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Michael Martinez

Viajando na maionese de Asas e Cabelos

Michael Martinez

Novos livros de autoridade sobre a Terra-média são escassos e demandam enorme espera. Frequentemente, quando um novo livro é publicado fornecendo novas informações sobre a Terra-média, nossas queridas ideias que nutrimos por tanto tempo sofrem um sério desafio e devem ser reavaliadas.

The History of Middle-earth (HoME) caminha a passos tímidos para um nada profundo desfecho através das notas finais de Christopher Tolkien sobre “Tal-Elmar” finalizando The Peoples of Middle-earth. Seu papel no longo e meticuloso processo de organizar e publicar as anotações e manuscritos de seu pai termina de forma silenciosa. Tantas questões permanecem sem resposta no 12º volume da HoME que muitas pessoas expressam uma enorme frustração com este trabalho. “Isso é tudo que há para se falar sobre a Terra-média?”, perguntam elas.

A resposta dada então em 1996 era tanto “sim” como “não. “Sim”, pois a megalítica subestrutura dos detalhes foi cuidadosamente exposta, exceto por uma área que recebeu menor atenção. “Não”, pois Christopher prestou escassa atenção ao desenvolvimento de O Hobbit, uma tarefa delegada ao falecido Taum Santoski. Após o falecimento de Santoski, a responsabilidade recaiu sobre John Rateliff, que ainda tem de produzir a muito esperada história de O Hobbit (que em determinado momento possuiu o título provisório de Mr. Baggins ["Sr. Bolseiro"]).

O Annotated Hobbit, de Douglas Anderson, revisado e atualizado em 2002, serve como a fonte primária da comunidade tolkeniana para o estudo do desenvolvimento de O Hobbit. Uma fonte secundária vital é o livro J. R. R. Tolkien: Artist and Illustrator, editado por Wayne Hammond e Christina Scull. Alguns poucos comentários feitos por Christopher e espalhados pelos livros da História da Terra-média, impõem mais limites nas já limitadas fontes à disposição para o estudo do trabalho de JRRT em O Hobbit.

Muito dos materiais linguísticos restantes não-publicados de Tolkien foram colocados aos cuidados editoriais de um pequeno grupo de linguistas que trabalham com Christopher Gilson (Parma Eldalamberon) e Carl Hostetter (Vinyar Tengwar). Por conta das severas condições para o  uso desses escritos (fotocópias – os manuscritos originais não foram liberados), os materais-fonte estão presos no meio do fogo cruzado de disputas e acusações que permeiam a relativamente escassa e pequena comunidade linguística tolkeniana. Alguns dos principais lingüistas tolkenianos pressionam duro para que haja uma maior velocidade na disponibilização do material. O conflito ocasionalmente espalha-se para o domínio de discussões não-lingüísticas, mas em geral manteve-se contido dentro dos círculos de estudo linguísticos sobre Tolkien. Alguns materiais adicionais originários dos arquivos de Tolkien na Marquette University e da Bodleian Library de Oxford também fornecem aos linguistas novas informações.

Muitos dos entusiásticos leitores Tolkien estão familiarizados com as brigas. Os mundos dos estudos tolkienianos, tanto formais quanto informais, reverberam com as palavras acaloradas de debates inflamados. Não conheço nenhum estudioso de Tolkien que já não tenha me dito em particular “Você pode encontrar uma resposta com fulano ou sicrano, mas não mencione meu nome pois isso não vai abrir portas para você”. Realmente, até eu tenho me pego dizendo coisa parecida em certas ocasiões.

Alguém poderia pensar que, com a morte de Tolkien em 1973, já tenha passado tempo suficiente para que todo mundo tenha estudado tudo que seja possível imaginar sobre sua obra. A arte de analisar Tolkien, se não for apenas crítica barata contra Tolkien, deveria ser a esta altura uma análise bem definida e considerada quase científica. Mas a magia da arte de Tolkien é que ela continua a produzir novas descobertas, num ritmo quase anual. A última parte significativa do material lançado relacionado a Terra-média, durante a vida de Tolkien, foi provavelmente o mapa de Pauline Baines em 1969. O mapa inclui talvez meia dúzia de nomes de lugares que ninguém já tinha visto antes (tais como Edhellond, Lond Daer Ened e Framsburg).

Há entrevistas que Tolkien deu entre 1965 e 1971 nas quais ele revelou pequenos detalhes sobre personagens ou aspectos particulares da Terra-média. Há o famoso comentário no qual ele compara o idioma dos Anões (Khuzdul) ao hebraico. Há a entrevista onde ele discute a história de Tarannon Falastur e a Rainha Beruthiel, comparando-os ao deus nórdico Njord e sua esposa-giganta Skadi. Mas, na verdade, após a publicação da segunda edição oficial de O Senhor dos Anéis e da terceira edição especial de O Hobbit, o desenvolvimento da Terra-média ficou paralisado pelo resto da vida de Tolkien.

Somente quando Christopher Tolkien publicou O Silmarillion em 1977 (casualmente mencionando no Prefácio que não era realmente o Silmarillion de seu pai) é que as informações começaram fluir livremente. Com Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média (publicado em 1980), Christopher liberou uma torrente de informações sobre o mundo de O Senhor dos Anéis. Claro que havia uma enorme quantidade de informações em O Silmarillion, mas era difícil lê-lo e digerir tudo. Como um amigo meu colocou “Parece que há uns 20 nomes por página que você precisará lembrar para o resto do livro”.

A habilidade fecunda de Tolkien em criar nomes, personagens e genealogias inspirou muitos a escreverem livros de referência, sites de internet e FAQs. A maioria deles não vale a pena em ser consultada, na minha opinião, uma vez que as chances de estarem errados é considerávelmente grande de tal forma que você quase precisa memorizar tudo para saber se os livros de referência estão certos. Eles apresentam detalhes fundamentais de forma errada com tal freqüência que não se deve confiar neles. Mesmo o Complete Guide to Middle-earth, escrito por Robert Foster, que é geralmente aceito como uma fonte confiável, foi denunciado como fonte de erros e confusão, e ele parou de documentar a Terra-média com O Silmarillion.

Lembro tudo isso antes de dizer que, com cada novo lançamento de material anteriormente não-publicado, a tarefa de conferir, organizar e compreender tudo que foi realmente escrito por J. R. R. Tolkien a respeito da Terra-média torna-se cada vez mais complexa e desafiadora com o lançamento de cada novo livro. No decorrer dos anos, enquanto via pessoas endossar pessoalmente um livro de referência em específico sobre o trabalho de Tolkien, fui provavelmente um dos piores críticos que imediatamente apontava os defeitos de tal obra.  E metade do tempo pessoas retrucavam indignadas: “Bem, então por que você não escreve um você mesmo?”; e metade do tempo pessoas me pediam encarecidamente para fazer um trabalho melhor.

Desculpe, pessoal. Se eu achasse que poderia fazer melhor que qualquer outro, já eu teria tentado. Eu sei que cometeria enganos, e esses enganos me atormentariam pelo resto da vida, mesmo se eu fosse a única pessoa a enxergá-los. Algumas vezes você pode fazer tudo certinho e mesmo assim ainda dar errado.

Por exemplo, por vários anos depois que li pela primeira vez O Senhor dos Anéis, eu ficava me perguntando quem eram os Homens do Norte. De onde eles vinham? Porque diziam que eles estavam ligados aos Dunedain de Arnor e Gondor? Quando Contos Inacabados foi publicado, eu pensei que finalmente tinha a resposta.

Em O Senhor dos Anéis, Faramir diz a Frodo: “Nossos mestres de tradição dizem que eles detêm desde tempos antigos esta afinidade conosco e que eles provêm daquelas mesmas Três Casas dos Homens, como os Numenorianos o foram no princípio: talvez não de Hardor, o Louro, Amigo-dos-Elfos, mas ainda assim de seu povo e de seus filhos que não singraram o Mar para o Oeste, recusando o chamado”.

Ora, essa foi uma declaração bem específica, e por toda sua vida foi a única pista real que Tolkien nos forneceu sobre a origem dos Homens do Norte. O Silmarillion de fato confirma que alguns Edain retornaram a Eriador, e nenhum dos descendentes de Hador estava entre eles. Os “filhos” a quem Faramir se referia deviam ser portanto ser considerados de forma figurativa, exatamente como os Rohirrim referiam-se a si mesmos como Eorlingas (os filhos ou povo de Eorl).

Contos Inacabados menciona os descendentes daqueles Edain que retornaram para Eriador. Eles encontraram Veantur e os Numenorianos várias centenas de anos depois. Cerca de mil anos depois, Sauron invadiu Eriador, expulsando ou matando todos os Elfos e Homens. Então, o que aconteceu com o povo de origem Edainica? Por um bom tempo, achei que eles fugiram para leste, passando pelas Montanhas Nevoentas para os Vales do Anduin. Pareceu então plausível para mim. E quando compartilhei tal idéia com outras pessoas, várias concordaram.

No entanto, em 1996, The Peoples of Middle-earth dissipou essa especulação. No ensaio “Anões e Homens” descobrimos que os povos Edainicos fixaram-se por Rhovanion e Eriador. Isto é, antes que quaisquer Edain tivessem alcançado Beleriand, havia assentamentos Edainicos desde Carnen (o Rio Vermelho, que flui para o sul das Colinas de Ferro) para o oeste de Baranduin. As Três Casas dos Edain eram na verdade somente subgrupos daqueles povos maiores. Os Homens do Norte da Terceira Era eram simplesmente descendentes originários dos grupos provenientes mais ao leste que os primeiros colonos Edainicos.

As palavras de Faramir são consistentes tanto com minha interpretação dos textos e quanto com o ensaio canônico “Anões e Homens”. Esse ensaio é canônico no sentido que oferece uma explicação do próprio J. R. R. Tolkien sobre os fatos apresentados por Faramir para Frodo (e para o leitor). A Terra-média é criação dele, e assim ele decide onde as coisas devem ficar. Eu não. É claro, em uma observação anexada ao texto “Anões e Homens”, Tolkien especificamente faz referência à conversa de Faramir com Frodo. O ensaio, que ele escreveu mais ou menos em 1969, data assim de um período no final dos anos 60, quando Tolkien estava escrevendo uma enorme quantidade de “histórias de pano de fundo”. Ele estava preenchendo as lacunas, e em alguns casos, mudando de idéia sobre o que havia sido publicado 15 anos antes.

Uma das ironias curiosas sobre o trabalho de Tolkien é aquilo que Christopher Tolkien enfatiza, especialmente em The Peoples of Middle-earth, de que seu pai sentia-se compelido a respeitar o que havia sido publicado. Por este motivo, quando escrevia um bom pedaço sobre o significado de “-ros” do nome de Elros, J. R. R. Tolkien teve de se controlar e parar com tudo.

Mas, infelizmente, essa explicação complica-se por um pequeno fato que passou desapercebido por meu pai, e que foi algo fatal. Ele anotou no texto que boa parte dessa explicação é falha por conta do nome Cair Andros (um nome Sindarin, como eram praticamente todos os topônimos de Gondor), a ilha do Anduin ao norte de Minas Tirith, que foi mencionada no Apêndice A (RdR, p. 334, nota de rodapé) como significando “Navio de longíneas espumas”, uma vez que a ilha tinha a forma de um enorme navio, com a proa apontando para o norte, contra a qual a espuma branca do Anduin quebrava nas escarpadas rochas. Assim, ele foi forçado a aceitar que o elemento -ros de Elros tinha de ser o mesmo que em Cair Andros, que a palavra deveria ser Eldarin e não Atanica (Beoriana) e que não devia haver qualquer relação histórica entre essa palavra e o Rothinzil Adunaico Numenoriano (The Peoples of Middle-earth, p. 371, Houghton Mifflin Co. [HMCo])

Tolkien encontrava-se navegando nas águas perigosas dos domínios “das histórias de fundo”, muito antes de 1969. De fato, logo após ter começado a trabalhar nos Apêndices de O Senhor dos Anéis, em 1950 (ele terminou o primeiro texto em 1948), Tolkien elaborou notas sobre a história dos Anões. E então a sua editora, a George Allen & Unwin, surpreendeu-o com a prova tipográfica para a segunda edição de O Hobbit. Em 1947, Tolkien escreveu para a Allen & Unwin sugerindo que se algum dia viessem a produzir uma segunda edição de O Hobbit, ele sentia que seria melhor revisá-lo de forma a ser compatível com O Senhor dos Anéis que, embora iniciado como uma seqüência de O Hobbit (por conta da requisição do editor), havia evoluído de forma a se tornar uma consolidação de várias histórias e mitos que previamente não estavam associados a este (Hobbits, os Eldar, os Numenorianos, etc.).

Depois de ler as provas tipográficas, Tolkien percebeu que teria de mudar o material em seus Apêndices em invés de lutar para conseguir mudanças substanciais em O Hobbit.

O estágio de correções é considerado muito tardio para que um escritor possa reescrever uma quantidade substancial de sua obra (apesar das declarações de Tolkien sobre ter feito consideráveis edições em provas tipográficas de vários de seus livros). Os Apêndices de SdA são assim o primeiro texto pós-SdA a sofrer considerável influência de uma fonte extra-SdA. E de modo algum este é o último texto desta natureza.

“A Caçada ao Anel” é outro texto pós-SdA que foi, de fato, composto (ou ao menos iniciado) antes da publicação de O Senhor dos Anéis propriamente dito. Christopher Tolkien sugere que ele foi iniciado após o primeiro volume de O Senhor dos Anéis ter sido publicado em 1954, mas antes da publicação do terceiro volume (o que ele deduziu por conta dos conflitos de datas entre “A Caçada ao Anel” e o livro). Tencionava-se incluir a “A Caçada ao Anel” em um “volume especialista” que Tolkien mencionou em uma carta de 1956 (No. 187, As Cartas de J. R. R. Tolkien). Sua intenção original era produzir um glossário de topônimos a partir do livro, sendo complementado por notas lingüísticas.

Mas os problemas (prazerosos se eu tivesse tempo) que o volume extra apresentará ficarão claros se eu lhe disser que, enquanto muitos como o senhor exigem mapas, outros desejam indicações geológicas ao invés de lugares; muitos querem gramáticas, fonologias e amostras Élficas; alguns querem métrica e prosódias – não apenas das breves amostras Élficas, mas também dos versos “traduzidos” nos modos menos familiares, tais como aqueles escritos na forma mais rígida do verso aliterativo anglo-saxão (como por exemplo o fragmento no final de Batalha de Pelennor, V vi 124). Músicos querem melodias e notações musicais; arqueólogos querem cerâmica e metalurgia. Botânicos querem uma descrição mais precisa do mallorn, da elanor, niphredil, alfirin, mallos e symbelmynë; e historiadores querem mais detalhes sobre a estrutura política e social de Gondor; questionadores gerais querem informações sobre os Carroceiros, o Harad, origens Anãs, os Mortos, os Beornings e os dois magos que faltam (dos cinco). Será um volume grande, mesmo que eu me atenha apenas às coisas reveladas à minha limitada compreensão!

Está claro que, ao produzir Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média, Christopher Tolkien esperava – pelo menos até certo ponto – realizar o desejo de seu pai de publicar um volume complementar de O Senhor dos Anéis. Mas Contos Inacabados não poderia ser o livro que seu pai teria escrito mais do que O Silmarillion poderia ser. Ambos são apenas aproximações imperfeitas do que poderia ter sido produzido, se o Tempo e a Imaginação não tivessem escorridos das mãos de JRRT. Enquanto que com O Silmarillion Christopher tentou construir uma narrativa completa, ele dispensou tais intromissões editoriais consideráveis na compilação de Contos Inacabados. O segundo livro estabelece a base para o extraordinário estudo de Christopher na série The History of Middle-earth. Contos Inacabados provou que Christopher podia, até certo grau, separar sua voz da de seu pai e que podia atrair os leitores tanto no processo subcriativo quanto na análise editorial.

Christopher cometeu erros pelo caminho. Ninguém poderia produzir estes 14 livros e não cometer erros. Ele freqüentemente anotava seus erros nos comentários iniciais de cada volume ou nas observações finais de seções especiais. Às vezes, Christopher era extremamente duro consigo mesmo, como podemos ver na página 141 de The Peoples of Middle-earth onde, após citar a si mesmo de um volume anterior, ele escreveu:

Esta última observação é um absurdo óbvio. A longuíssima linha de reis Numenorianos, que entrou no curso do desenvolvimento de Akallabeth, estava presente no Apêndice A (e uma olhada rápida pelos textos da obra é suficiente para mostrar, pelo simples fato de sua aparição, que eles não poderiam datar de maneira concebível de uma data tão tardia)…

O fardo de Preciso-Estar-Certo somente aumenta para alguém como Christopher ou Wayne Hammond, com as súplicas dos leitores ao redor do mundo para que produzam evidências conclusivas a favor ou contra várias questões. Sendo o mais respeitado e conhecido bibliógrafo de Tolkien, Hammond ganhou seu espaço nos estudos tolkienianos que rivaliza com o do próprio Christopher em termos de autoridade. Poucas pessoas desejariam desafiar algum ponto fornecido por Hammond, apesar de nem Christopher Tolkien nem Wayne Hammond jamais afirmarem ter a última palavra de autoridade em qualquer assunto. Ambos de livre e espontânea vontade reconhecem as contribuições e correções de outras pessoas.

