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O Fantástico Realismo de Chesterton

1) Introdução

Falar de realismo chestertoniano é falar de realismo aristotélico ou mesmo falar de realismo sem qualquer adjetivação. É puro realismo, em oposição ao idealismo moderno de Descartes, Kant, Hegel, Husserl e todos aqueles para quem o que existe é o mundo mental, ao qual a realidade está submetida.

Adjetivá-lo de fantástico (qualidade que meu pai atribui a tudo o que o alegra e impressiona) se deve ao fato de que, valorizando o mundo da imaginação e da fantasia, tem os pés mais fincados na terra do que aqueles que, desprezando o fantástico e o “admirável Mundo Velho”, vivem realmente no mundo da lua, das suas cogitações e ambições, colocando no próprio umbigo o centro do mundo e a contagem do tempo.

Fez-me rir (e retrata bem o quão arraigada se encontra no homem a tendência ao egocentrismo) a expressão daquele personagem do romance de Patrick O’Brian (1914-2000) “A Fragata Surprise” (Record – 2007 – Rio), um rapazinho indiano de uns 15 anos, guia do Dr. Stephen Maturin, médico do navio, que, perguntado pelo naturalista sobre quão antiga era uma determinada estátua de Bombaim, respondeu com toda a simplicidade: “Tem uma idade imemorial, pois está aí desde antes de eu nascer…”. Expressão que lembra muito a de um conhecido político brasileiro, monotonamente repetida ao falar de suas realizações: “Nunca antes na história deste país…”.

O realismo chestertoniano está primorosamente retratado no livro “Chesterton e o Universo” (Editora UnB – 2008 – Brasília), de Scott Randal Paine (tradução de Lenise Garcia Corrêa Barbosa), em que o autor apresenta a cosmovisão desse gigante na defesa do senso comum que foi Gilbert Keith Chesterton (1874-1936).

Paine, para mostrar a importância do realismo, percorre, no capítulo II (“A Grande Recusa da Filosofia Moderna”), o itinerário que o idealismo seguiu, a partir de Descartes, para chegar a negar as evidências da realidade extra-mental e tentar construir a realidade a partir do sujeito pensante:

a) Descartes (1596-1650): “O Universo Duvidado”;

b) Kant (1724-1804): “O Universo Postulado”;

c) Husserl (1859-1938): “O Universo entre Parênteses”.

2) A Trilha do Idealismo avesso à Realidade

Negar a realidade? É possível que a filosofia moderna tenha chegado a isso? Se Aristóteles (384-322 a.C.) já havia mostrado como se dá o processo de abstração das idéias, a partir da captação sensorial da realidade, como foi possível negar a evidência do mundo que se apresenta diante de nós? Algo impensável, se apresentado assim, com essa simplicidade. Mas é isso que vemos na filosofia moderna cartesiana, em que tudo deve ser matematizado, explicado e compreendido a partir do auto-conhecimento do sujeito pensante!

Essa desconstrução da realidade começa, efetivamente, com Descartes e sua dúvida metódica. Enquanto para Aristóteles e os filósofos gregos o início da filosofia era a admiração (o “mirandum”), ou seja, o impacto diante da beleza e riqueza da Natureza, que faz com que nos perguntemos sobre sua essência e significado, já Descartes, querendo ter uma certeza maior do que já temos, passou a ver na dúvida o início de toda filosofia, ou seja, não acreditar nos sentidos, que poderiam nos enganar, para confiar inteiramente apenas na sua própria reflexão, de modo a ter idéias claras e distintas, chegando finalmente ao seu conhecido postulado inicial de toda a filosofia moderna: “Penso, logo existo”.

Essa estapafúrdia crise existencial induzida é bem descrita pelo próprio Descartes em seu “Discurso do Método”:

Considerarei não a Deus, que é muito bondoso e a suprema fonte da verdade, mas a um certo espírito do mal, não menos talentoso e enganoso do que poderoso, que tem aplicado todos os seus esforços para iludir-me. Considerarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as formas e os sons, e todas as outras coisas objetivas que vemos, não passam de ilusões e sonhos que ele usou para enganar minha credulidade. Considerarei a mim mesmo como não tendo mãos, olhos, carne, sangue, nem qualquer sentido, mas acreditando falsamente que possuo todas essas coisas. Permaneceria decididamente vinculado a essa hipótese e, se não conseguir alcançar o conhecimento de qualquer verdade por meio desse método, de qualquer forma estará em minhas mãos suspender meu julgamento” (pg. 8).

Descartes começa por duvidar de que esteja acordado; Kant vai mais além e afirma que vivia no sonho dogmático do qual o acordou Hume (1711-1776), começando por negar a cognoscibilidade do mundo extra-mental, ao afirmar que apenas as suas aparências poderiam ser captadas por nós. Daí que caberia à mente humana dar o conteúdo a essas aparências, através das categorias de tempo e espaço. Paradoxalmente, Kant chama à sua “Crítica da Razão Pura” (1781) de Filosofia Transcendental: “Chamo transcendental todo conhecimento que em geral se ocupe, não dos objetos, mas da maneira que temos de conhecê-los, tanto quanto possível “a priori”.

Como se pode conhecer algo “a priori”? Só mesmo invertendo a equação do conhecimento e admitindo, como o faz Kant na sua “Crítica”, que são os objetos que se devem regular pelo nosso conhecimento e não a nossa cabeça pela realidade extra-mental. Assim, sim, conheceríamos em nós as coisas e não a partir do mundo lá fora…

3) Do Subjetivismo Gnoseológico ao Subjetivismo Ético

Do subjetivismo gnoseológico (de “gnose”, conhecimento), bem retratado na repetida expressão “ninguém é dono da verdade”, ao subjetivismo ético, também representado por outra conhecida frase “o que é errado para você não é errado para mim”, é apenas um passo: se não existe um mundo real extra-mental e objetivo a ser conhecido, sendo o processo de conhecimento um exercício de humildade, ou seja, de adequação e submissão de nossa cabeça a essa realidade, então também não existirá um bem objetivo e adequado à natureza humana, a ser buscado pelo homem como aquele que o poderá aperfeiçoar e realizar. Daí tanta frustração e infelicidade, também no meio da abundância.

Paradigmática, nesse sentido, foi a resposta de Frank Sinatra (1915-1998), no começo dos anos 80, a um jornalista que lhe surpreendeu com a seguinte pergunta (lembrando um amigo meu ponte-pretano, que a todos filosoficamente coloca essa questão existencial): “Frank, você é feliz?”. “The Voice”, como ficou conhecido o fantástico cantor, o qual teve na vida tudo o que desejou – mulheres, poder, fama, dinheiro, capacidade de influência, amigos reais ou bajuladores, satisfazendo inclusive as mínimas vontades, como quando comprou o time de beisebol para o qual torcia, para fazer a escalação que queria… –, respondeu simplesmente: “Não… mas a felicidade não existe”.

O que diria Chesterton a tão inveterado pessimista? Responderia naturalmente com todo o otimismo de seu fantástico realismo: não são as grandes emoções, a posse de incomensuráveis riquezas, o domínio despótico sobre a vontade própria e alheia que fazem a pessoa feliz e bem postada neste mundo – “bem resolvida”, como diria uma pessoa que comigo trabalha –, mas a valorização do comum e do pequeno. O maravilhar-se de ter duas pernas e dois braços e uma cabeça acima do tronco, em proporções que variam nas mais singulares formas de beleza e diferenciação, como mostra da riqueza exuberante da Criação.

4) A Realidade e a Fantasia

Numa passagem antológica de seu “Ortodoxia” (LTr – 2001 – São Paulo, tradução de Cláudia Albuquerque Tavares e apresentação, notas e anexos nossos), Chesterton fala do realismo da criança, já não alcançável pela maioria dos adultos (que bom seria não perder nunca essa capacidade de se maravilhar com o mundo, como o faz a criança):

“Da mesma forma como todos apreciamos as histórias de amor, devido ao instinto sexual,  também gostamos das histórias de terror, porque nos despertam o velho instinto da surpresa. Isso pode ser provado pelo fato de que, quando somos ainda criancinhas, não precisamos de contos de fadas: precisamos, apenas, de contos. A simples vida já é suficientemente interessante. Uma criança de sete anos ficará impressionada se lhe disserem que o pequeno Tomás abriu uma porta e viu um dragão: mas uma criança de três anos já ficará impressionada se lhe disserem apenas que o pequeno Tomás abriu uma porta. Os jovens gostam de contos românticos, mas as crianças gostam de contos realistas – exatamente porque os acham românticos. Na verdade, uma criancinha é quase a única pessoa, segundo a minha maneira de pensar, que poderá ouvir um moderno romance realista sem achá-lo enfadonho. Isso prova que os contos de fadas são, ainda, os únicos que fazem despertar em nós o sentimento quase inato de interesse e admiração” (pg. 76).

Quando Chesterton fala das histórias de terror que despertam o instinto de surpresa no homem, não deixa, em seu realismo, de reconhecer que o mundo real é mais terrificante do que qualquer história de horror. Li, recentemente, o livro “Sobrevivi para Contar” (Fontanar – 2008 – São Paulo) de Immaculée Ilibagiza (n. 1970), sobrevivente do genocídio dos tustsis pelos hutus em Ruanda, ocorrido no ano de 1994. Durante 3 meses, ela ficou escondida com outras 7 mulheres num banheiro de 1×1,5m2, enquanto perto de um milhão de tutsis eram mortos pelo simples fato de serem tutsis (o filme “Hotel Ruanda” retrata bem o ocorrido). Durante 3 meses, o país parou, os serviços públicos cessaram, para que a população hutu, a mando do governo, liquidasse com todas as “baratas” tutsis. Homens, mulheres e crianças eram trucidados sem piedade.

Mas o fantástico da história foi a capacidade de perdão de Ilibagiza para com aqueles que mataram toda a sua família! O perdão não era apenas a condição de se reconstruir o país: era condição para se voltar a ter paz interior, sob pena de se ficar eternamente com o corrosivo sentimento de ódio e desejo de vingança.

Paine, em seu livro, explora bem essa vertente do realismo chestertoniano, ao comentar o capítulo sobre “A Ética na Terra das fadas” (pgs. 126-152). Enquanto Lewis Carroll (1832-1898), em seu “Alice no País das Maravilhas” (Jorge Zahar Editor – 2002 – Rio, Tradução de Maria Luiza Borges), apresenta uma rota de fuga do mundo real, do qual podemos estar cansados quer por sua monotonia, quer pelo estresse que nos causa, Chesterton procura mostrar em seus livros que o mundo fantástico é aquele em que vivemos. Ao invés de entrar na toca do coelho para ter grandes emoções e surpresas, basta sair dela para ver no ordinário e corrente pessoas e acontecimentos fantásticos.

Há um paralelismo muito grande entre os Contos de Fadas: na maioria deles existem mundos paralelos – o real e o imaginário – que se ligam, mas cada um com sua realidade e lógica própria. Não é o caso da magnífica obra de J. R. R. Tolkien (1892-1973) “O Senhor dos Anéis” (Martins Fontes – 2002 – São Paulo), toda ela um mundo fantástico, que começa com os elfos e termina com a história humana.

Mas em obras como “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, “As Crônicas de Nárnia” (Martins Fontes – 2009 – São Paulo) de C. S. Lewis (1898-1963), “A História Sem Fim” (Martins Fontes – 2009 – São Paulo) de Michael Ende (1929-1995), ou “Harry Potter” (Rocco – 1997 a 2007 – São Paulo) de J. K. Rowling (n. 1965), há esses mundos paralelos, o nosso e o da fantasia.

Em Nárnia se ingressa pelos anéis mágicos ou pelo guarda-roupa; no País das Maravilhas pela toca do coelho; em Fantasia por um livro; e no mundo dos bruxos pelos portais especiais. Ou seja, a imaginação humana não é tão imaginativa assim e a realidade ainda sobrepuja a ficção.

A própria poesia da criação desses mundos fantásticos segue cheia de paralelismo: tanto a “Terra Média” construída por Tolkien quanto “Nárnia” idealizada por Lewis têm início a partir da música: o “canto dos Ainur” e o “canto de Ashlam” materializam o espaço e o tempo, fazendo do mundo e da história uma grande sinfonia, com suas luzes e sombras, rompantes e sussurros, como é a vida comum.

5) A Literatura e Realidade

A rigor, toda a literatura, quer seja de ficção ou não, não deixa de ser uma fuga do mundo real do leitor, para entrar no mundo da experiência alheia. Tive essa sensação recentemente, por ocasião do nascimento de minha sobrinha Daniela, com Síndrome de Down. Recebi de uma colega o livro “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza (Record – 2008 – Rio) e, ao começar a lê-lo, cheguei à conclusão de que a experiência pessoal é sempre única. Como a do personagem central de “A morte de Ivan Ilitich”, de Leon Tolstoi, que sempre acreditara no silogismo “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é moratl”, mas que acaba dizendo que aquilo estava bem para Sócrates, não para ele, ao descobrir que tinha seus dias contados.

Aprendemos da experiência alheia, pois os problemas humanos são semelhantes, mas as reações são muitas vezes distintas. À surpresa inicial com as características especiais de minha sobrinha seguiu-se a reação sobrenatural de ver nessa criaturinha tão frágil, carente de carinho e verdadeira usina potencial de amor e afeto, justamente pelas características especiais de seu gênero, a mão de Deus, a pedir uma doação maior de cada um que com ela conviver, elevando o nível geral de virtude de pais, irmãos, avós, tios, primos e amigos. Como disse em seguida meu pai: “Fantástico!”. Um verdadeiro Conto de Fadas, só que com a beleza e a dramaticidade de ser real!

Ao receber a segunda foto da Daniela, com seu sorriso angelical, não pude deixar de pensar que será como uma fada madrinha para toda a família. Aliás, a personagem emblemática dos Contos de Fadas, e que lhes dá o nome, é justamente a Fada Madrinha. Vivendo neste nosso mundo atribulado e cheio de compromissos, quantas abnegadas fadas madrinha não encontramos ao nosso lado, que tornam o peso do dia e do calor menos intenso e a vida mais leve e aprazível. Penso agora em minha mãe, irmãs, sobrinhas e secretárias, com tantos detalhes de atenção e carinho, que me parecem de outro mundo: algo fantástico.

6) De Deus e do Mundo

Paine, em seu livro, fala da estreita relação que existe entre a poesia, a filosofia e a oração, como etapas de nosso contato com o Universo. Primeiro cantamos a beleza da natureza e da vida, com uma sincera admiração; depois começamos a perscrutar os seus mistérios tentando desvendá-los, nem que seja minimamente; finalmente, ao descobrir a existência de um Ser Pessoal por trás de tudo, caímos de joelhos em agradecimento e louvor:

“A poesia começa com prazer e termina em admiração, mas a filosofia começa com a admiração e termina em estupefação. (…) Se filosofarmos longamente, e bem, poderemos um dia deixar de lado nossos livros e construir uma igreja” (pgs. 199-200).

O problema que Chesterton encontra na “Postura da Mente Ocidental” a partir de Descartes e Kant é o de querer desvendar absolutamente todos os mistérios do Universo e querer ordená-los segundo a própria mente, partindo de premissas falsas, quais sejam, as de que a evidência do mundo deve ser submetida a demonstração pelo intelecto, e de que, lembrando Hegel (1770-1831), “o real é racional e o racional é real” (“Fenomenologia do Espírito” – 1807).

Ora, o que pensamos não existe necessariamente na realidade e nem tudo o que existe é compreensível pela mente humana. Assim, a atitude diante da realidade deve ser a da humilde submissão do intelecto, que reconhece seus limites e canta admirado o que pode ver e apreciar. No 1º capítulo de “Ortodoxia” (“Os Maníacos”), Chesterton oferece uma imagem perfeita do realismo poético frente ao idealismo lógico:

“O poeta procura apenas a exaltação e a expansão, isto é, procura um mundo no qual ele possa se expandir. O poeta pretende apenas meter a cabeça no Céu, enquanto que o lógico se esforça por meter o Céu na cabeça. E é a cabeça que acaba por estourar”.

7) Conclusão

Admirar e amar este mundo tal como ele é, mais fantástico do que qualquer imaginação humana poderia engendrar, constitui o segredo da felicidade, que nos leva, como a Chesterton, a militar num otimismo existencial que em tudo vê a Mão do Criador, sempre esperando uma resposta. Daí que, voltando à minha admirável sobrinha Daniela, se possa ver nela não tanto a Síndrome de Down, mas, como me dizia outra colega de trabalho, a Síndrome de Deus.

Que o fantástico livro de Scott Paine sirva, mais do que a obra de Hume para Kant, como despertador do sonho idealista e egocêntrico que possamos ter, para o impacto da realidade do Universo em que vivemos, maravilhosamente cantada por Chesterton em suas obras, que faz respeitar suas leis e admirar suas excentricidades, tornando a vida diária uma aventura mais emocionante do que qualquer romance.

Quando estou desanimado diante de panoramas menos alentadores no trabalho ou na vida social, basta ler um pouco de Chesterton para que volte a brilhar em meu horizonte o sol do otimismo e da alegria contagiante. Um otimismo que explode em sincera gargalhada, pela contundência paradoxal e irônica com que o notável jornalista inglês consegue mostrar o papel minúsculo dos escravos da vaidade e a grandeza dos que sabem rir de si mesmos e ver a imensidão do Universo e a beleza interior dos que nos cercam, que nos superam e fazem sentir-nos tão a gosto neste mundo real e fantástico, cercado por nossos admiráveis familiares, amigos e colegas.

O Juízo da História

1) Introdução

Quando ingressei no Tribunal Superior do Trabalho na qualidade de Ministro, nos idos de 1999, já tendo lá servido como funcionário e procurador desde 1983, tive a ventura de ver presente em minha posse não apenas meus pais, mas principalmente meu avô português, que, aos 101 anos, era só orgulho e felicidade. Na ocasião, lembrando as raízes lusitanas, recebi de presente de uma amiga de minha mãe, a Sarita, um belíssimo livro, ricamente encadernado, tendo por título “História de Portugal”, de João Ameal (Livraria Tavares Martins – 1958 – Porto, 4ª edição), verdadeira relíquia de família.

