Todos os post de wquert

O Conto de Lustion – Primeiro Relato

Sinopse: Esse é o primeiro relato da vida de Lustion, de autoria anônima e encontrado nas páginas do Parma Vanwë Nyaron, O Livro dos Contos Perdidos.

Classificação: 12 anos

Disclaimer: Este é um trabalho de ficção, sem fins lucrativos, baseado na obra de Tolkien.


 

 

Capítulo I: Do nascimento e da resolução de Lustion

Grande foi a felicidade dos Noldor quando se deu o nascimento de Lustion. Naquela época as duas árvores ainda vingavam sobre Ezellohar, e a felicidade dos Eldar era impoluta. Recebeu esse nome, que significa “vazio”, pois a ele seus olhos assimilavam-se, profundos e escuros, parecendo absorver tudo ao seu redor, e ao mesmo tempo transparecendo a grandiosidade de seu espírito. E seu pai Meldan era querido por muitos, pois era um dos grandes senhores dos Noldor em seu tempo, e o nascimento de seu filho foi jubilado por muitos.

Porém, quando ainda era muito novo, Lustion presenciou o mais negro de todos os fatos daquele tempo. Viu Melkor e Ungoliant prostrarem Valinor sob um véu de sombras nunca antes visto, matando as Duas Árvores. Aquelas imagens jamais se apagariam de sua memória, pois amava muito as Duas Árvores, que exerciam nele enorme fascínio e admiração. Então, quando Fëanor filho de Finwë proferiu seu juramento, Meldan decidiu com ele seguir. Mas seu coração estava dúbio e pesaroso por ter que se separar daquele que ele mais estimava, seu filho. E apesar de tudo, não poderia deixar de ajudar àquele que agora era senhor de seu povo, e pelo qual sentia muita compaixão pelas desgraças sofridas. Assim, Lustion despediu-se de seu pai, sem saber se algum dia retornaria a vê-lo.

De fato, os anos passaram-se depressa, e agora já brilhavam tanto Anar quanto Isil sobre o firmamento, e as Árvores eram uma triste lembrança de um passado que não retornaria. Lustion desenvolvera de modo majestoso seus talentos inatos como artífice e navegador, e tornou-se admirado e querido por muitos. Revelava-se nele um espírito incansável e ardente, tal como o líder de seu povo, que perecera além Mar. E sua mente começava a inquietar-se mais do que o comum, pensando em seu pai, e ansiando conhecer novas terras, pois era ávido por novidades e o ócio nunca lhe seduzira.

De seu pai não tivera mais notícias, e sabendo do que ocorrera no episódio do Fratricídio de Alqualondë, julgou que seu pai estava ligado a um negro destino, que acompanhava todos àqueles que partiram com Fëanor no dia de seu nefasto juramento. E seu coração desejou ir em busca de seu pai, que ele amava mais que qualquer coisa. Mas ele não teria a permissão dos Valar para abandonar a Terra  Abençoada, tal como seus antepassados fizeram. Porém mesmo assim ele tentou conseguir tal permissão, indo falar com Manwë e Varda em Ilmarin. E Manwe lhe negou, conforme previsto, tal pedido:

- Ó Lustion filho de Meldan, sabemos que o destino de seu pai é negro, mas não permita que tal destino acometa-se sobre ti também. Pois foi decisão dele seguir esse caminho, e ele não permitiria que seu amado filho partilhasse de tal sina.
- E que espécie de filho poderei me considerar, sem nem ao menos tentar salvar àquele a quem mais estimo nesse mundo? Não serei feliz de qualquer modo vivendo aqui, sabendo que nesse instante meu pai pode estar passando por momentos difíceis, em alguma missão desesperada e derradeira. Infelizmente eu terei que partir, com ou sem vossa permissão.
- Se assim diz, assim será. Partilhará das dores e sofrimentos daqueles que outrora abandonaram este reino, e antes do final te arrependerás de ter contrariado minha decisão e meus conselhos. Pois, se decides partir atrás daqueles que se dispuseram a seguir Fëanor, como um deles será considerado, e sobre ti a mesma sina pesará. Meu coração se entristece ao saber de tua escolha, mas não posso impedi-lo à força.
- Como no passado foi dito: tentarei, através do sofrimento, conquistar a felicidade – disse por final Lustion.

E Manwë nada mais disse. Ele sabia que nada agora impediria a partida de Lustion. E este construiu um barco para si, a fim de cruzar a longa distância que o separava das terras mortais. Branco ele era, com velas douradas, e tão logo Lustion partiu, percebeu que os Valar não lhe impediriam de fato, já que o vento soprava favoravelmente, e o mar não se agitava mais do que o suficiente. Ulmo e Ossë não teriam interesse em impedir aquela pequena embarcação de atingir as costas de Beleriand, seguindo seu destino, qual fosse ele.

{mospagebreak}

Capítulo II: De Raiva e Pesar

Quando por fim Lustion chegou às praias de Beleriand, adentrando-se até chegar por fim em Cirith Ninniach, ele percebeu que sua missão seria mais complicada do que lhe parecera de início. Não fazia idéia de onde poderia estar seu pai, ou como chegar a tal lugar, tampouco sabia onde poderia encontrar alguém que pudesse lhe informar qualquer coisa a respeito. E assim ele começou a andar por Hithlum, e por acaso, ou talvez destino, ou mesmo ambos, ele não demorou a encontrar alguém. Esta foi a primeira vez, mas certamente não última, que Lustion se deparou com representantes dos Atani, O Segundo Povo. Soube com eles que talvez pudesse encontrar quem procurava adentrando mais em Hithlum, até chegar ao Lago Mithrim, onde habitavam a maioria dos noldorim naquela época.

Percebeu que a terra estava devastada, como que castigada por algum mal poderoso e impiedoso. A desolação dessas terras em nada se comparava à beleza do reino que ele abandonara. E, ao chegar em Mithrim deparou-se finalmente com àqueles a quem procurava. Mas não reconheceu entre eles nenhum dos que ele vira partir de Valinor, e estranhou o escasso número de remanescentes Noldor ali. Assim soube que tanto Fëanor quanto Fingolfin já haviam perecido, e que eles agora abandonavam o Lago para juntar-se àqueles que se reuniam para combater Morgoth. Logo supôs que seu pai havia partido para a batalha, pois essa seria sem dúvida sua atitude. E seus novos companheiros, à simples menção do nome de Meldan, assentiram, sentindo-se honrados e felizes em conhecer o filho deste, de quem ele tanto falava e se orgulhava. Mas estavam pasmos agora, pois pareciam que viam um fantasma na pessoa de Lustion. Intrigado, ele lhes perguntou:

-Por que me olham dessa maneira? Por acaso eu lhes recordo alguma má lembrança?
-Ó filho de Meldan. Se não soubéssemos que você é filho dele, juraríamos que fostes a reencarnação de Fëanor. Pois tanto na aparência, quanto no ardor do espírito você é muito semelhante a ele. Praticamente igual eu poderia dizer, e vejo isso através de seus olhos. Mas não é possível que você seja ele, de qualquer maneira.
- De fato não s
ou ele – disse Lustion – mas não me incomodo com tal comparação. Pois, apesar de tudo, Fëanor ainda é digno de minha admiração. Assim como ele, o que eu mais amo nesse mundo é meu pai, e foi por ele que vim até aqui.

 Então deles recebeu o convite para acompanhá-los em marcha rumo às Thangorodrim. Recebeu uma espada, dado que nenhuma arma trouxera do Reino Abençoado, mas negou qualquer proteção, por mais leve cota ou escudo que fosse, pois não se sentia bem os usando, preferindo usar apenas as roupas de seu corpo, com as quais tinha maior liberdade de movimentos. Armaduras lhe sufocavam, e escudos lhe diminuíam a destreza. Partiram então, e eis que chegaram aos pés das Thangorodrim exatamente no ímpeto inicial da batalha, prontos para ajudar as demais hostes que ali estavam lutando contra os exércitos de Morgoth. E Lustion revelou-se um guerreiro incrivelmente hábil no uso da espada, como era de se prever. O desejo de rever seu pai fazia com que ele não deixasse vivo orc ou troll que cruzasse seu caminho, procurando por todos os lados por muito tempo, tanto quanto fosse possível. De fato, o poder e a vastidão dos exércitos de Morgoth agora faziam-se claros, e a batalha tomava um rumo decadente.

Mas, em meio a tudo, finalmente Lustion avistou a figura inconfundível de seu pai, alto e imponente, e este também o viu e reconheceu o filho que ele deixara do outro lado do Mar. Apesar da tristeza da batalha, a alegria não podia ser maior naquele momento, e Lustion, de súbito, avançou em direção a seu pai, que estava praticamente cercado de inimigos. E o pavor o dominou quando viu que uma criatura atroz aproximava-se repentinamente de seu pai, flanqueando-o. Era um Balrog, saído das profundezas das Thangorodrim. Sua carne ardia em chamas, e o pavor de sua aproximação fazia com que mesmo seus aliados se afastassem, e agora a enorme lâmina flamejante em sua mão descia contra Meldan. A potência do golpe foi tal que escudo e elmo partiram-se, na tentativa de aparar a lâmina descendente. Ainda assim a cabeça de Meldan fora seriamente ferida, e o sangue vertia em meio a seus longos cabelos castanhos, tingindo-os de escarlate E o Balrog pisou em seu pescoço, e quando ia desferir o golpe fatal, Lustion atirou-se com sua espada contra ele, jogando-o de lado. Novamente o valarauko usou de sua lâmina, e lançou um golpe usando toda sua força contra Lustion. Um estrondo ressoou. A espada de Lustion estava partida e seu peito ferido. Imagens seqüenciais lhe vinham à mente. Viu o rosto de seu pai ensangüentado, e a felicidade pela qual procurara esvair-se justamente quando a alcançara.