Ainda assim, Hammond foi a autoridade a quem apelei há não muito tempo atrás, quando alguém me perguntou por que freqüentemente eu dizia que J. R. R. Tolkien traduziu o Livro de Jó para a Bíblia de Jerusalém. Afinal de contas, “todo mundo sabe que foi o livro de Jonas”.* Bem, minha fonte era uma nota bibliográfica acima de qualquer contestação que Wayne Hammond e Douglas Anderson haviam publicado. A informação não foi contestada com sucesso durante quase 30 anos. Ela parecia bem confiável. Mas com o objetivo de ser o mais completo possível, eu perguntei para membros da Mythopoeic Society se havia evidência em contrário. O próprio Wayne Hammond respondeu com um longo resumo de sua recente e minuciosa pesquisa sobre o assunto. Ele chegou à conclusão que JRRT não traduziu Jó como afirmava um editor. Seu raciocínio – que é muito comprido para reproduzir aqui – convenceu-me (e a outros) a oferecer uma retratação pública pelo engano.

* Ambos livros do Velho Testamento; um contando sobre as súplicas de Jó para Deus (e a resposta dEste) e outro sobre Jonas e a baleia. [N. da T.]

Mas este é o motivo pelo qual não escrevo enciclopédias sobre Tolkien. Eu batalho para usar somente as fontes mais confiáveis e, além de quaisquer enganos que eu cometa de minha parte, serei ocasionalmente forçado a viver com as conseqüências pelo resto de minha vida. Outras pessoas podem achar que vale a pena tentar, e se alguém reclama ou os critica, eles podem dizer “Pelo menos eu tentei”. Talvez, mas tentar não justifica os erros. Nem Christopher Tolkien ou Wayne Hammond (ou outros cujos trabalhos eu respeito) se encolhem em um canto com uma justificativa tão medíocre.

Mas a combinação de erros de estudo que surgem a partir de textos secundários e terciários é tanto sua própria recompensa quanto sua punição. Eu acho mais fácil revisar as obras e fornecer os esclarecimentos. Pelo menos, quando consideradas com as explicações, essas obras tornam-se mais úteis do que se ninguém dissesse nada simplesmente porque “pelo menos eles tentaram”. O Atlas da Terra-Média de Karen Fonstad é, em minha opinião, o melhor de vários livros que procuram documentar a cartografia da Terra-média.

De qualquer maneira, eu não concordo com todas as conclusões dela, e ela comete sérios alocamentos errôneos em alguns dos mapas (ela dá até mesmo duas localizações para Rhosgobel). Em correspondência particular, uma pessoa da família Fonstad (que achou que minha resenha do Atlas foi muito rude e crítica) reclamou que Fonstad esperava publicar uma versão revisada e corrigida do atlas, mas o editor matou a idéia pois eles não queriam mudar um livro obviamente popular (e agora altamente lucrativo).

Desta forma, quando alguém faz o esforço de documentar algo tão complexo e com diversidade cronológica tão ampla e multifacetada como as mitologias de Tolkien, ainda assim não há garantias que as correções serão publicadas. Ou, pior ainda, elas podem ser divulgadas por uma terceira pessoa. Há um velho ditado: escolha com cuidado as batalhas que queira lutar, pois a próxima pode ser sua última. Ou pior, pela minha própria experiência, pode ser uma batalha que nunca terminará.

Vamos dar uma olhada no livro recém publicado de Wayne Hammond e Christina Scull, The Lord of the Rings: A Reader’s Companion. Muitas pessoas estão curiosas em saber do que trata o livro. Eu direi do que não se trata: não é o guia definitivo que responderá cada pergunta já feita pelos leitores de Tolkien. Hammond e Scull não fingem que seu trabalho deva ser tratado desta forma, mas eles parecem cientes da inevitabilidade de ganhar esta distinção particular. Em seu Prefácio, eles convidam as pessoas a partilhar idéias e correções com eles (e reconhecem os esforços feitos por várias pessoas cujos nomes e trabalhos também apreciei).

O Reader’s Companion fornece notas informativas e confiáveis sobre O Senhor dos Anéis. Parece que ele esclarece e explica várias palavras e citações que geralmente são obscuras para o leitor médio. O livro é um guia muito melhor que vários outros que já li ou dei uma olhada, mas não se preocupa muito em resumir os detalhes. Incluindo o glossário, minha edição em brochura tem quase 900 páginas. Os autores confessam que é o dobro do que eles originalmente pretendiam.

Para ajudar os leitores a entender o que repousa além das meras palavras no livro, Hammond e Scull esforçaram-se em uma das mais sérias, considerativas e detalhadas pesquisas que eu vi ser publicada até hoje. A abrangência de seu trabalho vai bem além das observações breves e comuns e de páginas de referência. Alguns tópicos ganharam vários parágrafos de discussões e citações detalhadas. E os pesquisadores tolkienianos ficarão contentes em perceber que vários textos previamente não-publicados são mencionados, e por vezes até são citados. Infelizmente, esses textos propriamente ditos permanecem fora do alcance do público comum, e é minha esperança sincera que, algum dia, alguém tenha permissão de publicá-los com um mínimo de manipulação editorial.

Os editores precisam manipular textos. Sendo eu próprio um autor que já trabalhou com mais de um editor, entendo o processo. Algumas vezes o autor não deixa claro um assunto tão bem quanto poderia. Mas os manuscritos e notas de Tolkien estão sendo usados como fontes de autoridade para alguns dos estudos mais obscuros e intrincados que alguém poderia associar com a Terra-média. A Terra-média em si não possui o mesmo valor na pesquisa formal que a criação da Terra-média, e ainda assim a maioria das pessoas quer saber mais sobre a Terra-média e menos sobre como as coisas surgiram e o que elas podem significar na vida do autor. Há ainda muito a ser compreendido naqueles textos não-publicados que gerações inteiras de estudiosos e comentaristas de Tolkien ainda estão para nascer, gerações que terão coisas para dizer nunca antes expressadas. Não estou certo se a comunidade tolkeniana aprecia completamente a profundidade do legado dele.

Para ser honesto, há alguns tópicos abordados em Reader’s Companion que eu acabei enxergando sob uma nova perspectiva. Eu realmente espero ser necessário cerca de 2 anos para conseguir captar toda a profundidade deste trabalho, não apenas por conta das novas citações e referências, mas também porque eles reescreveram alguns velhos pontos de vista melhor que do eu já vi serem expressos antes. Mas, claro, o novo material fornecerá combustível considerável para reflexão nos anos que virão.

Por exemplo, fiquei surpreso em perceber que “Earendil era um marinheiro” (canção de Bilbo, ouvida em Valfenda, publicada em “Muitos encontros” em A Sociedade Do Anel) nunca apareceu em O Senhor dos Anéis na forma que J. R. R. Tolkien pretendia que aparecesse. Houve tantas edições do livro que presumi (erroneamente) que todos os esforços possíveis foram feitos para tornar cada nova edição fiel aos desejos de Tolkien. Porém, esse não foi o caso.

Não há um texto de SdA publicado que seja completamente fiel às intenções de Tolkien. A versão final do poema está publicada tanto em The Treason of Isengard (pp. 103-104, Houghton Mifflin Co.) e em The Lord of the Rings: a Reader’s Companion, mas não em qualquer edição de O Senhor dos Anéis propriamente dito. Mesmo assim, esse poema é bastante revelador com relação a um considerável número de pequenos detalhes na história de Tolkien e com respeito ao seu estilo de escrita. Por exemplo, uma das mais interessantes estrofes é a seguinte:

In might the Feanorians
that swore the unforgotten oath
brought war into Arvernien
with burning and with broken troth;
and Elwing from her fastness dim
then cast her in the waters wide,
but like a mew was swiftly borne.

Em poder os Feanorianos
que prestaram o juramento jamais esquecido
trouxeram consigo guerra a Arvenien
com fogo e lealdade partida
e Elwing em sua presteza nublada
atirou-se então nos infinitos mares
mas como uma gaivota* prontamente renasceu.

* No original, mew é uma gaivota pequena, conhecida como gaivota parda no Brasil. Nome científico Larus canus, encontrado na Eurásia e América do Norte. [N. da T.]

Há muito mais na estrofe, mas deixe-me interromper em “como uma gaivota” e mostrar minha posição. Qualquer um familiar com a história como contada em O Silmarillion sabe que quando Elwing atirou-se ao mar, Ulmo (um dos Valar) salvou-a da morte certa e transformou-a em um pássaro. E na forma de pássaro ela voou pelos mares e eventualmente encontrou o navio de Earendil (seu marido). Por conta de seu sacrifício, e pela intervenção de Ulmo, Elwing salvou a Silmaril que Beren e Luthien recuperaram da coroa de Morgoth e das garras dos filhos sobreviventes de Feanor.

A decisão de Tolkien de reformar esta parte do poema usando “como uma gaivota” a partir de uma referência mais literal para a transformação pode não parecer significativa para muitas pessoas, mas ainda assim eu não consigo deixar de lembrar da ocasião quando alguém perguntou: Elfos têm asas? A pergunta, creio, está relacionada à clássica “Balrogs têm Asas?”, uma guerra na qual alguns dizem que têm e outros dizem que não. Ao perguntar se os Elfos de Tolkien têm asas, o inquisitivo colega revela quão insignificante é tal debate no estudo da obra de Tolkien. Mas esse assunto avança furiosa e impavidamente, sob os olhares surpresos e comentários que ele extrai das vias secundárias.

Desta forma, “como uma gaivota” me lembra do debate sobre as Asas do Balrog, no qual os argumentos principais são feitos a partir da escolha de Tolkien pela palavra “como”.

O Balrog alcançou a ponte. Gandalf parou no meio do arco, apoiando-se no cajado com a mão esquerda, mas na outra mão brilhava Glamdring, fria e branca. O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas. Levantou o chicote, e as correias zuniram e estalaram. Saía fogo de suas narinas. Mas Gandalf ficou firme. (Extraído de “A ponte de Khazad-dum”, A Sociedade do Anel)

“A sombra à sua volta se espalhou como se duas grandes asas” é normalmente citada como prova de que o Balrog não tinha asas. O argumento sustenta que “como” cria uma similaridade, e similaridades são usadas (no uso mais estrito das palavras) na comparação de uma coisa com outra que não se parece com a primeira, de forma a enfatizar um determinado aspecto. Bem, isso é o máximo de concisão que posso fazer sobre uma explicação sobre a palavra similaridade às 3 horas da madrugada.

Digamos que eu tenha um carro amarelo. Eu poderia dizer que meu carro é amarelo como uma banana. Isto significa que é realmente “amarelo-banana”? Não necessariamente, mas quando você pensar naquela cor em um carro, você visualizará algo parecido com o meu carro amarelo.

O problema com a argumentação de similaridades, no entanto, é que esse argumento assume que “como” é sempre usado como uma similaridade. Se este for o caso, então Tolkien tem um sério problema. Pois, anteriormente no texto, ele escreveu:

Legolas se virou e preparou uma flecha, embora a distância fosse grande demais para seu pequeno arco. Puxou a corda do arco, mas sua mão caiu, e a flecha escorregou para o solo. Ele deu um grito de desespero e medo. Dois grandes trolls apareceram. Traziam grandes lajes que jogaram no chão para servir de passarela por cima do fogo. Mas não foram os trolls que encheram o elfo de medo. A multidão de orcs se abriu, e se amontoou do lado, como se eles próprios estivessem com medo. Alguma coisa vinha atrás. Não se podia ver o que fosse: era como uma grande sombra, no meio da qual havia uma forma escura, talvez humanóide, mas maior; poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor. (Ibid.)

Aqui Tolkien usa “como” para introduzir a similaridade “como uma grande sombra”. Isto é, o Balrog, quando aparece pela primeira vez, é tão escuro que os membros da Sociedade do Anel mal conseguem discernir sua figura da escuridão ao redor. É somente pouco menos escuro que a escuridão que provém do fundo do salão de pedra, caminho por onde ele aproxima-se deles.

Se a regra de similaridade deve ser aplicada de forma justa e consistente, então devemos concluir que não há sombra (ou escuridão) pois ela é somente como uma sombra ou escuridão. E, portanto, se não há tal coisa, então a sombra não-existente não pode ser comparada (via similaridade) a duas enormes asas. Bem, isso é simplesmente absurdo, de modo que as asas devem estar lá. Mas isso não significa que o assunto foi encerrado de forma satisfatória. Porque se são asas, de que tipo elas são?

Quando o Balrog se aproxima, ele salta sobre uma fenda ardente e revela que ele é imune ao fogo quando as chamas saltam para engolfá-lo. De fato, a presença do Balrog diminui a luz do fogo:

A figura veio para a extremidade do fogo e a luz se apagou, como se uma nuvem tivesse coberto tudo. Então, com um movimento rápido, pulou por sobre a fissura. As chamas bramiram para saudá-la, e se ergueram à sua volta; uma nuvem negra rodopiou subindo no ar. A cabeleira esvoaçante se incendiou, fulgurando. Na mão direita carregava uma espada como uma língua de fogo cortante; na mão esquerda trazia um chicote de muitas correias. (Ibid.)

Sombra é a ausência de luz em uma área que está cercada de luz. Quando você traz uma luz para perto de uma área que está “envolta em sombra”, as sombras fugirão da nova fonte de luz, e elas podem até desaparecer completamente. E ainda assim, quando esse Balrog que é “como uma grande sombra” aproxima-se das chamas claramente visíveis, a luz do fogo é enfraquecida em vez de fazer a escuridão retirar-se como faria uma sombra normal. Assim, mesmo que Tolkien claramente utilize a palavra “sombra” ao referir-se à escuridão que o acompanha e é aparentemente uma estensão ou uma emanação do Balrog, ele não está falando de uma sombra normal que é criada por algo que bloqueia a luz.

As pessoas que discordam dos Balrogs alados insistem que se ele realmente tivesse asas, o Balrog poderia voar. O problema com esse argumento é que ele assume primeiro que Balrogs alados possam voar, segundo que se eles podem voar então devem usar suas asas, terceiro que havia espaço para o Balrog voar e quarto que há algum lugar para onde voar. De fato, as hipóteses podem se estender consideravelmente. Nenhuma dessas hipóteses surgiu do texto, veja bem. Elas são simplesmente objeções falsas, nascidas na forma de reformulação da história como deveria ser escrita de acordo com um padrão arbitrário de correção, convenientemente arranjado de forma a não permitir a possibilidade de que as asas dos Balrogs sejam, em qualquer sentido da palavra, reais.

Na verdade, uma outra hipótese é de que as asas devam ser asas palpáveis. Isto é, as pessoas parecem pensar que se Tolkien realmente quis dizer que a Sociedade viu “asas” no Balrog, então essas asas devessem ser uma parte física de seu corpo. Essa objeção é a mais descabida, considerando-se o fato que o Balrog bufa chamas, que sua “cabeleira” pega fogo (ainda assim insistem que essa cabeleira é de cabelo ou algo parecido?) e que ele leva um bom tempo para chegar ao fundo do abismo na sua queda. Quanto tempo é “muito tempo”? Tolkien não diz. Mas se é uma distância medida em milhas ou só em milhares de pés, um homem não cairia por “um longo tempo”. Gandalf diz a Aragorn, Legolas e Gimli que ele e o Balrog caíram por muito tempo antes de atingir a água, e enquanto caíam Gandalf golpeara o Balrog com sua espada.

É interessante notar que as pessoas não perguntam se Balrogs sangram. Não seria normal uma criatura viva gritar em agonia e sangrar um bocado se alguém a estivesse golpeando com uma espada Élfica? Então por que Gandalf não mencionou que o Balrog estava sangrando, ou qualquer outra menção da reação do corpo do Balrog com o impacto de sua espada?

Por outro lado, as pessoas insistem que o Balrog morto ou agonizante poderia se salvar quando Gandalf o lançou do topo da montanha, onde “bateu-se contra as paredes da montanha em sua ruína”. Mas elas não parecem ter problemas com Smaug nem com Ancalagon, o Negro, ambos indubitavelmente dragões alados e voadores, que foram incapazes de salvarem a si próprios quando se bateram contra montanhas e lagos em suas ruínas. Parece meio injusto que o Balrog tenha de provar que é realmente capaz de voar no momento de sua morte. Não que a habilidade de voar ou de atenuar sua queda no ar deva necessariamente depender de asas para uma criatura que já tem toneladas de rochas caindo na cabeça (por Gandalf, na Câmara de Mazarbul, quando o Balrog tenta seguir a Sociedade pela porta que eles usaram como rota de fuga).

Dizer que uma coisa dessas é um argumento baseado em semântica é inexato e bastante equivocado. É um argumento baseado em preferências pessoais e exclusões arbitrárias. As longas discussões sobre Balrogs e suas asas (ou a ausência delas) alcançou uma variedade enorme de textos, inclusive O Silmarillion. Infelizmente, devido ao trabalho editorial de Christopher, O Silmarillion (confessando isso pessoalmente) não retrata de forma acurada os textos originais de seu pai, ou suas intenções. Uma passagem em particular que foi apontada por ambos os lados é freqüentemente mencionada como sendo a “passagem de Hithlum”. É o parágrafo no qual os Balrogs vêm em auxílio de Morgoth quando este está lutando contra Ungoliant:

…Nas profundezas de lugares esquecidos, aquele grito foi ouvido. Muito abaixo dos salões destruídos de Angband, em subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, Balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retorno de seu Senhor. E agora, velozes, eles se ergueram e, passando por Hithlum, chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas… (O Silmarillion, “Da fuga dos Noldor”, p. 81, HMCo)

Não há menção de asas neste texto, mas uma versão anterior do texto incluía as palavras “com velocidade alada”:

Mas o grito de Morgoth naquele momento foi o maior e mais terrível que já fora ouvido no norte do mundo: as montanhas agitaram-se e a terra tremeu, e as rochas foram partidas em pedaços. Nos mais profundos e esquecidos recessos ouviu-se aquele grito. Muito abaixo dos salões de Angband, nos subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, os Balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retorno de seu senhor. Velozes eles se ergueram e com velocidade alada passaram por sobre Hithlum, e chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas. (“The Later Quenta Silmarillion II”, Morgoth’s Ring)

A “velocidade alada”, no entanto, não é realmente a pista para o modo de viagem dos Balrogs. A passagem acima foi retirada de um texto datado por Christopher Tolkien como sendo de meados da década de 1950. É um texto pós-SdA, apesar de conter uma história longa e de tons variados, visto que foi baseada em uma cópia datilografada de um texto pré-SdA. JRRT escreveu várias notas e mudanças à mão naquela cópia. Na versão original (publicada em The Lost Road and Other Writings), os Balrogs somente apareciam: “Em seu auxílio vieram os Balrogs que viviam ainda nos recessos mais profundos de sua antiga fortaleza ao norte, Utumno. Com seus chicotes de chamas, os Balrogs destruíram as teias…”

Tecnicamente, os Balrogs pré-SdA viajavam grandes distâncias, mas eles não eram seres flamejantes. Isto é, eles não se tornaram criaturas de “chamas e sombras” até 1940 ou 1941, quando Tolkien revisou “A Ponte de Khazad-dum”, abandonando o Balrog original de braços longos pela versão sombria e flamejante que ameaça a Sociedade. Christopher Tolkien já discutiu as datas do desenvolvimento deste capítulo em The Treason of Isengard, para aqueles que queiram verificar minhas justificativas.

