é a seguinte:

In might the Feanorians
that swore the unforgotten oath
brought war into Arvernien
with burning and with broken troth;
and Elwing from her fastness dim
then cast her in the waters wide,
but like a mew was swiftly borne.

Em poder os Feanorianos
que prestaram o juramento jamais esquecido
trouxeram consigo guerra a Arvenien
com fogo e lealdade partida
e Elwing em sua presteza nublada
atirou-se então nos infinitos mares
mas como uma gaivota* prontamente renasceu.

* No original, mew é uma gaivota pequena, conhecida como gaivota parda no Brasil. Nome científico Larus canus, encontrado na Eurásia e América do Norte. [N. da T.]

Há muito mais na estrofe, mas deixe-me interromper em “como uma gaivota” e mostrar minha posição. Qualquer um familiar com a história como contada em O Silmarillion sabe que quando Elwing atirou-se ao mar, Ulmo (um dos Valar) salvou-a da morte certa e transformou-a em um pássaro. E na forma de pássaro ela voou pelos mares e eventualmente encontrou o navio de Earendil (seu marido). Por conta de seu sacrifício, e pela intervenção de Ulmo, Elwing salvou a Silmaril que Beren e Luthien recuperaram da coroa de Morgoth e das garras dos filhos sobreviventes de Feanor.

A decisão de Tolkien de reformar esta parte do poema usando “como uma gaivota” a partir de uma referência mais literal para a transformação pode não parecer significativa para muitas pessoas, mas ainda assim eu não consigo deixar de lembrar da ocasião quando alguém perguntou: Elfos têm asas? A pergunta, creio, está relacionada à clássica “Balrogs têm Asas?”, uma guerra na qual alguns dizem que têm e outros dizem que não. Ao perguntar se os Elfos de Tolkien têm asas, o inquisitivo colega revela quão insignificante é tal debate no estudo da obra de Tolkien. Mas esse assunto avança furiosa e impavidamente, sob os olhares surpresos e comentários que ele extrai das vias secundárias.

Desta forma, “como uma gaivota” me lembra do debate sobre as Asas do Balrog, no qual os argumentos principais são feitos a partir da escolha de Tolkien pela palavra “como”.

O Balrog alcançou a ponte. Gandalf parou no meio do arco, apoiando-se no cajado com a mão esquerda, mas na outra mão brilhava Glamdring, fria e branca. O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas. Levantou o chicote, e as correias zuniram e estalaram. Saía fogo de suas narinas. Mas Gandalf ficou firme. (Extraído de “A ponte de Khazad-dum”, A Sociedade do Anel)

“A sombra à sua volta se espalhou como se duas grandes asas” é normalmente citada como prova de que o Balrog não tinha asas. O argumento sustenta que “como” cria uma similaridade, e similaridades são usadas (no uso mais estrito das palavras) na comparação de uma coisa com outra que não se parece com a primeira, de forma a enfatizar um determinado aspecto. Bem, isso é o máximo de concisão que posso fazer sobre uma explicação sobre a palavra similaridade às 3 horas da madrugada.

Digamos que eu tenha um carro amarelo. Eu poderia dizer que meu carro é amarelo como uma banana. Isto significa que é realmente “amarelo-banana”? Não necessariamente, mas quando você pensar naquela cor em um carro, você visualizará algo parecido com o meu carro amarelo.

O problema com a argumentação de similaridades, no entanto, é que esse argumento assume que “como” é sempre usado como uma similaridade. Se este for o caso, então Tolkien tem um sério problema. Pois, anteriormente no texto, ele escreveu:

Legolas se virou e preparou uma flecha, embora a distância fosse grande demais para seu pequeno arco. Puxou a corda do arco, mas sua mão caiu, e a flecha escorregou para o solo. Ele deu um grito de desespero e medo. Dois grandes trolls apareceram. Traziam grandes lajes que jogaram no chão para servir de passarela por cima do fogo. Mas não foram os trolls que encheram o elfo de medo. A multidão de orcs se abriu, e se amontoou do lado, como se eles próprios estivessem com medo. Alguma coisa vinha atrás. Não se podia ver o que fosse: era como uma grande sombra, no meio da qual havia uma forma escura, talvez humanóide, mas maior; poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor. (Ibid.)

Aqui Tolkien usa “como” para introduzir a similaridade “como uma grande sombra”. Isto é, o Balrog, quando aparece pela primeira vez, é tão escuro que os membros da Sociedade do Anel mal conseguem discernir sua figura da escuridão ao redor. É somente pouco menos escuro que a escuridão que provém do fundo do salão de pedra, caminho por onde ele aproxima-se deles.

Se a regra de similaridade deve ser aplicada de forma justa e consistente, então devemos concluir que não há sombra (ou escuridão) pois ela é somente como uma sombra ou escuridão. E, portanto, se não há tal coisa, então a sombra não-existente não pode ser comparada (via similaridade) a duas enormes asas. Bem, isso é simplesmente absurdo, de modo que as asas devem estar lá. Mas isso não significa que o assunto foi encerrado de forma satisfatória. Porque se são asas, de que tipo elas são?

Quando o Balrog se aproxima, ele salta sobre uma fenda ardente e revela que ele é imune ao fogo quando as chamas saltam para engolfá-lo. De fato, a presença do Balrog diminui a luz do fogo:

A figura veio para a extremidade do fogo e a luz se apagou, como se uma nuvem tivesse coberto tudo. Então, com um movimento rápido, pulou por sobre a fissura. As chamas bramiram para saudá-la, e se ergueram à sua volta; uma nuvem negra rodopiou subindo no ar. A cabeleira esvoaçante se incendiou, fulgurando. Na mão direita carregava uma espada como uma língua de fogo cortante; na mão esquerda trazia um chicote de muitas correias. (Ibid.)

Sombra é a ausência de luz em uma área que está cercada de luz. Quando você traz uma luz para perto de uma área que está “envolta em sombra”, as sombras fugirão da nova fonte de luz, e elas podem até desaparecer completamente. E ainda assim, quando esse Balrog que é “como uma grande sombra” aproxima-se das chamas claramente visíveis, a luz do fogo é enfraquecida em vez de fazer a escuridão retirar-se como faria uma sombra normal. Assim, mesmo que Tolkien claramente utilize a palavra “sombra” ao referir-se à escuridão que o acompanha e é aparentemente uma estensão ou uma emanação do Balrog, ele não está falando de uma sombra normal que é criada por algo que bloqueia a luz.

As pessoas que discordam dos Balrogs alados insistem que se ele realmente tivesse asas, o Balrog poderia voar. O problema com esse argumento é que ele assume primeiro que Balrogs alados possam voar, segundo que se eles podem voar então devem usar suas asas, terceiro que havia espaço para o Balrog voar e quarto que há algum lugar para onde voar. De fato, as hipóteses podem se estender consideravelmente. Nenhuma dessas hipóteses surgiu do texto, veja bem. Elas são simplesmente objeções falsas, nascidas na forma de reformulação da história como deveria ser escrita de acordo com um padrão arbitrário de correção, convenientemente arranjado de forma a não permitir a possibilidade de que as asas dos Balrogs sejam, em qualquer sentido da palavra, reais.

Na verdade, uma outra hipótese é de que as asas devam ser asas palpáveis. Isto é, as pessoas parecem pensar que se Tolkien realmente quis dizer que a Sociedade viu “asas” no Balrog, então essas asas devessem ser uma parte física de seu corpo. Essa objeção é a mais descabida, considerando-se o fato que o Balrog bufa chamas, que sua “cabeleira” pega fogo (ainda assim insistem que essa cabeleira é de cabelo ou algo parecido?) e que ele leva um bom tempo para chegar ao fundo do abismo na sua queda. Quanto tempo é “muito tempo”? Tolkien não diz. Mas se é uma distância medida em milhas ou só em milhares de pés, um homem não cairia por “um longo tempo”. Gandalf diz a Aragorn, Legolas e Gimli que ele e o Balrog caíram por muito tempo antes de atingir a água, e enquanto caíam Gandalf golpeara o Balrog com sua espada.

É interessante notar que as pessoas não perguntam se Balrogs sangram. Não seria normal uma criatura viva gritar em agonia e sangrar um bocado se alguém a estivesse golpeando com uma espada Élfica? Então por que Gandalf não mencionou que o Balrog estava sangrando, ou qualquer outra menção da reação do corpo do Balrog com o impacto de sua espada?

Por outro lado, as pessoas insistem que o Balrog morto ou agonizante poderia se salvar quando Gandalf o lançou do topo da montanha, onde “bateu-se contra as paredes da montanha em sua ruína”. Mas elas não parecem ter problemas com Smaug nem com Ancalagon, o Negro, ambos indubitavelmente dragões alados e voadores, que foram incapazes de salvarem a si próprios quando se bateram contra montanhas e lagos em suas ruínas. Parece meio injusto que o Balrog tenha de provar que é realmente capaz de voar no momento de sua morte. Não que a habilidade de voar ou de atenuar sua queda no ar deva necessariamente depender de asas para uma criatura que já tem toneladas de rochas caindo na cabeça (por Gandalf, na Câmara de Mazarbul, quando o Balrog tenta seguir a Sociedade pela porta que eles usaram como rota de fuga).

Dizer que uma coisa dessas é um argumento baseado em semântica é inexato e bastante equivocado. É um argumento baseado em preferências pessoais e exclusões arbitrárias. As longas discussões sobre Balrogs e suas asas (ou a ausência delas) alcançou uma variedade enorme de textos, inclusive O Silmarillion. Infelizmente, devido ao trabalho editorial de Christopher, O Silmarillion (confessando isso pessoalmente) não retrata de forma acurada os textos originais de seu pai, ou suas intenções. Uma passagem em particular que foi apontada por ambos os lados é freqüentemente mencionada como sendo a “passagem de Hithlum”. É o parágrafo no qual os Balrogs vêm em auxílio de Morgoth quando este está lutando contra Ungoliant:

…Nas profundezas de lugares esquecidos, aquele grito foi ouvido. Muito abaixo dos salões destruídos de Angband, em subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, Balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retorno de seu Senhor. E agora, velozes, eles se ergueram e, passando por Hithlum, chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas… (O Silmarillion, “Da fuga dos Noldor”, p. 81, HMCo)

Não há menção de asas neste texto, mas uma versão anterior do texto incluía as palavras “com velocidade alada”:

Mas o grito de Morgoth naquele momento foi o maior e mais terrível que já fora ouvido no norte do mundo: as montanhas agitaram-se e a terra tremeu, e as rochas foram partidas em pedaços. Nos mais profundos e esquecidos recessos ouviu-se aquele grito. Muito abaixo dos salões de Angband, nos subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, os Balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retorno de seu senhor. Velozes eles se ergueram e com velocidade alada passaram por sobre Hithlum, e chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas. (“The Later Quenta Silmarillion II”, Morgoth’s Ring)

A “velocidade alada”, no entanto, não é realmente a pista para o modo de viagem dos Balrogs. A passagem acima foi retirada de um texto datado por Christopher Tolkien como sendo de meados da década de 1950. É um texto pós-SdA, apesar de conter uma história longa e de tons variados, visto que foi baseada em uma cópia datilografada de um texto pré-SdA. JRRT escreveu várias notas e mudanças à mão naquela cópia. Na versão original (publicada em The Lost Road and Other Writings), os Balrogs somente apareciam: “Em seu auxílio vieram os Balrogs que viviam ainda nos recessos mais profundos de sua antiga fortaleza ao norte, Utumno. Com seus chicotes de chamas, os Balrogs destruíram as teias…”

Tecnicamente, os Balrogs pré-SdA viajavam grandes distâncias, mas eles não eram seres flamejantes. Isto é, eles não se tornaram criaturas de “chamas e sombras” até 1940 ou 1941, quando Tolkien revisou “A Ponte de Khazad-dum”, abandonando o Balrog original de braços longos pela versão sombria e flamejante que ameaça a Sociedade. Christopher Tolkien já discutiu as datas do desenvolvimento deste capítulo em The Treason of Isengard, para aqueles que queiram verificar minhas justificativas.

Por que os Balrogs chegam numa “tempestade de chamas” em Lammoth? Uma tempestade é uma tormenta, e tormentas vêm naturalmente do céu. O argumento de similaridade implica que os Balrogs vieram voando, com ou sem asas. Então será que o Balrog de Moria voava naquela hora? Não sabemos. Mas sabemos que demorou um bom tempo para chegar no fundo do precipício. É possível que o Balrog pudesse retardar sua queda. Ele não teria de depender do agitar de asas, se seu corpo fosse não-substancial de alguma forma. Ou talvez ele somente manuseou o calor e usou-o como uma espécie de propulsão de foguete natural. Tolkien não insiste nos detalhes da Longa Queda, mas ele fornece algumas pistas que podem ou não nos conduzir na direção correta de seus pensamentos.

Porém, o Balrog claramente não é uma criatura de carne e osso. Nenhuma criatura desse tipo pode sobreviver sendo consumido pelo fogo, uma vez que as chamas iriam saltar para sua cabeleira e incendiá-la. E é quase certo que este Balrog queima:

A figura escura, envolvida em fogo, corria em direção a eles. Os orcs gritavam e avançavam para a passarela de pedra. Então Boromir levantou sua corneta e a tocou. Forte o desafio soou e retumbou, como o grito de muitas gargantas sob o teto cavernoso. Por um momento os orcs estremeceram e a sombra flamejante parou. Então os ecos se extinguiram de repente como uma chama apagada por um vendaval, e o inimigo avançou outra vez (Extraído de “A ponte de Khazad-dum”, A Sociedade do Anel)

Observe como Tolkien descreveu o Balrog neste ponto de seu avanço contra a Sociedade: “sombra flamejante”. O que quer que seja, não está simplesmente projetando uma sombra. Não é possível ele ser capaz de projetar uma sombra, uma vez que está em chamas. Portanto, o que é esta escuridão que Tolkien chama de “sombra”?

Quando o Balrog enfrenta Gandalf na ponte, Tolkien escreve:

– Você não pode passar – disse ele. Os orcs estavam quietos, e fez-se um silêncio mortal. – Sou um servidor do Fogo Secreto, que controla a chama de Anor. Você não pode passar. O fogo negro não vai lhe ajudar em nada, chama de Udun. Volte para a Sombra! Não pode passar!

O Balrog não fez sinal de resposta. O fogo pareceu se extinguir, mas a escuridão aumentou. Avançou devagar para a ponte, e de repente saltou a uma enorme altura, e suas asas se abriram de parede a parede, mas ainda se podia ver Gandalf, brilhando na escuridão; parecia pequeno, e totalmente sozinho: uma figura cinzenta e curvada, como uma árvore encolhida perante o início de uma tempestade. (Ibid.)

Bem, agora que as chamas diminuem, certamente se espera que a escuridão aumente… exceto pelo fato que agora o Balrog está bem em frente de Gandalf, cujo cajado emite luz (ou melhor, ele próprio está iluminado, pois está “brilhando na escuridão”). E há ainda o precipício em chamas atrás dele, então se esperaria que a Sociedade estivesse pisando na sombra do Balrog, e não a vendo.

Gandalf fala sobre o “fogo negro”, dizendo que ele não ajudará o Balrog, e chama este de “chama de Udun”. Essa criatura está claramente associada ao fogo, e ainda assim sua escuridão sobrepuja qualquer luz natural e quase oblitera a luz angelical de Gandalf.

Desta forma, tratar a escuridão do Balrog como sendo uma sombra real e natural qualquer é um absurdo tão grande quanto insistir que as “asas” (aquelas extensões da escuridão que parecem ter forma de asas) devam ser asas físicas e passíveis de serem utilizadas, ou mesmo asas que tenham qualquer capacidade de erguer e sustentar o Balrog num vôo. Se nos afastarmos da cena por um momento e a reduzirmos a uma linguagem corporal simples, poderemos ver que o Balrog gradualmente aumenta a si mesmo de tamanho, expandindo sua escuridão exterior (que chamei de emanação, mas não sabemos realmente o que é) para fora e além de seu corpo.

A Sociedade recua perante o Balrog, mas em determinado momento Boromir detém-se e sopra sua corneta. O som é tão intimidador que mesmo o Balrog hesita. E assim Boromir começa uma variação das brigas que ocorrem geralmente em pátios escolares. A resposta do Balrog é tornar a avançar, agora com uma nuvem completamente estendida de escuridão, com tal poder dominante que quase engolfa Gandalf na ponte. A despeito do fogo por trás dele, e a despeito da luz emanando de Gandalf diante dele, o Balrog cria e estende uma parede de escuridão que se torna o foco da atenção de todos, mesmo que por um breve momento.

Sombras naturais não funcionam dessa forma.

Muitos anos atrás, quando a ansiedade pelo filme de Peter Jackson nos matava, a Batalha sobre as Asas de Balrog atingiu seu ápice. Apenas a título de curiosidade, organizei uma enquete para ver quantas pessoas achavam que os Balrogs deviam ter asas. Dentre as mais de 3 mil respostas, cerca de 74% disseram que o Balrog devia ter algum tipo de asas. Não havia no entanto consenso sobre que tipo de asas elas deviam ser. O Balrog do filme, como vimos, tinha asas de “fumaça e sombra” e talvez mais fumaça que outra coisa. Eu acho que a fumaça foi colocada para cobrir a sensação de escuridão com a qual o Balrog do livro se cercou.

Porém, este assunto é discutido com tanta freqüência – de uma forma ou de outra – que vários fóruns hoje proíbem as discussões sobre asas de Balrog. As pessoas que levantam o tópico são tratadas com desdém na esperança que o assunto morra. Afinal de contas, como disse Rudyard Kipling “O Leste fica a leste e Oeste fica a oeste, e nunca os dois encontrar-se-ão”. As pessoas simplesmente se recusam a mudar de idéia.

Portanto, talvez não devêssemos ficar muito surpresos ao ver o assunto tratado, por mais breve que seja, em The Lord of the Rings: a Reader’s Companion, onde três frases completas são dedicadas ao assunto:

330 (I:344). a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas – esta e a declaração de dois parágrafos depois, sobre ele saltar a uma enorme altura e suas asas se abrirem de parede a parede, conduziu a várias discussões entre os leitores sobre se os Balrogs possuem asas. Como duas grandes asas no primeiro parágrafo descreve a sombra que envolve o Balrog, e o segundo ainda parece aplicável a sua sombra: à medida que o Balrog aumenta de estatura, assim também sua sombra espalha-se ainda mais. Outras evidências citadas para asas, tais como as que o os Balrogs erguem-se e passam com velocidade alada por sobre Hithlum (Morgoth’s Ring, p. 297,) podem ser geralmente interpretadas de forma figurativa.

