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Uma Carta de Tolkien

Tolkien escreve a Elsie Honeybourne à mão em uma carta datada de 21 de dezembro de 1967, papel de 5,25 x 7 polegadas (13,3 x 17,8 cm – pouco mais que a página de um livro de bolso), cujo mais interessante não é o teor da mesma mas sim as imagens, permitindo visualizar com exatidão a letra e o estilo de Tolkien. Esta carta não se encontro no livro As Cartas de J.R.R. Tolkien (afinal, tem pouco ou nenhum interesse no geral da obra).
Abaixo segue a carta no original em inglês, completa, para facilitar o acompanhamento pela imagem da mesma, já que a letra de Tolkien não é tão legível assim:1967-december_21-honeybourne.jpg“Thank you so much for writing such kind and appreciative letters, brevity is not necessarily a virtue. I am interested in what you say of your name. I think it still probable that your father’s name nonetheless comes from near Evesham. It must be derived from a place-name; and though -Bourne (stream) is widespread in England, and occurs in Kentish names, Honeybourne is found only in Cow H. and Church H. near Evesham. There was a considerable movement and interchange between Kent and Worcestershire, largely because of the industries of fruit-growing. I shall certainly put Honeybourne on the Shire Map as soon as an opportunity of revision (much needed) occurs. I was deeply interested in your choice of passages, and quite agree about Pippin’s ride. An easing of tension was needed at the end of the ‘Book’ (but of course provided instinctively and not by planning). To ride with Gandalf must have been like being borne by a Guardian Angel, with stern gentleness a most comforting combination to children (as we all are).

I am sending you a copy of my recently published story. Not addressed to children (reached by age). An old man’s tale, mainly concerned with ‘retirement’ and bereavement.”

Em português temos:

“Muito obrigado por escrever tais cartas gentis e apreciativas, brevidade não é necessariamente uma virtude. Eu estou interessado no que você diz sobre seu nome. Eu acredito ainda ser provável que o nome de seu pai tenha vindo de perto de Evesham. Ele deve ser derivado de um nome de lugar; e embora -Bourne (córrego) seja espalhado pela Inglaterra, e ocorra em nomes de Kent, Honeybourne é encontrado apenas em Cow H. e Church H. perto de Evesham. Ocorreram movimentos e trocas consideráveis entre Kent e Worcestershire, principalmente devido às indústrias de cultivo de frutas.

Com certeza eu colocarei Honeybourne no Mapa do Condado tão logo uma oportunidade de revisão (muito necessitada) apareça.

1967-december_21-honeybourne_2.jpgEu fiquei profundamente interessado em suaescolha de trechos, e concordo sobre a cavalgada de Pippin. Um relaxamento de tensão era necessário ao final do ‘Livro’ (mas, claro, feita instintivamente e não planejada). Cavalgar com Gandalf deve ter sido como ser carregado por um Anjo da Guarda, com austera gentileza uma combinação das mais confortantes para crianças (como todos somos).

Estou enviando uma cópia de minha história recentemente publicada. Não direcionada a crianças (em idade). Um conto de um velho, principalmente relacionado com ‘aposentadoria’ e a tristeza da perda.”

Na carta Tolkien se refere à sua história “Smith of Wooton Major”, publicada pela primeira vez na revista Redbook em 23 de novembro de 1967. Tolkien também acrescenta uma breve nota a lápis no topo da primeira página com relação a seu atraso em ler a correspondência. Podemos ver aqui as maiores características pessoais de Tolkien, explorando idiomas e encontrando raízes para palavras e nomes. Línguas eram sua fonte de inspiração e aqui pela segunda vez ele diz que poderia adicionar Honeybource (algo como “riacho de mel”) ao mapa dO Hobbit.

Carta #43

Sobre o assunto casamento e relacionamento entre os sexos.

Os interesses de um homem pelas mulheres podem ser puramente físicos (realmente não podem, é claro: mas quero dizer que ele pode recusa-se a levar em conta outras coisas, para o grande dano de sua alma (e corpo) e delas); ou “amigável”; ou ele pode ser um “amante” (empenhando e misturando todos seus afetos e poderes da mente e corpo em uma emoção poderosamente complexa e energizada pelo “sexo”). Este é um mundo caído. A desarticulação do instinto-sexo é um dos sintomas principais da Queda. O mundo tem ido “de mal a pior” por muitas eras. As várias formas sociais mudam, e cada novo modo tem seus perigos especiais: mas o “duro espírito da concupiscência” vem caminhando por todas as ruas, e se instalou em todas as casas, desde que Adão caiu. Deixaremos de lado os resultados “imorais”. Estes que para o quais você não deseja ser arrastado. Para a renúncia você não teve nenhuma chamada. “Amizade” então? Neste mundo caído a “amizade” que deveria ser possível entre todos os seres humanos, é virtualmente impossível entre o homem e mulher. O diabo é eternamente engenhoso, e sexo é o assunto favorito dele. Ele é bom tanto pegando-o através de generosos motivos românticos ou tenros, quanto através daqueles mais básicos ou animais. Esta “amizade” tem sido freqüentemente tentada: um lado ou o outro quase sempre falha. Mais tarde na vida quando sexo acalma-se, pode ser possível. Pode acontecer entre santos. Para a pessoa comum pode acontecer só raramente: duas mentes que realmente têm uma afinidade principalmente mental e espiritual podem por acidente residir em um corpo de um macho e de uma fêmea, e ainda podem desejar e alcançar um “amizade” totalmente independente de sexo. Mas ninguém pode contar com isto. A outra parte deixará ele (ou ela) mal, é quase certo, por “apaixonar-se”. Mas um rapaz realmente não quer (como via de•regra) “amizade”, até mesmo se ele diz que quer. Existe um monte de rapazes (como•via de•regra). Ele quer amor: inocente, e ainda irresponsável talvez. “Ai de mim! Ai de mim! o amor sempre foi pecaminoso!” como Chaucer diz. Então se ele é um Cristão e é alertado que existe tal coisa como pecado, ele quer saber o que fazer sobre isto.

Existe em nossa cultura Ocidental a romântica tradição cavalheiresca ainda forte, entretanto como um produto da Cristandade (contudo por nenhum meio igual a ética Cristã) mas os tempos são outros. Ela idealiza “amor” – e até onde vai pode ser muito bom, desde que compreenda-se que é mais que prazer físico, e impõe se não pureza, pelo menos fidelidade, e assim abnegação, “serviço”, cortesia, honra, e coragem. Sua fraqueza, certamente, é ter começado como um elegante jogo artificial, um modo de desfrutar amor em benefício próprio sem interesse para (e realmente ao contrário de) o matrimônio. Seu centro não era Deus, mas Deidades imaginárias, Amor e a Dama. Ainda tende a fazer a Dama um tipo de estrela guia ou divindade – do antiquado “sua divindade” = a mulher que ele ama – o objeto ou razão da conduta nobre. Isto é, certamente, falso e na melhor as hipóteses fictício. A mulher é outro humano caído – ser com uma alma em perigo. Mas combinada e harmonizada com religião (como há muito tempo tem sido, produzindo muita desta bela devoção a Nossa Senhora que foi o modo de Deus de refinar nossas naturezas e emoções tão brutas, e também de aquecer e colorir nossa dura, amarga, religião) pode ser muito nobre. Então produz o que eu suponho que ainda é sentido, entre esses que retêm ainda que um vestígio de Cristianismo, ser o ideal mais alto de amor entre o homem e mulher. Porém eu ainda acho que tem perigos. Não é completamente verdade, e não é perfeitamente “teocêntrico”. Leva, ou de qualquer modo tem no passado levado, os rapazes a não verem as mulheres como elas são, como companheiras em um naufrágio que sem estrelas guias. (Um resultado observado é que na verdade faz o rapaz tornar-se cínico). Leva-os a esquecer os desejos, necessidades e tentações delas. Impõe noções exageradas de “amor verdadeiro”, como um fogo sem origem, uma exaltação permanente, não relacionado a idade, procriação, e vida simples, e sem relação a vontade e propósito. (Um resulta disso é fazer os jovens procurarem um “amor” que sempre os manterá satisfeitos e aquecidos em um mundo frio, sem qualquer esforço próprio; e o incuravelmente romântico procura até mesmo na sordidez das cortes de divórcio).

Mulheres realmente não têm muita parte em tudo isso, embora elas possam usar a linguagem do amor romântico, uma vez que está tão entrelaçada em todos os nossos idiomas. O impulso sexual faz as mulheres (naturalmente quando não estragadas pelo egoísmo) muito solidárias e compreensivas, ou especialmente desejosas de assim o serem (ou de assim parecerem), e muito predispostas a entrar em todos os interesses, até onde elas possam, de gravatas à religião, do jovem por quem elas estão atraídas. Necessariamente sem qualquer intenção de enganar: puro instinto: o servidor, instinto de colaborador, generosamente estimulado pelo desejo e pelo sangue jovem. Sob esse impulso elas de fato podem alcançar freqüentemente perspicácia e entendimento extraordinários, até mesmo de coisas contrárias aos seus assuntos naturais: porque é o seu dom por serem receptivas, estimuladas, fertilizadas (em muitos outros aspectos que o físico) pelo macho. Todo professor sabe isso. Como tão rápido uma mulher inteligente pode ser ensinada, captar as idéias dele, ponto de vista – e como (com raras exceções) elas podem ir a lugar nenhum, quando elas largam sua mão, ou quando elas deixam de se interessar por ele. Mas este é o caminho natural delas para amar. Antes que a jovem saiba onde ela está (e enquanto o jovem romântico, quando ele existe, é ainda só um sonho) ela pode de fato “apaixonar-se”. O que para ela, uma jovem ainda pura, significa querer se tornar a mãe dos filhos do jovem, até mesmo se este desejo não está de alguma maneira claro ou explícito para ela. E então coisas vão acontecer: e elas podem ser muito dolorosas e prejudiciais, se as coisas saírem errado. Particularmente se o jovem só quisesse uma estrela guia e divindade temporárias (até que ele achasse uma mais brilhante), e só estivesse desfrutando uma agradável relação temporária com uma titilação de sexo – tudo bastante inocente, é claro, e mundos longe de “sedução”.

Você pode encontrar na vida (como na literatura) mulheres que são inconstantes, ou até mesmo claramente libertinas – eu não me refiro a mero namorico, a prática da luta para o combate real, mas as mulheres que são tolas demais para levar até mesmo o amor a sério, ou são na verdade tão depravadas que se divertem com “conquistas”, ou até mesmo em causar dor – mas estas são anormalidades, embora mesmo educação errada, má criação, e modas deturpadas possa encorajá-las. Muito embora as condições modernas tenham mudado as circunstâncias femininas, e o detalhe do que é considerado decoro, elas não mudaram instinto natural. Um homem tem um trabalho, uma carreira, (e amigos homens) tudo com o qual poderia (e faz quando ele tem qualquer brio) sobreviver ao naufrágio do “amor”. Uma mulher jovem, até aquela “economicamente independente”, como dizem agora (isto na verdade significa realmente subserviência econômica a um macho empregador em vez de um pai ou uma família), começa a pensar no “pé-de-meia” e sonha com uma casa, quase imediatamente. Se ela realmente se apaixona, o naufrágio pode realmente terminar nas pedras. De qualquer maneira mulheres são em geral muito menos românticas e mais práticas. Não se engane pelo fato delas serem mais “sentimentais” no uso das palavras – mais espontâneas com “querido”, e tudo mais. Elas não querem uma estrela guiando. Elas podem idealizar um simples jovem como um herói; mas elas realmente não precisam de qualquer deslumbramento como este para se apaixonar ou assim permanecer. Se elas têm qualquer ilusão é de que elas podem “remodelar” os homens. Elas se darão conta que não, e até mesmo quando a ilusão se desfaz, continua a amá-lo. Elas são, é claro, muito mais realistas sobre a relação sexual. A menos que pervertidas pelos maus costumes contemporâneos elas não falam como via de regra “obscenidades”; não porque elas são mais puras que os homens (elas não são) mas porque elas não acham isto engraçado. Eu soube de algumas que fingiam achar, mas é um fingimento. Pode ser intrigante, interessante, absorvente (até uma grande vantagem também absorver) para elas: mas é só curiosidade natural, um interesse sério, óbvio; onde está a graça?

Elas têm que ser, é claro, ainda mais cuidadosas nas relações sexuais, no que diz respeito a todos os contraceptivos. Enganos são fisicamente e socialmente (e matrimonialmente) prejudiciais. Mas elas são instintivamente, quando não corrompidas, monogâmicas. Homens não são. …. Nem pretendem sê-lo. Os homens só não são, não pela sua natureza animal. Monogamia (embora tenha sido por muito tempo fundamental a nossas idéias herdadas) é para nós homens uma parte da ética “revelada”, de acordo com fé e não com a carne. Cada um de nós poderia procriar sadiamente, em nossos 30 e tantos anos de pleno vigor físico, umas cem crianças, e desfrutar o processo. Brigham Young (eu acredito) era um homem saudável e feliz. É um mundo caído, e não há nenhuma consonância entre nossos corpos, mentes, e almas.

