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Viagem de um Anão – Capí­tulo 6 – Aves Negras e Risos Maléficos

Depois de comer até estar cheio, Rarum começou a beber vinho tinto, óptimo, vinho da colheita do ano 876 desse viagens-de-um-anao.jpgmilénio, das vinhas pedidas das distantes montanhas Rodeorn. Entendendo os seus limites, o anão pôs o vinho de lado.
 
 
Foi pedida a sobremesa, três apetitosos bolos, um pão-de-ló, um de ananás e um de laranja, juntamente com tarte de maçã. Rarum já não comeu muito, pois encontrava-se cheio, mas não dispensou uma fatiazinha de tarte de maçã. Depois prosseguiu conversa, perguntando ao rei:

-Bem o nosso cavalo e a nossa carroça, onde se encontram realeza?

-Oh, não se preocupe, estão em segurança. Neste momento o seu cavalo está a ser escovado e alimentado, e as rodas da sua carroça substituídas. Quando desejam partir?

-Bem, nós estávamos a pensar partir hoje, eu ainda tenho uns assuntos a tratar e Rarum deseja chegar rapidamente á sua cidade natal, nas montanhas Longrock! – respondeu Morit.

-Então o vosso desejo será satisfeito. Mas deixo-vos um concelho que vos poderá vir a ser útil: tenham cuidado na floresta, principalmente á noite. Os orcos estão longe, mas os gnomos travessos estão sempre á espreita! Ainda á uma semana atrás um pequeno grupo de gnomos ficou acampado perto da casa do portão… toda a cidade ficou em polvorosa, e o guarda do protão não pregou olho. Apesar de sermos muito mais que suficientes para os derrotar, se um deles se safasse poderia avisar os outros da nossa localização! Agora temos recebido notícias das fadas da floresta que eles estão longe e, ao que parece, estão a formar uma aliança com Itridin.

-Mas os gnomos não tinham sido banidos da floresta? E para mais, porque vocês não os abatem? – perguntou Rarum, curioso.

-Porque eles têm esconderijos que nem nós conhecemos! Mas se forem com cautela e silenciosos pode ser que lhes escapem. Para além disso, Morit possui grandes poderes e a sua ajuda pode ser preciosa! – respondeu o rei, soltando um pequeno sorriso confortante.

- Claro, claro, – disse Morit – mas também é preciso cautela, essas aberrações são difíceis de enganar!

 

Rarum tinha um frio na barriga. Histórias sobre gnomos já lhe tinham chegado aos ouvidos, histórias arrepiantes e inquietantes mas nunca pensara que se tivessem estendido o seu território até á Grande Floresta Central. Os gnomos habitavam o grande norte, nas Montanhas Geladas do Norte, no Desfiladeiro Superior Nórdico e nas Montanhas Finais. Nessa zona habitavam os elfos do norte, que tinham várias cidades na montanha e nos desertos gelados. As cidades das montanhas eram frequentemente cercadas, sem que os gnomos tivessem qualquer êxito. Mas pelos vistos tinham conseguido colocar pequenas colónias na grande floresta, a milhares de quilómetros dos seus reinos montanhosos. Agora tinham-se aliado a Itridin e iriam, muito provavelmente, causar grandes danos no bonito reino élfico da floresta.

A imagem de viajar numa floresta escura, com gnomos maléficos espreitando por entre os troncos das árvores arrepiavam-no, mas não deixou que os outros percebessem esse sentimento e perguntou ao rei:

-E como conseguiram eles passar até aqui? Quero dizer, os que vieram das Montanhas Geladas do Norte não tiveram de passar pelo reino dos elfos do nrote, mas os restantes tiveram… e como passaram todos eles pelo reino dos homens do norte?

-Oh, meu amigo! – respondeu o rei – Isso não é tão complicado como parece! Provavelmente, os do extremo norte vieram pelo lago gelado de Uribor, atravessando por entre os seus blocos de gelo. Quando chegaram ás Montanhas Geladas do Norte, seguiram pelo lado leste da Tundra de Uimur, entraram na Floresta do Norte, atravessaram-na, e depois foi só seguir o lago Diandor até entrarem nas matas da floresta central. Mas não se preocupe. Duvido que consigam conquistar a floresta. Mesmo com a aliança de Itridin, nem eles nem os Orcos das ilhas negras, entraram na floresta sem terem a certeza de que ganharam. E essa certeza nunca terão!  

-Bem – disse Morit – , se vossa alteza assim o consentir, gostaríamos de levar alguns mantimentos daqui… Apenas pão, pois o nosso já está duro, e alguma água que se está a acabar. De resto não é preciso mais nada, pois temos ainda bolo de mel, biscoitos, mel, presunto, chouriços, linguiças e compotas.

-Com certeza, com certeza. Mas em vez de pão, recomendo que levem bolacha élfica. Tem o mesmo efeito que o pão mas é doce e não endurece tão rápido! – propôs o rei.

-De acordo nobre rei. De bom grado aceitamos, e mil agradecimentos lhe deixamos! – respondeu o anão, com um riso falso entre os lábios, pois não conseguia esquecer a imagem dos gnomos na escuridão da floresta.

-Calculei que aceitassem e já mandei carregar a vossa carroça.

O rei levantou-se e ordenou a Rarum e Morit que o seguissem. Percorreram as magníficas plataformas da cidade, passando de uma para a outra por soberbas pontes de madeira, sem pilares. O anão e o mago trocavam olhares curiosos, tentando que um dissesse ao outro para onde se dirigiam. O rei ia altivo, seguindo pela madeira sem fazer um único ruído, muito apressado. Os seus pés eram leves, e davam a ideia de que este não tocava no chão. Tentando acompanhar a passada no nobre senhor élfico, Morit e Rarum iam a conversar, sobre o soberbo almoço e a simpatia do rei. Chegaram a uma plataforma de tamanho considerável, que albergava um estábulo onde se encontrava o cavalo dos nossos amigos e a sua carroça.

-Aqui está, meus amigos, a vossa carroça e o vosso cavalo! a carroça está carregada com novos mantimentos, e apenas lá continuaram os doces, mantas e os pertencentes de Rarum, que ele trouxe de Alin. De resto, tudo desapareceu. Colocamos bolachas élficas e algum porco salgado, bem como um barril de vinho tinto, oferta dos elfos da floresta para o senhor anão Rarum – disse o rei, apontando para a carroça, que abarrotava de coisas. Felizmente os elfos são muito cuidadosos e tinham arranjado tudo de maneira a não cair. Depois o rei prosseguiu:

-As fadas voadoras da floresta irão leva-los de novo para baixo, para ao pé da casa do portão. Aí, um dos meus guardas irá conduzi-los de novo á estrada.

-Nem sei como lhe agradecer, nobre rei! – disse Rarum.

-Agradeça-me evitando os gnomos! Não se deixe apanhar, não deixe que o matem, e eu ficarei contente – respondeu-lhe o rei.

Sem demoras, o rei chamou um guarda, magro e muito rápido e ordenou-lhe que os guiasse até á escada da casa do portão e da casa do portão até á estrada. Rarum e Morit inclinaram, levemente, a cabeça para o rei e seguiram pela cidade, por um atalho que o guarda disse conhecer, até a escada. Chegados á escadaria, começaram a desce-la, muito apressados. Rarum, mais uma vez, não se deixou ficar calado, e perguntou:

-Oiça, porquê tanta pressa? Quero dizer, nós estamos aqui de visita e é assim que se despedem de nós? Abrande por favor, ou então explique-nos o que se passa!

Morit abriu os olhos, espantados, e preocupado com a reacção do guarda, deu uma cotovelada no ombro de Rarum. O elfo parou na escada, olhou para o anão e para o mago e disse:

-Nada eu devia responder, nobres viajantes, pois essas são as minha ordens. Mas responderei, para que fiqueis alerta! Um bando de corvos, muitos corvos, enviados por Itridin, anda a sobrevoar a zona. Vão para as zonas do lago Diandor, mas passam por aqui, pois o feiticeiro negro sabe da existência de uma cidade secreta por estas bandas. As fadas da floresta avisaram-nos, eles encontram-se a cerca de cem quilómetros para Oeste. É necessário que os habitantes da cidade se escondam e camuflem as suas casas. Mas vocês não devem correr esse perigo, não habitam na cidade. Mas por favor, avancem, peço-vos! Ainda tenho de voltar á cidade antes da chegada dos corvos!

-Mas… o rei sabia? – perguntou Morit, ele próprio assustado.

-Sim, sabia, mas não vos queria preocupar! Ninguém deve saber que vos contei! Mas vamos, avancem, continuem.

Rapidamente, os três continuaram pela escada a baixo, aos tropeções. Chegando ao pátio, Tuimar lançou um olhar interrogativo ao elfos, que lhe respondeu com um outro olhar, afirmativo. Sem sequer parar, Tuimar dirigiu-se ao portão, destrancou-o e estalou o dedo de maneira a fazer a hera desaparecer. A floresta estava escura, e um cheiro a chuva muito distante invadia-a. Ao lado da casa do portão encontrava-se a carroça e o cavalo. Sem perder tempo Morit pegou nas rédeas do cavalo, que avançou rapidamente puxando a carroça. Para que a carroça não ficasse ainda mais lenta, nenhum dos três se montou nela. Uma chuva de pingas grossas começou a cair, numa quantidade enorme a floresta começou a ficar alagada. Morit subi para a carroça, a fim de a manobrar de maneira a evitar que esta se enterrasse na lama. A raposa seguia-os, também apressadamente, e completamente encharcada, com o seu pêlo felpudo todo despenteado.  Mais de meia hora passou, nestas condições, quando desembocaram na estrada que, devido á sua construção de boa qualidade, não se deixava alagar. Sem hesitar, Rarum subiu para a carroça, e guarda elfo voltou para trás. A chuva era torrencial e os nossos amigos estavam completamente encharcados. Rarum fechou a parte traseira da carroça, com as suas cortinas, atrás e á frente, junto ao acento. O silêncio era terrível e relâmpagos assustadores iluminavam a floresta. Era primavera, e Rarum achou muito estranho estar a chover assim naquela altura do ano, por isso perguntou a Morit, quase gritando, para que a sua voz se distinguisse por entre o ruído da chuva a bater no solo molhado da floresta:

-Meu caro! Será natural este tipo de chuva, nesta altura do ano? Nunca vi chover desta maneira, nem nunca tive de gritar a dez centímetros de um amigo para que ele me ouvisse!

-Não, não é normal, meu amigo! – respondeu-lhe o mago, franzindo os olhos – Das duas, uma! Ou é uma corrente fria ou isto é obra de xamãs gnomos! Malditas criaturas! De certeza que fizeram isto a mando de Itridin, para que os elfos de Luituin não consigam camuflar as suas casas! Mas ele engana-se, os elfos possuem muitos segredos, e uma das suas melhores habilidades, é a da camuflagem!

-Mas… Morit, tem a certeza de que eles não correm qualquer perigo?

-Não, meu caro anão, não correm! Eles sabem muito bem o que fazem, e se nunca foram descobertos, por alguma razão será! Vá acalme-se e preocupe-se connosco! Os gnomos andam por aí, não o quero alertar, mas é preciso ter cuidado! Andaram a afazer das suas, e aproveitam o tempo de chuva para a fazer travessuras a viajantes e a pequenas aldeias élficas no solo da floresta!

-No solo da floresta? Mas espera aí, as povoações élficas da floresta central não são nas árvores?

