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O Espelho de Mandos – Capí­tulo 3 – Proposta

O céu chorou todo o dia seguinte, mas durante a noite a chuva se foi,
contrariando a previsão do Sr. Nodewich de que choveria por cerca de
uma semana ou mais. Para mim isso foi uma bênção, pois eu pude
finalmente sair de casa para mostrar Lanval a toda Ugür. O elfo
continuava hospedado lá, pois ainda queria falar com minha mãe, mas
Urwen fizera um voto de silêncio e trancara-se no quarto, ficando lá
sozinha durante a maior parte do dia. Segundo os costumes de Ugür
aquilo deveria durar mais cinco dias, mas Lanval não se importou por
esperar. Na verdade parecia bastante contente enquanto todos os aldeães
se encantavam todas as noites com sua prosa, pois lhe era pedido que
contasse histórias dos elfos e dos homens, e dos Valar e de seus
inimigos e suas guerras, e Lanval fazia-o com música e discurso. A
maioria de nós se admirava com o conhecimento do elfo, e invejava sua
capacidade de viver mais que o suficiente para conhecer o mundo inteiro
e sua História. À exceção de minha mãe e Hardur, que também não saía de
casa desde o incidente na floresta, todo o vilarejo se reunia no
Mochileiro, a taverna do Sr. Pilgrim, para ouvir Lanval falar. E
durante o dia, o elfo tentava ajudar os moradores com suas tarefas
cotidianas, muito interessado em aprender tudo que pudesse sobre nossos
hábitos e costumes.

 

 
Eu também me fascinava com a beleza e o carisma daquele ser, mas estava mais interessado pelas histórias que ele sabia sobre meu pai e meu irmão, e mais ainda pelo momento da morte do primeiro e do desaparecimento do segundo. Mas sobre esse assunto específico Lanval demonstrava muita reserva, e eu encarava isso como efeito da dor de uma lembrança tão ruim. Ainda assim eu me achava no direito de saber os detalhes, pois eu já começava a me achar com a obrigação de encontrar Arameth, estivesse onde ele estivesse.

– Ele caiu das montanhas – disse ele, após uma longa hesitação. Era tarde da noite e voltávamos para casa após mais uma sessão de histórias no Mochileiro. Eu insistira em saber sobre como terminara a última missão nas encostas das Ered Gorgoroth, e agora Lanval, muito contrariado, me falava sobre meu irmão.

– E daí? Vocês não desceram pra procurar o corpo? – perguntei.

– Descemos.

– E não encontraram?

– Dungortheb é um lugar horrível, Adam. Ninguém sai vivo de lá – Lanval parecia cansado, e falava olhando para o céu.

– O que há lá? – perguntei, e ele me deu um olhar triste enquanto andava.

– Males terríveis, Adam. E você é só uma criança, não devo falar sobre isso com você.

– Que males? – insisti. – Lanval, Arameth é meu irmão! Eu tenho que saber quais são as chances de ele estar vivo, para o caso de querer tentar resgatá-lo algum dia.

Eu falei com tanta precisão que agora o olhar do elfo exprimia perplexidade e indecisão. Hoje imagino que ele deve ter reconhecido algo de adulto dentro de mim, ou alguma semelhança com o jeito do meu pai. E então ele disse. Contou-me uma história sobre Ungoliant, uma criatura que se aliara a Melkor para roubar as Silmarils e o poder das Árvores que iluminavam o continente dos Valar. Mas uma vez que chegaram à Terra-média, Ungoliant tentou tomar o tesouro que Morgoth tinha consigo, falhando em seu intento, pois os servos de fogo do Senhor do Escuro ouviram seu chamado e chegaram para ajudá-lo, expulsando Ungoliant para a região entre as montanhas e a floresta de Neldoreth. Ali o terrível monstro morava desde então, procriando e espalhando medo e dor e morte a quem quer que pisasse em seu território.

– Então Arameth provavelmente está morto no interior da barriga de alguma aranha? – perguntei, sentindo uma profunda tristeza.

– Lamento muitíssimo, Galdweth.

Continuamos andando em silêncio. Apenas as luzes da lua e das estrelas guiavam nossos passos, mas Lanval andava como se fosse dia. Eu estava frustrado, pois contara com a possibilidade de um dia resgatar o meu irmão. Comecei a pensar em minha mãe, sua tristeza e solidão, e percebi que agora ela só teria a mim, e eu precisaria ser forte para protegê-la. Já fazia cinco dias que Lanval chegara com a notícia, e mamãe ainda estava acamada.

– Não estará ela doente?

– Urwen?! Não – respondeu ele, o tom da voz voltando à naturalidade e deixando de lado a morbidez. – Todas as mulheres passam por isso quando perdem alguém que amam, Adam, até mesmo as elfas.

– Como são as elfas? – perguntei, desinteressado.

Lanval falou então sobre as mulheres do seu povo, principalmente Gilraen, sua noiva, cujos cabelos eram como rios de ouro e cujo riso era como a melodia dos Ainur. À medida que falava, encantava-me novamente com suas palavras, e eu sentia-me novamente confortado. Perguntei-me se havia no mundo criatura mais fascinante que os elfos.

Mas quando fui pra cama aquela noite, as aranhas do inferno voltaram para assombrar meu quarto e não me deixar dormir. Elas teciam suas veias de veneno pelo teto e tinham patas e presas manchadas de sangue. O sangue de meu irmão.

E enfim eu chorei.

-

No dia seguinte minha mãe mandou chamar Lanval. Eu estava novamente contente, pois o dia estava bonito e minha mãe voltara a falar. O elfo levantara e cedo e dirigira-se ao campo, onde tentava ajudar os aldeães a lavrar a terra.

– Adaman! Bom dia – fez ele, ao me ver chegando.

