Arquivo da categoria: Coluna do Deriel

Para Além dO Senhor dos Anéis

 
(ou "Já Li Tudo e Agora?")

Uma das perguntas que mais ouço dos fãs brasileiros de Tolkien é: "já li tudo, e agora?". A frase na maioria absoluta das vezes se refere a tudo que já foi publicado no Brasil, ou seja, "O Hobbit" (Hob), "O Senhor dos Anéis" (SdA), "O silmarillion" (Sil) e os "Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média" (Contos). Até pouco mais de dois anos não tinhamos sequer o Sil quanto mais o Contos, ou seja, já melhorou bastante a nossa situação. Muito embora não seja nem de longe o todo do que Tolkien produziu…. bom, vamos lá: os próximos passos para os fãs realmente engajados… e endinheirados (afinal, praticamente todos os livros que citarei abaixo são importados).

De forma alguma a obra de Tolkien se restringe à Terra-média, por assim dizer (entenda-se todos os textos produzidos por Tolkien de alguma forma interligados ao Hob, SdA e Sil), e se espalha entre ensaios mais técnicos e outros textos de fantasia, além claro, dos livros escritos SOBRE Tolkien, como as várias biografias e estudos de obra publicados (alguns até mesmo em português).

A primeira coisa a ser citada é, sem sombra de dúvidas, a série "The History of Middle-earth" (ou HoME, para os íntimos). Ela consiste de 12 livros contendo uma grande quantidade de material gerado por Tolkien mas nunca terminado ou publicado por ele em vida. A série foi editada e comentada pelo filho de Tolkien, Christopher Tolkien, de uma maneira mais ou menos sistemática e contínua no tempo, começando pelo "The History of Middle-earth 1 – The Book of Lost Tales 1", com textos e rascunhos de 1915/1916 até o "The History of Middle-earth 12 – The Peoples of Middle-earth" contendo textos de 1970, já no final da vida de Tolkien. O conteúdo específico de cada livro pode ser visto aqui mesmo na Valinor [ ver Bibliografia ] e devem satisfazer os fãs mais exigentes por um longo, longo tempo. Começamos com os Lost Tales e passamos pela mais primordial mitologia imaginada por Tolkien, até o volume 5. Do 6 até metade do 9 somos apresentados aos rascunhos do SdA onde ficamos sabendo que Tolkien não tinha a menor idéia do que o SdA viria a ser, e mudou de direcionamento várias e várias vezes durante a escrita do mesmo. Ainda no 9 temos o volume mais diferente, com uma história estilo "viagem no tempo" e informações sobre o Adunaico. Do 10 ao 12 são textos pós-SdA basicamente sobre a Primeira Era (e antes).

Duas ressalvas cabem aqui: a primeira é que se você acha o Contos árido, difícil ou muito acadêmico, você vai odiar os HoME; e a segunda é que os livros não existem em português, nem mesmo de Portugal (e o inglês no qual foram escritos não é tão acessível assim, principalmente os mais antigos) e não existe qualquer perspectiva de vê-los traduzidos em um futuro próximo (sem chances do último HoME aparecer traduzido por aqui antes de 2014/2015) porém com o sucesso do filme é cada vez mais comum encontrar livros importados (a preços salgados, lógico) em livrarias nacionais. É aqui, nos HoME que separam-se os fãs de Tolkien dos estudiosos de Tolkien. Só como curiosidade, os meus HoME preferidos são, sem dúvida, o 10-11-12… quem ainda não leu o "Athrabeth Finrod ar Andreth", constante do HoME 10 e traduzido pelo nosso Reinaldo "Imrahil/Cisne" Lopes aqui na Valinor não sabe o está que perdendo.

Temos ainda o "Aventuras de Tom Bombadil", do qual existe uma edição portuguesa, um livro completamente feito de poemas e rimas, tendo como pano de fundo a Terra-média e alguns de seus personagens (inclusive o Velho e Bom Tom, do título).

Apesar de muitos não saberem, a obra de Tolkien não é apenas Terra-mediana (credo, que horrível, Deriel) mas também possui alguns (bons!) livros de fantasia e infantis, a começar pela dupla "Farmer Giles of Ham" (com seu impagável cão Garm e Chrysophylax, o dragão covarde) e "Smith of Wooton Major". No âmbito infantil passamos por "Mr. Bliss" e o imperdível "Roverandom". Merece destaque, com certeza, o "Leaf by Niggle", a meu ver o livro mais tocante escrito sobre Tolkien, praticamente uma autobiografia, sobre um pintor que nunca conseguia terminar seu quadro por sempre inserir mais e mais detalhes no mesmo. Diversão pra meses, sem sombra de dúvida.

Uma outra fonte de saborosas leituras não são exatamente as obras de Tolkien, mas as *sobre* Tolkien. J.R.R.Tolkien foi uma personalidade sui generis e sua vida, suas inpirações e idéias fantásticas renderam alguns bons livros. Os dois primeiros são, claro, os clássicos "Biografia de J.R.R. Tolkien", de Humphrey Carpenter e o quase lendário "The Letters of J.R.R. Tolkien". O primeiro é uma biografia feita por alguém que teve contato pessoal com Tolkien e contém passagens muito interessantes principalmente sobre a infância/juventude de Tolkien, imperdível… mas você não vai encontrá-lo. Existe uma tradução em português do Brasil mas está esgotada e fora do prelo há anos e sinceramente duvido que a encontre em sebos (não custa tentar) e eu não vendo nem empresto a minha .

O "Letters" são uma coleção de mais de quatro centenas de cartas de Tolkien para seus familiares, editores e fãs, todas tratando de uma forma ou de outra sobre a produção literária (nada de cartas exclusivamnte pessoais). É o mais próximo que podemos chegar de uma autobiografia e nos reserva momentos tocantes, como o desânimo e quase desespero de Tolkien ao não conseguir publicar o SdA e o Sil junto, lá por 1950. É também uma fonte preciosa de informações sobre a obra, geralmente não encontradas em quaisquer outros lugares. Sem dúvida obrigatório.