-As grandes cidade sim. Agora, as vilas e as aldeias, normalmente, são construídas debaixo da terra. Entra-se por uma gruta ou por portas que eles constroem em troncos velhos e mortos, com folhas de fingir. Mas os gnomos escavam e entram nelas, pregando partidas deveras desagradáveis, e, de vez em quando, chegam a provocar mortes! Mas não se entretêm apenas nas aldeias e vilas élficas! N maioria das vezes, não conseguem entrar nelas e atacam, escravizam e, talvez, matam, viajantes que atravessam a floresta! Por isso, é preciso extremo cuidado, e olhos bem atentos!

Um grande arrepio percorreu o corpo de Rarum, que meteu a mão por entre a cortina da carroça e tirou uma manta, com a qual se tapou. Olhava para as bermas, inquieto, pensando na imagem de gnomos travessos, feios e vestidos com trapos velhos, sem cor e nojentos, espreitando por entre os troncos dos abetos e pinheiros. Tinha medo, muito medo, que alguma patrulha os avistasse e ainda mais medo do que as vis e nojentas criaturas podiam fazer deles. A ideia de ter Morit, um mago, a seu lado, reconfortava-o e deixava-o um pouco mais tranquilo, mas não resistiu ao silêncio, apenas quebrado pelo barulho enorme das gotas de água a espalmarem-se contra o chão, e perguntou a Morit:

-Meu amigo… se um grupo de gnomos nos interceptasse, o que poderia você fazer?

-Oh oh oh… bem, velho anão, provavelmente tentaria assusta-los, de maneira a que fugissem e nos dessem tempo de aumentar o passo e fugir do local. Se não se assustassem, teria de dar luta, e, provavelmente, magoaria muitos deles. Mas enfim, não pense mais nisso! Mesmo que eles nos apanhem, nós fugiremos!

As palavras do mago aumentaram ainda mais a ansiedade do anão. De repente, ecoaram pela floresta muitos risos, muitas gargalhadas, uma após a outra. Rarum virou-se para Morit, com um olhar preocupado. O mago olhava para ambas as bermas, pois o som vinha de ambos os lados, procurando a confirmação para aquilo que mais temia. O anão estava desesperado, e desembainhou a adaga que tinha á cintura olhando em todas as direcções. Depois, Morit falou:

-São muitos, meu pobre amigo! E não vêem nem do lado esquerdo nem do direito; aproximam-se pela frente, pela estrada, e encontram-se a dois quilómetros!

-Mas… mas, como é possível! As gargalhas estão tão perto!

-O vento está a favor das suas vozes.

Sem mais uma única palavra, Morit deu uma forte puxada nas rédeas do cavalo, que se desviou para a berma.

-Estás a ver aquela grande rocha, ali ao fundo? – perguntou Morit, apontando para uma gigantesca pedra que se encontrava a uns cem metros da estrada.

-Estou sim! – respondeu Rarum, olhando por entre os troncos das árvores e tentando ver alguma coisa por entre a água que lhes escorria do cabelo.

-Vamos esconder a carroça e o cavalo ali atrás, a rocha é muito alte a larga, serviria para esconder duas carroças iguais a estas, ao comprido, e mais duas na vertical!

A carroça avançava por entre a floresta, puxada pelo cavalo agilmente controlado por Morit. Esconderam-se atrás da rocha, e Morit e Rarum puseram-se de guarda, cada um na sua ponta da pedra. A espera fora insuportável. Os olhos dos dois começavam a ficar cansados, de olhar tão fixamente para a estrada iluminada por relâmpagos ofuscante. A raposa encontrava-se de alerta, com as orelhas bem erguidas e os olhos buscando na escuridão. As gargalhadas aproximavam-se a cada minuto, mas pareciam nunca mais chegar. De repente, um enorme ruído desceu do céu,  e o mago e o anão olharam para cima. Um enorme bando de aves, negras como breu sobrevoava a floresta, a grande velocidade. Eram corvos de Itridin que procuravam, incansavelmente, por entre as copas das árvores. O grupo de aves parecia não acabar. Os dois companheiros distraíram-se, durante quase vinte minutos. As aves andavam em círculos, sobrevoando aquela zona. Estavam á procura da cidade, pois haviam ouvido as gargalhadas dos gnomos e confundiram-nas com cantorias. Depois de perceberem o seu engano, os negros vigilantes prosseguiram a sua viagem, até ao lago de Diandor. Durante breves segundos os nosso amigos ficaram inconsciente, pensando no que iriam aquelas malditas aves fazer a tão longe, ao lago Diandor. Mas o rosnar da raposa despertou-os, e aperceberam-se, terrificados, de que as gargalhadas estavam agora muito próximas. Rarum mandou calar Luin, e olhou para a estrada. Os gnomos atravessavam a estrada. Deviam ser uns trinta ou quarenta, e vinham armados e a rir. Por entre as gargalhadas, Morit e Rarum conseguiram perceber uma canção que muitos deles entoavam, muito alto:

Do norte frio e gélido, nós viemos!
Para animais  e viajantes molestar!
Homens, Elfos e Anões, nós mataremos!
Porque eles nunca mais devem, voltar!

Debaixo da chuva fria  nos movemos!
Para maldades praticar!
Glória e riqueza, nós teremos!
E ninguém será capaz de nos matar!

Magos e feiticeiros não tememos!
Eles a nós nos devem temer!
Porque nós nunca morreremos!
E os perseguiremos até morrer!

Destruição, fogo e morte!
Isso os gnomos irão trazer!
Porque não haverá sorte!
Que aos elfos possa favorecer!

Ouro, prata e safira nós buscamos!
E terra iremos remexer!
Para juntar ao que roubamos!
As riquezas que iremos obter!

Grito, gemido e dor!
Nós iremos provocar!
Das entranhas da floresta!
Até ao grande mar!

Os nosso chefes, xamãs e  mestres!
Até á vitória nos irão guiar!
E nem as criaturas mais agrestes!
Medo nos irão provocar!

Os gnomos avançavam pela estrada, cantarolando e rindo, sem nenhum medo. Atrás deles, amordaçado e preso com cordas, seguia um homem puxado por uma corrente. Caía a cada três passos, e a cada três passos, os gnomos cruéis humilhavam o pobre homem. Via-se que era um viajante, pois tinha um cabelo seco e áspero e as suas roupas estavam gastas.

-Ah ah ah! – troçavam os gnomos – agora já não te sentes tão corajoso, ó viajante miserável? A viajem cansou-te, foi? Então espera por ires trabalhar para as minas! Ah ah ah!

Á frente, seguia um grande gnomo, menos curvado que os outros, com um machado sujo na mão gritando:

-Venham, gloriosos gnomos! Brevemente teremos alimento! Sinto o cheiro a anão no ar!

Ouvindo isto, Rarum entrou em desespero e voltou o seu olhar para Morit. Conseguiu perceber a palavra “calma”, prenunciada em segredo, nos lábios do mago. Depois pensou: “Calma! Calma! Pois claro! Não é o cheiro a mago que eles sentem! Valham-me todos os deuses élficos e mais algum! Mas pode ser que não sejamos nós, afinal não devo ser o único anão que se faz á estrada! E para mais…”,  de repente mais uma frase de ordem do chefe gnomo, o alertou:

-Esperem! Parem! Estão perto! E o anão está acompanhado! Por um homem velho, muito velho!

 -Rarum! Eh, Rarum! – chamou Morit, em silêncio, por detrás da pedra. O anão virou-se para trás da pedra e disse:

-O que é Morit?

-Você acha que eu pareço muito velho?

-Oh, mas que disparate é esse? Chove a potes, estamos encharcados, temos um grupo de gnomos a cem metros que sentiram o nosso cheiro e você preocupa-se com a idade? Oh homem, não diga disparates! Para além disso, você é imortal!

-Não interessa! Estou velho na mesma! Sei que daqui não passo, mas ao menos gostaria que você fosse sincero comigo!

-Oh, mas que alguém me ajude! É obvio que você têm um aspecto de homem velho, mas isso não importa nada para agora! Continua forte e saudável como sempre, e é capaz de fazer coisas que não passariam pela cabeça de nenhum adolescente! Agora, deixe-se de tolices e tome atenção á estrada!

-Tolices? Você chama tolice um pobre homem inseguro perguntar se está velho?!

-Insegura está a nossa vida, homem! Por amor aos deuses, faça o favor de por os olhos na estrada senão vai servir de jantar a esses gnomos nojentos!

-Eu sei muito bem o que faço! Afinal de contas sou um mago! E esses “nojentos gnomos” não nos apanharam!

De repente, um ramo estalou atrás de Rarum, que, olhando para o olhar petrificado de Morit, percebeu o que se passava. Virou-se, de um ápice, e nesse mesmo segundo, um gnomo magro e corcunda gritou:

-Anão! Anão! Um anão e um mago! Temos jantar! Rápido, avancem! 

Viagem de um Anão – Capí­tulo 5 – A cidade das copas

viagens-de-um-anao.jpgRarum esticou o seu braço mais uma vez para as traseiras, esquecendo a presença da raposa. Quando se lembrou, já a sua pele áspera havia acordado o animal que dormia docilmente. Rarum apanhou um susto mas para sua enorme surpresa, o pobre mamífero levantou-se e deu uma lambidela húmida com a sua língua quente, na face assustada do anão. Rarum, assustado disse-lhe:

 
-Afasta-te! Por favor afasta-te!

A raposa assim o fez, para o enorme espanto de Rarum. Morit apenas mostrou um sorriso troçador como quem diz “Eu disse!”. Pois é, como sempre o velho e sábio mago já calculava.

Depois Rarum lançou um olhar surpreendido para Morit e o mago respondeu-lhe com outro olhar, desta vez encorajador. Era isso que Rarum queria. Que o mago o encorajasse a testar o animal. E assim o fez:

-Senta – disse-lhe, imperativo. O animal sentou-se.

-Deita – ordenou-lhe de novo. O animal deitou-se. E depois de cinco minutos de treinos o animal só obedecia ao pequeno anão. Depois Morit disse:

-Está a ver? Ele tem inteligência sim! A prova é que aprendeu a língua corrente, provavelmente a ouvir as canções dos elfos da floresta.

-Devo redimir-me… desta vez tinha razão. Bem agora é preciso arranjar-lhe um nome!

-Sim mas nada melhor que uma boa refeição para nos inspirarmos!

Rarum nem precisou que lhe dissessem mais nada: esticou o braço, e retirou o cesto das traseiras. Sentada na abertura onde o anão tinha dormido os quatro dias antes de chegarem á floresta, estava a alegre raposa, esperando o seu pequeno-almoço. Rarum retirou os alimentos do cesto, entregou uma grande fatia de bolo de mel ao mago e cortou cinco grossas fatias de presunto que deu à raposa. Depois, entre uma dentada e outra no pão com geleia, Rarum disse:

-Bom pelo que vi, se é que me entende, é um macho. Ora agora é puxar pela cabeça. Ora deixe ver… que tal “Nocturno”?

-Não! É um nome feio para uma raposa! Eu preferia “Comilão”!

-Bah é um nome muito vulgar e infantil! E se fosse “Fugitivo”?

-“Fugitivo” porquê?

-Ora essa, porque fugiu das montanhas, é claro!

-Mas isso não faz o menor sentido! Nesse caso deveria ser “Perdido”, porque ele se perdeu! Uma raposa das montanhas não foge das montanhas!

-“Perdido” soa mal! “Vigilante”! Ele vigiou-nos toda a noite!

-Também soa mal!

-Espere! Tive uma ideia! E se fosse o nome do seu deus?

-O quê? “Olguin”?

-Exactamente!

-Bem eu preferiria o antigo nome do deus… “Luin”! É mais bonito!

-Sim realmente tem razão! Então está feito. Da próxima vez que o chamar digo “Luin” até ele se habituar!

-Muito bem!

