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Além do Amanhecer

Além do AmanhecerAlém do Amanhecer”(“Beyond the dawn”, também pode ser traduzido como “Do outro lado do
Amanhecer
”) é uma dilogia de Olga Chigirinskaya, publica sob o
pseudônimo de Beren Belgarion. É composta por dois livros: “Sombras do
Crepúsculo
” e “Guerreiro da Esperança”.

 
Tolkien conta a Balada de Leithian de forma bastante concisa, e narra somente os momentos mais importantes. Chigirinskaya amplia os limites de uma das histórias mais bonitas e românticas da Terra Média, adicionando alguns eventos e histórias paralelas, descrição dos sentimentos dos personagens, das paisagens, arquitetura dos elfos.

“Além do Amanhecer” conta a história de Beren e Lúthien no estilo bastante realista. E isso é certo, sob um ponto de vista. Afinal, Beren devia estar fraco, sujo e fedido ao chegar em Doriath. E se Lúthien toma a fortaleza de Sauron, ela o faz com o auxílio de um bom exército – caso contrário, uma flecha pode ter bem mais poder do que todos os feitiços dela. Se é necessário reunir um exército, o número de cavalos disponíveis, impostos, comida, roupas de inverno não são menos importantes do que os ideais.

Mostra-se um pedacinho das Guerras de Beleriand tais como elas poderiam ter sido. Pode-se compraram a Balada de Leithian com o canto de um elfo-menestrel, enquanto “Além do Amanhecer” lembra mais o relato de um velho homem, veterano da guerra.

O livro também mantém um diálogo com o Livro Negro de Arda, com uma imagem própria dos “Escuros” e das ideologias deles.

Por outro lado, Balada de Leithian é uma lenda, uma saga. E o tratamento dispensado à Balada deveria ser o mesmo que à história dos Nibelungos ou a Saga de Sigurd. Nem todos conseguem imaginar o Beren falando algo, digamos, assim: “Você se caga uma vez, e vão chamar de cagão pro resto da vida”. Na vida real, Siegfried/Sigurd falaria coisas piores, mas…

Entre os pontos positivos do livro, não posso deixar de enumerar… Aprofundamento da psicologia e filosofia dos quendi. As diferenças psicológicas entre os mortais e os imortais. Osanwë. Os versos usados no livro. Ilustrações maravilhosas de Tuulink.

O Livro Negro de Arda – Parte 2 Capí­tulo 8

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A Valinor/Lothlórien tem a honra de dar continuidade à publicação de O
Livro Negro de Arda, publicando o oitavo capítulo da segunda parte, chamado CÁLICE. Leia mais sobre esta obra aqui na Valinor e confira os demais capítulos já publicados, no índice da obra
 
 

PARTE SEGUNDA. MANDARAM ESQUECER
CÁLICE. ANOS 488-500 DO ACORDAR DOS ELFOS

Desde a partida de Artano, começaram a olhá-lo de um jeito estranho em Valinor, e muitos até o evitavam. Ele atribuía isso ao fato de que Aulë perdeu as boas graças do Rei do Mundo e dos Poderes, mas logo ele teve a chance de verificar que não é assim. Ao oferecer, mais uma vez, os serviços dele ao Ferreiro, ele ouviu um taciturno “Não”.

- Mas por quê, meu senhor?

- Quanto você, quanto aquele foram fundidos na mesma forma, – respondeu Aulë, sombrio.

Curumo não o compreendeu, mas não teve coragem de perguntar mais. Mas pensou e memorizou a resposta do senhor dele.

Um dia, ele percebeu um olhar hostil de Tulkas:

- Do que é que você precisa aqui?

Curumo fez uma elegante reverência:

- Eu fui enviado com um encargo do meu senhor Aulë, Poderoso…

- Então vá… – resmungou Tulkas. E, pelas costas, o Maia ouviu, – cria do Inimigo…

Curumo era inteligente – e não era difícil adivinhar a verdade.

“Então eu, tal como Aulendil, fui criado por Melkor. E eu sou o mais poderoso e o mais sábio entre os Maiar, como ele – entre os Valar… Mas claro! E agora os Valar simplesmente têm medo de mim. Até Tulkas. Servo de Aulë! Que título. O que me espera aqui? O destino de um serviçal? E lá? Claro, ele me receberá, como recebeu Artano…” Curumo fez uma careta de despeito. Artano. Rival.

“Mas não me consideram o mais hábil dos discípulos de Aulë? Obviamente, o poderoso Vala dará devido valor a isso. E então veremos. E, para que ele não duvide da minha devoção, eu lhe oferecerei uma grande oferenda, digna de um Senhor!”

- …O que faz aqui?

Curumo levantou-se num salto e curvou-se ao Ferreiro:

- Oh, meu senhor! Eu pensei em fazer um cálice para o Rei do Mundo…

- Por quê não me disse? – Aulë estava começando a se irritar.

- Ó Grande! Você revelou-me um abismo de sabedorias, e deu-me muitos conhecimentos. Mas eu duvidei, seria eu digno de ser servo de um Vala tão sábio… Portanto, se a minha criação for imperfeita, a culpa recairá somente sobre mim, um aluno pouco aplicado. E caso a minha oferenda seja digna do Rei do Mundo, falarão: quão grande é Aulë, se até o aprendiz dele, um servo, pode criar algo assim? E aumentará a sua fama, meu sábio senhor.

- Não é que você está certo?.. Bom, estou contente com você, e o seu plano me agrada. Pode continuar, – as palavras soavam como se o Ferreiro falasse contra a própria vontade.

Curumo fez uma segunda reverência:

- Agradeço-o, sábio. As suas palavras plantam esperança no meu coração. Sou insignificante demais para ajudá-lo nas suas obras; mas se a minha criação servir para a sua fama, não existirá um prêmio maior para mim…

Ele saiu de Valinor silenciosamente e sem ser percebido; e só tempos depois Aulë a ausência dele.

E Gorthaur encontrou-o no portão negro da fortaleza de Melkor. Ele não teve tempo de falar nada: Curumo pulou para abraçá-lo:

- Oh, meu irmão, como estou feliz por estarmos finalmente juntos!