Atualmente têm sido lançadas no Brasil uma série de obras tendo Tolkien como assunto, como o "O Mundo do Senhor dos Anéis", de Ives Gandra e o "Elfos, Hobbits e Magos". A qualidade dos mesmos varia de "muito boa" a "altamente duvidosa", passando pelo "meramente exploradora" e cabe a nós, leitores, julgarmos por nós mesmos e não aceitarmos passivamente qualquer besteira colocada à venda. Quantidade não é qualidade.

Apesar do Hob/SdA/Sil serem o coração de toda a obra de Tolkien e suas obras-primas, nem de longe é tudo que ele produziu. Para os interessados em se aprofundarem na obra (e, dependendo da obra, como os HoME e Letters, se aprofundarem *muito*) existe bastante material disponível, embora esteja além do alcance da maior parte dos leitores brasileiros, pois exige paciência, um inglês bem afiado e muitos reais na carteira.

[ Na parte 2 tratarei de leituras e estudos tolkienianos não diretam
ente na forma de "obra", ou seja, linguistica, mitologia... essas coisas ]

Queime, PJ, queime!

 
Ah! O doce e frio prato da vingança! Chegou a hora! Agora que todas as atenções estão voltadas para o SdA:ADT vou solenemente ignorá-lo e gastar vários e vários parágrafos xingando o PJ pelas mudanças e besteiras dos filmes. Claro que eu não vou conseguir passar completamente imune à influência do SdA:ADT, mas me concentrarei no geral e no porque PJ fez um monte de besteiras. Vamos lá, puristas, todos comigo: QUEIME NO FOGO DO INFERNO, PJ!

Claro que estamos exagerando aqui e, antes que me queimem junto, devo admitir que eu gostei muito do filme etc etc etc, mas esta coluna é dedicada ao que PJ fez de errado portanto se você ama o filme e não encontrou nenhum defeito dele, bom, é melhor parar de ler esta coluna agora e acender mais uma vela no seu altar para o PJ, que as outras 412 começaram a apagar (apenas brincando, galera!).

Eu estive pensando aqui com meus botões e me parece que a característica básica (básica, não única) dos filmes do PJ e fonte de todos os seus erros e acertos é que ele é um filme de fã, feito por um fã e com uma visão de fã. Explico, claro: ele não se esforçou para dar uma visão Tolkien do filme, uma visão que apesar de não poder ser reconstruída plenamente pode ser parcialmente vislumbrada através das esntrevistas e das cartas (sim, o "Letters"! Sempre ele!). Portanto o que temos nos filmes é uma "visão PJ das obras de Tolkien" temperada com exigências financeiras do estúdio e com a contribuição de outros fãs da produção.

Enfim, vamos xingar o Peter Jackon! Deficiências da criatura e dos filmes:

Peter Jackson possui uma deficiência muito grande como diretor, que continua a influenciá-lo desde a época dos filmes trash (momento parênteses: pra quem não sabe o PJ é um excelente diretor de filmes trash! Filmes gloriosos como "Braindead" e "Bad Taste" são do nosso amado diretor) que é não saber lidar com o bem mas sabe lidar de maneira bastante eficaz com o mal e com o incomum. Duvidam? Vamos aos filmes! Elfos, o suprassumo do bem e da beleza no final da Terceira Era (não vou entrar em disacussões filosóficas sobre os Elfos em outras Era sou oportunidades, o que interessa é a época do filme) são representados de uma forma feia e apagada, sem brilho, sem lugar, sem atrativos…. e sem sexo, em sua maioria. Excessões sejam feitas à máquina de matar Legolas (aqui entramos no incomum do PJ) e à primeira aparição da Arwen a Frodo, envolta em luz, radiante, linda, falando Sindarin "Frodo, im Arwen. Telin le thaed. Lasto beth nîn, tolo dan na ngalad" (sempre choro nessa parte).

Vamos adiante nessa mesma tecla: Lothlórien, Valfenda e Faramir (sim, vocês que ainda não assistiram SdA:ADT ficarão chocados). A representação dos dois locais élficos e do personagem de Faramir, que é uma espécie de epítome do bem e da honra em meio à loucura de Denethor e à força bruta de Boromir, deixa muito a desejar do ponto de vista da obra mesmo. Afinal, ao final da Terceira Era e antes da (… não vou contar) os Anéis de Elrond e Galadriel estavam em pleno funcionamento, contendo o tempo e mantendo Valfenda e Lórien como dois "paraísos" na Terra-média. Mais um exemplo? Quantos quiser! Gil-galad na batalha da última aliança, aparecendo como um sádico homicida, tendo imenso prazer na matança de Orcs e afins… fala sério, PJ!

Mas passando ao segundo ponto, talvez o mais discutido, a influência do estúdio (entenda-se GRANA) no todo da "obra" do PJ. Filme atualmente é um produto como outro qualquer: interessa que dê lucro. E o investimento não foi pequeno (mais de U$ 100 milhões por filme) portanto é bastante natural que o estúdio fizesse pressão para que algumas partes da obra se tornassem mais "palatável" para as massas o que não acho natural nem concordo é que PJ se submetesse a isso de maneira tão grosseira. Sim, estou falando da Arwen sim. A desculpa que o PJ dá, de que ele usou material do Apêndice para complementar o filme é desprovida de respaldo. Ele aumentou o espaço dela pra colocar umas ceninhas românticas e uns chororôs, isso sim.

Agora vou dizer uma verdade que mesmo o mais revoltado fã do PJ tem receio de dizer na cara: Legolas é uma invencionice movida pelo dinheiro! Sim, sim e sim! Legolas no livro é o mais inútil dos membros da Comitiva (ah é? não concorda? Vai discutir com Tolkien, pois ele fala exatamente isso no Letters! Haha! Touché!) e foi tranformado numa incrível máquina de matar, praticamente uma metralhadora medieval. Isso se chama turbinar um personagem pra atrair público. Chega a ser… revoltante. Como não tinha ninguém "poderoso" e "guerreiro" de verdade no SdA:SdA criaram um. Escolha lógica? Legolas, o Elfo fodão. Blergh!