– Boas novas, Lanval – eu disse, um pouco cansado após subir o morro correndo, mas não pude deixar de reparar no suor que escorria de sob o lenço que envolvia a cabeça do elfo, para protegê-la do sol de quase meio-dia. – Minha mãe te chama.

– Ah! Finalmente. Espere um pouco que nós já desceremos – disse ele, e andou até o pequeno depósito de ferramentas que ficava próximo à plantação. Lá chegando, deixou sua enxada pendurada com as outras numa viga no teto, e sentou-se num banco que na verdade era um toco de árvore.

– O que está fazendo? – perguntei.

– Descansando, oras – respondeu ele, abrindo o cantil e servindo-se de água.

– Descansando?! Mas ainda nem é hora do almoço, Lanval.

– E daí? Elfos também cansam, moço.

– Aposto que nenhum deles já está cansado – apontei para os lavradores, que batiam a terra à nossa frente.

– Mas eles já estão acostumados com o serviço – ele me olhou e riu, e passou o lenço na testa para enxugar o suor. – Tudo bem, confesso que vocês, homens, têm mais força e resistência do que nós. Ou pelo menos mais que eu. Mas que calorão!

– Lá em Himring é muito frio?

– Neva quase o ano todo! Dizem que elfos não sentem frio, mas tem dias que até mesmo nós precisamos nos agasalhar.

– Eu gostaria de ir a Himring.

– Você irá – disse ele, e eu o olhei, incrédulo. – Você e sua mãe. Eu vou levá-los lá.

Encarei-o, boquiaberto.

– Você quer dizer, agora? – perguntei, cheio de entusiasmo. – Foi pra isso que você ficou, Lanval? Era isso que você queria dizer à minha mãe?

– Sim, mas é claro que ela precisa aceitar. Acho que já podemos ir, vamos andando.

– Mas quando é que vamos pra lá?

– Quando sua mãe achar que devemos.

Descemos a colina e dirigimos-nos à minha casa, onde minha mãe nos aguardava. Lanval não respondia mais às minhas perguntas, só ria e fazia comentários misteriosos. Minha empolgação era indescritível. Conhecer Himring e suas montanhas, os elfos, suas moradias, suas artes, seus costumes!

– Olá, Lanval – fez minha mãe quando chegamos, a mesa posta onde a refeição principal era peixe, já que o elfo não comia carne. Ela fez um gesto para que sentássemos. – Desculpe minha falta de cortesia para com você todo esse tempo.

– Não se preocupe, senhora, eu a compreendo – respondeu ele, com seu sotaque difícil.

– Agora eu gostaria de saber o que você ainda deseja comigo.

Eu observava a conversa com tanta ansiedade que esquecera de me servir. Lanval pegou uma migalha de peixe e um pouco de caldo, além de algumas verduras e água. Ele jamais comia mais do que isso, e mesmo essa pequena refeição era suficiente para mantê-lo cheio até o dia seguinte.

– Senhora, meu senhor Maedhros enviou-me para informar o que eu já informei, para apresentar nossos pêsames, e mais duas coisas. Entregar-lhe uma recompensa em ouro por todos os serviços prestados pela vossa família e fazer um convite: venha morar conosco em Himring.

Mamãe olhou-o séria, e pediu-lhe um tempo para analisar a proposta. Fiquei com medo que ela recusasse, mas depois que ela viu o prêmio que Lanval trouxera, sua resposta foi quase imediata.

– De fato, eu gostaria de visitar os elfos, e se é lá que está o corpo de meu marido, é lá que devo ficar.

O Espelho de Mandos – Capí­tulo 2 – Lanval

No início havia Eru, o Único, e ele criou Arda e os Ainur. Destes, quinze desceram ao mundo, dentre eles o Senhor do Escuro, Morgoth, contra quem lutavam todas as criaturas de Ilúvatar. Diz-se que os Valar, aqueles Ainur que deram forma à essência de Arda em tempos imemoriais, habitam terras magníficas no Oeste distante, onde o mundo tem fim. Mas sabemos que eles ainda vagam pela Terra-média, às vezes sem suas roupagens corpóreas, apenas em suas formas espirituais, a fim de interceder por homens e elfos contra os males do Norte. E sabemos que, dentre eles, Ulmo, o Senhor das Águas, tem um carinho especial pelos homens, principalmente os habitantes de Estolad, abençoando a água que dá vida a nossos campos.

 
Gratos a ele, nossos avós erigiram em sua homenagem a capela que dera origem a todo o povoado de Ugür. E ainda nos meus tempos de infância, os habitantes da aldeia e suas redondezas se reuniam todo mês na capela para festejar por Ulmo, nosso querido padroeiro. Os adultos costumavam preparar grandes refeições com frutas, carne de javali, bolos e cerveja, e as crianças costumavámos usar nossas melhores roupas.

– Eu o vi voltando para casa à noite – comentou, empolgado, Silas, filho do prefeito de Ugür. Era Dia de Ulmo, e Silas sempre se unia ao nosso grupo em eventos assim, embora durante quase todo o restante do mês não lhe fosse permitido ficar com a gente. Ele tinha professores e era obrigado a estudar o dia todo, e quase não lhe sobrava tempo para brincar. Apesar de ter roupas e brinquedos melhores que os nossos, sentíamos pena da vida que ele levava. – Ele tropeçava no escuro como um rato manco, achando que não estava sendo visto sob a lua cheia.

– Vocês deixaram-no nu, seus irresponsáveis! – disse Elanor, tentando parecer séria, mas também incapaz de conter o riso. Elanor era alguns meses mais velha que eu, tinha cabelos negros curtos e cacheados, além de pequenas covinhas nos cantos da boca. Sua pele, de tão branca, era quase rosa, e a maioria de nós éramos encantados com ela, mas sabíamos que seus pais em breve arranjariam um pretendente de berço nobre para ela, coisa que ninguém em Ugür era. – Já imaginaram o que os pais dele podem fazer ao descobrirem quem fez isso com ele?

