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Michael Martinez

Viajando na maionese de Asas e Cabelos

Michael Martinez

Novos livros de autoridade sobre a Terra-média são escassos e demandam enorme espera. Frequentemente, quando um novo livro é publicado fornecendo novas informações sobre a Terra-média, nossas queridas ideias que nutrimos por tanto tempo sofrem um sério desafio e devem ser reavaliadas.

The History of Middle-earth (HoME) caminha a passos tímidos para um nada profundo desfecho através das notas finais de Christopher Tolkien sobre “Tal-Elmar” finalizando The Peoples of Middle-earth. Seu papel no longo e meticuloso processo de organizar e publicar as anotações e manuscritos de seu pai termina de forma silenciosa. Tantas questões permanecem sem resposta no 12º volume da HoME que muitas pessoas expressam uma enorme frustração com este trabalho. “Isso é tudo que há para se falar sobre a Terra-média?”, perguntam elas.

A resposta dada então em 1996 era tanto “sim” como “não. “Sim”, pois a megalítica subestrutura dos detalhes foi cuidadosamente exposta, exceto por uma área que recebeu menor atenção. “Não”, pois Christopher prestou escassa atenção ao desenvolvimento de O Hobbit, uma tarefa delegada ao falecido Taum Santoski. Após o falecimento de Santoski, a responsabilidade recaiu sobre John Rateliff, que ainda tem de produzir a muito esperada história de O Hobbit (que em determinado momento possuiu o título provisório de Mr. Baggins ["Sr. Bolseiro"]).

O Annotated Hobbit, de Douglas Anderson, revisado e atualizado em 2002, serve como a fonte primária da comunidade tolkeniana para o estudo do desenvolvimento de O Hobbit. Uma fonte secundária vital é o livro J. R. R. Tolkien: Artist and Illustrator, editado por Wayne Hammond e Christina Scull. Alguns poucos comentários feitos por Christopher e espalhados pelos livros da História da Terra-média, impõem mais limites nas já limitadas fontes à disposição para o estudo do trabalho de JRRT em O Hobbit.

Muito dos materiais linguísticos restantes não-publicados de Tolkien foram colocados aos cuidados editoriais de um pequeno grupo de linguistas que trabalham com Christopher Gilson (Parma Eldalamberon) e Carl Hostetter (Vinyar Tengwar). Por conta das severas condições para o  uso desses escritos (fotocópias – os manuscritos originais não foram liberados), os materais-fonte estão presos no meio do fogo cruzado de disputas e acusações que permeiam a relativamente escassa e pequena comunidade linguística tolkeniana. Alguns dos principais lingüistas tolkenianos pressionam duro para que haja uma maior velocidade na disponibilização do material. O conflito ocasionalmente espalha-se para o domínio de discussões não-lingüísticas, mas em geral manteve-se contido dentro dos círculos de estudo linguísticos sobre Tolkien. Alguns materiais adicionais originários dos arquivos de Tolkien na Marquette University e da Bodleian Library de Oxford também fornecem aos linguistas novas informações.

Muitos dos entusiásticos leitores Tolkien estão familiarizados com as brigas. Os mundos dos estudos tolkienianos, tanto formais quanto informais, reverberam com as palavras acaloradas de debates inflamados. Não conheço nenhum estudioso de Tolkien que já não tenha me dito em particular “Você pode encontrar uma resposta com fulano ou sicrano, mas não mencione meu nome pois isso não vai abrir portas para você”. Realmente, até eu tenho me pego dizendo coisa parecida em certas ocasiões.

Alguém poderia pensar que, com a morte de Tolkien em 1973, já tenha passado tempo suficiente para que todo mundo tenha estudado tudo que seja possível imaginar sobre sua obra. A arte de analisar Tolkien, se não for apenas crítica barata contra Tolkien, deveria ser a esta altura uma análise bem definida e considerada quase científica. Mas a magia da arte de Tolkien é que ela continua a produzir novas descobertas, num ritmo quase anual. A última parte significativa do material lançado relacionado a Terra-média, durante a vida de Tolkien, foi provavelmente o mapa de Pauline Baines em 1969. O mapa inclui talvez meia dúzia de nomes de lugares que ninguém já tinha visto antes (tais como Edhellond, Lond Daer Ened e Framsburg).

Há entrevistas que Tolkien deu entre 1965 e 1971 nas quais ele revelou pequenos detalhes sobre personagens ou aspectos particulares da Terra-média. Há o famoso comentário no qual ele compara o idioma dos Anões (Khuzdul) ao hebraico. Há a entrevista onde ele discute a história de Tarannon Falastur e a Rainha Beruthiel, comparando-os ao deus nórdico Njord e sua esposa-giganta Skadi. Mas, na verdade, após a publicação da segunda edição oficial de O Senhor dos Anéis e da terceira edição especial de O Hobbit, o desenvolvimento da Terra-média ficou paralisado pelo resto da vida de Tolkien.

Somente quando Christopher Tolkien publicou O Silmarillion em 1977 (casualmente mencionando no Prefácio que não era realmente o Silmarillion de seu pai) é que as informações começaram fluir livremente. Com Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média (publicado em 1980), Christopher liberou uma torrente de informações sobre o mundo de O Senhor dos Anéis. Claro que havia uma enorme quantidade de informações em O Silmarillion, mas era difícil lê-lo e digerir tudo. Como um amigo meu colocou “Parece que há uns 20 nomes por página que você precisará lembrar para o resto do livro”.

A habilidade fecunda de Tolkien em criar nomes, personagens e genealogias inspirou muitos a escreverem livros de referência, sites de internet e FAQs. A maioria deles não vale a pena em ser consultada, na minha opinião, uma vez que as chances de estarem errados é considerávelmente grande de tal forma que você quase precisa memorizar tudo para saber se os livros de referência estão certos. Eles apresentam detalhes fundamentais de forma errada com tal freqüência que não se deve confiar neles. Mesmo o Complete Guide to Middle-earth, escrito por Robert Foster, que é geralmente aceito como uma fonte confiável, foi denunciado como fonte de erros e confusão, e ele parou de documentar a Terra-média com O Silmarillion.

Lembro tudo isso antes de dizer que, com cada novo lançamento de material anteriormente não-publicado, a tarefa de conferir, organizar e compreender tudo que foi realmente escrito por J. R. R. Tolkien a respeito da Terra-média torna-se cada vez mais complexa e desafiadora com o lançamento de cada novo livro. No decorrer dos anos, enquanto via pessoas endossar pessoalmente um livro de referência em específico sobre o trabalho de Tolkien, fui provavelmente um dos piores críticos que imediatamente apontava os defeitos de tal obra.  E metade do tempo pessoas retrucavam indignadas: “Bem, então por que você não escreve um você mesmo?”; e metade do tempo pessoas me pediam encarecidamente para fazer um trabalho melhor.

Desculpe, pessoal. Se eu achasse que poderia fazer melhor que qualquer outro, já eu teria tentado. Eu sei que cometeria enganos, e esses enganos me atormentariam pelo resto da vida, mesmo se eu fosse a única pessoa a enxergá-los. Algumas vezes você pode fazer tudo certinho e mesmo assim ainda dar errado.

Por exemplo, por vários anos depois que li pela primeira vez O Senhor dos Anéis, eu ficava me perguntando quem eram os Homens do Norte. De onde eles vinham? Porque diziam que eles estavam ligados aos Dunedain de Arnor e Gondor? Quando Contos Inacabados foi publicado, eu pensei que finalmente tinha a resposta.

Em O Senhor dos Anéis, Faramir diz a Frodo: “Nossos mestres de tradição dizem que eles detêm desde tempos antigos esta afinidade conosco e que eles provêm daquelas mesmas Três Casas dos Homens, como os Numenorianos o foram no princípio: talvez não de Hardor, o Louro, Amigo-dos-Elfos, mas ainda assim de seu povo e de seus filhos que não singraram o Mar para o Oeste, recusando o chamado”.

Ora, essa foi uma declaração bem específica, e por toda sua vida foi a única pista real que Tolkien nos forneceu sobre a origem dos Homens do Norte. O Silmarillion de fato confirma que alguns Edain retornaram a Eriador, e nenhum dos descendentes de Hador estava entre eles. Os “filhos” a quem Faramir se referia deviam ser portanto ser considerados de forma figurativa, exatamente como os Rohirrim referiam-se a si mesmos como Eorlingas (os filhos ou povo de Eorl).

Contos Inacabados menciona os descendentes daqueles Edain que retornaram para Eriador. Eles encontraram Veantur e os Numenorianos várias centenas de anos depois. Cerca de mil anos depois, Sauron invadiu Eriador, expulsando ou matando todos os Elfos e Homens. Então, o que aconteceu com o povo de origem Edainica? Por um bom tempo, achei que eles fugiram para leste, passando pelas Montanhas Nevoentas para os Vales do Anduin. Pareceu então plausível para mim. E quando compartilhei tal idéia com outras pessoas, várias concordaram.

No entanto, em 1996, The Peoples of Middle-earth dissipou essa especulação. No ensaio “Anões e Homens” descobrimos que os povos Edainicos fixaram-se por Rhovanion e Eriador. Isto é, antes que quaisquer Edain tivessem alcançado Beleriand, havia assentamentos Edainicos desde Carnen (o Rio Vermelho, que flui para o sul das Colinas de Ferro) para o oeste de Baranduin. As Três Casas dos Edain eram na verdade somente subgrupos daqueles povos maiores. Os Homens do Norte da Terceira Era eram simplesmente descendentes originários dos grupos provenientes mais ao leste que os primeiros colonos Edainicos.

As palavras de Faramir são consistentes tanto com minha interpretação dos textos e quanto com o ensaio canônico “Anões e Homens”. Esse ensaio é canônico no sentido que oferece uma explicação do próprio J. R. R. Tolkien sobre os fatos apresentados por Faramir para Frodo (e para o leitor). A Terra-média é criação dele, e assim ele decide onde as coisas devem ficar. Eu não. É claro, em uma observação anexada ao texto “Anões e Homens”, Tolkien especificamente faz referência à conversa de Faramir com Frodo. O ensaio, que ele escreveu mais ou menos em 1969, data assim de um período no final dos anos 60, quando Tolkien estava escrevendo uma enorme quantidade de “histórias de pano de fundo”. Ele estava preenchendo as lacunas, e em alguns casos, mudando de idéia sobre o que havia sido publicado 15 anos antes.

Uma das ironias curiosas sobre o trabalho de Tolkien é aquilo que Christopher Tolkien enfatiza, especialmente em The Peoples of Middle-earth, de que seu pai sentia-se compelido a respeitar o que havia sido publicado. Por este motivo, quando escrevia um bom pedaço sobre o significado de “-ros” do nome de Elros, J. R. R. Tolkien teve de se controlar e parar com tudo.

Mas, infelizmente, essa explicação complica-se por um pequeno fato que passou desapercebido por meu pai, e que foi algo fatal. Ele anotou no texto que boa parte dessa explicação é falha por conta do nome Cair Andros (um nome Sindarin, como eram praticamente todos os topônimos de Gondor), a ilha do Anduin ao norte de Minas Tirith, que foi mencionada no Apêndice A (RdR, p. 334, nota de rodapé) como significando “Navio de longíneas espumas”, uma vez que a ilha tinha a forma de um enorme navio, com a proa apontando para o norte, contra a qual a espuma branca do Anduin quebrava nas escarpadas rochas. Assim, ele foi forçado a aceitar que o elemento -ros de Elros tinha de ser o mesmo que em Cair Andros, que a palavra deveria ser Eldarin e não Atanica (Beoriana) e que não devia haver qualquer relação histórica entre essa palavra e o Rothinzil Adunaico Numenoriano (The Peoples of Middle-earth, p. 371, Houghton Mifflin Co. [HMCo])

Tolkien encontrava-se navegando nas águas perigosas dos domínios “das histórias de fundo”, muito antes de 1969. De fato, logo após ter começado a trabalhar nos Apêndices de O Senhor dos Anéis, em 1950 (ele terminou o primeiro texto em 1948), Tolkien elaborou notas sobre a história dos Anões. E então a sua editora, a George Allen & Unwin, surpreendeu-o com a prova tipográfica para a segunda edição de O Hobbit. Em 1947, Tolkien escreveu para a Allen & Unwin sugerindo que se algum dia viessem a produzir uma segunda edição de O Hobbit, ele sentia que seria melhor revisá-lo de forma a ser compatível com O Senhor dos Anéis que, embora iniciado como uma seqüência de O Hobbit (por conta da requisição do editor), havia evoluído de forma a se tornar uma consolidação de várias histórias e mitos que previamente não estavam associados a este (Hobbits, os Eldar, os Numenorianos, etc.).

Depois de ler as provas tipográficas, Tolkien percebeu que teria de mudar o material em seus Apêndices em invés de lutar para conseguir mudanças substanciais em O Hobbit.

O estágio de correções é considerado muito tardio para que um escritor possa reescrever uma quantidade substancial de sua obra (apesar das declarações de Tolkien sobre ter feito consideráveis edições em provas tipográficas de vários de seus livros). Os Apêndices de SdA são assim o primeiro texto pós-SdA a sofrer considerável influência de uma fonte extra-SdA. E de modo algum este é o último texto desta natureza.

“A Caçada ao Anel” é outro texto pós-SdA que foi, de fato, composto (ou ao menos iniciado) antes da publicação de O Senhor dos Anéis propriamente dito. Christopher Tolkien sugere que ele foi iniciado após o primeiro volume de O Senhor dos Anéis ter sido publicado em 1954, mas antes da publicação do terceiro volume (o que ele deduziu por conta dos conflitos de datas entre “A Caçada ao Anel” e o livro). Tencionava-se incluir a “A Caçada ao Anel” em um “volume especialista” que Tolkien mencionou em uma carta de 1956 (No. 187, As Cartas de J. R. R. Tolkien). Sua intenção original era produzir um glossário de topônimos a partir do livro, sendo complementado por notas lingüísticas.

Mas os problemas (prazerosos se eu tivesse tempo) que o volume extra apresentará ficarão claros se eu lhe disser que, enquanto muitos como o senhor exigem mapas, outros desejam indicações geológicas ao invés de lugares; muitos querem gramáticas, fonologias e amostras Élficas; alguns querem métrica e prosódias – não apenas das breves amostras Élficas, mas também dos versos “traduzidos” nos modos menos familiares, tais como aqueles escritos na forma mais rígida do verso aliterativo anglo-saxão (como por exemplo o fragmento no final de Batalha de Pelennor, V vi 124). Músicos querem melodias e notações musicais; arqueólogos querem cerâmica e metalurgia. Botânicos querem uma descrição mais precisa do mallorn, da elanor, niphredil, alfirin, mallos e symbelmynë; e historiadores querem mais detalhes sobre a estrutura política e social de Gondor; questionadores gerais querem informações sobre os Carroceiros, o Harad, origens Anãs, os Mortos, os Beornings e os dois magos que faltam (dos cinco). Será um volume grande, mesmo que eu me atenha apenas às coisas reveladas à minha limitada compreensão!

Está claro que, ao produzir Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média, Christopher Tolkien esperava – pelo menos até certo ponto – realizar o desejo de seu pai de publicar um volume complementar de O Senhor dos Anéis. Mas Contos Inacabados não poderia ser o livro que seu pai teria escrito mais do que O Silmarillion poderia ser. Ambos são apenas aproximações imperfeitas do que poderia ter sido produzido, se o Tempo e a Imaginação não tivessem escorridos das mãos de JRRT. Enquanto que com O Silmarillion Christopher tentou construir uma narrativa completa, ele dispensou tais intromissões editoriais consideráveis na compilação de Contos Inacabados. O segundo livro estabelece a base para o extraordinário estudo de Christopher na série The History of Middle-earth. Contos Inacabados provou que Christopher podia, até certo grau, separar sua voz da de seu pai e que podia atrair os leitores tanto no processo subcriativo quanto na análise editorial.

Christopher cometeu erros pelo caminho. Ninguém poderia produzir estes 14 livros e não cometer erros. Ele freqüentemente anotava seus erros nos comentários iniciais de cada volume ou nas observações finais de seções especiais. Às vezes, Christopher era extremamente duro consigo mesmo, como podemos ver na página 141 de The Peoples of Middle-earth onde, após citar a si mesmo de um volume anterior, ele escreveu:

Esta última observação é um absurdo óbvio. A longuíssima linha de reis Numenorianos, que entrou no curso do desenvolvimento de Akallabeth, estava presente no Apêndice A (e uma olhada rápida pelos textos da obra é suficiente para mostrar, pelo simples fato de sua aparição, que eles não poderiam datar de maneira concebível de uma data tão tardia)…

O fardo de Preciso-Estar-Certo somente aumenta para alguém como Christopher ou Wayne Hammond, com as súplicas dos leitores ao redor do mundo para que produzam evidências conclusivas a favor ou contra várias questões. Sendo o mais respeitado e conhecido bibliógrafo de Tolkien, Hammond ganhou seu espaço nos estudos tolkienianos que rivaliza com o do próprio Christopher em termos de autoridade. Poucas pessoas desejariam desafiar algum ponto fornecido por Hammond, apesar de nem Christopher Tolkien nem Wayne Hammond jamais afirmarem ter a última palavra de autoridade em qualquer assunto. Ambos de livre e espontânea vontade reconhecem as contribuições e correções de outras pessoas.

Ainda assim, Hammond foi a autoridade a quem apelei há não muito tempo atrás, quando alguém me perguntou por que freqüentemente eu dizia que J. R. R. Tolkien traduziu o Livro de Jó para a Bíblia de Jerusalém. Afinal de contas, “todo mundo sabe que foi o livro de Jonas”.* Bem, minha fonte era uma nota bibliográfica acima de qualquer contestação que Wayne Hammond e Douglas Anderson haviam publicado. A informação não foi contestada com sucesso durante quase 30 anos. Ela parecia bem confiável. Mas com o objetivo de ser o mais completo possível, eu perguntei para membros da Mythopoeic Society se havia evidência em contrário. O próprio Wayne Hammond respondeu com um longo resumo de sua recente e minuciosa pesquisa sobre o assunto. Ele chegou à conclusão que JRRT não traduziu Jó como afirmava um editor. Seu raciocínio – que é muito comprido para reproduzir aqui – convenceu-me (e a outros) a oferecer uma retratação pública pelo engano.

* Ambos livros do Velho Testamento; um contando sobre as súplicas de Jó para Deus (e a resposta dEste) e outro sobre Jonas e a baleia. [N. da T.]

Mas este é o motivo pelo qual não escrevo enciclopédias sobre Tolkien. Eu batalho para usar somente as fontes mais confiáveis e, além de quaisquer enganos que eu cometa de minha parte, serei ocasionalmente forçado a viver com as conseqüências pelo resto de minha vida. Outras pessoas podem achar que vale a pena tentar, e se alguém reclama ou os critica, eles podem dizer “Pelo menos eu tentei”. Talvez, mas tentar não justifica os erros. Nem Christopher Tolkien ou Wayne Hammond (ou outros cujos trabalhos eu respeito) se encolhem em um canto com uma justificativa tão medíocre.

Mas a combinação de erros de estudo que surgem a partir de textos secundários e terciários é tanto sua própria recompensa quanto sua punição. Eu acho mais fácil revisar as obras e fornecer os esclarecimentos. Pelo menos, quando consideradas com as explicações, essas obras tornam-se mais úteis do que se ninguém dissesse nada simplesmente porque “pelo menos eles tentaram”. O Atlas da Terra-Média de Karen Fonstad é, em minha opinião, o melhor de vários livros que procuram documentar a cartografia da Terra-média.

De qualquer maneira, eu não concordo com todas as conclusões dela, e ela comete sérios alocamentos errôneos em alguns dos mapas (ela dá até mesmo duas localizações para Rhosgobel). Em correspondência particular, uma pessoa da família Fonstad (que achou que minha resenha do Atlas foi muito rude e crítica) reclamou que Fonstad esperava publicar uma versão revisada e corrigida do atlas, mas o editor matou a idéia pois eles não queriam mudar um livro obviamente popular (e agora altamente lucrativo).

Desta forma, quando alguém faz o esforço de documentar algo tão complexo e com diversidade cronológica tão ampla e multifacetada como as mitologias de Tolkien, ainda assim não há garantias que as correções serão publicadas. Ou, pior ainda, elas podem ser divulgadas por uma terceira pessoa. Há um velho ditado: escolha com cuidado as batalhas que queira lutar, pois a próxima pode ser sua última. Ou pior, pela minha própria experiência, pode ser uma batalha que nunca terminará.

Vamos dar uma olhada no livro recém publicado de Wayne Hammond e Christina Scull, The Lord of the Rings: A Reader’s Companion. Muitas pessoas estão curiosas em saber do que trata o livro. Eu direi do que não se trata: não é o guia definitivo que responderá cada pergunta já feita pelos leitores de Tolkien. Hammond e Scull não fingem que seu trabalho deva ser tratado desta forma, mas eles parecem cientes da inevitabilidade de ganhar esta distinção particular. Em seu Prefácio, eles convidam as pessoas a partilhar idéias e correções com eles (e reconhecem os esforços feitos por várias pessoas cujos nomes e trabalhos também apreciei).

