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Em entrevista, Simon Tolkien fala sobre o avô J.R.R. Tolkien e seu legado

O pessoal do fan site TheOneRing.net divulgou uma antiga mas muito interessante entrevista concedida por Simon Tolkien ao site Mythopoeic Society. Nela, o neto de J. R. R. Tolkien relembra os avós e a época em que seu pai, Christopher Tolkien, começou a reorganizar os textos que compõem hoje O Silmarillion, pouco tempo depois da morte do autor em 1973.

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Entrevista com Lee Pace, o Rei-Élfico Thranduil

O ator estadunidense Lee Pace, que interpreta o Rei-Élfico Thranduil em O Hobbit: A Desolação de Smaug, concedeu uma entrevista à revista francesa Effets-Speciaux.info onde falou sobre as bases para o desenvolvimento do seu personagem e as motivações e atitudes de Thranduil. Apesar de concedida antes da estreia do filme, a entrevista ajuda a compreender um pouco mais o personagem dentro do contexto da adaptação. Acompanhe!

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“O trabalho de meu pai teve as vísceras arrancadas” – diz Christopher Tolkien

ChristopherTolkien_Valinor-EntrevistaO filho e herdeiro de J. R. R. Tolkien, e executor oficial de seu espólio e responsável pela publicação de suas obras póstumas, Christopher Tolkien, falou à imprensa pela primeira vez em décadas — para o francês  Le Monde (e também publicado no inglês WorldCrunch) — e lançou luz sobre sua relação com seu pai e partilhou seu profundo descontentamento com as adaptações cinematográficas dos livros do autor, O Senhor dos Anéis e O Hobbit, pelo diretor Peter Jackson, e com a exploração excessivamente comercial do legado de seu pai. A entrevista foi concedida em sua casa, no sul da França, em 09 em julho de 2012, à repórter francesa Raphaëlle Rérolle.

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Parece algo raro, para não dizer excepcional. Em uma época em que a maioria das pessoas vendem suas almas por notoriedade, Christopher Tolkien não fala à imprensa há 40 anos. Nada de entrevistas, nem anúncios, nem reuniões – nada.

Foi uma decisão que ele tomou com a morte de seu pai, John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), autor inglês do imensamente famoso O Senhor dos Anéis (três volumes publicados em 1954 e 1955), e de um vasto mundo, com cerca de 150 milhões de livros vendidos e traduzido em 60 idiomas.

Este silêncio de longa data foi simplesmente por capricho? Certamente que não. O filho de J. R. R. Tolkien [hoje com 88 anos, completados em 21 de novembro de 2012] é a pessoa mais calma que se possa imaginar. Um inglês distinto e com bastante sotaque, e que se estabeleceu no sul da França, em 1975, com sua esposa Baillie e seus dois filhos. Será que ele guardava silêncio só porque não dava a mínima? Ainda menos provável. Durante todos esses anos de silêncio, a sua vida tem sido de incessante trabalho, organizando, de forma quase hercúlea, os textos inéditos de seu pai, de quem ele é o executor literário.

Nada disso. A reserva de Christopher Tolkien tem uma explicação muito diferente: a enorme distância, quase um abismo, que foi criada entre os escritos de seu pai e seus descendentes comerciais [filmes, games e etc.]. Trabalhos que ele não reconhece, especialmente desde que o cineasta Peter Jackson fez O Senhor dos Anéis, três filmes de sucesso fenomenal, entre 2001 e 2003. Ao longo dos anos, uma espécie de universo paralelo se formou em torno do trabalho de Tolkien, um mundo de imagens frenéticas e de estatuetas, baseados nos cultuados livros originais, mas muito diferente deles, como uma ilha que se afastou bastante do continente.

 Esta galáxia comercial agora é de vários bilhões de dólares – e a maior parte disso não vai para os herdeiros de Tolkien, e, portanto, dificulta a gestão de sua herança pela família, que é polarizada não sobre as imagens ou objetos, mas pelo respeito às palavras de Tolkien. Através de uma curiosa coincidência, a situação lembra o enredo de O Senhor dos Anéis, onde tudo começa com um problema herdado: Frodo Bolseiro, o herói, recebe de Bilbo o Anel mágico famoso, cuja posse atrai a cobiça em cada lugar, e consequentemente provoca o mal.

Aguardando a estreia mundial de um novo filme de Peter Jackson, desta vez inspirado no O Hobbit (1937), os Tolkien estavam se preparando para lidar com o estresse de uma infinidade de pedidos. “Nós vamos ter que erguer barricadas”, diz a esposa de C. Tolkien, Baillie, com um sorriso.

“Desespero Intelectual”

Apesar disso, porém, Christopher Tolkien aceitou falar com o Le Monde sobre este legado, um patrimônio que tem sido sua vida de trabalho, mas que também se tornou a fonte de certo “desespero intelectual.” Porque, afinal, o legado de J. R. R. Tolkien é tanto a história de uma transmissão literária extraordinária de um pai para um filho, como é a história de um mal-entendido. As mais conhecidas obras, e que têm obscurecido todo o resto, eram apenas um epifenômeno aos olhos de seu autor. Elas são só um cantinho do vasto mundo de Tolkien, cujos direitos ele mesmo vendeu, pelo menos em parte.

Em 1969, o escritor vendeu os direitos para o cinema, juntamente com os direitos de produtos derivados, de O Hobbit e O Senhor dos Anéis, para a United Artists, por 100.000 libras esterlinas, uma soma considerável na época, mas insignificante quanto ao valor atual.

Este dinheiro foi destinado à herança de seus filhos e a pagar os seus impostos, que eram muito altos durante o governo trabalhista no Reino Unido da época. Ele também temia que as mudanças nas leis de direitos autorais americanas fossem prejudicar os direitos de seus filhos. Pois O Senhor dos Anéis tinha se tornado imediatamente um sucesso meteórico, especialmente nos Estados Unidos.

Exceto em Oxford, onde as críticas de seus colegas afetaram muito o escritor, e seu trabalho foi encarado como fuga, o entusiasmo foi geral. “A mania Tolkien era muito parecida com a que se tem hoje com Harry Potter”, observa Vicente Ferré, professor na Universidade de Paris-XIII, que organiza a publicação de um Dicionário Tolkien [em francês] que irá aparecer no outono [europeu]. A partir da década de 1960, O Senhor dos Anéis se tornou um símbolo da contracultura, em particular nos Estados Unidos. “A história de um grupo de pessoas que se rebelam contra a opressão, com um fundo de fantasia, serviu como inspiração para militantes de esquerda, sobretudo, em Berkeley, na Califórnia.

Na época da guerra no Vietnã, slogans como “Gandalf para Presidente” ou “Frodo vive!” começaram a aparecer. E um sinal que mostra que a lenda persiste: durante a segunda guerra do Iraque, adesivos satíricos foram impressos que diziam: “Frodo falhou, Bush tem o Anel”.

Um Retiro na França

Exceto O Hobbit e O Senhor dos Anéis, Tolkien publicou muito pouco durante a sua vida, e certamente nada se iguala ao sucesso de seus dois best-sellers. Quando ele morreu, em 1973, uma parte gigantesca de seu trabalho permanecia inédita.

O Hobbit e O Senhor dos Anéis são realmente episódios que apenas acontecem em uma história que tem milênios. Christopher Tolkien trabalhou para trazer toda esta mitologia, parcialmente fragmentada, à luz e de uma forma muito incomum. Ao invés de contentar-se com os livros já publicados, ele foi trabalhar em algo que se tornou uma verdadeira paixão, como fica evidente quando ele mesmo fala: um trabalho de exumação literária.