E a raiva tomou seu ser por completo. Reunindo toda sua força, pegou do chão a espada de seu pai, Amaurëa, a aurora, que mesmo após ceifar muitos inimigos, reluzia de modo assombroso, tal como a manhã de um novo dia que surge após a escuridão da vigília da noite. Empunhando-a, desferiu sucessivos golpes contra o Balrog que não conseguia reagir à tamanha fúria. Os orcs ao redor corriam, assustados ante a presença e a ira de Lustion. Por fim, ele acertou o Balrog com um golpe profundo, enterrando nele a espada de seu pai e derrotando-o. Voltou até seu pai que guardara suas últimas palavras, com o fôlego que lhe restara:

-“Vai Lustion, meu filho. O tempo urge, e a batalha te chama. És motivo de meu orgulho, e apesar de deixar-te agora, sinto que seus feitos trarão glória maior do que a desgraça dessa guerra toda. Teu fim não é aqui nem agora, mas o meu sim. Use o rancor que toma teu coração contra teus inimigos, e apenas contra eles. Seu espírito queima, mas tu irás ter o domínio de teus atos, e então, no final de tudo, nos veremos novamente”.

 Ali teria ficado Lustion, prostrado aos pés de seu pai derramando suas lágrimas, mas o curso da batalha não permitia. Com raiva e sede de vingança estava Lustion, e seus olhos agora brilhavam vermelhos como o fogo, transparecendo seu estado de espírito. Nenhum oponente conseguia fitá-lo nos olhos, e por muitas vezes cantou Amaurëa empunhada por Lustion, antes que o final da batalha se desse.

Mesmo dominado pela ira, um resquício de lucidez ainda sobrara, e então Lustion divisou em meio ao turbilhão da batalha, alguém que lutava com grande fervor, parecendo lutar por uma causa maior, assim como acontecia com ele próprio. De fato, em um momento em que ele acabara de abrir um grande rombo entre um grupo de orcs, ele conseguiu aproximar-se daquele que ele percebia agora também ser um eldar. E então, o guerreiro, que também parecia admirado pelo desempenho de Lustion, disse:

           – Quem és, guerreiro que põe a alma na espada e que tão grande ajuda veio prestar em batalha?
           – Chamo-me Lustion, noldo exilado que vem às pressas auxiliar contra o mal que acomete esta terra.  E quanto a você, com toda essa imponência, mantendo o destemor em hora tão sombria?
A batalha parecia estática para ambos, que agora pareciam não ligar para os perigos que os cercavam.
            – Sou Glaurion, e muito me alegro em encontrar alguém como você em um momento como esse. De grande valia será sua lâmina, e espero que possamos nos encontrar novamente, em um momento melhor, se pudermos sobreviver, para contarmos nossas histórias.
- Assim também espero, e assim creio que será. Pois mesmo que não possamos manter nossas vidas, haveremos de nos reencontrar em outro lugar, muito além daqui, por maior que possa ser a sombra que paira sobre nós.

E, de fato, negro foi o desfecho, pois a traição dos homens decretou a vitória de Morgoth, nessa que seria chamada de Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das Lágrimas Incontáveis, nome apropriado aos acontecimentos nela decorridos. E ao final Lustion acabou sendo feito escravo de Morgoth, levado a trabalhar em suas minas em eterna servidão. Antes disso, porém, entregou Amaurëa a um elfo que debandava da batalha, antes que fosse capturado, e no qual ele acreditou haver capacidade suficiente para sobreviver e lhe dar esperanças de um dia reaver a espada que fora de seu pai.

Tornando-se escravo, labutou ao lado de muitos que partilharam o mesmo destino. Conseguiu certa fama ali, destacando-se por sua perseverança e altivez de espírito. E novamente eram feitas comparações com Fëanor. Aparentemente talvez não houvesse nenhum problema quanto a isso, mas à simples menção desse nome o sangue de Melkor gelava, já que ele não podia sequer lembrar daquele elfo pelo qual ele devotou seu maior ódio, e pelo qual possuía tanta inveja e temor. Assim, Lustion acabou sendo torturado e humilhado pelo próprio Morgoth, mas ele não pronunciou nem sequer uma palavra, permanecendo calado, pois seu ódio por Melkor era tanto, que ele guardaria todas as suas forças para vingar seu pai, não sendo necessário desperdiçar palavras em tal situação. Ofensas e torturas jamais poderiam fazê-lo
sofrer como o fez a morte de seu pai.

E durante anos permaneceu na condição de escravo, e ali nos calabouços ele conheceu Fëaruin Amanon, um dos poucos dos quais ele se lembrava de ter visto partindo de Valinor com seu pai, e que viu em Lustion alguém muito valoroso. Certo dia, uma oportunidade de fuga surgiu, e ele, junto de Fëaruin, Glaurion, e alguns outros elfos, conseguiram escapar, atacando um grupo de orcs que os vigiavam desatentos. E, alguns dias após a fuga, acabaram por encontrar um grupo de eldar. Entre eles, ao que parecia, haviam muitos que já conheciam Fëaruin, e então Lustion pôde perceber a importância daquele que ele agora sabia ser um dos príncipes dos Noldor. E, por enorme coincidência e alegria, ele viu entre esse grupo o elfo ao qual ele confiara Amaurëa. E este prontamente veio lhe entregar a espada:

- Por todo este tempo guardei tua espada, pois sabia que um dia nos reencontraríamos, e que eu iria poder devolvê-la em mãos. Pois percebi em você uma força que não pode ser mantida em cativeiro por muito tempo, nem segurada de qualquer maneira.
- Eu lhe agradeço imensamente! Esta espada pertencia a meu pai, que pereceu na batalha. Não imaginas o quão feliz me sinto por poder reavê-la. Tenho uma enorme dívida para contigo agora.
- A tua gratidão já me é mais do que suficiente.

{mospagebreak}

Capítulo III: De uma nova vida

Então Lustion decidiu partir com eles para o Oeste, além das terras de Beleriand, já que agora ele não tinha mais nada nem ninguém nessa terra, e não tinha para onde ir. Mas ele não se arrependia de ter contrariado o conselho de Manwë, apesar de sentir grande pesar. Agora seria um novo tempo para ele, onde ele poderia descansar e construir uma nova vida. Mas, de qualquer maneira, ele jamais iria se esquecer de que ainda iria descarregar todo o ódio pela morte de seu pai, obtendo sua vingança. 

Eis que após muita caminhada, o grupo chegou às Orocarni. E ali decidiram se instalar, fundando a cidade de Alcarost, a Cidadela de Glória, e seu rei seria Fëaruin. E com isso muito feliz ficou Lustion, pois poderia realmente descansar e pensar em fazer coisas novas. Ali ele tornou-se conselheiro do Rei, pois todos o reconheciam como sendo alguém muito poderoso, sábio e ponderado.

Além de tornar-se conselheiro, ele tornou-se mestre arcano de Alcarost, pois entre suas muitas habilidades, estava a de saber lidar com a sutileza da magia, além de iniciar os mais jovens nessa arte. Pois, quando Lustion demonstrava sua capacidade de manipular a magia, todos viam que ele de fato possuía uma grande capacidade. Suas obras possuíam uma aura especial, e ele podia fazer os frutos dos pomares ficarem mais saborosos, as folhas das árvores resplandecerem douradas, e as crianças se alegravam quando ele chegava. Além disso, ele conseguia dar um ar de magnitude à Cidadela, fazendo com que aos olhos de todos, ela ficasse envolta num manto de beleza e imponência.

 A paz de Alcarost por diversas vezes foi perturbada, e em todas as batalhas que ocorreram, Lustion participou, brandindo Amaurëa contra os inimigos de seu novo lar. E numa dessas batalhas, ele acabou por fazer um inimigo terrível. Naquelas regiões, precisamente mais ao norte, haviam se desenvolvido os antros dos dragões remanescentes da guerra da Ira. Esses eram os últimos dos urulóki, mas seu poder ainda era suficiente para despertar o temor no coração de muitos, e ninguém se atreveria a se aproximar daquelas terras, sabendo da existência de tal perigo.

E numa das batalhas que foi travada diante dos portões de Alcarost, os orcs vieram acompanhados de um desses dragões. Telepso era seu nome, chamado também de O Prateado. Suas escamas eram prateadas de fato, e sua imponência fazia a maioria de seus inimigos correrem de medo assim que o avistassem. Mas quando Lustion encontrou-se com ele em batalha, não sentiu temor, nem fez nenhuma menção de fugir. Assim também eram poucos os que podiam fitar os olhos de Lustion cara a cara em batalha, e Telepso o fez, apesar de sentir-se incomodado por tal fato, pois o olhar de Lustion penetrava na alma de quem o fitasse, podendo despertar ali grandes temores. Porém a corrupção que Melkor fez com esses seres era tamanha, que não permitia que eles sentissem medo ou receio.

Mas Lustion não pôde ficar ali por mais tempo, pois ao mesmo tempo em que o Dragão investia contra ele, vinham agora os reforços dos orcs, que sentiam-se motivados e fortalecidos pela presença do grande lagarto, e assim, por estar sozinho ali, teve que retirar-se para as hostes de seu lado novamente. Tão logo puderam se recompor do avanço da divisão inimiga, as tropas de Alcarost agora empurravam os orcs cada vez mais para longe dos portões, e Telepso não podia fazer muito contra tamanho ímpeto desse enorme grupo que agora o atacava.

Assim ele começou a fugir. E Lustion foi atrás dele, e não percebeu de início que era isso que o dragão queria. Pois assim que Lustion se distanciara de seus companheiros, Telepso virou-se e investiu contra ele, que percebeu seu erro, tendo que enfrentar o grande monstro de frente. Sabia que teria poucas chances, ainda mais sem nenhuma proteção que pudesse defendê-lo da baforada desse ser poderoso. Assim, ele decidiu que era melhor correr até achar uma posição mais favorável para ele, e onde não tivesse de encarar o Dragão abertamente, sem defesa alguma.

Porém Telepso, apesar de grande, era rápido, e quando estava quase alcançando Lustion, baforou seu mortal sopro ígneo, que atingiu Lustion pelas costas, arremessando-o contra o chão. Sentindo a terrível dor que calcinava sua carne, ele virou-se rapidamente com as costas para o chão, e conseguiu desviar da primeira patada que o dragão desferiu. Em seguida, ele posicionou sua espada na frente do dorso, aparando as enormes mandíbulas que tentavam devorá-lo inteiro.