Por que os Balrogs chegam numa “tempestade de chamas” em Lammoth? Uma tempestade é uma tormenta, e tormentas vêm naturalmente do céu. O argumento de similaridade implica que os Balrogs vieram voando, com ou sem asas. Então será que o Balrog de Moria voava naquela hora? Não sabemos. Mas sabemos que demorou um bom tempo para chegar no fundo do precipício. É possível que o Balrog pudesse retardar sua queda. Ele não teria de depender do agitar de asas, se seu corpo fosse não-substancial de alguma forma. Ou talvez ele somente manuseou o calor e usou-o como uma espécie de propulsão de foguete natural. Tolkien não insiste nos detalhes da Longa Queda, mas ele fornece algumas pistas que podem ou não nos conduzir na direção correta de seus pensamentos.

Porém, o Balrog claramente não é uma criatura de carne e osso. Nenhuma criatura desse tipo pode sobreviver sendo consumido pelo fogo, uma vez que as chamas iriam saltar para sua cabeleira e incendiá-la. E é quase certo que este Balrog queima:

A figura escura, envolvida em fogo, corria em direção a eles. Os orcs gritavam e avançavam para a passarela de pedra. Então Boromir levantou sua corneta e a tocou. Forte o desafio soou e retumbou, como o grito de muitas gargantas sob o teto cavernoso. Por um momento os orcs estremeceram e a sombra flamejante parou. Então os ecos se extinguiram de repente como uma chama apagada por um vendaval, e o inimigo avançou outra vez (Extraído de “A ponte de Khazad-dum”, A Sociedade do Anel)

Observe como Tolkien descreveu o Balrog neste ponto de seu avanço contra a Sociedade: “sombra flamejante”. O que quer que seja, não está simplesmente projetando uma sombra. Não é possível ele ser capaz de projetar uma sombra, uma vez que está em chamas. Portanto, o que é esta escuridão que Tolkien chama de “sombra”?

Quando o Balrog enfrenta Gandalf na ponte, Tolkien escreve:

– Você não pode passar – disse ele. Os orcs estavam quietos, e fez-se um silêncio mortal. – Sou um servidor do Fogo Secreto, que controla a chama de Anor. Você não pode passar. O fogo negro não vai lhe ajudar em nada, chama de Udun. Volte para a Sombra! Não pode passar!

O Balrog não fez sinal de resposta. O fogo pareceu se extinguir, mas a escuridão aumentou. Avançou devagar para a ponte, e de repente saltou a uma enorme altura, e suas asas se abriram de parede a parede, mas ainda se podia ver Gandalf, brilhando na escuridão; parecia pequeno, e totalmente sozinho: uma figura cinzenta e curvada, como uma árvore encolhida perante o início de uma tempestade. (Ibid.)

Bem, agora que as chamas diminuem, certamente se espera que a escuridão aumente… exceto pelo fato que agora o Balrog está bem em frente de Gandalf, cujo cajado emite luz (ou melhor, ele próprio está iluminado, pois está “brilhando na escuridão”). E há ainda o precipício em chamas atrás dele, então se esperaria que a Sociedade estivesse pisando na sombra do Balrog, e não a vendo.

Gandalf fala sobre o “fogo negro”, dizendo que ele não ajudará o Balrog, e chama este de “chama de Udun”. Essa criatura está claramente associada ao fogo, e ainda assim sua escuridão sobrepuja qualquer luz natural e quase oblitera a luz angelical de Gandalf.

Desta forma, tratar a escuridão do Balrog como sendo uma sombra real e natural qualquer é um absurdo tão grande quanto insistir que as “asas” (aquelas extensões da escuridão que parecem ter forma de asas) devam ser asas físicas e passíveis de serem utilizadas, ou mesmo asas que tenham qualquer capacidade de erguer e sustentar o Balrog num vôo. Se nos afastarmos da cena por um momento e a reduzirmos a uma linguagem corporal simples, poderemos ver que o Balrog gradualmente aumenta a si mesmo de tamanho, expandindo sua escuridão exterior (que chamei de emanação, mas não sabemos realmente o que é) para fora e além de seu corpo.

A Sociedade recua perante o Balrog, mas em determinado momento Boromir detém-se e sopra sua corneta. O som é tão intimidador que mesmo o Balrog hesita. E assim Boromir começa uma variação das brigas que ocorrem geralmente em pátios escolares. A resposta do Balrog é tornar a avançar, agora com uma nuvem completamente estendida de escuridão, com tal poder dominante que quase engolfa Gandalf na ponte. A despeito do fogo por trás dele, e a despeito da luz emanando de Gandalf diante dele, o Balrog cria e estende uma parede de escuridão que se torna o foco da atenção de todos, mesmo que por um breve momento.

Sombras naturais não funcionam dessa forma.

Muitos anos atrás, quando a ansiedade pelo filme de Peter Jackson nos matava, a Batalha sobre as Asas de Balrog atingiu seu ápice. Apenas a título de curiosidade, organizei uma enquete para ver quantas pessoas achavam que os Balrogs deviam ter asas. Dentre as mais de 3 mil respostas, cerca de 74% disseram que o Balrog devia ter algum tipo de asas. Não havia no entanto consenso sobre que tipo de asas elas deviam ser. O Balrog do filme, como vimos, tinha asas de “fumaça e sombra” e talvez mais fumaça que outra coisa. Eu acho que a fumaça foi colocada para cobrir a sensação de escuridão com a qual o Balrog do livro se cercou.

Porém, este assunto é discutido com tanta freqüência – de uma forma ou de outra – que vários fóruns hoje proíbem as discussões sobre asas de Balrog. As pessoas que levantam o tópico são tratadas com desdém na esperança que o assunto morra. Afinal de contas, como disse Rudyard Kipling “O Leste fica a leste e Oeste fica a oeste, e nunca os dois encontrar-se-ão”. As pessoas simplesmente se recusam a mudar de idéia.

Portanto, talvez não devêssemos ficar muito surpresos ao ver o assunto tratado, por mais breve que seja, em The Lord of the Rings: a Reader’s Companion, onde três frases completas são dedicadas ao assunto:

330 (I:344). a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas – esta e a declaração de dois parágrafos depois, sobre ele saltar a uma enorme altura e suas asas se abrirem de parede a parede, conduziu a várias discussões entre os leitores sobre se os Balrogs possuem asas. Como duas grandes asas no primeiro parágrafo descreve a sombra que envolve o Balrog, e o segundo ainda parece aplicável a sua sombra: à medida que o Balrog aumenta de estatura, assim também sua sombra espalha-se ainda mais. Outras evidências citadas para asas, tais como as que o os Balrogs erguem-se e passam com velocidade alada por sobre Hithlum (Morgoth’s Ring, p. 297,) podem ser geralmente interpretadas de forma figurativa.

Bem, há dois erros nesta passagem. Primeiro, a declaração que “à medida que o Balrog aumenta de estatura, assim também sua sombra espalha-se ainda mais” é inconsistente tanto com a declaração prévia feita por Hammond e Scull (onde eles reconhecem que “o Balrog em O Senhor dos Anéis é certamente um ser de fogo e escuridão;…”) e com a primeira passagem na qual “como duas grandes asas” surge. O Balrog não aumenta sua estatura ali, mas mesmo assim a sombra claramente se estende para o exterior. E segundo, como eu observei acima, a passagem de Hithlum não depende da “velocidade alada” para mostrar que os Balrogs possuem asas, depende da “tempestade de chamas” para mostrar que eles vêm do céu (na versão pós-SdA dos eventos).

Tolkien usa “tempestade de chamas” somente em uma outra passagem (publicada), quando Morgoth libera os dragões alados (e voadores) contra as Hostes de Valinor. Os dragões claramente voam e cospem fogo, assim a comparação com tempestade é bem colocada. Foi observado que “velocidade alada” é usada para descrever a presteza com que Fingolfin cavalgou por Ard-Galen depois da Dagor Bragollach. Desta forma, “velocidade alada” não precisa significar o uso de asas, mas só porque foi usada de forma figurativa sobre a velocidade dos cavalos (para denotar velocidade em sentido metafórico) não significa que é usada somente daquela forma com relação aos Balrogs – a não ser que alguém se sinta tentado a argumentar que Balrogs são “como cavalos” de alguma maneira.

O uso da similaridade por Tolkien para ilustrar uma transição de idéias vagas para idéias mais claras foi engenhoso no sentido de que deixa muito para a imaginação do leitor. Ele certamente dedicou algum tempo e esforço a essa passagem. Em 1998, outra pessoa que acreditava firmemente que Balrogs não tinham e nunca deveriam ter asas, recorreu para a voz com a maior autoridade neste assunto. Ele escreveu para Christopher Tolkien e fez uma pergunta que, até hoje, não foi revelada (para mim). Deduzi a partir do que ele compartilhou abertamente da resposta de Christopher que ele não perguntou simplesmente se Balrogs deviam ou não deviam ser vistos como seres alados. A carta foi enviada após uma longa troca de correspondência a respeito de diversas mudanças textuais que Christopher havia discutido em detalhe em The Treason of Isengard. A resposta de Christopher, como informado pelo correspondente, foi:

Geralmente não me era enviado o material tardio de Markette (sic) – os textos datilografados por meu pai – e em muitos casos nem sequer os vi… Assim, nunca li o texto datilografado final (o seguinte à cópia passada a limpo do manuscrito C (The Treason of Isengard, pp 203-33) de A Ponte de Khazad-dum (Markette n.º 3/3/25). Presumo que foi aí onde entrou a menção das asas do Balrog que se abriam de parede a parede. Você poderia pedir a Chuck Elston, o muito solícito arquivista de Markette, que lhe procure o 3/3/
25. Contudo, provavelmente não lhe seria muito útil, sem nenhum conhecimento preciso de quando meu pai datilografou-o: mas em uma carta de 28 de fevereiro de 1949, ele escreveu: “Estou achando o trabalho de datilografar uma cópia passada a limpo do ‘Senhor dos Anéis’ m. grande”. Eu, pessoalmente, nunca achei que a segunda menção das asas do Balrog tenha nenhum significado diferente da primeira.

Assim, aqui você tem uma resposta de uma autoridade maior que Michael Martinez ou Wayne Hammond ou Christina Scull. Faça dela o que achar melhor.

Compre The Lord of the Rings: A Reader’s Companion para sua coleção, especialmente se você faz qualquer tipo de pesquisa sobre Tolkien (para si mesmo ou para outros). É de longe uma fonte  muito melhor que muitas outras que há por aí nas livrarias ou na Internet. Apenas pule as partes que você não gostar.

Os comerciantes da Terra-média

Os comerciantes da Terra-média
 
Por Michael Martinez

De vez em quando alguém pergunta que moeda era usada na Terra-média. É
difícil de encontrar evidência de moeda (dinheiro) em O Senhor dos
Anéis, mas existem sim algumas referências sobre isso. Quando Gandalf
chegou à Vila dos Hobbits com uma carroça com fogos de artifício para o
último aniversário de Bilbo e Frodo juntos, crianças hobbits o seguiram
até Bolsão esperando por uma apresentação do mago. Ao invés disto,
Bilbo atira para elas alguns centavos e as manda embora. Mestre Gamgi
também relata que Bilbo é esbanjador em se tratando de dinheiro
enquanto fala com os amigos.

 
 
 

Tolkien chega a dizer no capítulo “Three Is Company”, que em português
é “Três não é demais”, que Frodo compra uma casa em “Cricôncavo” no
campo além de Buqueburgo. Frodo, mais tarde, vende Bolsão para a
família Sacola-Bolseiro, os inoportunos primos que há tempos esperavam
herdar a fortuna de Bilbo e a casa antes dele adotar Frodo.

A moeda aparece novamente quando os cavalos e pôneis são roubados do
estaleiro em Bri. Carrapicho paga a Merry 18 moedas de prata para
compensá-lo pela perda dos pôneis dos Hobbits e compra um pônei de Bill
Samambaia por outras 12 moedas de prata, 3 vezes o que o pônei valia
naquelas partes. Depois deste ponto, os Hobbits e seus companheiros,
depois que estes se juntam, são providos de suprimentos e transporte
pelas várias pessoas que os ajudam pelo caminho, logo a citação de
moeda se torna por demais superficial pelo resto da história.

“Pennies” ou moedas, são unidades surgidas no oitavo século
Anglo-Saxão, cunhadas e modeladas na contemporaneidade, mas rejeitadas
mais tarde pelos Francos. Offa, Rei da Mércia, expandiu a produção de
“penny” depois de conquistar o reino de Kent, o qual começou a cunhar a
moeda por volta de 765. As primeiras “pennies” foram, deste modo,
distintas das “pennies” de hoje. Elas eram feitas de prata e foram as
principais moedas do reino Anglo-Saxão do século VIII em diante, assim
como a “solidus” (moeda romana de ouro) tinha sido a principal moeda do
império Romano séculos antes. “Pennies” substituíram uma velha moeda,
chamada “sceat”, a qual foi usada no comércio entre os anglo-saxônicos
e os escandinavos.

A prévia publicação de “O Senhor dos Anéis” foi forçada a resumir o
extensivo material que ele havia preparado para os apêndices. Dentre as
passagens excluídas, a qual foi somente publicada no “The peoples of
Middle-earth” de forma breve, mas fascinante seção detalhando os nomes
do dinheiro usado em Gondor. O “tharni”, que nós sabemos, era a moeda
de prata, a quarta parte de um “castar”. O “tharni” pode, deste modo,
ter sido equivalente as moedas de prata (silver pennies) de Eriador.

O equivalente élfico para “tharni” e “castar” eram “canath” (do kanat-,
‘four’) e “mirian” (do mir, ‘uma jóia ou preciosidade’). "The
Etymologies" fornece a palavra primitiva, “mbakh”, significando
‘troca’, pela qual as palavras para ‘comércio’ e ‘comerciante’ são
derivadas no Qenya (precursor do Quenya). Existiam também palavras para
‘mascate’ e ‘mercadoria’ em Sindarin.

O fato das línguas antigas da Terra média reconhecer palavras como
‘comércio’ e ‘comerciante’ dá a entender que Tolkien chegou a pensar
nas atividades econômicas no começo, entre Elfos e Anões, entretanto
ele não providenciou detalhes destas atividades. Nós não sabemos na
verdade se ‘moedas’ eram usadas em Beleriand, por exemplo, mas Círdan
segundo boatos comercializou ou deu pérolas para Thingol, quem
abastecia destas os anões de Ered Luin.

Os anões construíram estradas ‘do começo ao fim’ da Terra-média no
início desta história. Os anões de Ered Luin construíram uma ou duas
estradas levando a Doriath, e a rota, eventualmente, estendia por todo
caminho para Nargothrond (a qual eles ajudaram a erguer). O comércio
anão passava pelo Dor Caranthir, e Caranthir é dito que se tornou rico
por este. Então ele presumivelmente cobrou encargos de algum caráter em
troca de manter as rotas a salvo e em segurança. Ele pode também ter
suprido os anões com comida, no “The people of Middle-earth” é contado
a nós que os anões não cultivam a sua própria comida.

Os anões só ajudaram a construir duas cidades em Beleriand que nós
saibamos: Menegroth e Nargothrond. Os Noldor tinham seus próprios
pedreiros para contar e eles presumivelmente construíram suas torres de
pedra sem a ajuda anã. Entretanto Anões e Noldor trocavam conhecimentos
e forjavam produtos, ao que parece. O potencial do comércio é neste
caso considerável, pelo menos mais ao leste de Beleriand.

Fora de Beleriand os anões tinham um sistema de estradas se estendendo
pelo menos de Ered Luin a todo o caminho para as Colinas de Ferro e
aparentemente mais longe. Os anões, como parece, se comprometeram de
certo modo com o comércio com elfos Avari e Nandorin, bem como os
Edain, mas nós não sabemos se a moeda era um meio de troca ou se a
troca de mercadorias e serviços eram os primeiros sinônimos de comércio.

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Na segunda era, a civilização Eldar se difundiu de Lindon (o último
refúgio de Beleriand), do leste e sul para Eregion e Edhellond.
Edhellond era apenas um assentamento, um território de Sindarin e
Nandorin, que aparentemente desejavam permanecer isolados de Gil-Galad
e seus Noldor que dominavam um reino no norte. Eregion era considerado
parte do reino Noldor, mas a sua população incluía pelo menos alguns
Sindarin e/ou Nandorin.

Eregion também estava envolvida em alguma espécie de comércio com
Khazad-dûm, a qual o comércio era tão produtivo que os anões escavaram
um túnel por milhas através das Montanhas Nebulosas na disposição de
prover os elfos com uma ponte para o seu reino subterrâneo. Antes deste
tempo, os anões tinham de passar externamente as montanhas, também ou
pelo Passo do Chifre Vermelho (a qual deu a eles acesso a Eregion) ou
indo ao norte para o Passo Alto onde a estrada primitiva atravessava
Eriador passando perto de onde Elrond mais tarde fundou o refúgio de
Valfenda.