Porém, a essência de um mundo caído é que o melhor não pode ser atingido pelo prazer livre, ou pelo que é chamado “auto-realização ” (normalmente um nome agradável para auto-indulgência, completamente hostil à realização de outros); mas pela negação, pelo sofrimento. Fidelidade em casamentos Cristãos requer isso: grande sacrifício. Para um homem Cristão não há fuga. Matrimônio pode ajudar a santificar & direcionar ao seu objetivo característico seus desejos sexuais; sua condição pode ajudá-lo na luta; mas a luta permanece. Isso não o satisfará – já que a fome pode ser afastada através de refeições regulares. Oferecerá tanto muitas dificuldades à pureza característica daquele estado, quanto provê alívios. Nenhum homem, por mais que verdadeiramente amasse sua noiva e esposa como um homem jovem, viveu fielmente para ela como uma esposa em mente e corpo sem que deliberasse exercício consciente de vontade, sem abnegação. Contam-se muitos poucos – até mesmo aqueles educados “na Igreja”. Daqueles que não, raramente tenho ouvido. Quando o deslumbramento passa, ou simplesmente não atendeu às espectativas, eles pensam que cometeram um engano, e que a sua verdadeira alma-gêmea ainda não foi encontrada. A verdadeira alma-gêmea também muito freqüentemente prova ser a próxima pessoa sexualmente atraente que vier. Alguém com a qual eles na verdade poderiam muito provavelmente casar, se -. Conseqüentemente o divórcio, para prover o “se”. E é claro que eles estão como via de regra totalmente certos: eles cometeram um engano. Só um homem muito sábio no final de sua vida poderia fazer um julgamento são a respeito de quem, entre todas as chances possíveis, ele deveria mais provavelmente ter desposado! Quase todos os matrimônios, até mesmo os felizes, são equivocados: no sentido de que quase certamente (em um mundo mais perfeito, ou até mesmo com um pouco mais de cuidado neste muito defeituoso) ambas as partes poderiam ter achado companheiros mais satisfatórios. Mas a “verdadeira alma-gêmea” é aquela com a qual você está de fato casado. Você realmente não escolhe muito: vida e circunstância fazem a maior parte disso (entretanto se há um Deus esses devem ser seus instrumentos, ou como ele se apresenta). É notório que de fato matrimônios felizes são mais comuns onde a “escolha” pelos jovens é até mesmo mais limitada, por autoridade paterna ou familiar, contanto que haja uma moral social de pura responsabilidade e fidelidade conjugal não romântica. Mas até mesmo em países onde a tradição romântica tem afetado tanto os arranjos sociais que faz com que as pessoas acreditem que a escolha de um companheiro diz respeito somente ao jovem, só a mais rara boa sorte reúne o homem e mulher que realmente estão “destinados” um ao outro, e capazes de um enorme e esplêndido amor. A idéia ainda nos deslumbra, nos pega pela garganta: foram escritos poemas e histórias aos milhares sobre o tema, mais, provavelmente, que o total de tais amores na vida real (ainda que o maior desses contos não fale do casamento feliz de tais grandes amantes, mas da trágica separação deles; como se até mesmo nesta esfera o verdadeiramente grande e esplêndido neste mundo caído esteja mais propício a terminar em “fracasso” e sofrimento). Em tal grande e inevitável amor, freqüentemente amor à primeira vista, nós temos uma visão, eu suponho, do casamento como deveria ter sido em um mundo perfeito. Neste mundo caído nós temos como nossos únicos guias, prudência, sabedoria (rara na mocidade, muito tardia com a idade), um coração puro, e fidelidade de sentimentos….. {mospagebreak} Minha própria história é tão excepcional, tão errada e imprudente em quase todos os pontos que a faz difícil para aconselhar prudência. Ainda que casos difíceis façam uma lei ruim; e casos excepcionais não são sempre bons guias para outros. Para o que serve aqui é como autobiografia – nesta ocasião principalmente direcionada aos detalhes da idade, e finanças.

Me apaixonei por sua mãe na idade aproximada de 18. Completamente verdadeiro, como tem sido mostrado – embora é claro falhas de caráter e temperamento tenham me levado freqüentemente a me desviar do ideal com que eu comecei. Sua mãe era mais velha que eu, e não era católica. Completamente desastroso, já que era tutelado por um guardião¹. E era de certo modo muito desafortunado; e de certo modo muito ruim para mim. Estas coisas são interessantes e nervosamente exaustivas. Eu era um garoto inteligente na agonia do trabalho para uma (muito necessária) bolsa de estudos em Oxford. As tensões combinadas quase produziram um colapso nervoso. Eu não tive sucesso nos meus exames e embora (como anos depois meu Reitor me contou) eu tenha conseguido uma boa bolsa de estudos, só a ganhei por um triz depois da exibição de 60 libras a Exeter: o suficiente com uma bolsa de estudos da escola remanescente] da mesma quantia (ajudada por meu querido antigo guardião). É claro que havia um lado de crédito, não tão facilmente visto pelo guardião. Eu era inteligente, mas não laborioso ou de grande intelecto; uma grande parte do meu fracasso simplesmente era devida a não trabalhar (pelo menos não os clássicos) não porque eu estava apaixonado, mas porque eu estava estudando uma outra coisa: Gótico². Tendo a educação romântica, levei a sério o romance menino-e-menina, e fiz dele a origem do esforço. Naturalmente antes um covarde físico, eu passei de um coelho menosprezado em uma casa de segunda categoria para as cores da escola em dois períodos. Todo aquele tipo de coisa. Porém, um problema surgiu: e eu tive que escolher entre desobedecer e magoar (ou enganar) um guardião que tinha sido um pai para mim, mais que a maioria dos pais verdadeiros, mas sem qualquer obrigação, e “perder” o caso-amoroso até que eu tivesse 21. Eu não lamento minha decisão, entretanto foi muito difícil para minha amada. Mas isso não•foi minha culpa. Ela estava perfeitamente livre e não tinha feito nenhum voto para mim, e eu não teria tido nenhuma reclamação justa (exclua de acordo com o código romântico irreal) se ela tivesse casado com outra pessoa. Durante quase três anos não vi ou escrevi para minha amada. Era extremamente difícil, doloroso e amargo, especialmente no início. Os efeitos não foram muito bons: caí na leviandade e negligência e desperdicei uma boa parte do meu primeiro ano na Faculdade. Mas eu não acho que qualquer outra coisa teria justificado casamento baseado no romance de um garoto; e provavelmente nada mais teria fortificado a vontade o suficiente para garantir a um romance (embora um genuíno caso de verdadeiro amor) permanência. Na noite de meu 21º aniversário eu escrevi novamente a sua mãe – 3 de janeiro de 1913. Em 8 de janeiro eu regressei para ela, e ficamos noivos, e informei à uma família atônita. Eu juntei o que tinha em minhas meias e fiz um anúncio de emprego (tarde demais para salvar Hon. Mods.³ do desastre) – e então guerra começou no ano seguinte, enquanto eu ainda tinha um ano para completar a faculdade. Naqueles dias os camaradas se uniam, ou eram desprezados publicamente. Era uma lugar sórdido para se estar, especialmente para um jovem com muita imaginação e pouca coragem física. Sem diploma: sem dinheiro: noivo. Eu suportei a censura, e sugestões de parentes tornavam-se sinceras, ficava acordado, e vieram os Exames Finais em 1915. Fugi para o exército: julho de 1915. Eu achei a situação intolerável e casei em 22 de março de 1916. Pode me encontrar cruzando o Canal (eu ainda tenho o verso que eu escrevi na ocasião!4 ) para o massacre de Somme.

Pense em sua mãe! Ainda sim hoje não sinto que ela estava fazendo mais do que lhe tinha sido pedido que fizesse – não que isso diminua do crédito disto. Eu era um jovem rapaz, com um diploma razoável, e hábil em escrever versos, algumas libras minguadas (£20 – 40)5, e nenhum perspectiva, um Segundo Tenente seis dias na semana na infantaria onde as chances de sobrevivência estavam severamente contra você (como um subalterno). Ela casou-se comigo em 1916 e John nasceu em 1917 (concebeu e esteve grávida durante o período de fome de 1917 e da grande campanha U-BoatA) na época da batalha de Cambrai, quando o fim da guerra parecia tão distante quanto agoraB. Eu vendi, e usei para pagar a casa de saúde, as últimas de minhas poucas ações Sul-Africanas, “meu patrimônio”.

Fora a escuridão de minha vida, tão frustrada, eu ponho diante de você a única grande coisa para amar na terra: o Santo Sacramento. …. Lá você achará romance, glória, honra, fidelidade, e a verdadeira forma de todos os seus amores em terra, e mais que isso: Morte: pelo paradoxo divino aquela que termina com a vida, e exige a renúncia de tudo, e ainda pelo gosto (ou antegosto) de que sozinha pode o que você busca em suas relações terrestres (amor, fidelidade, alegria) seja mantido, ou assuma aquela aparência de realidade, de duração eterna, que o coração de todo homem deseja.

Notas do Autor

1. O guardião de Tolkien, Padre Francis Morgan, desaprovava seu caso amoroso clandestino com Edith Bratt.

2. Tolkien ficou empolgado durante tempo de escola ao descobrir a existência do idioma Gótico; ver carta #272.

3. Classical Honour Moderations, prêmio com o qual Tolkien foi premiado em segundo lugar.

4. A data real da travessia de Tolkien e seu batalhão pelo Canal foi 6 de junho de 1916. O poema ao qual ele se refere, ´Étaples, Pas de Calais, Junho 1916´, é intitulado ´A Ilha Solitária´, e é sub-intitulado ´Para Inglaterra´, entretanto ele também se relaciona à mitologia de O Silmarillion. O poema foi publicado no Leeds University Vene entre 1914-1924.B – A carta foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial, que só terminaria quatro anos mais tarde.

5. Tolkien herdou uma pequena renda de seus pais, proveniente de ações de minas Sul Africanas.

Notas da Tradução

A – “U-Boat” era a designação dada aos submarinos alemães. Em fevereiro de 1917 a Alemanha declarou guerra submarina com esperança de subjulgar a Inglaterra. Esta neutralizou os ataques graças a um sistema de comboios posto em prática em maio de 1917. A ofensiva com submarinos precipitou a entrada dos EUA na guerra em abril de 1917, que constitui uma ajuda decisiva aos aliados.

B – A carta foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial, que só terminaria quatro anos mais tarde.

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Carta #211

[Rhona Beare escreveu fazendo várias perguntas, para que ela pudesse passar as respostas de Tolkien aos companheiros em um encontro de admiradores de O Senhor dos Anéis. Por que, ela perguntou, Sam fala a prece Élfica como "O Elbereth Gilthoniel" no capítulo "As Escolhas de Mestre Samwise" quando em outro lugar a forma usada "A Elbereth Gilthoniel"? (Era esta a grafia usada na primeira edição do livro.) Qual é o significado desta prece, e das palavras de Frodo no capítulo anterior, "Aiya Eärendil Elenion Ancalima!"? Senhorita Beare fez então uma série de perguntas numeradas. " Pergunta 1 ": Por que (I - Fuga para o Vau) o cavalo de Glorfindel é descrito como tendo "rédeas e arreios" quando elfos montam sem arreios, rédeas ou selas? " Pergunta 2 ": Como Ar-Pharazôn pode derrotar Sauron quando Sauron tinha o Um Anel?  " Pergunta 3 ": Quais eram as cores dos dois magos mencionados mas não nomeados no livro? " Pergunta 4 ": Que roupas os povos da Terra-média vestiam? A coroa alada de Gondor era como de uma Valquíria, ou como a ilustrada na embalagem do cigarro Gauloise? Explique o significado de El - em Elrond, Elladan, Elrohir; quando El- significa "elfo" e quando "estrela"? Explique o significado do nome Legolas. O Rei-bruxo montou um pterodáctilo no cerco de Gondor? " Pergunta 5 ": Quem é o Antigo Rei mencionado por Bilbo em sua canção de Eärendil? Ele é o Um?]

14 outubro 1958 Faculdade de Merton, Oxford,

Cara Senhorita Beare,

Temo que esta resposta chegue muito tarde para ser útil ao evento; mas não foi possível escrever antes. Só agora voltei de minha licença de um ano, cujo objetivo era me permitir completar alguns dos “trabalhos de estudo” negligenciados durante minha preocupação com ninharias não profissionais (como O Senhor dos Anéis): eu recordo o tom de muitos de meus colegas. De fato o tempo esteve principalmente tomado com problemas graves, incluindo a enfermidade de minha esposa; mas passei todo o mês de agosto trabalhando por longas horas, sete dias por semana, contra o tempo, para terminar uma parte do trabalho antes de ir para a Irlanda a negócios profissionais. Só voltei alguns dias atrás, bem a tempo para nossa Festa de São Miguel.

Em uma calmaria momentânea tentarei responder suas perguntas brevemente. Eu não “sei todas as respostas”. Muito de meu próprio livro me confunde; e seja como for muito dele foi escrito tanto tempo atrás (algo em torno de 20 anos) que leio-o agora como se fosse de uma mão estranha.

O uso de O no Livro II cap. 10 é um erro. Meu de fato, assumido da pág. 770, onde Gilthoniel O Elbereth é, evidente, uma cotação do Livro I pág. 82, que era uma “tradução”, inglês em tudo menos nomes próprios. Porém, a prece de Sam está em puro Élfico e deveria ter tido A como no Livro I pág. 246. Considerando que a língua-hobbit é representada como inglês, O poderia ser justificado como uma inexatidão própria dela; mas não me proponho defender isto. Ele foi “inspirado” a fazer esta prece em um idioma que ele não sabia (II 770). Sendo assim, é claro, no estilo e métrica do fragmento de prece, acho que está composto ou inspirado para sua situação em particular.

Significa, mais ou menos: “O Elbereth Inflamadora (no tempo passado: o título pertence a pré-história mítica e não se refere a uma função permanente) do céu contempla ao longe, para ti eu grito agora na sombra (do medo) da morte. Olhai por mim, O Semprebranca!”. Semprebranca é uma tradução inadequada; como é igualmente branca-de-neve do I pág. 81. O elemento ui (oio do Élfico Primitivo) significa sempre; tanto fan- e los(s) conduzem a branco, mas fan conota a brancura das nuvens (ao sol); loss se refere a neve.

Amon Uilos, em Alto-Élfico Oiolosse, era um dos nomes do cume mais alto das Montanhas de Valinor, na qual Manwë e Varda moravam. De forma que um Elfo usando ou ouvindo o nome Fanuilos, não pensaria (ou figuraria) só uma figura majestosa vestida de branco, de pé em um lugar alto e contemplando ao leste para as terras mortais, ele iria ao mesmo tempo imaginar um imenso pico, coberto de neve, coroado com uma nuvem branca fria ou brilhante.

