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Os Anais de Aman – Quinta Seção

A Valinor tem a honra de publicar a quinta parte de um total de seis que compõem os Anais de Aman, um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. Esta quinta parte (leia também a primeira, a segunda, a terceira e a quarta) engloba a morte de Finwë, o roubo das Silmarils, o Juramento de Fëanor e a Fuga dos Noldor..

Quinta Seção dos Anais de Aman

§117      Então veio a acontecer que após algum tempo uma grande aglomeração de pessoas seu juntou ao redor do Círculo do Destino; e os deuses sentaram nas sombras, pois era noite. Mas noite como apenas pode ser em algumas terras do mundo quando as estrelas brilham fracas e intermitentemente através de fendas em grandes nuvens, e nevoeiros frios chegam de um escuro litoral do mar. Então Yavanna pôs de pé no Monte Verdejante, e este agora estava vazio e enegrecido, e ela olhou para as Árvores e estavam ambas mortas e negras. Então muitas vozes se levantaram em lamentação, pois pareceu àqueles que lamentavam que eles haviam sorvido até o fim a taça de sofrimento que Melkor havia enchido para eles. Mas não era verdade.

§118      Pois Yavanna falou perante os Valar, dizendo: “A Luz das Árvores se foi daqui, e vive agora apenas nas jóias de Fëanor. Previdente ele foi. Percebam! pois mesmo para os mais poderosos existem alguns feitos que eles  podem realizar uma vez, e apenas uma. A Luz das Árvores eu trouxe à existência e não posso fazê-lo novamente dentro de Ëa. Mas se eu tivesse um pouco daquela Luz, eu poderia trazer de volta a vida às Árvores, antes de suas raízes morrerem; e então nossa ferida seria curada, e a malícia de Melkor seria desfeita”.

§119      E Manwë falou, e disse, Ouviste, Fëanor, as palavras de Yavanna? Darás o que ela pedirá? E então houve um grande silêncio, e Fëanor não disse uma palavra. Então Tulkas pediu: Fala, Oh Noldo, sim ou não! Mas quem poderia recusar a Yavanna? E a luz das Silmarils não veio do trabalho dela, inicialmente? Mas Aule o Criador (1) disse, “Não seja tão apressado! Nós pedimos uma coisa maior do que sabes. Deixe-o ter paz por algum tempo”.

§120      Mas então Fëanor falou, e anunciou amargamente: “Verdadeiramente para o menor tanto quanto para o maior existem alguns feitos que ele pode realizar apenas uma vez. E naquele feito seu coração deverá repousar. Talvez eu possa destrancar minhas jóias, mas nunca novamente eu poderei fazer semelhantes; e se forem quebradas, então quebrado será meu coração. e eu morrerei: o primeiro de todos os Filhos de Eru”.

§121      “Não o primeiro”, falou Mandos, mas eles não compreenderam suas palavras, e de novo  houve silêncio, enquanto Fëanor meditava no escuro. E pareceu a ele que estava cercado por um círculo de inimigos, e as palavras de Melkor retornaram a ele, dizendo que as Silmarils não estavam a salvo,  se os Valar pudessem possuí-las. “E não é ele Vala como eles são”, pensou ele, “e compreende seus corações? Sim, um ladrão revelará ladrões”. Então ele anunciou alto: “Não, isto eu não farei de livre vontade. Mas se os Valar me obrigarem, então eu verdadeiramente saberei que Melkor é de sua raça”.

§122      “Assim falastes”, disse Mandos; Então todos sentaram em silêncio, enquanto Niënna chorava sobre Korlairë e lamentava pela amargura do mundo. E enquanto ela lamentava chegaram mensageiros de Formenos, e eles eram Noldor, e traziam novas notícias do mal. Pois eles contaram como uma Escuridão cegante chegou ao norte, e no meio dela andava algum poder para o qual não havia nome, e a Escuridão partia dele. E Melkor também estava lá, e foi à casa de Fëanor, e lá matou Finwë, rei dos Noldor, antes as portas, e derramou o primeiro sangue dos Filhos de Ilúvatar. Pois apenas Finwë não havia fugido do horror do Escuro. E o forte de Formenos Melkor quebrou, e o destruiu completamente, e toda a riqueza em gemas foi levada; e as Silmarils se foram.

§123      Então Fëanor se levantou e amaldiçoou Melkor, nomeando-o Morgoth (2); e ela amaldiçoou também os chamados de Manwë, e a hora na qual ele foi a Taniquetil, pensando em sua tolice que se estivesse em Formenos, sua força teria permitido mais do que apenas ser morto também, como Melkor desejava (3). E então Fëanor correu da aglomeração e fugiu pela noite, louco tanto de fúria quanto de pesar: pois seu pai era mais querido para ele do que a Luz de Valinor ou os incomparáveis trabalhos de suas mãos; e quem dentro dos filhos, Elfos ou Homens, teve pai de maior valor?

§124      E aqueles que testemunharam a partida de Fëanor lamentaram grandemente por ele; e Yavanna estava desencorajada, temendo agora que a Grande Escuridão pudesse engolir os últimos raios da Luz para sempre. Pois embora os Valar ainda não compreendessem inteiramente o que se sucedeu, eles perceberam que Melkor chamara alguma ajuda que veio de Fora. As Silmarils se foram, e apesar da pouca importância que parecia então, se Fëanor tivesse dito (4) sim ou não afinal; mas se tivesse dito sim de início e assim limpado seu coração antes das terríveis notícias terem chegado, seus feitos posteriores poderiam ter sido diferentes dos que foram. Mas agora o funesto destino dos Noldor se aproximava.

§125      Enquanto isso, é dito, Morgoth fugindo da perseguição dos Valar chegou à terra erma de Araman, que ao norte, como Arvalin ao sul, fica entre as muralhas das Montanhas e o Grande Mar. Então ele foi para Helkaraxë onde o Estreito entre Araman e a Terra-média é cheio de gelo atritante, e ele cruzou e retornou ao Norte do mundo. Então tão logo eles colocaram os pés lá e escaparam da terra dos Valar, Ungoliantë convocou Morgoth a entregar a ela sua recompensa. Metade de seu pagamento era a seiva das Árvores; a outra metade seriam todas as jóias que pudesse conseguir. Morgoth entregou estas relutantemente, uma por uma, até que ela tivesse devorado todas e suas belezas removidas da terra, e então maior e mais escura cresceu Ungoliante e ainda sim desejava mais.

§126      Mas Morgoth não daria a ela nenhuma parte das Silmarils: estas ela tomou para sim eternamente. Por isso ali aconteceu a primeira disputa entre ladrões, e o medo de Yavanna não veio a se concretizar: que a Escuridão pudesse engolir os últimos raios da Luz. Mas Ungoliantë ficou irada, e tão grande ela se tornou que Morgoth não podia controlá-la; e ela envolveu-o em suas teias sufocantes, e seu terrível grito ecoou através do mundo. Então vieram em seu auxílio os Balrogs, que ainda permaneciam em locais profundos do Norte onde os Valar não os descobriram. Com seus chicotes de chamas eles romperam suas teias e expulsaram Ungoliantë, e ela desceu para Beleriand e habitou por algum tempo abaixo de Ered Orgoroth no vale que mais tarde foi chamado Nan Dungorthin, devido ao medo e horror que ela gerou lá. E quando ela se curou de seus ferimentos e gerou lá uma terrível descendência ela deixou as Terras do Norte, e retornou ao Sul do mundo, onde ele ainda reside, de acordo com tudo que os Eldar ouviram.

§127      Então Morgoth, estando livre, reuniu novamente seus servidores que pode encontrar, e escavou novamente seus vastos salões subterrâneos e suas masmorras naquele local que os Noldor mais tarde chamaram Angband, e acima deles ele elevou as fumegantes torres de Thangorodrim. Lá incontáveis se tornaram as hordas de suas bestas e seus demônios, e de lá agora saíam em hordas além da conta a sinistra raça dos Orkor, que cresceu e se multiplicou no interior da terra como uma praga. Estas criaturas Morgoth gerou por inveja e escárnio aos Eldar. Em forma (5) eles eram como os Filhos de Ilúvatar, embora terrível de se observar, pois eles foram gerados (6) em ódio, e de ódio estavam cheios; e ele repugnava as coisas que ele fizera, e com repugnação elas o serviam. Suas vozes eram como o bater de rochas, e eles não riam a não ser em tormento ou feitos cruéis. Os Glamhoth, horda de tumulto, os Noldor os chamaram. (Orcs podemos nomeá-los, pois nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios. Mas não eram da raça dos demônios, mas filhos (7) da terra corrompidos por Morgoth, e eles podiam ser mortos ou destruídos pelo bravo com armas de guerra. [Mas de fato uma lenda mais negra alguns ainda contam em Eressëa, dizendo que os Orcs eram verdadeiramente em sua origem parte dos Quendi, um grupo dos Avari insatisfeitos a quem Morgoth enganara, e os fizera cativos, e então os escravizara, e então os conduzira à total ruína*. Pois, disse Pengoloð, Melkor não mais poderia de forma alguma fazer algo que tivesse vida ou semelhança de vida desde o Ainulindalë, e poderia menos ainda após sua traição em Valinor e a completude de sua própria corrupção (8)] Falou Ælfwine.)

(* [nota de rodapé ao texto] Nos Anais de Beleriand é dito que isto ele fizera na Escuridão antes mesmo dos Quendi terem sido encontrados por Oromë)

§128      Então escura caiu a sombra sobre Beleriand, como em outro lugar é contado; e em Angband Morgoth forjou para si mesmo uma grande coroa de ferro; e nomeou-se Rei do Mundo (9). Como uma comprovação disso ele fixou as Silmarils em sua coroa. Suas mãos malignas foram queimadas negras pelo toque daqueles jóias abençoadas, e negras elas foram para sempre deste então; e ele nunca mais esteve livre da dor da queimadura. A coroa ele nunca retirava de sua cabeça, embora seu peso tenha tornado fatiga em tormento, e nunca mais com exceção de uma vez, enquanto seu reino durou, ele saiu por algum tempo secretamente de seu domínio no Norte (10). E apenas uma vez também ele empunhou uma arma, até a Última Batalha. Pois agora, mais do que nos dias de Utumno seu orgulho fora humilhado, seu ódio o devorava, e na dominação de seus servos e na inspiração deles com o desejo do mal, ele gastava seu espírito. Contudo sua majestade como um dos Valar durou por longo tempo, mudada para terror, e ante sua face todos, exceto os mais poderosos, afundavam em um poço escuro de medo.

Do Discurso de Fëanor em Túna

§129      Quando foi conhecido que Morgoth escapara de Valinor e a perseguição fora infrutífera, os Valar permaneceram por longo tempo sendo na escuridão no Círculo do Destino, e os Maiar e Vanyar ficaram com eles e lamentaram; mas os Noldor  em sua maior parte retornaram tristemente a Túna. Escura agora estava sua bela cidade de Tirion, e névoas vinham dos Mares Sombrios, e ocultavam suas torres. A lâmpada de Mindon queimava pálida na escuridão.

§130      Então repentinamente Fëanor apareceu na cidade e chamou a todos para a alta Corte do Rei sobre o topo de Túna. A sentença de banimento que havia sido posta sobre ele ainda não havia sido retirada, e ele se rebelou contra os Valar. Uma grande multidão se reuniu rapidamente, portanto, para ouvir o que ele iria dizer, e a colina e todas as ruas, e as escadas que subiam para a Corte foram atulhadas com as muitas tochas que todos levavam à mão.

§131      Fëanor era um mestre das palavras, e sua língua tinha grande poder sobre os corações quando ele a usava. E agora ele estava em fogo, e naquela noite ele fez um discurso ante os Noldor que para sempre eles lembraram. Terríveis e sinistras foram suas palavras, e cheias de ira e orgulho, e elas levaram o povo à loucura como os vapores de vinho quente. Sua fúria e seu ódio eram em maior parte dirigidos a Morgoth, embora quase tudo que ele disse tenha vindo das próprias mentiras de Morgoth. Ele reclamava agora o reinado de todos os Noldor, uma vez que Finwë estava morto, e ele desdenhava os decretos dos Valar.

§132      ‘Por que, Oh meu povo’, ele falou, ‘por que devemos continuar servindo a estes deuses ciumentos, que não podem nos manter, nem seu próprio reino, seguros de seu Inimigo? E embora ele seja agora seu rival, não são eles todos de uma única raça? Por isso a vingança me chama, mas mesmo se fosse de outro modo, eu não residiria mais na mesma terra com a raça do assassino de meu pai e o ladrão de meu tesouro. E eu não sou o único corajoso deste povo. E todos vós não perdestes vosso rei? E o que mais não perdestes, enclausurados aqui em uma terra estreita entre as montanhas ciumentas e o Mar estéril? Aqui uma vez houvera luz, que os Valar recusaram à Terra-média, mas agora a escuridão iguala tudo. Devemos lamentar aqui, sem novos feitos, para sempre, um povo-sombra, caçando na neblina, derramando lágrimas vãs no ingrato Mar salgado? Ou devemos ir para casa? Em Kuiviénen doce correm as águas sob estrelas sem nuvens, e existem terras amplas onde um povo livro pode andar. Lá eles ainda continuam e nos esperam, nós que em nossa tolice os abandonamos. Partamos! Deixe que os covardes tenham esta cidade. Mas, pelo sangue de Finwë! A menos que eu fique senil, se apenas os covardes ficarem, então a grama irá crescer nas ruas.  Não, podridão, mofo e fungos.”

§133      Longamente ele falou, e sempre incentivando os Noldor a segui-lo e por suas próprias grandes habilidades ganhar a liberdade e grandes reinos nas terras do Leste antes que fosse tarde demais, pois ele ecoava as mentiras de Melkor de que os Valar os enganara e os manteria cativos de forma que os Homens pudessem reinar na Terra-média; e muitos dos Eldar ouviram então pela primeira vez dos Posteriores. “Belo o fim será”, ele disse, “mas longa e dura será a estrada! Digam adeus à escravidão! Mas digam adeus também à calmaria! Digam adeus aos fracos! Digam adeus também a seus tesouros – mais ainda faremos! Viajem leves. Mas tragam consigo suas espadas! Pois iremos mais longe do que Tauros, resistiremos mais do que Tulkas: nunca desistiremos de nossa perseguição. Atrás de Morgoth até os confins da Terra! Guerra teremos e ódio sem fim. Mas quando tivermos conquistado e recuperado as Silmarils que ele roubou, então contemplem! Nós, apenas nós, seremos os senhores da Luz imaculada, e mestres da felicidade e da beleza de Arda! Nenhuma outra raça nos suplantará!” (11)

§134      Então Fëanor fez um terrível juramento. Imediatamente seus sete filhos saltaram para seu lado e cada um fez o mesmo juramento, e vermelhas como sangue brilharam suas espadas desembainhadas à luz das tochas.

Amigo ou imigo, com mácula ou limpo,

cria de Morgoth ou claro Vala,

Elda ou Maia ou a Outra Raça,

Mortal que há de vir na Terra-média,

nem lei, nem amor, nem liga de espadas,

medo ou muro, nem mesmo o Destino

será defesa contra Fëanor, e os filhos de Fëanor,

para o que nas mãos tomar, ou em seu meio ocultar,

consigo guardar ou lançar longe

uma Silmaril. Assim dizemos nós:

Morte lhe traremos quando termine o Dia,

mal até o fim do mundo! O juramento ouvi,

Eru Pai-de-Todos! À treva eternal

condenai a nós se não o cumprirmos.

No sacro monte sede testemunhas

e a promessa lembrai, Manwë e Varda!  (11 A)

Assim falaram Maidros e Maglor, e Celegorn, Curufin e Cranthir, Damrod e Díriel, príncipes dos Noldor. Mas por aquele nome ninguém deveria fazer um juramento, bom ou mal, e nem em fúria chamar por tais testemunhas, e muitos recuaram com medo ao ouvir as palavras sinistras. Pois uma vez feito, bom ou mal, um juramento não pode ser quebrado, e perseguirá aquele que o mantiver ou quebra até o fim do mundo.

§135      Fingolfin e seu filho Turgon então falaram contra Fëanor, e palavras agressivas surgiram, e mais uma vez a fúria chegou próxima ao fio das espadas. Mas Finrod, que também era habilidoso com as palavras, falou suavemente, como era de seu costume, e procurou acalmar os Noldor, persuadindo-os a parar e ponderar antes que os feitos não pudessem ser desfeitos. Mas de seus filhos apenas Orodreth falou também desta maneira, pois Inglor estava com Turgon seu amigo (12), enquanto que Galadriel, a única mulher dos Noldor a permanecer altiva e valente naquele dia entre os príncipes revoltados, estava ávida por partir. Ela não fez nenhum juramento, mas as palavras de Fëanor relativas à Terra-média tinham acendido seu coração, e ela desejava ver as amplas terras não-trilhadas e governar lá um reino talvez à sua própria vontade. Pois a mais jovem da Casa de Finwë ela veio ao mundo a oeste do Mar, e nada sabia das terras desprotegidas. De igual pensamento era Fingon filho de Fingolfin, também tendo sido tocado pelas palavras de Fëanor, embora ele o amasse pouco (13); e com Fingon como sempre ficaram Angrod e Egnor, filhos de Finrod.  Mas estes mantiveram a calma e não falaram contra seus pais.

§136      Ao final depois de longo debate Fëanor prevaleceu, e a maior parte dos Noldor ali reunida ele acendeu com o desejo de novas coisas e estranhas regiões. Por isso quando Finrod falou novamente a favor de considerar melhor e aguardar, um grande grito se levantou: “Não, deixe-nos partir! deixe-nos partir”. E imediatamente Fëanor e seus filhos começaram a se preparar para a marcha adiante.

§137      Pouca prudência poderia existir para aqueles que ousaram tomar tal caminho tão escuro. E tudo foi feito com máxima rapidez; pois Fëanor os incentivava, apressando-os por medo de que em seus corações esfriando suas palavras poderiam esvaecer e outros conselhos ainda prevalecerem. Pois apesar de todas as suas palavras orgulhosas ele não esqueceu o poder dos Valar. Mas de Valmar não vinha nenhuma mensagem, e Manwë estava em silêncio. Ele não iria proibir ou obstruir o propósito de Fëanor; pois os Valar estavam ofendidos por terem sido acusados de terem intenções malignas para os Eldar, ou que qualquer um fosse mantido cativo por eles contra sua vontade. Agora eles observavam e aguardavam, pois eles ainda não acreditavam que Fëanor pudesse atar a hoste dos Noldor à sua vontade.

§138      E de fato quando Fëanor começou a organização dos Noldor para sua partida, então imediatamente a dissensão surgiu. Pois embora ele tenha tornada a aglomeração disposta a partir, de forma alguma todos estavam dispostos a aceitar Fëanor como rei. Maior amor era dado a Fingolfin e seus filhos, e sua casa e a maior parte dos moradores de Tirion se recusaram a renunciar a ele, se ele fosse com eles. Então finalmente os Noldor partiram divididos em dois grupos. Fëanor e seus seguidores estavam na vanguarda; mas o maior grupo vinha atrás sob Fingolfin. E ele marchava contra sua sabedoria, porque Fingon seu filho assim o encorajou, e porque ele não seria separado de seu povo que estava ávido por partir, nem deixá-los aos imprudentes conselhos de Fëanor. Com Fingolfin partiu também Finrod, e por igual razão; mas ele estava mais relutante em partir.

§139      Está registrado que de todos os Noldor em Valinor, que agora cresceram em número e formavam um grande povo, apenas um décimo recusou a partir: alguns pelo amor que tinham aos Valar (e não menos a Aulë), alguns por amor a Tirion e às muitas coisas que eles fizeram; nenhum pode medo do perigo, diga-se. Pois eles eram de fato um povo corajoso.

§140 Mas tão logo ressoaram as trombetas e Fëanor atravessou os portões de Tirion um mensageiro de Manwë finalmente veio, dizendo “Contra a tolice de Fëanor se colocará colocado apenas meu conselho. Não sigais adiante! Pois a hora é má, e a estrada leva a pesares que ainda não percebestes. Nenhuma ajuda vos darão os Valar nesta empreitada; mas vedes! eles não vos impedirão; pois isto deveis saber: assim como viestes para cá livremente, livremente devereis partir. Mas tu Fëanor filho de Finwë por teu juramento estás exilado. As mentiras de Melkor deverás desaprender com amargura. Vala ele é, disseste. Então jurastes em vão, pois nenhum dos Valar podes suplantar agora ou nunca dentro dos salões de Eä (14), nem se Eru a quem nomeaste tivesse te feito três vezes maior do que és”. (15)

§141      Mas Fëanor riu, e não falou ao enviado e sim aos Noldor, dizendo: “Então! Este povo valoroso enviará o herdeiro de seu Rei sozinho em banimento, apenas com seus filhos, e retornará a sua escravidão? Mas se alguém vier comigo, a eles então eu digo: ‘Pesar foi profetizado para você’. Verdadeiramente em Aman nós o vimos. Em Aman através da felicidade à tristeza. A outra forma tentaremos agora: através do pesar encontrar felicidade. Ou pelo menos: liberdade!”

§142      Então, se dirigindo ao enviado ele bradou: “Diga isto a Manwë Sulimo, Alto-rei de Arda: Se Fëanor não pode suplantar Morgoth, pelo menos ele não se demora em atacá-lo, e não se senta imóvel em lamentação. E Eru, talvez, tenha me posto um fogo maior do que vós conhecestes. Tais ferimentos, ao menos, eu causarei ao Inimigo dos Valar que mesmo os poderosos no Círculo do Destino se espantarão em ouvir. Sim, no final eles me seguirão. Adeus!”

§143      Naquela hora a voz de Fëanor ficou tão alta e tão potente que mesmo o enviado dos Valar se curvou perante ele como alguém com uma resposta completa, e partiu; e os Noldor foram rechaçados. Portanto eles continuaram sua marcha; e a Casa de Fëanor si adiantou a eles ao longo do litoral de Elendë: e nenhuma vez eles voltaram os olhos para Tirion sobre Túna. Após eles, mais lentamente e com menos vontade, vinha a hoste de Fingolfin. Destes Fingon era o mais adiantado; e na retaguarda iam Finrod e Inglor, e muitos dos mais belos e mais sábios dos Noldor; e frequentemente olhavam para trás para ver sua bela cidade, até que a lâmpada de Mindon Eldaliéva se perdeu na noite. Mais do que quaisquer outros exilados eles carregaram dali lembranças da felicidade que haviam desprezado, e alguns até mesmo as belas coisas que haviam feito carregaram consigo: um conforto e um peso na estrada.

Sobre o Primeiro Fratricídio e o Destino dos Noldor

§144      Então Noldor os conduziu para o norte, porque seu primeiro propósito era seguir Morgoth. Além disso, Túna abaixo de Taniquetil estava situada no equador de Arda, e lá o Grande Mar era imensuravelmente largo, enquanto que para o norte os mares que separavam ficam mais estreitos e os ermos de Araman e o litoral da Terra-média  se aproximavam. Mas as hostes não foram longe, quando veio à mente de Fëanor, tarde demais, que todas estas grandes companhias, tanto de adultos e aptos à guerra e muitos outros, e a grande quantidade de mantimentos com eles, nunca superariam as longas distâncias para o Norte, nem cruzariam os mares finalmente, exceto com o auxílio de navios.

§145      Portanto Fëanor decidiu persuadir os Teleri, sempre amigos dos Noldor, a se juntarem a eles; pois dessa forma ele esperava diminuir a riqueza de Valinor ainda mais e aumentar seu próprio poder de guerra. E também ele iria obter navios rapidamente. Pois seria preciso um grande tempo e exaustivos trabalhos para construir uma grande esquadra, mesmo se os Noldor tivessem habilidades e madeiras suficientes para tal construção, como de fato não tinham. Então ele se apressou para Alqualondë, e falou aos Teleri como havia falado em Tirion.

§146      Mas os Teleri não foram afetados por nada que ele lhes dissesse. Eles estavam de fato entristecidos pela partida de seus parentes e amigos de longa data, mas preferiam dissuadi-los a ajudá-los; e nenhum navio eles cederiam, nem auxílio na construção, contra a vontade dos Valar. Para si mesmos eles não desejavam outro lar que não as praias de Eldamar, e nenhum outro senhor que não Olwë, príncipe de Alqualondë. E ele nunca dera ouvido a Morgoth, nem o recebeu em sua terra e ele ainda acreditava que Ulmo e os outros grandes entre os Valar iriam desfazer as feridas de Morgoth, e que aquela noite passaria, em um novo amanhecer.

§147      Então Fëanor ficou irado, pois ele ainda temia os atrasos; e falou de maneira irritada a Olwë. “Renunciastes vossa amizade, mesmo na hora de nossa necessidade”, disse ele. “Mas ávidos por nossa ajuda estivestes quando chegastes finalmente a estes litorais, procrastinadores inseguros, e quase de mãos vazias. Em cabanas nas praias ainda moraríeis se os Noldor não tivessem esculpido seu porto e erguido seus muros”.

§148      Mas Olwë respondeu: “Não, não renunciamos à nossa amizade. Mas pode ser a difícil tarefa de um amigo refutar a tolice de outro. E quando seu povo nos saldou e nos ajudou, diferentemente então falastes: na terra de Aman iremos residir para sempre, como irmãos cujas casas ficam lado a lado. E sobre nossos navios brancos: esses não nos destes. Sua construção não aprendemos dos Noldor, mas dos Senhores do Mar; e a madeira branca nós moldamos com nossas próprias mãos e as velas brancas foram tecidas por nossas belas esposas e damas. Portanto nós nem os daremos nem os venderemos por nenhum acordou ou amizade. Pois eu te digo, Fëanor, estes são para nós como as gemas dos Noldor: o trabalho de nossos corações, iguais aos quais nunca mais poderemos fazer”.