 E a força era tamanha que o Dragão acabou por conseguir cravar suas presas no tórax e nas costas de Lustion. Mas, no mesmo instante em que seus dentes afiados penetraram na carne do elfo, ele sentiu uma dor lancinante, e deu um salto para trás. Pois Lustion ainda estava com braço e espada na boca de Telepso, e quanto mais ele forçava a mandíbula, mais Amaurëa entrava na carne de sua boca. Se ele tivesse insistido em afundar ainda mais seus dentes, ambos teriam perecido, e o relato acabaria aqui. Mas não foi o que aconteceu, e agora o sangue negro saía-lha da boca aos borbotões, e ele acabou por fugir, pois ele não tinha mais condições de batalha.

E talvez tenha sido um grande erro, já que Lustion também não podia mais lutar, em virtude de que o calor e o sangue da boca do Dragão haviam inutilizado sua mão direita, e as perfurações feitas pelos dentes do Dragão somadas às queimaduras nas costas o deixaram seriamente ferido, e mais incapacitado ainda do que a criatura. Permaneceu, porém, consciente, e levantou-se, indo em direção de Alcarost. Assim ele
acabou sendo encontrado, cambaleando, parecendo mais morto do que vivo, pelos remanescentes da batalha, que o estavam procurando.

Ao voltar, soube que Seron, que era um grande amigo seu e naqueles tempos era dos mais honrados dos soldados de Alcarost, havia morrido para o mesmo dragão que quase o matara. E Seron tinha um filho, Vórima, que era um dos discípulos arcanos de Lustion, que acabou-se apegando ao jovem, tomando-o como seu próprio filho. E ele acabou recuperando-se rápido, mostrando que era muito resistente às feridas que os eventos do destino podiam lhe causar.

 Tão logo recuperou-se, começou a bolar uma estratégia para poder derrotar o Dragão. Mas ele não queria ter de esperar até que uma nova batalha houvesse, e mais vidas fossem sacrificadas em virtude disso. Assim, ele decidiu que iria até as proximidades do lar do dragão, e o chamaria para um duelo de um contra um. Ele sabia que apenas um deles sairia vivo, mas não se importava com isso. “Para qualquer bem maior, riscos são necessários, e mesmo que seja a sua vida que esteja em jogo, você deve encará-los.” – dizia ele a todos que tentavam dissuadi-lo de idéia tão desvairada.

Mas Lustion permanecia austero, e mais ponderado do que nunca. Então ele decidiu usar sua capacidade criativa e o poder de sua magia para criar uma roupa que o protegeria do fogo da garganta do dragão, pois ele sentira na pele o poder letal daquela terrível arma. E numa manhã ensolarada de Alcarost, ele partiu, trajado com sua veste, armado de Amaurëa na mão direita, e de uma longa lança na mão esquerda, além de estar acompanhado de Vórima que insistiu para acompanhar seu mestre, pois, se Lustion vencesse o dragão, ele haveria de ver com seus próprios olhos o triunfo daquela batalha, e se Lustion perecesse, ele pereceria junto, pois seu mestre era tudo que ele tinha de mais precioso agora.

Eles seguiam agora, até a morada de Telepso, onde também habitavam outros dragões muito possivelmente, numa região cercada de diversos perigos, e não muitas léguas distante de Alcarost.
 Por fim, chegaram ao topo de uma colina da região. Ali Lustion parou, e começou a analisar o território. Assim, disse à Vórima:
 - Vai até lá embaixo e anuncie, como meu arauto, que eu cheguei até aqui para desafiar Telepso para um duelo no final da tarde de hoje, aqui mesmo nessa Colina. Pois lá embaixo eu percebo que há um grupo de orcs, ou outros seres igualmente repugnantes, que poderão dar esse recado àquele maldito lagarto. Leve minha espada junto, e deixe-a desembainhada. Assim eles não terão coragem para atacá-lo, pois a fama desta espada a precede. Depois volte aqui e traga-me o que conseguiu.

 Vórima desceu, e após alguns minutos retornou. A batalha estava marcada, e Telepso seria avisado pelos orcs que estavam lá embaixo acampados. Lustion então decidiu sentar atrás da Colina, de modo que ficasse oculto aos olhos daquele acampamento.

 E no final da tarde, eles ouviram os passos de Telepso se aproximando, fazendo com que o chão trepidasse, anunciando a chegada do temível lagarto. Lustion colocou-se então de pé no topo da colina, e sua silhueta ao vento era como uma lembrança dos tempos antigos, sua aura transparecia uma imponência majestosa, e as últimas fagulhas do brilho de Anar que descia no poente batiam em suas costas.  Então Telepso, avistando Lustion, escarneceu:

 - Então veio para entregar-me sua vida facilmente, seu tolo? Pois eu não precisarei fazer nenhum esforço para terminar com sua permanência aqui, mas isso me dará muito prazer. Hoje você irá perecer devido à sua ignorância, e não terá a mesma sorte de antes.
 - Ignorante são suas palavras, lagarto maldito. Só saberemos o resultado dessa batalha após um de nós cair. Mas digo-te, que por subestimar-me, não serei eu a cair. E tua língua haverá de se dobrar após perceber que foi derrotado.

 Telepso já ia retrucar as palavras do noldo, quando uma lança cruzou o ar, com sua ponta prateada buscando o olho do Dragão. Telepso desviou, mas foi atingido no lado de sua boca. E ao mesmo tempo em que Lustion arremessara a lança, ele saltou na direção de Telepso, que após sentir a lança cravar-lhe a carne, teve a visão ofuscada pelo Sol, que não estava mais oculto pela presença de Lustion. Isso fora fruto de sua estratégia, fazendo o dragão enfrentá-lo de frente para a luz do grande astro, e o dragão distinguiu apenas uma sombra voando em sua direção. E Telepso não teve tempo para esboçar reação alguma a não ser usar sua arma mais mortal, a baforada. Mas Lustion, usando seu traje mágico, entrou na profusão de chamas, e saiu do outro lado ileso, com a cabeça do Dragão livre para receber o golpe final. Assim, ele caiu diretamente na cabeça de Telepso, cravando a espada até o cabo entre os olhos do Lagarto.

  Sangue negro jorrou da cabeça de Telepso, e ele se debateu bruscamente, arremessando Lustion para longe. Por fim, ele acabou caindo, e não pode sequer dizer mais nenhuma palavra. Estava morto o Prateado, e aquela colina tornou-se famosa posteriormente, devido a essa batalha, sendo chamada de Amon Celeb. Lustion, recompondo-se da queda que levara, dirigiu-se até onde estava o corpo do dragão, e cuidadosamente retirou sua espada da carne do lagarto.

Mesmo após desferir golpe tão poderoso e penetrar no couro do Dragão, a espada permanecia limpa e intacta. Então Vórima veio saudar seu mestre, espantado pelo mesmo ter derrotado o dragão sem sofrer nenhum ferimento. Mas Lustion permaneceu sério, não parecendo totalmente feliz por ter derrotado o dragão. E Vórima não compreendeu a atitude de seu mestre e (praticamente) pai, e preferiu não comentar mais a respeito.

 Em seu íntimo Lustion sabia que aquela criatura não era senão mais uma vítima da perversão e malícia de Melkor que haveria de perdurar para todo o sempre, e sentiu pena, por não ter outra alternativa senão combater qualquer mal que fosse com todas as suas forças. O mal nunca haveria de ser derrotado totalmente, mas não se podia deixar de lutar para que esse mal não sobrepujasse o bem que ainda existia no mundo. Lustion sentia isso passar por sua cabeça, e muito mais, e não trocou palavra com seu discípulo enquanto voltavam à Alcarost, perdendo-se em seus pensamentos.

 Em Alcarost ele retomou o curso de suas atividades, ensinando seu discípulo e filho, e demais iniciados arcanos, postergando seu conhecimento e sabedoria para as gerações vindouras.

Não são esses todos os fatos que são conhecidos de Lustion, e seus outros feitos e o fim de sua vida em Alcarost serão relatados conforme minha memória me auxiliar, e conforme eu possa criar coragem para lembrar de feitos e fatos ainda mais grandiosos e dolorosos, pois meu coração ainda carrega esses sentimentos, e meus relatos
podem vacilar.

Pois Lustion era um noldo, e como tal estava sujeito aos predizeres que Mandos pronunciara outrora em Aman.

hobbits_bebendo

Jogo de Beber do Senhor dos Anéis

O jogo de beber do Senhor dos Anéis

Em algum momento por volta da vigésima vez que você assistir às versões estendidas da Sociedade do Anel e das Duas Torres, o desejo de se divertir um pouquinho com elas vai aparecer. Estas são as regras oficiais que os fãs devem seguir. Qualquer um que for pego burlando estes regulamentos será forçado a assistir a atrocidade animada de Bakshi de 1978 uma vez por dia pelo resto de suas vidas, ou será forçado a ser usado como diversão por um grupo de Orcs; o culpado poderá escolher a sua punição.

Também é possível jogar este jogo enquanto você assiste ao Retorno do Rei no cinema local, mas você terá que comprar todas as coisas que você precisa no quiosque. Diga ao rapaz atrás do balcão que você quer o Especial da Floresta das Trevas, e use a senha “Figwit é um maricas Élfico”


Toda vez que alguém beber alguma coisa, tome uma dose.
- Se for um Hobbit, tome duas doses.
- Se for o Gimli, tome três doses.
- Se o Gimli arrotar depois, vira a garrafa.

Toda vez que alguém comer alguma coisa, tome uma dose.
- Se for um Hobbit, tome duas doses.
- Se for um Orc comendo entranhas, tome três doses.
- Se for Aragorn comendo o ensopado mucoso da Éowyn, peça uma pizza e diga ao cara no telephone que você quer que seja entregue para “Herdeiro de Isildur, Campo no. 10, Estrada para o Abismo de Helm, Rohan.” Envie a conta da pizza para Elrond.