Bem, há dois erros nesta passagem. Primeiro, a declaração que “à medida que o Balrog aumenta de estatura, assim também sua sombra espalha-se ainda mais” é inconsistente tanto com a declaração prévia feita por Hammond e Scull (onde eles reconhecem que “o Balrog em O Senhor dos Anéis é certamente um ser de fogo e escuridão;…”) e com a primeira passagem na qual “como duas grandes asas” surge. O Balrog não aumenta sua estatura ali, mas mesmo assim a sombra claramente se estende para o exterior. E segundo, como eu observei acima, a passagem de Hithlum não depende da “velocidade alada” para mostrar que os Balrogs possuem asas, depende da “tempestade de chamas” para mostrar que eles vêm do céu (na versão pós-SdA dos eventos).

Tolkien usa “tempestade de chamas” somente em uma outra passagem (publicada), quando Morgoth libera os dragões alados (e voadores) contra as Hostes de Valinor. Os dragões claramente voam e cospem fogo, assim a comparação com tempestade é bem colocada. Foi observado que “velocidade alada” é usada para descrever a presteza com que Fingolfin cavalgou por Ard-Galen depois da Dagor Bragollach. Desta forma, “velocidade alada” não precisa significar o uso de asas, mas só porque foi usada de forma figurativa sobre a velocidade dos cavalos (para denotar velocidade em sentido metafórico) não significa que é usada somente daquela forma com relação aos Balrogs – a não ser que alguém se sinta tentado a argumentar que Balrogs são “como cavalos” de alguma maneira.

O uso da similaridade por Tolkien para ilustrar uma transição de idéias vagas para idéias mais claras foi engenhoso no sentido de que deixa muito para a imaginação do leitor. Ele certamente dedicou algum tempo e esforço a essa passagem. Em 1998, outra pessoa que acreditava firmemente que Balrogs não tinham e nunca deveriam ter asas, recorreu para a voz com a maior autoridade neste assunto. Ele escreveu para Christopher Tolkien e fez uma pergunta que, até hoje, não foi revelada (para mim). Deduzi a partir do que ele compartilhou abertamente da resposta de Christopher que ele não perguntou simplesmente se Balrogs deviam ou não deviam ser vistos como seres alados. A carta foi enviada após uma longa troca de correspondência a respeito de diversas mudanças textuais que Christopher havia discutido em detalhe em The Treason of Isengard. A resposta de Christopher, como informado pelo correspondente, foi:

Geralmente não me era enviado o material tardio de Markette (sic) – os textos datilografados por meu pai – e em muitos casos nem sequer os vi… Assim, nunca li o texto datilografado final (o seguinte à cópia passada a limpo do manuscrito C (The Treason of Isengard, pp 203-33) de A Ponte de Khazad-dum (Markette n.º 3/3/25). Presumo que foi aí onde entrou a menção das asas do Balrog que se abriam de parede a parede. Você poderia pedir a Chuck Elston, o muito solícito arquivista de Markette, que lhe procure o 3/3/
25. Contudo, provavelmente não lhe seria muito útil, sem nenhum conhecimento preciso de quando meu pai datilografou-o: mas em uma carta de 28 de fevereiro de 1949, ele escreveu: “Estou achando o trabalho de datilografar uma cópia passada a limpo do ‘Senhor dos Anéis’ m. grande”. Eu, pessoalmente, nunca achei que a segunda menção das asas do Balrog tenha nenhum significado diferente da primeira.

Assim, aqui você tem uma resposta de uma autoridade maior que Michael Martinez ou Wayne Hammond ou Christina Scull. Faça dela o que achar melhor.

Compre The Lord of the Rings: A Reader’s Companion para sua coleção, especialmente se você faz qualquer tipo de pesquisa sobre Tolkien (para si mesmo ou para outros). É de longe uma fonte  muito melhor que muitas outras que há por aí nas livrarias ou na Internet. Apenas pule as partes que você não gostar.

Os comerciantes da Terra-média

Os comerciantes da Terra-média
 
Por Michael Martinez

De vez em quando alguém pergunta que moeda era usada na Terra-média. É
difícil de encontrar evidência de moeda (dinheiro) em O Senhor dos
Anéis, mas existem sim algumas referências sobre isso. Quando Gandalf
chegou à Vila dos Hobbits com uma carroça com fogos de artifício para o
último aniversário de Bilbo e Frodo juntos, crianças hobbits o seguiram
até Bolsão esperando por uma apresentação do mago. Ao invés disto,
Bilbo atira para elas alguns centavos e as manda embora. Mestre Gamgi
também relata que Bilbo é esbanjador em se tratando de dinheiro
enquanto fala com os amigos.

 
 
 

Tolkien chega a dizer no capítulo “Three Is Company”, que em português
é “Três não é demais”, que Frodo compra uma casa em “Cricôncavo” no
campo além de Buqueburgo. Frodo, mais tarde, vende Bolsão para a
família Sacola-Bolseiro, os inoportunos primos que há tempos esperavam
herdar a fortuna de Bilbo e a casa antes dele adotar Frodo.

A moeda aparece novamente quando os cavalos e pôneis são roubados do
estaleiro em Bri. Carrapicho paga a Merry 18 moedas de prata para
compensá-lo pela perda dos pôneis dos Hobbits e compra um pônei de Bill
Samambaia por outras 12 moedas de prata, 3 vezes o que o pônei valia
naquelas partes. Depois deste ponto, os Hobbits e seus companheiros,
depois que estes se juntam, são providos de suprimentos e transporte
pelas várias pessoas que os ajudam pelo caminho, logo a citação de
moeda se torna por demais superficial pelo resto da história.

“Pennies” ou moedas, são unidades surgidas no oitavo século
Anglo-Saxão, cunhadas e modeladas na contemporaneidade, mas rejeitadas
mais tarde pelos Francos. Offa, Rei da Mércia, expandiu a produção de
“penny” depois de conquistar o reino de Kent, o qual começou a cunhar a
moeda por volta de 765. As primeiras “pennies” foram, deste modo,
distintas das “pennies” de hoje. Elas eram feitas de prata e foram as
principais moedas do reino Anglo-Saxão do século VIII em diante, assim
como a “solidus” (moeda romana de ouro) tinha sido a principal moeda do
império Romano séculos antes. “Pennies” substituíram uma velha moeda,
chamada “sceat”, a qual foi usada no comércio entre os anglo-saxônicos
e os escandinavos.

A prévia publicação de “O Senhor dos Anéis” foi forçada a resumir o
extensivo material que ele havia preparado para os apêndices. Dentre as
passagens excluídas, a qual foi somente publicada no “The peoples of
Middle-earth” de forma breve, mas fascinante seção detalhando os nomes
do dinheiro usado em Gondor. O “tharni”, que nós sabemos, era a moeda
de prata, a quarta parte de um “castar”. O “tharni” pode, deste modo,
ter sido equivalente as moedas de prata (silver pennies) de Eriador.

O equivalente élfico para “tharni” e “castar” eram “canath” (do kanat-,
‘four’) e “mirian” (do mir, ‘uma jóia ou preciosidade’). "The
Etymologies" fornece a palavra primitiva, “mbakh”, significando
‘troca’, pela qual as palavras para ‘comércio’ e ‘comerciante’ são
derivadas no Qenya (precursor do Quenya). Existiam também palavras para
‘mascate’ e ‘mercadoria’ em Sindarin.

O fato das línguas antigas da Terra média reconhecer palavras como
‘comércio’ e ‘comerciante’ dá a entender que Tolkien chegou a pensar
nas atividades econômicas no começo, entre Elfos e Anões, entretanto
ele não providenciou detalhes destas atividades. Nós não sabemos na
verdade se ‘moedas’ eram usadas em Beleriand, por exemplo, mas Círdan
segundo boatos comercializou ou deu pérolas para Thingol, quem
abastecia destas os anões de Ered Luin.

Os anões construíram estradas ‘do começo ao fim’ da Terra-média no
início desta história. Os anões de Ered Luin construíram uma ou duas
estradas levando a Doriath, e a rota, eventualmente, estendia por todo
caminho para Nargothrond (a qual eles ajudaram a erguer). O comércio
anão passava pelo Dor Caranthir, e Caranthir é dito que se tornou rico
por este. Então ele presumivelmente cobrou encargos de algum caráter em
troca de manter as rotas a salvo e em segurança. Ele pode também ter
suprido os anões com comida, no “The people of Middle-earth” é contado
a nós que os anões não cultivam a sua própria comida.

Os anões só ajudaram a construir duas cidades em Beleriand que nós
saibamos: Menegroth e Nargothrond. Os Noldor tinham seus próprios
pedreiros para contar e eles presumivelmente construíram suas torres de
pedra sem a ajuda anã. Entretanto Anões e Noldor trocavam conhecimentos
e forjavam produtos, ao que parece. O potencial do comércio é neste
caso considerável, pelo menos mais ao leste de Beleriand.

Fora de Beleriand os anões tinham um sistema de estradas se estendendo
pelo menos de Ered Luin a todo o caminho para as Colinas de Ferro e
aparentemente mais longe. Os anões, como parece, se comprometeram de
certo modo com o comércio com elfos Avari e Nandorin, bem como os
Edain, mas nós não sabemos se a moeda era um meio de troca ou se a
troca de mercadorias e serviços eram os primeiros sinônimos de comércio.

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Na segunda era, a civilização Eldar se difundiu de Lindon (o último
refúgio de Beleriand), do leste e sul para Eregion e Edhellond.
Edhellond era apenas um assentamento, um território de Sindarin e
Nandorin, que aparentemente desejavam permanecer isolados de Gil-Galad
e seus Noldor que dominavam um reino no norte. Eregion era considerado
parte do reino Noldor, mas a sua população incluía pelo menos alguns
Sindarin e/ou Nandorin.

Eregion também estava envolvida em alguma espécie de comércio com
Khazad-dûm, a qual o comércio era tão produtivo que os anões escavaram
um túnel por milhas através das Montanhas Nebulosas na disposição de
prover os elfos com uma ponte para o seu reino subterrâneo. Antes deste
tempo, os anões tinham de passar externamente as montanhas, também ou
pelo Passo do Chifre Vermelho (a qual deu a eles acesso a Eregion) ou
indo ao norte para o Passo Alto onde a estrada primitiva atravessava
Eriador passando perto de onde Elrond mais tarde fundou o refúgio de
Valfenda.

Entretanto parece ter sido virtualmente pequeno ou nulo o comércio
entre Beleriand e as terras mais ao leste na primeira era, a segunda
era se realizou um incremento em Eriador e nas Terras Ermas. Duas
imigrações, do leste, ocorreram no início da Segunda Era, o que trouxe
contato mais próximo de Khazad-dûm com a civilização de Beleriand. A
primeira migração (grande êxodo) foi a dos anões de Ered Luin no
primeiro século. As cidades mais antigas de Nogrod e Belegost foram
arruinadas na Guerra da Ira. Os anões de Belegost também pareceram ter
sido perturbados pela guerra entre Doriath e Nogrod. Conseqüentemente,
muitos deles partiram e foram para Khazad-dûm, aonde eles aumentaram a
população e infundiram no povo de Durin o conhecimento que eles
ganharam com os Noldor e Sindar.

A segunda migração foi dos elfos, quando muitos Noldor e Sindarin
passaram para o leste. Alguns dos Sindar passaram as montanhas e
organizaram reinos em meio a elfos da floresta nos Vales do Anduin
(pelo menos dois, possivelmente mais). Estes elfos que fundaram Eregion
criaram um centro de comércio, o qual atraiu até mesmo os númenorianos
a estabelecer uma espécie de porto ou colônia perto “Tharbad” no rio
“Gwathlo”. Entretanto nós não podemos saber com certeza, o quanto
extensiva era a influencia de Eregion, a região estava em uma posição
de comércio com os homens de Eriador, os elfos de Lindon e os Vales do
Anduin, os anões de Ered Luin das Montanhas Nebulosas, e Númenor.

Tudo isto chega a um fim, de qualquer modo, na guerra dos elfos e de
Sauron. Eriador e as Terras Ermas foram devastadas e muitos da
população local foram mortos ou partiram. A grande civilização élfica
foi não foi destruída, mas virtualmente se dirigiram de volta ao mar,
salvos por poucas terras que sobreviveram em vales e nas profundezas
das florestas. A guerra criou uma economia e política nula, a qual os
númenorianos subseqüentemente ocuparam, substituindo a velha cultura
élfica de tal modo que pelo fim da era, Adunaico, a língua nativa de
Númenor, deu espaço ao Westron, o qual substituiu o Sindarin como
língua comum para o noroeste da Terra-média.

Os númenorianos estabeleceram colônias por toda parte da Terra-média e
eles começaram a se acomodar largamente em Eriador bem como ao longo as
margens do sul do Anduin. As duas grandes cidades deles no mundo do
norte eram Lond Daer Ened na boca de Gwathlo e Pelargir na boca do
Anduin. Mas novamente Tolkien não nos fala de comércio que os
númenorianos devem ter conduzido nestas regiões. Lond Daer foi
originalmente fundada como um porto sazonal de Aldarion entre o século
VIII e IX. Ele usou isso como base para “armazenar”, “cultivar” árvores
com as quais se construíam navios e ele não parece ter compensado os
habitantes nativos (os “Gwathuirim”, parentes distantes dos
númenorianos) de modo algum.

O nome Pelargir implica que o local era um porto real e uma
fortificação, ‘royal garth of ships’*. Pelargir pode ter servido como
uma base de operações para os Númenorianos nas guerras que se seguiram
contra Sauron, porém eles nunca montaram uma grande expedição contra
Mordor partindo dali. Ao contrário, o local parece ter servido para
manter protegidos os colonos que moravam ao longo da costa do Anduin, e
os navios de Pelargir deviam estar mais envolvidos em assegurar as
terras costeiras aonde “os Gwathuirim” viviam.

* “jardim real de navios”.

O vasto Império de Númenor parece ter desenvolvido um comércio que
beneficiou a ‘terra-mãe’, assim como o Império colonial britânico
beneficiou a metrópole nos séculos XVII e XVIII. A riqueza teve um
fluxo para Númenor maior que o de Númenor para suas colônias. Assim as
colônias proviam matéria-prima, escravos e tributos aos Númenorianos,
exceto quando, ocasionalmente, algum aventureiro estabelecia algum
pequeno reino.

Então o comércio no Noroeste da Terra-média provavelmente estava
fechado do tempo da Guerra dos Elfos contra Sauron ao tempo de fundação
de Arnor e Gondor. A chegada de Elendil e os Exilados Fiéis de Númenor
seria precedida por um gradual aumento de colonos Fiéis que dependeram
menos e menos da ajuda de Númenor e mais da ajuda de Elfos e Anões.
Comércio e troca deviam ter revivido um tanto, especialmente depois que
Ar-Pharazôn tomou Sauron para Númenor e reduziu a influência do Senhor
do Escuro na Terra-média o suficiente para permitir que Gil-Galad
estendesse a sua própria influência a leste e aos Vales do Anduin.
Elendil, deste modo, encontrou uma grande e produtiva população
esperando por ele e seus filhos em Eriador e nos Vales do Anduin
localizados mais ao sul. Estas pessoas, Númenorianos, Edain, e homens
de linhagem mista, começaram a trabalhar construindo grandes cidades
(Annuminas e Fornost Erain no Norte, Minas Anor, Minas Ithil e Osgliath
no sul), imponentes fortalezas (Angrenost e Aglarond em Calenardhon), e
ricos e poderosos reinos. Nos primeiros anos Arnor e Gondor se
comunicavam principalmente por navios (não considerando as mensagens
passadas através dos Palantíri). Navios deixavam Pelargir ou Osgliath e
navegavam norte para o Rio Gwathlo, aonde eles passavam rio acima para
Tharbad (Lond Daer Ened estava aparentemente por agora destruída ou a
muito abandonada).

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Ambos os reinos tiveram extensivas fazendas com as quais alimentavam
suas populações, mas se Arnor tivesse se empreitado a alimentar os
Anões das Montanhas das Névoas, Gondor poderia ter encontrado algum
benefício em mandar comida para o Norte também. Claro, comércio
incluiria também itens de luxo como peles, jóias, metais preciosos,
vinhos, e tecidos especiais, tintas, e perfumes. Uma economia provida
de dinheiro provavelmente existiu previamente a fundação do reino no
exílio dos Dúnedain.

A grande riqueza que os exilados acumularam nos seus primeiros 110 anos
ajudam a explicar como Elendil e seus filhos puderam construir um
grande exército. Exércitos precisam ser pagos, equipados, e supridos, e
somente uma economia forte poderia ter suportado as imensas forças que
Elendil e seus aliados reuniram para os 10-12 anos de guerra que eles
experimentaram.

No tardar da Segunda Era, Arnor e Gondor estavam provavelmente isoladas
do resto Númenoriano da Terra-média. As terras mais ao sul controladas
pelos Reis Homens, os quais se tornaram os Númenorianos-Negros,
apoiadores ou Sauron e tradicionais inimigos dos Fiéis. Gondor, dessa
forma, teria sido uma parceira mais jovem nas relações econômicas entre
os Dúnedain Fiéis e seus aliados. Mas depois que Sauron estava
derrotado e Isildur estava perdido nos Vales do Anduin, Gondor foi
levada pela corrente para longe da esfera de influencia de Arnor. Como
Arnor decaiu em população, riqueza e poder, Gondor estendeu suas
fronteiras ao norte, leste e sul, entrando em contato com populações as
quais tinham estado fora da influência de Gil-Galad.

A mudança para fora de Arnor na política de Gondor deve ter ferido a
economia do Reino do Norte. Com o declínio de Lindon como uma das
principais forças, Arnor tinha apenas os Anões para negociar, e Tolkien
não conta para nós nada sobre suas relações na Terceira Era. O influxo
dos Hobbits, no início do segundo milênio, indubitavelmente trouxe nova
riqueza para os reinos de Rhudaur e Cardolan, mas eles não poderiam
reabilitar os Dúnedain do norte à sua forma e poder.

A situação em Eriador deve ter sido muito confusa por vários séculos.
Com três reinos Dúnedain, havia provavelmente três cunhagens. Será que
Elfos e Anões também cunhavam suas própria moedas? Disparidades em
recursos e a constante briga e hostilidade entre os reinos Dúnedain
teriam, mais adiante, enfraquecido a economia do norte. Mercadores
Anões provavelmente passavam com impunidade através de Eriador. Elfos
provavelmente não eram perturbados também. Mas o povo de Círdan e os
remanescentes do reino de Gil-Galad estavam diminuindo. Esperanças para
o comércio teriam sido limitadas. Os Anões ainda precisavam de comida,
os Dúnedain ainda precisavam minérios e talvez pedras para construção.