§149 Após isso Fëanor o deixou, e sentou-se além dos muros meditando sombriamente, até sua hoste estar reunida. Quando ele considerou que sua força era suficiente ele foi ao Porto dos Cisnes e começou a invadir os navios que estavam ancorados lá e a tomá-los à força. Mas os Teleri resistiram e ele de forma determinada, e atiraram muitos dos Noldor ao mar. Então espadas foram desembainhadas e uma batalha amarga foi lutada nos navios, e ao redor das docas e píeres do Porto, e mesmo sobre o grande arco de seu portão. Três vezes o povo de Fëanor foi escorraçado, e muitos foram mortos de ambos os lados; mas a vanguarda dos Noldor foi socorrida por Fingon com os mais avançados do povo de Fingolfin. Estes chegando, encontraram a batalha e seu próprio povo sendo derrotado, e se apressaram antes de saberem devidamente a razão da disputa: alguns acharam de fato que os Teleri procuraram emboscar a marcha dos Noldor, sob as ordens dos Valar.

§150      Então finalmente os Teleri foram sobrepujados, e uma grande parte de seus marinheiros que residiam em Alqualondë foram cruelmente mortos. Pois os Noldor se tornaram selvagens e desesperados, e os Teleri tinham menos força, e estavam em sua maioria armados apenas com arcos leves. Então os Noldor levaram seus navios brancos, e manejaram seus remos o melhor que puderam, e em fila rumaram para o norte ao longo da costa. E Olwë chamou por Ossë, mas ele não veio; pois ele havia sido convocado a Valmar para a vigília e o conselho dos deuses; e não fora permitido pelos Valar que a Fuga dos Noldor fosse obstruída por força, Mas Uinen chorou pelos marinheiros dos Teleri; e o mar se levantou em fúria contra os assassinos, de forma que muitos dos navios naufragaram e os que estavam neles se afogaram. Do Fratricídio de Alqualondë mais é dito no lamento nomeado Noldolantë (16), A Queda dos Noldor, que Maglor fez compôs antes de desaparecer.

1496

§151      Apesar de tudo a maior parte dos Noldor escaparam, e quando a tempestade terminou eles continuaram em seu trajeto, alguns nos navios, alguns por terra; mas o caminho era longo e ainda mais maligno quanto mais seguiam em frente.  Após terem marchado por um grande tempo na  noite imensurável eles chegaram finalmente ao norte do Reino Vigiado, no limite da vastidão vazia de Araman, que era montanhosa e fria. Lá eles perceberam repentinamente uma figura escura parada sobre um rochedo alto que se estendia sobre o mar. Alguns dizem que era o próprio Mandos e não um enviado menor de Manwë. E eles ouviram uma voz alta, solene e terrível, que os convocou a parar e ouvir (17).

§152      Todos pararam e ficaram imóveis, e de começo a fim das hostes dos Noldor a voz foi ouvida falando a Profecia do Norte e o Destino dos Noldor. “Retornais! Retornais! Buscais o perdão dos Valar antes que a maldição deles recaia sobre vós!”. Assim a voz começou, e muitas calamidades ela previu com palavras sombrias, os quais os Noldor não compreenderam até que as calamidades tivessem de fato caído sobre eles. “Lágrimas incontáveis vertereis; mas se fordes adiante, tenhais certeza de que os Valar irão isolar Valinor de vocês, e trancar-vos-á para fora, de forma que nem mesmo o eco de vossas lamentações deverão passar por sobre as montanhas”.

§153      “Vedes! Sobre a Casa de Fëanor recai a ira dos deus, desde o Oeste até o extremo Leste, e sobre todos que o seguir também recairá. Vosso Juramento conduzir-vos-á, e vos trairá, e afastar-vos-á dos próprios tesouros que prometestes perseguir. Um fim maligno terão todas as coisas que vós começardes bem; e pela traição de raça por raça, e o medo da traição, isto virá a acontecer. Os Despossuídos eles deverão ser para sempre”.

§154      “Observem! Derramastes o sangue de vossa raça injustamente e manchardes a terra de Aman. Pois sangue gerará sangue, e além de Aman habitareis à sombra da Morte. Pois saibais que apesar de Eru ter designado que não morrêsseis em Eä e que nenhuma doença vos acometais, morto podereis ser: por arma e por tormento e por pesar; e então vosso espírito desabrigado virá a Mandos. Lá por longo tempo devereis habitar e ansiar por vossos corpos e encontrar pouca piedade dedica a vós por aqueles que tiverdes matado. E todos aqueles que permanecerem na Terra-média e não forem a Mandos, cansarão do mundo como de um grande fardo, e esvaecerão, e se tornarão como sombras de arrependimento ante a raça mais jovem que virá depois. Os Valar falaram.”

§155      Então muitos recuaram amedrontados. Mas Fëanor endureceu seu coração e disse: “Nós juramos, e não foi levianamente. Este Juramento iremos manter. E veja! fomos ameaçados com muitos males, traição não o menor deles; mas uma coisa não foi dita: que sofreremos de acanhamento; de covardia ou do medo da covardia entre nós. Por isso eu digo que continuaremos, e a este destino acrescento: os feitos que realizaremos serão assunto de canções até os últimos dias de Arda”. E a previsão de Fëanor também se mostrou verdadeira.

§156      Mas naquela hora Finrod abandonou a marcha, e retornou, estando cheio de pesar, e amargo com relação à casa de F6eanor, por seu parentesco com Olwë de Alqualondë; e muitos de seu povo partiram com ele, refazendo seus passos em tristeza, até que contemplaram novamente os raios distantes de Mindon sobre Túna ainda brilhando na noite, e entraram finalmente em Valinor. Lá receberam o perdão dos Valar, e Finrod foi posto como regente o restante dos Noldor do Reino Abençoado. Mas seus filhos não estavam com ele, pois não deixariam os filhos de Fingolfin; e todo o povo de Fingolfin continuou em frente, sentindo a coerção de seu parentesco e a vontade de Fëanor, e temendo enfrentar o julgamento dos deuses, uma vez que nem todos eles foram inocentes no fratricídio de Alqualondë. Além disso Fingon e Turgon eram corajosos e com corações em fogo e relutante em abandonar qualquer tarefa na qual haviam colocado as mãos até o amargo fim, se amargo deva ser. Assim a hoste principal continuou, e rapidamente o mal que fora previsto começou seu trabalho.

1497

§157      Os Noldor chegaram bem longe no Norte de Arda, e viram os primeiros dentes do gelo que flutuava no mar, e souberam que estavam se aproximando de Helkaraxë. Pois entre a Terra Ocidental de Aman que no norte de curvava para leste e os litorais leste de Endar (que é a Terra-média) que avançava para o oeste havia um estreito, através do qual as águas frias do Mar Circundante e as ondas do Grande Mar fluíam juntas, e lá existiam vastos nevoeiros e névoas de frio mortal, e as correntes marinhas estavam cheias de colinas de gelo que se chocavam e o ranger do gelo no fundo do mar. Assim era Helkaraxë, e lá nenhum ainda se atrevera a atravessar exceto apenas os Valar e Ungoliantë.

§158      Então Fëanor parou e os Noldor debateram qual curso deveriam seguir agora. E logo os Noldor começaram a sofrer com os tormentos do frio, e da espessas neblinas através as quais o brilho de nenhuma estrela podia atravessar; e muitos deles se arrependeram da jornada e começaram a murmurar, especialmente aqueles que seguiram Fingolfin, amaldiçoando Fëanor, e o nomeando causa de todos os males dos Eldar. Mas Fëanor, sabendo de tudo que era dito, entrou em conselho com seus filhos. Duas formas apenas eles viram para escapar de Araman e chegar a Endar: pelo estreito ou por navio. Mas Helkaraxë eles julgaram intransponível, enquanto que os navios eram muito poucos. Muitos haviam sido perdidos durante sua longa jornada e não restaram suficientes para atravessar toda a grande hoste junta; e nenhum desejava permanecer na costa oeste enquanto os outros eram transportados antes: pois o medo da traição já acordara entre os Noldor.

§159      Em conseqüência disso surgiu no coração de Fëanor e seus filhos a idéia de pegar todos os navios e partir repentinamente; pois eles haviam mantido o comando da frota desde a batalha do porto; e eram operados apenas por aqueles que lá lutaram e estavam ligados a Fëanor. E veja! Como se tivesse vindo a seu chamado um vento surgiu de repente de noroeste, e Fëanor saiu secretamente (18) com todos aqueles que ele julgava leais a ele, e embarcou e se pôs ao mar, e deixou Fingolfin em Araman. E uma vez que o mar era estreito ali, manejando para leste e um pouco para sul ele atravessou sem perdas, o primeiro de todos os Noldor a colocar novamente os pés no litoral da Terra-média. E o aportar de Fëanor foi na entrada do braço de mar que era chamado Drengist, e que adentrava Dor-lómin (19).

§160      Mas quando aportaram, Maidros o mais velho de seus filhos (e uma vez amigo de Fingon antes das mentiras de Morgoth terem ficado entre eles) falou a Fëanor: “Agora quais navios e homens irás separar para o retorno, e quem eles trarão até aqui primeiro? Fingon o valente?

§161      Então Fëanor como alguém insano, e sua fúria foi liberada: “Nenhum e ninguém!” ele falou. “O que eu deixei para trás eu não considero perda: provou-se bagagem desnecessária na estrada. Deixe aqueles que amaldiçoaram meu nome, que continuem amaldiçoando! Que voltem choramingando para as celas dos Valar, se não podem encontrar outras! Que os navios queimem!

§162      Então apenas Maidros ficou de lado, mas Fëanor e seus filhos colocaram fogo nos navios brancos dos Teleri. Assim naquele lugar que foi chamado Losgar na desembocadura do Estuário de Drengist (20) terminaram em um grande incêndio luminoso e terrível os mais belos navios que já cortaram o mar (21), E Fingolfin e seu povo viram a luz ao longe, vermelha abaixo das nuvens. Este foi o primeiro fruto do Fratricídio e do Destino dos Noldor.

§163      Então Fingolfin soube que for a traído, e deixado para morrer miseravelmente ou retornar em vergonha. E seu coração ficou amargo, mas desejou como nunca antes chegar de alguma forma até a Terra-média e reencontrar Fëanor. E ele e sua hoste vagaram longa e miseravelmente; mas seu valor e resistência cresceram com a dificuldade; pois eles ainda eram um povo poderoso, os imortais filhos mais velhos de Eru Ilúvatar, recém saídos do Reino Abençoado e ainda não cansados com o cansaço da Terra; e o fogo de seus corações era jovem. Portanto, liderados por Fingolfin e seus filhos, e por Inglor e Galadriel a valente e bela, eles ousaram atravessar o inacessível Norte, e não encontrando outro caminho eles enfrentaram afinal o terror de Helkaraxë e as cruéis colinas de gelo. Poucos dos feitos dos Noldor posteriores ultrapassaram a travessia desesperada em coragem ou em desgraças. Muitos lá pereceram, e foi com uma hoste reduzida que Fingolfin chegou finalmente às terras do Norte de Endar. Pouco amor por Fëanor e seus filhos tinham aqueles que marcharam atrás dele, e sopraram suas trombetas na Terra-média ao primeiro nascer da Lua.

Aqui os Noldor saem de Aman e

os Anais de Aman não falam mais deles.

NOTAS

1.‘Aulë o Criador’ substituiu ‘Ulmo’.

2. Riscado daqui, provavelmente de imediato: ‘(o Inimigo Escuro)’.

3. Riscado daqui (mais tarde): ‘o Inimigo Negro de Arda não seria dispensado uma segunda vez com palavras orgulhos de escárnio’.

4. Este trecho é uma substituição do texto original:

mas Yavanna ficou desalentada, pois agora a Luz das Árvores havia passado completamente para uma grande Escuridão, a qual os Valar ainda não haviam compreendido que deveria ter vindo de algum auxílio que Morgoth chamara de Fora, e eles temerem que estivesse perdido até o Fim. Therefore all was one, whether Fëanor said…

5. Este trecho foi editado no texto original, que era:

Lá incontáveis se tornaram as hostes de suas bestas e seus demônios e ele trouxe à existência então a raça caída dos Orkor, e eles cresceram e se multiplicaram no interior da terra como uma praga. Estas criaturas Morgoth fez em inveja e escárnio aos Eldar. Portanto em forma…

6. ‘gerados’ é uma correção para ‘feitos’.

7. ‘filhos’ é uma correção para ‘uma cria’

8. Este trecho, começando em ‘Mas de fato uma lenda mais negra…’ e incluindo a nota de rodapé, foi riscado em um momento posterior ao das alterações dadas nas notas 5-7 e talvez na revisão do texto antes da criação da versão datilografada, na qual não aparece. Toda a adição de Ælfwine está entre colchetes na versão como originalmente escrita.

9. O texto original era ‘Aran Endór, Rei da Terra-média’. Aran Endór então foi corrigido para Tarumbar; finalmente a leitura ‘Rei do Mundo’ foi inserida.

10. O texto originalmente escrito tinha aqui: ‘e nunca mais exceto com exceção de uma vez ele saiu das profundezas que escavara, enquanto seu reino durou’. Quando meu pai alterou este para o texto impresso ele acrescentou o que se segue até o final do parágrafo.

11. Neste parágrafo o trecho desde ‘antes que fosse tarde demais’ até ‘muitos dos Eldar ouviram então pela primeira vez dos Posteriores’ e a sentença final ‘Nenhuma outra raça nos suplantará’, são adições posteriores.

11 A. A tradução do Juramento de Fëanor em verso aliterativo é da autoria de Ronaldo José Lopes. O mesmo autor criou uma tradução literal do poema, a qual pode ser encontrada no artigo.  Conheça o texto completo do Juramento de Fëanor

12. As associações dos príncipes Noldorin eram diferenças neste trecho quando escrito pela primeira vez: ‘Fingolfin e seus filhos Fingon e Turgon então falaram contra Fëanor’, e ‘mas de seus [de Finrod] filhos apenas Inglor falou também desta maneira, pois Angrod e Egnor estavam com Fingon, e Orodreth ficou de lado; enquanto que Galadriel… ’. Mas as alterações que aparecem no texto impresso parecem ter sido feitas imediatamente uma vez que o trecho no fim do parágrafo pertence ao texto como originalmente escrito.

13. Riscado daqui: ‘e seus filhos menos’ (compare com o trecho em §160 onde se refere à amizade entre Fingon e Maidros).

14. é escrito desta forma aqui e novamente em §154, mas nas duas últimas ocorrências do texto está escrito Ëa.

15. Riscado daqui: ‘e Melkor menos ainda, que é o mais poderoso de todos exceto um’.

16.  O nome Noldolantë foi acrescentado à margem. Ele não aparece no texto datilografado.

17. A página começando aqui e contendo os §§152-4 é escrita muito mais irregularmente que o resto do manuscrito, e meu pai a riscou completamente e a substituiu. Pode ser pensado à primeira vista que este era o único local onde o primeiro rascunho do AAm sobrevive, mas não é o caso. A irregular página de ‘rascunho’ foi escrita no reverso daquela contendo §§149-51, e está na mesma caligrafia clara dos outros lugares (com algum número de mudanças feitas no ato da composição).  Fica claro então que a página rejeitada não começou como um ‘rascunho irregular’ (e a caligrafia elimina esta possibilidade), mas se degenerou nisto; e esta instância é, se algo, mais uma evidência contra a idéia de um primeiro rascunho perdido dos Anais de Aman.

O primeiro texto originalmente começava, seguindo QS §71, ‘Uma vez mais ele alertou os Noldor a retornarem e buscarem perdão, ou no final eles retornariam finalmente apenas após amarga tristeza e desgraças inenarráveis’. O Destino dos Noldor na forma final foi alterado do rascunho apenas no rearranjo de suas partes e em muitos detalhes de fraseamento. Dois pontos podem ser notados. Depois de ‘…sobre as montanhas’ no final de §152 havia ‘Sereis livres deles e eles de vós’; e a sentença em §154 começando com ‘Lá por longo tempo devereis habitar…’ lia-se ‘Lá por longo tempo devereis habitar e não serão libertos até que aqueles que matastes os perdoastes’

18. Esta sentença substitui a que se segue: ‘Aguardando então um pouco por um vento norte que trouxe uma névoa profunda sobre a hoste ele partiu… ‘

19. A última sentença de §159 foi uma adição posterior.

20. O trecho ‘naquele lugar o Estuário de Drengist’ foi uma adição posterior.

21. Alterado de ‘os mais belos navios dos Dias Antigos’.

Comentários sobre a quinta seção

dos Anais de Aman

Esta seção dos Anais corresponde em conteúdo ao Capítulo 5 do QS Da Fuga dos Noldor (HoME V) e aos registros 2990 –2994 do AV 2 (HoME V). Após os parágrafos iniciais a narrativa dos Anais é novamente assemelhada em estrutura ao capítulo no QS, e do §125 em diante muitas frases são mantidas a partir dele (mais, de fato, do parece a partir do texto publicado, uma vez que em alguns casos meu pai adotou frases do QS sem mudanças e então as alterou). Por outro lado, a narrativa é grandemente ampliada em escopo.

§§117-24              Inicia-se agora uma nova e sutil articulação na história, com a afirmação de Yavanna de que com a luz sagrada reobtida das Silmarils ela poderia reavivar as Árvores antes de suas raízes morrerem, a demanda feita a Fëanor, e sua recusa – antes das notícias chegarem de Formenos.

§121      Mandos disse ‘Não o primeiro’ porque ele sabia que Finwë havia sido assassinado. Veja também § 120.

§122      Korlairë: a primeira ocorrência deste nome (vide §122) – um novo elemento na narrativa é que ‘Pois apenas Finwë não havia fugido do horror do Escuro’. No QS (§60) e AV 2 Morgoth mata também muitos outros. Onde os filhos de Fëanor estavam, ou para onde eles foram (pois Fëanor foi ao festival sozinho, §112), não é dito.

§123      É agora dito pela primeira vez que foi Fëanor quem nomeou Melkor Morgoth (‘o Inimigo Escuro’, ver Nota 2 acima). Em AAm (ao contrário do QS) Melkor é sempre assim nomeado até este ponto, mas depois isto quase invariavelmente Morgoth.

§125      Araman: QS Eruman. A mudança apareceu anteriormente no mapa V do Ambarkanta (HoME IV), onde fora colocado muitos anos após a confecção do mapa.

§126      No QS (§62) nada mais sobre o destino de Ungoliantë é dito além de que os Balrogs a expulsaram ‘para o extremo Sul, onde por muito tempo ela permaneceu’, agora surge a história de que ele morou primeiro em Nan Dungorthin, e apenas mais tarde, após ter deixado uma descendência lá, ela recuou para o Sul do mundo. Mas as aranhas de Nan Dungorthin ‘da raça caída de Ungoliantë’ são citadas mais tarde  em QS, na história da fuga de Beren de Dorthonion (ver HoME V e o Silmarillion publicado).

§127      A origem dos Orcs. No QS (§62) a idéia já havia surgido de que os Orcs se originaram em escárnio aos Elfos, mas ainda não surgira idéia de que os Orcs eram de qualquer forma associados a eles: eles eram uma ‘criação’ própria de Morgoth, ‘feitos de pedra’, e foram trazidos à existência quando ele retornou à Terra-média. Quando AAm foi escrito pela primeira vez (ver Notas 5 – 7 acima) esta visão ainda se mantinha; a palavra ‘feitos’ ainda foi usada – embora não as palavras ‘feitos de pedra’. Mas na nota de Ælfwine que se segue (e que foi escrita continuadamente com o que a precede) eles são chamados ‘crias da terra corrompidas por Morgoth’, e o ‘mais negra lenda’ contada em Eressëa – que os Orcs eram inicialmente Elfos escravizados e corrompidos (Avari) – certamente é a primeira aparição desta idéia, contradizendo o que a precede, ou talvez a este ponto apresentando uma teoria alternativa. É atribuída a Pengoloð; e Pengoloð argumento com Ælfwine que Melkor não poderia fazer algo que tivesse vida, mas apenas corromper o que já estava vivo. A implicação desta segunda teoria seria de que provavelmente, embora não necessariamente, os Orcs teriam surgido muito mais cedo, antes do Aprisionamento de Melkor; e que está implicação está presente é sugerido pela nota de rodapé referenciando os Anais de Beleriand – significando a última versão destes Anais, os Anais Cinzentos, companheiro dos Anais de Aman: ‘é dito que isto ele fez na Escuridão antes mesmo dos Quendi terem sido encontrados por Oromë’.

A este ponto meu pai retorna a uma parte anterior do AAm (§42) e interpola o trecho ‘Ainda assim por conhecimento posterior …’ onde a idéia da captura de Quendi vagantes em seus dias iniciais é completada, embora permaneça apenas uma suposição dos ‘mestres do conhecimento’. Talvez ao mesmo tempo erro corrigiu o presente trecho, alterando ‘trouxe à existência’ para ‘e de lá agora saíam em hordas além da conta’, ‘fez’ para ‘gerou’, e ‘crias da terra’ para ‘filhos da terra’. Ele então (eu conjecturo) desenvolveu a interpolação no ponto inicial de forma muito mais completa (§§43  – 5), onde a idéia se torna menos uma suposição e mais uma certeza da história: a incapacidade de Melkor de fazer coisas vivas é um fato conhecido (‘assim dizem os sábios’). Finalmente, em um momento posterior (veja a Nota 8), ele elimina todo o trecho no final do §127 começando com  ‘Mas de fato uma lenda mais negra alguns ainda contam em Eressëa …’ seja por ele só então ter percebido que o trecho fora suplantado pelos §§43  –  5 e não era, de toda forma, o local apropriado, ou porque ele rejeitou esta teoria da origem dos orcs. Veja mais além, §127.

O termo pois eles em ‘Orcs podemos nomeá-los, pois nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios’ (uma observação de  Ælfwine) sugere que Orcs é Inglês Arcaico (vide orc-nēas em Beowulf linha 112), convenientemente similar à palavra Élfica. Isto poderia explicar porque AElfwine disse, de fato, ‘Orcs podemos nomeá-los, pois nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios. Mas não eram de fato  demônios’. Em uma carta que meu pai escreveu em 25 de abril de 1954 (Cartas $144) ele disse que a palavra Orc ‘é, tanto quanto sei, derivada do Inglês Arcaico orc “demônio”, mas apenas porque é foneticamente apropriado’ (e também: Orcs… não são em lugar algum claramente definidos como sendo de uma origem em particular. Mas uma vez que são servos do Poder Negro, e mais tarde de Sauron, nenhum dos quais poderia, ou iria, produzir coisas vivas, eles devem ser “corrupções”’).

§128      A versão final aqui ‘Rei do Mundo’ (ver nota 9) remonta àquela do QS (§63), o qual remonta ao Q (HoME IV). – Sobre o assunto da partida de Morgoth de Angband QS tem: ‘nunca foi seu hábito deixar os locais profundos de sua fortaleza’, e lá não há menção de sua ausência.

§§132-3                O relato do discurso de Fëanor é grandemente ampliado daquele em QS (§§66 – 7).

§133      Tauros: Oromë;  vide  QS  §8: ‘Ele é um caçadior, e ele ama todas as árvores; por essa razão ele é chamado Aldaron, e pelos Gnomos Tauros, o senhor das florestas’; e também o Etimologias, raiz TÁWAR (HoME V): ‘N[oldorin] Tauros “Terror-Floresta”, usual N apelido de Oromë (N Araw)’. É notável que Fëanor use este nome (§8). Na versão datilografada, sem uma razão clara, o datilógrafo deixou um espaço em branco aqui, no qual mais tarde meu pai escreveu a lápis Oromë’

§135      Quanto AAm foi inicialmente escrito (ver Nota 12 acima) os alinhamentos dos príncipes Noldorin já haviam mudado do registro em QS  (§68),  uma vez que Angrod e Egnor eram agora opositores a Fëanor – e Galadriel agora tem parte no assunto, sendo ansiosa por deixar Aman. Quando reescrito um alinhamento mais sutil é desenhado: pois Fingon agora independentemente demanda a partida, e Angrod e Egnor partem com ele. Dos filhos de Fingolfin apenas Turgon apóia o pai, mas Inglor fica com ele; e Orodreth se move para a posição de Inglor como o único de seus filhos a apoiar Finrod.

A amizade próxima de Turgon com Felagund (Inglor) já havia aparecido na versão mais antiga dos Anais de Beleriand (HoME IV); em uma adição tardia ao texto datilografado de AAm (§85) eles nascem no mesmo Ano das Árvores.

A citação de que Galadriel, ‘a mais jovem da Casa de Finwë’, ‘ veio ao mundo a oeste do Mar, e nada sabia das terras desprotegidas ‘,  é estranha, porque toda a progênie de Finwë nasceu em Aman (AAm §§78, 81 – 2).

§136      O Noldor foram afetados pelo ‘desejo de novas coisas e estranhas regiões’; no QS eles estavam ‘cheio de desejo pelas Silmarils’.

§137      A marcha a partir de Tirion foi empreendida com pouca preparação e muita pressa; vide AV 2 (anal 2992): ‘A grande marcha dos Gnomos teve longa preparação’.

§139      Apenas um décimo dos Noldor permaneceram em Tirion.

§§140-2                As palavras do mensageiro de Manwë são citadas, e o episódio é muito ampliado. O arauto não diz, como no QS (§68),  que os Valar proibiam a marcha, mas sim que Fëanor exilara a si mesmo por seu próprio juramento; e Fëanor em sua resposta acusa os Valar de se sentarem impávidos e não fazerem nada contra Morgoth.

§143      Elendë (Casadelfo, Terra dos Elfos): ver §67.

§§145-8                O próprio Fëanor (e não mensageiros como em QS §70) foi a Olwë em Alqualondë, e suas palavras são completamente fornecidas. Em §147 Fëanor fala da construção do Porto pelos Noldor, o que é mencionado anteriormente em (§76).

§§149-50              O registro no AAm da batalha de Alqualondë e suas consequências segue QS §70 de maneira bem próxima e mantém muitas de suas frases; mas em §149 é agora dito que aqueles da segunda hoste que se uniram à batalha se equivocaram quanto à sua causa.

§150      Sobre as armas dos Teleri vide §97. – A canção da Fuga dos Gnomos (QS §70) é agora chamada Noldolantë, a Queda dos Noldor, ‘que Maglor fez compôs antes de desaparecer’.