– Nós já assumimos o risco – fez Camus, cujo olho inchara e agora estava quase do tamanho de uma pêra. – Nada pode ser pior do que o que eu passei ontem quando voltei pra casa. Vou ficar uns bons dias sem poder cavalgar.

Todos rimos de seu comentário. Estávamos reunidos no estábulo do Sr. Pilgrim, o dono da hospedaria de Ugür, que ficava ao lado da capela, onde nossos pais preparavam o banquete que serviria de almoço para todos nós. Fazia mais um belo e quente dia de verão, embora o Sr. Nodewich, nosso vidente do tempo, tivesse previsto o início da temporada de chuvas para aquela noite.

– O mesmo digo eu – disse eu, em meio aos risos. – Mas é melhor que ficar uns bons dias sem poder sair de casa sem ser alvo de risada de toda a aldeia.

– Vocês tinham que ver o medo do primo dele – tornou Camus, apontando para o pequeno grupo de Bête, que estava reunido nos degraus de entrada da capela, todos cochichando entre si sérios, olhando de longe para nós –, principalmente enquanto eu corria atrás dele.

– Você foi muito corajoso, Camus – agora foi a vez de Mardoc, cujas roupas pareciam apertadas demais em seu corpo gordo -, mas Adam foi mais. Conte-nos como você enfrentou o Stripa sozinho, Adam.

Todos os olhos se voltaram para mim, e eu me senti meio desconfortável.
– Eu não o enfrentei, muito menos sozinho, lamento decepcioná-los – olhei para os lados antes de continuar, certificando-me de que não havia ninguém de fora que pudesse me ouvir. Além de nós, só havia no estábulo os cavalos e um sujeito que dormia encostado na outra parede, a metros de distância, com um chapéu sobre o rosto. – Havia um homem na floresta, um sujeito de armadura preta, que me ajudou – sussurrei.

– Um sujeito de armadura?! – repetiu Silas, impressionado.

– Fale baixo, Silas – sussurrou Elanor.

– Silas, se os adultos descobrirem que andamos perambulando pela floresta e que há uma pessoa estranha lá, jamais voltarão a nos deixar sair de casa – adverti, sério.

– Eu sei, eu sei – respondeu ele -, desculpem.

– Será que era Eöl? – perguntou Mardoc, traduzindo o pensamento de todos ali.

– Eu perguntei seu nome – respondi -, mas ele só riu, me ajudou a levantar e em seguida partiu.

– Então não deve ser ele – disse Mardoc, que era o que mais se interessava por histórias sobre o estranho ser que habitava o coração de Nan Elmoth. – Se fosse ele, teria te amarrado e carregado para seu cativeiro.

– Mas dizem que de fato ele possui uma armadura negra – fez Esdras, que costumava falar pouco.

– Não parecia galvorn – disse eu, que conhecia o metal por causa de uma cota que meu pai possuía -, parecia algo mais pesado. Na verdade, cada peça parecia pesar uma tonelada.

– Crianças – tivemos um sobressalto ao ouvir uma voz, mas ao olharmos em sua direção vimos Nenar, a irmã mais velha de Mardoc, que nos acenava da porteira. – Os adultos vos chamam, é hora da bóia!

Camus e Silas urraram de alegria e correram à frente, loucos para serem os primeiros a atacar a mesa com o vasto banquete. Nenar virou-se em seguida e acompanhou-os, enquanto o restante do grupo andava um pouco atrás.

– Será que ela nos ouviu? – perguntou Elanor, preocupada.

– Aposto que não – respondeu Mardoc. – Se ela tivesse ouvido, já teria deixado isso bem claro, tentando nos chantagear para que não a deixemos contar aos nossos pais. Eu a conheço.

Dirigimos-nos, então, alegres à capela, para comer e cantar e orar ao Senhor das Águas.

Mas minha alegria iria durar pouco.

-

A noite daquele mesmo dia se aproximava, e com ela as primeiras nuvens de chuva vindas do leste.O vento já uivava alto, e os trovões chegavam a nós como rugidos de feras distantes. À luz das lamparinas, eu e minha mãe costurávamos, eu um pequeno ferimento na orelha de Borges, meu cachorro de estimação, e minha mãe as roupas rasgadas do meu pai e do meu irmão. Meu pai chamava-se Arameth, era um guerreiro que prestava serviços aos elfos no norte e voltava para casa uma vez por ano. Lembro-me que ele tinha cabelos compridos e ruivos, mas agora não mais me recordo de seu rosto, talvez porque em sua imagem mais nítida que há na minha mente, ele usa um elmo cobrindo-o todo, à exceção dos olhos azuis. Mas imagino que sua face tenha sido marcada por diversas cicatrizes, como é a maior parte dos guerreiros que passam a maior parte de suas vidas treinando e lutando.

Arameth era também o nome do meu irmão, que no último verão fizera dezessete anos e partira para o norte com meu pai, juntando-se ao exército de Maedhros, um dos príncipes élficos que enfrentavam todas as criaturas que desciam da nefasta fortaleza no extremo norte, uma montanha gigantesca chamada Angband. Enquanto eu parecia mais com minha mãe, herdando sua pele e seus cabelos negros, Arameth era mais parecido com meu pai. Lembro-me dele como sendo extremamente alto, mais até que meu pai, e sendo muito belo de rosto. Toda a população de Ugür (à exceção das famílias dos demais guerreiros, que eram poucos e não tinham qualquer contato com os elfos, mas serviam Haldad no leste) admirava meu pai e meu irmão por passarem seus dias com seres de raça tão elevada como os eldar. Além disso, era sabido que meu irmão era excepcionalmente hábil com a espada e poderia se tornar um grande herói a ser clamado por gerações e gerações, pois com apenas quinze anos ganhara vários torneios de habilidades marciais em Balan. Eu mesmo invejava sua capacidade, e sonhava em um dia me tornar alguém como ele, ou mesmo como meu pai, que era um homem dedicado e, segundo o que me contaram depois, com uma inteligência na guerra fora do comum.