Seguimos em frente? Essa é da dar nó em estômago de Orc: a mania que diretores e roteirista têm de querer "reinventar" a obra que estão adaptando. Não gostam de algo no livro? Simplesmente mudam e alegam "problema na transição de mídia" ou "liberdade criativa" ou "leitura pessoal". Bah! Existe uma imensa diferença entre adaptar mídia e mudar alguma coisa só por mudar, pra que "visualmente" ou "comercialmente" fique mais adequado. Exemplos de boas adaptações? Condado. Está alterado, mas não desfigurado. Péssimas adaptações umbiguícias? Batalha da Última Aliança, Lothlórien e sua Galadriel Mun-Rá e esticando pro SdA:ADT temos o Personagem-Que-Era-Pra-Ser-Faramir e a aventurinha em Osgiliath (Céus! Quem foi o doente que deu essa idéia pra ele?) e por aí vai… praticamente todos os filmes que são adaptados de alguma obra sofrem horrores com os egos de redatores e diretores.

O filme também sofre de "JohnHowezisse" e isso fica ainda mais claro no SdA:ADT. Quem conhece um pouco mais a fundo a obra de John Howe não teve qualquer surpresa visual. Parece uma sequência infinda de desenhos do John Howe sendo mostrados na tela. Quando percebemos isso, no SdA:SdA, fica claro como serão os outros dois filmes e como será o SdA:RdR: basta procurar desenhos do John Howe e você vai saber como será a Laracna e todos os outros pequenos "detalhes secretos" do filme. Utilizar os serviços de um grande artista e talvez o mais perfeito retratador da obra de Tolkien é uma boa idéia, mas precisava ser tão óbvio?

E por último (depois dessa vou tomar um suquinho de maracujá) um problema inusitado e que passa despercebido. O maldito PJ é fã de Tolkien. Ele conhece a obra. Ele leu o SdA, e leu mais de uma vez. "Mas, mas… como isso pode ser um defeito? É uma qualidade!" diria um incauto fã. Sim, é uma qualidade, sob certos aspectos mas eu prefereria que PJ fosse MENOS fã. Todos nós, fãs, fãzinhos e fanático
s pela obra temos uma "visão" da mesma, uma "leitura" pessoal e subjetiva que muitas vezes não coincide com o que o próprio Tolkien fala, explica ou descreve. PJ logicamente tem sua própria visão pessoal da obra e não abriu mão ao dirigir. Logicamente ele, ao fazer o filme, deveria se voltar para Tolkien, procurando respostas e soluções no próprio Tolkien e não na sua opinião de fã. E isso serviria de escudo pra críticas também. E por mais que PJ buscasse em Tolkien as respostas, as perguntas são tão numerosas que ne, todos as Biografias e Letters e HoMEs do mundo poderiam responder, sobrando muito espaço pro PJ inserir sua visão pessoal da obra.

Estranho como más adaptações podem gerar excelentes filmes. E estamos presenciando mais um desses casos. Queime, PJ, queime!

Vamos Lá, Caneta no Papel (ou Dedo no Teclado)!

 
Bom, quem costuma ler meus textos em geral sabe que estou há cerca de três anos e meio criando e mantendo conteúdo tolkienianos, pra ser mais exato desde fevereiro de 2000 quando coloquei no ar a Calaquendi. Não fui o pioneiro nisso, antes da Calaquendi já existiam algumas páginas aqui e ali (dentre elas a do Barbado) mas talvez tenha direito a requisitar o dúbio título de primeira página com atualizações realmente constantes (e eram mesmo! Cerca de duas atualizações a cada três dias – e não estou contanto notícias). Meio que por ali também surgiram outros projetos constantemente atualizados.

No período mais movimentado da Valinor estivemos entre 3 atualizações a cada 2 dias e 2 atualizações por dia (céus, era muita coisa!) mas agora esse ritmo caiu – devido a vários fatores, sendo que a escassez de material original não é o menor deles – para algo confortável e perfeitamente aceitável de 2 ou 3 atualizações por semana (sem incluir fórum, Lothlórien, Ardalambion – na prática está tudo mais movimentado, mas também mais dividido).

Pois bem, uma coisa que me preocupa nesses três anos e meio mantendo páginas tolkienianas nesse marzão da internet no Brasil é a pouquíssima quantidade de textos de autores nacionais sobre o assunto. Quando eu falo de "autores" não quero dizer escritores nem nada, mas fãs mesmo, todos aqueles comoeu e você que gostamos de Tolkien e gostamos de conversar sobre o assunto. Infelizmente pouquíssimas pessoas se arriscam a colocar idéias, teorias, explicações ou análises pessoais no papel (ou na tela do computador). Antes de continuar, é bom ressaltar que não estou falando sobre ficção baseada no lengendarium tolkieniano, as fanfics, mas sim sobre textos sobre a obra.

Fico me perguntando o por que disso, afinal, é fácil observar nas listas de discussões e na Seção Tolkien do Fórum Valinor que o número de mensagens mais detalhadas, algumas de qualidade fantástica abordando de maneira criativa assuntos já comuns, não é assim tão raro. Muitas pessoas gastam muitas horas gerando mensagens bastante desenvolvidas, mas o que impede esses fãs de mudarem um pouquinho as mensagens e gerarem textos? Não sei dizer. Talvez muito de vergonha com um tanto de insegurança com um pouquinho de preguiça.

Alegar que gostaria que o texto fosse discutido não é uma desculpa válida, afinal cada texto ou notícia inserido na Valinor tem automaticamente criado uma contra-parte no Fórum para permitir a discussão do mesmo e, se tudo der certo, também terá sua contra-parte nas listas de discussão da Valinor (esse trabalho de programação da Valinor é bem mais complexa do que parece a princípio, estamos com algumas dezenas de subsistemas, que embora muito bem programnados, sempre demandam um bom tempo para serem mantidos e atualizados). Portanto interação com os demais fãs é o que não falta.