Toda vez que um Hobbit falar sobre comida, tome uma dose.
- Se o Hobbit estiver reclamando sobre estar com fome, diga, “Ei, existem crianças órquicas nas Montanhas Nebulosas que estão morrendo de fome.”

Toda vez que Frodo disser “Oh, Sam…,” tome uma dose.
- Se parecer que Frodo está prestes a beijar o Sam, bata na primeira pessoa que sugerir que eles podem ser gays.
- Se você desejar que o Frodo estivesse querendo beijar você, comece uma Sociedade de Admiração ao Elijah Wood.
- Se você quer beijar o Sam, mande fazer uma camiseta onde se lê “Admiradora de Hobbits Pervertidos” e use-a para os cultos religiosos mais conservadores que você puder achar.

Toda vez que Aragorn e Boromir tiverem uma discussão, tome uma dose.
- Se parece que eles querem é se atracar, aimeudeus, imagine como isso seria incrivelmente sexy.

Toda vez que alguém parecer estar todo deprimido e angustiado, tome uma dose.
- Se for Frodo, tome duas doses.
- Se for Aragorn, desmaie e sinta um friozinho na barriga.
- Se for Faramir, e ele estiver falando sobre mostrar o seu valor, diga “Isso, baby, mostre esse valor!”

Toda vez que um Cavaleiro Negro aparecer, tome uma dose.
- Se o Cavaleiro Negro gritar como uma garotinha, diga “E Legolas, que não está em lugar algum”
- Se mais de um Cavaleiro Negro aparecer, cante, “Quando você é um Nazgul / É um Nazgul até o fim”

Toda vez que você ver as unhas sujas e roídas de alguém, tome uma dose.
- Se elas fores suas, faça uma manicure.

Toda vez que alguém cantar uma canção, tome uma dose.
- Se for uma canção Élfica, quando ela terminar, diga, “E o Élfico saiu do prédio.”

Toda vez que você puder dizer que a câmera foi montada em um helicóptero, tome uma dose.
- Se for uma daquelas partes bem velozes onde o helicóptero-câmera voa por alguma locação montanhosa remota que te deixe tonto, grite, “Wheeeee!”

Toda vez que alguém desembainhar uma espada, tome uma dose.
- Se for um daqueles longos, duros e pontiagudos símbolos fálicos empunhados por um homem másculo, nobre e bonito, fique pensando se realmente ficou muito quente aqui. Se abane.
- Se for uma daquelas pequenas espadinhas de bebê, pense, “Isso é mais provável.”

Toda vez que o Pippin agir como um idiota, tome uma dose.
- Se ele totalmente colocar a Sociedade em um perigo mortal por causa da sua idiotice, grite “Tool of a fook!” Imagine como iria ficar bem melhor dito pelo próprio Billy Boyd com o seu sotaque de Glasgow.

Toda vez que Legolas estiver fabuloso, tome uma dose.
- Se as suas mechas loiras estiverem parecendo particularmente fabulosas, vá hidratar o seu cabelo. Enxagüe. Repita.

Toda vez que os olhos do Frodo rolarem para dentro da sua cabeça, tome uma dose.
- Se parecer muito dolorido, tente você mesmo fazer igual e fique com dor de cabeça. Aprecie a dedicação de Elijah Wood à sua arte ainda mais.

Toda vez que Gollun escarra um “gollum! gollum!” tome uma dose.
- Se você realmente escarrar alguma coisa tentando imitar o Gollum, isso é nojento.

Toda vez que alguém ou alguma coisa é chamado de “precioso”, tome uma dose.
- Se você começar a chamar os seus DVDs de “preciosos”, tire umas férias.

Toda vez que alguém consultar um mapa, tome uma dose.
- Se parece que o mapa foi tirado da internet, isso é engraçado.

Toda vez que você falar junto com o diálogo, tome uma dose.
- Se você reconhecer o diálogo como sendo literalmente tirado do livro, se odeie por ser um nerd de Tolkien completo.

Toda vez que você ver o Grande Olho, jogue colírio na tela.

Toda vez que Elrond aparecer na tela, diga “Missssterrrr Aragorn…”

Toda vez que alguém falar sobre a erva do Condado, comece a rir descontroladamente e sofra um ataque de desejo por doces e salgadinhos.

Toda vez que alguém andar de cavalo, bata duas metades de uma casca de coco para imitar o barulho dos cascos, como eles faziam em Monty Mython, em Busca do Cálice Sagrado.

Toda vez que alguém começar a falar uma lingual que não seja a Língua Geral, o acuse de ser francês.

Toda vez que alguém usar a palavra “Mordor”, diga, no estilo de Groucho Marx, “Era Moida, pronuciado Moida.”

Toda vez que um Homem, um Anão, e um Elfo estiverem na Terra dos Cavaleiros, faça uma competição da melhor frase de efeito para esse momento. Premie o ganhador com uma viagem de duas semanas para a Nova Zelândia, com todas as despesas pagas.

Toda vez que Peter Jackson fizer uma ponta, caia de joelhos e total adoração e cante, “Salve Pater Jackson! Salve Pete
r Jackson!”

Toda vez que um Orc more, um anjo recebe as suas asas.

Texto Original: The Flick Filosopher

Uma Luz na Escuridão

Sinopse: Os pensamentos de Maehdros durante o seu cativeiro nas Thangorodrin.

Classificação: Livre

Gênero: Drama

Disclaimer: Silmarillion não é meu… e nunca sera meu.. é de Tolkien.

 


 

 

Ele abriu os olhos para um mundo fúnebre. Tudo ao seu redor era destruição. Ele podia sentir o vento acariciar o seu rosto, mas esse mesmo vento não trazia qualquer refrigério… trazia apenas o odor vil das criaturas que Morgoth havia criado e guardado dentro daquelas montanhas amaldiçoadas.

Ele se sentia fraco… seu corpo tremia em conseqüência nos maus tratos aos quais ele havia sido submetido. E a dor era algo que ele jamais imaginou que alguém pudesse suportar.

Mas, no entanto, lá estava ele… dependurado por seu braço direito na parede de um penhasco no meio das Thangorodrin… longe de tudo e de todos que ele amava… sem qualquer esperança de liberdade… apenas desespero… com nada além da expectativa da morte como o seu único alento.

Ele não sabia precisar a quanto tempo já estava lá… anos, séculos, milênios… uma eternidade. Ele não mais ousava olhar para o céu… pois se o fizesse, haveria a chance de, em meio a sua angústia, seus olhos avistarem as estrelas… e isso partiria o seu coração, pois o faria lembrar de tudo que perdera, de toda a beleza que um dia desfrutara, e que ainda estava lá fora, porém muito além do seu alcance.

Foi por isso que no primeiro instante que a aquela suave melodia alcançou os seus ouvidos, ele pensou ser um sonho… um sonho amaldiçoado com o único propósito de escarnecer ainda mais de seu sofrimento e de sua angústia. Ele reuniu a pouca força que ainda lhe restava para tentar afastar a música de seus sentidos, mas ela não desapareceu, muito pelo contrário, tornou-se mais forte.

O seu coração, há tanto já sem esperança, há tanto sem uma razão, foi sendo preenchido de uma súbita expectativa. Havia alguém lá fora procurando por ele… alguém que o amava o bastante a ponto de arriscar-se a entrar neste lugar dantesco para resgatá-lo.

Ele conhecia a canção dos seus tempos de criança… e ele conhecia aquela voz. Ah… como ele conhecia aquela amada voz. Era Fingon.

Ele abriu a boca para chamar por aquele que cantava… para fazê-lo saber onde ele estava preso, mas nenhum som deixou a sua boca ressequida.

Novamente ele tentou chamar por seu amigo, tentou fazer com que qualquer som escapasse da sua garganta, um mísero clamor de esperança após tantos anos de choros e gemidos de dor, mas, por uma segunda vez, somente o silêncio foi a sua voz.

A música então começou a se distanciar, e ele sentiu toda a esperança que há tão pouco havia sido restaurada ao seu coração, ser arrancada de forma tão cruel, que a dor causada em muito sobrepujou toda a tortura que Morgoth o fizera suportar.

Depois de tudo pelo que ele havia passado, depois de todos esses anos de tormento, era assim então que ele morreria? À mercê do escárnio de seus inimigos quando a sua salvação tinha estado tão perto?

Ele orou aos Valar, implorou que lhe dessem forças para vencer a escuridão, para tocar a luz uma vez mais, nem que fosse para vir a perecer nos braços de seu amigo, para sentir uma última vez o toque terno de um dos seus. E, enquanto lágrimas fluíam de seus olhos cerrados, a sua voz finalmente fez-se soar naquela tarde sombria, indo ao encontro da de seu amigo… de seu gwador, naquela antiga, mas tão querida canção.

A voz que saiu foi baixa e rouca… tão fraca que por um momento ele achou que Fingon não seria capaz de ouvi-la. Mas ao abrir os olhos, o que ele presenciou foi a visão mais maravilhosa que ele jamais ousara sonhar testemunhar novamente… um raio de luz puro e límpido quebrando aquela desolação. O seu amigo de pé no topo do penhasco, chamando o seu nome, olhando-o com tanto amor e preocupação que fez com que seu coração quase explodisse de alegria.

A esperança havia-lhe sido enviada na forma de seu amigo mais antigo… e naquele momento, apesar de tudo o que o afligia, Maedhros estava finalmente em paz.

 FIM

A Necessidade de Muitos

Sinopse: Quando Legolas é forçado a tomar uma decisão que poderia determinar o destino da Terra-média, o que ele fará? E quais consequências as suas escolhas terão?

Gênero: Drama / Ação / Aventura

Classificação: 13 anos

Disclaimer: Nós possuímos nada do mundo de Tolkien. Nós só pegamos emprestado de vez em quando. Nós prometemos que, assim que terminarmos, a gente devolve ele exatamente como encontramos… ou quase. Também, todas as músicas/poemas usados nessa estória pertencem a Tolkien, a não se que especificado o contrário.