Era novamente verão e com as chuvas se aproximava o tempo em que eles deveriam voltar, pois já estavam a quase um ano longe do lar. Como a chuva nos obrigava a ficar em casa, nessa época do ano minha mãe costumava se dedicar muito à preparação da casa para a volta de seu marido. Lustrava as armas e armaduras que serviriam a ele durante sua próxima ausência, engraxava suas botas, consertava suas roupas velhas e comprava novas, limpava toda a casa, deixando-a impecável, e agora eu sabia que durante os próximos dias ela ia se ocupar muito com isso, passando a maior parte de seu serviço caseiro para mim.

Mas eu estava enganado.

Ouvimos duas batidas na porta e nos entreolhamos. Estava escurecendo e não era comum os habitantes de Ugür fazerem visitas à noite, ainda mais uma que prometia um belo temporal. Mamãe fez um gesto mandando-me atender quem quer que fosse, e eu me levantei, incapaz de imaginar quem era. Não poderia ser meu pai, pois ele sempre batia três vezes quando chegava, e ele nunca chegava de noite.

Abri uma brecha e olhei um rapaz magro, segurando um cavalo pelo cabresto, com roupas surradas de viagem e um cabelo sujo que esvoaçava com o vento.

– Boa noite, a Sra. Urwen se encontra? – disse ele, com o sotaque mais estranho que eu já ouvira em toda minha vida. Urwen era o nome de minha mãe.

– Quem é? – perguntei, desconfiado.

– Meu nome é Lanval – ele fez uma leve mesura -, e sou um amigo de Arameth.

Olhei para mamãe, que ouvira a breve conversa. Em resposta, ela me olhou de volta com uma sobrancelha levantada, mas se levantou e andou em direção à porta.

– Posso ajudar? – fez ela, abrindo mais a porta para poder ver o homem.

– Sinto muito incomodá-los, senhora, mas eu gostaria de conversar. Venho em nome de seu marido – ele fez novamente a mesura, o que era um gesto considerado demasiadamente educado em Ugür.

– Eu não te conheço – respondeu minha mãe, que era pouco dada a acreditar em estranhos. – O que você quer dizer? Está tudo bem por lá, não está?

– Sinto muito, senhora, mas não – Lanval pareceu meio sem jeito para continuar. – sinto informá-la que seu marido faleceu há três dias, no dia quinze de maio no calendário dos noldor.

Minha mãe empalideceu na hora, e eu senti algo apertar minha garganta.

– Desculpe, eu não compreendi – disse ela, quase incapaz de respirar.

– Seu marido, o Sr. Arameth, faleceu em batalha há três dias, e seu filho desapareceu nos vales das Ered Gorgoroth.

Precisei de rapidez e força para segurar minha mãe, que caíra para trás e quase perdera a consciência.

– Mamãe, mamãe? – tentei reanimá-la, mas ela estava mole e pesada como uma grande carpa que eu pescara outro dia. Lanval tentava ajudar, mas ao se abaixar para tocá-la ela se ergueu num pulo, se apoiando na porta para não cair novamente.

– Senhora, está tudo bem? Sinto muito pelo que houve, mas eu tive ordens de trazer-lhe a notícia.

Minha mãe tentava se recompor, articulando as palavras devagar:

– Garoto, espero que isso não seja uma brincadeira de mau gosto. Você pode provar o que diz?

– Este é o cavalo de Arameth – respondeu ele rapidamente, e olhamos a montaria que ele trazia pelo cabresto. De fato era Aracar, o alazão de meu pai, e ao olhar para ele veio-me uma dor súbita no coração e uma imensa vontade de chorar. Minha mãe também reconheceu o animal, e com os olhos cheios de lágrimas e uma exclamação agoniada correu para dentro de casa, deixando-me sozinho com o rapaz. Um trovão mais próximo ressoou e as primeiras gotas começaram a cair do céu, como se o mundo começasse a chorar a morte de meu pai. Mas eu seria mais forte e não faria o mesmo.

– Você pode entrar, se quiser – disse eu, enquanto o homem me encarava em silêncio -, enquanto eu guardo Aracar.

– Eu vou com você – respondeu ele. – Mas depois eu gostaria de entrar, sim. Apesar de sua mãe provavelmente me odiar.

Não respondi, pois sabia que se respondesse algo naquele momento, o choro iria chegar. Apenas peguei o cabresto de sua mão e guiei Aracar para a parte de trás da casa, onde havia um pequeno celeiro onde o cavalo ficava em dias de chuva. Nesse momento começou a chover mais forte, e as gotas estavam frias, por isso me apressei para abrir a porta da pequena e alta construção.

Entramos, e eu guiei Aracar até o pequeno monte de feno que sobrara do ano anterior e que estava com um aspecto desagradavelmente ruim. O capim mais novo estava reunido no armazém maior do Sr. Elfrar, um mercador amigo dos meus pais, e não seria possível ir até lá para recolhê-lo. Aracar deveria contentar-se com o que havia, pelo menos até o próximo dia.

A água caía do céu como uma torrente, e ao bater no telhado de madeira do celeiro produzia um som monótono e alto. Lanval olhava para mim sem ter o que dizer, sabendo da minha dor. Eu parei para acariciar o pêlo de Aracar, enquanto ainda tentava digerir a morte de meu pai, forçando-me a segurar as lágrimas, quando de repente lembrei-me de algo.

– O senhor disse que era amigo de meu pai? – perguntei.

– Lutamos várias vezes juntos, e seu pai era um grande homem. Seu irmão também.

– Quer dizer então que você é um elfo? – perguntei, impressionado.

– Oh, me desculpe – disse ele, surpreso -, sim, sou um elfo. Falhei ao me apresentar.

