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Filhos de Húrin, ou Tolkien: Os Estudiosos e os Crí­ticos

Em Babel-17, de Samuel R. Delany, há uma descrição de uma arma que
pode se parecer como uma pedra ou um pedaço pequeno de metal. Ela é basicamente
não é detectável, mas se você introduzi-la sorrateiramente em uma espaçonave e
colocá-la perto de qualquer tipo de "sistema de estase-inércia", a
nave irá se desintegrar assim que você tentar viajar pelo espaço.

 

Acho que O Senhor dos Anéis possui o mesmo tipo de efeito nas teorias
de boa literatura. Pegue a teoria de algum crítico a respeito do que é
"boa literatura", coloque Tolkien nela e observe o edifício inteiro
desmoronar sobre as suas próprias contradições.

Por exemplo, como Tom Shippey mostra de maneira tão bela,
Philip Toynbee diz que "O Bom Escritor" pode escrever sobre qualquer
coisa, até mesmo "duques incestuosos na Terra do Fogo", e cabe ao
público se ajustar à obra e não desconsiderá-la como estranha ou diferente
demais. Aparentemente o Sr. Toynbee deixou de mencionar a cláusula adicional de
sua teoria de que "duques incestuosos não tem problema, mas Elfos não são
permitidos", pois Tolkien encaixa-se perfeitamente na descrição de Toynbee
(e de muitos outros) de "O Bom Escritor", e ainda assim Toynbee, e
"Bunny" Wilson, Salman Rushdie e, mais recentemente, Bryan
Appleyard
, claramente sequer colocariam Tolkien próximo do panteão deles
dos "Bons Escritores".

E mesmo assim ele se encaixa tão bem nos critérios:
Lutar com a recalcitrância da língua inglesa? Confere (exceto que Tolkien sabia
mais sobre a estrutura e complexidade do inglês, sua história e seu
desenvolvimento do que Pound, Eliot ou Joyce – embora Joyce provavelmente
tivesse um sentido fono-estético internalizado tão profundo quando o de
Tolkien, ainda que não tão teorizado explicitamente). Seguir sua imaginação
onde quer que ela vá? Confere. Recusar-se a aceitar os pressupostos de
ideologias contemporâneas? Confere. Escrever para si próprio e não se preocupar
com as opiniões ou com críticos ou com editores ou mesmo com a posteridade?
Confere.

Logo, o que isso mostra? É tentador tentar devolver as palavras dos críticos
hostis a eles em um tipo de judô intelectual, mostrando que Tolkien tem
o seu lugar entre os outros grandes escritores, adequando-se precisamente nas
categorias de Bunny Wilson e outros. Tom Shippey (que é uma pessoa muito mais
gentil e mais razoável do que eu) faz isso muito bem. Ele parece querer dizer a
esses críticos: "Abram os olhos. Usem suas próprias teorias. Isto é o que
vocês disseram que era boa literatura. Tolkien se encaixa em todos os seus
critérios".

Eu, por outro lado, (que não sou nem tão instruído nem tão legal quanto
Shippey) acredito que Tolkien mostra que a maioria das teorias estéticas modernistas
– pelo menos o tipo que foi internalizado pelos críticos que publicam no Times
e em outros meios da elite – são uma bosta. Desculpe, isso não foi educado e
poderia ser melhor reformulado: as teorias estéticas de pessoas como Bunny
Wilson, Toynbee, Judith Shulevitz, Bryan Appleyard, Michiko Kakutani (quando se
dão ao trabalho de articular todas elas) são compostas igualmente de evasivas e
suposições profundamente enraizadas que, assim que são questionadas, não podem
ser sustentadas.

Deixe-me ver a primeira
resenha de Os Filhos de Húrin de J. R. R. Tolkien, feita por Bryan
Appleyard
. É tentador (ah, tão tentador) "esmiuçar" a resenha,
dividindo-a em parágrafos e mostrando o que há de errado com cada um, mas
deixarei isso para outros. Em vez disso, quero chamar a atenção para algumas
suposições muito importantes e não-questionadas as quais acredito que deveriam
ser questionadas.