O crescimento do reino de Angmar ao norte teria, realmente, ajudado a
estabilizar a situação entre os Dúnedain de algumas maneiras. Rhudaur
foi destruída cedo e Cardolan tão enfraquecida se tornou virtualmente
reintegrada dentro do reino de Arnor (Arthedain). A influencia de
Arthedain, deste modo, cresceu com a intervenção de Lindon e Valfenda
(Elrond até alistou ajuda de Lothlorien nas guerras contra Angmar). Uma
única cunhagem Dúnedain teria sido, assim, restaurada para o norte e é
duvidável que Eriador, em algum tempo, tenha tido uma cunhagem diversa
de novo. Por conseguinte, as “pennies” que Bilbo e Carrapicho deram
eram provavelmente equivalentes em valor e forma.

De 1409 para diante, a economia de Eriador teria sido dominada por três
regiões: Fornost Erain, no sul, fim das Colinas do Norte; Bri, no
cruzamento das grandes estradas; e Tharbad no cruzamento do rio
Gwathlo. Tharbad estava em sério declínio, já que foi originariamente
um forte e um centro de comércio para os Dúnedain. A economia e os
interesses políticos de Gondor no norte estavam nesse tempo em declínio
e a última guarnição militar Gondoriana foi extraída de Tharbad depois
da Grande Peste de 1636.

O grande influxo dos Grados às Terras Pardas por volta de 1300, o que
beneficiou Tharbad economicamente, foi contrabalançado pela morte da
população desses na Grande Peste. Os únicos Grados, que sobreviveram no
Oeste das Montanhas Sombrias daquele tempo em diante, eram aqueles que
haviam recentemente migrado fundado o Condado além do rio Brandevim. A
Peste também exterminou a maioria da população de Cardolan e o
organizado assentamento efetivamente rumou para um fim entre Tharbad e
Bri. Tharbad foi, deste modo, isolada do resto de Eriador e sua
população provavelmente nunca se recuperou totalmente dos efeitos da
Grande Peste.

Arnor sobreviveu outros 338 anos, mas sua população diminuiu. O
Condado, Bri, Fornost Erain, e Tharbad eram as únicas regiões
produtivas que restavam. Fornost e o Condado foram ambas dominadas na
invasão final lançada por Angmar. O Condado foi posto em ordem, mas
Fornost estava finalmente abandonada pelos Dúnedain que provavelmente
escaparam para as profundezas das Colinas do Norte.

Pelo resto da Terceira Era, a atividade econômica de Eriador avançou
com dificuldade. Poucos viajantes passavam por Bri e o Condado, mas não
havia mais uma fundação para suportar um comércio significante. O
Condado aparentemente continuou a suprir comida para os Anões de Ered
Luin, que incharam em número depois que a civilização de Khazad-dûm foi
destruída pelo Balrog em 1980-1. Bri permaneceu como um importante
ponto de parada em uma jornada através de Eriador, mas não era mais
vital às necessidades do reino do norte. Então a pergunta quanto a quem
cunhava o dinheiro que apareceu é pertinente.

Provavelmente os Anões de Ered Luin proviam o dinheiro para Eriador.
Eles teriam precisado dele para pagar a comida comprada do Condado e
isso teria beneficiado Bri a respeitar o seu uso também. Se os Elfos de
Lindon e Imladris faziam uso do dinheiro então faria lógica para eles
usar a moeda anã também.

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O Condado expandiu um pouco no vigésimo quarto século da Terceira Era,
quando o Velho Brandebuque fundou a Terra dos Buques, “na prática um
pequeno e independente país” como Tolkien descreveu. Não é claro porque
o Velho Buque sentiu a necessidade de fundar uma nova terra além do rio
Brandevim, mas é concebível que a influencia e autoridade do Thain
estava nesse período declinando. Quando ficou claro que os Dúnedain não
restabeleceriam o reino do norte, os chefes do Condado elegeram Bucca
do Pântano para ser seu Thain, essencialmente para ser um rei local.
Mas os Thain, apesar da hereditariedade, tinham pouco poder no final da
Terceira Era.

Então o Velho Buque pode ter desejado estabelecer uma terra aonde ele
teria uma autoridade maior que no Condado. O efeito desta colonização,
de qualquer forma, foi um rejuvenescimento da atividade entre os
Hobbits do Condado e os Hobbits de Bri. Os Brandebuques comercializavam
com ambos, Condado e Bri.

330 anos mais tarde, Tobold Corneteiro revolucionou a economia da
Quarta Sul plantando a erva-de-fumo. Entretanto os habitantes de Bri
foram os primeiros a fumar a folha, a Quarta Sul eventualmente se
tornou a primeira origem deste item de luxo e sua reputação se estendeu
a Isengard e provavelmente além. Anões pegaram o hábito do fumo dos
Hobbits, e eles podem ter comprado suprimentos para enviar a parentes
em terras distantes.

É, deste modo, evidente que o Condado estabeleceu uma pequena, mas
prospera economia mercante com Bri, Terra dos Buques, os Anões de Ered
Luin, e provavelmente Tharbad e Terras Pardas. Comércio com o sul
provavelmente caiu em silêncio, estagnou-se depois que Tharbad foi
abandonada no trigésimo século, mas Saruman parece ter desenvolvido uma
forte conexão com os Sacola-Bolseiros por volta de 3000 em diante.

A influência de Bri decaiu firmemente durante todo o fim da Terceira
Era, mas parece que os Dúnedain de Eriador usavam Bri como um centro de
operações. Eles podiam comprar suprimentos lá e recolher notícias assim
como organizar as atividades de seus Guardiões, as quais parecem ter
focalizado em proteger Bri, o Condado e a Terra dos Buques, e seus
próprios lares. Em “No Pônei Saltitante” Tolkien escreve que os
Guardiões viviam a leste de Bri, e a menção de Cevado Carrapicho a
Frodo: “não dá para explicar o leste e o oeste, como dizemos aqui em
Bri, referindo-nos as excentricidades dos Guardiões e do pessoal do
Condado”, implica que os habitantes de Bri estavam consideravelmente
certos de que os Guardiões viviam nas terras orientais.

Aragorn menciona uma instalação abandonada distante um dia de jornada a
leste de Bri, implicando que este é o último sinal de uma civilização
em Eriador entre Bri e Imladris. Se for este o caso, então parece
improvável que os Dúnedain de Eriador realmente moravam diretamente a
leste de Bri. Não havia muito lá, exceto pelas Colinas dos Ventos,
depois do Pântano dos Mosquitos, e Aragorn contou aos Hobbits que
ninguém vivia nas Colinas. Em outra ocasião, ele se arrisca ao sul de
Topo do Vento para encontrar Athelas perto de um velho lugar aonde sua
gente tinha acampado ou se estabelecido uma vez, logo é concebível que
os Dúnedain moravam nas Colinas do Norte e/ou do Sul (provavelmente
mudando constantemente e então evitando serem detectados por espiões de
Sauron).

Os Dúnedain não estavam com muito poder econômico ao fim da Terceira
Era, mas seu ocasional tráfego combinado com a passagem dos Anões na
estrada teria ajudado a manter a estalagem de Bri, o Pônei Saltitante,
nos negócios. Mas parece claro que o tráfego era insuficiente por si
só. Carrapicho parece ter servido como o responsável pelos cavalos no
vilarejo de Bri, já que muitos dos cavalos locais e pôneis eram
mantidos no seu estábulo.

Comércio existia em outra parte do mundo mais ao norte. Os homens da
Cidade do Lago trocavam com os Elfos do norte da Floresta das Trevas e
alguns Homens do Norte não nomeados vivendo mais distante ao sul, no
rio Celduin. A misteriosa terra de Dorwinion nas costas ao Noroeste do
interior do Mar de Rhûn proviam essas pessoas com um bom vinho. O
restabelecimento de Vale e Erebor no Século XXX fortaleceu a economia
regional consideravelmente, mas ainda era uma grande e isolada região.
As ordens especiais de Bilbo para presentes de Vale e Erebor eram muito
provavelmente feitas por razões sentimentais melhor que uma preocupação
com o costume. NO Hobbit parece que Bilbo nunca tinha escutado sobre
Vale e Erebor antes de Thorin contar a ele a história de como Smaug
destruiu os dois reinos.

A despeito de todas essas visões de troca e comércio passando ao longo
das estradas da Terra-média, havia um limite para a economia da
história do mundo de Tolkien. O Condado desenvolveu algum tipo de
governo, mas aparentemente faltou riqueza para manter uma grande
burocracia. Os agentes postais e condestáveis respondiam ao prefeito de
Grã-Cava que gerenciava o Serviço de Mensagens e Patrulha (condestáveis
e fronteiros).

Tolkien escreveu no Prólogo de O Senhor dos Anéis “nessa época o
Condado mal tinha um ‘governo’. Na maioria das vezes as famílias
cuidavam dos seus próprios negócios. Cultivar comida e come-la ocupava
a maior parte de seu tempo. Em outros assuntos eles eram, em geral,
generosos e não gananciosos, mas satisfeitos e moderados, de modo que
terras, fazendas, oficinas, e pequenos comércios tendiam a permanecer
inalterados por gerações”.

Entretanto o Serviço Postal empregava mais Hobbits que o a Patrulha,
quando os convites e ordens de Bilbo para a Festa inundaram os correios
da Vila dos Hobbits e Beirágua , “carteiros voluntários estavam sendo
procurados”. O fato de voluntários serem precisos implica que não havia
provisões para empregar extra (mesmo que temporários) trabalhadores, e
seja qual fosse a renda gerada pelo correio era insuficiente para
prover os salários adicionais.

As trocas secretas de Lotho Sacola-Bolseiro com Isengard também parece
implicar que não haviam taxas de exportação. Não é claro como o Condado
pagava pelos 12 condestáveis, muito menos o maior número de fronteiros
e agentes postais. Algum tipo de taxa ou dízimo devia ter existido para
prover sua manutenção, mas eles podem não ter sido significantes. Sem
um grande rendimento base, o “governo” do Condado conseqüentemente não
era muito de fator econômico, mesmo dentro do próprio Condado. Assim, a
maior parte do dinheiro era provavelmente concentrada nas mãos de
várias famílias poderosas como os Tûks, Brandebuques, Bolseiros, etc.
as quais cuidavam dos seus próprios negócios.

A presença de estábulos e tavernas por todo o Condado implica uma
quantidade justa de atividade social e viajante. Estes locais
provavelmente serviram como centros de suas vida sociais nas
comunidades e provavelmente eram localizados perto de quaisquer
mercados estabelecidos nas vilas. É duvidável que existiam muitas
pessoas de negócios poderosas como Lotho Sacola-Bolseiro, que comprou
muitas fazendas e plantações na Quarta Sul. Seus empreendimentos eram,
pelo menos, em parte financiados por Saruman.

Como sempre, eu tenho apenas sido capaz de tocar por cima desses
assuntos, mas eu penso ser evidente que Tolkien devotou um considerável
pensamento ao dinheiro e economia na Terra-média, entretanto seria
impossível documentar completamente as atividades de troca de várias
pessoas. A escala de troca era provavelmente sempre pequena, exceto no
suprimento de comida para grandes exércitos ou nações Anãs. Tolkien
provavelmente não imaginou uma economia maciça, mas ele parece ter
estado ciente que os comerciantes antigos vaguearam pela Europa por
milhares de anos e na construção da Terra-média ele permitiu uma ampla
e estável economia.

 
———- 
 

Contos Misteriosos da Terra-média

Não ouvimos falar com freqüência sobre as histórias de fantasmas que as
pessoas deviam contar umas às outras na Terra-média. O trabalho de
Tolkien é permeado por lendas bem trabalhadas que possuem, geralmente,
de fato um embasamento (dentro do escopo de sua pseudo-história), mas
quando paramos para considerar as imensas expansões de tempo que a
pseudo-história da Terra-média cobre, devemos nos perguntar quão
artificiais essas lendas se tornaram.
 
 
 
Todos já ouviram falar da história sobre o louco
que escapa de um sanatório e quase mata um casal jovem em uma estrada
escura, deixando sua garra pendurada na porta do carro (este seria, é
claro, um carro bastante antigo). Talvez essa história deva um pouco ao
mito nórdico do deus da guerra Tyr, que colocou sua mão na boca de
Fenris, deixando o lobo arrancá-la, enquanto os Aesir acorrentavam o
lobo. Tyr deveria ser um tanto quanto louco para fazer isso.

As primeiras histórias de fantasmas da Terra-média provavelmente foram
os contos há muito tempo esquecidos que os Elfos criaram sobre os
monstros de Melkor antes de Oromë descobrir sua morada em Cuiviénen. "E,
de fato, as canções mais antigas dos Elfos, cujos ecos ainda são
lembrados no Oeste, falam sobre formas sombrias que caminhavam nas
montanhas acima de Cuiviénen, ou passavam de repente pelas estrelas, e
do Cavaleiro Negro sobre seu cavalo selvagem, que perseguia aqueles que
vagavam, para tomá-los e devorá-los."

Os primeiros Elfos
eram um tanto ingênuos, em comparação aos seus sucessores Eldarin. Eles
não sabiam nada sobre quem eram os Valar, como o mundo se tornou o que
é, ou que monstros existiam (originados das criaturas inocentes de
Yavanna, ou Maiar corrompidos que assumiram formas de terror). Nem seus
poderes de mente e corpo estavam desenvolvidos. Será que os Elfos
sabiam, antes de encontrar os Valar, como utilizar suas faculdades
subcriacionais? Seria interessante se os primeiros menestréis Élficos,
que, em eras posteriores podiam "fazer com que as coisas sobre as quais eles cantavam aparecessem em frente aos olhos daqueles que estivessem escutando",
tenham feito canções de poder, onde suas audiências veriam novamente as
terríveis e místicas formas sombrias que rastejavam em seu mundo
outrora agradável.

Oromë levou os Eldar para o Oeste, através
de um mundo assustador, grande e desconhecido, para as margens
ocidentais da Terra-média, e a partir dali a maioria dos Eldar partiu
para uma terra de luz. É difícil imaginar os Altos-Elfos de Aman
vivendo sobre os fantasmas e demônios de seu passado. Eles seguiram o
estudo de alta civilização e arte e construíram grandes cidades e
artefatos poderosos. Mas os Eldar que permaneceram na Terra-média, os
Sindar, foram deixados na escuridão (ou na fraca luz das estrelas), e
apesar de por longas eras eles não terem sido perturbados pelas
criaturas de Melkor, ainda tinham razão para conhecer o medo.

Pois os Sindar eram perturbados pelos Noegyth Nibin, os Anões
inferiores, exilados das grandes cidades dos Anões do Leste, que
encontraram seus caminhos para Beleriand. Ali, nas Terras Selvagens
antes da vinda dos Elfos, eles estabeleceram sua própria cultura, da
qual não conhecemos praticamente nada, além do fato que eles eram
reservados e rancorosos. Os Noegyth Nibin atacaram os Elfos, que
revidaram ao caçá-los, sem saber de fato que os Noegyth Nibin eram
decaídos de um estado mais alto de civilização, tomando-os por animais
ou pequenos monstros da escuridão.

Com o tempo, os Sindar se
tornaram amigos dos Anões de Nogrod e Belegost, e eles aprenderam sobre
a verdadeira natureza dos Noegyth Nibin, e os povos deixaram cada um em
paz. Mas os Sindar eram de vez em quando avisados pelos Anões do Leste
que criaturas malignas estavam se multiplicando nas terras além de Ered
Luin. Se os Sindar tivessem tido tempo para esquecer os antigos
monstros, eles eram eventualmente lembrados, quando as criaturas de
Melkor começaram a se rastejar por Beleriand, "lobos… ou criaturas que andavam em forma de lobos, e outros seres sombrios cruéis".

Os Sindar se dividiram em dois grupos: Elfos das Florestas que se
espalharam para o Norte e Oeste a partir de Doriath e os Elfos
navegantes, que moravam nas terras costeiras ocidentais e se espalharam
pelo Norte. Muitos destes Elfos viviam fora das cidades, mais
provavelmente em cidadelas ou vilarejos que nunca apareceram em nenhum
mapa. Mas estando longe dos centros de poder e sabedoria, eles estavam
menos seguros em suas casas e talvez mais propensos para se perguntar
sobre as coisas misteriosas que se rastejavam ao redor deles. Será que
estes Elfos, talvez, cantavam sobre as coisas sombrias que assombravam
Beleriand?

Após o retorno dos Noldor e o começo da Guerra das
Gemas, criaturas sombrias e terríveis teriam se tornado bem conhecidas
através de Beleriand. Imagine se um exército de goblins, vampiros e
lobisomens estivesse prestes a invadir sua terra natal e permanecer
próximo por muitos anos. Você estaria propenso a contar "histórias de
fantasmas", sabendo que os fantasmas estavam logo além da montanha? Os
contos seriam histórias reais, não lendas. As criaturas seriam inimigos
conhecidos, e não terrores maléficos misteriosos.

Não seria
até após o colapso dos grandes reinos que de fato se tornaram lenda
novamente. Homens mortais se lembrariam das histórias e passariam as
mesmas para a frente, mas a cada geração, as histórias se tornaram
menos reais. Será que Dirhavel de Arvenien entendia sobre o que estava
cantando, se ele cantou sobre o conto de Barahir e seus fora-da-lei 70
anos após os eventos terem se desenvolvido? Quantos dos Elfos que
sobreviveram à destruição dos reinos em Arvenien e Ilha de Balar eram
velhos o suficiente para se lembrar das grandes batalhas ou do passado
antigo? Mesmo Elrond, que já era antigo na época da Guerra do Anel,
teria crescido nos dias em que Húrin e Túrin eram apenas memórias dos
homens e mulheres idosas, Hador era um ancestral distante e Cuiviénen
estava há gerações além de sua experiência.

Quão reais os
contos do Lobo-Sauron e Drauglin, pai dos lobisomens, e Thuringwethil,
a mensageira de Sauron em forma de morcego, e Gorlim, o fantasma
infeliz, teriam parecido às gerações de Homens e Elfos que cresceram no
início da Segunda Era? Seu mundo havia mudado. A maior parte de
Beleriand havia sumido. Os grandes reis, que lideraram os Elfos e Edain
na guerra contra Morgoth estavam todos mortos. Os Edain do Oeste
navegaram para construir uma grande civilização e os Edain do Leste
retrocederam às planícies e bosques onde eles lentamente esqueceram que
uma vez alguns de seu povo partiram para o outro lado das montanhas.

E ainda após Sauron ter começado a tumultuar novamente na Segunda Era,
reunindo mais uma vez criaturas maléficas sob seu controle, como
evidência do retorno do mal que se movia através das Terras Élficas, os
Homens devem ter apagado as antigas lendas sobre lobisomens, vampiros,
Orcs e demônios, e recontaram como havia uma vez um senhor do escuro
contra quem somente alguns Elfos e Homens se defenderam valentemente.