Ancalima = “excessivamente claro”. Elemento kal a raiz habitual para palavras que se referem a luz; kalima, “brilhando claro”; an- superlativo ou prefixo intensivo.

Pergunta 1. Eu poderia, suponho, responder: “um ciclista performático pode dirigir uma bicicleta com guidões!” Mas de fato rédea era normalmente e descuidadamente usada para o que suponho deveria ter sido chamada uma testeira (1). Ou ainda, uma vez que aquela parte foi adicionada há muito tempo (o Capítulo 112 foi escrito muito cedo) eu não tinha considerado os costumes naturais de elfos com animais. O cavalo de Glorfindel teria uma testeira ornamental, que levaria uma pluma, e com as correias incrustadas com jóias e sinos pequenos; mas Glor. certamente não usaria um freio. Eu mudarei rédea e freio para testeira.

Pergunta 2. Esta pergunta, e suas implicações, é respondida em “A Queda de Númenor” que ainda não está publicada, mas que não posso fazê-lo agora. Você não pode exigir muito do Um Anel, por ele ser é claro uma característica mítica, mesmo porque o mundo dos contos é concebido em termos mais ou menos históricos. O Anel de Sauron é apenas um dos vários tratamentos míticos de colocar a vida de alguém, ou poder, em algum objeto externo, o qual esteja mesmo assim exposto a captura ou destruição com resultados desastrosos para si mesmo. Se eu fosse “filosofar” este mito, ou ao menos o Anel de Sauron, deveria dizer que foi um modo mítico de representar a verdade que potencia (ou talvez preferivelmente potencialidade) se for exercitada, e produz resultados, tem que ser externalizada e então passa, em um grau maior ou menor, além do controle direto da pessoa. Um homem que deseja mostrar ” poder” têm que ter servos, que não são como ele. Mas ele depende então deles.

Ar-Pharazôn, como é contado na “Queda” ou Akallabêth, derrotou servos aterrorizados de Sauron, não Sauron. A “rendição” pessoal de Sauron foi voluntária e astuta: ele conseguiu transporte de graça para Númenor! Ele naturalmente tinha o Um Anel, e assim muito cedo dominou as mentes e vontades da maioria dos Númenorianos. (Eu não acho que Ar-Pharazôn sabia qualquer coisa sobre o Um Anel. Os Elfos mantiveram o assunto dos Anéis em segredo absoluto, tanto quanto eles puderam. Em todo caso Ar-Pharazôn não estava em comunicação com eles. No Conto de Anos você achará pistas do problema: “a Sombra cai sobre Númenor”. Depois de Tar-Atanamir (um nome Élfico) o próximo nome é Ar-Adunakhôr um nome Númenoriano. Veja pág. 315 (2). A mudança dos nomes foi com uma completa rejeição da amizade dos elfos, e do aprendizado “teológico” que os Númenorianos tinham recebido deles.)

Sauron foi derrotado primeiro por um “milagre”: uma ação direta de Deus o Criador, mudando a forma do mundo, quando foi invocado por Manwë: veja III pág. 1099. Embora reduzido a “um espírito de ódio transportado por um vento escuro”, não acho que este espírito hesite em levar o Um Anel, no qual o seu poder de dominar mentes agora depende tanto. Que Sauron não tenha sido destruído na raiva do Único não é culpa minha: o problema do mal, e sua tolerância aparente, é um problema permanente para todos que se preocupam com nosso mundo. O indestrutibilidade de espíritos com vontades próprias, até mesmo pelo Criador deles, também é uma característica inevitável, se qualquer um acredita na existência deles, ou inventa-o em uma história.

Sauron ficou, é claro, “confuso” pelo desastre, e enfraquecido (tendo gasto energia enorme na corrupção de Númenor). Ele precisou de tempo para sua própria reabilitação corpórea, e para obter controle sobre seus ex-servos. Ele foi atacado por Gil-galad e Elendil antes que sua nova dominação fosse completamente estabelecida.

Pergunta 3. Eu não nomeei as cores, porque eu não as sei (3). Eu duvido que se eles tivessem cores distintas. A distinção só foi requerida no caso dos três que permaneceram na área relativamente pequena do Noroeste. (Sobre os nomes ver Pergunta 5) Realmente não sei claramente nada sobre os outros dois – uma vez que eles não dizem respeito a história do Noroeste. Acho que eles foram como emissários para regiões distantes, Leste e Sul, longe do alcance Númenoriano: missionários para terras “ocupadas pelo inimigo”, como eram. Que sucesso tiveram que eu não sei; mas eu temo que eles falharam, assim como Saruman, embora indubitavelmente de diferentes modos; e suspeito que eles foram fundadores ou iniciantes de cultos secretos e tradições “mágicas” que sobreviveram à queda de Sauron.

Pergunta 4. Não sei o detalhe das roupas. Eu visualizo com grande clareza e detalhe a paisagem e objetos “naturais”, mas não artefatos. Pauline Baynes tirou sua inspiração para Farmer Giles em grande parte de desenhos medievais – com exceção dos cavaleiros (que são um pouco “Rei-Arthurianos”) o estilo parece ajustar-se bem o bastante. A não ser a masculina, especialmente em partes do norte como o Condado, usariam calções, Ã s vezes escondidos por uma capa ou longo manto, ou somente acompanhado por uma túnica.

Não tenho dúvida de que na área relatada por minha história (que é grande) a “vestimenta” de vários povos, Homens e outros, era muito diversificada na Terceira Era, de acordo com clima, e costume herdado. Como foi nosso mundo, até mesmo se nós só consideramos a Europa e o mediterrâneo e o muito próximo “Leste” (ou Sul), antes da vitória no nosso tempo do estilo menos adorável de vestimenta (especialmente masculino e “neutro”) que a história registrada revela – uma vitória que ainda continua, até mesmo entre aqueles que na maioria odeiam as terras de sua origem. Os Rohirrim não eram “medievais”, em nosso sentido. Os estilos da Tapeçaria Bay eux(feita na Inglaterra) ajustam-se bem, se lembrar-se que o tipo de malha dos soldados parecem estar usando é só um rude sinal convencional para as cotas de elos pequenos.

Os Númenorianos de Gondor eram orgulhosos, peculiares, e arcaicos, e acho que são melhor retratados em (digamos) termos Egípcios. Em muitas formas eles se assemelham aos “Egípcios” – o amor, e poder para construir, o gigantesco e volumoso. E no seu grande interesse em ascendência e em tumbas. (Mas não é claro em “teologia”: nesse respeito eles eram Hebraicos e até mesmo mais puritanos – mas isto levaria muito tempo para descrever: explicar realmente porque não há praticamente nenhuma “religião”, ou mesmo atos religiosos ou lugares ou cerimônias entre os “bons” ou povos anti-Sauron em O Senhor dos Anéis.) Acho que a coroa de Gondor (o Reino do Sul) era muito alta, assim como no Egito, mas com asas fixadas, não para trás mas em um ângulo.

O Reino do Norte tinha só uma tiara (III 1105). conforme a diferença entre o reinos N. e S. do Egito.

El. Dificuldade em distinguir “estrela” e “elfo”, uma vez que são derivados do mesmo elemento básico EL “estrela”; como o primeiro elemento em compostos el- pode significar (ou pelo menos simboliza) ambos. Como uma palavra separada “estrela” era *elen, plural *eleni em Élfico primitivo. Os Elfos foram chamados eleda/elena “um Elfo (Alto-élfico Elda)” porque eles foram encontrados pelo Vala Oromë em um vale sob a luz das estrelas; e eles sempre permaneceram amantes das estrelas. Mas este nome foi especialmente ligado àqueles que eventualmente marcharam para Oeste guiados por Oromë (e a maioria passou para Além Mar).

As formas em Élfico-Cinzento (Sindarin) deveriam ter sido êl, pl. elin; e eledh (pl. elidh). Mas o último termo não era mais usado entre os Elfos-Cinzentos (Sindar) que não atravessaram o Mar; embora permanecesse em alguns nomes próprios como Eledhwen, “beleza Élfica”. Depois do retorno em exílio dos Noldor (parte dos Altos-Elfos), o Alto-Élfico elda foi assumido novamente pelos Elfos-Cinzentos como eld>ell, e se referia aos Altos-Elfos exilados. Esta é, sem dúvida, a origem de el, ell- em tais nomes como Elrond, Elros, Elladan, Elrohir.

Elrond, Elros. *rondo era uma palavra Élfica primitiva “caverna”. Conf. Nargothrond (caverna fortalecida pelo R. Narog), Aglarond, etc. *rosse significava “orvalho, respingo (de cascata ou fonte)”. Elrond e Elros, filhos de Eärendil (amante do mar) e Elwing (espuma élfica), foram assim chamados, porque eles foram levados pelos filhos de Fëanor, no último ato da contenda entre a casa dos alto-elfos dos príncipes Noldorin a respeito das Silmarils; a Silmaril resgatada de Morgoth por Beren e Lúthien, e dada ao Rei Thingol pai de Lúthien, herdada por Elwing filha de Dior, filho de Lúthien. As crianças não foram mortas, mas deixadas como “bebês na floresta”, em uma caverna com uma queda d´água na entrada. Lá eles foram achados: Elrond dentro da caverna, e Elros que chapinhava na água.4

Elrohir, Elladan: estes nomes, dados aos filhos por Elrond, referem-se ao fato de serem “meio-elfos” (III 1096): eles tinham antepassados mortais como também elfos em ambos os lados; Tuor no lado de seu pai, Beren na mãe. Ambos significam elfo+homem. Elrohir poderia ser traduzido “Elfo-cavaleiro”; rohir que é uma forma mais recente de rochir “senhor do cavalo” de roch “cavalo” + hir “mestre”: Élfico primitivo rokko e kher ou kheru: Alto-élfico: rocco, her (heru). Elladan poderia ser traduzido como “Elfo-Númenoriano”. Adan (pl. Edain) era a forma Sindarin para o nome dado os “pais dos homens”, os membros das Três Casas dos amigos-dos-elfos, cujos sobreviventes se tornaram os Númenorianos depois, ou Dún-edain.

Legolas quer dizer “folhas-verdes”, um nome de bosque – forma dialetal do Sindarin puro laegolas: *lasse (Alto-élfico lasse, S. las(s)) “folha”; *gwa-lassa/*gwa-lassie “coleção de folhas, folhagem” (A.E. olassie, S. golas, -olas); *laika “verde” base LAY- como em laire “verão” (A.E. laica, S. laeg (raramente usado, normalmente substituído por calen), base do bosque).

Pterodáctilo. Sim e não. Eu não pretendi que a montaria do Rei-Bruxo fosse o que é chamado agora um “pterodáctilo”, e frequentemente é desenhado (com muito menos evidência sombria que reside por trás de muitos monstros da nova e fascinante mitologia semi-científica da “Pré-História”). Mas obviamente é pterodáctilo e deve muito à nova mitologia, e sua descrição provê até mesmo um tipo de meio no qual poderia ser um último sobrevivente de eras geológicas mais antigas.5

Pergunta 5. Manwë, marido de Varda; ou em Élfico-cinzento Manwë e Elbereth. Desde que os Valar não tinham nenhum idioma próprio, não precisando de um, eles não tinham nomes “verdadeiros”, só identidades, e seus nomes foram conferidos a eles pelos Elfos, sendo em origem portanto, como eram, “apelidos”, referentes a alguma peculiaridade notável, função, ou ação. (O mesmo é verdadeiro sobre os “Istari” ou Magos que eram emissários dos Valar, e da sua espécie). Por conseguinte cada identidade tinha vários “apelidos”; e os nomes dos Valar não eram necessariamente relacionados em idiomas de Élficos diferentes (ou idiomas dos Homens que derivaram seu conhecimento dos Elfos). (Elbereth e Varda “Senhora das Estrelas” e “Enaltecida” não são palavras relacionadas, mas referem-se à mesma pessoa.) Manwë (Ser Santificado) era Senhor dos Valar, e logo o maior ou Mais Antigo Rei de Arda. Arda “reino” foi o nome dado para nosso mundo ou terra, como sendo o lugar, dentro da imensidão de Eä, selecionado para ser a morada e domínio especial do Rei – por causa de seu conhecimento sobre os Filhos de Deus que apareceriam lá. No mito cosmogônico é dito que Manwë é “irmão” de Melkor que é eles eram contemporâneos e equivalentes em poder na mente do Criador. Melkor se tornou o rebelde, e o Diabo destes contos, que disputou o reino de Arda com Manwë. (Ele era normalmente chamado Morgoth em Élfico-cinzento).

O Único não habita fisicamente qualquer parte de Eä.

Devo dizer que tudo isso é “mítico”, e nenhum novo tipo qualquer de religião ou visão. Até onde eu sei isso é uma invenção imaginativa, que expressa, no único modo que posso, algumas de minhas (sombrias) apreensões do mundo. Tudo que eu posso dizer é que, se fosse “história”, seria difícil de ajustar as terras e eventos (ou “culturas”) em tais evidências como nós possuímos, arqueológica ou geológica, relativa a parte mais próxima ou remota do que é chamado hoje Europa; por exemplo, embora o Condado esteja expressamente declarado ter estado nesta região(Prólogo pp. 2 e 3).6 Eu poderia ter adequado as coisas com maior detalhamento, se a história não tivesse se tornado tão desenvolvida, antes que pergunta me ocorresse. Eu duvido se haveria muito a se ganhar com isso; e eu espero que o, evidentemente longo mas indefinido, lapso de tempo entre a Queda de Barad-dûr e nossos Dias seja suficiente para “credibilidade” literária, até mesmo para os leitores familiarizados com o que é conhecido ou imaginado de “pré-história “.

