Arquivo da categoria: Michael Martinez

Michael Martinez

Viajando na maionese de Asas e Cabelos

Michael Martinez

Novos livros de autoridade sobre a Terra-média são escassos e demandam enorme espera. Frequentemente, quando um novo livro é publicado fornecendo novas informações sobre a Terra-média, nossas queridas ideias que nutrimos por tanto tempo sofrem um sério desafio e devem ser reavaliadas.

The History of Middle-earth (HoME) caminha a passos tímidos para um nada profundo desfecho através das notas finais de Christopher Tolkien sobre “Tal-Elmar” finalizando The Peoples of Middle-earth. Seu papel no longo e meticuloso processo de organizar e publicar as anotações e manuscritos de seu pai termina de forma silenciosa. Tantas questões permanecem sem resposta no 12º volume da HoME que muitas pessoas expressam uma enorme frustração com este trabalho. “Isso é tudo que há para se falar sobre a Terra-média?”, perguntam elas.

A resposta dada então em 1996 era tanto “sim” como “não. “Sim”, pois a megalítica subestrutura dos detalhes foi cuidadosamente exposta, exceto por uma área que recebeu menor atenção. “Não”, pois Christopher prestou escassa atenção ao desenvolvimento de O Hobbit, uma tarefa delegada ao falecido Taum Santoski. Após o falecimento de Santoski, a responsabilidade recaiu sobre John Rateliff, que ainda tem de produzir a muito esperada história de O Hobbit (que em determinado momento possuiu o título provisório de Mr. Baggins ["Sr. Bolseiro"]).

O Annotated Hobbit, de Douglas Anderson, revisado e atualizado em 2002, serve como a fonte primária da comunidade tolkeniana para o estudo do desenvolvimento de O Hobbit. Uma fonte secundária vital é o livro J. R. R. Tolkien: Artist and Illustrator, editado por Wayne Hammond e Christina Scull. Alguns poucos comentários feitos por Christopher e espalhados pelos livros da História da Terra-média, impõem mais limites nas já limitadas fontes à disposição para o estudo do trabalho de JRRT em O Hobbit.

Muito dos materiais linguísticos restantes não-publicados de Tolkien foram colocados aos cuidados editoriais de um pequeno grupo de linguistas que trabalham com Christopher Gilson (Parma Eldalamberon) e Carl Hostetter (Vinyar Tengwar). Por conta das severas condições para o  uso desses escritos (fotocópias – os manuscritos originais não foram liberados), os materais-fonte estão presos no meio do fogo cruzado de disputas e acusações que permeiam a relativamente escassa e pequena comunidade linguística tolkeniana. Alguns dos principais lingüistas tolkenianos pressionam duro para que haja uma maior velocidade na disponibilização do material. O conflito ocasionalmente espalha-se para o domínio de discussões não-lingüísticas, mas em geral manteve-se contido dentro dos círculos de estudo linguísticos sobre Tolkien. Alguns materiais adicionais originários dos arquivos de Tolkien na Marquette University e da Bodleian Library de Oxford também fornecem aos linguistas novas informações.

Muitos dos entusiásticos leitores Tolkien estão familiarizados com as brigas. Os mundos dos estudos tolkienianos, tanto formais quanto informais, reverberam com as palavras acaloradas de debates inflamados. Não conheço nenhum estudioso de Tolkien que já não tenha me dito em particular “Você pode encontrar uma resposta com fulano ou sicrano, mas não mencione meu nome pois isso não vai abrir portas para você”. Realmente, até eu tenho me pego dizendo coisa parecida em certas ocasiões.

Alguém poderia pensar que, com a morte de Tolkien em 1973, já tenha passado tempo suficiente para que todo mundo tenha estudado tudo que seja possível imaginar sobre sua obra. A arte de analisar Tolkien, se não for apenas crítica barata contra Tolkien, deveria ser a esta altura uma análise bem definida e considerada quase científica. Mas a magia da arte de Tolkien é que ela continua a produzir novas descobertas, num ritmo quase anual. A última parte significativa do material lançado relacionado a Terra-média, durante a vida de Tolkien, foi provavelmente o mapa de Pauline Baines em 1969. O mapa inclui talvez meia dúzia de nomes de lugares que ninguém já tinha visto antes (tais como Edhellond, Lond Daer Ened e Framsburg).

Há entrevistas que Tolkien deu entre 1965 e 1971 nas quais ele revelou pequenos detalhes sobre personagens ou aspectos particulares da Terra-média. Há o famoso comentário no qual ele compara o idioma dos Anões (Khuzdul) ao hebraico. Há a entrevista onde ele discute a história de Tarannon Falastur e a Rainha Beruthiel, comparando-os ao deus nórdico Njord e sua esposa-giganta Skadi. Mas, na verdade, após a publicação da segunda edição oficial de O Senhor dos Anéis e da terceira edição especial de O Hobbit, o desenvolvimento da Terra-média ficou paralisado pelo resto da vida de Tolkien.

Somente quando Christopher Tolkien publicou O Silmarillion em 1977 (casualmente mencionando no Prefácio que não era realmente o Silmarillion de seu pai) é que as informações começaram fluir livremente. Com Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média (publicado em 1980), Christopher liberou uma torrente de informações sobre o mundo de O Senhor dos Anéis. Claro que havia uma enorme quantidade de informações em O Silmarillion, mas era difícil lê-lo e digerir tudo. Como um amigo meu colocou “Parece que há uns 20 nomes por página que você precisará lembrar para o resto do livro”.

A habilidade fecunda de Tolkien em criar nomes, personagens e genealogias inspirou muitos a escreverem livros de referência, sites de internet e FAQs. A maioria deles não vale a pena em ser consultada, na minha opinião, uma vez que as chances de estarem errados é considerávelmente grande de tal forma que você quase precisa memorizar tudo para saber se os livros de referência estão certos. Eles apresentam detalhes fundamentais de forma errada com tal freqüência que não se deve confiar neles. Mesmo o Complete Guide to Middle-earth, escrito por Robert Foster, que é geralmente aceito como uma fonte confiável, foi denunciado como fonte de erros e confusão, e ele parou de documentar a Terra-média com O Silmarillion.

Lembro tudo isso antes de dizer que, com cada novo lançamento de material anteriormente não-publicado, a tarefa de conferir, organizar e compreender tudo que foi realmente escrito por J. R. R. Tolkien a respeito da Terra-média torna-se cada vez mais complexa e desafiadora com o lançamento de cada novo livro. No decorrer dos anos, enquanto via pessoas endossar pessoalmente um livro de referência em específico sobre o trabalho de Tolkien, fui provavelmente um dos piores críticos que imediatamente apontava os defeitos de tal obra.  E metade do tempo pessoas retrucavam indignadas: “Bem, então por que você não escreve um você mesmo?”; e metade do tempo pessoas me pediam encarecidamente para fazer um trabalho melhor.

Desculpe, pessoal. Se eu achasse que poderia fazer melhor que qualquer outro, já eu teria tentado. Eu sei que cometeria enganos, e esses enganos me atormentariam pelo resto da vida, mesmo se eu fosse a única pessoa a enxergá-los. Algumas vezes você pode fazer tudo certinho e mesmo assim ainda dar errado.

Por exemplo, por vários anos depois que li pela primeira vez O Senhor dos Anéis, eu ficava me perguntando quem eram os Homens do Norte. De onde eles vinham? Porque diziam que eles estavam ligados aos Dunedain de Arnor e Gondor? Quando Contos Inacabados foi publicado, eu pensei que finalmente tinha a resposta.

Em O Senhor dos Anéis, Faramir diz a Frodo: “Nossos mestres de tradição dizem que eles detêm desde tempos antigos esta afinidade conosco e que eles provêm daquelas mesmas Três Casas dos Homens, como os Numenorianos o foram no princípio: talvez não de Hardor, o Louro, Amigo-dos-Elfos, mas ainda assim de seu povo e de seus filhos que não singraram o Mar para o Oeste, recusando o chamado”.

Ora, essa foi uma declaração bem específica, e por toda sua vida foi a única pista real que Tolkien nos forneceu sobre a origem dos Homens do Norte. O Silmarillion de fato confirma que alguns Edain retornaram a Eriador, e nenhum dos descendentes de Hador estava entre eles. Os “filhos” a quem Faramir se referia deviam ser portanto ser considerados de forma figurativa, exatamente como os Rohirrim referiam-se a si mesmos como Eorlingas (os filhos ou povo de Eorl).

Contos Inacabados menciona os descendentes daqueles Edain que retornaram para Eriador. Eles encontraram Veantur e os Numenorianos várias centenas de anos depois. Cerca de mil anos depois, Sauron invadiu Eriador, expulsando ou matando todos os Elfos e Homens. Então, o que aconteceu com o povo de origem Edainica? Por um bom tempo, achei que eles fugiram para leste, passando pelas Montanhas Nevoentas para os Vales do Anduin. Pareceu então plausível para mim. E quando compartilhei tal idéia com outras pessoas, várias concordaram.

No entanto, em 1996, The Peoples of Middle-earth dissipou essa especulação. No ensaio “Anões e Homens” descobrimos que os povos Edainicos fixaram-se por Rhovanion e Eriador. Isto é, antes que quaisquer Edain tivessem alcançado Beleriand, havia assentamentos Edainicos desde Carnen (o Rio Vermelho, que flui para o sul das Colinas de Ferro) para o oeste de Baranduin. As Três Casas dos Edain eram na verdade somente subgrupos daqueles povos maiores. Os Homens do Norte da Terceira Era eram simplesmente descendentes originários dos grupos provenientes mais ao leste que os primeiros colonos Edainicos.

As palavras de Faramir são consistentes tanto com minha interpretação dos textos e quanto com o ensaio canônico “Anões e Homens”. Esse ensaio é canônico no sentido que oferece uma explicação do próprio J. R. R. Tolkien sobre os fatos apresentados por Faramir para Frodo (e para o leitor). A Terra-média é criação dele, e assim ele decide onde as coisas devem ficar. Eu não. É claro, em uma observação anexada ao texto “Anões e Homens”, Tolkien especificamente faz referência à conversa de Faramir com Frodo. O ensaio, que ele escreveu mais ou menos em 1969, data assim de um período no final dos anos 60, quando Tolkien estava escrevendo uma enorme quantidade de “histórias de pano de fundo”. Ele estava preenchendo as lacunas, e em alguns casos, mudando de idéia sobre o que havia sido publicado 15 anos antes.

Uma das ironias curiosas sobre o trabalho de Tolkien é aquilo que Christopher Tolkien enfatiza, especialmente em The Peoples of Middle-earth, de que seu pai sentia-se compelido a respeitar o que havia sido publicado. Por este motivo, quando escrevia um bom pedaço sobre o significado de “-ros” do nome de Elros, J. R. R. Tolkien teve de se controlar e parar com tudo.

Mas, infelizmente, essa explicação complica-se por um pequeno fato que passou desapercebido por meu pai, e que foi algo fatal. Ele anotou no texto que boa parte dessa explicação é falha por conta do nome Cair Andros (um nome Sindarin, como eram praticamente todos os topônimos de Gondor), a ilha do Anduin ao norte de Minas Tirith, que foi mencionada no Apêndice A (RdR, p. 334, nota de rodapé) como significando “Navio de longíneas espumas”, uma vez que a ilha tinha a forma de um enorme navio, com a proa apontando para o norte, contra a qual a espuma branca do Anduin quebrava nas escarpadas rochas. Assim, ele foi forçado a aceitar que o elemento -ros de Elros tinha de ser o mesmo que em Cair Andros, que a palavra deveria ser Eldarin e não Atanica (Beoriana) e que não devia haver qualquer relação histórica entre essa palavra e o Rothinzil Adunaico Numenoriano (The Peoples of Middle-earth, p. 371, Houghton Mifflin Co. [HMCo])

Tolkien encontrava-se navegando nas águas perigosas dos domínios “das histórias de fundo”, muito antes de 1969. De fato, logo após ter começado a trabalhar nos Apêndices de O Senhor dos Anéis, em 1950 (ele terminou o primeiro texto em 1948), Tolkien elaborou notas sobre a história dos Anões. E então a sua editora, a George Allen & Unwin, surpreendeu-o com a prova tipográfica para a segunda edição de O Hobbit. Em 1947, Tolkien escreveu para a Allen & Unwin sugerindo que se algum dia viessem a produzir uma segunda edição de O Hobbit, ele sentia que seria melhor revisá-lo de forma a ser compatível com O Senhor dos Anéis que, embora iniciado como uma seqüência de O Hobbit (por conta da requisição do editor), havia evoluído de forma a se tornar uma consolidação de várias histórias e mitos que previamente não estavam associados a este (Hobbits, os Eldar, os Numenorianos, etc.).

Depois de ler as provas tipográficas, Tolkien percebeu que teria de mudar o material em seus Apêndices em invés de lutar para conseguir mudanças substanciais em O Hobbit.

O estágio de correções é considerado muito tardio para que um escritor possa reescrever uma quantidade substancial de sua obra (apesar das declarações de Tolkien sobre ter feito consideráveis edições em provas tipográficas de vários de seus livros). Os Apêndices de SdA são assim o primeiro texto pós-SdA a sofrer considerável influência de uma fonte extra-SdA. E de modo algum este é o último texto desta natureza.

“A Caçada ao Anel” é outro texto pós-SdA que foi, de fato, composto (ou ao menos iniciado) antes da publicação de O Senhor dos Anéis propriamente dito. Christopher Tolkien sugere que ele foi iniciado após o primeiro volume de O Senhor dos Anéis ter sido publicado em 1954, mas antes da publicação do terceiro volume (o que ele deduziu por conta dos conflitos de datas entre “A Caçada ao Anel” e o livro). Tencionava-se incluir a “A Caçada ao Anel” em um “volume especialista” que Tolkien mencionou em uma carta de 1956 (No. 187, As Cartas de J. R. R. Tolkien). Sua intenção original era produzir um glossário de topônimos a partir do livro, sendo complementado por notas lingüísticas.

Mas os problemas (prazerosos se eu tivesse tempo) que o volume extra apresentará ficarão claros se eu lhe disser que, enquanto muitos como o senhor exigem mapas, outros desejam indicações geológicas ao invés de lugares; muitos querem gramáticas, fonologias e amostras Élficas; alguns querem métrica e prosódias – não apenas das breves amostras Élficas, mas também dos versos “traduzidos” nos modos menos familiares, tais como aqueles escritos na forma mais rígida do verso aliterativo anglo-saxão (como por exemplo o fragmento no final de Batalha de Pelennor, V vi 124). Músicos querem melodias e notações musicais; arqueólogos querem cerâmica e metalurgia. Botânicos querem uma descrição mais precisa do mallorn, da elanor, niphredil, alfirin, mallos e symbelmynë; e historiadores querem mais detalhes sobre a estrutura política e social de Gondor; questionadores gerais querem informações sobre os Carroceiros, o Harad, origens Anãs, os Mortos, os Beornings e os dois magos que faltam (dos cinco). Será um volume grande, mesmo que eu me atenha apenas às coisas reveladas à minha limitada compreensão!

Está claro que, ao produzir Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média, Christopher Tolkien esperava – pelo menos até certo ponto – realizar o desejo de seu pai de publicar um volume complementar de O Senhor dos Anéis. Mas Contos Inacabados não poderia ser o livro que seu pai teria escrito mais do que O Silmarillion poderia ser. Ambos são apenas aproximações imperfeitas do que poderia ter sido produzido, se o Tempo e a Imaginação não tivessem escorridos das mãos de JRRT. Enquanto que com O Silmarillion Christopher tentou construir uma narrativa completa, ele dispensou tais intromissões editoriais consideráveis na compilação de Contos Inacabados. O segundo livro estabelece a base para o extraordinário estudo de Christopher na série The History of Middle-earth. Contos Inacabados provou que Christopher podia, até certo grau, separar sua voz da de seu pai e que podia atrair os leitores tanto no processo subcriativo quanto na análise editorial.

Christopher cometeu erros pelo caminho. Ninguém poderia produzir estes 14 livros e não cometer erros. Ele freqüentemente anotava seus erros nos comentários iniciais de cada volume ou nas observações finais de seções especiais. Às vezes, Christopher era extremamente duro consigo mesmo, como podemos ver na página 141 de The Peoples of Middle-earth onde, após citar a si mesmo de um volume anterior, ele escreveu:

Esta última observação é um absurdo óbvio. A longuíssima linha de reis Numenorianos, que entrou no curso do desenvolvimento de Akallabeth, estava presente no Apêndice A (e uma olhada rápida pelos textos da obra é suficiente para mostrar, pelo simples fato de sua aparição, que eles não poderiam datar de maneira concebível de uma data tão tardia)…

O fardo de Preciso-Estar-Certo somente aumenta para alguém como Christopher ou Wayne Hammond, com as súplicas dos leitores ao redor do mundo para que produzam evidências conclusivas a favor ou contra várias questões. Sendo o mais respeitado e conhecido bibliógrafo de Tolkien, Hammond ganhou seu espaço nos estudos tolkienianos que rivaliza com o do próprio Christopher em termos de autoridade. Poucas pessoas desejariam desafiar algum ponto fornecido por Hammond, apesar de nem Christopher Tolkien nem Wayne Hammond jamais afirmarem ter a última palavra de autoridade em qualquer assunto. Ambos de livre e espontânea vontade reconhecem as contribuições e correções de outras pessoas.

Ainda assim, Hammond foi a autoridade a quem apelei há não muito tempo atrás, quando alguém me perguntou por que freqüentemente eu dizia que J. R. R. Tolkien traduziu o Livro de Jó para a Bíblia de Jerusalém. Afinal de contas, “todo mundo sabe que foi o livro de Jonas”.* Bem, minha fonte era uma nota bibliográfica acima de qualquer contestação que Wayne Hammond e Douglas Anderson haviam publicado. A informação não foi contestada com sucesso durante quase 30 anos. Ela parecia bem confiável. Mas com o objetivo de ser o mais completo possível, eu perguntei para membros da Mythopoeic Society se havia evidência em contrário. O próprio Wayne Hammond respondeu com um longo resumo de sua recente e minuciosa pesquisa sobre o assunto. Ele chegou à conclusão que JRRT não traduziu Jó como afirmava um editor. Seu raciocínio – que é muito comprido para reproduzir aqui – convenceu-me (e a outros) a oferecer uma retratação pública pelo engano.

* Ambos livros do Velho Testamento; um contando sobre as súplicas de Jó para Deus (e a resposta dEste) e outro sobre Jonas e a baleia. [N. da T.]

Mas este é o motivo pelo qual não escrevo enciclopédias sobre Tolkien. Eu batalho para usar somente as fontes mais confiáveis e, além de quaisquer enganos que eu cometa de minha parte, serei ocasionalmente forçado a viver com as conseqüências pelo resto de minha vida. Outras pessoas podem achar que vale a pena tentar, e se alguém reclama ou os critica, eles podem dizer “Pelo menos eu tentei”. Talvez, mas tentar não justifica os erros. Nem Christopher Tolkien ou Wayne Hammond (ou outros cujos trabalhos eu respeito) se encolhem em um canto com uma justificativa tão medíocre.

Mas a combinação de erros de estudo que surgem a partir de textos secundários e terciários é tanto sua própria recompensa quanto sua punição. Eu acho mais fácil revisar as obras e fornecer os esclarecimentos. Pelo menos, quando consideradas com as explicações, essas obras tornam-se mais úteis do que se ninguém dissesse nada simplesmente porque “pelo menos eles tentaram”. O Atlas da Terra-Média de Karen Fonstad é, em minha opinião, o melhor de vários livros que procuram documentar a cartografia da Terra-média.

De qualquer maneira, eu não concordo com todas as conclusões dela, e ela comete sérios alocamentos errôneos em alguns dos mapas (ela dá até mesmo duas localizações para Rhosgobel). Em correspondência particular, uma pessoa da família Fonstad (que achou que minha resenha do Atlas foi muito rude e crítica) reclamou que Fonstad esperava publicar uma versão revisada e corrigida do atlas, mas o editor matou a idéia pois eles não queriam mudar um livro obviamente popular (e agora altamente lucrativo).

Desta forma, quando alguém faz o esforço de documentar algo tão complexo e com diversidade cronológica tão ampla e multifacetada como as mitologias de Tolkien, ainda assim não há garantias que as correções serão publicadas. Ou, pior ainda, elas podem ser divulgadas por uma terceira pessoa. Há um velho ditado: escolha com cuidado as batalhas que queira lutar, pois a próxima pode ser sua última. Ou pior, pela minha própria experiência, pode ser uma batalha que nunca terminará.

Vamos dar uma olhada no livro recém publicado de Wayne Hammond e Christina Scull, The Lord of the Rings: A Reader’s Companion. Muitas pessoas estão curiosas em saber do que trata o livro. Eu direi do que não se trata: não é o guia definitivo que responderá cada pergunta já feita pelos leitores de Tolkien. Hammond e Scull não fingem que seu trabalho deva ser tratado desta forma, mas eles parecem cientes da inevitabilidade de ganhar esta distinção particular. Em seu Prefácio, eles convidam as pessoas a partilhar idéias e correções com eles (e reconhecem os esforços feitos por várias pessoas cujos nomes e trabalhos também apreciei).