Appleyard começa citando A. N. Wilson no argumento de que Tolkien "não era
realmente um escritor" mas sim um criador de mundos. Esse é um insight
muito útil das idéias de Wilson e Appleyard. Um "escritor", sob esse
aspecto, não é alguém que publica livros ou mesmo escreve privadamente. Um
escritor é algo mais, um membro de algum subgrupo de pessoas que publicam
livros. Um "escritor" (ao contrário de um escritor) pertence a um
grupo específico.

Como é esse grupo? De acordo com o parágrafo seguinte, ficamos sabendo que
escritores devem ser aquele subgrupo de pessoas que escrevem e que estão
preocupadas com o estilo. Esse é um começo promissor; eu mesmo acredito que a
maior lacuna entre Tolkien e os seus críticos é que as metodologias críticas
contemporâneas não são muito aplicáveis ao estilo de Tolkien, de modo que talvez
estejamos chegando a algum lugar.

Mas então ficamos sabendo que Tolkien preocupava-se com o estilo, só
que, aparentemente, da maneira errada. Ele estava interessando no estilo de Beowulf,
de Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, das sagas nórdicas "e,
especialmente no caso deste último livro… de Wagner"
(ênfase
chocada minha): "A abordagem óbvia para um autor contemporâneo que queira
recuperar tais formas é atualizar o estilo delas e, talvez, colocá-las em um
contexto contemporâneo".

Ficamos sabendo agora de coisas ainda mais importantes: para ser um escritor, é
preciso "atualizar" o próprio estilo. Essa é a abordagem
"óbvia". Então, se seguirmos essa linha de raciocínio, embora possa
haver coisas boas e importantes em textos antigos, se alguém vivo agora quiser
escrever sobre essas coisas boas, deverá "atualizar-se" ao estilo ou
mesmo ao contexto contemporâneo. A suposição não-dita porém dominante deve ser
a de que o estilo contemporâneo é melhor do que estilos mais antigos
(do contrário, para que "atualizá-lo" – atualizar implica
melhoramento).

Vemos aqui então que Appleyard (e suponho que Wilson e muitos outros) vem
aceitando inconscientemente uma ideologia estética progressista
enunciada abertamente pela última vez por escritores do final da era vitoriana,
mas que obviamente ainda exerce uma influência muito forte. Se você seguir essa
linha de raciocínio, parece que a arte da escrita está sendo continuamente
aprimorada, de modo que o que é mais recente é melhor (embora a distribuição
desigual de talento no decorrer das eras signifique que alguns grandes
escritores antigos ainda valem a pena ser lidos mesmo que não tenham sido
"atualizados").

Ou há a possibilidade de que possuímos uma variedade de progressivismo estético
na qual não é preciso afirmar que, digamos, Hemingway é esteticamente superior
a Shakespeare, mas que cada um é mais "adaptado" à sua época e,
assim, se Shakespeare escrevesse exatamente as suas palavras em 1941, a obra de
Hemingway seria superior. Creio que provavelmente é onde a maioria dos críticos
literários jornalísticos (como Appleyard, Shulevitz, Kakutani) acabaria: não em
um progressivismo estético absoluto, mas em um relativo: há um estilo
que é apropriado para um determinado período de tempo, e desviar demais desse
estilo constitui uma má literatura.

Mas eis aqui uma rápida experiência de opinião: digamos que alguém descubra, em
algum arquivo empoeirado, um soneto shakespeareano ou uma obra chauceriana
genuína (por exemplo, o perdido Livro do Leão) ou outro poema escrito
pelo poeta do Beowulf. Poderia essa ser uma grande obra de literatura?
Não creio que alguém iria argumentar que não poderia (isso dependeria, é claro,
da qualidade do texto). Agora, imaginemos que, após 100 anos, inúmeros artigos
acadêmicos, etc., descobríssemos que o texto encontrado fosse na verdade uma
criação do século XX. Aquelas mesmas palavras passariam de boa literatura para
má literatura? E se fosse descoberto que uma obra canônica fosse uma invenção
posterior? Se Beowulf tivesse sido escrito no período Tudor ele agora
seria um poema ruim?