Um sorriso desenhou-se na face de ambos os companheiros. Depois de comerem prosseguiram caminho . Passaram-se três horas, sem que nenhum dos dois se pronunciasse até que Morit disse:

-É estranho… os elfos ainda não nos abordaram. Bem aguardemos um sinal. O seu sentido de boa educação e gentileza é demasiado apurado para não convidar um anão para um almoço.

-Olhe ontem estive a pensar… da última vez que nos vimos, fiquei com uma dúvida que agora me surgiu de novo. Qual é a diferença entre um mago e um feiticeiro?

-Bem, é simples. Enquanto um feiticeiro é um ser criado pelos deuses, genuinamente imortal e que nasce com os seus poderes, um mago é um homem, anão ou elfo completamente normal, mas que estudou e aprendeu a arte da magia.

-Mas não é possível, você é mortal?

-Já fui. Mas quando acabei os meus estudos, como acontece a todos os magos humanos, foi-me concedido o segredo da imortalidade. Ah e também é preciso fazer notar que apenas foram criados oito feiticeiros, dois deles, Itridin e Vigil, passaram-se para o mal, e cinco foram assassinados pelos guerreiros Albidan. Só resta Uimar, que se exilou no reino superior nórdico dos elfos do norte, e se tornou  conselheiro do rei. Quanto aos magos, estes existem cerca de cinquenta humanos, trinta elfos e os anões deixaram de praticar a arte mágica.

-Então quer dizer que magos anões e magos elfos não precisam que lhes seja revelado o segredo da imortalidade, pois já o possuem, certo?

-Certíssimo.

Quando Rarum se preparava para prosseguir o seu questionário, um Elfo, vestido com muitas cores, uma armadura por cima e com uma espada élfica na cintura, leve como uma pena e rápido que nem um falcão, irrompeu por entre as árvores, lançando-se como uma flecha para a estrada. Repentinamente, Morit puxou as rédeas, forte e vigorosamente, e o cavalo estancou que nem uma estátua. O elfo alinhou-se com o cavalo, inclinou-se suave e respeitosamente e disse:

-O meu respeitável mestre, rei do reino sul da floresta central élfica, vice-rei da parte sul do reino élfico da floresta central e regente da cidade secreta de Luituin, a cidade secreta das copas, tem o prazer de vos convidar para o almoço em sua casa.

-De bom grado aceitamos! – disse Morit, enquanto Rarum esboçava um pequeno sorriso dissimulado por entre a sua barba frisada. Na verdade estava muito contente por pensar que iria ter uma  refeição nas altas copas dos pinheiros e abetos. Sabia que os elfos os iriam receber como reis (é seu hábito tratarem muito bem os anões, e qualquer seu acompanhante) e que brevemente estaria sentado numa cadeira, a cem metros do chão, apoiado num chão de madeira construído sobre ramos e suportando o peso de mansões e jardins suspensos. Não conhecia nenhuma cidade élfica naquelas imediações da floresta, mas rapidamente a conversa que prosseguia entre o soldado e Morit lhe tirou essa dúvida: era uma cidade élfica secreta, devido à proximidade com o reino dos homens do sul, e querendo evitar que eles abusassem da sua hospitalidade e temendo que eles transformassem aquele paraíso suspenso numa zona de transição comercial entre o sul e o norte. Apenas elfos, anões, magos e homens do norte podiam habitar a cidade. Acabado o diálogo entre Morit e o elfo, os dois companheiros desceram da carroça, e seguiram o soldado, que guiou o cavalo por entre a floresta.

 A ansiedade e fome de Rarum faziam com que ele andasse aos tropeções, tendo desagradáveis encontros com as raízes das árvores. O pequeno-almoço, tomado há horas, já estava digerido e o estômago do pobre anão queixava-se. Andaram cerca de quarenta minutos, passando sempre nos sítios onde havia mais espaço entre os troncos das árvores para não danificar a carroça, até que se deparararam com um vale, que descia uns cinquenta metros. Para descer a íngreme depressão tiveram de ajudar o cavalo  com a carroça, e, quando chegaram ao fundo do vale notaram que uma casa circular, com um buraco no tecto por onde saia um enorme tronco envolto numa escada em caracol,  com algumas janelas enfeitadas com bonitos cortinados com quadradinhos vermelhos e brancos e portadas de madeira e apenas com um portão mais ou menos com dois metros e meio mas bastante forte. O guarda deu três batidas leves mas vigorosas no portão e disse “Nultan apresenta-se”. Depois, do interior do edifico (que era de pedra e envolto em cal) ouviu-se uns passos muito leves, e o portão estalou ruidosamente. Depois, devagar, abriu-se e um homem de longos cabelos e barba brancos, velho e de pele enrugada disse, franzindo o olho e realçando as suas pestanas farfalhudas:

-São estes os convidados do rei?

-São sim, ó guarda do portão! – respondeu o soldado, num tom baixo.

-Então eles que entrem! O rei espera-vos! É  com muita honra que eu, Tuimar, ex-pertencente ao reino dos homens do norte, guarda humano da Casa do Portão, entrada para a cidade secreta Luituin, cidade das copas, recebo um anão, amigo de elfos, e um mago, aliado de elfos. Mas por todos os deuses, apressem-se, não devemos chamar a atenção de ninguém, esta casa situa-se num vale secreto! – respondeu o guarda, preocupado e olhando o cimo da depressão, ansiosamente.

Morit, Rarum, o soldado e a raposa (que se tinha adaptado perfeitamente ao seu dono) entraram, pararam no hall de entrada, que tinha as paredes brancas com muitas velas e um chão de madeira com muitos tapetes, enquanto esperavam que o guarda fechasse a porta. O cavalo ficou lá fora, juntamente com a carroça, e quando Rarum ia perguntar porque o animal tinha ficado no exterior, Morit deu-lhe uma valente cotovelada. Muita luz jorrava por um pátio interior. Quando a porta se fechou, uma enorme hera nasceu do chão, cobrindo a casa e o tronco, dissimulando as escadas, e inúmeras pequenas fadas voadoras da floresta, acompanhadas por pirilampos mágicos sentaram-se nos finos ramos da planta conversando baixinho, na sua língua secreta. No interior, Rarum e Morit deixaram-se guiar, pelo corredor de entrada, até ao pátio. Aí o corredor desfazia-se num outro circular, que dava a volta ao pátio. Tinha quatro pequenos portões e, no lado oposto, inúmeras portas que davam para quartos que os nossos amigos desconheciam. Ora os quatro, mago, anão, elfo e homem, entraram no pátio, que tinha chão de calçada e quatro pequenos bancos de pedra entre os quatro pequenos portões de madeira. No centro, um grande tronco erguia-se, em direcção à copa da árvore, com umas longas escadas em caracol a percorrê-lo. A partir da parte que se encontrava ao nível do telhado, um manto de folhas de hera debruçava-se sobre o tronco e cobria-o (cobrindo também as escadas) e formando uma abóbada. Rarum franziu o olho e perguntou ao guarda:

-Mas… não vimos esta hera de fora!

-É normal. – disse Tuimar – Isto é uma hera mágica. Quando eu lhe ordeno que se recolha, ela vai para debaixo da terra, junto aos alicerces da casa. Mas quando eu lhe ordeno que se levante, ela volta a cobrir a casa, o tronco e as escadas. Agora estava retirada porque as  pequenas fadas voadoras disseram-me que hoje a floresta está livre de caminhantes e não há perigo… mas visto que mais vale prevenir que remediar, disse à hera para se reerguer.

-Então e o cavalo e a carroça? – perguntou Rarum, desta vez, sem que Morit se opusesse.

-Neste momento estão a ser levados lá para cima pelas fadas da floresta. Elas sabem o que fazem e falaram com o cavalo antes de o levarem, para evitar sustos. Quando lá chegarmos, ele estará no estábulo. – respondeu o guarda.

-Muito bem… então podemos começar a subir a escadaria? – perguntou Morit

-Podemos sim. Permitam-me que vá á frente, para que os guardas, no cimo da escada me identifiquem. – disse, Tuimar, que recebeu de imediato um aceno de Morit.

O experiente guarda começou a subir a escada, seguido de Rarum, Luin, Morit e, por fim, o soldado. O corrimão era de madeira escura e forte, e nele se apoiaram os quatro, enquanto penetravam no túnel de hera. A luz entrava, com dificuldade, por entre os ramos e folhas da enorme planta, mas era luz suficiente para não deixar que nenhum deles tropeçasse. Subiram a escadaria, dando voltas e voltas sobre o grosso tronco. O tronco havia sido cortado pelos próprios elfos e esculpido para se colocar a escada e Rarum apenas o notou pela falta de ramos. Quando chegaram ao cimo, onde a escada abandonava o tronco e desembocava numa enorme plataforma de madeira, ligava a outra plataforma e a outra e ainda a mais outra, por pontes de madeira, sem pilares, e com tectos extremamente bem esculpidos, em formas de botões de rosa. Era construída uma casa em casa plataforma. A cidade devia ter mais de vinte quilómetros, pois tinha bonitas casas ao ar livre, a perder de vista.

Como conseguiram eles construir casas nas copas com todos aqueles ramos? E como conseguiram aquelas plataformas de madeira aguentar as casas?  E como conseguiram os troncos das árvores, por mais grossos que fossem, aguentar as plataformas e as respectivas casas? Apesar de parecer complicado, é mais simples do que aquilo que se possa imaginar: em cada copa de árvore, eles cortavam todos os ramos num raio de cinco metros, a vinte metros do fim da árvore. Depois, regavam as árvores, durante um ano, com seiva de papoila misturada com água de nascente o que conservava o seu aspecto e textura mas lhes conferia uma enorme dureza. Aplicavam seiva de rosa no espaço de vinte metros em que tinha cortado os ramos (para que eles não crescessem mais) e depois, tomando como centro o tronco, construíam plataformas de madeira do norte, a madeira de pinheiro que os homens do norte enriquecem e endurecem, onde constroem casas (igualmente de madeira do norte), com uma abertura ou pátio no centro por onde sai o tronco.

Ora o edifício que se encontrava naquela plataforma, era o registo, onde um funcionário registava quem entrava e quem saia na cidade. O guarda da casa do portão deixou-os ali, enquanto recuava e fazia o caminho oposto ao anterior. Depois o soldado, seguido dos nossos companheiros e da sua mascote, entraram na casa de registo onde foram brevemente interrogados por um elfo de cabelo negro e olhos azuis, agarrado a um caderno com milhares de folhas.

-De onde vêem?

-De Alin. – respondeu Morit.

-Para onde vão?

-Para o vale de Ortich, mas faremos algumas escalas. Fomos convidados pelo rei para o almoço – respondeu de novo Morit.

-Então podem prosseguir, peço desculpa pelas moléstias.

O soldado, calado e apressado, saiu de novo, sempre seguido pelo mago, o anão e a raposa. A cidade era magnífica. Milhares de plataformas, ostentando fantásticos edifícios, alguns troncos com dois, três ou mesmo quatro andares. Aquelas árvores não pereciam abetos nem pinheiros. Tinham uma copa mais grossa. Os longos ramos debruçavam-se sobre a cidade suspensa. Magníficos jardins suspensos eram construídos em pátios de madeira esculpida. Todas as plataformas possuíam corrimãos que as contornavam, excepcionalmente trabalhados, apenas deixando aberturas para bonitas pontes sem pilares que parecia flutuar no ar. A cidade era silenciosa mas alegre, cheia de pirilampos mágicos, com todas as cores imagináveis, voando seguidos por fadas da floresta, pequenas e graciosas, com seus olhos vigilantes. A leve humidade que se fazia sentir no ar puro da cidade acariciava os pulmões de Rarum, que, com a maior das satisfações, olhava tudo á sua volta. Atravessando de ponte em ponte, de plataforma para plataforma, os três estranhos atravessaram a cidade, sob o olhar discreto de um ou outro elfo mais curioso. Era um povo discreto, nobre, e a curiosidade era apenas coisa de anões. Passaram pelo mercado, a única loja daquela cidade, que não era confuso como os outros dos anões e homens. Pelo contrario. Era discreto, e apenas tinha uma banca de alquimia e outra de especiarias, pois os elfos tinham o hábito de apanhar a sua comida. Todos os domingos e quartas-feiras, a casa do portão era aberta todo o dia, e o seu guarda tinha descanso, enquanto os elfos, calmamente, saíam e entravam, com cestos de frutos silvestres e temperos, vinham as mulheres. Com as carnes vinham os homens.