E ainda o mal, conseqüentemente, adquiriu um aspecto mais claro, e a
Guerra dos Elfos e Sauron trouxe um fim a muitos reinos Élficos e
Humanos, e muitos séculos de combate existiriam subseqüentemente. A
Segunda Era deve ter originado novas lendas de terror, principalmente
quando os Nazgûl apareceram na Terra-média, mas também pode ser, como
na Primeira Era, que a Segunda Era tenha trazido o mal para muito perto
de casa para as pessoas desenvolverem uma estranha fascinação por ele.
Somente sonhamos com vampiros e lobisomens quando sabemos que eles não
são reais e não podem nos machucar.

Mas a guerra final da
Segunda Era contribuiu para a fundação de uma das maiores lendas de
terror na Terceira Era. Isildur convocou um povo das montanhas para
marchar contra Sauron, e eles recusaram, uma vez que eles outrora
adoravam Sauron como um deus. A esses homens sem fé, Isildur condenou a
desaparecerem como um povo. Eles definharam e morreram, perdidos e
sozinhos nas terras altas, condenados a assombrar suas terras antigas
até o dia em que eles pudessem redimir seus juramentos para um Herdeiro
de Isildur.

O audacioso povo das montanhas de Gondor vivia ao
lado dos Mortos do Templo da Colina, e deve-se imaginar se eles não
passaram longas noites de inverno trocando contos de viajantes
imprudentes que se perderam nos caminhos dos Mortos, ou que encontraram
uma reunião de fantasmas à grande pedra de Erech em tempos
problemáticos. Ninguém sabe como a dama Élfica Nimrodel se perdeu nas
montanhas, mas será que o povo local a adotou como uma vítima de suas
lendas? Será que eles a imaginavam perdida e assustada, possuída pelos
antigos fantasmas?

Os caminhos dos Mortos eram famosos
através das terras dos Dúnedain, ao que parece. Malbeth, o vidente, que
vivia em Arnor, previu que um dia um Herdeiro de Isildur caminharia
naqueles caminhos e acordaria os Mortos. Séculos depois, quando os
Rohirrim se estabeleceram em Calenardhon e Brego, seu segundo rei,
terminou a construção do salão de Meduseld, ele e seus filhos passaram
pelas montanhas e encontraram um homem idoso sentado na entrada do
caminho dos Mortos.

"O caminho está fechado", ele disse a eles. "O
caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os
Mortos o guardam, até a hora chegar. O caminho está fechado."
E
então ele morreu, e o príncipe Baldor resolveu entrar no caminho dos
Mortos e ver por si mesmo que segredos existiam ali. Ele nunca
retornou, e toda Rohan se questionou sobre o que se tornou dele.

Provavelmente os ossos que Aragorn encontrou dentro da passagem eram de Baldor: "Diante
dele estavam os ossos de um homem forte. Estivera vestido de malha
metálica, e sua armadura jazia ainda inteira, pois o ar da caverna era
seco como pó; sua cota era dourada. O cinto era de ouro e granadas, e
rico em ouro era o elmo sobre os ossos de sua cabeça, caída com o rosto
contra o chão. O homem tombara perto da parede oposta da caverna, pelo
que se podia presumir, e diante dele havia uma porta de pedra
hermeticamente fechada: os ossos de seus dedos ainda agarravam as
fendas. Uma espada quebrada e chanfrada jazia ao seu lado, como se ele
tivesse golpeado a rocha em seu último desespero"
.

O que
poderia ter acontecido dentro daquela caverna escura e solitária é que
um dos mais bravos guerreiros de Rohan teria ficado louco e rachado a
rocha em desespero? Ele deve ter sido atacado por um exército dos
Mortos, e procurando uma maneira de escapar e se desviou. Ou talvez ele
meramente sucumbiu ao medo e temor, estremecido a sua própria alma, e
irracionalmente, fugiu impetuosamente na escuridão até não poder mais
encontrar seu caminho, e lentamente, tristemente, passou seus últimos
dias ou horas em vão, procurando admissão em algum refúgio de natureza
duvidosa.

Os Mortos do Templo da Colina não eram as únicas
assombrações a habitar a Terra-média na Terceira Era. Os Nazgûl
surgiram de Mordor no ano 2000 e sitiaram a cidade montanhosa de Minas
Ithil. Após 2 anos eles tomaram a cidade e a transformaram em um lugar
de terror existente, e dizia-se que era a residência de fantasmas e
outros monstros. Até mesmo os Orcs que estavam posicionados ali estavam
enervados pelas criaturas terríveis com as quais os Nazgûl haviam
ocupado a cidade. Todas as terras vizinhas se tornaram desertas,
conforme as pessoas fugiam para o outro lado do Anduin, e com o tempo
somente as pessoas mais audaciosas de Gondor ousavam viver em Ithilien,
que uma vez havia sido uma terra muito agradável e bela.

Os
Nazgûl eram especialmente bons em acabar com as vizinhanças. Séculos
antes o Senhor dos Nazgûl havia rumado para o Norte para estabelecer o
reino de Angmar. Homens serviam a ele, mas também Orcs, Trolls, e
outras criaturas, incluindo espectros. Ele ensinou ou encorajou o povo
das colinas de Rhudaur a praticar feitiçaria, principalmente
necromancia, e na guerra com Cardolan e Arthedain no ano 1409, o Senhor
dos Nazgûl enviou espectros para habitar os antigos túmulos em Tyrn
Gorthad, próxima a Bri. Estes espíritos se tornaram as Criaturas
Tumulares. Eles animaram antigos ossos e ocuparam a terra com pavor e
medo. Seu poder era tão grande que, muitas gerações depois, os esforços
do Rei Araval para recolonizar Cardolan falharam, porque as pessoas não
poderiam viver perto de Tyrn Gorthad.

Quando os últimos
remanescentes do Reino do Norte foram arruinados, criaturas maléficas
ocuparam sua última capital, Fornost Erain, apesar de que depois de
apenas alguns meses elas foram destruídas ou expulsas por um grande
exército de Gondor e Lindon. Muito da terra estava limpa quando a
própria Angmar foi destruída, mas as Criaturas tumulares permaneceram,
e os Homens de Bri ficaram amedrontados em relação às ruínas de Fornost
Erain, conseqüentemente, denominando-as de Dique dos Mortos, porque
eles apenas podiam se lembrar do terror que brevemente havia governado
ali.

Arnor estava quase esvaziada de pessoas, e ruínas foram
deixadas por todos os lugares: Annúminas, Fornost, Tyrn Gorthad, as
colinas de Rhudaur, Topo do Vento. Tharbad, a última cidade de Arnor,
declinou e se tornou uma cidade ribeirinha, e conseqüentemente foi
abandonada após ter sido destruída por severas inundações. Quase toda
Eriador era uma terra vazia e desolada, com cidades esquecidas e
túmulos assombrados.

É um pouco estranho que os Hobbits que
partiram do Condado em 3018 não eram muito mais amedrontados em relação
ao mundo ao redor deles. Eles tinham lendas sobre a Floresta Velha, que
ficava nas fronteiras da Terra dos Buques, uma terra estranha onde as
árvores podiam se mover conforme queriam e que abrigavam um antigo ódio
pelos seres que caminhavam em duas pernas. Tolkien observa que "mesmo
no Condado, o rumor sobre as Criaturas Tumulares das Colinas dos
Túmulos além da Floresta foi ouvido. Mas não era um conto que qualquer
Hobbit gostaria de ouvir, mesmo em frente a uma confortável lareira bem
longe de tudo isso".

Mas Frodo e seus amigos não sabiam
nada sobre os terrores que existiam além das Colinas dos Túmulos e suas
criaturas, ou as lendas que ainda assombravam as terras, apesar das
criaturas que geraram terror aos contos terem desaparecido há muito
tempo. Se eles tivessem ido em busca de antigas histórias de fantasmas,
ao invés de buscar uma maneira de destruir o Um Anel, eles teriam
encontrado lendas suficientes para encher um livro. Havia o velho
monstro vivendo no alto das montanhas sobre Minas Morgul, as estranhas
e agourentas árvores da Floresta de Fangorn, o escuro e repugnante
Guardião na Água, o espírito de fogo e sombras que assombrava as
cavernas perdidas de Moria, a fria e cruel Caradhras, e coisas escuras
voadoras que bloqueavam as estrelas à noite, e os próprios Nazgûl.

A pobre e perdida Eregion se tornou a morada de lobos enfeitiçados e
tropas ameaçadoras de Crebain, e a terra esqueceu que uma vez fora lar
a um povo Élfico que ousara mexer com a força do Tempo na própria
Terra-média. Mas quando tudo estava feito e o Senhor dos Anéis
destruído, os Hobbits e seus aliados foram mais uma vez lembrados de
todos os grandes e antigos temores, e eles devem ter passado muitas
noites felizes trocando contos em frente à lareira, mantendo vivas as
estórias de fantasmas da Terra-média.

[tradução: Helena "Aredhel" Felts]

Gil-galad era um Rei Elfo

E isso é tudo em que concordamos.

A ascendência de Gil-Galad ainda não se transformou num tópico central entre os fãs de Tolkien, mas o tempo dirá se acontecer. Mesmo tendo pouca informação sobre o mais famoso dos reis noldorianos, há pessoas que acharam motivos para escrever grandes artigos sobre ele [e eu não sou exceção].

 

Quem foi o pai de Gil-galad, Fingon ou Orodreth? J.R.R. Tolkien diz Orodreth, mas milhões de fãs parecem discordar dele. Afinal o Silmarillion diz que foi o Fingon. “Que Gil-galad foi filho de Fingon [The Silmarillion] vem de uma nota escrita a lápis no manuscrito dos Anais Cinzentos [Grey Annals $157],” nos conta Christopher Tolkien na Guerra das Jóias [The War of the Jewels], “dizendo que quando Fingon se tornou rei dos Noldor na ocasião da morte de Fingolfin ‘seu jovem filho [?Findor] [sic] Gilgalad ele mandou para os Portos.’ Mas isso, adotado depois de muita hesitação, certamente foi uma das muitas especulações de meu pai.

Essa dica tentadora incendiou um dos primeiros debates sobre Gil-galad. Se Fingon não era seu pai, e Finrod Felagund não podia ser [discussões anteriores mostraram que esta idéia fora abandonada] quem foi então o pai do Gil-galad? Algumas pessoas ficam firmes com O Silmarillion, dizendo que tem que ser verdade, pois foi fielmente produzido por Christopher Tolkien de acordo com os desejos de seu pai. Mas isso não é verdade.

Em outro lugar na Guerra das Jóias [The War of the Jewels], e em vários outros volumes dos The History of Middle-earth, Christopher mostra aonde ele desviou da visão de seu pai [na maior parte devido a uma pesquisa insuficiente, pois ele estava trabalhando sob pressão e não tinha tido acesso a todos os papéis de seu pai]. Em particular ele cita a “Ruína de Doriath”[The Ruin of Doriath]:

Ter incluído [“As andanças de Hurin” em O Silmarillion], assim me pareceu, implicaria numa grande redução, realmente uma inteira remontagem de uma maneira que eu não queria fazer; e já que a história é intrincada eu tinha medo que isso produziria um confuso entrelaçamento na narrativa sem nenhuma sutileza, e por cima de tudo iria diminuir a figura temerosa do velho homem, o grande herói, Thalion, o inabalável, indo de encontro aos propósitos de Morgoth, como ele estava destinado a fazer. Mas me parece agora, muitos anos depois, ter havido muita manipulação com o pensamento e intenção de meu pai: portanto levantando a questão de que se fazer um Silmarillion unificado tenha sido válido.

Numa outra explicação de como “A Ruína de Doriath” foi escrito mais tarde no livro, Christopher diz:

Essa estória não foi facilmente ou apressadamente concebida, mas foi o resultado de uma longa experimentação entre concepções alternativas. Nesse trabalho Guy Kay teve uma grande participação, e o capítulo que eu finalmente escrevi, se deve a muitas discussões com ele. É, e foi, óbvio que um passo estava sendo tomado de uma diferente ordem de qualquer outra ‘manipulação’ da própria escrita de meu pai no decorrer do livro: mesmo no caso a estória da queda de Gondolin, que meu pai nunca retomou, alguma coisa podia ser feita sem introduzir mudanças radicais na estória da Ruína de Doriath do jeito que estava e que era radicalmente incompatível com ‘O Silmarillion’ como projetado, e que havia uma escolha inescapável: ou abandonar esta concepção, ou alterar a estória. Eu acho que foi uma opinião errada, e que as indubitáveis dificuldades poderiam, e deveriam ser tratadas sem ultrapassar a barreira da função editorial.

Essa repudiação de sua mais significativa contribuição ao O Silmarillion mostra que Christopher Tolkien não o apresenta como um trabalho final e fiel. Isso é, ele nunca teve a intenção de que O Silmarillion publicado representasse a visão de seu pai. Ele tomou cuidado no próprio prefácio, dizendo que:

…a tentativa de apresentar, num único volume, a diversidade de materiais – revelar O Silmarillion de fato como uma criação contínua e em evolução, que se estendeu por mais de cinqüenta anos- levaria na realidade apenas à confusão e ao obscurecimento daquilo que é essencial. Propus-me, por isso, elaborar um texto único, selecionando e organizando trechos de tal modo que me parecessem produzir a narrativa mais coerente de maior consistência interna….Não se pode aspirar a uma harmonia perfeita…e ela somente poderia ser alcançada, se fosse possível, a um custo muito elevado e desnecessário…

Temos portanto, um sólido motivo, dado pelo próprio Christopher Tolkien, para questionar a validade de qualquer afirmação em O Silmarillion. Mas é claro que não se deve dizer que tudo que está no livro seja não confiável. Mas, já que temos ao nosso dispor o material base para nosso próprio estudo, podemos determinar [especialmente com ajuda deste comentário explícito do Christopher] em que partes a estória original foi alterada ou não, e porque.

No caso da filiação de Gil-galad nós temos uma maior afirmação de Christopher que aquele acima. No The Peoples of Middle-Earth ele dedicou um pequeno comentário sobre a filiação de Gil-galad nas paginas 349-51. Parece que a verdadeira genealogia de Gil-galad o coloca como sendo filho de Orodreth, que era filho de Angrod, e não um dos filhos de Finarfin.

Não deve haver dúvidas que esta era a palavra final de meu pai sobre este assunto”, Christopher nos conta. Sua última declaração diz: “Uma análise mais profunda deste material extremamente complexo do que fiz há vinte anos atrás mostra claramente que Gil-galad como filho de Fingon [veja XI.56,243] era uma idéia efêmera.

Que revelação! Dizer que Gil-galad como filho de Fingon era “uma idéia efêmera” acende as chamas da controvérsia imediatamente. Pessoas tem argumentado anos após anos qual deveria ser a filiação de Gil-galad. E ainda temos do Christopher Tolkien que não pode haver dúvida sobre quem era seu pai: ele era filho de Orodreth.

Ainda mais, Christopher admite ter mudado o nome de Gil-galad no texto da carta publicada como parte de “Aldarion e Erendis” nos Contos Inacabados [Unfinished Tales]. Onde o livro mostra “ Ereinion Gil-galad filho de Fingon”. JRRT havia realmente escrito “Finellach Gil-galad da Casa de Finarfin”. Numa outra passagem da estória Christopher também mudou “Rei Finellach Gil-galad de Lindon” para “Rei Gil-galad de
Lindon
”.

Então porque as pessoas continuam a duvidar da palavra de Christopher Tolkien, o homem que publicou O Silmarillion, onde ele admite que queria manter um “texto único”, e foi quem selecionou e arranjou o material para produzir uma narrativa consistente e coerente [um objetivo que ele não atingiu totalmente, pela sua própria admissão]? Eu acho que responder esta questão requereria uma análise que beiraria a uma dissertação. A recusa para aceitar as afirmações de Christopher Tolkien em várias questões é um fenômeno sociológico.

Mas podemos examinar Gil-galad no contexto da estória correta e determinar algumas coisas sobre seu caráter que nunca foram revelados em O Silmarillion. Isto é, podemos deduzir alguma coisa da sua estória pessoal.

Orodreth provavelmente nasceu em Valinor. Sua mãe foi Eldalôtë, uma dama Noldorin cujo nome foi facilmente convertido para o Sindarin Edhellos. Quando Finrod construiu a cidade secreta de Nargothrond, ele reinava sobre Tol Sirion e as terras anexas a Angrod, enquanto Aegnor reteve comando sobre os altos de Dorthonion que cobriam Ard-galen. Isso contradiz tudo que nos foi contado em O Silmarillion, claro.

Quando a Dagor Bragollach irrompeu e os Noldor foram derrotados, Finrod apressou-se para o norte para trazer reforço para seus irmãos, mas ele chegou muito tarde. O povo de Aegnor foi conquistado, e apesar do povo de Angrod se agüentar em Tol Sirion por algum tempo, o próprio Angrod foi finalmente morto e Orodreth afastou-se da ilha, fugindo para Nargothrond. Ele levou com ele sua esposa, uma dama Sindarin das terras do norte, e seu filho [Rodnor Gil-galad] e filha [Finduilas].

Gil-galad não ficou em Nargothrond por muito tempo. Ele teria ficado lá no mínimo até cerca do ano 455 [o ano da Dagor Bragollach], e Christopher cita uma nota de seu pai que diz que “Gil-galad escapou e finalmente chegou nas Quedas do Sirion e foi Rei dos Noldor lá” . Sua escapada deve ter sido por causa da destruição de Nargothrond, que ocorreu no ano de 495.

Durante estes 40 anos não sabemos nada sobre Gil-galad, mas podemos supor que ele deve ter estado presente no grande debate quando Beren pediu a ajuda de Finrod na questão do Silmaril. Ele, claro, não foi um dos doze lordes fiéis que acompanharam Finrod em sua missão, mas presumivelmente Gil-galad deve tê-lo achado muito novo ou muito importante para fazer parte desta missão [de fato, ele nem havia sido concebido no pensamento de Tolkien quando a versão inteira da estória de Beren foi escrita nos anos 30]. Gil-galad não marchou com a companhia de Gwindor para a Nirnaeth Arnoediad, e ele não parece ter sido um dos soldados no exército de Orodreth que foi derrotado pelo exército de Glaurung na Batalha de Tumhalad.

Faria sentido para Orodreth deixar Gil-galad para trás para defender Nargothrond. Gil-galad devia estar chegando somente na sua completa maturidade. E Orodreth era um governante cauteloso, somente concordando devido a pressão de Turin e a impaciência dos lordes Noldorin que favoreciam a opinião de Turin de abandonar a política de defesa secreta de Nargothrond.