- Mas… – Gorthaur estava perplexo.

- Leve-me ao Senhor, rápido!

Curumo seguia o Maia Escuro, que andava na frente:

- Quão destemido você é, meu irmão! Eu reverencio a sua coragem e a sua resolução; mesmo suportando todas as humilhações e o desprezo com quais eu fui cercado em Valinor, eu demorei em juntar coragem para seguí-lo…

Eles entraram na sala do trono, e Curumo, em lagrimas, atirou-se no chão, abraçando os joelhos de Melkor:

- Finalmente, meu senhor, finalmente eu vim até você!

Melkor olhava-o, chocado, e finalmente conseguiu pronunciar:

- Levante, o que deu em você? Como é pode humilhar-se assim?!

- Não há perdão para mim, Grande! Eu também estive com eles e servi aqueles que se atrevem a opor-se a você! Mas eu voltei a ver, eu compreendi toda a grandeza dos seus planos. O meu lugar é aqui, ao seu lado, meu senhor… Como estou feliz de ter alcançado, finalmente, a verdade!

- Levante-se, por favor…

- Não, Grande, eu sou o pó sob os seus pés, eu não mereço… Perdoar-me-á? – ele queria beijar a mão de Melkor, mas aquele, quase assustado, arrancou a mão, levantou-se e fez Curumo levantar-se do chão:

- Está bem, está bem, eu te perdôo, perdôo, se você precisa tanto disso…

- Agradeço-o, Grande… Será que você se rebaixará a ponto de aceitar a minha oferenda?

O cálice de ouro vermelho, todo enfeitado com esmeraldas e rubis, enrolado em fino ornamento de diamantes. O pé torcido envolto por uma fita de esmeraldas de quatro faces. Trabalho hábil… mas só de olhar – como é pesado… “Como vou levantá-lo?..” – pôde pensar Melkor.

- Somente você – o verdadeiro Senhor do Mundo – é digno de beber de um cálice assim.

- Senhor do Mundo?..

- Claro que sim, senhor! É engraçado ouvir como condecoram Manwë com o título de Rei de Arda. O poder dele não se estende para além dos limites de Valinor; realmente, somente você governa o mundo, meu senhor…

- Por quê me chama de senhor? -perguntou Melkor, finalmente vencendo a surpresa.

- Há outra forma? Tudo em Arda é obediente a sua vontade; nos somos somente os seus servos, incapazes de compreender a profundidade e a grandeza dos seus planos.

- Basta, – o Vala Escuro, resoluto, interrompeu o discurso de Curumo.

- Eu irritei-o, Grande? Imploro-o, perdoe o seu insignificante servo.

Curumo estendeu-se no chão perante o trono.

- Levante! Se quiser tornar-se meu discípulo, não se atreva a humilhar-se! Como pode me chamar de senhor? Aqui você não é servo – está livre!..

- Eu entendi, Grande, e que seja assim como você deseja. Mas conte-me – você aceita a minha oferenda? Não voltará as costas para mim?

- Não… Não… Fale-me somente, porque fez este cálice?

- Estou feliz em explicar-lhe, Grande… Perdoe se eu falar algo errado, pois ainda sei pouco, e não são muitos os conhecimentos que Aulë pôde me transmitir. Ouro é o metal dos senhores, por isso escolhi este material para a minha criação. Três pedras se combinam neste cálice: rubi – pedra do poder, esmeralda – que expulsa a tristeza e traz a alegria, e o diamante – sinal dos vencedores e guerreiros poderosos, semelhante a sua onipotente vontade, pois é indestrutível… Fale, Grande, será que eu errei?

- Não… Mas tudo o que disse é o olhar de um lado somente. Fale com o Artífice – ele explicará…

- Só uma coisa ainda me parece incompreensível, Artífice: eu não vi aqui nada feito de ouro. Ate as suas jóias são de outros metais. Por exemplo, esse seu anel; ele é belo, mas isso é aço? Pense – será que a beleza do anel não aumentaria se ele fosse de ouro?

- Eu entendo-o, Curumo. Mas o Mestre diz que o ouro é um metal pesado e arrogante, poucos possuem força suficiente para domá-lo e mudar a essência dele. Magos e aqueles que têm habilidades de cura preferem a prata, metal da Lua, que não suporta sangue, que dá o poder sobre a essência das coisas e sobre si mesmo. Prata é a sabedoria e a calma, e significa – equilíbrio.

- Isso eu entendo; mas – aço? Por acaso, ele não significa – o poder da força?

- Desculpe-me, mas novamente você olha só por um lado. Tudo depende daquelas mãos que tocam o aço. Aço é vontade e fidelidade; o aço é metal dos defensores e não fica abaixo da prata em nada. Mas, acima dos outros metais, nos apreciamos o ferro.

- Pode isso acontecer? Ferro é um metal rústico e rotineiro…

- E novamente, está certo somente em parte. Ferro é um metal antigo que guarda muitos grandes mistérios. Mas eles serão conhecidos somente por verdadeiramente sábios. O artífice deve possuir alta sabedoria e grande habilidade para trabalhar com o ferro. Esse metal possui uma vontade própria. Nos somente começamos a descobrir os segredos dele, e o Mestre, parece, sabe tudo… sabe, nas mãos dele o ferro canta…

- E o Gorthaur?

- Oh, foram-lhe reveladas muitas coisas. Ele é o primeiro dos discípulos de Melkor.

Curumo fez uma careta. A menção de Artano era desagradável. “Ouro é metal inferior? Como se eles entendessem muito de metais!”

- E as pedras? – perguntou ele em voz alta. “Pelo menos disso eu certamente sei tudo”.

- Você respondeu corretamente ao Mestre, mas… Olhe para este rubi: ele parece o fogo e o sangue ardente, mas ao mesmo tempo é frio como o gelo. A mesma dualidade – nas propriedades dele, e nas propriedades das outras pedras. Rubi – é sinal não somente do poder, mas também da desgraça, diamante – é também a pedra daqueles que curam, e o significado da esmeralda – beleza da natureza e amor do Universo. Você não sabia?