O acervo de processos recebido e o desejo de enfrentá-lo com todas as energias do corpo e da alma fez-me depositar o livro na estante de casa e lá deixá-lo, engalanando a sala de estar com o visual de sua grossa lombada, onde permaneceu por 10 anos, até despertar-me sinceramente o interesse e a curiosidade, sem uma razão determinada. Ou melhor, tendo lido “São Tomás de Aquino” do mesmo autor, e o prefácio que escreveu para a edição portuguesa do “Ortodoxia” de Chesterton, tais circunstâncias já me haviam feito namorar essa volumosa obra, que anunciava narrar a história portuguesa, dos seus primórdios até ao ano de 1940, em que publicada sua 1ª edição.

Apanhando recentemente o livro e decidido a lê-lo, chocaram-me as primeiras linhas da introdução, onde o autor se perguntava: “Que é a História? Uma ciência? Uma arte? Uma ética?” (p. VII). Francamente (pensei), como podia o ilustre acadêmico português confundir História com Ética, o ser com o dever ser? Quase abandonei, de chofre, a leitura, decepcionado. No entanto, as linhas e páginas que se seguiram foram para mim uma descoberta e um alento.

Respondia o autor à última de suas perguntas iniciais dizendo: “Para outros, consiste em apresentar uma galeria de modelos na qual se possa distinguir o bem do mal, o exemplo a seguir e o erro a evitar e portanto donde resulte uma série de normas úteis à orientação dos contemporâneos: é a História-Ética (p. VII, grifos nossos). Confesso que nunca me havia ocorrido tal concepção da narrativa histórica. No entanto, a idéia do aproveitamento da experiência histórica para bem agir já me vinha de certo modo incutida tanto pela leitura da “Evolução da Cidade de Deus” de Etienne Gilson (Herder – 1965 – São Paulo), quanto das aulas do mestrado na UnB com o Ministro Moreira Alves e de seu livro “Direito Romano” (Forense – 1990 – Rio).

Mas o encanto com a História de Portugal de João Ameal não parou por aí. As idéias que se seguiram foram ainda mais impactantes, quando escrevia: A História é vida – tal o axioma inicial a propor. E não apenas vida dos outros – de outros tempos, de outros seres – mas a nossa vida, antes de nós (…) Se nos pedissem que arriscássemos uma definição, sugeriríamos: a História constitui, para o verdadeiro historiador, um exame de consciência(p. VIII, grifos nossos).

Eis aí descrito, da forma mais apropriada que já vi, o juízo da História: seremos julgados pelos nossos atos e decisões, nas suas conseqüências e motivações, não apenas por Deus (que é o que mais importa), mas também pelas gerações que nos sucederão, que, com a perspectiva do tempo, poderão aquilatar melhor nossos acertos e erros, grandezas e misérias, heroísmos e vilanias, pois terão a objetividade que nos falta para julgar das próprias ações.

Mas podemos já deflagrar esse exame de consciência pessoal, como o fazia João Ameal ao reconhecer a insuficiência do resultado de seu trabalho em ordem à grandeza do objeto estudado: “Salve-nos ainda o desassombro e a boa fé com que nos sujeitamos à triste e honrosa lei da condição humana: o hábito incurável que todos temos de lançar ombros a tarefas maiores do que nós…(p. XV, grifos nossos).

2) As causas e motivações dos fatos históricos

Max Weber (1864-1920), ilustre sociólogo alemão, que reconhecia, na esteira de Aristóteles, que a ciência é o conhecimento pelas causas, perquiria sobre as causas dos fenômenos sociais, resumindo-as em sua obra “Economia e Sociedade” (1922) numa tipologia ideal, assim expressa:

  • comportamento racional em relação a um fim – objetivo claramente fixado pelo agente, planejado e perseguido, como  o engenheiro que constrói uma casa, tendo em vista um projeto prévio;
  • ação racional em relação a um valor – motivação transcendente ao sujeito, como o marido que afasta a tentação de adultério por fidelidade à esposa;
  • ação afetiva – ditada pela paixão ou estado de espírito do momento;
  • ação tradicional – ditada pelos hábitos e costumes adquiridos.

No caso da história, dizia Weber que o pesquisador pode, para explicar os fatos históricos, buscar na sociologia (ocupada com as regularidades do comportamento humano) as possíveis causas do agir concreto dos protagonistas do fato, devendo determinar o peso que cada causa isoladamente teve no acontecimento: constroem possibilidades do que teria ocorrido sem determinada causa. Se for verossímil que o acontecimento não teria ocorrido sem ela, trata-se de causa principal, senão pode ser causa secundária ou nem ser causa.

Weber, nessa linha, rejeitava o determinismo marxista de reduzir as causas históricas ao fator econômico (ainda que seja fator relevante), chegando a aplicar a sua teoria a um caso concreto de causalidade religiosa sobre fenômeno econômico em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (1905). Em sua visão, o capitalismo, que conjugaria a vontade do lucro com a disciplina racional do trabalho (e não por conquista ou aventura), teria tido sua força propulsora na ética calvinista:

  • crença na predestinação universal para céu ou inferno;
  • o sucesso nos negócios seria o sinal da predestinação para o céu;
  • empenho no trabalho, para superar a angústia sobre a salvação;
  • desapego do mundo, que leva a não consumir, mas reinvestir o lucro.

Posteriormente, as 3 Escolas Vienenses de Psicoterapia ofereceram, sucessivamente, diferentes explicações sobre a motivação do agir humano:

a) Sigmund Freud (1856-1939) – Considerava o instinto sexual (a libido) o principal fator motivador do comportamento humano (“O Ego e o Id”);

b) Alfred Adler (1870-1937) – Discípulo de Freud, rompeu com o mestre e rejeitou a psicanálise, sustentando que não seria o “princípio do prazer” que explicaria o comportamento humano, mas a “vontade de poder”, ou seja, o desejo de se sobrepor aos outros e de que reconheçam sua superioridade. A competição com os outros geraria o “complexo de inferioridade”, cuja superação se daria através do mecanismo da “compensação”, de buscar atividades diferentes nas quais possa se sobressair (“Compreendendo a Natureza Humana”).

c) Viktor Frankl (1905-1997) – Fundador da Logoterapia, que esteve preso num campo de concentração nazista por ser judeu, opôs-se às explicações de Freud e Adler, sustentando que o comportamento humano tem por motor a “sede de sentido”, isto é, a necessidade de encontrar utilidade e sentido para a própria existência (“Psicoterapia e Sentido da Vida”).

Em que pese a teoria de Frankl ser mais abrangente das motivações do agir humano e menos reducionista, poderíamos estabelecer relação entre as teorias psicológicas e a teoria sociológica de Weber, quanto às motivações ou causas dos fenômenos sociais, compactando-as em 3 espécies:

a) motivação racional – por fins (como o poder) ou valores (como ser útil);

b) motivação passional – pelo amor (libido) ou pelo ódio (inveja, vingança);

c) motivação habitual – por tradição (assumida) ou comodismo (simples inércia).

Ora, ao se tentar compreender os fatos sociais do presente e do passado, a causalidade assim dissecada apresenta-se em 2 planos básicos:

a) plano retórico ostensivo – do discurso que busca justificar racionalmente a ação e que, na maioria dos casos, esconde as reais intenções ou motivações do agente;

b) plano real subjacente – do verdadeiro motivo que ensejou a ação, de caráter mais passional que racional e, justamente por isso, inconfessável, sendo, muitas vezes, sequer admitido pelo agente.

Cabe, pois, ao historiador e aos que analisam, para tentar compreender, os acontecimentos do presente e do passado, perquirir sobre quais as verdadeiras causas do sucesso ou insucesso de determinadas políticas, projetos e ações. O juízo da história, que já começa no presente – ainda que sem a perspectiva do tempo, essencial para se aquilatar a verdadeira dimensão das escolhas e opções feitas – e se consuma no futuro, leva em conta, desse modo, as ações e suas causas: não apenas o que aconteceu, mas também, como dizia Sir Hugh Trevor-Roper (n. 1914-2003), catedrático de História da Universidade de Oxford, a visão das possibilidades perdidas, do que poderia ter acontecido e não aconteceu e por quê (“History and Imagination” – 1980).

Ora, Carl Schmitt (1888-1985), filósofo político alemão, era contundente ao afirmar que, da mesma forma que a Ética dividia os homens em bons e maus e a Estética em belos e feios, a Política os dividia em amigos e inimigos, sendo pura retórica os programas ideológicos ou humanitários dos partidos políticos, já que seu objetivo era simplesmente a conquista do poder, não para servir a sociedade, mas para servir-se dela (cfr. “O Conceito do Político”, Vozes – 1992 – Petrópolis, tradução de Álvaro Valls). Ives Gandra Martins (pai), em sua “Uma Breve Teoria do Poder” (RT – 2009 – São Paulo), apresenta essa mesma visão pessimista do homem no Poder, analisando historicamente regimes e governos e mostrando como é generalizada a tendência dos detentores do poder, de se servirem da sociedade e não de estarem a serviço desta.

Traçada a moldura causal para enquadrar e julgar os fatos sociais sob a perspectiva histórica, cabe indagar se o modelo corresponde à realidade, ou seja, as políticas públicas, os empreendimentos sociais, as grandes realizações econômicas, culturais e artísticas têm como motor a razão ou a paixão?

Estou cada vez mais convencido, pelo estudo da História e pela vivência concreta no setor público – Judiciário, Executivo e Legislativo –, que os modelos sociológicos traçados por Weber e Schmitt não se distanciam da realidade. Os grandes estadistas, os verdadeiros homens públicos, os empresários com sensibilidade social, os sindicalistas com capacidade de harmonização, os artistas com consciência e responsabilidade por seu papel de ícones comportamentais, não são a regra, porque a “ação racional em relação a valores” também não o é. Para isso seria necessário, como o fez João Ameal, um exame de consciência, sincero e diário sobre as próprias ações, não visando ao lucro, à vantagem pessoal, ao modo de subir, vencer, dominar ou prevalecer, mas ao juízo de Deus e dos homens sobre o que engrandece e enobrece o homem e o que o avilta e corrompe.

A História recorda sem número de exemplos emblemáticos de causas passionais explicativas dos eventos históricos, mais ou menos revestidas com a retórica de uma motivação racional, podendo-se referir, entre tantos, a paixão de Marco Aurélio (83-30 a.C.) por Cleópatra, levando à guerra civil contra Otávio Augusto; a inveja de Herodes (73-4 a.C.) em relação a Cristo, mandando matar as crianças de Belém; a depravação de Nero (37-68), desencadeando a primeira grande perseguição e martírio dos cristãos; a avareza de Felipe IV, o Belo (1268-1314), da França, perseguindo e destruindo a Ordem dos Templários, com base nas mais infames acusações falsas, para se apoderar de seus bens; a luxúria de Henrique VIII (1491-1547), que provocou o cisma da Igreja Anglicana; o caso de D. Pedro I (1798-1834) com a Marquesa de Santos, que o fez maltratar a Imperatriz D. Leopoldina, perdendo o apoio popular e tendo que renunciar ao trono; o ódio de Adolf Hitler (1889-1945) aos judeus, causa de seu extermínio em massa; a vaidade dos Generais George S. Patton (1885-1945) e Bernard L. Montgomery (1887-1976), sacrificando muitos soldados na disputa para ver quem chegaria primeiro a Berlim na 2ª Guerra Mundial, vindo a perder para os russos; a prepotência do General Leopoldo Galtieri (1926-2003), que levou a Argentina à fracassada Guerra das Malvinas contra os ingleses em 1982, custando tantas vidas a dois países cristãos…

Na literatura de ficção, o exemplo paradigmático do agir passional, pautado pela inveja, é o de Morgoth e Sauron, sempre empenhados em destruir tudo o que de bom faz Eru e os Vala, tal como contado nos livros “O Silmarillion” e “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien. Impressiona pensar que, para alguns seres, o sentido da existência possa ser o de destruir o que outros constroem, apenas por ódio, inveja, ciúme ou desejo de vingança. O clássico de Alexandre Dumas, “O Conde de Monte Cristo” é outro exemplo emblemático de como o desejo de vingança que pauta a vida de muitas pessoas não realiza nem satisfaz ninguém, trazendo apenas mais tristeza e desconsolo, para si e para os outros.

3) Progresso, Estagnação, Decadência e Retrocesso

No fundo, o comportamento passional, justamente pela sua irracionalidade, não contribui diretamente para o progresso civilizatório da Humanidade. Pode, ocasionalmente, atendê-lo, de forma oblíqua e inesperada. No geral, conduz ao retrocesso e à decadência das civilizações, tal como ensinava Arnold Toynbee (1889-1975), catedrático de História da Universidade de Oxford, em seu “Um Estudo da História” (Martins Fontes – 1980 – São Paulo), no qual desenvolve sua concepção da gênese, desenvolvimento e declínio das civilizações, ligada às respostas criativas aos desafios que o meio, quer ambiental, quer humano, apresenta ao homem de cada época ou lugar.

Pelo mecanismo da mimese, os líderes (minoria criativa) atrairiam a massa social para sua imitação, sendo seguidos mecanicamente pela grande maioria não criativa. Nesse sentido, enquanto houver respostas criativas por parte da minoria dominante, que engendram novos desafios e novas respostas bem sucedidas, haverá desenvolvimento da civilização. A decadência das civilizações teria por sintoma básico o cisma social entre a minoria dominante, antes criativa, mas que agora tenta manter a liderança já não pelo prestígio e serviço, mas pela força, pois que preocupada apenas com a satisfação de seus vícios (decadência moral), e o proletariado interno, constituído pela massa social que antes seguia por mimese os líderes criativos e agora, despida de seus direitos básicos, incuba seus próprios líderes.

O comportamento meramente habitual, da maioria amorfa e mimética, que se deixa conduzir, sem refletir, por modismos e padrões estabelecidos pelos mass media, aferrada às rotinas e tradições, temerosa das mudanças e inovações que não sejam aplaudidas pelos meios de comunicação social, só conduz à estagnação da sociedade e das civilizações. Sobre ele nos fala, ainda que indiretamente, mas com expressões impactantes, Gaston Bachelard (1884-1962), catedrático de Filosofia da Ciência na Sorbone, em seu “A Formação do Espírito Científico” (1938):  “O espírito nunca é jovem quando se apresenta à cultura científica. Pelo contrário, é muito velho, porque tem a idade dos seus preconceitos”. Por isso completava, ironicamente: “Os grandes homens são úteis para a ciência na primeira metade de sua vida e nocivos na segunda metade”. E por quê? Porque se deixam levar por seus preconceitos e outras paixões menos nobres, como a inveja e a vaidade, para não admitirem soluções melhores do que as suas.

Apenas o comportamento racional, especialmente se ligado a valores, tem o condão de promover o progresso da sociedade e da civilização, uma vez que, para a razão, o que importa é a solução do problema, independentemente de quem a tenha proposto ou engendrado.

Dizia um amigo – e o repito amiúde – que os grandes problemas profissionais não são problemas técnicos, mas de relacionamento. Os problemas técnicos se estudam e se resolvem, com engenho e arte. O que atrapalha são as vaidades, suscetibilidades, invejas, ciúmes e outros defeitos que fazem com que as melhores soluções sejam, muitas vezes, preteridas, já que combatidas por aqueles que não as engendraram, e pelo simples fato de que a idéia não é própria, mas alheia.

A descontinuidade no campo das obras públicas, em regimes democráticos de alternância no poder, é sinal claro de que a motivação é passional e não racional, pois o bem não é bem em si mas quando feito pelo seu partido e o mal não é mal em si, mas quando praticado pelo adversário. Quantos não tem que dizer, ao assumirem cargos públicos eletivos: “Esqueçam o que eu disse, fiz ou escrevi…”. Sinal de incongruência entre discurso e vida.

Já nos regimes despóticos, a luta pelo formação de grupos ou partidos hegemônicos, não afeitos ao diálogo e ao pluralismo de idéias, as obras e realizações acabam sendo efêmeras, fadadas ao insucesso e à revisão, uma vez que a violência, física ou psicológica, não é apta nem a vencer, nem a convencer.

Se a História, como dizia Sir Hugh Trevor-Roper, é também o que não aconteceu, poderemos julgar muitos pelo que deixaram de fazer ou impediram que outros fizessem, escravos que foram de seus preconceitos, dos quais não conseguiram se libertar.

4) Conclusão

Heraldo das glórias de Portugal, Camões escrevia logo no início dos “Lusíadas”:

“E aqueles que por obras valorosas

se vão da lei da morte libertando,

cantando espalharei por toda parte,

se a tanto me ajudar engenho e arte”.

Não é demais pensar que obras valorosas só se realizam por um agir racional fundado em valores. Esse é o ideal a ser buscado e vivenciado.

Assim, voltando à concepção da História-Ética de João Ameal, concluímos que o juízo que se fará dos nossos atos, omissões e realizações, não deixará de levar em conta as motivações, nobres ou vis, altruístas ou egoístas, magnânimas ou mesquinhas, agregadoras ou partidaristas, bem como os resultados, positivos ou negativos, duradouros ou efêmeras, reais ou aparentes, de nosso decidir e agir.

Se conseguirmos realizar diariamente o exame de consciência que nos propõe, será possível reconhecer as motivações menos nobres e retificar o rumo de nossos projetos e planos, de modo a que possamos ser eficazes em nosso agir, em prol da sociedade em que vivemos, e não meramente usufrutuários do patrimônio cultural e econômico por outros edificado. Tudo dependerá da sinceridade do exame e da coragem na retificação. Nesse caso, o juízo da história será benévolo e justo para conosco, pois a dureza ficou por nossa conta ao nos julgarmos a nós mesmos.