Entretanto parece ter sido virtualmente pequeno ou nulo o comércio
entre Beleriand e as terras mais ao leste na primeira era, a segunda
era se realizou um incremento em Eriador e nas Terras Ermas. Duas
imigrações, do leste, ocorreram no início da Segunda Era, o que trouxe
contato mais próximo de Khazad-dûm com a civilização de Beleriand. A
primeira migração (grande êxodo) foi a dos anões de Ered Luin no
primeiro século. As cidades mais antigas de Nogrod e Belegost foram
arruinadas na Guerra da Ira. Os anões de Belegost também pareceram ter
sido perturbados pela guerra entre Doriath e Nogrod. Conseqüentemente,
muitos deles partiram e foram para Khazad-dûm, aonde eles aumentaram a
população e infundiram no povo de Durin o conhecimento que eles
ganharam com os Noldor e Sindar.

A segunda migração foi dos elfos, quando muitos Noldor e Sindarin
passaram para o leste. Alguns dos Sindar passaram as montanhas e
organizaram reinos em meio a elfos da floresta nos Vales do Anduin
(pelo menos dois, possivelmente mais). Estes elfos que fundaram Eregion
criaram um centro de comércio, o qual atraiu até mesmo os númenorianos
a estabelecer uma espécie de porto ou colônia perto “Tharbad” no rio
“Gwathlo”. Entretanto nós não podemos saber com certeza, o quanto
extensiva era a influencia de Eregion, a região estava em uma posição
de comércio com os homens de Eriador, os elfos de Lindon e os Vales do
Anduin, os anões de Ered Luin das Montanhas Nebulosas, e Númenor.

Tudo isto chega a um fim, de qualquer modo, na guerra dos elfos e de
Sauron. Eriador e as Terras Ermas foram devastadas e muitos da
população local foram mortos ou partiram. A grande civilização élfica
foi não foi destruída, mas virtualmente se dirigiram de volta ao mar,
salvos por poucas terras que sobreviveram em vales e nas profundezas
das florestas. A guerra criou uma economia e política nula, a qual os
númenorianos subseqüentemente ocuparam, substituindo a velha cultura
élfica de tal modo que pelo fim da era, Adunaico, a língua nativa de
Númenor, deu espaço ao Westron, o qual substituiu o Sindarin como
língua comum para o noroeste da Terra-média.

Os númenorianos estabeleceram colônias por toda parte da Terra-média e
eles começaram a se acomodar largamente em Eriador bem como ao longo as
margens do sul do Anduin. As duas grandes cidades deles no mundo do
norte eram Lond Daer Ened na boca de Gwathlo e Pelargir na boca do
Anduin. Mas novamente Tolkien não nos fala de comércio que os
númenorianos devem ter conduzido nestas regiões. Lond Daer foi
originalmente fundada como um porto sazonal de Aldarion entre o século
VIII e IX. Ele usou isso como base para “armazenar”, “cultivar” árvores
com as quais se construíam navios e ele não parece ter compensado os
habitantes nativos (os “Gwathuirim”, parentes distantes dos
númenorianos) de modo algum.

O nome Pelargir implica que o local era um porto real e uma
fortificação, ‘royal garth of ships’*. Pelargir pode ter servido como
uma base de operações para os Númenorianos nas guerras que se seguiram
contra Sauron, porém eles nunca montaram uma grande expedição contra
Mordor partindo dali. Ao contrário, o local parece ter servido para
manter protegidos os colonos que moravam ao longo da costa do Anduin, e
os navios de Pelargir deviam estar mais envolvidos em assegurar as
terras costeiras aonde “os Gwathuirim” viviam.

* “jardim real de navios”.

O vasto Império de Númenor parece ter desenvolvido um comércio que
beneficiou a ‘terra-mãe’, assim como o Império colonial britânico
beneficiou a metrópole nos séculos XVII e XVIII. A riqueza teve um
fluxo para Númenor maior que o de Númenor para suas colônias. Assim as
colônias proviam matéria-prima, escravos e tributos aos Númenorianos,
exceto quando, ocasionalmente, algum aventureiro estabelecia algum
pequeno reino.

Então o comércio no Noroeste da Terra-média provavelmente estava
fechado do tempo da Guerra dos Elfos contra Sauron ao tempo de fundação
de Arnor e Gondor. A chegada de Elendil e os Exilados Fiéis de Númenor
seria precedida por um gradual aumento de colonos Fiéis que dependeram
menos e menos da ajuda de Númenor e mais da ajuda de Elfos e Anões.
Comércio e troca deviam ter revivido um tanto, especialmente depois que
Ar-Pharazôn tomou Sauron para Númenor e reduziu a influência do Senhor
do Escuro na Terra-média o suficiente para permitir que Gil-Galad
estendesse a sua própria influência a leste e aos Vales do Anduin.
Elendil, deste modo, encontrou uma grande e produtiva população
esperando por ele e seus filhos em Eriador e nos Vales do Anduin
localizados mais ao sul. Estas pessoas, Númenorianos, Edain, e homens
de linhagem mista, começaram a trabalhar construindo grandes cidades
(Annuminas e Fornost Erain no Norte, Minas Anor, Minas Ithil e Osgliath
no sul), imponentes fortalezas (Angrenost e Aglarond em Calenardhon), e
ricos e poderosos reinos. Nos primeiros anos Arnor e Gondor se
comunicavam principalmente por navios (não considerando as mensagens
passadas através dos Palantíri). Navios deixavam Pelargir ou Osgliath e
navegavam norte para o Rio Gwathlo, aonde eles passavam rio acima para
Tharbad (Lond Daer Ened estava aparentemente por agora destruída ou a
muito abandonada).

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Ambos os reinos tiveram extensivas fazendas com as quais alimentavam
suas populações, mas se Arnor tivesse se empreitado a alimentar os
Anões das Montanhas das Névoas, Gondor poderia ter encontrado algum
benefício em mandar comida para o Norte também. Claro, comércio
incluiria também itens de luxo como peles, jóias, metais preciosos,
vinhos, e tecidos especiais, tintas, e perfumes. Uma economia provida
de dinheiro provavelmente existiu previamente a fundação do reino no
exílio dos Dúnedain.

A grande riqueza que os exilados acumularam nos seus primeiros 110 anos
ajudam a explicar como Elendil e seus filhos puderam construir um
grande exército. Exércitos precisam ser pagos, equipados, e supridos, e
somente uma economia forte poderia ter suportado as imensas forças que
Elendil e seus aliados reuniram para os 10-12 anos de guerra que eles
experimentaram.

No tardar da Segunda Era, Arnor e Gondor estavam provavelmente isoladas
do resto Númenoriano da Terra-média. As terras mais ao sul controladas
pelos Reis Homens, os quais se tornaram os Númenorianos-Negros,
apoiadores ou Sauron e tradicionais inimigos dos Fiéis. Gondor, dessa
forma, teria sido uma parceira mais jovem nas relações econômicas entre
os Dúnedain Fiéis e seus aliados. Mas depois que Sauron estava
derrotado e Isildur estava perdido nos Vales do Anduin, Gondor foi
levada pela corrente para longe da esfera de influencia de Arnor. Como
Arnor decaiu em população, riqueza e poder, Gondor estendeu suas
fronteiras ao norte, leste e sul, entrando em contato com populações as
quais tinham estado fora da influência de Gil-Galad.

A mudança para fora de Arnor na política de Gondor deve ter ferido a
economia do Reino do Norte. Com o declínio de Lindon como uma das
principais forças, Arnor tinha apenas os Anões para negociar, e Tolkien
não conta para nós nada sobre suas relações na Terceira Era. O influxo
dos Hobbits, no início do segundo milênio, indubitavelmente trouxe nova
riqueza para os reinos de Rhudaur e Cardolan, mas eles não poderiam
reabilitar os Dúnedain do norte à sua forma e poder.

A situação em Eriador deve ter sido muito confusa por vários séculos.
Com três reinos Dúnedain, havia provavelmente três cunhagens. Será que
Elfos e Anões também cunhavam suas própria moedas? Disparidades em
recursos e a constante briga e hostilidade entre os reinos Dúnedain
teriam, mais adiante, enfraquecido a economia do norte. Mercadores
Anões provavelmente passavam com impunidade através de Eriador. Elfos
provavelmente não eram perturbados também. Mas o povo de Círdan e os
remanescentes do reino de Gil-Galad estavam diminuindo. Esperanças para
o comércio teriam sido limitadas. Os Anões ainda precisavam de comida,
os Dúnedain ainda precisavam minérios e talvez pedras para construção.

O crescimento do reino de Angmar ao norte teria, realmente, ajudado a
estabilizar a situação entre os Dúnedain de algumas maneiras. Rhudaur
foi destruída cedo e Cardolan tão enfraquecida se tornou virtualmente
reintegrada dentro do reino de Arnor (Arthedain). A influencia de
Arthedain, deste modo, cresceu com a intervenção de Lindon e Valfenda
(Elrond até alistou ajuda de Lothlorien nas guerras contra Angmar). Uma
única cunhagem Dúnedain teria sido, assim, restaurada para o norte e é
duvidável que Eriador, em algum tempo, tenha tido uma cunhagem diversa
de novo. Por conseguinte, as “pennies” que Bilbo e Carrapicho deram
eram provavelmente equivalentes em valor e forma.

De 1409 para diante, a economia de Eriador teria sido dominada por três
regiões: Fornost Erain, no sul, fim das Colinas do Norte; Bri, no
cruzamento das grandes estradas; e Tharbad no cruzamento do rio
Gwathlo. Tharbad estava em sério declínio, já que foi originariamente
um forte e um centro de comércio para os Dúnedain. A economia e os
interesses políticos de Gondor no norte estavam nesse tempo em declínio
e a última guarnição militar Gondoriana foi extraída de Tharbad depois
da Grande Peste de 1636.

O grande influxo dos Grados às Terras Pardas por volta de 1300, o que
beneficiou Tharbad economicamente, foi contrabalançado pela morte da
população desses na Grande Peste. Os únicos Grados, que sobreviveram no
Oeste das Montanhas Sombrias daquele tempo em diante, eram aqueles que
haviam recentemente migrado fundado o Condado além do rio Brandevim. A
Peste também exterminou a maioria da população de Cardolan e o
organizado assentamento efetivamente rumou para um fim entre Tharbad e
Bri. Tharbad foi, deste modo, isolada do resto de Eriador e sua
população provavelmente nunca se recuperou totalmente dos efeitos da
Grande Peste.

Arnor sobreviveu outros 338 anos, mas sua população diminuiu. O
Condado, Bri, Fornost Erain, e Tharbad eram as únicas regiões
produtivas que restavam. Fornost e o Condado foram ambas dominadas na
invasão final lançada por Angmar. O Condado foi posto em ordem, mas
Fornost estava finalmente abandonada pelos Dúnedain que provavelmente
escaparam para as profundezas das Colinas do Norte.

Pelo resto da Terceira Era, a atividade econômica de Eriador avançou
com dificuldade. Poucos viajantes passavam por Bri e o Condado, mas não
havia mais uma fundação para suportar um comércio significante. O
Condado aparentemente continuou a suprir comida para os Anões de Ered
Luin, que incharam em número depois que a civilização de Khazad-dûm foi
destruída pelo Balrog em 1980-1. Bri permaneceu como um importante
ponto de parada em uma jornada através de Eriador, mas não era mais
vital às necessidades do reino do norte. Então a pergunta quanto a quem
cunhava o dinheiro que apareceu é pertinente.

Provavelmente os Anões de Ered Luin proviam o dinheiro para Eriador.
Eles teriam precisado dele para pagar a comida comprada do Condado e
isso teria beneficiado Bri a respeitar o seu uso também. Se os Elfos de
Lindon e Imladris faziam uso do dinheiro então faria lógica para eles
usar a moeda anã também.

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O Condado expandiu um pouco no vigésimo quarto século da Terceira Era,
quando o Velho Brandebuque fundou a Terra dos Buques, “na prática um
pequeno e independente país” como Tolkien descreveu. Não é claro porque
o Velho Buque sentiu a necessidade de fundar uma nova terra além do rio
Brandevim, mas é concebível que a influencia e autoridade do Thain
estava nesse período declinando. Quando ficou claro que os Dúnedain não
restabeleceriam o reino do norte, os chefes do Condado elegeram Bucca
do Pântano para ser seu Thain, essencialmente para ser um rei local.
Mas os Thain, apesar da hereditariedade, tinham pouco poder no final da
Terceira Era.

Então o Velho Buque pode ter desejado estabelecer uma terra aonde ele
teria uma autoridade maior que no Condado. O efeito desta colonização,
de qualquer forma, foi um rejuvenescimento da atividade entre os
Hobbits do Condado e os Hobbits de Bri. Os Brandebuques comercializavam
com ambos, Condado e Bri.

330 anos mais tarde, Tobold Corneteiro revolucionou a economia da
Quarta Sul plantando a erva-de-fumo. Entretanto os habitantes de Bri
foram os primeiros a fumar a folha, a Quarta Sul eventualmente se
tornou a primeira origem deste item de luxo e sua reputação se estendeu
a Isengard e provavelmente além. Anões pegaram o hábito do fumo dos
Hobbits, e eles podem ter comprado suprimentos para enviar a parentes
em terras distantes.

É, deste modo, evidente que o Condado estabeleceu uma pequena, mas
prospera economia mercante com Bri, Terra dos Buques, os Anões de Ered
Luin, e provavelmente Tharbad e Terras Pardas. Comércio com o sul
provavelmente caiu em silêncio, estagnou-se depois que Tharbad foi
abandonada no trigésimo século, mas Saruman parece ter desenvolvido uma
forte conexão com os Sacola-Bolseiros por volta de 3000 em diante.

A influência de Bri decaiu firmemente durante todo o fim da Terceira
Era, mas parece que os Dúnedain de Eriador usavam Bri como um centro de
operações. Eles podiam comprar suprimentos lá e recolher notícias assim
como organizar as atividades de seus Guardiões, as quais parecem ter
focalizado em proteger Bri, o Condado e a Terra dos Buques, e seus
próprios lares. Em “No Pônei Saltitante” Tolkien escreve que os
Guardiões viviam a leste de Bri, e a menção de Cevado Carrapicho a
Frodo: “não dá para explicar o leste e o oeste, como dizemos aqui em
Bri, referindo-nos as excentricidades dos Guardiões e do pessoal do
Condado”, implica que os habitantes de Bri estavam consideravelmente
certos de que os Guardiões viviam nas terras orientais.

Aragorn menciona uma instalação abandonada distante um dia de jornada a
leste de Bri, implicando que este é o último sinal de uma civilização
em Eriador entre Bri e Imladris. Se for este o caso, então parece
improvável que os Dúnedain de Eriador realmente moravam diretamente a
leste de Bri. Não havia muito lá, exceto pelas Colinas dos Ventos,
depois do Pântano dos Mosquitos, e Aragorn contou aos Hobbits que
ninguém vivia nas Colinas. Em outra ocasião, ele se arrisca ao sul de
Topo do Vento para encontrar Athelas perto de um velho lugar aonde sua
gente tinha acampado ou se estabelecido uma vez, logo é concebível que
os Dúnedain moravam nas Colinas do Norte e/ou do Sul (provavelmente
mudando constantemente e então evitando serem detectados por espiões de
Sauron).

Os Dúnedain não estavam com muito poder econômico ao fim da Terceira
Era, mas seu ocasional tráfego combinado com a passagem dos Anões na
estrada teria ajudado a manter a estalagem de Bri, o Pônei Saltitante,
nos negócios. Mas parece claro que o tráfego era insuficiente por si
só. Carrapicho parece ter servido como o responsável pelos cavalos no
vilarejo de Bri, já que muitos dos cavalos locais e pôneis eram
mantidos no seu estábulo.

Comércio existia em outra parte do mundo mais ao norte. Os homens da
Cidade do Lago trocavam com os Elfos do norte da Floresta das Trevas e
alguns Homens do Norte não nomeados vivendo mais distante ao sul, no
rio Celduin. A misteriosa terra de Dorwinion nas costas ao Noroeste do
interior do Mar de Rhûn proviam essas pessoas com um bom vinho. O
restabelecimento de Vale e Erebor no Século XXX fortaleceu a economia
regional consideravelmente, mas ainda era uma grande e isolada região.
As ordens especiais de Bilbo para presentes de Vale e Erebor eram muito
provavelmente feitas por razões sentimentais melhor que uma preocupação
com o costume. NO Hobbit parece que Bilbo nunca tinha escutado sobre
Vale e Erebor antes de Thorin contar a ele a história de como Smaug
destruiu os dois reinos.

A despeito de todas essas visões de troca e comércio passando ao longo
das estradas da Terra-média, havia um limite para a economia da
história do mundo de Tolkien. O Condado desenvolveu algum tipo de
governo, mas aparentemente faltou riqueza para manter uma grande
burocracia. Os agentes postais e condestáveis respondiam ao prefeito de
Grã-Cava que gerenciava o Serviço de Mensagens e Patrulha (condestáveis
e fronteiros).

Tolkien escreveu no Prólogo de O Senhor dos Anéis “nessa época o
Condado mal tinha um ‘governo’. Na maioria das vezes as famílias
cuidavam dos seus próprios negócios. Cultivar comida e come-la ocupava
a maior parte de seu tempo. Em outros assuntos eles eram, em geral,
generosos e não gananciosos, mas satisfeitos e moderados, de modo que
terras, fazendas, oficinas, e pequenos comércios tendiam a permanecer
inalterados por gerações”.