- Claro que sabia, mas…

Curumo não acabou a frase, mas, aparentemente, Geleon-Artífice nem esperava a continuação.

“Ele mesmo não quis explicar. Não se rebaixou. Mandou falar com este burro. Mas deixa. Ele logo compreenderá que eu sou digno de algo maior. Eu provarei…”

- Geleon!

- Sim, Mestre?

- Veja; esse cálice lhe agrada?

O Artífice pensou, e depois respondeu, sem muita certeza:

- Não sei, Mestre… Eu não vejo defeitos… Nunca vi um trabalho tão fino em ouro, e as pedras foram escolhidas com saber e habilidade… todas as proporções estão corretas, mas…

- Mas?

- Perdoe, Mestre, mas por alguma razão eu nem quero tocá-lo, – parecia que Geleon estava surpreso com as próprias palavras. – Quem fez isso?

- Meu… discípulo, – Melkor tropeçou nessa palavra. Devagar, levou o cálice até os lábios…

Ou o ouro vermelho é que pregou nele uma peça, ou isso era um eco daquilo que – será, mas por um instante pareceu-lhe – o cálice está cheio de sangue grosso até as bordas. Ilusão? Mas de onde, então, o gosto salgado nos lábios?..

Melkor atirou o pesado cálice para longe, com horror e repulsa. Este tiniu, rolando pelo soalho de pedra. Melkor fechou os olhos com a mão tremula.

- O que houve, Mestre?!

- Nada… nada… Pareceu-me que…

“Que oferenda é essa que você me trouxe, Curumo? De quem é o sangue neste cálice, de quem é o sangue que você me deu para beber? Isso é um sinal; um presente maldito – ver, sem saber, sem entender o que vê…”

O vinho derramado não lembrava mais sangue, e ele compreendia que foi apenas uma ilusão… mas – forte e nítida demais.

Estudo: Vestido Branco da í‰owyn – "A Dama do Escudo"

Vestido Éowyn - Dama do Escudo
Vestido branco e colete/corselete marrom, usado no Retorno do Rei. Há também uma saia marrom que parece fazer parte do conjunto. De “A Arte do RdR”, entrevista com Ngila Dickson:
 
 

Sempre me perguntam sobre qual é a minha roupa favorita, e a minha
resposta tem sempre sido nenhuma, mas aqui está uma das exceções. Este
vestido simboliza para mim o cruzamento entre mulher e guerreira, o
persistente conflito da personagem de Éowyn. O tecido é a mais macia
seda, com costuras em forma de nervura muito detalhadas e bordado na
gola. Nos trançamos manualmente os fios que seguram as mangas erguidas
– um elemento muito importante para combate, já que não queríamos que a
Éowyn ficasse inibida pelo volume de tecido das mangas. A rica camurça
do espartilho tem costuras num padrão xadrez, e um bordado com um
delicado fio dourado. Precisamos fazer muitas experiências até obter o
equilíbrio certo do bordado – adicionando elementos decorativos sem
deixar de manter o valor prático da peça como um todo.

Do “New Zealand Herald”:

Esse conjunto é um retrato bastante exato do estilo medieval, não contando a estranha liberdade que Dickson tomou. A estrela desse vestido de seda creme com saia comprida é a manga. 

Colete e o espartilho

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O colete e o espartilho são duas peças separadas, feitas de materiais diferentes mas de cor idêntica. O material do espartilho é camurça, e supõe-se que as capinhas das mangas possam ser de camurça também.

O espartilho possui costuras decorativas num padrão xadrez (losangos). A distância entre as costuras é de aproximadamente 2,5 cm. Provavelmente, possui barbantanas leves, pelo menos atrás. Elas podem ser vistas dos dois lados das argolas da amarração – estão costuradas na camada superior do espartilho. É amarrado atrás, com couro marrom e 11 argolas de cada lado, de baixo para cima. Os furos das 3 argolas de baixo passam pela camada superior do bordado. A cor das argolas é ouro manchado. O espartilho possui um “painel da modéstia” atrás, que cobra a parte inferior do colete.

O Livro Negro de Arda – Parte 2 Capí­tulo 7

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A Valinor/Lothlórien tem a honra de dar continuidade à publicação de O
Livro Negro de Arda, publicando o sétimo capítulo da segunda parte, chamado SOBRE OS CAVALOS ALADOS. Leia mais sobre esta obra aqui na Valinor e confira os demais capítulos já publicados, no índice da obra
 
 

PARTE SEGUNDA. MANDARAM ESQUECER
SOBRE OS CAVALOS ALADOS. ANO 15 DO ACORDAR DOS ELFOS

A noite de outono estava viva. Ouvindo cuidadosamente os passos do tempo – o som das gotas de orvalho caindo ritmicamente dos galhos, – ela estava imóvel na esperança de algo que só ela conhecia. A Noite ouvia o Tempo. E dois ouviam a noite. Lentamente, a eterna neblina do vale de Gellome escorria em tiras prateadas. Na primavera, no verão e no outono, as ervas aqui pareciam de prata, como se estivessem cobertas de geada; só na primavera aqui floresciam as florestrelas que cintilam como feitiço primaveril nas coroas do Dia da Prata… O Maia sorriu. Agora, as estrelas floresciam no céu, apesar do luar, era possível ver os traçados familiares das constelações, e, de tempos em tempos, relâmpagos brancos das estrelas cadentes riscavam o céu. “Provavelmente, elas também agora se transformarão em flores…” O Maia olhava para o céu, sentindo como o encanto mágico da noite toma conta dele. Parecia que a noite foi e será eterna, e ele continuará assim dentro dela – eternamente olhando para o céu estrelado. Lá em cima voava o vento, escorregavam as leves nuvens semitransparentes, de vez em quando ocultando com o véu escuro os fios preciosos das constelações.

Um vento repentino jogou para trás, num redemoinho, os cabelos do Maia – prateados no luar.