O Reader’s Companion fornece notas informativas e confiáveis sobre O Senhor dos Anéis. Parece que ele esclarece e explica várias palavras e citações que geralmente são obscuras para o leitor médio. O livro é um guia muito melhor que vários outros que já li ou dei uma olhada, mas não se preocupa muito em resumir os detalhes. Incluindo o glossário, minha edição em brochura tem quase 900 páginas. Os autores confessam que é o dobro do que eles originalmente pretendiam.

Para ajudar os leitores a entender o que repousa além das meras palavras no livro, Hammond e Scull esforçaram-se em uma das mais sérias, considerativas e detalhadas pesquisas que eu vi ser publicada até hoje. A abrangência de seu trabalho vai bem além das observações breves e comuns e de páginas de referência. Alguns tópicos ganharam vários parágrafos de discussões e citações detalhadas. E os pesquisadores tolkienianos ficarão contentes em perceber que vários textos previamente não-publicados são mencionados, e por vezes até são citados. Infelizmente, esses textos propriamente ditos permanecem fora do alcance do público comum, e é minha esperança sincera que, algum dia, alguém tenha permissão de publicá-los com um mínimo de manipulação editorial.

Os editores precisam manipular textos. Sendo eu próprio um autor que já trabalhou com mais de um editor, entendo o processo. Algumas vezes o autor não deixa claro um assunto tão bem quanto poderia. Mas os manuscritos e notas de Tolkien estão sendo usados como fontes de autoridade para alguns dos estudos mais obscuros e intrincados que alguém poderia associar com a Terra-média. A Terra-média em si não possui o mesmo valor na pesquisa formal que a criação da Terra-média, e ainda assim a maioria das pessoas quer saber mais sobre a Terra-média e menos sobre como as coisas surgiram e o que elas podem significar na vida do autor. Há ainda muito a ser compreendido naqueles textos não-publicados que gerações inteiras de estudiosos e comentaristas de Tolkien ainda estão para nascer, gerações que terão coisas para dizer nunca antes expressadas. Não estou certo se a comunidade tolkeniana aprecia completamente a profundidade do legado dele.

Para ser honesto, há alguns tópicos abordados em Reader’s Companion que eu acabei enxergando sob uma nova perspectiva. Eu realmente espero ser necessário cerca de 2 anos para conseguir captar toda a profundidade deste trabalho, não apenas por conta das novas citações e referências, mas também porque eles reescreveram alguns velhos pontos de vista melhor que do eu já vi serem expressos antes. Mas, claro, o novo material fornecerá combustível considerável para reflexão nos anos que virão.

Por exemplo, fiquei surpreso em perceber que “Earendil era um marinheiro” (canção de Bilbo, ouvida em Valfenda, publicada em “Muitos encontros” em A Sociedade Do Anel) nunca apareceu em O Senhor dos Anéis na forma que J. R. R. Tolkien pretendia que aparecesse. Houve tantas edições do livro que presumi (erroneamente) que todos os esforços possíveis foram feitos para tornar cada nova edição fiel aos desejos de Tolkien. Porém, esse não foi o caso.

Não há um texto de SdA publicado que seja completamente fiel às intenções de Tolkien. A versão final do poema está publicada tanto em The Treason of Isengard (pp. 103-104, Houghton Mifflin Co.) e em The Lord of the Rings: a Reader’s Companion, mas não em qualquer edição de O Senhor dos Anéis propriamente dito. Mesmo assim, esse poema é bastante revelador com relação a um considerável número de pequenos detalhes na história de Tolkien e com respeito ao seu estilo de escrita. Por exemplo, uma das mais interessantes estrofes é a seguinte:

In might the Feanorians
that swore the unforgotten oath
brought war into Arvernien
with burning and with broken troth;
and Elwing from her fastness dim
then cast her in the waters wide,
but like a mew was swiftly borne.

Em poder os Feanorianos
que prestaram o juramento jamais esquecido
trouxeram consigo guerra a Arvenien
com fogo e lealdade partida
e Elwing em sua presteza nublada
atirou-se então nos infinitos mares
mas como uma gaivota* prontamente renasceu.

* No original, mew é uma gaivota pequena, conhecida como gaivota parda no Brasil. Nome científico Larus canus, encontrado na Eurásia e América do Norte. [N. da T.]

Há muito mais na estrofe, mas deixe-me interromper em “como uma gaivota” e mostrar minha posição. Qualquer um familiar com a história como contada em O Silmarillion sabe que quando Elwing atirou-se ao mar, Ulmo (um dos Valar) salvou-a da morte certa e transformou-a em um pássaro. E na forma de pássaro ela voou pelos mares e eventualmente encontrou o navio de Earendil (seu marido). Por conta de seu sacrifício, e pela intervenção de Ulmo, Elwing salvou a Silmaril que Beren e Luthien recuperaram da coroa de Morgoth e das garras dos filhos sobreviventes de Feanor.

A decisão de Tolkien de reformar esta parte do poema usando “como uma gaivota” a partir de uma referência mais literal para a transformação pode não parecer significativa para muitas pessoas, mas ainda assim eu não consigo deixar de lembrar da ocasião quando alguém perguntou: Elfos têm asas? A pergunta, creio, está relacionada à clássica “Balrogs têm Asas?”, uma guerra na qual alguns dizem que têm e outros dizem que não. Ao perguntar se os Elfos de Tolkien têm asas, o inquisitivo colega revela quão insignificante é tal debate no estudo da obra de Tolkien. Mas esse assunto avança furiosa e impavidamente, sob os olhares surpresos e comentários que ele extrai das vias secundárias.

Desta forma, “como uma gaivota” me lembra do debate sobre as Asas do Balrog, no qual os argumentos principais são feitos a partir da escolha de Tolkien pela palavra “como”.

O Balrog alcançou a ponte. Gandalf parou no meio do arco, apoiando-se no cajado com a mão esquerda, mas na outra mão brilhava Glamdring, fria e branca. O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas. Levantou o chicote, e as correias zuniram e estalaram. Saía fogo de suas narinas. Mas Gandalf ficou firme. (Extraído de “A ponte de Khazad-dum”, A Sociedade do Anel)

“A sombra à sua volta se espalhou como se duas grandes asas” é normalmente citada como prova de que o Balrog não tinha asas. O argumento sustenta que “como” cria uma similaridade, e similaridades são usadas (no uso mais estrito das palavras) na comparação de uma coisa com outra que não se parece com a primeira, de forma a enfatizar um determinado aspecto. Bem, isso é o máximo de concisão que posso fazer sobre uma explicação sobre a palavra similaridade às 3 horas da madrugada.

Digamos que eu tenha um carro amarelo. Eu poderia dizer que meu carro é amarelo como uma banana. Isto significa que é realmente “amarelo-banana”? Não necessariamente, mas quando você pensar naquela cor em um carro, você visualizará algo parecido com o meu carro amarelo.

O problema com a argumentação de similaridades, no entanto, é que esse argumento assume que “como” é sempre usado como uma similaridade. Se este for o caso, então Tolkien tem um sério problema. Pois, anteriormente no texto, ele escreveu:

Legolas se virou e preparou uma flecha, embora a distância fosse grande demais para seu pequeno arco. Puxou a corda do arco, mas sua mão caiu, e a flecha escorregou para o solo. Ele deu um grito de desespero e medo. Dois grandes trolls apareceram. Traziam grandes lajes que jogaram no chão para servir de passarela por cima do fogo. Mas não foram os trolls que encheram o elfo de medo. A multidão de orcs se abriu, e se amontoou do lado, como se eles próprios estivessem com medo. Alguma coisa vinha atrás. Não se podia ver o que fosse: era como uma grande sombra, no meio da qual havia uma forma escura, talvez humanóide, mas maior; poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor. (Ibid.)

Aqui Tolkien usa “como” para introduzir a similaridade “como uma grande sombra”. Isto é, o Balrog, quando aparece pela primeira vez, é tão escuro que os membros da Sociedade do Anel mal conseguem discernir sua figura da escuridão ao redor. É somente pouco menos escuro que a escuridão que provém do fundo do salão de pedra, caminho por onde ele aproxima-se deles.

Se a regra de similaridade deve ser aplicada de forma justa e consistente, então devemos concluir que não há sombra (ou escuridão) pois ela é somente como uma sombra ou escuridão. E, portanto, se não há tal coisa, então a sombra não-existente não pode ser comparada (via similaridade) a duas enormes asas. Bem, isso é simplesmente absurdo, de modo que as asas devem estar lá. Mas isso não significa que o assunto foi encerrado de forma satisfatória. Porque se são asas, de que tipo elas são?

Quando o Balrog se aproxima, ele salta sobre uma fenda ardente e revela que ele é imune ao fogo quando as chamas saltam para engolfá-lo. De fato, a presença do Balrog diminui a luz do fogo:

A figura veio para a extremidade do fogo e a luz se apagou, como se uma nuvem tivesse coberto tudo. Então, com um movimento rápido, pulou por sobre a fissura. As chamas bramiram para saudá-la, e se ergueram à sua volta; uma nuvem negra rodopiou subindo no ar. A cabeleira esvoaçante se incendiou, fulgurando. Na mão direita carregava uma espada como uma língua de fogo cortante; na mão esquerda trazia um chicote de muitas correias. (Ibid.)

Sombra é a ausência de luz em uma área que está cercada de luz. Quando você traz uma luz para perto de uma área que está “envolta em sombra”, as sombras fugirão da nova fonte de luz, e elas podem até desaparecer completamente. E ainda assim, quando esse Balrog que é “como uma grande sombra” aproxima-se das chamas claramente visíveis, a luz do fogo é enfraquecida em vez de fazer a escuridão retirar-se como faria uma sombra normal. Assim, mesmo que Tolkien claramente utilize a palavra “sombra” ao referir-se à escuridão que o acompanha e é aparentemente uma estensão ou uma emanação do Balrog, ele não está falando de uma sombra normal que é criada por algo que bloqueia a luz.

As pessoas que discordam dos Balrogs alados insistem que se ele realmente tivesse asas, o Balrog poderia voar. O problema com esse argumento é que ele assume primeiro que Balrogs alados possam voar, segundo que se eles podem voar então devem usar suas asas, terceiro que havia espaço para o Balrog voar e quarto que há algum lugar para onde voar. De fato, as hipóteses podem se estender consideravelmente. Nenhuma dessas hipóteses surgiu do texto, veja bem. Elas são simplesmente objeções falsas, nascidas na forma de reformulação da história como deveria ser escrita de acordo com um padrão arbitrário de correção, convenientemente arranjado de forma a não permitir a possibilidade de que as asas dos Balrogs sejam, em qualquer sentido da palavra, reais.

Na verdade, uma outra hipótese é de que as asas devam ser asas palpáveis. Isto é, as pessoas parecem pensar que se Tolkien realmente quis dizer que a Sociedade viu “asas” no Balrog, então essas asas devessem ser uma parte física de seu corpo. Essa objeção é a mais descabida, considerando-se o fato que o Balrog bufa chamas, que sua “cabeleira” pega fogo (ainda assim insistem que essa cabeleira é de cabelo ou algo parecido?) e que ele leva um bom tempo para chegar ao fundo do abismo na sua queda. Quanto tempo é “muito tempo”? Tolkien não diz. Mas se é uma distância medida em milhas ou só em milhares de pés, um homem não cairia por “um longo tempo”. Gandalf diz a Aragorn, Legolas e Gimli que ele e o Balrog caíram por muito tempo antes de atingir a água, e enquanto caíam Gandalf golpeara o Balrog com sua espada.

É interessante notar que as pessoas não perguntam se Balrogs sangram. Não seria normal uma criatura viva gritar em agonia e sangrar um bocado se alguém a estivesse golpeando com uma espada Élfica? Então por que Gandalf não mencionou que o Balrog estava sangrando, ou qualquer outra menção da reação do corpo do Balrog com o impacto de sua espada?

Por outro lado, as pessoas insistem que o Balrog morto ou agonizante poderia se salvar quando Gandalf o lançou do topo da montanha, onde “bateu-se contra as paredes da montanha em sua ruína”. Mas elas não parecem ter problemas com Smaug nem com Ancalagon, o Negro, ambos indubitavelmente dragões alados e voadores, que foram incapazes de salvarem a si próprios quando se bateram contra montanhas e lagos em suas ruínas. Parece meio injusto que o Balrog tenha de provar que é realmente capaz de voar no momento de sua morte. Não que a habilidade de voar ou de atenuar sua queda no ar deva necessariamente depender de asas para uma criatura que já tem toneladas de rochas caindo na cabeça (por Gandalf, na Câmara de Mazarbul, quando o Balrog tenta seguir a Sociedade pela porta que eles usaram como rota de fuga).

Dizer que uma coisa dessas é um argumento baseado em semântica é inexato e bastante equivocado. É um argumento baseado em preferências pessoais e exclusões arbitrárias. As longas discussões sobre Balrogs e suas asas (ou a ausência delas) alcançou uma variedade enorme de textos, inclusive O Silmarillion. Infelizmente, devido ao trabalho editorial de Christopher, O Silmarillion (confessando isso pessoalmente) não retrata de forma acurada os textos originais de seu pai, ou suas intenções. Uma passagem em particular que foi apontada por ambos os lados é freqüentemente mencionada como sendo a “passagem de Hithlum”. É o parágrafo no qual os Balrogs vêm em auxílio de Morgoth quando este está lutando contra Ungoliant:

…Nas profundezas de lugares esquecidos, aquele grito foi ouvido. Muito abaixo dos salões destruídos de Angband, em subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, Balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retorno de seu Senhor. E agora, velozes, eles se ergueram e, passando por Hithlum, chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas… (O Silmarillion, “Da fuga dos Noldor”, p. 81, HMCo)

Não há menção de asas neste texto, mas uma versão anterior do texto incluía as palavras “com velocidade alada”:

Mas o grito de Morgoth naquele momento foi o maior e mais terrível que já fora ouvido no norte do mundo: as montanhas agitaram-se e a terra tremeu, e as rochas foram partidas em pedaços. Nos mais profundos e esquecidos recessos ouviu-se aquele grito. Muito abaixo dos salões de Angband, nos subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, os Balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retorno de seu senhor. Velozes eles se ergueram e com velocidade alada passaram por sobre Hithlum, e chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas. (“The Later Quenta Silmarillion II”, Morgoth’s Ring)

A “velocidade alada”, no entanto, não é realmente a pista para o modo de viagem dos Balrogs. A passagem acima foi retirada de um texto datado por Christopher Tolkien como sendo de meados da década de 1950. É um texto pós-SdA, apesar de conter uma história longa e de tons variados, visto que foi baseada em uma cópia datilografada de um texto pré-SdA. JRRT escreveu várias notas e mudanças à mão naquela cópia. Na versão original (publicada em The Lost Road and Other Writings), os Balrogs somente apareciam: “Em seu auxílio vieram os Balrogs que viviam ainda nos recessos mais profundos de sua antiga fortaleza ao norte, Utumno. Com seus chicotes de chamas, os Balrogs destruíram as teias…”

Tecnicamente, os Balrogs pré-SdA viajavam grandes distâncias, mas eles não eram seres flamejantes. Isto é, eles não se tornaram criaturas de “chamas e sombras” até 1940 ou 1941, quando Tolkien revisou “A Ponte de Khazad-dum”, abandonando o Balrog original de braços longos pela versão sombria e flamejante que ameaça a Sociedade. Christopher Tolkien já discutiu as datas do desenvolvimento deste capítulo em The Treason of Isengard, para aqueles que queiram verificar minhas justificativas.

Por que os Balrogs chegam numa “tempestade de chamas” em Lammoth? Uma tempestade é uma tormenta, e tormentas vêm naturalmente do céu. O argumento de similaridade implica que os Balrogs vieram voando, com ou sem asas. Então será que o Balrog de Moria voava naquela hora? Não sabemos. Mas sabemos que demorou um bom tempo para chegar no fundo do precipício. É possível que o Balrog pudesse retardar sua queda. Ele não teria de depender do agitar de asas, se seu corpo fosse não-substancial de alguma forma. Ou talvez ele somente manuseou o calor e usou-o como uma espécie de propulsão de foguete natural. Tolkien não insiste nos detalhes da Longa Queda, mas ele fornece algumas pistas que podem ou não nos conduzir na direção correta de seus pensamentos.

Porém, o Balrog claramente não é uma criatura de carne e osso. Nenhuma criatura desse tipo pode sobreviver sendo consumido pelo fogo, uma vez que as chamas iriam saltar para sua cabeleira e incendiá-la. E é quase certo que este Balrog queima:

A figura escura, envolvida em fogo, corria em direção a eles. Os orcs gritavam e avançavam para a passarela de pedra. Então Boromir levantou sua corneta e a tocou. Forte o desafio soou e retumbou, como o grito de muitas gargantas sob o teto cavernoso. Por um momento os orcs estremeceram e a sombra flamejante parou. Então os ecos se extinguiram de repente como uma chama apagada por um vendaval, e o inimigo avançou outra vez (Extraído de “A ponte de Khazad-dum”, A Sociedade do Anel)

Observe como Tolkien descreveu o Balrog neste ponto de seu avanço contra a Sociedade: “sombra flamejante”. O que quer que seja, não está simplesmente projetando uma sombra. Não é possível ele ser capaz de projetar uma sombra, uma vez que está em chamas. Portanto, o que é esta escuridão que Tolkien chama de “sombra”?

Quando o Balrog enfrenta Gandalf na ponte, Tolkien escreve:

– Você não pode passar – disse ele. Os orcs estavam quietos, e fez-se um silêncio mortal. – Sou um servidor do Fogo Secreto, que controla a chama de Anor. Você não pode passar. O fogo negro não vai lhe ajudar em nada, chama de Udun. Volte para a Sombra! Não pode passar!

O Balrog não fez sinal de resposta. O fogo pareceu se extinguir, mas a escuridão aumentou. Avançou devagar para a ponte, e de repente saltou a uma enorme altura, e suas asas se abriram de parede a parede, mas ainda se podia ver Gandalf, brilhando na escuridão; parecia pequeno, e totalmente sozinho: uma figura cinzenta e curvada, como uma árvore encolhida perante o início de uma tempestade. (Ibid.)

Bem, agora que as chamas diminuem, certamente se espera que a escuridão aumente… exceto pelo fato que agora o Balrog está bem em frente de Gandalf, cujo cajado emite luz (ou melhor, ele próprio está iluminado, pois está “brilhando na escuridão”). E há ainda o precipício em chamas atrás dele, então se esperaria que a Sociedade estivesse pisando na sombra do Balrog, e não a vendo.

Gandalf fala sobre o “fogo negro”, dizendo que ele não ajudará o Balrog, e chama este de “chama de Udun”. Essa criatura está claramente associada ao fogo, e ainda assim sua escuridão sobrepuja qualquer luz natural e quase oblitera a luz angelical de Gandalf.

Desta forma, tratar a escuridão do Balrog como sendo uma sombra real e natural qualquer é um absurdo tão grande quanto insistir que as “asas” (aquelas extensões da escuridão que parecem ter forma de asas) devam ser asas físicas e passíveis de serem utilizadas, ou mesmo asas que tenham qualquer capacidade de erguer e sustentar o Balrog num vôo. Se nos afastarmos da cena por um momento e a reduzirmos a uma linguagem corporal simples, poderemos ver que o Balrog gradualmente aumenta a si mesmo de tamanho, expandindo sua escuridão exterior (que chamei de emanação, mas não sabemos realmente o que é) para fora e além de seu corpo.

A Sociedade recua perante o Balrog, mas em determinado momento Boromir detém-se e sopra sua corneta. O som é tão intimidador que mesmo o Balrog hesita. E assim Boromir começa uma variação das brigas que ocorrem geralmente em pátios escolares. A resposta do Balrog é tornar a avançar, agora com uma nuvem completamente estendida de escuridão, com tal poder dominante que quase engolfa Gandalf na ponte. A despeito do fogo por trás dele, e a despeito da luz emanando de Gandalf diante dele, o Balrog cria e estende uma parede de escuridão que se torna o foco da atenção de todos, mesmo que por um breve momento.

Sombras naturais não funcionam dessa forma.

Muitos anos atrás, quando a ansiedade pelo filme de Peter Jackson nos matava, a Batalha sobre as Asas de Balrog atingiu seu ápice. Apenas a título de curiosidade, organizei uma enquete para ver quantas pessoas achavam que os Balrogs deviam ter asas. Dentre as mais de 3 mil respostas, cerca de 74% disseram que o Balrog devia ter algum tipo de asas. Não havia no entanto consenso sobre que tipo de asas elas deviam ser. O Balrog do filme, como vimos, tinha asas de “fumaça e sombra” e talvez mais fumaça que outra coisa. Eu acho que a fumaça foi colocada para cobrir a sensação de escuridão com a qual o Balrog do livro se cercou.