O Reader’s Companion fornece notas informativas e confiáveis sobre O Senhor dos Anéis. Parece que ele esclarece e explica várias palavras e citações que geralmente são obscuras para o leitor médio. O livro é um guia muito melhor que vários outros que já li ou dei uma olhada, mas não se preocupa muito em resumir os detalhes. Incluindo o glossário, minha edição em brochura tem quase 900 páginas. Os autores confessam que é o dobro do que eles originalmente pretendiam.

Para ajudar os leitores a entender o que repousa além das meras palavras no livro, Hammond e Scull esforçaram-se em uma das mais sérias, considerativas e detalhadas pesquisas que eu vi ser publicada até hoje. A abrangência de seu trabalho vai bem além das observações breves e comuns e de páginas de referência. Alguns tópicos ganharam vários parágrafos de discussões e citações detalhadas. E os pesquisadores tolkienianos ficarão contentes em perceber que vários textos previamente não-publicados são mencionados, e por vezes até são citados. Infelizmente, esses textos propriamente ditos permanecem fora do alcance do público comum, e é minha esperança sincera que, algum dia, alguém tenha permissão de publicá-los com um mínimo de manipulação editorial.

Os editores precisam manipular textos. Sendo eu próprio um autor que já trabalhou com mais de um editor, entendo o processo. Algumas vezes o autor não deixa claro um assunto tão bem quanto poderia. Mas os manuscritos e notas de Tolkien estão sendo usados como fontes de autoridade para alguns dos estudos mais obscuros e intrincados que alguém poderia associar com a Terra-média. A Terra-média em si não possui o mesmo valor na pesquisa formal que a criação da Terra-média, e ainda assim a maioria das pessoas quer saber mais sobre a Terra-média e menos sobre como as coisas surgiram e o que elas podem significar na vida do autor. Há ainda muito a ser compreendido naqueles textos não-publicados que gerações inteiras de estudiosos e comentaristas de Tolkien ainda estão para nascer, gerações que terão coisas para dizer nunca antes expressadas. Não estou certo se a comunidade tolkeniana aprecia completamente a profundidade do legado dele.

Para ser honesto, há alguns tópicos abordados em Reader’s Companion que eu acabei enxergando sob uma nova perspectiva. Eu realmente espero ser necessário cerca de 2 anos para conseguir captar toda a profundidade deste trabalho, não apenas por conta das novas citações e referências, mas também porque eles reescreveram alguns velhos pontos de vista melhor que do eu já vi serem expressos antes. Mas, claro, o novo material fornecerá combustível considerável para reflexão nos anos que virão.

Por exemplo, fiquei surpreso em perceber que “Earendil era um marinheiro” (canção de Bilbo, ouvida em Valfenda, publicada em “Muitos encontros” em A Sociedade Do Anel) nunca apareceu em O Senhor dos Anéis na forma que J. R. R. Tolkien pretendia que aparecesse. Houve tantas edições do livro que presumi (erroneamente) que todos os esforços possíveis foram feitos para tornar cada nova edição fiel aos desejos de Tolkien. Porém, esse não foi o caso.

Não há um texto de SdA publicado que seja completamente fiel às intenções de Tolkien. A versão final do poema está publicada tanto em The Treason of Isengard (pp. 103-104, Houghton Mifflin Co.) e em The Lord of the Rings: a Reader’s Companion, mas não em qualquer edição de O Senhor dos Anéis propriamente dito. Mesmo assim, esse poema é bastante revelador com relação a um considerável número de pequenos detalhes na história de Tolkien e com respeito ao seu estilo de escrita. Por exemplo, uma das mais interessantes estrofes é a seguinte:

In might the Feanorians
that swore the unforgotten oath
brought war into Arvernien
with burning and with broken troth;
and Elwing from her fastness dim
then cast her in the waters wide,
but like a mew was swiftly borne.

Em poder os Feanorianos
que prestaram o juramento jamais esquecido
trouxeram consigo guerra a Arvenien
com fogo e lealdade partida
e Elwing em sua presteza nublada
atirou-se então nos infinitos mares
mas como uma gaivota* prontamente renasceu.

* No original, mew é uma gaivota pequena, conhecida como gaivota parda no Brasil. Nome científico Larus canus, encontrado na Eurásia e América do Norte. [N. da T.]

Há muito mais na estrofe, mas deixe-me interromper em “como uma gaivota” e mostrar minha posição. Qualquer um familiar com a história como contada em O Silmarillion sabe que quando Elwing atirou-se ao mar, Ulmo (um dos Valar) salvou-a da morte certa e transformou-a em um pássaro. E na forma de pássaro ela voou pelos mares e eventualmente encontrou o navio de Earendil (seu marido). Por conta de seu sacrifício, e pela intervenção de Ulmo, Elwing salvou a Silmaril que Beren e Luthien recuperaram da coroa de Morgoth e das garras dos filhos sobreviventes de Feanor.

A decisão de Tolkien de reformar esta parte do poema usando “como uma gaivota” a partir de uma referência mais literal para a transformação pode não parecer significativa para muitas pessoas, mas ainda assim eu não consigo deixar de lembrar da ocasião quando alguém perguntou: Elfos têm asas? A pergunta, creio, está relacionada à clássica “Balrogs têm Asas?”, uma guerra na qual alguns dizem que têm e outros dizem que não. Ao perguntar se os Elfos de Tolkien têm asas, o inquisitivo colega revela quão insignificante é tal debate no estudo da obra de Tolkien. Mas esse assunto avança furiosa e impavidamente, sob os olhares surpresos e comentários que ele extrai das vias secundárias.

Desta forma, “como uma gaivota” me lembra do debate sobre as Asas do Balrog, no qual os argumentos principais são feitos a partir da escolha de Tolkien pela palavra “como”.

O Balrog alcançou a ponte. Gandalf parou no meio do arco, apoiando-se no cajado com a mão esquerda, mas na outra mão brilhava Glamdring, fria e branca. O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas. Levantou o chicote, e as correias zuniram e estalaram. Saía fogo de suas narinas. Mas Gandalf ficou firme. (Extraído de “A ponte de Khazad-dum”, A Sociedade do Anel)

“A sombra à sua volta se espalhou como se duas grandes asas” é normalmente citada como prova de que o Balrog não tinha asas. O argumento sustenta que “como” cria uma similaridade, e similaridades são usadas (no uso mais estrito das palavras) na comparação de uma coisa com outra que não se parece com a primeira, de forma a enfatizar um determinado aspecto. Bem, isso é o máximo de concisão que posso fazer sobre uma explicação sobre a palavra similaridade às 3 horas da madrugada.

Digamos que eu tenha um carro amarelo. Eu poderia dizer que meu carro é amarelo como uma banana. Isto significa que é realmente “amarelo-banana”? Não necessariamente, mas quando você pensar naquela cor em um carro, você visualizará algo parecido com o meu carro amarelo.

O problema com a argumentação de similaridades, no entanto, é que esse argumento assume que “como” é sempre usado como uma similaridade. Se este for o caso, então Tolkien tem um sério problema. Pois, anteriormente no texto, ele escreveu:

Legolas se virou e preparou uma flecha, embora a distância fosse grande demais para seu pequeno arco. Puxou a corda do arco, mas sua mão caiu, e a flecha escorregou para o solo. Ele deu um grito de desespero e medo. Dois grandes trolls apareceram. Traziam grandes lajes que jogaram no chão para servir de passarela por cima do fogo. Mas não foram os trolls que encheram o elfo de medo. A multidão de orcs se abriu, e se amontoou do lado, como se eles próprios estivessem com medo. Alguma coisa vinha atrás. Não se podia ver o que fosse: era como uma grande sombra, no meio da qual havia uma forma escura, talvez humanóide, mas maior; poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor. (Ibid.)

Aqui Tolkien usa “como” para introduzir a similaridade “como uma grande sombra”. Isto é, o Balrog, quando aparece pela primeira vez, é tão escuro que os membros da Sociedade do Anel mal conseguem discernir sua figura da escuridão ao redor. É somente pouco menos escuro que a escuridão que provém do fundo do salão de pedra, caminho por onde ele aproxima-se deles.

Se a regra de similaridade deve ser aplicada de forma justa e consistente, então devemos concluir que não há sombra (ou escuridão) pois ela é somente como uma sombra ou escuridão. E, portanto, se não há tal coisa, então a sombra não-existente não pode ser comparada (via similaridade) a duas enormes asas. Bem, isso é simplesmente absurdo, de modo que as asas devem estar lá. Mas isso não significa que o assunto foi encerrado de forma satisfatória. Porque se são asas, de que tipo elas são?

Quando o Balrog se aproxima, ele salta sobre uma fenda ardente e revela que ele é imune ao fogo quando as chamas saltam para engolfá-lo. De fato, a presença do Balrog diminui a luz do fogo:

A figura veio para a extremidade do fogo e a luz se apagou, como se uma nuvem tivesse coberto tudo. Então, com um movimento rápido, pulou por sobre a fissura. As chamas bramiram para saudá-la, e se ergueram à sua volta; uma nuvem negra rodopiou subindo no ar. A cabeleira esvoaçante se incendiou, fulgurando. Na mão direita carregava uma espada como uma língua de fogo cortante; na mão esquerda trazia um chicote de muitas correias. (Ibid.)

Sombra é a ausência de luz em uma área que está cercada de luz. Quando você traz uma luz para perto de uma área que está “envolta em sombra”, as sombras fugirão da nova fonte de luz, e elas podem até desaparecer completamente. E ainda assim, quando esse Balrog que é “como uma grande sombra” aproxima-se das chamas claramente visíveis, a luz do fogo é enfraquecida em vez de fazer a escuridão retirar-se como faria uma sombra normal. Assim, mesmo que Tolkien claramente utilize a palavra “sombra” ao referir-se à escuridão que o acompanha e é aparentemente uma estensão ou uma emanação do Balrog, ele não está falando de uma sombra normal que é criada por algo que bloqueia a luz.

As pessoas que discordam dos Balrogs alados insistem que se ele realmente tivesse asas, o Balrog poderia voar. O problema com esse argumento é que ele assume primeiro que Balrogs alados possam voar, segundo que se eles podem voar então devem usar suas asas, terceiro que havia espaço para o Balrog voar e quarto que há algum lugar para onde voar. De fato, as hipóteses podem se estender consideravelmente. Nenhuma dessas hipóteses surgiu do texto, veja bem. Elas são simplesmente objeções falsas, nascidas na forma de reformulação da história como deveria ser escrita de acordo com um padrão arbitrário de correção, convenientemente arranjado de forma a não permitir a possibilidade de que as asas dos Balrogs sejam, em qualquer sentido da palavra, reais.

Na verdade, uma outra hipótese é de que as asas devam ser asas palpáveis. Isto é, as pessoas parecem pensar que se Tolkien realmente quis dizer que a Sociedade viu “asas” no Balrog, então essas asas devessem ser uma parte física de seu corpo. Essa objeção é a mais descabida, considerando-se o fato que o Balrog bufa chamas, que sua “cabeleira” pega fogo (ainda assim insistem que essa cabeleira é de cabelo ou algo parecido?) e que ele leva um bom tempo para chegar ao fundo do abismo na sua queda. Quanto tempo é “muito tempo”? Tolkien não diz. Mas se é uma distância medida em milhas ou só em milhares de pés, um homem não cairia por “um longo tempo”. Gandalf diz a Aragorn, Legolas e Gimli que ele e o Balrog caíram por muito tempo antes de atingir a água, e enquanto caíam Gandalf golpeara o Balrog com sua espada.

É interessante notar que as pessoas não perguntam se Balrogs sangram. Não seria normal uma criatura viva gritar em agonia e sangrar um bocado se alguém a estivesse golpeando com uma espada Élfica? Então por que Gandalf não mencionou que o Balrog estava sangrando, ou qualquer outra menção da reação do corpo do Balrog com o impacto de sua espada?

Por outro lado, as pessoas insistem que o Balrog morto ou agonizante poderia se salvar quando Gandalf o lançou do topo da montanha, onde “bateu-se contra as paredes da montanha em sua ruína”. Mas elas não parecem ter problemas com Smaug nem com Ancalagon, o Negro, ambos indubitavelmente dragões alados e voadores, que foram incapazes de salvarem a si próprios quando se bateram contra montanhas e lagos em suas ruínas. Parece meio injusto que o Balrog tenha de provar que é realmente capaz de voar no momento de sua morte. Não que a habilidade de voar ou de atenuar sua queda no ar deva necessariamente depender de asas para uma criatura que já tem toneladas de rochas caindo na cabeça (por Gandalf, na Câmara de Mazarbul, quando o Balrog tenta seguir a Sociedade pela porta que eles usaram como rota de fuga).

Dizer que uma coisa dessas é um argumento baseado em semântica é inexato e bastante equivocado. É um argumento baseado em preferências pessoais e exclusões arbitrárias. As longas discussões sobre Balrogs e suas asas (ou a ausência delas) alcançou uma variedade enorme de textos, inclusive O Silmarillion. Infelizmente, devido ao trabalho editorial de Christopher, O Silmarillion (confessando isso pessoalmente) não retrata de forma acurada os textos originais de seu pai, ou suas intenções. Uma passagem em particular que foi apontada por ambos os lados é freqüentemente mencionada como sendo a “passagem de Hithlum”. É o parágrafo no qual os Balrogs vêm em auxílio de Morgoth quando este está lutando contra Ungoliant:

…Nas profundezas de lugares esquecidos, aquele grito foi ouvido. Muito abaixo dos salões destruídos de Angband, em subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, Balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retorno de seu Senhor. E agora, velozes, eles se ergueram e, passando por Hithlum, chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas… (O Silmarillion, “Da fuga dos Noldor”, p. 81, HMCo)

Não há menção de asas neste texto, mas uma versão anterior do texto incluía as palavras “com velocidade alada”:

Mas o grito de Morgoth naquele momento foi o maior e mais terrível que já fora ouvido no norte do mundo: as montanhas agitaram-se e a terra tremeu, e as rochas foram partidas em pedaços. Nos mais profundos e esquecidos recessos ouviu-se aquele grito. Muito abaixo dos salões de Angband, nos subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, os Balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retorno de seu senhor. Velozes eles se ergueram e com velocidade alada passaram por sobre Hithlum, e chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas. (“The Later Quenta Silmarillion II”, Morgoth’s Ring)

A “velocidade alada”, no entanto, não é realmente a pista para o modo de viagem dos Balrogs. A passagem acima foi retirada de um texto datado por Christopher Tolkien como sendo de meados da década de 1950. É um texto pós-SdA, apesar de conter uma história longa e de tons variados, visto que foi baseada em uma cópia datilografada de um texto pré-SdA. JRRT escreveu várias notas e mudanças à mão naquela cópia. Na versão original (publicada em The Lost Road and Other Writings), os Balrogs somente apareciam: “Em seu auxílio vieram os Balrogs que viviam ainda nos recessos mais profundos de sua antiga fortaleza ao norte, Utumno. Com seus chicotes de chamas, os Balrogs destruíram as teias…”

Tecnicamente, os Balrogs pré-SdA viajavam grandes distâncias, mas eles não eram seres flamejantes. Isto é, eles não se tornaram criaturas de “chamas e sombras” até 1940 ou 1941, quando Tolkien revisou “A Ponte de Khazad-dum”, abandonando o Balrog original de braços longos pela versão sombria e flamejante que ameaça a Sociedade. Christopher Tolkien já discutiu as datas do desenvolvimento deste capítulo em The Treason of Isengard, para aqueles que queiram verificar minhas justificativas.

Por que os Balrogs chegam numa “tempestade de chamas” em Lammoth? Uma tempestade é uma tormenta, e tormentas vêm naturalmente do céu. O argumento de similaridade implica que os Balrogs vieram voando, com ou sem asas. Então será que o Balrog de Moria voava naquela hora? Não sabemos. Mas sabemos que demorou um bom tempo para chegar no fundo do precipício. É possível que o Balrog pudesse retardar sua queda. Ele não teria de depender do agitar de asas, se seu corpo fosse não-substancial de alguma forma. Ou talvez ele somente manuseou o calor e usou-o como uma espécie de propulsão de foguete natural. Tolkien não insiste nos detalhes da Longa Queda, mas ele fornece algumas pistas que podem ou não nos conduzir na direção correta de seus pensamentos.

Porém, o Balrog claramente não é uma criatura de carne e osso. Nenhuma criatura desse tipo pode sobreviver sendo consumido pelo fogo, uma vez que as chamas iriam saltar para sua cabeleira e incendiá-la. E é quase certo que este Balrog queima:

A figura escura, envolvida em fogo, corria em direção a eles. Os orcs gritavam e avançavam para a passarela de pedra. Então Boromir levantou sua corneta e a tocou. Forte o desafio soou e retumbou, como o grito de muitas gargantas sob o teto cavernoso. Por um momento os orcs estremeceram e a sombra flamejante parou. Então os ecos se extinguiram de repente como uma chama apagada por um vendaval, e o inimigo avançou outra vez (Extraído de “A ponte de Khazad-dum”, A Sociedade do Anel)

Observe como Tolkien descreveu o Balrog neste ponto de seu avanço contra a Sociedade: “sombra flamejante”. O que quer que seja, não está simplesmente projetando uma sombra. Não é possível ele ser capaz de projetar uma sombra, uma vez que está em chamas. Portanto, o que é esta escuridão que Tolkien chama de “sombra”?

Quando o Balrog enfrenta Gandalf na ponte, Tolkien escreve:

– Você não pode passar – disse ele. Os orcs estavam quietos, e fez-se um silêncio mortal. – Sou um servidor do Fogo Secreto, que controla a chama de Anor. Você não pode passar. O fogo negro não vai lhe ajudar em nada, chama de Udun. Volte para a Sombra! Não pode passar!

O Balrog não fez sinal de resposta. O fogo pareceu se extinguir, mas a escuridão aumentou. Avançou devagar para a ponte, e de repente saltou a uma enorme altura, e suas asas se abriram de parede a parede, mas ainda se podia ver Gandalf, brilhando na escuridão; parecia pequeno, e totalmente sozinho: uma figura cinzenta e curvada, como uma árvore encolhida perante o início de uma tempestade. (Ibid.)

Bem, agora que as chamas diminuem, certamente se espera que a escuridão aumente… exceto pelo fato que agora o Balrog está bem em frente de Gandalf, cujo cajado emite luz (ou melhor, ele próprio está iluminado, pois está “brilhando na escuridão”). E há ainda o precipício em chamas atrás dele, então se esperaria que a Sociedade estivesse pisando na sombra do Balrog, e não a vendo.

Gandalf fala sobre o “fogo negro”, dizendo que ele não ajudará o Balrog, e chama este de “chama de Udun”. Essa criatura está claramente associada ao fogo, e ainda assim sua escuridão sobrepuja qualquer luz natural e quase oblitera a luz angelical de Gandalf.

Desta forma, tratar a escuridão do Balrog como sendo uma sombra real e natural qualquer é um absurdo tão grande quanto insistir que as “asas” (aquelas extensões da escuridão que parecem ter forma de asas) devam ser asas físicas e passíveis de serem utilizadas, ou mesmo asas que tenham qualquer capacidade de erguer e sustentar o Balrog num vôo. Se nos afastarmos da cena por um momento e a reduzirmos a uma linguagem corporal simples, poderemos ver que o Balrog gradualmente aumenta a si mesmo de tamanho, expandindo sua escuridão exterior (que chamei de emanação, mas não sabemos realmente o que é) para fora e além de seu corpo.

A Sociedade recua perante o Balrog, mas em determinado momento Boromir detém-se e sopra sua corneta. O som é tão intimidador que mesmo o Balrog hesita. E assim Boromir começa uma variação das brigas que ocorrem geralmente em pátios escolares. A resposta do Balrog é tornar a avançar, agora com uma nuvem completamente estendida de escuridão, com tal poder dominante que quase engolfa Gandalf na ponte. A despeito do fogo por trás dele, e a despeito da luz emanando de Gandalf diante dele, o Balrog cria e estende uma parede de escuridão que se torna o foco da atenção de todos, mesmo que por um breve momento.

Sombras naturais não funcionam dessa forma.

Muitos anos atrás, quando a ansiedade pelo filme de Peter Jackson nos matava, a Batalha sobre as Asas de Balrog atingiu seu ápice. Apenas a título de curiosidade, organizei uma enquete para ver quantas pessoas achavam que os Balrogs deviam ter asas. Dentre as mais de 3 mil respostas, cerca de 74% disseram que o Balrog devia ter algum tipo de asas. Não havia no entanto consenso sobre que tipo de asas elas deviam ser. O Balrog do filme, como vimos, tinha asas de “fumaça e sombra” e talvez mais fumaça que outra coisa. Eu acho que a fumaça foi colocada para cobrir a sensação de escuridão com a qual o Balrog do livro se cercou.

Porém, este assunto é discutido com tanta freqüência – de uma forma ou de outra – que vários fóruns hoje proíbem as discussões sobre asas de Balrog. As pessoas que levantam o tópico são tratadas com desdém na esperança que o assunto morra. Afinal de contas, como disse Rudyard Kipling “O Leste fica a leste e Oeste fica a oeste, e nunca os dois encontrar-se-ão”. As pessoas simplesmente se recusam a mudar de idéia.