De acordo com as suposições que Appleyard parece estar seguindo, me parece que
o autor e o período são o que valem, não as palavras específicas no papel.
Contudo, não estou ciente de qualquer argumento lógico para tal ponto
de vista. Joyce ou Eliot serem melhores estilistas da prosa que Tolkien –
"(artistas muito superiores)", diz Appleyard, sem explicar por que –
pressupõe algum modo de julgar o estilo da prosa. Mas quando tentamos
compreender o que o autor da resenha quer dizer com um melhor estilo de prosa,
nos deparamos com evasivas: "profundidade" (indefinida) ou
"tendências mais profundas" (indefinidas).

Appleyard continua (a respeito de Os Filhos de Húrin): "O
pensamento moderno está claramente sendo arrastado pelo pescoço para longe de
sua zona de conforto literário". Essa é uma passagem muito boa, e bem
provável que seja verdadeira, mas ele a diz como se fosse uma coisa ruim.
Parece-me que a maior parte do que ouvi sobre o poder e a importância da arte e
da literatura modernistas e pós-modernistas diz respeito a tirar as pessoas de
suas zonas de conforto: não é essa a mensagem básica de cada uma das Bienais
Whitney desde, digamos, a década de 80? Mas quando Tolkien faz isso é ruim. É
por que há Elfos? (Alguém esqueceu de mencionar novamente a cláusula adicional
"sem Elfos"?)

Appleyard menciona que ele "desistiu" de O Senhor dos Anéis
porque a prosa de Tolkien é "completamente superficial, sem nenhuma das
tendências mais profundas que constituem uma boa ou excelente obra". Aqui
fiquei realmente confuso. Se há algo que o estudo das obras de Tolkien mostrou
é que há uma "profundidade" imensa por trás das escolhas de
palavras e imagens de Tolkien: quando Tolkien usa "eyot" [arc.
"ilhota"] ou "laving" ["lavando"] ou "louver"
["gelosia"] ou "ninnyhammer" [coloq. "idiota
cabeça-dura"] ou "dwimmerlaik" [ing. médio "criatura
espectral"], ele está usando termos técnicos precisos e fazendo a ligação,
através de referências literárias, com obras de literatura mais antigas (assim
como Eliot faz em "A Terra Desolada", que Appleyard menciona). Quando
Tolkien usa construções sintáticas tais como "Come not between the Nazgul
and his prey" ["Não te intrometas entre o Nazgul e sua presa"]
ou "That was a grim meeting" ["Aquele foi um encontro
sinistro"], ele faz uso de referencialidade tradicional para invocar
contextos literários maiores. Quando conta a história de Túrin dormindo por fim
com sua irmã e cometendo suicídio quando descobre, ele está fazendo referências
ao Kalevala finlandês e pegando um tipo de motivo do folclore e
transformando-o em uma história com personagens mais complexos e ironias mais
específicas ("atualizando", se preferir). Infelizmente, se você for
um crítico literário mas não um estudioso, se você for um jornalista que cita Beowulf
ou Sir Gawain e o Cavaleiro Verde mas não os leu com atenção (ou, em um
dos exemplos acima, Rei Lear), você não entenderá o recado.

Logo, não é que a prosa de Tolken careça de profundidade, mas sim que as
profundidades às quais ela faz referência não são as profundidades que o
crítico conhece. Mas por que Tolkien é o culpado aqui? O grande escritor,
segundo Toynbee, não tem que se adiantar e o crítico se esforçar para
acompanhar? Quem determinou que o conjunto de referências e textos deve ser
aquele com o qual o crítico sente-se confortável? Eliot parecia estar zombando
da falta de erudição de muitos críticos quando publicou suas próprias notas de
rodapé para "A Terra Desolada", e os críticos que não compreendem as
referências de Tolkien também carecem de erudição (de um tipo diferente,
"setentrional" em vez de clássica, por exemplo), mas em vez de se
esforçarem para adquiri-la, eles supõem que as referências são obscuras,
"provincianas", "dônicas", "pouco sólidas".