Eu, suponho, construí um tempo imaginário, mas mantive meus pés em minha própria mãe-terra como lugar. Prefiro isso ao modo contemporâneo de buscar mundos distantes no “espaço”. Entretanto é curioso, eles são estrangeiros, e não dignos do amor daqueles do mesmo sangue. O termo Terra-média não é (a propósito, se tal nota for necessária) minha própria invenção. É uma modernização ou alteração (Dicionário do Novo Inglês “uma perversão”) de uma palavra antiga para o mundo habitado dos Homens, o oikoumene: média porque pensava-se vagamente que estava situada entre os Mares e (na imaginação do norte) entre o gelo do Norte e o fogo do Sul. Middan-geard (inglês antigo), midden-erd, middle-erd (inglês medieval). Muitos revisores parecem assumir que a Terra-média é outro planeta!

Teologicamente (se o termo não for muito grandioso) eu imagino que o quadro seja menos dissonante daquele que alguns (incluindo eu mesmo) acreditem ser verdadeiro. Mas desde que eu deliberadamente escrevi um conto, o qual é construído deliberadamente com ou sem certas idéias “religiosas”, mas não é uma alegoria delas (ou qualquer outra coisa), e não as menciona abertamente, muito menos pregam-nas, não começarei agora a descrevê-las, e me arriscar em pesquisas teológicas das quais não tenho condições. Mas eu poderia dizer que se o conto é “sobre” qualquer coisa (outra senão ele mesmo), não é sobre “poder” como parece amplamente suposto. Busca-pelo-Poder é só o motivo que determina como os eventos ocorrerão, e é relativamente sem importância, eu penso. Está principalmente relacionado a Morte, e Imortalidade; e as “fugas”: longevidade contínua, e armazenamento de lembrança.

Sinceramente

J. R. R. Tolkien.

Notas do Autor

1. Esta leitura foi adotada em impressões posteriores.

2. No Apêndice A de O Senhor dos Anéis (p. 1097) o Rei de Númenor precedendo Ar-Adûnakhôr era Tar-Calmacil; a menção aqui de Tar-Atanamir parece ser nada mais que um deslize. Ver p. 252 de Contos Inacabados.

3. Em outra ocasião Tolkien chamou os outros dois magos de Ithryn Luin, os Magos Azuis; ver p. 428 de Contos Inacabados.

4. No Índice de O Silmarillion os nomes Elrond, Elros, e Elwing são traduzidos como “Abóbada de Estrelas”, “Espuma de Estrelas”, e “Respingo de Estrelas”. Estas interpretações dos nomes são mais recentes que as apresentadas na presente carta.

5. Este parágrafo foi retirado de um outro texto da carta (um rascunho). A versão enviada é mais breve neste ponto.

6. “… mas as regiões habitadas pelos Hobbits dessa época são sem dúvida as mesmas onde eles ainda permanecem: o Noroeste do Velho Mundo, a Leste do Mar. “

Carta #144

[A Sra. Mitchison havia lido provas de páginas dos primeiros dois volumes da trilogia do Senhor dos Anéis, e escreveu a Tolkien com várias perguntas sobre o livro. A carta da leitora perdeu-se, mas Tolkien tinha uma cópia da resposta enviada]

25 de abril de 1954 76 Sandfield Road, Headington, Oxford

Cara Sra. Mitchison,

Foi rude e ingrato de minha parte não ter acusado o recebimento, ou não ter lhe agradecido pelas suas cartas, presentes, e lembranças anteriores – ainda mais assim, uma vez que seu interesse, de fato, tem sido para mim de grande consolo e encorajamento no desespero que naturalmente acompanha os labores de publicar tal trabalho como O Senhor dos Anéis. Mas o mais infortunado é que isto tenha coincidido com um período de trabalhos excepcionalmente árduos e deveres em outras funções, de forma que às vezes eu tenho estado quase que distraído.

Tentarei responder suas perguntas. Posso dizer que elas são muito bem-vindas. Gosto das coisas desenvolvidas em detalhes, e de respostas fornecidas a todas as perguntas razoáveis. Sua carta vai, eu espero, me guiar em escolher o tipo de informação a ser fornecida (como prometido) em um apêndice, e consolidar meu estilo com os editores. Uma vez que o terceiro volume será bem mais fino que o segundo (os eventos se movem mais rapidamente, e menos explicações são necessárias), haverá, eu acredito uma certa parcela de espaço para tal assunto. Meu problema não é a dificuldade de fornecê-lo, mas de escolher dentre todo o material que eu já compus.

Existe é claro um conflito entre técnica “literária”, e a fascinação de elaborar em detalhes uma Era mítica imaginária(mítica, não alegórica: minha mente não trabalha alegoricamente). Como uma história, eu penso que seja bom que houvesse muitas coisas inexplicadas (especialmente se uma explicação de fato existe); e talvez tenha deste ponto de vista errado em tentar explicar demais, e mostrar muita história passada. Por exemplo, muitos leitores ficaram um tanto perdidos no Conselho de Elrond. E até mesmo em uma Era mítica devem haver alguns enigmas, como sempre há. Tom Bombadil é um (intencionalmente).

Mas como muita história adicional (voltada ao passado) como qualquer um poderia desejar de fato existe no Silmarillion e histórias relacionadas e poemas, compondo a História dos Eldar (Elfos). Eu acredito que no caso (que espero que aconteça) de pessoas suficientes estarem interessadas em O Senhor dos Anéis para pagar o custo de sua publicação, os galantes editores possam considerar imprimir algo disso. O Silmarillion foi escrito, de fato, em primeiro lugar, e eu desejava ter a matéria emitida em ordem histórica, o que teria economizado muita alusão e explicação no livro presente. Mas não consegui que fosse aceito. O terceiro volume foi concluído, é claro, há anos atrás, até onde o conto vai. Terminei tal revisão, como parecia necessário, e irá ser montado quase imediatamente. Enquanto isso estou aplicando os fragmentos de tempo que tenho para fazer versões comprimidas de tal material histórico, etnográfico, e lingüístico para que possa entrar no Apêndice. Se lhe interessar, eu lhe enviarei uma cópia (bastante rústica) do material que lida com Idiomas (e Escrita), Povos e Tradução.

A última tem exigido muito raciocínio. Esta raramente parece ser considerada importante por outros criadores de mundos imaginários, porém talentosos como narradores (como Eddison). Entretanto sou um filólogo, e muito embora devesse gostar de ser mais preciso em outros aspectos e características culturais, isso não está dentro da minha competência. De qualquer maneira “o idioma” é o mais importante, pois a história tem que ser contada, e o diálogo conduzido em um idioma; mas o Inglês não pode ter sido o idioma de quaisquer povos naquele tempo. O que eu tenho de fato feito é comparar o Westron ou a amplamente propagada Língua Comum da Terceira Era com o inglês; e traduzir tudo, inclusive nomes como O Condado que estava no Westron em termos ingleses com alguma diferenciação de estilo para representar diferenças dialetais. Idiomas bastante diferentes da Língua Comum foram deixadas de lado. Com exceção de alguns fragmentos da Fala Negra de Mordor, e alguns nomes e um grito de batalha no Idioma dos Anões, esses são quase totalmente Élficos (Eldarin).

Porém, Idiomas que eram relacionados ao Westron apresentaram um problema especial. Eu os transformei em formas de Língua relacionadas ao inglês. Uma vez que os Rohirrim são representados como recém chegados do Norte, e usuários de um idioma Masculino arcaico relativamente não afetado pela influência do Eldarin, eu transformei os seus nomes em formas como (mas não idênticas a) o Inglês Antigo. O idioma de Vale e do Grande Lago iria, se aparecesse, ser representado como mais ou menos Escandinavo em caráter; mas somente é representado por alguns nomes, especialmente aqueles dos Anões que vieram daquela região. Estes são todos nomes Escandinavos Antigos dos Anões.

Anões são representados como mantendo a sua própria língua nativa mais ou menos secreta, e usando para todos propósitos “exteriores” o idioma dos povos que morassem próximos; eles nunca revelam os seus próprios “verdadeiros” nomes pessoais na sua própria língua.)

Supõe-se que o Westron ou Língua Comum seja derivado do viril idioma Adunaico Númenoriano, difundido dos Reinos Númenorianos nos dias dos Reis, e especialmente de Gondor onde permanece falado em estilo mais nobre e bastante mais antigo (um estilo também usualmente adotado pelos Elfos quando eles usam este idioma). Mas todos os nomes em Gondor, com exceção de alguns de origem supostamente pré-histórica, são de forma Élfica, uma vez que a nobreza Númenoriana ainda usava um idioma Élfico, ou poderia usar. Isto era porque eles tinham sido aliados dos Elfos na Primeira Era, e por essa razão à eles tinha sido concedida a ilha Atlântida de Númenor. Duas das línguas Élficas aparecem neste livro. Elas têm algum tipo de existência, uma vez que as compus com alguma integralidade, como também a sua história e descrição da sua relação. Elas são planejadas (a) para serem definitivamente de um tipo Europeu em estilo e estrutura (não em detalhes); e (b) para serem especialmente agradáveis. O primeiro não é difícil de alcançar; mas o último é mais difícil, uma vez que as predileções pessoais dos indivíduos, especialmente na estrutura fonética de idiomas, varia amplamente, até mesmo quando modificadas pelos idiomas impostos (incluindo sua denominada língua “nativa”).

Entretanto, agradei a mim mesmo. O idioma arcaico de tradição é tencionado para ser um tipo de “Latim-Élfico”, e transcrevendo-o em uma ortografia que se assemelha proximamente aquela do Latim (exceto que o y só é usado como uma consoante, como y em Inglês Yes) a semelhança com o Latim foi aumentada visivelmente. De fato poderia ser dito que é composto em uma base de Latim com dois outros ingredientes (principais) que ocorrem para me dar “prazer fonoestético”: Finlandês e Grego. É, porém menos consonantal que qualquer dos três. Este idioma é chamado de Alto-Élfico ou em seus próprios termos, Quenya.

O idioma ativo dos Elfos Ocidentais (Sindarin ou Elfos-cinzentos) é o idioma usualmente encontrado, especialmente em nomes. Este é derivado de uma origem comum a este e ao Quenya; mas as mudanças foram deliberadamente inventadas para conferir a este um caráter lingüístico muito semelhante (entretanto não idêntico) ao Galês Britânico: porque esse é um caráter que eu acho, em alguns modos lingüísticos, muito atraente; e porque parece se ajustar com o estilo bastante “Céltico” de lendas e histórias contadas por seus oradores.

“Elfos” é uma tradução, talvez agora não muito satisfatória, mas originalmente boa o bastante, da palavra Quendi. São representados como uma raça semelhante em aparência (e mais ainda ao passado longínquo) aos Homens, e em dias antigos da mesma estatura. Eu não entrarei aqui nas suas diferenças dos Homens! Mas eu suponho que os Quendi são de fato nestas histórias muito pouco aparentados com os Elfos e Fadas da Europa; e se eu fosse pressionado a racionalizar, eu deveria dizer que eles realmente representam os Homens com faculdades estéticas e criativas prodigiosamente desenvolvidas, maior beleza e vida mais longa, e nobreza – os Primogênitos, predestinados a desaparecer antes dos Seguidores (os Homens), e em última instância a viver somente pela linha fina do seu sangue que fora misturado com aquele dos Homens, dentre os quais estava o único clamor real para “nobreza”.

Eles são representados como tendo ficado logo divididos em duas ou três, variedades. 1º, Os Eldar que ouviram a convocação dos Valar ou dos Poderes para passar da Terra-média através do Mar para o Oeste; e 2º, os Elfos Inferiores que não responderam a este chamado. A maioria dos Eldar depois de uma grande marcha chegou às Orlas Ocidentais e passaram através do Mar; estes eram os Altos Elfos que cresceram imensamente em poderes e conhecimento. Mas parte deles na ocasião permaneceu nas terras costeiras do Noroeste: estes eram os Sindar ou Elfos Cinzentos. Os Elfos inferiores dificilmente aparecem, exceto como parte dos povos do Reino dos Elfos; da Floresta das Trevas Do norte, e de Lórien, regidas pelos Eldar; seus idiomas não aparecem.

Os Altos Elfos encontrados neste livro são Exilados, que retornaram através do Mar para a Terra-média, depois de eventos que são a questão principal do Silmarillion, parte de um dos principais clãs dos Eldar: os Noldor (os Mestres da Tradição). Ou melhor, um último vestígio destes. Pois o próprio Silmarillion e a Primeira Era terminaram com a destruição do mais antigo Senhor do Escuro (de quem Sauron era um mero tenente), e a reabilitação dos Exilados que voltaram novamente através do Mar. Aqueles que hesitaram eram aqueles que estavam apaixonados pela Terra-média e ainda desejavam a beleza inalterada da Terra dos Valar. Por isso a fabricação dos Anéis; pois os Três Anéis foram precisamente dotados com o poder da preservação, não do nascimento. Embora inviolados, porque eles não foram feitos por Sauron nem foram tocados por ele, eles eram, todavia parcialmente produtos da sua instrução, e em última instância estavam sob o controle do Um Anel. Assim, como você verá, quando o Um se vai, os últimos defensores da tradição e da beleza dos Altos-Elfos são despojados de poder para deter o tempo, e partem.

Eu sinto muito pela Geografia. Deve ter sido terrivelmente difícil sem um mapa ou mapas. Haverá no volume I um mapa de parte do Condado e um mapa geral em pequena escala do cenário inteiro de ação e referência (de qual o mapa ao término de O Hobbit é o canto Nordeste). Estes foram desenhados a partir de mapas menos elegantes pelo meu filho, Christopher, que é instruído neste conhecimento. Mas tive só uma prova e essa teve que voltar. Eu comecei sabiamente com um mapa, e fiz a história ajustada a este mesmo mapa (geralmente com cuidado meticuloso para distâncias). O outro modo quase conduz a pessoa a confusões e impossibilidades, e em todo caso é um trabalho cansativo compor um mapa a partir de uma história – como eu receio que você tenha descoberto.