Entretanto o Serviço Postal empregava mais Hobbits que o a Patrulha,
quando os convites e ordens de Bilbo para a Festa inundaram os correios
da Vila dos Hobbits e Beirágua , “carteiros voluntários estavam sendo
procurados”. O fato de voluntários serem precisos implica que não havia
provisões para empregar extra (mesmo que temporários) trabalhadores, e
seja qual fosse a renda gerada pelo correio era insuficiente para
prover os salários adicionais.

As trocas secretas de Lotho Sacola-Bolseiro com Isengard também parece
implicar que não haviam taxas de exportação. Não é claro como o Condado
pagava pelos 12 condestáveis, muito menos o maior número de fronteiros
e agentes postais. Algum tipo de taxa ou dízimo devia ter existido para
prover sua manutenção, mas eles podem não ter sido significantes. Sem
um grande rendimento base, o “governo” do Condado conseqüentemente não
era muito de fator econômico, mesmo dentro do próprio Condado. Assim, a
maior parte do dinheiro era provavelmente concentrada nas mãos de
várias famílias poderosas como os Tûks, Brandebuques, Bolseiros, etc.
as quais cuidavam dos seus próprios negócios.

A presença de estábulos e tavernas por todo o Condado implica uma
quantidade justa de atividade social e viajante. Estes locais
provavelmente serviram como centros de suas vida sociais nas
comunidades e provavelmente eram localizados perto de quaisquer
mercados estabelecidos nas vilas. É duvidável que existiam muitas
pessoas de negócios poderosas como Lotho Sacola-Bolseiro, que comprou
muitas fazendas e plantações na Quarta Sul. Seus empreendimentos eram,
pelo menos, em parte financiados por Saruman.

Como sempre, eu tenho apenas sido capaz de tocar por cima desses
assuntos, mas eu penso ser evidente que Tolkien devotou um considerável
pensamento ao dinheiro e economia na Terra-média, entretanto seria
impossível documentar completamente as atividades de troca de várias
pessoas. A escala de troca era provavelmente sempre pequena, exceto no
suprimento de comida para grandes exércitos ou nações Anãs. Tolkien
provavelmente não imaginou uma economia maciça, mas ele parece ter
estado ciente que os comerciantes antigos vaguearam pela Europa por
milhares de anos e na construção da Terra-média ele permitiu uma ampla
e estável economia.

 
———- 
 

Contos Misteriosos da Terra-média

Não ouvimos falar com freqüência sobre as histórias de fantasmas que as
pessoas deviam contar umas às outras na Terra-média. O trabalho de
Tolkien é permeado por lendas bem trabalhadas que possuem, geralmente,
de fato um embasamento (dentro do escopo de sua pseudo-história), mas
quando paramos para considerar as imensas expansões de tempo que a
pseudo-história da Terra-média cobre, devemos nos perguntar quão
artificiais essas lendas se tornaram.
 
 
 
Todos já ouviram falar da história sobre o louco
que escapa de um sanatório e quase mata um casal jovem em uma estrada
escura, deixando sua garra pendurada na porta do carro (este seria, é
claro, um carro bastante antigo). Talvez essa história deva um pouco ao
mito nórdico do deus da guerra Tyr, que colocou sua mão na boca de
Fenris, deixando o lobo arrancá-la, enquanto os Aesir acorrentavam o
lobo. Tyr deveria ser um tanto quanto louco para fazer isso.

As primeiras histórias de fantasmas da Terra-média provavelmente foram
os contos há muito tempo esquecidos que os Elfos criaram sobre os
monstros de Melkor antes de Oromë descobrir sua morada em Cuiviénen. "E,
de fato, as canções mais antigas dos Elfos, cujos ecos ainda são
lembrados no Oeste, falam sobre formas sombrias que caminhavam nas
montanhas acima de Cuiviénen, ou passavam de repente pelas estrelas, e
do Cavaleiro Negro sobre seu cavalo selvagem, que perseguia aqueles que
vagavam, para tomá-los e devorá-los."

Os primeiros Elfos
eram um tanto ingênuos, em comparação aos seus sucessores Eldarin. Eles
não sabiam nada sobre quem eram os Valar, como o mundo se tornou o que
é, ou que monstros existiam (originados das criaturas inocentes de
Yavanna, ou Maiar corrompidos que assumiram formas de terror). Nem seus
poderes de mente e corpo estavam desenvolvidos. Será que os Elfos
sabiam, antes de encontrar os Valar, como utilizar suas faculdades
subcriacionais? Seria interessante se os primeiros menestréis Élficos,
que, em eras posteriores podiam "fazer com que as coisas sobre as quais eles cantavam aparecessem em frente aos olhos daqueles que estivessem escutando",
tenham feito canções de poder, onde suas audiências veriam novamente as
terríveis e místicas formas sombrias que rastejavam em seu mundo
outrora agradável.

Oromë levou os Eldar para o Oeste, através
de um mundo assustador, grande e desconhecido, para as margens
ocidentais da Terra-média, e a partir dali a maioria dos Eldar partiu
para uma terra de luz. É difícil imaginar os Altos-Elfos de Aman
vivendo sobre os fantasmas e demônios de seu passado. Eles seguiram o
estudo de alta civilização e arte e construíram grandes cidades e
artefatos poderosos. Mas os Eldar que permaneceram na Terra-média, os
Sindar, foram deixados na escuridão (ou na fraca luz das estrelas), e
apesar de por longas eras eles não terem sido perturbados pelas
criaturas de Melkor, ainda tinham razão para conhecer o medo.

Pois os Sindar eram perturbados pelos Noegyth Nibin, os Anões
inferiores, exilados das grandes cidades dos Anões do Leste, que
encontraram seus caminhos para Beleriand. Ali, nas Terras Selvagens
antes da vinda dos Elfos, eles estabeleceram sua própria cultura, da
qual não conhecemos praticamente nada, além do fato que eles eram
reservados e rancorosos. Os Noegyth Nibin atacaram os Elfos, que
revidaram ao caçá-los, sem saber de fato que os Noegyth Nibin eram
decaídos de um estado mais alto de civilização, tomando-os por animais
ou pequenos monstros da escuridão.

Com o tempo, os Sindar se
tornaram amigos dos Anões de Nogrod e Belegost, e eles aprenderam sobre
a verdadeira natureza dos Noegyth Nibin, e os povos deixaram cada um em
paz. Mas os Sindar eram de vez em quando avisados pelos Anões do Leste
que criaturas malignas estavam se multiplicando nas terras além de Ered
Luin. Se os Sindar tivessem tido tempo para esquecer os antigos
monstros, eles eram eventualmente lembrados, quando as criaturas de
Melkor começaram a se rastejar por Beleriand, "lobos… ou criaturas que andavam em forma de lobos, e outros seres sombrios cruéis".

Os Sindar se dividiram em dois grupos: Elfos das Florestas que se
espalharam para o Norte e Oeste a partir de Doriath e os Elfos
navegantes, que moravam nas terras costeiras ocidentais e se espalharam
pelo Norte. Muitos destes Elfos viviam fora das cidades, mais
provavelmente em cidadelas ou vilarejos que nunca apareceram em nenhum
mapa. Mas estando longe dos centros de poder e sabedoria, eles estavam
menos seguros em suas casas e talvez mais propensos para se perguntar
sobre as coisas misteriosas que se rastejavam ao redor deles. Será que
estes Elfos, talvez, cantavam sobre as coisas sombrias que assombravam
Beleriand?

Após o retorno dos Noldor e o começo da Guerra das
Gemas, criaturas sombrias e terríveis teriam se tornado bem conhecidas
através de Beleriand. Imagine se um exército de goblins, vampiros e
lobisomens estivesse prestes a invadir sua terra natal e permanecer
próximo por muitos anos. Você estaria propenso a contar "histórias de
fantasmas", sabendo que os fantasmas estavam logo além da montanha? Os
contos seriam histórias reais, não lendas. As criaturas seriam inimigos
conhecidos, e não terrores maléficos misteriosos.

Não seria
até após o colapso dos grandes reinos que de fato se tornaram lenda
novamente. Homens mortais se lembrariam das histórias e passariam as
mesmas para a frente, mas a cada geração, as histórias se tornaram
menos reais. Será que Dirhavel de Arvenien entendia sobre o que estava
cantando, se ele cantou sobre o conto de Barahir e seus fora-da-lei 70
anos após os eventos terem se desenvolvido? Quantos dos Elfos que
sobreviveram à destruição dos reinos em Arvenien e Ilha de Balar eram
velhos o suficiente para se lembrar das grandes batalhas ou do passado
antigo? Mesmo Elrond, que já era antigo na época da Guerra do Anel,
teria crescido nos dias em que Húrin e Túrin eram apenas memórias dos
homens e mulheres idosas, Hador era um ancestral distante e Cuiviénen
estava há gerações além de sua experiência.

Quão reais os
contos do Lobo-Sauron e Drauglin, pai dos lobisomens, e Thuringwethil,
a mensageira de Sauron em forma de morcego, e Gorlim, o fantasma
infeliz, teriam parecido às gerações de Homens e Elfos que cresceram no
início da Segunda Era? Seu mundo havia mudado. A maior parte de
Beleriand havia sumido. Os grandes reis, que lideraram os Elfos e Edain
na guerra contra Morgoth estavam todos mortos. Os Edain do Oeste
navegaram para construir uma grande civilização e os Edain do Leste
retrocederam às planícies e bosques onde eles lentamente esqueceram que
uma vez alguns de seu povo partiram para o outro lado das montanhas.

E ainda após Sauron ter começado a tumultuar novamente na Segunda Era,
reunindo mais uma vez criaturas maléficas sob seu controle, como
evidência do retorno do mal que se movia através das Terras Élficas, os
Homens devem ter apagado as antigas lendas sobre lobisomens, vampiros,
Orcs e demônios, e recontaram como havia uma vez um senhor do escuro
contra quem somente alguns Elfos e Homens se defenderam valentemente.

E ainda o mal, conseqüentemente, adquiriu um aspecto mais claro, e a
Guerra dos Elfos e Sauron trouxe um fim a muitos reinos Élficos e
Humanos, e muitos séculos de combate existiriam subseqüentemente. A
Segunda Era deve ter originado novas lendas de terror, principalmente
quando os Nazgûl apareceram na Terra-média, mas também pode ser, como
na Primeira Era, que a Segunda Era tenha trazido o mal para muito perto
de casa para as pessoas desenvolverem uma estranha fascinação por ele.
Somente sonhamos com vampiros e lobisomens quando sabemos que eles não
são reais e não podem nos machucar.

Mas a guerra final da
Segunda Era contribuiu para a fundação de uma das maiores lendas de
terror na Terceira Era. Isildur convocou um povo das montanhas para
marchar contra Sauron, e eles recusaram, uma vez que eles outrora
adoravam Sauron como um deus. A esses homens sem fé, Isildur condenou a
desaparecerem como um povo. Eles definharam e morreram, perdidos e
sozinhos nas terras altas, condenados a assombrar suas terras antigas
até o dia em que eles pudessem redimir seus juramentos para um Herdeiro
de Isildur.

O audacioso povo das montanhas de Gondor vivia ao
lado dos Mortos do Templo da Colina, e deve-se imaginar se eles não
passaram longas noites de inverno trocando contos de viajantes
imprudentes que se perderam nos caminhos dos Mortos, ou que encontraram
uma reunião de fantasmas à grande pedra de Erech em tempos
problemáticos. Ninguém sabe como a dama Élfica Nimrodel se perdeu nas
montanhas, mas será que o povo local a adotou como uma vítima de suas
lendas? Será que eles a imaginavam perdida e assustada, possuída pelos
antigos fantasmas?

Os caminhos dos Mortos eram famosos
através das terras dos Dúnedain, ao que parece. Malbeth, o vidente, que
vivia em Arnor, previu que um dia um Herdeiro de Isildur caminharia
naqueles caminhos e acordaria os Mortos. Séculos depois, quando os
Rohirrim se estabeleceram em Calenardhon e Brego, seu segundo rei,
terminou a construção do salão de Meduseld, ele e seus filhos passaram
pelas montanhas e encontraram um homem idoso sentado na entrada do
caminho dos Mortos.

"O caminho está fechado", ele disse a eles. "O
caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os
Mortos o guardam, até a hora chegar. O caminho está fechado."
E
então ele morreu, e o príncipe Baldor resolveu entrar no caminho dos
Mortos e ver por si mesmo que segredos existiam ali. Ele nunca
retornou, e toda Rohan se questionou sobre o que se tornou dele.

Provavelmente os ossos que Aragorn encontrou dentro da passagem eram de Baldor: "Diante
dele estavam os ossos de um homem forte. Estivera vestido de malha
metálica, e sua armadura jazia ainda inteira, pois o ar da caverna era
seco como pó; sua cota era dourada. O cinto era de ouro e granadas, e
rico em ouro era o elmo sobre os ossos de sua cabeça, caída com o rosto
contra o chão. O homem tombara perto da parede oposta da caverna, pelo
que se podia presumir, e diante dele havia uma porta de pedra
hermeticamente fechada: os ossos de seus dedos ainda agarravam as
fendas. Uma espada quebrada e chanfrada jazia ao seu lado, como se ele
tivesse golpeado a rocha em seu último desespero"
.

O que
poderia ter acontecido dentro daquela caverna escura e solitária é que
um dos mais bravos guerreiros de Rohan teria ficado louco e rachado a
rocha em desespero? Ele deve ter sido atacado por um exército dos
Mortos, e procurando uma maneira de escapar e se desviou. Ou talvez ele
meramente sucumbiu ao medo e temor, estremecido a sua própria alma, e
irracionalmente, fugiu impetuosamente na escuridão até não poder mais
encontrar seu caminho, e lentamente, tristemente, passou seus últimos
dias ou horas em vão, procurando admissão em algum refúgio de natureza
duvidosa.

Os Mortos do Templo da Colina não eram as únicas
assombrações a habitar a Terra-média na Terceira Era. Os Nazgûl
surgiram de Mordor no ano 2000 e sitiaram a cidade montanhosa de Minas
Ithil. Após 2 anos eles tomaram a cidade e a transformaram em um lugar
de terror existente, e dizia-se que era a residência de fantasmas e
outros monstros. Até mesmo os Orcs que estavam posicionados ali estavam
enervados pelas criaturas terríveis com as quais os Nazgûl haviam
ocupado a cidade. Todas as terras vizinhas se tornaram desertas,
conforme as pessoas fugiam para o outro lado do Anduin, e com o tempo
somente as pessoas mais audaciosas de Gondor ousavam viver em Ithilien,
que uma vez havia sido uma terra muito agradável e bela.

Os
Nazgûl eram especialmente bons em acabar com as vizinhanças. Séculos
antes o Senhor dos Nazgûl havia rumado para o Norte para estabelecer o
reino de Angmar. Homens serviam a ele, mas também Orcs, Trolls, e
outras criaturas, incluindo espectros. Ele ensinou ou encorajou o povo
das colinas de Rhudaur a praticar feitiçaria, principalmente
necromancia, e na guerra com Cardolan e Arthedain no ano 1409, o Senhor
dos Nazgûl enviou espectros para habitar os antigos túmulos em Tyrn
Gorthad, próxima a Bri. Estes espíritos se tornaram as Criaturas
Tumulares. Eles animaram antigos ossos e ocuparam a terra com pavor e
medo. Seu poder era tão grande que, muitas gerações depois, os esforços
do Rei Araval para recolonizar Cardolan falharam, porque as pessoas não
poderiam viver perto de Tyrn Gorthad.

Quando os últimos
remanescentes do Reino do Norte foram arruinados, criaturas maléficas
ocuparam sua última capital, Fornost Erain, apesar de que depois de
apenas alguns meses elas foram destruídas ou expulsas por um grande
exército de Gondor e Lindon. Muito da terra estava limpa quando a
própria Angmar foi destruída, mas as Criaturas tumulares permaneceram,
e os Homens de Bri ficaram amedrontados em relação às ruínas de Fornost
Erain, conseqüentemente, denominando-as de Dique dos Mortos, porque
eles apenas podiam se lembrar do terror que brevemente havia governado
ali.

Arnor estava quase esvaziada de pessoas, e ruínas foram
deixadas por todos os lugares: Annúminas, Fornost, Tyrn Gorthad, as
colinas de Rhudaur, Topo do Vento. Tharbad, a última cidade de Arnor,
declinou e se tornou uma cidade ribeirinha, e conseqüentemente foi
abandonada após ter sido destruída por severas inundações. Quase toda
Eriador era uma terra vazia e desolada, com cidades esquecidas e
túmulos assombrados.

É um pouco estranho que os Hobbits que
partiram do Condado em 3018 não eram muito mais amedrontados em relação
ao mundo ao redor deles. Eles tinham lendas sobre a Floresta Velha, que
ficava nas fronteiras da Terra dos Buques, uma terra estranha onde as
árvores podiam se mover conforme queriam e que abrigavam um antigo ódio
pelos seres que caminhavam em duas pernas. Tolkien observa que "mesmo
no Condado, o rumor sobre as Criaturas Tumulares das Colinas dos
Túmulos além da Floresta foi ouvido. Mas não era um conto que qualquer
Hobbit gostaria de ouvir, mesmo em frente a uma confortável lareira bem
longe de tudo isso".

Mas Frodo e seus amigos não sabiam
nada sobre os terrores que existiam além das Colinas dos Túmulos e suas
criaturas, ou as lendas que ainda assombravam as terras, apesar das
criaturas que geraram terror aos contos terem desaparecido há muito
tempo. Se eles tivessem ido em busca de antigas histórias de fantasmas,
ao invés de buscar uma maneira de destruir o Um Anel, eles teriam
encontrado lendas suficientes para encher um livro. Havia o velho
monstro vivendo no alto das montanhas sobre Minas Morgul, as estranhas
e agourentas árvores da Floresta de Fangorn, o escuro e repugnante
Guardião na Água, o espírito de fogo e sombras que assombrava as
cavernas perdidas de Moria, a fria e cruel Caradhras, e coisas escuras
voadoras que bloqueavam as estrelas à noite, e os próprios Nazgûl.