 


 

Capítulo 1 – Atalho para o Desastre

A colina elevava-se por sobre o rio, com uma campina plana, encharcada pelos raios do sol em ambas as margens, e uma mata densa e sombreada nos seus arredores. Uma ravina estreita espreitava-se por um dos lados, o rio correndo rapidamente entre os dois precipícios. O rio era de um azul-safira brilhante, estreito quando se recurvava para dentro da campina e gradualmente alargando-se até desaparecer de vista pela ravina. As folhas novas da primavera eram verdes e vibrantes em seus galhos enquanto balançavam gentilmente com a brisa. A sua coloração era um forte contraste ao marrom das folhas mortas espalhadas pelo chão, reveladas pela neve do inverno que derretia. O céu estava azul e sem nuvens, o ar fresco e límpido. O sol apenas começara a sua descida para trás do horizonte.

Legolas olhou ao seu redor, deixando-se envolver por toda a beleza do lugar e a sua atmosfera. Ele nunca dantes tomara esse caminho para ir a Valfenda. No entanto, pelo jeito ele já iria chegar ao seu destino vários dias após o pretendido, e ele tinha certeza de que essa estrada cortaria um pouco do tempo de sua jornada. Já eram quase três meses desde que o elfo tinha visto o seu melhor amigo pela última vez, e então o mensageiro chegara à Floresta das Trevas com o convite de Aragorn para a celebração do seu aniversário, e Legolas estava mais do que feliz por poder ir. O aniversário de Aragorn era no dia primeiro de março, e Legolas decidiu chegar uma semana antes para poder passar um tempo extra com o humano antes das festividades começarem. Mas parecia que o destino não viu essa decisão com bons olhos. No dia anterior ao marcado para a sua partida, um pequeno grupo de homens chegou. E como a sorte desejou, eles foram enviados como representantes do Senhor Ceoran da cidade de Vaenyc, logo fora dos limites da Floresta das Trevas. Eles queriam uma audiência com o seu pai, e o Rei Thranduil insistiu que Legolas ficasse para estar também presente. Para ele, parecia que Thranduil gostava muito de lembrá-lo de que ele era um príncipe, e em conseqüência os seus deveres sempre deviam passar por cima dos seus desejos. Legolas detestava esse fato, e freqüentemente ficava frustrado com as pessoas do seu reino por serem um constante indicativo disso. No momento, ele estava cada vez mais frustrado com seu pai. Não houvera qualquer necessidade da sua presença durantes as reuniões com os homens de Vaenyc. Legolas havia expressado seus sentimentos sobre a questão para o Rei Elfo, e se despedira de seu pai com palavras duras. Seus olhos brilharam de raiva momentaneamente com a lembrança de sua partida da Floresta das Trevas.

O seu humor, porém, não podia ser abatido por muito tempo, e enquanto o céu flamejava com róseas, laranjas, vermelhos e ocre profundo, e o sol poente delineava as nuvens passantes com dourado, Legolas decidiu que já era hora de montar o acampamento para a noite. Ele manejou seu cavalo até uma área da planície que parecia ideal para armar o acampamento. Ele deslizou graciosamente do elegante animal e começou a descarregar o seu equipamento de sua garupa, cantando para si mesmo o tempo todo.

Adeus nós damos ao conforto e ao lar
Pode a chuva cair e o ventos soprar
Devemos partir quando a aurora surgir
Florestas e montanhas atravessar
Para Valfenda, onde vivem os Eldar
Em clareiras protegidas pela névoa…

A sua voz melodiosa soou pela clareira, e lentamente desapareceu ao final da canção. Quando tudo estava finalmente preparado para a noite, o fogo emitindo um brilho morno e confortante, Legolas caminhou até o seu cavalo. Acariciando gentilmente e carinhosamente a crina do animal, o elfo sussurrou suavemente, "Quel esta, Brethil, mellon nin. Lye caela anlema tul're, voronwer."

//Descanse bem, Brethil, meu amigo. Nós temos um longa jornada amanhã, ó fiel.//

Deixando a sua mão repousar no pescoço do cavalo por um breve momento, ele virou-se e caminhou de volta ao seu acampamento. Após fazer uma refeição leve e colocar um último galho seco no fogo para a noite, Legolas estava para se deitar no seu colchonete quando uma sensação de perigo se apoderou dele. Seu corpo tornou-se tenso e ele ficou incrivelmente imóvel, seus sentidos élficos totalmente alertas. Ele praguejou a si mesmo silenciosamente por ter deixado o seu arco e aljava com as sua adagas do outro lado da fogueira.

De repente, seus ouvidos aguçados perceberam o som da corda de um arco sendo solta, e ele rapidamente girou e esquivou-se para fora do caminho, a flecha não o acertando por pouco. A sorte, no entanto, não estava do seu lado, e uma segunda flecha foi atirada frações de segundo após a primeira. A mira desta foi certeira, e a flecha penetrou profundamente o ombro direito do elfo.

Legolas gritou, mais pela surpresa que pela dor, cambaleando para trás. Apesar de não ter sido longa, essa distração momentânea foi tudo que o seu agressor precisava. Legolas gritou novamente, desta vez por uma pancada forte na sua cabeça. Ele caiu ao chão com um barulho alto enquanto os seus sentidos o deixaram, e ele mergulhou na escuridão.


Ele observou a figura solitária atentamente enquanto ela cavalgava mais pra perto do seu território. Uma onda de esperança e empolgação passou pelo seu corpo, fazendo o seu coração bater mais rápido. Ele não esperava que o elfo pegasse esta rota mas a sorte parecia estar do seu lado neste dia. Por muitos séculos, ele havia planejado e esperado pelo momento e o lugar perfeito para por o seu plano em ação, mas as circunstâncias sempre o impediram de fazê-lo. Eles sempre ou viajavam aos pares quando se aventuravam fora das suas rotas normais ou a rota era muito longe do seu covil. Mas hoje tudo estava perfeito. Finalmente, o dia havia chegado para ele retomar o que era originalmente seu.

Os cantos de sua boca contorceram-se em um sorriso perverso e com o total silêncio de um elfo, ele cruzou o caminho por trás do viajante solitário e, movendo-se para mais perto do seu alvo, escondeu-se por trás de um grande carvalho. Uma flecha já retesada e apontada em seu arco. O elfo ficou tenso, pressentindo o perigo e ele sabia que esta seria a sua única chance mesmo percebendo que ele não tinha um alvo cl
aro. Ele deixou a flecha voar e enquanto a primeira seta deixou o seu arco, uma segunda já estava armada e pronta. O elfo conseguiu esquivar-se do projétil que se aproximava, mas, felizmente, os seus movimentos o trouxeram a uma visão mais limpa, fazendo dele um alvo fácil. A sua segunda flecha acertou o elfo no ombro, o impacto quase o remetendo ao chão. Enquanto o elfo cambaleou e tentou restabelecer o seu equilíbrio, ele foi até a sua vítima em um instante, batendo o punho de sua faca ao lado de sua cabeça. Um grito de triunfo partiu de seus lábios, enquanto ele assistia à queda do elfo ao chão.

 


{mospagebreak}

Capítulo 2 – Estranhos no Escuro

Legolas foi trazido de volta à consciência por uma dor aguda. Seus olhos abriram, ajustando-se lentamente à penumbra que o cercava. O lugar era escuro e úmido. Sons de água pingando podiam ser ouvidos a certa distância. Enquanto os seus sentidos voltavam ao seu devido foco, ele percebeu que estava preso a superfície rochosa de uma caverna, suas mãos agrilhoadas na parede logo acima de sua cabeça com os seus pés mal tocando o chão. A dormência dolorida nos seus dedos e braços indicava que ele estava naquela posição há algum tempo. Um pequeno fio de sangue escorria pela sua bochecha direita, vindo do corte profundo na sua têmpora, causado pelo baque que o havia deixado inconsciente.

Uma luz fraca emanava de uma tocha no canto distante da sua prisão, tremulando perigosamente perto de se extinguir pela brisa fria que entrava no lugar por um túnel escuro. Uma figura encapuzada ficou de pé à sua frente, olhos vermelhos brilhando como fogo por detrás da escuridão do seu manto. A figura mais uma vez mexeu na flecha que ainda estava incrustada no ombro do elfo, provocando uma onda de dor lancinante espalhar-se pelo seu ombro, fazendo sair um gemido do ser ferido. Um sorriso horrendo formou-se nos lábios da criatura.

"Ah… finalmente acordado”, disse a figura escura enquanto se movia para mais perto de Legolas. “Bem vindo ao meu humilde lar”, ele acrescentou. “Eu espero que você aprecie a sua estada”.

A voz causou um calafrio descer pela espinha de Legolas, enquanto o par de olhos vermelhos observava atentamente os seus próprios olhos azuis. O seu coração batia forte dentro do seu peito e ele engoliu seco tentando ignorar o medo que ameaçava tomar conta de si. “Quem é você?! E o que quer de mim?!” Legolas exigiu com força para tentar encobrir o pequeno tremor na sua voz enquanto lutava contra a corrente que o mantinha prisioneiro, sofrendo com a dor provocada pelo metal que cortava fundo a sua já machucada pele.

"Eu sou Delund”, a criatura respondeu vagarosamente, aproximando-se do elfo, o seu rosto quase tocando o de seu prisioneiro. "E eu quero o Vilya”.O odor horrendo do seu bafo provocou uma careta no elfo, e ele foi forçado a virar o seu rosto para longe de seu algoz.

"Então eu não tenho qualquer utilidade a você. Eu não sei onde o Vilya está”, Legolas respondeu, esperando que a criatura de alguma forma acreditasse nas suas mentiras.

A gargalhada de Delund ecoou pela grande caverna. “Não tente me enganar, Legolas Verdefolha, filho de Thranduil. Eu sei quem você é, pois tenho observado os acontecimentos em Valfenda por muito tempo. Seria melhor se aquele que tivesse adentrado o meu território fosse um dos filhos de Elrond, mas você será suficiente, pois já esperei por tempo demais”.