Não posso enviar-lhe meus próprios mapas de trabalho; mas talvez estes desenhos muito rústicos e não inteiramente precisos, feitos apressadamente e em momentos diferentes para os leitores, seriam de alguma ajuda. Talvez quando a senhora tiver terminado com estes mapas ou feito algumas notas não se importe em os mandar de volta. Eu os acharei úteis para fazer alguns mais; mas não posso dar conta disso ainda. Posso dizer que os mapas de meu filho são lindamente claros, até onde a redução na reprodução permite; mas eles não contêm tudo, ai de mim!

Algumas respostas aleatórias. Dragões. Eles não tinham sido extintos; uma vez que estiveram ativos muito tempo mais tarde, próximo do nosso próprio tempo. Eu disse alguma coisa que sugerisse o desfecho final dos dragões? Se disse deveria ser alterado. A única passagem de que posso pensar é no Vol. I pág. 63: “mas hoje em dia não sobrou nenhum dragão na terra cujo velho fogo seja quente o suficiente”. Mas isso implica, eu penso, que ainda há dragões, se não com a sua completa estatura primitiva. Eu tenho uma longa tabela histórica de eventos do princípio ao Fim da Terceira Era. Está bastante cheia; mas concordo que uma forma pequena, contendo eventos importante para este conto seria bastante útil. Se você quiser cópias datilografadas de algum deste material: ex. Os Anéis de Poder; A Queda de Númenor; as Listas dos Herdeiros de Elendil; a Casa de Eorl (Genealogia); Genealogia de Durin e dos Senhores-Anões de Moria; e O Conto dos Anos (especialmente aqueles da Segunda e Terceira Eras), eu tentarei e conseguirei estas cópias logo.

Orcs (a palavra é até onde me diz respeito derivada de fato do Inglês Antigo orc “demon”, mas só por causa de sua adequação fonética) não é em nenhuma parte claramente declarado para ser de qualquer origem em particular. Mas uma vez que eles são os servos do primeiro Senhor do Escuro, e depois de Sauron, nenhum dos quais poderia, ou iria, produzir coisas viventes, eles devem ser “corrupções”. Eles não são baseados em minha experiência direta; mas devem, suponho, uma boa parte a tradição dos goblins (orcs) (goblin é usado como uma tradução em O Hobbit onde orc só ocorre uma vez, eu acho), especialmente como aparece em George MacDonald, exceto pelos pés macios nos quais nunca acreditei. O nome tem a forma orch (plural yrch) em Sindarin, e uruk na Fala Negra de Mordor.

A Fala Negra só era usada em Mordor; só ocorre na inscrição do Anel, e uma oração articulada pelos Orcs de Barad-dûr¹ e na palavra Nazgûl (cf. nazg na inscrição do Anel). A Fala Negra nunca era usada espontaneamente por quaisquer outras pessoas, e conseqüentemente até mesmo os nomes de lugares em Mordor estão em inglês (para a Língua Comum) ou Élfico. Morannon é justamente Élfico para Portão Negro; cf. Mordor significa Terra Negra, Mor-ia Fenda Negra, Mor-thond Raiz-negra (nome de um rio). Rohir-rim é o nome Élfico (Gondoriano) para as pessoas que se chamavam os Cavaleiros do Marco ou Eorlingas. A formação não é planejada para se assemelhar ao hebreu. Os idiomas Eldarin distinguem em formas e uso entre um “partitivo” ou plural “particular”, e o plural geral ou total. Assim yrch “orcs, alguns orcs, des orques” ocorreu nas págs. 359 e 404; os Orcs, como uma raça, ou o todo de um grupo previamente mencionado teria sido orchoth. Em Élfico-Cinzento os plurais gerais muito freqüentemente eram feitos por adição a um nome (ou a um nome de lugar) alguma palavra significando “tribo, tropa, horda, povo”. Assim Haradrim os Sulistas: Quenya rimbe, Sindarin rim, tropa; Onod-rim os Ents. Os Rohirrim é derivado de roch (Quenya rokko) cavalo, e a raiz Élfica kher – “possuir”; de onde Sindarin Rochir “senhor dos cavalos”, e Rochir-rim “a tropa dos Senhores dos cavalos”. Na pronúncia de Gondor o ch (como em Alemão, Galês, etc) tinha sido suavizado a um som de h; assim em Rochann “Hippia” para Rohan.

Beorn está morto; veja pág. 237. Ele apareceu em O Hobbit. Era então o ano 2940 da Terceira Era (Na contagem do Condado 1340). Nós estamos agora nos anos 3018-19 (1418-19). Entretanto, apesar de sua mudança de forma que sem nenhuma dúvida tinha um pouco de magia, Beorn era um Homem.

Tom Bombadil não é uma pessoa importante – para a narrativa. Eu suponho que ele tenha um pouco de importância como um “comentário”. Eu quero dizer, realmente não escrevo assim: ele é apenas uma invenção (que apareceu primeiro na Oxford Magazine por volta de 1933), e representa algo que sinto ser muito importante, embora não esteja preparado para analisar este sentimento precisamente. Porém, não o teria deixado lá, se ele não tivesse algum tipo de função. Poderia pôr isto deste modo. A história é projetada em termos de um lado bom, e um lado mau, beleza contra feiúra desumana, tirania contra monarquia, liberdade moderada com consentimento contra compulsão que perdeu há muito tempo qualquer objetivo exceto mero poder, e assim por diante; mas ambos os lados em algum grau, conservador ou destrutivo, querem uma medida de controle. Mas se você tem, como se fosse tomado “um voto de pobreza”, controle renunciado, e tira seu encanto em coisas para eles mesmos sem referência para você, assistindo, observando, e até certo ponto sabendo, então a questão dos certos e errados do poder e controle poderia ficar totalmente sem sentido para você, e os meios de poder completamente sem valor. É uma visão pacifista natural que sempre surge na mente quando há uma guerra. Mas a visão de Valfenda parece ser que esta é uma excelente coisa para se ter representada, mas que há de fato coisas que não se pode enfrentar; e das quais sua existência todavia depende. No final das contas só a vitória do Oeste permitirá a Bombadil continuar, ou até mesmo sobreviver. Nada seria deixado para ele no mundo de Sauron.

Na minha mente Tom não tem nenhuma ligação•mente com as Entesposas. O que aconteceu com elas não está resolvido neste livro. Ele é, de certo modo, a resposta para elas no sentido de que é quase o oposto, sendo digamos, Botânica e Zoologia (como ciências) da Poesia, como oposto a Pecuária e Agricultura da praticidade.

Eu acho que de fato as Entesposas tenham desaparecido para sempre, sendo destruídas com os seus jardins na Guerra da Última Aliança (Segunda Era 3429-3441) quando Sauron adotou uma política de devastação da terra, e queimou seus campos tentando retardar o avanço dos Aliados que desciam o Anduin². Elas só sobreviveram na “agricultura” transmitida aos Homens (e Hobbits). Algumas, naturalmente, podem ter fugido para o leste, ou até mesmo foram escravizadas: tiranos até mesmo em tais contos devem ter uma base econômica e agrícola para os seus soldados e forjadores. Se qualquer uma sobreviveu então, elas realmente seriam agora muito estranhas aos Ents, e qualquer reaproximação seria difícil – a menos que a experiência da agricultura industrializada e militarizada as tivesse feito um pouco mais anárquicas. Eu espero que sim. Não sei.

As crianças Hobbits eram adoráveis, mas eu receio que os únicos vislumbres delas neste livro são encontrados no começo do volume I. Um epílogo que dá um vislumbre adicional (entretanto de uma família bastante excepcional) foi tão universalmente condenado que decidi não inseri-lo no livro. Deve-se parar em algum lugar. Sim, Sam Gamgi é de certo modo uma relação de Dr. Gamgee, e o seu nome não teria tomado aquela forma, se eu não tivesse ouvido falar do “tecido de Gamge”; havia, eu acredito, um Dr. Gamgee (sem dúvida da família) em Birmingham quando eu era criança. O nome foi de qualquer modo sempre familiar para mim. Gaffer Gamgi surgiu primeiro: ele era um personagem lendário para meus filhos (baseado em um capataz da vida real, não naquele nome). Mas, como você achará explicado, neste conto o nome é uma “tradução” de um verdadeiro nome Hobbit, derivado de uma aldeia (dedicada à feitura de cordas) anglicanizado como Gamwich (pronúncia Gammidge), perto do Campo da Corda³. Uma vez que Sam era amigo íntimo da família Villa (outro nome de aldeia), fui levado à brincadeira Hobbit de ortografia Gamwichy Gamgi, embora não ache que no verdadeiro dialeto Hobbit a brincadeira desse certo.

Não há oponentes específicos aos Magos – uma tradução (talvez não satisfatória, mas inteiramente distinta de outros termos “mágicos”) do Quenya Élfico, Istari. A origem deles não era conhecida por qualquer um exceto uns poucos (como Elrond e Galadriel) na Terceira Era. Diz-se que apareceram primeiro por volta do ano 1000 da Terceira Era, quando a sombra de Sauron começou a crescer novamente sob uma nova forma. Eles sempre pareceram velhos, mas ficaram mais velhos com os seus trabalhos, lentamente, e desapareceram com o fim dos Anéis. Acreditava-se serem Emissários (nos termos deste conto vindos do Oeste Distante além do Mar), e suas funções própria, mantida por Gandalf, e pervertida por Saruman, era encorajar e instigar os poderes nativos dos Inimigos de Sauron. O oposto de Gandalf era, estritamente, Sauron, em uma parte das operações de Sauron; como Aragorn era na outra.

O Balrog é um sobrevivente do Silmarillion e das lendas da Primeira Era. Assim como Laracna. Os Balrogs, de quem os chicotes eram as armas principais, eram os mais antigos espíritos de fogo destruidor, principais servos do Senhor do Escuro da Primeira Era. Supunha-se que eles tivessem sido todos destruídos na queda das Thangorodrim, sua fortaleza no Norte. Mas aqui descobre-se (normalmente há um remanescente especialmente do mal de uma era para outra) que um deles tinha escapado e refugiado-se sob as montanhas de Hithaeglin(as Montanhas Sombrias). É interessante observar que só Legolas, o elfo, sabe o que a coisa era – e indubitavelmente Gandalf.

Laracna (representando a Língua Comum em inglês “she-lob “ = aranha fêmea) é uma tradução de Élfico Ungol “aranha”. Ela é apresentada como descendente das aranhas gigantes dos vales de Nandungorthin, que encontram-se nas lendas da Primeira Era, especialmente a principal delas, o conto de Beren e Lúthien. Esta é constantemente citada, uma vez que como mesmo Sam nota4 esta história é de certo modo só uma continuação adicional desta lenda. Ambos Elrond (e a sua filha Arwen Undómiel, que se assemelha intimamente a Lúthien em aparência e destino) são descendentes de Beren e Lúthien; e assim como Aragorn, porém muito mais afastado. As aranhas gigantes eram nada mais que descendentes de Ungoliant a mais antiga devoradora de luz, que em forma de aranha ajudou o Senhor do Escuro, mas no final disputou com ele. Não há assim nenhuma aliança entre Laracna e Sauron, o representante do Senhor do Escuro; só um ódio comum.

Galadriel é tão antiga ou mais antiga que Laracna. Ela é a última remanescente dos Grandes entre os Altos-Elfos, e “despertou” em Eldamar, além do Mar, muito antes que Ungoliant viesse para a Terra-média e produzisse suas ninhadas lá…

Bem, depois de um longo silêncio você evocou uma resposta razoavelmente longa. Não longa demais, eu espero, até mesmo para tal interesse delicioso e encorajador. Estou profundamente grato por isso; e espero que todos que moram em Carradale aceitem meus agradecimentos. Sinceramente seu,

J. R. R. Tolkien.

Citações:

1. “Uglúk u bagronk sha pushdug Saruman-glob búbhosh skai.” ADT, pág. 465, ed. unificada;

2. “… enquanto que os jardins das Entesposas estão abandonados: os homens os chamam agora de Terras Castanhas.” ADT, pág. 498, ed. unificada;

3. “Meu bisavô e meu tio Andy depois dele,…. ele teve uma cordoaria perto do Campo da Corda por muitos anos.“ ADT, pág. 642, ed. unificada;

4. “Veja só, pensando assim, estamos ainda na mesma história! Ela está continuando. Será que as grandes histórias nunca terminam?” ADT, pág. 751, ed. unificada.

Carta #25

[Em 16 de janeiro de 1938, o Observer publicou uma carta, assinada “Habit" (N.T.: Hábito, em inglês), perguntando se os hobbits poderiam ter sido sugeridos a Tolkien pelo relato de Julian Huxley sobre os ‘“pequenos homens peludos" vistos na África, por nativos e .... pelo menos um cientista’. O escritor da carta também mencionava que um amigo dissera que ‘ela se recordava de um velho conto de fadas chamado “O Hobbit", em uma coleção lida por volta de 1904’, na qual a criatura que tinha esse nome era “definitivamente assustadora". O(a) escritor(a) perguntou se Tolkien poderia “nos dizer um pouco mais sobre o nome e criação do intrigante herói deste livro. .... Muitos estudantes de pesquisa das próximas gerações ficariam livres de muito trabalho. E, aliás, estaria o furto da taça do dragão por parte do hobbit baseado no episódio do roubo da taça em Beowulf? Espero que sim, já que um dos charmes do livro parece ser sua harmonização Spenseriana das brilhantes linhas de tantas ramificações da literatura épica, mitológica e de contos de fada vitorianos’. A resposta de Tolkien, ainda que não com a intenção de ser publicada (veja a conclusão da nº 26), foi impressa no Observer em 20 de fevereiro de 1938.]