A pobre e perdida Eregion se tornou a morada de lobos enfeitiçados e
tropas ameaçadoras de Crebain, e a terra esqueceu que uma vez fora lar
a um povo Élfico que ousara mexer com a força do Tempo na própria
Terra-média. Mas quando tudo estava feito e o Senhor dos Anéis
destruído, os Hobbits e seus aliados foram mais uma vez lembrados de
todos os grandes e antigos temores, e eles devem ter passado muitas
noites felizes trocando contos em frente à lareira, mantendo vivas as
estórias de fantasmas da Terra-média.

[tradução: Helena "Aredhel" Felts]

legolas

Legolas

Decidi fazer um desafio a mim mesmo e escrever algo a respeito de Legolas, que não tivesse sido dito antes. Parece haver muitas curiosidades acerca desse Elfo. As pessoas querem saber todo tipo de coisas a seu respeito, como a cor de seus cabelos, quem era sua mãe, quando ele nasceu, se ele estava presente na Batalha dos Cinco Exércitos.

Se alguém fosse produzir uma série de TV baseada na Companhia do Anel [a Companhia, não o livro], eles teriam de inventar sua própria história de Legolas. A inevitável exploração do background de cada personagem resultaria em episódios onde Gandalf primeiramente descobre que a Terra Média é perigosa mesmo para os Maiar [digamos, dentro de um ano após ele sair do barco]; onde Aragorn rastreia seu primeiro Orc; onde Gimli aprende a lidar com o fato de ser o filho de Glóin; onde Frodo se lembra do dia em que seus pais se afogaram; onde Pippin observa sua irmã Pearl levar Lalia the Fat para seu último raio de sol; onde Merry entra na Velha Floresta pela primeira vez; onde Sam brinca com Rosie Cotton e os irmãos dela, e quando se dá conta de que a ama, e onde Boromir tenta aceitar o fato de que nunca será Rei de Gondor.Quais seriam os conflitos passados de Legolas? Que tipo de experiência teria um Elfo das Florestas, imortal, para ajudar a definir o caráter de Legolas conforme ele se revelava à Companhia? Há na realidade apenas um momento de dúvida para Legolas na história que Tolkien nos contou, e foi quando ele reconheceu o Balrog. Isso não quer dizer que Legolas tivesse sempre certeza quanto ao que fazer. À maneira típica dos elfos, ele não dá um conselho claro a Aragorn sobre o que fazer quando eles e Gimli estão perseguindo os Orcs que haviam capturado Merry e Pippin. “Meu coração manda seguir em frente,” ele diz. “Mas devemos permanecer juntos. Eu seguirei seu conselho.”O momento de hesitação de Legolas ante o Balrog foi um evento definitivo. Ele entrou em pânico; reconheceu o Balrog pelo que ele realmente era e perdeu a coragem. “Ai! Ai!” gemeu Legolas. “Um Balrog! Um Balrog está vindo!” Ele deixou sua flecha cair no chão ao invés de atirar na coisa. Porém, o encontro pode tê-lo preparado melhor para confrontar o Nazgul alado sobre o Anduin. Legolas tinha pulado sobre o banco e armado uma flecha, procurando um alvo. “Elbereth Gilthoniel!” Ele gritou quando sentiu a aproximação do Nazgul alado. Ele estava assustado e movido pelo medo, mas agora tinha maior coragem.Tal crescimento no caráter de Legolas é bom, mas me lembra de uma premissa tola [engraçada] que foi atribuída ao Tenente Comandante Data na história de “Encounter at Farpoint”. Supostamente, ele estaria servindo à Frota Estelar por coisa de 27 anos; em todo esse tempo, ele não aprendeu virtualmente nada sobre os humanos e suas emoções. O que eles fizeram, designaram-no para servir apenas Vulcanos até que o Capitão Picard o recrutou para a Enterprise?Legolas refere-se a seus companheiros como crianças, e quando ele, Gimli, Aragorn, e Gandalf estão se aproximando de Meduseld, diz que as folhas haviam caído quinhentas vezes em Mirkwood desde que os Rohirrim vieram do norte. Ele também faz esse comentário soar como se ele próprio tivesse vivido por todos estes quinhentos anos. Em outro trecho, ele diz que já havia visto muitas nozes crescerem e morrerem como um carvalho muito velho. Em se tratando de elfos, Legolas provavelmente não é antigo, mas ele parece ter já uma certa idade. E ainda assim, Lórien é um lugar misterioso para ele; Legolas jamais estivera lá. Parece estranho que ele não saiba nada sobre uma terra dos Elfos da Floresta.

Assim, podemos sugerir que Legolas talvez tenha nascido depois que seu pai deixou as Emyn Duir [as Montanhas de Mirkwood] e liderou seu povo para o Norte para fixar-se ao longo do Rio da Floresta. Isso teria sido logo depois de que Sauron se reergueu e estabeleceu-se na colina de Amon Lanc, construindo a fortaleza de Dol Guldur. E ainda assim, uma das inconsistências peculiares da personagem de Legolas é que ele conhece a Balada de Nimrodel. A balada em si tinha de ter sido composta algum tempo depois de 1981, o ano em que Nimrodel e Amroth deixaram Lórien. Quem a escreveu? Como a história chegou a Mirkwood de modo que Legolas pudesse aprendê-la?

A explicação mais cabível parece ser que durante a ausência de Sauron de Dol Guldur [os anos da Paz Vigilante, TA 2063 - 2460], os Elfos de Mirkwood saíram de seu país e viajaram até Gondor. A população de Calenardhon estava em declínio durante estes anos, mas Gondor ainda podia proteger o Anduin de seus inimigos. Celeborn e Galadriel subiram ao trono em Lórien depois da partida de Amroth, e pode ser que não tenham decretado sua política de segredo logo de início. Então alguns Elfos do povo de Thranduil pode de fato ter viajado a Lórien durante esses anos e aprendido a Balada. Legolas diz simplesmente: “Há muito que ninguém de meu povo retornou à terra por que passamos há eras atrás, mas ouvimos que Lórien ainda não foi desertada.”

É algo curioso de se dizer. De quem ouviram que a terra não estava desertada? Provavelmente do povo de Elrond, e Legolas aparentemente aprendeu a tradução Westron da balada em Rivendell. Então, parece que ele era jovem o bastante para nunca ter estado em Lórien, e nem mesmo se aproxinado de lá enquanto seus habitantes ainda eram ativos no resto do mundo. Pode ser, assim sendo, que Legolas tenha nascido durante a Paz Vigilante, e talvez perto de seu fim. Assim, ele seria relativamente velho, mesmo comparado com os vividos Gimli e Aragorn.

E novamente Tolkien coloca uma aparente inconsistência diante de nós. Quando Aragorn e Legolas discutem o aviso de Celeborn sobre a Floresta de Fangorn, Legolas declara não saber de nada, a não ser que antigas canções falam sobre os Onodrim, os Entes. Ele não viajou tão longe quanto Aragorn. Porém, mais tarde, quando adentram Fangorn em busca dos hobbits desaparecidos, Legolas diz: “Ela é velha, muito velha. Tanto que quase me sinto jovem novamente, como não me sentia desde que viajei com vocês, crianças.”

É um comentário bastante estranho para um Elfo que não tenha viajado muito. Mirkwood é uma floresta antiga por si só – mas Mirkwood, ao contrário de Fangorn, tornou-se o lar de criaturas que cortam árvores, abrem caminhos e outras coisas que retiram os anos de uma floresta. Elfos, Homens, Orcs, e mesmo as aranhas gigantes fazem de Mirkwood uma floresta muito diferente. Talvez Legolas estivesse experimentando o sentimento de maravilha que qualquer criança sentiria na primeira vez que visita o mundo lá fora.

Legolas pode ter ido a Rivendell mais de uma vez, pois ele parece se sentir familiarizado com o povo de Elrond. A jornada de Mirkwood a Rivendell não seria muito perigosa por muitos anos após a Batalha dos Cinco Exércitos [haja visto que a maioria dos Orcs das Montanhas Nebulosas foram mortos naquela batalha]. Algumas pessoas já questionaram se Legolas não seria um filho mais jovem de Thranduil; seu papel como mensageiro para Elrond, e mais tarde a permissão de Thranduil para que ele liderasse parte de seu povo para Gondor parece indicar que Legolas talvez não seja o herdeiro de seu pai. É claro que Thranduil pode ter apenas se curvado ao inevitável, a ponto de permitir que Elfos partissem para Gondor.

Se ele tivesse pouco mais de 500 anos na época da Guerra do Anel, Legolas teria vivido vários eventos significativos. Ele se lembraria da chegada de Smaug a Erebor, e da destruição dos reinos de Dale e Erebor. Ele se lembraria do Longo Inverno, e provavelmente teria sido um dos Lordes élficos defendendo Thranduil na Batalha dos Cinco Exércitos. Assim, ele teria conhecido alguns perigos e dificuldades, e seria perfeitamente capaz de cuidar de si mesmo. Ele parece enfrentar os Orcs muito bem em Parth Galen, e depois no Abismo de Helm, para mostrar que é um guerreiro formado; ele também ameaça a vida de Éomer em defesa de Gimli com a segurança de um veterano.

Como Tolkien não menciona Legolas nos escassos relatos da Guerra da Última Aliança, muitos parecem aceitar que ele tenha nascido na Terceira Era, mas pode soar radical para alguns afirmar que ele tenha provavelmente nascido no fim da Terceira Era, ou talvez até durante a Paz Vigilante. Porém, há um precedente para um Elfo “relativamente jovem” chegar à proeminência – quando os Noldor partiram em exílio, Turgon e sua esposa Elenwë provavelmenta não tinham filhos. Sua filha Idril ainda era uma criança quando Elenwë perdeu-se durante a travessia do Helcaraxë; portanto, Idril cresceu na Terra-média.

Orodreth também aparentemente nasceu e foi criado na Terra-média, filho de Angrod e uma Elfa Sindarin [de acordo com a última informação publicada em The Peoples of Middle-earth]. Os filhos de Orodreth eram Finduilas e Gil-galad que seriam ainda mais jovens durante a queda de Nargothrond do que Legolas parece ter sido durante a Guerra do Anel. Voronwë, amigo de Tuor, era filho de Aranwë dos Noldor e uma Elfa Sindarin aparentada de Círdan. E Maeglin, o filho de Eöl e Aredhel, contava apenas duas centenas de anos quando morreu na queda de Gondolin

Thranduil pode ter tido três ou quatro filhos, e Legolas pode muito bem ter sido o caçula da prole. Assim, para ele os eventos da Primeira Era e mesmo a história de Nimrodel e Amroth pareceriam distantes no tempo. Ele seria um estranho em Lórien, e devido aos perigos habitando a Terra-média ele pode não ter começado a se afastar do reino de seu pai antes da Batalha dos Cinco Exércitos. É possível que a Batalha dos Cinco Exércitos tenha sido o primeiro evento de impacto na carreira de Legolas.

Certamente quando o Rei Élfico dO Hobbit parte com seu exército ele não espera por uma batalha. Smaug estava morto e havia muito pouca gente para disputar o tesouro do dragão. Exceto pelo fato de que ele era um Rei em busca de um enorme tesouro de ouro e jóias, ele sequer sentiria a necessidade de um exército. Assim, faria sentido se levasse seu filho caçula com ele.

E depois de tudo isso, ainda temos dúvidas quanto a Legolas. Não podemos afirmar, infelizmente, certeza de nada a respeito de seu passado. Ele provavelmente conhecia Aragorn e Gandalf antes do Conselho de Elrond, mas não há sinal de reconhecimento. Ele provavelmente esteve em Dale e Erebor, mas ele e Gimli não parecem ter se conhecido antes do Conselho de Elrond. É claro, eles viajaram juntos por algumas semanas antes de começarem a se tornar amigos. Legolas parece ter feito os primeiros pasos de amizade quando tentou suavizar suas palavras sobre a história do Balrog na fronteira de Lórien.

É claro que Legolas também perdeu a paciência quando Gimli se recusou a entrar sozinho vendado em Lórien. Aquela foi a única vez em que Legolas jamais foi duro com alguém. Ele estava falando como um orgulhoso Príncipe Élfico ou como um jovem Lord Elfo que ainda não queimara todo o fogo de sua juventude? Legolas ainda tinha curiosidade sobre o mundo, seguindo Aragorn por todo o caminho até Gondor, buscando os caminhos secretos de Fangorn e se deixando envolver pela beleza de Aglarond.

Talvez muitos Elfos tivessem apreciado as vistas que Legolas encontrou  em sua jornada, mas há algo de jovem e revigorante na maneira com que ele olha para trás, aos espíritos seguindo a companhia de Aragorn: “…Legolas, voltando-se para falar a Gimli olhou para trás e o Anão viu diante de si o brilho nos olhos do Elfo….”

Há algo de brincalhão no modo com que Legolas se empenha em um jogo mortal com Gimli no Abismo de Helm. Alguém consegue imaginar Elrond fazendo apostas sobre Orcs no meio de uma séria batalha que decidiria o destino de Rohan? Ou Feanor nessa situação? Embora cheio de fúria como estava, no fim de sua vida ele ainda era o pai severo e controlador; qualquer jovialidade que tenha apresentado em sua juventude há muito tinha se acabado. Assim também foi quanto à jovialidade de Fingolfin, há muito afastada de si quando ele cavalgou para desafiar Morgoth para um duelo. E o Maedhros que repreendeu seus irmãos irados com risosquanto à cessão de Thingol de terras vazias aos Noldor, tornou-se um Lord austero e determinado que, ao término da Terceira Era, estava consumido pelo cansaço e pelo legado da culpa.

Legolas parece muito mais impetuoso quando ele e Gimli estão cavalgando através da massa de Huorns e Entes que salvaram Rohirrim no Abismo de Helm. Ele mal pode se conter enquanto cavalgam por entre as árvores e descobre olhos os observando; dá as costas para a estrada e começa a adentrar a estranha mata. Apenas o cuidado de Gandalf pode trazê-lo de volta de sua curiosa euforia Élfica. É difícil imaginar Celeborn ou Galadriel sendo tão tomados pela curiosidade a ponto de abandonarem sua missão para descobrir mais sobre os olhos na mata.

A personagem Legolas não é tão atraente quanto confusa. Creio que muitas pessoas se questionam a seu respeito porque ele parece um tremendo paradoxo, tão velho quanto jovem, sábio e inexplicavelmente ignorante quanto ao mundo que o cerca. Legolas é um súbito toque de juvetude Élfica no fim dos Dias Antigos. Pode ser que tenha havido poucos Elfos jovens na época, e essa pode ter sido a última grande aventura de um Elfo jovem na Terra-média. Quando Celeborn finalmente cruzou o Mar, Tolkien observa,a última memória viva dos Dias Antigos foi com ele. Mas quando Legolas construiu seu navio e partiu, pode ser que a última fagulha de juventude Élfica tenha desaparecido da Terra-média também.

A ponta do iceberg: novas informações sobre a Terra-Média

Por aproximadamente um ano, discussões online sobre o mundo de Tolkien vem sido apimentadas — em alguns lugares — com referências a um obscuro estudo chamado "Osanwë-Kenta". Este ensaio foi publicado pela primeira vez em Vinyar Tengwar Mº 39, o exemplar de Julho de 1998 do jornal oficial da Elvish Linguistic Fellowship (Sociedade Da Linguística Élfica), um grupo de interesse da Mythopoeic Society. "Osanwë-Kenta" ("Acerca da comunicação de pensamentos") foi premiada como um dos textos de Tolkien mais reveladores daqueles que não foram publicados. Eu acho que "Osanwë-Kenta" deve ser colocado de lado, pois há um texto mais interessante. Se chama "Os Rios e Vales de Gondor".
 

Os dois estudos são importantes na pesquisa sobre Tolkien, e os aspectos linguísticos não são necessariamente primários. Você pode perceber detalhes interessantes sobre a filosofia e história do povo de Aman em "Osanwë-Kenta". "Rios e Vales de Gondor" também nos fornecem nova informação e revelações sobre a história de Gondor e os povos que lá moram. Supondo que mais pessoas querem saber sobre os eventos na Terceira Era que eventos do começo de Aman, eu acho que "Rios e Vales de Gondor" prova ser o mais importante.

Vinyar Tengwar é primeiramente preocupado com material linguístico, de onde restam um imenso número de ensaios e notas não publicados. As reflexões linguísticas de Tolkien porém, geralmente incluem apartes, muitas vezes grandes ensaios sobre as histórias e filosofias das principais raças. O material linguístico é então de interesse especial para pesquisadores que estudam a construção do mundo de Tolkien, sua pseudo-história e filosofias artificiais.

 
Christopher Tolkien publicou fragmentos do "Rios e Vales de Gondor" no Contos Inacabados. Infelizmente, Vinyar Tengwar também publica apenas fragmentos. Assim como a situação com "Narn i Hîn Húrin" (A História dos Filhos de Húrin), que foi publicado em pedaços no Contos Inacabados e no Silmarillion, precisamos juntar o trabalho inteiro junto. Se o suficiente das duas escrituras foram publicadas nessas duas partes, cabe à HarperCollins publicar um volume com os Trabalhos Completos de JRR Tolkien, combinando-os. Tal livro seria uma marca na tentativa de fazer uma representação coerente de algo escrito fora o Hobbit e o Senhor dos Anéis.