– Um elfo! Alguém mais sabe que o senhor está aqui?

– Bom, meu senhor Maedhros sabe, e mais alguns amigos que moram comigo em Himring. Da tua aldeia, ninguém – ele respondeu com um singelo sorriso, adivinhando meus pensamentos. De repente eu notei nele uma certa luz própria, e ele pareceu-me incrivelmente belo, mesmo naquela penumbra que beirava a escuridão.

– Então eu tenho que te mostrar aos meus amigos! Eles não vão acreditar! – eu estava tão empolgado que não parecia que acabara de perder um pai.

A chuva afinou por alguns segundos, e nós aproveitamos para correr de volta pra casa, onde minha mãe chorou toda a noite e Lanval me contou as maravilhas de seu mundo ao norte, as famosas guerras do passado, e os grandes feitos de meu pai nas montanhas geladas de Maedhros.

O Espelho de Mandos – Capí­tulo 1 – Ovelha Negra

Sou Galdweth, filho de Arameth, mas minha mãe me chamava Adaman, ‘filho da noite’ no idioma de seus pais. Essa é a história de Haleth e um amor incompreendido. É a história de um herói e seu sofrimento, e é a história da maldade de Sauron, o servo do Senhor do Escuro.

 

 
Era um verão azul em Ugür, uma pequena aldeia localizada no norte de Estolad, próxima ao rio Celon. Eu tinha oito anos e uma pele escura que me destacava entre os aldeães. Eu não gostava dela, pois a maioria das pessoas tinha e ainda tem superstições e preconceitos contra peles negras. Hoje isso já não me importa mais, tenho que admitir que a cor já me foi até útil em algumas ocasiões. As pessoas me chamavam Adaman, pelo fato de eu ser escuro como a noite, e com este nome eu não me importava, pois fora alcunhado pela minha própria mãe. Só me irritava quando usavam outros apelidos, como Abaman, ‘ovelha negra’, que meu vizinho Hardur criara para mim no dia anterior a essa bela tarde de sol. “Eu ainda farei você engolir isso!”, eu prometera, furioso, enquanto estava ocupado demais tosquiando as ovelhas de meu pai.

E agora eu estava prestes a cumprir a promessa.

Hardur era um garoto ruivo, talvez uns vinte centímetros mais alto que eu, uns quinze quilos mais forte e três anos mais velho. Mas eu era destemido e tinha amigos, que também desgostavam dele e ainda me deviam favores. E agora eles acabavam de chegar à margem da grande floresta que havia próxima ao vilarejo, à exceção de um.

– Onde está Mardoc? – perguntei num sussurro, enquanto os dois garotos se sentavam ao meu lado, sobre a relva. Estavam ofegantes, pois tiveram que vir correndo da aldeia até ali, para que nenhum adulto os visse. Crianças da nossa idade não tinham permissão para sair do vilarejo sozinhas, e meus amigos demonstravam uma mistura de medo e excitação com a transgressão da regra. Sentimentos que eu também compartilhava.

– Ele não pôde vir – respondeu, também num sussurro, Esdras, um menino loiro de feições delicadas e da minha idade e altura -, a mãe mandou-o olhar o irmão.

– Ora, por que ela mesma não faz isso, o filho não é dela? – perguntei, indignado por ter o grupo desfalcado por causa de uma tarefa tão ingrata que é vigiar um bebê. – E o que de errado pode acontecer com uma criança que sequer sabe andar?

– Ele está de castigo, Adam, você sabe – agora foi a vez de Camus, o segundo amigo, falar. Ele tinha nove anos, era um tanto mais alto que nós, mas tinha uma voz fina que o fazia parecer mais novo. Tinha o corpo bem magro e esguio. Tornar-se-ia, anos depois, um dos maiores atletas edain da Terra-média. – Desde que ele quebrou a tigela de barro da mãe.

– Oh não! Outra tigela? – Mardoc era um moreno gordo bastante desastrado. Também costumava se esquecer muito das coisas. Para piorar, seus pais eram muito rigorosos com ele, e só não podiam ser mais porque qualquer serviço que o dessem terminava em desastre.

– Não, é a mesma. Pela terceira vez – Camus não conseguiu evitar um risinho de escárnio.

– Tudo bem, ainda bem que eu não deixei nada pra ele trazer mesmo, eu imaginava que ele ia esquecer. Muito bem, o que vocês trouxeram?

– A tesoura, como você pediu – estendeu-ma Esdras -, cola e bastante barbante.

– Ótimo. E você, Camus?

– Meus punhos, claro – o garoto fechou a mão em volta do punho, com um sorriso malvado estampado no rosto.

– E o que mais? – perguntei, impaciente.

– Tinta.

– Tinta?! Pra quê?

– Ora, se a lã não cobrir o corpo todo, a gente pode jogar tinta preta que o resultado será o mesmo.

– Boa idéia – disse Esdras.

– A lã vai dar – disse eu, mal-humorado. O objetivo da missão era fantasiar Hardur de ovelha negra, não deixar sua pele simplesmente da cor da minha para que ele fosse zombado por isso.

– E onde está Amélia? – perguntou Esdras.

– Eu a amarrei a uma árvore lá no fundo – apontei para a floresta. – Não consegui fazê-la ficar abaixada, e acho que seria melhor se a gente o pegasse lá dentro, onde as árvores podem abafar os gritos.

– A gente o amordaça – observou Camus, a maldade brilhando nos olhos.

– Ainda prefiro o meu plano – reclamou Esdras -, imaginem sua cara de espanto ao ver uma ovelha negra na floresta. Vai achar que está sonhando!

– Eu não posso deixar Amélia sozinha com ele, ele estará armado, lembre-se disso. Agora façam silêncio, nós precisamos ouvi-los chegando.

– Não seria melhor se eu subisse numa árvore para ter uma visão melhor? – Camus, que era um exímio escalador, teve essa excelente idéia.