Portanto, talvez não devêssemos ficar muito surpresos ao ver o assunto tratado, por mais breve que seja, em The Lord of the Rings: a Reader’s Companion, onde três frases completas são dedicadas ao assunto:

330 (I:344). a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas – esta e a declaração de dois parágrafos depois, sobre ele saltar a uma enorme altura e suas asas se abrirem de parede a parede, conduziu a várias discussões entre os leitores sobre se os Balrogs possuem asas. Como duas grandes asas no primeiro parágrafo descreve a sombra que envolve o Balrog, e o segundo ainda parece aplicável a sua sombra: à medida que o Balrog aumenta de estatura, assim também sua sombra espalha-se ainda mais. Outras evidências citadas para asas, tais como as que o os Balrogs erguem-se e passam com velocidade alada por sobre Hithlum (Morgoth’s Ring, p. 297,) podem ser geralmente interpretadas de forma figurativa.

Bem, há dois erros nesta passagem. Primeiro, a declaração que “à medida que o Balrog aumenta de estatura, assim também sua sombra espalha-se ainda mais” é inconsistente tanto com a declaração prévia feita por Hammond e Scull (onde eles reconhecem que “o Balrog em O Senhor dos Anéis é certamente um ser de fogo e escuridão;…”) e com a primeira passagem na qual “como duas grandes asas” surge. O Balrog não aumenta sua estatura ali, mas mesmo assim a sombra claramente se estende para o exterior. E segundo, como eu observei acima, a passagem de Hithlum não depende da “velocidade alada” para mostrar que os Balrogs possuem asas, depende da “tempestade de chamas” para mostrar que eles vêm do céu (na versão pós-SdA dos eventos).

Tolkien usa “tempestade de chamas” somente em uma outra passagem (publicada), quando Morgoth libera os dragões alados (e voadores) contra as Hostes de Valinor. Os dragões claramente voam e cospem fogo, assim a comparação com tempestade é bem colocada. Foi observado que “velocidade alada” é usada para descrever a presteza com que Fingolfin cavalgou por Ard-Galen depois da Dagor Bragollach. Desta forma, “velocidade alada” não precisa significar o uso de asas, mas só porque foi usada de forma figurativa sobre a velocidade dos cavalos (para denotar velocidade em sentido metafórico) não significa que é usada somente daquela forma com relação aos Balrogs – a não ser que alguém se sinta tentado a argumentar que Balrogs são “como cavalos” de alguma maneira.

O uso da similaridade por Tolkien para ilustrar uma transição de idéias vagas para idéias mais claras foi engenhoso no sentido de que deixa muito para a imaginação do leitor. Ele certamente dedicou algum tempo e esforço a essa passagem. Em 1998, outra pessoa que acreditava firmemente que Balrogs não tinham e nunca deveriam ter asas, recorreu para a voz com a maior autoridade neste assunto. Ele escreveu para Christopher Tolkien e fez uma pergunta que, até hoje, não foi revelada (para mim). Deduzi a partir do que ele compartilhou abertamente da resposta de Christopher que ele não perguntou simplesmente se Balrogs deviam ou não deviam ser vistos como seres alados. A carta foi enviada após uma longa troca de correspondência a respeito de diversas mudanças textuais que Christopher havia discutido em detalhe em The Treason of Isengard. A resposta de Christopher, como informado pelo correspondente, foi:

Geralmente não me era enviado o material tardio de Markette (sic) – os textos datilografados por meu pai – e em muitos casos nem sequer os vi… Assim, nunca li o texto datilografado final (o seguinte à cópia passada a limpo do manuscrito C (The Treason of Isengard, pp 203-33) de A Ponte de Khazad-dum (Markette n.º 3/3/25). Presumo que foi aí onde entrou a menção das asas do Balrog que se abriam de parede a parede. Você poderia pedir a Chuck Elston, o muito solícito arquivista de Markette, que lhe procure o 3/3/
25. Contudo, provavelmente não lhe seria muito útil, sem nenhum conhecimento preciso de quando meu pai datilografou-o: mas em uma carta de 28 de fevereiro de 1949, ele escreveu: “Estou achando o trabalho de datilografar uma cópia passada a limpo do ‘Senhor dos Anéis’ m. grande”. Eu, pessoalmente, nunca achei que a segunda menção das asas do Balrog tenha nenhum significado diferente da primeira.

Assim, aqui você tem uma resposta de uma autoridade maior que Michael Martinez ou Wayne Hammond ou Christina Scull. Faça dela o que achar melhor.

Compre The Lord of the Rings: A Reader’s Companion para sua coleção, especialmente se você faz qualquer tipo de pesquisa sobre Tolkien (para si mesmo ou para outros). É de longe uma fonte  muito melhor que muitas outras que há por aí nas livrarias ou na Internet. Apenas pule as partes que você não gostar.

Os comerciantes da Terra-média

Os comerciantes da Terra-média
 
Por Michael Martinez

De vez em quando alguém pergunta que moeda era usada na Terra-média. É
difícil de encontrar evidência de moeda (dinheiro) em O Senhor dos
Anéis, mas existem sim algumas referências sobre isso. Quando Gandalf
chegou à Vila dos Hobbits com uma carroça com fogos de artifício para o
último aniversário de Bilbo e Frodo juntos, crianças hobbits o seguiram
até Bolsão esperando por uma apresentação do mago. Ao invés disto,
Bilbo atira para elas alguns centavos e as manda embora. Mestre Gamgi
também relata que Bilbo é esbanjador em se tratando de dinheiro
enquanto fala com os amigos.

 
 
 

Tolkien chega a dizer no capítulo “Three Is Company”, que em português
é “Três não é demais”, que Frodo compra uma casa em “Cricôncavo” no
campo além de Buqueburgo. Frodo, mais tarde, vende Bolsão para a
família Sacola-Bolseiro, os inoportunos primos que há tempos esperavam
herdar a fortuna de Bilbo e a casa antes dele adotar Frodo.

A moeda aparece novamente quando os cavalos e pôneis são roubados do
estaleiro em Bri. Carrapicho paga a Merry 18 moedas de prata para
compensá-lo pela perda dos pôneis dos Hobbits e compra um pônei de Bill
Samambaia por outras 12 moedas de prata, 3 vezes o que o pônei valia
naquelas partes. Depois deste ponto, os Hobbits e seus companheiros,
depois que estes se juntam, são providos de suprimentos e transporte
pelas várias pessoas que os ajudam pelo caminho, logo a citação de
moeda se torna por demais superficial pelo resto da história.

“Pennies” ou moedas, são unidades surgidas no oitavo século
Anglo-Saxão, cunhadas e modeladas na contemporaneidade, mas rejeitadas
mais tarde pelos Francos. Offa, Rei da Mércia, expandiu a produção de
“penny” depois de conquistar o reino de Kent, o qual começou a cunhar a
moeda por volta de 765. As primeiras “pennies” foram, deste modo,
distintas das “pennies” de hoje. Elas eram feitas de prata e foram as
principais moedas do reino Anglo-Saxão do século VIII em diante, assim
como a “solidus” (moeda romana de ouro) tinha sido a principal moeda do
império Romano séculos antes. “Pennies” substituíram uma velha moeda,
chamada “sceat”, a qual foi usada no comércio entre os anglo-saxônicos
e os escandinavos.

A prévia publicação de “O Senhor dos Anéis” foi forçada a resumir o
extensivo material que ele havia preparado para os apêndices. Dentre as
passagens excluídas, a qual foi somente publicada no “The peoples of
Middle-earth” de forma breve, mas fascinante seção detalhando os nomes
do dinheiro usado em Gondor. O “tharni”, que nós sabemos, era a moeda
de prata, a quarta parte de um “castar”. O “tharni” pode, deste modo,
ter sido equivalente as moedas de prata (silver pennies) de Eriador.

O equivalente élfico para “tharni” e “castar” eram “canath” (do kanat-,
‘four’) e “mirian” (do mir, ‘uma jóia ou preciosidade’). "The
Etymologies" fornece a palavra primitiva, “mbakh”, significando
‘troca’, pela qual as palavras para ‘comércio’ e ‘comerciante’ são
derivadas no Qenya (precursor do Quenya). Existiam também palavras para
‘mascate’ e ‘mercadoria’ em Sindarin.

O fato das línguas antigas da Terra média reconhecer palavras como
‘comércio’ e ‘comerciante’ dá a entender que Tolkien chegou a pensar
nas atividades econômicas no começo, entre Elfos e Anões, entretanto
ele não providenciou detalhes destas atividades. Nós não sabemos na
verdade se ‘moedas’ eram usadas em Beleriand, por exemplo, mas Círdan
segundo boatos comercializou ou deu pérolas para Thingol, quem
abastecia destas os anões de Ered Luin.

Os anões construíram estradas ‘do começo ao fim’ da Terra-média no
início desta história. Os anões de Ered Luin construíram uma ou duas
estradas levando a Doriath, e a rota, eventualmente, estendia por todo
caminho para Nargothrond (a qual eles ajudaram a erguer). O comércio
anão passava pelo Dor Caranthir, e Caranthir é dito que se tornou rico
por este. Então ele presumivelmente cobrou encargos de algum caráter em
troca de manter as rotas a salvo e em segurança. Ele pode também ter
suprido os anões com comida, no “The people of Middle-earth” é contado
a nós que os anões não cultivam a sua própria comida.

Os anões só ajudaram a construir duas cidades em Beleriand que nós
saibamos: Menegroth e Nargothrond. Os Noldor tinham seus próprios
pedreiros para contar e eles presumivelmente construíram suas torres de
pedra sem a ajuda anã. Entretanto Anões e Noldor trocavam conhecimentos
e forjavam produtos, ao que parece. O potencial do comércio é neste
caso considerável, pelo menos mais ao leste de Beleriand.

Fora de Beleriand os anões tinham um sistema de estradas se estendendo
pelo menos de Ered Luin a todo o caminho para as Colinas de Ferro e
aparentemente mais longe. Os anões, como parece, se comprometeram de
certo modo com o comércio com elfos Avari e Nandorin, bem como os
Edain, mas nós não sabemos se a moeda era um meio de troca ou se a
troca de mercadorias e serviços eram os primeiros sinônimos de comércio.

{mospagebreak}
 
 
 

Na segunda era, a civilização Eldar se difundiu de Lindon (o último
refúgio de Beleriand), do leste e sul para Eregion e Edhellond.
Edhellond era apenas um assentamento, um território de Sindarin e
Nandorin, que aparentemente desejavam permanecer isolados de Gil-Galad
e seus Noldor que dominavam um reino no norte. Eregion era considerado
parte do reino Noldor, mas a sua população incluía pelo menos alguns
Sindarin e/ou Nandorin.

Eregion também estava envolvida em alguma espécie de comércio com
Khazad-dûm, a qual o comércio era tão produtivo que os anões escavaram
um túnel por milhas através das Montanhas Nebulosas na disposição de
prover os elfos com uma ponte para o seu reino subterrâneo. Antes deste
tempo, os anões tinham de passar externamente as montanhas, também ou
pelo Passo do Chifre Vermelho (a qual deu a eles acesso a Eregion) ou
indo ao norte para o Passo Alto onde a estrada primitiva atravessava
Eriador passando perto de onde Elrond mais tarde fundou o refúgio de
Valfenda.

Entretanto parece ter sido virtualmente pequeno ou nulo o comércio
entre Beleriand e as terras mais ao leste na primeira era, a segunda
era se realizou um incremento em Eriador e nas Terras Ermas. Duas
imigrações, do leste, ocorreram no início da Segunda Era, o que trouxe
contato mais próximo de Khazad-dûm com a civilização de Beleriand. A
primeira migração (grande êxodo) foi a dos anões de Ered Luin no
primeiro século. As cidades mais antigas de Nogrod e Belegost foram
arruinadas na Guerra da Ira. Os anões de Belegost também pareceram ter
sido perturbados pela guerra entre Doriath e Nogrod. Conseqüentemente,
muitos deles partiram e foram para Khazad-dûm, aonde eles aumentaram a
população e infundiram no povo de Durin o conhecimento que eles
ganharam com os Noldor e Sindar.

A segunda migração foi dos elfos, quando muitos Noldor e Sindarin
passaram para o leste. Alguns dos Sindar passaram as montanhas e
organizaram reinos em meio a elfos da floresta nos Vales do Anduin
(pelo menos dois, possivelmente mais). Estes elfos que fundaram Eregion
criaram um centro de comércio, o qual atraiu até mesmo os númenorianos
a estabelecer uma espécie de porto ou colônia perto “Tharbad” no rio
“Gwathlo”. Entretanto nós não podemos saber com certeza, o quanto
extensiva era a influencia de Eregion, a região estava em uma posição
de comércio com os homens de Eriador, os elfos de Lindon e os Vales do
Anduin, os anões de Ered Luin das Montanhas Nebulosas, e Númenor.

Tudo isto chega a um fim, de qualquer modo, na guerra dos elfos e de
Sauron. Eriador e as Terras Ermas foram devastadas e muitos da
população local foram mortos ou partiram. A grande civilização élfica
foi não foi destruída, mas virtualmente se dirigiram de volta ao mar,
salvos por poucas terras que sobreviveram em vales e nas profundezas
das florestas. A guerra criou uma economia e política nula, a qual os
númenorianos subseqüentemente ocuparam, substituindo a velha cultura
élfica de tal modo que pelo fim da era, Adunaico, a língua nativa de
Númenor, deu espaço ao Westron, o qual substituiu o Sindarin como
língua comum para o noroeste da Terra-média.

Os númenorianos estabeleceram colônias por toda parte da Terra-média e
eles começaram a se acomodar largamente em Eriador bem como ao longo as
margens do sul do Anduin. As duas grandes cidades deles no mundo do
norte eram Lond Daer Ened na boca de Gwathlo e Pelargir na boca do
Anduin. Mas novamente Tolkien não nos fala de comércio que os
númenorianos devem ter conduzido nestas regiões. Lond Daer foi
originalmente fundada como um porto sazonal de Aldarion entre o século
VIII e IX. Ele usou isso como base para “armazenar”, “cultivar” árvores
com as quais se construíam navios e ele não parece ter compensado os
habitantes nativos (os “Gwathuirim”, parentes distantes dos
númenorianos) de modo algum.

O nome Pelargir implica que o local era um porto real e uma
fortificação, ‘royal garth of ships’*. Pelargir pode ter servido como
uma base de operações para os Númenorianos nas guerras que se seguiram
contra Sauron, porém eles nunca montaram uma grande expedição contra
Mordor partindo dali. Ao contrário, o local parece ter servido para
manter protegidos os colonos que moravam ao longo da costa do Anduin, e
os navios de Pelargir deviam estar mais envolvidos em assegurar as
terras costeiras aonde “os Gwathuirim” viviam.

* “jardim real de navios”.

O vasto Império de Númenor parece ter desenvolvido um comércio que
beneficiou a ‘terra-mãe’, assim como o Império colonial britânico
beneficiou a metrópole nos séculos XVII e XVIII. A riqueza teve um
fluxo para Númenor maior que o de Númenor para suas colônias. Assim as
colônias proviam matéria-prima, escravos e tributos aos Númenorianos,
exceto quando, ocasionalmente, algum aventureiro estabelecia algum
pequeno reino.

Então o comércio no Noroeste da Terra-média provavelmente estava
fechado do tempo da Guerra dos Elfos contra Sauron ao tempo de fundação
de Arnor e Gondor. A chegada de Elendil e os Exilados Fiéis de Númenor
seria precedida por um gradual aumento de colonos Fiéis que dependeram
menos e menos da ajuda de Númenor e mais da ajuda de Elfos e Anões.
Comércio e troca deviam ter revivido um tanto, especialmente depois que
Ar-Pharazôn tomou Sauron para Númenor e reduziu a influência do Senhor
do Escuro na Terra-média o suficiente para permitir que Gil-Galad
estendesse a sua própria influência a leste e aos Vales do Anduin.
Elendil, deste modo, encontrou uma grande e produtiva população
esperando por ele e seus filhos em Eriador e nos Vales do Anduin
localizados mais ao sul. Estas pessoas, Númenorianos, Edain, e homens
de linhagem mista, começaram a trabalhar construindo grandes cidades
(Annuminas e Fornost Erain no Norte, Minas Anor, Minas Ithil e Osgliath
no sul), imponentes fortalezas (Angrenost e Aglarond em Calenardhon), e
ricos e poderosos reinos. Nos primeiros anos Arnor e Gondor se
comunicavam principalmente por navios (não considerando as mensagens
passadas através dos Palantíri). Navios deixavam Pelargir ou Osgliath e
navegavam norte para o Rio Gwathlo, aonde eles passavam rio acima para
Tharbad (Lond Daer Ened estava aparentemente por agora destruída ou a
muito abandonada).

{mospagebreak}
 
 
 
 

Ambos os reinos tiveram extensivas fazendas com as quais alimentavam
suas populações, mas se Arnor tivesse se empreitado a alimentar os
Anões das Montanhas das Névoas, Gondor poderia ter encontrado algum
benefício em mandar comida para o Norte também. Claro, comércio
incluiria também itens de luxo como peles, jóias, metais preciosos,
vinhos, e tecidos especiais, tintas, e perfumes. Uma economia provida
de dinheiro provavelmente existiu previamente a fundação do reino no
exílio dos Dúnedain.

A grande riqueza que os exilados acumularam nos seus primeiros 110 anos
ajudam a explicar como Elendil e seus filhos puderam construir um
grande exército. Exércitos precisam ser pagos, equipados, e supridos, e
somente uma economia forte poderia ter suportado as imensas forças que
Elendil e seus aliados reuniram para os 10-12 anos de guerra que eles
experimentaram.

No tardar da Segunda Era, Arnor e Gondor estavam provavelmente isoladas
do resto Númenoriano da Terra-média. As terras mais ao sul controladas
pelos Reis Homens, os quais se tornaram os Númenorianos-Negros,
apoiadores ou Sauron e tradicionais inimigos dos Fiéis. Gondor, dessa
forma, teria sido uma parceira mais jovem nas relações econômicas entre
os Dúnedain Fiéis e seus aliados. Mas depois que Sauron estava
derrotado e Isildur estava perdido nos Vales do Anduin, Gondor foi
levada pela corrente para longe da esfera de influencia de Arnor. Como
Arnor decaiu em população, riqueza e poder, Gondor estendeu suas
fronteiras ao norte, leste e sul, entrando em contato com populações as
quais tinham estado fora da influência de Gil-Galad.

A mudança para fora de Arnor na política de Gondor deve ter ferido a
economia do Reino do Norte. Com o declínio de Lindon como uma das
principais forças, Arnor tinha apenas os Anões para negociar, e Tolkien
não conta para nós nada sobre suas relações na Terceira Era. O influxo
dos Hobbits, no início do segundo milênio, indubitavelmente trouxe nova
riqueza para os reinos de Rhudaur e Cardolan, mas eles não poderiam
reabilitar os Dúnedain do norte à sua forma e poder.

A situação em Eriador deve ter sido muito confusa por vários séculos.
Com três reinos Dúnedain, havia provavelmente três cunhagens. Será que
Elfos e Anões também cunhavam suas própria moedas? Disparidades em
recursos e a constante briga e hostilidade entre os reinos Dúnedain
teriam, mais adiante, enfraquecido a economia do norte. Mercadores
Anões provavelmente passavam com impunidade através de Eriador. Elfos
provavelmente não eram perturbados também. Mas o povo de Círdan e os
remanescentes do reino de Gil-Galad estavam diminuindo. Esperanças para
o comércio teriam sido limitadas. Os Anões ainda precisavam de comida,
os Dúnedain ainda precisavam minérios e talvez pedras para construção.

O crescimento do reino de Angmar ao norte teria, realmente, ajudado a
estabilizar a situação entre os Dúnedain de algumas maneiras. Rhudaur
foi destruída cedo e Cardolan tão enfraquecida se tornou virtualmente
reintegrada dentro do reino de Arnor (Arthedain). A influencia de
Arthedain, deste modo, cresceu com a intervenção de Lindon e Valfenda
(Elrond até alistou ajuda de Lothlorien nas guerras contra Angmar). Uma
única cunhagem Dúnedain teria sido, assim, restaurada para o norte e é
duvidável que Eriador, em algum tempo, tenha tido uma cunhagem diversa
de novo. Por conseguinte, as “pennies” que Bilbo e Carrapicho deram
eram provavelmente equivalentes em valor e forma.

De 1409 para diante, a economia de Eriador teria sido dominada por três
regiões: Fornost Erain, no sul, fim das Colinas do Norte; Bri, no
cruzamento das grandes estradas; e Tharbad no cruzamento do rio
Gwathlo. Tharbad estava em sério declínio, já que foi originariamente
um forte e um centro de comércio para os Dúnedain. A economia e os
interesses políticos de Gondor no norte estavam nesse tempo em declínio
e a última guarnição militar Gondoriana foi extraída de Tharbad depois
da Grande Peste de 1636.

O grande influxo dos Grados às Terras Pardas por volta de 1300, o que
beneficiou Tharbad economicamente, foi contrabalançado pela morte da
população desses na Grande Peste. Os únicos Grados, que sobreviveram no
Oeste das Montanhas Sombrias daquele tempo em diante, eram aqueles que
haviam recentemente migrado fundado o Condado além do rio Brandevim. A
Peste também exterminou a maioria da população de Cardolan e o
organizado assentamento efetivamente rumou para um fim entre Tharbad e
Bri. Tharbad foi, deste modo, isolada do resto de Eriador e sua
população provavelmente nunca se recuperou totalmente dos efeitos da
Grande Peste.