Porém, este assunto é discutido com tanta freqüência – de uma forma ou de outra – que vários fóruns hoje proíbem as discussões sobre asas de Balrog. As pessoas que levantam o tópico são tratadas com desdém na esperança que o assunto morra. Afinal de contas, como disse Rudyard Kipling “O Leste fica a leste e Oeste fica a oeste, e nunca os dois encontrar-se-ão”. As pessoas simplesmente se recusam a mudar de idéia.

Portanto, talvez não devêssemos ficar muito surpresos ao ver o assunto tratado, por mais breve que seja, em The Lord of the Rings: a Reader’s Companion, onde três frases completas são dedicadas ao assunto:

330 (I:344). a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas – esta e a declaração de dois parágrafos depois, sobre ele saltar a uma enorme altura e suas asas se abrirem de parede a parede, conduziu a várias discussões entre os leitores sobre se os Balrogs possuem asas. Como duas grandes asas no primeiro parágrafo descreve a sombra que envolve o Balrog, e o segundo ainda parece aplicável a sua sombra: à medida que o Balrog aumenta de estatura, assim também sua sombra espalha-se ainda mais. Outras evidências citadas para asas, tais como as que o os Balrogs erguem-se e passam com velocidade alada por sobre Hithlum (Morgoth’s Ring, p. 297,) podem ser geralmente interpretadas de forma figurativa.

Bem, há dois erros nesta passagem. Primeiro, a declaração que “à medida que o Balrog aumenta de estatura, assim também sua sombra espalha-se ainda mais” é inconsistente tanto com a declaração prévia feita por Hammond e Scull (onde eles reconhecem que “o Balrog em O Senhor dos Anéis é certamente um ser de fogo e escuridão;…”) e com a primeira passagem na qual “como duas grandes asas” surge. O Balrog não aumenta sua estatura ali, mas mesmo assim a sombra claramente se estende para o exterior. E segundo, como eu observei acima, a passagem de Hithlum não depende da “velocidade alada” para mostrar que os Balrogs possuem asas, depende da “tempestade de chamas” para mostrar que eles vêm do céu (na versão pós-SdA dos eventos).

Tolkien usa “tempestade de chamas” somente em uma outra passagem (publicada), quando Morgoth libera os dragões alados (e voadores) contra as Hostes de Valinor. Os dragões claramente voam e cospem fogo, assim a comparação com tempestade é bem colocada. Foi observado que “velocidade alada” é usada para descrever a presteza com que Fingolfin cavalgou por Ard-Galen depois da Dagor Bragollach. Desta forma, “velocidade alada” não precisa significar o uso de asas, mas só porque foi usada de forma figurativa sobre a velocidade dos cavalos (para denotar velocidade em sentido metafórico) não significa que é usada somente daquela forma com relação aos Balrogs – a não ser que alguém se sinta tentado a argumentar que Balrogs são “como cavalos” de alguma maneira.

O uso da similaridade por Tolkien para ilustrar uma transição de idéias vagas para idéias mais claras foi engenhoso no sentido de que deixa muito para a imaginação do leitor. Ele certamente dedicou algum tempo e esforço a essa passagem. Em 1998, outra pessoa que acreditava firmemente que Balrogs não tinham e nunca deveriam ter asas, recorreu para a voz com a maior autoridade neste assunto. Ele escreveu para Christopher Tolkien e fez uma pergunta que, até hoje, não foi revelada (para mim). Deduzi a partir do que ele compartilhou abertamente da resposta de Christopher que ele não perguntou simplesmente se Balrogs deviam ou não deviam ser vistos como seres alados. A carta foi enviada após uma longa troca de correspondência a respeito de diversas mudanças textuais que Christopher havia discutido em detalhe em The Treason of Isengard. A resposta de Christopher, como informado pelo correspondente, foi:

Geralmente não me era enviado o material tardio de Markette (sic) – os textos datilografados por meu pai – e em muitos casos nem sequer os vi… Assim, nunca li o texto datilografado final (o seguinte à cópia passada a limpo do manuscrito C (The Treason of Isengard, pp 203-33) de A Ponte de Khazad-dum (Markette n.º 3/3/25). Presumo que foi aí onde entrou a menção das asas do Balrog que se abriam de parede a parede. Você poderia pedir a Chuck Elston, o muito solícito arquivista de Markette, que lhe procure o 3/3/
25. Contudo, provavelmente não lhe seria muito útil, sem nenhum conhecimento preciso de quando meu pai datilografou-o: mas em uma carta de 28 de fevereiro de 1949, ele escreveu: “Estou achando o trabalho de datilografar uma cópia passada a limpo do ‘Senhor dos Anéis’ m. grande”. Eu, pessoalmente, nunca achei que a segunda menção das asas do Balrog tenha nenhum significado diferente da primeira.

Assim, aqui você tem uma resposta de uma autoridade maior que Michael Martinez ou Wayne Hammond ou Christina Scull. Faça dela o que achar melhor.

Compre The Lord of the Rings: A Reader’s Companion para sua coleção, especialmente se você faz qualquer tipo de pesquisa sobre Tolkien (para si mesmo ou para outros). É de longe uma fonte  muito melhor que muitas outras que há por aí nas livrarias ou na Internet. Apenas pule as partes que você não gostar.

Os comerciantes da Terra-média

Os comerciantes da Terra-média
 
Por Michael Martinez

De vez em quando alguém pergunta que moeda era usada na Terra-média. É
difícil de encontrar evidência de moeda (dinheiro) em O Senhor dos
Anéis, mas existem sim algumas referências sobre isso. Quando Gandalf
chegou à Vila dos Hobbits com uma carroça com fogos de artifício para o
último aniversário de Bilbo e Frodo juntos, crianças hobbits o seguiram
até Bolsão esperando por uma apresentação do mago. Ao invés disto,
Bilbo atira para elas alguns centavos e as manda embora. Mestre Gamgi
também relata que Bilbo é esbanjador em se tratando de dinheiro
enquanto fala com os amigos.

 
 
 

Tolkien chega a dizer no capítulo “Three Is Company”, que em português
é “Três não é demais”, que Frodo compra uma casa em “Cricôncavo” no
campo além de Buqueburgo. Frodo, mais tarde, vende Bolsão para a
família Sacola-Bolseiro, os inoportunos primos que há tempos esperavam
herdar a fortuna de Bilbo e a casa antes dele adotar Frodo.

A moeda aparece novamente quando os cavalos e pôneis são roubados do
estaleiro em Bri. Carrapicho paga a Merry 18 moedas de prata para
compensá-lo pela perda dos pôneis dos Hobbits e compra um pônei de Bill
Samambaia por outras 12 moedas de prata, 3 vezes o que o pônei valia
naquelas partes. Depois deste ponto, os Hobbits e seus companheiros,
depois que estes se juntam, são providos de suprimentos e transporte
pelas várias pessoas que os ajudam pelo caminho, logo a citação de
moeda se torna por demais superficial pelo resto da história.

“Pennies” ou moedas, são unidades surgidas no oitavo século
Anglo-Saxão, cunhadas e modeladas na contemporaneidade, mas rejeitadas
mais tarde pelos Francos. Offa, Rei da Mércia, expandiu a produção de
“penny” depois de conquistar o reino de Kent, o qual começou a cunhar a
moeda por volta de 765. As primeiras “pennies” foram, deste modo,
distintas das “pennies” de hoje. Elas eram feitas de prata e foram as
principais moedas do reino Anglo-Saxão do século VIII em diante, assim
como a “solidus” (moeda romana de ouro) tinha sido a principal moeda do
império Romano séculos antes. “Pennies” substituíram uma velha moeda,
chamada “sceat”, a qual foi usada no comércio entre os anglo-saxônicos
e os escandinavos.

A prévia publicação de “O Senhor dos Anéis” foi forçada a resumir o
extensivo material que ele havia preparado para os apêndices. Dentre as
passagens excluídas, a qual foi somente publicada no “The peoples of
Middle-earth” de forma breve, mas fascinante seção detalhando os nomes
do dinheiro usado em Gondor. O “tharni”, que nós sabemos, era a moeda
de prata, a quarta parte de um “castar”. O “tharni” pode, deste modo,
ter sido equivalente as moedas de prata (silver pennies) de Eriador.

O equivalente élfico para “tharni” e “castar” eram “canath” (do kanat-,
‘four’) e “mirian” (do mir, ‘uma jóia ou preciosidade’). "The
Etymologies" fornece a palavra primitiva, “mbakh”, significando
‘troca’, pela qual as palavras para ‘comércio’ e ‘comerciante’ são
derivadas no Qenya (precursor do Quenya). Existiam também palavras para
‘mascate’ e ‘mercadoria’ em Sindarin.

O fato das línguas antigas da Terra média reconhecer palavras como
‘comércio’ e ‘comerciante’ dá a entender que Tolkien chegou a pensar
nas atividades econômicas no começo, entre Elfos e Anões, entretanto
ele não providenciou detalhes destas atividades. Nós não sabemos na
verdade se ‘moedas’ eram usadas em Beleriand, por exemplo, mas Círdan
segundo boatos comercializou ou deu pérolas para Thingol, quem
abastecia destas os anões de Ered Luin.

Os anões construíram estradas ‘do começo ao fim’ da Terra-média no
início desta história. Os anões de Ered Luin construíram uma ou duas
estradas levando a Doriath, e a rota, eventualmente, estendia por todo
caminho para Nargothrond (a qual eles ajudaram a erguer). O comércio
anão passava pelo Dor Caranthir, e Caranthir é dito que se tornou rico
por este. Então ele presumivelmente cobrou encargos de algum caráter em
troca de manter as rotas a salvo e em segurança. Ele pode também ter
suprido os anões com comida, no “The people of Middle-earth” é contado
a nós que os anões não cultivam a sua própria comida.

Os anões só ajudaram a construir duas cidades em Beleriand que nós
saibamos: Menegroth e Nargothrond. Os Noldor tinham seus próprios
pedreiros para contar e eles presumivelmente construíram suas torres de
pedra sem a ajuda anã. Entretanto Anões e Noldor trocavam conhecimentos
e forjavam produtos, ao que parece. O potencial do comércio é neste
caso considerável, pelo menos mais ao leste de Beleriand.

Fora de Beleriand os anões tinham um sistema de estradas se estendendo
pelo menos de Ered Luin a todo o caminho para as Colinas de Ferro e
aparentemente mais longe. Os anões, como parece, se comprometeram de
certo modo com o comércio com elfos Avari e Nandorin, bem como os
Edain, mas nós não sabemos se a moeda era um meio de troca ou se a
troca de mercadorias e serviços eram os primeiros sinônimos de comércio.

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Na segunda era, a civilização Eldar se difundiu de Lindon (o último
refúgio de Beleriand), do leste e sul para Eregion e Edhellond.
Edhellond era apenas um assentamento, um território de Sindarin e
Nandorin, que aparentemente desejavam permanecer isolados de Gil-Galad
e seus Noldor que dominavam um reino no norte. Eregion era considerado
parte do reino Noldor, mas a sua população incluía pelo menos alguns
Sindarin e/ou Nandorin.

Eregion também estava envolvida em alguma espécie de comércio com
Khazad-dûm, a qual o comércio era tão produtivo que os anões escavaram
um túnel por milhas através das Montanhas Nebulosas na disposição de
prover os elfos com uma ponte para o seu reino subterrâneo. Antes deste
tempo, os anões tinham de passar externamente as montanhas, também ou
pelo Passo do Chifre Vermelho (a qual deu a eles acesso a Eregion) ou
indo ao norte para o Passo Alto onde a estrada primitiva atravessava
Eriador passando perto de onde Elrond mais tarde fundou o refúgio de
Valfenda.

Entretanto parece ter sido virtualmente pequeno ou nulo o comércio
entre Beleriand e as terras mais ao leste na primeira era, a segunda
era se realizou um incremento em Eriador e nas Terras Ermas. Duas
imigrações, do leste, ocorreram no início da Segunda Era, o que trouxe
contato mais próximo de Khazad-dûm com a civilização de Beleriand. A
primeira migração (grande êxodo) foi a dos anões de Ered Luin no
primeiro século. As cidades mais antigas de Nogrod e Belegost foram
arruinadas na Guerra da Ira. Os anões de Belegost também pareceram ter
sido perturbados pela guerra entre Doriath e Nogrod. Conseqüentemente,
muitos deles partiram e foram para Khazad-dûm, aonde eles aumentaram a
população e infundiram no povo de Durin o conhecimento que eles
ganharam com os Noldor e Sindar.

A segunda migração foi dos elfos, quando muitos Noldor e Sindarin
passaram para o leste. Alguns dos Sindar passaram as montanhas e
organizaram reinos em meio a elfos da floresta nos Vales do Anduin
(pelo menos dois, possivelmente mais). Estes elfos que fundaram Eregion
criaram um centro de comércio, o qual atraiu até mesmo os númenorianos
a estabelecer uma espécie de porto ou colônia perto “Tharbad” no rio
“Gwathlo”. Entretanto nós não podemos saber com certeza, o quanto
extensiva era a influencia de Eregion, a região estava em uma posição
de comércio com os homens de Eriador, os elfos de Lindon e os Vales do
Anduin, os anões de Ered Luin das Montanhas Nebulosas, e Númenor.

Tudo isto chega a um fim, de qualquer modo, na guerra dos elfos e de
Sauron. Eriador e as Terras Ermas foram devastadas e muitos da
população local foram mortos ou partiram. A grande civilização élfica
foi não foi destruída, mas virtualmente se dirigiram de volta ao mar,
salvos por poucas terras que sobreviveram em vales e nas profundezas
das florestas. A guerra criou uma economia e política nula, a qual os
númenorianos subseqüentemente ocuparam, substituindo a velha cultura
élfica de tal modo que pelo fim da era, Adunaico, a língua nativa de
Númenor, deu espaço ao Westron, o qual substituiu o Sindarin como
língua comum para o noroeste da Terra-média.

Os númenorianos estabeleceram colônias por toda parte da Terra-média e
eles começaram a se acomodar largamente em Eriador bem como ao longo as
margens do sul do Anduin. As duas grandes cidades deles no mundo do
norte eram Lond Daer Ened na boca de Gwathlo e Pelargir na boca do
Anduin. Mas novamente Tolkien não nos fala de comércio que os
númenorianos devem ter conduzido nestas regiões. Lond Daer foi
originalmente fundada como um porto sazonal de Aldarion entre o século
VIII e IX. Ele usou isso como base para “armazenar”, “cultivar” árvores
com as quais se construíam navios e ele não parece ter compensado os
habitantes nativos (os “Gwathuirim”, parentes distantes dos
númenorianos) de modo algum.

O nome Pelargir implica que o local era um porto real e uma
fortificação, ‘royal garth of ships’*. Pelargir pode ter servido como
uma base de operações para os Númenorianos nas guerras que se seguiram
contra Sauron, porém eles nunca montaram uma grande expedição contra
Mordor partindo dali. Ao contrário, o local parece ter servido para
manter protegidos os colonos que moravam ao longo da costa do Anduin, e
os navios de Pelargir deviam estar mais envolvidos em assegurar as
terras costeiras aonde “os Gwathuirim” viviam.

* “jardim real de navios”.

O vasto Império de Númenor parece ter desenvolvido um comércio que
beneficiou a ‘terra-mãe’, assim como o Império colonial britânico
beneficiou a metrópole nos séculos XVII e XVIII. A riqueza teve um
fluxo para Númenor maior que o de Númenor para suas colônias. Assim as
colônias proviam matéria-prima, escravos e tributos aos Númenorianos,
exceto quando, ocasionalmente, algum aventureiro estabelecia algum
pequeno reino.

Então o comércio no Noroeste da Terra-média provavelmente estava
fechado do tempo da Guerra dos Elfos contra Sauron ao tempo de fundação
de Arnor e Gondor. A chegada de Elendil e os Exilados Fiéis de Númenor
seria precedida por um gradual aumento de colonos Fiéis que dependeram
menos e menos da ajuda de Númenor e mais da ajuda de Elfos e Anões.
Comércio e troca deviam ter revivido um tanto, especialmente depois que
Ar-Pharazôn tomou Sauron para Númenor e reduziu a influência do Senhor
do Escuro na Terra-média o suficiente para permitir que Gil-Galad
estendesse a sua própria influência a leste e aos Vales do Anduin.
Elendil, deste modo, encontrou uma grande e produtiva população
esperando por ele e seus filhos em Eriador e nos Vales do Anduin
localizados mais ao sul. Estas pessoas, Númenorianos, Edain, e homens
de linhagem mista, começaram a trabalhar construindo grandes cidades
(Annuminas e Fornost Erain no Norte, Minas Anor, Minas Ithil e Osgliath
no sul), imponentes fortalezas (Angrenost e Aglarond em Calenardhon), e
ricos e poderosos reinos. Nos primeiros anos Arnor e Gondor se
comunicavam principalmente por navios (não considerando as mensagens
passadas através dos Palantíri). Navios deixavam Pelargir ou Osgliath e
navegavam norte para o Rio Gwathlo, aonde eles passavam rio acima para
Tharbad (Lond Daer Ened estava aparentemente por agora destruída ou a
muito abandonada).

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Ambos os reinos tiveram extensivas fazendas com as quais alimentavam
suas populações, mas se Arnor tivesse se empreitado a alimentar os
Anões das Montanhas das Névoas, Gondor poderia ter encontrado algum
benefício em mandar comida para o Norte também. Claro, comércio
incluiria também itens de luxo como peles, jóias, metais preciosos,
vinhos, e tecidos especiais, tintas, e perfumes. Uma economia provida
de dinheiro provavelmente existiu previamente a fundação do reino no
exílio dos Dúnedain.

A grande riqueza que os exilados acumularam nos seus primeiros 110 anos
ajudam a explicar como Elendil e seus filhos puderam construir um
grande exército. Exércitos precisam ser pagos, equipados, e supridos, e
somente uma economia forte poderia ter suportado as imensas forças que
Elendil e seus aliados reuniram para os 10-12 anos de guerra que eles
experimentaram.

No tardar da Segunda Era, Arnor e Gondor estavam provavelmente isoladas
do resto Númenoriano da Terra-média. As terras mais ao sul controladas
pelos Reis Homens, os quais se tornaram os Númenorianos-Negros,
apoiadores ou Sauron e tradicionais inimigos dos Fiéis. Gondor, dessa
forma, teria sido uma parceira mais jovem nas relações econômicas entre
os Dúnedain Fiéis e seus aliados. Mas depois que Sauron estava
derrotado e Isildur estava perdido nos Vales do Anduin, Gondor foi
levada pela corrente para longe da esfera de influencia de Arnor. Como
Arnor decaiu em população, riqueza e poder, Gondor estendeu suas
fronteiras ao norte, leste e sul, entrando em contato com populações as
quais tinham estado fora da influência de Gil-Galad.

A mudança para fora de Arnor na política de Gondor deve ter ferido a
economia do Reino do Norte. Com o declínio de Lindon como uma das
principais forças, Arnor tinha apenas os Anões para negociar, e Tolkien
não conta para nós nada sobre suas relações na Terceira Era. O influxo
dos Hobbits, no início do segundo milênio, indubitavelmente trouxe nova
riqueza para os reinos de Rhudaur e Cardolan, mas eles não poderiam
reabilitar os Dúnedain do norte à sua forma e poder.

A situação em Eriador deve ter sido muito confusa por vários séculos.
Com três reinos Dúnedain, havia provavelmente três cunhagens. Será que
Elfos e Anões também cunhavam suas própria moedas? Disparidades em
recursos e a constante briga e hostilidade entre os reinos Dúnedain
teriam, mais adiante, enfraquecido a economia do norte. Mercadores
Anões provavelmente passavam com impunidade através de Eriador. Elfos
provavelmente não eram perturbados também. Mas o povo de Círdan e os
remanescentes do reino de Gil-Galad estavam diminuindo. Esperanças para
o comércio teriam sido limitadas. Os Anões ainda precisavam de comida,
os Dúnedain ainda precisavam minérios e talvez pedras para construção.

O crescimento do reino de Angmar ao norte teria, realmente, ajudado a
estabilizar a situação entre os Dúnedain de algumas maneiras. Rhudaur
foi destruída cedo e Cardolan tão enfraquecida se tornou virtualmente
reintegrada dentro do reino de Arnor (Arthedain). A influencia de
Arthedain, deste modo, cresceu com a intervenção de Lindon e Valfenda
(Elrond até alistou ajuda de Lothlorien nas guerras contra Angmar). Uma
única cunhagem Dúnedain teria sido, assim, restaurada para o norte e é
duvidável que Eriador, em algum tempo, tenha tido uma cunhagem diversa
de novo. Por conseguinte, as “pennies” que Bilbo e Carrapicho deram
eram provavelmente equivalentes em valor e forma.

De 1409 para diante, a economia de Eriador teria sido dominada por três
regiões: Fornost Erain, no sul, fim das Colinas do Norte; Bri, no
cruzamento das grandes estradas; e Tharbad no cruzamento do rio
Gwathlo. Tharbad estava em sério declínio, já que foi originariamente
um forte e um centro de comércio para os Dúnedain. A economia e os
interesses políticos de Gondor no norte estavam nesse tempo em declínio
e a última guarnição militar Gondoriana foi extraída de Tharbad depois
da Grande Peste de 1636.