Ives Gandra da Silva Martins Filho
Ministro do Tribunal Superior do Trabalho
Membro do Conselho Nacional de Justiça

Limitações e Defeitos: O Que Aceitar e o Que mudar

1) Introdução

Em geral, as pessoas tem uma visão equivocada do que sejam limitações e defeitos e também se portam de modo equivocado ao tratar com eles. Assim, de um lado, tentam superar suas limitações, querendo ser e chegar onde não tem condições de viver. Exemplos típicos são os daquele que aspira a um cargo além da sua envergadura (não tem perfil para aquilo, desconhece a matéria e nem terá tempo para estudar e especializar-se nela), daquele que gasta mais do que tem (sem aceitar a limitação dos seus haveres presentes ou de sua capacidade de gerar renda futura tão elevada) ou daquele que não aceita sua constituição física (e vive se quebrando, por praticar esportes radicais para seu biótipo ou faixa etária… o bendito futebol de final de semana).

Outro dia, quando me pediram, num hotel, o número do cartão de crédito, disse que não tinha. Só de débito. E comentei jocosamente, a latere com o colega que me acompanhava: “Isso é que é pobreza!”. Ele, no entanto, rapidamente retrucou: “Isso é que é riqueza! Você gasta o que tem. Eu, com meu cartão de crédito, gasto o que não tenho…”. Realmente, essa tem sido uma marca iniludível da sociedade moderna, que conduziu à crise financeira de setembro de 2008: crédito fácil no mercado, sem a verificação sobre se as pessoas tem condições de pagar os bens de consumo adquiridos, muitas vezes compulsivamente. O importante é produzir e consumir. O velho adágio cartesiano “je pense, donc je suis” foi substituído pelo moderno “I shop, therefore I am”.

Se é difícil aceitar as limitações, mais ainda é mudar os defeitos. Daí que, as pessoas tendam a aceitar seus defeitos com naturalidade, tirando-lhes importância, como se estivessem irremediavelmente incrustados em sua natureza. É o alcoólatra que diz só beber socialmente; é o mulherengo que repete constantemente a frase da Escritura – “é… a carne é fraca…” –; é o atrasado contumaz, sempre com sua desculpa pela importância do que estava fazendo antes ou sobre a conspiração cósmica contra sua pontualidade; é o eterno desordenado, que perde as coisas e esquece os compromissos, por não acreditar na eficácia da agenda e de seguir o conselho daquela professora de Francês: “Une place pour chaque chose; chaque chose a sa place…”.

Assim, Aceitam-se os defeitos e se rebelam contra as limitações, quando, conhecida a diferença entre limitações e defeitos, deveriam combater estes e aceitar aqueles. Onde está, pois, a diferença? São sinônimos ou tem sentidos distintos e equívocos esses dois termos?

2) As Limitações

As limitações dizem respeito à nossa constituição física e anímica: alto ou baixo, gordo ou magro, mais ou menos inteligente, temperamentalmente mais expansivo ou mais retraído, etc.

Costumam os moralistas distinguir entre temperamento e caráter. Enquanto o primeiro é o dado fático bruto, ou o constitutivo anímico de nosso ser, o segundo é o elemento construído, através da prática das virtudes.

Assim, há traços temperamentais que podemos trabalhar e ter sobre eles um certo domínio, enquanto outros estão tão arraigados que sempre os teremos como característica de nosso modo de ser.

Na série de romances de Patrick O’Brian sobre O Mestre dos Mares, os dois personagens principais, apesar de ingleses, ou seja, muito comedidos, contidos e discretos, têm temperamentos bem diferentes, que se complementam, gerando uma amizade íntima e forte.

Jack Aubrey, o comandante da Fragata Surprise, é todo exuberância, primarismo em seus sentimentos, fortes e extravasados nas ordens que dá e nos combates que trava. Já Stephen Maturin é o cirurgião do navio, filósofo e cientista, que mantém seu diário anotando suas mais profundas especulações sobre a condição humana.

No livro A Fragata Surprise (Record – 2007 – Rio de Janeiro), que é o terceiro da série, há uma passagem que mostra a diferença entre o estado bruto do temperamento e o caráter trabalhado, quando aquele aflora em momentos de maior tensão. Maturin é ferido num duelo e, após a operação em que é retirada a bala que se alojou abaixo de seu coração, entra em estado febril e delirante, destrancando sua mente mais secreta, o que faz Aubrey permanecer em seu leito de doente, pois não desejava que mais ninguém lhe ouvisse as confissões:

“Afora segredos oficiais, havia coisa que Jack não desejava que nenhum outro homem escutasse. Sentia vergonha de ouvi-las; para um homem orgulhoso como Stephen (e nesse sentido Lúcifer não chegaria aos pés dele) seria a morte saber que mesmo o amigo mais íntimo ouvira suas nuas afirmações de desejo e todas as suas fraquezas desnudas como no Dia do Juízo (…) Ele havia considerado Stephen o próprio filósofo, forte, praticamente intocado pelos sentimentos comuns, seguro de si e com toda a razão; não tinha maior respeito por nenhum homem da terra. Este Stephen, tão passional, tão totalmente subjugado por Diana e tão cheio de todo tipo de dúvidas o deixava pasmo; não estaria mais perdido se encontrasse a Surprise privada de suas âncoras, do lastro e da agulha magnética” (pgs. 382-383).

Uma das limitações que temos é, justamente, a constituição física, da qual um dos componentes é a idade: a cada fase da vida temos condições de fazer umas coisas e não de outras. A melhor descrição que conheço desse tipo de limitação etária é a que Marguerite Yourcenar (1903-1987) faz no primeiro capítulo de suas ”Memórias de Adriano” (Editora Nova Fronteira – 1980 – Rio de Janeiro, tradução de Martha Calderaro; publicação original de 1951), quando o velho Imperador Romano olha para trás, para o passado, pensando no que era capaz e fez ao longo da vida. Aos 10 anos, amante das corridas (“correr, mesmo no mais curto percurso, ser-me-ia hoje tão impossível quanto para a pesada estátua de um César”), aos 20 da caça; aos 30 da equitação (“A renúncia à equitação é sacrifício mais penoso ainda; uma fera não era senão um adversário; o cavalo era um amigo”); aos 40 da natação (“De cada arte praticada, retiro hoje um conhecimento que me compensa em parte dos prazeres perdidos”); aos 50 dos banquetes (“comer em excesso é hábito romano; eu, porém, fui sóbrio por volúpia”); mas aos 60 anos, pensando também nos amores de sua vida, olhava para traz, vendo a que estava limitado com sua idade e doença…“Confesso que a razão permanece confusa em presença do prodígio do amor, da estranha obsessão que faz com que essa mesma carne, que tão pouco nos preocupa quando compõe nosso corpo, limitando-nos somente a lavá-la, nutri-la e, se possível, impedi-la de sofrer, possa inspirar-nos uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma personalidade diferente da nossa e porque representa certos traços de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estariam de acordo” (…) “Tais conceitos sobre o amor poderiam conduzir-me a uma carreira de sedutor. Se não a empreendi foi, sem dúvida, por ter feito coisa melhor” (…). E termina por reclamar da insônia que o acossa: “De todas as venturas que lentamente me abandonam, o sono é uma das mais preciosas, embora seja das mais comuns também. Um homem que dorme pouco e mal, apoiado sobre dezenas de almofadas, medita com vagar sobre essa volúpia diferente”.

Na História Universal, um dos maiores exemplos de não aceitação das próprias limitações, levando-se toda uma nação à completa exaustão e destruição, foi a continuidade da 2ª Guerra Mundial pelos alemães, não obstante já estivesse perdida desde o desembarque na Normandia. A obstinação germânica, impulsionada pelo fanatismo de seu Führer, é bem descrita na obra-prima de estudo histórico do período “Ascensão e Queda do III Reich”, de William Shirer (Editora Civilização Brasileira S/A – 1962 – Rio de Janeiro, 2ª Edição, Tradução de Pedro Pomar, 4 Volumes) e fez com que a agonia alemã e dos povos submetidos ao seu jugo, além da perda de vidas de aliados e das potências do Eixo, se estendesse ainda por mais um ano.

Saber se dá para começar um projeto e quando está na hora de parar não é pouca ciência.

3) Os Defeitos

Os defeitos são ausência de virtudes que poderíamos e deveríamos ter. Os 7 pecados capitais elencam as raízes de nossos principais defeitos: soberba, luxúria, preguiça, ira, inveja, gula e avareza. São qualidades nocivas ao nosso comportamento, que nos envilecem e corrompem.

Logo no primeiro capítulo do livro “Caminho”, de S. Josemaría Escrivá, dedicado ao tema do “Caráter”, um dos primeiros pontos de meditação é bem incisivo e cai como luva para nossa reflexão sobre as limitações e os defeitos, o temperamento e o caráter:

“Não digas: “Eu sou assim…. são coisas do meu caráter”. São coisas da tua falta de caráter. Sê homem – “esto vir” (ponto 4).

Os defeitos ou vícios são hábitos maus adquiridos e que, uma vez arraigados, são mais difíceis de se tirar, mas não tarefa impossível. Três coisas são essenciais para se vencer um defeito e perder um vício:

a) reconhecer que se tem o defeito – acabar com os eufemismos ou com a visão benevolente que temos de nós mesmos (dar nome aos bois);

b) lutar contra o defeito – praticar as ações da virtude contrária ao vício (moderação no comer, para o guloso; generosidade para o avarento; contar até dez para o irado…);

c) não desistir diante das derrotas – sabendo seguir o conselho da música – “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima” – ou o lema daquele general –“de derrota em derrota, até a vitória final!”.

Temos uma dificuldade enorme de reconhecer nossos defeitos: supervalorizamos nossas qualidades e depreciamos nossos defeitos. Luiz Marins, em sua obra de administração de pessoal (divertidamente ilustrada pelo Negreiros) chamada “Só Não Erra Quem Não Faz” (Landscape – 2008 – São Paulo), vai elencando em cada capítulo os vícios que desenvolvemos em nosso trabalho, que devemos combater e que podemos pendurar nos 7 vícios capitais:

a) inveja – hábito de reclamar de tudo e de todos; só falar mal dos outros; sempre com dó de si mesmo (vitimismo); criador de caso, que tudo contesta e com todos encrenca; volúvel que não dá segurança a ninguém;

b) ira – viver dando broncas e gritando com as pessoas; sempre mau-humorado, de cara fechada e de mal com o mundo;

c) orgulho – arrogância de se achar melhor do que os demais; não ouvir ou prestar atenção aos outros; não precisar de ajuda; tornar-se inacessível e indisponível, o que leva ao isolamento e ao fracasso; viver dando desculpas, por não reconhecer que também é falível; intolerância para com erros que todos podem cometer e que são a marca de quem está produzindo; falar muito e de forma empolada, complicada e sem objetividade; suscetibilidade enfermiça que se ofende por tudo e por nada;

d) preguiça – cansaço crônico para tudo o que não seja desfrutar da vida; o fulano que se fossilizou, ancorado no passado (só olha pelo retrovisor e bate no carro da frente) e não sabendo conviver com as inovações e com ter de aprender coisas novas (vive se economizando); pensar antes de falar; medo de se “sujar” e colocar a mão na “m”. o fulano que vive adiando os compromissos, não cumpre os prazos e horários, não decide nunca e está sempre atrasado;

e) avareza - desprezo pelos detalhes e pelas pessoas, esquecendo de dar retorno, de agradecer e de reconhecer os méritos alheios (não sabe elogiar); ativismo que estressa e que faz perder o sentido do descanso e da contemplação (não se tem tempo para os outros, só para a própria carreira e profissão, numa ambição doentia);

i) gula – desconta na comida as insatisfações em outros campos, virando uma bola;

j) luxúria – assédio sexual, do que não vê nas colegas e subordinadas pessoas mas apenas possíveis objetos de prazer (cantadas veladas ou explícitas); viciado em baixaria na internet…

O campo de luta é vastíssimo, se buscamos o aperfeiçoamento profissional e pessoal. Mas, para começar, seguir o conselho antigo de Sócrates: ”Conhece-te a mesmo”. E uma boa maneira, é, para quem está casado, perguntar ao outro cônjuge: ”Quais são os meus modos de ser que te chateiam?”. Saberão descrever os nossos defeitos melhor do que ninguém. É fácil ver os defeitos dos outros, porque não estamos imersos nele, mas com os nossos temos muita benevolência.

Até hoje não encontrei, nos clássicos da Literatura Universal, melhores exemplos descritivos dos recantos sombrios da alma humana, de suas motivações e fraquezas, do que dois grandes escritores russos: Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e Leon Tolstoi (1828-1910).

Do primeiro, os romances que mais me atraíram, desde a juventude, foram “Os Irmãos Karamázovi” (Ediouro – 1981 – Rio de Janeiro, tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes) e “O Idiota”. A diferença de temperamento dos 3 irmãos Karamázovi – Dimítri, o idealista violento e desregrado; Ivan, o intelectual ensimesmado e frio; e Aliócha, o religioso singelo e confiante (sem falar no filho ilegítimo Smierdiákov, corrompido parricida) – representando as três facetas que resumem a alma russa – a passional, a racional e a mística –, fazem com que, ao longo da estória, nos vamos identificando com um ou com outro, reconhecendo nos diálogos e reflexões dos personagens, nossas próprias angústias, dilemas e esperanças, verificando como umas podem ser superados e outras sublimadas bastando que se reconheça as fraquezas e se as queira vencer. Olhando de fora, parece tão fácil…

Em “O Idiota” (Editora 34 – 2002 – São Paulo, tradução de Paulo Bezerra), o que mais me impressionou foi o contraste entre a aceitação das próprias limitações por parte do personagem que dá nome ao livro, o Príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin, com a epilepsia que o constrangia, e o orgulho profundo de Aglaia Ivánovna, que perde o seu amor, por não querer manifestá-lo primeiro. A densidade e complexidade das personalidades prende e extasia o leitor, identificando seus próprios modos de agir, pensar e sentir. Poderia ser diferente o desenlace do drama?

Drama não menos polarizante é o “Ana Karênina” de Tolstoi (Abril Cultural – 1971 – São Paulo, tradução de João Gaspar Simões), cuja primeira frase parece ser um resumo conpacto de todo o livro: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Haveria, então, um modo único de ser feliz, e muitos caminhos para a infelicidade?

Na concepção aristotélica de Eudaemonia (felicidade), ela estaria na excelência moral, que supõe a conjugação das quatro virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança, com todas as demais que a elas se ligam). Assim, pela unidade da ordem moral, não é possível alcançar a excelência e a perfeição se se claudica numa delas. Assim, a felicidade supõe não abdicar da luta em nenhuma das frentes, enquanto a infelicidade varia segundo o front no qual se entregou os pontos. No caso de Ana Karênina, foi entregar-se à paixão extra-conjugal pelo Príncipe Vronski, não obstante a bela família que tinha, com filho e marido exemplares. O drama interior de uma alma dividida é bem retratado no livro.

Mas a obra-prima de Tolstoi é, indubitavelmente, “Guerra e Paz” (Editora Itatiaia – 1983 – Belo Horizonte, 2 volumes, Tradução de Oscar Mendes). Nele, o período napoleônico, sob o prisma da Rússia, é tão bem retratado, numa trama que envolve tantos ambientes e famílias inteiras de personagens principais (a edição inglesa da Britannica Great Books – 1952 – London, que elege este como principal livro de Tolstoi, traz logo no início um elenco das principais famílias e seus membros, para facilitar a vida do leitor), que, na época em que o li pela primeira vez, quando não passava dos 14 anos, tendo todos os atrativos de uma Fazenda em Avaré para aproveitar as férias escolares – cavalos, açude, futebol, campos e bosques, gado e plantação de café, animais domésticos e pomares –, lembro-me de passar horas a fio na rede da varanda, lendo as aventuras e desventuras do Conde Pedro Bezukhov e da jovem e inocente Condessa Natásha Rostóva, do valente Príncipe André Bolkonski e de sua adorável esposa Lisa Bolkonskaya, do inescrupuloso Príncipe Anatole Kurágin e de sua sensual irmã Helena Kurágina, imaginando em quadros as passagens de festas e batalhas, com conquistas e derrotas, tanto no campo bélico, quanto no afetivo, a ponto de pensar que a realidade estava ali, no livro, e não na natureza que tinha a meu dispor.

Pois bem, a lição que se tira desse romance histórico é a de que a vida é feita de muitas pequenas derrotas e vitórias, e que, se não se abandona a luta contra os próprios defeitos e se percebe a necessidade da mudança, o resultado final pode ser altamente positivo, de uma forma muito diferente do que imaginávamos no início. Assim, também a felicidade tem vias distintas, concretizando-se de modos nem planejados, nem sonhados.

4) O que mudar e o que aceitar

Dizem que as expectativas no casamento são diametralmente opostas entre marido e mulher, e as frustrações decorrem da ausência de realismo nesse campo. Enquanto o homem espera que a mulher não mude na sua formosura, a mulher espera que o marido mude nos seus defeitos.

Esse é um bom exemplo da diferença entre limitações e defeitos sob o prisma da mudança: não dá para esperar que a beleza física permaneça indefinidamente (trata-se de uma limitação e contingência da natureza e do tempo), como também não dá para esperar que os defeitos arraigados se superem da noite para o dia (mas, havendo disposição, se consegue mudar).

Há uma frase lapidar no filme “Melhor é Impossível” (1997), com Jack Nicholson e Helen Hunt, que dá a pista do mecanismo capaz de provocar uma mudança no modo de ser, de modo a se vencer os defeitos temperamentais. É a que o escritor maníaco diz para a garçonete com a qual começa uma verdadeira amizade: “Você é uma pessoa que faz a gente querer ser melhor!”.

Ou seja, o amor é capaz de promover a mudança, por apresentar um motivo forte para ser diferente, de modo a agradar a quem se ama. Por outro lado, o amor faz aceitar as limitações de quem se ama, pois se ama do modo que é.

Chesterton fala-nos do paradoxo desse aceitar e querer mudar:

“Ninguém duvida que o homem comum consiga harmonizar-se com este mundo, no entanto, não basta que tenhamos força suficiente para nos harmonizarmos com ele: é preciso que tenhamos força bastante para fazê-lo progredir. Poderá o homem odiá-lo o bastante para mudá-lo e, ainda assim, amá-lo o suficiente para julgá-lo merecedor de mudança?” (“Ortodoxia”, LTr – 2001 – São Paulo, pg. 99).