Arnor sobreviveu outros 338 anos, mas sua população diminuiu. O
Condado, Bri, Fornost Erain, e Tharbad eram as únicas regiões
produtivas que restavam. Fornost e o Condado foram ambas dominadas na
invasão final lançada por Angmar. O Condado foi posto em ordem, mas
Fornost estava finalmente abandonada pelos Dúnedain que provavelmente
escaparam para as profundezas das Colinas do Norte.

Pelo resto da Terceira Era, a atividade econômica de Eriador avançou
com dificuldade. Poucos viajantes passavam por Bri e o Condado, mas não
havia mais uma fundação para suportar um comércio significante. O
Condado aparentemente continuou a suprir comida para os Anões de Ered
Luin, que incharam em número depois que a civilização de Khazad-dûm foi
destruída pelo Balrog em 1980-1. Bri permaneceu como um importante
ponto de parada em uma jornada através de Eriador, mas não era mais
vital às necessidades do reino do norte. Então a pergunta quanto a quem
cunhava o dinheiro que apareceu é pertinente.

Provavelmente os Anões de Ered Luin proviam o dinheiro para Eriador.
Eles teriam precisado dele para pagar a comida comprada do Condado e
isso teria beneficiado Bri a respeitar o seu uso também. Se os Elfos de
Lindon e Imladris faziam uso do dinheiro então faria lógica para eles
usar a moeda anã também.

{mospagebreak}
 
 
 
 

O Condado expandiu um pouco no vigésimo quarto século da Terceira Era,
quando o Velho Brandebuque fundou a Terra dos Buques, “na prática um
pequeno e independente país” como Tolkien descreveu. Não é claro porque
o Velho Buque sentiu a necessidade de fundar uma nova terra além do rio
Brandevim, mas é concebível que a influencia e autoridade do Thain
estava nesse período declinando. Quando ficou claro que os Dúnedain não
restabeleceriam o reino do norte, os chefes do Condado elegeram Bucca
do Pântano para ser seu Thain, essencialmente para ser um rei local.
Mas os Thain, apesar da hereditariedade, tinham pouco poder no final da
Terceira Era.

Então o Velho Buque pode ter desejado estabelecer uma terra aonde ele
teria uma autoridade maior que no Condado. O efeito desta colonização,
de qualquer forma, foi um rejuvenescimento da atividade entre os
Hobbits do Condado e os Hobbits de Bri. Os Brandebuques comercializavam
com ambos, Condado e Bri.

330 anos mais tarde, Tobold Corneteiro revolucionou a economia da
Quarta Sul plantando a erva-de-fumo. Entretanto os habitantes de Bri
foram os primeiros a fumar a folha, a Quarta Sul eventualmente se
tornou a primeira origem deste item de luxo e sua reputação se estendeu
a Isengard e provavelmente além. Anões pegaram o hábito do fumo dos
Hobbits, e eles podem ter comprado suprimentos para enviar a parentes
em terras distantes.

É, deste modo, evidente que o Condado estabeleceu uma pequena, mas
prospera economia mercante com Bri, Terra dos Buques, os Anões de Ered
Luin, e provavelmente Tharbad e Terras Pardas. Comércio com o sul
provavelmente caiu em silêncio, estagnou-se depois que Tharbad foi
abandonada no trigésimo século, mas Saruman parece ter desenvolvido uma
forte conexão com os Sacola-Bolseiros por volta de 3000 em diante.

A influência de Bri decaiu firmemente durante todo o fim da Terceira
Era, mas parece que os Dúnedain de Eriador usavam Bri como um centro de
operações. Eles podiam comprar suprimentos lá e recolher notícias assim
como organizar as atividades de seus Guardiões, as quais parecem ter
focalizado em proteger Bri, o Condado e a Terra dos Buques, e seus
próprios lares. Em “No Pônei Saltitante” Tolkien escreve que os
Guardiões viviam a leste de Bri, e a menção de Cevado Carrapicho a
Frodo: “não dá para explicar o leste e o oeste, como dizemos aqui em
Bri, referindo-nos as excentricidades dos Guardiões e do pessoal do
Condado”, implica que os habitantes de Bri estavam consideravelmente
certos de que os Guardiões viviam nas terras orientais.

Aragorn menciona uma instalação abandonada distante um dia de jornada a
leste de Bri, implicando que este é o último sinal de uma civilização
em Eriador entre Bri e Imladris. Se for este o caso, então parece
improvável que os Dúnedain de Eriador realmente moravam diretamente a
leste de Bri. Não havia muito lá, exceto pelas Colinas dos Ventos,
depois do Pântano dos Mosquitos, e Aragorn contou aos Hobbits que
ninguém vivia nas Colinas. Em outra ocasião, ele se arrisca ao sul de
Topo do Vento para encontrar Athelas perto de um velho lugar aonde sua
gente tinha acampado ou se estabelecido uma vez, logo é concebível que
os Dúnedain moravam nas Colinas do Norte e/ou do Sul (provavelmente
mudando constantemente e então evitando serem detectados por espiões de
Sauron).

Os Dúnedain não estavam com muito poder econômico ao fim da Terceira
Era, mas seu ocasional tráfego combinado com a passagem dos Anões na
estrada teria ajudado a manter a estalagem de Bri, o Pônei Saltitante,
nos negócios. Mas parece claro que o tráfego era insuficiente por si
só. Carrapicho parece ter servido como o responsável pelos cavalos no
vilarejo de Bri, já que muitos dos cavalos locais e pôneis eram
mantidos no seu estábulo.

Comércio existia em outra parte do mundo mais ao norte. Os homens da
Cidade do Lago trocavam com os Elfos do norte da Floresta das Trevas e
alguns Homens do Norte não nomeados vivendo mais distante ao sul, no
rio Celduin. A misteriosa terra de Dorwinion nas costas ao Noroeste do
interior do Mar de Rhûn proviam essas pessoas com um bom vinho. O
restabelecimento de Vale e Erebor no Século XXX fortaleceu a economia
regional consideravelmente, mas ainda era uma grande e isolada região.
As ordens especiais de Bilbo para presentes de Vale e Erebor eram muito
provavelmente feitas por razões sentimentais melhor que uma preocupação
com o costume. NO Hobbit parece que Bilbo nunca tinha escutado sobre
Vale e Erebor antes de Thorin contar a ele a história de como Smaug
destruiu os dois reinos.

A despeito de todas essas visões de troca e comércio passando ao longo
das estradas da Terra-média, havia um limite para a economia da
história do mundo de Tolkien. O Condado desenvolveu algum tipo de
governo, mas aparentemente faltou riqueza para manter uma grande
burocracia. Os agentes postais e condestáveis respondiam ao prefeito de
Grã-Cava que gerenciava o Serviço de Mensagens e Patrulha (condestáveis
e fronteiros).

Tolkien escreveu no Prólogo de O Senhor dos Anéis “nessa época o
Condado mal tinha um ‘governo’. Na maioria das vezes as famílias
cuidavam dos seus próprios negócios. Cultivar comida e come-la ocupava
a maior parte de seu tempo. Em outros assuntos eles eram, em geral,
generosos e não gananciosos, mas satisfeitos e moderados, de modo que
terras, fazendas, oficinas, e pequenos comércios tendiam a permanecer
inalterados por gerações”.

Entretanto o Serviço Postal empregava mais Hobbits que o a Patrulha,
quando os convites e ordens de Bilbo para a Festa inundaram os correios
da Vila dos Hobbits e Beirágua , “carteiros voluntários estavam sendo
procurados”. O fato de voluntários serem precisos implica que não havia
provisões para empregar extra (mesmo que temporários) trabalhadores, e
seja qual fosse a renda gerada pelo correio era insuficiente para
prover os salários adicionais.

As trocas secretas de Lotho Sacola-Bolseiro com Isengard também parece
implicar que não haviam taxas de exportação. Não é claro como o Condado
pagava pelos 12 condestáveis, muito menos o maior número de fronteiros
e agentes postais. Algum tipo de taxa ou dízimo devia ter existido para
prover sua manutenção, mas eles podem não ter sido significantes. Sem
um grande rendimento base, o “governo” do Condado conseqüentemente não
era muito de fator econômico, mesmo dentro do próprio Condado. Assim, a
maior parte do dinheiro era provavelmente concentrada nas mãos de
várias famílias poderosas como os Tûks, Brandebuques, Bolseiros, etc.
as quais cuidavam dos seus próprios negócios.

A presença de estábulos e tavernas por todo o Condado implica uma
quantidade justa de atividade social e viajante. Estes locais
provavelmente serviram como centros de suas vida sociais nas
comunidades e provavelmente eram localizados perto de quaisquer
mercados estabelecidos nas vilas. É duvidável que existiam muitas
pessoas de negócios poderosas como Lotho Sacola-Bolseiro, que comprou
muitas fazendas e plantações na Quarta Sul. Seus empreendimentos eram,
pelo menos, em parte financiados por Saruman.

Como sempre, eu tenho apenas sido capaz de tocar por cima desses
assuntos, mas eu penso ser evidente que Tolkien devotou um considerável
pensamento ao dinheiro e economia na Terra-média, entretanto seria
impossível documentar completamente as atividades de troca de várias
pessoas. A escala de troca era provavelmente sempre pequena, exceto no
suprimento de comida para grandes exércitos ou nações Anãs. Tolkien
provavelmente não imaginou uma economia maciça, mas ele parece ter
estado ciente que os comerciantes antigos vaguearam pela Europa por
milhares de anos e na construção da Terra-média ele permitiu uma ampla
e estável economia.

 
———- 
 

Contos Misteriosos da Terra-média

Não ouvimos falar com freqüência sobre as histórias de fantasmas que as
pessoas deviam contar umas às outras na Terra-média. O trabalho de
Tolkien é permeado por lendas bem trabalhadas que possuem, geralmente,
de fato um embasamento (dentro do escopo de sua pseudo-história), mas
quando paramos para considerar as imensas expansões de tempo que a
pseudo-história da Terra-média cobre, devemos nos perguntar quão
artificiais essas lendas se tornaram.
 
 
 
Todos já ouviram falar da história sobre o louco
que escapa de um sanatório e quase mata um casal jovem em uma estrada
escura, deixando sua garra pendurada na porta do carro (este seria, é
claro, um carro bastante antigo). Talvez essa história deva um pouco ao
mito nórdico do deus da guerra Tyr, que colocou sua mão na boca de
Fenris, deixando o lobo arrancá-la, enquanto os Aesir acorrentavam o
lobo. Tyr deveria ser um tanto quanto louco para fazer isso.

As primeiras histórias de fantasmas da Terra-média provavelmente foram
os contos há muito tempo esquecidos que os Elfos criaram sobre os
monstros de Melkor antes de Oromë descobrir sua morada em Cuiviénen. "E,
de fato, as canções mais antigas dos Elfos, cujos ecos ainda são
lembrados no Oeste, falam sobre formas sombrias que caminhavam nas
montanhas acima de Cuiviénen, ou passavam de repente pelas estrelas, e
do Cavaleiro Negro sobre seu cavalo selvagem, que perseguia aqueles que
vagavam, para tomá-los e devorá-los."

Os primeiros Elfos
eram um tanto ingênuos, em comparação aos seus sucessores Eldarin. Eles
não sabiam nada sobre quem eram os Valar, como o mundo se tornou o que
é, ou que monstros existiam (originados das criaturas inocentes de
Yavanna, ou Maiar corrompidos que assumiram formas de terror). Nem seus
poderes de mente e corpo estavam desenvolvidos. Será que os Elfos
sabiam, antes de encontrar os Valar, como utilizar suas faculdades
subcriacionais? Seria interessante se os primeiros menestréis Élficos,
que, em eras posteriores podiam "fazer com que as coisas sobre as quais eles cantavam aparecessem em frente aos olhos daqueles que estivessem escutando",
tenham feito canções de poder, onde suas audiências veriam novamente as
terríveis e místicas formas sombrias que rastejavam em seu mundo
outrora agradável.

Oromë levou os Eldar para o Oeste, através
de um mundo assustador, grande e desconhecido, para as margens
ocidentais da Terra-média, e a partir dali a maioria dos Eldar partiu
para uma terra de luz. É difícil imaginar os Altos-Elfos de Aman
vivendo sobre os fantasmas e demônios de seu passado. Eles seguiram o
estudo de alta civilização e arte e construíram grandes cidades e
artefatos poderosos. Mas os Eldar que permaneceram na Terra-média, os
Sindar, foram deixados na escuridão (ou na fraca luz das estrelas), e
apesar de por longas eras eles não terem sido perturbados pelas
criaturas de Melkor, ainda tinham razão para conhecer o medo.

Pois os Sindar eram perturbados pelos Noegyth Nibin, os Anões
inferiores, exilados das grandes cidades dos Anões do Leste, que
encontraram seus caminhos para Beleriand. Ali, nas Terras Selvagens
antes da vinda dos Elfos, eles estabeleceram sua própria cultura, da
qual não conhecemos praticamente nada, além do fato que eles eram
reservados e rancorosos. Os Noegyth Nibin atacaram os Elfos, que
revidaram ao caçá-los, sem saber de fato que os Noegyth Nibin eram
decaídos de um estado mais alto de civilização, tomando-os por animais
ou pequenos monstros da escuridão.

Com o tempo, os Sindar se
tornaram amigos dos Anões de Nogrod e Belegost, e eles aprenderam sobre
a verdadeira natureza dos Noegyth Nibin, e os povos deixaram cada um em
paz. Mas os Sindar eram de vez em quando avisados pelos Anões do Leste
que criaturas malignas estavam se multiplicando nas terras além de Ered
Luin. Se os Sindar tivessem tido tempo para esquecer os antigos
monstros, eles eram eventualmente lembrados, quando as criaturas de
Melkor começaram a se rastejar por Beleriand, "lobos… ou criaturas que andavam em forma de lobos, e outros seres sombrios cruéis".

Os Sindar se dividiram em dois grupos: Elfos das Florestas que se
espalharam para o Norte e Oeste a partir de Doriath e os Elfos
navegantes, que moravam nas terras costeiras ocidentais e se espalharam
pelo Norte. Muitos destes Elfos viviam fora das cidades, mais
provavelmente em cidadelas ou vilarejos que nunca apareceram em nenhum
mapa. Mas estando longe dos centros de poder e sabedoria, eles estavam
menos seguros em suas casas e talvez mais propensos para se perguntar
sobre as coisas misteriosas que se rastejavam ao redor deles. Será que
estes Elfos, talvez, cantavam sobre as coisas sombrias que assombravam
Beleriand?

Após o retorno dos Noldor e o começo da Guerra das
Gemas, criaturas sombrias e terríveis teriam se tornado bem conhecidas
através de Beleriand. Imagine se um exército de goblins, vampiros e
lobisomens estivesse prestes a invadir sua terra natal e permanecer
próximo por muitos anos. Você estaria propenso a contar "histórias de
fantasmas", sabendo que os fantasmas estavam logo além da montanha? Os
contos seriam histórias reais, não lendas. As criaturas seriam inimigos
conhecidos, e não terrores maléficos misteriosos.

Não seria
até após o colapso dos grandes reinos que de fato se tornaram lenda
novamente. Homens mortais se lembrariam das histórias e passariam as
mesmas para a frente, mas a cada geração, as histórias se tornaram
menos reais. Será que Dirhavel de Arvenien entendia sobre o que estava
cantando, se ele cantou sobre o conto de Barahir e seus fora-da-lei 70
anos após os eventos terem se desenvolvido? Quantos dos Elfos que
sobreviveram à destruição dos reinos em Arvenien e Ilha de Balar eram
velhos o suficiente para se lembrar das grandes batalhas ou do passado
antigo? Mesmo Elrond, que já era antigo na época da Guerra do Anel,
teria crescido nos dias em que Húrin e Túrin eram apenas memórias dos
homens e mulheres idosas, Hador era um ancestral distante e Cuiviénen
estava há gerações além de sua experiência.

Quão reais os
contos do Lobo-Sauron e Drauglin, pai dos lobisomens, e Thuringwethil,
a mensageira de Sauron em forma de morcego, e Gorlim, o fantasma
infeliz, teriam parecido às gerações de Homens e Elfos que cresceram no
início da Segunda Era? Seu mundo havia mudado. A maior parte de
Beleriand havia sumido. Os grandes reis, que lideraram os Elfos e Edain
na guerra contra Morgoth estavam todos mortos. Os Edain do Oeste
navegaram para construir uma grande civilização e os Edain do Leste
retrocederam às planícies e bosques onde eles lentamente esqueceram que
uma vez alguns de seu povo partiram para o outro lado das montanhas.

E ainda após Sauron ter começado a tumultuar novamente na Segunda Era,
reunindo mais uma vez criaturas maléficas sob seu controle, como
evidência do retorno do mal que se movia através das Terras Élficas, os
Homens devem ter apagado as antigas lendas sobre lobisomens, vampiros,
Orcs e demônios, e recontaram como havia uma vez um senhor do escuro
contra quem somente alguns Elfos e Homens se defenderam valentemente.

E ainda o mal, conseqüentemente, adquiriu um aspecto mais claro, e a
Guerra dos Elfos e Sauron trouxe um fim a muitos reinos Élficos e
Humanos, e muitos séculos de combate existiriam subseqüentemente. A
Segunda Era deve ter originado novas lendas de terror, principalmente
quando os Nazgûl apareceram na Terra-média, mas também pode ser, como
na Primeira Era, que a Segunda Era tenha trazido o mal para muito perto
de casa para as pessoas desenvolverem uma estranha fascinação por ele.
Somente sonhamos com vampiros e lobisomens quando sabemos que eles não
são reais e não podem nos machucar.

Mas a guerra final da
Segunda Era contribuiu para a fundação de uma das maiores lendas de
terror na Terceira Era. Isildur convocou um povo das montanhas para
marchar contra Sauron, e eles recusaram, uma vez que eles outrora
adoravam Sauron como um deus. A esses homens sem fé, Isildur condenou a
desaparecerem como um povo. Eles definharam e morreram, perdidos e
sozinhos nas terras altas, condenados a assombrar suas terras antigas
até o dia em que eles pudessem redimir seus juramentos para um Herdeiro
de Isildur.

O audacioso povo das montanhas de Gondor vivia ao
lado dos Mortos do Templo da Colina, e deve-se imaginar se eles não
passaram longas noites de inverno trocando contos de viajantes
imprudentes que se perderam nos caminhos dos Mortos, ou que encontraram
uma reunião de fantasmas à grande pedra de Erech em tempos
problemáticos. Ninguém sabe como a dama Élfica Nimrodel se perdeu nas
montanhas, mas será que o povo local a adotou como uma vítima de suas
lendas? Será que eles a imaginavam perdida e assustada, possuída pelos
antigos fantasmas?

Os caminhos dos Mortos eram famosos
através das terras dos Dúnedain, ao que parece. Malbeth, o vidente, que
vivia em Arnor, previu que um dia um Herdeiro de Isildur caminharia
naqueles caminhos e acordaria os Mortos. Séculos depois, quando os
Rohirrim se estabeleceram em Calenardhon e Brego, seu segundo rei,
terminou a construção do salão de Meduseld, ele e seus filhos passaram
pelas montanhas e encontraram um homem idoso sentado na entrada do
caminho dos Mortos.

"O caminho está fechado", ele disse a eles. "O
caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os
Mortos o guardam, até a hora chegar. O caminho está fechado."
E
então ele morreu, e o príncipe Baldor resolveu entrar no caminho dos
Mortos e ver por si mesmo que segredos existiam ali. Ele nunca
retornou, e toda Rohan se questionou sobre o que se tornou dele.

Provavelmente os ossos que Aragorn encontrou dentro da passagem eram de Baldor: "Diante
dele estavam os ossos de um homem forte. Estivera vestido de malha
metálica, e sua armadura jazia ainda inteira, pois o ar da caverna era
seco como pó; sua cota era dourada. O cinto era de ouro e granadas, e
rico em ouro era o elmo sobre os ossos de sua cabeça, caída com o rosto
contra o chão. O homem tombara perto da parede oposta da caverna, pelo
que se podia presumir, e diante dele havia uma porta de pedra
hermeticamente fechada: os ossos de seus dedos ainda agarravam as
fendas. Uma espada quebrada e chanfrada jazia ao seu lado, como se ele
tivesse golpeado a rocha em seu último desespero"
.

O que
poderia ter acontecido dentro daquela caverna escura e solitária é que
um dos mais bravos guerreiros de Rohan teria ficado louco e rachado a
rocha em desespero? Ele deve ter sido atacado por um exército dos
Mortos, e procurando uma maneira de escapar e se desviou. Ou talvez ele
meramente sucumbiu ao medo e temor, estremecido a sua própria alma, e
irracionalmente, fugiu impetuosamente na escuridão até não poder mais
encontrar seu caminho, e lentamente, tristemente, passou seus últimos
dias ou horas em vão, procurando admissão em algum refúgio de natureza
duvidosa.