§§152-4                A Profecia do Norte, agora chamada ‘a Profecia do Norte e o Destino dos Noldor’, é significativamente ampliada: pelo aviso de que os Noldor que morrerem dali em diante permanecerão longamente em Mandos ‘ansiando por seus corpos’, e aqueles que permanecerem na Terra-média se tornarão cansados do mundo e esvaecerão. Nisto o AAm se parece com o AV 2 (anal 2993, HoME V; quase o mesmo em AV 1, HoME IV):

Uma porção de mortalidade visitará os Noldor, e eles poderão ser mortos com armas, e com tormentos, e pela tristeza, e no distante fim eles desaparecerão gradualmente da Terra-média e esvaecerão ante a raça mais jovem.

Eu discuti estas passagens no HoME IV.

§156      Assim como no AV (ambos os textos), muito do povo de Finrod retornaram com ele a Valinor; no QS (§72) apenas ‘uns pouco de sua casa’ voltaram. Um novo elemento no motivo de retorno de Finrod é seu parentesco com Olwë de Alqualonde, pois sua esposa era Earwen filha de Olwë.

§157      Endar ‘Terra-média’.  A forma Endon foi usada anteriormente no AAm como ‘o ponto central’ da Terra-média (§38), onde foi alterado na versão datilografada para Endor. Estas formas Endon e Endor apareceram no Ambarkanta e mapas (§38). Em O Senhor dos Anéis Quenya Endórë, Sindarin Ennor, significam não o ponto central mas a própria Terra-média, e em uma carta de 1967 (Carta #297) meu pai se referiu a Q. Endor,  S. Ennor = Terra-média, com a etimologia en(ed) ‘terra’ e (n)dor ‘terra (massa de)’; vide também Aran Endór ‘Rei da Terra-média’, nota 9 acima. Mas no presente trecho a forma Endar é perfeitamente clara, e também em §§158, 163. O datilógrafo, contudo, em cada caso, por alguma razão, datilografou Endor e meu pai não o alterou. Por outro lado, no título da próxima seção em AAm o datilógrafo colocou Endar como no manuscrito, e novamente meu pai deixou-o ficar. No Simarillion publicado eu pus, hesitantemente, a forma Endor.

Esta passagem referente ao Helkaraxë deriva não do QS mas do AV 2 (anal 2994, quase o mesmo que em AV 1), e é bastante notável que permaneça completamente congruente com a cosmografia do Ambarkanta (ver HoME IV).

§159      A história de que Angrod e Egnor foram à Terra-média nos navios dos Fëanorianos é agora abandonada, com a perda da história de que eram amigos próximos dos filhos de Fëanor, e especialmente de Celegorn e Curufin (QS §§42, 72-3).

§160-2   Maidros não tomou parte no incêndio dos barcos, e se lembra de Fingon, seu antigo amigo. O motivo de Fëanor neste ato é suficientemente explicado nos textos mais antigos, mas no AAm o orgulho insano e a fúria que o dominam são muito mais fortemente expressos; ele era de fato ‘feérico’.

§162      A adição (nota 20 acima) do nome Losgar ao local do incêndio dos navios é derivado de sua única ocorrência em textos mais antigos, no início dos Anais de Beleriand tardio (AB2, HoME V e comentários).

§163      Sobre a diferença entre a sentença final daquela em QS (‘e chegaram a Beleriand ao nascer do sol’) ver HoME 5, comentário do §73.

Entre as notas e correções escritas por meu pai na cópia datilografada desta seção do AAm, das quais nem todas precisam ser registradas, há várias indicando ampliações da narrativa.

§120      ‘Eu morrerei’ > ‘Eu serei morto’; ‘primeiro de todos os Filhos de Eru’ sublinhado; e uma nota na margem ao lado das palavras ‘Não o primeiro’ (ao começo do §121): ‘X Isto não mais é válido nem mesmo para os Eldar de Valinor. Finwë o pai de Fëanor foi o primeiro a ser morto dentre os Alto-Elfos, Míriel mãe de Fëanor a primeira a morrer’.

Deve ser lembrado que quando AAm foi escrito a história de Míriel ainda não havia sido criada; as entradas que citam que Míriel ‘adormeceu e passou a Mandos’ e que Finwë mais tarde casou-se com Indis (notas 1 e 4) foram adições tardias (encontradas na cópia datilografada).

§122      O datilógrafo deixou um espaço em branco para Korlairë, o qual meu pai preencheu com a forma Korolairë. Mais tarde ele sublinhou isto a lápis e escreveu Ezellohar sobre isto (§113).

§126      Ered Orgotoh > Ered Gorgorath; Nan Dungorthin > Nan Dungortheb. Ver HoME V.

§127      Ao lado do início deste parágrafo meu pai escreveu: ‘A construção desta fortaleza como uma proteção contra uma invasão do Oeste viria mais tarde”. Ver §12.

Na cópia datilografada a passagem relativa aos Orcs segue como no texto impresso a partir do manuscrito até ‘eles podem ser mortos ou destruídos pelos valentes com armas de guerra’; o restante do parágrafo foi riscado no manuscrito (nota 8), exceto pelas palavras ‘Quoth Ælfwine’  no final (as quais o datilógrafo não percebeu e omitiu, terminando o parágrafo em ‘armas de guerra’ sem fechar os parênteses). Ao lado da primeira parte do trecho meu pai escreveu um X na cópia datilografada e uma breve e ilegível instrução da qual a primeira palavra pode ter sido ‘cortar’, com uma referência à passagem no cabeçalho em §45. Não está claro o que precisamente deveria ser cortado (se eu li a palavra corretamente), mas vendo que ele anotou na cópia manuscrita ao lado da passagem anterior (§43) ‘Alterar isto. Orcs não são Élficos’, parece provável que a mesma objeção se aplicava aqui. Ele consertou o erro do datilógrafo em omitir as palavras ‘Quoth Ælfwine’ eliminando as palavras ‘(Orcs podemos nomeá-los, pois’, de forma que o texto se torna ‘Os Glamhoth, horda de tumulto, os Noldor os chamaram. Nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios …’ Possivelmente isto foi feito sem concultar o manuscrito.

§132      Em ‘no ingrato Mar salgado’ a palavra sal foi riscada.

§134      Uma nota marginal ao lado dos nomes dos Filhos de Fëanor: ‘X Nomes serão revisados’. No texto Cranthir > Caranthir, Damrod e Díriel foram riscados (mas sem outro nome a substituí-los) e o n de Celegorn foi sublinhado.

§135      Nota marginal ao lado do início deste parágrafo: ‘Nomes e relacionamentos agora alterados’. No texto Finrod > Finarphin (e subsequentemente) e Inglor > Finrod (e subsequentemente); ta,bém Orodreth sublinhado e marcado com um X.

§137      Ao lado da sentença ‘Ele [Manwë] não iria proibir ou obstruir o propósito de Fëanor’ há uma nota marginal: ‘Manwë e os Valar não podiam – ou seja, não era permitido interferir com os Noldor exceto por conselhos – não por força’.

§149      Uma nota marginal ao lado do trecho descrevendo o envolvimento da Segunda hoste na batalha: ‘Finrod e Galadriel (cujo marido era dos Teleri) lutaram contra Fëanor em defesa de Alqualondë’. Sobre isto veja a nota bastante tardia (1973) do meu pai referente à conduta de Galadriel no tempo da rebelião do Noldor em Contos Inacabados: ‘Durante a revolta de Fëanor que se seguiu ao Escurecer de Valinor Galadriel não tomou parte: de fato ela e Celeborn lutaram heroicamente em defesa de Alqualondë contra o ataque dos Noldor…’

§162      ‘Fëanor e seus filho colocaram fogo em’ alterado para ‘Fëanor fez com que fogo fosse posto em’. Uma nota marginal no final do parágrafo diz: ‘Tragédia da queima de um dos filhos [adicionado: 2 filhos mais jovens] de Fëanor, que retornara para dormir em seu barco’. Outra nota no mesmo lugar diz: ‘Os filhos mais jovens de Fëanor eram gêmeos’; a isto se segue uma palavra entre parênteses que foi riscada, provavelmente ‘(improvável)’. É dito no QS (§41) que Damrod e Diriel eram ‘irmãos gêmeos iguais em temperamento e aparência’.

§163      Nota marginal ao lado de ‘Muitos lá pereceram’ (isto é, ao cruzar o Helkaraxë): ‘A esposa de Turgon foi perdida e ele tinha então apenas uma filha e nenhum outro herdeiro. Turgon quase perdeu a si mesmo em tentativas de resgatar sua esposa – e ele tinha menos amor pelos Filhos de Fëanor do que qualquer outro’.

Os Anéis de Poder

Notas IntrodutóriasEste imenso apanhado de dúvidas sobre os Anéis de Poder foi criado por Stan Brown, da Oak Road Systems, e a versão original do mesmo, em inglês, podem ser vista neste endereço. Ele é composto de 48 questões que englobam praticamente todos os aspectos dos Anéis, em questões tratadas dentro da outra ou meramente especuladas, com as informações que temos.O r.a.b.t. que se espalha por todo o artigo é o rec.arts.books.tolkien, um newsgroup (espécie de lista de discussão que pode ser acessado rapidamente através do Google. As respostas e comentários foram mantidos no estilo originais, escritos em primeira pessoa pelo autor, Stan Brown. Existindo necessidade de notas de tradução, as mesmas serão devidamente identificadas.


Os Anéis de Poder
“Não estou seguro de que a tendência em tratar a coisa toda como um tipo de grande jogo é realmente bom. … É, suponho, um tributo ao curioso efeito que a história produz… que tantos clamem por ‘informação’ ou ‘conhecimento’ brutos” [Carta #160] “Só existe um poder nesse mundo que sabe tudo sobre os anéis e seus efeitos” [SdA I 2]. Embora meus conhecimentos estejam longe de completos, estarei revisando esta FAQ baseando-me em minhas próprias releituras das obras de Tolkien e em seus gentis comentários e sugestões.
Três Anéis para os Reis-Elfos sob este céu,
Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,
Nove para Homens Mortais, fadados ao eterno sono,
Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,
Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.

A. Os Anéis de Poder

  1. Quais eram os poderes dos Anéis?
  2. Por que os Anéis tornavam seus utilizadores invisíveis?
  3. Quem poderia ver um utilizador de Anel invisível?
  4. Por que as roupas de Frodo e Bilbo ficavam invisíveis quando eles usavam o Anel?
  5. Então por que as vestimentas dos Cavaleiros Negros eram visíveis?
  6. Os Anéis davam a habilidade de ler mentes?
  7. Quem fez os Anéis e quando?
  8. Quantos Anéis existiam?
  9. Por que Sauron não fez mais Anéis?
  10. O que é o anel de Saruman?

B. Invisibilidade

  1. Por que os Anéis tornavam seus utilizadores invisíveis?
  2. Quem poderia ver um utilizador de Anel invisível?
  3. Por que as roupas de Frodo e Bilbo ficavam invisíveis quando eles usavam o Anel?
  4. Então por que as vestimentas dos Cavaleiros Negros eram visíveis?
  5. Os Anéis dos Anões os tornavam invisíveis?
  6. Os Anéis dos Anões tornariam um Homem invisível?
  7. O que aconteceria se um Elfo ou um Mago colocasse um dos Sete ou dos Nove?
  8. Por que Galadriel não era invisível, uma vez que ela usava um Grande Anel?
  9. Sauron continuava visível ao usar o Anel?
  10. Quando Frodo colocou o Anel nas Fendas da Perdição, Gollum podia vê-lo?

C. Os Sete e os Nove Anéis

  1. Em que os Sete e os Nove eram diferentes?
  2. Os Sete e os Nove Anéis tiveram por intenção original os Anões e Homens?
  3. Os Anéis dos Anões os tornavam invisíveis?
  4. Os Anéis dos Anões tornariam um Homem invisível?
  5. Os Anéis dos Anões os tornaram ricos?
  6. Quando os Nazgûl surgiram?
  7. Os Nazgûl estavam utilizando seus Anéis ao tempo de O Senhor dos Anéis?
  8. Por que Sauron não usou os mesmo Nove Anéis para fazer mais Nazgûl?
  9. O que aconteceu, em última análise, com os Sete e os Nove?
  10. O que aconteceria se um Elfo ou um Mago colocasse um dos Sete ou dos Nove?

D. Os Três Anéis

  1. Quais eram os nomes dos Três Anéis e o do que eram feitos?
  2. Quem usou os Três Anéis?
  3. Que poderes especiais tinham os Três Anéis?
  4. Os Elfos eram bons, portanto os Três Anéis eram bons, correto?
  5. Por que Galadriel não era invisível, uma vez que ela usava um Grande Anel?
  6. Gandalf usava o Anel do Fogo. Era assim que ele fazia seus fogos de artifício?
  7. Por que Saruman não tomou o Anel de Gandalf?
  8. O que aconteceu, em última análise, aos Três Anéis?

E. O Um Anel

  1. Quem usou o Um Anel e quando?
  2. Quais eram os poderes especiais do Um Anel?
  3. Como o Anel de Sauron controlava os Anéis que foram criados antes?
  4. O Um Anel podia pensar, sentir e fazer escolhas?
  5. Por que Sauron se faria vulnerável, transferindo seu poder para o Um Anel?
  6. Quem inscreveu o verso no Um Anel?
  7. Onde estava o Um enquanto Sauron estava Númenor?
  8. Então porque Ar-Pharazôn não tomou o Anel de Sauron?
  9. Como Sauron levou o Um Anel de volta à Terra-média após seu corpo ter afundando com os Númenorianos?
  10. Sauron continuava visível ao usar o Anel?
  11. Na Terceira Era, tendo perdido o Anel, porque Sauron não estava mais fraco do que antes de criá-lo?
  12. Por que Gollum não se tornou um espectro há muito tempo?
  13. Então porque Gollum e Bilbo não morreram quando perderam o Anel?
  14. Como Sauron poderia conferias que os Nazgûl não clamariam o Anel?
  15. Quando ele mandou os Nazgûl atrás de Frodo, Sauron não temeu que alguém pudesse usar o Anel contra eles?
  16. Em Valfenda, quem colocou o Anel de Frodo em uma corrente?
  17. O Um Anel falou na Montanha da Perdição?
  18. Quando Frodo colocou o Anel nas Fendas da Perdição, Gollum podia vê-lo?
  19. O que teria acontecido se Frodo reclamasse o Anel e Gollum não interferisse?
  20. Então quem poderia ter vencido Sauron usando o Anel, então?
  21. Como Um Anel se compara ao Anel de Nibelungo, de Wagner?

A. Os Anéis de Poder


A1. Quais eram os poderes dos Anéis?

“O principal poder (de todos os anéis) era a prevenção ou diminuição do decaimento (isto é ‘mudança’ vista como algo indesejável), a preservação do que é desejado ou amado, ou sua representação – este é um motivo mais ou menos Élfico. Mas eles também ampliavam os poderes naturais de um possuidor – assim se aproximando da ‘magia’, um motivo facilmente corruptível para o mal, um desejo por dominação. E finalmente eles tinham outros poderes, mais diretamente derivados de Sauron… como tornar invisível o corpo material, e fazer coisas do mundo invisível visíveis” [Carta #131]

Os Anéis de Poder tinham um efeito adicional, o qual definitivamente não era para o benefício do portador: com o uso repetido, eles poderiam transformar um mortal (Homem ou Hobbit) em um espectro dominado por Sauron. (Muito provavelmente isto não se aplicava aos Três Anéis, os quais não tornavam ninguém invisível e nunca foram tocados por Sauron. Anões também eram imunes.)

Uma forma de mudança e decaimento que os Anéis preveniam era o envelhecer de seus portadores mortais. Mas isto não era o mesmo que juventude eterna: relembre a reclamação de Bilbo de que ele se sentia “todo fino, meio que espichado, se você entende o que quero dizer: como manteiga espalhada sobre pão demais” [SdA I 1]. Veja também Então porque Gollum e Bilbo não morreram quando perderam o Anel?

(O tempo de vida de um Anão não era afetado por qualquer Anel. Michael Kohrs mostra isto [artigo do r.a.b.t artigo, 4 de janeiro de 2002, arquivado aqui] com a seguinte citação de [SdA A III]: “Embora pudessem ser mortos ou dominados, eles não podiam ser reduzidos a sombras escravizadas a outra vontade; e pela mesma razão suas vidas não eram afetadas por nenhum Anel, para viver mais ou menos por causa dele.”)

O Um Anel tinha poderes especiais, e os três tinham seus próprios poderes especiais.


A2. Por que os Anéis tornavam seus utilizadores invisíveis?

Originalmente, é porque em O Hobbit Tolkien precisava de um recurso para fazer Biblbo invisível, e um anel mágico é a escolha tradicional em contos-de-fada. Quando Tolkien decidiu fazer o anel de Bilbo a conexão com seu novo romance O Senhor dos Anéis, a invisibilidade tinha que se tornar parte de um contexto maior.

No contexto ampliado, há dois “mundos”, os quais podemos pensar muito aproximadamente como o plano material e o plano espiritual. Elfos (mais especificamente os Alto Elfos que viveram em Valinor) existiam em ambos ao mesmo tempo. Steuard Jensen ressalta [artigo r.a.b.t, 1 de fevereiro de 2002, arquivado aqui] que isto não é verdade para os Elfos em geral: os Elfos da Floresta das Trevas não podiam ver Bilbo enquanto ele usava o Anel. Mortais (Homens e Hobbits) normalmente estão cientes apenas do mundo material do dia-a-dia.

Os Anéis (o Um e os Nove, provavelmente também os Sete) transportavam o utilizador parcialmente para o mundo espiritual. Em Valfenda, Gandalf diz a Frodo “Você estava em mais grave perigo enquanto usava o Anel, pois então estavam metade no mundo espectral” [SdA II 1] Um pouco mais tarde na mesma conversação, Frodo afirma “Eu si uma figura branca que brilhava e não diminuía como as outras. Era aquele Glorfindel, então?” e Gandalf responde “Sim, você o viu por um momento como ele é do outro lado: um dos poderosos dos Primogênitos” [SdA II 1]. Em outras palavras, estando metade no mundo espiritual Frodo podia ver coisas no mundo espiritual que seus companheiros não podiam ver. Mas o preço era uma nova vulnerabilidade: “você se tornou visível para eles [os Cavaleiros Negros], já estando no portal de seu mundo”. [IBID]

Quando Frodo escala ao topo de Amon Hen e coloca o Anel, ele pode novamente ver e ser visto no mundo spiritual [SdA II 10]. Sauron sabe imediatamente onde Frodo está, mas afortunadamente apenas de uma forma genérica; e Frodo vê a busca de Sauron como um braço com um dedo apontado cegamente procurando por ele.

Tolkien dá mais uma descrição quando Sam coloca o anel em Cirith Ungol, nos limites de Mordor [SdA IV 9]. “Todas as coisas ao redor dele não eram negras, mas vagas; enquanto ele mesmo estava lá em um mundo de brumas cinzentas, sozinho, como uma pequena e sólida pedra negra… Ele não se sentia invisível de forma alguma, mas horrível e unicamente visível; e ele sabia que em algum lugar um Olho estava procurando por ele”. Sam estava metade no mundo espectral, e, portanto sua visão de coisas no mundo material diminuiu. Novamente, ele agora estava visível no mundo espiritual, e, portanto mais vulnerável a Sauron. Aquele mesmo trecho mostra como o Anel que diminuía a visão no mundo material ampliava a audição.

O Anel transportava seu utilizador parcialmente para fora do mundo material, mas não completamente. Bilbo ainda lançava uma sombra sob a luz plena do sol [Hobbit V], embora a sombra fosse “trêmula e fraca” [Hobbit V].

A invisibilidade conferida pelos Anéis não era apenas um artifício prático, mas também um perigoso passo na estrada para o inferno. Isto era da criação de Sauron. Gandalf diz “se [um Homem ou Hobbit] usa freqüentemente o Anel para se tornar invisível, ele esvaece: no final ele se torna invisível permanentemente e caminha no crepúsculo sob o olho do poder negro que governa os Anéis”. [SdA I 2] Em outras palavras, quem utilizar um Grande Anel habitualmente se tornará um espectro, como os Nazgûl.

Os Sete e os Nove tinham esses poderes “espectrantes” originalmente da forja pelos Elfos ou Sauron adicionou esta característica após tê-los obtido? Não sabemos. Dado que os Três não conferiam invisibilidade, parece ao menos plausível que nenhum dos Anéis forjados pelos Elfos originalmente tinham esta característica. É difícil imaginar Celebrimbor a colocando deliberadamente em qualquer dos Anéis, embora ele possa ter seguido algum item da receita de Sauron sem entendê-lo completamente . Na ausência de qualquer afirmação de Tolkien podemos apenas especular.

Ver também: Invisibilidade


A3. Quem poderia ver um utilizador de Anel invisível?

Tom Bombadil podia, obviamente [SdA I 7] – mas ele era um caso especial em uma porção de maneiras. No Conselho de Elrond, quando Erestor sugere que Tom possui um poder sobre o Anel, Gandalf o corrige: “Diga antes que o Anel não tem poder sobre ele. Ele é seu próprio mestre”. [SdA II 2]

Os Nazgûl podiam: “enquanto você usou o Anel, … você podia vê-los e eles podiam vê-lo” [SdA II 1]. E se eles podiam com certeza Sauron poderia, embora não tenhamos evidências diretas – afortunadamente para Frodo. Mas a horripilante cena com o braço cegamente procurando em Amon Hen [SdA II 10] é sugestiva: se Sauron tivesse uma boa idéia das cercanias do Anel quando alguém muitas milhas distante o colocava, seria surpreendente se ele não pudesse ver o utilizador se estivesse lá.

E nós sabemos a partir dO Hobbit que um mortal utilizando um Anel não era absolutamente invisível: “apenas em plena luz do sol você poderia ser visto, e mesmo então apenas por sua sombra, e esta seria trêmula e fraca” [Hobbit V]. Poucas páginas depois isto de fato acontece, Quando Bilbo, utilizando seu novo Anel, fica preso na porta de saída do reino dos Goblins, ele lança uma sombra: “Há uma sombra na porta. Algo está lá fora!” [Hobbit V]

A questão mais intrigante é se existe alguma classe de pessoas que pode ver um mortal que está utilizando um Anel, como Tom Bombadil podia. Anões não podiam, pois Balin “olhou Bilbo diretamente sem notá-lo” [Hobbit VI]. Mortais e Elfos da Floresta e Orcs não podiam, como todas as aventuras de Bilbo deixam claro. Os candidatos óbvios são os Magos e os Alto Elfos, mas aqui estamos no reino da especulação e inferência uma vez que Tolkien nunca respondeu diretamente esta questão.

N’O Hobbit, nunca podemos ter certeza se Gandalf podia ver o invisível Bilbo. Apenas um incidente poderia nos dizer: Quando Bilbo reencontra os Anões e Gandalf após escapar dos Goblins, seu Anel o permite passar pela vigilância de Balin, mas “os arbustos na borda do vale” o protegem da visão de Gandalf [Hobbit VI]. Não pode ter existido nenhum trecho significativo de terreno aberto para ele cruzar dali até o grupo de Anões, porque não levou tempo algum para ele aparecer no meio do grupo. Após os Anões e Gandalf terem discutido um pouco, nós lemos “E aqui está o ladrão! – disse Bilbo descendo para o meio deles e retirando o anel. … Gandalf estava tão atônito quanto qualquer um deles … Chamou Balin e disse-lhe o que pensava de vigias que deixavam alguém aparecer no meio deles, daquele jeito”. [Hobbit VI] Você pode ler isso como quiser: ou Gandalf não viu Bilbo por Bilbo estar com o Anel ou Gandalf não viu Bilbo porque ele pulou direto de seu esconderijo nas moitas para o meio deles.

Uma segunda ocasião é ainda menos informativa, se possível. Na Batalha dos Cinco Exércitos, Bilbo e Gandalf estão ambos próximos do Rei dos Elfos na Colina dos Corvos [Hobbit XVII], mas Gandalf está “preparando … um último golpe de mágica” e não estaria prestando atenção a Bilbo, visível ou não. Após a batalha, o mensageiro diz a Bilbo, “já o procuramos bastante… se Gandalf não dissesse que sua voz foi ouvida pela última vez neste lugar” [Hobbit XVIII] — e não “disse que ouviu sua voz neste lugar” e definitivamente não “disse que viu você neste lugar”. Com Anel ou não Bilbo se colocaria em um lugar que ficasse fora do caminho, de forma a evitar ser pisoteado por guerreiros que não poderiam vê-lo. De novo, uma vez que um Gandalf preocupado e machucado poderia não notar um Bilbo visível, o fato dele não ver um Bilbo invisível não nos diz nada.

Com relação a O Senhor dos Anéis, em um artigo da Usenet [r.a.b.t article, 11 Apr 2006, archived here], “nfw” aponta que Bilbo colocou o Anel no final de seu discurso de aniversário. Gandalf com certeza estava lá: ele fez o flash que coincidiu com o desaparecimento de Bilbo, como ele confirma a Bilbo alguns parágrafos mais tarde. Mas Gandalf não ficou surpreso com Bilbo colocando o Anel, uma vez que mais tarde ele reprova Bilbo com “Suponho que você esteja sentindo que tudo saiu de modo esplêndido e de acordo com seus planos…” [SdA I 1]. Não podemos dizer se Gandalf podia ver Bilbo usando o Anel. É verdade que voltando à toca hobbit Gandalf diz “Fico feliz em encontrá-lo visível”, mas isto prova apenas que Gandalf sabia quando Bilbo estava usando o Anel, não que Bilbo estava visível a Gandalf naqueles momentos. (“Visível” pode não ser o oposto de “invisível”; pode significar “em casa, recebendo visitantes”, ou claro, pode significar ambos).

E sobre os Alto Elfos, como Glorfindel e Galadriel? “Aqueles que moraram no Reino Abençoado vivem ao mesmo tempo nos dois mundos, e têm grande poder contra os Visíveis e os Invisíveis” [SdA II 1] e Glorfindel era visível “do outro lado”. Uma vez que os Anéis tornavam seus utilizadores invisíveis tranportando-os para o mundo espectral, onde Glorfindel tinha presença, parece ao menos possível que os Elfos que viveram em Valinor pudessem ver um utilizador do Anel. E se eles podiam então com certeza Gandalf poderia, uma vez que ele nativamente era puro espírito e apenas secundariamente utilizava um corpo (Elrond conta? Ele é um senhor dos Noldor, mas nunca viveu em Valinor). Mas nem Frodo nem Bilbo nem Isildur jamais puseram o Anel em frente a um Elfo de Valinor, e esta questão não tem resposta.