Eu sinceramente acho que não há por que se temer gerer um texto um pouco maior sobre Tolkien, mesmo que não tenha lá muito jeito pra escritor ou jornalista. Eu, por exemplo, sou Analista de Sistemas (e isso fica bem claro nos textos que eu escrevo, como "escritor" sou um ótimo programador mas isso não me impede de meter a cara a tapa de vez em quando quando surge uma boa idéia. Algumas vezes quebra-se a cara feio (ainda sinto vergonha de uma análise patética sobre Meio-Elfos que fiz uns anos atrás… não este último que fiz aqui pra Coluna do Deriel, um anterior… xá pra lá) mas algumas vezes se acerta em cheio (gosto muito do resultado de um texto sobre fanfics, basta olhar como a Lothlórien anda sortida de boas histórias de ficção!) e na maioria das vezes ficamos ali equilibrados no meio-termo.

Ok, sejamos realistas e admitamos que em termos de experiência Tolkieniana estamos décadas atrás de outros países da Europa pois Tolkien só saiu do nicho de alguns poucos privilegiados para o "povão" com a edição Martins Fontes do Senhor dos Anéis ali em meados da década de 1990, mas com certeza eles também começaram de algum lugar. Se não nos esforçarmos para gerar textos críticos, discussões (que não gerem aquele chororô desgraçado só porque alguém contrariou a idéia de outrem) talvez não tenhamos nada além de textos em inglês para ler, logo. Aliás, nem isso. Na Valinor já estamos sentindo uma certa dificuldade incipente em encontrar textos tolkienianos de qualidade para serem vertidos aos português e boa parte do que temos como fonte são ensaios do Martinez, mas mesmo estes estão no fim.

Aliás, acho que o medo de encarar uma possível crítica negativa seja um dos grandes fatores que impedem o fã de escrever um texto ou mesmo de participar de uma discussão construtiva em algum lugar. Uma refutação quase sempre é encarada como uma ofensa pessoal e tratada como tal, matando a utilidade da discussão e cansando aqueles que acham que conversando se resolve. Só não recebe críticas que não se expõe, mas hoje em dia qualquer crítica é recebida como falha pessoal e falhas pessoais são fracassos em um mundo que não perdoa o mínimo deslize. Críticas sempre existirão, sejam boas ou ruins, sejam válidas ou cruéis, sejam inteligentes ou oriundas de desinformação.

Nem tudo são flores, lógico. Um texto preguiçoso e mal escrito vai ser triturado. Afinal, em uma discussão antiga e avançada como Asas de Balrogs fazer um texto superficial no mínimo é perda de tempo. Convém ter um conhecimento razoável de todo o entorno da questão antes de se lançar a tecer uma nova teoria ou mesmo resumir o que se sabe ate´o momento.

Portanto, relaxe, escolha um tema que você goste: cabelos do Legolas, aparência do Boromir, Asas de Balrog (ok, ok, esqueça essa aqui), história de algum artefato e mande ver! Claro que demanda algum esforço de pesquisa, principalmente de citações dos livros (afinal, o texto tem que sustentar em algo mais além da palavra do autor) mas vale a pena. Até hoje não me recordo de ter recusado um texto sequer na Valinor e duvido que o façamos, sendo um texto honesto. Então… por que não? A Valinor está de portas (e banco de dados) abertas a todos vocês e eu pessoalmente estou ansioso por ler novos e criativos textos.

Meio-Elfos – Desfazendo o Nó

 
Mudando um pouco o direcionamento (até agora) da minho coluna, resolvi escrever um pouco sobre a obra em si e não sobre o filme ou sobre os fãs. Afinal, um pouco de  Tolkien de verdade só faz bem! Vamos lá, rápidos e rasteiros, aos Meio-Elfos.

Uma das dúvidas que sempre ficam na cabeça após termos lido O Senhor dos Anéis e que só ficam mais complicadas após O Silmarillion e com os Contos Inacabados piora tudo é sobre os Meio-Elfos ou os raros rebentos das uniões entre Elfos e Homens. Afinal são Elfos ou Homens? Eles podem escolher a própria raça? Como é que fica? Bom, parecem questões simples com respostas fáceis, mas o problema é mais profundo do que parece.

Os Primeiros Meio-Elfos

Temos três casamentos de destaque entre Elfos e Homens.(muito embora não sejam as únicas uniões). O primeiro foi entre Lúthien e Beren, o segundo entre Tuor e Idril e o terceiro entre Aragorn e Arwen – apesar desta ser tecnicamente uma Meio-Elfa e não uma Elfa.

O filho de Beren e Lúthien foi Dior e não sabemos exatamente como enquadrá-lo, embora seja chamado de Meio-Elfo:

"Earendil was thus the second of the Pereldar (Half-elven), the elder being Dior, son of Beren and Luthien Tinuviel" [HoME 12]

"Dior Halfelven weds Lindis of Ossiriand." [HoME 11]

Aparentemente ele era considerado um Elfo e tratado como tal, pois assumiu seu lugar como herdeiro de Thingol e também se casou com uma Elfa de alta estirpe (Nimloth ou Lindis, dependendo do texto que tomarmos como base).

Dior teve três filhos mas apenas Elwin sobreviveu à Destruição de Doriath, fugindo aos portos. Não sabemos qual a posição quanto a Elwing, mas aparentemente ela era considerada uma Meio-Elfo também, assim como seu pai (o conceito patriarcal é muito presente quando tratamos de Meio-Elfos).

Mas então qual foi o destino de Dior e seus dois filhos? Não temos como saber exatamente pois Dior foi morto com uma idade compatível tanto com Elfos quanto com Homens e seus filhos morreram ainda criança mas temos uma indicação indireta sobre o fato que são a comparaçao entre as datas de nascimento e casamento de Dior. Ele nasceu por volta do ano 475 da Primeira Era e se casa já a 497 , com cerca de 24 ou 25 anos de idade, que é uma idade bastante adequada para o casamento de um Homem mas completamente imprópria para o casamento de um Elfo, que se casavam logo após os cinquenta anos (ver Leis e Costumes dos Eldar, HoME 10). Sim, é uma indicação pequena, mas aparentemente Dior era um Homem que aos 24 anos já atingira o máximo de seu vigor físico e se casou. Quantos aos filhos de Dior, nunca saberemos exatamente, mas se a regra dos Meio-Elfos fossem retroativas (ver abaixo!) filhos de Homens são sempre Homens mesmo que sua mãe seja uma Elfa ou Meio-Elfa, portanto ambos seriam Homens também.