Os Mortos do Templo da Colina não eram as únicas
assombrações a habitar a Terra-média na Terceira Era. Os Nazgûl
surgiram de Mordor no ano 2000 e sitiaram a cidade montanhosa de Minas
Ithil. Após 2 anos eles tomaram a cidade e a transformaram em um lugar
de terror existente, e dizia-se que era a residência de fantasmas e
outros monstros. Até mesmo os Orcs que estavam posicionados ali estavam
enervados pelas criaturas terríveis com as quais os Nazgûl haviam
ocupado a cidade. Todas as terras vizinhas se tornaram desertas,
conforme as pessoas fugiam para o outro lado do Anduin, e com o tempo
somente as pessoas mais audaciosas de Gondor ousavam viver em Ithilien,
que uma vez havia sido uma terra muito agradável e bela.

Os
Nazgûl eram especialmente bons em acabar com as vizinhanças. Séculos
antes o Senhor dos Nazgûl havia rumado para o Norte para estabelecer o
reino de Angmar. Homens serviam a ele, mas também Orcs, Trolls, e
outras criaturas, incluindo espectros. Ele ensinou ou encorajou o povo
das colinas de Rhudaur a praticar feitiçaria, principalmente
necromancia, e na guerra com Cardolan e Arthedain no ano 1409, o Senhor
dos Nazgûl enviou espectros para habitar os antigos túmulos em Tyrn
Gorthad, próxima a Bri. Estes espíritos se tornaram as Criaturas
Tumulares. Eles animaram antigos ossos e ocuparam a terra com pavor e
medo. Seu poder era tão grande que, muitas gerações depois, os esforços
do Rei Araval para recolonizar Cardolan falharam, porque as pessoas não
poderiam viver perto de Tyrn Gorthad.

Quando os últimos
remanescentes do Reino do Norte foram arruinados, criaturas maléficas
ocuparam sua última capital, Fornost Erain, apesar de que depois de
apenas alguns meses elas foram destruídas ou expulsas por um grande
exército de Gondor e Lindon. Muito da terra estava limpa quando a
própria Angmar foi destruída, mas as Criaturas tumulares permaneceram,
e os Homens de Bri ficaram amedrontados em relação às ruínas de Fornost
Erain, conseqüentemente, denominando-as de Dique dos Mortos, porque
eles apenas podiam se lembrar do terror que brevemente havia governado
ali.

Arnor estava quase esvaziada de pessoas, e ruínas foram
deixadas por todos os lugares: Annúminas, Fornost, Tyrn Gorthad, as
colinas de Rhudaur, Topo do Vento. Tharbad, a última cidade de Arnor,
declinou e se tornou uma cidade ribeirinha, e conseqüentemente foi
abandonada após ter sido destruída por severas inundações. Quase toda
Eriador era uma terra vazia e desolada, com cidades esquecidas e
túmulos assombrados.

É um pouco estranho que os Hobbits que
partiram do Condado em 3018 não eram muito mais amedrontados em relação
ao mundo ao redor deles. Eles tinham lendas sobre a Floresta Velha, que
ficava nas fronteiras da Terra dos Buques, uma terra estranha onde as
árvores podiam se mover conforme queriam e que abrigavam um antigo ódio
pelos seres que caminhavam em duas pernas. Tolkien observa que "mesmo
no Condado, o rumor sobre as Criaturas Tumulares das Colinas dos
Túmulos além da Floresta foi ouvido. Mas não era um conto que qualquer
Hobbit gostaria de ouvir, mesmo em frente a uma confortável lareira bem
longe de tudo isso".

Mas Frodo e seus amigos não sabiam
nada sobre os terrores que existiam além das Colinas dos Túmulos e suas
criaturas, ou as lendas que ainda assombravam as terras, apesar das
criaturas que geraram terror aos contos terem desaparecido há muito
tempo. Se eles tivessem ido em busca de antigas histórias de fantasmas,
ao invés de buscar uma maneira de destruir o Um Anel, eles teriam
encontrado lendas suficientes para encher um livro. Havia o velho
monstro vivendo no alto das montanhas sobre Minas Morgul, as estranhas
e agourentas árvores da Floresta de Fangorn, o escuro e repugnante
Guardião na Água, o espírito de fogo e sombras que assombrava as
cavernas perdidas de Moria, a fria e cruel Caradhras, e coisas escuras
voadoras que bloqueavam as estrelas à noite, e os próprios Nazgûl.

A pobre e perdida Eregion se tornou a morada de lobos enfeitiçados e
tropas ameaçadoras de Crebain, e a terra esqueceu que uma vez fora lar
a um povo Élfico que ousara mexer com a força do Tempo na própria
Terra-média. Mas quando tudo estava feito e o Senhor dos Anéis
destruído, os Hobbits e seus aliados foram mais uma vez lembrados de
todos os grandes e antigos temores, e eles devem ter passado muitas
noites felizes trocando contos em frente à lareira, mantendo vivas as
estórias de fantasmas da Terra-média.

[tradução: Helena "Aredhel" Felts]

Questões Sobre os Beornings

Beorn – John Howe

Um dos mais fascinantes personagens de “O Hobbit” é Beorn, o raivoso madeireiro que vive sozinho exceto pela companhia de seus animais encantados. Beorn era um homem, embora com um toque de mágico de acordo com Tolkien, porque ele podia mudar sua pele [tornando-se um enorme urso]. As origens de Beorn estão ocultas em mistério. Gandalf diz a Thorin e Companhia mais de uma explicação sobre a origem de Beorn, e não é claro sobre qual delas é a verdadeira.

 

 Quando Gandalf e a Companhia de Thorin foram levados com segurança até a Carrocha pelas Grandes Águias das Montanhas Nebulosas, o mago conta a seus companheiros que existiam poucos povos vivendo na região. Existiam vilas de homens mais afastadas ao sul [provavelmente além da Antiga Estrada da Floresta], nos vales das montanhas e ao longo das margens dos rios. Este povo, que era chamado de “Homens da Floresta” em “O Hobbit” estava gradualmente retornando do norte. Eles eram parentes dos Homens da Floresta de Mirkwood de acordo com Tolkien no apêndice de “O Senhor dos Anéis”, mas dentre muitos povos pergunta-se se este era o povo que Beorn um dia veio a governar.

Pode-se apenas supor, realmente, de onde os Beornings vieram ou como eles eram. Eram todos homens, embora talvez uns poucos fossem troca-peles como Beorn. Tolkien não revela se Beorn nasceu com a habilidade de falar com animais e trocar sua pele, mas ele diz que muitos dos descendentes de Beorn possuíram a habilidade de trocar de peles. Então, em algum momento, a troca de peles tornou-se hereditária ou o segredo foi passado de geração a geração.

“O Hobbit” menciona que os dragões caçaram a maioria dos homens expulsando-os das terras no norte, e isto implica que os grandes ursos das montanhas do norte desapareceram quando os gigantes apareceram algum tempo antes da história acontecer. Beorn é associado com ambos ursos e homens do norte. Se os troca-peles não se originaram com Beorn então eles devem ter vivido nas montanhas, e Gandalf que uma vez ele ouviu por acaso Beorn expressando a esperança que ele tinha de um dia retornar para as montanhas.

Bilbo encontrou realmente poucos Homens em “O Hobbit”. Sua primeira conexão com homens depois de ter cruzado as Montanhas Nebulosas foi o ataque pretendido pelo Goblins e Wargs. Gandalf ouviu por acaso os Wargs discutindo um possível ataque às vilas do sul da fortaleza Goblin do Passo Alto. A próxima conexão de Bilbo com homens foi Beorn, que protegeu e auxiliou Thorin e Companhia e sua expedição. Embora Gandalf tenha dito que poucas pessoas viviam perto da Carrocha, ele parece indicar que Beorn não era o único habitante local, e quando Bilbo e Gandalf retornaram com Beorn no próximo ano, ele convidou muitos homens a comemorar em sua casa. Então o povo de Beorn já existia ao tempo da história, apesar de poder ter sido reforçado pelos homens da floresta que estavam migrando para o norte.

Não foi antes de Bilbo e dos Anões terem alcançado a Cidade do Lago sobre Esgaroth, o Lago Extenso, que eles encontraram mais homens. Estes homens, aparentados com os antigos homens de Valle [agora há muito destruída por Smaug], eram corajosos e fortes. Estes continuavam a viver relativamente próximos à desolação do dragão e ao leste de Mirkwood. Os homens da Cidade do Lago viviam em termos amigáveis com os Elfos do norte de Mirkwood [o povo de Thranduil e Legolas] e mantinham comércio com os homens que viviam mais ao sul no Rio. De fato, o comércio se estendia tão longe quando a terra longínqua de Dorwinion, localizada nas margens noroestes do Mar de Rhun.

Embora nunca tenhamos ouvido mais sobre os homens vivendo ao sul da Cidade do Lago, quando Bard restabeleceu o reino de Valle, recrutou homens tanto do oeste quanto do sul. Mas Mirkwood ficava a oeste de Valle e da Montanha Solitária, e além de Mirkwood estavam os Beornings, que parecem ser muito poucos em número para ajudar a popular a cidade. Talvez Bard tenha recrutado homens dos Vales do Anduin, ou então existiam homens da floresta vivendo ao norte da caverna de Thranduil na calha leste da Floresta?

Quando Tolkien escreveu “O Senhor dos Anéis”, encorpou a história destes homens do norte das Terras Ermas. Os Rohirrim tornaram-se uma facção sulista dos homens do norte, que eram todos associados com a Casa de Hador, a Terceira Casa dos Edain em Beleriand, por Faramir quando ele deu a Frodo e Sam uma breve lição de história sobre Gondor. Muito mais material do que o publicado no livro tinha sido preparado por J.R.R. Tolkien, que teve que cortar uma grande parte dos Apêndices para economizar espaço. Chistopher Tolkien publicou parte do material “perdido” no Unfinished Tales, junto a alguns ensaios tardios e histórias escritos por seu pai. O restante do material “perdido” foi finalmente publicado no “The Peoples of Middle-earth”, volume XII do “The History of Middle-earth”. É possível então investigar a história dos povos do norte durante todo o tempo até a Primeira Era.

Quando Tolkien escreveu “O Senhor dos Anéis”, encorpou a história destes homens do norte das Terras Ermas. Os Rohirrim tornaram-se uma facção sulista dos homens do norte, que eram todos associados com a Casa de Hador, a Terceira Casa dos Edain em Beleriand, por Faramir quando ele deu a Frodo e Sam uma breve lição de história sobre Gondor. Muito mais material do que o publicado no livro tinha sido preparado por J.R.R. Tolkien, que teve que cortar uma grande parte dos Apêndices para economizar espaço. Chistopher Tolkien publicou parte do material “perdido” no Unfinished Tales, junto a alguns ensaios tardios e histórias escritos por seu pai. O restante do material “perdido” foi finalmente publicado no “The Peoples of Middle-earth”, volume XII do “The History of Middle-earth”. É possível então investigar a história dos povos do norte durante todo o tempo até a Primeira Era.

Os homens do norte, freqüentemente chamados de Homens dos Vales do Anduin, aparentemente dividiam-se em dois grupos. Vamos chamá-los de grupo leste e grupo oeste. Originalmente, os da Casa de Beor [a Primeira Casa dos Edain] e os Marachs [a Terceira Casa] migraram para leste ao longo do mar interior. Os Marchs eram o grupo mais ao norte e eles aparentemente se fixaram nas terras entre os rios Carnen e Celduin. Após restabelecer contato com os da Casa de Beor, alguns dos Marachs continuaram a migrar para o oeste. A maioria dos Beorians os seguiu.

Em Eriador os Beorians alcançaram os Marchs e fixaram-se por todas as amplas terras. A maioria dos Marachs continuou a jornada para o oeste, acompanhados por uma pequena parte dos Beorians. Sob seus líderes Beor e Marach, apenas uma pequena porção de ambos os povos realmente entrou em Beleriand. O resto permaneceu no leste em Eriador e por todas as Terras Selvagens.

Os Edain das Terras Selvagens eventualmente formaram uma aliança com os Anões Barbalonga, o povo de Dúrin. Esta aliança, formada no início da Segunda Era para auxiliar a expulsar os Orcs e outras criaturas que fugiram da destruição de Angband para as terras do leste, prosperou por mais de mil anos até a Guerra dos Elfos e Sauron. Naquela guerra os povos Edaínicos foram quase destruídos, e apenas pequenos enclaves sobreviveram nas Terras Selvagens, tanto em Greenwood a Grande [mais tarde chamada Mirkwood] quanto nas montanhas.

Estes homens que fugiram para as montanhas parecem ser os ancestrais dos Beornings e dos homens do norte que foram para o leste. O grupo leste fixou-se perto da área norte de Greenwood, e no começo da Terceira Era começaram a migrar para o sul ao longo da borda da floresta. Foi destes homens que os povos de Valle, Cidade do Lago e o reinado de Rhovanion descenderam. Em “O Hobbit” parece que os recrutas oeste de Bard podem ter vindo de uma comunidade de homens da floresta vivendo ao norte do reino de Thranduil. Não existe indicação que aqueles homens tinham parado de viver no nordeste da floresta.

Os Beornings e Homens da Floresta, contudo, não são necessariamente um povo “puro”. No “The Disaster of the Gladden Fields” [publicado no Unfinished Tales], o sobrevivente solitário da companhia de Isildur foi auxiliado por homens da floresta vivendo nas bordas oeste de Greenwood, perto de Amon Lanc [mais tarde Dol Guldur]. Estes homens da floresta parecem ser alguns daqueles povos Edaínicos que fugiram para a Floresta durante a Guerra entre os Elfos e Sauron.

Em “Cirion and Eorl” [também publicado no Unfinished Tales], Tolkien relata a parte mais tardia da história do Reino de Rhovanion. Este reino, situado ao leste do sul de Mirkwood, foi destruído pelos Carroceiros em 1860 da Terceira Era. O exército de Rhovanion foi destruído, mas alguns de sua cavalaria escaparam e fugiram para os Vales do Anduin. Mais tarde, muitos foras-da-lei vindo através da Floresta se juntaram a eles. Estes eram os ancentrais dos Eotheod. Embora seja possível que os foras-da-lei incluíssem muitas mulheres e crianças, parece altamente provável que os homens da cavalaria tiveram que casar com mulheres das vilas locais – eles misturaram-se com os homens da floresta que viviam em Mirkwood ou ao longo do rio.

Cerca de 100 anos mais tarde, logo após o reino nortista de Angmar ter sido destruído, os Eotheod migraram para o norte, para os vales onde os rios formadores do Anduin corriam. Lá eles se fixaram por várias centenas de anos. Eles assim o fizeram, Tolkien nos conta no Apêndice dO Senhor dos Anéis, porque os homens estavam aumentando nos Vales do Anduin. Nem todos eram Homens do Norte. Alguns eram leais a Sauron, Orientais, aparentados aos Carroceiros. Os outros homens poder ter sido dos homens da floresta e possivelmente os ancestrais dos Beornings.

Quando Eorl o Jovem conduziu os Eotheod para o sul cinco séculos mais tarde, alguns de seu povo permaneceram no norte. Estes cavaleiros escolheram – seja qual for a razão – não seguir Eorl? Possivelmente, mas se isso realmente ocorreu eles não deram origem a uma grande nação de guerreiros montados. Ao contrário, desapareceram na história e foram esquecidos. O que aconteceu com eles?

Beorn como Urso na Batalha dos Cinco Exércitos

Retornando aO Hobbit, devemos recordar que Gandalf mencionou os dragões como tendo expulso homens do norte. Como Smaug e Valle, os dragões podem facilmente ter destruído muitas cidades e vilas. O primeiro dragão conhecido no norte foi Scatha, mas este dragão foi morto por Fram, filho de Frumgar, o líder que conduziu os Eotheod para o norte por volta do ano 1977. De acordo com o Conto dos Anos em O Senhor dos Anéis, os dragões não começaram a se multiplicar novamente até cerca do ano 2570. A entrada declara especificamente que os dragões começar a afligir os Anões. Eorl tinha conduzido seu povo para o sul cerca de 60 anos antes, então poderia não restar muitos homens no norte distante. Mesmo que existissem alguns, estes deveriam ter sido expulsos para o sul pelos dragões.

Nós também devemos considerar que uma das principais razões pelas Gondor pediu ajuda a Eorl e os Eotheod em 2509/10 era que os Vales sul do Anduin estavam se tornando perigosos para Gondor e seus aliados. Os Balchoth, ou povo Oriental aparentado aos Carroceiros, estavam então vivendo ao longo da borda sul da Floresta. Eles podem, portanto, ter destruído ou expulso muitos dos Homens do Norte restantes, então talvez apenas os Homens da Floresta restaram.

Com os dragões vindo do norte e os Balchoth mantendo o sul, os Homens do Norte dos Vales do Anduin foram fortemente pressionados a encontrarem um local seguro para viver. Eles devem ter entrado em um longo período de declínio a este tempo, e não foi antes do trigésimo século que eles começaram a recuperar suas terras perdidas. Os Orcs começaram a colonizar as Montanhas Nebulosas no final do século 25, e eles foram uma ameaça significativa até a Guerra dos Anões e Orcs [2793-99].

Em algum momento de todos esses anos e guerras, os Beornings devem ter se ramificado dos outros Homens do Norte. É concebível que eles fossem descendentes tanto dos Eotheod remanescentes quanto dos Homens das Florestas que foram para o norte antes que os dragões começassem a inquietar a região. Os cavalos e pôneis de Beorn não são apenas extraordinários [assumindo que o conto de Bilbo foi apenas levemente enfeitado com o objetivo de contá-lo], ele possuía um grande amor por eles – o qual lembrava a devoção dos Rohorrim a seus cavalos. É portanto concebível que os Beornings tenham mantido a tradição da montaria à cavalo.

Da mesma forma que os Rohirrim viviam nas Ered Nimrais e pastoreavam seus rebanhos e manadas nos amplos campos gramados de Calenardhon, então, também os Beornings podem ter morado nas montanhas e pastoreado seus cavalos nas terras baixas. Então segue-se que se Beorn desejava retornar para as montanhas, ele deve ter sido expulso de lá pelos Orcs, e seu povo em geral pode ter sido destruído ou expulso pelos Orcs. Um guerra anterior com os Orcs poderia explicar o pouco número dos Beornings quando Bilbo e Gandalf os visitaram, mas as enormes perdas sofridas pelos Orcs das Montanhas Nebulosas na Batalha dos Cinco Exércitos poderia ter dado os homens do Vale do Anduin uma tão necessária trégua.

Beorn poderia, portanto, ter recrutado novos seguidores dentre os Homens da Floresta que estavam migrando para o norte para ampliar os números de seu povo, e uma vez que Gloin contou a Frodo que os Beornings mantiveram a Passagem Alta aberta ao tempo da Guerra do Anel, os Beornings parecem ter se tornado fortes o suficiente para terem retornado às montanhas.

A cultura dos Beornings pode então lembrar aquela dos Rohirrim, mas em alguns modos deveria ser similar àquela dos Homens da Floresta. Quanto aos Homens da Floresta, contudo, não temos evidências diretas sobre seus modos de vida e costumes. Porém Tolkien descreveu um outro grupo de Homens da Floresta, na Primeira Era: o Povo de Haleth, que vivia de modo similar ao dos Beornings. Como Beorn, o Povo de Haleth freqüentemente vivia sozinho, ou apenas com poucas pessoas juntas. Eles construíam grandes cercas ao redor de suas casas, e a maioria vivia dentro da floresta, na floresta de Brethil.

Tais similaridades podem ser apenas superficiais, Tolkien pode não ter previsto nenhum paralelo próximo entre as culturas do Povo de Haleth e o povo de Beorn; mas por outro lado, ele parece ter enfatizado o relacionamento entre os Rohirrim e os outros Homens dos Vales do Anduin. Fazendo isso, ele poderia estar sugerindo que as culturas de Rohan e dos Beornings não eram muito distanciadas.

[Tradução de Fábio 'Deriel' Bettega]

Michael Martinez

Mágica, por Melkor. Não Aceitam-se Devoluções

Porque ouro? Eu tive essa questão feita para mim algumas vezes. De onde eu tirei a idéia que os dragões poderiam retirar poder do ouro, ou, mais especificamente, que existe alguma coisa especial no ouro no que se trata de mágica? [Nota do Tradutor: Martinez está se referindo ao ensaio Todos os Dragões se Foram? , de sua própria autoria]
Bem, eu esqueci de mencionar um parágrafo crucial
quando estava citando um ensaio de Tolkien [o qual, a propósito,
Chistopher Tolkien chamou de "Notas Sobre os Motivos do Silmarillion" - os parágrafos sobre o elemento-Morgoth foram movidos do início para o final de seção II]. 