Ver também: Invisibilidade


A4. Por que as roupas de Frodo e Bilbo ficavam invisíveis quando eles usavam o Anel?

Pode-se perguntar, se os Anéis tornavam seus utilizadores invisíveis transportando-os para o mundo espiritual, então porque suas roupas eram transportadas também?

Uma resposta, talvez a melhor e certamente a mais simples, é que ele tinha que fazê-lo ou o Anel seria inútil como recurso de roteiro. Você pode imaginar Bilbo tirando a roupa antes de colocar seu anel para evitar os Sacola-Bolseiros?

Mas podem fazer melhor do que isso. Steuard Jensen publicou uma explicação bastante plausível, interna à história, de como os anéis conferiam invisibilidade não apenas aos corpos, mas também às vestimentas de seus utilizadores [artigo r.a.b.t, 8 de setembro de 1998, arquivado aqui].

E é claro que não foram apenas Bilbo e Frodo (e Sam e Gollum). Isildur também desaparecia com todas as suas roupas quando utilizava o Anel [CI:ODdCL]. (A passagem merece ser lida por um ponto digno de nota: a Elendilmir que Isildur usava brilhava mesmo com ele invisível, mas a cobrindo com seu capuz [invisível] a luz era bloqueada! A teoria de Steuard Jensen leva isto em conta).

Steven Souter analisou não apenas o fenômeno Elendilmir, mas também o fato que as Aranhas da Floresta das Trevas podiam ver a espada de Bilbo enquanto ele estava invisível [artigo r.a.b.t, 8 de setembro de 1998, arquivado aqui].

Ver também: Invisibilidade


A5. Então por que as vestimentas dos Cavaleiros Negros eram visíveis?

Ok, sabendo que os Anéis tornavam corpo e roupas invisíveis, como poderiam Passolargo e os hobbits ver as vestimentas dos Cavaleiros Negros?

Isto não é difícil de explicar, se (como parece) os Nazgûl não estavam utilizando seus anéis. Relembre a história dos Nazgûl:

Na Segunda Era Sauron deu nove anéis aos Homens. Estes Homens e suas vestimentas eventualmente se tornaram permanentemente invisíveis, e os nove Homens se tornaram espectros sob o controle de seus anéis. Algum tempo depois disso, Sauron tomou novamente para si os Nove Anéis. Ainda depois, na Terceira Era, os Nazgûl colocaram “os mantos negros são roupas reais que eles usam para dar forma à sua própria inexistência”, nas palavras de Gandalf [SdA II 1]. Mas uma vez que os Cavaleiros não estavam usando seus anéis, suas novas roupas externas não se tornaram invisíveis. Elas podiam ser vista por mortais com visão normal.

Perceba que os Cavaleiros continuavam usando algumas de suas vestes originais. Quando Frodo coloca o Um Anel no Topo dos Ventos, “Frodo podia ver através de suas roupas pretas … sob as capas havia grandes túnicas cinzentas; sobre os cabelos cinzentos, elmos de prata; nas mãos magras, espadas de aço” [SdA I 11]

Não, o Anel não dava visão de raios-X – não exatamente, pelo menos. Os mantos negros eram “reais”, significando que eram mantos materiais normais, e, portanto apenas imperfeitamente visíveis no mundo espiritual. Toda a matéria normal ficava vaga e enevoada para alguém usando o Anel; isto é mais bem descrito quando Sam coloca o Anel em Cirith Ungol [SdA IV 10].

Mas as roupas e acessórios internos dos Cavaleiros foram “espectrificadas” junto com seus corpos na Segunda Era, quando eles usavam seus anéis. Então eles eram permanentemente invisíveis à visão normal dos mortais, mas tendo sido transportados para o mundo espiritual com seus corpos aquelas roupas e acessórios eram completamente visíveis a Frodo enquanto ele usava o Anel.

O. Sharp publicou uma explicação detalhada e inteligente sobre este fenômeno em 1995 [artigo do r.a.b.t , 19 de agosto de 1995, arquivado aqui].

Sumário: Provavelmente os Cavaleiros não estavam usando seus Anéis no final da Terceira Era. Portanto as roupas que eles colocaram permaneciam visíveis porque não havia nenhum anel para torná-las invisíveis. (Se você acredita que os Cavaleiros estavam usando seus Anéis, por favor, me diga como você explica a razão de seus mantos negros serem visíveis, mas os cinzentos não).

Ver também: Invisibilidade


A6. Os Anéis davam a habilidade de ler mentes?

O Um Anel dava, até certo ponto; os demais não.

O Um Anel permite que seu portador leia e controle os pensamentos daqueles que usam os outros Anéis, com alguma pratica. Portanto ele agia como um receptor telepático dos pensamentos daqueles que usavam os Anéis menores.

O Um Anel permitiu a Sam compreender a língua Orc, mas não fica claro se foi por telepatia; veja Compreender idiomas ou ler mentes?

Os outros Anéis podem ter atuado como receptores, uma vez ao menos. Quando Sauron colocou pela primeira vez o Anel em seu dedo, Gandalf conta no Conselho de Elrond, “os Ourives de Eregion ouviram” Sauron falar as palavras da rima do Anel “sabendo assim que tinham sido traídos” [SdA II 2] Isto sugere a possibilidade de alguma forma, pelo menos momentânea, de telepatia baseada no Anel. Mas uma vez que não temos mais evidências disso, acredito que foi apenas o início do controle do Um Anel se fazendo sentir, mas antes que o controle estivesse completo.

Tolkien oferece outra explicação em uma Carta: “[Sauron] não contava, contudo, com a sabedoria e as sutis percepções dos Elfos. No momento que ele assumiu o Um, eles ficaram cientes dele, e de propósito secreto, e tiveram medo” [Carta #131] Em outras palavras, os artífices Élficos de Eregion ficaram cientes de Sauron por serem Elfos sábios, não devido a alguma comunicação entre o Um e os Três, Sete ou Nove Anéis.

Até onde sabemos, com esta possível exceção, nenhum dos outros Anéis dá qualquer tipo de habilidade de ler mentes, nem de portadores dos Anéis nem de mais ninguém.

Existe telepatia em O Senhor dos Anéis, mas ela não depende dos Anéis. Perto do fim da história, quando os viajantes estão retornando para casa através de Eregion, Gandalf, Elrond, Galadriel e Celeborn podiam conversar de maneira puramente mental, noite após noite: “Pois eles não se mexiam nem usavam a boca para falar; olhavam de uma mente para a outra, e apenas seus olhos brilhavam e se agitavam e se acendiam, enquanto trocavam pensamentos” [SdA VI 6] Perceba que Celeborn participou desta conversação por telepatia, mesmo não tendo Anel; e de qualquer forma, neste ponto da história os Três já haviam perdido seus poderes.

Se você deseja saber mais sobre a concepção de telepatia de Tolkien, leia o artigo “Ósanwë-kenta, Investigação acerca da Comunicação de Pensamento” (publicado originalmente no Vinyar Tengwar, número 39, Julho de 1998, ISSN 1054–7606; pedidos de exemplares antigos podem ser feitos aos editores).


A7. Quem fez os Anéis e quando?

Na Segunda Era, por volta de 1200, Sauron começou a tentar corromper os Elfos [SdA B]. Falhando com Gil-galad e Elrond ele teve melhor sorte com os Elfos artífices de Eregion (Hollin). Celebrimbor (cujo nome está no portão oeste de Moria [SdA II 4]), era o principal artífice e o governante. Embora tenha lutado contra Morgoth, ele se recusou a retornou a Valinor após a derrota deste. Eles queriam a faca e o queijo: ficar na Terra-média onde eram os seres de mais alta ordem, mas também ter as mesmas alegrias que os Elfos que retornaram a Valinor e viviam com os Valar [Silm: Anéis], [L #131]. E foi dessa forma que Sauron os tentou.

Segue a cronologia, do Conto dos Anos [SdA B]. Começando em algum momento por volta de 1500 S.E., Sauron e os Elfos fizeram juntos os Sete e os Nove Anéis em Eregion; então Sauron partiu para Mordor. Por volta de 1590 S.E. Celebrimbor fez os Três [SdA II 2] sem o auxílio de Sauron (mas usando parcialmente o que os Elfos aprenderam com ele). Finalmente, dez anos

depois Sauron completou o Um Anel nas forjas da Montanha da Perdição em Mordor. (Dez anos são o piscar de um olho: Sauron levou seiscentos anos para construir Barad-dûr, talvez por ter construído as fundações por último, usando o Anel [SdA II 2]).

A8. Quantos Anéis existiam?

Não sabemos ao certo, mas com certeza mais do que os vinte Grandes Anéis mencionados no verso do Anel.

Em “A sombra do passado”, Gandalf fala a Frodo, “Em Eregion, há muito tempo, muitos anéis élficos foram feitos, Anéis mágicos, como se diz. E eram, é claro, de muitos tipos: alguns mais poderosos outros menos. Os anéis menos importantes foram apenas ensaios no ofício, que ainda não estava totalmente desenvolvido, e para os ourives élficos eram insignificantes – embora eu os considere um risco para os mortais. Mas os Grandes Anéis, os Anéis de Poder, esses eram perigosos” [SdA I 2]

Então existiam outros anéis; mas existiam outros Grandes Anéis? Provavelmente não. Nós sabemos que os Anéis mencionados no verso eram todos Grandes Anéis. Nós sabemos que os Elfos também fizeram alguns anéis menores, não mencionados na rima. Não temos certeza absoluta de que a rima lista todos os Grandes Anéis, mas esta com certeza é a hipótese mais simples.

Conclusão: Existiam vinte Grandes Anéis e um número desconhecido de anéis menores. Nós não sabemos quais poderes os anéis menores tinham ou o que aconteceu com ele após Sauron tê-los capturado.

A9. Por que Sauron não fez mais Anéis?

Embora não exista uma resposta definitiva, podemos dar algumas respostas plausíveis.

É fácil eliminar algumas razões. Por exemplo, durante a segunda metade da Segunda Era (1600-3441) ele tinha o Um Anel, então ele tinha o poder. (E, de qualquer forma, não deveria ser necessário muito poder para fazer os Sete e os Nove, uma vez que os Elfos foram capazes de fazer os Três Anéis sozinhos). E durante a maior parte daquele período ele não foi incomodado nem por Elfos nem por Homens, então ele teve o tempo.

Talvez as melhores respostas sejam externas à história, repousando em alguns dos tems recorrentes de Tolkien.

  •  exaustão criativa (ou talvez limitação subcriativa): Fëanor sabia que ele nunca poderia duplicar as Silmarils, e mesmo a Vala Yavanna sabia que criar novas Árvores estava além dela: “Mesmo para os mais poderosos súditos de Ilúvatar, existem obras que podem realizar uma e apenas uma vez” [Silm: “Da fuga dos noldor”]. Talvez Sauron pudesse criar os Anéis uma única vez – não apenas um Anel Governante, mas qualquer Anel de Poder.
  • falta de candidatos: Sauron deu um Anel para o líder de cada uma das tribos de Anões e também para cada um dentre nove grandes Homens. Quantos grandes Homens existem em qualquer era, capazes de comandar outros homens e também serem servos úteis a Sauron, e corruptíveis pelos Anéis, em primeiro lugar. (Faramir, por exemplo, poderia ser um grande comandante e um inteligente servo de Sauron, mas seria inútil oferecer a ele um Anel. “Eu não o pegaria, mesmo que estivesse largado na estrada. … Eu não desejo tais triunfos, como os que ele me daria”, ele disse a Frodo antes de saber que Frodo o possuía. [SdA IV 5])
  • a esterilidade do mal: um tema recorrente de Tolkien é que o mal não pode criar apenas perverter e destruir. Talvez Sauron tenha declarado guerra aos Elfos para tomar os Anéis não tanto por desejá-los, mas principalmente para privá-los aos Elfos, não tanto por qualquer poder que pudessem dar a eles e mais para desfrutar a angústia Élfica ao ver seus belos trabalhos (como eles pensavam) utilizados para propósitos vis.

A10. O que é o anel de Saruman?

Gandalf conta no Conselho de Elrond que em sua última visita a Saruman ele o viu “usava um anel em seu dedo. … ‘Pois sou Saruman, o Sábio, Saruman, o Fazedor de Anéis’” [SdA II 2]. Mas isto nunca se retorna a este ponto, e nós não vemos quaisquer evidências de que Saruman tenha algum poder ampliado derivado de um Anel.

Nota do Tradutor: os leitores brasileiros não reconhecerão este trecho, pois ele foi omitido da tradução brasileira, por um lapso de tradução e revisão. Você pode acompanhar o problema como um todo nos links a seguir: Notícia Valinor  e Força Tarefa de Revisão da Tradução

Talvez o anel de Saruman fosse um blefe, para impressionar Gandalf e persuadi-lo à submissão. Talvez fosse um pouco de auto-ilusão por parte de Saruman. Simplesmente não sabemos.

Contudo, Tolkien nos dá uma forte pista, como Doug Elrod apontou [artigo r.a.b.t, 11 de julho de 2002, arquivado aqui]. No Prefácio, Tolkien escreve como O Senhor dos Anéis seria se ele fosse feito à imagem da Segunda Guerra Mundial:“Saruman, não conseguindo de apoderar do Anel, teria … encontrado em Mordor as conexões perdidas em suas próprias pesquisas sobre a Tradição do Anel, e logo teria feito um Grande Anel para si próprio, com o qual poderia desafiar o pretenso soberano da Terra-média” [SdA Prefácio]

Se existiam elos faltantes na pesquisa de Saruman, então parece que o anel que ele mostrou a Gandalf não poderia ser um Grande Anel, igual aos Três ou mesmo aos Sete ou os Nove. Talvez fosse um “ensaio no ofício” [SdA I 2]. Talvez fosse apenas joalheria comum, apenas para impressionar Gandalf e talvez blefar Sauron; é nisto que acredito.

B. Invisibilidade

  1. Por que os Anéis tornavam seus utilizadores invisíveis?
  2. Quem poderia ver um utilizador de Anel invisível?
  3. Por que as roupas de Frodo e Bilbo ficavam invisíveis quando eles usavam o Anel?
  4. Então por que as vestimentas dos Cavaleiros Negros eram visíveis?
  5. Os Anéis dos Anões os tornavam invisíveis?
  6. Os Anéis dos Anões tornariam um Homem invisível?
  7. O que aconteceria se um Elfo ou um Mago colocasse um dos Sete ou dos Nove?
  8. Por que Galadriel não era invisível, uma vez que ela usava um Grande Anel?
  9. Sauron continuava visível ao usar o Anel?
  10. Quando Frodo colocou o Anel nas Fendas da Perdição, Gollum podia vê-lo?

C. Os Sete e os Nove Anéis

C1. Em que os Sete e os Nove eram diferentes?

Não sabemos ao certo; possivelmente não havia diferença

É fácil ver que os Anões fizeram coisas diferentes com os Sete do que os Homens fizeram com os Nove. Sauron não pôde dominar as vontades dos Anões através dos Anéis, nem eles podiam ser transformados em espectros. O principal efeito parece ter sido intensificar a já existente cobiça Anã por ouro, o que, claro, gerou diversas oportunidades de disputas entre os Anões. Homens, por outro lado, se tornaram grandes reis e feiticeiros antes de se tornarem espectros [Silm: Anéis].

Estas parecem diferenças entre Homens e Anões, não entre dois grupos de Anéis. Diversas citações dizem que Sauron apenas pegou os dezesseis Anéis que ele obteve em sua guerra contra os Elfos e deu alguns aos Anões e outros aos Homens. Por exemplo: “Sauron, entretanto, acumulou nas mãos todos os Anéis de Poder que restavam. E os distribuiu a outros povos da Terra-média… Sete anéis deu ele aos anões; mas aos homens deu nove pois os homens se revelaram, nesse aspecto como em outros, os mais propensos a se submeter à sua vontade” [Silm: Anéis]

Por outro lado, “A História de Galadriel e Celeborn” dá alguns detalhes sobre a obtenção dos Anéis por Sauron: “Lá Sauron apossou-se dos Nove Anéis e de outras obras menores dos Mírdain; mas não conseguiu encontrar os Sete e os Três. Então Celebrimbor foi torturado, e Sauron descobriu por ele a quem haviam sido confiados os Sete. Isso foi revelado por Celebrimbor porque nem os Sete nem os Nove tinham tanto valor para ele quanto os Três.” [CI:AHdGeC]. Isto pode ser lido de duas formas. Ou (a) os Nove foram tomados por primeiro por Sauron porque eles eram considerados menos valiosos pelos Elfos e menos cuidadosamente guardados, ou (b) sete (de dezesseis) já haviam sido dados e nove ainda estavam no tesouro dos Elfos, mas não existia diferença intrínseca entre eles e foi apenas questão de sorte um Anão ou Homem ter recebido determinado anel.

(Sou grato a Conrad Dunkerson por chamar minha atenção à última passagem dos Contos Inacabados [artigo r.a.b.t, 9 de junho de 2001, arquivado aqui].)

C2. Os Sete e os Nove Anéis tiveram por intenção original os Anões e Homens?

Quase certamente não. O propósito dos Anéis era preservar a Terra-média da mudança. Este é um motivo Élfico, que dificilmente apelaria a Anões e muito menos a Homens.

No verso do Anel, apenas as sexta e sétima linhas (“Um Anel para a todos dominar...”) foram ditas por Sauron. Muito provavelmente eram parte da magia que criou o Um Anel, uma vez que ele também inscreveu os versos no Anel. Gandalf cita essas linhas (na Língua Negra e depois em Westron) no Conselho de Elrond, acrescentando: “Vêm dos Anos Negros as palavras que os Ourives de Eregion escutaram, sabendo assim que tinham sido traídos” [SdA II 2].

As outras seis linhas eram “tradição”, escrita por alguma pessoa desconhecida após Sauron ter obtido os Sete e os Nove Anéis e os dá-lo às suas vítimas escolhidas. Quando as linhas citam número de Anéis “para” Elfos, Anões e Homens ela contam o que aconteceu e não é uma expressão da intenção original. Tolkien deixa isto claro quando menciona Sauron dando os Anéis e então acrescenta “Daí a ‘antiga rima’ que aparece como motivo principal de O Senhor dos Anéis’ [Carta #131].

Steuard Jensen destaca [artigo r.a.b.t, 16 de julho de 2002, arquivado aqui] que não apenas os Elfos tinham a intenção original de que os Sete e Nove ficassem com Elfos, mas Sauron também tinha esta intenção. Quando ele fez e colocou o Um Anel para controlar os demais e seus utilizadores, ele tinha a intenção de tornar os senhores Élficos seus escravos. Mas eles imediatamente perceberam sua intenção e evitara-a tirando seus Anéis. Apenas então ele declarou guerra aberta a Eregion, tomou os Anéis, e os deu a Homens e Anões. (O artigo mencionado acima coloca um cenário interessante de como as coisas poderiam ter acontecido se os Elfos não tivessem percebido o perigo e, portanto caído sob seu domínio).

Pode haver uma exceção. Os ancestrais de Thorin Escudo-de-Carvalho, até o pai deste, tiveram um dos Sete. “Os anões do Povo de Durin … dizem que ele foi dado ao Rei de Khazad-dûm, Durin II pelos próprios ferreiros élficos, e não por Sauron, embora sem dúvida o poder maligno deste estivesse no Anel. [SdA Apêndice A(III)].  Talvez esta seja uma das lendas sobre um grande líder, como George Washington e a cerejeira, que são parte da tradição popular mesmo não sendo literalmente verdade. Esta tradição Anã em particular é contradita pelo Silmarillion:  “Sauron, entretanto, acumulou nas mãos todos os Anéis de Poder que restavam. … Sete anéis deu ele aos anões” [Silm: Anéis].

C3. Os Anéis dos Anões os tornavam invisíveis?

Muito possivelmente não. “Os Anões de fato se provaram resistentes e duros de domar, … além disso, não podem ser transformados em sombras” [Silm: Anéis]. Invisilibilidade é uma transposição parcial no mundo de Sauron, e tornar-se um espectro (como os Nazgûl) é uma transposição completa e permanente. Uma vez que foi dito que os Anões nunca se tornam espectros, parece provável que também não se tornem invisíveis.

Se Tolkien alguma vez publicou uma afirmação definitiva sobre isso, eu não a conheço. Conrad Dunkerson mostrou [artigo r.a.b.t, 24 de agosto de 2002, arquivado aqui] que Tolkien escreveu uma sentença sobre isso em um rascunho do SdA: “É dito que os anões tinham sete, mas nada poderia fazê-los invisíveis” (veja “Of Gollum and the Ring” em The Return of the Shadow, da série The History of Middle-earth.)

Ver também: Invisibilidade

C4. Os Anéis dos Anões tornariam um Homem invisível?

Tolkien não respondeu a isto diretamente, mas podemos inferir com bastante segurança das coisas que Tolkien disse que a resposta é Sim. Primeiramente, pode não ter existido diferença entre os Sete e os Nove. E também, o fato de que os Anões não se tornavam espectros (e, portanto presumivelmente não se tornavam invisíveis) é da natureza dos Anões, não da natureza dos Anéis. Finalmente, dos Grandes Anéis. Tolkien faz uma exceção dizendo que os Três Anéis não conferiam invisibilidade, mas não faz tal exceção para os Sete.

Ver também: Invisibilidade

C5. Os Anéis dos Anões os tornaram ricos? 

Sim. Os Sete Anéis inflamaram o desejo natural dos Anões por ouro e trouxeram riqueza aos Anões que utilizaram cada um dos Anéis. [Silm: Anéis]

Mas isto não era porque os Sete foram feitos para criar riqueza. De fato era o funcionamento normal de qualquer Anel do Poder ampliar os poderes de seu portador. Anões eram naturalmente tanto ambiciosos por ouro e bons em gerar riquezas; os Sete Anéis ampliaram ambas as características.

Como os Sete Anéis criaram riquezas? Não nos é dito diretamente, apenas que o Anel de Thrór e Thráin “precisa de ouro para gerar ouro” [SdA Apêndice A(III)]. Os Anões eram todos homens de negócio soberbos; Steuard Jensen uma vez sugeriu que talvez os Sete funcionavam ampliando suas habilidades naturais de conduzir uma negociação difícil e reduziam a resistência a vendas dos povos com os quais lidavam. Talvez “precisa de ouro para gerar ouro” seja a origem do ditado contemporâneo entre homens de negócio que diz “é necessário dinheiro para fazer dinheiro”.

C6. Quando os Nazgûl surgiram?

Cerca de 2551 da Segunda Era. Isto é cerca de 550 anos depois que Sauron tomou os Sete e os Nove dos Elfos [SdA Apêndice B].

“Surgir” aqui significa aparecer, se tornar ativo, exercer um papel público como espectros do Anel, etc. Não sabemos quanto tempo antes disso os portadores dos Nove se tornaram espectros. Mortais que utilizam um Grande Anel têm vida mais longa, mas não sabemos o quanto mais longa.

C7. Os Nazgûl estavam utilizando seus Anéis ao tempo de O Senhor dos Anéis?

Embora esta questão ocasione uma controvérsia eterna no r.a.b.t, há uma grande quantidade de evidências que apoiam que Sauron os tinha.

Evidências que Sauron os tinha

Acima de tudo, Tolkien afirma isso em uma série de lugares:

  •  “… Sauron, que através de seus nove anéis (os quais eles detinham) ainda tinha controle primário” [Carta #246]
  • Gandalf diz a Frodo, “os Nove foram reunidos por ele; os Sete também, ou então foram destruídos” [SdA I 2]
  • Galadriel diz a Frodo que, olhando em seu espelho, “Viu o Olho daquele que controla os Sete e os Nove” [SdA II 7]. Nota do Tradutor: em inglês esta frase é muito mais clara, usando a palavra “hold”, que quer dizer “detém, tem em sua posse”.
  • Em “A Caçada ao Anel”, lemos que “seus [de Sauron] servos mais poderosos, os Espectros do Anel, que não tinham vontade senão a dele, já que cada um deles era totalmente subserviente ao anel que o escravizara, que Sauron detinha.” [CI:ACaA]
  • Em outra versão de “A Caçada ao Anel”, novamente lemos que os Espectros do Anel “estavam inteiramente escravizado por seus Nove Anéis, que ele mesmo [Sauron] detinha agora”. [CI:ACaA]

(Agradecimentos a Conrad Dunkerson por encontrar vários dos trechos acima).

Destas citações parece bastante claro que Tolkien concebeu que Sauron tinha possessão física direta dos Nove Anéis, não possessão indireta tendo os Nove nos dedos de seus escravos. Eu realmente não vejo nenhuma outra maneira de ler as citações das Cartas e das duas versões de “A Caçada ao Anel”. Além disso, as duas citações de O Senhor dos Anéis implicam nos Sete e Nove sendo “possuídos” da mesma forma, e nós sabemos com certeza que Sauron tinha possessão física daqueles dentre os Sete que ainda existiam.

Além das citações, algumas circunstâncias físicas sugerem que os Nazgûl não usavam seus anéis. Estas são meramente sugestivas, não conclusivas em si mesmas:

  • As capas negras dos Nazgûl eram visíveis. Se eles estivessem usando os Grandes Anéis, esperaríamos que suasroupas fossem invisíveis também
  • No Topo dos Ventos, após ter colocado o Um Anel, Frodo podia ver os mantos dos Nazgûl, as capas, cor de cabelo, elmos, “mãos ósseas” e espadas, bem como a coroa e a adaga do Rei Bruxo. [SdA I 11] Não há menção da visão de seus Anéis. Mas sabemos que mesmo apenas carregando o Anel em Lórien Frodo pôde ver o Anel de Galadriel:“mas não se pode esconder do Portador do Anel, e de alguém que tenha visto o Olho”, ela diz a ele [SdA II 7]. (Aqueles que não aceitam esta linha de raciocínio podem dizer que o ataque no Topo dos Ventos ocorreu antes de Frodo ter visto o Olho.)
  • Quando o Rei Bruxo foi destruído nos Campos de Pelennor, nenhum Anel foi encontrado. Uma vez que os Sete Anéis possuíam gemas, ele teria brilhado ao sol; mas é claro que ele poderia ter se perdido em meio à grama alta.