Ele recebeu a repórter de forma bondosa e tranquila, em sua própria casa, que fica entre pinheiros e oliveiras. Ela é bem melhor do que uma toca hobbit escondida no chão, e não é um local fácil de encontrar. Por uma estrada longa e poeirenta, você vê uma casa cor de rosa. O lugar está entre flores silvestres e uma bonita relva, sem quaisquer sinais óbvios que indique grandes fortunas. Um ambiente calmo e atemporal reina aqui, exatamente a imagem de seus ocupantes.

O homem que vive aqui é o terceiro dos quatro filhos de J. R. R. Tolkien e, com Priscilla, sua irmã, é único sobrevivente. Christopher é o executor testamentário de seu pai e diretor-geral da Tolkien Estate, a empresa que gerencia e distribui os royalties de direitos autorais para os herdeiros: Priscilla e Christopher, seis netos e os 11 bisnetos de J. R. R. Tolkien.

A empresa é de tamanho modesto, com apenas três funcionários, um dos quais é o filho de Christopher e Baillie, Adam, e é assessorada em Oxford por um escritório de advocacia. A ela também inclui um ramo dedicado à filantropia, a Tolkien Trust, que está ocupada principalmente com projetos educacionais e humanitários.

Mas é a partir de seu retiro francês que Christopher Tolkien tem trabalhado nos livros e respondido as solicitações. O interior é simples e acolhedor, com livros e tapetes, poltronas confortáveis, e fotos da família. Em uma das imagens está J. R. R. Tolkien, seus dois filhos mais velhos, sua mulher e um bebê chamado Christopher nos braços de sua mãe. Desde o início, sem dúvida, foi o público mais receptivo para o trabalho de seu pai, e o que mais se aborreceu, mais tarde, com a sua evolução.

Uma Imaginação Extraordinária

JohnRonaldReuelTolkien_VaLiNoR2013O mal-entendido começou com O Hobbit, no meio dos anos 1930. Até então, Tolkien tinha publicado apenas um ensaio de renome, Beowulf, o grande poema épico povoado de monstros e que foi escrito na Idade Média. Sua ficção, iniciada durante a Primeira Guerra Mundial [1914-1918], permaneceu invisível.

Tolkien era um linguista brilhante, especialista em Inglês Antigo, professor em Oxford e dotado de uma extraordinária imaginação. Sua paixão foi para as línguas, e ele tinha inventado várias delas, e então construiu um mundo para protegê-las. Por “mundo” entenda-se não apenas histórias, mas a história, geografia, costumes, em um universo inteiro, que serviria como um fundo para seus contos.

Em 1937, assim que foi publicado, O Hobbit imediatamente se tornou um sucesso de crítica e público, a ponto de seu editor, então Allen and Unwin, exigir uma sequência com urgência. Tolkien, no entanto, não quis continuar na mesma linha. Ele tinha quase terminado uma narrativa dos tempos mais antigos do seu universo, o que ele chamou de O Silmarillion. Muito difícil, decretou a editora, que continuou a assediá-lo por algo novo. O escritor, um pouco sem entusiasmo, aceitou o projeto de escrever uma nova história. Na verdade, ele estava prestes a pôr em pé a primeira pedra do que viria a ser O Senhor dos Anéis.

Mas ele não se esqueceu de O Silmarillion, nem seu filho. As mais antigas memórias de Christopher Tolkien estão ligadas à história das origens de seu mundo imaginário e que seu pai gostava de compartilhar com os filhos. “Por mais estranho que possa parecer, eu cresci no mundo que ele criou”, explica. “Para mim, as cidades de O Silmarillion são mais reais do que a Babilônia”.

Em uma prateleira na sala de estar, não muito longe da bonita poltrona de madeira em que Tolkien escreveu O Senhor dos Anéis, há um estrado coberto por um pequeno bordado gasto. Este é o lugar onde Christopher, com 6 ou 7 anos, parava para ouvir as histórias de seu pai. “Meu pai não tinha dinheiro para pagar um secretário”, diz ele. “Eu fui o único que escreveu e desenhou os mapas que ele esboçou”. “À noite, recorda, ele entrou no meu quarto e me contou, parado em frente à lareira, grandes histórias, como a de Beren e Lúthien, por exemplo. Tudo que parecia interessante vinha de sua maneira de ver as coisas”.

Pouco a pouco, a partir de final de 1930, O Senhor dos Anéis tomou forma. Christopher alistou-se na Royal Air Force e partiu para uma base aérea na África do Sul, em 1943, onde a cada semana ele recebia uma longa carta de seu pai, assim como os capítulos da novela que estava a caminho. “Eu era um piloto de caça. Quando chegava, lia um capítulo”, diz ele, divertindo-se, mostrando uma carta na qual o pai pede seu conselho sobre a formação de um nome próprio.

A primeira coisa que ele se lembra de sentir após a morte de seu pai foi um senso de grande responsabilidade. Nos últimos anos de sua vida, Tolkien começou a trabalhar novamente em O Silmarillion, tentando em vão trazer alguma ordem para a narrativa, como na escrita de O Senhor dos Anéis, que foi buscar elementos dessa antiga mitologia, e que tinha causado alguns anacronismos e discrepâncias em O Silmarillion.

“Tolkien não poderia fazê-lo”, observa Baillie. Por um tempo ela havia trabalhado como assistente do escritor, e mais tarde em uma edição de suas coleções, chamada The Father Christmas Letters [As Cartas de Papai Noel, recentemente publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes]. “Ele estava atolado em detalhes cronológicos, reescreveu tudo, tornou-se mais e mais complicado.” Entre pai e filho, entendeu-se que Christopher iria assumir a tarefa se o escritor morresse sem terminá-la.

Um Tesouro Escondido

Ele também encontrou documentos de seu pai após a morte: 70 caixas de arquivos, cada uma recheada com milhares de páginas inéditas. Narrativas, contos, palestras, poemas de 4.000 linhas mais ou menos completos, letras e mais letras, todas em uma desordem assustadora. Quase nada foi datado ou numerado, apenas caixas com um recheio desregrado.

“Ele tinha o hábito de viajar entre Oxford e Bournemouth, onde muitas vezes ficou”, relata Baillie Tolkien. “Quando ele saia, colocava montes de papéis em uma mala que sempre manteve consigo. Quando chegava, ele às vezes tirava uma folha qualquer, de forma aleatória, e começava com ela!” Por tudo isso, os manuscritos eram quase indecifráveis, porque sua letra era muito apertada.

No entanto, neste emaranhado improvável, existe um tesouro, não só O Silmarillion, mas as versões quase completas de todos os tipos de lendas apenas vislumbradas em O Hobbit e O Senhor dos Anéis – um arquipélago quase submerso, cuja existência Christopher conhecia parcialmente. Foi então que o trabalho ganhou uma segunda vida – assim como Christopher. Ele se demitiu do New College, em Oxford, onde também se tornou professor de Inglês Antigo, e atirou-se de cabeça na edição do trabalho de seu pai. Ele deixou a universidade sem arrependimentos, que (puxando pela memória, nota-se seu brilho nos olhos) chegou a jogar fora a chave que cada professor recebe e que dever ser exibida no final do ano, em uma cerimônia ritual.