A comparação de Appleyard com o Único e Eterno Rei de T. H. White é reveladora. A obra de White é repleta
de ironia, aquele condimento multiuso dos escritores modernistas,
críticos e jornalistas. Tolkien tem realmente muito pouco interesse nesse tipo
de ironia (que com freqüência é, na minha opinião, superficial, embora não no
caso de White). A ironia, porém, é fácil para o crítico e lhe permite manter
uma pose de superioridade, que é essencial se você vai dizer às pessoas do que
elas devem ou não gostar (em vez, digamos, explicar como um artefato estético
produz seus efeitos em diferentes leitores). É uma camada adicional de ironia:
não apenas o leitor sabe de coisas que o personagem não sabe, como se supõe
que o crítico sabe de coisas, coisas importantes, que o autor não sabe
.

É irônico, portanto, que Os Filhos de Húrin seja conduzido
por uma série de ironias dramáticas, e talvez por isso Appleyard pareça
basicamente gostar do livro, apesar do uso de "provincianas",
"pouco sólidas" e a menção de que Dungeons and Dragons "dominava
quartos fétidos de universitários" em 1974 (fale pelo seu próprio quarto,
meu chapa) –, tudo com a intenção de mostrar que Appleyard é realmente um dos
meninos legais, com um gosto discriminante.

Há também muita "profundidade" em Os Filhos de Húrin, mas a
profundidade, como Gergely Nagy mostrou no melhor artigo escrito sobre Tolkien
na década passada, está relacionada com o próprio conjunto de textos de
Tolkien. Ao contrário de outras fantasias imitativas, a obra de Tolkien produz
a "sensação" de se estar lendo um mito. Suas camadas de poemas,
histórias, anedotas, anais e rascunhos funcionam para produzir o tipo de
textualidade possuída, por outro lado, apenas por obras que foram tratadas por
muitos escritores e leitores no decorrer de muitos séculos. Nenhuma outra
pessoa conseguiu esse feito, antes ou desde então: não Joyce, Pound, Eliot,
Morrison, Rushdie ou mesmo Eco (Borges talvez chegue perto).

Ora, esse não é o único critério para a excelência estética, mas ao menos
possui a vantagem de ser explícito: O Senhor dos Anéis, e agora Os
Filhos de Húrin
, dispõe-se a algo que era impossível anteriormente:
escrever uma história nova que dê ao leitor a impressão de estar lendo uma
história muitíssimo antiga. Não tenho muito tempo para a discussão inacreditavelmente
tediosa "Tolkien criou uma nova mitologia?" (minha resposta: não no
início, mas talvez ela esteja se tornando uma), mas creio que está claro que
ele conseguiu fazer com que a sua obra parecesse ser mitológica em vez de
inventada. Esse efeito estético não fazia parte do projeto modernista (e é
possível que seja bem contrário a ele), mas ele, no entanto, é um efeito que
muitos leitores sentem intensamente. Um bom crítico deveria tentar explicar os
efeitos do livro sendo criticado.

Meus alunos se divertem com a metodologia crítico-literária (muito) antiquada
de comparar cada obra de literatura com Homero e Virgílio (60% tão bom quanto
Homero e 75% tão bom quanto Virgílio, simplificando). Mas a crítica
jornalística em voga parece estar fazendo exatamente isso, sem o benefício de
nomear os modelos ou de reconhecer a metodologia.

Porém, talvez pudéssemos resolver muitos problemas tornando oficial uma nova
máxima. Chame-a de lei de Dyson: É impossível que a boa literatura inclua um
Elfo.

Não acredito que tal regra tenha sido provada alguma vez, mas a impressão que
fica é a de que muitos críticos a aceitaram como absoluta. Eu adoraria ver as
linhas gerais do argumento.