– Não! Eles poderiam te ver. Agora fiquem quietos!

Abaixamos-nos atrás do capim e esperamos. Olhávamos para o topo da Colina Norte, um pequeno morro verde que separava Ugür de Nan Elmoth, a floresta de Eöl. Eöl era uma criatura bizarra, metade elfo e metade anão, e que, segundo as histórias contadas por nossos pais e avós, habitava o coração da floresta. Havia relatos sobre crianças e mulheres que desapareciam após embrenharem-se na escuridão de Elmoth e nunca mais voltavam, pois eram capturadas e escravizadas pelo terrível Eöl. Mas com oito anos eu já tinha idade para não me assustar com essas histórias, aliás, minha temeridade era tanta que as lendas só me faziam sentir mais vontade de adentrar a floresta, descobrir a morada de Eöl e libertar os escravos. O fato de algumas pessoas acreditarem que Eöl fosse não um híbrido elfo-anão, mas apenas um elfo negro, me dava ainda mais curiosidade de ver a tal criatura.

Mas as histórias de Eöl estavam longe da minha mente naquele momento. Tudo em que eu pensava era em Hardur e seu primo Bête, que deviam estar subindo a colina pelo outro lado e que em breve deveriam aparecer no horizonte, e aí seria questão de poucos minutos até eu impor minha vingança. Não era só pelo Abaman que nós fazíamos isso, mas por uma rivalidade de anos em que Hardur sempre nos maltratara. Além de roubar e quebrar nossos brinquedos, Hardur costumava nos bater sempre que nos pegava sozinhos, às vezes sem qualquer motivo aparente. E quando nos juntávamos para revidar, ele reunia um grupo ainda maior de garotos maiores e aí nós apanhávamos mais ainda. Mas desta vez seria diferente, seu grupo estava desfalcado pelos gêmeos Gleen, que haviam partido para Balan com seus pais havia dois dias, a fim de vender trigo e leite de cabra, as bases do sustento de quase todas as famílias de Ugür.

Na ansiedade em que estávamos, Hardur parecia demorar horas, embora hoje eu ache que não havia passado trinta minutos até ele aparecer. Nesse momento quase gritamos de satisfação, pois começáramos a acreditar que ele não viria mais, e que nosso sumiço do vilarejo (que deveria ser acompanhado de uma bela surra para nossos pais quando voltássemos) tinha sido em vão. Mas agora lá estavam eles, Hardur, Bête e… um cachorro?!

Meu êxtase de finalmente começar a pôr o plano em prática de repente deu lugar à apreensão. Entreolhando meus companheiros, pude ver que o mesmo se passava com eles.

– Não sabia que eles caçavam com cães – sibilou Esdras, visivelmente aflito.

– Com certeza não caçam, já os observei milhares de vezes e eles nunca trouxeram um cão. Com certeza ele está aqui hoje para repor a perda dos gêmeos – sussurrei.

– Eu conheço esse cachorro, pertence a Madame Pomfrey e ou ele é realmente bravo ou ele não gosta de mim – foi a vez de Camus, nos mostrando uma pequena cicatriz no braço direito. Ele parecia bem menos apreensivo que Esdras, menos até que eu, mas estava sério, o que era bastante incomum.

– Ele é ensinado – respondi, pois também conhecia o cachorro. Camus e eu costumávamos assaltar o pomar da tia de Bête quando ela saía de casa, e algumas vezes éramos recebidos ferozmente por Stripa. – É só chamarmos pelo nome que ele não avança… acho.

– Não seria uma boa idéia agora treparmos nas árvores? – insistiu Camus.

– É uma ótima idéia – concordei, e puxei a corrida para alguns metros no interior da floresta, onde havia árvores mais altas e de folhagem mais densa, onde poderíamos nos esconder. – Esdras, não caia dessa vez.

– Pode deixar – respondeu ele, com tanto medo que era incapaz de sentir o orgulho ferido por minha provocação.

Aproximamos-nos de uma clareira que nos parecia apropriada para a execução do plano. Mesmo ali, no espaço entre as árvores onde entrava pouco sol, a grama não era tão baixa. Mas estava no caminho da trilha que adentrava a floresta e eu tive certeza que Hardur passaria por ali. Camus escolheu rapidamente sua árvore e subiu, rápido como um símio. Esdras não foi capaz de escalar segurando seu porrete, por isso levou somente sua funda. Cada um de nós carregava um pedaço de pau e uma funda, que eram meros cordões de elástico que usávamos para arremessar nossas preciosas pedras. Gastáramos dias recolhendo e selecionando as melhores pedras que podíamos encontrar ao redor da Estrada dos Anões e na beira do Celon. Agora essas pedras, com tamanho e pesos ideais para nossos cordões, enchiam nossos bolsos, e todo o tempo nós tomávamos o maior cuidado para não deixá-las cair. Quando eu ia tomar o impulso para alcançar o galho de uma árvore que eu escolhera, ouvi um balido vindo de dentro da floresta.

– Amélia! – exclamei, só então lembrara-me da ovelha do meu pai.

– O que foi? – Camus gritou de cima de sua árvore, ao me ver hesitando a escalar a minha.

– Amélia, esquecemos dela! Se Stripa fizer alguma coisa a ela, estou morto! Não saiam daí! – gritei, correndo em direção a onde eu amarrara a ovelha. Ouvi os latidos de Stripa ao longe e percebi que eu gritara alto demais. Mas eu precisava fazer algo para salvar a pobre Amélia, mesmo que fosse apenas desamarrá-la, talvez deixá-la fugir para longe fosse melhor que deixá-la servir de almoço a um cão feroz.