Quando ao final nos referimos à visão de Tolkien de como a mágica funcionava para Sauron, temos as seguinte palavras: “O
poder de Morgoth estava disseminado através de todo o Ouro, se em
nenhuma parte absoluto [pois ele não criara o Ouro] em nenhuma parte
estava ausente. [Era este elemento-Morgoth na matéria, de fato, que era
o pré-requisito para a "mágica" e outras perversidades que Sauron
praticou com ele e sobre ele.]“

Mas o que se segue explica
minha fascinação pelo ouro, e porque eu acho que dragões seriam capazes
de se sustentar a partir dele:

“É bastante possível, claro,
que certos “elementos” das condições da matéria tenham atraído a
atenção especial de Morgoth [principalmente, exceto no passado remoto,
por razões de seus próprios planos]. Por exemplo, todo o ouro [na
Terra-média] parece ter uma tendência especialmente “maligna” – mas não
a prata. A água é representada como quase inteiramente livre de
Morgoth. [Isto, claro, não significa que um mar, rio, poço ou mesmo
vasilhame de água em particular não pudesse ser envenenado ou poluído -
como todas as coisas podiam.]“

Então, não existe uma
conecção específica com dragões, mas Tolkien pelo menos reservou alguns
pensamente para o lugar em particular ocupado pelo ouro na hierarquia
do que podemos chamar “substâncias mágicas” na Terra-média. Ouro é um
elemento fascinante. É o terceiro metal mais condutivo que conhecemos
[apenas cobre e prata são mais efetivos]. Em sua forma mais pura o ouro
pode ser ingerido com segurança [embora sopa de ouro seja muita cara,
segundo me contaram] mas não possui um valor nutritivo para nós.
Dragões podem ou não ter se beneficiado da absorção de algumas libras
de ouro. [Nota do tradutor: libras no sentido de peso]

De
fato, me foi apontado que o tesouro dos dragões incluem mais coisas do
que apenas ouro. A barriga de Smaug, por exemplo, estava incrustrada
com jóias. Mas qualquer um que viu o desenho de Bilbo e Smaug que
Tolkien fez para O Hobbit [entitulada "Conversação com Smaug"] não
poderá deixar de notar que a maior parte da cama do dragão é composta
de ouro. Sim, existe todo tipo de coisas brilhantes espalhadas pela
pilha [incluindo a Pedra Arken no topo da pilha] mas a maior parte do
tesouro é ouro.

Isso não quer dizer que as jóias não sejam
especiais a seu próprio modo. Lembre-se como Ungoliant cobiçou as gemas
que Melkor roubou dos Noldor em Formenos. Ela comeu todas exceto as
Silmarilli e ficava mais poderosa enquanto o fazia. Estas gemas
possivelmente não continham o que Tolkien se referia como
elemento-Morgoth, mesmo Morgoth tendo sido mantido em Aman por um longo
tempo. Então, a questão que surge é se existia algum outro elemento
“mágico” com o qual Ungoliant estava se alimentando ou se ela estava
simplesmente se alimentando da própria essência das pedras preciosas.

Quando Ungoliant sugou a vida das Duas Árvores e depois sorveu a luz
líquida dos Poços de Varda ela cresceu a um tamanho imenso. Ela
tornou-se tão grande e poderosa que Melkor a temeu. Luz era o sustento
de Ungoliant, mas a luz das Duas Árvores seria um produto do que
poderíamos considerar “mágica pura”, o poder de um Vala. Yavanna trouxe
as Duas Árvores à vida pelo poder de sua canção, um ato de sub-criação
inigualado dentro dos Salões de Eä, e que ela disse não ser capaz de
repetir. Assim alimentada pelo poder do encantamento mais poderoso de
Yavanna, Ungoliant tornou-se imensa e mais poderosa do que antes.

Da mesma forma as gemas roubadas dos Noldor eram encantadas. Fëanor
aprendeu como fazer pedras preciosas que brilhavam sob a luz das
estrelas ou que brilhava de acordo com sua vontade. Ele teve muitos
anos, durante os quais construiu um grande tesouro, e este tesouro foi
transportado para Formenos quando Fëanor, Finwë e os filhos de Fëanor e
os Noldor que os seguiram fixaram lá ao norte de Valinor durante o
período do banimento de Fëanor de Tirion. Portanto Ungoliant foi capaz
de se alimentar não apenas com a essência das jóias Noldorin mas também
com o poder que Fëanor [e quaisquer outros artesãos] colocou nelas.

Se os Noldor eram capazes de crias gemas mágicas em Aman, eles não
seriam menos capazes de criá-las na Terra-média. E assim como os Noldor
foram ensinados pelos Valar e Maiar, especialmente por Aulë, também os
Anões foram ensinados pessoalmente por Aulë. Os Anões possuíam suas
próprias habilidade e poderes especiais. Eles podem ter sido menos
poderosos que os Eldar, ou talvez menos ambiciosos [pois eles nunca
fizeram artefatos como os Anéis de Poder ou as Silmarilli]. Mas os
Anões também colocavam seus pensamentos nas coisas que faziam, como o
elmo-dragão de Dor-lomin, que protegia seus portadores de qualquer
dano. E a Flecha Negra de Erebor que Bard usou para matar Samug pode
ter sido um produto de mais do que um artesão experiente. Talvez algum
mestre Anão, morto pelo dragão fazendo com que todo seu conhecimento
fosse perdido com ele, tenha posto um grande esforço na sua criação e
embuiu nela algo de seu poder.

O poder dos Elfos – e dos Anões
- podia não ser igual ao poder de Morgoth ou Yavanna, mas ainda sim
seria uma fonte de encantamento. Um dragão sobre um tesouro Élfico
[como em Nargothrond] ou um tesouro Anão [como em Erebor] poderia sugar
ou simplesmente banhar-se nas energias dos criadores dos itens
encantados tanto quanto ou quase tanto como no elemento-Morgoth contido
no ouro. O que não quer dizer que os dragões tivessem que fazer isso,
mas claramente a passagem de poder de um ser para um objeto é uma idéia
que Tolkien usou várias e várias vezes, e um após o outro ele nos deu
exemplos de poder passando de um objeto para uma criatura. As imensas
energias que Melkor dispersou através de Arda em seus esforços para
identificá-la consigo mesmo poderiam, coletivamente, ofuscar aquelas
dos Elfos e Anões criadores de itens. Mas um tesouro de ouro e gemas
não importa o quão grande fosse seria apenas uma pequena fração da
essência de Arda. Assim cada pequena partícula ajudaria.

Um
senso de escala desenvolve-se quando pesamos os grande poderes
[malignos] da Primeira Era contra aqueles das Eras posteriores. Melkor
governou seu reino a partir de Angband, onde ele estava cercado por
seus servos: Sauron, os Balrogs, Draugluin e os lobisomens, Orcs,
Trolls, Thuringwethil e talvez outras criaturas como morcegos, e outros
monstros não nomeados nas lendas dos Elfos e Edain. Ele criou lá alguns
dragões e nutriu Carcharoth, o grande Lobo. Mas suas criaturas também
residiam por toda a Terra-média. O cerco de Angband foi mais um show do
que qualquer outra coisa, pois as forças de Melkor eram capazes de ir e
vir como queriam através de rotas no norte. E Melkor recrutara muitos
Homens do leste.

Na Segunda Era Sauron começou a agir por si
mesmo. Ele eventualmente reuniu todas as criaturas malignas novamente
mas quase todos os servos Maiar de Melkor haviam perecido ou se
ocultado. E se existiam dragões a seu serviço eles parecem não ter
conseguido muito em Eriador [a menos que quando Sauron queimou as
grandes florestas de Minhiriath e Enedwaith na Guerra dos Elfos e
Sauron ele o tenha feito com a ajuda dos dragões]. Ao final da Era
Sauron tinha escravizado os Nazgul. Uma vez que um vasto exército de
Elfos, Anões e Homens foi capaz de derrotá-lo, Sauron não era tão
poderoso [militarmente] quanto Melkor havia sido ao final da Primeira
Era. Parte da força militar sem dúvida vinha do número de magos ao
serviço de Melkor, e de suas qualidades. Mesmo em seus estado decaídos
os Maiar corrompidos eram bastante poderosos.

Na Terceira Era
Sauron tomou forma muito lentamente, e concentrou seus esforço ao redor
de Dol Guldur por um longo tempo. Ele enviou o Senhor dos Nazgul ao
norte para fundar o Reino-Bruxo de Angmar e de Angmar Sauron atingiu os
Dunedain do Norte [e em uma extensão menor aos Eldar também]. Parte da
estratégia de Angmar parecia ser corromper o Povo das Colinas de
Rhudaur, alguns dos quais se tornaram feiticeiros. Mas, embora temidos
pelos Homens, estes feiticeiros não parecem ter deixado marcas na
história. Eles foram virtualmente eliminados durante ou após a guerra
de 1409.

Embora Tolkien não fale das magias realizadas pelo
Povo das Colinas ele revela alguma coisa sobre os tipos de magia
utilizadas pelo Senhor dos Nazgul e pelos Espectros Tumulares, que
foram enviados pelo Rei Bruxo para habitar os túmulos de Tyrn Gorthad
após a Grande Praga ter destruído a maior parte do povo de Cardolan. Os
Nazgul e os Espectros parecem ter sido adeptos de matar seres vivos, e
os Nazgul especialmente [com suas lâminas Morgul] escravizavam os
espíritos daqueles que matavam. O Espectro Tumular que capturou Frodo e
os Hobbits estava pronto a sacrificá-los, presumivelmente para enviar
seus espíritos a Sauron ou ao Senhor dos Nazgul.

No Morgoth’s
Ring, o ensaio sobre “Morte e separação do fea e hrondo [>hroa]“,
Tolkien fala de como os espíritos dos Elfos assassinados podiam
prolongar-se na Terra-média:

“Mas pareceria que nestes dias
posteriores mais e mais elfos, sejam eles dos eldalië em origem, sejam
de outras raças, que demoram-se agora na Terra-média recusando a
convocação de Mandos, e vagam desabrigados no mundo, negando-se a
deixá-lo e incapazes de habitá-lo, assombrando árvores, fontes ou
lugares ocultos que conheciam. Nem todos destes são amigáveis ou
intocados pela Sombra. De fato, a recusa à convocação é em si um sinal
de mácula.”

“É, portanto, algo imprudente e arriscado,
além de ser um ato errado, proibido pelos Governantes de Arda, os vivos
tentarem se comunicar com os desencarnados, embora os desabrigados
possam desejá-lo, especialmente os mais indignos entre eles. Pois os
desencarnados, vagando pelo mundo, são aqueles que no mínimo recusaram
a porta da vida e continuaram pesarosos e auto-piedosos. Alguns são
preenchidos com rancor, desgosto e inveja. Alguns eram escravizados
pelo Senhor do Escuro e ainda fazem o seu trabalho, apesar de ele ter
partido. Eles não dirão verdades ou sabedoria. Apelar-lhes é uma
tolice. Tentar dominá-los e fazê-los servos da própria vontade de
alguém é perversidade. Tais práticas são as de Morgoth; e os
necromantes são da hoste de Sauron, seu servo.”

Alguns
dizem que aqueles Desabrigados desejavam corpos, embora não desejassem
consegui-los através da lei pela submissão ao julgamento de Mandos. Os
mal intencionados dentre eles iriam tomar corpos, se pudessem, sem
seguir a lei. O perigo de se comunicar com eles era, portanto, não
apenas o perigo de ser iludido por fantasias ou mentiras: também
existia o perigo da destruição. Para um dos famintos Desabrigados, se
fosse admitido à amizade dos Viventes, poderiam procurar expulsar o fëa
do corpo; e na disputa pelo controle o corpo poderia ficar gravemente
ferido, mesmo que não tivesse sido arrancado de seus morador de
direito. Ou os Desabrigados poderiam implorar abrigo, e se admitido,
procurariam escravizar seu anfitrião e usar tanto sua vontade como seu
corpo para seus próprios objetivos. É dito que Sauron fez tais coisas,
e ensinou ao seus seguidores como alcança-las.

Alguém pode se
espantar com o que a última frase significa. Sauron foi conhecido com o
Necromante durante os longos anos em que residiu em Dol Guldur. Ele
operou sem corpo para escravizar outros enquanto recuperava sua força?
Ele algumas vezes abandonava o próprio corpo para trabalhar com
feiticeiros que pensavam que podiam escravizá-lo? O que veio a ser dos
escravos que Sauron obteve desta forma, e quem seriam seus seguidores
que podiam praticar tais enganações? Estariam os Nazgul tomando posse
de tais possíveis feiticeiros? Tais ligações arriscadas com Sauron
poderiam explicar tanto porque ele era capaz de manipular tantos
líderes dos Homens como porque eles se sentiam atraídos por ele em
primeiro lugar. Os xamãs e reis e líderes não saberiam, até ser tarde
demais, que seus predecessores que se tornaram poderosos não eram nada
mais do que avatares de Sauron. Isto não quer dizer que todos os servos
de Sauron seriam diretamente manipulados. Mas os mais poderosos dentre
seus servos e aliados de fato poderiam ser feiticeiros-marionete.

Talvez isto explique o costume bárbaro onde os reis queimavam-se em uma
pira. Denethor II escolher morrer desta maneira e Gandalf o repreendeu
por isso, dizendo que apenas os reis bárbaros eram tratados dessa
forma. Se Sauron não tivesse mais uso para um de seus escravos poderia
ser conveniente destruir todas as evidências de sua possessão do que
deixar que seus seguidores aprendessem a verdade, ou alguma porção
dela. Por outro lado, pode-se argumentar, se Sauron e os Nazgul podiam
controlar pessoas, porque o Senhor dos Nazgul não usou o corpo de
Earnur para ter controle sobre toda Gondor? Pode ser que, se ele
fizesse a tentativa, o Senhor dos Nazgul não tivesse o poder
necessário. Earnur não iria coloborar de livre vontade com um Nazgul ou
mesmo com o próprio Sauron. Sua vontade seria rompida mas ele
provavelmente morreria, consumido pelo esforço.

O medo que
alguns dos Rohirrim demonstram, perguntando-se se Aragorn e seus
companheiros poderiam ser espectros Élficos quando ele toma as Sendas
dos Mortos, também pode dar fundamento à suspeita de que talvez ele
tenham sido possuídos por espíritos Élficos. A especulação implica que
os Rohirrim teriam experiência com homens possuídos por espíritos
Élficos, ou talvez tenham ouvido contos o bastante sobre tais homens
para acreditar que seriam verdade. E finalmente sabemos que Tolkien não
estava apenas revendo o tema quando escreveu o ensaio sobre morte e
conitnuidade do espírito e corpo. Ele estava preenchenco algumas
lacunas na estrutura já estabelecido pelO Senhor dos Anéis.

E
dessa forma nós podemos seguramente deduzir que, no mundo de Aragorn e
seus companheiros, existiam ou existiram homens que tolamente tentaram
tornar-se poderosos através de meios não-naturais. Talvez inspirados
por ou invejosos dos Istari e Elfos, que possuiam tais habilidades
naturalmente, homens foram conduzidos em direção das trevas. E o
aparente aumento no força e sofisticação dos inimigos de Arnor e Gondor
também podem mostrar aqueles homens sucumbindo à tentação de forjar
alianças com espíritos malignos, embora pudessem não ter idéia do que
estavam fazendo.

O que nos traz de volta ao assunto de como os
homens podem ter começado tal experimentação. Mesmo Sauron precisou de
um primeiro voluntário para sucedê-lo. Será que ele descobriu que os
homens já estavam brincando com esta idéia quando tomou forma
novamente? Terá ele plantado as sementes de tais práticas durante a
Segunda Era? Se sim, a antiga sabedoria recuado para o leste distante
mas não poderia estar completamente perdida. Talvez os nazgul tivessem
mantido o conhecimento vivo em antecipação ao eventual retorno de
Sauron. E homens buscando poder poderiam procurar por objetos de poder.
Ouro seria valioso, mas ouro trabalhado pelos Elfos e Anões seria mais
mágico do que qualquer coisa que os Homens pudessem conquistar por si
mesmos.

Portanto, pessoas desejando tornar-se feiticeiro
poderiam barganhar com Elfos e Anões se possuíssem riquezas e recursos
que os Elfos e Anões desejassem. De outra forma, Homens poderiam pilhar
Elfos e Anões na esperança de obter tesouros. A animosidade e
estranhamento que se criou entre Homens e as outras raças durante a
Terceira Era podem ter tido muitas causas, mas Tolkien cita que os
Anões eram frequentemente saqueados pelos Homens, provavelmente mais do
que pelos dragões. E assim geração após geração de feiticeiros e
estudantes de necromancia poderiam lutar e obter artefatos preciosos e
gemas, valorizando-os não por sua beleza mas sim por seus encantamentos.

Não que todos os praticantes de magia tivessem que ser malignos. Os
Numenorianos de Cardolan, pelo menos, tinham modos de criar espadas
encantadas. As espadas do túmulos que Tom Bombadil deu aos Hobbits eram
“imbuídas com feitiços para a destruição de Mordor”. Faramir fala a
Frodo e Sam que mesmo em Gondor alguns de seu povo continuavam a fazer
elixires na desesperada busca por vida longa, e alguns homens
continuavam a se relacionar com os Elfos. Em uma carta para um leitor,
Tolkien fala que Beorn era um homem “ainda que um Troca-Peles e um pouco de mago”.
Tais homens não haviam procurado comunicar-se com espíritos Élficos, os
Desencorporados, ou com Sauron e os Nazgul. Eles teriam procurado uma
sabedoria mais pura.

E uma vez que o poder de Melkor estava
disseminado através do mundo físico existia muito material com o qual
trabalhar. Não é necessário encantar material que já está encantado.
Ouro era um material ruim para armas mas podia ser inserido nas lâminas
de espadas de ferro [como nas lâminas tumulares]. As lâminas tumulares
eram também decoradas com gemas, e feitas de um estranho metal que os
Hobbits não reconheceram. E Denethor reconheceu imediatamente que a
espada de Pippin havia sido feita pelos Dunedain do norte. Ele
reconheceu a arma pelo seu desenho, seus materias ou por alguma outra
coisa?

Os Numenorianos também contruiram a grande torre de
Orthanc, cuja pedra era tão lisa e forte que não podia ser quebrada
pelos Ents. Exista magia envolvida ali? Estaria a pedra negra com a
qual os Numenorianos trabalharam cheia com uma quantidade
extraordinariamente grande da essência de Melkor ou seria simplesmente
suficiente que eles pudessem murmurar ou cantar seus pensamento nela e
a torre se tornaria quase impenetrável? E do que a pedra negra de Erech
era feita? Por que era tão importante para os Homens Mortos de
Dunharrow? Isildur a colocou ali, e seu rei havia feito um juramente
sobre ela. Seria, talvez, a pedra um repositório de elemento-Morgoth
maior do que, digamos, outras pedras de forma e tamanhos similares?

Mas então Isildur teria sido capaz de fazer uso do elemento-Morgoth
para amaldiçoar os Homens de Dunharrow por quebrarem seu juramento?
Como um Homem ele era desprovido do poder necessário para confinar os
espíritos de uma tribo inteira na Terra-média por milhares de anos.
Mesmo o mais poderoso dos feiticeiros entre os Homens parece não ter
atingido nada comparável. Então a maldição de Isildur deve ter sido
ampliada por algo maior, algo mais puro. Mesmo os Valar não tinham a
autoridade de manter os Homens nos Salões de Eä para sempre. Seria um
ato de desafio e rebelião para com Námo manter um espírito Humano tanto
tempo, ao final das contas. Então a vontade e a autoridade que reforçou
a maldição de Isildur deve ter vindo de um poder maior, e este poderia
ser apenas o próprio Ilúvatar.

Como um Rei de Gondor, Isildur era, de fato, um sacerdote de Ilúvatar por parte de seu povo. “Parece que,” Tolkien aponta na Carta 156, “que existia uma “área santificada” no Mindolluin, aproximável apenas pelo Rei…”


“…onde ele antigamente oferecia graças e louvores por parte de seu
povo; mas isto foi esquecido. Foi relembrado por Aragorn, e lá ele
encontrou um broto da Árvore Branca, e a replantou no Pátio da Fonte. É
presumível que com o ressurgimento da linha dos reis sacerdotes [da
qual Lúthien, a Abençoada Dama Élfica, era uma antepassada] o culto a
Deus poderia ser renovado, e Seu Nome [ou título] seria novamente
ouvido com mais frequência. Mas não existiriam templos do Deus
Verdadeiro enquando a influência Numenoriana persistisse.”

Os Reis de Gondor [e, presumivelmente, os Reis de Arnor] estariam
apenas continuando ou revivendo o antigo culto que seus povos
praticavam em Numenor.

“Os Numenorianos então começaram um grande novo bem, como monoteístas;
mas como os Judeus com um único centro físico de “adoração”: o pico da
montanha Meneltarma “Pilar do Céu” – literalmente, pois eles não
concebiam o céu como a residência divina – no centro de Númenor; mas
não possuía construções nem templos, e todas essas coisas tinham uma
associação com o mal….”

Ilúvatar não encheu Arda com sua
essência pessoal como Melkor fez, mas não havia necessidade. Ilúvatar
criou Eä com a Chama Imperecível, e colocou a Chama em seu interior. Os
Salões de Eä eram incontestavelmente identificados com a vontade de
Ilúvatar, e as maquinações mesquinhas de Melkor podiam apenas inserir
uma identificação com Arda. Portanto Ilúvatar é livre para agir em sua
criação assim que desejar. E Gandalf aponta para Frodo que existiam
alguns propósitos-guia funcionando em Arda, quando ele diz “Existe
mais do que um poder funcionando, Frodo. O Anel está tentando voltar
para seu mestre… por trás disso algo mais trabalha, além de qualquer
propósito do Criador do Anel. Não posso colocar isso de forma mais
simples do que dizendo que Bilbo estava marcado para encontrar o Anel,
e não o criador do mesmo…”

E podemos estar certos que Gandalf falava de Ilúvatar pois Tolkien o diz na Carta 156 “Então
Deus e os deus “angelicais”, os Senhores ou Poderes do Oeste, apenas
olhavam através de certos locais como a conversação de Gandalf com
Frodo”
. Tendo os Valar alguma parte na decisão de se Bilbo
encontraria o Anel ou não, Tolkien está claramente incluindo Ilúvatar
na decisão.