Trata-se, portanto, de amar tanto, que se quer o que é defeituoso por si mesmo, mas se quer também que seja melhor.

Por um lado, quanto às limitações, são um dado da natureza que devemos aceitar e começar a trabalhar a partir dele. Assim, se temos pouca cabeça, teremos que compensar com mais estudo o que outros alcançam com a simples assistência às aulas. Se tempos a tendência fisiológica a engordar, podemos fazer regimes, mas sempre sujeitos a mais baixos que altos no controle do peso. Se a pessoa nasceu com algum defeito físico, não dá para desconversar e tentar viver se enganando ou complexado porque se é limitado de cabeça, careca, feio, baixinho, gordo, diabético, hipertenso, etc.

Mas os defeitos, estes sim, podemos e devemos combater. Não adiante querer mudar o mundo, com tantos projetos de reforma social, se não se está disposto a mudar o próprio interior. Os grandes problemas sociais não são problemas de estruturas, mas de abandono da luta interior por ser melhores. Em vez da revolução exterior, promover em primeiro lugar uma revolução interior que nos faça melhores homens e cidadãos.

Um dos romances mais pessimistas que já li foi ”Os Buddenbrook – Decadência duma Família” (Círculo do Livro – 1975 – São Paulo), de Thomas Mann (1875-1955). Retrata 50 anos da História da Alemanha, a partir de 1835, sob a ótica das vicissitudes de uma família da burguesia germânica. O que impressiona é ver os defeitos de criança dos personagens sendo carregados e agravados pela vida afora. Tony (Antoniette) Buddenbrook mantém seu temperamento difícil de conviver até o final do livro, acabando com seu casamento, justamente porque nunca houve preocupação por mudar e melhorar.

É possível mudar! Mais: o temperamento é apenas o ponto de partida. Explorar seus aspectos positivos (interatividade, afabilidade) e combater seus aspectos negativos (passividade, irascibilidade) é a nossa tarefa na vida.

No mundo empresarial de uma economia globalizada e de extrema competitividade , o segredo do sucesso e a da sobrevivência está na capacidade de mudar e com rapidez: reconhecer os erros, ver as escleroses e perceber o que há de novo exigindo respostas criativas para os desafios do meio (cfr. Arnold Toynbee, Um Estudo da História, Ed. UnB-Martins Fontes – 1987 – Brasília).

Há um autor que aprecio especialmente por seus romances históricos. Trata-se de Louis De Wohl, anglo-germânico, a quem o Papa Pio XII, conhecendo seu gênio literário, propôs escrever biografias de santos, mostrando a vida heróica de homens e mulheres empenhados em viver o ideal cristão nas mais distintas condições e épocas.

Louis De Wohl seguiu o conselho e, graças a ele, temos uma coleção fantástica de biografias romanceadas de grandes santos, onde, a par dos personagens históricos e os dados verídicos, há os personagens de ficção, cuja trama prende do começo ao fim. Cada época é bem retratada é se fixam os acontecimentos que nela se deram. As lutas dos personagens para mudar e vencer seus defeitos fica bem retratada, em derrotas e vitórias, como se pode ver em (a edição brasileira é das Paulinas, mas se encontra esgotada, a inglesa é da J.B. Lippincott Company):

a) “La Lanza – Historia del Centurión Longinos” (Palabra – 1995 – Madrid; original “The Spear”);

b) “El Mensajero del Rey – Novela sobre San Pablo y su Tiempo” (Palabra – 1991 – Madrid; original “The Glorious Folly”);

c) “El Arbol Viviente – Historia de la Emperatriz Santa Elena” (Palabra – 1986 – Madrid; original “The Living Wood”);

d) “Venciste, Galileo! – Historia del Emperador Juliano el Apóstata” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “Imperial Renegade”);

e) “Atila – El Azote de Dios” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “Attila The Hun”);

f) “Corazón Inquieto – La Vida de San Agustín” (Palabra – 1998 – Madrid; original: “The Restless Flame”);

g) “Ciudadelas de Dios – Novela sobre San Benito de Nursia y su Tiempo” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “Citadel of God”);

h) “El Mendigo Alegre – Historia de San Francisco de Asis” (Palabra – 1997 – Madrid, original: “The Joyful Beggar”);

i) “La Luz Apacible – Novela sobre Santo Tomás de Aquino y su Tiempo” (Palabra – 1996 – Madrid; original: “The Quiet Light”);

j) “As Asalto del Cielo – Historia de Santa Catalina de Siena” (Palabra – 1988 – Madrid; original: “Lay Siege to Heaven”);

k) “Juana de Arco – La Chica Soldado” (Palabra – 2005 – Madrid; original – The Girl Soldier”);

l) “El Hilo de Oro – Vida y Epoca de San Ignacio de Loyola” (Palabra – 1989 – Madrid; original: “The Golden Thread”);

m) “El Último Cruzado – La Vida de Don Juan de Austria” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “The Last Crusader”).

Alessandro Manzoni (1785-1873), outro mestre da Literatura Universal, tem no romance “Os Noivos” (Abril Cultural – 1971 – São Paulo, Tradução de Marina Guaspari, publicado originalmente  em 1824) uma das melhores descrições da mudança de um personagem que o escritor, jocosamente, designa como O Inominado, para preservar sua imagem, já que, sendo o Senhor Todo-Poderoso da Região de Milão, espezinhando e oprimindo ricos e pobres, passa por um processo de conversão que o faz sair de seu orgulho, procurar o Cardeal, S. Carlos Borromeu (1538-1584), e tentar reparar por sua vida pregressa, especialmente as perfídias que cometera com os noivos Renzo e Lúcia…

Exemplo marcante, no entanto, e mais realista, é o retratado no clássico de Henry Morton Robinson (1898-1961), “O Cardeal” (Editora Mérito S/A – 1964 – São Paulo, 7ª edição, tradução de José Geraldo Vieira), que conta a vida de Stephen Fermoyle, sacerdote norte-americano recém ordenado em Roma, e todos os dramas interiores de quem quer ser fiel à sua vocação, não obstante as tentações que sofre em todos os campos das fraquezas humanas, desde o atrativo feminino, à discussão do aborto em família, às perseguições da Ku-Kux-Klan, à agruras de um pároco de cidade pequena, às batalhas no campo das idéias para defender, já como bispo, a fé e a moral num mundo em transição.

5) Conclusão

A sociedade só melhorará se cada um de seus membros, em vez de reclamar das estruturas sociais, estiver decidido a mudar interiormente. Os defeitos dos outros e das estruturas sociais estão patentes para nós. Podemos apontá-los e descrevê-los com pormenores e abundância de exemplos. O que não vemos ou não queremos mudar e nosso modo chato, arrogante, mexeriqueiro, sensual, desordenado, intemperante e acomodado de ser.

Se a mudança não é consciente, são os fatores externos que prevalecerão e mudarão para pior nosso ambiente e condições de vida. Eric Durschmied titulou de modo interessante o livro em que narra as grandes batalhas da humanidade: “Fora de Controle – Como o Acaso e a Estupidez Mudaram a História do Mundo” (Ediouro – 2003 – Rio de Janeiro, tradução de Lólio Lourenço de Oliveira).

Nesse livro, ao explicar as causas da derrota francesa na Batalha de Azincourt (25/10/1415), na qual brilhou a coragem e humildade de Henrique V, atribuía-a principalmente à prepotência francesa, não sabendo controlar nem a cabeça, nem o coração. Assim se pode resumir a situação e o desenrolar dos acontecimentos, que fizeram a França perder também a 2ª fase da Guerra dos 100 Anos:

a) exército inglês comandado pelo rei Henrique V (28 anos) contava com apenas 5.000 homens (1.000 cavaleiros e 4.000 arqueiros), famintos e fatigados da batalha de Harfleur e da marcha, tendo pela frente a fina nata da cavalaria pesada francesa (10.000 cavaleiros e 15.000 infantes), comandados pelo Condestável da França Charles D’Albret (Conde de Dreux).

b) Vendo a desproporcional  inferioridade inglesa, os nobres franceses decidem atacar, sem levar em conta que o terreno fora recém arrado e chovera a noite inteira.

c) Os arqueiros ingleses provocaram suficientemente os franceses, que estes desencadearam a carga de cavalaria no meio da lama, inviabilizando o impacto.

d) Os arqueiros ingleses, mirando nas cavalgaduras, derrubaram os cavaleiros franceses, que ficaram totalmente vulneráveis com suas pesadas armaduras (massacre da nobreza francesa).

e) Fluellen de Gales, a mando de Henrique, mata todos os prisioneiros franceses (após saber do ataque francês à retaguarda inglesa, matando os pagens e carregadores, infringindo as leis de guerra da época), para poder enfrentar a infantaria que vinha.

Antes de ler o livro de Eric Durschmied, nunca entendera como os ingleses puderam superar uma desvantagem de 5 para 1. Mas Shakespeare retrata bem o espírito inglês na batalha, um tanto épico, mas suficientemente esclarecedor da vantagem de valorizar os subordinados, descendo do pedestal do orgulho. São estimulantes as palavras que Shakespeare coloca na boca do Rei, no discurso que precede o combate (“King Henry V”, Britannica Great Books – 1952 – London, Act 4 – Scene 3 – English Camp, before the battle of Agincourt):

Westmoreland

O that we now had here
But one ten thousand of those men in England
That do no work to-day!

King Henry

What’s he that wishes so?
My cousin Westmoreland? No, my fair cousin:
If we are mark’d to die, we are enow
To do our country loss; and if to live,
The fewer men, the greater share of honour.
God’s will! I pray thee, wish not one man more.
By Jove, I am not covetous for gold,
Nor care I who doth feed upon my cost;
It yearns me not if men my garments wear;
Such outward things dwell not in my desires:
But if it be a sin to covet honour,
I am the most offending soul alive.
No, faith, my coz, wish not a man from England:
God’s peace! I would not lose so great an honour
As one man more, methinks, would share from me
For the best hope I have. O, do not wish one more!
Rather proclaim it, Westmoreland, through my host,
That he which hath no stomach this fight,
Let him depart; his passport shall be made
And crowns for convoy put into his purse:
We would not die in that man’s company
That fears his fellowship to die with us.
This day is called the feast of Crispian:
He that outlives this day, and comes safe home,
Will stand a tip-toe when the day is named,
And rouse him at the name of Crispian.
He that shall live this day, and see old age,
Will yearly on the vigil feast his neighbours,
And say ‘To-morrow is Saint Crispian:’
Then will he strip his sleeve and show his scars.
And say ‘These wounds I had on Crispin’s day.’
Old men forget: yet all shall be forgot,
But he’ll remember with advantages
What feats he did that day: then shall our names.

Familiar in his mouth as household words
Harry the king, Bedford and Exeter,
Warwick and Talbot, Salisbury and Gloucester,
Be in their flowing cups freshly remember’d.
This story shall the good man teach his son;
And Crispin Crispian shall ne’er go by,
From this day to the ending of the world,
But we in it shall be remember’d;
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne’er so vile,
This day shall gentle his condition:
And gentlemen in England now a-bed
Shall think themselves accursed they were not here,
And hold their manhoods cheap whiles any speaks
That fought with us upon Saint Crispin’s day”
(grifos nossos).

Quando o heraldo francês aparece no campo inglês para propor a rendição e um resgate pelo Rei, este responde apenas: “Outro resgate, meu gentil arauto, não heis de obter além destes meus membros, que, se ficarem como tenho idéia de deixá-los, bem pouco hão de valer”. Ou seja, o desprendimento de Henrique em relação ao seu destino, desde que lutasse com denodo, foi um dos segredos da vitória. Repetindo Luiz Marins, não podemos nos economizar: para mudar o mundo para melhor, temos que começar a árdua tarefa de mudar-nos a nós mesmos, que assim, pelo exemplo e pela palavra poderemos contagiar muitos com nossos ideais, sonhos e esperanças. Assim, após a batalha da nossa vida, poderá ser dito para cada um de nós o que o heraldo francês disse ao Rei Henrique: “The day is yours” (linguagem da época que apontava para quem havia ganhado a batalha). E poderemos cantar, como Henrique V fez com seus soldados, após tão memorável vitória: “Non nobis, Domine, non nobis, sed nomine tuo da gloriam!”.

As Grandes Amizades

I) INTRODUÇÃO

Este é o título do mais conhecido livro escrito por Raïssa Maritain (1883-1960), esposa do notável filósofo francês Jacques Maritain (1882-1973), falando da intelectualidade católica francesa do começo do século XX e da estreita amizade que existia entre seus integrantes (cfr. “As Grandes Amizades” , Agir – 1947 – Rio de Janeiro, tradução de Josélia Marques de Oliveira, publicado originalmente em 1941). Obra que tanto influenciou a minha juventude e a do Ministro Antonio José de Barros Levenhagen, com quem ingressei no Tribunal Superior do Trabalho em 1999, iniciando fraterna amizade.

O que unia tão intensamente aqueles homens e mulheres de que Raïssa Maritain nos conta a história não era apenas compartilhar os mesmos gostos e preferências. Isso explica as amizades. O que faz nascer as Grandes Amizades é a comunhão dos mesmos valores intelectuais e morais e o desejo de difundir a fé que se possui.

É o que explica as grandes amizades decantadas na literatura, entre John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973) e Clive Staples Lewis (1898-1963), entre Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), Hilaire Belloc (1870-1953) e George Bernard Shaw (1856-1950), entre Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), Henri Guillaumet (1902-1940) e Jean Mermoz (1901-1936)… entre o elfo Legolas e o anão Gimli: algo inimaginável (dentro da lógica do mundo fantástico da Terra Média concebido por Tolkien), ao ponto daquele conseguir introduzir este na Terra Abençoada de Aman, em face da profunda amizade que se estabeleceu entre ambos (cfr. J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, Volume Único, Martins Fontes – 2001 – São Paulo, pg. 1145).

II) A AMIZADE NA VISÃO INTUITIVA DE SAINT-EXUPÉRY

O nascer de uma amizade é bem descrito e radiografado por Antoine de Saint-Exupéry, no estilo platônico dos diálogos, em sua pequena grande obra “O Pequeno Príncipe” (Gallimard – 1946 – Paris; Agir – 1979 – Rio de Janeiro), especialmente no Capítulo XXI, em que se desenvolve o diálogo entre o Pequeno Príncipe e a Raposa (aqui transcrito em seus melhores momentos):

“E foi então que apareceu a raposa:

– Bom dia, disse a raposa.

– Bom dia, respondeu polidamente o principezinho (…) Quem és tu? (…)

– Sou uma raposa, disse a raposa.

– Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…

– Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda (…)

– Que quer dizer cativar? (…)

– Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras? (…)

– (…) Eu procuro amigos. Que quer dizer cativar?

– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços.

– Criar laços?

– Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…

– Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor… eu creio que ela me cativou…

– Vês, lá longe os campos de trigo? (…) O trigo é para mim inútil (…) Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti (…) Por favor… cativa-me!

– Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

– A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não tem mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

– Que é preciso fazer?, perguntou o principezinho.

– É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não me dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto… (…) Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três começarei a ser feliz. (…) Descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.

– Que é um rito? Perguntou o principezinho.

– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas.

(…) Assim, o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah, eu vou chorar (…) Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos. (…) Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

O principezinho, como se vê, procura amigos porque está triste. A amizade é, em primeiro lugar, fonte de alegria e de consolo. É com os amigos que nos podemos abrir e desafogar, encontrando quem nos quer bem e compreende. Temos necessidade deles. Vae solis, diziam os romanos: ai dos sós!

Mas para isso é preciso cativar (apprivoiser) os amigos, ganhar as pessoas, transformá-las de conhecidas em amigas. Senão, não é possível essa abertura, confiança e procura mútua. Para isso, a raposa ensina o caminho: é preciso ter paciência e investir tempo. Sem doação de nós mesmos aos outros, não é possível fazer amigos. Doação desinteressada, que só quer o bem do outro. E, como dizia S. João da Cruz, onde não há amor, se coloca amor e se tira amor.

O diálogo no original é atrativo e vale a pena frisar suas frases antológicas:

– Je ne puis pas jouer avec toi, dit le renard. Je ne suis pas apprivoisé (…).

- Qu’est-ce que signifie apprivoiser?

– C’est une chose trop oubliée, dit le renard. Ça signifie créer des liens (…) Si tu m’apprivoises, nous aurons besoin l’un de l’autre. Tu seras pour moi unique au monde. Je serai pour toi unique au monde…

A necessidade mútua estabelece a procura do amigo nos momentos de alegria e de tristeza, porque a alegria compartilhada aumenta e a tristeza dividida diminui.

Os amigos são únicos: os grandes amigos se contam nos dedos das mãos, e é capaz de sobrar dedos. Como o bom vinho, quanto mais antiga, mais saborosa é a amizade, e mais fraterna.

Correndo o risco de pecar por omissão (como sempre ocorre nas nominata de sessões de posse e cerimônias solenes, e por isso já pedindo veniam et poenitentiam), posso referir as amizades de há 25 anos como as de Paulo, Gilmar, Guilherme… Há as de há 15 anos como as de Gáudio, Leo, Michelle… Há os amigos de infância (meio esquecidos, pela distância): Robson e Fernandinho. Há os novos amigos daqui, como Renato, Luiz, Fran & Saul, Mari, Pedro, Marcelo, Lídia & Gabriel, José Antônio… Há os novos amigos de alhures como Roberto, Vinícius, Mônica

Todos, no dizer de Nelson Rodrigues, são velhos amigos, pois a amizade não se mede só pelo tempo, mas pela intensidade e profundidade. Buscamos sempre novos amigos, não só se os antigos não correspondem ou se distanciam (o que ocorre não poucas vezes e determina o coeficiente de reposição…), mas pela tendência humana natural a des amis a découvrir et beaucoup de choses a connaître, como dizia o Petit Prince. O ideal seria fazer de cada colega um amigo, de verdade, querido, compreendido. Isso depende, no entanto, da correspondência do outro e do tempo de que dispomos para o convívio mais próximo.