Primeiro na Inglaterra, depois na França, ele remontou as partes de O Silmarillion, tornando-o mais coerente, acrescentou e preencheu aqui e ali, e publicou o livro em 1977, com algum remorso. “Imediatamente pensei que o livro estava bom, mas um pouco falso, no sentido de que eu tive que inventar algumas passagens”, explica ele. Na época, ele ainda tinha um sonho preocupante. “Eu estava no escritório do meu pai, em Oxford. Ele entrou e começou a procurar algo com grande ansiedade. Então eu percebi com horror que era O Silmarillion, e eu estava apavorado com a ideia de que ele iria descobrir o que eu tinha feito”.

Enquanto isso, a maioria dos manuscritos que ele havia trazido para a França, empilhados na traseira de seu carro, teve que voltar para Oxford. A pedido do resto da família, nervosa com esta migração, os papéis voltaram da mesma forma como eles haviam chegado, à Biblioteca Bodleian, onde eles estão atualmente mantidos e agora estão sendo digitalizados. Portanto, Christopher teve de realizar seu trabalho com fotocópias, o que foi um grande problema. Foi impossível, por exemplo, notar a cor da tinta ou a textura do papel quando se tentou datar os documentos. “Mas eu tinha a sua voz no meu ouvido”, diz Christopher Tolkien. Desta vez, ele se tornaria, diz, “o historiador do trabalho, seu intérprete”.

Trabalho Árduo e Influências

Por 18 anos trabalhou a toda velocidade em The History of Middle-Earth ["A História da Terra-média", não publicados no Brasil], a edição gigantesca de 12 volumes que traça a evolução do mundo de Tolkien. “Durante todo esse tempo, eu o assisti datilografar com três dedos em uma máquina antiga que pertenceu a seu pai”, observa a esposa. “Você podia ouvi-lo por todo o caminho até a rua!”

Texto manuscrito para O Senhor dos Anéis

Texto manuscrito para O Senhor dos Anéis

Era uma mina de ouro da literatura, mas também um trabalho árduo, que deixou Christopher esgotado, para não dizer deprimido. Mas não se preocupe, ele não iria parar por aí. Em 2007, ele publicou Os Filhos de Húrin, um romance póstumo de Tolkien, recomposto a partir de obras que apareceram aqui e ali. Ele vendeu 500.000 cópias em inglês e foi traduzido para 20 idiomas.

Como esta nova geografia literária que se levantou de sua velha máquina de escrever, o universo de Tolkien também se proliferou no mundo exterior, de forma totalmente independente. Após a morte de Tolkien, o poder de sua imaginação logo deu origem a novas obras, e às vezes turbulentas. “A flexibilidade desses livros explica seu sucesso”, comenta Vicente Ferré. “É uma obra que cria um mundo, onde os leitores podem entrar e se tornar seus atores”.

A influência do escritor no campo literário foi sentida na fantasia em geral, onde suas criações tinham reativado um gênero que datava do século 19. A partir de 1970 e especialmente 1980, um gênero de fantasia heroica foi desenvolvido, rico em “Tolkienismo”, com fundos lendários, com elfos e dragões, magia e batalha contra as forças do mal.

“Seu mundo, como o dos contos de fadas dos irmãos Grimm, tornou-se parte do imaginário do mundo ocidental”, escreve o inglês Thomas Alan Shippey, em um ensaio dedicado a Tolkien. Na França e em outros países, muitos editores têm investido neste mercado particularmente lucrativo. Mais de quatro milhões de livros do gênero foram vendidos apenas em 2008.

Primeiro nos Estados Unidos, então em toda a Europa e mesmo na Ásia, o gênero se tornou uma indústria enorme, logo incluindo histórias em quadrinhos, jogos de RPG, jogos de video game, filmes e até mesmo música, como o rock progressivo. Na década de 2000, “fan fictions” chegaram à internet, cada uma preenchendo o mundo de Tolkien de sua própria maneira.

O Senhor dos Anéis, metamorfoseado em uma espécie de entidade autônoma, acabou vivendo sua própria vida. Ele inspirou George Lucas, autor da série Star Wars, cujo primeiro filme foi lançado em 1977. Ou o grupo de rock Led Zeppelin, que incorporou as referências ao livro em várias músicas, incluindo “The Battle of Evermore”.

Mas nada disso incomodava a família até os filmes de Peter Jackson. Foi o lançamento do primeiro filme da trilogia, em 2001, que mudou a natureza das coisas. Primeiro, ele teve um efeito prodigioso em vendas de livros.

“Em três anos, de 2001 a 2003, 25 milhões de cópias de O Senhor dos Anéis foram vendidas – 15 milhões em Inglês e 10 milhões em outras línguas. No Reino Unido, as vendas subiram 1000% após o lançamento do primeiro filme da trilogia, A Sociedade do Anel”, diz David Brawn, editor da HarperCollins, que detém os direitos de publicação dos livros de Tolkien em Língua Inglesa, exceto nos Estados Unidos.

Efeito Contagioso

Muito rapidamente, no entanto, a visão do filme, concebido na Nova Zelândia pelos conhecidos ilustradores Alan Lee e John Howe, ameaçou invadir a obra literária. Sua iconografia inspira a maioria dos jogos de video game e de merchandising. Logo, por um efeito contagioso, o próprio livro tornou-se menos uma fonte de inspiração para os autores de fantasia do que o filme, e depois os jogos inspirados no filme, e assim por diante.

O frenesi fez os advogados da família de Tolkien dar outra olhada no seu contrato, que estipulava que a Tolkien Estate deveria receber uma percentagem dos lucros se os filmes fossem rentáveis. Com as cifras incríveis alcançadas, os advogados da família sacudiram a poeira do contrato e exigiram da New Line, a produtora americana dos filmes, que havia comprado os direitos de filmagem de O Senhor dos Anéis e O Hobbit, a sua fatia do bolo. E surpresa! Cathleen Blackburn, advogada da Tolkien Estate em Oxford, relata ironicamente: “Esses filmes extremamente populares, aparentemente, não fizeram lucro algum! Recebemos declarações dizendo que os produtores não deviam à Tolkien Estate sequer um centavo”.

O caso durou de 2003 a 2006, e então as coisas tornaram-se mais complicadas. Os advogados do espólio de Tolkien, os da Tolkien Trust e da editora HarperCollins, exigiram US $ 150 milhões em danos, bem como os direitos sobre as adaptações seguintes da obra de Tolkien. Uma ação judicial foi necessária antes que um acordo fosse alcançado em 2009. Os produtores pagaram 7,5% de seus lucros para o Tolkien Estate, mas a advogada, que se recusa a dar um número, acrescenta que “é muito cedo para dizer quanto vai ser no futuro”.

No entanto, a Tolkien Estate não pode fazer nada sobre a maneira como a New Line adapta os livros. No filme O Hobbit, por exemplo, o público vai descobrir personagens que Tolkien nunca colocou lá, especialmente personagens mulheres. O mesmo vale para os produtos, que variam de toalhas de chá a caixas de nuggets, com uma infinita variedade de brinquedos, artigos de papelaria, camisetas, jogos, etc. Não apenas os títulos dos livros em si, mas também os nomes de seus personagens são marcas registradas.

“Estamos no banco de trás do carro”, comenta Cathleen Blackburn. Em outras palavras, a Tolkien Estate pode fazer pouco, apenas olhar a paisagem, exceto em casos extremos – por exemplo, recentemente foi impedido o uso do nome O Senhor dos Anéis em máquinas caça-níqueis, em Las Vegas, ou para parques de diversões. “Fomos capazes de provar que nada no contrato original estipulava esse tipo de exploração”.