O segundo casal, Tuor e Idril, teve um filho apenas, Earendil o Marinheiro chamado de Meio-Elfo e, por uma dessas “coincidências cantadas” dO Silmarillion, acaba se casando com Elwing neta de Dior, o primeiro Meio-Elfo. É o primeiro e único casamento entre Meio-Elfos da história e talvez seja o motivo da escolha dada a eles em Aman.

Elwin e Earendil se casam e através do poder da Silmarill conseguem atingir Aman e lá confundem até mesmo os Valar que decidem por não decidirem nada e deixar a escolha entre os dois:

"E esta é minha sentença com relação a eles: Eärendil e Elwing, bem como seus filhos, terão permissão cada um de escolher livremente a que família seus destinos serão vinculados, e de acordo com que família serão julgados”. [“O Silmarillion", Capítulo 24]

Este é o ponto divisor e junto ao casamento de dois Meio-Elfos o que faz diferença entre outros relacionamentos Elfos x Homens posteriores. Só a partir deste momento é que os Meio-Elfos e seus descendentes poderiam escolher a própria raça.

Os Filhos de Earendil e Elwing e o Problema de Arwen

Depois de um intervalo de alguns milênios chegamos ao romance de Arwen e Aragorn. Sendo Arwen filha de Elrond Meio-Elfo, o filho de Earendil, o que ela seria? Humana? Elfa? Teria direito a escolha?

Uma corrente bastante ampla a considera uma Elfa pura, pois só nasceu após seu pai ter escolhido pertencer aos Elfos. Mãe Elfa, pai que escolheu os Elfo, seria lógico esperarmos filhos Elfos, certo? Apesar de ser lógico, está errado. Arwen e seus dois irmãos são Meio-Elfos e teriam que escolher a raça:

“Arwen não era um elfo, mas sim um dos meio-elfos que abandonaram seus direitos élficos.” [Carta #345]

“Elrohir, Elladan: estes nomes, dados por Elrond a seus filhos, se referem ao fato de que eles eram ‘meio-elfos’: eles possuíam tanto ancestrais mortais quanto Élficos de ambos os lados; Tuor pelo lado de seu pai e Beren pelo lado de sua mãe”. [Carta #211]

“O final de seus filhos, Elladan e Elrohir, não é contado: eles atrasaram suas escolhas e permaneceram por um tempo”. [Carta #153]

Portanto Arwen, Elrohir e Elladan, como filhos de Elrond, tinham o direito de escolher. O problema é que os filhos de Elros, irmão de Elrond, não tinham:

"A idéia é que os Meio-elfos tem um poder (irrevogável) de escolha, que pode ser atrasado mas não permanentemente, do destino de qual raça partilhariam. Elros escolheu ser um Rei e ‘longevo’ porém mortal, portanto todos os seus descendentes são mortais, e de uma raça especialmente nobre, porém com uma longevidade mingüando (…) Elrond escolheu estar entre dos Elfos. Seus filhos (…) devem fazer suas escolhas." [Carta #153]

Afinal das contas, como ficava esse embrulho todo? Aparentemente o direito ou não de escolha era patriarcal, o que seu pai era é o que decide o que você será.

Outras Uniões?

Além das três uniões discutidas sabemos de pelo menos mais uma e temos indicações indiretas de possivelmente muitas mais. O antepassado do Príncipe Imrahil, Imrazor de Dol Amroth, um Numenoriano, tomou Mithrellas, uma Elfa companheira de Nimloth, como esposa (aparentemente à força). Dessa união nasceram dois filhos após o que Mithrellas desaparece (ou foge). Assim, a Casa de Dol Amroth ficou conhecida pela beleza devido à sua ascendência élfica, mas nenhuma referência sobre “escolha” ou “Meio-Elfo”, quando se referencia a Casa de Dol Amroth (Príncipe Imrahil incluso). Mais uma evidência que corrobora a tese da influência paterna sobre essas casos.

Temos também a ciração de um envolvimento amoroso (embora não consumado) entre Andreth, uma Humana, e Aegnor, Filho de Fëanor, relatado de passagem ao final do excelente “Da Morte e dos Filhos de Eru, e da Desfiguração dos Homens – O Diálogo de F
inrod e Andreth” contido no HoME 10. Neste caso, o único relatado entre um Elfo e uma Mulher, Aegnor abre mão do relacionamento não querendo sofrer as consequências do mesmo.

Aparentemente estes relacionamentos não eram completamente incomuns. Raros, porém não incomuns. O que parece ter sido extremamente raro é que alguns tenham sido levados às últimas consequências, e por isso merecem destaque.

Conclusão

Afinal das contas, depois disso tudo o que temos? Todos os indícios apontam uma influência paterna total (embora não intencional e/ou ativa) sobre os filhos. De maneira bem resumida seria assim: se seu pai é Meio-Elfo e escolheu ser Elfo, você vai poder escolher mas se ele era Meio-Elfo e escolheu ser Homem, você será Homem quer queira ou não, sem escolha. Se seu pai era Homem, você será Homem mesmo que sua mãe seja Elfa ou Meio-Elfa (temos exemplos disso com o caso de Mithrellas e Arwen) mesmo que seja chamado Meio-Elfo (seria o caso de Dior e seus dois filhos?). Se seu pai era um Elfo puro, bom, não temos como afirmar nada, pois não temos nenhum casos registrado sobre esse assunto, embora a lógica aqui aponte que ele seria um Elfo.

Como Organizar seu Próprio Encontro Tolkieniano – Parte 1

 
Seguem algumas dicas que podem ajudar a construir um grande grupo de amigos-fãs. O primeiro encontro é sempre o mais nervoso, geralmente ninguém se conhece e tá todo mundo rindo amarelo até se soltar. Existe uma série de dicas que podem ser importantes (ou não, é aquela velha história do "se conselho fosse bom ninguém dava, vendia"). Num próximo texto eu vou tentar abranger encontros maiores (em parques, por exemplo), com muita mistura etária e envolvendo pessoas de outras cidades. Por enquanto, o temido Primeiro Encontro:

Comece devagar ==> não precisa começar com um encontro pra 200 pessoas. Geralmente entre 8 e 15 pessoas é um ótimo começo.