Em nossa Corte, o TST, criou-se o costume de almoçarmos juntos durante a semana. Compartilhar as refeições é das coisas que mais unem os homens. Não é por menos que, apesar de alguns debates mais acalorados que possam surgir durante os julgamentos, o reencontro na hora do pranzo recompõe os valores e se percebe que o principal é o convívio fraterno entre todos nós. Como dizia Nelson Rodrigues, o amigo é o acontecimento, o resto é paisagem… (e vejam que a do restaurante dos ministros do TST é belíssima, com a vista do lago Paranoá…).

A expectativa do encontro com cada amigo do peito é sempre excitante e já enche o coração de alegria:

- Si tu viens, par exemple, à quatre heures de l’après-midi, dès trois heures je commencerai d’être heureux.

A separação e a distância é causa de dor, mas a certeza de que se tem um ponto de referência, um exemplo e um porto seguro ao qual retornar em momentos de tormenta, é um dos ingredientes mais aprazíveis e fortalecedores da amizade (sem esquecer que, nos dias de hoje, o correio eletrônico encurta as distâncias e aproxima as pessoas). Isso fica mais do que assentado na antológica conclusão do citado capítulo do Petit Prince:

– Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé.

Somos eternamente responsáveis pelos nossos amigos. Nesta vida e pensando na outra. Se, na perspectiva cristã, a amizade é o âmbito próprio do apostolado, ou seja, de fazer dos nossos amigos amigos de Deus, então todo encontro é apostólico: nossa presença e conversa pode afastar ou aproximar de Deus.

Até fofocar pode ter seu estilo apostólico, quando se sabe que ninguém é melhor do que ninguém, que todos temos defeitos… Só a Bailarina, do Chico Buarque, é que não tem…

Para Saint-Exupéry, seus colegas aviadores Guillaumet e Mermoz eram os amigos, os pontos de referência e de convergência, os exemplos de pessoa humana. Todos os três morrerão em missões de combate, ainda jovens, na 2a. Guerra Mundial. Uma amizade curta, profunda e eterna, lembrada nos difíceis tempos em que prosperou, no Terra dos Homens (Nova Fronteira – 2006 – São Paulo).

III) A AMIZADE NA VISÃO ANALÍTICA DE ARISTÓTELES

Enquanto Platão filosofava através de seus diálogos (ao estilo do que vimos no Pequeno Príncipe), levando o ouvinte ou leitor a inferir das situações concretas as normas e condutas mais desejáveis, Aristóteles desenvolvia, em seus escritos, uma análise pormenorizada das questões que se propunha a estudar, dissecando conceitualmente os fenômenos, de modo a tornar mais compreensível a realidade. É o caso da análise que faz da amizade, tratada especialmente nos Livros VIII e IX do “Ética a Nicômaco” .

Para servir de norte às considerações que faremos neste artigo, apresentamos o seguinte resumo tópico dos referidos livros, que mostra bem o valor que os antigos davam à amizade e como Aristóteles faz derivar essa virtude daquela relativa à justiça (o que aparecer em itálico no resumo é transcrição literal ou termo grego):

Livro VIII

1) A amizade (filia) é uma virtude e constitui uma das exigências mais imprescindíveis da vida: ninguém optaria por viver sem amigos, mesmo que possuísse todos os outros bens. E com amigos, conseguimos todos os outros bens. A amizade seria o vínculo que une o Estado.

2) O que desperta a amizade e o amor é a bondade, utilidade ou o prazer que o outro pode proporcionar. A afeição, quando é recíproca, se torna amizade, desde que haja mútuo conhecimento dessa benevolência recíproca.

3) As amizades fundadas na utilidade e no prazer não são verdadeiras e duradouras amizades, uma vez que cada um só busca o proveito próprio (os jovens o prazer e os velhos as vantagens). A forma perfeita de amizade é aquela entre indivíduos bons e mutuamente semelhantes em matéria de virtude, uma vez que amam o amigo por si mesmo e desejam o seu bem.

4) A amizade fundada no prazer e, entre homem e mulher, no amor sexual, tende a diminuir quando se envelhece e murcha a beleza do ser amado. E a fundada na vantagem quando não se extrai mais nada do chamado amigo. Esse tipo de amizade pode existir entre homens maus e entre homens bons com maus, mas não impera entre os bons, que fundam a amizade em mais sólido apoio. Os homens bons são amigos absolutamente, porque querem uns aos outros pelo que são. Os homens maus ou que buscam apenas prazer ou vantagem em relação aos outros são amigos acidentalmente. Daí se percebe como a palavra amigo pode ser empregada em sentidos diversos e para situações diferentes, que não caracterizam perfeitamente a amizade.

5) A amizade corresponde tanto à disposição virtuosa (ser amigo) quanto à prática virtuosa (conviver com o amigo). A falta de convivência pode levar à diminuição da amizade: muitos encontram o fim da amizade por falta de conversação com o amigo. A mútua aceitação, quando não se busca a mútua companhia, representa mais o bom relacionamento do que a amizade. As pessoas velhas e rabugentas não se prestam às amizades, pela dificuldade que os demais têm de conviver com elas. Enquanto o afeto é uma emoção, que se pode sentir até por uma coisa, a amizade é uma disposição estabelecida, que só se pode ter com pessoas, pela reciprocidade da afeição.

6) Não é possível ter muitos amigos no sentido estrito da palavra, como também não é possível estar apaixonado por mais de uma mulher, pois a amizade supõe convivência mais estreita e maior afinidade de interesses. Pessoas detentoras de poder tem mais bajuladores que amigos, que lhes dão prazer ou vantagem, mas não verdadeira amizade.

7) Há um tipo de amizade que implica superioridade de uma parte sobre outra, como é aquela entre pais e filhos, velhos e jovens, marido e mulher, mandante e mandado. Nelas o afeto será proporcional à condição de cada parte, mas não segundo a justiça. Daí que, quando a distância é muito grande, torna-se mais difícil a amizade.

8) A maioria dos homens está mais preocupada em receber do que conceder afeto. Por isso lhes agradam os bajuladores, que, por sua vez, esperam receber vantagens futuras dos poderosos. No entanto, na sua essência a amizade parece consistir mais em dar do que em receber afeto, como se vê com as mães em relação aos filhos, que gozam só de ver os filhos prosperando, independentemente da correspondência. Assim, o que distingue um bom amigo é o afeto que nos tem. Isso é o que torna duradoura uma amizade. Amigos verdadeiros não se conferem préstimos que sejam moralmente degradantes. Já os homens maus não conseguem permanecer leais nem a si mesmos, quanto mais aos outros.

9) A amizade está ligada à virtude da justiça, pois supõe a reciprocidade no afeto. Daí que o cometimento da falta se torna crescentemente mais grave proporcionalmente ao grau de intimidade da amizade. Em toda parceria encontramos direitos mútuos e algum sentimento de amizade: os militares e os membros de uma associação chamam uns aos outros de “meu amigo”. Desde as associações menores, como a família e as agremiações profissionais, até o Estado, as relações entre os homens deve ser de amizade, o que deve ser fomentado pelo legislador.

10) Os Estados podem ser constituídos em monarquias (governo de um só), aristocracias (governo dos melhores) e timocracia (governo dos que tem renda), onde, se os governantes estão bem atendidos em suas necessidades, estarão voltados à busca do bem comum. A degeneração dessas formas de governo gerará a tirania (governo de um só), oligarquia (governo de uns poucos) e democracia (governo de todos), nas quais os governantes tem como preocupação a satisfação de seus próprios interesses. Na própria sociedade familiar se poderão verificar essas formas de governo: monarquia no governo do pai sobre os filhos, aristocracia na divisão de tarefas entre marido e mulher, timocracia no escalonamento de autoridade entre os irmãos conforme a idade, tirania na centralização de poderes nas mãos do marido e democracia quando ninguém manda na casa e todos fazem o que querem.

11) Em cada forma de governo há um grau de amizade e justiça entre quem governa e quem é governado, sendo Deus, a pátria e os pais maximamente merecedores de afeto, pelo débito maior que se tem com eles. Nas formas corrompidas de governo, torna-se quase inexistente a amizade entre governantes e governados, pois aqueles usam estes como instrumentos, sem se preocupar com o seu bem. Não existe amizade entre senhor e escravo, enquanto escravo (por ser objeto), mas pode haver enquanto ser humano (por ser pessoa).

12) Os pais amam os filhos como partes de si mesmos, ao passo que os filhos amam seus pais como a fonte de sua existência. Os irmãos se amam por pertencerem à mesma fonte, uma vez que sua identidade com ela os torna idênticos entre si. A amizade entre irmãos é também grandemente estimulada por sua educação comum e idade semelhante. A amizade conjugal parece existir por força do instinto, uma vez que o ser humano é, por natureza, um animal que acasala, ainda mais do que um animal político, na medida em que a família é uma instituição mais antiga e mais fundamental do que o Estado. No animal, a união dos sexos é apenas para a procriação; no homem também para a mútua ajuda. Os filhos ajudam a cimentar essa união.

13) Na amizade fundada na utilidade surgem queixas de que não se recebe tanto quanto se dá. Nesse tipo de amizade, não há doações, mas favores, que se espera ver retribuídos e na mesma moeda. Já na amizade fundada no prazer, se faltar este, simplesmente cessa a amizade. Só na amizade fundada no bem do outro não há queixas ou rupturas.

14) Na amizade entre rico e pobre, ao primeiro se tributa honra e ao segundo se dá vantagem pecuniária. Num Estado, quem não colabora com o bem público, não pode esperar vantagem pessoal. Nas relações entre superiores e inferiores e entre pais e filhos, a retribuição dos segundos será de acordo com sua possibilidade e não segundo o merecimento dos primeiros.

Livro IX

1) As amizades baseadas em qualidades particulares dos amigos são efêmeras, ao passo que as fundadas no caráter (ethon) tendem a ser duradouras. A quem cabe fixar o que é devido a cada um? Ao credor ou ao devedor? Como quem interesse é que sabe o quanto está disposto a pagar, o valor dos bens deve ser fixado pelo devedor, segundo a lei da oferta e da procura.

2) A nenhuma pessoa cabe deferência ilimitada. Regra geral, deve-se antes saldar as dívidas do que prestar favor aos amigos, se não for possível fazer ambas as coisas. Devemos dar a cada um o que lhe cabe, diferenciando segundo o grau de proximidade e de mérito.

3) Uma amizade pode ser rompida quando os amigos mudam seu modo de ser, se era fundada na utilidade ou no prazer, mas seria crime gravíssimo se se desse a entender que era fundada no bem-querer da pessoa e depois se rompe. Se a mudança é de caráter, não se deve abandonar a amizade, mas ajudar o amigo a se recuperar. Apenas se a corrupção do amigo é irrecuperável é que se justificará o rompimento da amizade. Já no caso da diferença ser de formação entre amigos de infância, a distância intelectual ou moral pode dificultar grandemente a continuidade da amizade.

4) Um amigo é definido como alguém que deseja e promove através da ação o bem real ou aparente de um outro indivíduo  (…)  alguém que faz companhia ao outro, e alguém que deseja as mesmas coisas que ele deseja, ou alguém que compartilha as alegrias e tristezas do outro (…)  O amigo é como um outro eu (….) a amizade de grande intensidade assemelha-se à auto-estima (…)pois o homem bom deseja sua própria companhia, pois frui estar sozinho visto que dispõe de memórias agradáveis do pretérito e boas esperanças para o futuro. Já o homem mau vive dilacerado entre a virtude que admira e o vício no qual está atolado, perdendo a auto-estima e buscando a companhia dos outros para esquecer de suas angústias.

5) A boa vontade parece ser o início da amizade, tal como o prazer do olhar é o começo do amor. Ninguém se apaixona antes de se sentir atraído pela beleza, mas é possível deleitar-se com a beleza alheia sem necessariamente estar apaixonado; alguém está apaixonado somente se experimentar saudade da pessoa amada. A amizade surge com o afeto, que nasce da benevolência em relação a quem se percebe seu valor e virtude. No caso do prazer e utilidade, não há benevolência, mas apenas concupiscência.

6) A concórdia entre as pessoas é outro elemento da amizade. Não significa consenso de opinião, mas capacidade prática de chegar a um acordo, por terem o interesse no bem comum.

7) Tem maior amor pelo amigo o benfeitor do que o beneficiado, quer humanamente, por poder esperar retribuição futura, enquanto o favorecido tem memória curta, quer por ser mais trabalhoso, e portanto mais meritório, dar que receber.

8) Em princípio, o homem não deve amar nenhum ser humano mais do que a si mesmo, mas o parâmetro máximo da amizade é amar tanto quanto a si mesmo. O amante de si mesmo no sentido pejorativo é aquele que busca primeiro para si os prazeres, dinheiro e honras. Mas o homem virtuoso é aquele capaz de dar a vida pelos amigos, porque toma a porção maior de nobreza moral para si mesmo.

9) Perguntando-nos sobre se os amigos são necessários para a felicidade, conclui-se que, da mesma forma que as virtudes são o maior bem interno que podemos adquirir, os amigos são o maior bem externo que se pode ter. Daí se conclui que o homem feliz necessita de amigos, até para manifestar sua benevolência. Como a felicidade não é só um estado, mas atividade, as ações boas do amigo causam alegria a si mesmo, pois a atividade e alegria do homem bom ficam potenciadas pelas ações dos amigos, com os quais convive e compartilha o diálogo e a comunicação de seus pensamentos numa vida prazerosa, fundada na virtude.

10) Não é possível ter um número muito grande de amigos, pois será difícil conviver mais íntima e diuturnamente, e a amizade exige essa convivência mais estreita. Pessoas de muitos amigos não são reais amigos de ninguém. Uma amizade intensa só é possível com poucas pessoas.

11) Precisamos dos amigos tanto na adversidade quanto na prosperidade. Na tristeza, para ter consolo; na alegria, para compartilhá-la. E a maior felicidade da pessoa é a companhia dos amigos, com os quais realiza muitas de suas atividades: beber e fazer esporte, estudar e filosofar.

Resumindo o próprio resumo, poderíamos dizer que, para Aristóteles, as notas distintivas da verdadeira amizade seriam:

a) a admiração pela excelência alheia (especialmente moral), que atrai e faz desejar a amizade;

b) o mútuo afeto, com cada um dos amigos querendo fundamentalmente o bem do outro;

c) a afinidade de gostos, valores e ideais, que aproximam, identificam e tornam amigas as pessoas, despertando o bem-querer recíproco;

d) a convivência habitual, de modo a que os laços de afeição não se vão tornando tênues;

e) a troca de atenções e afeição, nas múltiplas manifestações de amor, cortesia, deferência e ajuda que se notam entre os amigos;

f) o compartilhamento de alegrias e tristezas, que consola e anima, fortalece e faz a vida mais feliz.

Como se verifica a teoria na prática?  Pinçamos, por gosto pessoal, dois grupos de amigos franceses (os de Saint-Exupéry e de Raïssa Maritain) e dois de amigos ingleses (os de Chesterton e de Tolkien). E elegemos um da ficção, que tanto nos tem atraido ultimamente, servindo de paradigma até para o trabalho no Gabinete, paralelo à labuta num navio de combate, onde a união de todos é o segredo da vitória e da sobrevivência.

IV) AS GRANDES AMIZADES DE RAÏSSA MARITAIN

O elemento de aglutinação das grandes amizades decantadas por Raïssa Maritain foi Léon Bloy (1846-1917), com quem ela e seu noivo Jacques Maritain travaram contato durante o processo interior da conversão dos dois. Esse processo, terrível na sua coerência, mas fantástico na sua conclusão, começou pela decepção de ambos com o racionalismo reinante na Sorbone no começo do século XX, que apresentava aos jovens universitários franceses uma visão de mundo puramente mecanicista e materialista e, portanto, carente de um sentido mais elevado e profundo.

Assim começa Raïssa o capítulo III, em que fala de seu ingresso na Sorbone:

Dezessete anos! Apenas dezessete anos, e as mais profundas exigências do espírito e da alma já se fazem ouvir. Toda uma vida já foi vivida: a da infância, a da confiança ilimitada. Agora, eis a adolescência, com o seu cunho próprio: uma exigência total. A adolescência enfrenta, realmente, o universo, intima-o a comparecer, a prestar contas, a se explicar e a se justificar, pois já acusa a vida. Enfrenta os seus mestres, com um olhar límpido, um espírito ardente, as mãos bem abertas, vazias ainda de qualquer fruto de ciência ou de sabedoria, mas puras como o seu olhar (pg. 37).

Sentindo, pois, no coração uma sede de infinito e de perenidade, mas vendo a ausência de sentido para o mundo que lhes era apresentado nas aulas, decidem os dois jovens namorados, numa coerência extrema e terrível, que, se ao final de mais um ano de estudos, não encontrassem respostas cabais para suas dúvidas existenciais, iriam se suicidar, pois não valeria a pena viver.

Foi com esse espírito e decisão que se inscreveram nas aulas do Prof. Henri Bergson (1859-1941), que ensinava no Collège de France, ao lado da Sorbone, animados por um de seus primeiros amigos daqueles tempos: Charles Péguy (1873-1914). O vitalismo do professor, oposto ao racionalismo vigente, foi um sopro de ar puro na atmosfera intelectual rarefeita na qual estudavam.

Renascendo para a vida, travam contato, através de uma resenha de jornal, com o escritor Léon Bloy, que será, a partir de então, o centro aglutinador de um seleto grupo de amigos e escritores. A resenha é do livro La Femme Pauvre, em que Léon Bloy deixa frases antológicas, que retratam bem a sua vida:

Não se entra no Paraíso nem amanhã, nem daqui há dez anos, entra-se hoje, quando se é pobre e crucificado (escrevia falando da alegria que encontrara na vida de escritor, cheia de necessidades econômicas e embates ideológicos em defesa da fé num mundo racionalista).

Só há uma tristeza, é de não sermos santos (pensava em que não se dá para transformar e revolucionar o mundo se não se está disposto a mudar a si mesmo).