PeterJacksonlordotherings-IanMcKellenFilmes de Ação

“Eu poderia escrever um livro sobre os pedidos idiotas que tenho recebido”, suspira Christopher Tolkien. Ele está tentando proteger o trabalho literário de seu pai do circo que se desenvolveu em torno dele. Em geral, a Tolkien Estate recusa quase todos os pedidos. “Normalmente, os executores do espólio querem promover um trabalho tanto quanto for possível”, observa Adam Tolkien, filho de Christopher e Baillie. “Mas nós somos exatamente o oposto. Queremos colocar os holofotes sobre o que não é O Senhor dos Anéis”.

A Tolkien Estate não foi capaz de impedir um desenho animado americano chamado “The Lord of The Beans”, mas uma versão em história em quadrinhos foi interrompida. Esta política, no entanto, não tem protegido a família da realidade de que o trabalho agora pertence a um público gigantesco, culturalmente muito longe do escritor que o concebeu.

Convidados a conhecer Peter Jackson, a família Tolkien recusou. Por quê? “Eles arrancaram as vísceras do livro, tornando-o um filme de ação para jovens entre 15 e 25 anos”, diz Christopher. “E parece que O Hobbit será o mesmo tipo de filme”.

O divórcio tem sido sistematicamente conduzido pela lógica de Hollywood. “Tolkien tornou-se um monstro, devorado por sua própria popularidade e absorvido pelo absurdo da nossa época”, Christopher Tolkien observa com tristeza. “Ampliou o abismo entre a beleza e a seriedade do trabalho, e o que ele se tornou. E já foi longe demais para mim. A comercialização reduziu o impacto estético e filosófico da obra a nada. Há apenas uma solução para mim: Virar meu rosto para outro lado”.

 

É difícil dizer quem ganhou essa batalha silenciosa entre a popularidade e o respeito para com o texto. Nem quem, finalmente, tem o Anel. Uma coisa é certa: de pai para filho, uma grande parte da obra de J. R. R. Tolkien já emergiu de suas caixas, graças à infinita perseverança de seu filho.

Valinor entrevista: John Howe

john_howe_2003.jpgPara quem não lembra, há algum tempo atrás, abrimos um canal para os usuários da Valinor fazerem suas perguntas a John Howe e nós nos responsabilizaríamos em levá-las para ele. As perguntas foram enviadas e já recebemos as respectivas respostas.

 

Lembrando que John Howe trabalhou na Trilogia de O Senhor dos Anéis em Novembro de 1997.

Segue a baixo a entrevista:

Pergunta: Quais materiais você usa para fazer esses trabalhos incríveis?

JH
: Normalmente, eu uso tintas e aquarelas.

Pergunta: Qual é o tempo médio que você leva para fazer uma ilustração?

JH: Isso depende. Para colorir um grande espaço, cerca de 2 semanas ou um pouco mais.

Pergunta: Qual das suas ilustrações sobre Tolkien é a mais bem sucedida?

JH: Eu realmente não sei, mas eu suponho que seria a do Gandalf, o Cinzento.

Pergunta: Além de O Silmarillion, do Senhor dos Anéis e O Hobbit, você ilustrou algum outro trabalho de Tolkien?

JH: Eu fiz capas de livro para toda a coleção da História da Terra-média, assim como alguns outros Livros de Tolkien, como "Sir Gawain" e "Finn & Hengist".

Pergunta: Quando começou a se interessar pelas Obras de Tolkien?

JH: Quando eu estava no colegial, eu suponho. Eu realmente não recordo exatamente.

Pergunta: Quais são suas expectativas para O Hobbit?

JH: Tenho certeza de que vai ser fantástico, Guillermo del Toro é um fabuloso cineasta.

Pergunta: Você pretende participar do filme de O Hobbit?

JH: Eu amaria trabalhar em O Hobbit. Tenho certeza que seria muito emocionante.

Pergunta
: Dentro do universo de Tolkien, qual seu personagem favorito? Por quê?

JH: Eu realmente não tenho personagens favoritos nos livros. De fato, isso não é rigorosamente verdade, eu tenho uma lista de favoritos que gosto de desenhar, e uma lista de favoritos enquanto leitor. (Um Balrog é mais divertido de se desenhar do que um hobbit, mas obviamente, ele não pussui uma personalidade complexa.) Eu sou muito tocado por trágicos personagens como Túrin, no entanto. Éowyn é uma personagem que gosto muito também.

Pergunta: Qual dos livros de Tolkien é o seu favorito?

JH
: Eu realmente gosto muito de O Silmarillion e algumas das histórias de História da Terra-média.

Pergunta: Na sua opinião, qual a melhor pintura tolkieniana feita por um ilustrador que não você?

JH: Essa é difícil! Provavelmente a ilustração de Alan Lee de Boromir e Frodo em Amon Hen.

Pergunta: Quais ilustrações você enviou para o próprio Tolkien?

JH: Tolkien morreu quando eu ainda estava no colegial. (Eu não sou TÃO velho!).

Pergunta: Além das ilustrações baseadas em Tolkien, que outro tipo de ilustrações você gosta de fazer?

JH: Na maior parte, trabalhos criados pela imaginação.

Pergunta: Com quantos anos você começou a desenhar?

JH: Eu sempre desenhei. Eu não consigo me lembrar de não desenhar.

Pergunta: Você acha possível outras obras de Tolkien que contam com desenhos seus, como O Silmarillion, também virarem filmes ou séries de televisão?

JH: Não, eu acho que não. Pelo menos, não num futuro próximo.

Pergunta
: Você pretende fazer alguma outra ilustração do Universo de Tolkien?

JH: Certamente!

Pergunta: Você gosta do resultado de seu trabalho? Você os faz baseado somente na sua imaginação e interpretação própria ou aceita sugestões de outras pessoas?

JH: Eu nem sempre fico feliz com o resultado, certamente.
Eu NUNCA pego sugestões de outras pessoas (isso é ilustração, não política), com, certamente, exceção de Peter para o trabalho do filme. (Ok, quando minha esposa diz que algo não está certo, eu tento ouvi-la.)

Pergunta: Quando você conheceu os livros de Tolkien?

JH: Eu li O Hobbit quando era pequeno, mas não me lembro em absoluto. Eu li O Senhor dos Anéis quando tinha 12 anos ou algo assim.

Pergunta: Seu trabalho com desenhos começou antes ou depois de ler os livros?

JH: Eu faço desenhos desde quando eu pude segurar um lápis. Eu fiz o meu primeiro desenho inspirado em O Senhor dos Anéis quando eu estava em cerca dos meus 15 ou 16 anos ou algo assim, eu acho. (Eles eram MUITO ruins.)

Pergunta: Como você desenvolveu sua capacidade técnica como ilustrador?

JH: Através do trabalho na ilustração. Eu também fui à escola de arte por 3 anos.

Pergunta: A sua opinião a respeito das asas dos Balrogs, mudou?

JH: Ainda não, mas estou aberto a sugestões. (Na verdade, espera, na questão 16 eu respondi que eu não estava).


 (Gostaria de agradecer a usuária Luz do Entardecer pela revisão da entrevista).