As passagens relevantes do Contos Inacabados são encontrados no capítulo da história de Galadriel e Celeborn, especificamente nos apêndices tratando de Amroth e Nimrodel, e o porto de Lond Daer. Algum material também foi publicado na seção "Notas sobre os Druedain" no capítulo sobre os Druedain. Aquela seção do Contos Inacabados também começa com um fragmento sobre os Druedain que Christopher Tolkien tirou do "Sobre os Anões e os Homens", cuja maioria foi publicada no Peoples of Middle-Earth (Povos da Terra-Média). Na maioria dos casos, não veremos os textos inteiros publicados juntos, mas ainda podemos sonhar com a oportunidade.

Na carta que acompanha o "Rios e Vales de Gondor", Vinyar Tengwar lança uma cascata de minúsculas revelações que vai nos forçar a refazer muitas teorias sobre a Terra-Média. Por exemplo, Tolkien escreve:

"…No primeiros séculos dos Dois Reinos Enedwaith foi uma região entre o reino de Gondor e o pequeno reino de Arnor (originalmente incluía Minhiriath (Mesopotâmia)). Os dois reinos tinham interesse na região, mas eram mais preocupados com a manutenção, sua principal fonte de informação exceto pelo mar e pela ponte de Tharbad. Povos de origem numenoreana não viviam ali, exceto em Tharbad, onde um grande número de soldados e guardiões do rio era mantido. Naqueles dias eles praticavam drenagem, e as margens do Hoarwell e Greyflood eram reforçados. Mas nos dias do Senhor dos Anéis a região tinha sido arruinada e voltou para um estado primitico: um rio largo e lento que corria por uma rede de pântanos e lagos: um lugar assombrado por cisnes mortos e outros pássaros aquáticos."

"Mesopotâmia" é uma velha palavra para "terra entre rios", e Tolkien estava sem dúvida fazendo uma pequena piada sugerindo a tradução de "Mesopotamia" para "Minhiriath" (que significa a mesma coisa"). Vocês podem imaginar o quanto essa tradução vai chatear os geógrafos que fazem correlações precisas entre o mapa da Terra-Média de Tolkien e mapas da Europa e Ásia.

Mas, para mim, o comentário mais interessante é a referência indireta para "guardiões do rio". A que Tolkien estaria se referindo? Seriam aqueles homens que atravessavam os rios para cima e para baixo, prendendo piratas e ladrões? Ou seriam aqueles que faziam viagens de um lado para outro do rio? Seriam os guardiões de Tharbad os engenheiros que mantinham os trabalhos de drenagem" e as margens reforçadas dos rios Hoarwell e Greyflood? E, se não haviam numenoreanos na região, porque as margens eram reforçadas?

Tharbad já é um lugar curioso. No Contos Inacabados aprendemso que a grande ponte e os cais da cidade foram construídos por Arnor e Gondor, aparentemente para substituir o destruído porto de Lond Daer Ened. E ainda, Tar-Aldarion diz que encontra Galadriel em Tharbad numa nota acompanhando o texto "Aldarion e Erendis". Em outro lugar, a segunda história de Galadriel e Celeborn, Tharbad diz ter defendido Eriador contra a invasão de Sauron em 1695 SE. Pode ser que Tharbad seja originalmente uma colônia élfica, talvez um entreposto estabelecido por Círdan para facilitar o comércio e comunicação com Eregion. Os numenoreanos também podem ter sido o primeiro povo a fortificar Tharbad (em preparação para a guerra contra Sauron, eles também fortificaram os rios Baranduin/Brandevin e Luin).

Outro nome que merece atenção especial é "Gilrain", o nome de um rio em Gondor. Tolkien o compara a "Gilraen", o nome da mãe de Aragorn. "O significado de Gilraen é um nome feminino sem dúvida. Significava ´Aquela que é decorada com um conjunto de pequenas jóias em uma malha´, como o tesouro de Arwen descrito no SdA I 239." (Este tesouro é a "touca de renda prateada, enredada com pequenas pedras, de um brilho branco" que Arwen usa no banquete dado em honra de Frodo em Valfenda.)

Tolkien sugere que Gilraen poderia ter conseguido esse nome como um apelido, mas "provavelmente era seu verdadeiro nome, já que tornou-se um nome dado às mulheres de seu povo, as remanescentes dos numenoreanos do Reino do Norte, de sangue puro. As mulheres dos Eldar estavam acostumadas a usar tais jóias; mas entre os outros povos, eram usadas apenas por mulheres de alto nível entre os Guardiões, descendentes d
e Elros, como diziam. Nomes como Gilraen, e outros de significado similar, virariam então nomes pessoais dados às crianças nobres da família dos ´Senhores dos Dunedain´
".

Uma forte implicação dessa passagem é que os Guardiões eram um subgrupo de um povo maior, e que eles eram todos de sangue nobre, descendendo de Elros, e provavelmente os únicos Dunedain de sangue puro restantes em Arnor. Mas se aquele foi o intento de Tolkien ou uma nota mal-escrita, não podemos dizer.

Numa nota secundária, Tolkien revela que a raiz de -raen, em Gilraen, vinha do trabalho de tricô e que o adorno que Arwen e outras donzelas élficas — assim como as mulheres nobres do povo de Aragorn — usavam foi feita com um único fio.

A história de Amroth e Nimrodel é um pouco mais elaborada, também. E descobrimos a extensão completa da nota que sugere que Edhellond pode ter sido estabelecida por antigos Doriathrim que deixaram Mithlond (Portos Cinzentos). Foi abandonado no meio pois, como Christopher Tolkien opinou, seu pai percebeu que, sua dissertação sobre Círdan ser um Noldo do qual os Sindar queriam se afastar, era totalmente inconsistente com os outros textos. Então, a lenda de Edhellond ter sido fundada pelos primeiros elfos de Doriath deve ser descartada. O porto deve ter sido fundado por outros motivos, e talvez a lenda a respeiro de Brithombar e Eglarest é a mais provável de todas.

Apesar de tudo, a nota abandonada concorda com outra fonte publicada no Silmarillion dizendo onde os Nandor se estabeleceram em Eriador. Quer dizer, o fragmento de nota diz que os Eldar de Lindon "encontraram acampamentos abandonados dos Nandor" nos dois lados das Montanhas Nevoentas. O Silmarillion inclui um passagem em "Dos Sindar´ onde os anões dizem à Thingol que "seu antigo povo que lá mora [na terra à leste das montanhas] estão voando das planícies para os vales." Parece, então, que as criaturas de Melkor mandaram os Nandor em direção ao leste e para as Montanhas Nevoentas antes que Melkor retornasse para a Terra-Média.

Muitos pedaços situam-se além desses, e as implicações para os historiadores de Tolkien são extensivos. A Terra-Média revela mais uma face — aliás, muitas outras — para nós. O significado do tesouro de Arwen pode implicar em algum tipo de referência à Varda. É Arwen, afinal, que aparentemente canta o hino a Elbereth à medida que Frodo e Bilbo saem do Salão do Fogo em Valfenda. Gilraen e outras mulheres de sua família devem ter dividido tal reverência élfica à Varda.

A idéia de que povos com apenas parte do sangue numenoreano continuaram a viver em Eriador é aterrorizante. Apesar de sabermos que não poderíamos ter comunidades dos homens a oeste de Mitheithel, isto não dá novo sentido às palavras de Elrond no conselho, onde ele diz que poucos do povo de Aragorn ainda vivem? Estava Elrond talvez omitindo alguma referência á um povo maior governado pelo clã de Aragorn? Aquelas pessoas que se perguntavam onde Aragorn achou tantos guerreiros para retomar Eriador têm agora razão o suficiente para argumentar que um grande povo vivia perto de Valfenda no Ângulo.

Mais revelações nos aguardam, especialmente sobre os primeiros anos de Arnor e Gondor. Também veremos que os elfos tinham um sistema decimal e duodecimal. Então, todos estão certos. Todos nós ganhamos de novo. E é só a ponta do iceberg…

Tradução de Aarakocra

Uma História da Última Aliança de Elfos e Homens, Parte 1

A lenda da guerra de Gil-galad e Elendil contra Sauron no final da Segunda Era da Terra-média tem sido assunto de muita pesquisa e especulação entre os fãs de Tolkien. Assim como com todos os aspectos de sua mitologia, as poucas menções desta grande luta implicam uma profundidade que direciona a imaginação à uma descrição completa que certamente deve ter existido na mente do autor, se não em alguma de suas obras existentes. A maioria de nós está familiarizada com linhas gerais da guerra, e muitos podem traçar os eventos em uma progressão geral a partir do primeiro ataque à Minas Ithil até o combate final em Orodruin.

Mesmo assim muitas questões permanecem, as quais alguém pode imaginar se Tolkien não as fez a si mesmo. Quem eram os grandes príncipes e capitães, cuja lembrança de seus estandartes fez Elrond parar e suspirar em seu conselho uma Era mais tarde? De onde vieram estes exércitos, e quais eram suas razões para se unirem à Aliança? Se não sabemos os números deles, sabemos realmente algo da sua ordem e progressos de batalha?Talvez.

Muito do que se segue é necessariamente especulativo. Não pode ser de outra forma, pois existem lacunas no que está registrado. Mesmo Tolkien espalhou aqui e ali partes de informações a respeito desta grande guerra na qual “todos os seres vivos estavam divididos…à única exceção dos elfos” (O Silmarillion, p. 374).

A guerra final da Segunda Era reuniu muitos povos em ambos os lados para um combate cataclísmico que rivalizou com a grande Guerra da Ira no final da Primeira Era do Sol. Apesar de os Valar não terem participado nesta guerra, o conflito culminou em uma série longa e pendente de disputas entre Sauron, os Elfos e os Homens de Númenor. A guerra representou a última ação desesperada de Sauron pelo poder na Terra-média na sua antiga campanha para ganhar controle sobre os Elfos e Homens.

As sementes da guerra foram estabelecidas um milênio antes, quando Sauron, na aparência de “Aulendil” (“Annatar”), começou a se aproximar dos Elfos em uma tentativa de seduzi-los [1]. Galadriel não confiou nele, afirmando não ter conhecido tal Maia em Valinor [2], e Gil-galad desconfiou dele, tendo há muito sentido que algum poder maligno havia se erguido na Terra-média [3]. De fato, a maioria dos senhores élficos recusou-se a tratar com Sauron, exceto pelo ferreiro Celebrimbor, cujas razões para recusar o conselho de Gil-galad não são dadas. Mas talvez ele tivesse herdado o grande orgulho de sua casa, e como o último herdeiro sobrevivente de Fëanor, tenha rejeitado o aviso de Gil-galad em um ato de rebelião.

Celebrimbor não viveu para ver os frutos das sementes que ele ajudou Sauron plantar e nutrir nos Anéis de Poder. Embora ele tenha vindo a entender sua tolice ates da Guerra dos Elfos e Sauron, Celebrimbor pereceu quando Sauron tomou Ost-in-Edhil [4]. Como Fëanor antes dele, Celebrimbor conduziu os Noldor a um caminho cujo final ele nunca viu, e a trágica história deles tanto foi enriquecida como reduzida por causa das escolhas que ele fez.

Por terem auxiliado Gil-galad durante a Guerra dos Elfos e Sauron, os Dúnedain ficaram enredados de maneira irrevogável nos acontecimentos da Terra-média, obtendo a inimizade eterna de Sauron. Dentro de 100 anos da guerra, os Dúnedain começaram a construir portos permanentes a Terra-média: Lond Daer Ened, Pelargir, Umbar, e outros agora esquecidos [5]. Destes portos vieram pelo menos três dos Nazgûl, os Espectros do Anel que por volta do ano 2251 revelaram-se pela primeira vez, conduzindo os exércitos de Sauron contra seus inimigos [6].

Os conflitos entre os Dúnedain e Sauron eventualmente diminuíram a progressiva luta entre Sauron e os Elfos. Enquanto muitos dos Eldar abandonavam a Terra-média, mais e mais Dúnedain lá se assentavam, vindos de ambas as facções de Númenor: os Homens do Rei e os Fiéis. Os Dúnedain buscaram conquistas próprias, confrontando-se com os tenentes de Sauron e obtendo seu imenso ódio [7]. A rivalidade de Sauron com os Dúnedain levou ao seu aprisionamento voluntário em Númenor, onde ele seduziu a maior parte dos Dúnedain para sua causa. Suas fortalezas na Terra-média ao sul de Pelargir estenderam assim o verdadeiro poder de Sauron, onde antes eles o haviam contestado.

Sobrevivendo à destruição de Númenor, Sauron retornou para a Terra-média muito transformado. Gil-galad havia recuperado seu antigo poder e estendido seu poder à novas terras [8]. Todos os Elfos estavam agora aparentemente unidos em propósitos e fortalecidos pelo longo período de paz que sua ausência lhes havia dado. Os Dúnedain que sobreviveram à Queda de Númenor ainda estavam divididos em dois grupos, mas os Fiéis haviam agora estabelecido dois reinos que, embora cultivados pelo poder de Gil-galad, guarneceram Lindon com uma barreira mais poderosa contra a invasão do que Eregion ou Imladris jamais tiveram.

O reino de Elendil em Arnor era maior em tamanho e força do que o reino de Gondor de seus filhos. Os Dúnedain e os povos que lá se assentaram entre eles viviam entre os rios Lhûn e Gwathló [9]. O povo de Elendil vivia principalmente entre os rios Lhûn e Baranduin, e entre as Colinas de Vesperturvo e as Colinas do Norte [10]. Alguns também se assentaram em Tyrn Gorthad e nas Colinas do Sul. Tharbad, um antigo porto e posto avançado Dúnadan no rio Gwathló, tornou-se um elo entre os dois reinos com uma fortaleza dos dois lados do Gwathló e uma ponte atravessando o rio [11].

Outros Homens viviam em Eriador além dos Dúnedain. Os Homens de Bri, a maioria representantes nortistas de sua raça, possuíam parentesco com a maior parte dos povos de Minhiriath e Enedwaith, assim como com as tribos selvagens das Ered Nimrais e Calenardhon que viviam na fronteira ocidental de Gondor [12]. As tribos das colinas que viviam entre o Bruinen e o Mithieithel podem ter sido amigáveis aos Elfos, mas parece que não reconheciam a autoridade de Elendil. Nem o fazia as tribos que viviam no norte, membros de Forodwaith que mais tarde deram origem a Lossoth e talvez aos Homens de Carn Dum [13]. Entretanto, o povo de Elendil provavelmente também incluía descendentes dos clãs relacionados ao Povo de Bór e Ulfang na Primeira Era [14].

O povo de Gondor vinha principalmente dos Dúnedain e seus parentes que viviam em e próximo a Pelargir, assim como ao longo da costa de Belfalas. Eles construíram as novas cidades de Osgiliath, Minas Anor, e Minas Ithil, imaginando que Sauron não era mais uma ameaça [15]. Os filhos de Elendil também estenderam seus domínios para o norte em direção a Calenardhon.

Mas a escolha da localização para suas novas cidades indica que os Númenoreanos Negros do sul eram motivo de preocupação [16]. E embora o antigo porto élfico de Edhellond se situasse a oeste do coração de Gondor, os vales das Ered Nimrais de Lamedon até as nascentes dos rios Lefnui e Adorn eram o lar de uma raça de homens que havia servido Sauron em séculos anteriores [17]. Quando se tornou evidente que Sauron havia sobrevivido à Queda de Númenor, Isildur concluiu uma aliança com pelo menos um grupo destes homens, mas seu rei temia demais Sauron para cumprir seu juramento.

Havia outros homens em Enedwaith, aparentados com o povo das montanhas das Ered Nimrais e com os Homens de Bri, que por muito se opuseram às incursões Númenoreanas. Sua antipatia forçou Gondor a construir as fortalezas gêmeas de Angrenost e Aglarond, que guardavam o passo de Calenardhon contra o oeste, ao invés do leste [18]. Desse modo, a necessidade de uma forte guarnição em Tharbad foi ressaltada pela necessidade de uma forte guarda na própria Enedwaith.

Embora Sauron fosse um Maia de grande poder e sabedoria, ele parece ter subestimado a determinação e a habilidade de seus adversários. Gil-galad, nascido em Beleriand na Primeira Era [19], era um filho nativo da Terra-média, governando seu povo no último vestígio da própria Beleriand, agora chamada de Lindon. Ele pode ter parecido fraco a Sauron, não tendo feito algo contra Morgoth na Primeira Era, e incapaz ou não disposto a derrotar os exércitos do próprio Sauron em Eriador sem o auxílio dos Dúnedain. Mas a estratégia que os Eldar usaram na sua guerra com Sauron era de Gil-galad, que liderou o exército vitorioso de Lindon e Númenor, varrendo as forças de Sauron do norte. Como Alto Rei dos Elfos do Oeste, ele enviou Elrond contra Sauron nos primeiros anos da Guerra dos Elfos contra este [20].

Ao lado de Gil-galad ficou Círdan, o mais velho dos senhores Élficos e sábio pelas amargas lições aprendidas na longa guerra contra Morgoth. Círdan havia sido o único senhor Élfico Sindarin a se aliar com os Noldor contra Morgoth na Guerra das Jóias [21]. Uma vez que Gil-galad viveu com Círdan desde uma idade prematura, o rei Noldorin deve ter sido grandemente influenciado por Círdan, que era tão corajoso e valente quanto qualquer rei Élfico. Na Segunda Era ele auxiliou os Dúnedain, ensinando-lhes como construir e navegar navios, e como administrar os portos que eles construíram na Terra-média [22]. Círdan, também, via profundamente nos corações dos outros, e ele nunca se absteve da necessidade de se opor tanto a Morgoth quanto a Sauron. Círdan parece ter sido um oponente formidável a Sauron.