Raïssa e Jacques, impressionados com o romance, escrevem a Léon Bloy e enviam-lhe uma quantia de francos de ajuda financeira. Recebem carta datada de junho de 1905, com a qual começa uma grande e frutuosa amizade, na qual Léon Bloy termina:

Dentro de um mês terei 59 anos e ainda luto pelo meu pão, é verdade; mas mesmo assim socorri e consolei muitas almas e isso é para o meu coração um paraíso.

Quanta sabedoria nesse parágrafo, quando pensamos que uma vida sacrificada gera muitos frutos de felicidade para si e para outros, pois não se fecha no egoísmo de se pensar apenas na própria excelência e bem-estar.

Bloy dedicará a Raïssa, a sua judiazinha querida, seu livro La Salut par Les Juifs, fazendo-o com as seguintes palavras, que tocam no fundo a alma de Raquel (que esse é o significado do nome russo Raïssa), levando-a, no futuro, ao batismo:

A

Raïssa Maritain

Dedico estas páginas

Escritas para a glória católica

ao Deus

de Abrão

de Isaac

e de Jacó.

As novas amizades vão se somando: Ernest Psichari (1883-1914), Pierre e Christine Van Der Meer e vários outros que seriam os intelectuais que revitalizariam o pensamento francês, europeu e mundial no século XX.

Os valores cristãos, que passam a ser o cimento da amizade entre esses jovens franceses, discípulos de Léon Bloy, são descobertos por Ernest Psichari em sua dimensão conformadora da própria civilização ocidental numa experiência singular. Desenganado em seu amor não correspondido pela irmã de Jacques, e desesperado pelas experiências amargas que tem a seguir, chega a tentar o suicídio. Acaba decidindo buscar na disciplina militar o meio de colocar ordem em sua vida, como escreverá no L’Appel des Armes: Somos dos que têm sede de se submeter para se tornarem livres.

Pois bem: será na Legião Estrangeira, nos desertos africanos, que se reencontrará consigo mesmo e se encontrará com Deus. E tudo começando pela amizade com Mohammed Fadel, um jovem mouro que o acompanhará numa longa missão pelo deserto e que impressionava Psichari pela sua fé e coerência de vida. Um dia perguntou-me com verdadeira ansiedade se os franceses acreditavam num só Deus ou em três, conta Ernest em seu Les Voix qui crient dans le Désert. Nesse momento se dá conta de que a civilização ocidental e o cristianismo estão umbilicalmente ligados e passa a falar ao amigo como quem vive aquilo que ainda não entende nem acredita. E lá, na solidão das areias infindáveis, tem tempo de sobra para meditar na vida e em seu sentido mais profundo. Convertido, paradoxalmente, por um muçulmano, à fé de seus pais, voltará para a França e acabará tombando nos campos de batalha da 1ª Guerra Mundial junto com Charles Péguy.

Nesses pouquíssimos exemplos tirados das memórias de Raïssa, cuja leitura se recomenda vivamente, se percebe como as inquietações espirituais são um terreno propício para se lançar raízes de grandes amizades, que crescem como árvores frondosas pela comunhão de valores espirituais e dão flores e frutos de crescimento como pessoas e de serviço real aos demais.

V) A LONGA E CONTURBADA AMIZADE ENTRE J.R.R.TOLKIEN E C.S.LEWIS

Amizade semelhante, cimentada não só pelos gostos literários comuns, mas pelos valores cristãos compartilhados e defendidos, é aquela que será vivenciada, com momentos de maior proximidade ou afastamento, durante 40 anos, por J.R.R. Tolkien e C.S.Lewis, tão bem retratada no livro de Colin Duriez O Dom da Amizade (Editora Nova Fronteira – 2006 – Rio de Janeiro, tradução de Ronald Kyrmse), como também na biografia do escritor sul-africano escrita por Paulino Arguijo (Tolkien, Ediciones Palabra – 1992 – Madrid).

Não é por menos que a obra prima de Tolkien O Senhor dos Anéis (publicada atualmente pela Martins Fontes em suas várias edições) só tenha sido concluída graças ao alento de Lewis, para quem Tolkien passava os originais, esperando suas críticas e opinião. Já Lewis se inspirou no mundo fantástico da Terra Média para criar as suas Crônicas de Nárnia (publicadas no Brasil pela Martins Fontes em 1997), com um mundo não menos fantástico, tendo ambas as obras sido recentemente levadas às telas do cinema, com milhões de espectadores se deliciando com as aventuras vividas nessas sagas, restauradoras de grandes ideais na alma de todos.

Cada um acabou figurando na obra do outro plasmado num personagem, que sintetiza bem o modo de ser do amigo: o jeito de ser, falar e pensar de Lewis está representado no Barbárvore da saga dos anéis. E Tolkien é, nitidamente, o Dr. Elwin Ramson das obras de ficção científica escritas por Lewis.

É interessante notar, na relação Tolkien-Lewis, a preocupação do primeiro na conversão do segundo de seu ateísmo. Tolkien havia recebido a fé católica de sua mãe Mabel, valorizando-a como seu maior tesouro, pois viu como custou para sua mãe vivê-la, em face das incompreensões e discriminações que sofreu, percebendo o valor que ela dava à sua fé.

A de Tolkien segue na linha direta da tradição da mais expoente figura do catolicismo inglês, que foi o Cardeal John Henry Newman (uma ótima biografia do Cardeal é Newman: 1801-1890, escrita por José Morales Marin, Rialp – 1990 – Madri). Como Tolkien, Newman foi professor em Oxford e, como fellow da Universidade, liderou o que ficou conhecido como o Movimento de Oxford, que pretendia encontrar no anglicanismo a via média entre o catolicismo, que consideravam inflexível e esclerosado, e o protestantismo, que lhes parecia flexível demais com doutrinas e ritos. A tarefa que Newman se propôs era a de demonstrar que o cristianismo original dos primeiros tempos da Igreja só havia sido preservado na Igreja Anglicana. Após 5 anos de estudos meticulosos dos primeiros escritores eclesiásticos – os denominados Padres da Igreja – chegava, no entanto e humildemente, à conclusão de que, não obstante falhas pessoais de clérigos e leigos que se pudessem encontrar na Igreja Católica, inclusive de papas, era ela que havia preservado de forma miraculosa a doutrina original de Cristo em seu Credo.

Newman pediu, então,  com toda simplicidade, para ser admitido na Igreja Católica (o que ocorreu em 9 de outubro de 1845) e veio a fundar o Oratório de S. Felipe Néri em Birmingham (em 2 de fevereiro de 1849), no qual Mabel e sua irmã May serão recebidas, tendo o Pe. Francis Xavier Morgan, pároco do Oratório, não só ajudado a família Tolkien, mas educado John Ronald e Hilary Arthur, desenvolvendo neles as convicções morais e religiosas que viverão e defenderão até o final de suas vidas.

Tolkien conseguirá, através de sua amizade literária, trazer Lewis para a fé cristã, ainda que, apesar do esforço, não tenha conseguido fazer que passasse da Igreja da Inglaterra para a Igreja Católica. É certo que, no final da vida de ambos, haverá um esfriamento dessa amizade, motivado possivelmente por uma decepção de Tolkien com o amigo, achando que teria emulado seu mundo imaginário, sem reconhecimento referencial e com distorção conceptiva. Seria justo o aborrecimento de Tolkien?

De qualquer modo, Lewis, uma vez convertido, escreverá alguns livros de fantástica sabedoria, tais como Mero Cristianismo, O Grande Abismo, O Sentido do Sofrimento e, que nos interessa mais por agora, Os Quatro Amores (Martins Fontes – 2005 – São Paulo), no qual fala da amizade.

Os quatro amores, numa escala crescente de importância e densidade, seriam:

a) amor de complacência (ou afeição), quando alguma coisa ou pessoa nos agrada;

b) amor de concupiscência (ou eros), quando alguma coisa ou pessoa nos atrai e a queremos para nós;

c) amor de benevolência (ou caridade), unicamente pessoal, quando queremos não a pessoa para nós, mas o bem e felicidade do outro;

d) amor de amizade, que é a mútua benevolência ou bem-querer correspondido.

Ora, como já víamos acima, só há verdadeira amizade onde há doação. Daí que Lewis fizesse uma segunda distinção no campo do amor:

a) amor-necessidade, que todos temos, de sermos queridos e compreendidos;

b) amor-doação, que é a essência do amor, pela entrega sacrificada à pessoa amada, pois, do contrário, o que há é egoísmo e não amor.

Escreve Lewis que, na relação do homem com Deus, o amor do homem é amor-necessidade e o de Deus amor-doação. No entanto, como o binômio necessidade-doação é conformativo de todo amor humano, a correspondência do homem ao amor de Deus se plasma na doação ao próximo por amor a Deus.

Também lembra o insigne professor de Oxford que a amizade surge quando duas pessoas se admiram e descobrem que têm uma visão das coisas que, em parte, é comum somente a elas. E se essa amizade é verdadeira, o fato de encontrarem um amigo comum, com essa mesma visão, não faz enfraquecer a amizade entre ambos, mas ainda a reforça, pois a amizade não é possessiva, mas tende a estender-se a outros, sempre que possível.

Muito do que Lewis escreveu sobre o amor e o sofrimento nas verdadeiras amizades fica excepcionalmente retratado no filme Terra das Sombras (Shadowlands – 1993), em que o escritor inglês é representado pelo ator Anthony Hopkins e a escritora americana com quem desenvolve uma grande amizade – Joy Greesham – pela atriz Debra Winger.

VI) A SINGULAR AMIZADE ENTRE G.K. CHESTERTON E BERNARD SHAW

Ao pensar na singular amizade que se desenvolveu entre Gilbert Keith Chesterton e George Bernard Shaw, lembrei-me dos 2 anos em que trabalhei na assessoria jurídica do Presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio do Planalto (1997-1999), passando por não menos singular experiência.

Ao ter de debater com senadores e deputados no Congresso os projetos de lei enviados pelo governo, ao me apresentar, ouvia amiúde o seguinte comentário: “Você é filho do Ives? Gosto muito de seu pai; sou amigo dele!”. O comentário, com essas ou semelhantes expressões, era feito por parlamentares dos mais diferentes partidos e linhas ideológicas, do governo e da oposição, o que me fez buscar uma explicação para o fenômeno, já que meu pai, em seus artigos, palestras e conferências, sempre foi contundente ao defender seus pontos de vista.

E encontrei a resposta na forma como sempre se relacionou com as pessoas: atacava as idéias que entendia equivocadas, mas prestigiava as pessoas que as defendiam, no que tinham de nobre e idealista. A atenção que tinha com todos, especialmente os mais simples, a quem chamava de “professor fulano… professora fulana” (quando perguntavam o porquê do título, recebiam como resposta que sempre aprendia alguma coisa com eles), talvez dê uma pista para compreender esse amplo bem-querer.

Divirto-me ainda ao ver minha mãe, quando meu pai chama pessoas que ela nem conhece, de grande amigo, revidar: Ives, grandes amigos temos poucos na vida! Ao que meu pai contesta que no seu caso é diferente. Chego à conclusão de que tem dilatado o coração (sempre cheio de detalhes para com todos, sem esquecer do que lhe dizem ou pedem, o que sempre me admirou).

Essas reminiscências, como dizia, vêm-me à cabeça ao pensar na amizade que se estabeleceu entre Bernard Shaw, renomado escritor inglês, e aquele que seria seu eterno algoz intelectual, G.K. Chesterton, notável jornalista e polemista, com amplo círculo de amizades, bem descritas por Luis Ignácio Seco (Chesterton – Un Escritor para todos los tiempos, Ediciones Palabra – 1997 – Madrid).

O bem-querer entre Chesterton e Shaw, pelas afinidades intelectuais, não necessariamente ideológicas que tinham, era de tal ordem que, nos debates públicos que travavam em programa de rádio na BBC de Londres, assistido ao vivo nos próprios estúdios por pequenas multidões de fãs, as ridicularizações das incoerências racionalistas de Shaw feitas por Chesterton arrancavam estrondosas gargalhadas do público, sem que, pelo carinho de amigo com que eram feitas, desgostassem efetivamente Shaw, remarcado pessimista.

Shaw definia Chesterton como um querubim gigantesco: um menino disfarçado de adulto, com sua cara gorda e redonda e sua expressão infantil, compensada por uma enorme capacidade de trabalho e uma inteligência privilegiada, em permanente ebulição.

Para se ter uma idéia da transparência de Chesterton e de como sabia criticar idéias sem ferir as pessoas que as defendiam, publica em 1905 um livro que cairá como uma bomba nos meios intelectuais ingleses: Heretics, obra em que ataca, com fino humor e numa lógica desconcertante, todos os ídolos literários da época, por considerar que, através deles, estaria se dando o envenenamento intelectual de toda uma geração. Assim, condena como hereges a George Moore (1873-1958), pelo seu subjetivismo ético, a Bernard Shaw, por seu socialismo desumanizador, a Rudyard Kipling (1865-1936), por seu imperialismo discriminatório, a H. G. Wells (1866-1946), por seu historicismo naturalista, e a Oscar Wilde (1854-1900), por seu esteticismo aético. Os amigos não escapam de sua pena, que esgrime com elegância e sem ira.

Hereges termina por consagrá-lo e granjear-lhe novos e importantes amigos, provenientes de distintos círculos literários: Joseph Conrad (1857-1924), Henry James (1843-1916), Baden Powell (1857-1941), Winston Churchill (1874-1965) e Thomas Hardy (1840-1928), entre os mais destacados. O segredo de sua popularidade é a força da sua autenticidade, que defende aquilo em que realmente acredita e não por mera retórica ou interesse pessoal.

O ano de 1908 vê publicadas duas obras-primas de Chesterton: The Man Who Was Thursday e Orthodoxy. O primeiro, que recebe o cognome de A Nigthmare (Um Pesadelo), é um romance alegórico em que Chesterton, de forma divertida, mas profunda, expõe, através dos personagens da novela, suas próprias crises espirituais dos anos de juventude. Em O Homem que foi Quinta-feira, a mensagem básica (entre as muitas que se podem tirar) é a de que tanto o bem quanto o mal provêm da mesma origem: não há, no universo, um princípio do bem e outro do mal. O mal é apenas a ausência do bem devido (permitido, em face da liberdade humana). A luta entre a anarquia e a ordem, que permeia todo o livro, em cujo desenrolar os anarquistas (que recebem os nomes dos dias da semana) vão descobrindo que são todos policiais infiltrados na organização anarquista comandada pelo “Domingo”, o enigmático personagem central do livro, é o pano de fundo para a exposição de suas teses. O livro recebeu, de pronto, as críticas positivas de C. S. Lewis e de Ronald Knox (1888-1957), que encorpam o nutrido clã de seus amigos.

Ortodoxia será a resposta a um desafio. Um tal G. S. Street publica, nesse ano, o livro G.K. Chesterton – Estudo Crítico, reconhecendo o talento de Chesterton, mas criticando acerbamente suas obras, ao fundamento de que destruir e atacar todo mundo é fácil, como o fez em Hereges; difícil mesmo é construir uma visão sólida e coerente do mundo. Conclui o estudo dizendo: Começarei a preocupar-me de definir minha própria filosofia quando Chesterton nos tenha mostrado a sua. Chesterton não se faz de rogado: vai para casa preparar a resposta, sempre disposto a escrever um livro à menor provocação.

Trata-se, efetivamente, de uma de suas obras-primas. Nela traça os parâmetros de suas mais arraigadas crenças e dá testemunho de seu próprio processo interior de conversão. Brotam, assim, algumas de suas idéias-chave: 1) o racionalismo exacerbado, separado do senso comum, conduz ao suicídio do pensamento; 2) o reconhecimento do caráter democrático da tradição (dar o direito de voto aos nossos antepassados); 3) a teoria da felicidade condicional (moral do país das fadas, onde tudo é permitido, em troca de uma pequena coisa que é negada); 4) o acerto paradoxal da doutrina cristã (o ponto de equilíbrio entre virtudes contrárias); 5) o otimismo e a alegria como o segredo que o próprio Deus escondia em sua passagem pela terra, dificilmente compreendidos em toda a sua dimensão pelo homem.

Em 1909 escreve um ensaio sobre seu amigo e principal rival de debates “George Bernard Shaw”, no qual discute mais as idéias do vegetariano socialista ateu irlandês do que os fatos de sua vida, dizendo, numa expressão que retrata o que é uma amizade verdadeira: sou o único que o entende e não estou de acordo com ele”. Ou seja, gosto tanto de meu amigo que, se puder, quero melhorá-lo no que vejo que não anda bem.

Há uma foto curiosíssima dessa época, em que aparecerem Chesterton e Shaw vestidos de cowboys, quando aceitaram participar de um filme de Western dirigido pelo célebre autor de Peter Pan, James Barrie (1860-1937). O filme, que começou a ser rodado em 1914 e não foi para frente, proporcionou momentos divertidos para os dois amigos, prelúdio de “O Gordo e o Magro”:

Chesterton: - Bernard, quem o vir pensará que estamos passando fome na Inglaterra.

Shaw: - Gilbert, quem o vir pensará que és a causa dessa fome.

Outro amigo de Chesterton se tornará personagem de seus romances policiais. Trata-se do sacerdote católico irlandês, Pe. John O’Connor, que o admira e lhe agradece por suas obras, e que se transformará no Pe. Brown, um clérigo baixinho, de rosto afável e expressão de duende, como o definirá Chesterton, inspirado na figura do Pe. O’Connor. Assim, sairão publicados A Inocência do Padre Brown (1911), A Sabedoria do Padre Brown (1914), A Incredulidade do Padre Brown (1926), O Segredo do Padre Brown (1927) e O Escândalo do Padre Brown (1935).