Senhor, – não preciso de persuasão: sou tão suscetível à bajulação quanto um dragão, e exibiria meu colete de diamantes, e até mesmo discutiria suas fontes, já que Habit (mais inquisitivo do que o Hobbit) não apenas professou admirá-lo, mas também perguntou de onde eu o tirei. Mas não seria isso deveras injusto para com os estudantes de pesquisa? Livrá-los do trabalho é tirar deles qualquer desculpa para existirem.

No entanto, em relação à pergunta principal de Habit, não há perigo: Eu não lembro de nada sobre o nome e a criação do herói. Eu poderia supor, é claro, mas as suposições não teriam mais autoridade do que as feitas pelos futuros pesquisadores, então deixo a brincadeira para eles.

Eu nasci na África, e li muitos livros sobre a exploração africana. Desde 1896, eu tenho lido mais livros ainda sobre contos de fadas do tipo genuíno. Ambos os fatos citados pelo Hábito parecem ser, portanto significantes.

Mas são mesmo? Eu não me lembro de pigmeus peludos (em livros ou à luz da lua); nem de qualquer hobbit bicho-papão impresso em 1904. Suspeito que os dois hobbits sejam homófonos, e fico satisfeito que não sejam (ao que parece) sinônimos. E faço a objeção de que meu hobbit não vivia na África, e não era peludo, exceto na área dos pés. E de fato não era como um coelho. Ele era um próspero e bem-alimentado solteiro de meios independentes. Chamá-lo de “pequeno coelho desagradável” é um pouco de gozação vulgar, assim como “descendente de ratos” é um pouco da malícia dos Anões – insultos deliberados à sua altura e pés, que o magoaram profundamente. Seus pés, se convenientemente revestidos e abrigados pela natureza, eram tão elegantes quanto seus dedos longos e astutos.

Quanto ao resto do conto, ele é, conforme Habit sugere, derivado (previamente condensado) de épico, mitologia e conto-de-fadas – mas não vitoriano em sua autoria, conforme a regra da qual George Macdonald é a única exceção. Beowulf está entre as minhas mais estimadas fontes; embora não estivesse conscientemente presente na mente no processo de escrever, no qual o episódio do furto surgiu naturalmente (e quase inevitavelmente) das circunstâncias. É difícil imaginar qualquer outro modo de conduzir a história naquele ponto. Eu acredito que o autor de Beowulf diria quase a mesma coisa.

Meu conto não está conscientemente baseado em nenhum outro livro – exceto um, e este não está publicado: o ‘Silmarillion’, uma história dos Elfos, aos quais alusões freqüentes são feitas. Não pensei nos futuros pesquisadores; e como há apenas um manuscrito, parece que, no momento, há poucas chances de que esta referência se torne útil.

Mas estas questões são meramente preliminares. Agora que me fizeram ver que as aventuras do Sr. Bolseiro serão objeto de futuros questionamentos, me dou conta de que muito trabalho será necessário. Há a questão da nomenclatura. Os nomes dos Anões, e dos magos, são do Antigo Edda. Os nomes de hobbits vêm das Fontes Óbvias próprias de sua espécie. A lista completa de suas famílias mais abastadas é: Bolseiro, Boffin, Bolger, Bracegirdle, Brandybuck, Burrowes, Chubb, Grubb, Horblower, Proudfoot, Sackville e Took. O dragão tem um nome – um pseudônimo – o passado do verbo Germânico primitivo Smugan, que é espremer-se por um buraco: uma mera brincadeira filológica. O resto dos nomes são do Mundo Antigo e Élfico, e não foram modernizados. E por que dwarves? A Gramática prescreve dwarfs, a filologia sugere que dwarrows seria a forma histórica. A verdadeira resposta é que eu não sabia melhor. Mas dwarves vai bem com elves, e, de qualquer forma, elf, gnome, goblien, dwarf são apenas traduções aproximadas dos nomes em Antigo Élfico para seres de tipos e funções não exatamente os mesmos.

Estes anões não são os mesmos anões de histórias mais conhecidas. Eles receberam nomes escandinavos, é verdade; mas isto é uma concessão editorial. Nomes em demasia nas línguas próprias do período tornariam-se algo alarmante. A língua dos Anões era tanto complicada quanto sofria de cacofonia. Mesmo os primeiros filólogos Élficos a evitavam, e os Anões eram obrigados a usar outras línguas, exceto nas conversas inteiramente privadas. A língua dos hobbits era notavelmente semelhante ao inglês, como era de se esperar: eles viviam apenas nas fronteiras do Mundo Selvagem, e não estavam totalmente a par disso. Os nomes de família permaneceram, na maioria, tão conhecidos e respeitados com justiça nesta ilha quanto o eram na Vila dos Hobbits e Beirágua.

Há o assunto das Runas. Aquelas usadas por Thorin e Cia., para razões especiais, estavam contidas em um alfabeto de 32 letras (lista completa sob pedido), similar, mas não idêntico, às Runas de inscrições Anglo-saxônicas. Há, sem dúvida, uma conexão histórica entre os dois. O alfabeto Feanoriano, geralmente usado naquela época, tinha origem Élfica. Aparece na maldição inscrita no pote de ouro, no desenho da morada de Smaug, mas foi diversamente transcrito (um facsimile da carta original, deixada sobre o consolo da lareira, pode ser providenciada). E o que dizer das Charadas? Há trabalho a ser feito aqui nas fontes e analogias. Não seria nenhuma surpresa para mim se tanto o hobbit quanto Gollum fossem desaprovados em sua pretensão de ter inventado qualquer uma delas.

Finalmente, presenteio o futuro pesquisador um pequeno problema. O conto parou em seu relato por cerca de um ano em dois pontos separados: onde estão? Mas, provavelmente, isto teria sido descoberto de qualquer maneira. E, de repente, me lembrei que o hobbit pensou “Velho tolo”, quando o dragão sucumbiu à palavras lisonjeiras. Temo que o comentário de Habit (e seu) já será o mesmo. Mas você deve admitir que a tentação era grande. Atenciosamente, etc, J.R.R. Tolkien.

Carta #181

[Antes de escrever uma resenha de O Senhor dos Anéis, Michael Straight, o editor do New Republic, escreveu para Tolkien fazendo algumas perguntas: primeiro, se havia um significado no papel de Gollum na história e na falha moral de Frodo no clímax; em segundo, se o capítulo O Expurgo do Condado era especialmente dirigido à Inglaterra contemporânea; e em terceiro, por que os outros viajantes deveriam partir dos Portos Cinzentos com Frodo ao final do livro - É assim devido à mesma razão pela qual há aqueles que conquistam a vitória mas não podem desfrutá-la?]

[Não datada; provavelmente de Janeiro ou Fevereiro de 1956] Caro Sr. Straight,

Obrigado pela sua carta. Eu espero que você tenha se divertido com O Senhor dos Anéis? Divertido é a palavra-chave. Pois ele foi escrito para entreter (em seu sentido mais elevado): para que a leitura seja agradável. Não há ‘alegoria’ moral, política ou contemporânea em todo o trabalho.

Ele é um “conto de fadas”, mas um escrito – de acordo com a convicção que certa vez exprimi em um extenso ensaio chamado On fairy-stories que eles são a audiência apropriada – para adultos. Porque eu acredito que contos de fadas têm sua própria forma de refletir a verdade, diferentemente de alegoria, ou (sustentada) sátira, ou realismo, e em certos aspectos mais poderosa. Mas antes de tudo deve proceder apenas como um conto, excitar, deleitar, e em alguma ocasião comover, e internamente a seu próprio mundo imaginário, estar de acordo (literariamente) ao seu propósito. Ser bem sucedido nisso era o meu objetivo primário.

Mas, evidentemente, se alguém decide se dirigir a adultos (mentalmente adultos, em qualquer caso), eles não serão excitados, deleitados ou comovidos ao menos que o todo, ou os incidentes, pareçam ser sobre algo que mereça consideração, mais exemplos que mero perigo e fuga: deve haver alguma relevância à situação humana (de todos os períodos). Então, algo das próprias reflexões e valores do contador de histórias irá, inevitavelmente, estar inserido no trabalho. Isso não é o mesmo que alegoria. Nós todos, em grupos ou como indivíduos, exemplificamos princípios gerais; mas nós não os representamos. Os Hobbits não são maior alegoria do que são (digamos) os pigmeus da Floresta Africana. Gollum, para mim, é apenas um personagem – alguém imaginado – que garantiu que a situação agisse mais ou menos sob forças opostas, como se parecesse para ele que provavelmente agiria (há sempre um elemento incalculável em qualquer indivíduo real ou imaginário: de outra forma ele/ela não seria uma individualidade mas um tipo.)

Eu vou tentar e responder suas questões específicas. A cena final da Demanda se deu daquela forma simplesmente porque em relação à situação, e com o caráter de Frodo, Sam e Gollum, aqueles acontecimentos a mim pareceram mecanicamente, moralmente e psicologicamente críveis. Mas, é claro, caso você deseje mais reflexão eu devo dizer que internamente ao desenvolvimento da história, a catástrofe exemplifica (um aspecto das) palavras familiares: Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

“Não nos deixeis cair em tentação” é o pedido mais difícil e o menos freqüentemente considerado. A visão, nos termos da minha história, é de que mesmo todo acontecimento ou situação tem (ao menos) dois aspectos: a história e o desenvolvimento do indivíduo (isto é algo a partir do qual ele pode tirar proveito, proveito fundamental, para si mesmo, ou falhar na tentativa de fazê-lo), e a história do mundo (que depende de suas ações para sua própria causa) – contudo, há situações anormais em que alguns podem ser relacionados. Situações de sacrifício, eu devo chamá-las: posições sacrificais nas quais o bem do mundo depende da conduta de um indivíduo em circunstâncias que necessitem do seu sofrimento e resistência muito além do normal – até mesmo, pode ocorrer (ou assim parece, humanamente falando), exijam uma força física e mental as quais ele não possui: ele está, de certa forma, fadado a fracassar, condenado a cair em tentação ou falhar pela pressão contra sua vontade: isso é, contra qualquer escolha que ele poderia fazer ou teria feito acorrentado, não sob coação.

Frodo estava em tal posição: uma armadilha completa, aparentemente: uma pessoa de poder natural maior nunca poderia, provavelmente, ter resistido à tentação do Anel por tanto tempo; alguém com menor poder não deveria esperar poder resisti-lo na decisão final. (Uma vez que Frodo não havia se mostrado disposto a danificar o Anel antes de partir em viagem, e era incapaz de entregá-lo a Sam.)

A Jornada estava fadada a falhar enquanto uma parte de um plano mundial, e também atada a terminar em desastre enquanto a história do desenvolvimento do humilde Frodo ao nobre, sua santificação. Ela falharia, e falhou, enquanto concernisse a Frodo, considerando-o sozinho. Ele “apostatizou” – e eu recebi uma carta irada, bradando que ele deveria ter sido executado como um traidor, não honrado. Acredite em mim, não foi até eu ter lido isto que tive eu mesmo alguma idéia sobre quão tópica tal situação deve aparentar. Ela nasceu naturalmente do meu projeto concebido na forma de um esboço principal em 1936 [1]. Eu não previ que antes que o conto estivesse publicado nós deveríamos entrar em uma era negra na qual a técnica da tortura e a dilaceração da personalidade iriam rivalizar com a de Mordor e o Anel, e presentear-nos com o prático problema de homens honestos de boa-vontade caídos a apóstatas e traidores.

Mas a esse ponto a salvação do mundo e a auto-salvação de Frodo são alcançadas pelas suas prévias piedade e perdão às injúrias. Em qualquer ponto, qualquer pessoa prudente teria dito a Frodo que Gollum iria certamente* traí-lo, e poderia roubá-lo no final. Ter piedade dele, refrear de matá-lo, foi mostra de tolice, ou uma crença mítica no derradeiro valor-próprio da piedade e generosidade, mesmo que desastroso no mundo àquele tempo. Ele de fato o roubou e feriu no final – mas por uma graça, aquela última traição deu-se em uma conjuntura precisa, quando a última ação do mal foi a mais benéfica que qualquer um poderia ter feito por Frodo! Por uma situação criada pela sua piedade, ele salvou a si mesmo e mitigou seu fardo. Ele foi muito justamente agraciado com as honras mais elevadas – visto que claramente ele e Sam nunca ocultaram a seqüência exata dos acontecimentos. Em um último julgamento acerca de Gollum, eu não me preocuparia em averiguar. Isso seria investigação “daquilo que compete a Deus”, como os medievais diziam. Gollum era digno de misericórdia, mas ele terminou em persistente maldade, e o fato de isso ter dado bons resultados não lhe é creditado. Sua prodigiosa coragem e resistência, tão grande quanto a de Frodo e Sam, ou maior, na medida em que foi usada para o mal, é nefasta, e não honorífica. Eu temo que, independentemente de nossas convicções, nós tenhamos de encarar o fato de que há pessoas que se rendam à tentação, rejeitam suas chances de nobreza ou salvação, e tornem-se condenáveis. Sua condenabilidade não é mensurável em termos macroscópicos (para onde isso pode ser bom). Mas nós todos que estamos no mesmo barco não devemos usurpar o Julgamento. A dominação do Anel era forte demais para a alma tão inferior de Sméagol. Mas ele nunca teria tido de suportá-la caso não tivesse se tornado um filho vil e ladrão antes que cruzasse seu caminho. Ela precisaria sempre ter cruzado seu caminho? Alguma coisa perigosa deve sempre cruzar nosso caminho? Alguma resposta poderia ser encontrada caso tentemos imaginar Gollum sobrepujando a tentação. A história teria sido muito diferente! Contemporizando, não fixando a vontade ainda não totalmente corrompida de Sméagol, inclinada para o bem no debate dentro da caverna de escória, ele enfraqueceu a si mesmo na última oportunidade, quando o começo da afeição por Frodo foi muito facilmente extinguido pelo ciúme de Sam, antes da toca de Laracna.