Evidências de que os Nazgûl usavam os Nove Anéis

Apenas uma citação aponta neste sentido, que eu saiba a afirmação de Gandalf no Conselho de Elrond: “Os Nove estão em poder dos Nazgûl” [SdA II 2]. Em uma versão anterior deste FAQ eu tentei explicar a citação acima como tendo as palavras em ordem inversa para “Os Nove mantinham os Nazgûl [sob jugo de Sauron]”. Mas eu acredito que uma explicação melhor e mais simples é externa: Tolkien teve intenção em algum momento de que os Nazgûl deveriam continuar usando seus Anéis, mas mais tarde mudou de idéia e simplesmente esqueceu-se de revisar aquela sentença.

Conrad Dunkerson apóia esta visão com evidências textuais do The History of Middle-earth: [artigo r.a.b.t, 17 de fevereiro de 2002, arquivado aqui]: “Tolkien escreveu a linha “Os Nove estão em poder dos Nazgûl” durante um de seus rascunhos do Conselho de Elrond. Então muito mais tarde ele escreveu que os Nazgûl tiveram seus poderes ampliados antes da Batalha dos Campos de Pelennor porque Sauron devolveu seus Anéis a eles. Se Sauron estava devolvendo os Anéis apenas naquele momento então Tolkien não poderia ter intencionado que eles estivessem usando-os ao tempo do Conselho”.

Textos à parte, alguns argumentaram que os Nazgûl deviam estar usando seus Anéis ou teriam envelhecido como Bilbo envelheceu. Mas os casos não são paralelos: Bilbo não havia se tornado um espectro, e nós não temos razão para pensar que um espectro envelheceria ou mudaria de alguma forma, não estando mais no mundo físico. E mais, Gollum era séculos mais velho do que Bilbo, mas ele não mostrou quaisquer sinais de envelhecimento nas sete décadas após ter perdido seu Anel. (Ainda com relação a este aspecto, Bilbo não envelheceu muito após ter dado o Um Anel, apenas depois do mesmo ter sido destruído).

Conclusão

Embora não exatamente decidida, a evidência textual favorece fortemente a conclusão de que, ao final da Terceira Era, Sauron tinha posse física dos Nove Anéis. Circunstâncias físicas também sugerem isto, embora outras explicações sejam possíveis. Mas as evidências físicas são bem reforçadas por evidência textual direta, contra uma citação que diz o contrário. Você decide!

(O que não é sabido é quando Sauron tomou os Nove Anéis dos Nazgûl, assumindo que ele o fez. Nós sabemos que foi algum tempo antes dos Nazgûl começarem a caçar o Um Anel, mas se foi imediatamente antes ou muito antes não podemos dizer. Que Sauron, mesmo sem o Um, podia fazer os Nazgûl entregarem os Nove Anéis há pouca dúvida, uma vez que nenhum mortal poderia ter mantido mesmo o Um, ante Sauron).

C8. Por que Sauron não usou os mesmo Nove Anéis para fazer mais Nazgûl?

Provavelmente porque ele não precisava. A Sauron não faltavam servos. Os governantes de Rhûn e Harad já eram tributários dele. O benefício original de dar os Nove Anéis não era a criação de nove Espectros do Anel, mas sim a fidelidade total dos líderes que ele corrompeu.

É no mínimo questionável se qualquer novo Espectro do Anel estaria sob a dominação de Sauron através do mecanismo do Anel. Um Homem que usasse um Anel eventualmente se tornaria um espectro, e também se tornaria um escravo daquele Anel. Na Segunda Era, quando Sauron criou os Espectros do Anel originais, ele pôde dominar seus Anéis com o Um, e, portanto também dominar os portadores dos Nove. Mas na Terceira Era Sauron não mais possuía o Um. Os Nazgûl existentes estavam atados a Sauron não pelo Um Anel mas pelos Nove, que Sauron mantinha [L #246 (331)]. Isto levanta a possibilidade de que se Sauron desse um dos Nove Anéis a outro homem ele poderia não apenas não ter controle sobre aquele Homem, mas ainda perder o controle do Espectro do Anel que originalmente usava aquele Anel!

Conrad Dunkerson apontou [artigo r.a.b.t, 15 de fevereiro de 2002, arquivado aqui] que Sauron provavelmente poderia dominar os Nazgûl mesmo sem usar o Um. Ele sugere uma razão diferente de porque Sauron não poderia criar “exércitos de Nazgûl”: “Assim como qualquer ser verdadeiramente mestre do Um poderia causa a dissolução de Sauron exatamente como se o Um fosse destruído, da mesma forma qualquer humano sendo mestre (e, portanto sendo comandado) de um dos Nove faria seu poder ser tomado de qualquer Nazgûl anterior assim como se o Anel tivesse sido destruído ou tornado sem poder”.

Em um artigo da Usenet [artigo r.a.b.t, 11 de abril de 2006, arquivado aqui], “nfw” nos lembra que Sauron também tinha três Anéis tomados aos Anões, e ele poderia tê-los usado para fazer mais Nazgûl. Por que ele não fez? Duas possibilidades: ou ele já tinha todos os Nazgûl de que precisava (como sugerido acima) ou ele adiou porque sem o Um ele não poderia controlar o portador de um Grande Anel (lembre-se que ele controlava os Nove Nazgûl porque ele mantinha seus Anéis)


C9. O que aconteceu, em última análise, com os Sete e os Nove?

Eles foram destruídos, de acordo com Tolkien: “E, com efeito, foi isso que aconteceu desde então: o Um, os Sete e os Nove foram destruídos; e os Três se acabaram” [Silm: Anéis]

Os Sete: Quatro deles foram consumidos por dragões, presumivelmente enquanto os Senhores Anões os estavam usando, muito antes da Guerra do Anel [SdA I 2]. Os outros três estavam em posse de Sauron. O último a ser retomado foi o Anel usado pelos ancestrais de Thorin Escudo-de-Carvalho. O pai de Thorin, Thráin II, foi capturado na Floresta das Trevas e levado a Dol Guldur (quartel-general de Sauron àquele tempo), onde foi torturado e o Anel tomado dele [SdA Apêndice A(III)]. (Veja “Os Sete e os Nove Anéis tiveram por intenção original os Anões e Homens?” para uma história sobre a origem deste Anel.)

Os Nove estavam em posse de Sauron ao final da Terceira Era.

À época da Guerra do Anel, Sauron tinha dize Anéis em sua posse: todos os Nove e os três dos Sete que não haviam sido destruídos. É difícil imaginar como apenas a queda dos destroços de Barad-dûr poderia ter destruído pequenos objetos de metal e Tolkien não dá detalhes. Mas é um ponto vazio: uma vez que o Um foi destruído todos os outros Anéis perderam seus poderes. [Silm:Anéis]

C10. O que aconteceria se um Elfo ou um Mago colocasse um dos Sete ou dos Nove?

Um Elfo ou Mago usando um dos Dezesseis (os Sete e os Nove) seria transformado em escravo de Sauron? Na Segunda Era, um Elfo certamente cairia sob a dominação de Sauron: isto é o que o Um Anel fazia. (Os Magos não chegaram à Terra-média até um milênio depois da Segunda Era. Agradecimento a “nfw” [artigo r.a.b.t , de 11 de abril de 2006, arquivado aqui] por apontar isso). Na Terceira Era, quando Sauron não tinha o Um Anel, um Elfo ou Mago que usasse um dos Dezesseis não estaria sujeito à dominação de Sauron, mas a corrupção que Sauron inseriu nos Dezesseis teria corrompido o portador.

Um Elfo ou Mago seria transformado em espectro ou se tornaria invisível? Esta é uma questão mais difícil e realmente caso para especulação. Com relação aos Magos, é apenas minha opinião, mas acredito ser improvável que um Mago se tornasse um espectro usando um Anel, uma vez que seu “habitat nativo” como Maia já era o mundo espiritual.

Tolkien não nos fala diretamente o que poderia acontecer a um Elfo usando um dos Dezesseis. Em um rascunho antigo do SdA, Tolkien de fato escreveu sobre vários espectros élficos. Mas suas idéias sobre o Anel e os Anéis mudaram bastante ao tempo que ele escreveu a versão final da história. Podemos imaginar se havia alguma diferença entre Elfos normais e Elfos que moraram em Valinor e que agora viviam tanto no mundo espiritual quando no mundo material.

Em algum momento algum dos Dezesseis já foi usado por Elfos? É bem possível. Nós sabemos que os Elfos estavam usando alguns dos Anéis quando Sauron fez o Um e o colocou em seu dedo; e não temos razão para pensar que eram apenas os Três, que haviam sido feitos por último. Nós sabemos que os Elfos originalmente criaram os Dezesseis para si mesmos e não para Homens ou Anões. Nós sabemos que os Elfos não tinham que Sauron estava fazendo o Um para escravizá-los. Então porque eles não estariam usando todos os Anéis que tinham feito?

É, portanto provável que os Sete e os Nove, como originalmente criados, não teriam tornado um Elfo invisível. Não há razão para os Elfos terem criado uma invisibilidade para utilizadores Élficos dos Anéis, e eles eram os únicos utilizadores planejados. Se um Elfo se tornasse invisível ao colocar um Anel, isto seria inesperado e teria gerado comentários: os Elfos saberiam de imediato que havia algo estranho e Sauron seria o suspeito mais lógico.

Mas Conrad Dunkerson apontou [artigo r.a.b.t, 10 de maio de 2003, arquivado aqui] que Sauron não somente mexeu com os Dezesseis enquanto estes estavam sendo forjados mas também mexeu com eles após tomá-los dos Elfos. “Sauron, entretanto, acumulou nas mãos todos os Anéis de poder que restavam. E os distribuiu a outros povos da Terra-média, … E todos esses anéis que ele controlava ele perverteu, ainda com maior facilidade por ter participado de sua confecção;…” [Silm: Anéis] Então é possível que mesmo embora eles não tornassem um Elfo invisível antes, após aquele tempo qualquer Elfo que colocasse um dos Dezesseis seria tornado invisível. Por outro lado, até onde sabemos os Sete não tornavam os Anões invisíveis, de forma que você pode argumentar por qualquer lado da questão.

Mas o fato é que não sabemos. A situação nunca surgiu em nenhuma das histórias e Tolkien não nos contou, mesmo teoricamente.

Ver também: Invisibilidade

D. Os Três Anéis

D1. Quais eram os nomes dos Três Anéis e o do que eram feitos?

São eles:

  • Narya, o Anel Vermelho ou Anel do Fogo, contendo um rubi [Silm: Rings (288)]; não sabemos de que metal era feito.
  • Nenya, o Anel de Adamante ou Anel Branco ou Anel da Água, era feito de mithril [SdA VI 9] e continha um diamante. É chamado “o principal dos Três” [CI: AHdGeC (285)] (“Adamante” é uma palavra arcaica para diamante)
  • Vilya, o Anel Azul ou Anel do Ar, “o mais poderoso d’Os Três”, era feito de ouro e continha uma pedra azul [SdA VI 9]

É discutível o quanto deve ser lido do Fogo-Água-Ar. Eu suspeito que sejam simplesmente referências às pedras, coincidindo com três dos quatro “elementos” clássicos: terra, ar, água e fogo. Mas provavelmente não é coincidência que os nomes dos Três Anéis batam com o destino das três Silmarils: uma atirada ao fogo por Maedhros, uma jogada ao mar por Maglor e uma navegando no ar com Eärendil.

Conrad Dunkerson vai além [artigo r.a.b.t, 8 de abril de 2002, arquivado aqui] e afirma uma crença que os Três Anéis eram “elementais” em suas naturezas. “Por que dar a algo o nome de ‘Anel do Fogo’ se não tem nada a ver com fogo?” ele pergunta. Mas Tolkien não nos dá muito com o que prosseguir.,

D2. Quem usou os Três Anéis?

Ao listarmos os portadores, lembre-se que de 1600 S.E. até o final da Segunda Era nenhum Elfo usou um Anel de Poder.“Assim que Sauron pôs o Um Anel no dedo, eles se deram conta dele,  … Então … recolheram seus anéis” [Silm: Anéis]. Durante o restante da Segunda Era, até o Um ser tomado de Sauron em 3441 S.E, os Três foram mantidos escondidos.

Nenya, o Anel Branco
Celembrimbor deu Nenya, o Anel Branco, a Galadriel e ela o usou até o final da Terceira Era. Ela o utilizou para defender e embelezar Lothlórien. Mas “aumentou seu desejo latente do Mar e de voltar  para o Oeste, de modo que diminuiu sua alegria na Terra-média.” [CI:AHdGeC]

Galadriel aconselhou Celebrimbor a enviar os outros dois Anéis para fora de Eregion, para oeste, distante de Sauron. Ele seguiu seu conselho e enviou ambos a Gil-galad em Lindon (oeste de onde o Condado estaria três mil anos mais tarde).

Narya, o Anel Vermelho
Gil-galad deu Narya a Círdan Senhor dos Portos. A maioria dos registros mostra Gil-galad repassou o Anel Vermelho logo após tê-lo recebido, por volta de 1700 S.E. (Uma nota marginal [CI: GC] nos Contos Inacabados sugere que Gil-galad pode ter mantido consigo o Anel até 3430 S.E., quando partiu para formar a Última Aliança; contudo, Christopher Tolkien aponta [CI:AHdGeC (nota 11)] que esta afirmação “diverge das demais”.)

Círdan aparentemente não o usou, mesmo após a queda de Sauron ter eliminado o perigo: “Foi confiado a mim apenas para mantê-lo em segredo, e aqui, nos litorais do Oeste ele está inativo”. [CI: Istari]

Círdan, por sua vez, deu Narya a Gandalf na chegada deste à Terra-média, por volta de 1000 T.E. [SdA Apêndice B]. Saruman soube disso e se ressentiu [CI: Istari] muito antes de sua confrontação em Orthanc, o que nos leva a pensar porque ele não o tomou de Gandalf naquele momento.

(Uma questão em separado trata do possível uso do Anel Vermelho por Gandalf para fazer fogo e fogos de artifício.)

Vilya, o Anel Azul

O terceiro anel, Vilya, foi mantido por Gil-galad, que “antes de morrer, entregou seu anel a Elrond” [SdA Apêndice B].  (O Contos Inacabados é mais específico: “Àquele tempo [após a derrota de Sauron em 1701 S.E.] Gil-galad deu Vilya, o Anel Azul, a Elrond, e o indicou para ser seu vice-regente em Eriador” [CI: GC] como apontado por Odysseus. [artigo r.a.b.t, 15 de setembro de 2004, arquivado aqui]. Contudo, isto é parte da mesma nota marginal que diz que Gil-galad manteve o Anel Vermelho até perto do fim da Segunda Era, uma afirmação que Christopher Tolkien  [UT: GC (254n11)] afirma estar “destoando das demais”)

Elrond fala a Glóin no conselho que os Três Anéis “não são inúteis” (Nota do Tradutor: este é um erro de tradução da edição brasileira. O correto seria “não estão parados/inativos”) [SdA II 2]; presumivelmente Elrond tenha usado Vilya durante a Terceira Era para fazer Valfenda o lugar de paz e beleza que era.


Linha do Tempo

Os portadores dos Três podem ser assim tabelados:

 Nenya

(branco)
Narya

(vermelho)
Vilya

(azul)
 Segunda Era  Celebrimbor Terceira Era Galadriel Gil-galad Gil-galad Círdan* Gandalf Elrond** uma nota no Contos Inacabados sugere que Gil-galad manteve o Anel Vermelho até bem tarde na Segunda Era e deu o Anel Azul cedo para Elrond; mas a maior parte dos registros apóiam a cronologia dada aqui

Galadriel, Gandalf e Elrond embarcaram juntos num navio em 3021 T.E (com Frodo e Bilbo), usando seus anéis. Os Três Anéis, agora apenas ornamentos e relíquias históricas, passaram da Terra-média e com eles passou a Terceira Era [SdA Apêndice B].

D3. Que poderes especiais tinham os Três Anéis?

Não nos é dito claramente. O Anel de Galadriel parece útil na preservação de Lórien e o de Elrond na defesa de Valfenda, mas todos os Anéis de Poder tratavam de preservação.

Os Três Anéis parecem ser como os outros, mas sem os elementos com os quais Sauron contribuiu. No Conselho, Elrond diz, “Os Três não foram feitos … como armas de guerra ou conquista: não é esse o poder que têm. Aqueles que os fizeram não desejam força, ou dominação, ou acúmulo de riquezas; mas entendimento, ações e curas, para preservar todas as coisas imaculadas” [SdA II 2]. Eles não tornavam o utilizador invisível.

Tolkien destaca isto em uma carta: após a queda de Sauron ao final da Segunda Era, “os Três Anéis dos Elfos, de posse de guardiães secretos, estão operativos na preservação da beleza de antigamente, mantendo enclaves encantados de paz onde o Tempo parece parar e o decaimento é contido, à semelhança da bonança do Verdadeiro Oeste” [Carta #131] “Dos anéis de poder e da Terceira Era” diz algo similar: “pois quem os guardasse poderia afastar os estragos do tempo e adiar o cansaço do mundo” [Silm: Anéis]

Pode ser que os Três tinham o poder de dar nova esperança. Quando Círdan dá um deles a Gandalf, ele diz “este é o Anel de Fogo, e com ele você poderá reacender corações num mundo que se esfria” [SdA Apêndice B]. Mas talvez a linguagem de Círdan fosse meramente poética. Quando Gandalf reacende o coração de Théoden, pareceu que seu cajado era importante no processo [SdA III 6], mas não há nenhuma afirmação de que ele tenha usado seu anel. Veja uma questão em separadosobre o uso que Gandalf faz de seu anel em encantamentos com fogo.

D4. Os Elfos eram bons, portanto os Três Anéis eram bons, correto?

Não inteiramente.

Os personagens de Tolkien chamam dos Três Anéis de imaculados porque Sauron não teve participação direta na criação dos mesmos e também porque o propósito dos Elfos com os Três Anéis “era, de forma limitada, bom, incluía a cura dos danos reais da malícia, bem como o simples interromper da mudança; e os Elfos não desejam dominar outras vontades, nem se apropriar de todo o mundo para seus prazeres particulares” [Carta #181]

Mas mesmo os Elfos não eram sem culpa na confecção dos Anéis. Tolkien escreveu a Naomi Mitchison, “Mas os Elfos não eram completamente bons ou certos. Não tanto porque haviam flertado com Sauron, mas porque com ou sem a assistência dele eles foram ‘embalsamadores’. Eles desejavam … interromper sua [Terra-média] mudança e história, parar seu crescimento, mantê-la como seu jardim, mesmo sendo em sua maior parte deserta, onde eles poderiam ser ‘artistas’” [Carta #154]

Então os Três Anéis não eram em última análise corruptores, como os outros; mas mesmo assim representavam uma tentativa de interromper as mudanças que eram a ordem natural das coisas.

D5. Por que Galadriel não era invisível, uma vez que ela usava um Grande Anel?

Não por ela ser uma Elfa; é porque os Três Anéis não tornavam ninguém invisível“Os Elfos de Eregion fizerem Três anéis supremamente belos e poderosos… eles não conferiam invisibilidade” [Carta #131]

Por que os Três não conferiam invisibilidade? Porque a invisibilidade dos outros Anéis era trabalho de Sauron, e ele não auxiliou na confecção dos Três Anéis.

Destes fatos podemos inferir que, se um Homem ou Hobbit tivessem e usasse um dos Três Anéis, ele não o transformaria em espectro. Mas isto é altamente teórico, uma vez que é difícil imaginar uma circunstância na qual um mortal teria permissão de usar um dos Três.

Ver também: Invisibilidade

D6. Gandalf usava o Anel do Fogo. Era assim que ele fazia seus fogos de artifício?

Tolkien nunca fez uma afirmação clara sobre o assunto e a opinião no r.a.b.t é dividida. A maioria defende que o Anel Vermelho auxiliou o uso por Gandalf de fogo e fogos de artifício; a minoria acredita que “fogo” no nome do Anel é metafórico. Nenhum lado afirma que as evidências são suficientes.

Você pode estar interessado em ler a discussão inteira no tópico Gandalf e fogos de artifício de Abril de 2002, na r.a.b.t. Algo do que segue abaixo foi retirado dessa discussão.

Maioria: O Anel Vermelho ajudou Gandalf com fogo e fogos de artifício.
Tolkien escreveu a Donald Swann: “Fogos de artifício … aparecem nos livros … porque são parte da representação de Gandalf, portador do Anel de Fogo, o Acendedor: o aspecto mais infantil mostrado aos Hobbits eram os fogos de artifício” [Carta #301]

Conrad Dunkerson [artigo r.a.b.t, 15 de abril de 2002, arquivado aqui] levantou a possibilidade, extrapolando da citação acima, que não apenas os Três Anéis correspondiam a três Elementos, mas seus portadores correspondiam a três dos grandes entre os Ainur:

  • Manwë/Ar/Grande Visão correspondia a Elrond/Anel do Ar/Grande Visão
  • Ulmo/Água/Profecia corresponde a Galadriel/Anel da Água /Profecia
  • Arien/Fogo/Esperança e encorajamento corresponde a Gandalf/Fogo/Esperança e encorajamento

Minoria: o Anel Vermelho acendia corações, não madeira
Considere as palavras de Círdan a Gandalf: “este é o Anel de Fogo, e com ele você poderá reacender corações num mundo que se esfria” [SdA Apêndice B]. E nO Hobbit Tolkien escreveu que “Gandalf fizera um estudo especial de encantamentos com fogo e luzes (mesmo o hobbit nunca esquecera dos fogos de artifício mágicos nas festas de solstício de verão  do Velho Tûk, como vocês devem lembrar)” [Hobbit VI]

Tomando estas duas afirmações em conjunto, a hipótese mais simples parece ser que Gandalf era bom com fogo e fogos de artifício porque os estudou e usou o Anel Vermelho para dar esperança renovada e coragem a povos oprimidos por Sauron ou por seus medos.

Em nenhum lugar onde encontrei Gandalf usando fogo ou fogos de artifício existe alguma menção a seu Anel. Mas existem muitos lugares onde fogo ou luz estão conectados com seu cajado:

  • Fazendo luz após matar o Grande Goblin [Hobbit IV]
  • Preparando-se para pular nos lobos [Hobbit VI]
  • Um brilho “como raio” na Batalha dos Cinco Exércitos [Hobbit XVII]
  • Acendendo fogo nas neves de Caradhras [SdA II 3]
  • Fazendo luz em Moria [SdA II 4] e [SdA II 4]

D7. Por que Saruman não tomou o Anel de Gandalf?

Boa pergunta! Gandalf diz no Conselho de Elrond [SdA II 2] que ele fora prisioneiro de Saruman em Orthanc. Saruman sabia que Gandalf tinha o Anel Vermelho: “E o Mensageiro Cinzento [Gandalf] tomou o Anel, e o manteve sempre em segredo; mas o Mensageiro Branco [Saruman] … após um tempo se tornou ciente deste presente, e o invejou, e este foi o começo da má-vontade oculta que ele nutria em relação ao Cinzento …” [CI: Istari]

Algumas pessoas do newsgroup sugeriram que quando escreveu a confrontação de Orthanc Tolkien poderia não ter se decidido se Gandalf usaria um dos Três. Isto parece possível, uma vez que Christopher Tolkien nos diz [CI: Introdução] que o texto sobre os Istari foi escrito depois da publicação do Conselho de Elrond.

Mas nós também podemos fazer diferentes explicações internas à história:

  • Talvez Saruman tenha fingido a Gandalf que ele o queria como parceiro na nova aliança com Sauron. Saruman pode ter demorado a pegar o Anel de Gandalf para evitar um rompimento irrevogável entre eles. Saruman pode ter acreditado que no devido tempo Gandalf iria “aprender sabedoria” e cooperar, e nesse caso ele colocaria o Anel Vermelho ao serviço de seus projetos.
  • Alternativamente, sendo instruído no conhecimento dos Anéis, Saruman pode não ter se importado com o Anel Vermelho, pois sabia que ele não tinha potencial militar. Uma vez que ele não estava interessado em sua habilidade primária, preservando coisas imaculadas e curando os ferimentos do mundo, haveria poucas razões para tomá-lo para seu próprio uso. (Isto não explica porque ele não tentou tomar o Anel apenas para impedir que Gandalf o utilizasse).
  • Uma terceira possibilidade é que ele tentou, mas uma vez que os portadores dos Três Anéis supostamente deveriam mantê-los em segredo, Gandalf não mencionou o fato  no Conselho.

Nenhuma dessas explicações é realmente satisfatória, mas muitos de nós preferimos não aceitar uma explicação externa se pudermos nos esforçar para encontrar uma explicação interna plausível.

D8. O que aconteceu, em última análise, aos Três Anéis?

Enquanto Sauron não tinha o Um Anel era seguro aos portadores dos Três usá-los, e eles o fizeram. Mas quando o Um foi destruído, os Três perderam todos os seus poderes.

Como nós sabemos disso? Os Três Anéis (como os Sete e os Nove) eram originalmente independentes, mas quando Sauron criou o Um, os outros se tornaram sujeitos a ele. de alguma maneira a natureza de todos os outros Anéis foi alterada de forma que não apenas estavam sob o controle do Um mas seus poderes continuados dependiam da existência continuada do Um: “Ora, os elfos fizeram muitos anéis. Em segredo, porém, Sauron fez Um Anel para governar todos os outros; e o poder dos outros estava vinculado ao dele, de modo a submeter-se totalmente a ele e a durar somente enquanto ele durasse” [ênfase acrescentada] [Silm: Anéis]. Na próxima página Tolkien destaca o fato de que isto incluía os Três: “os três permaneceram imaculados, pois foram forjados somente por Celebrimbor, e a mão de Sauron nunca os tocou. Contudo, eles também estavam sujeitos ao Um.” [Silm: Anéis]. Está claro então que os Três Anéis perderam seus poderes quando o Um foi destruído.