Quando chegaram a uma enorme plataforma, os nossos amigos depararam-se com um enorme terraço, onde degraus davam acesso a entrada de uma grande casa, habilidosamente construída e encaixada entre a vegetação. Á entrada do terraço, o soldado parou e disse:

-Aqui será o vosso banquete, na casa do nosso senhor, a casa das copas.

Morit inclinou a cabeça, em sinal de agradecimento. Mas Rarum não agradeceu, estava completamente hipnotizado pelo que se erguia á frente dos seus olhos: uma enorme mesa rectangular estava posta no centro do terraço com uma toalha branca, e enormes quantidades de comida por cima dela: javali assado, bolachas élficas, saladas, amoras, uvas, maçãs, pêssegos, morangos, pudins de todo o tipo, presunto, chouriços, vinhos, pão de cinco qualidades, bolos, doces, arroz com passas, arroz com fiambre e queijo, arroz de tomate, arroz de cenoura, arroz de ervilhas, batatas cozidas, sopas de cremes de vegetais, frango assado, inúmeros temperos e especiarias, perdizes, arroz de cabidela, cosido de grão, feijoada, mel, compotas e doces de fruta, biscoitos, empadas, croquetes, rissóis e pastelaria de todo o tipo. Rarum ficou vidrado.

Depois de alguns segundos calado, Morit, tendo acabado de observar a mesa, pois também ele tinha ficado espantado, soltou um chamamento que desviou a atenção do esfomeado anão.

-Então, meu velho? O gato comeu-lhe a língua, foi? – disse o mago, com um grande sorriso estampado nos seus lábios.

-Am? O quê? Ah… peço desculpa, meu amigo. Mas… onde se encontra o nosso anfitrião?

-Ele deve estar a sair. Oh!… veja! Olhe para a porta!

Saindo pelo pequeno portão aberto da grande mansão das copas, vinha uma majestosa figura, um elfo de seu metro e oitenta, com longos cabelos (loiros, como é hábito) mas excepcionalmente brilhante e reluzente, avançando sobre o terraço leve mas altivo, arrastando uma leve capa, quase transparente, sobreposta a uma túnica feita de verde cristalino. Era a pessoa mais imponente e altiva que alguma vez Rarum tinha visto e, sem hesitar, o pobre anão avançou pelo terraço, seguido de Morit e de Luin, até chegar a meio, onde se encontrava a mesa e onde o rei, com uma coroa de prata incrustada de esmeraldas, rubis e diamantes, e um anel de prata, parou. De seguida, Rarum e Morit inclinaram-se perante o rei, que vergou levemente, ordenou-lhes que se levantassem, com um gesto ordenativo e disse:

-Sejam bem vindos, meus novos amigos, a Luituin, a cidade secreta das copas, e ao meu terraço onde se banquetearam enquanto falamos e os bardos cantam para nós. Eu sou Uirragon o rei da parte sul do reino élfico da floresta central, colega de Artîr, rei da parte norte do reino élfico da floresta central e submisso de Fuliamer, rei de todo o rei élfico da floresta central. Mas, meus amigos, abandonemos as formalidades. Por favor, Rarum e Morit, os meus guardas informaram-me de tudo o que preciso de saber sobre vocês. É um prazer receber um anão e um mago na minha cidade.

-E é um prazer sermos convidados por um rei élfico, tão importante quanto o senhor, para um banquete no seu terraço!

O grande terraço, que saia da casa do rei e se debruçava sobre a floresta, ligado á cidade por uma ponte rodeada de heras, era coberto por jardins suspenso. Arbustos cresciam em vasos, roseiras erguiam-se entre o corrimão, heras cobriam as paredes exteriores da casa, hibiscos exibiam as suas flores ao sabor do vento que penetrava entre as árvores e inumares flores ornamentavam o agradável terraço, enorme, mas extremamente acolhedor. Escadas larguíssimas ligavam o patamar suspenso á mansão.

Sem grandes hesitações, Rarum perguntou, descaradamente, ao rei:

-Bem, e quando vamos almoçar?

-Oh!… vejo que tendes um amigo apressado, sábio mago! – responde o experiente rei – Não se preocupe, mestre anão, estou á espera que tragam um pequeno presente que consegui providenciar, á pressa, esta noite, enquanto esperava que vocês chegassem. É uma coisa muito útil e bonita, capturados á noite. Mas, enfim, é surpresa, apenas mandei trazer para estar á mão.

-Mas não era necessário, nobre rei! – interveio Morit.

-Sim, não era preciso, nós apenas queríamos uma boa refeição para partimos de volta á estrada! – disse Rarum, incentivado por uma cotovelada valente e encorajadora de Morit.

-Não foi nada, foi só para não os deixar irem-se embora sem uma recordaçãozinha de cá… Oh mas, vejam, vem ai o súbito a quem pedi que fosse buscar o vosso presente! Sentemo-nos, ele sabe onde deixar o presente.

Com efeito, o rápido elfo chegou rapidamente á mesa e colocou ma caixa de madeira, mais ou menos do tamanho de coelho, vermelha e com uma bonita fechadura dourada. O anão, sem cerimónias, sentou-se numa cadeira, á frente de Morit, paralela á do rei. Aí surgiu-lhe uma pergunta:

-Mas… nobre anfitrião, porquê tanta comida para apenas três pessoas? E porquê uma mesa tão grande?

-Um anão é sempre bem servido numa cidade élfica, bem como o seu companheiro!

-Mil agradecimentos! – disse Morit – Mas para mim basta um ou dois croquetezitos e estou arranjado!

-Tal é a mania! Com tanta comida e ele contenta-se com um “croquetezito”! – disse Rarum, de boca cheia, mastigando uma grande fatia de presunto, com salada e rissóis no prato.

-Já devia estar habituado aos rigores dos magos, mestre anão! – respondeu-lhe o rei, risonho, e comendo bolacha élfica com compota de alperce.

Os três continuaram ali, falando dos seus assuntos, comendo e bebendo, com Morit de prato vazio e apenas bebendo vinho. Todos os assuntos vinham á baila: receitas de comida élfica ancestral, a ausência de queda de água na época das chuvas, a densidade populacional élfica, como construíram os arquitectos élficos as cidades suspensas nas árvores, as guerras com as ilhas negras, os reinos distantes da tundra nórdica e muitos outros temas.

Viagem de um Anão – Capí­tulo 4 – Luzes e Estranhos Vigilantes na Floresta

viagens-de-um-anao.jpgMorit continuou em frente, enquanto Rarum ressonava monstruosamente nas traseiras da carroça e a hortelã que mascava ininterruptamente lhe retirava a sonolência. O cavalo, que, como todos os animais, não era afectado pelo pó dos sonhos continuava a caminhar. Passaram por eles inúmeros viajantes, alguns a pé, outros a cavalo, um ou outro de carroça. Outros ainda ultrapassaram-nos agarrados as suas altivas montadas, cavalos de todo o mundo, galopando com os seus cascos ferrados martelando na terra batida. Mas todos a mascar hortelã. As enormes planícies começavam a ficar longe e o terreno era agora composto por colinas e mais colinas e ainda mais colinas. A cada ponto alto na estrada Morit podia ver a floresta cada vez mais perto, mas ainda longe.
 
Quatro dias se passaram. Rarum ainda dormia, devido a enorme quantidade de pó de sonhos que havia inspirado. O cavalo subia uma colina. Uma colina como todas as outras que haviam atravessado, com a diferença que esta era a ultima antes da grande floresta. Dolorosamente, o animal subia a íngreme elevação. Quando Morit reparou que o cavalo chegou ao fim da escalada esperou uns dolorosos segundos enquanto a carroça seguia o seu puxador e quando chegou ao cimo da colina finalmente viu a floresta. Uma gigantesca, enorme e monstruosa massa verde estendia-se para lá de onde o olhar humano alcança. Pequenas aves saíam e entravam na enorme extensão arborizada, sobrevoando as arvores altas e belas e pousando em ninhos escondidos em ramos compridos. Durante o tempo que a carroça ficou parada no cimo da elevação, a uns escassos cem metros da orla da floresta apenas o som do sussurrar do vento nas folhas leves e húmidas dos abetos e pinheiros e o constante “piu-piu” das diversas aves ecoava pelos ouvidos do mago. De repente, Morit notou que algo não estava bem. Havia um som que estava ausente… o ressonar de Rarum! Quando Morit olhou para trás verificou com um gigantesco espanto que o anão comia uma grande fatia de bolo de mel.

-Rarum! Dorminhoco de primeira, bem me parecia que algo não estava certo! Então sabe quanto tempo esteve adormecido?!

-Não, não sei. E você desiludiu-me bastante meu velho! Podia-me ter avisado que estávamos a chegar ao Pântano dos Sonhos mas não! Preferiu esperar que eu fizesse aquela figura para se divertir!

-Ora, ora! Não julgue os outros antes de saber as suas razões! Eu apenas queria poupar-lhe  uma viagem longa e aborrecida! Esteve quatro dias adormecido se é que quer saber, e fartou-se de ressonar!

-O quê?! Eu, ressonar?! Você não deve estar lá muito bem!

-Basta Rarum! Não desperdicemos o nosso tempo com discussões imbecis! Veja, olhe para a frente. Não vai querer passar toda a travessia da floresta de costas viradas para mim pois não?!

Rarum hesitou por breves momentos, mas depois respondeu sem grande demora:

-Tudo bem! Ganhou! Está desculpado. Mas vá, ponha esse cavalo a andar que temos muito caminho pela frente.

Morit cumpriu o pedido do seu amigo e com um grito de “yah, yah”, pôs o cavalo a andar.

Ora o cavalo avançou os escassos cem metros a descer, que os separavam da floresta e penetrou nesta. Entrou por entre os abetos e a estrada encolheu ligeiramente. Tudo ficava agora para trás. O sol não penetrava pelas altas árvores, com uma altura incalculável, e, apesar de linda, a floresta tornava-se mais escura a cada metro que avançavam. Rarum já lá tinha passado antes. Mas não se recordava de nada. Agora apenas os pássaros que habitavam altos ninhos nas copas das árvores, os milhares de insectos que viviam em galerias subterrâneas e os restantes animais desconhecidos que povoavam o solo húmido da extensão arborizada se faziam ouvir ali. Um piu-piu aqui mais um zzzzzz acolá e seguia-se um tumulto inquebrável. A estrada seguia para Norte, para se juntar à estrada de Dirigor a capital élfica. Esse era o longo itinerário dos nossos amigos. Depois de Dirigor seguiriam até Dolir onde fariam escala para se dirigirem a Sûl-fikir e aí apanharem a estrada para as Montanhas Longrock. O cavalo puxava a carroça calmamente e sem grande esforço pelo solo húmido da estrada velha, enquanto Morit e Rarum tomavam atenção a todos os ruídos. Depois Rarum decidiu quebrar o silêncio:

-Morit, meu amigo, diga-me, já estamos nos domínios dos Elfos?