— 

Michael D. C. Drout é Professor de Inglês na Wheaton
College, em Norton, Massachussets, E.U.A, onde leciona Inglês Antigo (Anglo-Saxão),
Inglês Médio, literatura medieval, fantasia, ficção científica e produção
textual. É autor de Beowulf
and the Critics
, J. R. R. Tolkien Encyclopedia e editor do jornal
literário Tolkien Studies.

(Fonte: Wormtalk and Slugspeak)

 

"Por que demoraram tanto?", uma resenha de Os Filhos de Húrin

Trinta anos depois de sua morte, Tolkien
produziu um novo romance – com uma pequena ajuda de seu filho. Poderia esse
grande mito levar os leitores de volta à Terra-média?
 

Esta
é, como colocou o neto de Tolkien, Adam, a "versão do diretor" de Os
Filhos de Húrin – embora eu não tenha certeza se o diretor em questão é o
pai ou o filho.

Porém,
o próprio fato de ser esse o modo pelo qual o livro surgiu aponta para uma das
mais reveladoras estranhezas da obra de Tolkien. Ele não era, primeiramente, um
romancista e, como sugeriu A. N. Wilson, não era realmente um escritor. A
tarefa a qual ele se propôs foi a de criar o mundo, a Terra-média, que veio
antes do nosso. Ele assim o fez através de mapas, etimologias, raças inventadas
– principalmente elfos e orcs – e vastas e indecifráveis genealogias complexas.
Os livros surgiram dessa montanha de invenções curiosas. Contudo, eles sempre
foram fragmentos do todo. Ao ler Tolkien, a pessoa fica constantemente ciente
da vasta história de fundo que provavelmente jamais completamente conhecida
pois, como um todo, ela encontrava-se apenas na cabeça de Tolkien. Os romances,
em outras palavras, foram produtos derivados de um projeto muito maior.

A
acusação de Wilson de que Tolkien não era realmente um romancista deixará
milhões horrorizados, mas ele tinha razão. O estilo de Tolkien – de fato, sua
abordagem inteira – era derivado de poemas narrativos ingleses tais como Beowulf
e Gawain e o Cavaleiro Verde, das sagas nórdicas e, especialmente no
caso deste último livro, de Wagner. Essas eram histórias de heroísmo e magia,
de valores absolutos, das últimas coisas. A abordagem óbvia para um autor
contemporâneo que queira recuperar tais formas é atualizar o estilo delas e,
talvez, colocá-las em um contexto contemporâneo. Isso enfaticamente não é o que
Tolkien se propôs a fazer. Ele queria recriar o mundo e os idiomas daquelas
histórias, ajustadas apenas marginalmente aos ouvidos modernos. Uma frase do
primeiro parágrafo de Os Filhos de Húrin confirma isso: "Sua filha
Gloredhel casou com Haldir, filho de Halmir, senhor dos homens de Brethil; e,
na mesma festividade, seu filho Galdor, o alto, desposou Hareth, a filha de
Halmir."

Essa
é uma escrita demasiadamente "retrô".

O
pensamento moderno está claramente sendo arrastado pelo pescoço para longe de
sua zona de conforto literário. O argumento de Wilson foi o de que, tendo feito
esse gesto, o interesse de Tolkien no estilo terminara. Ele o compara a Iris
Murdoch: "Na verdade, Murdoch e Tolkien tinham isso em comum, embora
dificilmente pudessem ser mais diferentes em outros aspectos: como Murdoch,
Tolkien não se preocupava com o 'estilo', simplesmente fazendo uso, onde O
Senhor dos Anéis estava em questão, de sua prosa sub-William Morris".

Isso
está exatamente correto. Anos atrás, desisti de O Senhor dos Anéis e O
Hobbit precisamente porque a prosa parecia ser completamente superficial,
sem nenhuma das tendências mais profundas que constituem uma boa ou excelente
obra. Minha fome infantil por fantasia foi saciada pela inteligência, elegância
e poder da série de romances de T. H. White O Único e Eterno Rei. Depois
disso, Tolkien pareceu raso e freqüentemente puritano, de uma maneira
provinciana e "dônica" [N.T.: "dônica" = relativa aos dons
de Oxford, como Tolkien]. Concordei inteiramente a afirmação de um certo Hugo
Dyson, ao ouvir Tolkien ler uma parte de O Senhor dos Anéis: "Não
outra mer** de elfo".