Uma decisão, que vinha amadurecendo ao longo de 10 anos, é finalmente concretizada por Chesterton: sua conversão ao catolicismo. Já a havia anunciado ao Pe. O’Connor em 1912, mas não chegava a ultimá-la. Seus amigos Maurice Baring (convertido em 1909) e o Pe. Ronald Knox serão os que mais o ajudarão a dar esse passo, superando os preconceitos tipicamente britânicos em relação à Igreja de Roma (Baring, além disso, pedirá a muita gente que reze pela conversão de Chesterton). Finalmente, em 1922, Chesterton pede ao Pe. O’Connor que venha a Top Meadow para conversar com Frances. Esta, apesar de não ver com clareza a sua própria mudança do anglicanismo, diz que ficará aliviada ao ver o marido seguindo o caminho que vê, com evidência, ser o seu. Chesterton então se prepara para o grande passo de sua vida: estuda, como uma criança, o pequeno catecismo que o Pe. O’Connor lhe dá, faz sua confissão com esse sacerdote, a profissão de fé católica, e recebe o batismo sub conditione no domingo, 30 de julho de 1922.

Chesterton dará a notícia de sua conversão ao amigo Belloc numa carta em que dirá: A Igreja Católica é o lar natural do espírito humano. A estranha perspectiva da vida, que ao princípio parece um quebra-cabeça sem sentido, tomada sob esse ponto de vista, adquire ordem e sentido. Quando se sabe da novidade pela imprensa, chegam-lhe cartas de felicitações de todo o mundo, que não compreendia porque havia tardado tanto. Tratou-se, no entanto, de um processo lento e profundo, ao estilo de Chesterton, que só se decidiu definitivamente ao perceber, participando de uma conferência sobre controle da natalidade, em que os anglicanos sustentavam a necessidade de adaptar a moral aos novos tempos, que aquela já não era a sua Igreja: os tempos é que deveriam abrir-se à moral cristã.

Já não tendo o peso de um jornal para dirigir, Chesterton dedica os anos de 1923 e 1924 a preparar, com pausa e tranqüilidade, aquela que será, para alguns, a sua melhor obra: The Everlasting Man, publicada em 1925. O Homem Eterno segue na esteira de Ortodoxia (sendo-lhe uma continuação), no qual Chesterton expõe sua filosofia da História: uma verdadeira novela da Humanidade, em que fala do homem, desde suas origens, e do Homem que fez o Mundo, Jesus Cristo. Mais uma vez, dirige a obra especialmente aos seus amigos, especialmente os que ainda são céticos: H. G. Wells e Bernard Shaw (a obra é verdadeiro contraponto à História Universal de Wells, opondo à visão cética, naturalista e evolucionista deste, um panorama do homem mais realista e condizente com o que conhecemos pelos vestígios históricos).

Em 1925 Chesterton começa a publicar no GK’s Weekly os capítulos de A Volta de Dom Quixote, uma novela semanal em defesa da Idade Média. O capítulo inaugural já atrai o público e elucida o título: vai ser representada uma peça teatral num colégio e os alunos não encontram quem possa representar o rei; propondo ao bibliotecário da escola que o faça, ele se desculpa, por ser entendido apenas em civilizações antigas; convencido pelos alunos, passa a estudar o período histórico e seu personagem; a peça é um sucesso, especialmente pela representação perfeita do rei; mas qual não é a surpresa geral ao verem, à tarde, passeando pela escola, o bibliotecário, ainda com as vestes “reais”, falando como se ainda estivesse na Idade Média. Os demais capítulos vão se seguindo, com as mais divertidas situações do bibliotecário, encarando todos os problemas modernos à luz do pensamento medieval, que os resolveria melhor.

Este último livro pode ser o resumo da quixotesca vida de alguém que, levado pela amizade, faz-se tudo para todos, para salvar a todos (I Cor 9, 22), na conhecida expressão de São Paulo.

VII) AS GRANDES AMIZADES NA LITERATURA DE FICÇÃO: O MESTRE DOS MARES

As amizades entre pessoas tão diferentes, mostrando também o caráter complementar de temperamentos que faz nascer a amizade, é bem retratada na literatura, como são exemplos, para não nos estendermos demais, a série de 20 livros de Patrick O’Brien (1914-2000), protagonizados pelo Capitão da Marinha Inglesa Jack Aubrey e o Médico Irlandês-Catalão Stephen Maturin, levados ao cinema no filme O Mestre dos Mares, estrelado por Russel Crowe.

O primarismo impulsivo combinado com um moralismo vitoriano de Jack contrastando com o sentimentalismo racionalista de Stephen, que tudo esquadrinha e tenta mensurar e explicar,  fazem uma combinação que arranca boas gargalhadas do leitor, obviamente no bom estilo do humor inglês, sutil e velado, nunca grosseiro.

Alguns comentários de Maturin, descrevendo o amigo capitão, mostram bem o senso comum de comandante de Jack, que sabe compreender seus subordinados e os querer de verdade. Sobre a inspeção que fazia ao navio: viu o que deveria ser visto e ficou cego para o que não deveria ser visto. Sabe passar por cima os defeitos, enquanto não os puder superar.

Jack sentia, no navio, mais do que nunca a necessidade de um amigo, pois se sabia isolado no comando. Para a tripulação, o capitão era um deles, ou seja, dos distantes homens do poder, enquanto os membros da tripulação eram dos nossos. A saída do capitão do navio era comentada como Jeová já não está entre nós, tal a distância criada na Marinha (o comandante não podia ser popular). Como combinar autoridade e amizade? Em Stephen, Jack tinha o amigo ideal, pois não sendo marinheiro, não sentia aquela distância, e sendo o único nessas condições no navio, era seu desaguadouro.

O amável trato mútuo era bem inglês (seguem algumas expressões tiradas dos vários livros O Mestre dos Mares, O Capitão, A Fragata Surprise, O Lado mais Distante do Mundo, editados no Brasil Pela Record):

- Stephen, poderia dar-nos o benefício das suas luzes? (…)

- Jack, dou pouca importância aos almirantes na escala dos seres inteligentes (…)

– Stephen, vamos nos atrasar se você não desfraldar um pouco mais de pano! (…)

- Jack, a vantagem de não se saber nadar é não alongar a agonia de um naufrágio (…)

– Stephen, notei que o seu coração estava abandonando o posto (…)

– Jack, a amizade dá o direito, mais do que o dever, de dizer as verdades (…)

– Stephen, não se necessita de recompensa pela virtude, pois a virtude é a própria recompensa (…)

– Jack, a insistência na justificativa é a prova da mentira (…)

- Stephen, na guerra, ter um navio é tão importante para um marinheiro como ter um esposa (…).

- Jack, Butler teve ontem sua primeira experiência na angústia do comando

As observações mútuas mostram diferentes pontos de vista e a liberdade de expressão de cada um para com o outro, divertidas na sua forma, suficientes para bons entendedores e amigos de longa data.

Por outro lado, pensando no navio que irá comandar por muitos anos, o HMS Suprise, Jack fala a Stephen sobre o sentido do coleguismo, tendendo para a amizade, que deve haver em qualquer equipe de trabalho:

Sem haver um bom entendimento entre os oficiais, um navio não consegue ser feliz: e um navio feliz é o seu bom navio de combate.

Patrick O’Brien, no livro A Fragata Surprise, tem um trecho que coincide admiravelmente com a visão de Saint-Exupéry sobre os ritos e as rotinas como dando um encanto às relações humanas e às amizades, por mais que o dia-a-dia possa parecer monótono:

Era a palavra verdadeira: assim que a “Surprise” tinha virado para o sul, passando pelo Ceilão e indo para o mar de Java, a rotina tomou conta de todos. O raspar das pedras no convés, o som dos clambazes e da água nos conveses às primeiras luzes; macas entrincheiradas, o desjejum e seus cheiros agradáveis; a sucessão invariável dos quartos de serviço; passagem meridiana e a altura do sol, jantar, grogue; Rosbife da Velha Inglaterra ao soar do tambor, para os oficiais; festa moderada; paradas, o toque de recolher, o troar vespertino dos canhões, velas de gávea rizadas, o estabelecimento da tabela de serviço; e depois as noites longas, quentes, iluminadas pelas estrelas, frequentemente passadas no tombadilho, com Jack guiando seus dois aspirantes inteligentes através das intricadas delícias da navegação astronômica. Essa vida, com seu padrão rígido pontuado pelo som agudo e imperativo dos toques de sinos, parecia assumir algo da natureza da eternidade enquanto eles se desviavam em direção ao equador, atravessando-o a noventa e um graus de longitude a leste de Greenwich. As paradas das divisões, da formatura para verificação da presença, igreja, os Artigos de Guerra, marcavam a devida ordem do tempo, mais do que sua passagem; e antes que fossem repetidas duas vezes a maior parte do pessoal da fragata sentia o passado e o futuro se turvar, diminuindo quase até a insignificância. Uma impressão ainda mais forte porque a “Surprise” estava de novo num mar solitário, duas mil milhas de água azul-escura sem jamais uma ilha para romper sua curvatura perfeita e nem o mais leve cheiro de terra até mesmo na brisa mais forte – o navio era um mundo contido em si mesmo, nadando entre dois horizontes perpetuamente renovados. Mais forte ainda porque nessas águas não havia uma impaciência ansiosa para ver além do horizonte a leste: eles navegavam sem qualquer relação com um inimigo, nem com qualquer presa de guerra potencial. Os holandeses estavam entocados; os franceses tinham desaparecido; os portugueses eram amigos (pg. 277).

Nessa viagem singular, levando o representante da Coroa Inglesa para estabelecer relações diplomáticas com a Indonésia, que adoece gravemente, Stephen reflete sobre sua missão de médico:

Este era um caso em que a atenção hipocrática deveria tomar o lugar dos medicamentos; o paciente estava fraco demais, a doença era muito pouco entendida, para qualquer medida radical; e ele ficava sentado à beira da cama do Sr. Stanhope um quarto depois do outro enquanto o navio se deslocava em silêncio pelo mar fosforescente. Essa, refletiu, era sua verdadeira ocupação; isto, e não a perseguição autodestrutiva de uma mulher que estava muito fora do seu alcance.

É que, no período em que viveram na Inglaterra, Jack e Stephen haviam sido amantes da mesma mulher, Diana Villiers, ao que Jack, percebendo a influência que a beldade ainda tinha sobre o amigo, tenta livrá-lo dela. As aventuras pelas quais cada um deles passa para ajudar o outro nas várias situações do período das Guerras Napoleônicas é a melhor descrição dos sacrifícios que toda a amizade supõe, feitos com gosto, quando é para o amigo.

VIII) O GRANDE AMIGO

Pensando em todas as qualidades elencadas por Aristóteles e outros autores que tratam do tema da amizade, quem não sonha em ter o amigo ideal? Milton Nascimento já decantava esse amigo nas conhecidas estrofes: Amigo é coisa pra se guardar debaixo de 7 chaves… do lado esquerdo do peito… dentro do coração… Roberto Carlos fez o mesmo ao cantar o Amigo, reconhecendo que é quem me diz as verdades com frases abertas, amigo você é o mais certo das horas incertas. Ou seja, não é o adulador, mas o apoio que leva para cima, precisamente nos momentos em que estamos no caminho errado.

Tolkien, falando da morte de sua mãe, faz uma revelação pouco comum para o recato e discrição de um inglês:

Testemunhei, compreendendo pela metade, os sofrimentos heróicos e a morte prematura de minha mãe, que me conduziu à Igreja; e recebi a espantosa caridade de Francis Morgan. Mas apaixonei-me pelo Santíssimo Sacramento desde o começo (cfr. Duriez, op. cit., pg. 25) (grifos nossos).

É notável a confissão de Tolkien de seu amor precoce à Eucaristia. Teria ele descoberto, desde cedo, que o Grande Amigo estava escondido no Sacrário?

Quando a cidade do Rio de Janeiro foi eleita para sediar a Olimpíada de 2016, o jornal Correio Braziliense publicou na capa uma foto do Cristo Redentor do Corcovado, de página inteira, com a manchete sui generis, mas que dizia muito: Nosso Senhor dos Anéis (referência óbvia aos Anéis Olímpicos, de uma parte, e ao livro, levado ao cinema, de Tolkien, de outra). Mas penso que diz um pouco mais, servindo de reflexão sobre o papel de Cristo em nossas vidas.

S. Josemaría Escrivá, em seu clássico Caminho, tem 3 pontos que apontam para essa mesma descoberta da maior das amizades que podemos ter na vida:

422. Jesus é teu amigo. – O Amigo. – Com coração de carne como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro… – E, tanto como Lázaro, te ama a ti.

426. Em Cristo temos todos os ideais: porque é Rei, é Amor, é Deus.

537. Quando te aproximares do Sacrário, pensa que Ele!… faz vinte séculos que te espera.

Quem ainda não fez a experiência de, num dia de extremo desânimo e abatimento, passar por uma igreja, entrar e ficar sentado num banco, olhando para o Sacrário, e descobrir que lá está Alguém que prometeu “vinde a mim todos os que estais fatigados e sobrecarregados e eu os aliviarei; tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis repouso para as vossas almas; pois o meu jugo é suave e a minha carga leve” (Mt 11, 28-30), e que consegue, efetivamente, aliviar o coração, num diálogo inefável, porque é O Amigo, não sabe o que está perdendo… e ainda não entendeu nada do que é a verdadeira amizade!

IX) CONCLUSÃO

Ao concluir estas singelas reflexões sobre a amizade e suas características, vem-me à cabeça a despedida recente do Ministro José Simpliciano Fernandes, do Tribunal Superior do Trabalho. Despedida sentida, diante de sua precoce jubilação. Despedida doída, pela amizade que criou com todos os colegas, decantada na última sessão de que participou na Corte, pelo seu trato amável sem ser bajulador, brincalhão sem ser vulgar, espiritualizado sem ser piegas, firme sem ser opressivo, conversador sem deixar de ouvir, dado sem esperar retorno.

Falou-se repetidas vezes nessa ocasião sobre santidade. Penso que santos só os temos nos Céus. Na Terra somos todos pecadores, ainda que possamos sinceramente buscar a santidade. E ser boa praça não é sinônimo de ser santo. Até porque o santo é, não raramente, sinal de contradição no ambiente em que vive, lembrando com a vida algumas obrigações que preferiríamos esquecer.

Penso, de qualquer forma, que o Feliciano, pois é assim que o chamo, por seu perene bom humor (a mim me chama carinhosamente de Ivezinho), soube cultivar as amizades e ser um grande amigo. Oxalá o convívio com ele durante tantos anos me ajude a ser melhor amigo de meus colegas (de todos), compreendendo-os e querendo-os, aprendendo deles e respeitando-os como são, na esperança, no entanto, de que possam sempre ser melhores, com a graça de Deus.

A Justiça: É possí­vel vivê-la? Podemos acreditar nela?

I) INTRODUÇÃO

Josef Pieper (1904-1997), insigne filósofo alemão, Professor da Universidade de Münster, refere-nos, em seu livro sobre as Virtudes Fundamentais, uma curiosa máxima do pensador espartano Cheilon, um dos 7 sábios da Antiga Grécia, segundo a qual haveria 3 coisas especialmente difíceis de se viver: guardar um segredo, suportar a adversidade e usar bem o tempo livre (Virtudes Fundamentais, Aster – 1960 – Lisboa, pg. 104).

A par das razões de ordem teológica, diz-se jocosamente que o principal motivo pelo qual a Igreja Católica não admite a ordenação sacerdotal de mulheres é o de que não aguentariam guardar o segredo da confissão…

Em relação ao tempo livre, quanto maior, mais se desperdiça (se não se adquiriu a virtude da ordem e da laboriosidade). No entanto, o mais difícil mesmo parece ser suportar as adversidades, especialmente as injustiças.

Com efeito, o sentimento que mais aflige o homem, antes mesmo de atingir plenamente a idade da razão, é o da injustiça sofrida. A criança se rebela e grita quando se sente injustiçada, quando acredita que tem um direito e este direito não lhe é respeitado.

Não é por menos que Ulpiano definisse o Direito como “a ciência do justo e do injusto” (Digesto I, 1), uma vez que a justiça só é bem captada quando desrespeitada. A criança que toma sem pedir o brinquedo de outra como se fosse o mais natural, acaba compreendendo que não o deve fazer sem pedir, quando a outra criança pega o dela e ela se revolta pela intromissão indevida em seu patrimônio. Percebe, então, que não deve fazer aos outros o que não quer que façam consigo.

Mas então, no que consiste a justiça?

II) O QUE É A JUSTIÇA?

Já os antigos definiam a justiça, unissonamente, como o hábito ou virtude de dar a cada um o que é seu  – suum cuique tribuere (cfr. Homero, Odisséia, 14, 84; Platão, A República, 331; Aristóteles, Retórica, 1, 9; Cícero, De Finibus, 5, 23; S. Agostinho, A Cidade de Deus, 19, 21; S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 58, art. 1), constando tal definição no Direito Romano como abertura do Codex Juris Civilis (I, 1) do Imperador Justiniano. A justiça estaria, pois, em distinguir o próprio do alheio.

Sócrates ia mais além, ao dizer que era preferível sofrer do que cometer uma injustiça, uma vez que a injustiça conspurcaria o interior do próprio homem que a comete (cfr. Platão, Górgias, 469 e 508).

Já  Aristóteles trata da virtude da justiça no Livro V do Ética a Nicômaco (utilizamos a tradução de Edson Bini, EDIPRO – 2002 – São Paulo, pgs. 135-162), que pode ser assim sintetizado em seus 11 tópicos (espero que o leitor não se deixe vencer pela possível aridez da análise aristotélica, pois será recompensado pela descoberta do que seja a justiça em sua concepção mais original: vamos lá, são só 11 itens…):

1) A justiça é a virtude daqueles que praticam atos justos e se conhece o que seja justo pelas injustiças sofridas. O homem justo é aquele que obedece a lei (a qual estabelece regras de justiça e, em princípio, busca promover o bem comum e a felicidade de todos) e que é equitativo (ou seja, que não toma mais do que lhe é devido). Seria a principal e soma de todas as virtudes (a mais perfeita delas, pois tem em vista sempre o bem alheio).

2) A palavra justiça tem um sentido geral, de soma das virtudes, e um sentido específico, de virtude ligada à posse de bens materiais e imateriais. Nesse sentido, se divide em justiça geral (dikaiosune), de distribuição desses bens entre os cidadãos, e em justiça particular (dikaion), voluntária (surgida dos pactos entre os indivíduos) e involuntária (surgida das lesões aos indivíduos).