-Ainda não meu caro. Esta pequena parte da Floresta é a única que pertence ainda aos homens do Sul. Mas não se preocupe, dentro de apenas cinquenta km estaremos no grande reino élfico onde poderá desfrutar da hospitalidade dos seus queridos aliados.

-Sim é verdade. Apenas acho aquela subida até ao cimo dos abetos e pinheiros um pouco cansativa. Mas uma vez lá em cima… Que maravilha!

-Meu amigo, não se pode esquecer de que os abetos aqui na grande floresta chegam a ter cento e vinte metros! Essas escadas e o necessário para chegar ao cimo das árvores que lhes proporcionam protecção. Mas olhe, você não tem fome?

-Por acaso tenho, a fatia de bolo não me satisfez o apetite, tendo em conta os quatro dias de “jejum” involuntário!

-Então está decidido! Paramos aqui na berma e almoçamos!

Com um pequeno toque nas rédeas, Morit desviou o cavalo para a berma direita, onde havia erva para o animal se banquetear. Rarum esticou o seu braço e retirou das traseiras da carroça o necessário para o jantar: Um pão, mel, compotas, água e presunto.

De seguida disse a Morit:

-Então meu caro, que vai comer?

-Para mim apenas uma fatiazinha do seu bolo de mel meu amigo.

Rarum acenou com a cabeça, esticou-se de novo, retirou o bolo de mel do cesto de verga e cortou uma pequena fatia. Depois entregou-a ao mago que a comeu calma e serenamente, ao contrário de Rarum, que comeu, fatia atrás de fatia, pão com geleia, pão com mel, pão com doces de todo o tipo, pão com presunto e muita água. Depois da afortunada refeição tudo foi colocado de novo no seu devido lugar e, de barriga cheia, Rarum, Morit (uma fatia de bolo de mel é o suficiente para alimentar um mago durante um dia inteiro!) e até o cavalo, voltaram a entrar na estrada e a seguir caminho, debaixo das copas altas das árvores.

Os casco do cavalo não produziam nenhum som em contacto com a estrada, devido á sua humidade, por isso o silêncio era total. Os pássaros e insectos que há menos de uma hora piavam e zumbiam na floresta estavam agora calados: A noite aproximava-se. De um momento para o outro a escuridão total abateu-se sobre a floresta. Calmamente, Morit acendeu uma luz ténue na ponta do bordão e disse:

-Rarum pega nas rédeas enquanto eu acendo as velas.

Rarum cumpriu a ordem do mago e, enquanto este abria as portinholas envidraçadas das lamparinas e acendia as velas que se encontravam no interior com a pedra do seu bordão em brasa, ele fitava com atenção o caminho escuro e solitário à frente. A copa das árvores formava uma abóbada que cobria a estrada e que dava a Rarum uma certa sensação de que estava protegido, mas não o deixava totalmente seguro. Morit voltou a sentar-se, tirou as rédeas das mãos trémulas de Rarum e conduziu o cavalo em frente. A luz das duas lamparinas iluminava a estrada e as bermas com uma luz amarelo-torrado muito trémula. Rarum tinha um frio na barriga: ouviu estalidos de troncos e folhas a remexer na floresta. Olhos vigilantes e cintilantes vigiavam-nos no lado direito da floresta, o lado onde Rarum se sentava. Rarum não imaginava o que poderia ser aquilo. Passava já da meia-noite. A criatura continuava a segui-los. Coisas assustadoras e arrepiantes passaram-lhe pela mente, a cada estalido um calafrio percorria-lhe o corpo e a cada vez que a esguia criatura revelava os seus olhos frios, uma sombra de medo abatia-se sobre ele. Pensava, pensava e pensava atormentando-se a cada novo pensamento com sombras de medo. De repente, Morit interrompeu as suas deduções:

-É uma raposa da montanha. Deve ter-se perdido das Montanhas Farî e percorreu este longo caminho. Segue-nos desde que almoçamos, mas só quando anoiteceu se sentiu segura para se aproximar tanto. Não nos fará mal, isso nota-se pela quietude do cavalo. Se ela nos estivesse a seguir com o intuito de nos atacar o pobre animal já estaria a relinchar e a dar coices.

-Mas… então que quer ela? Tem a certeza que não nos vai atacar?

-Absoluta meu velho anão. Os animais entendem-se uns aos outros, e garanto-lhe que se o seu cavalo consegue manter tamanha calma a uns escassos quatro metros de uma raposa das montanhas é porque nada nos acontecerá. Quanto ao que ela quer é simples:

A raposa das montanhas é um animal manso para quem não o ataca, e se nos segue é porque sentiu o cheiro a presunto. Se amanha de manhã ainda não nos tiver deixado, dar-lhe-emos um pouco de presunto e ela deixará de nos seguir.

-Mas porque abandonou ela as montanhas?

-Bem por alguma razão que desconhecemos. A raposa é esperta, e esta espécie em particular, é dotada de uma inteligência magnífica!

-Com todo o respeito, Morit, você não está a dizer coisa com coisa! Uma raposa inteligente? Explique-se!

-Você não conhece a lenda de Olguin?

-Não, mas agradecia que ma contasse, se é que tem alguma utilidade para o tema.

-É claro que tem! A lenda de Olguin é a lenda do deus raposa, o deus élfico dos mamíferos! Passo a contar uma história muito velha. Não há provas em relação à sua veracidade, mas eu acredito que tem a sua pontinha de verdade. Ora aqui vai: há muitos milhares de anos, pouco depois do início dos tempos, o concelho dos deuses élficos reuniu-se nos seus tronos mágicos para atribuírem um deus a cada família de animal. Ratastap, o visão-de-águia, ficou a governar as aves. Goduitir, o escama-dura, ficou a governar os peixes e mamíferos aquáticos. Libior, o martelo-de-formiga, ficou encarregue de todos os insectos. Aldoizin, lingua-de-víbora, ficou como rei dos répteis. Mas então uma discussão surgiu. Luin, o garra-de-urso, queria ficar a governar os mamíferos terrestres, mas o seu irmão, Forterion, o dente-de-elefante, também quis esse cargo. Como ambos tinham esse direito, o deus que regulava o concelho decidiu que ambos deviam partilhar o trono e governar todos os mamíferos terrestres em harmonia com o deus da natureza, Filiton, flor-de-mar. Luin aceitou, mas Forterion não concordou com a decisão. Depois de recorrer várias vezes no tribunal dos deuses élficos, e de perder sempre, ele decidiu montar uma cilada ao irmão: iria conduzi-lo até à fonte das mil vidas e tirar-lhe a imortalidade. Dessa maneira Luin seria expulso do concelho dos deuses. E foi assim que fez. Usou a lira dos mil encantos para o atrair com a sua música encantada até a fonte. Quando Luin lá chegou, sem saber que se encontrava na fonte das mil vida, o seu irmão disse-lhe: “Meu irmão, peço-te que te banhes nestas águas puras, para provar o fim das hostilidades entre nós.” Ao que Luin lhe respondeu, desconfiado: “Que fonte é esta meu irmão? Estás tu disposto a partilhar o trono comigo?”. Forterion ficou nervoso e respondeu-lhe “Meu irmão, não hesiteis mais! É uma fonte que eu construí só para ti, para te banhares nas suas águas e te lembrares que foi aqui que acabaram os conflitos com o teu irmão!”. Luin disse-lhe “Então, meu irmão, como gesto de confiança, peço-te para te banhares antes de mim.” Forterion entrou em desespero e sem saber o que dizer, vendo que o irmão não se banharia voluntariamente, atacou-o e tentou atirá-lo para dentro de água. Mas nesse momento, uma raposa atirou-se e mordeu Forterion no pescoço. O golpe foi fatal. E então, quando soube do terrível acontecimento, o concelho chamou Luin e disse-lhe para trazer a raposa. Mas depois de muita ponderação os deuses decidiram não punir o animal que  tinha salvo o deus. E Luin garra-de-urso passou a chamar-se Olguin, que significa mamífero protector, raposa-da-montanha. E deu inteligência divina àquela espécie de raposa, a que deu o nome de, adivinhe só, raposa da montanha.

-Uau… bem mas penso que isso seja apenas uma lenda! Não é que eu não acredite nos deuses mas… enfim estou um pouco mais tranquilo.

O que Morit disse a Rarum acalmou-o um pouco mas o pobre anão continuava assustado. Enquanto tentava esquecer a presença do animal tentava descobrir algo dentro da escassa luz das velas para pensar e se entreter. Mas nada parecia tirar-lhe aquele medo incontrolável de dentro. Rarum era um anão, e estava familiarizado com os grandes animais da montanha, como os ursos, mas aquele animal era algo especial. Mas depois começou a pensar noutras coisas, com alguma dificuldade. Lembrou-se da bonita vista da sua casa para o sol poente, estampado contra um céu vermelho alaranjado, e as casas de pedra branca com longas chaminés salientes de tectos de colmo, expelindo um fumo sereno em direcção à imensidão do céu. Do bater de martelos contra o ferro em brasa, das badaladas das oito horas, o chamamento das mulheres para os maridos e crianças irem jantar. Lembrou-se dos festins em casa do primo Birrask, com os melhores presuntos, queijos, vinhos, pão e muitas mais iguarias deliciosas. Lembrou-se também dos soberbos almoços nas casas dos homens grandiosos do norte, em Siliman, com as especiarias que estes exímios marinheiros iam buscar às terras do sul e às ilhas distantes no mar Oriental enquanto os furacões não chegavam, todos aqueles ingredientes exóticos de países longínquos, temperados com todos os tipos de especiarias e servidos no calor das suas cidades esculpidas contra a colina. Crianças corriam à sua volta, alegres, a rir. E de vez em quando havia uma que caía no chão e ia a correr chorar para ao pé da mãe. E a mãe consolava-o.  

Mas um pensamento terrível se abateu sobre ele: Itridin! Se ele conseguisse conquistar aquelas terras tudo isso estaria perdido. Passou-lhe pela mente a imagem de hostes de Orcos e Ogres destruindo e queimando as suas casas, escravizando homens, mulheres e crianças. Nada lhe tirava aquilo do pensamento. Desejava que o sono lhe invadisse o espírito para poder dormir e descansar, mas os quatros dias de descanso anteriores não lhe davam misericórdia. De repente despertou daquele pensamento terrível com o chamamento de Morit:

-Eh! Então meu velho? Está na lua? Não ouviu nada do que eu lhe disse?

-Peço desculpa meu amigo, estava aqui a pensar e… distraí-me. Não se importa de repetir?

-Estava a dizer que já devem ser umas cinco da manhã. Dentro de uma hora e pouco começará a amanhecer. Vá preparando duas ou três fatias do seu presunto porque a raposa continua a perseguir-nos!

-Ah sim claro… e se ela não nos abandonar?

-Nesse caso ela que venha atrás de nós… não temos nada a perder e até ganhamos uma vigia! As raposas da montanha são óptimos animais de estimação!

-Você endoideceu de vez Morit?! Adoptar uma raposa como animal de estimação??? Só se for para você porque eu não me atrevo!

-Ora não seja tolo! As raposas da montanha chegam a ser bem mais mansas que um cão! Para além disso o primeiro que a treinar, tenha ela a idade que tiver, torna-se imediatamente mestre dela! Ah e um pequeno pormenor… são bem mais mansas que um cão para si, mas se você a manda atacar alguém, aí são melhores que qualquer cão de guarda! Vai ver que umas fatias de presunto e uns minutinhos de treino e ganha o animal de estimação mais gracioso que há!

-Mas Morit você está bem? Como pode dizer que uma raposa é mais mansa que um cão? E se é esse o caso porque as pessoas não usam raposas em vez de cães?