Dito
isso, Os Filhos de Húrin é um tipo diferente de maçada. Não desisti de
lê-lo, principalmente porque um estilo intenso e muito adulto o salva das
falhas de suas outras obras. A prosa ainda é mais gestos do que profundidade,
mas há um sentimento real de grande seriedade. Não é uma história para crianças
como O Hobbit e é muito mais sombrio do que O Senhor dos Anéis. É
Tolkien no modo wagneriano. De fato, pode ser possível dizer que é o echt
Tolkien [N.T.: echt = "genuíno", em alemão]. A popularidade de
suas outras obras pode bem tê-lo desviado da seriedade e intensidade da sua
visão da Terra-média. Ele era um católico devoto, e embora o cristianismo não
esteja explicitamente presente, há um desenrolar dramático de história e
salvação no decorrer da obra. Esse era um homem que realmente queria dizer
aquilo com o que dizia. Mas por quê? O que tudo isso queria dizer? A primeira e
mais óbvia afirmação a se fazer é sobre o contexto. A Terra-média nasceu nos
dias sombrios da primeira guerra mundial e O Senhor dos Anéis foi
escrito durante e logo após a segunda. Seria absurdo ver os senhores do mal
Morgoth e Sauron como o Kaiser e Hitler; Tolkien de fato sempre negou qualquer
intenção alegórica. Entretanto, seus sonhos de lutas antigas e épicas entre o
bem e o mal parecem um modo de dar sentido à matança sem sentido e globalizada
do século XX.


mais uma peculiaridade nisso. Tolkien é visto convencionalmente como uma figura
antimodernista. Ele tinha aversão à tecnologia, e sua busca pelo antigo parece
ecoar aquelas dos Pré-Rafaelitas e do fantasista gótico Augustus Pugin,
projetista do Palácio de Westminster.

Isso
pode ser visto como escapismo, uma rejeição do engajamento modernista com o
presente e o futuro, mas não tenho certeza se isso é realmente justo. Compare,
por exemplo, o projeto de Tolkien com duas das maiores obras da literatura
modernista. Ulisses de James Joyce conta a história da vida comum de um
dia de Dublin como uma recapitulação da lenda do herói errante grego. A
Terra Desolada de T. S. Eliot é um panorama mitológico, baseando-se nas
histórias do passado para lançar uma luz devastadora sobre a condição do
presente, a coisa toda assombrada pelo espectro do colapso mental.

Em
outras palavras, embora completamente diferentes (e artistas muito superiores),
esses escritores estavam fazendo algo similar a Tolkien: tentando lançar uma luz
sobre o presente ao adaptar as histórias e mitologias do passado. O projeto de
Tolkien, na verdade, era mais como simples escapismo – seu passado, afinal de
contas, era inteiramente invenção sua – mas isso não diminui a importância
desse projeto como um sintoma fundamental da condição moderna.

De
fato, em virtude das vendas e do impacto cultural global das histórias da
Terra-média de Tolkien, seria insano tentar diminuir a importância de seu
projeto. Esses livros claramente se fizeram sentir na atualidade. Há uma
demanda, não exatamente por fantasia – tanto Christopher e como Lee concordam
que não querem que Tolkien seja confinado confortavelmente ao gênero da
fantasia –, mas por histórias que pareçam melhores, mais grandiosas, maiores e
mais estranhas do que as narrativas monótonas do mero presente. Enquanto O
Senhor dos Anéis encontrava-se no meio de sua ascensão nas listas de livros
mais vendidos ao redor do mundo, o jogo de tabuleiro Dungeons & Dragons,
vendido pela primeira vez em 1974, dominava quartos fétidos de universitários.
Hoje, seriam jogos de computador igualmente fantásticos, como World of
Warcraft. A magia, em uma era de descrença, persiste em curiosos intervalos do
contemporâneo.