Não há referência especial à Inglaterra no Condado – exceto, é claro, que como um homem inglês que cresceu na aldeia quase rural de Warwickshire, nas fronteiras do próspera burguesia de Birmingham (por volta da época do Jubileu de Diamante!) Eu tomo meus modelos como qualquer outro – da vida como eu a concebo.Mas não há referência ao pós-guerra. Eu não sou um socialista de qualquer forma, quando eles conquistam poder, tornam-se muito nocivos – mas eu não diria que temos de sofrer a crueldade do Charcote e seus rufiões aqui. Embora o espírito de Isengard, se não Mordor, está sempre notadamente aparecendo inesperadamente. A presente intenção da Oxford sendo destruída para acomodar carros-motorizados é um exemplo [2]. Mas o nosso adversário principal é um membro de um Governo “Conservador”. Entretanto, você poderia aplicar isso a qualquer lugar, atualmente.

Sim: eu penso que os vitoriosos nunca podem usufruir da vitória – não nos termos que eles contemplaram; e na medida em que eles lutaram por algo para ser usufruído por eles mesmos (quer por aquisição ou mera preservação), menos satisfatória a vitória irá parecer. Mas a partida dos Portadores dos Anéis tem um outro lado, se nos referirmos aos Três. Há, é claro, uma estrutura mitológica por detrás dessa história. Ela foi, de fato, escrita primeiro, e talvez agora seja em parte publicada. Ela é, devo dizer, uma mitologia “sub-criacional” mas monoteísta. Não há encarnação do Um, ou Deus, que de qualquer maneira permanece afastado, fora do Mundo, e acessível diretamente apenas aos Valar ou Regentes. Eles ocupam o lugar dos “deuses”, mas são espíritos criados, ou aqueles de criação primária que por sua própria vontade entraram no mundo**. Mas o Um retém toda a autoridade principal, e (ou assim parece se visto em tempo em série) reserva o direito de introduzir o dedo de Deus na história: é assim para produzir realidades que não poderiam ser deduzidas mesmo de um completo conhecimento do passado prévio, mas cuja existência real torna-a parte do passado efetivo por todo tempo subseqüente (uma possível definição de um milagre). De acordo com a fábula, Elfos e Homens foram as primeiras dessas intrusões, criados, de fato, enquanto a história era apenas uma história e não realizada; eles não foram, portanto, em qualquer sentido, concebidos ou feitos pelos deuses, os Valar, e eram chamados de Eruhíni ou “Filhos de Eru”, e eram para os Valar um elemento incalculável: pois eram criaturas racionais de livre-arbítrio em relação a Deus, da mesma ordem histórica que os Valar, embora de muito inferiores poderes espirituais e intelectuais, e posição.

É claro que, de fato exteriores a minha história. Elfos e Homens são apenas aspectos diferentes do Humano, e representam o problema da Morte como visto por uma finita mas espontânea e auto-consciente pessoa. Nesse mundo mitológico, Elfos e Homens são em suas formas encarnadas, congêneres, mas em relação aos seus espíritos ao mundo no tempo, representam diferentes experimentações, cada um dos quais tendo sua própria tendência inata, e fraqueza. Os Elfos representam, assim como era, o artístico, o estético e puramente científico aspectos da natureza humana elevados a um nível superior em relação ao efetivamente visto nos Homens. Ou seja: eles têm um amor devotado do mundo físico, e um desejo de observar e compreendê-lo para sua própria consideração e como outro – sc. como uma realidade advinda de Deus no mesmo em que eles mesmos – não como material para usufruto ou como plataforma de poder. Eles também possuem uma faculdade sub-criacional ou artística de grande excelência. Eles são, por essa razão, imortais. Não eternamente, mas para perdurarem com e internamente ao mundo criado, enquanto sua história durar. Quando mortos, por ferimentos ou destruição de sua forma encarnada, eles não deixam o tempo, mas permanecem dentro do mundo, tanto desencarnados quanto sendo renascidos. Isso se torna um grande fardo à medida em que as estendem-se as eras, especialmente em um mundo no qual há maldade e destruição (eu não mencionei a forma mitológica em que a Maldade ou a Queda dos Anjos toma nessa fábula). Mera mudança como esta não é representada como mal: o desenrolar da história e a recusa a isto são, é claro, contrários ao desígnio de Deus. Mas a fraqueza élfica é, nesses termos, naturalmente para lamentar o passado, e para tornar relutante em face às mudanças: como se um homem odiasse um livro muito longo que ainda continua, e desejasse permanecer em seu capítulo favorito. Por essa razão eles caíram, em certa medida, nos estratagemas de Sauron: eles desejavam algum poder sobre as coisas como elas eram (que é totalmente diferente), para fazerem suas vontades particulares de preservação efetiva: interromper mudanças, e manter tudo permanentemente fresco e belo. Os Três Anéis eram imaculados, porque esses objetos eram, de determinada forma, bons; isso inclui a cura dos verdadeiros males da perversidade, assim como interrupção das mudanças; e os elfos não desejavam dominar outras vontades, ou usurpar todo o mundo para seu desfrute particular. Mas com a queda do Poder, seus pequenos esforços em preservar o passado foram feitos em pedaços. Não havia mais nada na Terra-Média para eles, a não ser fraqueza. Então, Elrond e Galadriel partiram. Gandalf é um caso especial. Ele não era o forjador ou portador original do Anel – mas foi dado a ele por Círdan, para ajudá-lo em sua tarefa. Gandalf estava retornando, seu labor e diligência terminaram, para sua casa, a terra dos Valar.

A passagem pelo Oceano não é a Morte. A mitologia é centrada nos elfos. De acordo com isso, houve inicialmente, de fato, um Paraíso Terrestre, lar e reino dos Valar como uma parte física da Terra.

Não há personificação do Criador em lugar algum desta história ou mitologia. Gandalf é uma pessoa criada; embora possivelmente um espírito que existia antes no mundo físico. Sua função enquanto um mago é de um mensageiro angélico dos Valar ou Regentes: auxiliar as criaturas racionais da Terra-Média a resistirem a Sauron, um poder grande demais para eles lidarem sem ajuda. Mas uma vez tendo em vista este conto e mitologia o Poder – quando domina ou pretende dominar outras vontades e mentes (exceto pelo assentimento de sua razão) – é mau, esses magos eram encarnados nas formas físicas da Terra-Média, e assim sofreram as dores tanto da mente quanto do corpo. Eles estavam também, pela mesma razão, envolvidos no risco dos encarnados: a possibilidade da queda, ou pecado, se preferir. A principal forma que isso assumiria com eles seria a impaciência, levando ao desejo de compelir outros a seus próprios bons finais, e então inevitavelmente afinal ao mero desejo de tornar suas próprias vontades reais por quaisquer meios. Saruman sucumbiu a este mal. Gandalf, não. Mas a situação tornou-se tão grave pela queda de Saruman que o bem foi obrigado a um maior esforço e sacrifício. Assim, Gandalf enfrentou e sofreu a morte; e retornou ou foi enviado de volta, como ele diz, com poder aumentado. Mas embora alguém possa nisto ser lembrado dos Evangelhos, não é na realidade, exatamente a mesma coisa. A Encarnação de Deus é algo infinitamente maior do que algo sobre o qual eu me atreveria a escrever. Aqui eu estou apenas interessado na Morte como parte da natureza, física e espiritual do Homem, e com a Esperança sem garantias. É por essa razão que eu me refiro ao conto de Arwen e Aragorn como o mais importante dos Apêndices; ele é um panorama do essencial na história, e apenas está lá descrito porque não poderia ser inserido na narrativa principal sem destruir sua estrutura: que é planejada para ser centrada nos hobbits, o que é primariamente, um estudo do enobrecimento (ou santificação) dos humildes.

[Nenhum dos esboços dos quais este texto foi montado foi completado.]

Notas:

[1] Mas veja nota 5 no número 131. [N. do T.: A referida nota diz: “Como cartas mais antigas neste livro mostram, O Senhor dos Anéis foi iniciado, de fato, em dezembro de 1937"].

[2] Uma referência a proposta de uma estrada de ‘alívio’ pelo prado da ‘Christ Church’. * Não por completo ‘certamente’. O desajeitamento na fidelidade de Sam foi o que finalmente levou Gollum por sobre o precipício, quando estava prestes a arrepender-se. ** Eles partilharam em sua ‘criação’, mas apenas nos mesmos termos em que nós ‘fazemos’ uma obra de arte ou história. Esta realização, a forma como é dada realidade a essa criação do mesmo grau de si mesmos, foi o ato de Deus Único.

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Carta #183

Um comentário, aparentemente escrito para a própria satisfação de Tolkien e não enviado ou mostrado à qualquer outro, sobre “Ao término da Saga, Vitória”, uma crítica literária de O Retorno do Rei feita por W. H. Auden no Book Review do New York Times, em 22 de Janeiro de 1956. O texto dado aqui é uma reedição em alguma data mais tarde da versão anterior, agora perdida, que foi provavelmente escrito em 1956. Na resenha, Auden escreveu: “A vida, como eu a experimento em minha própria pessoa, é principalmente uma sucessão contínua de escolhas entre alternativas. Para objetivar esta experiência, a imagem natural é aquela de uma jornada com um propósito, atacada por riscos e obstáculos perigosos. Mas quando eu observo a humanidade, tal imagem parece falsa. Por exemplo, eu posso ver que só os ricos e aqueles de férias podem fazer jornadas; a maioria dos homens, a maior parte do tempo, tem que trabalhar em um lugar. Eu não posso observá-los fazendo escolhas, só as ações a que eles se submetem e, se eu conheço bem alguém, eu normalmente posso predizer como ele agirá em uma determinada situação. Se, então, eu tentar descrever o que vejo como se fosse uma câmera fotográfica impessoal, produziria, não uma Saga, mas um documento “naturalista”. Ambos extremos, é claro, falsificam a vida. Existem Sagas medievais que justificam a crítica feita por Erich Auerbach no seu livro Mimesis: “O mundo de experiências heróicas é um mundo de aventura. As façanhas [dos heróis] são feitos realizados ao acaso que não se ajustam politicamente em qualquer padrão proposital” … Sr.Tolkien foi mais bem sucedido que qualquer escritor anterior neste gênero usando as propriedades tradicionais da Saga.”

Caro Auden,

Estou muito grato por esta resenha. Muito encorajadora, tendo vindo de um homem que é ao mesmo tempo um poeta e um crítico de distinção. Não ainda (eu penso) alguém que tenha muita prática em narrar contos. Em todo caso estou um pouco surpreso por esta, pois apesar de seu elogio, me parece mais o modo de falar de um crítico em lugar de um autor. Não é, pelo que sinto, o jeito certo de considerar tanto Sagas em geral quanto a minha história em particular. Acredito que seja justamente porque não tentei, e nunca pensei em tentar “objetivar” minha experiência pessoal de vida, que o relato da Saga do Anel tivesse tido êxito em dar prazer a Auden (e a outros). Provavelmente também é a razão, em muitos casos, por não ter agradado alguns leitores e críticos. A história não é sobre JRRT absolutamente, e não é em nenhum ponto uma tentativa para alegorizar sua experiência de vida – por aquela é que o objetivo da sua experiência subjetiva em um conto deve significar, se qualquer coisa.

Eu sou historicamente preocupado. A Terra-média (Middle earth) não é um mundo imaginário. O nome é a forma moderna (surgida no século XIII e ainda em uso) de midden-erd > middel-erd, um nome antigo para oikoumene-, a residência dos Homens, objetivamente o mundo real, em uso especificamente oposto a mundos imaginários (como o Reino das Fadas) ou mundos não vistos (como Céu ou Inferno). O teatro de meu conto é esta terra, na qual nós vivemos agora, mas o período histórico é imaginário. Os elementos essenciais daquela residência estão todos lá (no caso para os habitantes do Noroeste da Europa), então naturalmente parece familiar, mesmo que um pouco glorificado pelo encanto da distância no tempo.

Homens realmente partem, e tem na história partido em jornadas e sagas, sem qualquer intenção de representar alegorias da vida. Não é verdade dizer que no passado ou no presente “só os ricos ou aqueles de férias podem fazer jornadas”. A maioria dos homens faz algumas jornadas. Quer sejam longas ou pequenas, com uma missão ou simplesmente para ir “lá e de volta outra vez”, não é a importância principal. Como tentei expressar na Canção de Caminhar de Bilbo, até mesmo um passeio ao entardecer pode ter efeitos importantes. Quando Sam não tinha ido mais além do que a Ponta do Bosque ele já tinha tido um “esclarecimento”.

Pois se há qualquer coisa em uma jornada de qualquer duração, para mim é isso: uma libertação do estado vegetativo de sofredor passivo e impotente, um exercício, ainda que pequeno de vontade, e mobilidade – e de curiosidade, sem a qual uma mente racional torna-se embrutecida. (Embora é claro que tudo isso seja uma reflexão tardia, e perca o ponto principal. Para um contador de histórias uma jornada é um artifício maravilhoso. Esta fornece uma linha forte na qual uma infinidade de coisas que ele tem em mente possa ser amarrada para fazer uma coisa nova, variada, imprevisível, e ainda coerente. Minha razão principal para usar esta forma foi simplesmente técnica).