Antecedência ==> dez a quinze dias de antecedência costumam ser adequados. Espalhe seu encontro. Listas da Valinor (pedindo sempre permissão aos Moderadores, antes), Fórum Valinor (sessão Regional) e a própria Valinor (no caso de encontros maiores) são grandes pontos de divulgação.

Um Responsável ==> especifique ou seja o responsável. Alguém que possa ser procurado em caso de problemas, informações ou desencontros. Em geral uma pessoa com 18 anos ou mais provida de de celular costuma ser mais do que suficiente. Divulgue a forma de contato com o responsável com antecedência também.

Tente focar um grupo etário ==> encontros onde todo mundo, de 13 a 80 se divirtam são apenas os realmente grandes, com muita gente, em locais que o permitam. Misturar adultos e adolescentes em grupos pequeno não costuma funcionar muito em um primeiro momento. A dica é: escolha um local que a "seleção" se fará automaticamente. Um encontro num shopping atrairá muito mais adolescentes do que adultos, da mesma forma que um encontro em um bar atrairá muito mais adultos do que adolecentes. Mas logicamente use o bom senso e não mande mensagens excludentes ("Encontro só para adultos").

Não tente direcionar o encontro ==> não invente moda, criando temas de discussão, atividades ou coisa que o valha. Deixe o pessoal interagir, conversando, inicie conversas quando a coisa tiver muito silenciosa e assim por diante. Piadinhas curtas e inocentes sobre SdA e seus personagens costuma funcionar bem como iniciadores de assunto e quebra de gelo. Assuntos pertinentes à lista de discussão (ou fórum ) em comum que o pessoal frequentar também funcionam.

Escolha o lugar com bastante cuidado ==> Nem sempre aquele seu boteco preferido é o melhor lugar. Num primeiro momento opte por locais:

- razoavelmente bem iluminados, afinal estão se conhecendo;
com som ambiente baixo ou sem som, o que importa é o bate-papo, a troca de idéias e som alto dificulta isso. E nem todos gostam dos mesmo ritmos e bandas;
sem entrada ou consumação, esse tipo de coisa afasta algumas pessoas com pouco dinheiro ou sem intenção de gastar;
– com lugar pra sentar, de novo, pra conversa fluir. Cadeiras, bancos, banquinhos… o que for. Pro pessoal ficar à vontade;
de fácil acesso. A maioria não vai ter carro ou carona de amigos/pais. Locais razoavelmente próximos de linhas de ônibus e/ou metrô são essenciais;
– quanto mais você facilitar para todos, mais despreocupados estarão e melhor a interação acontece;
NÃO faça o(s) primeiro(s) em sua casa ou apartamento. As pessoas podem ficar inibidas de comparecer e você também nunca sabe que tipos estranhos aparecerão. Campo neutro na primeira vez;
evite cinemas. É difícil conciliar o gosto de todos, e pode dar separação entre o pessoal. Além, claro de ser de extremo mau gosto ficar batendo papo dentro da sala de projeção;

Horário ==> Tente pegar um horário tal que não prejudique quem trabalha e que permita os mais novos irem. Minha sugestão seria por volta das 19:00. Claro que em finais de semana isso pode ser mais cedo, mas minhas experiências pessoas recomendam que não sejam marcados antes das 15:00 (afinal, você nunca sabe quando as pessoas almoçam). Não esqueça que na maioria das cidade o transporte coletivo não funciona após um certo horário, geralmente meia-noite. E também não esqueça que alguns locais apesar de seguros durante o dia, costumam ser bastante perigosos logo que a noite cai (provocando 6d6 de dano em todos… desculpa, piada RPGística, não resisti .

Encontrando o pessoal ==> esqueça esse negócio de "estarei de camiseta preta do Blind Guardian" ou "estarei com o SdA na mão", não funciona (atualmente todo mundo tem camiseta do Blind e livro do SdA embaixo do braço). Foto também não funciona. Se for um encontro em um lugar que reserva mesas, reserve e coloque em nome de TOLKIEN (não no seu próprio). Se for em shoppings ou locais abertos, leve uma folhinha escrito TOLKIEN e deixe colocada num local visível. Ah! Nada de vergonha ou timidez, esse negócio de pagar mico só existe na sua cabeça

Encontros com RPG ==> evite RPG em encontros genéricos ou se for um encontro só pra RPG deixe isso BEM explícito. Nada mais chato do que estar fora do grupo que joga… o que causa divisões entre o pessoal (meia dúzia joga e o resto vai fazer alguma outra coisa). Não tente forçar os que não jogam a jogarem.

Fantasias ==> esqueça isso pro primeiro encontro. Deixe isso pra parques/locais abertos

Evite bebidas alcoólicas ==> problemas, só problemas. Deixe pra outros encontros (caso você faça muita questão). E não esqueça que é proibido por lei o consumo de bebibas alcoólicas por menores de 18 anos. Claro que eu sei que ninguém quase respeita isso, mas nada impede que você encontre o policial mais caxias do mundo ou o dono de bar mais chato e acabe melando seu encontro. E também não esqueça que você não conhece ninguém e não sabe como se comportaram "mais altos", além da terrível pentelhação de levar alguém bêbado pra casa (que você nem sabe onde é).

Peça ajuda/conselhos ==>mande um e-mail aqui pra Valinor, que a gente vai fazer o possível pra te ajudar (mas é claro que não podemos organizar o encontro por você). Alguns de nós da Valinor participam de encontros desse tipo há mais de 8 anos;

Organizar um encontro parece difícil, mas não é, basta muita boa vontade e uma grande dose de bom senso. Geralment
e os encontros geram muitas amizades duradouras e sinceras, afinal, são pessoas com basicamente os mesmos gostos em comum. E não se esqueça de aproveitar o encontro também!

Sam, o Esperto!

Segue abaixo a descrição do terceiro parágrafo sumido (os outros
dois foram apelidados por mim de "O Anel de Saruman" e "Tom Bombadil
Gagá") de quatro encontrados até o momento e como ficaria uma possível
tradução em português.