O grande influxo dos Grados às Terras Pardas por volta de 1300, o que
beneficiou Tharbad economicamente, foi contrabalançado pela morte da
população desses na Grande Peste. Os únicos Grados, que sobreviveram no
Oeste das Montanhas Sombrias daquele tempo em diante, eram aqueles que
haviam recentemente migrado fundado o Condado além do rio Brandevim. A
Peste também exterminou a maioria da população de Cardolan e o
organizado assentamento efetivamente rumou para um fim entre Tharbad e
Bri. Tharbad foi, deste modo, isolada do resto de Eriador e sua
população provavelmente nunca se recuperou totalmente dos efeitos da
Grande Peste.

Arnor sobreviveu outros 338 anos, mas sua população diminuiu. O
Condado, Bri, Fornost Erain, e Tharbad eram as únicas regiões
produtivas que restavam. Fornost e o Condado foram ambas dominadas na
invasão final lançada por Angmar. O Condado foi posto em ordem, mas
Fornost estava finalmente abandonada pelos Dúnedain que provavelmente
escaparam para as profundezas das Colinas do Norte.

Pelo resto da Terceira Era, a atividade econômica de Eriador avançou
com dificuldade. Poucos viajantes passavam por Bri e o Condado, mas não
havia mais uma fundação para suportar um comércio significante. O
Condado aparentemente continuou a suprir comida para os Anões de Ered
Luin, que incharam em número depois que a civilização de Khazad-dûm foi
destruída pelo Balrog em 1980-1. Bri permaneceu como um importante
ponto de parada em uma jornada através de Eriador, mas não era mais
vital às necessidades do reino do norte. Então a pergunta quanto a quem
cunhava o dinheiro que apareceu é pertinente.

Provavelmente os Anões de Ered Luin proviam o dinheiro para Eriador.
Eles teriam precisado dele para pagar a comida comprada do Condado e
isso teria beneficiado Bri a respeitar o seu uso também. Se os Elfos de
Lindon e Imladris faziam uso do dinheiro então faria lógica para eles
usar a moeda anã também.

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O Condado expandiu um pouco no vigésimo quarto século da Terceira Era,
quando o Velho Brandebuque fundou a Terra dos Buques, “na prática um
pequeno e independente país” como Tolkien descreveu. Não é claro porque
o Velho Buque sentiu a necessidade de fundar uma nova terra além do rio
Brandevim, mas é concebível que a influencia e autoridade do Thain
estava nesse período declinando. Quando ficou claro que os Dúnedain não
restabeleceriam o reino do norte, os chefes do Condado elegeram Bucca
do Pântano para ser seu Thain, essencialmente para ser um rei local.
Mas os Thain, apesar da hereditariedade, tinham pouco poder no final da
Terceira Era.

Então o Velho Buque pode ter desejado estabelecer uma terra aonde ele
teria uma autoridade maior que no Condado. O efeito desta colonização,
de qualquer forma, foi um rejuvenescimento da atividade entre os
Hobbits do Condado e os Hobbits de Bri. Os Brandebuques comercializavam
com ambos, Condado e Bri.

330 anos mais tarde, Tobold Corneteiro revolucionou a economia da
Quarta Sul plantando a erva-de-fumo. Entretanto os habitantes de Bri
foram os primeiros a fumar a folha, a Quarta Sul eventualmente se
tornou a primeira origem deste item de luxo e sua reputação se estendeu
a Isengard e provavelmente além. Anões pegaram o hábito do fumo dos
Hobbits, e eles podem ter comprado suprimentos para enviar a parentes
em terras distantes.

É, deste modo, evidente que o Condado estabeleceu uma pequena, mas
prospera economia mercante com Bri, Terra dos Buques, os Anões de Ered
Luin, e provavelmente Tharbad e Terras Pardas. Comércio com o sul
provavelmente caiu em silêncio, estagnou-se depois que Tharbad foi
abandonada no trigésimo século, mas Saruman parece ter desenvolvido uma
forte conexão com os Sacola-Bolseiros por volta de 3000 em diante.

A influência de Bri decaiu firmemente durante todo o fim da Terceira
Era, mas parece que os Dúnedain de Eriador usavam Bri como um centro de
operações. Eles podiam comprar suprimentos lá e recolher notícias assim
como organizar as atividades de seus Guardiões, as quais parecem ter
focalizado em proteger Bri, o Condado e a Terra dos Buques, e seus
próprios lares. Em “No Pônei Saltitante” Tolkien escreve que os
Guardiões viviam a leste de Bri, e a menção de Cevado Carrapicho a
Frodo: “não dá para explicar o leste e o oeste, como dizemos aqui em
Bri, referindo-nos as excentricidades dos Guardiões e do pessoal do
Condado”, implica que os habitantes de Bri estavam consideravelmente
certos de que os Guardiões viviam nas terras orientais.

Aragorn menciona uma instalação abandonada distante um dia de jornada a
leste de Bri, implicando que este é o último sinal de uma civilização
em Eriador entre Bri e Imladris. Se for este o caso, então parece
improvável que os Dúnedain de Eriador realmente moravam diretamente a
leste de Bri. Não havia muito lá, exceto pelas Colinas dos Ventos,
depois do Pântano dos Mosquitos, e Aragorn contou aos Hobbits que
ninguém vivia nas Colinas. Em outra ocasião, ele se arrisca ao sul de
Topo do Vento para encontrar Athelas perto de um velho lugar aonde sua
gente tinha acampado ou se estabelecido uma vez, logo é concebível que
os Dúnedain moravam nas Colinas do Norte e/ou do Sul (provavelmente
mudando constantemente e então evitando serem detectados por espiões de
Sauron).

Os Dúnedain não estavam com muito poder econômico ao fim da Terceira
Era, mas seu ocasional tráfego combinado com a passagem dos Anões na
estrada teria ajudado a manter a estalagem de Bri, o Pônei Saltitante,
nos negócios. Mas parece claro que o tráfego era insuficiente por si
só. Carrapicho parece ter servido como o responsável pelos cavalos no
vilarejo de Bri, já que muitos dos cavalos locais e pôneis eram
mantidos no seu estábulo.

Comércio existia em outra parte do mundo mais ao norte. Os homens da
Cidade do Lago trocavam com os Elfos do norte da Floresta das Trevas e
alguns Homens do Norte não nomeados vivendo mais distante ao sul, no
rio Celduin. A misteriosa terra de Dorwinion nas costas ao Noroeste do
interior do Mar de Rhûn proviam essas pessoas com um bom vinho. O
restabelecimento de Vale e Erebor no Século XXX fortaleceu a economia
regional consideravelmente, mas ainda era uma grande e isolada região.
As ordens especiais de Bilbo para presentes de Vale e Erebor eram muito
provavelmente feitas por razões sentimentais melhor que uma preocupação
com o costume. NO Hobbit parece que Bilbo nunca tinha escutado sobre
Vale e Erebor antes de Thorin contar a ele a história de como Smaug
destruiu os dois reinos.

A despeito de todas essas visões de troca e comércio passando ao longo
das estradas da Terra-média, havia um limite para a economia da
história do mundo de Tolkien. O Condado desenvolveu algum tipo de
governo, mas aparentemente faltou riqueza para manter uma grande
burocracia. Os agentes postais e condestáveis respondiam ao prefeito de
Grã-Cava que gerenciava o Serviço de Mensagens e Patrulha (condestáveis
e fronteiros).

Tolkien escreveu no Prólogo de O Senhor dos Anéis “nessa época o
Condado mal tinha um ‘governo’. Na maioria das vezes as famílias
cuidavam dos seus próprios negócios. Cultivar comida e come-la ocupava
a maior parte de seu tempo. Em outros assuntos eles eram, em geral,
generosos e não gananciosos, mas satisfeitos e moderados, de modo que
terras, fazendas, oficinas, e pequenos comércios tendiam a permanecer
inalterados por gerações”.

Entretanto o Serviço Postal empregava mais Hobbits que o a Patrulha,
quando os convites e ordens de Bilbo para a Festa inundaram os correios
da Vila dos Hobbits e Beirágua , “carteiros voluntários estavam sendo
procurados”. O fato de voluntários serem precisos implica que não havia
provisões para empregar extra (mesmo que temporários) trabalhadores, e
seja qual fosse a renda gerada pelo correio era insuficiente para
prover os salários adicionais.

As trocas secretas de Lotho Sacola-Bolseiro com Isengard também parece
implicar que não haviam taxas de exportação. Não é claro como o Condado
pagava pelos 12 condestáveis, muito menos o maior número de fronteiros
e agentes postais. Algum tipo de taxa ou dízimo devia ter existido para
prover sua manutenção, mas eles podem não ter sido significantes. Sem
um grande rendimento base, o “governo” do Condado conseqüentemente não
era muito de fator econômico, mesmo dentro do próprio Condado. Assim, a
maior parte do dinheiro era provavelmente concentrada nas mãos de
várias famílias poderosas como os Tûks, Brandebuques, Bolseiros, etc.
as quais cuidavam dos seus próprios negócios.

A presença de estábulos e tavernas por todo o Condado implica uma
quantidade justa de atividade social e viajante. Estes locais
provavelmente serviram como centros de suas vida sociais nas
comunidades e provavelmente eram localizados perto de quaisquer
mercados estabelecidos nas vilas. É duvidável que existiam muitas
pessoas de negócios poderosas como Lotho Sacola-Bolseiro, que comprou
muitas fazendas e plantações na Quarta Sul. Seus empreendimentos eram,
pelo menos, em parte financiados por Saruman.

Como sempre, eu tenho apenas sido capaz de tocar por cima desses
assuntos, mas eu penso ser evidente que Tolkien devotou um considerável
pensamento ao dinheiro e economia na Terra-média, entretanto seria
impossível documentar completamente as atividades de troca de várias
pessoas. A escala de troca era provavelmente sempre pequena, exceto no
suprimento de comida para grandes exércitos ou nações Anãs. Tolkien
provavelmente não imaginou uma economia maciça, mas ele parece ter
estado ciente que os comerciantes antigos vaguearam pela Europa por
milhares de anos e na construção da Terra-média ele permitiu uma ampla
e estável economia.

 
———- 
 

Contos Misteriosos da Terra-média

Não ouvimos falar com freqüência sobre as histórias de fantasmas que as
pessoas deviam contar umas às outras na Terra-média. O trabalho de
Tolkien é permeado por lendas bem trabalhadas que possuem, geralmente,
de fato um embasamento (dentro do escopo de sua pseudo-história), mas
quando paramos para considerar as imensas expansões de tempo que a
pseudo-história da Terra-média cobre, devemos nos perguntar quão
artificiais essas lendas se tornaram.
 
 
 
Todos já ouviram falar da história sobre o louco
que escapa de um sanatório e quase mata um casal jovem em uma estrada
escura, deixando sua garra pendurada na porta do carro (este seria, é
claro, um carro bastante antigo). Talvez essa história deva um pouco ao
mito nórdico do deus da guerra Tyr, que colocou sua mão na boca de
Fenris, deixando o lobo arrancá-la, enquanto os Aesir acorrentavam o
lobo. Tyr deveria ser um tanto quanto louco para fazer isso.

As primeiras histórias de fantasmas da Terra-média provavelmente foram
os contos há muito tempo esquecidos que os Elfos criaram sobre os
monstros de Melkor antes de Oromë descobrir sua morada em Cuiviénen. "E,
de fato, as canções mais antigas dos Elfos, cujos ecos ainda são
lembrados no Oeste, falam sobre formas sombrias que caminhavam nas
montanhas acima de Cuiviénen, ou passavam de repente pelas estrelas, e
do Cavaleiro Negro sobre seu cavalo selvagem, que perseguia aqueles que
vagavam, para tomá-los e devorá-los."

Os primeiros Elfos
eram um tanto ingênuos, em comparação aos seus sucessores Eldarin. Eles
não sabiam nada sobre quem eram os Valar, como o mundo se tornou o que
é, ou que monstros existiam (originados das criaturas inocentes de
Yavanna, ou Maiar corrompidos que assumiram formas de terror). Nem seus
poderes de mente e corpo estavam desenvolvidos. Será que os Elfos
sabiam, antes de encontrar os Valar, como utilizar suas faculdades
subcriacionais? Seria interessante se os primeiros menestréis Élficos,
que, em eras posteriores podiam "fazer com que as coisas sobre as quais eles cantavam aparecessem em frente aos olhos daqueles que estivessem escutando",
tenham feito canções de poder, onde suas audiências veriam novamente as
terríveis e místicas formas sombrias que rastejavam em seu mundo
outrora agradável.

Oromë levou os Eldar para o Oeste, através
de um mundo assustador, grande e desconhecido, para as margens
ocidentais da Terra-média, e a partir dali a maioria dos Eldar partiu
para uma terra de luz. É difícil imaginar os Altos-Elfos de Aman
vivendo sobre os fantasmas e demônios de seu passado. Eles seguiram o
estudo de alta civilização e arte e construíram grandes cidades e
artefatos poderosos. Mas os Eldar que permaneceram na Terra-média, os
Sindar, foram deixados na escuridão (ou na fraca luz das estrelas), e
apesar de por longas eras eles não terem sido perturbados pelas
criaturas de Melkor, ainda tinham razão para conhecer o medo.

Pois os Sindar eram perturbados pelos Noegyth Nibin, os Anões
inferiores, exilados das grandes cidades dos Anões do Leste, que
encontraram seus caminhos para Beleriand. Ali, nas Terras Selvagens
antes da vinda dos Elfos, eles estabeleceram sua própria cultura, da
qual não conhecemos praticamente nada, além do fato que eles eram
reservados e rancorosos. Os Noegyth Nibin atacaram os Elfos, que
revidaram ao caçá-los, sem saber de fato que os Noegyth Nibin eram
decaídos de um estado mais alto de civilização, tomando-os por animais
ou pequenos monstros da escuridão.

Com o tempo, os Sindar se
tornaram amigos dos Anões de Nogrod e Belegost, e eles aprenderam sobre
a verdadeira natureza dos Noegyth Nibin, e os povos deixaram cada um em
paz. Mas os Sindar eram de vez em quando avisados pelos Anões do Leste
que criaturas malignas estavam se multiplicando nas terras além de Ered
Luin. Se os Sindar tivessem tido tempo para esquecer os antigos
monstros, eles eram eventualmente lembrados, quando as criaturas de
Melkor começaram a se rastejar por Beleriand, "lobos… ou criaturas que andavam em forma de lobos, e outros seres sombrios cruéis".

Os Sindar se dividiram em dois grupos: Elfos das Florestas que se
espalharam para o Norte e Oeste a partir de Doriath e os Elfos
navegantes, que moravam nas terras costeiras ocidentais e se espalharam
pelo Norte. Muitos destes Elfos viviam fora das cidades, mais
provavelmente em cidadelas ou vilarejos que nunca apareceram em nenhum
mapa. Mas estando longe dos centros de poder e sabedoria, eles estavam
menos seguros em suas casas e talvez mais propensos para se perguntar
sobre as coisas misteriosas que se rastejavam ao redor deles. Será que
estes Elfos, talvez, cantavam sobre as coisas sombrias que assombravam
Beleriand?

Após o retorno dos Noldor e o começo da Guerra das
Gemas, criaturas sombrias e terríveis teriam se tornado bem conhecidas
através de Beleriand. Imagine se um exército de goblins, vampiros e
lobisomens estivesse prestes a invadir sua terra natal e permanecer
próximo por muitos anos. Você estaria propenso a contar "histórias de
fantasmas", sabendo que os fantasmas estavam logo além da montanha? Os
contos seriam histórias reais, não lendas. As criaturas seriam inimigos
conhecidos, e não terrores maléficos misteriosos.

Não seria
até após o colapso dos grandes reinos que de fato se tornaram lenda
novamente. Homens mortais se lembrariam das histórias e passariam as
mesmas para a frente, mas a cada geração, as histórias se tornaram
menos reais. Será que Dirhavel de Arvenien entendia sobre o que estava
cantando, se ele cantou sobre o conto de Barahir e seus fora-da-lei 70
anos após os eventos terem se desenvolvido? Quantos dos Elfos que
sobreviveram à destruição dos reinos em Arvenien e Ilha de Balar eram
velhos o suficiente para se lembrar das grandes batalhas ou do passado
antigo? Mesmo Elrond, que já era antigo na época da Guerra do Anel,
teria crescido nos dias em que Húrin e Túrin eram apenas memórias dos
homens e mulheres idosas, Hador era um ancestral distante e Cuiviénen
estava há gerações além de sua experiência.

Quão reais os
contos do Lobo-Sauron e Drauglin, pai dos lobisomens, e Thuringwethil,
a mensageira de Sauron em forma de morcego, e Gorlim, o fantasma
infeliz, teriam parecido às gerações de Homens e Elfos que cresceram no
início da Segunda Era? Seu mundo havia mudado. A maior parte de
Beleriand havia sumido. Os grandes reis, que lideraram os Elfos e Edain
na guerra contra Morgoth estavam todos mortos. Os Edain do Oeste
navegaram para construir uma grande civilização e os Edain do Leste
retrocederam às planícies e bosques onde eles lentamente esqueceram que
uma vez alguns de seu povo partiram para o outro lado das montanhas.

E ainda após Sauron ter começado a tumultuar novamente na Segunda Era,
reunindo mais uma vez criaturas maléficas sob seu controle, como
evidência do retorno do mal que se movia através das Terras Élficas, os
Homens devem ter apagado as antigas lendas sobre lobisomens, vampiros,
Orcs e demônios, e recontaram como havia uma vez um senhor do escuro
contra quem somente alguns Elfos e Homens se defenderam valentemente.

E ainda o mal, conseqüentemente, adquiriu um aspecto mais claro, e a
Guerra dos Elfos e Sauron trouxe um fim a muitos reinos Élficos e
Humanos, e muitos séculos de combate existiriam subseqüentemente. A
Segunda Era deve ter originado novas lendas de terror, principalmente
quando os Nazgûl apareceram na Terra-média, mas também pode ser, como
na Primeira Era, que a Segunda Era tenha trazido o mal para muito perto
de casa para as pessoas desenvolverem uma estranha fascinação por ele.
Somente sonhamos com vampiros e lobisomens quando sabemos que eles não
são reais e não podem nos machucar.

Mas a guerra final da
Segunda Era contribuiu para a fundação de uma das maiores lendas de
terror na Terceira Era. Isildur convocou um povo das montanhas para
marchar contra Sauron, e eles recusaram, uma vez que eles outrora
adoravam Sauron como um deus. A esses homens sem fé, Isildur condenou a
desaparecerem como um povo. Eles definharam e morreram, perdidos e
sozinhos nas terras altas, condenados a assombrar suas terras antigas
até o dia em que eles pudessem redimir seus juramentos para um Herdeiro
de Isildur.

O audacioso povo das montanhas de Gondor vivia ao
lado dos Mortos do Templo da Colina, e deve-se imaginar se eles não
passaram longas noites de inverno trocando contos de viajantes
imprudentes que se perderam nos caminhos dos Mortos, ou que encontraram
uma reunião de fantasmas à grande pedra de Erech em tempos
problemáticos. Ninguém sabe como a dama Élfica Nimrodel se perdeu nas
montanhas, mas será que o povo local a adotou como uma vítima de suas
lendas? Será que eles a imaginavam perdida e assustada, possuída pelos
antigos fantasmas?

Os caminhos dos Mortos eram famosos
através das terras dos Dúnedain, ao que parece. Malbeth, o vidente, que
vivia em Arnor, previu que um dia um Herdeiro de Isildur caminharia
naqueles caminhos e acordaria os Mortos. Séculos depois, quando os
Rohirrim se estabeleceram em Calenardhon e Brego, seu segundo rei,
terminou a construção do salão de Meduseld, ele e seus filhos passaram
pelas montanhas e encontraram um homem idoso sentado na entrada do
caminho dos Mortos.

"O caminho está fechado", ele disse a eles. "O
caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os
Mortos o guardam, até a hora chegar. O caminho está fechado."
E
então ele morreu, e o príncipe Baldor resolveu entrar no caminho dos
Mortos e ver por si mesmo que segredos existiam ali. Ele nunca
retornou, e toda Rohan se questionou sobre o que se tornou dele.

Provavelmente os ossos que Aragorn encontrou dentro da passagem eram de Baldor: "Diante
dele estavam os ossos de um homem forte. Estivera vestido de malha
metálica, e sua armadura jazia ainda inteira, pois o ar da caverna era
seco como pó; sua cota era dourada. O cinto era de ouro e granadas, e
rico em ouro era o elmo sobre os ossos de sua cabeça, caída com o rosto
contra o chão. O homem tombara perto da parede oposta da caverna, pelo
que se podia presumir, e diante dele havia uma porta de pedra
hermeticamente fechada: os ossos de seus dedos ainda agarravam as
fendas. Uma espada quebrada e chanfrada jazia ao seu lado, como se ele
tivesse golpeado a rocha em seu último desespero"
.