A inserção de um elemento divino na “mágica” da
Terra-média então levanta uma questão sobre aplicabilidade. Estaria a
palavra “mágica” sendo muito usada? Nesse ponto Tolkien demonstra
arrependimento em ter usado a palavra, que descreve tanto os trabalhos
sub-criacionais dos Elfos quanto “as fraudes do Inimigo”. Ainda quele
ele defina dois aspectos da mágica, magia [efeitos físico] e goétia
[efeitos na mente e espírito], ele insistiu que tanto um quanto outro
tipo poderiam ser bom ou mau dependendo do motivo do usuário, e que
tanto os personagens bons [Valar, Elfos] quando os Maus [Melkor,
Sauron] utilizaram ambos os tipos de mágica. E mais: todos as “mágicas”
ou poderes vieram em última instância da vontade ou pensamento de
Ilúvatar, que criou os seres que praticavam mágica. Então, se os
poderes de Melkor, ou Ulmo, são o produto do pensamento de Ilúvatar,
ele difere em natureza das intervenções diretas de Ilúvatar?

Em um aspecto, o poder de Melkor é dele próprio: dado a ele
irrevogavelmente por Ilúvatar. Apenas Ilúvatar ou Melkor poderiam
alterar sua força natural. Outros seres, como Manwe e Namo, poderiam
ser capazes de capturas e executar Melkor, e portanto enfraquecê-lo
como resultado dele ser forçadamente desalojado de sua encarnação
física. Mas tal desalojação seria resultado das leis físicas da
Criação. Isto é, Ilúvatar fez as regras que mesmo Melkor tinha que
obedecer. Ele não poderia simplesmente recusar ser morto. Sua
encarnação física era sujeita às consequências da fisicalidade.
Portanto existia uma chance real, embora mínima, de Fingolfin matar
Melkor. E por isso também que Gil-galad e Elendil [ou Isildur, como
alguns acreditam] foram capazes de matar Sauron. Sauron morreu em
Númenor mas a destruição de Númenor foi causada por Ilúvatar. A morte
de Sauron na encosta do Orodruin foi atingida por um ser ou seres com
poderes e estatura muito inferiores a Manwe.

O aspecto divino
da “mágica” é, portanto, identificável com as leis da natureza. Isto é,
a vontade de Ilúvatar não pode ser distinguida de um aspecto de si
mesmo ou de sua criação. Se a Criação deve comportar-se de uma certa
forma, e a própria Criação é atingida pelo poder de Ilúvatar, então
todas as coisas da Criação estão, por extensão, exibindo o poder de
Ilúvatar, embora porções desse poder tenham sido dados irrevogavelmente
a elas.

Pode existir, portanto, um aspecto de Arda [e todos os
Salões de Eä, a Criação] que é muito parecido com o elemento-Morgoth,
embora mais puro e mais consistente: um elemento-Ilúvatar. Não
utilizável com finalidade de conduzir “mágica”, talvez, mas
irrevogavelmente estampado com sua vontade. Coisas existem porque
Ilúvatar disse que ela poderiam existir, e elas funcionam de acordo com
as Leis da Criação que ele definiu. Então, todo o poder dos Ainur e
Elfos e Anões, seja por eles retido ou inserido em outros itens, devem
existir e funcionar de acordo com as leis naturais de Ilúvatar. E o
próprio Ilúvatar portanto não precisaria transgredir suas próprias leis
para executar sua vontade sobre o mundo. O mundo irá executar sua
vontade para ele porque as leis da natureza fderivam de sua própria
vontade.

Isto é, não existe distinção real entre a “mágica” de
Ilúvatar e a “mágica” de Melkor, exceto em escala e pureza de
propósito. O poder de Melkor é incomparavelmente menor do que o de
Ilúvatar, mas a perversão de Melkor também corrompeu seu poder então
ele é impuro. Todo o poder é retirado da mesma forma e corre a partir
da mesma fonte. Mas Ilúvatar concedeu irrevogavelmente poderes, em
alguma proporção, às criaturas de seu pensamento. Os esforços de Melkor
para identificar-se com Arda através da disseminação de sua força
através do mundo foi, de fato, um ato de desafio. E amplamente
infrutífero. Ilúvatar não irá cancelar seus presentes a Melkor, mas
também não é barrado pela vontade de Melkor.

Por outro lado,
tendo feito os Salões de Eä e os populado com os Ainur e outras
criaturas de estatura similar porém inferior, Ilúvatar nãoprecisa
infundir continuamente seu poder em Eä. Então existe um aspecto finito
na mágica. Apenas uma certa quantia desse poder veio para o universo e
apenas uma certa quantia foi adicionada através do nascimento de seres
que possuem a habilidade de encantar coisas. A separação de Aman da
Terra-média de uma certa forma limita ou mesmo reduz a mágica que pode
ser “utilizada” pelos Homens e outros seres. O que Melkor deixou para
trás trata disso disso. Novos Elfos e Anões podem ter nascido, mas seus
poderes são incomparavelmente pequenos perto do poder de Melkor. Assim
que os Elfos partem ou morrer, assim que os Anões morrem, e seus
artefatos desaparecem ou são destruídos, a reserva de mágica disponível
e passível de utilização diminui.

Isto é, com o passar dos
milênios tornar-se-ia mais e mais difícil para os Homens praticarem a
“verdadeira” mágica porque as fontes de mágica dais quais necessitavam
se tornariam cada vez menos. Uma das mais fortes críticas levantadas
contra Tolkien por escritores atuais de fantasia é que parece não haver
limite para a mágica em seu mundo, e nada poderia estar mai longe da
verdade. “Mágica” é extremamente difícil de definir, mas as expressões
de poder, a criação de “artefatos mágicos”, diminuíriam em tamanho e
número com o passar das Eras porque o poder estaria deixando a
Terra-média.

Portanto as Silmarilli de Fëanor e os Anéis de
Poder definem um limite superior da expressão de poder na Terra-média.
Sem dúvida outros grandes trabalhos foram realizados: as cidades de
Gondolin, Mengroth e Khazad-dum eram, de muitas maneiras, “mágicas”.
Mas elas eram os produtos de populações inteiras, o resultados de eras
de trabalho. E mesmo assim nada como elas poderá ser contruído
novamente. Mesmo na Quarta Era, quando Durin VII liderou seu povo
novamente para Khazad-dum, é improvável que eles pudessem reviver a
antiga glória de sua cidade. Apenas um eco do passado poderia ser
alcançado, em parte porque seu número havia se reduzido, mas também
porque eles haviam perdido muito da antiga sabedoria. Khazad-dum era a
última relíquia de eras onde cidades mágicas eram possíveis. Agora elas
são simplesmente lendas.

O medo de Galadriel de que seu povo
pudesse diminuir na Era dos Homens, condenado a se tornar um povo
rústico de cavernas e vales, é portanto assentado sobre um problema
bastante real. Uma vez que os Anéis de Poder deixaram de existir, os
Elfos [que haviam sido protegidos dos efeitos do Tempo] teriam que
deixar a Terra-média. Os Elfos perderam não apenas grande parte de seu
conjunto de talentos, mas também suas “reserva de poder”. Isto é,
restaram menos Elfos para construir novas cidades. Alguns dos Alto
Elfos permaneceram em Imladris e Lindon mas eles nunca mais poderiam
ser uma grande nação Eldarin. Não existiriam mais artefatos, nem
cidades a serem cionstruídas nas terras dos Homens. E os Elfos que
compreendiam que Arda continuava possuindo o elemento-Morgoth poderiam
relutar em utilizá-lo novamente na mesma escala da criação dos Anéis de
Poder. Eles aprenderam através de muitas lições amargas qual era o
preço de trabalhar com tal mágica.

Algo pode ser dito aqui
sobre o Mithril. Se ouro é altamente mágico, Mithril seria ainda mais?
Eu acho que sim. Desafortunadamente é extremamente difícil obtê-lo.
Ouro é bem mais abundante. Também o são as jóias. E muito do mithril
que foi trazido à luz está perdido. Tar-Telemmaite, décimo-quinto rei
de Númenor, coletou todo o mithril que pode encontrar. Sauron também
coletou todo o mithril que pode. Embora seja duvidoso que os
Numenorianos tivessem sido feiticeiros, Sauron pode realmente ter
encontrado usos mágicos para o seu mithril. E quando Barad-dur foi
destruída uma grande quantidade de mithril pode ter sido destruída com
ela. Lentamente o mithril desapareceu da Terra-média.

Pode ter
havido uma boa razão porque o Balrog de Moria escondeu-se em ou perto
de um veio de mithril. O mithril em seu estado natural pode ter
mascarado seu poder. E pode ser que se os dragões pudessem realmente
drenar poder do ouro e jóias que pudessem drená-lo do mithril também.
Mas se prata [prata normal] possuía menos elemento-Morgoth que o ouro,
o mithril possuíram mais do que a prata? Ou, sendo “prata verdadeira”,
o mithril estava praticamente livre do elemento-Morgoth? Nós
provavelmente nunca vamos saber.

[Tradução de Fábio 'Deriel' Bettega]

As Profecias da Terra-Média

As profecias têm um papel importante nas histórias
da Terra-Média. De fato, alguns argumentam que Tolkien tencionava a
Terra-Média como tendo um destino pré-determinado ou linha do tempo,
uma vez que aparentemente todas as profecias mencionadas tornam-se
verdade de alguma forma. Bem, há falsas profecias nas histórias, mas
elas são raras. Ou, se não são falsas, no mínimo não realizadas.
 
 
 
A questão sobre se há poder nas profecias ou poder
detrás delas é virtualmente impossível de se resolver satisfatoriamente
a todos. Muitos acreditam que a história desdobra-se de acordo com a
Música dos Ainur (o que não é verdade, uma vez que foi Ilúvatar quem
deu à Música esse sentido através da sua Visão). Desconsiderando-se o
que vem em seguida à Música ou à Visão, o Tempo certamente desvela
muito enquanto os Ainur e Ilúvatar criam seus temas. Mas O Silmarillion
nos conta que cada Era revela novas maravilhas aos Valar sobre as quais
eles não conheciam nada, e que não haviam sido previstas na Música ou
na Visão.

De fato, muito da história que é prevista não vem a
ocorrer na Música ou na Visão. Depois que Ilúvatar pára a música, ele
fala aos Ainur. "E muitas outras palavras disse Ilúvatar aos Ainur naquele momento", Tolkien escreve no "Ainunlindalë". "E,
em virtude da lembrança de suas palavras e do conhecimento que cada um
tinha da música que ele próprio criara, os Ainur sabem muito do que
foi, do que é e do que será, e deixam de ver poucas coisas. Mas algumas
coisas há que eles não conseguem ver, nem sozinhos nem reunidos em
conselho: pois a ninguém a não ser a si mesmo Ilúvatar revelou tudo o
que tem guardado; e em cada Era surgem novidades que não haviam sido
previstas, pois não derivam do passado."

Ilúvatar então
mostrou muito na Visão que os Ainur não haviam cantado, e mesmo quando
os Ainur entraram em Eä, Ilúvatar revelou novidades. Sua liberdade de
alterar Eä ao que o Tempo desdobra-se deixa Ilúvatar como o último
árbitro da presciência. Assim, ele pode (se ele assim escolher)
invalidar a presciência que um Ainu individualmente possa ter produzido
de partes da Música ou da Visão. Mas Ilúvatar nega algo que havia sido
previsto? Essa é uma questão interessante, ainda que ainda não possa
ser respondida.

Nós sabemos de muitas ocasiões em que Ilúvatar
intervém. Por exemplo, quando Aulë cria os Anões, Ilúvatar fala a ele e
no final das contas aceita os Anões como seus Filhos adotivos. Ilúvatar
dá a eles verdadeira vida e pensamento independente. Não há, é claro,
texto algum que diga que a impaciência de Aulë e a criação dos Anões
havia sido predita ou prevista na Música ou na Visão. Mas Aulë
construiu os Anões em segredo. Ele poderia trabalhar com afinco e em
segredo se os resto dos Ainur soubessem através do pré-conhecimento
advindo do Ainunlindalë. Portanto, a criação dos Anões por Aulë, e a
intervenção de Ilúvatar, são fortemente possíveis de serem
acontecimentos novos, desconhecidos dos Valar.

Quando
Ar-Pharazôn invadiu Aman para se apropriar da imortalidade, conta-se
que os Valar dispensaram sua guarda. Ilúvatar então interveio e alterou
o mundo, removendo Aman de Arda e transformando o que restou em um
mundo redondo. Os Valar poderiam saber que os Numenoreanos iriam se
rebelar contra sua autoridade? Eu não acredito nisso. Estando armados
de tal pré-conhecimento, eles teriam condenado efetivamente uma
multidão de numenoreanos a se tornarem maus.

Tolkien escreveu
que Manwë não podia, não iria compelir Melkor ao arrependimento, ou
usar contra Melkor os artifícios que ele próprio usara. No
Ósanwë-kenta, Tolkien explica que "Se Manwë tivesse quebrado esta
[sua] promessa [de libertar Melkor do aprisionamento no tempo
determinado] para seus próprios propósitos, ainda que "bons", ele teria
dado um passo em direção aos caminhos de Melkor. Este é um passo
perigoso. Naquela hora e ato, ele poderia ter deixado de ser o
vice-regente do Uno, tornando-se somente um rei que toma vantagem sobre
um rival que ele conquistou pela força."

Manwë igualmente
controlou a compulsão com a qual Sauron estava preocupado. Sauron
recebeu a ordem de se apresentar a Manwë para o julgamento, mas quando
Sauron falhou em mostrar-se, os Valar não o capturaram. A primeira
guerra para aprisionar Melkor foi iniciada em virtude dos Filhos. A
segunda guerra, ao final da Primeira Era, foi lançada por um propósito
similar. Não era a intenção de Manwë compelir Melkor ou forçar o Tempo
para um certo caminho.

Então, ao pronunciar o destino, como
quando os Valar expulsaram os Noldor de Aman e impuseram-lhes uma
condenação, na verdade uma maldição, não foi um ato em que os Valar
compeliram a escolhas específicas ou alteraram as atitudes dos Filhos.
Quando os Valar amaldiçoaram os Noldor, eles não poderiam compeli-los a
praticar o mal adiante (e de fato praticaram), mas de preferência
deveriam libertar os Filhos de quaisquer graça que sua convivência com
os Valar os tivesse concedido. Os Valar removeram suas influências
sobre os corações dos Noldor, que trilhavam um caminho (assim
deduziram) que os levaria apenas à autodestruição.

Pengolodh escreveu no Ósankë-kenta, "Eu
digo que isto não é assim. Tais coisas podem parecer-se, mas se em
gênero elas são totalmente diferentes, elas devem ser distintas.
Previdência, que é a previsão, e prognóstico, que é a opinião tomada
pelo raciocínio sobre a presente evidência, podem ser idênticas em sua
predição, mas são completamente diferentes em modo, e deveriam ser
distinguidas por mestres de tradição, mesmo se a língua habitual, tanto
de Elfos como de Homens, lhes dê o mesmo nome como áreas da sabedoria".

O Ósanwë-kenta diz que "Os
Valar entraram em Eä e no Tempo de livre vontade, e eles agora estão no
Tempo, enquanto este durar. Eles não podem perceber nada fora do Tempo,
salvo pela memória de sua existência antes dele começar: eles podem
recordar a Canção e a Visão�?.

A primeira nota acrescida ao
comentário sobre o "Athrabeth Finrod ah Andreth" diz respeito à
liberdade de Ilúvatar em oposição às limitações dos Valar:


"Os Eldar acreditavam que Eru era e é livre em todos os estágios. Esta
liberdade foi mostrada na Música por Sua introdução, após o surgimento
das dissonâncias de Melkor, de dois novos temas, representando a
chegada de elfos e homens, que não estavam no Seu primeiro comunicado.
Portanto Ele pode, no estágio cinco, introduzir diretamente coisas que
não estavam na Música e que assim não são realizadas através dos Valar.
Não obstante, isto continua em geral verdadeiro no que diz respeito a
Eä como concluído através da intervenção deles."

A
intervenção dos Valar na criação (ou sub-criação) de Eä, bem como sua
memória da Música e da Visão, os provêm com o conhecimento intrincado
de Eä e do Tempo em que eles projetaram o que se daria. Eles também
podiam prever acontecimentos ainda não revelados, mas apenas caso
Ilúvatar transmitisse tal conhecimentos a eles. A sua própria
intervenção deu a eles pré-conhecimento, mas não previsão. Ilúvatar
falou aos Ainur quando lhes mostrou a Visão, e disse-lhes muito que não
estava incluído nela.

Desse modo, o livre-arbítrio não colide
com as ações e intenções dos Valar, exceto Melkor, que desejava
compelir todas as criaturas viventes à sua obediência. Ele desejava que
fosse adorado pelos Filhos assim Ilúvatar deveria ter sido. Ele queria
ser obedecido pelos Ainur como Ilúvatar deveria ter sido. Melkor tentou
engajar-se no tipo de corrupção que iria eliminar ou reduzir o
livre-arbítrio. Tolkien tentou explicar esse resumo do dom de Ilúvatar
a todas as criaturas encarnadas pensantes nos ensaios a respeito da
origem dos Orcs.

No seu último ensaio sobre os Orcs, Tolkien escreveu:
verdade, claro, que Morgoth mantinha os orcs em horrenda escravidão;
pois em sua corrupção, eles haviam perdido quase toda a possibilidade
de resistir à dominação de sua vontade. De fato, tão grande era a sua
pressão sobre eles que, antes de Angband cair, se direcionasse seu
pensamento na direção deles, eles ficariam conscientes de seu "olho"
onde quer que estivessem; e quando Morgoth finalmente foi removido de
Arda, os orcs que sobreviveram no oeste se dispersaram, sem liderança e
quase sem sagacidade, e estiveram por um longo tempo sem controle ou
propósito."

A compulsão de Melkor por outras vontades deve
ser reduzida a mera influência, como na influência que ele parece ter
manifestado nas escolhas feitas pelos filhos de Húrin. Quando Melkor
aprisionou Húrin sobre as Thangorodrin, ele disse, "No entanto
posso chegar a você e a toda sua casa amaldiçoada, e serão quebrados
pela minha vontade, mesmo que sejam todos feitos de aço… Olhe! A
sombra de meu pensamento pesará sobre eles aonde quer que vão, e meu
ódio há de persegui-los até os confins do mundo�?.

Desde
que Túrin foi criado em Doriath sob a proteção de Melian, é improvável
que Melkor pudesse ter tido muita influência sobre a vida de Túrin. Mas
Saeros, em seu orgulho, abriu a si mesmo ao mal. Melkor deve apenas ter
necessitado de deduzir que onde quer que Túrin fosse, ele iria
encontrar alguém que tivesse alguma mácula sobre si. Nesse encontro, a
escolha de Túrin seria pré-influenciada para suspeitar do que é certo.
Tão pequena semente deve falhar em florescer uma centena de vezes, mas
conseguir usufruto ao menos uma. O conto dos filhos de Húrin poderia
estar repleto de casos em que eles eram tentados a escolher errado, mas
não o fazem.

No final, apenas as escolhas que levaram ao
destino que Melkor desejou para eles compreendem os elementos-chave do
Conto dos filhos de Húrin. Isso é o mais próximo que Tolkien chega de
impor qualquer coisa como predestinação sobre seus personagens. E ainda
que Húrin tenha revelado a localização geral de Gondolin aos espiões de
Melkor, este apesar de tudo deveria contar com o engano e aproveitar-se
das circunstâncias para alcançar seu objetivo. Ele não poderia
simplesmente decretar que Húrin trairia Turgon. Tal traição teria
acontecido antes e com menos complicações.

A maldição de
Melkor, assim como a maldição dos valar sobre os noldor rebelados, não
era, então, profecia, e certamente não impôs limitação ao
livre-arbítrio. Essas eram as ações de grandes poderes, possuidores de
grande conhecimento e compreensão, e capazes de considerável
discernimento acerca das motivações e prováveis escolhas das criaturas
com as quais lidavam.

Profecias verdadeiras acontecem algumas
vezes, mas isso é ofuscado pela previsão. Se pudermos distinguí-los,
devemos concluir que previsão apenas confirma intuitivamente que algo
deve ou irá ocorrer. Por exemplo, quando a Comitiva do Anel está
decidindo qual rumo tomar em Eregion, Aragorn alerta Gandalf sobre a
escolha do caminho através de Moria. Aragorn não tem uma idéia clara do
motivo para ele se sentir compelido a alertar Gandalf sobre aquele
caminho. E Gandalf certamente não pressente tal perdição. Mas a
premonição de Aragorn prova-se certa: eles encontram o Balrog e Gandalf
é afastado de seus companheiros.

Por outro lado, Elrond prediz alguns acontecimentos concernentes a jornada de Frodo: "Consigo
prever muito pouco do seu caminho, e como sua tarefa deve ser
desempenhada eu não sei. A Sombra agora já chegou aos pés das
Montanhas, e avança até a região próxima ao rio Cinzento; sob a Sombra
tudo fica escuro aos meus olhos. Você vai se deparar com muitos
inimigos, alguns declarados, alguns disfarçados; e poderá encontrar
amigos em seu caminho, quando menor esperar."