 

Valinor Entrevista: Ives Gandra da Silva Martins Filho

ives.jpgDe todas as coisas que a Valinor nos propicia, talvez esta seja a que mais gosto: poder entrar em contato com pessoas que produzem pelo fandom de todas as formas e de certa forma com bastante humildade. Foi por isto que entramos em contato com Ives Gandra da Silva Martins Filho, ministro do Tribunal Superior do Trabalho e e professor de Filosofia de Direito.

 
Ives é o autor do livro O Mundo do Senhor dos Anéis, que foi publicado em sua primeira versão pela Editora Madras e recentemente saiu em sua segunda versão, publicada pela editora Martins Fontes. O livro funciona como um guia para os livros de Tolkien, com tabelas, resumo de fatos ocorridos e textos explicativos, além de contar com belas ilustrações dos irmãos Hildebrandt e de Ted Nasmith. Ted inclusive veio ao Brasil em 2004 a convite do próprio Ives (os dois possuem uma longa amizade), onde deu entrevistas e expôs seus trabalhos.

Ao longo das últimas semanas entramos em contato com o ministro Ives, que nos foi extremamente solícito e nos concedeu duas grandes felicidades. A primeira vocês podem acompanhar abaixo na bacana entrevista concedida por email e a segunda vocês acompanharão sempre no primeiro domingo de cada mês: Ives  manterá uma coluna mensal na Valinor, e já começa agora, dia 05 com um belo texto publicado originalmente na revista Communio (set-dez/2007).

Valinor: Como se tornou fã de Tolkien? Quando? Com qual edição?
Ives Gandra da Silva Martins Filho: Em 1980, um amigo me falou do SDA e comecei a ler, na edição da ArteNova. Fiquei cativado. Em 1990, reli a obra, na edição portuguesa da Europa-América. Descobrindo os outros livros de Tolkien, fui completando a leitura e o conhecimento da saga dos anéis do poder.

Valinor: Foi inusitado ver um livro sobre Tolkien sendo publicado por um ministro. De onde partiu a idéia do livro?
Ives: Quando comecei a ler os Contos Inacabados de Númenor, vi que precisava ter na cabeça a "história" completa da Terra Média, pois os Contos completavam partes dos outros livros. Daí que fiz um resumo dos livros para poder me situar. Uma das revisoras da principal editora pela qual publico meus livros jurídicos e filosóficos, vendo o resumo que eu havia feito, sugeriu e incentivou que publicasse o resumo, fazendo um adendo com comentários à vida e obra de Tolkien. Os resumos eram dos anos 90.

Valinor: De certa forma o senhor lida com um público bastante conservador. O fato de ter lançado uma obra sobre um livro de fantasia gerou preconceitos ou atrapalhou de alguma forma?
Ives: Naturalmente, houve brincadeiras, com as quais me diverti: o ministro Ives agora está mais preocupado com elfos e hobbits…  O presidente do Tribunal, na época, de forma carinhosa, comentou que a minha foto na orelha do livro parecia a de um personagem do livro (porque saiu de toga), à exceção dos óculos… Na edição seguinte pedi para reduzir os dados pessoais da orelha da capa e colocar foto mais descontraida, com o Ted Nasmith.

Valinor: O senhor publicou uma segunda versão do seu livro, pela Martins Fontes. Como surgiu a idéia de republicar por outra editora? Quais os diferenciais?
Ives: A Martins Fontes é a editora que publica no Brasil as obras de Tolkien. Nada melhor do que sair por ela o MSdA. A edição saiu muito caprichada, com revisão apurada, acréscimos na análise da obra de Tolkien e novas tabelas comparativas quanto à tradução de nomes. Gostei bastante da nova edição e o Ted Nasmith também, quando lhe enviei o livro.  

Valinor: O que Tolkien e suas obras significam para o senhor?
Ives: Essa é uma pergunta que não se responde de bate-pronto. Faz a gente refletir. Qual o papel de um livro na nossa vida? Há livros que marcam. E por quê? Porque servem de paradigma. Todos nós nos pautamos por exemplos. A juventude tem os seus ídolos, tantas vezes vazios. E o SdA é um livro de valores perenes, com personagens que podem servir de paradigmas, em suas grandezas e misérias. O que me atraiu + no livro foi a sua completude, como um universo acabado. Lembrou-me muito o ‘Guerra e Paz’ de Tolstoi, que tanto me atraiu na juventude, como um livro assim: uma estória que prende e estimula. Lembro-me que, estando na fazenda de meus pais em Avaré, podendo andar a cavalo, pescar no açude, jogar bola ou passear, ficava horas a fio na rede, lendo o romance da época napoleônica, como se o mundo real fosse esse. Algo parecido ocorreu com o SdA. Poucos livros têm essa capacidade do atrair tanto.

Valinor: Qual das obras de Tolkien o senhor mais gosta?
Ives: Naturalmente o SdA. No entanto, também gostei imensamente do Silmarilion, como visão panorâmica do universo tolkiano.

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Valinor: Como o sr. vê a conexão em ‘On Fairy Stories" entre as mitologias humanas, inclusive a de Tolkien, e o Evangelho?
Ives: Tolkien sendo católico não deixou de permear todos os seus escritos com os valores morais e cristãos. Muito do seu atrativo está justamente na nobreza de sentimentos que se respira em suas obras, derivada de sua inspiração maior. E esses princípios são, paradoxalmente, os mesmos que norteiam os chamados ‘Contos de Fadas’. Outro autor inglês com o mesmo perfil de Tolkien foi Gilbert Keith Chesterton. Neste ano se comemora o centenário de sua obra ‘Ortodoxia’. Pois bem, nela temos um capítulo dedicado à ‘Ética da Terra dos Elfos’, no qual desenvolve a idéia de que ambas as éticas – a cristã e a do país das fadas – se baseia num princípio básico comum: o princípio da felicidade condicional. Remeto à leitura desse capítulo do Ortodoxia e prometo publicar um artigo neste Portal comentando-o, pois não dá para expô-lo adequadamente numa entrevista.

Valinor: O senhor participou da recente tradução de O Senhor dos Anéis pela Martins Fontes. Qual a sua visão geral sobre a nova tradução?
Ives: Discutimos muito sobre muitos termos e passagens. Usando a linguagem judicial, fui voto vencido em muitos pontos e voto vencedor em outros. Só refiro 2, que mais me lembro: fiquei vencido na mudança de anões por ananos, porque se queria fugir da carga de preconceito que a palavra traz, ligada a deformidade ou à imagem de anões de jardim. A de voto vencedor foi a de usar para a explicação de Galadriel sobre a perfeição dos trabalhos dos elfos a seguinte expressão: Colocamos em tudo o que fazemos o pensamento de tudo o que amamos. É uma das idéias + fortes do livro: a idéia de que a perfeição do trabalho está ligada ao sentido que lhe damos, de realizá-lo por amor a Deus e ao próximo. Foi o que aprendi de S. Josemaria Escrivá, sobre a santificação do trabalho diário.

Valinor: Pelo seu livro é possível perceber que teve um contato profundo com a edição Artenova. É verdade? Qual sua "história" com a edição Artenova?
Ives: Muito simples. Foi a primeira que saiu no Brasil e a primeira que li. Confesso que alguns  nomes traduzidos ao pé-da-letra me divertiram muito, como uma boa brincadeira, e não deixei de lembrá-los: Fim-do-Saco, Arremesso-do-Saco… Depois li a tradução portuguesa da Europa-América e passei a preferir (e ainda prefiro) os nomes no original. Nunca gostei de Valfenda para Rivendell… Mas sei que a idéia de Tolkien era que traduzissem também os nomes próprios.