Se meus gritos não haviam sido suficientes para atrair a atenção de Stripa, o balido de Amélia com certeza foi. A ovelha gritou e pulou de susto ao me ver saindo do mato de repente, e me deu uma cabeçada quando me aproximei para desamarrá-la. O tremor nas mãos e os puxões que Amélia dava na corda não me permitiam ter qualquer agilidade em desatar o nó, e os latidos de Stripa estavam cada vez mais próximos, até que eu desisti de tentar, virei-me para o mato de onde o cachorro deveria sair e levantei meu porrete. Uma gota de suor escorregou até meu olho e eu tive que piscar com força, tenso, a respiração suspensa, esperando pelo momento em que o cachorro saltasse para fora do capim e em que eu precisaria ter o reflexo de acertá-lo com uma pancada antes que ele me derrubasse.

O capim se mexeu e minhas mãos impulsivamente se moveram alguns centímetros para a frente, mas eu as detive e imediatamente as retornei para trás. Stripa estava logo diante de mim, mas ao invés de sair do mato num pulo, saiu lentamente, com seu rosnado alto, os dentes à mostra e o focinho enrugado, o pêlo levemente eriçado e o corpo todo apoiado nas patas traseiras, pronto para dar o bote a qualquer momento. Tive o impulso de avançar contra ele, mas novamente me segurei, pois ele ainda estava a pelo menos dois passos de distância e minha investida daria tempo a ele para se esquivar. Após a decisão de me manter na defensiva, subitamente senti meu corpo rígido demais, e agora eu estava com medo de não conseguir mover os braços para golpear o cachorro quando ele avançasse. Encaramos-nos por alguns segundos, durante os quais eu me esquecera completamente de Hardur e seu primo, e de Camus e Esdras, que eu havia deixado pra trás. Era só Stripa e eu, e meu corpo estava paralisado, embora eu achasse que não estava com medo. Era só um cachorro, e eu já o enfrentara duas vezes antes, conseguindo fugir em ambas, embora dessa vez eu não pudesse simplesmente fugir. Havia Amélia, a ovelha de meu pai, e eu precisava protegê-la. Eu estava confiante, mas a rigidez do meu corpo me atrapalhava, e eu lutava para me livrar dela antes que o cachorro viesse, mas ela parecia não vir de mim, parecia vir de fora.

De repente Amélia baliu, Stripa olhou através de mim assustado e recuou, com um ganido. Não consegui olhar para trás, ainda não podia tirar os olhos do cachorro, até que ele disparou de uma vez por todas, ganindo como se tivesse apanhado. Com um suspiro de alívio, olhei para trás, e o susto me jogou com o traseiro no chão.

Um sujeito alto, forte, com uma armadura preta cobrindo todo o corpo, estivera parado a apenas alguns centímetros atrás de mim, e agora que eu estava sentado no chão, olhando para ele aterrorizado, ele se agachou e estendeu a mão para mim.

– Q-quem é você? – consegui, a custo, perguntar. Aquele homem causava em mim um pânico muito maior que o que o cachorro feroz havia causado. Talvez porque ele parecia uma horrível armadura de batalha ambulante, talvez porque ele parecia grande demais, ou talvez porque ele não disse nada em resposta. Mas mesmo assim estendi a mão e ele me ergueu, quase sem nenhum esforço. – Você é… Eöl?

Ele respondeu com uma gargalhada sinistra que me fez me encolher. Senti vontade de seguir Stripa para longe daquele homem. Ainda rindo, ele se virou, dando-me as costas, e partiu. Observei-o desaparecer entre as árvores, sentindo-me um estúpido por temer alguém que possivelmente me salvara a vida.

– O-obrigado! – disse eu, para a escuridão.

Me apoiei na árvore em que Amélia estava amarrada, e até a pobre coitada parecia sentir tanto medo que não era capaz sequer de balir mais. Lembrei-me dos meus amigos, que haviam ficado para cuidar de Hardur e Bête, e que talvez estivessem precisando de ajuda.

– Não vou te deixar amarrada, querida, o cachorro pode voltar. Tente voltar para casa sozinha, sim? – já mais calmo, desatei os nós e observei Amélia correr para longe, com a vaga sensação de que apanharia muito em casa, quando minha mãe descobrisse que eu soltara uma ovelha na floresta. Mas de qualquer forma, Amélia era uma ovelha negra, e ovelhas negras não dão boa lã, portanto era melhor perder Amélia que perder qualquer outra do rebanho do meu pai.

Dirigi-me sorrateiro para a clareira em que deixara Camus e Esdras, torcendo para que estivesse tudo bem. Andando alguns segundos entre as árvores, pensei ter me perdido, mas de repente ouvi um gemido que inconfundivelmente era de Camus, seguido pela risada inconfundível de Hardur.

– E agora, pentelho, ainda tem a pretensão de me dar uma lição? Isso foi tudo idéia daquele seu amiguinho Abaman, não é? – ouvi novamente sua risada, ecoada pelo riso de Bête, que foi o primeiro que avistei. Coloquei-me atrás do tronco de um salgueiro e vi Bête e Hardur cercando Camus pelos lados, enquanto ele recuava lentamente, ainda com seu bastão na mão, mas com um hematoma no rosto, provavelmente causado por um dos paus que Hardur e Bête seguravam. Dois contra um não era uma luta nada justa, e senti uma raiva profunda quando armei minha funda e estiquei o elástico. – Onde está ele, hein? Onde está seu amigo? Certamente fugiu de medo do cachorro, não é? Se é que já não foi pego e feito em pedaços, Stripador quando sai de casa fica muito, muito feroz.

Hardur deu uma nova investida com seu bastão, e Camus como um espadachim de verdade bloqueou o ataque com o seu próprio, mas Bête veio com uma estocada do outro lado. Ágil como um gato, Camus rodou o corpo e golpeou Bête nas costas, enquanto Hardur atacava uma segunda vez tentando acertar meu amigo na cabeça. Camus se abaixou no momento exato e saltou para trás, e eu atirei.