“Portanto, … quando o Um se for, os últimos defensores do conhecimento e beleza dos Alto-Elfos serão destituídos do poder de parar o tempo, e partirão” [Carta #144]
. Por dois anos e meio, de 25 de Março de 3019 até o final da Terceira Era, Elrond, Galadriel e Gandalf estavam apenas usando pedaços de joalheria interessantes e históricas.  No exato fim da Terceira Era, em 21 de Setembro de 3021, os portadores dos Três passaram ao oeste pelo Mar.

E. O Um Anel

E1. Quem usou o Um Anel e quando?

O Anel mudou de mãos surpreendentes nove vezes durante os 4800 anos de sua existência, embora tenha pertencido a apenas um de seus sete portadores. “’Então ele pertence a você e não a mim! ’ gritou Frodo surpreso. … ‘Ele não pertence a nenhum de nós’, disse Aragorn, ‘mas foi ordenado que você o guardasse por um período’”. [SdA II 2]

Uma vez que o Conto dos Anos documenta bastante bem todas as datas, segue uma tabela dos Portadores do Um Anel:

Data   Novo Portador Como Adquiriu Referência
 ~1600 S.E.  Sauron Sauron criou o Um Anel em Sammath Naur na Montanha da Perdição. Ele o usou até o final da Segunda Era, tanto na Terra-média quanto em Númenor. SdA Ap. B
 3441 S.E.  Isildur Na Batalha de Dagorlad, no último ano da Segunda Era, Elendil e Gil-galad mataram o corpo de Sauron, e então Isildur cortou o dedo onde estava o Anel e manteve o Anel para si, contra o conselho de Elrond e Círdan. SdA Ap.B

SdA II 2 2 T.E. ninguémO Anel escorrega do dedo de Isildur “por chance, ou chance bem usada” nos juncos perto da margem oeste do Rio Anduin após Isildur ter tentado escapar dos orcs nadando.CI:CL

SdA Ap. B ~2463 T.E. DéagolUm grande peixe puxa Déagol para o fundo do Rio, onde ele enxerga o Anel.SdA I 2

SdA Ap. B Sméagol (Gollum)Gollum mata Déagol logo que este chega à margem do rio. Cerca de sete anos depois ele se esconde nas Montanhas Nebulosas.SdA I 1

SdA Ap. B 2941 T.E.Bilbo BolseiroBilbo entra o Um Anel no chão de uma passagem na montanha. Embora pareça que foi por acaso, “Bilbo estava destinado a encontrar o Anel, e não [Sauron]”SdA I 2

Hobbit V

SdA Ap. B3001, 22/set T.E.Frodo BolseiroBilbo dá o Anel a Frodo: um evento único até aquele momento.SdA I 2

SdA Ap. B3019, 13/mar T.E.Samwise GamgiSam toma o Anel do corpo aparentemente sem vida de Frodo, com a intenção de completar a jornada sozinho.SdA IV 10

SdA Ap. B3019, 14/mar T.E.Frodo BolseiroSam devolve o Anel a Frodo após encontrá-lo na torre de Cirith Ungol.SdA V 1

SdA Ap. B3019, 25/mar T.E.GollumGollum arranca o dedo de Frodo com uma mordida, obtendo o Anel. Momentos depois ele cai no fogo e é destruído junto com o Anel. SdA VI 3

SdA Ap. B

Um Portador do Anel pode ser definido como alguém que o possui com a intenção de usá-lo, reclamá-lo para si ou destruí-lo. Esta definição inclui Sam. Ele é devidamente saudado no Campo de Cormallen [SdA VI 4] como Portador do Anel, porque quando ele pegou o Anel do corpo de Frodo ele tinha intenção de completar a Jornada ele mesmo ou morrer tentando.

Em adição a aqueles que portaram o Anel, sabemos que pelo menos mais três pessoas o manusearam, sem a intenção de usá-lo de qualquer forma ou tomá-lo para si:

  • Gandalf o pegou quando Bilbo o derrubou logo antes de deixar Bolsão [SdA I 1]; ele também o segurou duas vezes no estúdio de Frodo, quando mostrou a Frodo as letras de fogo [SdA I 2];
  • Tom Bombadil o coloca sem desaparecer, e então faz o Anel desaparecer [SdA I 7];
  • Alguém não citado em Valfenda põe o Anel em uma corrente enquanto Frodo estava em coma ou sono profundo se recuperando da faca Morgul.

E2. Quais eram os poderes especiais do Um Anel?

Governar os outros Anéis
O Um era o anel mestre, aquele para governar todos os outros. Embora forjado por último, os outros Anéis foram imediatamente sujeitos a ele. De fato, ele controlava-os tão completamente que seus próprios poderes falhariam se porventura ele fosse destruído. [Silm:Anéis].

Além de controlá-los, o Um Anel pode ter tido todos os poderes dos outros Anéis. Quando Tolkien escreveu sobre “o Anel Regente que continha os poderes de todos os demais”, [Carta #131] ele pode ter querido dizer que em adição ao seu poder de controlar os outros e seus portadores ele também tinha nele mesmo os mesmos poderes que aqueles Anéis, ou talvez ele estivesse apenas repetindo que ele os controlava (no sentido de que bombeiros “contêm” um incêndio).

Controlar os utilizadores dos outros Anéis
O Um Anel dava a Sauron a habilidade de “perceber tudo que era feito com os anéis subalternos, e ler e controlar até mesmo o pensamento daqueles que os usavam” [Silm: Anéis].

Aparentemente mesmo Sauron não poderia exercer controle instantâneo desta forma: quando ele colocou o Um Anel em seu dedo e falou a rima do Anel, Celebrimbor ficou ciente dele [SdA II 2] mas manteve o suficiente de sua própria vontade para retirar seu Anel.

Estes poderes estavam no Anel, não em Sauron“o poder dos anéis élficos era enorme, e aquele que deveria governá-los deveria ser m objeto de potência extraordinária” [Silm: Anéis]  “Uma coisa” deve significar o Um Anel. Portanto, a princípio, alguém além de Sauron que reclamasse o Anel poderia aprender a ler e controlar os pensamentos daqueles que usassem os outros Anéis – dado o tempo e a prática. Galadriel confirma isto quando Frodo pergunta a ela porque ele não pode “ver todos os outros anéis e adivinhar os pensamentos daqueles que os usam”. Ela responde: “Você ainda não tentou. Apenas três vezes colocou o Anel em seu dedo, desde que soube que o possuía. … Antes que você pudesse usar esse poder , sentiria a necessidade de ficar muito mais forte, … e treinar sua vontade em relação ao domínio dos outros” [SdA II 7]  (No mesmo trecho, ela o alertaria, “Não tente! Ele o destruiria.”)

Evidência adicional de que o poder não era automático: se fosse então Gandalf teria sentido quando Bilbo colocou o Anel.

Compreender idiomas ou ler pensamentos?
O Um Anel deu a Sam o poder de compreender o idioma Orc. Não fica claro o quanto esta habilidade “peixe-babel” se estenderia: “Talvez o Anel conceda o conhecimento de idiomas, ou simples compreensão, especialmente dos servos de Sauron, seu criador, de forma que se for dada chance, ele compreende e traduz o pensamento para si mesmo” [SdA IV 10]. Talvez existisse telepatia ali ou talvez fosse apenas habilidade com idiomas, especialmente a habilidade de compreender os escravos de Sauron no reino de Sauron.

Veja também: Os Anéis davam a habilidade de ler mentes?

Controlar ou influenciar pessoas em geral
O Um Anel tinha outros poderes, menos claramente especificados, sobre mortais comuns. Sauron foi capaz de usá-lo de alguma forma para subverter os Númenorianos. Frodo foi capaz de usá-lo para subordinar Gollum repetidamente. Sam, até mesmo descobriu, na torre de Cirith Ungol, que mesmo quando ele estava apenas carregando-o os Orcs de Sauron ficavam aterrorizados dele.

Enganar e corromper seu portador e outros
O Um Anel também tinha o poder de corromper seu utilizador e mesmo as pessoas ao redor dele. Ele parecia especialmente perigoso para alguns Homens da raça de Númenor. Quando cortou o Anel da mão de Sauron, Isildur rejeitou o conselho de Círdan e Elrond para  destruí-lo de imediato: ele tinha se apegado a ele e mesmo o chamava de “precioso” para ele. [SdA II 2]. E também, na Sociedade, Boromir foi presa das tentações do Anel. Contudo, o descendente de Isildur, Aragorn, e também Faramir o irmão de Boromir pareceram capazes de resistir de maneira relativamente fácil ou pelo menos sem sinal externo de dificuldade.

De certa forma, o Um Anel parecia quase funcionar como um vício. Gollum viajou por toda a Terra-média tentando conseguir outra “dose”. Bilbo “largou por si”, não sem uma batalha interna; mas quando ele o viu novamente em Valfenda seu hábito se reacendeu novamente mais forte do que nunca, como um alcoólatra que experimenta uma gota de bebida.

Também em comum com o álcool e outras drogas, o Anel parecia “pegar” facilmente algumas pessoas (Boromir, Isildur, discutivelmente Saruman), ser reconhecido como uma forte mas resistível tentação para outros (Gandalf [SdA I 2], Elrond [SdA II 2], Galadriel [SdA II 7]) e não ter interesse algum ainda para outras pessoas (Tom Bombadil, Aragorn e os outros membros da Sociedade, Faramir e mais especialmente Sam, que o usou em Mordor mas mesmo assim o retirou sem uma reclamação e o entregou a Frodo).

Mas mesmo o incorruptível Sam não era inteiramente imune ao Anel: ele foi capaz de encher sua mente com fantasias de“Samwise, o Forte, Herói do seu Tempo” e “um jardim expandido em um reino” ao seu comando. [SdA VI 1]. Ele foi capaz de rejeitar estas fantasias por amor a seu mestre e com seu próprio bom senso.

Abandonar seu portador
E, finalmente, o Anel podia abandonar seu utilizador. Quando caiu do dedo de Isildur no Rio Anduin [UT: GF (275)], “o Anel o traiu e vingou a morte de seu criador” [Silm: Anéis]

Ele abandonou Gollum também. Gandalf diz a Frodo “Um anel de poder toma conta de si próprio, Frodo. Ele pode escapar traiçoeiramente, mas quem o possui nunca o abandona. … Não foi Gollum, Frodo, mas o próprio anel que decidiu as coisas. O Anel o deixou” [SdA I] (Troels Forchhammer chamou minha atenção para esta passagem em um artigo do newsgroup [artigo r.a.b.t, 3 de junho de 2004, arquivado aqui].)

Ele também pode ter saído do dedo de Bilbo nos túneis dos Goblins. [Hobbit V (99)]

O Um anel tentou retornar a Sauron, como Tolkien nos diz em uma Carta: “Mesmo de longe ele tinha um efeito sobre o mesmo, de fazê-lo trabalhar para seu retorno para si” [Carta #246] (Isto levanta a questão da senciência do Um Anel.)

E3. Como o Anel de Sauron controlava os Anéis que foram criados antes?

Tolkien não explica o mecanismo. Mas os Sete e os Nove foram feitos com a ajuda de Sauron, e mesmo os Elfos tendo feito os Três sem a ajuda direta de Sauron eles ainda assim utilizaram o conhecimento obtido através de Sauron. Uma possível explicação (a mais simples, em minha opinião) é que Sauron contou aos Elfos como fazer os Anéis de forma que deixaria a ele um “ponto de acesso” para exercer controle sobre os mesmos mais tarde. “Contudo, Sauron guiava seus esforços, … pois seus desejo era impor uma obrigação aos elfos e mantê-los sob vigilância” [Silm: Anéis]. Isto soa como se o Um Anel fosse sempre parte do plano de Sauron e ajudando os Elfos ele estava na posição perfeita para colocar os ganchos que mais tarde ele usaria para controlar os Anéis dos Elfos. Isto também ajudaria a explicar como, uma vez o Um Anel forjado, os demais Anéis perderiam seus poderes se o Um fosse destruído.

Outra explicação possível é que Sauron era um feiticeiro poderoso que fez uma grande magia para alterar a natureza dos outros Anéis de forma que o Um Anel os controlasse. Nós realmente não sabemos, mas esta citação de “Os anéis de poder” parece favorecer esta explicação: “o poder dos anéis élficos era imenso, e aquele que deveria governá-los deveria ser um objeto de potência extraordinária” [Silm: Anéis].

A. Clausen colocou algumas especulações neste tópico da Usenet [artigo r.a.b.t, 15 de maio de 2003, arquivado aqui], defendendo a teoria do “ponto de acesso” e dando alguns detalhes interessantes.

E4. O Um Anel podia pensar, sentir e fazer escolhas?

(esta questão é em parte baseada na discussão de Maio de 2002 do r.a.b.t. intitulada “Era o Um anel senciente?” . A palavra “senciente” é escorregadia e a discussão centrou tanto nela quanto na resposta. O American Heritage Dictionary of the English Language [Terceira Edição, 1992] define “senciente” como “1. Tendo alguma percepção; consciente. … 2. Experimentando sensação ou sentimento”; fãs de ficção-científica tendem a igualar “senciente” com “autoconsciente e inteligente”.)

O Anel fizesse ou não escolhas, ele parece capaz de perceber seus arredores. Quando ele diminuía para ficar em um dedo (lembre-se que o dedo de Bilbo tinha mesmo da metade do que o dedo de Sauron e mesmo de Isildur) ou quando crescia para cair de um dedo, [SdA I 2] o Anel se adaptava ao tamanho do dedo que o estava usando. Mas não vamos longe demais. Uma garrafa térmica manterá um líquido quente aquecido ou um líquido gelado frio, mas ele não sente a temperatura do líquido e toma uma decisão com base nisso!

Nós temos evidências em O Senhor dos Anéis de que o Anel podia de alguma forma perceber seus arredores e agir de acordo. Isto também é consistente com as tradições do mito, onde objetos pensam e sentem. Isto significa que o Anel estava vivo (seja lá o que “vivo” signifique)? A maioria das pessoas hesitaria em ir tão longe e ninguém no r.a.b.t. argumentou que o Anel podia pensar de alguma forma próxima ao sentido humano.

O que na história sugere que o Anel podia sentir seus arredores e tomar decisões?

Ao contar a Frodo sobre a história do Anel, Gandalf diz “Um anel de poder toma conta de si próprio, Frodo. Ele pode escapar traiçoeiramente, mas quem o possuir nunca o abandona. No máximo brinca com a idéia de entregá-lo aos cuidados de alguma outra pessoa – e isso apenas num estágio inicial, quando ele começa a se apoderar. Mas até onde sei somente Bilbo em toda a história foi além de brincar, e realmente o entregou. Precisou de toda a minha ajuda, também. E mesmo assim ele nunca teria simplesmente abandonado o anel, ou colocado de lado. Não foi Gollum, Frodo, mas o próprio anel que decidiu as coisas. O anel o deixou.” [SdA I 2]

E um pouco mais tarde, Gandalf reafirma este ponto com mais exemplos: “O anel estava tentando voltar para seu mestre. Tinha escorregado da mão de Isildur e o traíra; depois, quando houve uma chance, pegou o pobre Déagol, e este foi assassinado; e depois disso Gollum, e o Anel o devorou. Não podia mais fazer uso dele: Gollum era pequeno e mesquinho demais, e enquanto permanecesse com ele o anel jamais deixaria o lago escuro. Então neste momento, quando seu mestre estava novamente acordado e enviando seu pensamento escuro da Floresta das Trevas, ele abandonou Gollum. Para ser apanhado pela pessoa mais improvável que se poderia imaginar: Bilbo, do Condado” [SdA I 2]

Após abandonar Gollum e ser encontrado “por acaso” por Bilbo, o Anel pode ter saído o dedo de Bilbo para traí-lo aos Goblins perto da saída oriental: “Sim, eles o viram. Talvez por acidente, talvez como um último truque do anel antes de aceitar o novo dono, ele não estava no dedo de Bilbo.” [Hobbit V (99)]

Esta não foi a primeira vez que o Anel parece ter tentado expor seu novo mestre aos Orcs. Relembre a traição a Isildur no Rio próximo aos Campos de Lis: “Ali ele repentinamente soube que o Anel havia sido destruído. Por sorte, ou sorte bem usada, ele havia deixado sua mão e ido para onde não havia esperança de ser encontrado novamente” [CI: CL]

A evidência é aberta à interpretação. Tanto com o acontecimento de Isildur quanto com o de Bilbo, Tolkien se esforça para manter aberta a questão sobre se o Anel estava agindo independentemente ou escorregou por puro azar. Por outro lado, Gandalf foi bem definido ao dizer a Frodo que o Anel tinha “decidido” deixar Gollum.

Se o Anel podia agir de forma a alcançar seu objetivo de retornar a Sauron, então porque ele se deixou pegar por Bilboquando “um orc não teria sido mais adequado” [SdA I 2]? Tal escolha não apóia que o Anel não estava fazendo escolhas?

Gandalf enfrenta esta objeção: o fato de Bilbo ter pegado o Anel não foi uma ação do Anel nem de Sauron“Havia mais que um poder em ação, Frodo. … além de qualquer desígnio de quem fez o Anel. Não posso dizer de modo mais direto: Bilbo estava designado a encontrar o Anel, e não por quem o fez” [SdA I 2]. Em outras palavras, alguém além do Anel escolheu Bilbo (Eru? Os Valar? Não nos é dito). Neste ponto de vista, o Anel fez uma escolha escorregando do dedo de Bilbo e o traindo aos Orcs assim como traiu Isildur. E é bem possível que o Anel tenha tentado trair Frodo escorregando em seu dedo no Pônei Saltitante em Bri [SdA I 9], embora Aragorn pareça culpar Frodo (“Porque você fez aquilo?” [SdA I 9]).

Enquanto estes trechos sugerem um Anel senciente, e a maioria das pessoas que participou desta discussão aceita esta interpretação, é possível interpretá-las de outras maneiras: talvez o Anel operasse instintivamente ou como um programa de computador.

Pode-se argumentar que o Anel não fez escolhas mais do que uma formiga faz: que de fato operava por instinto, uma espécie de Sauron-tropismo. De fato, em uma Carta, Tolkien diz, “Mesmo de longe ele [Sauron] tinha um efeito sobre o mesmo, de fazê-lo trabalhar para seu retorno para si” [Carta #246]. Mas a palavra “tentando” não é conclusiva: nós freqüentemente falamos de um animal inferior como um inseto “tentando” fazer alguma coisa onde não implicamos pensamento consciente ou qualquer consciência. Nós até mesmo podemos dizer que uma trepadeira “tenta” conseguir melhor luz do sol ao subir pelo lado de uma casa.

Tim Howe [artigo r.a.b.t, 14 de maio de 2002, arquivado aqui] sugere outra explicação “Anel não-senciente” intrigante: Sauron pode ter programado o Anel como nós programamos um computador ou um robô. (Apenas um pouco do que se se segue estava em seu artigo). Programas de computador podem ser fantasticamente complicados e podem parecer tomar decisões; programadores até mesmo falam sobre um programa “decidindo” fazer isso ou aquilo. De qualquer forma, não dizemos que um programa de computador (ou Anel) está pensando; toda a senciência está no programador (ou Sauron).

Howe afirma que as ações do Anel podem ser explicadas pelo programa simples “escorregue para ou de um dedo a qualquer momento em que possa por um inimigo em perigo e abandone um possuidor que mantenha o Anel por tempo demais sem usá-lo.” Tal programa teria o efeito de eventualmente fazer o Anel aparecer se fosse separado de Sauron – e como um imortal ele poderia esperar. Obviamente Tolkien não era familiarizado com programação de computadores e poderia não ter pensando conscientemente  em tal explicação, mas isso não quer dizer que não possamos utilizá-la como analogia. Nós poderíamos pensar em Sauron não como um programador, mas como um feiticeiro, fazendo destas instruções parte de um feitiço que ele lançou ao colocar seu próprio poder no Anel, de forma que eventualmente o Anel retornasse a ele em caso de perda. (Contra isto devemos colocar o fato de que Sauron não parecia muito bom ao planejar contingências inesperadas e perguntar por que ele planejaria para o caso de ser separado do Anel quando ele não tinha razão para acreditar que tal poderia acontecer).

Numa linguagem menos moderna, podemos simplesmente dizer que o Anel agia como um objeto amaldiçoado dos mitos tradicionais. Um objeto amaldiçoado trazia azar a qualquer um que o empunhasse e o azar freqüentemente tomava forma de, aparentemente, uma série de acidentes – o madeireiro cortando cada um de seus membros com o tempo, o Anel escorregando para e de um anel em momentos inconvenientes.

Alguns incidentes na história são difíceis de explicar tanto se pensarmos no Anel fazendo escolhas ou não. Por exemplo,porque o Anel ajudou Sam na fortaleza-Orc de Cirith Ungol? [SdA VI 1]. É verdade que ele sentiu um impulso quase irresistível de colocar o Anel (o que o teria revelado a Sauron), mas ele resistiu e simplesmente o “agarrava junto ao peito”. Mesmo assim, ele o fez parecer grande e terrível aos servos de Sauron, ajudando-o, desta forma, a resgatar Frodo e continuar com sua tarefa.

O incidente em Cirith Ungol talvez nos ajude a encontrar um ponto médio: o Anel tinha um tipo de inteligência  e propósitos limitados. Ele se tornava um objeto maior e mais terrível cada vez que se aproximava da Montanha da Perdição, e Sam se beneficiou deste aumento de estatura como qualquer um se beneficiaria. Mas o Anel não poderia ativar e desativar sua própria natureza mais do que poderia escolher quem tornar invisível.

Mesmo sendo possível dar explicações que não requeiram que o Anel seja senciente, tenha propósito e faça escolhas, parece provável que Tolkien tenha intencionado que assim o fosse. O Anel parece agir de muitas maneiras como um cão separado de seus humanos e fazendo seu caminho de volta por centenas de quilômetros. Em várias ocasiões Tolkien escreve que o Anel tentou isto ou decidiu aquilo, e a leitura mais econômica é de que de fato o Anel tinha alguma vontade e senso de propósito. Esta falácia patética, embora um erro no mundo real, é parte integrante de muitos mitos e parece também ser parte do mito de Tolkien.

Veja também: O Um Anel falou, na Montanha da Perdição?

E5. Por que Sauron se faria vulnerável, transferindo seu poder para o Um Anel?

Porque ele tinha que. :-)

Ele tinha que dar a seu Um Anel um grande poder, “pois o poder dos anéis élficos era imenso, e aquele que deveria governá-los deveria ser um objeto de potência extraordinária” [Silm: Anéis]. Para fazer isto ele não tinha escolha além de colocar muito de sua própria força e vontade nele. Gandalf chama de “uma grande parte de seu antigo poder” [SdA I 2] e “a melhor parte da força que nasceu junto com ele” [SdA V 9].

Portanto Sauron não transferiu simplesmente um tanto de seu poder para o Anel. Ao contrário, ele usou aquele poder para fazer do Anel um Anel mestre, o Anel Governante. Pense em um homem usando uma alavanca para levantar uma rocha do solo, ou girando a chave que liga um motor poderoso. Sauron com o Anel era bem mais poderoso do que antes; mas se este fosse destruído muito de seu poder também o seria, para sempre.

De fato, se o Anel fosse destruído – não apenas tirado dele – Sauron perderia totalmente a habilidade de ter um corpo físico [Carta #200]. Presumivelmente ele sabia disso.

Mas Sauron simplesmente não considerou a possibilidade de que o Anel poderia ser destruído. “O Anel era indestrutível por qualquer artífice menor do que ele próprio. Era indissolúvel em qualquer fogo, exceto onde for a feito… em Mordor. E também, tão grande era o poder de sedução do Anel, que .. estava além da força de qualquer vontade (mesmo a dele mesmo) causar dano a ele” [Carta #131]. Para Sauron, transferir seu poder para o Anel provavelmente não parecia mais arriscado do que pegar uma moeda de um bolso e colocá-la em outro.

Você pode estar interessado também em uma razão externa à história. Tolkien escreveu a Rhona Beare, “Se eu fosse ‘filosofar’ o Anel de Sauron, eu deveria dizer que ele era uma maneira mítica de representar a verdade de que a potência (ou talvez de forma melhor, a potencialidade) se fosse para ser exercida, e produzir resultados, tinha que ser externalizada e dessa forma, portanto, em maior ou menor grau, sai do controle direto do ser em questão” [Carta #211]

E6. Quem inscreveu o verso no Um Anel?

Sauron, mais provavelmente quando o Anel estava sendo forjado. Ninguém mais teve acesso a ele desde o tempo em que foi feito até a derrota de Sauron no final da Segunda Era.

Quando Isildur cortou o Anel da mão de Sauron, ele pôde ler as letras “visível como uma chama vermelha”, e ele as copiou antes de sumirem [SdA II 2]. Até aquele momento Sauron fora o único com acesso ao Anel. Gandalf mostrou a Frodo as mesmas letras, 3.000 anos depois, ao aquecer o Anel na lareira de Frodo. As letras estavam por dentro e por fora do Anel, e começaram a desaparecer após o Anel ter sido removido do fogo. [SdA I 2]. Isto não era devido ao Anel estar esfriando, uma vez que ele estava “frio” imediatamente após ser tirado do fogo, e Gandalf comenta que ele passou pelo fogo de Frodo e“nem foi aquecido”.

E7. Onde estava o Um enquanto Sauron estava Númenor?

Em seu dedo. Ele tinha, naturalmente, o Um Anel, e logo dominou as mentes e vontades da maioria dos Númenorianos” [Carta #211]

A afirmação bastante clara de Tolkien concorda com a lógica do personagem Sauron. Sauron tinha duas escolhas: levar o anel consigo para Númenor ou deixá-lo na Terra-média. Mas em nenhum lugar nesta ele estaria a salvo, de seu ponto de vista: enquanto ele passava décadas em Númenor, qualquer um poderia encontrar o Anel e reclamá-lo. Sauron nunca correria este risco.

Algumas pessoas são enganadas pela afirmação de Tolkien de que Sauron tomou novamente o Anel após ter completado o novo corpo, então se voltou novamente a seus planos de dominação mundial. Steuard Jensen escreveu sobre este assunto; veja “Onde estava o Anel quando Númenor foi destruída?” 