Valinor: O senhor viu os filmes da trilogia? Qual sua opinião sobre eles?
Ives: Gostei muito, por retratarem graficamente o universo tolkiano, passando bem a imaginação para a realidade. Mas não transmitem o espírito da obra. Nos filmes a obra é condensada de forma a parecer uma contínua tensão e suspense. A obra, no entanto, está cheia de poesia e bucolismo, mais próprio de Tolkien, que tanto se identificava com os hobbits e que muito bem se colocaria como Bilbo escrevendo o Livro Vermelho.

Valinor: O que espera dO Hobbit com o Guillhermo del Toro na direção?
Ives: Acho que vai ser difícil superar a trilogia do SdA, até por se tratar da estória + simples e ‘infantil’ de Tolkien. Espero, no entanto, ser surpreendido positivamente.

Valinor: Como surgiu a amizade com o Ted Nasmith?
Ives: Para ilustrar o MSdA, precisava de autorização dos pintores. Pedi a meu irmão Rogério que tentasse entrar em contato com alguns. Conseguiu com o Ted e com os irmãos Hildebrandt, que gentilmente autorizaram a utilização de seus quadros. No caso do Ted, da correspondência nasceu uma amizade, que aumentou quando consegui trazê-lo ao Brasil em 2005, com patrocínio da UniFMU, para dar palestras em São Paulo e Brasília. Ficou encantado com nosso país e espera poder voltar.

Valinor: Além de Tolkien, aprecia outros autores/obras do gênero da fantasia? Quais?
Ives: Gosto + de romance histórico. Um de meus autores favoritos nesse campo é o Louis De Wohl. Mas de fantasia, gosto da saga do ‘Star Wars’. Também li a série do Harry Potter. Mas, naturalmente, o SdA é incomparavelmente superior.

Valinor: É inegável que a obra de Tolkien tem um forte fundo moral, como por exemplo na conversa entre Frodo e Gandalf nas Minas de Moria sobre se Bilbo deveria ou não ter matado o Gollum quando teve a chance. Muitas vezes esse fundo moral acaba contagiando os leitores, modificando o seu jeito de ser/ pensar/ agir em determinadas situações. Levando em conta que o julgador, ao exercer a jurisdição, carrega não só o direito, mas também toda a sua carga pessoal de valores éticos e morais, pergunto: até que ponto os ensinamentos morais do legendário tolkieniano o influenciam no momento de proferir uma decisão?

Ives: Os princípios morais norteiam toda a nossa vida e também, naturalmente, a tarefa de julgar. Mas no que + ajuda a obra de Tolkien é no sadio escapismo para um mundo fantástico, nos momentos de lazer e de descanso, como o próprio Tolkien reconhecia ser uma das funções das estórias de fadas. Como atualmente o que + me desgasta é a quantidade desumana de processos para julgar, a lembrança dos sacrifícios de Frodo e Sam para cumprir sua missão acaba sendo um bom paradigma para perseverar na luta, contra toda esperança de racionalização do sistema judiciário! Sonhar com locais como Rivendell, Lothlórien ou Valinor são um consolo considerável.

Valinor: Fica o espaço aberto para o senhor fazer quaisquer considerações e deixar uma mensagem ao fã de Tolkien
Ives: Acho que já disse o bastante. Que fique como mensagem a de mestre Sam: O trabalho que mais custa a terminar é aquele que nunca começa. Mãos à obra.

Entrevista com Adam Tolkien

adam.jpgEssa entrevista, com Adam Tolkien, foi feita no Dia da Leitura de Tolkien, a entrevista conta a história de como Tolkien escreveu o livro: Os Filhos de Húrin, e várias outras informações importantes da formação do livro.
 

P: Quando Os Filhos de Húrin foi originalmente escrito?

Adam Tolkien
: A primeira versão dos Filhos de Húrin, remonta a 1916, quando JRR Tolkien foi um soldado na batalha de Somme. Os filhos de Húrin é, sem dúvida, uma das primeiras histórias que ele escreveu e que trabalhou fora. Depois, ele escreveu-o em uma versão diferente para que fosse considerado como o seu grande trabalho, O Silmarillion. No entanto, todos os editores do qual ele apresentou, O Silmarillion, recusou publicá-lo. Meu avô tinha acabado de publicar O Hobbit.Os editores queriam uma continuação, uma história sobre hobbits. Assim, Tolkien começou a escrever O Senhor dos Anéis…

P: Por isso, o editor “ordenou” O Senhor dos Anéis?

Adam Tolkien
: Sim, de fato. Tolkien não tinha previsto ao escrevê-lo. Ele deu-se completamente ao O Silmarillion, que representou a sua pedra filosofal. Durante cerca dos quinze anos, ele foi totalmente dedicado este "fim" e ele foi totalmente tomado pelos mundos de distância que ele inventou. Após terminar O Senhor dos Anéis ele retornou aos Filhos de Húrin.

P: Os filhos de Húrin assemelha-se muito mais a O Senhor dos Anéis do que O Silmarillion; assim pode-se lê-lo mais facilmente: Como se explica isso?

Adam Tolkien: Isto é devido à evolução da escrita do meu avô. O Silmarillion é uma história épica, é um estilo, que se pode ser visto como um estilo bíblico.

P: Algumas vezes até hermético…

Adam Tolkien: Talvez, sim. Mas quando escreveu O Senhor dos Anéis, Tolkien mudou seu interesse em direção à psicologia dos personagens. Quando ele se dedicou a Os Filhos de Húrin de novo, tinha modificado completamente seu jeito de escrever. Ele estava muito mais interessado em histórias realistas, na vida dos personagens e na evolução dos mundos que ele tinha criado.

P: Mas ele escreveu três versões de Os Filhos de Húrin?

Adam Tolkien: Meu avô escreveu muito, mas estava muito desorganizado. Ele escreveu em tudo em que ele pudesse por as mãos. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, no verso de papéis de seus alunos.
A primeira versão, de 1916, é um trabalho relativamente curto, e foi publicado no Os Contos Inacabados. Nos anos 30, Tolkien fez uma segunda versão, que era curta também e pode ser vista como uma sinopse do conto. Então ele começou a terceira versão nos anos 50. Meu pai, Christopher Tolkien, fez uma reunião começando dessas versões, e muitos outros fragmentos.

P: Uma reunião?

Adam Tolkien: Meu pai conhecia J.R.R. Tolkien e seu trabalho muito bem. Como meu avô, ele era professor de filologia em Oxford. Então ele trabalhou por trinta anos nos papéis de meu avô, para organizar e publicar O Silmarillion e os doze volumes de A História da Terra-média, que retrata o desenvolvimento desse mundo e seus mitos fundadores. Então ele tinha um conhecimento suficiente para cumprir a reunião de Os Filhos de Húrin, que, em acréscimo, consta de capítulos escritos completamente suficientes, tanto que ele poderia fazê-lo sem ter que re-escrever nada.

P: Existem outros romances inacabados de J.R.R. Tolkien, que poderia “vir à tona”?

Adam Tolkien: Existem outros contos, mas que tem muito menos corpo que esse conto. Meu pai sempre se recusou a produzi-los em um livro coerente e indubitavelmente nunca o fará. Além disso, nem eu irei. Nós não queremos fazer um comércio sobre o nome de Tolkien.