Portanto quando Glaurung veio contra a cidade e seus defensores se mostraram poucos e fracos diante do dragão, o jovem príncipe deve ter sido separado da família. Nós não sabemos o destino de sua mãe, talvez ela tenha sido morta ou feita prisioneira, mas Finduilas foi capturada e levada com as outras elfas para Brethil pelos Orcs. Lá ela foi mortalmente ferida apesar dos melhores esforços dos homens da floresta para libertar os cativos.

Indo para o sul Gil-galad chegou nas Quedas do Sirion. A comunidade de Elfos e Homens que mais tarde fundariam o reino de Arvernien sob Earendil ainda não existia, mas vários Noldor [e Sindar] haviam fugido para o sul há anos,esperando se juntar a Cirdan, cujo povo havia abandonado o Falas depois do Nirnaeth Arnoediad em 473 e fugido para a Ilha de Balar. Annael, chefe do grupo de Sindar que criou Tuor, finalmente chegou nas Quedas do Sirion.

Então Gil-galad estabeleceu uma comunidade de Elfos lá, ou fundou uma e foi considerado seu líder. Essa comunidade, entretanto, deve ter-se mudado para Balar, provavelmente a convite de Cirdan, assegurando assim que a Casa de Finwë sobreviveria.

Gil-galad era nessa época apenas um rei dos Noldor, não seu Alto Rei. O Alto Reinado havia passado na morte de Fingon para o seu irmão Turgon, e agora nós sabemos porque . Fingon não tinha filhos, e o seu reinado foi então para o seu parente masculino mais próximo da linha de descendência de Finwë. Quando Gondolin foi destruída no ano de 510, e Turgon morto, o Alto Reinado passou para a Casa de Finarfin, da qual o último descendente masculino era Gil-galad.

Durante o resto da Primeira Era Gil-galad ficou em Balar. Ele e Maedhros eram os últimos reis Noldorin a viver em Beleriand, mas parece que Gil-galad nunca encontrou Maedhros. Ele teria conhecido Celebrimbor, o filho de Curufin, que ficou em Nargothrond depois de Celegorm e Curufin serem banidos por Orodreth. Celebrimbor não era um rei, e não tinha reino para herdar, apesar de ele tecnicamente ter se tornado o líder dos Fëanorianos quando da morte de Maedhros e da partida de Maglor.

Quando a Guerra da Ira terminou e as Hostes de Valinor voltaram para o Oeste, muitos dos Noldor e Sindar de Beleriand foram com eles. Os poucos Finwëanos que ficaram [Gil-galad, Celebrimbor, e Galadriel] junto com os lordes chefes dos Sindar [Celeborn and Cirdan] decidiram ficar na Terra-média. A história de Galadriel é muito confusa, mas parece que ela partiu de Nargothrond um pouco antes de 495 [provavelmente antes da Nirnaeth em 473]. Então ela e Celeborn devem ter vindo para o oeste quando Eonwë chamou todos os Elfos da Terra-média para velejar pelo Mar.

No The Road Goes Ever On J.R.R. Tolkien escreve que Galadriel “era a última sobrevivente dos príncipes e rainhas que haviam liderado os Noldor que se revoltaram para se exilar na Terra-média. Depois da queda de Morgoth no fim da Primeira Era, uma proibição foi posto sobre seu retorno e ela respondeu orgulhosamente que ela não desejava fazê-lo. Ela foi pelas montanhas com seu marido Celeborn [um dos Sindar] e foi para Eregion….

A posição de Galadriel entre os lordes Eldarin da Terra-média era bem única, e parece que ela nunca se enquadrou bem no reinado de Gil-galad. Numa outra estória, publicada nos Contos Inacabados [Unfinished Tales], Galadriel e Celeborn primeiro se fixaram em Eriador perto do Lago Evendim no começo da Segunda Era, e lá eles foram reconhecidos os governantes dos Elfos em Eriador. Mesmo assim, O Senhor dos Anéis nos conta que Celeborn era vassalo de Gil-galad em Harlindon por um tempo depois que o Reino de Lindon foi estabelecido.

Elrond, escolhendo ficar com os Elfos,se transformou num conselheiro e era aparentemente um amigo chegado de Gil-galad. Seu pedigree com certeza assegurou a Elrond um alto lugar no novo reino dos Elfos. Nascido entre os sobreviventes de Gondolin e Doriath, um descenden
te de Turgon e Thingol, Elrond foi capturado enquanto era ainda uma criança com os Fëanorianos, e ele e seu irmão Elros foram criados por Maglor.Assim Elrond desenvolveu uma relação especial com os Fëanorianos.

O reino de Gil-galad deve, no início deve ter tido Elfos de todas as partes da antiga Beleriand: sobreviventes de Falas e Hithlum, sobreviventes de Nargothrond, sobreviventes de Gondolin e Doriath, Fëanorianos, e provavelmente mesmo uns poucos Laegrim de Ossiriand e o que teria sobrado dos Avari que teriam alcançado Beleriand. Apesar de supostamente tudo ter sido perdoado entre os Elfos, aparentemente eles não conseguiam por de lado velhas mágoas. Os Doriathrim aparentemente teriam aceitado o governo de Gil-galad no começo mas foram eles [aparentemente] que lideraram a grande migração dos Sindar para longe de Lindon.

Os Sindar começaram a migrar na direção leste no começo da Segunda Era, mas nós não sabemos quando. E os seus primeiros grupos podem ter se fixado a oeste de Eriador. A pressão populacional pode ter sido parte da razão de eles ter deixado Lindon. Os Elfos continuaram a ter famílias durante a Segunda e Terceira Era. Mas pode ser também que Gil-galad foi suficientemente influenciado por políticas dos Noldorin para que os Sindar tenham sentido que seu reino não era para eles. Cirdan e os Falathrim tinham sempre sido amigos dos Noldor, e tinham assumido alguns usos e costumes dos Noldor em Beleriand [Finrod ajudou a reconstruir suas cidades por exemplo]. Os Sindar de Hithlum e Nargorthrond também poderiam ter sofrido a influência dos Noldor.

Foram os Sindar de Doriath que eram os mais relutantes em adotar os costumes e a cultura Noldorin. E também eles teriam muita dificuldade para esquecer velhas mágoas, tendo combatido os Fëanorianos diretamente não uma mas duas vezes. Virtualmente todas as mágoas dos Sindar sobre suas perdas poderiam ter sido obra dos Noldor, se fosse para acusar alguém. Portanto a sua migração para o leste era provavelmente também o resultado de alguma antipatia em relação aos Fëanorianos.

A primeira fase da migração Sindarin foi provavelmente completada na época em que os Numenoreanos alcançaram a Terra-média e começaram a visitar Lindon. Nessa época o porto de Edhellond havia sido estabelecido mais para o sul e vários Sindar haviam se fixado entre os Nandor e Avari de Eriador. O povo de Gil-galad manteve o contato com os Elfos de Eriador, e tinha entrado em contato com os povos Edain que ainda viviam lá também. Esses Homens mandaram doze de seus líderes para se encontrar com Vëantur e seus Numenoreanos depois de solicitarem a Gil-galad um encontro.

Então, no momento que o seu reino parecia se esfacelar, Gil-galad foi colocado no palco da história por Numenor. E Sauron começava a atuar na Terra-média mais uma vez. Rumores chegaram aos ouvidos de Gil-galad de um poder distante que não era amigo dos Homens e Elfos. Ele não sabia nada com certeza, mas suas duvidas e preocupações gradualmente aumentaram. Quando o jovem príncipe Anardil [mais tarde Tar-Aldarion] começou a se aventurar na Terra-média, Gil-galad ficou seu amigo, e o príncipe Numenoreano fez várias viagens a mando de Gil-galad visitando os Homens pelas terras norte e oeste da Terra-média.

Gil-galad parece ter feito uma política de estabelecer relações mais próximas com Homens. Talvez ele só estava interessado em Homens de descendência Edainica, já que os Elfos não confiavam em Homens de outros tipos. Mas os povos Edainicos haviam se espalhados há tempos. Eles podiam ser encontrados tão longe quanto as Quedas de Sirion e tão ao leste como o rio Carnen e as Montanhas de Ferro.

O estabelecimento do reino Noldorin pode também refletir em parte a política de Gil-galad. Apesar de Eregion agir por conta própria, Gil-galad não abandonou o povo de Eregion durante a Guerra dos Elfos e Sauron. E ele pode ter sido decisivo na hora de decidir que os Noldor estabelecessem uma colônia perto de Khazad-dum para ter acesso ao mithril. Nesse sentido a civilização élfica teria controle assegurado sobre as rotas de comércio Eriadoriano.

Quando Sauron começou a se aproximar dos reinos dos Elfos disfarçado de Annatar, O Senhor dos Presentes, sondando-os em relação ao seu destino de um dia desvanecerem, Gil-galad e Elrond suspeitaram de seus motivos e se recusaram a tratar com ele. Annatar/Sauron não foi admitido em Lindon, e ele virou sua atenção para Eregion. Lá Celebrimbor, senhor de Gwaith-i-Mirdain, ouviu Annatar, e ele sonhou em transformar a Terra-média num paraíso élfico como Valinor.Os Elfos tinham um problema real em que eles tinham que lidar com a própria morte: o desvanecimento. Eles perderiam seus corpos. Seus espíritos ficariam conscientes, mas incapazes de interagir com o mundo.

Gil-galad claramente entendia este problema como qualquer um. Mas ele fez a escolha correta de não mexer com a natureza. Os Elfos viviam com a vida de Arda. Isto é, seus espíritos não abandonariam os círculos do mundo como os espíritos humanos. Por isso para eles “vida” não era simplesmente uma função biológica mas também uma vida espiritual. Eles se perguntavam se seus espíritos continuariam a existir após a existência do Tempo. Eles achavam que Homens tinham sua vida continuada assegurada, e não se preocupavam tanto assim com a morte do corpo como os Homens. Assim Gil-galad não queria evitar os efeitos do Tempo.

Mas ainda assim, quando os Anéis do Poder foram feitos, e Sauron se revelou à aqueles que fizeram os Anéis quando ele pôs o Um Anel, os Elfos não conseguiam se obrigar a destruir os Anéis. Celebrimbor deu dois dos maiores anéis para Gil-galad, e Gil-galad também não pôde destruí-los. Porque? Era porque ele achava que não havia sentido em desfazer o que havia sido feito? Teria prejudicado severamente a Celebrimbor, aquele que fez os Três, para os anéis serem destruídos? Ou tinha Gil-galad achado alguma razão para mudar de idéia após séculos rejeitando os avanços de Annatar?

Os Três Anéis agiram nos reinos élficos mesmo quando ninguém os usava durante o resto da Segunda Era. Tolkien escreveu que eles ainda conteriam os efeitos do Tempo , assim os Elfos estavam assegurados que não desvaneceriam enquanto os Anéis do Poder existissem. A política de Gil-galad tornou-se então mais manipulativa. Quando ele teve certeza que Sauron iria invadir Eriador, Gil-galad solicitou a Numenor ajuda para defender os Elfos e Homens que viviam lá. Mas ele não contou aos Numenoreanos sobre o quê era a guerra. Somente se pode imaginar os argumentos usados nos altos conselhos élficos antes que houvesse a chamada às armas. Era justo omitir informação vital dos Homens que iriam arriscar suas vidas a favor dos Elfos, que queriam manipular a natureza?

Quando a guerra finalmente chegou Numenor ficou junto ao reino élfico, sem dúvida pela anti
ga amizade, e porque qualquer um que conhecia as antigas lendas e histórias das Guerras de Beleriand sabia que Sauron era do mal. Que ele estivesse usando Orcs e Trolls nos seus exércitos, e que os Gwathuirim com quem os Numenoreanos tinham tido problemas se aliaram a Sauron, simplesmente encorajaria a crença de que era certo apoiar o povo élfico. Esta questão se transformou em questão de sobrevivência para todos os Elfos e Homens. Os Anéis do Poder estavam escondidos de Numenor como também de Sauron, e seu segredo permaneceria por séculos.

Gil-galad pode ter achado acertado a sua decisão de não contar tudo aos seus aliados nos séculos que se seguiram após a guerra. Sauron foi derrotado e enviado para Mordor, e seu poder para ameaçar Eriador foi diminuído. Ele voltou sua atenção para as terras à leste da Terra-média, onde ele decidiu que ele poderia construir um grande império capaz de ameaçar Numenor e Gil-galad. Mas lá por volta do ano de 1800 os Numenoreanos começaram a mudar seu comportamento. A Guerra dos Elfos e Sauron haviam lhes mostrado a sua força, e essa força foi agora usada para dominar e escravizar outros Homens, ao invés de ajudá-los.

Seria perigoso revelar a existência dos Anéis do Poder para essa nova Numenor, pois logo os Dunedain começaram a questionar o seu destino, e a querer o tempo de vida dos Elfos. Quanto disso chegou aos ouvidos de Gil-galad só podemos supor, mas depois os Numenoreanos se dividiram entre os acampamentos dos fiéis e os homens dos Reis , e somente os fiéis continuaram a se fixar ou a visitar o noroeste da Terra-média, deve ter sido óbvio que os Reis de Numenor tinham se colocado num caminho de auto destruição.

Por seu lado Gil-galad tinha seus problemas. Vários Eldar deixaram a Terra-média depois da Guerra dos Elfos e Sauron. Provavelmente pareceu ser uma questão de tempo antes de Sauron crescer suficiente em seu poder para de novo desafiar Gil-galad e os Numenoreanos. Assim o poder de Gil-galad diminuiu e os Elfos permaneceram sob ataque constante mesmo durante os séculos em que a atenção de Sauron se voltava para o leste. Quando os Numenoreanos começaram a conquistar porções da Terra-média eles finalmente entraram em conflito com o reino de Sauron. As guerras de conquista poderiam retirar um pouco da pressão sobre os Elfos, mas seus Dias de Fuga parecem ter continuado até a decisão fatal de Ar-Pharazon de arrancar o controle sobre a Terra-média de Sauron.

Tecnicamente, Numenor poderiam ainda estar aliada de alguma maneira com os Elfos. Pelargir, o pátio real dos barcos [essencialmente uma base naval], tinha sido fundada perto das Quedas do Anduin em 2350. Apesar de ter sido transformado no porto sul pelos Numenoreanos fiéis,o nome da cidade implica que foi construída com a sanção real, e pode ter servido como base de operações nos conflitos com o reino de Sauron. O poder reunido pelos Numenoreanos em Pelargir através dos séculos pode ter servido para desafiar e provocar Sauron, embora Mordor na época tivesse sido mais um posto avançado do império de Sauron do que seu centro.

Gil-galad não tomou nenhuma atitude quando Ar-Pharazon trouxe uma armada para a Terra-média. Umbar, onde Ar-Pharazon aportou, era provavelmente muito ao sul para Gil-galad marchar ou velejar, e Ar-Pharazon muito provavelmente não queria nenhuma ajuda élfica mesmo. Ele veio para reinvindicar seu lugar como o Rei dos Homens, e nenhum Elfo seria necessário para ele afirmar a sua autoridade. De qualquer modo, o exército de Ar-Pharazon era tão grande que os aliados de Sauron o abandonaram. O Um Anel deixou Sauron na mão de novo. Então Sauron deixou Mordor e se entregou a Ar-Pharazon, permitindo que o rei o levasse para Numenor.

A partida de Sauron parece ter acabado de vez com as guerras com os Elfos. No decorrer dos 57 anos seguintes Gil-galad foi capaz de extender a sua influência pela parte norte do mundo, mesmo nos altos Vales do Anduin. Quando Elendil e seus filhos trouxeram nove barcos com sobreviventes do disastre de Numenor à Terra-média em 3319, Gil-galad ficou amigo deles e ajudou-os a estabelecer os reinos de Arnor e Gondor. O rei Elfo construiu três torres de onde se avistavam o Golfo de Lune para Elendil, e esses podem ter sido a primeira morada do rei de Dunadan na Terra-média. Mas apesar de ele ter cedido bastante autoridade a Elendil sobre Eriador, Gil-galad ainda nada disse [parece] sobre os Anéis do Poder.

Não seria até o ano de 3429, quando o Sauron reconstituído sentiu-se forte o suficiente para atacar Gondor, que Gil-galad se sentiu confrontado com o dilema moral dos Anéis. Ele guardou Narya e Vilya por mais de 1,000 anos. Nem ele nem nenhum outro Elfo havia usado os Anéis naquela época. Eles não se atreviam. Mas eles ainda se beneficiavam com a habilidade dos Anéis de inibir os efeitos do Tempo. Deve ter ficado óbvio para Gil-galad que os Elfos somente adiaram a inevitável decisão de destruir os Anéis. Ele pode não ter se convencido da necessidade de fazê-lo, ou que eles falhariam se o Um anel fosse desfeito, mas enquanto Sauron permanecesse uma ameaça aos Homens e Elfos não havia esperança dos Elfos alguma vez realizar o benefício integral dos Anéis dos quais eles tinham controle.

Então parece que Gil-galad revelou tudo para Elendil e seus filhos. Agora finalmente os Elfos confessaram seus pecados e eles resolveram junto com os Dunedain para embarcar na guerra final contra Sauron que teria resultado na sua completa derrota. Eles tinham o poderio militar para alcançar esse objetivo. O Povo de Gil-galad tinha crescido em número de novo, mas ele também tinha estabelecido relações com os povos dos Vales do Anduin, incluindo os bem mais numerosos Silvan Elfos governados por Oropher e Amdir. Elfo, Homem, e Anão se juntaram com um propósito comum e eles organizaram o maior exército da army Terra-média desde o fim da Primeira Era.

Mas os argumentos persuasivos de Gil-galad não devem tê-lo agraciado com Oropher, que como um Elfo Doriathrin era não simpatizante dos Noldor. Deve-se provavelmente a relação de Gil-galad com Thingol e a necessidade urgente de se fazer algo contra Sauron, que havia destruído as terras ao leste das Montanhas Nebulosas como as de Eriador, que fez com que Oropher se aliasse a Gil-galad. Oropher ainda assim recusou a marchar sob a bandeira de Gil-galad.

Levou três anos para Gil-galad e Elendil prepararem seus exércitos. Eles tinham que recrutar e treinar seus soldados,e aparentemente construir armas e armaduras. Mas eles devem ter gasto um tempo considerável preparando uma estratégia: pesquisar o terreno, testar as defesas de Sauron, talvez mandar reforços para Gondor para assegurar que Anarion não fosse sobrepujado. Deve ter havido considerável debate sobre como atacar Sauron. Deveria uma força do norte atacar Mordor enquanto o exército principal cruzava as montanhas, ou o ataque principal deveria vir do norte?