O que
poderia ter acontecido dentro daquela caverna escura e solitária é que
um dos mais bravos guerreiros de Rohan teria ficado louco e rachado a
rocha em desespero? Ele deve ter sido atacado por um exército dos
Mortos, e procurando uma maneira de escapar e se desviou. Ou talvez ele
meramente sucumbiu ao medo e temor, estremecido a sua própria alma, e
irracionalmente, fugiu impetuosamente na escuridão até não poder mais
encontrar seu caminho, e lentamente, tristemente, passou seus últimos
dias ou horas em vão, procurando admissão em algum refúgio de natureza
duvidosa.

Os Mortos do Templo da Colina não eram as únicas
assombrações a habitar a Terra-média na Terceira Era. Os Nazgûl
surgiram de Mordor no ano 2000 e sitiaram a cidade montanhosa de Minas
Ithil. Após 2 anos eles tomaram a cidade e a transformaram em um lugar
de terror existente, e dizia-se que era a residência de fantasmas e
outros monstros. Até mesmo os Orcs que estavam posicionados ali estavam
enervados pelas criaturas terríveis com as quais os Nazgûl haviam
ocupado a cidade. Todas as terras vizinhas se tornaram desertas,
conforme as pessoas fugiam para o outro lado do Anduin, e com o tempo
somente as pessoas mais audaciosas de Gondor ousavam viver em Ithilien,
que uma vez havia sido uma terra muito agradável e bela.

Os
Nazgûl eram especialmente bons em acabar com as vizinhanças. Séculos
antes o Senhor dos Nazgûl havia rumado para o Norte para estabelecer o
reino de Angmar. Homens serviam a ele, mas também Orcs, Trolls, e
outras criaturas, incluindo espectros. Ele ensinou ou encorajou o povo
das colinas de Rhudaur a praticar feitiçaria, principalmente
necromancia, e na guerra com Cardolan e Arthedain no ano 1409, o Senhor
dos Nazgûl enviou espectros para habitar os antigos túmulos em Tyrn
Gorthad, próxima a Bri. Estes espíritos se tornaram as Criaturas
Tumulares. Eles animaram antigos ossos e ocuparam a terra com pavor e
medo. Seu poder era tão grande que, muitas gerações depois, os esforços
do Rei Araval para recolonizar Cardolan falharam, porque as pessoas não
poderiam viver perto de Tyrn Gorthad.

Quando os últimos
remanescentes do Reino do Norte foram arruinados, criaturas maléficas
ocuparam sua última capital, Fornost Erain, apesar de que depois de
apenas alguns meses elas foram destruídas ou expulsas por um grande
exército de Gondor e Lindon. Muito da terra estava limpa quando a
própria Angmar foi destruída, mas as Criaturas tumulares permaneceram,
e os Homens de Bri ficaram amedrontados em relação às ruínas de Fornost
Erain, conseqüentemente, denominando-as de Dique dos Mortos, porque
eles apenas podiam se lembrar do terror que brevemente havia governado
ali.

Arnor estava quase esvaziada de pessoas, e ruínas foram
deixadas por todos os lugares: Annúminas, Fornost, Tyrn Gorthad, as
colinas de Rhudaur, Topo do Vento. Tharbad, a última cidade de Arnor,
declinou e se tornou uma cidade ribeirinha, e conseqüentemente foi
abandonada após ter sido destruída por severas inundações. Quase toda
Eriador era uma terra vazia e desolada, com cidades esquecidas e
túmulos assombrados.

É um pouco estranho que os Hobbits que
partiram do Condado em 3018 não eram muito mais amedrontados em relação
ao mundo ao redor deles. Eles tinham lendas sobre a Floresta Velha, que
ficava nas fronteiras da Terra dos Buques, uma terra estranha onde as
árvores podiam se mover conforme queriam e que abrigavam um antigo ódio
pelos seres que caminhavam em duas pernas. Tolkien observa que "mesmo
no Condado, o rumor sobre as Criaturas Tumulares das Colinas dos
Túmulos além da Floresta foi ouvido. Mas não era um conto que qualquer
Hobbit gostaria de ouvir, mesmo em frente a uma confortável lareira bem
longe de tudo isso".

Mas Frodo e seus amigos não sabiam
nada sobre os terrores que existiam além das Colinas dos Túmulos e suas
criaturas, ou as lendas que ainda assombravam as terras, apesar das
criaturas que geraram terror aos contos terem desaparecido há muito
tempo. Se eles tivessem ido em busca de antigas histórias de fantasmas,
ao invés de buscar uma maneira de destruir o Um Anel, eles teriam
encontrado lendas suficientes para encher um livro. Havia o velho
monstro vivendo no alto das montanhas sobre Minas Morgul, as estranhas
e agourentas árvores da Floresta de Fangorn, o escuro e repugnante
Guardião na Água, o espírito de fogo e sombras que assombrava as
cavernas perdidas de Moria, a fria e cruel Caradhras, e coisas escuras
voadoras que bloqueavam as estrelas à noite, e os próprios Nazgûl.

A pobre e perdida Eregion se tornou a morada de lobos enfeitiçados e
tropas ameaçadoras de Crebain, e a terra esqueceu que uma vez fora lar
a um povo Élfico que ousara mexer com a força do Tempo na própria
Terra-média. Mas quando tudo estava feito e o Senhor dos Anéis
destruído, os Hobbits e seus aliados foram mais uma vez lembrados de
todos os grandes e antigos temores, e eles devem ter passado muitas
noites felizes trocando contos em frente à lareira, mantendo vivas as
estórias de fantasmas da Terra-média.

[tradução: Helena "Aredhel" Felts]

Estratégias de Sauron – Passos para a Derrota (Parte I)

Sun Tzu  nos aponta as vantagens da estratégia de "dividir e conquistar", mas ele também pregava o uso da força massiva e devastadora sempre que for possível. A arte da guerra com certeza é uma arte, já que os dois lados de qualquer guerra tem o potencial de crescer e se adaptar. Uma das notáveis qualidades da história da Terra-Média é a mutabilidade de Sauron. Ele altera suas estratégias.
 

 

Na Primeira Era, Sauron era apenas mais um dos capitães servindo Morgoth. O posto de Sauron nunca é realmente explorado. Nós lemos muito mais sobre a sua habilidade de destroçar inimigos, e sua disposição em entrar em combate mano-a-mano à um risco considerável à si mesmo. Já Morgoth, por outro lado, se mantinha sobre altos e impressionante números. Parece que a fraqueza perpétua de Morgoth é que ele confunde números com força.

Com certeza, Morgoth conseguiu algumas vitórias. Em fato, ele destruiu a civilização Eldarin em Beleriand e reduziu os anões de Nogrod e Belegost à alguns poucos sobreviventes. Mas Morgoth não percebeu o grande lance. Enquanto ele se divertia no norte com os Noldor, a maior parte da Terra-Média escapou de sua atenção. Os Valar tomaram vantagem do intenso interesse de Morgoth por Beleriand para isolá-lo aí e infringir a derrota final sobre ele.

Como consequência da Guerra da Ira, Morgoth foi capturado e suas forças foram reduzidas a provavelmente nada mais que alguns Orcs, Trolls e Homens vagabundos. Provavelmente, somente alguns poucos Maiar corrompidos escaparam, e pelo menos um casal de dragões alados (já que uma população crescente de dragões sobreviveram pela Terceira Era em diante). Dos Maiar, podemos ter certeza que dois desses eram Sauron e o Balrog de Khazad-Dûm. O Balrog se distanciou de qualquer complicação social por mais de 5000 anos.

Sauron, por sua vez, foi aparentemente perdoado. "Dos anéis do poder e da Terceira Era" (publicado no Silmarillion) nos diz que Sauron "voltou a assumir sua bela aparência, prestou votos de obediência à Eönwë, arauto de Manwë, e repudiou todos os seus atos maléficos." Mas Eönwë não pode perdoar Sauron, e o comandou a retornar à Valinor para aguardar o julgamento de Manwë. Com isso Sauron não consentiu, e continuou na Terra-Média enquanto Eönwë retornava para o Oeste.

Pelas próximas 5 ou 6 centenas de anos, Sauron sumiu da história. Não é provável que Sauron dormiu assim como o Balrog fez, se enrolando debaixo de uma conveniente montanha gigante e sonhando com os festejos passados pelos próximos milênios. Provavelmente, Sauron fugiu até o extremo leste da Terra-Média e ali ele fez qualquer coisa, como plantar um jardim ou fundar um monastério para ensinar aos Homens, Anões e Elfos o Caminho da Paz. O que quer que ele tenha feito, depois de algumas centenas de anos Sauron percebeu que aquilo não ia dar certo – ou então que ele poderia lidar com qualquer tipo de situação, então lançou uma nova iniciativa.

O perigo gradual de Sauron não passou despercebido nos assuntos da Terra-Média, e pode ser o catalisador da migração oriental dos Sindar. Tolkien observou que, "vendo a desolação do mundo, Sauron concluiu em seu íntimo que os Valar, tendo destronado Morgoth, tinham mais uma vez se esquecido da Terra-Média, e seu orgulho cresceu rapidamente".

No ensaio chamado "notas nos motivos do Silmarillion" (publicado no HoME: Morgoths Ring), Tolkien escreveu: "[Sauron] não tinha oposições à existência do mundo, já que podia fazer o que quisesse com ele. Ele ainda tinha resquícios de boa vontade, que descendiam da bondade em que foi criado: era sua virtude (e então também a causa de suas duas derrotas) que ele amava ordem e coordenação, e odiava todo tipo de confusão e confrontos inúteis."

Sauron acreditava fundamentalmente que ele poderia colocar o mundo em ordem, trazendo-o do caos que as guerras entre Morgoth, os Valar e os Eldar criaram, e restaurá-lo à sua antiga forma. Mas, por causa de seu orgulho, "seus planos… viraram o único objeto de sua vontade" (ibidem). Sauron se concentrou em trazer ordem ao mundo, esquecendo-se o porque de trazer ordem a este.

Ele claramente via os Elfos como instrumentos potenciais de sua vontade. Eles tinham as habilidades sub-criativas de transformar o mundo em grandes proporções de uma maneria que outras raças, como os Homens, não conseguiam. Anões parecem não ter aparecido nos desígnios de Sauron, e pode ser tanto culpa da desinformação, por parte de Sauron, sobre eles (tal perspectiva é reforçada pelo fato que Sauron falhou em converter os Anões em Espectros do Anel) ou sobre suas habilidades (embora tenhamos muita pouca informação sobre a capacidade dos anões para compará-los com os Elfos desta maneira).

De qualquer jeito, Sauron começou organizando o remanescente das criaturas de Morgoth. Seria fácil para ele recrutá-los para seu serviço – ele os conhecia bem e eles provavelmente se lembravam dele – mas ele pareceu ter trabalhado lentamente no começo. Gil-galad suspeitou que um servo de Morgoth estava organizando um exército no leste antes do ano 1000 da Segunda Era.

Ele recrutou Anardil, príncipe de Númenor, para servir como embaixador dos homens vivendo no norte e oeste da Terra-Média. Até este ponto, Gil-Galad pareceu ter tentado coletar informação e construir amizade com povos se movendo para perto de seu reino, que fica nas terras costeiras do noroeste da Terra-Média, no último remanescente de Beleriand. As atividades de Anardil na Terra-Média, e a presença crescente dos Numenoreanos nas praias (através de viagens exploradoras e colônias temporárias como Vinyalondë) induziram Sauron a escolher uma base de operações permanente perto do ano 1000.

Podemos deduzir do assentamento em Mordor que Sauron não teve uma base segura permanente no leste. Ele deve ter tido uma ou mais fortalvezas de onde ele dirigia seu crescente império, mas ele aparentemente acreditava que ele tinha que estar mais perto das terras orientais para planejar e implementar uma nova estratégia. Esta estratégia foi criada em base da esperança de induzir os Eldar a aceitá-lo como um professor e guia. Então, ou ele inicialmente populou Mordor com servos inofensivos aos olhos dos Eldar, ou então suprimiu o conhecimento de sua presença na região.

As missões diplomáticas de Sauron com os Eldar parecem ter ocorrido no breve período de um ano. A entrada para 1200 na Segunda Era do "Conto dos Anos" (Apêndice B do Senhor dos Anéis) diz: "Sauron tenta seduzir os eldar. Gil-Galad se recusa a fazer acordo com ele, mas os ferreiros de Eregion passam para o seu lado." Ele provavelmente nunca visitou outros reinos élficos, onde os eldar eram poucos ou então tinham adotado os costumes bárb
aros dos elfos Silvan. Claramente, Sauron queria atingir o coração do poderio élfico.

Já que seu objetivo era impor uma ordem no mundo (presumivelmente para reparar os machucados feitos pela guerra em Beleriand, e para eliminar ou reduzir o caos que sobreveio ao regime de Morgoth no final da Primeira Era), Sauron tinha que atrair o desejo interior dos eldar de trazer ordem ao seu mundo. Ao ver de Tolkien, os Elfos "queriam ter o bolo só para eles". Ou, mais precisamente, os eldar "queriam a paz e tranquilidade refletidos numa cópia perfeita do Oeste, e ainda por cima continuar a terra ordinária onde seu prestígio como pessoas superiores, acima de elfos selvagens, homens e anões, era bem maior que a base da hierarquia de Valinor." (Letters of JRR Tolkien, Letter 131)

Então, logo cedo, o desejo de Sauron de dominar a Terra-Média foi rivalizado pelo desejo crescente dos eldar de adquirir um status similar. Os dois procuravam controle e influência. Ao invés de criar uma guerra logo de cara, porém, Sauron preferiu trazer os eldar em sua comunidade com pretextos. Ao recorrer as suas qualidades, ele acreditava que podia tirar proveito de suas vulnerabilidades. Mas, realmente existia uma vulnerabilidade? Poderia Sauron enganar os elfos?

Provavelmente não mais do que ele fez. Isto é, Sauron parece ter subestimado os poderes perceptivos dos eldar. Ele não percebeu que os ferreiros élficos tinham consciência de seus atos, quando ele criou o Um Anel e o colocou em seu dedo. Neste momento, os elfos o perceberam, entenderam sua natureza e seus planos, e removeram seus anéis. Sauron nunca teve a oportunidade de influênciá-los como queria.

Eu às vezes me pergunto porque levou quase 100 anos deste ponto (1600 da Segunda Era) para Sauron lançar a guerra com os eldar. Parece que ele simplesmente esperou os eldar e numenoreanos construirem suas defesas. Mas é mais provável que Sauron não tinha o poder de lançar uma campanha massiva conhtra o Oeste. Ele conhecia muito bem as capacidades dos eldar. Sauron lutou contra eles em Beleriand, e testemunhou mais que uma vitória élfica contra números extremamente altos.

Os 90 anos de preparação para a guerra com os elfos proveu tempo para Sauron aumentar as habilidades de sua infantaria órquica, mas também o deu tempo o suficiente para ele aprender a usar seu Um Anel para ganhar melhor controle sobre seus servos. Sauron deve ter usado seu Anel para estender sua influência em muitas pessoas ao mesmo tempo, mas é aparente, vendo os resultados do resultados, que ele não controlava totalmente a Terra-Média oriental. Ele trabalhava com recursos limitados.

Os orcs foram derrotados nas terras do norte por uma aliança de homens e anões no começo da Segunda Era. Se Mordor fosse a única região onde os Orcs viviam no ano de 1500, eles não seriam muito numerosos. As preocupações com os eldar de Eregion por cerca de 1200 a 1500 sugerem que ele prestou pouca atenção aos orcs. Eles podem ter sustentado seus números mas não foi permitido a eles aumentar seu número a um ponto em que chegariam a ser incontroláveis. Isto é, a estratégia de Sauron naquele momento não era a de lançar hordas de orcs sobre o mundo. Podemos ter uma certeza razoável disso porque ele não lançou uma invasão imediata no norte em 1600.

Se os orcs levaram 90 anos para aumentar seus números, será que Sauron utilizou este tempo para fazer contatos com outros povos? Por exemplo, como ele ganhou a confiança dos terrapardenses, especialmente esses vivendo no Enedwaith e Minhiriath? Esses homens ajudaram Sauron durante a guerra, mas eles simplesmente se juntaram a ele quando viram o estandarte de seu bando de orcs, ou será que Sauron se demorou entre eles, ganhando sua lealdade e brincando com seus medos e ressentimentos. Os terrapardenses sentiam-se ameaçados pelas colônias numenoreanas e suas indústrias de madeira. Eles invadiam as terras numenoreanas desde que Anardil (Tar-Aldarion) primeiramente construiu Vinyalondë nos últimos 800.

90 anos também proveram a Sauron tempo para explorar as terras a leste das Montanhas Nevoentas. No "The Peoples of Middle-Earth" (Povos da Terra-Média) nos dizem que Sauron acabou com as terras dos povos edain que viviam nos vales do Anduin e a leste da Floresta das Trevas, trazendo à vida a sua antiga aliança com os anões Barba-Comprida. Seu objetivo ao lançar a guerra parece ter sido destruir as resistências à seu reinado na Terra-Média. Não seria suficiente para Sauron controlar Eregion e os Anéis do Poder. Ele queria eliminar todos os possíveis rivais do poder.

Por conseguinte, os Anões Barba-Comprida foram uma ameaça considerável para os planos de Sauron. Seu reino foi reforçado no começo da Segunda Era por um influxo de anões vindos de Ered Luin. A maioria destes eram anões de Belegost, aliados dos Eldar em Beleriand e inimigos de Morgoth. Khazad-dûm, a cidade principal dos Barba-Comprida, mantinham uma rota vital de suprimento e reforço entre Eregion e os vales do Anduin. Um comércio considerável deve ter sido feito pelas mãos destes anões. Mas o mais importante, os Barba-Comprida eram o poder central do império anão. Eles eram os guardiões de Gundabad, onde o povo anão viveu por incontáveis anos.

Se os Eldar eram uma ameaça ao controle de Sauron na Terra-Média, os anões eram, no mínimo, um obstáculo no caminho. Eles não aceitavam sua dominação e eram, nas terras ocidentais, aliados dos Eldar e dos povos humanos aliados a estes. Sauron tinha consciência do que os humanos poderiam fazer, pois lutou com esses em Beleriand. Entre os homens, os numenoreanos apresentavam o mais perigo, mas sua terra natal era bem distante da Terra-Média. Poucos numenoreanos moravam na Terra-Média. O povo Edain proveram a Gil-Galad e seus aliados um grande poder de batalha.

Por isso, o ataque de Sauron nas terras a leste das Montanhas Nevoentas faz sentido. Enquanto ele sitiava Eregion, as prioridades de Khazad-Dûm ficaram divididas. Sauron pode não ter previsto o assalto que Durin III lançou contra os invasores do Portão Oeste de Khazad-Dûm. Ou então pretendia batalhar no leste para acabar com uma parte do exército de Durin. Os Edain foram expulsos de suas terras, e a maioria foi morta. Os sobreviventes fugiram para as montanhas, onde os anões poderiam protegê-los, ou para as florestas, onde estavam isolados dos outros povos. De qualquer jeito, a maioria dele fugiu para o extremo norte.

Os elfos Silvan provavelmente sofreram terrivelmente. Eles deveriam ser incapazes de fazer ou sustentar o tipo de guerra que os Eldar poderiam fazer, mas eles eram mais numerosos que os Eldar e, em alguns reinos, eram liderados por príncipes Eldarin. Pode ser que muitos reinos menores fossem derrotados ou levados a procurar refúgio na Floresta das Trevas e Lothlórien, apesar da falha de Sauron em destruir os reinos de Amdir (pai de Amroth) e Oropher (pai de Thranduil) implica que lhe faltavam recursos para fazer uma guerra em florestas. Ele deveria ter poucas tropas treinadas para lutar em florestas, se é que ele tinha alguma.

A falha em capitalizar suas vitórias no leste pode ser a razão pela qual Sauron decid
iu queimar as florestas de Eriador. Seus exércitos podem ter acabado com os humanos e elfos dos campos, mas foram impedidos pelas matas. Até mesmo as forças orientais foram exterminadas em batalhas desesperadas, ou então se retiraram quando não podiam chegar mais perto. O ataque de Durin às forças ocidentais de Sauron foi completamente inesperado, e Sauron percebeu que se ele levasse seu exército através das grandes florestas de Eriador, os Eldar e Edain destruiriam suas tropas.

Portanto, depois de destruir Eregion, Sauron mandou tropas para o norte, o suficiente para ter certeza que o exército de Elrond fora derrotado, e então terminar de acabar com toda Eriador. De certa maneira, a destruição que Sauron impôs no mundo serviria como uma coroação, algo como uma declaração de soberania. "Isto é meu e eu faço com ele o que me agrada". Ele estaria dizendo aos elfos indiretamente que ele iria controlar a Terra-Média, e não eles. O bolo era de Sauron, não dos elfos. Estes também entenderam isso.