- Sobre o que você está pensando? – perguntou Melkor em voz baixa, tocando o ombro dele. Gorthaur estremeceu, como se acordasse de um sonho:

- Eu vi… Ou me pareceu? – ele falou quase num sussurro. – Essas nuvens… provavelmente elas me enganaram… Sabe, me pareceu de repente que ali, no céu, está um cavalo. Uma nuvem, coagulo da noite de lua cheia do outono – o corpo dele, as asas – o vento do céu, a crina de neblina e riscos das estrelas cadentes, olhos – o reflexo da lua numa lagoa noturna… Eu ouvi o vôo dele, a respiração dele é como o vento de outono… Mestre, como eu gostaria que isso não fosse somente uma visão…

- Isso não é mais uma visão. Veja!

Melkor apontou para algum lugar na neblina – e então, deslizando silenciosamente sobre a terra, surgiu o cavalo alado, aproximou-se, pisando inaudivelmente, e parou perto deles, olhando torto com o olho de estrela. O Maia sorriu:

- Foi você que fez isso? Novamente um presente?

- Não, – Melkor estava sério. – Foi você mesmo. Simplesmente – teve muita vontade…

Gorthaur já estava entrando, mas Neere o impediu.

- O Senhor pediu para não perturbar, – estrondeou Balrog.

- E o que houve?

- Disse – ele precisa pensar. Você me desculpe, Gor…

Maia acomodou-se num canto com um suspiro:

- Vou esperar. Preciso pedir uns conselhos ao Mestre…

Ficaram calados.

- Não entendo o que está acontecendo com ele, – reclamou Gorthaur. – Não duvido, estes pequenos são uma verdadeira maravilha… Mas mesmo assim: sempre estão o rodeando. E, parece, ele está feliz. Logo, vejo, não poderemos nos esconder deles nem no castelo!

- Pois é, – falou o Balrog com uma voz de baixo. – Ontem mesmo apareceu aqui uma pequenina. O que você, pergunto, quer? E ela me responde assim seriamente: tenho, tipo, um negócio importante com o Mestre. E – passa correndo por mim! Nem deu para abrir a boca… Vai, penso, se o negócio é importante, talvez precisem de mim também. Vou entrando direto para a oficina: ele fazia lá essa coisa esquisita de madeira… sabe, um deles ainda toca numa igual…

- Alaúde, – ajudou Gorthaur.

- Certinho – alaúde. Trabalho fino, é claro. Só o Senhor, mal viu essa pequenina, começou a sorrir, botou tudo de lado na mesma hora… Negocio importante! Ela lhe trouxe umas frutas!

O Balrog calou-se depois da fala descomunalmente longa.

- Vi, – respondeu Gorthaur, – os morangos. Eu entro – eles estão lá na oficina, sentados, e eu nem acreditei nos meus ouvidos – o Mestre está cantando algo para ela. Bem baixinho… – Maia sorriu involuntariamente para a lembrança: a voz de Melkor era muito bonita. – E ele que não recusa quase nada às crianças. Estou certo: se amanhã alguém quiser voar de dragão, o Mestre vai permitir.

- E o dragão? – o Balrog riu.

- Não, eu vou falar tudo para ele. Basta, – o Maia levantou-se resoluto, mas nesse momento Melkor finalmente apareceu na porta. O rosto absolutamente feliz, os olhos brilham:

- Sabe, Discípulo, eu entendi qual é o conto de fadas que eu contarei a eles.

- Oh, Mestre… – Gorthaur sorriu.

Encontrar um quadro semelhante era o que Gorthaur menos esperava. Ele sabia que Melkor é imprevisível; mas aquilo que ele viu agora não correspondia até tal ponto à figura do calmo e sábio Mestre, que Maia ficou perplexo. Eles… brincavam de batalha de neve! Parece que Melkor levou mais do que os outros: os cabelos dele estavam cobertos de neve, e havia neve grudada em toda a capa. “Uma maneira peculiar de expressar o amor pelo Mestre!” Se bem que aquilo que estava acontecendo parecia agradar ao próprio Vala. Ele ria – abertamente e com alegria, como somente crianças sabem rir; atirou uma bola de neve para o ar, e ela se desfez em estrelas cintilantes, iluminando com uma luz suave os rostos rosados pela brincadeira dos Elleri.

- Mestre! – o chamou Gorthaur.

Aquele se virou e foi em direção ao Discípulo, tirando, ao andar, a neve que grudou na roupa.

- O que você está fazendo? Para que?

Melkor, desviando –por um triz – de uma bola de neve certeira atirada pelo Artífice, respondeu:

- Para compreender os homens, é preciso dividir tudo com eles: e dor, e alegria, e trabalho, e diversão. Não é assim, Discípulo?

- Sim, Mestre, mas mesmo assim… eles são simplesmente crianças, e você…

Melkor riu com um riso jovem, feliz:

- E por que não? Fale honestamente: você mesmo não quer tentar?

Gorthaur se perturbou:

- Mas você é o Mestre… Como eles… Como eu…

A bola de neve que o acertou no ombro, impediu o Maia de terminar a frase.

Gorthaur abaixou-se, pegou um punhado de neve na mão; uma segunda bola acertou a testa dele.

- Se cuidem então! Vou mostrar!.. – urrou ele com uma raiva fingida. – Eu estou aqui a negócios, e é com isso aí que vocês me recebem!

O Artífice não conseguiu desviar.

- E isso é de mim! – gritou Melkor, e a bola de neve, ao tocar o peito do Contador de Histórias, virou um pássaro branco.

Gorthaur, virando o rosto coberto de neve para Melkor – o Artífice Geleon não ficou devendo – sugeriu, com um sorriso largo:

- E então, Mestre, vamos mostrar a eles de que nos somos capazes?

Melkor fez um sim com a cabeça, fazendo uma pirueta para desviar de mais uma porção de neve.

Nas mãos do Menestrel, a bola de neve de repente se transformou num pequeno arminho. O animalzinho parou como uma estatua na palma do elfo, brilhando com contas negras dos olhos, espirrou quando flocos de neve caíram em cima dele e se escondeu dentro casaco de pele do Menestrel.

- Está se divertindo, Mestre? – riu Gorthaur.