Além
disso, tanto os filmes de Star Wars como os livros de Harry Potter confirmam o
anseio contemporâneo pela narrativa grandiosa e mágica. Glaurung, o dragão,
parece-se muito com Jabba o Hutt, e a espada falante de Turin poderia pertencer
a Harry. Parece haver uma necessidade, em todas as culturas modernas, pela
história que transcenda tempo e espaço, que, ao escapar dos pormenores e
compromissos do presente, trate diretamente das questões fundamentais da vida.
Se o Tolkien provinciano eleva nossa vista acima do mundano com sua prosa
precipitada e gestual e suas mitologias extravagantes, então quem sou eu para
reclamar? De qualquer forma, como um livro, não apenas como um fragmento de um
projeto, Os Filhos de Húrin, de seu próprio modo pouco sólido, porém
também digno de admiração, funciona.

Seis
mil anos antes de Bilbo Bolseiro encontrar o anel de Sauron, nasceram Turin e
Nienor, filhos de Hurin, chamado de O Inabalável, senhor de Dor-lomin, esposo
de Morwen. Turin guerreou com Morgoth e matou Glaurung, o primeiro dos dragões
de Morgoth. Mas…

Não,
é melhor eu não continuar. O enredo de Os Filhos de Húrin de J. R. R.
Tolkien está prestes a emocionar e intrigar milhões. O livro possui uma tiragem
inicial de 500.000 exemplares ao redor do mundo, mas isso será apenas o começo.
O Senhor dos Anéis de Tolkien vendeu 150 milhões de exemplares –  50 milhões desses desde que os filmes de
Peter Jackson foram lançados. Outros 50 milhões de exemplares de outros
Tolkiens, principalmente O Hobbit, também foram vendidos. É seguro dizer
que o "grande conto" de Turin está prestes a se tornar um mito
global.

O
livro foi restaurado pelo filho de Tolkien, Christopher, a partir dos escritos
reunidos de seu pai. A história foi iniciada em 1918, mas nunca foi formalmente
organizada em um romance. Christopher agora realizou isso, usando, diz-se,
apenas as palavras de seu pai, com poucas mudanças gramaticais. Em teoria, isso
levanta possibilidade de restauração de outros grandes contos deste período – A
Queda de Gondolin, Beren e Luthien foram sugeridos, e A Balada de Leithian – mas,
na prática, nenhum desses parece estar no estado completo, porém disperso, de Os
Filhos de Húrin. Esse provavelmente será o último conto completo de
Tolkien.

O
momento é significativo. Os filmes mudaram fundamentalmente o status dos
livros. Como me conta Alan Lee, o ilustrador de Os Filhos de Húrin e
vencedor do Oscar pela direção de arte dos três filmes, há algo literal sobre o
filme. Ao desenhar para Jackson, ele se viu tendo que detalhar cada nuance.
Enquanto Tolkien podia rabiscar em uma página de prosa, a audiência do cinema
moderno quer a coisa toda na tela. Além do mais, foi criada uma geração de fãs
de o Senhor dos Anéis – mas não necessariamente de leitores de Tolkien. A
ênfase deixou de estar nos livros.

Isso
parece explicar, pelo menos em parte, pontualidade de Os Filhos de Húrin.
Christopher falou pela primeira vez com David Brawn, diretor de publicações da
HarperCollins, sobre o livro há dois anos, quando o rebuliço dos filmes estava
pronto para diminuir. Brawn acredita que foi uma clara tentativa de trazer a
obra de seu pai de volta às páginas impressas. E de fato, para Lee, foi uma oportunidade de escapar do
literalismo dos filmes e voltar para o seu estilo assombroso, sugestivo e muito
inglês de contos de fadas.