Mirei na cabeça de Hardur, mas minha mira não era boa e acertei na mão que segurava o porrete, fazendo-o soltar a arma. Camus raciocinou rápido e com um golpe tão forte que me embrulhou o estômago na hora só de ver, acertou o lado do bastão na barriga de Hardur, fazendo-o cair curvado no chão. Imediatamente se virou para Bête e tentou atacá-lo, mas o filho da mãe desviou e começou a correr para longe. Camus já ia pegá-lo quando o maldito arremessou para trás seu próprio bastão, acertando meu amigo no caminho. Atirei minha segunda pedra e errei, e Bête agora já desaparecera no cerrado da floresta.

– Eu ia derrotá-los sozinho – disse Camus, ao me ver chegando. Estava com um grande sorriso no rosto, que se alargou ainda mais quando nos aproximamos de Hardur, que ainda estava contorcido no chão, respirando com dificuldade. – Veja que peixão nós pegamos. Sim, pentelho, eu ainda pretendo te dar uma lição – deu um chute na costela de Hardur, que o fez gemer de dor.

– Cadê o Esdras? – perguntei, preocupado.

– Ah, ele caiu da árvore. Dê uma olhada ali.

Dirigi-me à arvore em que ele subira e o vi desacordado sobre as folhagens. Mexi com ele, batendo de leve em seu rosto, o que o fez acordar, para meu alívio.

– Quê?! Onde estou? – disse ele, confuso.

– Em Nan Elmoth com Camus e eu. Acabamos de pegar o Hardur.

– Ah, que ótimo – ajudei-o a se levantar, e ele parecia meio tonto. – Acho que desmaiei…

– Sim, ao que parece você caiu da árvore e… ei, sua cabeça está sangrando!

– Está?! – ele levou a mão à lateral esquerda da cabeça, onde havia um bolo de cabelo misturado com sangue seco. – Acho que tomei uma pedrada.

– Mas está tudo bem? Tá enxergando normal?

– Só dói um bocado, ai. Vou ficar bem. Agora me contem como foi isso – disse ele, apontando Hardur, chorando deitado no chão, ainda curvado sobre a barriga.

– Foi uma bela luta. Nós fizemos isso com o Hardur e botamos o Bête pra correr!

– Mas os maiores méritos são meus. Eu os enfrentei sozinho enquanto Adam não chegava – disse Camus, orgulhoso.

– Você estava apanhando pra eles! Foi só eu desarmar o Hardur pra você que aí ficou fácil.

– Ótimo, ótimo. Acho que agora nós temos que terminar logo o plano, antes que anoiteça. Minha cabeça dói – interrompeu Esdras, ainda segurando o ferimento, com uma careta de dor.

– Calma, amigo – respondi, olhando para Hardur no chão. – É agora que a diversão começa!

– Por falar nisso, onde está Amélia, Adam? E como você se livrou de Stripa? – perguntou Camus.

– Ah, isso… apareceu um homem estranho de armadura, e expulsou o cachorro. Amélia eu soltei.

– Um homem?! – perguntaram os dois, ao mesmo tempo. Hardur se mexeu no chão e agarrou o pé de Camus, que deu-lhe em troca um chute no queixo.

– Acho que ele está com pressa também – disse eu, dando um chute no traseiro de Hardur, que gritou de dor. – Vejam como ele chora.

– Podemos usar a tinta então? – perguntou Camus, animado. – Já que não há mais ovelha…

– Pode ser – respondi, ainda um pouco contrariado –, se não há outro jeito…

Tiramos à força as roupas de Hardur. Ele se debatia e tentava nos conter, mas ganhava mais chutes e sopapos nas pernas e no rosto. Quando estava totalmente despido e Camus e eu o segurávamos deitado para que Esdras amarrasse seus pulsos, me acertou de repente um cuspe no olho. Eu o soltei por um segundo para esfregar o local atingido, e ele aproveitou a deixa para me acertar uma joelhada no peito. Camus não conseguiu segurá-lo e ele se levantou, olhando para os lados preparando-se para correr.

Mas fomos mais rápidos e já o cercávamos novamente com nossos porretes na mão. Ele nos olhou assustado, e correu na direção de Esdras, tentando atropelá-lo no caminho. Mas Esdras não era bobo e pulou para o lado, deixando-o passar e em seguida acertando-lhe uma paulada nas costas. Hardur cambaleou mas não caiu, e por um momento eu cheguei a admirar a força do garoto. Tornou a correr para o mato, e Esdras e Camus já ia segui-lo quando eu os interrompi:

– Deixem-no comigo! – ele estava na minha mira, estiquei a funda ao máximo e atirei. Acertei em cheio no meio na cabeça, e Hardur caiu. Camus e Esdras olharam para mim assustados, e até eu temi ter acabado de matar meu vizinho. Corremos até ele, mas ele estava vivíssimo, embora não conseguisse mais sequer se mexer de tanta dor. Viramos-lhe e o arrastamos de volta até a clareira, onde a tinta preta o aguardava. Ele olhou para mim mais uma vez e encheu a boca de cuspe mais uma vez.

– Não ouse – ergui o bastão em ameaça, e ele cuspiu para o lado, tornando a me encarar.

– Você me paga, preto de uma figa – sibilou ele.

Sem pensar, chutei-lhe com força entre as pernas. Ele deu um grito tão alto que deve ter chegado até os gêmeos Gleen em Balan. Contorceu-se todo e tornou a chorar, e nós três começamos a rir sem parar.

– Isso é pra você aprender a não cuspir e a ficar calado – disse eu, em meio aos risos. – E preto de uma figa é você.

Dizendo isso, joguei minha cota de tinta sobre o corpo nu de Hardur. Sabíamos que aquilo ia demorar semanas pra sair, e não queríamos estar em sua pele.

Naquela noite cada um de nós apanhou muito ao chegar em casa, mas estávamos satisfeitos com a vingança e a tarde nos proporcionara uma bela diversão.