Quem pode
duvidar de que Boromir deve ser um inimigo não-declarado, e Faramir um
amigo inesperado? Mas a predição de Elrond é enganada pela Sombra,
quase como se ele estivesse literalmente vendo a jornada de Frodo
enquanto ela se desenrola. Por que deveria a Sombra (presumivelmente a
influência ou vontades de Sauron e Saruman) impedir a visão de Elrond?
A nota seis no Ósanwë-kenta nos oferece uma sugestão:


"Pengolodh aqui elabora (embora não seja necessário ao seu argumento)
esta questão de previsão. Nenhuma mente, ele afirma, conhece o que nela
não está. Tudo o que fora experimentado está nela, apesar de que no
caso dos Encarnados, dependendo dos instrumentos do hröa, algumas
coisas podem ser esquecidas, não estando imediatamente disponíveis para
recordação. Mas nenhuma parte do futuro lá está, pois a mente não pode
vê-lo nem tê-lo visto: isto é, uma mente situada no tempo. Tal mente
pode aprender sobre o futuro apenas a partir de outra mente que o tenha
visto. Mas isto significa apenas diretamente de Eru, ou por intermédio
de alguma mente que tenha visto em Eru alguma parte de Seu propósito
(assim como os Ainur, que agora são os Valar em Eä). Só assim um
Encarnado pode conhecer algo do futuro: por instrução derivada dos
Valar, ou por uma revelação vinda diretamente de Eru. Mas qualquer
mente, seja dos Valar ou dos Encarnados, pode deduzir pela razão o que
pode ou irá ocorrer. Isto não é previsão, mesmo que possa parecer claro
em termos e, de fato, mesmo mais preciso do que vislumbres de previsão.
Nem mesmo se isto é formado por visões vistas em sonho, um meio segundo
o qual a previsão é freqüentemente revelada à mente."

A
previsão do Elrond não pode ser uma dedução baseada em seu
conhecimento. Ele não sabia quem poderia ou iria trair Frodo, bem como
quem poderia ou iria aparecer em seu caminho. Elrond não sabia nem
mesmo por qual caminho Frodo seguiria até Mordor. Ainda que pudesse ser
argumentado que Elrond e Gandalf haviam despedido um bom tempo
discutindo sobre o caminho que a Comitiva do Anel poderia seguir, e
quem vivia naquela estrada. A remoção de Gandalf em Moria dá um limite
à sua influência sobre o pensamento de Elrond.

Então, deve ter
sido enviado um sutil conselho a Elrond pelos Valar, ou talvez pelo
próprio Ilúvatar. Da mesma forma, os sonhos que Faramir e Boromir
tiveram alertaram-nos para procurar Valfenda, isso não pode ser produto
de seus pensamentos. Eles simplesmente não tinham conhecimento
suficiente para deduzirem sobre tais possíveis acontecimentos. Eles
devem ter ouvido algo sobre Imladris quando crianças e esquecido-se
disso; eles sem dúvida sabiam que a espada de Elendil havia sido
quebrada. Mas eles não poderiam saber que um Pequeno tinha um símbolo
de grande poder, ou que um conselho seria desvelado em Imladris quando
seria decidido sobre uma grande perdição.

Outros exemplos de
previsão entre Elfos e Homens incluem as profecias de Malbeth, o
Vidente (acerca do nome de Arvedui e a jornada de Aragorn pelas Sendas
dos Mortos), a predição de Glorfindel de que o Senhor dos Nazgûl não
cairia pelas mãos de um homem, e a predição de Isildur de que a guerra
contra Sauron não terminaria rapidamente.

As deduções
intuitivas dos Lossoth (de que o barco élfico enviado para resgatar
Arvedui não era seguro) e os Druedain (que Númenor não sentia mais
segurança sob seus pés, e que uma mudança viria previamente à batalha
dos Campos de Pelennor) parecem estar mais proximamente alinhadas com a
idéia de previsão, embora esses (primitivos) povos tenham estado mais
intimamente direcionados a conselhos sutis dados por Ilúvatar (ou os
Valar).

E sobre as palavras de Elrond acerca do Condado, e seu
desejo de enviar Merry e Pippin de volta como mensageiros? Tolkien não
revela quanto Elrond sabe (ou descobre) das atividades de Saruman em
Eriador. Mas Gandalf e Aragorn estavam cientes do crescente interesse
no Condado. Gandalf pediu a Aragorn que aumentasse a guarda no Condado.
Então, se Gandalf e Aragorn sabiam que alguém estava atento para algo,
Elrond deve ter sabido, também, o que estava acontecendo. E a revelação
de Gandalf acerca da traição de Saruman teria ajudado Elrond a concluir
que o Condado não era mais um lugar seguro de influências externas. Sua
preocupação é muito vaga, embora prove-se bem fundamentada.

A
advertência de Celeborn a Aragorn é outro exemplo da previsão élfica, e
também é um pouco mais avançada que a previsão de Elrond. Celeborn
explica a situação e sobre as terras para a Comitiva do Anel, dado o
curso que eles haviam escolhido. E ele lhes dá mais tempo para pensar
melhor sobre as escolhas que irão fazer ao dá-los barcos, então eles
podem prosseguir para o sul pelo Anduin. Mas no final, ele aponta, eles
devem escolher se irão para o leste ou ao oeste. E ele relembra Boromir
que os velhos contos de avós podem guardar mais do que os Sábios acerca
de determinados assuntos. Talvez a advertência de Celeborn para não
passarem por Fangorn tenha sido um vislumbre de verdadeira previsão,
onde os Valar ou Ilúvatar podiam estar sugerindo de forma vaga que os
problemas estavam crescendo.

A inabilidade de Elrond para ver
com clareza o que irá acontecer nas terras onde a Sombra cresce implica
em uma limitada capacidade de previsão. Isto é, se Ilúvatar o estivesse
enviando visões, então por que seriam curtas? Malbeth parecia estar
muito bem informado nos problemas de Estado e catástrofe. Sua previsão
é quase como pré-conhecimento, e isso significa que ele estava
recebendo suas visões de Ilúvatar, ou talvez de Manwë.

Mas
Tolkien diz que Ilúvatar intervém apenas após a morte de Gandalf. É
nesse ponto que o plano dos Valar para derrotar Sauron falha. Por dois
mil anos, então, os Valar estiveram conduzindo o espetáculo. O quanto
eles sabem do que está por vir, e o quanto eles estão deduzindo? E eles
devem estar deduzindo algumas coisas. De outra forma, por que iria
Gandalf ser pego desprevenido pela traição de Saruman e a aparição do
Balrog? A incerteza do plano dos Valar implica fortemente que eles não
poderiam prever o final do conflito. A intervenção de Ilúvatar implica
fortemente que ele queria que o conflito terminasse de uma determinada
forma.

Ao falar sobre a recusa dos Valar em intervir diretamente em Beleriand antes do término da Primeira Era, Tolkien sugere que "a
última intervenção com força física pelos Valar, que resultou na queda
das Thangorodrim, pode então ser vista como não de fato relutante ou
indevidamente postergada, mas precisamente ao seu tempo. A intervenção
veio antes da aniquilação dos Eldar e dos Edain. Morgoth, apesar de
logicamente triunfante, havia negligenciado a maior parte da
Terra-Média durante a Guerra; e de fato ele havia sido enfraquecido: em
poder e prestígio (ele havia perdido e falhado em recuperar uma das
Silmarils), e acima de tudo, em mente … A guerra foi bem-sucedida, e
a ruína limitou-se à pequena (porém bela) região de Beleriand."

Os Valar não foram, assim, sempre atuantes baseados no
pré-conhecimento, ou previsão, mas ao menos em algumas ocasiões -
especialmente depois que muito Tempo já havia passado – baseados em
suas próprias deliberações. Eles estavam a calcular quando e o quanto
deveriam intervir diretamente na História. Seu conhecimento do que
estava por vir era incompleto, e tornando-se ainda mais incompleto com
o passar de cada era. No fim, eles equivocaram-se (na verdade, eles
calcularam mal mais de uma vez, mas Ilúvatar precisou intervir
diretamente ao menos em duas ocasiões para preservar a ordem natural).

O que parece ser profecia em muitas ocasiões, assim, resulta da
imposição, quando é o produto de uma vontade maléfica como as de Melkor
ou Sauron; ou da previsão, o cálculo do que deve ou pode vir a
suceder-se baseado no conhecimento sobre os acontecimentos e pessoas;
ou do pré-conhecimento, que é derivado da Música, da Visão, ou
Ilúvatar; ou de Ilúvatar propriamente dito. Apenas deste é a verdadeira
predição profética, mas profecia não é simplesmente predição. Profecia
em seu sentido mais completo é revelação. Caso os Valar revelem algo a
Elfos ou Homens, eles estão transmitindo conhecimento profético ou
previsão.

As limitações da previsão podem explicar por que Tom
Bombadil não pôde oferecer aos Hobbits, muitos conselhos acerca de seu
caminho. Ele não acreditava que os Nazgûl fossem incomodá-los durante
um longo tempo (ele estava, na verdade, errado). Os Nazgûl estavam
vigiando Bri quando Frodo e seus companheiros chegaram. Tom estava
aparentemente contando com seu conhecimento sobre a região e as
criaturas que conhecia. Sua experiência com os Nazgûl era limitada, e
então, ele não era muito bom para predizer o que eles poderiam vir a
fazer. E ele disse tanto quanto podia aos Hobbits.

A incerteza
das predições de Tom é compável com a incerteza das revelações do
Espelho de Galadriel. Sua pequena bacia cheia dágua claramente revela
acontecimentos, então as visões de Frodo e Sam percebem nele são
profecias verdadeiras. Mas Galadriel os alerta que não é fácil
descernir em que ocasiões as revelações são sobre o passado, o
presente, ou o futuro. E ela também aponta que nem tudo "predito" pelo
espelho vêm a acontecer. Então, qual a fonte das visões do espelho?
Estará a magia de Galadriel captando pensamentos aleatórios de Ainur
que dormem? Ou estaria Ilúvatar distribuindo visões como
biscoitos-da-sorte?

Internamente ao Conto do Tempo, profecias
desempenham um papel variado que informa e ilumina, mas isso não
domina. Em mãos erradas isso é tanto uma ferramenta de imposição,
quanto evidência de imposição. Mas em boas mãos são um sinal do
contínuo interesse e intervenção de Ilúvatar, que sozinho sabe como
tudo irá arrumar-se. Mas, apesar de tudo, ele permite a todos os Filhos
de seu pensamento, tanto Ainur quando Encarnados, que tomem suas
próprias decisões.

E agora, cadê o resto do poema?

Poderia ser que, se não fosse por um manuscrito obscuro do século XIII, O Senhor Dos Anéis não fosse publicado. Muitas pessoas que expressaram mais que uma adoração passageira cedo ou tarde ouviram que Tolkien na verdade tinha desistido de publicar o Senhor dos Anéis através de George Allen & Unwin, e mandou o trabalho para Milton Waldman na Collins. MAs o que pode não ser conhecimento de todos é o fato que Tolkien voltou para Allen & Unwin por causa de um poema que ele escreveu anos atrás, usando-se da palavra "sigaldry".
 

 

E "sigaldry", na verdade, é uma palavra que Tolkien descobriu em um manuscrito da era de 1200. Eu não tenho idéia de sobre o que o manuscrito era, nem mesmo de que língua a palavra vem. É uma palavra perdida e esquecida, exceto pelo fato que Tolkien usou-o em poema relativamente pequeno, e que teve um profundo impacto na literatura moderna.

Tolkien compôs o poema entre o final dos anos 30 e o começo dos anos 40 e mandou para o grupo informal de literatura chamado The Inklings (algo como Os Fãs da Tinta). Em uma carta para Rayner Unwin, Tolkien especulou que o poema tomou vida própria daquele círculo de amigos, e não do Oxford Magazine, que publicou uma versão do trabalho em 9 de Novembro de 1933. O poema deve ter sido tão bom para, pelo menos, um dos membros do grupo que ele passou para mais alguém.

Tolkien esqueceu do poema à medida que outros projetos tomaram sua atenção. Ele escreveu O Hobbit, Mr. Bliss e outras coisinhas. Claro que ele continuou a escrever O Silmarillion e talvez o início do Senhor dos Anéis. Mas quando Tolkien perdeu a paciência com George Allen & Unwin, que reclamava de ter que publicar um livro tão grande no começo dos anos 50 (uma época de falta de papel, na qual o lançamento de um livro não trazia tanta renda), ele virou-se para Milton Waldman na Collins.

Agora, Collins ainda está por ai, assim como George Allen & Unwin. Eles fazem parte do conglomerado HarperCollins. Então, apesar de Tolkien ter retornado para o folde em 1952, Collins cresceu ao se mesclar com a Harper e comprando George Allen & Unwin. E apesar da história dos publicadores com os quais Tolkien lidou não ter nada a ver com este interessante poema, na verdade tem tudo a ver com ele.

Tolkien pode ter esquecido dele, mas a audiência oral não. Eles o passaram, de amigo para amigo, professor para estudante, pai para filho. Em tempo, o poema chegou às mãos de Rayner Unwin, e este escreveu para Tolkien sobre o poema. Allen & Unwin queriam, aparentemente, publicar um pouco da poesia tolkieniana. Eles estavam se dando bem com a segunda edição d´O Hobbit e tinham publicado também Farmer Giles of Ham e Smith of Wooton Major. Tolkien estava trazendo dinheito para a firma, então eles estavam motivados a explorar um pouco mais o fenômeno.

Tolkien, por sua parte, tinha sido contatado há pouco tempo por "uma senhorita desconhecida à mim fazendo uma pergunta similar" sobre o mesmo poema. Ele disse à Unwin que sua correspondente confessou "que um amigo tinha escrito recentemente, de memória, alguns versos que a tinha deixado feliz a ponto de tentar descobrir sua origem. Ele tinha pego de seu afilhado que os aprendeu em Washington, D.C. (!): mas nada se sabia sobre seu criador a não ser uma vaga idéia de que eram conectadas à universidades inglesas…"

Obviamente, a senhora encontrou a origem de seus misteriosos versos em JRR Tolkien, que reconheceu-os alegremente de sua autoria. "Devo dizer que fiquei interessado em me tornar ´folclore´." disse ele à Unwin. "Assim como foi intrigante que ele ganhasse uma versão oral — que sai da minha visão tradicional de tradição oral (de todas as maneiras): que as palavras ´difíceis´ eram bem preservadas, as palavras mais comuns, alteradas e a métrica perturbada".

A métrica de Tolkien era mais perturbante que perturbada. Ele a descreveu como "dependente em assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas, tão difícil que, exceto desta vez, eu nunca seria capaz de usá-la novamente — simplesmente saiu de uma vez só)."

Bem, Humphrey Carpenter, editor das Letters, não poderia deixar essa afirmação sair impune. Tolkien usou, ao que parece, as "assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas" novamente. E as usou em… "O Senhor dos Anéis".

Carpenter também nos diz sobre o uso da palavra "sigaldry" por Tolkien, e sua origem num manuscrito do século XIII, numa nota-final na carta para Rayner Unwin. A anedota vem de uma carta que Tolkien escreveu para Donald Swann em 1966. Swann, você talvez lembre, compôs a música para The Road Goes Ever On, publicado pela primeira vez em 1967.

Swann encontrou o poema em 1949, anos antes de Rayner saber dele. "Um amigo de escola me deu este poema," Swann escreveu no prólogo de The Road Goes Ever On. "Ele o encontrou… numa revista da escola". Swann não sabia quem era o autor, porque na cópia do poema do amigo estava escrito "Anônimo".

Swann, também, menciona a extensiva tradição oral do poema (descrito para ele por Tolkien). As pessoas continuavam a passá-lo, com muitas variações. E, ao que parece, o poema ainda é passado por aí hoje, por pessoas que talvez não tenham conhecimento de onde veio, ou qual sua relação com o livro mais popular do século XX.

Seria uma pena contar à eles o que eles encontraram, pois acabaríamos com uma tradição oral que até mesmo Tolkien teria pena de terminar. Então, se você encontrar uma cópia do poema sem o título ou origem, não diga nada. Apesar de parecer uma brecha da maneira no respeito que damos a um grande autor, pense nisso como ele fez: a prova viva de sua teoria sobre tradições orais (ou pelo menos o começo delas). Ver o pássaro ganhar asas é legal, mas observá-lo em vôo, enquanto plana por sobre as nuvens, totalmente alheio ao observador — isto é miraculoso.

Este poema não é especial apenas porque ele conseguiu algo quase impossível em uma era de leis de copyright e impérios mundiais editoriais; é especial porque deu à Rayner Unwin uma oportunidade de se aproximar de Tolkien, o qual ainda tinha uma relação de autor-publicador com sua empresa, e perguntar politamente do que houve com o Senhor dos Anéis e aquele outro trabalho, O Silmarillion.

Em tempo, Tolkien achou as palavras para responder à questão de Unwin e, apesar da carta lidar a maior parte do tempo com a tradição oral que ele semeou acidentalmente, foi uma resposta para um momento conturbado. Tolkien podia estar revoltado ou apenas envergonhado em sua falha de encontrar um publicador alternativo para O Senhor dos Anéis, por sua retirada da George A
llen & Unwin alguns anos antes.

Ao invés disso, Unwin empregou um pouco de cortesia verbal em Tolkien que o fez baixar barreiras e abrir portas que estavam há muito fechadas. Este obscuro poema, à propósito, foi influenciado por uma das histórias do Silmarillion, e conta de maneira leve a aventura de um dos menos trágicos heróis de Tolkien.

E ele foi reescrevê-lo para o Senhor dos Anéis, onde serve para acalmar o leitor para um estado sonolento de mente, similar ao de Frodo quando ouve a voz suave cantando a história do marinheiro.

Quando isto aconteceu, George Allen & Unwin percebeu que a falta de papel não era tão ruim, e Tolkien descobriu que tinha um público para partes de seu trabalho que ele nunca pensou. Como um favor para sua amada tia Jane Neave, ele publicou uma coleção de poemas em 1962 como As Aventuras de Tom Bombadil somente alguns anos antes dela passar de vez. Um desses poemas foi o que chamou a atenção de Donald Swann em 1949: "Errantry".

"Errantry" não apenas reviveu uma palavra perdida do século XIII, também revive as esperanças de ver O Senhor Dos Anéis (e talvez até o Silmarillion) publicado. Ele nunca esperou que suas negociações com publicadores viessem de inocentes pedidos de pessaos que estavam fascinados com o poema que pode ser descrito como um dos mais longos limmericks já compostos.

"Errantry" reconta a história de Earëndil o Marinheiro, que é algumas vezes citado como "O Marinheiro", e sem dúvida de muitas outras coisas. E ignorando alguns erros aqui e ali, ele sobreviveu sozinho mesmo sem ter sido em não menos de três coleções de trabalhos menores de Tolkien (que eu saiba). "Errantry", em fato, é o único poema que Tolkien escreveu publicado pelo menos 4 vezes (cinco se contar a canção de Bilbo em Valfenda, já que este trabalho é reconhecido por Christopher Tolkien e outros como um derivado de "Errantry").

O tolo marinheiro que casa com uma borboleta e desafia cavaleiros élficos demonstrou uma força literária e poética que poucos personagens de poesia musicada do século XX tem. Ele é, talvez, um dos mais memoráveis personagens de Tolkien, até mesmo porque o poema é difícil de pronunciar e possui palavras obscuras como "chalcedony" (calcedônia), "habergeon" e "sigaldry".

Claro que não acaba (e nem mesmo começa) aqui. "Sigaldry" aparece em mais outro trabalho tolkieniano, um poema extraordinariamente longo e de alto calibre. "A Balada de Leithian" é considerada por muitas pessoas (incluindo seu autor) a melhor obra de literatura composta por JRR Tolkien. Sua conexão com "Errantry" não está apenas no uso de palavras arcaicas. Os dois poemas nasceram num período em que Tolkien não tinha esperanças de ver seu trabalho publicado. Foi feito para seu próprio prazer, de sua família e amigos.

Mas "Errantry" é tão poderosa, e "A Balada de Leithian" é tão convincente que eles foram destinados para uma grandeza que, se os críticos do século XX conhecessem-os nos anos 30, teriam humilhado todas suas opiniões. Vocês podem imaginar as besteiras que foram sendo ditas ao longo dos anos numa tentativa de fabricar um passado inexistente.

Mas a Poesia provou ser maior que o desespero de Tolkien e as objeções da crítica. "Errantry" forjou caminhou que Tolkien nunca imaginou seguir, e inevitávelmente "A Balada de Leithian" seguiu atrás dele, pois esta tocava O Senhor Dos Anéis, também. O Senhor Dos Anéis oferece pedaços das duas histórias, e as coloca dentro de si mesmo, enriquecendo a Terra-Média e expandindo sua profundidade com detalhes que pre-existiram em sua própria história. Isto nunca teria acontecido se Tolkien não tivesse dividido sua ingenuidade trissilábica com alguns amigos numa noite há muito tempo atrás.

E agora, como o lendário comentador Paul Harvey diria, você conhece o resto do poema…


Tradução de Aarakocra