…À noite, todos se reuniram na casa do Mago – aquecer-se em frente ao fogo e secar as roupas molhadas. Ouviam o Menestrel, bebiam vinho quente com especiarias. Melkor, estudando o cálice de ônix chapeado com prata – presente do Artífice – falava com Gorthaur a meia voz:

- Claro, um simples feitiço é suficiente para expulsar o frio, secar a roupa; os Imortais podem simplesmente não sentir frio. Mas não é mais agradável aquecer-se perto do fogo na roda dos amigos, beber um bom vinho – mesmo que, em essência, você nem tenha necessidade disso – simplesmente ouvir as canções e puxar conversa?

- Você está certo, Mestre, – respondeu o Maia, pensativo. – E eu não consigo compreender: por quê em Valimar o chamam de Inimigo? Por quê dizem que você desconhece o bem, que não é capaz de criar? Perdoe se as minhas palavras te ofenderam… Mas não é mais fácil viver se você compreende os outros, diferentes de você mesmo? Se não tem medo?

- Eu entendi o que você quis dizer. O mal está no fato deles não quererem entender. Claro que não lhe contaram que eu lhes ofereci uma aliança?

- Não…

- Não é de admirar, – Melkor riu tristemente. – O que o Inimigo pode fazer de bom? Valar temem desobedecer a vontade de Eru. E a aliança comigo significa exatamente isso. E, para que ninguém não possa nem mesmo conceber algo assim, me nomeiam inimigo e apóstata. Significa que não pode haver nada de bom nem nos meus pensamentos, nem nos meus feitos.

- Mas isso não é assim!

- E você, pode considerar um inimigo aquele que sabe amar, como você o sabe; que quer ver o mundo belo, como você o quer; que pode sentir e pensar, como você o faz; que se alegra igualmente com o dom de criar? Aquele que, em essência, deseja o mesmo que você?

- Que inimigo seria ele, então?

- Nisso é que está o problema, – Melkor tomou um gole de vinho.

- Sabe, – Gorthaur disse baixo depois de um breve silêncio, – eu estou tentando imaginar Aulë brincando de batalha de neve com os seus discípulos.

- E então? – interessou-se Vala.

- Não dá, – suspirou o Maia. – Ele não se rebaixaria. Provavelmente, nunca viria na cabeça dele transformar uma bola de neve num pássaro. Porque isso não tem nenhuma utilidade. É simplesmente bonito, interessante, divertido… E ele é o Grande Ferreiro, e por isso deve criar somente o grande e o útil. Para maior glória do Único. E disso – que glória? Somente… Aquece o coração, será? Não sei, como dizer…

Melkor suspirou:

- Um dia eu te contarei, o que fez Aulë ficar assim…

- Andarilho!

O jovem virou-se.

- Ouça, Andarilho, o que aconteceu com seus olhos?

Aquele ficou perplexo: aparentemente, nada de especial… O Pintor riu baixo:

- Os seus olhos estão dourados…

- O que? – não entendeu Andarilho.

- Dourados como mel, como o sol nascente. Veja você mesmo!

O Andarilho sorriu:

- E não há nada de engraçado. E não há nada para se surpreender. Olha os seus – são azuis, os do Mago – verdes, como folhas no sol…

- Verdade? – subitamente, o Pintor ficou sério. – Ouça, e por quê?

- Mas não era sempre assim?

- Não… Eram – cinzas, os meus, os seus, os dele… Não consigo entender. Talvez, o Mestre responderá?

- Antes não tínhamos tempo para reparar nisso…

- Nos só agora percebemos…

- Talvez, você sabe? Os estão se tornando diferentes, e os cabelos… Porque?

O Vala sorriu. Quão diferentes eles ficaram… Mechas desobedientes de cabelos ondulados dourados escuros caíam em desordem sobre os ombros do Andarilho, ele é todo assim claro, límpido e fino, como um raio de luz. O olhar do Pintor é tenaz e aguçado, mas os olhos – azuis, aveludados, como safira escura, e os cabelos negros estão presos por uma tira fina de couro. Ele aparenta ser mais velho: o Andarilho, comparado com ele, é quase um menino, mesmo que os dois sejam dos Primeiros. Mas todos sabem que faz tempo que o Artífice Orein de olhos azuis perde e a coragem, e a confiança, e a severidade, basta aparecer por perto a pequenina e delicada Halie – hábil bordadeira e tecelã.

- Por quê, Mestre?

- Simplesmente – vocês são Homens. E os homens são todos diferentes, não se parecem um com o outro, como folhas de uma arvore, como estrelas…

“Vocês são Homens. Assim como eu os via, quando ouvia o Canto de Ëa. Só que pela vontade de Eru eles serão tão pouco duradouros como faíscas, e serei eu capaz de devolver-lhes aquilo que ele tomou? Ou a dádiva da liberdade se tornará para eles um castigo e um mal? Será que nisso Eru será o mais forte?”

Foi uma conversa inesperada.

- Conte, Gorthaur, e os outros Criadores do Mundo, aqueles que vivem em Valinor, eles são bonitos?

Ele ficou pensando por muito tempo, pela primeira vez descobrindo, surpreso, que agora os rostos perfeitos dos Valar não lhe parecem nada belos. Nenhum traço errado, como se alguém tivesse como meta a criação de uma beleza perfeita, e conseguiu-o, mas na corrida atrás da clareza e exatidão das linhas desapareceu algo principal, tão importante como impossível de capturar, e nestes rostos não havia vida. Todos os Valar eram diferentes e – semelhantes, mesmo se distinguindo pelos traços dos rostos e alturas, cor dos olhos e dos cabelos. Alias, quase todos…

Não, aqueles que ele via ao redor de si agora eram infinitamente mais belos. E o sonhador moreno de olhos dourados, o Andarilho, e o Armeiro, zombeteiro, de ombros largos, Gellor-Mago, sempre pensativo e concentrado, e a impetuosa Allua, e quase majestosa Onnele Cyolla…

- E as Valier?