Em 3431 Gil-galad e Elendil cruzaram as Montanhas Nebulosas e marcharam para o sul. Em algum ponto eles se juntaram às forças de Khazad-du
m, Lorien, e Greenwood. A estratégia que eles selecionaram era ir direto para Mordor. Deve ter sido necessário escolher esse caminho por várias razões ,uma das principais sendo que seus exércitos eram grandes de mais para serem trasportados até Gondor facilmente. Mas Sauron parece ter aumentado suas defesas nos altos dos Vales de Anduin, tal que Lorien e Greenwood foram diretamente ameaçadas.Esse ataque de Gil-galad teria libertado esses reinos de perigo imediato.

A primeira maior batalha ocorreu nas terra ao sul de Greenwood onde as Entesposas haviam construído seus jardins. Nunca se soube o destino das Entesposas, apesar de que elas possam ter sido destruídas quando Sauron incendiou suas terras para evitar que a Última Aliança conseguisse ajuda de lá. As Entesposas poderiam no mínimo ter providenciado suprimentos para a Última Aliança. Sauron retrocedeu para o sul e a Última Aliança o seguiu. Eles alcançaram seu exército em Dagorlad, e lá inflingiram uma severa derrota a Sauron. Mas Amdir e o exército Lorien foram isolados nos Dead Marshes, e mais da metade dos Silvan Elfos de Lorien morreram. Gil-galad pode ter sido influenciado por essas perdas devastadoras pelo povo de Amdir"s people to hold up.

A Última Aliança posicionou suas forças na entrada norte de Mordor [onde ficaria o Morannon mais tarde], mas Gil-galad não conseguiu segurar Oropher, que lançou um assalto contra as defesas de Sauron prematuramente. Tolkien não diz como foi a batalha, mas Gil-galad muito provavelmente fez o mesmo que Fingon milhares de anos antes no Nirnaeth Arnoediad. Ele deve ter posto seu elmo e entrou na batalha na cola do ataque de Oropher , tarde demais para salvar Oropher, que morreu cedo. A Última Aliança ganhou o dia, entretanto, e abriu caminho para Mordor.

O que sobrou das forças de Sauron neste momento deve ter corrido ou sido aniquilado, e Sauron foi confinado a Barad-dur.Agora Gil-galad voltou a manter a política antiga dos elfos de cercar o lorde negro em sua fortaleza. Gil-galad tomou posiçao em Orodruin, perto do Sammath Naur onde o Um anel foi forjado. Gil-galad poderia ter destruído os Três Anéis então, talvez, mas ele preferiu não fazê-lo ou então os Anéis não foram levados para a guerra. Ele deve ter fortificado a montanha, entretanto.As notas apontam várias manobras durante os sete anos, e depois de seis anos de cerco Sauron ainda era capaz de arremessar pedras para fora de Barad-dur, pois Anarion foi morto naquele ano por uma daquelas pedras.

A estratégia de Gil-galad mudou radicalmente. A Última Aliança não mais tentava subjugar Sauron pela força, e a guerra se arrastava. Eles somente esperavam diminuir as forças de Sauron através de atritos para que no fim Sauron capitulasse. Mas Sauron ficou tão desesperado que ele formou um plano diferente. Ele procurou Gil-galad em Orodruin e o atacou diretamente. Elrond conta as pessoas em Rivendell que somente Elendil ficou junto a Gil-galad e que somente ele [Elrond], Cirdan, e Isildur viu o que aconteceu.O corpo de Sauron era tão quente que queimou Gil-galad, e matou-o, mas Elendil correu e conseguiu dar um golpe mortal contra Sauron. O Lorde Negro foi capaz ainda de reagir , e jogou Elendil no chão. E a espada de Elendil quebrou debaixo dele.

A estratégia final contra Sauron funcionou, mas provavelmente não como Gil-galad esperava. Será que ele queria realmente combater Sauron sozinho? Ele parece ter sido um rei cauteloso durante sua carreira. Para preparar para a Guerra dos Elfos e Sauron Gil-galad aumentou suas defesas ao longo do rio Baranduin. Ele deu a Elrond o comando de um pequeno exército para reforçar Eregion mas foi obrigado a retroceder para o norte. Sauron forçou seu caminho através do Baranduin e Gil-galad foi somente capaz de mater o Lune seguro contra ele. Portanto os recursos do Rei dos Elfos eram limitados e os limites desses rescursos devem ter ditado sua política.

Mas ele rapidamente ajudou Elendil a estabelecer o reino de Arnor, que se transformou no reino mais poderoso do norte. Porque era importante criar um grande reino de Homens? Era importante para Gil-galad preservar a grandeza de Numenor, ou era sua política de lidar com Homens através de Homens, uma decisão conservadora, talvez xenofóbica? Gil-galad não tinha problemas em lidar com povos Edainicos, mas qualquer outro tinha que ir através de seus representantes Nuemenoreanos.

A única vez que Gil-galad foi na ofensiva foi quando ele e Elendil formaram a Última Aliança de Elfos e Homens. Nesta época já devia ser óbvio que Sauron seria capaz de reconstruir seu poder com o Um Anel cada vez que alguém o derrotasse. O objetivo de Gil-galad deve ter sido achar e tomar Sauron prisioneiro, e de alguma maneira arrancar o Um Anel dele. Gil-galad pode não ter conhecido os segredos dos que fizeram os Anéis, mas ele deve ter sido capaz de aprender o suficiente para entender o verdadeiro perigo que o Um Anel representava. Devemos imaginar se Gil-galad teria usado os Três Anéis, ou permitido seu uso, se ele tivesse vivido e Isildur tivesse ainda assim tirado o Anel de Sauron. Prudencia teria aconselhado os Elfos a não usar os Anéis depois de Isildur ter sumido para o norte. Mas apesar de sábio, Elrond não seguiu o caminho da prudência.

Orc que é Orc não usa Windows!

Pesquisando sobre os Uruk-hai, me deparei com um
fato interessante: não existiam Uruk-hai na primeira vez que Tolkien
escreveu o capítulo que os introduziu. Ele não os havia concebido até
então. O título original do capítulo era “Uma caçada Orc" (“An
Orc-raid"?).
 
 
 
Bem, isso não soa muito excitante, não é? Na
verdade, na época em que Tolkien chegou nessa parte da história, os
Uruks (principalmente Uruk-hai) ainda estavam por aparecer.

Espere um pouco!, como diria Harry Potter. Vamos voltar um pouquinho e começar tudo de novo.

Enquanto a maioria das pessoas sabe que “orc" raramente aparece no O
Hobbit (Christopher Tolkien encontrou apenas uma aparição na primeira
edição do livro, por exemplo), você ainda pode encontrar algumas poucas
passagens com o termo “orc" na segunda e terceira edição. O que é
importante sobre a raridade de “orcs" em O Hobbit (e a quase raridade
de “goblin" em O Senhor dos Anéis) é que o uso dessas palavras
representam uma transição fundamental em relação às idéias de Tolkien
relativas às criaturas que ameaçaram os Hobbits.

Os goblins
assombravam a imaginação de Tolkien desde os tempos de escola. O mais
antigo exemplo que existe sobre os goblins na literatura é o poema
“Goblin feet", que foi publicado em 1915 na Oxford Poetry:


Eu estou fora da estrada Onde lanternas das fadas reluzem Onde pequenos
morcegos voam Uma escassa faixa cinzenta se afasta rastejante E as
cercas-vivas e a grama suspiram O ar está tomado por asas E besouros
estúpidos Que o avisa com seus zumbidos e zunidos O! eu escuto as
pequenas cornetas De duendes encantados E dos pés fofos de muitos
gnomos que se aproximam

O! as luzes! O! os lampejos! O! o som tilintante: O! o farfalhar de
seus pequenos mantos silenciosos! O! o eco dos seus pés – de seus
alegres pequenos pés: O! as suas lâmpadas que balançam em pequenos
globos iluminados pelas estrelas! Devo seguir no seu trem Pela a
tortuosa estrada das fadas Para onde os coelhos há muito partiram E
onde eles cantam argenteamente Em um círculo que se move sob a luz da
lua Todos brilham com as jóias que usam Eles se empolgam rodeando o
círculo Onde os vagalumes queimam palidamente E o eco dos seus pés
fofos se esvanece O! Está batendo no meu coração – Deixe-me ir! O!
Deixe-me começar! Pois as pequenas horas mágicas estão voando!

O! o calor! O! o zunido! O! as cores na escuridão! O! as brisas das
abelhas douradas! O! a música dos seus pés – dos seus pés de goblin
dancantes! O! a magia! O! a tristeza quando ela morre
.

Os Goblins são, claro, um dos principais elementos do folclore inglês.
Eles estão lá, glorificados por Shakespeare e contos de antigas
esposas, por tanto tempo quanto se pode lembrar. E os goblins têm
aparecido nos contos e poemas de Tolkien por tanto tempo quanto se pode
lembrar, mas apesar de hoje nós dizemos com confiança que goblins e
orcs são iguais, nem sempre foi assim.

No índice para The Book of Lost Tales, Part Two, Christopher Tolkien indexou o seguinte registro:

GOBLINS Freqüentemente usado como um termo alternativo para Orcs (cf.
Melko’s goblins, the Orcs of the hills 157, mas algumas vezes
aparentemente diferenciados, 31, 230)…

A primeira deriva do “Tale of Tinúviel", e descreve Angamandi (a fortaleza de Melko): “…Junto
estavam as câmaras tristes onde o noldo-escravo trabalhava amargamente
sob o comando dos Orcs e dos goblins das colinas…"

A
segunda passagem aparece em “The Nauglafring", e descreve como
Naugladur, um rei anão, reúne um exército de criaturas negras: “Além
disso ele reuniu em sua volta uma grande hoste de Orcs, e goblins
errantes, prometendo a eles uma boa retribuição, e o prazer de seu
Mestre eternamente, e uma boa pilhagem ao final…"

Ambas
as distinções são relativamente ambíguas. Tolkien poderia estar
utilizando Orcs e goblins de modo trocado para se referir a criaturas
similares, ou ele poderia estar sugerindo que algumas criaturas eram
Orcs e algumas eram goblins. Não está claro a sua intenção naquele
momento.

Porém, quando Tolkien escreveu O Hobbit para divertir
seus filhos, ele negligentemente misturou elementos de diversas
tradições, buscando deixar a sua história mais interessante. Ao
publicar o livro, ele a resumiu um pouco, e manteve os Orcs a um
mínimo, enquanto goblins abundam pelo conto.

Os goblins se
tornaram, em meados da década de 30, um dos elementos principais na
dieta das aventuras imaginárias da família Tolkien. As Father Christmas
Letters, enviadas por JRRT aos seus filhos entre 1920 e 1943,
ocasionalmente deleitaram as crianças com incidentes (e desenhos que
demonstravam como a confusão se resolveu) envolvendo goblins, pequenas
criaturas negras que podiam realizar travessuras infindáveis.

Os goblins de O Hobbit são uma mistura de diversas criaturas, tiradas
do folclore, do conhecimento de Tolkien e de idéias do livro The
Princess and the Goblin, de George Macdonald. Esses goblins não
precisam ser de maneira nenhuma muito sérios. Eles capturam Bilbo e
seus companheiros anões, mas deixam Gandalf, que mata seu líder, o
Grande Goblin, no coração da Cidade Goblin.

Mas os goblins de
O Hobbit gradualmente se tornam criaturas mais assustadoras,
parcialmente como parte do efeito do contar-de-histórias de Tolkien e
parcialmente devido à necessidade de introduzir uma ameaça convincente
próxima do fim da história. A Batalha dos Cinco Exércitos não havia
sido imaginada ainda, e Bolg do Norte marca a primeira aparição de um
personagem goblin de importância (mesmo que um que não fale nada)
visando publicação. Isto é, ele não havia sido concebido até que
Tolkien precisou apresentar um conto finalizado para o editor.

Quando O Hobbit se tornou um sucesso publicado, Tolkien tentou
brevemente trazer suas histórias do Silmarillion para publicação. Seus
editores queriam publicar mais livros sobre Hobbits, entretanto, e
Tolkien teve que colocar O Silmarillion (que substituiu The Book of
Lost Tales como seu projeto mitológico primário) de lado por muitos
anos.

Entre 1937 e 1948, Tolkien se empenhou em produzir uma
seqüência para O Hobbit que não se limitasse a entreter os seus
leitores, mas que também pudesse interessar a ele. Durante esses anos,
ele usou a palavra “goblin" menos e menos – chegando ao ponto de
reservá-la a umas poucas passagens de diálogo entre Hobbits – e “Orc"
mais e mais.

Enquanto pode se dizer que “Orc" soa mais
ameaçador que “goblin", Tolkien deve ter tido uma razão mais urgente
para abandonar a palavra que usara por muito tempo. Como filólogo, ele
indubitavelmente sabia da história da palavra “goblin", que veio para o
inglês arcaico do francês normândico. Isto é, goblins não são monstros
ingleses. Em vez disto, eles são nomeados para um gobelin, um espírito
que se diz ter assombrado a cidade francesa de Evreux em 1100.

Por outro lado, “Orc" possui um passado muito misterioso. Muitos
comentaristas agora sugerem que provavelmente veio da palavra
anglo-saxã orcneas, usualmente traduzida como “baleias" (porque vem do
Latim Orca, que significa “inferno" ou “morte"). O texto anglo-saxão
original é encontrado em “Beowulf", linha 112, “eotenas ond ylfe ond
orcneas"(Ettins e Elfos e Orcs – descendentes de Caim).

“Ettins" são gigantes ou trolls. Elfos são, no ponto de vista cristão,
criaturas malignas. Orcs são impossíveis de se descrever, exceto que
eles devem ser criaturas fantásticas familiares à audiência do poeta
Beowulf. Algumas pessoas hoje (e talvez até Tolkien) sugerem que eles
podem ter sido espíritos ou demônios (apesar de referir como um
descendente de Caim desta maneira não faz sentido). Entretanto, se um
Orc é um espírito ou um demônio, e um goblin é um espírito maligno,
então substituir Orc por goblin começa a fazer sentido.

Então,
em certo ponto de seu desenvolvimento da Terra-média, Tolkien pode ter
decidido abandonar “goblin" em detrimento de “Orc", porque “goblin"
possui uma história lingüística maculada (Tolkien não gostava muito da
língua Francesa).

E aqui as coisas se tornam interessantes,
porque mesmo que ele tenha sugerido algumas mudanças a serem feitas em
O Hobbit em 1947 para torná-lo mais compatível com O Senhor dos Anéis,
Tokien parece ter começado a experimentar assuntos-Hobbits anterior
àquele tempo.

Por exemplo, na Nota 35 para “O Anel vai para o
Sul", publicado em The Return of the Shadow, Christopher para para
refletir no uso de seu pai para “Orcs" na seguinte passagem (onde a
Sociedade discute sobre as Minas de Moria):

‘Eles não estão
longe’, disse o mago. Eles estão nessas montanhas. Eles foram feitos
pelos anões da família de Dúrin muitos séculos atrás, quando elfos
habitavam Hollin, e existia paz entre as duas raças. Naqueles dias
antigos, Dúrin habitou Caron-dun, e havia tráfego no Grande Rio. Mas os
Goblins – ferozes orcs em grande número – os expulsou após muitas
guerras, e muitos dos anões que escaparam rumaram para o norte
longínquo…

A nota é a que segue:

35 Esta não é
a primeira vez que a palavra Orc é usada nos rascunhos do SdA: Gandalf
se refere a ‘orcs e goblins’ entre os servos do Senhor do Escuro, pp
211, 264; cf. também pp 187, 320. Mas a raridade do uso neste estágio é
digno de nota. A palavra Orc nos remete ao Lost Tales, e difundido em
todos os escritos subseqüentes de meu pai. No Lost Tales os dois termos
foram usados como equivalentes, apesar de algumas vezes aparecerem de
formas distintas (vide II. 364, registro Goblins [1]). Uma
pista pode ser encontrada em uma passagem que ocorre tanto no antigo
Quenta quanto no novo (IV. 83, V. 233): ‘Eles podem ser chamados de
goblins, mas nos dias antigos eles eram fortes e caídos.’ Neste ponto
parece que ‘Orcs’ são para serem considerados como um tipo de ‘goblin’
mais formidável; então no primeiro esboço para ‘As Minas de Moria’ (p.
443) Gandalf diz “existem goblins – de uma espécie muito maligna, maior
que os normais, verdadeiros orcs.’ – é incidentalmente notável que na
primeira edição de O Hobbit que a palavra Orcs é utilizada apenas uma
vez (ao final do capítulo VII ‘Estranhos Alojamentos’), enquanto no SdA
publicado, goblins é raramente utilizada.

Ao escrever a
primeira versão de “A ponte de Khazad-dûm", Tolkien fez com que Gandalf
descrevesse que ele viu quando olhou para fora da Câmara de Marzabul
(da mesma forma que Gandalf faz na versão final da história): “‘São goblins: muitos deles,’ ele disse. ‘Eles parecem malignos e grandes: Orcs negros…’"

A frase “Orcs negros" foi eventualmente trocada por “Uruks negros de
Mordor", mas isso não aconteceria até a revisão de “Uma caçada Orc"
meses depois de Tolkien inventar o nome “Urukhai"e decidir que alguns
Orcs, maiores que outros, seriam chamados Uruks. E mesmo assim, a
importância dos Uruks só foi reunida nos apêndices, que Tolkien não
começou a trabalhar antes de 1950 (dois anos após ele ter completado o
texto primário de O Senhor dos Anéis).

Nas versões mais
antigas de “Os Herdeiros de Elendil" e “O Conto dos Anos", não existem
menções de Uruks, que no livro publicado se diz que apareceram pela
primeira vez no governo de Denethor I, regente de Gondor. Tudo o que
Tolkien diz sobre eles é “nos últimos anos de Denethor I a raça dos
uruks, orcs negros de grande força, apareceram pela primeira vez fora
de Mordor, e em 2475 eles passaram impetuosamente por Ithilien e
tomaram Osgiliath…"(O Senhor dos Anéis, Apêndice A).

No apêndice F, Tolkien tratou dos Orcs e da Língua Negra. No primeiro parágrafo, ele escreveu:


Orc é a forma do nome que as outras pessoas deram para esse povo
horrível como era na linguagem de Rohan. Em Sindarin era orch. Não há
dúvida que a palavra uruk está relacionada com a Língua Negra, apesar
de ter sido aplicada como regra apenas para os grandes soldados-orcs
que nessa época eram despachados de Mordor e Isengard. As raças menores
eram tratadas, especialmente pelos Uruk-hai como snaga ‘escravo’.

Assim, Tolkien afirma que ele utilizou a palavra derivada do inglês
arcaico ornceas, para representar a palavra Rohirric para os Orcs. A
transição de goblin para orc está completa, mas não de Hobgoblin para
Uruk.

Isto porque em O Hobbit, Tolkien utilizara a palavra
“hobgoblin" como um nome para Orcs maiores. Mas no folclore inglês, um
hobgoblin é um goblin pequeno, não um grande (na verdade, eles deveriam
ser espíritos domésticos). Tolkien estava, efetivamente, virando o
folclore inglês de cabeça para baixo, afirmando que os piores goblins,
os verdadeiros orcs, eram os hobgoblins.