-Meu velho eu disse raposa das montanhas! Não simplesmente raposa! E as pessoas não usam raposas das montanhas em vez de cães é porque elas só vivem nas montanhas Farî e estão protegidas pelo rei élfico.

-Não sei se essa ideia me agrada Morit!

-Se não quer fico eu com ela. Mas enfim ainda não sabemos se ela não se afastará. Esperaremos até lá. Já estamos dentro do território élfico desde as onze e meia.

-Por favor, explique-me o truque para se saber as horas numa floresta tão densa que não entra luz nenhuma e a lua não se vê?

-É segredo de mago, Rarum! Não deixe que a sua curiosidade típica de anão o deixe fazer perguntas a mais senão vai-se arrepender!

-Mas…

No momento em que o anão ia responder uma luzinha cor-de-rosa no meio do arvoredo escuro do lado esquerdo, fora do alcance da luz fraca das velas, chamou a atenção de Morit, que com um gesto súbito, ordenou ao anão que se calasse. Depois disso uma luz e outra, e mais outra, uma verde, outra amarela, uma vermelha, outra lilás, foram aparecendo na floresta. Morit disse, baixinho, a Rarum:

-A raposa está mesmo atrás de si. Não se vire bruscamente nem fale alto. Ela saltou silenciosamente por cima da tábua, na traseira da carroça, que segura a mercadoria. Sentiu-os. Sabe que eles não lhe farão mal, mas por precaução, e porque já nos acompanha há algum tempo, decidiu buscar protecção aqui.

O sangue estava gelado nas veias de Rarum. Mas este fez um esforço para responder, com uma voz trémula e hesitante, muito baixinha:

-Mas… eles quem?

-Guardas elfos. – respondeu Morit, baixinho – Estão a fazer a patrulha, com a ajuda de pirilampos mágicos multi-colores. Em breve vão perceber quem somos e, quando o sol nascer, provavelmente, convidar-nos-ão a subir as suas casas. Mas por agora mais vale estar quieto e esperar que eles nos examinem.

Rarum respondeu-lhe, indignado com a calma do companheiro, mas muito baixo na mesma:

-Isso é facílimo de dizer quando não se tem uma raposa das montanhas a fazer-lhe cócegas com a sua respiração!

Um sorriso ténue e compreensivo mostrou-se na boca de Morit, que respondeu, sempre no mesmo tom:

-Estique a mão muito, e sublinho a palavra muito, devagar até ao cesto e retire duas das fatias de presunto que cortou ao almoço.

E o pobre e terrificado anão cumpriu as ordens do mago. Demorou quase dois minutos a alcançar o cesto. Abriu-o muito devagar, retirou duas fatias que havia cortado, para o almoço, e que tinham sobrado, e num ápice virou-se e deu o presunto ao imponente animal, que parecia já saber o que se ia passar. Depois de mastigar o alimento, deitou-se nas traseiras da carroça e fechou os olhos. Rarum não hesitou em resmungar, logo a seguir, baixinho, sem se esquecer das patrulhas de elfos:

-É preciso ter lata! Eu aqui com o maior dos cuidados, a uma velocidade mínima, para não despertar a atenção, viro-me de repente pensando “Pronto! Já está! Assustou-se e agora estou metido em mãos lençóis!” e sua excelência limita-se a tirar-me o presunto da mão, como se adivinhasse!

-É a prova da inteligência deste animal. Ele não adivinhou. Ele calculou. Quando ouviu o barulho do cesto a fechar percebeu logo o que se passava e nem se deu ao trabalho de o ameaçar.

-Isso é no mínimo um insulto! Eu não produzi o mais pequeno som!

-Esquece-se que uma raposa das montanhas não possui ouvidos de humano, nem de anão nem sequer de elfo! Podia ouvir uma mosca a voar quinhentos metros daqui!

-É impressionante! Eu desperdiço duas fatias do meu melhor presunto para uma raposa e é desta maneira que elogiam a coragem que tive!

-Oh não seja exagerado!

E a discussão prosseguiu, sempre muito baixinho. A luz ténue da carroça penetrava a penumbra da floresta e seguia pela estrada velha e gasta. Cerca de cinco elfos, com os seus pirilampos mágicos presos em lamparinas envidraças, seguiam atentamente os dois companheiros. As cinco luzinhas, uma cor-de-rosa, uma lilás, uma verde, uma amarela e ainda outra verde água percorriam silenciosamente o ar da floresta, sobre a abóbada formada pelas copas das árvores. Leves como penas, os pés ágeis e calçados com sapatos de tecido e sola fina de madeira, dos elfos, avançavam silenciosamente pelo solo húmido, fértil e mole da densa floresta, com seus cabelos escuros e chapéus verdes e cómicos aquecendo as suas cabeças, os seus olhos penetrantes a vigiar a carroça, os seus ouvidos de longo alcance ouvindo a discussão engraçada dos nossos amigos e as suas bocas graciosas descrevendo leves e ténues sorrisos estampados contra os seus rosto pálidos e vigilantes.

Durante quase uma hora foi este o cenário até que um ténue e muito fraco raio de luz surgiu. Estava a amanhecer e, apesar de não entrar quase luz nenhuma por entre as copas das árvores, os elfos aperceberam-se disso e esconderam-se rapidamente. Depois Morit disse:

-Está a amanhecer. É altura de acabarmos a discussão e, enquanto tomamos o pequeno-almoço, esperar que os elfos se dirijam a nós.

-Encoste ali à frente. Há muita erva para o cavalo – respondeu Rarum, com um aceno de concordância.

E Morit seguiu o conselho do seu amigo. Parou uns quatro metros à frente, antes de uma pequena curva, onde havia boa erva para o cavalo.

Viagem de um Anão – Capí­tulo 3 – A caminho do Pântano dos Sonhos

viagens-de-um-anao.jpgRarum e Morit atravessaram a cidade. Estava um tempo bom. O sol não queimava pois uma brisa fria cortava o ar e atenuava o calor do astro. Entraram por uma grande avenida e foram a direito ate aos portões da cidade, no lado Ocidental. Aí subiram a muralha, que não era muito alta e que contrastava com a cidade branca, pois era feita de uma madeira cor de mel, por umas escadas um pouco acidentadas. Rarum ia a frente, andando rápido, com sua barba grande a afastar-se da cara devido ao vento e com o mago Morit logo atrás. Chegou ao pé de um homem alto, que estava de costas, com cabelo loiro comprido, esticou-se o máximo que podia e deu-lhe uma pancadinha no ombro. O homem virou-se, olhando em frente, vendo o mago. Mas só depois olhou para baixo e viu o anão olhando-o com um pequeno sorriso na cara. O homem era de seus trinta e tal anos e tinha também uma pequena barba loira. Cabelo e barba, e preciso fazer notar, eram de um loiro torrado e não élfico. Tinha roupas de lã e uma cota de malha antiga por baixo delas, que se acusava na zona entre o peito e o pescoço onde a gola da camisola não chegava. Tinha uma espada a cintura, com um punho coberto de cota de malha. Segurava o capacete debaixo do braço e o capuz de cota de malha encontrava-se torto, apoiado nos ombros. Assim que viu Rarum disse, com um ar preocupado:
 
 
-Oh Rarum, meu amigo! Peço desculpa mas a minha altura não me permitiu notar a sua presença de imediato. Sempre vai?

-Vou sim, Lorent, a guerra chama-me, e o meu povo precisa de mim… está tudo pronto?

-Está sim meu amigo, a carroça está arranjada e os cavalos prontos para a puxarem. Eu vou lá busca-la.

-Eu e Morit vamos consigo. Oh mas que indelicadeza! Esqueci-me completamente de lhe apresentar o meu amigo e companheiro, o mago Morit. Lorent este é Morit, Morit este e Lorent.

Os dois curvaram ligeiramente a cabeça um ao outro e depois Lorent disse:

-Bom então venham. Faz-se tarde e ir a caminho da floresta Central á noite é cansativo.

Ora Lorent encaminhou-os pela cidade fora, e entrou pela rua trinta e quatro do bairro Ocidental. Se havia uma rua menos mal frequentada naquele bairro era aquela! Depois de percorrer uns 10 metros da rua, que era larga e tinha casas, ao contrário do bairro Oriental, de uma pedra amarelo torrado e com varandas de madeira escura e grandes arcos em forma de ferradura, com grandes portas de madeira, bateu na porta correspondente a letra E. Abriu a porta, que era pesada e, tal como as outras, em arco de ferradura, com uma chave grande e dourada, e entrou na casa. Não se pode dizer que fosse uma casa rica. Pelo contrario. Apesar de maior que a confortável casa do anão, esta tinha fendas nas paredes, que não eram cobertas de madeira. Tinha um corredor central com varias portas, que davam para as diferentes divisões. Depois tinha uma escada que dava para o sótão, que por sua vez tinha uma bonita varanda de madeira castanha, e era coberto por pequenas telhas. Ao fundo do corredor encontrava-se mais um dos muitos arcos de ferradura, que eram usados em todo o bairro, devido a superstição em relação aos viajantes. Ora passo a explicar: No reino dos homens havia um herói Homem-elfo, que defendia todos os homens que viajavam pelas terras a cavalo. O símbolo deste deus era a ferradura e inclusive, há um enorme templo no centro da cidade que em sua homenagem. Ora não é de estranhar que um bairro pobre, de viajantes, que não tem dinheiro para as casas de pedra branca do bairro oriental, construa as entradas das portas em forma de ferradura, para afastar os maus acontecimentos dos viajantes.

Transpuseram essa porta e entraram num grande quintal, com um chão de grandes lajes e algumas laranjeiras. Num dos cantos estava um cavalo castanho com um ar muito saudável e um pêlo que mais parecia seda. Já ligada a esse cavalo, estava uma carroça, com duas rodas, as de trás grandes e as da frente um pouco mais pequenas. Tinha uma espécie de “tenda” atrás, que formava um pequeno túnel coberto de tecido cinzento. Tinha uma tábua, na parte da frente, para servir de acento e outra, mais em baixo, para apoiar os pés. Tinha também duas pequenas lanternas, com velas novas no se interior, penduradas em ganchos, um em cada extremidade da carroça. Era uma carroça de tamanho normal, e tinha espaço suficiente para as coisas de Rarum.

-Ora aqui está o seu cavalo e a sua carroça. O meu pai, exímio artesão, talvez o melhor em madeira de toda a cidade, reforçou a carroça e ela está capaz de percorrer o deserto sem se enterrar na areia. Entretanto escovou o cavalo e alimentou-o bem. Está pronta para partir. – disse Lorent, com ar triste mas apressado.

-Muito obrigado por me ter guardado a carroça e o cavalo estes anos todos, como já lhe expliquei não tenho quintal e seria difícil deixa-los a porta, dado o risco de serem roubados. Obrigado também pró os ter tratado tão bem, vejo que o cavalo está bem alimentado. Bom vou andando, ainda tenho de ir carregar as coisas. Até a próxima meu amigo!

-Até a próxima, velho bandido – respondeu Lorent.