Pensando bem, era possível chamar de belas somente duas: Nienna e Este. Justamente porque os rostos delas foram marcados por algum sentimento. Mas a obra prima de acabamento, a perfeita Rainha do Mundo – qual dos Homens a chamará de bela?

- E o Rei… o irmão mais novo do Mestre?

Manwë. Estranho: enormes olhos brilhantes e pestanas compridas não estragam em nada o irmão mais velho, e os traços do mais novo são quase efeminados – por quê? Novamente algo impossível de capturar…

- Ouça, Gorthaur… eu pensei só agora… – O Andarilho parecia envergonhado. – Qual é a cor dos olhos do Mestre?

E verdade – qual? Cinza-claros? Verdes? Azuis? Seria possível definir a cor das estrelas?.. Vinham-lhe na cabeça somente comparações: céu, mar, estrelas… Mas o céu também não é sempre azul, as águas do mar nem sempre parecem verdes… Relâmpago?.. Gelo?.. Aço?..

- Não sei. Eu não sei.

Eles eram diferentes, os Discípulos de Melkor, Elleri Ache. Havia aqueles em cujas mãos o metal começava a cantar e as gemas ganhavam vida. Havia aqueles que compreendiam a língua dos animais e dos pássaros, das arvores e das ervas, e aqueles que sabiam ler o Livro da Noite… E aquele que sabia compor canções melhor que todos, chamava-se – Menestrel Escuro. O sinal dele era a estrela alada de nove pontas: aperfeiçoamento da alma, o caminho do coração alado. As baladas dele pareciam e não pareciam aquelas que o Maia dos olhos dourados cantava; talvez porque nelas vivia uma tristeza desconhecida. E os olhos daqueles que o ouviam se enevoavam. E aquele que via os sinais do Escuro encontrou um meio de anotar os pensamentos. Ele criou os sinais tay-an, que poderiam ser escritos no pergaminho com pena e com pincel, e aqueles que poderiam ser gravados nas pedras e talhadas na madeira. E entre os Elfos do Escuro, ele levava o nome de Amigo dos Livros.

E aquele que ouvia os cantos da terra, as contava em forma de contos de fadas – estranhos e sábios, alegres e tristes. Assim dizia ele: “Nossos filhos amarão estes contos; quando se começa a descobrir o mundo, ele parece cheio de maravilhas e enigmas – que seja assim naquelas histórias que lhes serão contadas…” Melkor sorria, ouvindo-o; e o chamaram de Contador de Histórias.

Eles eram diferentes, mas semelhantes em uma coisa: todos eles consideravam-se Homens, pois, mesmo que fossem inicialmente Elfos, escolheram o caminho dos Mortais; mas a vida deles era tão longa quanto a dos Primeiros Nascidos, e o cansaço não os tocava – quem teria tempo para se cansar quando há, ao redor, tanto desconhecido, novo e belo? E o mundo espera o toque das suas mãos, e alegra-se com você, e o seu coração está aberto a ele…

E o Mestre alegrava-se vendo como aumenta a sabedoria e o entendimento dos discípulos dele.

E a paz reinava em Arta. Mas ela durou pouco.

O Livro Negro de Arda – Parte 2 Capí­tulo 6

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A Valinor/Lothlórien tem a honra de dar continuidade à publicação de O
Livro Negro de Arda, publicando o sexto capítulo da segunda parte, chamado SOBRE A CHEGADA DOS HOMENS. Leia mais sobre esta obra aqui na Valinor e confira os demais capítulos já publicados, no índice da obra
 
 

PARTE SEGUNDA. MANDARAM ESQUECER
SOBRE A CHEGADA DOS HOMENS

…Quem sabe, quem contará sobre quando surgiram em Arta os Homens? Os sábios dizem – quando o Sol se levantou pela primeira vez sobre o mundo. Mas o Sol é mais antigo do que Arta, e o nascer dele foi visto muitas vezes por aqueles que tinham o dom de vê-lo, e isso foi muito antes dos Homens. Os Elfos sabem somente sobre aqueles Homens que chegaram ao Ocidente nos dias de Finrod Felagund, sobre aqueles que depois seriam chamados de as Três Hostes ou de Atani. Sobre os outros homens, que escolheram caminhos diferentes do caminho para o Ocidente, os Elfos nada sabiam. Também não sabiam que, desde o início, os Homens eram capazes de ver o Sol e a Lua, – muito antes de os Elfos verem a Face do Dia e a Face da Noite. Os Homens receberam dádivas estranhas, e muitas delas eram estranhas e incompreensíveis para os Elfos. E elas não foram dados de uma vez, como aos Elfos, mas acordavam gradativamente, e, ao descobrir em si um novo dom, o humano não o perdia depois, mas o polia, passando-o de geração em geração. Se, claro, ele mesmo não se assustasse com o próprio dom…

Sobre o Acordar dos Homens contam as lendas que hoje são guardadas por poucos. Naquele vale que os Eldar chamam de Hildórien, acordaram primeiro aqueles que são chamados de Nascidos-na-Noite, apesar de eles terem chegado na hora anterior a alvorada, quando o céu no Oriente já começa a clarear, mas as estrelas da noite ainda são brilhantes. As lendas nomeiam quatro povos: Ahhi, Noturnos, e Aoi, Homens das Sombras da Floresta; Ilchennir, Filhos da Lua, e Ochor’tenn’ayri, Aqueles-que-Vêem-e-Preservam.

Naquela hora em que no céu que clareia as estrelas ardem, como gotas de orvalho prontas para despencar, e sobre a terra escorre, num lento rio sonolento, uma cintilante neblina mágica, chegaram ao mundo os Elliri, Filhos da Estrela, o primeiro dos Povos do Amanhecer. Relva orvalhada e a neblina da manhã se dissolvendo – povo Ennir ert’Sin, e os primeiros raios do Sol dourado – homens de Eturu…

São chamadas de Filhos do Sol as Três Hostes dos Edain; e irmãos deles – o povo Asener, os homens de Hanatta e Nghatta, e tribos nômades que voam sobre a terra como o vento do meio-dia. E a sombra do meio-dia deu vida àqueles que se chamaram – Ullayr Ghellach, o Povo das Estrelas da Meia-Noite.