Leia também: Como Sauron levou o Um Anel de volta à Terra-média após seu corpo ter sido afundado com os Númenorianos?

E8. Então porque Ar-Pharazôn não tomou o Anel de Sauron?

Diversas respostas são possíveis.

Ar-Pharazôn não conhecia a importância do Anel. Os Elfos mantiveram todo o assunto dos Anéis como um segredo fechado e, de qualquer forma, os últimos Reis de Númenor não estavam mais falando com os Elfos. [L #211 (279)]. Talvez Sauron tenha assumido um risco calculado de que o Rei não seria tão mesquinho a ponto de ordenar que a seu refém fosse tirado até mesmo um simples anel de ouro.

Talvez Sauron tornasse o Anel invisível enquanto o usasse. Isto parece ser uma característica normal dos Três Anéis, de que não podiam ser vistos enquanto usados. [SdA II VII]. Talvez fosse uma característica também do Um Anel ou do poder de Sauron.

Ou talvez Ar-Pharazôn tenha ordenado que Sauron entregasse o Anel. Se ele o fez, nós podemos ter certeza de que ele não poderia forçar seu comando. Tolkien nos diz “Em sua presença ninguém a não ser uns poucos de mesma estatura poderiam esperar mantê-lo. Dos ‘mortais’, ninguém” [Carta #246]. Se nenhum mortal podia mantê-lo longe de Sauron, então obviamente nenhum mortal poderia tomar o Anel dele. Nós podemos apenas especular o que Sauron faria se o Rei demandasse o Anel: talvez ordená-lo que não apenas parasse de pedir o anel, mas também que esquecesse que o vira.

O próprio Tolkien discutiu o assunto em uma carta: “Eu não acredito que Ar-Pharazôn soubesse alguma coisa sobre o Um Anel. Os Elfos mantinham o assunto dos Anéis bastante secreto, tanto quanto podiam. E, de qualquer forma, Ar-Pharazôn não estava se comunicando com ele” [Carta #211]. Como é usual com Tolkien, múltiplas interpretações são possíveis, por exemplo, que Ar-Pharazôn não soubesse que o Anel existia ou que ele soubesse mas não estivesse a par de sua importância.

E9. Como Sauron levou o Um Anel de volta à Terra-média após seu corpo ter afundando com os Númenorianos?

É difícil de imaginar, inicialmente. Sauron não tinha mais um corpo material; como ele moveria um objeto material?

Tolkien simplesmente coloca a dificuldade de lado: “Embora reduzido a ‘um espírito de ódio levado por um vento escuro’, eu não acho que alguém precise se preocupar com seu espírito carregando o Um Anel de volta à Terra-média após a queda de Númenor” [Carta #211]. A solução é que Sauron era um Maia, um dos Ainur original. Os Ainur tinham o poder de manipular o mundo físico por mero exercício de vontade; foi dessa forma que eles terminaram de dar forma a Arda após entrar nela em seu estado “cru” após a criação. Nós sabemos que Sauron em particular tinha essa habilidade porque ele criou um corpo para si mesmo diversas vezes.

E10. Sauron continuava visível ao usar o Anel?

Embora Tolkien nunca tenha respondido esta questão diretamente, a maioria das opiniões no r.a.b.t. é que Sauron era visível mesmo enquanto usava o Anel. Considere estes pontos:

  • Os Anéis de Poder (exceto os Três) tornavam seus utilizadores invisíveis movendo-os  em sua maior parte para o mundo Invisível. Mas Sauron já vivia nesse mundo como um Maia, um espírito “angelical”. Seu corpo material era algo deliberadamente colocado, como ele colocava roupas. Sauron era naturalmente puro espírito, não um híbrido como os mortais, Elfos e Anões.
  • Nós sabemos que Sauron usou o Anel em Númenor, e não nos é dada nenhuma razão para pensar que ele estivesse invisível.
  • Isildur corta do dedo com o Anel do corpo de Sauron após Gil-galad e Elendil o terem matado. Shanahan nos lembra [artigo r.a.b.t, 8 de julho de 2004, arquivado aqui] do pergaminho de Isildur, citado por Gandalf: “… mão de Sauron, que era negra e mesmo assim queimava como fogo, e assim Gil-galad foi destruído.”. [SdA II 2]. Se a mão de Sauron era invisível durante a luta, mas se tornou visível como negra depois, seria esperado que Isildur mencionasse isso!

E o dedo deveria estar visível; de outra forma porque Isildur teria pensando em cortar o Anel? O corpo de Sauron pode ter se tornado visível apenas após sua morte, mas é difícil ver como Elendil e Gil-galad poderiam lutar com armas contra um inimigo invisível se fazer tanto dano um contra o outro quanto a Sauron. (Gollum lutou contra um Frodo invisível, mas apenas porque primeiro ele viu Frodo visível e depois se encaminhou para ele.)

Uma razão incorreta é vista algumas vezes. Algumas pessoas argumentam por analogia: Gandalf usava um Grande Anel e era visível; Gandalf era um Maia; portanto os Maiar não eram tornados invisíveis pelos Grandes Anéis; portanto Sauron o Maia também não seria tornado invisível. O problema desta afirmação está no início: o Anel de Gandalf era um dos Três Anéis dos Elfos e os Três não tornavam ninguém invisível.

Ver também: Invisibilidade

E11. Na Terceira Era, tendo perdido o Anel, porque Sauron não estava mais fraco do que antes de o criar?

Não havia problema para Sauron desde o que o Anel continuasse a existir; apenas se ele fosse destruído Sauron seriafatalmente enfraquecido. [Carta #200]

“Enquanto ele o usava, seu poder na terra era na verdade ampliado. Mas mesmo que ele não o usasse, o poder existia e estava ‘em contato’ com ele: ele não ficava ‘diminuído’”. [Carta #131]

Se não estivesse usando o Anel Sauron não poderia acionar seus poderes; e era por isso que ele o queria de volta. Mas seu próprio poder, que ele permitiu que passasse ao Anel, continuava disponível a ele desde que ninguém o requisitasse como seu e fosse poderoso o suficiente para mantê-lo. Talvez a tabela abaixo ajude. (“Álgebras” similares  foram enviadas aos newsgroup várias vezes, mas a que se segue não foi tirada de nenhum artigo em particular, pelo menos não conscientemente.)

Poder nativo de Sauron, no início da Segunda Era S
Uma “grande parte” do poder de Sauron, que passou para o Anel por volta de 1600 S.E. X
Poder extra (novo) no Anel, concentrado a partir do “elemento Morgoth” de Arda (veja abaixo) A
Poder total do Anel A + X
Poder de Sauron enquanto usasse o Anel S + A
Poder de Sauron sem usar o Anel, mas sem ter o Anel reclamado por outra pessoa S
Poder de Sauron se o Anel fosse destruído ou reclamado com sucesso por outra pessoas

S – X

(bem pequeno)

Mesmo que não saibamos a precisa proporção entre X e S, podemos inferir do fato que quando o Anel fosse destruído Sauron morreria permanentemente (pelo menos com relação à Terra-média) que por “uma grande parte” de seu poder Tolkien provavelmente queria dizer quase todo.

Aquele poder extra (A na tabela) estava de fato no Anel ou o Anel simplesmente possibilitava a seu utilizador, de acordo com sua estatura, a acionar aquele poder do “elemento Morgothiano” de Arda? Tanto Conrad Dunkerson [artigo r.a.b.t, 24 de agosto de 2002, arquivado aqui] quanto Steuard Jensen [artigo r.a.b.t, 25 de agosto de 2002, arquivado aqui] sugerem este último.

E12. Por que Gollum não se tornou um espectro há muito tempo?

Gollum (Sméagol) assassinou Déagol e tomou o Anel por volta de 2.463 T.E., e este passou a Bilbo em 2941. [SdA Apêndice B]. Portanto Gollum teve o anel por quase 500 anos. Pode-se pensar que ele já deveria ter se transformado em um espectro, mas ele nem havia começado a esvaecer. [SdA I 2]

Compare com os Nazgûl. Sauron obteve os Nove Anéis em algum momento entre 1695-1697 S.E. e portanto os deu aos homens não antes disso. Os Nazgûl “pela primeira vez apareceram” por volta de 2251, 550 depois [SdA Apêndice B]. Mas nós não sabemos se Sauron deu todos os Anéis de uma vez; é também bem possível que os Nazgûl tenham operado em segredo antes de aparecerem abertamente. Portanto 550 é a estimativa maior, mas o tempo real para criar um espectro do Anel pode ser bem menos do que os 500 anos em que Gollum teve o anel.

Então como Gollum resistiu à “espectrificação”?

Primeiro, ele não usava muito o Anel“Gollum costumava usá-lo no início, até que ficou enjoado; depois passou a guardá-lo em uma bolsa junto ao corpo, até ficar com a pele esfolada; agora geralmente o escondia em um buraco numa pedra em sua ilha. … E ainda o colocava algumas vezes, quando não suportava mais ficar separado do anel, ou então quando estava com muita, muita fome, ou cansado de comer peixe” [Hobbit V]

Segundo, Gollum era resistente ao Anel porque era da raça hobbit [SdA I 2]. Gollum diz que Gollum-Sméagol era “parente dos pais dos pais dos Grados” [SdA I 2]. Embora igualmente mortais, Hobbits parecem menos suscetíveis  ao Anel do que seus primos Homens.

Uma dedução que pode ser tirada é que o Anel dá vida longa sendo usado ou não, mas transforma seu portador em espectro apenas se usado freqüentemente. [SdA I 2]

E13. Então porque Gollum e Bilbo não morreram quando perderam o Anel?

Os dois casos são bastante diferentes e podemos ganhar algum entendimento comparando-os.

Bilbo tinha onzenta (111) anos quando ele desistiu do Anel [SdA I 1]. Fisicamente ele não parecia ter envelhecido nada deste que o encontrara [SdA I 1]. Mesmo após 17 anos, em Valfenda, ele não estava perceptivelmente mais velho. [SdA II 1]

Não nos é dito quão velho era Sméagol quando ele obteve o Anel, mas como Gandalf o descreve [SdA I 2] ele soa como um jovem adulto. Enquanto Gollum ele manteve o Anel por quase 500 anos, e naquele tempo manteve o vigor físico. Os eventos de O Senhor dos Anéis ocorreram quase oitenta anos depois, mas Gollum  claramente continuava em forma, capaz de fazer longas jornadas, descer despenhadeiros de cabeça para baixo [SdA IV 1] e sobrepujar o jovem e vigoroso Sam [SdA IV 1].

Das histórias de Bilbo e Gollum nós vemos que o Anel ampliou a vida de seus possuidores como qualquer Grande Anel [SdA I 1] e também continuou a influenciá-los depois. Gandalf alude a isto ao falar com Frodo [SdA I 2]: “pode demorar muito até que a influência se acabe. … [Bilbo] pode viver muito, bastante feliz: apenas continuando como estava quando se separou do anel”. De fato, Gandalf parece considerar que isso foi devido ao fato de Bilbo ter dado o anel “por sua própria vontade”; mas Gollum não e mesmo assim ele parecia ter “continuado como estava”.

Esta preservação era um efeito permanente deixaria de existir de existir mesmo se o Anel não fosse destruído? Nós realmente não temos informações suficientes para responder a esta questão. O “por anos” de Gandalf poderia significar “por alguns poucos anos” ou “por muitos, muitos anos; não há como sabermos. Certamente Gollum parecia tão forte e saudável oitenta anos depois quanto estava quando Bilbo o encontrou, exceto pelos efeitos de um longo tempo sem comida suficiente. Parece que dar ou perder involuntariamente o Anel não reinicia o processo de envelhecimento.

Nós sabemos que a continuada preservação de Bilbo e Gollum era um efeito continuado do Anel, e não alguma mudança que ele fez em seus corpos, porque aquele efeito terminou com o fim do Anel. O próprio Gollum predisse isso: “quando o Precioso se for vamos morrer, é sim, morrer na poeira ssuja” [SdA VI 3]; em outras palavras, com o fim do Anel ele se tornou um hobbit de 500 anos de idade, o que, claro, significa um hobbit morto. Gollum não era um mestre do conhecimento, claro; mas sua dedução parece razoável.

No evento da destruição do Anel nós não vimos isto acontecer porque o Anel e o corpo de Gollum foram destruídos simultaneamente nos fogos da Montanha da Perdição [SdA VI 3]. Mas nós vimos o efeito em Bilbo: em menos de um ano ele se tornou positivamente mais velho, parecendo e agindo como se tivesse de fato 129 anos [SdA VI 6]. O efeito pode ter sido instantâneo ou, mais provavelmente, quando o Anel foi destruído Bilbo rapidamente começou a envelhecer até onde deveria ter envelhecido se nunca tivesse o Anel. Seria fascinante saber se Bilbo em Valfenda ficou ciente do momento em que o Anel foi destruído.

Nós temos uma pista. Arwen chega a Minas Tirith no final de Junho, três meses após o Anel ter sido destruído. Portanto ela deve ter deixado Valfenda poucas semanas depois da destruição do Anel e mesmo naquele curto tempo Bilbo tornou-se visivelmente mais velho e enfraquecido. Quando Frodo perguntou a Arwen sobre a ausência de Bilbo na festa de casamento, ela respondeu, “Surpreende-se com isso, Portador do Anel? Pois você conhece o poder da coisa que agora foi destruída, e sabe que tudo que foi realizado por aquele poder agora está morrendo. Mas o seu parente … agora está avançado em anos, de acordo com a sua espécie; e … não deverá mais fazer qualquer viagem longa, exceto uma” [SdA VI 6]. A preservação de Bilbo foi “realizada por aquele poder” do Um Anel, e, portanto seu vigor “agora está morrendo” tão rapidamente que dentro de poucas semanas ele já estava fraco demais para viajar. (Meus agradecimentos a Christopher Kreuzer por chamar minha atenção a esta passagem significativa [artigo r.a.b.t, 29 de dezembro de 2003, arquivado aqui].)

Embora Tolkien não nos diga com tantas palavras, as evidências disponíveis sugerem que o Anel garantia a seu possuidor vida longa não apenas enquanto tinha a posse do Anel mas por um considerável tempo depois.

E14. Como Sauron poderia conferias que os Nazgûl não clamariam o Anel?

Eles eram completamente escravizados a Sauron e não tinha vontade própria. A afirmação mais clara sobre tal, que eu conheça, está em “A Caçada ao Anel”: eles eram “seus servos mais poderosos, os Espectros do Anel, que não tinham vontade própria a não ser a dele, sendo completamente subservientes ao anel que os escravizara, os quais Sauron detinha” [CI: HR]

Em outras palavras, eles estavam imunes ao chamado do Um Anel porque eles estavam tão completamente dominados por seus próprios Anéis, e eram dominados por Sauron porque este tinha posse daqueles Anéis.  Este mesmo fator também significava que eles não poderiam ser comandados a agir contra Sauron.

E15. Quando ele mandou os Nazgûl atrás de Frodo, Sauron não temeu que alguém pudesse usar o Anel contra eles?

Sim e não, mas principalmente não. Claro, o maior medo de Sauron era que alguém dentre seus inimigos poderia reclamar o Anel e usar contra ele. Mas ele não era especialmente preocupado sobre os Nazgûl se rendendo a seu poder.

Em primeiro lugar, os Nazgûl eram escravos de seus Nove Anéis, os quais estavam de posse de Sauron. Ao menos em curto prazo sua escravidão seria mais forte do que quaisquer comandos que um novo Senhor do Um Anel pudesse fazer.

Em segundo lugar, Sauron sabia que levaria tempo para qualquer um aprender a usar o Anel. Nenhum portador do Anel, não importa quão intrinsecamente grande, poderia simplesmente colocá-lo e começar a lançar ordens aos Nazgûl ou a qualquer outra pessoa (exceto, possivelmente, Gollum). Galadriel aludiu a isso em, sua conversação com Frodo após ele ter olhado em seu espelho: “Antes que você pudesse usar esse poder, sentiria a necessidade de … treinar sua vontade em relação ao domínio dos outros” [SdA II 7]. Até então, seja lá quem usasse o Anel estaria vulnerável, como de fato Frodo estava no Topo dos Ventos. Se tudo falhasse, o próprio Sauron poderia vir e obrigar o novo Senhor do Anel entregar.

E finalmente, Sauron esperava que qualquer um que reclamasse o Anel iniciasse uma guerra civil entre seus inimigos. Gandalf diz aos capitães após a Batalha dos Campos de Pelennor, “ele vai aguardar uma hora de discórdia, antes que um dos grandes entre nós se faça senhor e se coloque acima dos outros” [SdA V 9]. Esta dissensão entre os capitães do Oeste daria a Sauron tempo de lançar seu próprio ataque preemptivo, como de fato ele fez após Aragorn ter se apresentado a ele no Palantír. [SdA V 9]

Em resumo, o medo de Sauron de um novo Senhor do Anel era de que este permanecesse sem ser perturbado por tempo suficiente para aprender a usar o Anel e crescer o suficiente para desafiar Sauron. Um Senhor dos Anéis novato era apenas uma ameaça em potencial a Sauron e Sauron poderia tomar contra-medidas. Em particular, um Senhor dos Anéis novato (como Frodo) não poderia controlar os Nazgûl e seria traído por eles em um encontro com Sauron. O maior perigo de Sauron estava no longo prazo, que depois de reclamar o Anel o novo Senhor dos Anéis pudesse se proteger em um local defendido e desenvolver seu comando ao Anel.

E16. Em Valfenda, quem colocou o Anel de Frodo em uma corrente?

“Quando se vestia, Frodo descobriu que, quando estivera dormindo, o Anel tinha sido pendurado em seu pescoço numa nova corrente, leve, mas forte” [SdA II 1]Não nos é dito que o fez. Pode ter sido Elrond, ou Gandalf ou qualquer um. Uma vez que o Anel não era de conhecimento comum, mesmo em Valfenda, possivelmente Elrond ou Gandalf fizeram isto pessoalmente.

Uma vez que o Anel não era perigoso a ninguém, mesmo os Sábios, não há necessidade de imaginar Elrond usando grandes pinças para colocar uma corrente ao redor do Anel e depois amarrá-la ao redor do pescoço de um adormecido Frodo. É verdade que a posse, mesmo posse temporária, do Anel provavelmente devesse ser evitada (“Não, não dê o anel para mim” disse Gandalf a Bilbo. “Coloque-o sobre a lareira [para Frodo]” [SdA I 1]). Mas simplesmente tocá-lo rapidamente não parecia ser perigoso. Gandalf o segura duas vezes na sala de estar de Frodo, uma vez para colocá-lo no fogo e uma para pegá-lo e o devolver a Frodo [SdA I 2]. Então provavelmente não havia perigo nem a ele nem a Elrond em pegar o Anel com o propósito de colocá-lo na corrente e o devolver a Frodo.

E17. O Um Anel falou na Montanha da Perdição?

A maioria das pessoas acha que não. Uma coisa é aceitar que o Anel tinha algum grau de senciência e outra bem diferente dizer que ele podia falar. Mas é dificilmente questão de interpretação. A espada de Turin sem sombra de dúvidas fala com ele [Silm: Of Turin Turambar (225)], e, portanto não podemos eliminar de imediato a idéia de que Tolkien pretendia que o Anel falasse. A passagem em questão provavelmente merece ser citada em sua totalidade:

“Então, de repente, como antes sob as bordas dos Emyn Muil, Sam viu aqueles dois rivais de outra maneira. Uma figura humilhada, que mal passava da sombra de um ser vivo, uma criatura agora completamente arruinada e derrotada, e mesmo assim cheia de ira e de um desejo hediondo; e diante dela erguia-se austero, imune agora à compaixão, um vulto vestido de branco, mas que segurava em seu peito uma roda de fogo. Do fogo falava uma voz imperiosa.”

“- Vá embora, e não me perturbe mais! Se voltar a me tocar de novo, você mesmo será jogado dentro do Fogo da Perdição.”

“A figura humilhada recuou, o terror enchendo-lhe os olhos, que ao mesmo tempo piscavam num desejo insaciável.”

“Então a visão passou e Sam viu Frodo de pé, com a mão no peito, respirando em grandes haustos, e Gollum aos pés dele, apoiado nos joelhos, com as largas mãos achatadas contra o chão.”
[SdA VI 3]

Os defensores do “Anel falante” interpretam isto querendo literalmente dizer que a voz veio do fogo no peito de Bilbo, onde ele carregava o Anel em sua corrente ao redor do pescoço. Mas a maioria das pessoas no r.a.b.t. se concentra na afirmação de que Sam viu “de outra maneira”, e considera que isto significa que ele estava vendo uma representação simbólica ou espiritual, não realidade física. (Isto se mescla bem com Frodo dizendo a Sam, no oeste de Mordor, “E começo a vê-lo em minha mente o tempo todo, como uma grande roda de fogo” [SdA VI 2]). Nesta interpretação, Frodo Falou a Gollum, e o poder do Anel fez Frodo parecer imponente, quase divino. O Anel era a fonte de seu poder e, portanto transformou sua voz em uma de comando assim como transformou sua aparência.

A referência ao episódio “sob as bordas dos Emyn Muil” acrescenta força a esta interpretação. Em Gollum Domado, nós lemos: “Por um momento pareceu a Sam que seu mestre crescera e Gollum encolhera: uma alta figura austera, um poderoso senhor que ocultava seu brilho em uma nuvem cinzenta, e a seu pé um pequeno cachorro ganindo” [SdA IV 1]. Ali Tolkien deixa bem claro que Sam está tendo uma visão (assim como a visão de Galadriel crescendo quando Frodo oferece a ela o  Anel [SdA II 7]). Se o episódio foi explicitamente citado como sendo uma visão, e Tolkien explicitamente o conecta ao episódio da Montanha da Perdição, parece provável que Tolkien também tenha tido a intenção que o segundo episódio também fosse uma visão com Frodo falando e não o Anel.

Mas eu acho que o argumento mais contundente foi dado por Hohn Yohalem em um e-mail de 1 de Novembro de 2003: a frase “não me perturbe mais”. É difícil imaginar como Gollum poderia “perturbar” o Anel, mas obviamente ele poderia “perturbar” Frodo, como já tinha feito muitas vezes. Para mim isto parace ser conclusivo: foi Frodo e não o Anel quem falou.

De qualquer forma, esta é a única ocasião em O senhor dos Anéis onde há qualquer dúvida sobre o Anel ter falado. Em nenhuma outra parte do romance Tolkien dá qualquer indicação do Anel falando.

Leia também: O Um Anel podia pensar, sentir e fazer escolhas?

E18. Quando Frodo colocou o Anel nas Fendas da Perdição, Gollum podia vê-lo?

Não. Imediatamente após Frodo ter feito seu anúncio e colocado o Anel, Sam “não pôde gritar” (“não teve tempo de gritar”, como fica claro na versão original) Gollum derrubou Sam enquanto corria para Frodo. Sam apagou “por um momento”, e quando ele percebeu que “Gollum, na beira do abismo, lutava como um ser ensandecido contra um inimigo invisível [Frodo]” [SdA VI 3]. Claramente Gollum viu Frodo colocar o Anel e rumou para ele antes de Frodo perceber que estava sob ataque e poder tomar qualquer ação evasiva.

Esta interpretação é consistente com outros elementos da história. Nós sabemos que Gollum não podia ver Bilbo usando o Anel [Hobbit V (79)]. Àquele tempo Gollum não era um espectro, e continuava a ser um ser vivo mortal. Quando ele encontrou Frodo ele já tinha estado oitenta anos sem o Anel, e portanto não obtivera nenhuma habilidade extra com ele. Se ele não podia ver Bilbo, ele não podia ver Frodo.

Ver também: Invisibilidade

E19. O que teria acontecido se Frodo reclamasse o Anel e Gollum não interferisse?

Nada bom, nem mesmo para Frodo.

Frodo não teria se tornado imediatamente senhor do mundo. Reclamar o Anel é apenas o primeiro passo no controle do Anel. Lembre que quando Frodo perguntou a Galadriel porque ele não podia ver todos os outros Anéis e conhecer o pensamento de seus portadores, ela responde, “Antes que você pudesse usar esse poder , sentiria a necessidade de ficar muito mais forte,. e treinar sua vontade em relação ao domínio dos outros”  [SdA II 7]

Tolkien amplia bastante este tema em uma carta. Para resumir rapidamente: Tolkien propôs dois possíveis resultados após Frodo ter reclamado o Anel na Montanha da Perdição, se Gollum não tivesse salvado o dia. Ou

  1. Percebendo que ele não poderia manter o Anel longe de Sauron, Frodo iria “jogar-se com o Anel no abismo; ou
  2. Os Nazgûl enviados por Sauron à Montanha da Perdição saudariam Frodo como “Senhor” e então o levariam a ceú aberto. Eles não seriam capazes de atacá-lo ou capturá-lo, mas ainda estaria sob o controle de Sauron e não de Frodo. Enquanto era distraído algum deles iria destruir a entrada para a s Fendas da Perdição de forma que Frodo não poderia mais danificar o Anel mesmo que se arrependesse. Rapidamente Sauron iria chegar, tomar o Anel e destruir Frodo completamente“Em sua presença ninguém a não ser uns poucos de mesma estatura poderiam esperar mantê-lo. Dos ‘mortais’, ninguém, nem mesmo Aragorn” [Carta #246]

E20. Então quem poderia ter vencido Sauron usando o Anel, então?

Em confronto face-a-face
Possivelmente Gandalf poderia tê-lo feito: “face-a-face… seria um equilíbrio delicado” [Carta #246]. Mas Tolkien segue dizendo que mesmo uma vitória seria uma derrota: “Se Gandalf se mostrasse o vencedor, o resultado teria sido para Sauron o mesmo que a destruição do Anel. … Mas o Anel … teria sido o mestre no final.

Tolkien é definitivo ao afirmar que, em uma confrontação, não apenas Frodo, mas praticamente qualquer um teria entregado o anel a Sauron imediatamente: “Em sua presença ninguém a não ser uns poucos de mesma estatura poderiam esperar mantê-lo. Dos ‘mortais’, ninguém, nem mesmo Aragorn” [Carta #246]

(Aragorn foi capaz de se colocar contra Sauron e disputar com ele o Palantír porque “Na disputa com o Palantír Aragorn era o dono por direito” – e porque Sauron não era tão terrível através do Palantír como seria se estivesse na mesma sala. O fator da “autoridade correta” não teria ajudado muito com o Anel; bem ao contrário, na verdade, uma vez que o Anel era obra de Sauron).