Depois disto, Morit, que tinha estado calado este tempo todo, fez uma ligeira vénia ao guarda, sentou no banco da carroça, junto a Rarum, e saiu pelo protão do quintal que era alto e de madeira velha. Seguiram pelas ruas da cidade e atravessaram todo o bairro Ocidental até chegaram ao oposto. A diferença era ofuscante: para trás, uma aglomeração de casas, todas elas de um amarelo-torrado, e num milésimo de segundo, só casas de pedra branca acinzentada e bastante antiga mas imponente. Entraram pela rua estreita de Rarum, com esforço para não roçar nas paredes e pararam os cavalos em frente da porta do anão. Ai Rarum abriu a porta e começou, em varias idas e voltas, a carregar a carroça: coisas de valor que lhe pertenciam, duas garrafinhas de vinho, muita agua, muito pão e muitas carnes salgadas, ervinhas para o chá, alguns temperos, mantas, um pequeno cajado de madeira tosca, dois frascos de compota, uma cana de pesca, tachos, panelas e tachos e muitas outras coisas necessárias para uma grande viagem. Depois selou a pequena tábua, da parte de trás da carroça que impedia que as coisas caíssem pela traseira, e sentou-se de novo no banco (banco esse, esqueci-me de referir, era almofadado e muito confortável) e disse para Morit:

-Bem a caminho! Saia pela extremidade oposta com cuidado, que desemboca numa avenida muito frequentada por guardas e não me apetece ser questionado.

E foi assim que Morit fez. Conduziu a carroça com cuidado, ao longo da estreita rua e entrou na avenida, vendo se não haviam guardas nas redondezas. E assim seguiu. Mais uma vez atravessaram a cidade e saíram pelo enorme portão, em direcção a floresta.

Rarum suspirou.

O caminho a frente era estranho e até assustador. A estrada percorria umas enorme planície de tons cinzentos, apenas com ervas rasteiras, e era extremamente estranho pois não viam nenhum dos imensos caminhantes que afluíam todos os dias a cidade. Talvez da distância pois tinham cerca de duzentos quilómetros pela frente e isso e muito espaço para caminhantes… podiam estar dispersos. Mas Rarum não quis saber. Apenas se preocupava em ir rapidamente para as suas terras. Lá muito ao longe, quase invisível aos seus olhos encontrava-se a grande floresta central, que ele tinha que atravessar para chegar a sua cidade. Duzentos quilómetros faltavam ainda para chegar a floresta, e mais de mil tinha de atravessar dentro dela, e depois dela mais setecentos para chegar a sua cidade, no vale de Ortich. Mas isso não o assustava! Sabia que ainda tinha de ir as montanhas e cidades dos elfos pois Morit tinha que lá tratar de assuntos. A floresta é um sítio lindo, mas escuro e talvez perigoso, para quem sai da estrada. Mas tinham também a protecção dos elfos nas suas casas nas árvores e isso agradava Rarum, pois anões e elfos são grandes amigos. A carroça seguiu pelas planícies frias. Lá atrás a cidade tornava-se mais pequena e as terras quentes do sul, distantes, encontravam-se agora fora do alcance visual.

Eram quase seis da tarde quando passou pelos olhos de Rarum uma vontade imensa de dormir. Achou estranho aquele súbito cansaço, pois não tinha acordado muito cedo e tinha-se alimentado bem. De qualquer maneira dobrou-se para trás, esticou-se o mais que pode e retirou um grande pedaço de pão que comeu devagar. Morit soltava breves e leves sorrisos, o que deixou Rarum num tal estado de agitação que mordeu a própria língua umas duas ou três vezes enquanto mastigava o pão. Mas a enorme sonolência que o invadia não lhe permitia sequer perguntar a Morit o que se passava. Aliás ele sabia o que se passava. Já tinha atravessado aquele lugar antes. Mas desta vez esqueceram-se de o avisar e o pobre anão esquecera-se completamente que tinha de atravessar o Pântano dos sonhos. Ora o Pântano dos Sonhos e uma enorme concentração de pó dos sonhos, pó esse usado por soldados, feiticeiros e até assassinos para por alguém a dormir. Este enorme pântano invisivel estende-se por oitenta quilómetros e só mascando folhas de hortelã se pode resistir ao seu curioso poder.

Mas enfim, Rarum não teve coragem para se dirigir a Morit, que nessa altura já se ria a gargalhada com o aspecto sonolento e cómico do seu alegre companheiro. Deixou de resistir, arrastou-se até á parte de trás da carroça e deitou-se numa abertura que se encontrava entre as malas e os sacos.

Viagem de um Anão – Capí­tulo 2 – Chá de tí­lia e pão com mel

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Depois de um ou dois segundos calados Morit quebrou o silêncio:

-Bom então está pronto?

 

 

-Estou sim Morit… estou farto de estar nesta cidade de homens presunçosos. E no outro bairro é só má gente! Maldita a hora em que me mandaram para aqui. Bom o que interessa e que era suposto eu ter vindo apenas entregar uma carta do meu venerável rei Loirin, o loiro, ao rei dos homens do sul, Sarat, e já cá estou á quase dois anos! Bom eu vou buscar a carroça a casa do guarda Lorent, o único amigo que fiz nesta maldita cidade, trago-a até a entrada da rua e depois carrego com as coisas. Lembre-me de deixar a chave por cima da porta, para a senhoria a levar.

- Rarum, meu amigo, não seria melhor acalmar-se, comer qualquer coisa e beber um chá quente? É melhor acalmar-se, com tanto nervosismo não chegará as montanhas vermelhas sem alguns acontecimentos indesejáveis pelo meio.

- Bom… talvez tenha razão meu sábio amigo. Tenho saudades das montanhas. Como vão as coisas por lá?

- Sinceramente, meu amigo, vão mal. Os seus compatriotas anões por 5 vezes, este ano, tiveram de se refugiar nos subterrâneos Vermgus. Mas as suas cidades continuam, seguras por enquanto.

É preciso descrever como eram as cidades dos anões. Ora estas eram apenas construídas nas zonas interiores das Montanhas vermelhas (e em tempos nos montes solitários que entretanto foram derrotados por inimigos cruéis). As que em tempos foram construídas nos montes externos são agora fortalezas contra os exércitos das ilhas negras.Ora estas cidades são construídas nas pequenas planícies (a maior, onde se situava Galit, a capital, tem apenas 4 km). No centro dessas planícies eram artificialmente elevados pequenos montes onde construíam o núcleo da cidade (palácio do senhor, mercado…), em volta as habitações e os pequenos comerciantes: ferreiros, mineiros, artesãos…) e por fim eram rodeadas por altíssimas muralhas cinzentas. Todas essas cidades eram construídas de forma circular, pois os anões diziam que em noites de lua cheia é a noite dos ferreiros, e os melhores ferreiros do mundo são, sem dúvida, os anões.

Ora Rarum pôs uma chaleira por cima da lareira e colocou lá as ervinhas da tília. Depois cortou duas fatias de pão, fininhas e barrou-as com bastante mel. Colocou cada uma no seu prato, entregou um a Morit e colocou o outro no colo, depois de se ter sentado novamente. Deu uma pequena dentada no pão e disse:

-Bom mas é lá que eu pertenço! Á minha querida terra. E se está em guerra eu combato. Antes de vir para esta maldita terra combati durante largos anos os Orcos de Itridin.

-Eu sei isso. Só estava a tentar avisá-lo de que os tempo por lá estão difíceis… as Ilhas Negras estão a ganhar terreno no reinos dos anões e na parte ocidental da floresta central. Apesar de esta parecer um sitio estranho devido as pessoas que de lá vêem parecerem sombrias isso não é assim: a grande floresta central só é estranha e perigosa num raio de cerca de 200 km a partir da ponte negra. De resto é o sítio mais seguro, neste momento, das terras do norte. Você devia ir para lá, olhe que as hostes de Itridin estão verdadeiramente evoluídas.

-Eu não tenho medo desse negro Feiticeiro, nem do seu negro bordão e muito menos dos seus negros emissários! Se ao menos as terras do sul não fossem inabitáveis (a não ser por homens primitivos, muito pouco evoluídos), e as terras tropicais não fossem atormentadas pelos furacões do verão eu iria para algum desses sítios… mas as terras do norte são as únicas habitáveis, neste milénio! Os tempos antigos passaram, e as terras longínquas do outro lado do mundo estão igualmente perdidas. Por isso eu digo que, contra os exércitos de das ilhas negras, estou tão seguro nas montanhas vermelhas como em qualquer parte da floresta central.

Nesse momento a água do chá começou a ferver e o som da chaleira a expelir vapor ecoou pela pequena sala e o anão correu para a lareira. Serviu duas chávenas de chá, entregou uma a Morit, e sentou-se com a outra na mão. Entretanto o pão com mel já tinha desaparecido e o prato já estava no chão.

Depois disse:

-Estou farto de pão, mel, chá de tília e tudo o mais que as pessoas desta estúpida cidade consideram “adorável” e “delicioso”. Um bom copo de vinho tinto das vinhas do norte, servido com um enorme prato de fatias de presunto, um bom queijo das montanhas e como sobremesa as mais diferente iguarias que os nossos admiráveis amigos Elfos nos fornecem são os melhores alimentos que alguém pode ingerir em todo o mundo! – parou durante uns segundos, enquanto dava um golo no chá quente, e prosseguiu – Maldita cidade “civilizada”! Irei para o norte sim, para defender o reino dos anões do poder de Itridin.

-Você decide, Rarum. Eu não o impeço de nada.

Vejo ser necessário contar quem é e o que fez Itridin. Ora no ano de 944 do 14º milénio, depois das guerras com os bárbaros das terras desconhecidas e de muitas outras guerras antigas, o poderoso feiticeiro Itridin foi encarregue de explorar as ilhas Aljin, no oeste das terras do norte (terras que na altura estavam a começar a ser habitadas, e as terras do sul, tal como as terras de Fultir, no outro lado do mundo, e as ilhas tropicais estavam
abandonadas). A travessia foi feita de barco, atravessando o estreito de Aljin, nas costas centrais do oeste das terras do norte. Itridin teve de fazer um desvio, depois de atravessar o estreito, ao longo da costa, para as praias do norte da Galdûr, a ilha principal, pois ate ai a costa era formada por gigantescas falésias de rocha cinzenta. Quando Itridin desembarcou, dirigiu-se para o centro de Galdûr. No caminho deparou-se com uma extensa e espessa floresta, com copas tão altas que tapavam a face do sol. O chão era coberto por raízes, mas graças a encantamentos Itridin conseguiu manter a sua rota em direcção ao centro da terrível ilha. Quando lá chegou encontrou uma grande rede de cavernas. Aí caminhou durante dias e dias ate que chegou a uma grande porta de ferro, prateado, com letras da língua antiga, que nem ele conseguia decifrar. Aí apenas conseguiu distinguir as duas palavras “Ortig sîn”, ou seja, caverna proibida, em língua antiga. Itridin tentou, de diversas formas (inclusive, com feitiços), abrir a grande porta, mas esta era protegida por algum tipo de feitiço antigo que ele desconhecia. Por fim Itridin desistiu e olhou fixamente para a porta, enquanto descansava sentado. De repente o seu bordão, que estava apoiado no chão, tremeu violentamente e caiu. Depois toda a sala começou a tremer e a porta cedeu. Um raio de sorte acabava de atingir Itridin. Quando o terramoto parou, Itridin correu para a sala de bordão apontado para a frente. O seu bordão (que era preto e com uma grande esfera vermelha) iluminou a sala com uma luz vermelha proveniente da sua esfera, e o que viu espantou-o por completo: uma estante cobria toda a parede, cheia de livros antigos, sobre as línguas perdidas, as lendas e mitos do mundo, todas as batalhas tinham um livro destinado a si, livros intermináveis sobre poções mágicas, fabrico de armas encantadas, livros de bordões mágicos, listas de todos os magos e feiticeiros do mundo e livros sobre… magia negra. No centro desse grande salão estava uma rocha cilíndrica com uma taça em cima que parecia ser de cristal mas totalmente negra. Itridin pensou no que deveria fazer e finalmente chegou a uma conclusão: iria levar a jarra para o exterior, pois não se atrevia a abri-la naquele lugar escuro, e voltaria acompanhado para levar os livros. E assim fez. Caminhou durante vários dias, com a pesada taça numa mão, e o bordão na outra mas graças a sua memória de feiticeiro consegui encontrar a saída.