E no pôr-do-sol, entraram no mundo os povos de Ana e Daon. Os últimos raios claros – oferenda do Sol para o povo Daho, e na hora do nascimento das estrelas chegaram as hostes daquela terra que foi chamada de Angellemar, Vale onde Nascem as Estrelas. E quando o céu ainda não teve tempo de escurecer no Ocidente, nasceram os que foram nomeados Irmãos dos Lobos.

Nem todos os nomes foram ditos, e muitos povos não se recordam mais da Hora do Acordar. A sabedoria perdida dos Ohor’tenn’ayri guardava os nomes de todos os povos, mas hoje não há ninguém para contar sobre isso, pois esta hoste sumiu da face de Arta; misturou-se o sangue dos povos e dialetos deles, as lendas que eram transmitidas de boca em boca por muitas gerações tornaram-se vagas. E apesar de tudo, muitos lembram Daquele Que Vinha. Assim conta sobre ele o mito do Povo da Estrela:

 “E entre nos surgiu alguém, semelhante a nos, mas mais belo e mais sábio que nos. E ele veio na noite, e ele vestia as vestes do Escuro, e asas negras estavam nas costas dele. E os cabelos dele eram como a noite, e estrelas estavam enlaçadas neles, mas mais brilhantes que as estrelas eram os olhos dele. E ele falou conosco, e a fala se assemelhava à nossa, mas era diferente, e as palavras dele eram música, semelhantes a llien tayre omm ellar – canção que voa entre as estrelas; e tudo era compreensível para nos.

E ele disse: Eu vim até vocês, pois desejava vê-los.

E ele disse: eu não vim para levá-los pelos caminhos batidos; eu lhes apontarei os caminhos, mas vocês escolherão o seu pela própria vontade, e sozinhos seguirão por ele. Se desejarem, eu lhes darei os inícios dos conhecimentos que lhes ajudarão no caminho, mas vocês mesmos chegarão à sabedoria. E quando for assim, vocês serão iguais a mim, e acima de mim, pois vocês são livres e podem mudar os destinos do mundo…

E ele nos ensinava muitas coisas, e conversava conosco sobre tudo o que existe no mundo, e sobre tudo que é o corpo do mundo, e sobre a alma dele; e sobre estrelas incontáveis que brilham na escuridão… E ele nos falava sobre a criação do mundo, sobre a Grande Música e sobre os outros mundos que cintilam como pérolas entre as estrelas de Ëa. E ele contava como foram criadas as plantas e os animais, o Povo Mais Velho e os Homens, e ensinava a conversar com os espíritos das florestas, montanhas e águas, com animais e pássaros, ouvir as vozes da terra, das arvores e das ervas, canções das estrelas e canções do vento.

Ele apareceu mais de uma vez, e nos o esperávamos, pois tínhamos sede de novos conhecimentos e nos alegrávamos ao descobrir o novo; e também porque o amávamos. Mas ele não nos revelou o nome dele, e nos o chamávamos de Aquele que Amou e de Mestre. E nos entristecemos-nos quando, um dia, ele partiu e não voltou…”

Os homens não sabiam o nome Daquele Que Vinha, como não sabiam também quem era ele; e muitos o chamavam de Deus da Noite, e davam-lhe muitos nomes. E os Elliri o chamaram de Elgo Tchore, o que significa – Aquele que Ouve o Mundo, Que Veio na Noite.

Do vale do Acordar, os caminhos dos Homens se separaram, e cada povo achou uma terra que se tornou o lar dele. Somente os Elliri eram Andarilhos desde o início. Eles passaram, vagando, longos anos, e viram muitas terras, mas de nenhuma delas falaram – eis o nosso lar. E eles estavam felizes com a viagem, descobrindo para si o jovem mundo, os segredos e maravilhas dele. E no caminho, a Noite do Grande Feitiço os encontrou…

…E alguém exclamou de repente:

- Olhem!..

Abrindo as asas imensas, um Dragão voava silenciosamente no céu noturno. As escamas cor de mel e de cobre brilhavam com o ouro opaco no luar; ele dançava, expondo o corpo elegante para a luz mágica, e os homens ouviram o surdo ritmo do feitiço da dança. Eles olhavam, sem desviar os olhos, cedendo aos feitiços da Dança da Lua, e nos corações deles nascia a Música. A noite cantava, e estranhas flores pálidas e cintilantes se abriam, um aroma levemente amargo e triste flutuava no ar, e soava uma melodia baixa de flauta, e nela enlaçavam-se, com brilhos de fogos escuros com tons de ouro vermelho, as notas cálidas das flores de feto. A noite soava com acordes surdos de órgão – cantavam as árvores milenares, e os espíritos das florestas dançavam sem se ocultar dos olhares dos homens, e as canções deles eram indistinguíveis das canções das ervas e flores, e, sobre o veludo roxo e negro do céu de outono, as estrelas traçavam runas estranhas, e em uma dança encantada rodopiava o Dragão…

Innire, Aquela que Dança sob a Lua, enlaçou nos cabelos dela as brancas flores-estrelas, e saiu, e seguiu a dança; e os espíritos da floresta dançavam com ela. E naquela noite, os homens falavam nas línguas de ervas e flores, pois não queriam quebrar o silêncio com o som da voz: as flores e ervas eram as palavras deles, e as estrelas os coroavam…

Desde então, o dragão que dança no céu noturno sob a coroa da Sete estrelas, coroado com Uma, a mais brilhante, tornou-se para os Elliri o sinal de alta sabedoria e da magia.

Assim eles andavam pela terra – Andarilhos da Estrela. E chegou a hora em que, nas suas viagens, eles viram no silêncio da meia-noite a Coroa que baixou sobre as montanhas brancas do norte e, como a gema mais preciosa na Coroa do Mundo, brilhava a Estrela. E assim acabaram as andanças obscuras deles pela a face de Arta, pois a Estrela apontou-lhes o caminho, e agora eles sabiam para onde ir.