Em todo caso não vejo os meus membros da raça humana que eu tenha observado do modo como foram descritos. Sou velho o bastante agora para ter observado alguns deles o suficiente para ter uma noção do que, eu suponho, Auden chamaria o seu caráter básico ou inato, enquanto notando mudanças (freqüentemente consideráveis) no seu modo de comportamento. Não sinto que uma jornada no espaço seja uma comparação útil para entender estes processos. Penso que a comparação com uma semente é mais esclarecedora: uma semente com sua vitalidade e hereditariedade inatas, sua capacidade para crescer e se desenvolver. Uma grande parte das “mudanças” em um homem é sem dúvida o desdobramento dos padrões escondidos na semente; embora estes naturalmente sejam modificados pela situação (geográfica ou climática) na qual esta é lançada, e que possam ser prejudicados por acidentes terrestres. Mas esta comparação omite inevitavelmente um ponto importante. Um homem não é apenas uma semente se desenvolvendo em um padrão definido, bem ou mal de acordo com sua situação ou seus defeitos como um exemplo de sua espécie; um homem é tanto uma semente como de certa forma também um jardineiro, para bem ou mal. Sou impressionado pelo grau no qual o desenvolvimento do “caráter” pode ser um produto de intenção consciente, a vontade para modificar tendências inatas em direções desejadas; em alguns casos a mudança pode ser grande e permanente. Conheci um ou dois homens e mulheres que poderiam ser descritos como “autoformados” neste respeito, com pelo menos tanta verdade parcial quanto “autoformados” possa ser aplicado àqueles cuja abundância ou posição possam ser ditas por terem sido alcançadas, em grande parte, pela sua própria vontade e esforços com pouca ou nenhuma ajuda de riqueza herdada ou posição social.

Em todo caso, descubro a maioria das pessoas imprevisíveis em qualquer situação específica ou emergência. Talvez porque eu não seja um bom juiz de caráter. Mas até mesmo Auden só diz que pode normalmente predizer como eles agirão; e pela inserção de “normalmente”, um elemento de incompatibilidade é admitido que, por menor que seja, está prejudicando seu ponto de vista.

Algumas pessoas são, ou parecem ser, mais previsíveis que outras. Mas isso é devido mais à sua sorte do que pela sua natureza (como indivíduos). As pessoas previsíveis residem em circunstâncias relativamente fixas, e é difícil pegá-las e observá-las em situações que são (para elas) estranhas. Essa é outra boa razão para enviar “hobbits” – uma visão de pessoas simples e previsíveis em circunstâncias simples e há muito estabelecidas – em uma jornada para longe do lar em terras estranhas e perigosas. Especialmente se eles são providos com algum motivo forte para resistência e adaptação. Embora sem qualquer motivo forte as pessoas realmente mudam (ou ainda, revelam o oculto) em jornadas: isso é um fato de observação usual sem qualquer necessidade de explicação simbólica. Em uma jornada de duração suficiente para fornecer o desfavorável em qualquer grau de desconforto para temer a mudança em companheiros bem conhecidos na “vida normal” (e em si mesmo) é freqüentemente notável.

Não gosto do uso da “política” em tal contexto; me parece falso. Parece-me claro que o dever de Frodo era “humano”, e não político. Ele naturalmente pensou primeiro no Condado, uma vez que suas raízes estavam lá, mas a saga teve como seu objeto não a preservação desta ou daquela política, como a meio república meio aristocracia do Condado, mas a liberação de uma tirania má de todos os “humanos”¹ – incluindo aqueles, como os “orientais” e os Haradrim, que ainda eram os servos da tirania.

Denethor estava corrompido pela mera política: conseqüentemente ocorreu seu fracasso e sua desconfiança de Faramir. Ela tinha se tornado para ele um motivo principal para preservar o governo de Gondor, como era, contra um outro potentado, que tinha se tornado mais forte e seria temido e oposto por essa razão mais propriamente do que pelo novo governo ser desumano e mau. Denethor menosprezava homens inferiores, pode-se estar seguro de que ele não distinguia entre orcs e aliados de Mordor. Se tivesse sobrevivido como vencedor, até mesmo sem uso do Anel, teria dado longos passos para se tornar um tirano, e as condições e tratos que outorgaria com os povos iludidos do leste e do sul teriam sido cruéis e vingativas. Ele tinha se tornado um líder “político”: sic. Gondor contra o resto.

Mas essa não era a política ou o dever estabelecido pelo Conselho de Elrond. Só depois de ouvir o debate e perceber a natureza da demanda é que Frodo realmente aceita o fardo da sua missão. De fato, os Elfos destruíram sua própria política em perseguição de um dever “humano”. Isto não aconteceu somente como um dano desastroso da Guerra; era sabido por eles ser um resultado inevitável da vitória, que poderia ser de nenhuma maneira vantajosa para os Elfos. Não pode ser dito que Elrond tem um dever ou um propósito político.

O uso da “política” por Auerbach pode à primeira vista parecer mais justificado; mas não é, eu penso, realmente inadmissível – nem mesmo se nós reconhecemos o enfado para qual a mera condição “errante” foi reduzida como a leitura de passatempo de uma classe principalmente interessada por feitos de armas e amor². A respeito do quão divertidas para nós (ou para mim) são histórias sobre cricket, ou contos sobre a viagem de um time, para aqueles que (como eu) acham cricket (como este agora é) um enfado ridículo. Mas os feitos de armas em um (diga-se) Romance Arturiano, ou romances presos àquele grande centro de imaginação, não precisam se “ajustar em um padrão politicamente deliberado”³. Assim era nas tradições Arturianas primitivas. Ou pelo menos esta linha de primitiva porém poderosa imaginação era um elemento importante nelas, como também em Beowulf. Auerbach deveria aprovar Beowulf, pois nele um autor tentou ajustar uma ação errante em um campo político complexo: as tradições inglesas das relações internacionais da Dinamarca, Gotland, e Suécia em dias antigos. Mas essa não é a força da história, antes a sua fraqueza. Os objetivos pessoais de Beowulf na sua jornada para a Dinamarca são precisamente aqueles de um herói posterior: o seu próprio renome, e acima disso a glória do seu senhor e rei; mas todo o tempo nós vislumbramos algo mais profundo. Grendel é um inimigo que atacou o centro do reino, e trouxe para dentro do corredor real a escuridão exterior, de forma que só na luz do dia o rei pode se sentar no trono. Isto é algo bastante diferente e mais horrível que uma invasão “política” de iguais – homens de um outro reino semelhante, tal como o posterior ataque de Ingeld à Heorot.

A subversão de Grendel faz um bom conto-maravilhoso, porque ele é muito forte e perigoso para qualquer homem comum derrotar, mas é uma vitória na qual todos os homens podem se regozijar porque ele era um monstro, hostil a todos os homens e para todo o companheirismo e alegria humana. Comparado a ele até mesmo os há muito politicamente hostis Dinamarqueses e Geatish eram Amigos, do mesmo lado. É a monstruosidade e a qualidade de conto de fadas de Grendel que realmente faz o conto importante, sobrevivendo ainda quando a política enfraquece e a cura das relações entre Dinamarqueses e Geatish em um “entendimento cordial” entre duas casas governantes um assunto secundário da história obscura. Naquele mundo político Grendel parece tolo, embora ele certamente não seja tolo, porém ingênua pode ser a imaginação do poeta e a descrição dele.

Claro que na “vida real” as causas não estão claras – se somente porque os humanos tiranos raramente são totalmente corrompidos em puras manifestações de intenção má. Até onde possa julgar, alguns parecem ter sido assim corrompidos, mas até mesmo eles devem reger assuntos apenas em parte regularmente corruptos, enquanto muitos ainda necessitam ter bons motivos, reais ou fingidos, apresentados a eles. Como nós vemos hoje. Ainda há casos claros: por exemplo, atos de agressão cruel transparente nos quais, portanto o certo está desde o princípio completamente em um lado, qualquer que seja o mal que o sofrimento ressentido do mal possa gerar eventualmente em membros do lado certo.

Também existem conflitos sobre idéias ou outras coisas importantes. Em tais casos sou mais impressionado pela extrema importância de estar do lado certo, do que estou transtornado pela revelação da selva de motivos confusos, propósitos particulares, e ações individuais (nobres ou vis) no qual o certo e o errado em conflitos humanos reais são normalmente envolvidos. Se o conflito realmente é sobre coisas propriamente chamadas de certa e errada, ou boa e má, então a retidão ou bondade de um lado não é demonstrada ou estabelecida pelas reivindicações de qualquer lado; deve depender de valores e convicções superiores e independentes do conflito particular. Um juiz deve apontar o certo e errado de acordo com princípios que ele considera válidos em todos os casos. Sendo assim, o direito permanecerá uma possessão inalienável do lado certo e justificará sua causa inteiramente. (Falo de causas, não de indivíduos. Claro que para um juiz cujas idéias morais têm uma base religiosa ou filosófica, ou realmente para qualquer um não obscurecido por fanatismo partidário, a retidão da causa não justificará as ações de seus defensores, como indivíduos que são moralmente maus. Mas embora a “propaganda” possa aproveitar casos como esses como provas de que sua causa não era de fato certa, isso não é válido. Os agressores são eles mesmos os primeiros a se culparem pelas más ações que procedem da sua violação original da justiça e das paixões que a sua própria maldade deve naturalmente (pelos seus padrões) ter sido esperada que despertasse. Eles não têm nenhum direito para exigir de qualquer modo que as suas vítimas quando atacadas não devam exigir olho por olho ou dente por dente).

Semelhantemente, ações boas por aqueles no lado errado não justificarão a sua causa. Pode haver ações no lado errado de coragem heróica, ou algumas de um nível moral mais alto: ações de clemência e paciência. Um juiz pode lhes outorgar honra e pode se alegrar por ver como alguns homens podem se elevar acima do ódio e da raiva de um conflito; até mesmo enquanto ele pode lamentar as ações más do lado certo e pode ficar preocupado por ver quanto o ódio uma vez provocado pode os arrastar para baixo. Mas isto não alterará o seu julgamento com relação a qual lado estava no direito, nem a sua designação da culpa primária para todo o mal que seguiu ao outro lado.

Em minha história não lido com Mal Absoluto. Não acho que exista tal coisa, uma vez que isso é insignificante. Não acho que de qualquer modo qualquer “ser racional” seja completamente mau. Satanás caiu. Em meu mito Morgoth caiu antes da Criação do mundo físico. Em minha história Sauron representa o mais próximo de uma vontade completamente má como é possível. Ele tinha percorrido o caminho de todos os tiranos: começando bem, pelo menos no nível que enquanto desejando ordenar todas as coisas de acordo com a sua própria sabedoria ele ainda no princípio considerou o bem-estar (econômico) de outros habitantes da Terra. Mas ele foi mais adiante que os tiranos humanos em orgulho e avidez pela dominação, sendo em origem um espírito imortal (angélico)4. Em O Senhor dos Anéis o conflito não é basicamente sobre “liberdade”, embora esta esteja naturalmente envolvida. É sobre Deus, e Seu exclusivo direito à honra divina. Os Eldar e os Númenorianos acreditaram no Único, o verdadeiro Deus, e consideravam a adoração de qualquer outra pessoa uma abominação. Sauron desejou ser um Deus-Rei, e foi considerado como tal por seus servos5; se ele tivesse sido vitorioso ele teria exigido honra divina de todas as criaturas racionais e poder temporal absoluto sobre o mundo inteiro. Então até mesmo se em desespero “O Oeste” tivesse criado ou contratado hordas de orcs e tivesse cruelmente saqueado as terras de outros Homens enquanto aliados de Sauron, ou somente para lhes impedir de ajudá-lo, a Causa deles teria permanecido irrevogavelmente certa. Como faz a Causa daqueles que se opõem agora ao Deus-Estado e Marechal Isto ou Aquilo como seu Alto Sacerdote, até mesmo se for verdade (como infelizmente é) que muitas das ações deles estejam erradas, até mesmo se fosse verdade (como não é) que os habitantes do “Oeste”, com exceção de uma minoria de chefes ricos, vivem em medo e esqualidez, enquanto os adoradores do Deus-Estado vivem em paz e abundância e em estima mútua e confiança.

Então sinto que a inquietação-esfraquecimento em resenhas e correspondência sobre elas, assim como se minhas “pessoas boas” eram amáveis e misericordiosas e davam abrigo (de fato elas assim o são), ou não, realmente não vem ao caso. Alguns críticos parecem determinados em me representar como um adolescente simplório, inspirado pelo, digamos, espírito de luta e justiça, e intencionalmente distorcem o que é dito em meu conto. Eu não tenho aquele espírito, e ele não aparece na história. Só a figura de Denethor é suficiente para prová-lo; mas eu não fiz nenhuma das pessoas do lado “certo”, Hobbits, Rohirrim, Homens de Valle ou de Gondor, nada melhor do que os homens tem sido ou são, ou possam ser. O meu não é um “mundo imaginário”, mas um momento histórico imaginário na “Terra-média” – que é nossa morada.

Notas do Autor

1. humanos: estes (estando em uma história de fadas) incluem-se é claro Elfos, e certamente todas as “criaturas falantes”.

2. Principalmente interessada: isto é como temas de “literatura” como uma diversão. Na verdade a maior parte deles era principalmente interessada na aquisição de terra e o uso de alianças por casamento em alcançar seus objetivos.

3. Nada a não ser “política” é estreitada (ou estendida) tanto que estamos considerando imaginativamente apenas um centro ou fortaleza de ordem e benevolência cercada por inimigos: florestas desabitadas e montanhas, homens bárbaros e hostis, feras selvagens e monstros, e o Desconhecido. A defesa do reino pode então na verdade se tornar simbólica da situação humana.

4. Da mesma espécie que Gandalf e Saruman, mas de uma ordem muito mais alta.

5. Por uma tripla traição: 1. Por causa de sua admiração pela Força ele se tornou um seguidor de Morgoth e caiu com ele dentro dos abismos do mal, se tornando seu principal agente na Terra-média 2. Quando Morgoth foi derrotado pelos Valar finalmente ele abandonou sua aliança; mas por causa de medo apenas, ele não apresentou-se aos Valar ou implorou por perdão, e permaneceu na Terra-média 3. Quando ele descobriu quão grandemente seu conhecimento era admirado por todas as outras criaturas racionais e quão fácil seria influenciá-las seu orgulho tornou-se ilimitado. No fim da Segunda Era ele assumiu a posição de representante de Morgoth. No fim da Terceira Era (embora na verdade muito mais fraco que antes) ele proclamou ser Morgoth retornado.