Aí respirou durante largos segundos o ar fresco do exterior, mesmo que pesado devido á grande floresta. Depois pousou a grande taça numa pedra e ficou a olhar para ela durante uns minutos. A taça era realmente, toda de cristal e tinha duas asas, tinha cerca de cinquenta centímetros de altura e era toda negra. Era extremamente pesada, e isso Itridin já tinha percebido pois o seu braço terrivelmente dorido. Aproximou-se lentamente, colocou a mão na pequena esfera que ornamentava a tampa da taça e abriu-a. De repente um enorme impulso projectou-o para trás. Itridin rastejou até ao seu bordão, agarrou-o e virou-se novamente para a taça. Agora todo o mundo a sua volta era invadido por uma neblina de sombras. Itridin viu o poder das trevas invadirem-lhe a mente. Ele acabara de libertar o poder das trevas, de dentro da taça de Arnail. As sombras que os deuses élficos haviam aprisionado no inicio dos tempos. Itridin ouviu vozes na sua cabeça e foi corrompido. Passou-se para o mal naquele exacto momento. Depois voltou as cavernas. Durante dezenas de anos esteve lá, leu todos os livros da biblioteca, passeou-se pelas cavernas, ate as conhecer tão bem como a palma da sua mão. E lá cresceu em poder. Tornou-se no mais poderoso de todos os feiticeiros, e não haviam segredos na arte da magia para ele. Entretanto, os feiticeiros e magos começaram a estranhar a sua prolongada ausência. Então Vigil, o vigilante, foi enviado as ilhas negras para procurar Itridin. Encontrou-o nas cavernas. Itridin corrompeu Vigil e transformou-o no seu maior servo. Vigil foi enfeitiçado: seu corpo e suas vestes eram agora feitos de fogo e o seu bastão desfeito. Agora o primeiro senhor das trevas tinha um servo. Juntos criaram os orcos, óptimos arqueiros, fortíssimos, os Ogres, gigantes feios e verdes empunhando martelos enormes, e criaram Golin, o cavalo de Vigil, negro com crina, cauda e cascos de fogo. Depois construíram Ortig-sîn, uma grande cidade negra. Fortificaram as cavernas e transformaram-nas em negros recantos, onde os orcos e ogres criavam mas orcos e ogres. Por cima ergueram milhares de torres todas ligadas. Assim era Ortig-sîn, na ponta do negro desfiladeiro a que ele chamou “Montanhas Tar-Matir”. Depois queimaram toda a floresta, arrancaram as suas raízes. Descobriram que a floresta se estendia por toda a ilha de Galdûr e para além dela: também se estendia para Mortim, a segunda ilha. Depois das ilhas estarem transformada em terras de pó negro e estéril, Itridin mandou construir a fortaleza de Dol-Dilai, os portos de Argan, os portos de Escalera, a cidade de Silican, a ponte Galeer, a grande ponte Negra, rodeou Mortim e Galdûr de enormes muralhas ao longo da linha da costa e fortificou as pontes. Abriu as fendas de Escalera, gigantescas fendas no chão de onde ele subtraía a lava com que produzia o metal duríssimo com que fabricava as armas dos seus exércitos. Capturou cinco elfos que corrompeu e transformo nos formidáveis guerreiros Albidan, montados em cavalos negros. Depois de trezentos e cinquenta anos de evolução começou a guerra contra os anões e os elfos da grande floresta Central.

E assim se tem mantido há quatrocentos anos.

Bom voltemos a sala confortável de Rarum. Morit e o anão acabaram de beber o seu chá, e saíram de casa para ir buscar a carroça a casa do guarda Lorent.

Viagem de um Anão – Capí­tulo 1 – Um Estranho Caminhante

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No bairro Ocidental da cidade de Alin, uma cidade no sul da grande floresta central, situada numa longa planície, viviam muitas pessoas estranhas… era um bairro de caminhantes, de aventureiros e era atravessado pela estrada que entrava na Grande floresta, alguns quilómetros a norte. Ora não é difícil imaginar que um bairro onde passam milhares de caminhantes por dia (ainda para mais, atravessado por uma estrada que conduzia a um sitio tão imenso como a Grande Floresta Central) fosse um sitio algo estranho. Homens solitários alugavam quartos sinistros em pensões decadentes, velhos feiticeiros carrancudos instalavam-se literalmente no meio da rua e jovens aventureiros regressavam da floresta desfeitos. Nunca faltavam homens nas tabernas, e estas mantinham-se abertas graças ás desgraças dos pobres caminhantes, como que velhos abutres a espera da batalha. Ora pelo contrário, o velho bairro Oriental, o qual era significativamente longe da estrada, era menos mal frequentado, mas não menos agitado. No bairro Ocidental instalavam-se os estranhos que estavam de passagem, e no Oriental os habitantes fixos da cidade.

 
Porem houve um dia que um estranho homem entrou no bairro Oriental. Era um acontecimento nunca visto um homem destes entrar naqueles lados. Tinha aquele aspecto que as pessoas adoram definir como “marginal” “sem abrigo” ou “criminoso”. Como devem imaginar, toda a população do venerável bairro que se considerava “admiravelmente respeitável” e “veneradamente bem educada” parou os seus afazeres para observar, de alto a baixo, a estranha personagem. Ora era um homem raro de aparecer, tanto ali como em todo o lado. Tinha uma barba branca acinzentada que lhe chegava aos joelhos e que ele prendia entre o cinto, que era de um cabedal castanho-escuro incrivelmente gasto. Esse cinto prendia (para alem da grande barba) uma grande túnica azul-escura, túnica essa que era coberta com um manto azul-escuro, feito de uma espécie de seda que arrastava longamente pelo chão. As suas sobrancelhas eram brancas como a neve e os olhos verdes. O seu rosto era enrugado e preocupado. Tinha cabelos cinzentos que lhe chegavam as costas, mas que eram consideravelmente mais pequenos que a invulgar barba, e por cima desses cabelos erguia-se um altivo chapéu bicudo, sem aba, e que, adivinhem só, era azul-escuro… as suas botas não se viam pois eram tapadas pela longa túnica, e mesmo a andar, os pés nunca saiam de fora dela. Apoiava o peso do seu corpo (que devia ser pouco pois apesar de ter a altura de um homem normal, e de as suas vestes não deixarem ver a sua massa corporal, era obvio que andava demasiadamente apressado para homem gordo) num bordão de madeira que ultrapassava a sua cabeça em quatro ou cinco centímetros. Este não era totalmente direito e era feito se uma madeira clara, a qual tinha aspecto de ser magica pois era um castanho cor de leite com café, e nenhuma arvore tinha uma madeira deste tipo em todas as terras do Norte. Este bordão terminava na forma de uma ave de bico virado para baixo, como fazem os flamingos, mas o bico era totalmente cilíndrico e devia ter talvez um centímetro de diâmetro. A cabeça da ave tinha duas tiras de madeira rectangulares, com cerca de vinte centímetros de altura, com alguns milímetros de diâmetro, mas extremamente resistente, que subia e dava uma volta. Entre as duas encaixava um cristal redondo. Era um cristal transparente, com algumas partes esbranquiçadas.

Ora esta estranha personagem andou apressadamente pela rua principal, olhando para todos os lados procurando algo ou alguém (sempre sobre o olhar atento dos populares). Chegou a uma rua estreita e por ai se meteu. Essa rua tinha pouca luz mas dava para ver bem as portas. As casas, como em toda a cidade eram de pedra branca, mas as portas eram de uma madeira exótica. Ao chegar a porta número dezassete parou, olhou atentamente para a varanda em cima, durante alguns segundos, e por fim bateu na porta com a sua mão áspera. Esta demorou intermináveis segundos a produzir algum som. De repente, do interior da casa, ouviu-se um som. Eram sons de passos. Eram passos ruidosos. De repente a porta rangeu e abriu-se lentamente. Apareceu uma cara assustada por entre a porta, as assim que esta reconheceu os estranho homem (pelos vistos, não era o seu primeiro encontro) o medo desapareceu do seu olhar e abriu a porta por completo. Era uma figurinha baixa, talvez de um metro e vinte, barba pela cintura e cabelo igualmente pela cintura com vestes multi-colores, todas elas, cores muito vivas e um cinto com a fivela de prata (cinto esse que segurava um punhal com a pega de ouro). A barba e o cabelos eram brancos como a qual, ao contrario do seu rosto que era queimado e enrugado. Os seus olhos eram um laranja acastanhado… não era cor de mel, era mais escuro. As suas sobrancelhas, ao contrário do cabelo, eram ruivas e estranhamente peludas. As suas mãos eram pequenas, e os pés (encontrava-se descalço pois estava em sua casa) eram grandes e enrugados.

Ora tudo isto faz qualquer um deduzir que esta criatura seria um anão. E era isso que ele era.

-Morit, meu amigo! Há muito aguardo por si! Então por onde tem andado, seu velho mocho? Praticando mais um dos seus grandes feitiços? Ah sua raposa matreira, nem sabe as tormentas que tenho passado nesta maldita cidade de homens! – disse o nosso anão com olhar extremamente alegre.

Como já devem ter percebido o estranho homem chamava-se Morit e era um feiticeiro. Ora como resposta, Morit disse a Rarum (esse era o nome do anão):

-É bom que me respeite Rarum! Pois eu sou um Mago, não um mago qualquer, mas sim Morit, o caminhante!

Seguiu-se o silêncio, com os dois fintando-se atentamente. Depois, não aguentando mais a pressão (pois o olhar de um mago e bastante cansativo), quebrou o silêncio e disse:

-Ora deixe-se de patetices e entre de uma vez! O pão já e de anteontem e quanto mais demorarmos mais ele endurece!

Morit começou a rir-se e, ao mesmo tempo que passava pela porta de entrada disse:

-Pois bem, você nunca me ganhará, o meu olhar de mago não deixa ficar calado. Ah ah ah!

-Um dia eu ganharei Morit, escreva o que eu lhe digo!

E com estas palavras Rarum fechou a porta olhando atentamente, para ter a certeza de que ninguém havia seguido o feiticeiro até ali.

A casa do anão era realmente bonita, apesar de bastante pequena pois aquela rua era demasiado estreita para albergar mansões. Toda a casa era como que “forrada” com madeira, inclusive o tecto. Era baixa, mas alta o suficiente para albergar um homem, mesmo que alto. Passando por um estreito e baixo corredor, com uma longa alcatifa foram dar a uma sala com três confortáveis cadeirões, outra grande alcatifa, uma mesa de madeira, baixinha, com centenas de mapas, livros, papeis soltos… enfim uma grande confusão típica de um anão (ainda para mais, um anão amigo de caminhantes, e para aumentar mais o vosso conhecimento sobre Rarum digo-vos que ele próprio era um caminhante!). Tinha também uma grande lareira (que se encontrava com uma grande chama acesa no seu interior) e por cima estava um mapa das terras do norte, desenhado por ele próprio e orgulhosamente emoldurado. Ora nas terras do norte as temperaturas de verão está entre os 30º graus no norte e os 40º no sul. Mas as de Inverno encontram-se entre os 25º graus no sul e os -10º no norte! Ora nesse dia de Inverno estavam 20º graus em Alin. Por isso Morit, como se fosse o dono da casa, arrastou a mesa para o canto da pequena sala, também esta forrada de madeira, colocou um dos grandes cadeirões em frente da lareira, sentou-se confortavelmente, encostou o bordão ao ombro e ergueu as mãos de palmas viradas para o fogo. Rarum fez o mesmo.