De certa forma,
Tolkien estava corrigindo um erro. Ele transformou seus goblins,
espíritozinhos maliciosos em Orcs, criaturas caídas enviadas de Angband
(Inferno). Mas ele também elevou seus hobgobilns (Orcs maiores) ao
distinguir eles como “goblins das colinas" e “Orcs das montanhas". Eles
não eram espíritos domésticos como Robin Goodfellow. Eles eram Uruks.

Mais adiante, os Uruks se tornaram malignos, mortíferos, monstros
sérios capazes de intimidar e apavorar mesmo os maiores inimigos. Uruks
não babavam como os goblins de George Macdonald, não possuíam pezinhos
tamborilantes, e eles não eram nem um pouco amigáveis aos homens ou aos
amigos dos homens. Uruks são os Orcs mais malignos e malevolentes,
corrompidos até o ponto em que seus malignos senhores conseguem,
conservando apenas as qualidades humanas mais essenciais como coragem,
lealdade, amizade e (no caso dos Uruk-hai de Saruman), orgulho.

E Tolkien os fez muito parecido com os homens, inclusive mostrando suas
semelhanças físicas. Ele não queria, de maneira alguma, fazer com que
os Uruks parecessem pequenas criaturinhas de contos de fada. Nem ele
pretendia que se associasse os Uruks com fantasmas e espíritos, como
aqueles que teriam assombrado cidades da França medieval. Os Uruks eram
reais, tão reais que Gandalf (no texto publicado) não precisou
chamá-los de “Orcs de verdade".

Porém, o fascínio de Tolkien
pelos “Orcs de verdade" não terminou com O Senhor dos Anéis. Ele fez
fortes alusões a eles na seqüência abandonada para O Senhor dos Anéis,
The New Shadow, onde Orcs se tornaram pouco mais do que uma memória
assombrando a história dos Dúnedain e a sensibilidade da Gondor da
Quarta Era. Meninos brincavam de Orcs, sem ter uma idéia real do mal
que os Orcs um dia infligiram.

No lapso entre algumas
gerações, Tolkien supôs, que a memória dos “Orcs de verdade" se apagou
e foi substituído por um conceito mais divertido. E como a verdadeira
história inglesa pareceria para ele? Os Orcs de Beowulf foram
esquecidos e trocados na imaginação popular por um goblin francês. Mas
quem poderá um dia esquecer dos Uruks?

[1] Nota do Tradutor: Christopher Tolkien está se referindo à passagem do Book of Lost Tales 2, descrita logo acima neste mesmo texto no §11.

Viajando em Carroças com Hobbits

Provavelmente nunca haverá um filme do tipo Dias de Trovão celebrando as corridas de carroça entre a Vila dos Hobbits e Beirágua. Hobbits são por natureza um povo caseiro, cujos riscos mais selvagens tendem a ser roubar cogumelos e entrar e sair de botes. É claro, alguns ocasionais Tûks rumam para o Mar, mas até Gandalf ter atiçado Bilbo e Frodo Bolseiro a vagarem pela Terra Média, Hobbits provavelmente não passavam muito tempo fora de suas próprias terras por mais de mil anos.

 

Havia uma certa propriedade que acompanhava o Hobbit “literal”, um senso de que “tudo estava bem até este momento”. E este era um falso sentido de propriedade. Os Hobbits, como os Elfos, tinham seus próprios arrependimentos e preocupações. O povo do Condado tinha esquecido (ou parecia fingir ter esquecido) que eles uma vez viveram em Bri, que era agora uma terra estrangeira. E antes de morarem em Bri, eles viveram em terras ao leste das Colinas do Vento, ou ao sul do rio Gwathlo.

Estórias de Hobbits não se tornam interessantes a não ser que alguém agite suas vidas. Todos os dias, durante muitos anos, Hobbits viveram calmamente em suas colinas e jardins, e então alguém viria e tiraria sua inocência. Poderia ser devido a um Necromante, que transforma a Grande Floresta Verde na Floresta das Trevas. Ou poderia ser devido a um Rei-Bruxo que desencadeia uma devastadora série de guerras. Ou poderia ser um mago andarilho que decide ajustar alguns erros e percebe que os Hobbits podem escapar próximos ao escrutínio o suficiente para alcançar algumas coisas.

Qualquer que seja a causa, chega um dia na vida de um Hobbit em que ele põe a família em uma ou mais carroças e ruma para o interior. Tais migrações, ou fugas, devem ser difíceis para todos. Os líderes dos antigos Helvetii, um grupo de tribos celta que vive nos Alpes, a leste da Gália (França), forçava seu povo a queimar suas casas e vilarejos. Os Helvetii e seus aliados entraram na Gália sem nada além de suas carroças e os animais que puderam trazer com eles. Não havia como voltar atrás.

A decisão de deixar suas terras nos Alpes tem sido muito debatida. Os Helvetii não poderiam simplesmente partir por capricho. Alguns eruditos, ao longo dos anos, sugeriram – de fato, insistiram – que os Helvetii seguiam uma antiga prática celta chamada ver sacrum,uma expansão ritual das tribos dentro de novos territórios. Os celtas do Norte da Itália dividiam nomes tribais com os celtas da região Alpina e com os celtas da Gália.

Os Helvetii e seus aliados afirmaram que estavam fugindo para o oeste para escapar das tribos Germânicas e Eslavas. Júlio César usou a migração dos Helvetii como uma desculpa para estabelecer uma base de poder na Gália, e uma vez que ele derrotou os Helvetii, forçando-os a retornar aos Alpes, ele seguiu com a conquista de toda a Gália. As campanhas para a conquista da Gália de César desencadearam uma migração celta final, da Gália do Norte para a Bretanha.

Durante todo o tempo em que os antigos celtas se moviam ou expandiam, arranjos políticos regionais chegavam a Utumno numa cesta de mão. Qualquer que fosse o reino ou cidade que estivesse no caminho da migração, estava normalmente calçado, mas os inimigos dessas pessoas infelizes muitas vezes encontravam novos aliados nos celtas quando viajavam pelas terras. O costume do ver sacrum era disputado, apesar de ser mencionado apenas por antigos escritores. Mas arqueólogos e historiadores, em geral, aceitam que os celtas e os germânicos estavam provavelmente seguindo uma antiga prática de mandar embora os colonizadores assim que suas populações começassem a aumentar.

O registro arqueológico de comunidades agricultoras Européias sugere que, há aproximadamente 8000 anos, fazendeiros foram para a Europa a partir da Grécia. Sabe-se que eles pressionaram os clãs mais velhos e vagantes para o leste e norte. Os fazendeiros trouxeram com eles animais domesticados, ferramentas superiores, armas, e um conhecimento sobre agricultura que os possibilitou formar maiores famílias, viver em maiores comunidades e viver por mais tempo.

A agricultura e a pecuária aumentaram o poder dos clãs, para por fim se tornarem tribos e nações. Mas a tecnologia era insuficiente para suportar grandes populações. Então, a cada poucas gerações, os vilarejos tinham que exilar parte de suas populações. As fazendas locais estavam consumindo toda a terra com a sua tradicional tecnologia de “cortar e queimar”, que proporcionou breves períodos de boa agricultura antes que os agricultores tivessem que se mudar. Fazendeiros da América do Sul estão destruindo milhares de acres de Floresta Tropical todos os anos através de prática similar.

Apesar desse tipo de agricultura requerer que novas terras sejam abertas de tempos em tempos, os fazendeiros podem deslocar-se dentro da mesma região geral, de forma que seu número total não se modifique. Mas a agricultura alimenta muitas bocas famintas, e as pessoas tinham tendência de ter muitos filhos. Apesar de que a maioria das crianças não chegava à maturidade (por uma série de razões), as comunidades agricultoras gradualmente se expandiram para o leste e para o norte por aproximadamente 3000 anos.E então novos povos, que chamamos de Indo-Europeus, começaram a ir para a Europa, e iniciaram o processo de expansão novamente.

Os Indo-Europeus não eram simplesmente agricultores. Eles eram guerreiros, nômades e inventores. Eles projetaram carroças que eram eficientes, fáceis de construir e manter,e capazes de transportar muitas mercadorias. O projeto de carroça dos Indo-Europeus permaneceu essencialmente inalterado até o século XIX, quando pioneiros americanos e vassalos russos usavam vagões que se pareciam muito com os seus antecessores de 5000 anos antes, para abrir terras em dois continentes.

Esses povos Indo-Europeus que se mudaram para a Europa se estabeleceram entre os fazendeiros nas terras densamente plantadas e adotaram um pouco de seu estilo de vida. Um desses costumes era a tradicional prática de cortar e queimar. De acordo com Tacitus, que escreveu sobre eles no século I DC, os Germânicos, um grupo ao norte dos Indo-Europeus, adotaram o costume de obrigar as famílias a sair de suas fazendas todos os anos. Tacitus tinha a impressão de que as tribos germânicas de certa forma aglomeravam-se no interior, queimando suas casas e reconstruindo-as a cada ano.

Tais medidas devem ter sido extraordinárias, e eles devem ter tido motivos políticos por trás de tudo. A Arqueologia nos mostra que existiam cidades fortificadas no norte da Europa, conectadas por estradas e rotas comerciais ao longo de estuários até antes de 1400 AC. Os Germânicos Ocidentais, dos quais vieram os Saxões, Francos e Borgonheses da primitiva História Medieval, eram possivelmente as tribos mais primitivas do n
orte. Mas eles, no entanto, tinham suas próprias cidades grandes e podiam reunir respeitáveis exércitos capazes de destruir legiões Romanas experientes, incluindo as malfadadas três legiões de Quinctilius Varus no começo do primeiro século DC.

Todos esses fazendeiros bárbaros viajantes provavelmente mais forneceram a Tolkien em esquema para as migrações dos Hobbits. Os Hobbits não gostavam de guerras. Eles não conquistavam impérios. Ao invés disso, eles achavam suas própria terras confortáveis e se fixavam por tanto tempo quanto às políticas locais permitiam. Assim como os Celtas e os Germânicos, que divergiram das mesmas subculturas ancestrais Indo-Européias em algum tempo no fim do terceiro ou segundo milênio AC, os Hobbits se dividiram em duas populações após terem entrado em Eriador.

Agora, muitas pessoas serão rápidas ao apontar que havia três grupos de Hobbits: Pés-peludos, Grados e Cascalvas. Sim, isso mesmo. Mas os Cascalvas e os Pés-peludos permaneceram no Norte. Eles cruzaram as Montanhas Sombrias através da Passagem Alta (acima de Valfenda – a mesma passagem onde Thorin e a Companhia foram capturados por Orcs em O Hobbit) e estabeleceram-se em Rhudaur, provavelmente entre o Mitheithel e as Colinas do Vento.

Os Grados cruzaram as Montanhas Sombrias pela passagem do Chifre Vermelho e se dividiram em dois grupos. Alguns foram ao norte para o Angle e ficaram em Cardolan. Os outros se estabeleceram em Terra Parda, ao sul da fronteira de Cardolan. Não é apenas uma coincidência que as famílias de Hobbits que descendiam dos Grados da Terra Parda tinham nomes célticos, enquanto famílias de Hobbits que descendiam de grupos do norte tinham nomes germânicos. Muitos leitores observaram ao longo dos anos como os Terra-pardenses parecem ser um pouco “celtas”.

De fato, todo o povo de Bri tem nomes relacionados a motivos populares celtas (Macieira, Carrapicho, etc). Isto é, são nomes relacionados à natureza. Quer estejam certas ou erradas, as pessoas têm – desde o final do século XVIII – cada vez mais associado os celtas e os druidas com à adoração à natureza e uma espécie de anti-pastorialismo em cidades. Na realidade, os celtas eram grandes e ativos construtores de cidades. Mas nos lembramos deles principalmente por seus fortes em colinas, migrações e por seus misteriosos druidas.

A identificação céltica de Tolkien para com os Terra-pardenses e seus parentes é estabelecida principalmente através de nomes de lugares, como por exemplo, para a terra de Bri. Bri (Bree) é uma palavra britânica para colina e Archet, Coombe e Staddle são todos nomes derivados da antiga língua Britânica (Celta). A animosidade entre os Terra-pardenses – é dirigida de sua terra natal pelos Rohirrim – e os Rohirrim também se assemelham aos Contos Arturianos dos Celtas contra os Saxões.

O próprio Tolkien indicou a conexão celta no apêndice F de Senhor dos Anéis:

…Os nomes dos habitantes da Terra dos Buques eram diferentes daqueles do resto do Condado. As pessoas do Pântano e seus descendentes da margem oposta do Brandevin eram estranhos em vários sentidos, como se disse. Foi sem dúvida do antigo idioma dos Grados do Sul que herdaram muitos de seus estranhíssimos nomes. Normalmente deixei-os inalterados, pois, se agora são esquisitos, já eram esquisitos em sua própria época. Possuíam um estilo que talvez devamos, vagamente, considerar como “céltico”.

Como a sobrevivência de vestígios da antiga língua dos Grados e dos Homens de Bri se assemelha à sobrevivência de elementos célticos na Inglaterra, minha tradução às vezes imita estes últimos. Assim, Bri, Archet e a Floresta Chet são baseados em relíquias da nomenclatura Britânica, escolhidos de acordo com o sentido: Bree “colina”, chet “floresta”. Mas somente um nome de pessoa foi assim alterado. Meriadoc foi escolhido para refletir o fato de que o nome abreviado desse personagem, Kali, significa, em westron, “alegre”, “jovial”, apesar de ser na verdade uma contração do nome Kalimac, da Terra dos Buques, sem significado na época.”

Podemos falar sobre quatro períodos da migração dos Hobbits dentro das histórias estabelecidas por Tolkien: A) sua migração original para os Vales do Anduin, que o ensaio “Anões e Homens” em The Peoples of Middle-Earth indica ter ocorrido no início da Terceira Era; B) suas migrações para Eriador, que o apêndice B de Senhor dos Anéis diz ter ocorrido nos séculos XI e XII da Terceira Era; C) suas migrações para o oeste, para Arthedain, ou para o leste, de volta aos Vales do Anduin e D) suas migrações para o Condado.

O Condado, é claro, se expandiu alguns séculos depois para a Terra dos Buques, e muitos séculos depois para o Marco Ocidental. Mas essas expansões parecem ser diferentes do que as volkvanderungs* dos períodos iniciais. Clãs inteiros deixavam suas terras natais, talvez queimando suas casas para desencorajar seus próprios retiros, e passaram por vastas regiões até alcançar novas terras onde deveriam começar novamente. Tudo o que uma família Hobbit auto-suficiente tinha deveria ir na mudança, em suas costas, ou em carroças puxadas por pôneis e/ou gado pequeno.

Todas as três primeiras migrações ocorreram por razões similares: guerra, ou a ameaça da guerra, tirou os Hobbits de suas terras, assim como os Helvetii e seus aliados deixaram a Helvetia (aproximadamente a mesma região ocupada pela Suíça) no século I DC devido a uma ameaça de guerra a partir do leste e do norte. A Quarta migração se diferenciou das migrações porque, pela primeira vez, os Hobbits migraram em tempos pacíficos. Isso era mais ou menos como um ver sacrum dos povos celtas. Os chefes dos Hobbits, Marcho e Blancho, reuniram o máximo de pessoas que poderiam segui-los e partiram para a terra real de antigamente, além do rio Brandevin.

Devido a razões desconhecidas a nós, os Hobbits dividiram sua nova morada em quatro partes, as quatro Quartas. A divisão provavelmente não ocorreu de imediato. Até certo ponto, deve ter sido estabelecida após a queda de Arnor, depois de Angmar ter sido derrotada e os Hobbits poderem voltar para sua terra natal. Suas casas provavelmente haviam sido destruídas, e os Hobbits teriam que construir tudo novamente. Foi somente quando Aranath (aparentemente anunciado que Aranath) não reestabeleceu o acordo com o rei que os chefes do Condado começaram a organizar questão por conta própria.

Os Hobbits do Condado se estabeleceram em pequenos povoados construídos ao redor de clãs de liderança, que, ao longo de mil anos, em sua maioria fracassavam. Algumas das antigas famílias conservavam suas distintas tradições de clãs, mas muitos se tor
naram homogeneizados em uma sociedade totalmente sedentária.

Eles abriram novas terras, para ser exato, mas somente uma única grande migração é mencionada antes do retorno da autoridade real na Quarta Era. Os Oldbucks deixaram o Condado (ou alguns deles deixaram) e se estabeleceram na Terra dos Buques. Por que um Thain escolheria desistir de sua autoridade é um mistério, mas pode ser que a família Oldbuck havia se tornado tão numerosa que eles simplesmente precisavam de uma terra própria. Nesse caso, as antigas migrações dos celtas ecoam vagamente na última grande jornada Hobbit da Terceira Era.

Os Fazendeiros Celtas eram bem avançados para o seu tempo. Eles eram, de fato, melhores fazendeiros que os Romanos (de acordo com algumas opiniões). Os Celtas usavam arados de ferro e desenvolveram a rotação da safra. Então, apesar de sua reputação de vagar por todos os lugares, os Celtas tentavam permanecer no mesmo local o tanto quanto fosse possível. As migrações são consideradas uma solução para o problema de população crescente.

Os Hobbits, sendo pessoas diminutas, não requeriam tanta terra quanto homens de tamanho normal, mas eles ainda assim deveriam invadir novas terras a cada algumas gerações. O Condado deve ter sido uma região muito grande para as populações iniciais, evidentemente reduzida em 1636 (A Grande Praga) e 1974 (A Queda de Arnor). Como os Oldbucks cruzaram o Brandevin, os Tûks devem ter mandado colonizadores para o norte após a Batalha dos Greenfields (2747), uma vez que Bandobras Tûk tinha muitos descendentes na parte norte do Condado.

As comunidades mais velhas estariam assim estáveis e auto-suficientes, constantemente mandando um fluxo de colonizadores às comunidades mais jovens, que, em troca, teria dado origem às novas comunidades próximas às beiras do Condado. O presente de Aragorn do Marco Oeste para o povo do Condado no começo da Quarta Era demonstrou a necessidade de expansão mais uma vez. O estabelecimento do Marco Oeste teria sido um evento importante. Por todo o antigo Condado, famílias de Hobbits estavam enchendo as carroças, dizendo adeus aos seus amados e partindo à procura de uma nova vida.