Elrond, sendo meio-elfo, não esquecera seus laços com os Dúnedain. Ele marchou com os pais deles contra Thangorodrim na Guerra da Ira [23], e ele estava em Lindon quando Veantur velejou primeiro para a Terra-média. Ele teria conhecido Aldarion em sua juventude, o grande rei navegador de Númenor. Apesar de ter falhado em abrir caminho através das forças de Sauron para socorrer Eregion, Elrond salvou muitos Elfos e Homens da morte ou captura na Guerra dos Elfos e Sauron, e ele impôs um cerco prolongado. Descendendo de uma poderosa Maia e tanto de reis Sindarin quanto Noldorin, Elrond foi educado por um filho de Fëanor, permaneceu com o Exército de Valinor na destruição das Thangorodrim e, ao escolher ser da raça Élfica, teve aumentadas sua sabedoria e suas habilidades por Eönwë. Come ele era o vice-regente de Gil-galad em Eriador [24], Elrond pode então ter representado o Alto Rei dos Elfos do Oeste nas suas relações com outros senhores élficos.

Oropher era provavelmente o maior dos outros senhores Élficos. Orgulhoso e independente, um sobrevivente de Doriath, seu reino dominava a Floresta Verde, a Grande, além do Anduin. Embora não amigável tanto aos Noldor como aos Anões [25], ele pode ter reverenciado a linhagem Sindarin de Elrond, e evidentemente viu a necessidade de se unir à aliança contra Sauron. Oropher, porém, era resoluto e orgulhoso, e ele se recusou a marchar sob o estandarte de Gil-galad, pois via a si mesmo como um igual [26].

Amdir, também conhecido como Malgalad [27], era provavelmente o menos poderoso dos reis Élficos da Segunda Era. Ele governava um povo menor do que o de Oropher, ainda que fosse favorável aos Noldor, recebendo muitos refugiados de Eregion em seu reino. Ele também deve ter mantido termos amigáveis com os Anões de Khazad-dûm, seus vizinhos e, talvez, às vezes aliados [28].

Isildur era o mais imprudente dos reis Dúnedain. Ele era orgulhoso e bravo, renomado por salvar uma muda de Nimloth, a Árvore Branca de Númenor, a despeito das precauções de Sauron contra tal tentativa [29]. Ele ousadamente estabeleceu-se (e plantou a muda) nas Ephel Dúath, na fronteira de Sauron. Mas Isildur pode não ter sido um capitão na guerra como o eram seu pai e irmão, e talvez não fosse o líder de Homens que Elendil era. Ainda assim, foi a cidade de Isildur que Sauron escolheu para o primeiro ataque, talvez buscando vingança contra o senhor Dúnadan por seus feitos em Númenor.

Elendil, o Alto, era um poderoso capitão marítimo, um mestre de tradição e, como Alto Rei dos Dúnedain-em-Exílio, reuniu um grande exército de Homens em Arnor. Ele parece não ter tido disputas com subalternos e aliados, diferente de Isildur, apesar de que a distância entre Sauron e os povos de Eriador certamente fez sua influência lá bastante fraca. Elendil foi profundamente afetado pela destruição de Númenor, e pela perda de seu pai, Amandil.

Após Isildur partir para Arnor, Anarion governou Gondor sozinho, defendendo-o contra as forças de Sauron [30]. Anárion parece ter comandado a campanha meridional inteira para a Aliança. Ele não apenas empurrou os exércitos de Sauron de volta a Mordor: ele mesmo, eventualmente, atravessou as montanhas.

Dúrin IV de Khazad-dûm também se uniu à Aliança [31]. Uma vez que seu reino situava-se tão perto de Lorinand, ele deve ter reunido seu exército próximo ao de Amdir. E ainda, a conhecida antipatia de Oropher pelos Anões pode ter forçado Dúrin a marchar ao lado do exército de Gil-galad, talvez ainda para se colocar como um quarto igual entre os líderes da aliança completa: Gil-galad, como senhor dos Elfos do Oeste; Elendil, como senhor dos Homens do Oeste; Oropher, como senhor dos Elfos do Leste; e Dúrin, como senhor dos anões de Khazad-dûm (abrangendo duas ou três casas de Anões). Pelos Anões de Nogrod e Belegost terem há muito tempo aumentado os números de Khazad-dûm, o exército de Dúrin pode ter sido a maior hoste de Anões reunida naquele tempo ou em qualquer outro.

[Fim da parte 1]

Uma História da Última Aliança de Elfos e Homens, Parte 2

A guerra real começou com o ataque à Minas Ithil, em 3429 S.E. [32]. Quando a cidade foi perdida, Isildur e sua família escaparam para Osgiliath [33]. De lá eles navegaram, deixando Anárion para defender o reino. Pode ser que nessa hora Isildur tenha parado em Edhellond, e passado para o norte em direção a Erech pra convocar o Rei das Montanhas para cumprir o juramento feito por seus predecessores; ou, pode ser que nesse momento Isildur tenha tomado o juramento do Rei, para ser cumprido posteriormente, quando o Oeste estivesse pronto para marchar contra Sauron [34].

Em todo caso, Anárion aparentemente não foi incomodado pelos homens das Ered Nimrais, embora ele possa ter prudentemente montado uma vigília contra uma traição do oeste. De qualquer forma, a presença do porto élfico em Edhellond pode ter sido um conforto para os Dúnedain. Além disso, visto que Sauron havia reunido seus aliados em Mordor, os exércitos de Herumor e Fuinur não atacaram vindos do sul. Eles devem ter passado para o norte e para Mordor através do Passo de Nargil [35], se não eles marcharam para o norte ao longo das Ephel Dúath para ajudar no ataque a Osgiliath.
Elendil e Gil-galad convocaram um conselho em 3430 S.E., onde a Aliança foi oficialmente criada [36]. O conselho deve ter sido uma grande reunião de senhores de Arnor, Gondor, Lindon, e outras terras. Além de Gil-galad e Elendil, podemos supor que Isildur e Círdan estavam presentes, e talvez também Elrond, Celeborn, Galadriel, Gildor Inglorion, e Glorfindel [37]. Os filhos de Isildur, Elendur, Aratan, e Ciryon podem ter estado presentes também; pelo menos Elendur provavelmente estava lá.

Podem ter havido também emissários dos Vales do Anduin (se não dos próprios Durin IV, Oropher, e Amdír). Possíveis emissários dos Elfos incluiriam Thranduil e Amroth. Entretanto, é possível que a Aliança originalmente incluísse apenas Lindon, Arnor, Gondor, e Imladris.

A Aliança só poderia ter um único propósito militar: marchar sobre Mordor e alcançar uma vitória completa e total contra Sauron. Eles sabiam que podiam derrotá-lo no campo de batalha, conforme isto fora realizado em mais de uma ocasião em guerras passadas. O verdadeiro problema deve ter sido sobre o que eles fariam uma vez rompidas as defesas de Sauron. Até quando ele poderia resistir à Aliança, e o que ele seria capaz de tramar contra seus inimigos enquanto sitiado em Barad-dûr? As forças de Sauron eram consideráveis, pois ele comandava não somente os Orcs e Trolls, mas também muitos homens, e seus principais servidores eram os Nazgûl.

Gil-galad e Círdan marcharam para o leste saindo de Lindon em 3431 [38]. Elendil já havia reunido seu exército em Amon Sûl e ele esperou lá pela hoste élfica [39]. Mas eles pararam em Imladris por três anos, aparentemente para treinar e equipar seus exércitos, e talvez também para persuadir Oropher, Amdír, e Durin a unirem-se à Aliança, se eles ainda não o tinham feito [40]. Naquela época, Sauron deve ter estabelecido um exército nas terras entre a Floresta Verde e Mordor [41]. Tal expansão certamente teria sido persuasiva para com Oropher. pode ser que nessa época Elendil tenha mandado um exército a Gondor para fortalecer Anárion [42].

Havia duas linhas de marcha prováveis para os exércitos da Aliança quando eles finalmente começaram a se mover em 3434. Pode ser que Oropher e Amdír tenham avançado pela costa oriental do Anduin, enquanto Gil-galad, Elendil, e Durin passavam a oeste de Lorinand em direção ao Parth Celebrant. Ou talvez Gil-galad e Elendil tenham atravessado o rio pela Men-I-Naugrim, usando o vau onde houve uma vez uma antiga ponte. Oropher pode ter precedido ou seguido eles em sua estrada para o sul, e Amdír e Durin teriam atravessado o Anduin com barcos (assim como Celeborn milhares de anos mais tarde quando ele atacou Dol Guldur).

Sauron provavelmente encontrou as forças da Aliança em algum lugar próximo aos Meandros mas, vendo que era superado em número, ele recuou, destruindo o antigo domínio Entesco ao norte das Emyn Muil (posteriormente conhecido como “As Terras Castanhas”) em uma tentativa de retardar o avanço da Aliança [43]. A retirada para Mordor deve ter sido rápida, ainda sim a Aliança foi capaz de surpreender o exército de Sauron em Dagorlad. É possível que a força de cavalaria de Lindon [44] tenha forçado o exército de Sauron a parar e se reorganizar no norte de Udûn, e que as duas forças se prepararam para a batalha ao curso de um ou mais dias que se seguiram.

Ainda que não tenhamos registro da Batalha de Dagorlad em si, podemos deduzir algumas prováveis formações. Gil-galad, sendo o líder da Aliança (ou, o mais provável, o mais velho dos quatro “iguais”), provavelmente comandava o centro. Visto que Elrond era o arauto de Gil-galad nesta campanha, é possível que os flancos de Gil-galad fossem comandados por Celeborn e Círdan (Glorfindel ou Gildor Inglorion podem ter comandado um flanco “Noldorin”).

Sabemos que no curso da batalha, o exército de Amdír foi isolado da hoste principal e feito em pedaços nos pântanos [45]. Entretanto, podemos supor que Oropher tomou a face direita do campo, com Amdír guardando o outro flanco. Deste modo, os Elfos Silvestres de “idéias próprias” estariam em uma posição para apoiar Gil-galad sem serem cercados pelas próprias forças dele. Elendil e Durin podem ter, então, permanecido na face esquerda (leste) do campo.

O que não podemos supor é se Anárion, com o exército de Gondor, estava presente na Batalha de Dagorlad. Teria Sauron dividido suas forças durante os anos anteriores para manter Anárion ocupado? Os únicos aliados possíveis que Anárion poderia ter convocado seriam os Elfos de Edhellond, dito serem na maioria de origem Nandorin ou Sindarin [46]. Eles não teriam constituído de modo algum uma grande força, e podem ter sido apenas um contingente do exército de Anárion.

As forças de Sauron teriam sido retiradas dos Orcs e Trolls, provavelmente vivendo em sua maioria em Mordor naquela época; os Orientais, talvez muito primitivos; os Haradrim, governados por Númenorianos Negros e incluindo um grande número dos mesmos; e quaisquer Homens que possam ter vivido em Mordor (se algum). Conta-se que uns poucos Anões também lutaram por ele, embora nada seja mencionado de suas moradas ou casas [47].

Se Anárion foi impedido de se unir imediatamente a Gil-galad por um exército no sul, Sauron pode ter tido somente alguns Haradrim na Batalha de Dagorlad. Assim, ele teria apenas dois exércitos: os Orientais e suas próprias forças de Mordor e Harad. O flanco esquerdo de Sauron pode ter sido a parte mais forte de seu exército, uma vez que ele foi capaz de impelir os Elfos Silvestres de Amdír, empurrando-os para os pântanos [48]. É possível que os Orientais não tenham ficado à direita de Sauron, mas talvez tenham ido contra o flanco oriental da hoste da Aliança (onde podem ter permanecido os exércitos de Arnor e Khazad-dûm). Esta estratégia teria ao menos dado uma oportunidade ao flanco esquerdo de esmagar os Elfos Silvestres enquanto o exército principal mantinha a atenção de Gil-galad no centro.

Gil-galad pode ter usado uma estratégia cautelosa, contendo-se de atacar a fileira de Sauron. Talvez Sauron tenha repelido Amdír com um ataque e talvez tenha ele mesmo lançado o ataque. A vantagem em lançar o ataque estaria na chance de Sauron de dividir a hoste élfica e destruir os Elfos Silvestres. Uma vez que Amdír e mais da metade de seu exército foram mortos, as forças de Sauron nesta área foram bastante efetivas. Mas visto que Sauron, por fim, abandonou o campo [49], seu flanco direito deve ter desmoronado sob o ataque dos outros exércitos da Aliança. É possível que a força inteira que combateu Amdír nos pântanos tenha sido abandonada por Sauron na retirada.

Embora não saibamos se partes do exército de Sauron sobreviveram à Batalha de Dagorlad, podemos estar certos de que suas forças foram muito diminuídas. Ele ainda aparentemente foi capaz de manter mais uma resistência fora de Barad-dûr, pois Oropher liderou um ataque prematuro a Mordor [50]. Os Elfos Silvestres podem ter se enfurecido com o massacre que ocorrera nos pântanos, e talvez Oropher tenha pensado que as forças de Sauron eram mais fracas do que realmente eram.

Mas embora os Elfos Silvestres tenham novamente sofrido graves perdas [51], Gil-galad e a Aliança penetraram em Mordor, empurrando Sauron de Udûn por todo o caminho de volta a Barad-dûr, onde eles começaram o cerco de sete anos. Nessa hora Anárion deve ter levado o exército de Gondor para Mordor, talvez passando através das Ephel Dúath para assegurar que Sauron não pudesse escapar para o sul.

A defesa de Sauron de Barad-dûr não foi passiva. Ele enviou muitos ataques [52]. A própria fortaleza usava armas de projéteis para infligir grandes perdas aos exércitos da Aliança, incluindo a tomada da vida de Anárion em 3440 [53].

A breve descrição de Elrond da última luta entre Sauron e seus adversários indica que Gil-galad fixara uma posição em Orodruin. Esta parece ser uma distância bem grande de Barad-dûr, mas pode ser que, durante os anos do cerco, Gil-galad tivesse que lidar com forças fora de Barad-dûr, nas terras ao leste e ao sul. Sendo assim, então Orodruin teria se tornado um excelente posto de comando, mas isto também significaria que os exércitos da Aliança (enfraquecidos pelas batalhas no norte) deviam estar pouco espalhados.

Desse modo, parece que, ou Sauron foi capaz de pegar Gil-galad de surpresa, ou ele liderou uma última e massiva investida contra Orodruin. Logo que Sauron alcançou as encostas da montanha de fogo, apenas Elendil permaneceu próximo o suficiente para ajudar diretamente o rei élfico, embora Elrond, Círdan, e Isildur estivessem mais próximos do que outros. Como Sauron conseguiu chegar tão perto de Gil-galad? Teria talvez o rei élfico oferecido a Sauron um desafio para um combate único (assim como seu avô Fingolfin desafiou Morgoth)? Sauron esperava matar Gil-galad e assim desencorajar seus inimigos?

No evento, Gil-galad caiu ante o ataque de Sauron e foi Elendil quem desferiu o golpe “mortal” que derrubou o Senhor do Escuro. Sauron, apesar disso, devia ter guardado força suficiente e presença de espírito para se projetar sobre Elendil, uma vez que fora o calor de seu corpo que matou o rei Dúnadan. Isildur então subiu a encosta para cortar o Anel da mão de Sauron, mas ele fez isso sabendo que o espírito de Sauron escaparia ou ele foi atraído imediatamente pelo poder do Anel?

O combate final deve ter resultado em uma perda de força de vontade quase completa entre os Orcs e Trolls sobreviventes [54]. Se quaisquer Orientais ou Haradrim continuaram a existir fora de Barad-dûr, eles ou fugiram ou lutaram até serem destruídos, como aconteceu com as forças de Sauron no final da Terceira Era [55]. Mas a própria Barad-dûr teve que ser demolida, e fortalezas foram construídas nas Ephel Dúath e em Udûn para manter uma vigilância sobre [56].

A maioria dos líderes originais da Aliança nunca viu o final que eles se esforçaram tanto para atingir: Gil-galad, Elendil, Oropher, Amdír, e Anárion: todos pereceram. As forças élficas sofreram perdas terríveis, como aparentemente também sofreu o exército de Arnor. Nada é dito do que aconteceu com o exército e o rei de Khazad-dûm.

Um dos prováveis benefícios da guerra para os Povos Livres foi a diminuição de Númenorianos Negros que, embora não destruídos, foram incapazes de estabelecer um grande reino como Gondor ou Arnor (a menos que este fosse Umbar, que eventualmente foi conquistado). Mas um dos grandes custos da guerra teria sido a virtual ruína da antiga civilização Beleriândica em Lindon. O povo de Círdan incorporou o restante do povo de Gil-galad em Mithlond e alguns podem ter se assentado em ou próximo a Imladris, mas a maioria dos sobreviventes abandonou a Terra-média [57].

Arnor emergiu da luta enormemente enfraquecido. Gondor, entretanto, cresceu em poder daquela época em diante, e por mais de 1600 anos manteve uma vigília sobre Mordor contra o eventual retorno de Sauron. A Aliança falhou em atingir uma vitória permanente sobre Sauron, em grande parte porque no final Isildur falhou em destruir o Um Anel quando teve a chance. E ainda assim, tivesse ele seguido o conselho de Círdan e Elrond, o que seria dos Elfos na Terra-média? A tolice de Isildur foi o triunfo da Aliança, pois os Eldar foram assim capazes de usar seus três Anéis de Poder remanescentes por mais de 3000 anos para melhorar seu mundo.

Tolkien escreveu que a Terceira Era era “os últimos anos dos Eldar. Viveram em paz por um longo tempo, controlando os Três Anéis, enquanto Sauron dormia e o Um Anel estava perdido; mas não tentaram nada de novo, vivendo de recordações do passado”. (O Retorno do Rei, p. 1148). Eles talvez não estabeleceram novos reinos, mas as canções élficas relatando as trágicas histórias de Nimrodel e a busca dos Ents pelas Entesposas mostram que os Elfos continuaram a prosperar e interagir com outros povos ao redor deles, muito após a guerra ter terminado.

Fim da parte 2.