P: Mas, se o romance estava quase pronto, por que levou trinta e cinco anos depois da morte de J.R.R. Tolkien para publicá-lo?

Adam Tolkien: Porque meu pai inicialmente trabalhou em O Silmarillion, então nos 12 volumes de A História da Terra-média, concedendo à vontade de seu pai, que tinha nomeado-o como testamenteiro literário. Somente em 1996 ele começou a trabalhar em Os Filhos de Húrin. Mas ele não estava convencido se podia transformá-lo em um romance. Talvez, porque ele ficara um tanto cansado! Então os três filmes de Peter Jackson foram lançados, o que não nos envolve diretamente.

P: Como assim?

Adam Tolkien: Meu avô vendeu os direitos em 1967 e nós não tínhamos qualquer direito de interferir. O mais simples foi, desta maneira, não se afligir com isso. Quando os filmes foram lançados, meu pai até parou de trabalhar em qualquer material relacionado à Tolkien por um bom tempo.

P: O que você achou dos filmes?

Adam Tolkien: Meu ponto de vista é completamente pessoal: eu não sou um grande fã dessas adaptações de Hollywood. Eu gosto muito mais dos filmes anteriores de Peter Jackson, mas considerando o enorme tamanho de seu projeto de Senhor dos Anéis, acho que ele perdeu o fôlego e a poesia de Tolkien. As decorações são muito bonitas, porque elas são reais, mas os efeitos especiais não chegaram lá ainda. Você podia realmente percebê-los…

Eu, eu teria gostado de ver outra coisa, um meio ambiente como aquele de O Sétimo Selo, de Bergman. Seria interessante fazer uma série, o que teria tornado possível desenvolver uma adaptação do filme, sem perder o fôlego.

P: Voltando a Os Filhos de Húrin. Esse é um trabalho de J.R.R. Tolkien ou Christopher Tolkien?

Adam Tolkien: De ambos. Meu pai não adicionou nada, mas ele publicou, restaurou as conexões entre as histórias, criou lógica, enquanto decidia privilegiar essa ou aquela versão. O ofício do filólogo ajudou-o a decifrar os textos antigos. Mas, se você dá uma boa olhada nesse livro, percebe que é talvez um pilar sem os trabalhos de Tolkien: o conto de Os Filhos de Húrin está rapidamente presente em Os Senhor dos Anéis e é um elemento muito importante em O Silmarillion.

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Entrevista de J. R. R. Tolkien em 1971

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Essa entrevista nos mostra a importância das velhas gravações. Elas podem nos dizer muito mais do que apenas cartas e biografias, porque ouvindo a voz de alguém você pode ouvir como ele reage e sente melhor como eles pensam sobre vários assuntos.
Para aqueles interessados, essa entrevista pode ser encontrada em “J.R.R. Tolkien: An Audio Portrait (CD) (2001)”, apresentada por Brian Sibley. Foi primeiramente lançada em uma versão editada em 1980 como uma fita de áudio comercial por BBC Casettes, Londres, e Audio-Forum em Guilford, Connecticut.
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J.R.R. Tolkien: Há muito tempo atrás eu escrevi O Hobbit, e muito tempo antes de eu escrever isso, eu construí esse mundo mitológico.

D. Gerrolt: Então você possuía algum esboço em cima do qual era possível trabalhar?

J.R.R. Tolkien: Sagas imensas, sim… Eu fui absorvido por elas como o próprio Hobbit fez, como você sabe, O Hobbit era originalmente sobre aqueles anões e tão logo ele saiu mundo afora ele se emocionou e sutilmente deslizou para dentro desse mundo.

D. Gerrolt: Então seus personagens e sua história realmente tomaram conta. [Silêncio] Quando eu digo tomaram conta, eu não quero dizer que você estava completamente sob seu feitiço ou qualquer coisa deste tipo.

J.R.R. Tolkien: Oh não não, eu não me desvio com respeito a sonhos de maneira nenhuma, não [risos] não não, não é uma obsessão de forma alguma. Você tem essa sensação que nesse ponto [fuma seu charuto] A, B, C, D, apenas A ou um deles é certo e você tem que esperar até ver. Eu tenho mapas, é claro. Se você está elaborando uma história complicada, você deve trabalhar em um mapa, senão você pode nunca fazer um mapa dela depois. As luas, eu acho, finalmente as luas e o pôr-do-sol funcionaram de acordo com o que eles foram nessa parte do mundo em 1942, na verdade. Deve ter sido algo por volta disso.

D. Gerrolt: Você começou a escrevê-lo em 1942, não foi?

J.R.R. Tolkien: Oh não, eu comecei assim que O Hobbit saiu – nos anos 30.

D. Gerrolt: E quando acabou de escrevê-lo, ele foi publicado em seguida.

J.R.R. Tolkien: Eu escrevi o último… em 1949 – eu lembro que realmente chorei na conclusão da história. Mas então, é claro, havia uma quantidade enorme de revisões. Eu datilografei toda essa obra duas vezes e muito dela, muitas vezes, sobre uma cama no sótão. Eu não pude arcar, é claro, com a impressão. Há alguns erros ainda e também me diverte dizer, como eu creio, que estou em uma posição onde não importa o que as pessoas pensam de mim agora. Havia alguns terríveis erros de gramática, os quais, para um Professor da Língua Inglesa e Literatura, são particularmente chocantes.

D. Gerrolt: Eu não notei nenhum.

J.R.R. Tolkien: Tinha um onde eu usei cavalgou como o particípio de cavalgar! [risos]

D. Gerrolt: Você sente algum tipo de culpa como filólogo, como Professor de Língua Inglesa, com os quais você estava preocupado com as origens factuais da língua, por você ter dedicado uma grande parte da sua vida a uma coisa fictícia?

J.R.R. Tolkien: Não. Estou certo de que realmente fiz o idioma muito bem! Há muita compreensão lingüística nele. Não sinto qualquer complexo de culpa sobre O Senhor dos Anéis.

D. Gerrolt: Você tem uma afeição particular por essas coisas simples e confortáveis da vida que o Condado incorpora: o lar e o cachimbo e o fogo e a cama – as virtudes humildes?

J.R.R. Tolkien: Você não?

D. Gerrolt: E você não, professor Tolkien ?

J.R.R. Tolkien: É claro, sim sim sim.

D. Gerrolt: Você tem então um afeto particular pelos Hobbits ?


J.R.R. Tolkien:
Isso é o motivo de me sentir em casa… olha, O Condado é bem o tipo de mundo no qual eu pela primeira vez me tornei ciente das coisas. O que foi talvez rude para mim porque não nasci nele. Eu nasci em Bloomsdale na África do Sul. Eu era muito novo quando voltei, mas ao mesmo tempo bate na sua memória e imaginação, mesmo se você não pense nisso. Se a sua primeira árvore de Natal for um eucalipto murcho e você normalmente fica incomodado com o calor e a areia… e então ter justamente a idade na qual sua imaginação está se expandindo e de repente encontrar-se em uma tranqüila aldeia de Warwickshire creio que gera um amor específico pelo o que você poderia chamar de interior inglês das Midlands centrais. Baseado em boa água, pedras e olmeiros e pequenos e tranqüilos rios e assim por diante, e é claro, camponeses nos arredores.


TolkienBiblioteca-ValinorDez2013D. Gerrolt:
Com que idade veio você para a Inglaterra ?