Abrir novas terras e encarar os perigos que elas podem trazer (tais como as árvores zangadas da Floresta Velha) não são aparentemente aventuras para os Hobbits e sim feitos nascidos da necessidade. Armados com machados, escavadeiras, martelos e picaretas, os Hobbits começavam a tarefa árdua de conquistar novas terras, cujos habitantes anteriores haviam fugido. Portanto, eles não tinham necessidade de se tornar os grandes guerreiros de que os Celtas eram tão renomados por ser. Um fazendeiro Hobbit somente precisava defender sua safra contra as incursões dos filhos famintos do vizinho.

Mas se as pessoas imaginam para onde os Hobbits foram, a resposta deve ser óbvia. Houve um tempo onde as invasões dos Homens eram demasiado ameaçadoras. Os antigos limites haviam sido quebrados ou esquecidos. Então, eles encheram suas carroças, junto com seus pôneis e pequenas vacas e partiram pela estrada, seguindo para o oeste. De algum modo, eles não foram para o Mar, mas eles continuaram se movendo. E agora eles ainda estão na estrada. Crianças, carroças e tudo.

* volkvanderungs: migrações dos povos, em alemão.


Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

Todos os cavalos dos reis e todos os homens do rei

“Osanwë-Kenta” é um estudo interessante, porém confuso. Christopher Tolkien acredita que ele foi composto ao mesmo tempo que “Quendi e Eldar” (cerca de 1959), cuja maior parte foi publicada no War of the Jewels (N. do T.: Guerra das Jóias, um dos HoME). “Quendi e Eldar” é uma coleção de pequenos estudos que provêm o desenvolvimento etimológico de certas palavras que os elfos usavam para nomear a si mesmo e outros povos, ou para se referir a indivíduos de certas maneiras.

O primeiro texto é carregado com notas históricas e anedotas que revelam muito mais sobre a história élfica que algumas passagens do Silmarillion. Infelizmente, o material do “Quendi e Eldar” não é compatível com O Silmarillion. E apesar de sabermos que as decisões editoriais de Christopher Tolkien impactaram o texto do Silmarillion consideravelmente, as discrepâncias entre esses dois trabalhos vão bem além dos possíveis erros editoriais.

“Quendi e Eldar” é intitulado “Origens e significados do élfico referindo-se aos elfos e suas variedades. Con apêndices dos seus nomes para outros Incarnados.” “Osanwë-Kenta” é intitulado “Investigação sobre a Comunicação de Pensamento”. E se o assunto estipulado desses dois trabalhos não é diferente o bastante, um terceiro corpo de escritos também está associado à eles: um estudo sobre a origem dos Orcs, publicado no Morgoth’s Ring (HoME), com uma introdução na página 415 que menciona “Quendi e Eldar” e “Osanwë-Kenta”.

Christopher publicou o estudo de Orcs primeiramente como parte da coleção de escritos “Myths Transformed”, no qual a cosmologia da Terra-Média foi gradualmente expandida e revisava para excluir algumas das mais velhas tradições datadas de 1916-17.

A conexão entre “Orcs” e “Quendi e Eldar” fica na entrada do Apêndice C do “Quendi e Eldar”, onde Tolkien escreve:

“…Os Orcs das últimas guerras, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-Média, não eram espíritos ou fantasmas, mas sim criaturas vivas, com capacidade de fala, de manufatura e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de seus mestres. Eles se multiplicavam rapidamente sempre que não eram perturbados. É impossível, como a consideração da origem final dessa raça deixa claro, que os Quendi tenham encontrado qualquer raça ou tribo de Orcs, antes de serem achados por Orome e a separação dos Eldar e Avari.”

Christopher escreve: “Sem dúvida meu pai perdeu o controle das palavras em ´É impossível, como a consideração da origem final dessa raça deixa claro…´ para escrever aquele ´consideração´…” E este é o estudo sobre Orcs, quando Christopher colocou no Morgoth’s Ring o que deve ser um dos mais confusos e debilitantes preâmbulos da história da escolaridade literária.

Morgoth’s Ring foi publicado em 1993, e o War of the Jewels veio em 1994. Um ano depois de ler essa introdução ao estudo dos Orcs, finalmente nos permitem ver o trabalho em quase toda sua plenitude. Porém, não o seria até Vinyar Tengwar de Julho de 1998 (número 39) ser publicado, quando finalmente seríamos introduzidos à uma parte substancial do apêndice D do “Quendi e Eldar”, que Christopher tinha omitido da publicação por “falta de espaço”.

Bem, ninguém pode discutir muito com “falta de espaço”. Muitas pessoas esperaram mais de 40 anos para ver como os reais apêndices do Senhor dos Anéis pareciam, graças à “falta de espaço” que forçaram J.R.R. Tolkien a diminuir o material para até metade do conteúdo original. Mas a “falta de espaço” não deixou a coleção “Quendi e Eldar” num estado incompleto e desgrenhado. Porque, você verá, outra parte do “Osanwë-kenta” foi publicado no Vinyar Tengwar de Julho de 2000 (Número 41). As “notas etimológicas no Osanwë-Kenta” eram desconhecidas à Carl Hostetter quando ele publicou “Osanwë-kenta” numa antiga edição do VT.

A história inteira parece com isso:

Perto do ano 1959, J.R.R. Tolkien colocou de lado seus esforços n´O Silmarillion para dar a si mesmo um pouco de história. Numa entrevista à televisão datada da metade dos anos 60, Tolkien disse que ele desgostava da história se não fosse uma história das palavras. Palavras dizem muito sobre as pessoas que as usavam, e ele gostava de explorar tais assuntos. “Quendi e Eldar” é então uma aventura na história pelas palavras. As palavras sozinhas significam pouco a menos que tivessem uma história acompanhando, então Tolkien criou essa história.

Estudando as raízes das palavras élficas para “povos” (e palavras correlatas), Tolkien descobriu de onde as três famílias vieram, e daí ele aprendeu quem eram os pais elfos. Pelo caminho ele notou que os elfos de Cuivienen devem ter encontrado alguns tipos de proto-orcs mas não os verdadeiros orcs das guerras, e ele tinha que descobrir de onde esses orcs vieram para entender porque isso deveria ser.

Mas à medida que ele ia documentando a história da linguagem, seu uso e desenvolvimento, Tolkien não podia deixar de falar sobre a língua e de como os Noldor a estudava. Eles estudavam sua própria língua e o Valarin (a língua de Valinor), assim como o dialeto de Quenya falado pelos Teleri de Alqualonde e o que falavam os Vanyar. O Silmarillion nota que a língua dos Teleri mudou durante sua jornada em Tol Eressëa, e foi sem dúvida essa velha tradição que (em parte) inspirou Tolkien a devanear sobre os obscuros caminhos da história da linguística élfica.

Mas como o “Osanwë-kenta” entra nisso?

A conexão parece ser o evasivo Pengolodh, que aparece aqui e ali nos HoME. Pengolodh era um senhor da tradição Noldorin, um dos Lambengolmor (Conhecedores das Línguas). Ele era um elfo do povo de Turgon em Gondolin, e tinha uma filiagem mista, Noldor e Sindar. Pengolodh sobreviveu à queda de Gondolin e (presumivelmente) vagou com o grupo de exilados do bando de Tuor e Idril. Ele chegou em Eregion na Segunda Era, e eventualmente fugiu da Terra-Média quando aquele reino foi destruído. Pengolodh era o último membro sobrevivente dos Lambengolmor quando navegou através do Mar.

Osanwë-kenta abre com o seguinte parágrafo:

“No fim do Lammas Pengolodh discute brevemente a transmissão de pensamento (sanwë-latya “though-opening”), fazendo várias asserções sobre ele, que evidentemente são baseadas em teorias e observações dos Eldar, que em algum lugar eram dissertadas longamente. Eles estão preocupados primeiramente com os Eldar e os Valar (incluindo os Maiar nessa ordem). Homens não são especialmente considerados, exceto no caso de estarem no mesmo nível dos Incarnados (Mirroanwi). Deles Pengolodh diz apenas: “Homens tem a mesma faculdade dos Quendi, mas são mais fracos graças à força do hröa, sobre o qual a maioria dos homens tem pequeno controle.”

“Osanwë-kenta” é apresentado como o trabalho de um autor inominado – provavelmente Bilbo Bolseiro, apesar de Carl Hostetter notar “é… tentador identificar esse redator, como aquele do ´Quendi e Eldar´, como Ælfwine, o marinheiro anglo-saxão que foi o tradutor e comentador de outros trabalhos de Pengolodh, tais como o Quenta Silmarillion (LR: 201, 203-4, 275 fn) e, notavelmente, Lhammas B (cf. LR:167)”.

Porém, em 1959 Ælfwine tinha desaparecido da mitologia e todas as traduções confiáveis do élfico foram atribuídas a Bilbo (o autor oginial d´O Livro Vermelho do Marco Ocidental) e subsequentes escolados, incluindo Merry, possivelmente um ou mais Tuks, e ao menos um escolado gondoriano: Findegil, o escriba do rei, que fez a cópia do Livro do Thain, que Tolkien alega ser sua fonte para o SdA. Tolkien valida o Livro do Thain como a autoridade suprema em muitas coisas salvo as histórias de Bilbo e Frodo (no prólogo do SdA):

“O Livro do Thain foi então a primeira cópia feita do Livro Vermelho e continha muito que tinha sido omitido ou perdido. Em Minas Tirith ele receber anotações, e muitas correções, especialmente nomes, palavras, e citações nas línguas élficas; e ali lhe foi adicionado uma versão abreviada do Conto de Aragorn e Arwen, fora do conto da Guerra. O conto inteiro é dito ter sido escrito por Barahir, neto de Faramir, algum tempo depois da morte do Rei. Mas a importância maior da cópia de Findegil era que ela continha todo o trabalho do Bilbo em “Traduções do élfico”. Esses três volumes eram um trabalho de grande perícia e conhecimento, no qual, entre 1403 e 1418, ele usou todas as fontes disponíveis para ele, vivas e escritas. Mas desde que eles foram usados por Frodo, quase totalmente preocupado com os Dias Antigos, nada mais é dito dele aqui.”

É possível que o narrador inominado fosse Findegil, ou outro escolástico gondoriano (de fato, foi meu primeiro impulso sugerir isso), mas Bilbo também conquistou um status de sábio nas palavras “Esses três volumes eram um trabalho de grande perícia e aprendizado…”. Quem, devemos perguntar, notou-os serem grandes trabalhos? Talvez a pesquisa de Bilbo só fora totalmente apreciada em Gondor, e provavelmente somente depois que Peregrin retraiu-se para Gondor em FA 64, levando o Livro do Thain com ele (à pedido de Elessar)

Alguns dos comentários dos apêndices do SdA estão entre aspas, que é a maneira de Tolkien de sugerir que está citando diretamente do Livro Vermelho. Por exemplo:

“Nosso rei, nós o chamamos; e quando ele vem para o norte e fica um tempo perto do lago Evendim, então todos do Condado ficam felizes. Mas ele não entra nessa terra, e se prende à lei que criou, que ninguém do Povo Grande deve passar essas bordas. Mas ele cavalga frequentemente com alguns amigos até a Grande Ponte, e lá ele saúda seus amigos, e outros que quiserem conhecê-lo; e alguns cavalgam com eles e ficam em sua casa pelo tempo que desejarem. O Thain Peregrin esteve ali muitas vezes, assim como o Mestre e Prefeito Samwise. Sua filha Elanor a Bela é uma das donzelas da Rainha Vespertina.”

Essa passagem deveria ter sido escrita entre os anos FA 15 e 30, os anos nos quais Elanor virou uma donzela da rainha e casou-se com Fastred de Greenholm. A língua não é nada comparada com os comentários do “Osanwë-kenta” e outros trabalhos sobre os Dias Antigos. Mas não pode ser o comentário de Bilbo porque ele não estava no Condado durante essa época. O “Traduções do Élfico” do Bilbo representa então um espaço em branco que Tolkien teve que preencher com o tempo. “Quendi e Eldar”, “Osanwë-kenta” e “Orcs” (para não mencionar o próprio Silmarillion) são todos partes de trabalhos antigos que Bilbo traduziu e preservou.

Bilbo era um mestre linguista, e sua mão deve ter sofrido à cada história que gerou o Livro Vermelho. Ele sabia Quenya e Sindarin, e deve ter aprendido bastante com os elfos de Valfenda, alguns dos quais se dúvida conheciam Pengolodh. De fato, pode ser que o povo de Elrond, sendo em maioria Noldor, eram mais familiares com Pengolodh do que outros senhores élficos, dos quais muitos poucos são nomeados. O colapso total da civilização Eldarin na Primeira Era, e a perda de muitos elfos no fim da Segunda, teria diminuído o poço de recursos que Elrond lhe proveu, e até os próprios recursos de Bilbo eram limitados.

O propósito de “Osanwë-kenta” é explicar como, ou porquê, dois seres podem se comunicar por pensamento. Mas rapidamente cai numa discussão sobre o personagem de Melkor e suas motivações, opostas às de Manwë. Melkor usa a habilidade inata comum à todas as criaturas racionais (diminuídas em certas ordens, como elfos e homens) para se comunicar por pensamento como uma maneira de aproximar-se e seduzir as vontades dos seres mais fracos. Ele não poderia forçar outra vontade à fazer o que desejasse, não até ele ter iludido-a. Isto é, Melkor não pode influenciar diretamente o pensamento de outro ser, mas poderia indiretamente levar outros seres a pensar que eles quissessem fazer tal. Entre os Eldar de Aman, ele contava com a linguagem, cuja maestria impressionava até mesmo os Vanyar, apesar de Manwë ter-lhes advertido que Melkor teria adquirido tal habilidade com sua língua.

O estudo termina com uma discussão sobre a decisão de Manwë ter restaurado a liberdade à Melkor. Ele concorda dizendo que, se Manwë não tivesse feito isso, ele teria ficado como Melkor, rebelde aos olhos de Ilúvatar. Uma das notas atadas ao estudo também fala de premonição. Comunicação de pensamento, a natureza do bem e do mal, premonição – inclusive a idéia de se um Valar pode ficar preso numa forma escolhida (corpo) – “Osanwë-kenta” viaja por todo lugar, pulando de idéia em idéia quase tão rápido quanto a pena do autor.

O material do final dos anos 50 representa uma era altamente produtiva de carreira de Tolkien, apesar de insatisfatória. Quanto mais escrevia sobre a Terra-Média, mais tinha que escrever para explicar o que tinha escrito. Respostas viraram questões, questões continuaram sem resposta, e idéias rolavam de sua mão como rochedos na montanha de Caradhras.

Parece, todavia, que tudo estava levando de volta à mitologia que Tolkien escreveu para o Senhor dos Anéis. A porção do Apêndice D do “Quendi e Eldar”, que Christopher omitiu do War of the Jewels, fala principalmente com a carreira de Fëanor como um senhor da tradição élfica. O estudo da línguagem de Fëanor e suas motivações políticas são mais elucidadas no “A Senha de Fëanor”, que Christopher publicou no The Peoples of Middle-Earth, o décimo-segundo e último volume da série HoME.

Linguistas focaram-se na primeira parte do “Senha” porque ele provêm detalhes sobre o desenvolvimento do Quenya Noldorin, enquanto historiadores se focaram na segunda parte do “Senha” porque ele oferece detalhes na geneologia final dos Noldor. “A Senha de Fëanor” foi composta em 1968 ou depois, e foi terminado quase uma década depois do “Quendi e Eldar”. Parece, logo, que Tolkien se sentiu insatisfeito com o que escreveu no “Osanwë-kenta” e decidiu expandir a história de Fëanor. Christopher conclui, no HoME, que seu pai usou genealogias escritas no fim dos anos 50 enquanto escrevia no “A Senha de Fëanor”. É possível, até provável, que Tolkien tinha alguns ou todos os papéis do “Quendi e Eldar” ao alcance.

Porém, como Ælfwine, cuja última aparição ocorreu em algum lugar dos anos 50 (de acordo com a própria análise do Christopher), Pengolodh está estranhamente silencioso no “A Senha de Fëanor” e nos textos que o acompanham. Os textos de Pengolodh foram despedaçados com o tempo, e a tradição sobre Pengolodh caiu em más línguas com Tolkien. A necessidade de prover uma voz anciã para as traduções de Bilbo foi colocada de lado pela necessidade de Tolkien de revisar a cosmologia e aplacar seu senso de perfeição. No curso dessas mudanças, ele inevitavelmente esqueceu de alguns conceitos que ele tinha apenas tocado.

Nós sabemos agora que os Vanyar não apenas vagueavam pelas florestas de Valinor ou sentavam-se nos salões de Manwë e ficavam cantando o dia inteiro. “A Senha de Fëanor” (na seção publicada na Vinyar Tengwar de Julho de 2000) e, numa outra extensão, “Osanwë-kenta” indica que os Vanyar tinham seus próprios mestres de tradição, alguns dos quais argumentaram com Fëanor sobre princípios linguísticos. Podemos deduzir que os Vanyar tinham uma curiosidade quanto à linguagem que quase se igualava à dos Noldor. Mas os Vanyar podem não ter se importado com a história da linguagem tanto quanto seu uso. Os senhores de tradição Vanyarin de fato concordam com Fëanor em teoria, sobre a questão de objetar a mudança no som, mas por causa de sua veemência em condenar a mudança, Fëanor alienou seus potenciais aliados entre os Noldor e os Vanyar.

Também é possível deduzir algo da história de Aman depois do fim da Primeira Era de alguns desses escritos e outros textos. Tolkien ocasionalmente joga uma alusão à Aman no presente, talvez inconscientemente, talvez com vontade de tornar possível algum contato com as Terras Imortais. Nos disseram que muitos dos escritos sobre Númenor foram perdidos na Queda. Então, toda a correspondência com os Eldar de Tol Eressëa, e os jornais e contos sobre as visitas dos Elfos, foram perdidos. No máximo, Elendil e seu povo trouxeram alguns livros de Númenor, mas destes muitos se perderam pelos séculos e pelas guerras. A perda das fontes numenoreanas livrou Tolkien de escrever muitas histórias. Mas também reforça a visão de que qualquer texto razoavelmente completo falando dos Dias Antigos está no “Traduções do Élfico” de Bilbo Bolseiro

Apesar de Tolkien ter contemplado como produzir os 3 volumes das “Traduções”, é evidente que ele nunca procedeu muito longe nesse caminho, e preferiu escrever e reescrever as historias principais do “Quenta Silmarillion” e seus textos acompanhantes. Os estudos linguísticos são experimentais, e nos dão pequenos pedaços de sabedoria ao longo do processo de desenvolvimento. Como Humpty-Dumpty na sua cantiga de ninar, as Traduções do Élfico representam uma herança perdida que nem meso um exército de pesquisadores seriam capazes de recuperar. Não há nada realmente a recuperar, mas “Quendi e Eldar”, “Osanwë-kenta” e “Orcs” podem merecer atenção especial no futuro. Nós provavelmente só começamos a juntar as peças.

[Tradução de Aarakocra]