"Lorde Elrond não abrirá mão do Vilya por minha causa!" o príncipe esbravejou, soltando um grito quando a criatura o acertou no rosto com a costa de sua mão, batendo a sua cabeça na parede da caverna. Pontos brilhantes dançaram perante os seus olhos e ele precisou de toda sua força para não desmaiar. Ele fechou os olhos com força por causa da dor e engoliu a seco quando uma súbita náusea tomou conta de si.

"Elrond é um fraco! Ele não merece ser o portador do Vilya. Gil-Galad foi um tolo em passar o anel a ele! Eu deveria ser o portador e eu SEREI! E você, elfo”, Delund sorriu maliciosamente, "você será a minha chave”.

"Eu prefiro morrer a ver o anel cair nas suas mãos malignas!" Legolas gritou, em seguida urrando de dor quando Delund agarrou a flecha e a arrancou de seu ombro. Um sorriso sinistro apareceu em seu rosto enquanto ele lambeu o sangue vermelho da ponta da flecha. Um calafrio passou pelou corpo do príncipe, que torceu o rosto ao sentir o sangue morno fluindo do ferimento recém-aberto  pela lateral do seu corpo e pela barriga. Delund olhou com desejo para o elfo sangrando e lambeu os lábios, mas teve que reprimir suas vontades, pois tinha coisas mais importantes para fazer. Ele moveu-se em direção da tocha, e curvou-se para pegar uma caixa de madeira que estava logo abaixo. Colocando-a por sobre uma mesa de pedra a alguns metros de distância, ele abriu a tampa, expondo uma longa faca.

"Minha companheira fiel”, Delund traçou a lâmina cuidadosamente com a ponta do seu dedo indicador. "A exterminadora de muitos fracos". Ele ergueu a lâmina para fora da caixa com cuidado e removeu um pequeno frasco que estava no canto interno do contêiner de madeira. Seus dedos trabalharam rápida mas cuidadosamente para abrir o frasco, sem nunca se encostarem ao líquido que ele continha, e espalhou este líquido na lâmina. "Anehpfos, um antigo veneno conhecido por poucos, e que causa grande dor às suas vítimas”.Delund trouxe a lâmina para perto de Legolas e virou a lâmina a centímetros do seu rosto, desfrutando o seu óbvio desespero. De repente, com um movimento do seu pulso, ele abaixou a lâmina, cortando através do peito de Legolas. O elfo engoliu um grito e apertou os olhos quando espasmos de dor tomaram conta de seu corpo. Uma sensação de queimação radiava do seu peito para o resto do corpo enquanto o veneno encontrava o seu caminho para a corrente sangüínea, não deixando qualquer resquício na horrível e profunda ferida. Ele ficou aliviado quando a dor não piorou e permaneceu em um nível ainda tolerável.

"Não fique não aliviado, elfo”, Delund chiou, "A dor aumentará a cada ataque até que você seja consumido por ela. A cada cinco dias, pelo resto da sua vida patética, você sofrerá e irá morrer uma morte horrenda ao final de cem dias… a não ser que você entregue o Vilya para mim”.Uma risada cruel saiu de sua garganta, a voz ecoando pelas paredes da caverna escura.

"Você não vai conseguir!" o jovem elfo gritou com raiva enquanto Delund se aproximou para libertar as correntes que o mantinha de pé contra a parede. Legolas caiu ao chão quando o suporte foi removido, suas pernas falhando em suportar o seu peso depois de tantas horas estando suspenso. Uma dor lancinante apoderou-se de seus braços e mãos quando o sangue voltou a correr pelos membros dormentes e ele gemeu suavemente. Sua reaç&atil
de;o involuntária arrancou um sorriso de satisfação de Delund.

A criatura agarrou a frente da túnica de Legolas e o ergueu com rudeza, atirando-o para dentro do longo túnel que levava à saída da caverna. O elfo tropeçou e caiu algumas vezes durante a jornada o que o fez receber inúmeros chutes brutais no seu peito, machucando suas costelas e agravando ainda mais os seus ferimentos. Levou apenas alguns minutos para que eles alcançassem a entrada da caverna, mas, para Legolas, pareceu uma eternidade. Delund empurrou o príncipe para fora do seu covil em direção da noite escura e impiedosa.

"Vá. E leve a mensagem a Elrond”, ele disse com frieza antes de virar-se e voltar para as sombras.

Continua…

{mospagebreak}

Capítulo 3 – Talvez Seja Melhor Assim

Uma lufada de vento gelado varreu a floresta e um tremor percorreu a figura magra do elfo. Ele sentiu como se o vento o tivesse atravessado. Entre os seus ferimentos e o veneno que estava provocando um caos dentro de seu corpo, ele guardava desesperadamente a esperança de conseguir terminar o caminho até Valfenda antes que o seu corpo falhasse. Envolvendo os braços de forma apertada ao redor de seu peito, ele cambaleou adiante, e tão concentrado estava em conseguir colocar um pé em frente ao outro, que ele sequer percebeu que os ferimentos do seu ombro e peito ainda sangravam abundantemente. O veneno interferira com a habilidade natural de cura do elfo.

Horas passaram-se desde que ele iniciara a jornada. O elfo, normalmente confiante, começou a tropeçar com mais frequência e estava no brinque de um colapso. A sua determinação se esvaindo a cada passo enquanto o seu corpo gritava para que ele parasse. A dor de cabeça crescente e a visão que se turvava tornavam ainda mais difícil que ele se concentrasse na sua corrente missão. Valfenda estava a cerca de uma hora, mas, no seu estado enfraquecido, esta distância parecia uma eternidade. Tão perto, e ao mesmo tempo tão longe. Ele ponderou se não seria melhor simplesmente deitar e permitir que o destino tomasse o seu rumo ao invés de ter que sofrer o que Delund havia prometido. Lorde Elrond não podia saber dessa ameaça. O que significava que não havia mais ninguém a quem ele podia pedir ajuda. Andando por sobre uma grama mais alta, Legolas arrastou o seu corpo exausto na direção de uma grande árvore e deixou-se ir ao chão. Encostando-se na árvore, ele fechou os olhos em pura exaustão e suspirou com tristeza. Talvez fosse melhor assim.


A cabeça de Elrohir levantou-se rapidamente ao ouvir o som e ele ficou de pé, seus olhos élficos estudando a área à sua direita. “Estel, acorde.” Ele chamou Aragorn suavemente.

"Hmm?" Aragorn se moveu, piscando os olhos para tentar se livrar do sono e buscando determinar se ele estava sonhando ou se alguém estava realmente tentando despertá-lo. Ele se ergueu, apoiando-se em um cotovelo quando Elrohir sacudiu-lhe levemente
o ombro com o pé, seus olhos nunca deixando a área de onde o som havia vindo.

Mais cedo naquele dia, Aragorn e Elrohir tinham decidido caçar um pouco para repor o estoque de comida antes da chegada de Legolas a Valfenda para a celebração do aniversário do guardião. O gêmeo mais velho se voluntariou para ficar para trás e organizar as preparações para o dito evento. O tempo estava fresco e agradável, um dia perfeito para uma caçada, apesar de eles saberem que havia o risco de a temperatura cair ao anoitecer. Elladan convencera o seu irmão humano a empacotar um manto extra no caso do tempo dar uma virada para o pior, e depois de muita persuasão, que no final pareciam mais ameaças, Aragorn finalmente concordou relutantemente. Ele odiava quando seus irmãos davam uma de super-protetores.

A cavalgada até a floresta foi bastante animada, a discussão anterior rapidamente esquecida. Os dois irmãos implicavam um com o outro incansavelmente, enquanto dirigiam-se mais para dentro da floresta, mas, desde então, Elrohir já tinha começado a agir de forma estranha, afirmando que estava ouvindo coisas que não existiam.

“Você ouviu isso?” Elrohir perguntou, a sua voz afastando Aragorn do confortável mundo de sonhos em que ele estava.

Ainda grogue do sono, o guardião olhou o seu irmão com curiosidade. “Ouviu o que?” ele perguntou por entre bocejos. Essa era a quinta vez que o gêmeo afirmava ter ouvido alguma coisa aquela noite e ele começou a pensar no que poderia ter feito o seu irmão ficar tão sobressaltado. No começo, Aragorn ficou um pouco desconcertado, quando Elrohir insistiu que tinha ouvido alguma coisa. Porém, depois do terceiro alarme falso, ele pensou que o elfo tinha finalmente ficado louco. O som de um graveto quebrando trouxe Aragorn aos seus pés em um instante, a sua mão esquerda agarrando o seu arco com força, e a mão direita instintivamente buscando uma flecha das suas costas e encontrando nada se não ar. Aragorn praguejou baixinho e, apesar da seriedade da situação, Elrohir sorriu em face da reação nervosa do irmão. Aragorn então levou sua mão para a lateral do seu saco de dormir, erguendo a aljava, e a prendendo seguramente às suas costas. Ele inclinou a cabeça na direção do som e ouviu atentamente por alguns intantes mas o som não se repetiu. Elrohir estava feliz que o seu irmão tinha ouvido dessa vez pois ele estava começando a achar que a sua própria imaginação tinha tomado conta dele. Ou então ele estava ficando paranóico. Passar muito tempo com um guardião que tinha afinidade para encontrar problema consegue deixar um nervoso.

Acenando a cabeça em direção a sua direita. Elrohir mocionou silenciosamente para Aragorn segui-lo. A noite estava escura e Aragorn mal podia enxergar 1 metro à sua frente. Ele tremeu e imaginou quem ou o que iria se aventurar na floresta nesse frio. Orcs não seriam vistos tão próximos a Valfenda e todas as outras criaturas sãs estariam se escondendo nos seus respectivos abrigos. Puxando o seu manto por sobre os ombros e o amarrando um pouco mais apertado ao seu redor, ele considerou usar o segundo manto mas teve que abandonar esse pensamento quando viu Elrohir se afastando do acampamento para dentro das sombras. Tendo que depender somente da visão aguçada do seu irmão élfico para guiar o caminho, o guardião seguiu os seus passos de perto, pronto para atirar em qualquer coisa que representasse ameaça a eles.