Contudo,
um novo Tolkien póstumo é um risco. Em 1977, a publicação de O Silmarillion
foi criticada porque o livro incluía interpolações de Christopher. A acusação
era de que o espólio estava explorando o legado. O livro foi chamado em
zombaria de "The Sell-a-Million" [N.T.: trocadilho com o nome
"Silmarillion"; literalmente "O Vende-um-Milhão"]. A
implicação era a de que Tolkien estava se tornando uma marca em vez de um
autor, um processo certamente acelerado pelos filmes. Por outro lado, é
trabalho dos executores literários encontrar bons materiais não-publicados. Se
Christopher não fez mais do que amarrar uma história coerente a partir da prosa
de seu pai, não vejo muito problema. Ele apenas fez o que seu pai pretendia.

(Fonte: Times
Online
)

[Salão do Fogo]O Silmarillion, cap. VII: "Das Silmarils e da Inquietação dos Noldor"

A
nona sessão do Salão do Fogo está chegando, tendo como tema o
Capítulo VII da Quenta Silmarillion, "Das Silmarils e da Inquietação dos Noldor".

A discussão será neste sábado, dia 24/03, das 17:00 até 19:00h, no canal #dagorlad no servidor Brasnet. Para saber como instalar o mIRC, entrar no servidor e nos canais e muito mais, leia com atenção a FAQ Brasnet/mIRC.

 

[Salão do Fogo]O Silmarillion, cap. VI: "De Fí«anor e da libertação de Melkor"

A oitava sessão do Salão do Fogo se aproxima, tendo como tema o
Capítulo VI da Quenta Silmarillion, "De Fëanor e da libertação de Melkor".

A discussão será neste sábado, dia 03/03, das 17:00 até 19:00h, no canal #dagorlad no servidor Brasnet. Para saber como instalar o mIRC, entrar no servidor e nos canais e muito mais, leia com atenção a FAQ Brasnet/mIRC.

 

[Salão do Fogo] Silmarillion, Cap. V: "De Eldamar e dos Prí­ncipes dos Eldalií«"

A sétima sessão do Salão do fogo está para começar, tendo como tema o Capítulo V da Quenta Silmarillion, "De Eldamar e dos Príncipes dos Eldalië".

A discussão será neste sábado, dia 17/02, das 17:00 até 19:00h, no canal #dagorlad no servidor Brasnet. Para saber como instalar o mIRC, entrar no servidor e nos canais e muito mais, leia com atenção a FAQ Brasnet/mIRC.

 

[Salão do Fogo] Silmarillion, cap. II: "De Aulí« e Yavanna"

A quarta sessão do Salão do Fogo ocorrerá depois
de amanhã, então já está mais do que na hora de se preparar para a discussão!
 

O tema desta sessão será o Capítulo II da Quenta
Silmarillion, "De Aulë e Yavanna". Como o nome indica, o assunto principal
naturalmente será a criação dos Anões e dos Ents. Além do próprio capítulo em
questão, recomendamos como leitura suplementar os seguintes textos:

Dos
Anões e Homens

- Eles,
os Anões!

- Eles,
os Anões!, parte 2

A discussão será neste sábado, dia 27/01, das 17:00
até 19:00h, no canal #dagorlad no servidor Brasnet. Para saber
como instalar o mIRC, entrar no servidor e nos canais e muito mais, leia com
atenção a FAQ
Brasnet/mIRC
.

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[Salão do Fogo] Silm, cap. I: "Do Iní­cio dos Tempos"

A terceira sessão do Salão do Fogo se aproxima,
e agora para começarmos a Quenta Silmarillion propriamente dita! 
O tema desta sessão será o Capítulo I da Quenta
Silmarillion
, "Do Início dos Tempos".
 

Como na última sessão o "Valaquenta" foi
discutido praticamente só até a sua metade, caso os participantes tenham
interesse a parte inicial do Salão poderá ser dedicada ao término dessa
discussão, para só então entrarmos na Quenta Silmarillion.

A discussão será neste sábado, dia 20/01, das 17:00
até 19:00h, no canal #dagorlad no servidor Brasnet. Para saber
como instalar o mIRC, entrar no servidor e nos canais e muito mais, leia com
atenção a FAQ Brasnet/mIRC.

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