Depois que a guerra acabou, e Sauron foi derrotado, aparentemente não se falava sobre marchar para Mordor e derrotar Sauron de vez. Alguns elfos fugiram da Terra-Média e Gil-Galad resolveu estabelecer um novo posto em Imladris, que ficava no extremo norte (distante de Mordor) e mais defensível que Eregion foi. Os exércitos que perseveraram a volta de Sauron para Mordor não tinha recursos o suficiente para forçar seu caminho para dentro da região. Então o verdadeiro significado do retrocesso dos Eldar e Numenoreanos é que estes não estavam preparados para o que provocaram.

Mordor, rodeado de altas montanhas, era bem protegida, e sem dúvida Sauron a escolheu como sua fortaleza por causa da geografia. Mas Gil-galad tinha poucos recursos para manter um cerco tão extenso longe de Lindon, se é que tinha algum recurso pra isso. Numenor não tinha bases na área (Pelargir não apareceria por mais 600 anos) e os únicos povos da área não eram amigáveis (com a possível exceção das Entesposas, que queriam ajudar na causa, mas também ficaram neutras.)

"O Conto dos Anos" diz que, no começo do ano 1800, Sauron extendeu seu poder para o leste. Parecia que Sauron, como os Eldar e Numenoreanos, percebeu que era hora de uma mudança na tática. Ao invés de atacar os Eldar diretamente, ele preferiu aumentar seu poder sobre outros povos (provavelmente entre os homens do leste, cujos ancestrais eram leais a Morgoth). A mudança no objetivo de Sauron vem como consequência de uma série de falhas: falhou em aceitar a responsabilidade pela sua rebelião e recusou ir para Valinor; falhou em seduzir os Eldar para seu serviço; e falhou em destruir os eldar, eliminando os rivais em potencial pelo controle da Terra-Média.

A falta de ambição de Gil-galad foi a grande sorte de Sauron. Enquanto Gil-galad se concentrava em curar as terras e povos que Sauron destruiu na guerra, Sauron investiu seu tempo em criar mais recursos. E ele não esqueceu dos anões. Tendo adquirido os Nove e os Sete Anéis do Poder de Gwath-i-Mirdain em Eregion, Sauron perverteu os Anéis e os deu para Hoemns e Anões. Três dos Anéis foram dados para Numenoreanos, possívelmente capitães ou lordes que estavam liderando esforços de colonização na Terra-Média. Apesar dos Numenoreanos começarem a fazer portos permanentes a partir do ano de 1200, eles começaram "estabelecer domínios na costa [da Terra-Média]" por volta do ano de 1800 ("Conto dos Anos").

Por dar os Anéis do Poder aos homens e anões do leste, onde ele já tinha influência, Sauron provavelmente conseguiu um rígido controle sobre muitas terras rapidamente, num espaço de alguns anos ou gerações. Apesar dos homens que receberam anéis terem virado espectros, os senhores anões não poderiam ser corrompidos. E ainda, o estudo "Homens e anões" (publicado no Peoples of Middle-Earth) diz que todos os povos anões do oeste caíram nas sombras. Se Sauron não tivesse dominado os anões através dos anéis, não teria sentido ganhar influência e amizade entre eles através da entrega de presentes.

Os Anéis dados para os anões ocidentais são um assunto mais complicado. Não há indicação de que algum deles ficaram maus. Seus Anéis foram o começo de grandes tesouros (e a prova desta tradição, recordada no Apêndice A dO Senhor dos Anéis, é que as casas reais de Ered Luin não só sobreviveram mas tiveram sucesso na Segunda Era). Como Sauron fez para conseguir entregar os Anéis do Poder para os Anões? E quando? Ele com certeza não os visitou como sua antiga pessoa. Durin III, pelo menos, deve ter resistido a tal tentativa de suborno.

Todo o esforço de redistribuir os Anéis do Poder roubados é a chave do malfeito "Plano B". Sauron não sabia bem o que fazer. Ele precisava de servos mais poderosos com os quais ele poderia conquistar a Terra-Média, mas estes servos não o trazia vantagem sobre os elfos. Em fato, apesar de Sauron ter continuado a atacar os elfos pelos próximos 1300 anos, ele nunca mais montou um tipo de campanha massiva contra os Eldar como ele tentou na guerra. Por quê?

Os numenoreanos com certeza começaram a ganhar mais importância nos assuntos da Terra-Média. A medida que séculos passavam, novas fortalezas numenoreanas e portos foram estabelecidos ao longo da costa. O poderio numenoreanos lentamente marchou para as fronteiras de Mordor. E então Sauron se viu confrontado com dois rivais: Os Eldar no norte e Númenor no sul. E ainda, com a destruição de Eregion, toda a ambição pareceu fugir dos Eldar. Enquanto os Anéis do Poder existissem, os elfos tinham alguma proteção a morte. Então seu objetivo chefe foi cumprido. Mas parecia que eles deixaram que sua alma fosse derrotada. Nunca mais houve grandes reinos élficos na Terra-Média.

Sauron pode ter construído sua força, mas parece ter devotado mais de 1000 anos guerreando com os numenoreanos em várias regiões menores. Sua estratégia ficou mais complicada quando começou a ponderar sobre os dois problemas. A flexibilidade de Sauron sem dúvida fez com que seu reino sobrevivesse. Trocando de direções e controlando facilmente os novas terras no leste, ele estabeleceu um império capaz de aguentar a maioria das incursões de Numenor. Mas ele pareceu ter medo de confrontar o poderio numenoriano. Não há menção a nenhum ataque massivo a uma fortaleza numenoriana. Uma vez que Umbar foi estabelecida, continuou em controle numenoriano. Uma vez que Pelargir foi construída, Numenor teve uma guarda permanente do rio Anduin.

Porém, pode ser que Sauron hesitou antes, e sua relutância aparente em lançar um segundo ataque foi porque percebeu um de seus erros. Quando os elfos perceberam que foram traídos, Sauron poderia se deixar levar pela raiva e orgulho. Ele mandou que rendessem seus Anéis do Poder para ele. Claro que eles recusaram. Logo, Sauron reagiu furiosamente e lançou uma guerra contra eles. Apesar de que ele tenha se acalmad
o-se depois de uma dúzia de anos, qualquer problema que ele sofria na guerra (como perder os exércitos orientais, ou falhar em destruir os reinos florestais) reacendiam ou alimentavam sua raiva. E continuaria assim até que Sauron e seus guarda-costas retornassem para Mordor, derrotados, e se acalmasse o bastante para perceber que ele não iria ganhar o controle da Terra-Média pela guerra.

Logo, os séculos seguintes onde Sauron guerreava com os numenoreanos pelo controle do que deve ter sido territórios relativamente pequenos (a maioria provavelmente no sul) pode ter sido tempo bam gasto na opinião de Sauron. Isto é, ele pode provar e perceber as fraquezas dos numenoreanos, e deve ter estudado-as. Pode ser que Sauron tenha estudado o jovem príncipe que chegou a ser Ar-Pharazôn, já que lá era um indivíduo que poderia ser manipulado, e consequentemente atiçou Ar-Pharazôn (de longe) a desafiar Sauron para um desafio.

Se este era o objetivo de Sauron, ele se surpreendeu. Já que Ar-Pharazôn trouxe um exército tão imenso do oeste que os aliados de Sauron os desertaram. Com certeza, Sauron recorreu a um subterfúgio, rendendo-se para que possa ser levado para Numenor como um prisioneiro. Lá ele adquiriu gradualmente a confiança do rei como um conselheiro e seduziu a vasta maioria dos numenoreanos, muitos destes já rebelados contra os Valar, a cultuar Morgoth e desafiar os Valar. "Akallabeth" lembra que Sauron tinha esperanças de destruir toda Numenor, mas também recorda que ele ficou impressionado com o que encontrou na ilha, já que os feitos dos dunedain ultrapassaram qualquer expectativa sua.

A mudança dos planos de Sauron preservou Mordor como uma base de poder e abriu para ele uma oportunidade de minar a civlização numenoreana. Ele estava claramente agindo oportunisticamente, e talvez preparando coisas a medida que ele continuava. Mas sua jornada em Numenor foi uma aproximação repentina que resultou em reveses temporários (Gil-galad pôde extender seu poder durante a ausência de Sauron na Terra-Média), mas também na realização de um de seus objetivos: a destruição de Numenor.

Com Numenor fora do caminho Sauron retornou para a Terra-Média, machucado mas não ferido gravemente. Ele pode ter tornado seu pensamento totalmente para Gil-galad, mas aprendeu rápido que sobreviventes numenoreanos liderados por Elendil estavam estabelecendo dois novos reinos no norte. Apesar de muitas colônias numenoreanas agora ajudavam Sauron, os dunedain Fiéis estavam ajudando Gil-galad a consolidar seu poder no norte. Em efeito, Sauron trocou uma imensamente poderosa Numenor, que ele não poderia vencer militarmente, com uma imensamente poderosa aliança de homens e elfos.

Sauron atacou Gondor de repente, mas o Apêndice A diz que ele "atacou cedo demais, antes que seu próprio poder fosse refeito; enquanto isso o poder de Gil-galad aumentou em sua ausência". "Dos Anéis do Poder e a Terceira Era" é menos pessimista: "Quando Sauron julgou chegada a hora, investiu com força enorme contra o novo reino de Gondor, tomou Minas Ithil e destruiu a Árvore branca de Isildur que lá estava plantada." Apesar de Minas Ithil ter caído, Anarion resistiu em Osgiliath e mandou Sauron de volta para as montanhas. Sauron pareceu não ter integrado totalmente seus aliados em seu reino, ou então não esperou o bastante para os exércitos chegarem.

O ataque em Gondor foi similar ao ataque em Eregion. Sauron estava selecionando alvos estratégicos e tentando isolá-los dos poderes aliados. Ele conseguiu parcialmente em Eregion: Elrond não pode quebrar as linhas de Sauron, apesar de Durin III ter resgatado alguns do pvo de Eregion. O ataque à Gondor foi outra falha, e revelou a fraqueza dos ataques de Sauron: ele deixava que seus inimigos trabalhassem pelo benefício um do outro, mesmo se não coordenassem seus esforços contra ele. Ambos Elrond e Durin salvaram porções do povo de Eregion porque Sauron estava focado em conseguir os Anéis do Poder. Gondor aguentou seu ataque porque era muito nova para lançar a guerra.

Isildur pode navegar para o norte e incitar Elendil e Gil-galad. A aliança que eles fizeram mostrou ser forte o bastante para destruir o reino de Sauron. De fato, eles criaram um exército maior que Ar-Pharazôn trouxe para a Terra-Média perto de 200 anos antes. Se os aliados de Sauron foram incapazes de encarar o exército de Ar-Pharazôn, é graças a ele que o exército ficou até a batalha final da Segunda Era. Mas eles não eram páreo para a Última Aliança.

Guerra após guerra, Sauron deixou que seus inimigos ajudassem uns aos outros e às vezes trabalhar junto. Ele não percebeu que estava fazendo tudo errado até que Barad-dûr fosse cercada e os planos de Sauron morressem frustrados no sangue derramado nas batalhas. Ele precisava isolar seus inimigos um do outro. Ele lançou um ataque final e desesperado contra Gil-galad e matou o Rei-elfo, mas Elendil ficou perto o bastante para fazer um ataque mortal a Sauron. O último combate ao pé de Orodruin foi mais um ato de decepção do que qualquer outra coisa. Mesmo sem Gil-galad, a Última Aliança venceu a guerra. O império de Sauron foi desmantelado. Seu reino pessoal em Mordor foi ocupado.

Uma segunda morte deu um descanso merecido a Sauron. A Terra-Média estabeleceu um longo período de paz onde os homens esqueceram o Lorde Negro e os elfos só poderiam torcer para que ele não voltasse. Sauron agora tinha muito tempo para refletir seus erros, e quando ele finalmente retornou ele tinha uma nova estratégia, que levou quase um milênio e levou em consideração todas as variáveis que ele não considerou bem o bastante na Segunda Era.

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Eles, os Anões (Parte II)!

Guerreiro Anão, por Alan Lee

A maior parte do que conhecemos a respeito da cultura e costumes dos Anões deriva dos escritos de Tolkien sobre o Povo de Durin, os Anões Barbas-longas de Khazad-dûm, Erebor e as Colinas de Ferro. O Povo de Durin foi possivelmente o mais sociável de todos os povos anões, interagindo com Elfos, Homens e hobbits, em menor ou maior grau. Os Anões de Ered Luin (os Barbas-de-Fogo e Vigas-largas) também estavam intimamente associados com Elfos e provavelmente interagiram com Homens na Segunda e Terceira Eras, da mesma forma que os hobbits do Condado na Terceira Era, mas parece que, numericamente, eles se tornaram relativamente poucos após a Primeira Era.

 
 
As pessoas vêem os Anões como reservados e até certo ponto xenófobos, mas isto não é completamente correto. Tolkien disse, de fato, que “eles são uma raça dura, teimosos em sua maioria, reservados, trabalhadores, que retêm lembranças de insultos e ferimentos (e de boas ações), amantes da pedra, de pedras preciosas, e de coisas que tomam forma nas mãos dos artesãos, mais do que as coisas que vivem por meio de sua própria vida”. Então, o quão reservados eram eles? Tolkien nos diz que os Anões de Nogrod e Belegost compartilhavam seu conhecimento livremente com os Sindar, em troca dos ensinamentos de Melian, e eles também compartilharam conhecimento, mais tarde, com os Noldor. Por outro lado, os Anões-pequenos eram tão reclusos e hostis aos Sindar que pareciam animais violentos que deveriam ser caçados.

 

A extensão da natureza reservada dos Anões é percebida por meio de sua língua, que ensinavam a poucos, masTolkien não diz que eles a ensinaram a alguém (embora Gandalf faça uma declaração nesse sentido diante do Portão Oeste de Moria em “Uma Jornada no Escuro”, o autor está geralmente em desacordo com seus personagens sobre “fatos”, em relação aos quais ele é o árbitro-mor). Alguns Elfos, de fato, estudaram a língua dos Anões, e aprenderam tanto quanto puderam ou o que os Anões estiveram dispostos a ensinar (se é que havia tais limites). O estudioso de maiores recursos sobre o qual Tolkien escreveu foi Pengolod, um Elfo meio Noldo, meio Sinda de Gondolin, que se juntou aos Lambengolmor, Mestres das Línguas, que era uma escola de mestres de tradições fundada por Fëanor em Aman e que aparentemente juntou-se à rebelião dos Noldor, embora Fëanor tivesse cessado de trabalhar com línguas há muito tempo.

Sabemos pouco da história do Lambengolmor. Eles estudaram sindarin e provavelmente um pouco dos dialetos nandorin e avarin em Beleriand, mas muito do conhecimento deles se perdeu quando os reinos noldorin começaram a cair. Aqueles dos Lambengolmor que sobreviveram à destruição no norte estabeleceram-se por fim em Avernien, e mais tarde mudaram-se para a Ilha de Balar com Círdan e Gil-galad, ou então permaneceram seguidores dos filhos de Fëanor. Na Segunda Era, Pengolod estabeleceu-se em Eregion, e foi provavelmente lá que ele (e possivelmente outros) estudaram o khuzdul, a língua dos anões. Pengolod foi o único mestre de tradições dos Lambengolmor a sobreviver à catastrófica Guerra dos Elfos e Sauron, e quando as batalhas terminaram, ele tomou um navio em Mithlond e deixou a Terra-média para sempre, último de seu grupo a agraciar a Terra-média.

Dentre os segredos que os Anões não estavam dispostos a contar estavam seus verdadeiros nomes interiores, dados em khuzdul e usados apenas entre eles próprios. Todos os Anões de O Hobbit e O Senhor dos Anéis usam nomes “humanos”, de acordo com seus costumes. Pelo menos esse era o costume entre os Anões Barbas-longas da Segunda Era em diante, se não antes. Outros Anões, no entanto, usavam nomes em khuzdul. Os Anões de Nogrod e Belegost atendiam por nomes dados em khuzdul: Azaghal, senhor de Belegost, Telchar de Nogrod e Gamil Zirak, o Velho, o mestre que ensinou Telchar.

Os Anões de Ered Luin podem ter desenvolvido a civilização mais sofisticada dentre sua raça durante a Primeira Era, devido à amizade deles com os Elfos de Beleriand, cuja civilização era a mais elevada e mais avançada cultura da Terra-média. Grande riqueza fluía através de Ered Luin, e esses Anões não olhavam apenas para o oeste. Eles negociavam com vários dos Homens que se estabeleceram em Eriador, e também com os Nandor e Avari que ali moravam. É talvez um fato curioso, no entanto, que os Edain (pelo menos os maracheanos, a Terceira Casa dos Edain) tenham retido algumas tradições de discórdia ou luta com Anões que migraram do oeste. Tolkien não diz o que aconteceu, mas quando Túrin e seus foras-da-lei capturaram Mim, o anão-pequeno, um dos homens de Túrin (ele próprio um dos homens de Marach) disse de si mesmo: “Androg não gosta de Anões. O povo dele trouxe poucas boas histórias dessa raça saída do Leste”.

Bom, as histórias do povo de Androg podem ou não refletir o relacionamento entre seu povo e os Anões. Tais eventos repousam em várias gerações antes dele (esta conversa ocorreu por volta do ano 484 da Primeira Era, e o povo dele adentrou Beleriand em 314; eles haviam começado a se estabelecer em Dor-lómin mais de 100 anos antes que Angrod vivesse). Não sabemos com quais Anões o povo de Angrod teve problemas, mas eles eram provavelmente Barbas-longas, Barbas-de-fogo, ou Vigas-largas. Nenhum outro povo dos Anões parece ter vivido nas proximidades da linha migratória dos Edain, que passou em linha reta através das Terras Ermas (Rhovanion) e os Vales do Anduin, onde os Barbas-longas tinham o controle, e além do Ered Luin.

Depois que os Edain alcançaram Beleriand, as relações entre Anões e Homens melhoraram fora de Beleriand, mesmo que tenham permanecido frias no oeste. O Povo de Bór, únicos Orientais a permanecerem fiéis aos Eldar na Quinta Grande Batalha, a Nirnaeth Arnoediad, era um povo sedentário (agrícola), apenas uma das várias tribos ou clãs a migrar para Eriador no fim do Século V. Estes povos se estabeleceram nas terras setentrionais em torno das Colinas de Vesperturvo, e eram amigáveis aos Anões. De fato, o Povo de Bór dirigiu-se para o norte, contornando Ered Luin, até entrar em terras dos Eldar, e eles passaram a morar nas terras ao norte das colinas onde o povo de Maedhros residia.

Na época em que Thangorodrim caiu, a maioria (mas não todos) dos seguidores de Morgoth que haviam sido destruídos pelas forças do extremo oeste fugiram quando Morgoth foi derrotado e espalharam-se por toda a Terra-média. Alguns dos orcs aparentemente tomaram o Monte Gundabad e infestaram as montanhas do norte das Terras Ermas. Os Anões Barbas-longas passaram a defender duramente a si próprios do ataque. Eles já haviam começado a trocar serviços por comida com os Edain das Terras Ermas, mas naquele momento eles estabeleceram uma aliança com os homens, a fim de tentar expulsar os orcs das montanhas. Esta aliança única está documentada apenas em The Peoples of Middle-earth, no ensaio “Dos Anões e Homens”, que foi escrito algum tempo depois de junho de 1969 (de acordo com Christopher Tolkien).

Tolkien diz que os Barbas-longas, “embora fossem os mais orgulhosos dos sete povos, eram também os mais sábios e os mais previdentes”. Ele prossegue dizendo que “os Homens tinham grande admiração e estavam muito desejosos de aprender com eles; e os Barbas-longas estavam muito interessados em usar os Homens para seus próprios propósitos”. Esses propósitos eram dois: prover alimentação para os Anões e ajudá-los nas guerras contra os orcs. A conhecida reserva dos Anões havia sido então abandonada, graças à necessidade e o desejo de comércio com outros povos tanto em Beleriand quanto em Rhovanion. Mas parece que a reserva seria recuperada no fim.

Os Anões Barbas-longas foram os primeiros a usar nomes “exteriores”, emprestados das línguas dos Homens próximos. Tolkien escreve que os Anões estavam dispostos a ensinar sua língua aos homens, mas os Homens a consideraram difícil de aprender, e ainda assim nem todos os Anões estavam dispostos a informar seus nomes verdadeiros aos não-Anões. Dessa forma, para facilitar a aliança, os Barbas-longas aprenderam a língua dos Homens das Terras Ermas (assim como os Anões de Ered Luin aprenderam sindarin) e adotaram seus nomes “exteriores” nesta língua. Foi durante o início da Segunda Era que os Anões começaram a acumular uma lista de nomes que a tradição por fim uniu apenas à raça deles. “Durin” é a tradução que Tolkien oferece para o nome “de homem” que significava “rei”, e era mais um título do que um nome, que por fim tornou-se um nome de fato. “Narvi” seria outro exemplo da criação de nomes baseada na linguagem do norte (essencialmente um dialeto do adunaico, a língua falada pelos maracheanos).