Elrohir parou abruptamente causando Aragorn a bater de cabeça nele, quase derrubando o elfo ao chão. Após se equilibrarem novamente, o gêmeo apontou para uma figura no chão, com abandono encostada contra o tronco da árvore, sua cabeça caída para o lado, como se morta. Aragorn apertou os olhos, esperando ter uma visão melhor da criatura desafortunada, mas os seus olhos humanos não eram feitos para ver no escuro.

Elrohir quase se engasgou quando os seus olhos reconheceram a identidade da figura. "Oh V
alar! É o Legolas!" Todos eles sabiam que Legolas deveria chegar a Valfenda por estes dias e até pensaram que poderiam encontrá-lo durante a sua pequena caçada. Nunca eles esperaram encontrar o príncipe nestas circunstâncias.

Continua…

Valinor – Terra Imperfeita

 

Autor: Marcelo de Freitas Spinola

 

 

Das altas torres da cidade de Tirion, os noldor observavam com alegria, a enorme multidão que passava aos pés do monte Túna. Milhares de atani, naugrins e outros povos da Terra-média percorriam a estrada que atravessava a região que um dia fora chamada de Calacirya. À leste, era possível avistar diversas embarcações trazendo um número ainda maior de visitantes, que eram recebidos pelo belíssimo canto dos teleri. E a oeste já se via uma enorme agitação ao redor de Laurelin, que junto com Telperion, era a fonte de luz de toda Arda. Era tempo de festa em Valinor.

 

Mas nem todos estavam comemorando. Alheio a agitação que tomava conta do reino sagrado, o filho mais velho de Finwë caminhava pelo jardim de sua casa, observando a jóia em sua mão. Fëanor contemplava a luz da última Silmaril, enquanto sua mente vagava entre as lembranças dos dias antigos. Mesmo assim, ele não deixou de notar o pequeno intruso, que se esgueirava entre as árvores de seu jardim.

 

– A festa do ano novo em Valinor é uma oportunidade única para os de sua raça, criança. – disse Fëanor, escondendo rapidamente a Silmaril no bolso de sua roupa. – Essa é uma das poucas épocas em que é permitido que os Atani pisem no solo sagrado de Valinor. São poucos os mortais que tem a chance de participar deste evento e ainda assim você prefere perder tempo invadindo a minha casa?

 

– Perdoe-me senhor, eu não tive a intenção… – disse o jovem, que saiu de trás de uma pequena árvore, a apenas alguns metros de Fëanor. Era uma criança da raça dos homens.

– O que você quer aqui? Visitas a minha casa não estão incluídas nas festividades. – disse Fëanor num tom severo.

 

– Mais um vez eu peço seu perdão meu senhor, pois o que me trouxe aqui foi um poder além de minha vontade. – disse o jovem, que encarava o olhar frio e severo de Fëanor. – Assim que coloquei os meus pés na praia desta terra maravilhosa, um brilho distante, vindo da cidade de Tirion, atraiu mais a minha atenção do que a própria luz das Árvores. Enquanto eu e minha família caminhávamos em direção a Tirion, eu me sentia atraído por aquela luz magnífica e ficava me indagando que tipo de artefato poderia produzir um brilho tão intenso. O poder que ela exercia sobre mim era tanto, que eu acabei me separando de meu grupo e comecei a vagar sozinho pela cidade. A luz me guiava pelas ruas de Tirion e, sem que eu percebesse, ela me trouxe até o jardim de sua casa.

 

Fëanor já sabia aonde aquela história iria acabar. Mas preferiu deixar que ele a terminasse, enquanto segurava o riso e tentava manter uma expressão severa. Foi quando ele se deu conta de que fazia tempo que ele não tinha vontade de rir.

 

– Muitas história são contadas na Terra-média sobre as Silmarils e seu grande criador, o mestre Fëanor. – continuou o rapaz. – E agora eu percebo que a luz que me trouxe até aqui, só poderia ser a luz da última Silmaril: a jóia cujas irmãs foram sacrificadas para que as Árvores de Valinor voltassem a brilhar. O que me leva a supor que estou diante do grande Fëanor. Sendo assim, sou obrigado a pedir o seu perdão uma terceira vez, pois me dei conta de que ainda não lhe cumprimentei da forma que merece. – o jovem fez uma grande reverência diante de Fëanor, permanecendo por algum tempo de cabeça baixa. O jovem ia falar novamente quando foi interrompido por Fëanor.

 

- Para alguém de vida tão curta, você fala demais meu jovem. Você desperdiça muito tempo com histórias e elogios quando deveria ir direto ao assunto. Creio que, depois de ter sido enfeitiçado pelo poder da Silmaril e de ter procurado tanto por ela, nada mais justo que você a veja, não é mesmo? – o rapaz ameaçou falar alguma coisa mas foi interrompido novamente.

 

– Entretanto, estou curioso com uma coisa. – continuou Fëanor. – Como você pode ter visto a Silmaril das praias de Aman, se ela estava trancada dentro de minha casa? Fazem apenas quinze minutos que eu a trouxe para fora. Será que a raça dos homens é assim tão formidável que consegue enxergar até mesmo através das paredes?

 

- Não meu senhor, é que… – disse o jovem, que tentava encontrar as palavras certas, enquanto tentava esconder a vergonha.

- A verdade é o melhor coisa a se falar num momento como esse. – disse Fëanor. – Você já veio a Valinor com a intenção de ver a Silmaril. Provavelmente, você até já sabia onde eu morava, não estou certo?

- Sim, senhor – disse o jovem, que agora já não encarava o elfo, preferindo manter a cabeça baixa.

 

- Mas agora estou curioso. Como já disse, essa é uma oportunidade única para os mortais. Afinal, os anos em Valinor, apesar de agora serem mais curtos do que eram na primeira Era das Árvores, ainda são mais longos do que a vida de qualquer raça mortal da Terra-média. A festa do ano novo em Valinor é um evento que poucos tem o privilégio de participar. E mesmo com tantas coisas maravilhosas a se ver, ainda assim, você veio para cá com a firme intenção de ver a Silmaril. Por quê?

 

- Eu prometi para alguém senhor. – disse o jovem. – Na verdade, foi quase uma aposta. Eu apostei que quando viesse a Valinor, eu conseguiria ver a luz da última Silmaril.

- É mesmo? E para quem você fez tal promessa? – perguntou o noldor.

- Para a bela filha do grande rei de Doriath. – respondeu o jovem.

 

- É mesmo? – Fëanor não conseguia mais esconder o sorriso. – E que tipo de prova você pretende levar para ela, caso consiga colocar os olhos na Silmaril? Por acaso pretende levar a própria jóia, roubando-a de mim?

- Não, não meu senhor. Eu não ousaria fazer isso nem em pensamento. Na verdade, ela não me pediu prova nenhuma. Ela me disse que saberia, simplesmente olhando em meus olhos.

 

- Muito bem então. Estou quase propenso a lhe dar um privilégio que poucos mortais tiveram. Mas antes, eu quero que você me prometa que não contará a ninguém que a viu. Nem mesmo a jovem Lúthien. Afinal, se ela disse que saberia apenas olhando em seus olhos, não é necessário que você conte.

- Sim senhor. Em nome da casa de Bëor, eu juro. – respondeu o jovem, com uma expressão séria.

 

- Então aqui está. – E Fëanor a tirou do bolso e a colocou na palma da mão do menino. Os olhos dele se arregalaram, incrédulos, pois jamais imaginara que a jóia pudesse ser assim tão linda. Fëanor também estava maravilhado, pois agora entendia o que a filha de Thingol queria dizer. Pois os olhos do jovem refletiam de tal forma a luz da Silmaril, que parecia que eles tinham luz própria. Para Fëanor, parecia que as três Silmarils estavam unidas novamente.

 

O jovem ficou parado, em silêncio, observando a Silmaril em sua mão por algum tempo. Foi quando ele percebeu o olhar melancólico de Fëanor para ele.

- Foi difícil não foi? – disse o jovem, enquanto devolvia a jóia para seu dono. – Foi difícil ter que desfazer as outras duas, quando a hora chegou?

 

- Mais do você pode imaginar. – respondeu Fëanor. – Pois naquela época, eu já havia perdido muito, e eu não queria me desfazer da última coisa que ainda me era cara.

Os dois permaneceram sem dizer nada por um longo tempo.

- Obrigado! – disse o jovem, quebrando o silêncio. – Por ter tomado a decisão certa.

 

Fëanor olhou para ele com um sorriso, mas não conseguiu responder.

- Agora já é hora de você ir. Acho que seus pais devem estar procurando por você neste momento.

- Sim senhor! Muito obrigado, senhor. – disse o jovem, enquanto fazia uma longa reverência. E quando ele já estava quase indo embora, o elfo o chamou mais uma vez.

- Em tempo dificeis, seu nome poderia ter sido famoso, jovem Beren, filho de Barahir.

 

O rapaz parou, e com uma expressão de espanto, tentou dizer alguma coisa. Sem conseguir dizer nada, o jovem apenas sorriu para o elfo, e saiu correndo.

 

Fëanor ainda ficou parado por um tempo, segurando a Silmaril em sua mão. Então ele se dirigiu para uma sacada, de onde ele conseguia avistar a multidão, que ainda chegava a Valinor. E ficou pensando nas palavras do jovem Beren.

 

E Fëanor se lembrou daquele dia, no Círculo da Lei, quando decidiu abrir mão das Silmarils, para que as Árvores de Valinor pudessem ser salvas do ataque traiçoeiro de Morgoth e Ungoliant.

Por causa de sua decisão, quando chegou a notícia da morte de Finwë e do saque de Formenos, todo o poder dos Valar e dos Elfos das três casas se uniram a ele. Um exército, cuja marcha fazia a terra tremer, caçou Melkor, que mal conseguira chegar a Angband. Mas mesmo em sua fortaleza, e com o apoio de suas criaturas, ele nada conseguiu fazer contra o poder unificado de Valinor. Melkor foi derrotado, de maneira rápida e definitiva. Com as Silmarils recuperadas, as Árvores de Valinor voltaram a brilhar, pois duas jóias foram sacrificadas para que duas árvores voltassem a viver. E uma vez que o mal havia sido totalmente extinto e Valinor não corria mais riscos, os Valar puderam descer as muralhas das Pelóri, permitindo que a luz das Árvores iluminassem toda Arda. Sem as mentiras de Morgoth, a raça dos homens aceitou a sua mortalidade como uma dádiva dada por Ilúvatar, e passaram a viver em total harmonia. Os reinos de Elfos, Homens e Anões foram prósperos em toda parte.