J.R.R. Tolkien:
Eu creio… eu tinha por volta de três anos e meio. Muito impressionante é claro, porque é uma das coisas que as pessoas dizem não lembrar, é como constantemente fotografar a mesma coisa sobre o mesmo prato. Leves mudanças simplesmente fazem um borrão. Mas se uma criança tem uma mudança repentina como essa, é consciente. O que tenta fazer é ajustar as novas memórias às antigas. Eu tenho uma imagem perfeitamente clara e vívida de uma casa que eu agora sei que é na realidade um bem trabalhado pastiche de minha própria casa em Bloemfontein e a casa da minha avó em Birmingham. Posso ainda me lembrar de descer a estrada em Birmingham e me perguntar o que tinha acontecido à grande galeria, o que aconteceu ao balcão. Conseqüentemente, lembro das coisas extremamente bem, eu consigo lembrar de me banhar no Oceano Índico antes dos dois anos de idade e eu lembro bem claramente.


D. Gerrolt:
Frodo aceita o fardo do Anel e ele incorpora, como um personagem, as virtudes de longo sofrimento e perseverança, e por suas ações alguém quase poderia dizer, no senso budista, que ele “adquire mérito”. Ele se torna, na realidade, quase uma figura de Cristo. Por que você escolheu um Pequeno, um Hobbit para esse papel?


J.R.R. Tolkien:
Eu não escolhi. Eu não fiz muitas escolhas, eu escrevi O Hobbit, entende… tudo que eu estava tentando fazer era continuar do ponto onde O Hobbit parou. Eu tinha Hobbits em minhas mãos, não tinha?


D. Gerrolt:
Realmente, mas não há nada em particular “como Cristo” sobre Bilbo?


J.R.R. Tolkien:
Oh não. Não não.

D. Gerrolt: Mas diante do mais espantoso perigo ele luta e continua, e chega ao seu objetivo.


J.R.R. Tolkien:
Mas isso se parece, creio eu, mais com uma alegoria da raça humana. Eu sempre tive a impressão que estamos aqui sobrevivendo por causa da coragem invencível de pessoas muito pequenas contra chances impossíveis: selvas, vulcões, animais selvagens… eles lutam, quase cegamente, de certa maneira.


D. Gerrolt:
Eu pensei que de modo concebível Midgard poderia ser a Terra-média ou possuir alguma conexão.


J.R.R. Tolkien:
Oh sim, elas são a mesma coisa. Muitas pessoas cometeram esse erro de achar que a Terra-média é um tipo particular de terra ou é outro planeta do tipo de ficção científica, mas é apenas um velho termo moldado para esse mundo em que vivemos, como imaginado cercado pelo oceano.


D. Gerrolt:
Parecia para mim que a Terra-média era de certo como, como você diz, este mundo que vivemos, mas em uma era diferente.


J.R.R. Tolkien:
Não… em um grau diferente de imaginação… sim.


D. Gerrolt:
Você tencionou em O Senhor dos Anéis que certas raças deveriam incorporar certos princípios: a sabedoria de elfos, a arte de anões, a administração e as batalhas dos homens, e assim por diante?

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J.R.R. Tolkien:
Eu não o planejei. Mas quando você tem esses povos nas mãos, você tem que fazê-los diferentes, não tem? Bem, é claro, como todos nós sabemos, no final das contas nós temos apenas a humanidade com quem trabalhar. Temos apenas o corpo humano. Nós todos… ou pelo menos a maior parte da raça humana… deveríamos gostar de ter maior poder mental, maior poder de arte, pelo que eu penso que a distância entre a concepção e o poder de execução deveria ser abreviado, e nós deveríamos desejar um tempo maior, se não um tempo indefinido, com o qual continuar aprendendo mais e fazendo mais.

Então fazemos os elfos imortais em uma lógica. Eu tive que usar imortal, mas não quis dizer que eles eram eternamente imortais, simplesmente que eles possuem vida muito longa e sua longevidade provavelmente dura enquanto durar a habitabilidade da Terra.

Os anões, é claro, são bem óbvios, você não poderia dizer que de várias formas eles lembram os judeus? Suas palavras são semitas obviamente, construídas para serem semitas.

Hobbits são apenas ingleses rústicos, feitas de baixa estatura porque isso reflete (no geral) o pequeno alcance de sua imaginação – não o pequeno alcance de sua coragem ou poder latente.

D. Gerrolt: Isto parece ser uma das grandes forças do livro, esta conglomeração enorme de nomes – alguém não se perde, pelo menos não depois da primeira leitura, depois a segunda leitura do livro.


J.R.R. Tolkien:
Fico muito contente que você me diga isso, porque eu fiquei muito preocupado. Além disso, me dá grande prazer, um bom nome. Eu sempre, na escrita, comecei com um nome; me dê um nome e isso produz uma história, e não o contrário, como é feito normalmente.


D. Gerrolt:
Dos idiomas que você conhece qual foi de maior ajuda para você na criação de O Senhor dos Anéis?


J.R.R. Tolkien:
Oh… sim… obviamente as línguas modernas, eu deveria dizer que o Galês sempre me atraiu. Por seu estilo e som mais que qualquer outra, mesmo apesar de tê-lo visto pela primeira vez em vagões de carvão, eu sempre quis saber sobre o que era.


D. Gerrolt:
Parece a mim que obviamente a melodia do galês aparece nomes que você escolheu para montanhas e para lugares em geral. Você reconhece isso?

J.R.R. Tolkien: Muito. Contudo uma mais rara, mas bem forte influência sobre mim foi o finlandês.

D. Gerrolt: O livro é para ser considerado como uma alegoria?


J.R.R. Tolkien:
Não. Eu não gosto de alegoria, não importa quando eu a percebo.


D. Gerrolt:
Você considera o declínio do mundo como o declínio da Terceira Era em seu livro? E você vê uma Quarta Era para o mundo no momento, nosso mundo?


J.R.R. Tolkien:
Na minha idade, eu sou exatamente o tipo de pessoa que viveu dentro de um dos mais rápidos períodos de mudança conhecidos na história. Certamente nunca houve em setenta anos tanta mudança.


D. Gerrolt:
Há uma característica outonal ao longo do todo de O Senhor dos Anéis, em um caso um personagem diz que “a história continua, mas eu pareço ter perdido o rumo dela…” porém, tudo está enfraquecendo, empalidecendo, pelo menos em direção ao fim da Terceira Era. Toda escolha tende à violação de alguma tradição. Agora isso me parece ser um pouco como a citação de Tenysson “a velha ordem muda, dá lugar a uma nova, e Deus se realiza de muitas maneiras”. Onde está Deus em O Senhor dos Anéis?


J.R.R. Tolkien:
Ele é mencionado uma vez ou duas.


D. Gerrolt:
Ele é o Único?


J.R.R. Tolkien:
O Único… sim.


D. Gerrolt:
Você é de fato um teísta?


J.R.R. Tolkien:
Oh, eu sou um católico romano! Um devoto católico romano.


D. Gerrolt:
Você deseja ser lembrado principalmente por suas escritas em filologia e outros assuntos ou por O Senhor dos Anéis e O Hobbit?


J.R.R. Tolkien:
Eu não deveria pensar que havia muita escolha no assunto – se eu sou lembrado de alguma maneira, será pelo O Senhor dos Anéis, eu aceito isso. Não será especialmente como o caso de Longfellow? As pessoas lembram que Longfellow escreveu Hiawatha, esquecem totalmente que ele foi um Professor de Línguas Modernas!