 

 

E registro que a discussão e descoberta foi obra de uma pessoa da lista, da qual eu tive participação meramente marginal e de "juntar os caquinhos". Foi Solange Belba Pai D’Ouro.

Seguindo em frente, o que detectamos foi que a edição nacional de SdA deixa de fora um parágrafo importante. Na versão original em inglês o trecho é o seguinte, do qual eu coloquei um parágrafo antes e um após o trecho faltante:

`Still, there may be no connection between this rider and the Gaffers stranger, said Pippin. `We left Hobbiton secretly enough, and I dont see how he could have followed us.

`What about the smelling, sir? said Sam. `And the Gaffer said he was a black chap.

- I wish I had waited for Gandalf,Frodo muttered. `But perhaps it would only have matters worse.

Em português, temos (segundo tradução da Martins Fontes):

"… – Ainda assim, pode não haver ligação alguma entre o sujeito estranho do Feitor e este cavaleiro_ disse Pippin. – Saímos da Vila dos Hobbits em segredo, e eu não vejo como ele possa nos ter seguido.

- Devia ter esperado Gandalf – murmurou Frodo. – Mas talvez isso só piorasse as coisas."

Notem que a frase esperta de Sam é completamente perdida na traduçã. O parágrafo ficaria, em português, segundo minha tradução pessoal e livre, da seguinte forma:

- E o farejar, senhor? disse Sam. `E o Feitor disse que era um tipo escuro.

Os trechos acima citados encontram-se no capítulo "Três Não é Demais".

Tamanho é Documento?

 
Bela decisão eu tomei quando semana passada eu voltei a escrever uma coluninha. Tinha esquecido o quanto é gratificante despertar algum tipo de discussão, que é o motivo da existência dessa coluna. Não exatamente a busca da polêmica como objetivo final (como o Diogo Mainardi na Veja, por exemplo), mas a expressão de uma opinião pessoal basificada gerando com isso discussões construtivas, sendo a coluna um lixo ou não. E desde que escrevi a última coluna sobre E o Futuro, a Quem Pertence? ela tem sido lido mais de 250 vezes por dia!

Pensando um pouco sobre discussões, colunas, cara-a-tapa e outros, me dei conta do quanto as danadas das versões estendidas do SdA têm sido discutidas, sobrando farpas e conclusões para todo o lado. Por que não dar uma esmiuçada em tudo, tentando traçar um painel geral atual do que está acontecendo? Temos alguns ângulos a analisar em nossa coluninha de hoje, que é publicada religiosamente sem data nenhuma marcada e sim quando me dá na veneta.

Antes de mais nada, é estendido, com "s" de sapo. Em português não existe a palavra extendido, com x de "aquela mulher cujo nome não deve ser dito mas que a cada ano adia a estréia do SdA por causa de seus filmes bobos embora a Warner alegue que não seja isso" (bom, vocês sabem de quem eu estou falando). Embora a raiz latina seja a mesma, extendere, em português temos estendida e em inglês extended, e se você faz absoluta questão de usar x eu recomendo o uso de expandida, assim todos ficaremos felizes (e gramaticalmente corretos).

Só para o caso de você, meu nobre mas avoado Leitor, ter vivido nos últimos meses em algum mosteiro no Nepal e não saiba o que são as versões estendidas do filme do Senhor dos Anéis, gasto um ou dois paragrafozinhos para explicá-las. Por mais que o PJ diga que não, as versões estendidas são "directors cut", edições do diretor ou o filme que o diretor gostaria de poder ter apresentado no cinema. A versão estendida do primeiro filme ("O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" – SdA:SdA) possui 30 min de cenas extras enquanto o segundo filme ("O Senhor dos Anéis: As Duas Torres" – SdA:ADT) possui ainda mais, 43 min e, de acordo com o que temos lido atualmente, acredito que podemos esperar uma versão estendida de "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei" ainda com mais cenas extras, beirando os 60 minutos.

E o que essas versões estendidas têm de mais? Podemos ter uma idéia da quantidade de cenas extras ao ler esta notícia do Kanawati sobre o conteúdo do DVD estendido de SdA:ADT. De fato são muitas cenas que, por algum motivo (discutidos mais além), não foram apresentadas no cinema.

Estas versões são mais fluídas dos que as apresentadas nos cinemas mas também mais lentas. São mais fiéis à obra escrita mas talvez sejam absolutamente soporíferas para alguém que não está interessado se o filme é ou não baseado em uma obra literária (ou vice-versa) e busque apenas diversão. Minha condição de fã não me permite ter uma visão muito clara sobre isso. Algumas opiniões coletadas aqui e ali entre não-fãs variam entre "dormi", "legal mas fiquei um pouco perdido", "indispensável" e "um crime não terem saído no cinema. De meu lado afirmo tranquilamente que são infinitamente melhores do que a edição picotada e oficial.

Alguma controvérsia tem sido criada sobre as versões estendidas, acusando-as de serem meramente jogadas de marketing para aumentar os lucros com as vendas dos DVDs, uma vez que seriam vendidos DVDs com as versões normais (aquelas apresentadas nos cinemas) e outra mais cara, convenientemente lançada alguns meses após a versão normal, mas cuidadosamente colocada de forma a servir de propaganda para os filmes no cinema (até agora elas foram lançadas cerca de um mês antes da estréia do filme seguinte no cinema) e tendo algumas cenas especialmente reservadas para elas como chamariz (como Lothlórien, no caso de SdA:SdA). Outros defendem que devemos todos ser gratos por termos tais versões estendidas ao nosso alcance.

Eu acredito que a "explicação" é na verdade uma mistura de ambas as afirmações. É muita inocência acreditar que poderíamos ter nos cinemas, de forma comercialmente viável, um filme com cerca de 4 horas de duração, simplesmente porque representaria uma sessão a menos por dia. Um filme de 4 horas permite umas três sessões/dia enquanto um de 3 horas consegue ter quatro sessões/dia. Até mesmo o "intocável" Lawrence da Arábia foi picotado de 3:45 h para cerca de 3:20, para ser apresentado no cinema. A princípio ele foi cortado pelo próprio diretor, mas como os cinemas não consideraram os cortes como suficientes, cortaram um tanto também por conta própria, de forma que só tivemos a versão original, aquela de inteção do diretor, mais de 20 anos após o lançamento do filme nos cinemas. A idéia é ganhar o máximo no menor tempo possível, afinal a fila de lançamentos não pára.