 

E Valinor, mesmo que ainda permaneça como uma terra proibida para os mortais, se tornou um santuário para todas as raças, que se reunem em épocas de festa para celebrar a obra de Ilúvatar. Valinor era a terra perfeita com que os Valar tanto sonharam.

- A decisão certa. – disse para si mesmo. – Sim, acho que você tem razão.

 

Fëanor sorriu e olhou em direção a Laurelin. Ela já começava a diminuir para dar lugar a luz de Telperion. Depois ele olhou para a última Silmaril. E então, guardando-a em segurança dentro de sua casa, Fëanor saiu para se juntar a festa. Foi quando ele sentiu uma dor aguda em seu peito.

Ele sentiu um gosto estranho e viu que um líquido vermelho descia pelo canto de sua boca. Demorou para ele perceber que era seu próprio sangue, que subia pela sua garganta.

 

Fëanor olhou em volta, e se assustou ao ver a terra árida e os céus escuros de Dor Daedeloth. Foi então que a dor dos ferimentos causados por Gothmog o trouxeram de volta a realidade. Percebeu que seu corpo mutilado estava sendo carregado pelo seus filhos. Sentindo que a morte se aproximava, pediu-lhes que parassem. E nas encostas das Ered Wethrin, enquanto olhava para os cumes das Thangorodrim, Fëanor teve uma segunda visão. E ele viu toda a tristeza e destruição que sua decisão ainda iria causar. Pois se antes ele havia visto a Valinor que poderia ter sido, agora ele via a Valinor que um dia será: uma terra de deuses omissos, um asilo para elfos cansados e arrependidos, um objeto de cobiça para os homens.

 

E seu ódio por Morgoth ardia com uma intensidade ainda maior dentro dele, pois foram suas mentiras que influenciaram sua decisão naquele dia, quando fora convocado ao Círculo da Lei. E Fëanor amaldiçoou o nome de Morgoth três vezes e mesmo sabendo de toda a desgraça que ainda recairia sobre seus filhos, os incumbiu de cumprir a sua vingança. Então seu espiríto partiu e seu corpo, transformado em cinzas, se dissipou como fumaça.

Encantado

Sinopse: escrito para o PROMPT #10 Magia. A primeira vez que Estel visita a Floresta das Trevas com Legolas e os seus irmãos, ele encontra mais do que esperava.
Disclaimer: Não possuo nenhum deles, foi escrito somente por diversão.
Classificação: Livre
Disclaimer: Não possuo nenhum deles, foi escrito por diversão.
Betas: Geris (Gramática e Ortografia), Michelle (Compreensão).
Linha de tempo: III 2948 (Estel 17 anos de idade)
Texto Original: Enchanted
 
 

 
 
 
Estel olhou ao seu redor com um certo nervosismo. Ele nunca tinha visto Legolas tão inquieto, nem quando em face de batalhas. E pior, os membros da escolta e os gêmeos estavam quase tão tensos quanto ele. Ele quase morreu do coração quando Legolas abaixou-se ao seu lado após ter-se aproximado a passos silenciosos.

“Sîdh, mellon nín (Paz, meu amigo). Relaxe. Nós não vamos permitir que nada aconteça com você.”

“Eu sei. Não é isso que está me deixando nervoso.”

“Então o que é?” Legolas parecia estar genuinamente perplexo e Estel percebeu que ele não havia se dado conta do quão tenso ele parecia estar.

“Eu nunca vi você, ou eles” Estel fez menção em direção à escolta do príncipe, “desse jeito.”

Legolas deu um pequeno sorriso, “Você nunca esteve na Floresta das Trevas antes.”

“Eu sei disso…” Estel retrucou frustrado.

Legolas abriu a boca, mas qualquer coisa que ele poderia ter dito foi cortada quando o batedor saltou silenciosamente de uma das árvores.

“Um local apropriado para o acampamento foi localizado.”

Legolas suspirou, e depois levantou.

“Vamos indo,” ele disse suavemente, inclinando sua cabeça em direção a Estel que também se levantou.

Em silêncio, eles seguiram o batedor de volta à área protegida nas margens de um rio de correnteza rápida.

Estel mudou de posição no seu lugar desconfortavelmente por alguns instantes antes de decidir que ele precisava fazer alguma coisa para ajudar a organizar o acampamento para a noite.

“Eu irei buscar um pouco de água,” ele disse já se encaminhando em direção ao rio.

“Estel! Não!” O alarme na voz de Legolas fez com que ele congelasse no lugar e dois dos batedores bloquearam o seu caminho.

Com dois passos largos, o príncipe estava rapidamente ao seu lado. “Goheno nín (perdoe-me), eu deveria tê-lo avisado. O rio é encantado; colocaria você em um estado de sono profundo.”

Estel ficou boquiaberto e passaram-se alguns instantes antes que ele pudesse pensar em uma resposta apropriada.

“E como ele ficou encantando?”

Legolas sorriu e olhou para a água escura. “Ninguém sabe ao certo, mas ele, há muito, tem sido uma defesa para este reino.”

“Defesa contra o que?”

“Inimigos do nosso reino, forças da sombra. E, mais recentemente, as aranhas,” Legolas respondeu.

“Aranhas?”

“Elas têm tentado invadir esta floresta já por muitos séculos,” Legolas respondeu, seus olhos virando-se para examinar as árvores sombrias ao seu redor.

“Como aquelas coisinhas que se escondem nos cantos podem ameaçar todo um reino?” Estel perguntou um pouco confuso.

Legolas olhou para ele sem compreender, até que o elfo loiro percebesse que o adolescente, na realidade, não sabia. Enquanto ele tentava pensar em uma forma de explicar, ambos tiveram sua atenção capturada por um característico som de uma flecha sendo lançada.

Um corpo negro caiu de dentre os galhos fazendo todos os elfos ficarem tensos e examinarem as árvores adjacentes.

Finalmente, um dos integrantes da escolta anunciou suavemente, “Ela estava só.”

Legolas voltou-se a Estel, e o encontrou como o olhar fixo no corpo enrolado da aranha no chão. Gentilmente ele afastou o rapaz do cadáver e o guiou até a fogueira.

 

FIM 

Se Eu Pudesse Mudar

Sinopse: “O seu amor era verdadeiro, mas a guerra os separou. O adeus de Andreth e Aegnor.”
Classificação: Livre
Gênero: Drama, Romance
Disclaimer: Eu não possuo nada relacionado a Tolkien… 
Palavras: 511
Texto Original: If I Could Change
 
 

 
 
 
Aegnor estava com medo.

No curso da sua longa vida, ele havia vivenciado o suficiente para conseguir controlar seus medos, e transformá-los em uma arma poderosa para ser usada contra a sombra.

Ele havia visto os horrores que Ungoliant e Melkor infligiram sobre a Terra Sagrada… ele havia atravessado o Helcaraxë e lutado inúmeras batalhas. O cerco a Angband já durava por mais de 300 anos, mas em seu íntimo ele sabia que esta batalha estava chegando ao fim… assim como o seu tempo na Terra-média.

Ele não tinha medo de morrer. Ele vivera por tempo suficiente nas sombras de Angband para estar pronto para isso. O que ele temia era dizer adeus para as coisas que ele jamais veria de novo… para aquela a quem ele jamais veria de novo.

Aegnor a encontrou no primeiro lugar que procurou… a antiga biblioteca.

“Andreth”, ele sussurrou, sentindo o seu coração partir por saber que esta era a última vez que seus olhos a veriam. Ela, que entre os horrores da guerra o fez ver beleza, e que com as suas palavras gentis e sabedoria além de sua tenra idade, o fez entregar o seu coração nas suas mãos cuidadosas. E ele sabia que ela retribuía o seu amor, e que, se ele pedisse, ela se entregaria a ele pelo resto de sua vida mortal, e oh, como ele desejava passar esses anos preciosos ao seu lado. Mas, não… ele não podia. Ele não podia oferecer a ela um coração que estava fadado a parar de bater brevemente.

E lá ele ficou, enraizado no mesmo lugar, observando Andreth, não querendo abrir mão… não agora. Mas como se percebendo a sua presença, Andreth olhou para cima e, ao vê-lo, um dos sorrisos mais brilhantes que ele jamais vira iluminou o seu rosto, enquanto a jovem donzela se encaminhou para encontrá-lo.

“Meu senhor”, ela disse, com uma graciosa reverência.

Aegnor olhou dentro dos seus olhos e sentiu-se tomado pelo amor e carinho que viu naqueles lagos azuis, e naquele momento ele soube.

Ele soube que estava fadado a amá-la e sofrer a sua ausência por toda eternidade, e que não havia nada que ele pudesse fazer para mudar isso, pois o destino dos Edain não é o mesmo dos Eldar.

“Meu senhor?” ela perguntou, um pouco insegura agora, pois o elfo ainda estava por mover-se ou proferir qualquer palavra. Ele tentou dizer algo, mas as palavras recusavam-se a sair. Tudo o que ele queria era abraçá-la forte e nunca mais soltar, pois talvez assim os Valar não a levariam embora para além dos círculos do mundo quando chegasse a hora.

“Aegnor?” ela perguntou, preocupação já evidente na sua voz, tocando-lhe suavemente a mão.

O toque cálido o pegou desprevenido e ele não pode conter a lágrima descuidada que caiu por seu rosto.

Fechando aquelas pequenas mãos dentro das suas maiores e calejadas mãos de guerreiro, ele as beijou suavemente, e reunindo toda a força que possuía dentro de si, Aegnor falou as palavras que temia mais que o próprio Senhor do Escuro.

“Eu vim aqui dizer adeus”.

 
FIM