As lendas preservaram os nomes antigos. Havia um com o nome de Neyir, Aquele que Aponta o Caminho. Dizem que quando ele olhava para a Estrela, ele dizia – ela sofre e ama. E uma vez, depois de passar a noite sob o céu aberto, sem sono, em uma tristeza clara e estranha, ele veio até os chefes e disse:

- Eu sei – existe a Terra-sob-a-Estrela, e o meu coração me chama para lá. Eu quero, eu devo encontrá-la, por mais longo que seja o caminho. Quem irá comigo?

E os homens acreditaram nele, pois sabiam que Neyir vê mais longe do que os outros com o coração. E o seguiram, pois nos corações deles também batia o chamado da Estrela.

Por muitos dias e noites, por muitos anos eles seguiram a Estrela. Canções sobre a Grande Viagem são belas e tristes, cheias de saudade e esperança, pressentimento e fé, e nas canções soa o nome da Estrela – Meltor. Ninguém sabia porque a chamaram de Forca do Amor, mas também ninguém perguntava, pois eles não poderiam imaginar um outro nome para a Estrela: eles sentiam mais do que podiam perceber então.

E as Canções da Grande Viagem guardam o conto sobre os homens vestidos de negro, cujos olhos brilhavam como estrelas – sobre os sábios andarilhos que vinham para falar com os homens, que lhes traziam as próprias canções, sabedoria e conhecimentos. E o nome do povo deles era parecido com aquele que se deram os Andarilhos da Estrela: Elleri Ache.

O Livro Negro de Arda – Parte 2 Capí­tulo 5

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A Valinor/Lothlórien tem a honra de dar continuidade à publicação de O
Livro Negro de Arda, publicando o quinto capítulo da segunda parte, chamado AS SETE ESTRELAS. Leia mais sobre esta obra aqui na Valinor e confira os demais capítulos já publicados, no índice da obra
 
 

PARTE SEGUNDA. MANDARAM ESQUECER
AS SETE ESTRELAS

"… e alto no Norte como um desafio a Melkor ela pôs a coroa das sete poderosas estrelas para girar, Valacirca, a Foice dos Valar e o sinal do destino …"

Numa meia-noite negra e gelada, naquela hora em que morrem os sons terrenos, sobre as eternas cãs das montanhas do norte ergueram-se as sete estrelas. Sete – e Uma. Aqueles cujo destino foi vê-las naquele inalcançável instante em que o limiar entre o mundo e o universo quase desaparece, repentinamente começavam a ouvir uma música silenciosa, eternamente viva. Aquele que a ouviu, jamais poderia esquecê-la, ela soava para ele em todos os lugares e sempre: de dia – no murmúrio do vento, no estrondo de uma avalanche, no rugido da tempestade, no ranger baixo da pena sobre o pergaminho, nas voltas silenciosas do falcão no forte azul do céu das montanhas; de noite – no uivo do lobo, nas faíscas da fogueira, no canto da lua refletida na água parada… Palavras, cujo sentido é sentido com toda a alma – mas é impossível decifrá-las. Está na soleira da porta, mas não se atreve a entrar.

Quem, que grande artífice criou esta maravilhosa coroa, quem coroou com ela as Terras Mortais? Sete estrelas cintilavam, tremulas – assim estremece o mundo nos olhos cheios de lagrimas. Uma – ardia, calma. E somente prestando mais atenção, podia-se notar que ela pulsa – como bate um coração. Cada um dos que viram estas estrelas tentava entender – o que significa esta coroa na noite. E nasciam lendas – belas e grosseiras, tristes e grandíloquas…

 “Oito Aratar reinam em Arda. O líder deles é Manwe. Como uma coroa sobre a cabeça do governante – sinal ameaçador aos escravos e aos maus, assim a Coroa da Terra-Média – ameaça e advertência sobre aquele castigo que inevitavelmente recairá sobre o Inimigo. Que seja ele amaldiçoado para todo o sempre, aquele que se atreve a desobedecer a Eru!

…Como uma estrela na Coroa da meia-noite – assim é Manwe entre os Aratar. Os nomes dos Sete, que a toda Arda governam na grandeza – a criadora das estrelas Varda e Ulmo, senhor das profundezas das águas, mãe de tudo o que vive Yavanna e Aulë, o ferreiro, senhor dos destinos de Arda, senhor dos mortos Námo, mãe dos que sofrem Nienna e Orome, senhor dos cavalos. E, um sinal da glória deles, Varda criou a Coroa da Terra-Média, e a mais brilhante é a estrela do senhor Manwe. E o Inimigo foi expulso do círculo dos Grandes, e que suma ele da face de Arda! Que a Coroa da Terra-Média seja para ele um eterno desafio!..”

 “…Vê – ali em cima, sobre as montanhas – a Coroa? Vê – a Estrela? Dizem, ela não é o sol de um mundo distante, como aquelas Sete. Dizem, o Mestre acendeu-a com a força do amor e a magia do saber há muito tempo, antes ainda do nosso acordar nas águas escuras da Lagoa. Isso é um sinal para aqueles que eternamente seguem pelo caminho da busca e dos feitos, do saber, do amor e do sacrifício. Para aqueles que seguem e para aqueles que ainda não nasceram no mundo, mas que pisarão sobre este caminho. Dizem, é um desafio dos Valar. E dizem ainda – se olhar com atenção e ouvir, notará como bate o coração da estrela. Mas isso tudo são somente boatos – o Mestre somente sorri quando você o pergunta sobre isso. E, mesmo assim, eu acho que é verdade. Porque… Não sei. É belo, e eu acredito nisso, e por alguma razão o coração diz que é assim mesmo… E porque – Sete e Uma? Eu não sei. Sete – é um número mágico, nos somente compreendemos o significado dele há pouco tempo – é o numero da verdade e da harmonia, e significa – multiplicidade dos mundos. Pois é certo – Sete Sois e Arta! Talvez, por isso? Verdade que alguns dizem que as Sete estrelas se reuniram assim por acaso, mas… é uma coincidência boa demais. Provavelmente não. Em Ea, essas Sete significam algo justamente para Arta. Mas por enquanto eu não sei. É preciso pensar e procurar…”