O que ocorreu no caso dos "O Senhor dos Anéis" foi uma junção de interesses (do estúdio) com interesses (dos cinemas) com interesses (do diretor). Peter Jackson (PJ para os íntimos, que por sinal é o diretor dos filmes, caso nosso gentil e monástico Leitor não o saiba) é fã da obra e gostaria de apresentá-la da maneira mais "intacta" possível, como deixou bem claro várias vezes. Ele conseguiu que fossem três filmes e não um, o que é algo surpreendente, tendo-se em vista Hollywood, mas também teve que fazer concessões de marketing, afinal o filme não é simplesmente uma obra de arte de um fã abnegado, ele tem que se pagar e gerar algum lucro aos investidores. Aí que eu acho que está a boa jogada de Peter Jackson: ele joga os filmes "que ele gostaria de ver no cinema", mas que por vários motivos não é possível, em uma edição especial de DVD o que gera lucros extras para o estúdio. Lógico que é uma jogada arriscada, pois se o SdA:SdA tivesse naufragado nas bilheterias duvido muito que ouvíssemos falar de alguma versão estendida.

Portanto o mesmo mundo porco e capitalista que picota um filme para que se encaixe nos padrões de tempo e audiência dos grandes estúdios nos proporcionaram de maneira rápida a "versão do diretor", que, pra sorte nossa, é um fã da obra. E o diretor que hoje faz um filme sem já pensar de algumas forma em edições de DVD pode ter a liberdade de tacar a primeira pedra.

Só um intervalo, antes de continuarmos nossa viagem pelas versões estendidas, agora dentro do Brasil. Falando como falo dá a n&i
acute;tida impressão que sou um fã incondicional dos filmes e do Peter Jackson, não é? Bom, eu acho que me rendi, de uma certa maneira, ao considerar o livro "O Senhor dos Anéis" uma entidade à parte dos filmes "O Senhor dos Anéis". Eu escrevi um texto de certa forma defendendo o filme chamado É o Filme MALIGNO?, irmão gêmeo de outro, chamado de Queime, PJ, Queime! justamente detratando os filmes e seu diretor. Enfim, acho que cansei dessa controvérsia em particular.

Agora eu devo entrar por um assunto infeliz e cansativo, embora inescapável. E nós aqui no Brasil, cadê nossas versões estendidas? Essa maldita questão (em todos os variados sabores que esta palavra pode assumir) tem mais de ano e já era tão batida em dezembro de 2002 que eu me vi forçado a criar um textos sobre ela, que ainda se encontra de certa forma atual, SdA:SdA – Tudo o Que Você Queria Saber sobre o DVD (Estendido ou Não) que se tornou, lamentavelmente, o texto mais lido da história da Valinor. Agora mesmo me surpreendo em verificar que já em setembro constava nele a notícia da apresentação cinematográfica da versões estendidas no Brasil… que coisa!

Ao ler esta presente coluna talvez a encontre-a desatualizada, pois as notícias mais atuais que temos neste momento são que as versões estendidas serão apresentadas em poucos cinemas de poucas cidades durante pouco tempo (nenhum desses "poucos" foi definido pela Warner Bros. até o momento) a partir do dia 12 de dezembro de 2003. Já as versões estendidas em DVD não nos dão qualquer esperança. Não temos sequer uma palavra mesmo que extra-oficial da Warner Bros. com relação a elas (repare que em setembro já tínhamos boatos sobre as apresentações cinematográficas).

Por que, raios trovões largartos e morcegos, por que, malditos sejam para toda a eternidade, por que, crias de Morgoth, não temos essas versões estendidas em DVD no Brasil? O mais cruel de tudo é que não se sabe a resposta real e definitiva. Desde final de 2002 temos os profetas do apocalipse afirmando a altos brados que "no mês que vem sai" e "tenho informações quentíssimas de um primo dum amigo dum porteiro dum funcionario da Warner" mas infelizmente até agora nada. O que a Warner afirma, de maneira bastante tímida há mais de um ano é que a "New Line não liberou" e/ou "problemas de licenciamento impedem o lançamento no Brasil" o que, no final das contas, são a mesma desculpa.

A Warner já foi acusada de tudo pelos fãs, passando de "burra" por perder negócio tão bom não lançando os DVDs a "monstra" (por, segundo alguns, intencionalmente nos torturar não os lançando no Brasil) mas o que sabemos é que até agora, nada de DVDs e nada de boatos sobre os DVDs, embora o lançamento das estendidas nos cinemas tenha dado uma nova esperança, totalmente desprovida de basificação oficial ou boatérica, devo ressaltar, do lançamento dos DVDs. Eu por mim não sei mais o que dizer ou o que pensar. Acho que os DVDs ainda saem, mas não me surpreenderia se não saíssem. Acho que a Warner não mente ao afirmar que a culpa não é dela, mas não me surpreenderia se ficasse claro que mentiu. Acho que a Warner não é burra, mas não me surpreenderia se o fosse. Fica só minha grande esperança de que os DVDs saiam e o que saiam o quanto antes. Eu por mim fico aqui na minha (agora) quieta ansiedade, espiando mensalmente a revista de lançamentos da Warner destinada às locadoras, na qual constam os lançamentos em DVD com uma antecedência de dois meses.

Infelizmente essa minha coluna será majoritariamente discutida (se o for) apenas tendo como base esses dois ou três últimos parágrafos, mas não cabe o autor decidir sob que aspecto um texto será discutido pelos leitores do mesmo. O que me resta é fazer uma conclusão, se possível com uma frase engraçadinha ou espirituosa, e portanto lá vai: após ter assistido a ambos os DVDs estendidos a única certeza que fica é que sim, o tamanho influi no prazer proporcionado (ok, podem atirar agora).