Por força militar
Tolkien diz no mesmo parágrafo [Carta #246] que possivelmente Galadriel ou Elrond poderiam ter usado o Um Anel para derrotar Sauron e colocar a eles mesmos em seu trono. Mas eles fariam isso criando exércitos e derrotando Sauron militarmente, destruindo-o por força normal. “Confrontação a Sauron sozinho, sem ajuda, face-a-face, não era cogitada”.

Ao pensar sobre tal questão, devemos ouvir o aviso de Tolkien: “era parte do engodo essencial do Anel encher as mentes com ilusões de supremo poder” [Carta #246], portanto talvez Galadriel estivesse enganada ao pensar [SdA II 7] que ela seria de fato capaz de suplantar Sauron. (É um ponto em vão, por ela já havia decidido não tentar.)

E sobre Aragorn? Não nos é dito diretamente, mas parece ao menos possível que, se ele optasse por reclamar o Anel,Aragorn pudesse ter derrotado Sauron militarmente. Pois, apesar de tudo, mesmo quando Sauron tinha o Anel seus exércitos o desertaram quando encarados com o poderio de Ar-Pharazôn. Com o Anel, Aragorn e seus exércitos (menores) poderiam ser tão aterradores às forças de Sauron quando os exércitos de Ar-Pharazôn haviam sido. Claro que, se Aragorn tivesse feito aquilo usando o Anel, ele teria se tornado um tirano pior do que Ar-Pharazôn jamais fora.

Mas não superestime o poder militar do Anel. Mesmo poderoso como era, o Anel não era invencívelMesmo seu poder de comando não era absoluto. Lembre-se que enquanto Sauron estava usando o Anel, seus próprios exércitos o desertaram. Eles não foram derrotados por força de armas mas psicologicamente: “Tão grandes eram o poder e o esplendor dos númenorianos que os próprios servidores de Sauron o abandonaram” [SdA Apêndice A I(i)]. Se o Anel pudesse ter feito os exércitos de Sauron se manter firmes, ele o teria usado dessa forma; uma vez que não o fez, nós podemos deduzir que ele não podia.

E novamente, na Guerra da Última Aliança, Sauron foi derrotado enquanto usava o Anel. Se Sauron podia ser derrotado enquanto usava o Anel, quão improvável seria alguém mais usando o Anel pudesse alcançar uma vitória militar contra ele?

Alguns sugeriram que o portador do Anel poderia usar os próprios exércitos de Sauron (capitaneados pelos Nazgûl) contra ele. Mas os Nazgûl não estavam usando os Nove Anéis e, portanto não poderiam ser controlados desta forma. E enquanto Sauron vivesse. os Nazgûl teriam mantido suas lealdades a ele, mesmo por algum tempo após alguém ter reclamado o Anel. Lembre-se que Sauron estava confiante o suficiente em suas lealdades que apesar do Anel ele os enviou na caçada, conhecendo que eles sabiam o que o Anel era.

Em termos puramente militares, o Anel talvez fosse uma ameaça a Sauron, mas longe de decisiva. O problema real para Sauron era de quando em algum momento alguém pudesse controlar o Anel o suficiente para que ele fosse um fator no progresso militar da guerra, Sauron já teria sido pessoalmente reduzido à impotência, assim como se o Anel tivesse sido destruído.

E21. Como Um Anel se compara ao Anel de Nibelungo, de Wagner?

Tolkien escreve em uma carta: Ambos os anéis são redondos, e é onde a semelhança termina” [Carta #229]. Mas você tem que resgatar o contexto histórico. Dr. Ohlmarks havia produzido uma tradução repleta de erros para o Sueco de O Senhor dos Anéis, com uma introdução contendo pérolas como uma afirmação que Sauron era uma alegoria de Stalin. Especificamente, a citação da Carta 229 era a resposta à afirmação de Ohlmark de que o Anel de Sauron “é, de certa maneira ‘der Nibelungen Ring’”. Talvez a irritação justificada de Tolkien o tenha conduzido à memorável refutação de uma linha, mesmo que não fosse exatamente correta.

Não, o Anel de Sauron não era o Anel de Alberich: Tolkien não emprestou conscientemente de Wagner, ele não estava escrevendo uma alegoria de Wagner nem nada parecido, há diferenças gritantes entre os dois Anéis e os  roteiros são bem distintos. Notavelmente, o tema central de O Senhor dos Anéis é a tarefa de destruir o Anel de Sauron; ninguém noNibelungenlied jamais cogita destruir o Anel de Alberich. Também, claro, o Um Anel começou como uma desculpa para a invisibilidade e o Anel de Wagner não tornava seu utilizador invisível. E mais, a idéia de Tolkien do Anel controlando os outros Anéis, um artefato para escravizar seus portadores, não tem nenhuma contrapartida em Wagner.

Mas com certeza existem similaridades entre os dois Anéis. (“A Tsar Is Born” defende que Tolkien de fato fez algunsempréstimos subconscientes e dá algum pano-de-fundo sobre Wagner e suas fontes [artigo r.a.b.t, 11 de abril de  2002,arquivado aqui]. Em um artigo posterior [artigo r.a.b.t, 17  de maio de 2002, arquivado aqui], ele prossegue e diz que Wagner inventou a idéia de um Anel para governar o mundo “quarenta anos antes de Tolkien ter nascido” e que Tolkien teve a idéia de seu Anel Governante anos depois de ter visto apresentações do ciclo do Anel de Wagner. Qualquer um que deseje afirmar que Wagner não tem nenhuma influência sobre Tolkien deve de alguma maneira responder estes fatos. Alguns apontaram que anéis de poder é um mito comum; mas “um anel de poder” não é o mesmo que “um Anel para governar o mundo”. A discussão Wagner e Tolkien no r.a.b.t. contém fascinante pano de fundo para as lendas Nórdicas).

Apesar de Tolkien, me parece claro que a semelhança entre os dois Anéis não cessa com o fato de “ambos serem redondos”. Aqui estão alguns pontos similares:

Anel de Alberich
Anel de Sauron
O portador poderia se tornar senhor do mundo O portador poderia se tornar senhor do mundo
O Anel era amaldiçoado, e trouxe desgraças acada um de seus portadores O Anel ela maligno, e corrompeu cada um de seus portadores (exceto Sam, que o usou apenas brevemente)
Fafner matou seu irmão Fasolt para obter o Anel, então o levou para um caverna por muitos anos Sméagol matou seu amigo Déagol para obter o Anel, então o pegou e se escondeu em cavernas sob as Montanhas Nebulosas por muitos anos.
A força que comanda a história são os esforços de Wotan para recuperar o Anel A força que comanda a história são os esforços de Sauron para recuperar o Anel
A história do Anel termina quando seu antigo portador, Siegfried, é queimado em uma pira funerária, e Valhalla e todos os deuses também queimam, e as Rhinemaidens levam o anel para sob as águas. Desde então os homens governam o mundo, e os deuses se vão. A história do Anel termina quando seu antigo portador Gollum cai em um vulcão enquanto de posse dele e é queimado até a morte. Desde então os homens governam o mundo, com os Elfos partindo.

Sem dúvidas existem também outras similaridades. Mas até onde estamos cientes, Tolkien não copiou conscientemente da versão de Wagner de nenhuma forma significativa. Conrad Dunkerson aponta [artigo r.a.b.t, 23  de fevereiro de, arquivado aqui] que o anel que Bilbo encontrou era um simples anel de invisibilidade e não tinha nada em comum com Wagner, as similaridades com as quais nos defrontamos nO Senhor dos Anéis foram criadas para fazer outros elementos da história funcionarem.

Fontes e Siglas

P.E. = Primeira Era

S.E. = Segunda Era

T.E. = Terceira Era

Q.E. = Quarta Era

[CI:ODdCL] = Contos Inacabados – O Desastre dos Campos de Lis

[CI:AHdGeC] = Contos Inacabados – A História de Galadriel e Celeborn

[CI:ACaA] = Contos Inacabados – A Caçada ao Anel

[CI: Istari] = Contos Inacabados – Os Istari

[CI: CL] = Contos Inacabados – O Desastre dos Campos de Lis

[Silm:Anéis] = O Silmarillion – Dos anéis de poder e da Terceira Era 

r.a.b.t = o newsgroup rec.arts.books.tolkien

Tree and Leaf, de Tolkien, aqui na Valinor!

Acabo de defender meu mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. O trabalho foi uma tradução comentada, em edição bilíngüe, de Tree and Leaf (Árvore e Folha), uma das mais bonitas e menos conhecidas das obras de Tolkien e ainda inédita no Brasil. Não mais! A partir de agora, a Equipe Valinor tem a honra de disponibilizar o texto integral desse trabalho de graça, em formato PDF!

A disponibilização de graça para um público amplo em formato eletrônico é uma das regras recentes implantadas para todo mundo que participa de uma pós-graduação numa universidade brasileira. Portanto, não há qualquer elemento de pirataria nesse publicação em acesso livre.

No caso da minha dissertação, cada um dos quatro textos que formam o livro aparece no original em inglês e na tradução em português, com comentários detalhados sobre como a tradução foi feita, e por quê, além de informações extras sobre o contexto da obra.

Além disso, temos uma introdução sobre a teoria da tradução e a obra de Tolkien, uma breve nota biográfica sobre o autor, explicações detalhadas sobre os tipos de poesia utilizados por ele e introduções curtas para cada um dos textos.

É bom lembrar que esta é uma versão preliminar, que deve ser melhorada em alguns detalhes. A versão definitiva será postada aqui na Valinor assim que possível. Espero que todos possam aproveitar os textos, que são muito legais. Se por acaso a introdução estiver muito acadêmica e chata, é só pularpara os textos em si. Agradeço também todos os comentários e sugestões.

Para baixar o PDF da dissertação, clique aqui:

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Mythopoeia

Lidar com o desafio de verter os textos de Tolkien em português tem
sido um dos quebra-cabeças mais prazerosos da minha vida. O final dessa
jornada deve ser em dezembro deste ano, quando defendo minha
dissertação de mestrado, mas alguns resultados já estão aparecendo.
É por isso que apresento a vocês, amigos da
Valinor, o primeiro texto do livro “Tree and Leaf” cuja tradução eu
consegui concluir. Trata-se do poema Mythopoeia, que, apesar de pouco
conhecido entre fãs do autor no mundo, é um dos mais importantes para
entender o que ele pensava ser a função e o propósito de seu próprio
trabalho. Após uma pequena introdução (original do meu trabalho na
disciplina Tradução – Teoria e Prática, do Departamento de Letras
Modernas da FFLCH-USP), apresento o texto original do poema e minha
tradução dele. Espero que gostem!

————–

Decidi fazer deste trabalho final o primeiro passo substancial para a
tarefa que me propus realizar em minha dissertação de mestrado: a
tradução comentada do livro Tree and Leaf, do escritor e
filólogo inglês J.R.R. Tolkien. No presente trabalho, traduzi um dos
textos que compõem essa coletânea tolkieniana, o poema Mythopoeia.

É o texto mais curto da coleção, mas nem por isso deixa de oferecer
desafios para o tradutor ou perde em importância numa visão de conjunto
da obra de Tolkien. Muito pelo contrário: ao lado do ensaio On Fairy-Stories, Mythopoeia
é o texto no qual o autor deixa mais claro o seu projeto de uma nova
literatura fantástica e, mais que isso, sua visão mística da criação
literária como “sub-criação”, ou seja, como a contribuição humana à
Criação divina. Tal perspectiva, em grande medida despertada pela
profunda fé católica do autor, vê o “fazer dos mitos” (tradução do
grego Mythopoeia do título) como a mais autêntica atividade
humana, em contraposição aos esforços vãos (quando não totalmente
perversos) de escravizar a natureza por meio da tecnologia.

Como a maioria das obras tolkienianas, Mythopoeia tem uma
história textual complexa e ramificada, que não vem ao caso esmiuçar
aqui. Contudo, a dimensão histórica é importante por outro motivo:
aparentemente o poema é resultado direto das longas conversas entre
Tolkien e seu colega de Oxford, o irlandês C.S. Lewis, acerca do
verdadeiro propósito e valor da mitologia para o mundo real.

Quando os dois escritores se conheceram no final dos anos 20, Lewis era
agnóstico, embora nutrisse uma imensa paixão pela mitologia nórdica.
Com um gosto mitológico parecido, Tolkien decidiu se empenhar na
conversão do amigo ao cristianismo, usando como argumento as verdades
que todos os mitos, e principalmente o mito cristão, seriam capazes de
revelar. A história da conversa que finalmente culminou na conversão de
Lewis está contada em J.R.R. Tolkien: Uma Biografia, de Humphrey Carpenter, mas não é exagero dizer que Mythopoeia é o retrato dessa conversa em forma poética.

De acordo com o biógrafo, a frase dedicatória do poema (que compara os
mitos a “mentiras proferidas através da prata”) foi dita originalmente
pelo próprio Lewis. Da mesma forma, Philomythus (o que ama os mitos) é
Tolkien, enquanto Misomythus (o que odeia os mitos) representa Lewis.
Este é claramente um poema-programa, importante não só em si mesmo como
pelo projeto literário que representa.

Antes de apresentar o poema no original e, a seguir, minha tradução,
faço alguns breves comentários. Em termos formais, o texto não é
exatamente um conundrum, ao menos à primeira vista: pentâmetros
iâmbicos com rimas em dísticos (A-A, B-B, etc.), agrupados em estrofes
de tamanho variável, que por sua vez se dividem em três blocos.

O texto tem um sabor tradicional (que se tentou reproduzir em
português), mas ao mesmo tempo utiliza habilmente alguns termos
tirados, por exemplo, do discurso acadêmico ou da ciência moderna, para
criar desconcerto e ironia. Em português, mantive o decassílabo rimado
(por vezes abusando da elisão, como se poderá notar) e procurei reter
alguns conceitos-chave do original utilizando, sempre que possível,
seus cognatos na língua-alvo.

Seguindo esse exemplo, a idéia foi manter um pouco da sintaxe inglesa
(principalmente no uso de algumas preposições), mesmo que o efeito
soasse um tanto deslocado quando traduzido. Não é possível, no entanto,
reivindicar para a presente tradução o rótulo de estrangeirizadora: o
tom decididamente tradicional do poema em inglês parece proibir grandes
ousadias. Uma coisa certamente se perdeu: por causa da brevidade
métrica exigida, as hábeis repetições e artifícios anafóricos usados
por Tolkien ficaram de fora em diversos casos, o que faz do poema
traduzido algo muito menos “amarrado”.

Bem, o texto fala por si mesmo. Abaixo, segue o poema original e, a seguir, sua tradução.

MYTHOPOEIA

To one who said that myths were lies and therefore worthless, even though ‘breathed through silver’.

Phylomythus to Misomythus

You look at trees and label them just so,
(for trees are trees, and growing is to grow);
you walk the earth and tread with solemn pace
one of the many minor globes of Space:
a stars a star, some matter in a ball
compelled to courses mathematical
amid the regimented, cold, Inane,
where destined atoms are each moment slain.

At bidding of a Will, to which we bend
(and must), but only dimly apprehend,
great processes march on, as Time unrolls
from dark beginnings to uncertain goals;
and as on page oerwritten without clue,
with script and limning packed of various hue,
an endless multitude of forms appear,
some grim, some frail, some beautiful, some queer,
each alien, except as kin from one
remote Origo, gnat, man, stone, and sun.
God made the petreous rocks, the arboreal trees,
tellurian earth, and stellar stars, and these
homuncular men, who walk upon the ground
with nerves that tingle touched by light and sound.
The movements of the sea, the wind in boughs,
green grass, the large slow oddity of cows,
thunder and lightning, birds that wheel and cry,
slime crawling up from mud to live and die,
these each are duly registered and print
the brains contortions with a separate dint.

Yet trees are not trees, until so named and seen —
and never were so named, till those had been
who speechs involuted breath unfurled,
faint echo and dim picture of the world,
but neither record nor a photograph,
being divination, judgement, and a laugh,
response of those that felt astir within
by deep monition movements that were kin
to life and death of trees, of beasts, of stars:
free captives undermining shadowy bars,
digging the foreknown from experience
and panning the vein of spirit out of sense.
Great powers they slowly brought out of themselves,
and looking backward they beheld the elves
that wrought on cunning forges in the mind,
and light and dark on secret looms entwined.

He sees no stars who does not see them first
of living silver made that sudden burst
to flame like flowers beneath an ancient song,
whose very echo after music long
has since pursued. There is no firmament,
only a void, unless a jewelled tent
myth-woven and elf-patterned; and no earth,
unless the mothers womb whence all have birth.

The heart of man is not compound of lies,
but draws some wisdom from the only Wise,
and still recalls him. Though now long estranged,
man is not wholly lost nor wholly changed.
Dis-graced he may be, yet is not dethroned,
and keeps the rags of lordship once he owned,
his world-dominion by creative act:
not his to worship the great Artefact,
man, sub-creator, the refracted light
through whom is splintered from a single White
to many hues, and endlessly combined
in living shapes that move from mind to mind.
Though all the crannies of the world we filled
with elves and goblins, though we dared to build
gods and their houses out of dark and light,
and sow the seeds of dragons, twas our right
(used or misused). The right has not decayed.
We make still by the law in which were made.

Yes! wish-fulfilment dreams we spin to cheat
our timid hearts and ugly Fact defeat!
Whence came the wish, and whence the power to dream,
or some things fair and others ugly deem?
All wishes are not idle, nor in vain
fulfilment we devise — for pain is pain
not for itself to be desired, but ill;
or else to strive or to subdue the will
alike were graceless; and of Evil this
alone is dreadly certain: Evil is.

Blessed are the timid hearts that evil hate,
that quail in its shadow, and yet shut the gate;
that seek no parley, and in guarded room,
though small and bare, upon a clumsy loom
weave tissues gilded by the far-off day
hoped and believed in under Shadows sway.

Blessed are the men of Noahs race that build
their little arks, though frail and poorly filled,
and steer through winds contrary towards a wraith,
a rumour of a harbour guessed by faith.

Blessed are the legend-makers with their rhyme
of things not found within recorded time.
It is not they that have forgot the Night,
or bid us flee to organized delight,
in lotus-isles of economic bliss
forswearing souls to gain a Circe-kiss
(and counterfeit at that, machine-produced,
bogus seduction of the twice seduced).
Such isles they saw afar, and ones more fair,
and those that hear them yet may yet beware.
They have seen Death and ultimate defeat,
and yet they would not in despair retreat,
but oft to victory have turned the lyre
and kindled hearts with legendary fire,
illuminating Now and dark Hath-been
with light of suns as yet by no man seen.

I would that I might with the minstrels sing
and stir the unseen with a throbbing string.
I would be with the mariners of the deep
that cut their slender planks on mountains steep
and voyage upon a vague and wandering quest,
for some have passed beyond the fabled West.
I would with the beleaguered fools be told,
that keep an inner fastness where their gold,
impure and scanty, yet they loyally bring
to mint in image blurred of distant king,
or in fantastic banners weave the sheen
heraldic emblems of a lord unseen.

I will not walk with your progressive apes,
erect and sapient. Before them gapes
the dark abyss to which their progress tends —
if by Gods mercy progress ever ends,
and does not ceaselessly revolve the same
unfruitful course with changing of a name.
I will not treat your dusty path and flat,
denoting this and that by this and that,
your world immutable wherein o part
the little maker has with makers art.
I bow not yet before the Iron Crown,
nor cast my own small golden scepter down.

*

In Paradise perchance the eye may stray
from gazing upon everlasting Day
to see the day-illumined, and renew
from mirrored truth the likeness of the True.
Then looking on the Blessed Land twill see
that all is as it is, and yet made free:
Salvation changes not, nor yet destroys,
garden nor gardener, children nor their toys.
Evil will not see, for evil lies
not in Gods picture but in crooked eyes,
not in the source but in malicious choice,
and not in sound but in the tuneless voice.
In Paradise they no more look awry;
and though they make anew, they make no lie.
Be sure they still will make, not being dead,
and poets shall have flames upon their head,
and harps whereon their faultless fingers fall:
there each shall choose for ever from the All.

MYTHOPOEIA

A alguém que disse que mitos eram mentiras e, portanto, inúteis, mesmo se “respirados através da prata”.

Philomythus a Misomythus

Você vê árvores, e as chama assim,
(pois é o que são e o seu crescer, enfim);
palmilha a terra e com solene passo
pisa um dos globos menores do Espaço:
uma estrela é matéria numa bola
que em matemático trajeto rola
regimentado, gélido, Vazio,
de átomos morrendo a sangue frio.

Por uma Vontade, à qual nos dobramos
mas que nós só de longe captamos,
grandes processos o Tempo completa
de início escuro a incerta meta;
e em página reescrita sem pista,
de letra e margem vária já revista,
eis multidão de formas infinitas,
negras, belas, frágeis ou esquisitas,
cada qual diversa, mas num só rol
de germe, inseto, homem, pedra e sol.
Deus fez pétreas rochas, arbóreas árvores,
terra térrea, estelares fulgores,
e os homens humanos, que andam no chão
e a quem luz e som causam comichão.
O remexer do mar, vento nos galhos,
relva, vacas mugindo nos atalhos,
trovão e raio, aves a cantar,
limo escorrendo a viver e murchar,
cada qual é registrado e impresso
nas contorções do cérebro em recesso.

Mas “árvores” só o são se nomeadas –
e só o foram quando captadas
por quem abriu o hálito da fala,
eco do mundo numa escura sala,
mas nem registro nem fotografia,
sendo risada, juízo e profecia,
resposta dos que então sentiram dentro
profundo movimento cujo centro
é o existir de planta, fera, estrela:
cativos que grade serram sem vê-la,
cavando o sabido da experiência
abrindo o espírito sem consciência.
Grande poder de si mesmos criaram,
e atrás de si os elfos contemplaram
que labutavam nas forjas da mente
luz e treva entretecendo em semente.

Não vê estrelas quem não as vê primeiro
qual prata viva explodindo em chuveiro
chama florida sob canção antiga
cujo eco mesmo de longa cantiga
o perseguiu. Não há um firmamento,
só vazio, se não tenda, paramento
por elfos desenhado; não há terra,
se não ventre de mãe que a vida encerra.

Mentiras não compõem o peito humano
que do único Sábio tira o seu plano,
e o recorda. Inda que alienado,
algo não se perdeu nem foi mudado.
Des-graçado está, mas não destronado,
trapos da nobreza em que foi trajado,
domínio do mundo por criação:
O deus Artefato não é seu quinhão,
homem, sub-criador, luz refratada
em quem matiz branca é despedaçada
para muitos tons, e recombinada
forma viva mente a mente passada.
Se todas as cavas do mundo enchemos
com elfos e duendes, se fizemos
deuses com casas de treva e de luz,
se plantamos dragões, a nós conduz
um direito. E não foi revogado.
Criamos tal como fomos criados.

Sim! Sonhos tecemos para enganar
os corações e o Fato derrotar!
De onde o desejo e o poder pra sonhar,
e as coisas belas ou feias julgar?
Querer não é inútil, nem calor
procuramos em vão – pois dor é dor,
não de ser desejada, mas perversa;
ou ceder a uma vontade adversa
ou resistir seria igual. E o Mal,
desse apenas isto é certo: É o Mal.

Bendito o tímido que o mal odeia,
treme na sombra, e o portão cerceia;
que não quer trégua, e em seu solar,
mesmo pequeno, num velho tear
tece pano dourado à luz do dia
sonhado por quem na Sombra porfia.

Benditos os que de Noé descendem
e com suas arcas frágeis o mar fendem,
sob ventos contrários buscando sé,
rumor de um porto indicado por fé.

Benditos os que em rima fazem lenda
ao tempo não-gravado dando emenda.
Não foram eles que a Noite esqueceram,
ou deleite organizado teceram,
ilhas de lótus, um céu financeiro,
perdendo a alma em beijo feiticeiro
(e falso, aliás, pré-fabricado,
falaz sedução do já-deturpado).

Tais ilhas vêem ao longe, e outras mais belas,
e os que os ouvem podem girar as velas.
Viram a Morte e a derrota final,
sem em desespero fugir do mal,
mas à vitória viraram a lira,
seus corações qual legendária pira,
iluminando o Agora e o Que Tem Sido
com brilho de sóis por ninguém vivido.

Quisera com os menestréis cantar
com minha corda o não-visto tocar.
Quisera navegar com os marinheiros
sobre tábuas em montes altaneiros
e viajar numa vaga demanda,
que alguns ao fabuloso Oeste manda.
Quisera entre os tolos ser sitiado,
que em remoto forte, de ouro guardado,
impuro e escasso, recriam leais
imagem tênue de pendões reais,
ou em bandeiras tecem o brasão
fulgurante de não-visto varão.

Não seguirei seus símios progressivos,
eretos e sapientes. Caem vivos
nesse abismo ao qual seu progresso tende –
se por Deus o progresso um dia se emende
e não sem cessar revolva o batido
curso sem fruto com outro apelido.
Não trilharei sua rota sem vacilo,
que a isto e aquilo chama isto e aquilo,
mundo imutável onde não tem parte
o criador com sua pequena arte.
Eu não me curvo à Coroa de Ferro,
nem meu cetrozinho dourado enterro.

*

No Paraíso pode o olho vagar
do Dia imorredouro contemplar
a ver o que ele ilumina, e nova
Verdade ter com isso como prova.
Olhando a Terra Bendita verá
que tudo é como é, e livre será:
A Salvação não muda, nem destrói,
jardim, criança ou brinquedo corrói.
Mal não verá, pois este está imerso
não no que Deus fez, mas no olhar perverso,
não na fonte, mas em escolha errada,
e não no som, mas na voz quebrantada.
No Paraíso não estão mais confusos;
criam novo, sem mentira nos usos.
Criarão, é certo, não estando mortos,
poetas terão chamas como votos,
e harpas que sem falta tocarão:
do Todo cada um terá quinhão.