Com o auxílio dos Homens, os Barbas-longas foram capazes de restabelecer o controle sobre aquelas regiões que eles consideravam suas por direito. Essa aliança ajudou a pavimentar o caminho para a aliança final entre os Barbas-longas e os Elfos de Eregion, mas parece que há outro pré-requisito: a migração dos Anões de Belegost para Khazad-dûm. Esses Anões não haviam participado da guerra entre Nogrod e Doriath e, portanto, não possuíam inimizade direta com os Elfos (embora Tolkien diga que a lembrança da guerra “envenenou o relacionamento entre Elfos e Anões durante eras”, ainda que quase não forneça evidências de tais relações envenenadas).

Quando o mithril foi descoberto pelos Barbas-longas, os Noldor de Lindon ficaram interessados em seus recursos, e vários deles instalaram-se nas terras a oeste de Khazad-dûm, criando o reino de Eregion. A cidade principal era Ost-in-Edhil, e eles iniciaram uma amizade e aliança muito próxima com os Barbas-longas, que durou mil anos. No fim dessa época, os Barbas-longas foram atraídos para a Guerra dos Elfos e Sauron. Eles buscaram ajudar os Eldar de Eregion, que estavam em dificuldade, e vários Elfos (inclusive Pengolod) escaparam através de Khazad-dûm até o reino oriental de Lothlórien, mas o exército de Durin IV foi empurrado de volta para as montanhas por Sauron, e o Portão Oeste foi fechado para evitar uma possível invasão. As coisas também não foram bem no leste. Sauron enviou exércitos de orcs de Mordor e instigou as tribos orientais de Homens a invadir as Terras Ermas.

Os povos dos Edain foram aniquilados e empurrados de volta para as montanhas ou para bem dentro das florestas (e foi provavelmente neste momento que os Homens da Grande Floresta Verde apareceram pela primeira vez). Os próprios Barbas-longas perderam o controle de Gundabad novamente, as Montanhas Cinzentas estavam infestadas de orcs e a comunicação com as Colinas de Ferro foi cortada por algum tempo. Quando Sauron foi finalmente derrotado, Khazad-dûm parecia uma ilha no meio de um mar vazio, cujo único vizinho amigável era, aparentemente, Lothlórien. Elrond havia estabelecido o refúgio de Imladris ao norte de Eriador, mas embora ele fosse amigável aos Anões na Terceira Era, não há indicação que ele tenha interagido muito com eles na Segunda Era.

Mîm e os anões-pequenos – Alan Lee

 Os Barbas-longas não abandonaram sua velha amizade com os Elfos, mas conforme Tolkien diz, ela diminuiu. No fim da Segunda Era, Durin V estava disposto e pronto a se juntar ao Exército da última Aliança de Elfos e Homens, então seu povo marchou contra Gondor. Mas depois parece que eles não participaram muito dos grandes assuntos da Terra-média. Por quase dois mil anos, Khazad-dûm continuou a desfrutar de grande prosperidade. As Montanhas Nevoentas e Cinzentas ficaram indubitavelmente livres de orcs, trolls e dragões por muitos séculos, e a comunicação entre Khazad-dûm e outras comunidades anãs foi assegurada.

Mas quando Sauron começou a se manifestar novamente, passados mil anos da Terceira Era, ele parece ter buscado a política de afastar seus velhos inimigos uns dos outros. Sempre que uma oportunidade se apresentava, ele destruía uma nação, ou levava vantagens sobre a queda de um inimigo. Os Anões Barbas-longas iniciaram um período de declínio quando eles acidentalmente despertaram um Balrog, aparentemente o último dos grandes demônios de fogo e sombra de Morgoth. O Balrog destruiu a civilização em Khazad-dûm, matando dois de seus reis e vários de seu povo. Os sobreviventes fugiram para o norte e leste, mas nunca recuperaram suas forças por completo. Logo depois, Amroth, rei de Lórien, liderou uma migração de Elfos para o sul, e o despertar de um grande (embora não-identificado) mal nas montanhas, assim como a partida de vários Anões, inspirou os Elfos de Lórien a proibir a entrada de qualquer Anão em suas terras.

Tolkien não diz exatamente como os Anões se dispersaram. Os reis dos Barbas-longas mudaram-se para a Montanha Solitária, a noroeste. Mas alguns dos Anões que viviam nas Montanhas Nevoentas ou nas Montanhas Cinzentas brigaram com Fram, um senhor dos Éothéod, a respeito do tesouro de Scatha, o Verme. Por fim, os Anões mataram Fram depois que ele recusou-se a entregar o tesouro. Os Anões de Belegost podem ter retornado para seus parentes em Ered Luin. Mas por fim os Barbas-longas colonizaram as Montanhas Cinzentas em grande número, onde chamaram a atenção de dragões e foram conduzidos para o sul, em Erebor novamente. Dessa vez um dos dragões, Smaug, o Dourado, seguiu-os e conquistou Erebor em 2770. Pelos 171 anos seguintes os Barbas-longas não tiveram residência permanente, exceto por uma colônia que sobreviveu nas Colinas de Ferro e algumas colônias não nomeadas nas montanhas do norte.

Ao fim da Terceira Era, as fortunas de três das sete famílias haviam caído. O povo de Nogrod havia sido maciçamente destruído na guerra com Doriath no final da Terceira Era. A maior parte do povo de Belegost deixou as Ered Luin no início da Segunda Era porque sua cidade havia sido destruída. Os Anões que permaneceram nas Ered Luin parecem ter sido poucos, mas mantiveram o controle sobre uma região de terra entre os Elfos e Homens no norte de Eriador. Estes Anões provavelmente viveram com seus vizinhos num relacionamento similar ao das grandes alianças de Khazad-dûm, mas eles eram poucos numericamente e não eram seriamente ameaçados pelos orcs ou dragões, portanto eles não têm nenhuma participação nas grandes guerras da Segunda Era. Tolkien dá a entender que eles não marcharam com a Última Aliança, pois diz ele que poucos Anões lutaram em ambos os lados naquela guerra.

A difusão do costume de adotar nomes exteriores nas línguas dos homens, dos Barbas-longas para as outras raças, provavelmente ocorreu na Terceira Era, talvez logo depois da queda de Khazad-dûm. Naquele tempo, os Barbas-longas teriam começado a vagar pelas terras, e alguns certamente estabeleceram-se entre outros Anões. Se houve de fato o retorno dos descendentes dos Anões de Belegost para as Ered Luin, eles teriam levado o costume com eles, se é que este já não os precedesse.

Tolkien fala pouco sobre as quatro casas orientais. Ele sugere que elas (ou pelo menos as duas mais orientais) podem ter tornado-se “más” de alguma forma, mas elas não apoiaram Sauron no final da Segunda Era. O relacionamento entre Sauron e os Anões é peculiar. Tendo falhado ao tentar seduzir os Elfos com os Anéis do Poder, Sauron tomou o maior número de Anéis Élficos que conseguiu durante sua guerra com os Elfos, e levou-os de volta para Mordor. Ali ele os perverteu de alguma maneira, com a intenção de usá-los para controlar os grandes senhores de outros povos. Sauron conseguiu dar sete Anéis para os Anões, presumivelmente um para cada um dos senhores das sete casas (embora isso não seja uma certeza). Se for esse o caso, então a observação de Tolkien de que, segundo a tradição, cada um dos antigos tesouros dos Anões foi criado a partir de um anel, dá a entender que os senhores de Belegost jamais deixaram Ered Luin. Parece improvável que tivessem seu tesouro em Khazad-dûm.

A situação dos Sete Anéis parece dizer algo a respeito da história dos Anões. Sauron, por fim, decidiu tomar de volta os Anéis (em algum momento no fim da Terceira Era) e teve que ir ao encalço deles. No processo, ele apenas adquiriu três dos Anéis; dragões consumiram os outros quatro, de acordo com Gandalf. Dos três que Sauron tomou de volta, sabemos que um pertencia aos reis dos Barbas-longas. Esse Anel ele tomou de Thráin em 2845, “o último dos Sete”. Portanto, a quem pertencia os outros dois Anéis, e quando Sauron conseguiu-os?

Parece que Sauron não visitou Eriador na Terceira Era. Ele enviou o Senhor dos Nazgûl para o norte, por volta do ano 1300, para fundar o reino de Angmar, e esse reino do mal buscou a destruição de Arnor, o reino do norte dos Dúnedain. Angmar estava situada a nordeste em Eriador, longe das Ered Luin, mas efetivamente no controle de Gundabad. Pode ser que Gundabad, libertada na Segunda Era, tenha sido tomada por Angmar, ou talvez abandonada pelos Anões. Ou pode ser que Gundabad tenha resistido, o que parece improvável.

Não obstante, Angmar existiu por quase 700 anos e, no entanto, jamais foi capaz de atacar as Ered Luin. Também não há menção de dragões afligindo os Anões das Ered Luin ao longo da Terceira Era. Portanto, parece improvável que Sauron tivesse recuperado os dois Anéis dos Anões de Ered Luin, enquanto o reino de Arnor existia. E embora Arnor tenha caído em 1974, o próprio reino de Angmar foi destruído por Gondor, Lindon e Valfenda no ano seguinte. O Senhor dos Nazgûl, então, fugiu para o sul e só ouviu-se falar dele novamente no ano de 2002, quando os Nazgûl tomaram a cidade de Minas Ithil, em Gondor. O próprio Sauron fugiu para o leste em 2063, quando Gandalf entrou em Dol Guldur para tentar descobrir quem o Necromante realmente era, e Sauron não retornou para o oeste até 2460.

É provável, portanto, que Sauron não tenha feito nenhuma tentativa de recuperar os Anéis dos Anões ocidentais antes de 2460. Num período de cem anos, Sauron começou a colonizar as Montanhas Nevoentas com orcs, e dragões começaram a reaparecer no norte, atacando os Anões. Os Anões Barbas-longas fugiram para Erebor ou para as Colinas de Ferro. Pode ser que os dragões também começaram a afligir as quatro casas orientais, e que nos dois séculos seguintes todos os grandes reinos orientais dos Anões sofreram uma sina similar aos de Erebor. Isso explicaria as obscuras referências em O Hobbit e O Senhor dos Anéis sobre os infortúnios dos Anões, especialmente quando se tratava de dragões.

Se Sauron estava alarmado pela perda dos quarto Anéis no leste, pode ter agarrado a oportunidade de tomar os Anéis ocidentais no 28º século. Orcs começaram a invadir Eriador por volta de 2740 e, pelos idos de 2758, Sauron estava pronto a lançar um ataque maciço contra Gondor, Rohan e, aparentemente, até mesmo Eriador. Este foi o ano em que o Inverno Longo começou, e os orcs foram capazes de avançar a oeste até o Condado. É concebível que os Anões de Ered Luin tenham sofrido muito, tanto quanto outros povos naquele tempo, e que seus reis tenham sido atraídos para fora e capturados por orcs. Embora puramente especulativo, o período de tempo que Sauron teve para as atividades de busca pelos Anéis está limitado a um século. Tolkien não diz quando Sauron tomou de volta os Anéis dos Nazgûl, mas ele provavelmente só recebeu esses Anéis depois que seu poder estava mais seguro, o que teria ocorrido logo depois do fim da Paz Vigilante.

Com seus objetivos conquistados, ou seus recursos exauridos, Sauron parece ter desconsiderado Eriador depois do Inverno Longo. Não houve mais incursões maciças de seres malignos no noroeste, e por volta de 2845, ele havia recuperado tantos Anéis de Poder quanto possível. Os infortúnios dos Anões estavam, dessa forma, chegando ao fim, e suas fortunas (pelo menos as dos Barbas-longas) voltaram a aumentar.

Eu devo salientar que Sauron pode ter tido outra oportunidade de tomar dois dos Anéis dos Anões: a Guerra dos Anões e Orcs, de 2793 a 2799. Todas as sete casas concentraram seus exércitos para a guerra de vingança contra os Orcs das Montanhas Nevoentas. Embora Tolkien não diga que outro senhor além de Thráin (herdeiro de Durin, rei dos Barbas-longas) tenha participado diretamente da guerra, não é impossível que pelo menos dois tenham liderado tropas para ajudar Thráin, e eles poderiam ter sido capturados ou mortos, e seus corpos levados. Nesse caso, Sauron poderia ter recuperado os Anéis dessa maneira.

Apesar de seu declínio nas terras ocidentais, os Anões continuaram a viajar através de Eriador e sem dúvida através das Terras Ermas, realizando sua jornada entre Ered Luin e Erebor, ou Ered Luin e as Colinas de Ferro, e talvez viajando até as terras orientais dos Anões. Os objetivos de tais jornadas são raramente declarados. Quando Thorin e Thráin se estabeleceram nas Ered Luin depois da Guerra dos Anões e Orcs, vários dos Barbas-longas ficaram sabendo de seu novo lar e foram se juntar a eles, portanto deve ter havido um constante porém pequeno fluxo de trânsito a oeste.

Em “A Busca de Erebor” (no Contos Inacabados), Christopher Tolkien colocou fragmentos de textos que seu pai havia escrito numa tentativa de explicar (principalmente por meio de Gandalf) como a expedição de Thorin e Companhia para Erebor foi organizada em 2941. Durante uma discussão, Gandalf repreende Glóin por fazer pouco do povo do Condado, só porque os Anões jamais venderam armas para eles. Alguém pode concluir, a partir dessa observação, que os Anões estavam de fato vendendo armas a alguém, mas Tolkien não indica para quem. Talvez os Elfos precisassem de armas, mas eles deveriam ser capazes de fazer as suas próprias. Parece mais provável que os Anões tenham fornecido armas aos Dúnedain de Eriador. Os Guardiões parecem ser um incomum grupo bem equipado de soldados para ser totalmente sustentado por um “povo errante”. Se os Dúnedain precisassem recorrer a alguém para o suprimento de itens artesanais, os Anões pareceriam uma escolha lógica.

Porém, à medida que os centros populacionais de Eriador foram decaindo ao longo do final da Terceira Era, ficou cada vez mais difícil para os Anões terem uma vida lucrativa. Os Dúnedain continuavam a diminuir. Enquanto Thráin e seu pequeno grupo viveram na Terra Parda, eles provavelmente negociaram com o povo de Tharbad, porém esta foi abandonada em 2912, depois que o Inverno Mortal resultou em enchentes severas. A relutância dos povos em reconstruir sua cidade implica que havia simplesmente poucas razões econômicas para fazê-lo. Bri também passou por um período de declínio, possivelmente na mesma época, embora pareça que isso dependeu mais do trânsito na estrada leste-oeste do que do trânsito vindo do sul.

Assim, houve diminuição dos mercados para o artesanato dos Anões, no último século da Terceira Era: o Condado, a Terra dos Buques, Bri, e alguns poucos e espalhados Dúnedain. Possivelmente alguns Elfos também negociaram com eles. A restauração do Reino sob a Montanha em Erebor, em 2941, significou que os Barbas-longas provavelmente partiram logo depois para se juntarem Dáin II no leste. Isto teria reduzido a competição para os negócios, mas o subseqüente retorno de Sauron para Mordor em 2951 e a eventual migração para oeste de vários Anões deve ter prejudicado consideravelmente a economia dos mesmos. Quem eram esses Anões, viajando a partir das tumultuadas terras orientais? Não parece tratarem-se de Barbas-longas, que tinham um reino forte em Erebor e provavelmente mantinham as Colinas de Ferro sob controle. Parece mais provável que fossem das casas orientais, cujas terras podem ter sido devastadas ou ameaçadas por grandes guerras na preparação para os ataques de Sauron no oeste. Dessa forma, no final da Terceira Era, pode ter havido um fluxo de Anões orientais para ajudar a rejuvenescer as Ered Luin.

A vitória sobre Sauron, poucos anos depois, levou à restauração do Reino de Arnor e à expansão do Condado. Os Anões de Ered Luin devem ter sido finalmente beneficiados pelo fluxo de colonos vindos do sul, por meio da extensão da autoridade de Rohan sobre a Terra Parda e do crescimento do Condado. Pode ser que, quando Durin VII finalmente restabeleceu Khazad-dûm no início da Quarta Era, os Anões de Ered Luin também experimentaram uma forma de renascimento, seu último desabrochar antes da final e triste diminuição e desaparecimento de sua raça.

Quem tem medo dos puristas maus?

Já fui ver “A Sociedade do Anel” e parece-me que as pessoas devem ir ver o filme para formarem a sua própria opinião. Puristas Tolkianos ficarão provavelmente ofendidos. Eu acho que eles se meteram a si próprios nesse buraco. Não há salvação no filme para os fans intransigentes que temeram a saída do filme e que gostariam que este nunca tivesse sido produzido. No entanto, há puristas Tolkianos que, tal como eu, farão o seu melhor para separar o que sentem pela obra de Tolkien, das suas reacções ao trabalho de Peter Jackson. Tenho de dizer que não é fácil ver o filme sem pensar “Ah, aquilo era diferente no livro”. Mas de cada vez que me sinto reagir dessa maneira, relembro-me que vim ver o filme e não condená-lo ou criticá-lo. Criticar cada pequena coisa não vai fazer bem a ninguém neste momento. O filme é um facto consumado e quer queiramos quer não temos de viver com ele e continuar com as nossas vidas. De qualquer maneira, o filme de As Duas Torres vai sair daqui a um ano e os angustiosos vão precisar de um pouco de tempo antes de se começarem a preparar para lastimar a chegada desse filme.
 

Não posso dizer que este tenha sido o melhor filme do ano para mim. Certamente também não foi o pior. Acho que se fizesse uma lista de todas as falhas do filme, o balanço inclinar-se-ia a favor do final cheio de acção do filme, isto é, acho que o que é bom ultrapassa muito o que é mau na escala da Justiça purista. Peter Jackson gosta de contar uma história muito visível, e ao fazê-lo tem tendência para exagerar certos elementos. Ele traz ao écran uma intensidade que não existe nas paletas de outros realizadores. Claro que cada realizador pinta um quadro diferente. E a única coisa que nós podemos fazer é interpretar esta interpretação de acordo com os nossos desejos e experiências pessoais.

Ainda assim, o que tornou o filme mais memorável para mim foi o facto de ter partilhado a noite com mais de 1000 pessoas em dois auditórios (e tive mesmo a oportunidade de comunicar com pessoas em ambas as salas). A audiência com quem vi o filme esteve muito sossegada durante a maior parte da história. Acho que as pessoas tinham medo de falar para não perderem nenhum pormenor. E até nem é que se possa fechar os olhos e perder o fio à história. O filme era muito previsível nalgumas partes. Laboriosamente previsível. Mas a história desenvolve-se tão rapidamente que quando o genérico final apareceu acho que toda a gente olhou para o relógio e disse “Não podem ter passado três horas!”

Cinematicamente, se há uma falha no filme tem a ver com o ritmo. As cenas são tão rápidas e os personagens varrem a paisagem tão rapidamente que quando param numa cena por mais de um minuto a mudança de ritmo parece um pouco discordante. Mas, a não ser que fizessem seis filmes de três horas cada ou cortassem ainda mais da história, não vejo como fazer muito mais com a matéria prima.

Eu estava suficientemente confortável com a viagem dos ‘Portadores do anel’ (Ringbearers) que parei e procurei nas paredes de Moria alguns daqueles detalhes que nós somos supostos saber que estão lá, mas não conseguimos ver. Vi alguma coisa interessante? Bem, havia muitas runas esculpidas nas paredes. Por quem? Não faço ideia. A camara não as focou durante tempo suficiente para eu as ver bem.

Tem sido dito que Peter Jackson trata a câmara como uma pessoa diferente em cada cena. Esta é a sua maneira de dirigir a atenção das pessoas para a história. Usa ângulos diferentes, acção-inversa, truques digitais e vistas panorâmicas da paisagem, concentrando-se na acção quando as coisas aquecem. Se alguém receia que o filme se afaste do livro de Tolkien, então podem ficar tranquilos que isso acontece. Se esperam que o filme dê vida à Terra-média, então podem ficar tranquilos que isso também acontece. É a Terra-média de Tolkien? Claro que não. É a de Peter Jackson. Mas é uma visão magnifíca e que vale bem a pena absorver pelo menos uma ou duas vezes.

Devo dizer que gostei do trabalho dos actores. Algum do diálogo não estava à sua altura. Tinha a impressão de que eles queriam dizer mais e não podiam – tinham que continuar com a cena e era mesmo assim que tinha de ser. Por isso a sua interpretação tornava-se mais intensa.

Sou um grande fan da Liv Tyler o que faz com que a minha opinião não seja aqui ‘imparcial’. No entanto, acho que ela se saiu melhor do que muita gente esperava ou temia. Houve alguns risos quando apareceram as legendas (das falas em élvico). Estavam colocadas tão em baixo no écran que a metade inferior das palavras desapareceu. Mas eu gostei de ver Liv e vai ser bom vê-la mais nestes filmes. Arwen não tem de ser uma ‘fada-do-lar imaculada’. Quem insiste que ela só pode ser isso claramente não presta atenção ao que Tolkien escreveu sobre ela e sobre a sua família.

Ian Holm é um Bilbo Bolseiro perfeito. É um actor consagrado e compreendeu perfeitamente a sua personagem. Mas o que me impressionou mais sobre Bilbo foi o facto de que quase todo “O Hobbit” foi sumariado em várias cenas ao longo do filme. Não quero dizer que representaram a história. Só que a maior parte dos acontecimentos da história anterior foi mencionada ou referida. Gostei disso. O Bilbo de Ian Holm é encantador, confiante, confortável e completamente credível. Não consigo pensar em nada que quizesse feito de maneira diferente.

No entanto, a melhor actuação é a de Ian McKellen. Não sei se ele tem suficiente material de qualidade Oscariana no filme para ganhar mesmo um Oscar, mas ele devia ter uma nomeação. Não é porque ele é Gandalf, ou porque alguém pensa que ele devia ser Gandalf. É porque quando McKellen diz certas falas, ele fá-las soar duma forma tão realista e convincente. Não interessa se a personagem que as fala é Gandalf. O que interessa é que elas não parecem ser ditas por um qualquer personagem de filme.

Gandalf absorveu algumas falas de outras personagens devido à compressão. Mas são frases muitas vezes extraídas directamente de Tolkien. O que me surpreendeu, no entanto, foi como fiquei satisfeito com a inclusão fora de contexto de várias dessas falas. E quero dizer que algum do diálogo foi tão mudado do sítio em que aparece na história literária que qualquer purista o nota imediatamente. Mas não acho que esteja fora do lugar. Uma das alterações mais bem sucedidas é na cena em que Gandalf diz a Frodo a famosa frase sobre não dever ser tão rápido a dar um julgamento de morte. É uma cena incr&i
acute;vel. Toda a emoção e rectidão moral que eu imaginei em Gandalf quando ele admoesta Frodo sobre o seu julgamento de Gollum no livro está mesmo ali expressa no écran. E não é porque Peter Jackson e os outros guionistas encontrassem uma maneira inteligente de usar o texto num sítio diferente do da história literária. É porque Ian McKellen compreende a monumentalidade do que está a dizer. Ele sente-se clara e obviamente confortável a dizê-lo.

Na minha experiência, um dos comentários mais frequentes nestes últimos quatro anos era sobre a necessária compressão da história do livro. Eu e muitos outros puristas perguntávamo-nos se o intervalo de 17 anos entre a partida de Bilbo do Shire e a conversa fatídica de Frodo com Gandalf seria comprimido para poucos meses. Para ser sincero, não sei dizer de verdade. A história corre tão depressa que parece que não se passou tempo nenhum, mas quando se vê Bilbo em Valfenda eu acho que parece que se passaram 17 anos. Só não apareceu nenhum título no écran a dizer “17 anos depois”. Peter poderá ter pensado ou não em incluir nalgum momento um título “Alguns meses depois”, mas no fim preferiu deixar a audiência decidir quanto tempo se passou. Contudo, quando Frodo acorda em Valfenda Gandalf diz-lhe que é 24 de Outubro. Verifiquem no livro, puristas. Essa é a data em que Frodo acorda em Valfenda.

Por outro lado, muito da história é alterado e não vejo razão porquê. De facto, certos aspectos específicos da personagem de Sauron foram alterados radicalmente e não percebo porquê. É bom? Não faço ideia. Não direi que seja mau. Mas é um abandono de Tolkien. No entanto, tentaram deixar Sauron em segundo plano, como muitos fans queriam. Eu acho que o deixaram aí de mais. Bem, ia ser sempre uma daquelas coisas em que se é “preso por ter gato e preso por não ter”. O papel de Sauron no filme não determina a história e ele aparece, na minha humilde opinião, melhor do que o típico vilão tenebroso e assustador de capa e espada e feitiçaria. Contudo, perdeu-se alguma da grandiosidade dos Dunedain de Tolkien. Mas muita gente tem argumentado que se se parar e der uma lição de história e cultura de cada vez que Tolkien o faz, então o filme nunca passaria de Bree. Bombadil é forte em história, por exemplo.

Acho que não fazem justiça a Aragorn. Viggo Mortensen tem um admirável trabalho a representar este personagem, mas, que chatice, precisava de mais tempo no écran. Passolargo aparece fraco e quase vazio no princípio da história e gradualmente ganha o respeito do leitor e dos Hobbits. O filme simplesmente atira-o para a situação e, pum-pum, Passolargo é Aragorn, o herdeiro há muito tempo perdido de Isildur. Claro, a não ser que produzissem seis filmes de três horas, não tenho a certeza de que pudessem ter ilustrado muito da transição de Passolargo para Aragorn sem cortar o resto do filme. Mas, de novo, os guionistas foram inteligentes e alteraram a história de Passolargo, adiando alguns dos seus pontos chave para o segundo ou talvez para o terceiro filme. Puristas intransigentes vão pôr-se aos berros mas, se o resto das pessoas os ignorar, tornar-se-ão rapidamente irrelevantes.

Por outro lado, dão-nos um espectáculo quase completo dos Cavaleiros Negros que Tolkien mostra no livro. Não me lembro de nada de errado com estas cenas e não vale a pena ser picuínhas com o design dos fatos, dado que cada pessoa os conceberia de maneira diferente. Mas a ênfase colocada nos Cavaleiros Negros na primeira parte do filme e o tratamento leve de Aragorn na segunda parte deixam-me com uma sensação de algum desequilíbrio.

A Sociedade do Anel conta duas histórias. Uma é a de um Hobbit chamado Frodo que é apanhado nas malhas de uma responsabilidade assustadora. A outra história é a de um homem misterioso que se oferece para ajudar Frodo e que faz a sua própria travessia incerta enquanto Frodo caminha cada vez mais próximo de Mordor. O Aragorn de Tolkien não precisa de ser enfiado à força em nenhuma comitiva. Ele tem o seu lugar próprio e definido no mundo e ao leitor só são cuidadosamente dadas pistas suficientes sobre o lugar de Aragorn para perceber que, quando Gandalf se auto-sacrifica, Aragorn é capaz de assumir a liderança da comitiva, mas que essa liderança não dá garantias. Notei a falta dessa dúvida. Viggo é bem capaz de representar um Aragorn inseguro, e fá-lo de facto, mas a incerteza foi transferida para uma parte diferente da história. Fiquei surpreendido com isso. Para ser sincero, tive algumas surpresas no filme. E a única maneira de criar essas surpresas com sucesso era alterando a história. Pode-se apreciar o momento em que se reconhece que um personagem diz uma fala originária de outra parte da história, ou pode-se lamentar as alterações ao original de Tolkien. Dizer se as trocas do diálogo foram necessárias dum ponto de vista cinemático ou responsáveis é uma discussão que pode esperar.

A Sociedade do Anel cria o ambiente para o próximo filme da maneira clássica e habitual: levanta questões sobre o que irá acontecer a algumas das personagens. Como o Aragorn de Peter Jackson não segue o Aragorn de J.R.R. Tolkien à letra, a audiência fica a pensar se, e quando, as peças do puzzle de Aragorn vão encaixar no puzzle de Peter Jackson. Possivelmente, esta foi a decisão mais acertada que podiam ter tomado. Frodo é quase idêntico ao Frodo literário. Elijah Wood tem a tarefa ingrata de ir alimentando as expectativas da audiência. A única parte em que ele poderá falhar a sua missão é em representar um Frodo Hobbit de 50 anos no corpo dum jovem Hobbit. É difícil de dizer. O filme tem um ritmo tão rápido que não se pode julgar suficientemente bem a perplexidade de Frodo quando este vê as coisas irem de mal a pior para ele. Por isso não há nenhuma maneira em que o primeiro filme da trilogia possa agarrar perguntas da audiência sobre Frodo.

Orlando Bloom não é totalmente utilizado no primeiro filme, o que parece justo. A relação Legolas-Gimli não começa mesmo a funcionar até ao meio da história. Mas há um admirável momento clássico quando Legolas reage ao Gimli de John Rhys-Davies de uma tal maneira que a audiência tem de se rir, tanto em apreciação do gesto subtil, como em antecipação do que de certeza vai surgir mais tarde. Fiquei contente que não tivessem abusado de efeitos especiais para mostrar o enorme talento de Legolas com o arco e flechas. Ele é rápido, ele é mortífero e ele é credível. Não é costume ver isso num Elvo dos filmes. Pelo menos em nenhum que eu me lembre. A minha única decepção com Legolas é quando é um outro personagem que diz uma das suas falas muito importantes. Não percebo porque o fizera
m, mas isso não me estragou o filme. De facto até ajudou um pouco na construção do outro personagem. Mas não pude evitar pensar que os guionistas falharam nesse aspecto importante sobre Legolas, aspecto esse que até é referido por Tolkien numa das suas cartas.

John Rhys-Davies foi sempre um dos meus actores favoritos. É um prazer vê-lo no écran e, depois de saber as atribulações que ele sofreu durante as filmagens, só o posso respeitar ainda mais pela sua belíssima actuação. Eu não acho que na mente de Tolkien Gimli fosse um personagem tão exagerado, mas ele tem a feliz, ou infeliz, responsabilidade de explicar alguns dos antecedentes da história. Ele corresponde bem a várias das expectativas dos fans, o que irá acalmar alguns ânimos mais exaltados, acho eu, mas poderá deitar ainda mais achas na fogueira dos sacrilégios dos puristas.

Merry e Pippin não têm papeis importantes na maior parte do filme, mas a sua cena final é muito comovedora. Dominic Monaghan and Billy Boyd trabalham bem juntos e estou ansioso de ver a sua história em As Duas Torres.

O Boromir de Sean Bean, tal como o Aragorn de Viggo, fica amputado devido à compressão. Eu acho que neste caso a equipa de guionistas percebeu muito bem que tinham de encontrar um compromisso e, para compensar, mudaram de novo a história para darem a Sean uma oportunidade de expressar as emoções e prioridades contraditórias de Boromir numa cena muito bem escrita. De facto, em duas cenas muito bem escritas. Mas, mesmo assim, ele precisava de ainda mais tempo no écran para criar Boromir da forma que seria de exigir. No entanto, a audiência ficou verdadeiramente comovida quando chegou o momento de glória de Boromir. A cena podia ser mais fiel ao livro, e em minha opinião seria então mais forte, mas Sean and Viggo pegaram no material que tinham e ‘deitaram a casa abaixo’. Não é habitual ver um cinema cheio de gente a aplaudir tal e qual como quando a equipa da casa marca um golo decisivo. De facto, nunca tinha visto uma reacção deste tipo num cinema. As pessoas gritavam, batiam palmas, aplaudiam. Peter, uma cena completamente conseguida. E mesmo que não contassem com as actuações fantásticas de Ian McKellen e Ian Holm para criar o que é basicamente a espinha dorsal do filme, eu acho que a maior parte do público vai sair do cinema com a cena entre Viggo e Sean tão bem marcada na memória que se vai sentir muito satisfeito.

Finalmente, tenho que renovar a minha queixa sobre o fumar. É completamente desnecessário. Não há justificação para pôr personagens a fumar nos filmes. Tolkien não sabia que os efeitos de fumar eram tão mortais e perigosos. Não é justo mostrar o uso do tabaco como um passatempo inofensivo à sua audiência e assim pôr em perigo vidas futuras. O filme é agradável, mas se o uso do tabaco foi incluído para satisfazer os desejos puristas das pessoas, isso não era necessário. Não acrescenta nada à história e a caracterização das personagens não depende disso. As pessoas morrem por usar produtos de tabaco. As pessoas sofrem danos físicos sérios por usar produtos de tabaco. Hollywood precisa de entender que tem uma responsabilidade para com as suas audiências para não glorificar comportamentos que se sabe serem fatais. Não vimos nenhuns Hobbits a beber veneno de ratos ou a porem-se à frente de trens de mercadorias. Nenhuns Hobbits apontaram armas às suas cabeças ou se fizeram ir pelos ares. Não precisamos de ver Hobbits, Feiticeiros ou Batedores (Rangers) a fumar. Sei que vou ser atacado e criticado por tomar esta posição forte. Mas eu sou apenas alguém que acha que a vida humana é mais importante do que uma tentativa pouco ajuízada de ser fiel a um livro quando se faz um filme.

Assim, espero que as pessoas apreciem o filme. Estou ansioso por o ir ver outra vez. Mas fico triste com o facto de terem tomado uma decisão tão irresponsável num assunto muitíssimo importante. Para o filme em geral, Peter, dou um “Bem feito”. Pelo tabaco, dou um “uma lástima”. Câncro não é para rir. Espero que essa doença nunca lhes faça perder um familiar. Eu já perdi de mais.

Tradução de Isabel Castro

Os Mistérios da Terra-média

Parte do prazer de ler sobre a Terra-média está em descobrir mais a respeito de temas obscuros após estes aparecerem em algum lugar "canônico". Pegue os Druedain; Woses, como são chamados em "O Senhor dos Anéis". Quando você lê o livro pela primeira vez, vê que eles mal aparecem e conduzem os Rohirrim ao redor de um exército de Orcs e Orientais.

 

Eles têm alguma importância além desta no decorrer da história? Sim e não. Eles estão lá para dar aos Rohirrim uma passagem viável ao redor do bloqueio da tropa, e a finalidade deste bloqueio é mostrar ao leitor que Sauron é tão poderoso que pode espalhar exércitos por todo o mapa. Mas os Druedain também servem para lembrar ao leitor que a Terra-média está cheia de criaturas estranhas e misteriosas de todos os tipos.

Talvez Tolkien tenha pensado "Aqui será bom acrescentar outra raça mágica de criaturas" quando ele esboçou aquela parte da história, mas evidentemente ele não parou por aí. Muitos anos depois ele escreveu um longo ensaio o qual falava muito da história sobre os Anões e os Homens, mas também falava dos Druedain, e explicava quem eles eram, de onde eles vieram, e como eles acabaram na Floresta Druedain. A escolha do nome "Druadan" pode ter sido conveniente, ou pode ter sido intencional.

Tolkien de fato começou chamando o povo de Ghan-buri-Ghan de "homens escuros de Eilenach" e a floresta era "Floresta Eilenach". Mas então eles se tornaram os Druedain da Floresta Druadan, e no publicado Senhor dos Anéis, eles se tornaram os Woses, mas a floresta permaneceu Floresta Druadan. A associação da palavra "adan" com uma raça não-edain é muito peculiar, e confundiu muitas pessoas. Mas em 1980, Christopher Tolkien publicou muito material dos Druedain em "Contos Inacabados" e o mistério foi esclarecido.

Esta foi a quarta tribo associada aos Edain, não numerada entre as "casas" dos Edain, mas, apesar de tudo, foi dado a eles acesso a Númenor como uma recompensa por seus serviços e sofrimento em Beleriand. E na prática, não há menção deles em "O Silmarillion", porque foi somente em 1960 que Tolkien concluiu as origens e destino dos Druedain, muito depois do material do Silmarillion ter sido feito até o ponto onde Christopher o encontrou após a morte do pai.

Por sinal, Tolkien gostava da palavra "wose". Ele a usava como um dos apelidos de Túrin [Saeros o chamava de woodwose em "Narn i Hîn Húrin"] e "woodwose" é a forma moderna do Anglo-Saxão "wusu-wasa", "homens selvagens das florestas" [um dos apelidos de Túrin]. "Woses" é então destinado a ser uma tradução da atual palavra Rohirrica "Rogin" [sing. Rog], com o mesmo significado, "homens selvagens das florestas". Os Rohirrim ignoravam [assim como Tolkien, quando escreveu o Senhor dos Anéis] a antiga história dos Woses.

Há muitos mistérios confinados nas florestas da Terra-média. Tolkien amava as árvores, e ele as honrou de uma forma especial. Ele sempre achou que elas tinham recebido um amargo quinhão em compartilhar o mundo com os homens. Tolkien baseou-se na "vinda da "Grande Floresta Birnam para a alta Colina Dunsinane"", em Shakespeare, e quis que as árvores realmente marchassem para a guerra, realizando esse desejo através dos Ents.

Alguém deve perguntar como os Ents vieram a habitar a Floresta de Fangorn. Tolkien não diz claramente. O próprio Fangorn [Barbárvore] diz que vagou em Beleriand por terras há muito não molestadas por Morgoth, mesmo durante a guerra contra os elfos. Evidentemente, se os Ents sobreviveram à destruição de Beleriand no fim da Primeira Era, eles devem ter rumado para o leste, para Eriador, onde havia em tempos idos uma antiga floresta sobre a qual Elrond disse: "foi-se o tempo em que um esquilo podia ir de árvore em árvore do que é agora o Condado até a Terra Parda, a oeste de Isengard. Por aquelas terras eu viajei uma vez, e muitas coisas selvagens e estranhas eu conheci."

Deixando a viagem de Elrond à parte, alguém deve se perguntar como os esquilos [e os Ents] cruzaram o poderoso rio Gwathló. Ele era amplo e bastante profundo, pois os navios vindos do Oceano podiam navegar longe para o interior, até Tharbad, onde, possivelmente, as águas se tornavam suficientemente rasas para que os Ents pudessem atravessar.

Mas por que eles fariam isso? Quando eles deixaram as florestas do norte? Aparentemente, o eles fizeram antes da Guerra entre os Elfos e Sauron, e em outro texto Tolkien diz que o próprio Fangorn encontrou o Rei de Lothlórien nos primeiros anos da Segunda Era e combinaram as fronteiras de seus reinos. A migração dos elfos de Beleriand para o leste na Segunda Era levou os Ents para o leste também? Ou os ents em alguma época se tornaram tão numerosos que tinham se espalhado pelas terras? Há muitas coisas que nunca saberemos da história dos Ents, infelizmente.

Outras criaturas das florestas que têm um passado misterioso são as aranhas gigantes de Mirkwood. Onde e quando estas criaturas surgiram? Dizem ser descendentes de Ungoliant, e Mirkwood era a Grande Floresta Verde até Sauron despertar na Terceira Era e se estabelecer em Dol Guldur. Ele, sem dúvida induziu algumas da prole de Ungoliant que habitavam o norte da floresta, mas como elas chegaram lá? Não parece provável que Isildur desejasse construir uma cidade próxima a aranhas monstruosas que se alimentavam de Homens e Elfos.

Uma coisa que sempre me incomodou é quem eram aqueles misteriosos homens que comercializavam com a Cidade do Lago em "O Hobbit". Eles viviam ao sul do Lago Comprido e eram aparentados aos Homens do Norte, mas onde eles viviam? A Velha Estrada da Floresta, de acordo com o livro, "era coberta de vegetação e não utilizada no final, ao leste, e conduzia a pântanos intransponíveis onde os caminhos estavam há muito perdidos." A estrada foi originalmente feita pelos Anões. Eles usavam-na para alcançar o Celduin e, de lá, passavam para o nordeste de alguma forma até as Colinas de Ferro.

Se houvessem homens ainda vivendo ao longo do Celduin [o Rio Corrente, que vem de Erebor], por que eles não se estabeleceram no ponto onde a Velha Estrada da Floresta encontrava o rio? Ou talvez eles tivessem vivido lá por algum tempo, mas tivessem deixado o local.

Então há dúvida do por que Gandalf e Beorn decidiram levar Bilbo de volta pela borda norte de Mirkwood quando retornaram para o oeste. Havia, de fato, homens vivendo naquelas regiões em tempos antigos, e provavelmente homens ainda habitavam lá no fim da Terceira Era, mas não há indicação no mapa de "O Hobbit" ou no texto. Parece uma decisão muito e
stranha, visto que o Rei Elfo teria assegurado a sua passagem a salvo através da floresta.

Voltando ao sul, nós podemos olhar para Pelargir e perguntar que fim levou a frota de Gondor. A incursão de Aragorn a Umbar foi a última vez que navios gondorianos se moveram contra o inimigo na Terceira Era. No tempo da Guerra do Anel, a ameaça de Umbar e outros portos do sul era tão grande que Denethor desejou nove décimos das forças de Gondor nas costas, protegendo-a de ataques vindos do mar. Ele teria dispensado as frotas de Gondor após tornar-se Regente, talvez por ter sido Thorongil, seu rival, quem liderou o ataque contra a Cidade dos Corsários?

E por que ninguém tentou recolonizar Eriador depois da destruição de Angmar? A presença das Criaturas Tumulares em Tyrn Gorthad, as Colinas dos Túmulos, explica por que ninguém se estabeleceu por lá novamente. Mas e quanto às planícies ao sul de Vau Sarn que eram inabitadas? E ao redor das Colinas do Sul? O que impedia as pessoas de viverem lá? O que houve ao povo de Tharbad quando aquela foi finalmente abandonada? Eles rumaram para o norte, para o Ângulo, e se uniram aos Dúnedain que moravam lá? Pelo jeito, parece que os Dúnedain prosperaram e também muitos deles partiram para outras partes do mundo [talvez indo para o sul, até Gondor], ou muitos devem ter perecido nos ermos de Eriador.

Existem tantas perguntas sobre a Terra-média que alguém pode até descrever um "Baseado em…" durante anos, propondo teorias bizarras numa tentativa de resolver tais mistérios. Estas questões sem resposta nos fazem perceber a "profundidade" com que nós falamos da Terra-média. Elas são como um vislumbre de montanhas num horizonte distante, do qual nunca nos aproximaremos. As respostas estão lá, além de nosso alcance, para sempre perdidas.

Tradução de Fábio Bettega