3) A justiça supõe uma relação de proporção entre 4 termos: 2 indivíduos e 2 porções. As relações entre indivíduo e porção dizem respeito à justiça distributiva (porção devida ao mérito de cada um). As relações entre indivíduos e as porções que se devem mutuamente dizem respeito à justiça comutativa (igualdade de porções). O iníquo (desigual) é o que fica com mais do que lhe é devido.

4) A justiça entre os iguais também é chamada de corretiva, por buscar restabelecer a igualdade das porções, quando há lesão de uma das partes. Nesse caso, as pessoas recorrem ao juiz: o juiz ideal é a personificação da justiça, como mediador entre as partes, de modo a restabelecer a igualdade. Daí que os termos juiz (dikastes) e justiça (dikaiosune ou dikaion) derivem de metade (dika), pois caberá ao juiz estabelecer a metade que cabe a cada um.

5) A justiça não é simples reciprocidade de obrigações (do contrário imperaria a Lei do Talião), mas supõe uma proporcionalidade decorrente da dignidade da pessoa e do valor do bem, este medido por um padrão convencional que é o dinheiro (nomisma - moeda), dando comensurabilidade a todas as coisas. Assim, cometer injustiça é dispor de excesso e sofrer injustiça é padecer insuficiência. O injusto é o que reserva mais para si ou que distribuiu desproporcionalmente os bens entre os demais.

6) Pode-se praticar atos injustos sem se ser substancialmente injusto: o ladrão e o adúltero ocasionais, que sucumbiram à paixão. Ao governante se cobra a justiça política, de garantir a cada um o que é seu e de não tomar para si mais do que lhe é devido pelo cargo, sob pena de se tornar tirano.

7) A justiça política se divide em justiça natural, invariável no tempo e no espaço, e justiça convencional, contingente de acordo com o que se estabelecer em cada sociedade.

8) Para ser justa ou injusta uma ação, ela deve ser voluntária. Se o agente pratica uma ação injusta por ignorância (desconhecimento) ou coação (involuntariamente), a ação só é injusta incidentalmente. Há, portanto, 3 formas de ofensa à justiça: o infortúnio (erro involuntário), o erro culpável (não desejava aquele resultado, mas só o ato) e o ato de injustiça (que pode ser passional ou deliberado, sendo este último o mais propriamente injusto).

9) É possível sofrer injustiça voluntariamente, quando se aceita de bom grado a deficiência na prestação e deliberadamente não se cobra aquilo a que se tem direito. No entanto, se a partilha é feita pelo que recebe menos, não está sendo injusto, mas generoso. Já o juiz que profere uma sentença não equitativa por ignorância não é injusto, ainda que a sentença objetivamente o seja. Isto porque, ao contrário do que pensam os homens, não é nada fácil ser justo: saber como uma ação deve ser executada, como uma distribuição deve ser feita de maneira a serem uma ação justa e uma distribuição justa é mais difícil do que saber qual tratamento médico devolverá a saúde a um enfermo (por aí se vê a árdua tarefa do juiz).

10) Acima e melhor que a justiça se apresenta a equidaide (epiekéia), que retifica a justiça legal, flexibilizando a letra fria da lei, tendo em conta as particularidades do caso concreto, já que a lei toma em consideração a maioria dos casos, devendo ser adaptada às exceções à regra e lacunas legais.

11) Como não é possível cometer injustiça contra si mesmo (adultério com a própria esposa ou furto de seus próprios bens), já que a justiça é relação com os demais, o suicida cometeria injustiça contra o Estado, privando-o de sua colaboração, razão pela qual não mereceria as cerimônias religiosas de sepultamento. Se não se pode cometer injustiça contra si mesmo, cometer injustiça contra os demais é o pior mal contra si mesmo, pelo vício extremo que representa.

Pedindo novamente venia pela inserção do resumo, mas ainda aproveitando a teoria das causas de Aristóteles, que procura explicar a realidade através das suas 4 causas, teríamos, para a justiça, as seguintes causas:

a) causa material: Qual a matéria ou o objeto da justiça? É o direito, o “suum jus” de cada um;

b) causa formal: No que consiste a justiça? No dar a cada um o que é seu, o “tribuere”;

c) causa eficiente: Quem promove a justiça? Prévia e abstratamente, é o legislador, mas concreta e posteriormente à sua violação, é o juiz (por isso, o principal ato da virtude da justiça é a restituição);

d) causa final: Qual a finalidade da justiça? É a pacificação social.

Como se pode verificar, a justiça não é o primeiro que surge na relação entre as pessoas, mas o direito, já que a justiça consiste em dar a cada um o seu direito. Assim o expressa S. Tomás de Aquino: ”Se o ato de justiça consiste em dar a cada um o que é seu, é porque o ato de justiça é precedido daquele ato pelo qual uma coisa se torna pertença de alguém” (Summa Contra Gentiles, 2, 28). Assim, a pergunta prévia à justiça é esta: O que faz com que uma coisa pertença a alguém? Quais são as fontes geradoras do direito?

III) O QUE É O DIREITO E DE ONDE NASCE?

S. Tomás de Aquino afirma que ”o direito é o objeto da justiça” (Suma Teológica, II-II, q. 57, art. 1). Ter direito a alguma coisa supõe uma relação com a coisa e uma relação com os outros que faz com que essa coisa pertença a alguém e que os outros tenham o dever de dar-lha ou respeitar-lhe o direito.

Josef Pieper, ao tratar da virtude da justiça, fala que uma coisa pertence a alguém em dois sentidos: ”ser próprio de” e ”ser devido a” (Virtudes Fundamentais, op.cit., pg. 74). Aí se delineiam as duas fontes básicas da geração de direitos para uma pessoa:

a) a natureza (physis), que faz ser próprio da pessoa humana, pelo simples fato de existir, o direito à vida, à liberdade e à igualdade;

b) as convenções (nomos), que fazem ser devido ao ser humano aquilo que se lhe prometeu por força de um pacto, como o salário, uma propriedade ou um bem qualquer.

Os enciclopedistas francesesRosseau, Montesquieu, Voltaire – faziam finca-pé nesta última vertente da fundamentação da Ordem Jurídica, falando de um estado pré-social do homem, superado pelo contrato social gerador de direitos e limitador de liberdades. Esse iluminismo que decantava o Século das Luzes, em contraste com a Idade das Trevas, via no bom selvagem das Américas o paradigma do homem em estado de natureza, bom e puro. Quanto irrealismo (basta ver o canibalismo em relação aos vencidos dos indígenas sul-americanos) e quanta ingenuidade (a Liberté, Egalité, Fraternité carentes de fundamentação metafísica levaram ao Regime do Terror e às execuções em massa pela guilhotina)!

E que realismo da visão aristotélica do homem como animal social por natureza, que já nasce no seio de uma família, submetido a uma autoridade paterna e vivendo uma fraternidade natural com os irmãos! Quanta sabedoria ao se perceber a distinção entre direitos naturais e convencionais do homem!

Lembrando da Revolução Francesa, palco de tantas injustiças e vilanias em nome da liberdade e da igualdade, tem-se exemplo paradigmático de tentativa de recomposição da balança de encargos e recompensas na sociedade que apenas passou de uns para outros os privilégios e benesses do Poder.

Com efeito, durante a Idade Média, a distribuição de encargos e privilégios na sociedade mantinha razoável equilíbrio: a nobreza guerreira, por cuidar da defesa, e o clero, por cuidar do culto, educação e assistência, estavam dispensados da atividade produtiva, própria do povo.

A Idade Moderna, com a constituição dos exércitos profissionais e a acomodação da nobreza em seus privilégios já injustificáveis, termina com a derrocada do absolutismo monárquico, sendo emblemática dessa época a figura de Maria Antonieta (1755-1793), tão bem retratada em suas misérias iniciais e grandezas finais por Stefan Zweig (1881-1942) em sua obra homônima (Livraria Civilização Editora – 1980 – Porto).

Inteligente mas dispersiva, Maria Antonieta não aprofundava nas coisas, pois o esforço intelectual e o trabalho a repugnavam (dizia-se que nunca abrira um livro). Ao assumir o trono francês pelo casamento com Luís XVI, tinha como única preocupação na vida a de se divertir, esperando que todos a servissem nesse ideal: ”Tenho medo de me aborrecer”.

Sua mãe, a Imperatriz Maria Teresa, da Áustria, conhecedora da fraqueza da filha, escreveu-lhe conselhos e pediu que os relesse todos os dias 21 de cada mês. Foi-lhe escrevendo várias cartas, apontando todas as suas frivolidades e prevendo as consequências funestas.

Ao ser recebida em Paris, o patrimônio de confiança e admiração popular que recebeu foi bem retratado no galanteio que lhe dirigiu o Marechal de Brissac: ‘Madame, ainda que doa ao Delfim, estão aqui 200.000 homens apaixonados por Vossa Alteza’.

No entanto, Maria Antonieta dilapidou rapidamente esse patrimônio tornando-se perdulária, endividando o Tesouro com gastos de vestidos, jóias e penteados, além dos jogos de azar: havia aceito todos os direitos do trono, sem querer saber de nenhum de seus deveres.

Tendo se retirado para o Trianon (em Versalhes), onde não se submete a qualquer norma de etiqueta e bom costume (além dos gastos de embelezamento dessa casa de campo), seu isolamento egoísta acaba por torná-la impopular quer na Corte, quer entre o povo.

A gota d’água se dá com o caso do colar, que lhe compraram por 1,5 milhão de libras, o qual vira processo no Parlamento, com a condenação moral de Maria Antonieta, já que o povo passava fome pelas más colheitas.

Tornado público o caso do colar e o resultado do julgamento, com o valor das jóias, o povo se revolta com o caráter perdulário da rainha, que chama Necker, ministro demitido por Luís XVI, para reassumir a pasta do Tesouro, de modo a salvar a França da crise econômica devida aos gastos da nobreza e às péssimas colheitas: porém, a mudança de postura da rainha se dá tarde demais para corrigir seus erros.

Necker decide adotar solução radical para salvar a bancarrota francesa: convocar os Estados Gerais (maio de 1789), duplicando a representação popular, em cuja abertura Maria Antonieta é recebida com a maior frieza.

O Terceiro Estado, percebendo que a Nobreza só quer autorização para aumentar os impostos, decide não se deixar dissolver até votar uma Constituição.

Os acontecimentos se precipitam, tão bem por nós conhecidos: queda da Bastilha, tentativa frustrada de fuga da família real, deposição do rei.

Finalmente, Maria Antonieta é acusada formalmente pela Convenção e separada do resto da família, ficando na ‘Conciergerie’ durante o processo (lugar destinado aos condenados à morte), já nada mais lhe importando. Durante os interrogatórios do processo responde com uma prudência, serenidade e altivez que mostram como, na adversidade se foi forjando o caráter que nunca teve.

Após se confessar, foi guilhotinada, recebendo pena maior do que os pecados que cometeu, servindo, no entanto, de exemplo do que pode acarretar – a Revolução Francesa – um acentuado desequilíbrio da balança da justiça distributiva.

IV) O QUE É O DIREITO NATURAL?

A primeira, pois, das fontes do Direito é a natureza humana, que faz com que todo ser humano, pelo simples fato de existir (e isso desde a sua concepção), tenha o direito a que os demais lhe respeitem a vida e os decorrentes direitos humanos fundamentais, que compõem aquilo que tradicionalmente se convencionou chamar de Direito Natural.

É interessante notar que, em relação aos direitos humanos fundamentais, fala-se de declaração, e não constituição, como são exemplos a Declaração de Independência Americana (1776), na qual se diz que “os homens são criados iguais e são dotados por seu Criador de direitos inalienáveis, entre os quais se encontram a vida, a liberdade e a busca da felicidade”, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1793), formulada na Revolução Francesa, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), formulada pela ONU.

Assim, o primeiro e mais radical fundamento do direito é a Lei Natural, que impõe o reconhecimento, por parte das legislações positivas nacionais, da dignidade da pessoa humana e da inviolabilidade de seus direitos fundamentais. O desrespeito a esses direitos é marcante nos Estados totalitários (sejam regimes de direita, como o nazista, sejam de esquerda, como o comunista), que tratam o ser humano como mero momento do desenvolvimento do ser social, que é o Estado, este sim com existência real.

Nesse sentido, é paradigmático o diálogo entre Winston e O’Brien, seu torturador, que aparece no 1984 (Companhia Editora Nacional – 1984 – São Paulo; publicado originalmente em 1948) de George Orwell (1903-1950). Winston pergunta a O’Brien, pensando na imagem do Big Brother que aparece por toda parte:

- Existe o Grande Irmão?

- Naturalmente existe. O Partido existe. O Grande Irmão é a corporificação do Partido.

- Mas existe da mesma maneira que eu existo?

- Tu não existes (pg. 240).

Quando a vida, primeiro e principal dos direitos humanos fundamentais, é relativizada, como ocorreu na recente decisão de nossa Suprema Corte (diga-se de passagem, por um voto de diferença) autorizando a utilização de seres humanos em fase de desenvolvimento embrionário para pesquisas científicas, começou-se a trilhar o caminho que leva ao totalitarismo despersonalizante e esmagador do indivíduo, tão bem retratado no romance de Orwell.

V) QUAIS OS ÂMBITOS DA JUSTIÇA?

A justiça, diferentemente da prudência, fortaleza ou temperança, diz respeito fundamentalmente aos atos externos do homem, àquilo que se relaciona aos demais: a Deus e aos homens. Por isso que são partes da virtude da justiça a religião (deveres para com Deus) e a piedade (deveres para com os pais), pelas quais tentamos, de alguma forma, retribuir-lhes o que deles recebemos, sabendo que nunca o conseguiremos adequadamente.

A virtude da justiça diz respeito, por outro lado, não apenas aos bens materiais, mas também imateriais: a honra e a imagem. Por isso são lesões à justiça a calúnia (atribuir falta que o outro não cometeu), a difamação (revelar falta alheia sem justo motivo), a murmuração (falar mal dos outros) e até a derisio (ridicularizar o outro até deixá-lo envergonhado).

A justiça supõe sempre uma relação com outro, que pode ser estritamente jurídica (pagar o preço do carro comprado) ou meramente moral (cumprimentar um colega quando se encontra com ele).

VI) O HOMEM JUSTO

Pieper lembra que, na Sagrada Escritura, fala-se da justiça e do justo mais de 800 vezes, e que os termos equivalem a bom e a santo (cfr. Virtudes Fundamentais, pgs. 96-97). Com efeito, se a justiça é a mais alta das virtudes, que mostra o perfil ético de que a possui, e se caracteriza pelo cumprimento de todos os deveres para com os demais, temos que, além dos deveres profissionais, familiares e sociais, o homem, como criatura, tem os seus deveres religiosos, de obediência e culto ao Criador. Daí que justo seja sinônimo de santo, nas Sagradas Escrituras, como aquele que cumpre todos os seus deveres para com Deus e os homens. Um cumprimento não fastidioso, mas amoroso, de quem deseja retribuir a Deus, aos pais e à sociedade as atenções e afetos de que é objeto.

Há uma tentação, nesse campo, que é a de querer estar sempre quites com todos, de não dever nada a ninguém. Ora, a justiça é uma virtude e uma situação que está sempre em construção: em tudo o que fazemos nos tornamos ou credores ou devedores de ações alheias. O importante não é estar sempre com a balança equilibrada, mas em buscar recolocá-la na posição isonômica enquanto vivermos. Daí o cultivo de uma virtude conexa à justiça, de fundamental importância para o convívio social, que é a virtude da gratidão: dizemos obrigado por um favor que não conseguiremos retribuir.

Os antigos não tinham o conceito de direitos humanos fundamentais, pois focavam a justiça sob o prisma dos deveres a cumprir em relação aos demais. Talvez uma das razões pelas quais os direitos fundamentais sejam tão desrespeitados na sociedade moderna seja esteja no fato de que ela se  transformou em reivindicatória e esqueceu de ser cumpridora de suas obrigações.

O problema é de enfoque: o homem justo, que gera a sociedade justa, é aquele que, ao invés de só reivindicar direitos, pensa nos deveres que tem a cumprir; e ao invés de encarar negativamente os deveres como uma carga, vê neles virtudes a adquirir (cfr. nosso artigo A Ética das Virtudes x a Ética dos Deveres – Um Modo de Olhar para o Código de Ética da Magistratura Nacional, Revista LTr, Volume 73, nº 7, pgs. 811-817).

VII) A JUSTIÇA E O PRINCÍPIO DA INTEGRIDADE

Conforme já registramos acima, Aristóteles dizia que “o juiz ideal é a personificação da justiça” (Ética a Nicômaco, Livro V, n. 4). Para ditar sentenças justas deve buscar ser integralmente justo. Por isso os modernos Códigos de Ética da Magistratura erigem o princípio da integridade como um de seus principais pilares.

O Código de Ética da Magistratura Nacional, editado em 2008 pelo CNJ, contempla o princípio em seu capítulo V, no qual se inserem, entre outros, os seguintes dispositivos:

“Art. 15. A integridade de conduta do magistrado fora do âmbito estrito da atividade jurisdicional contribui para uma fundada confiança dos cidadãos na judicatura.

Art. 16. O magistrado deve comportar-se na vida privada de modo a dignificar a função, cônscio de que o exercício da atividade jurisdicional impõe restrições e exigências pessoais distintas das acometidas aos cidadãos em geral”.

Nosso Código seguiu a linha do Código Iberoamericano de Ética Judicial (2006), que dedica a esse princípio seu Capítulo VIII, albergando 3 dispositivos de considerável densidade:

“Art. 53. La integridad de la conducta del juez fuera del ámbito estricto de la actividad jurisdiccional contribuye a una fundada confianza de los ciudadanos en la judicatura.

Art. 54. El juez íntegro no debe comportarse de una manera que um observador razonable considere gravemente atentatória contra los valores y sentimientos predominantes em la sociedad em la que presta su función.

Art. 55. El juez debe ser consciente de que el ejercicio de la función jurisdiccional supone exigências que no rigen para el resto de los ciudadanos”.

Este último artigo (como o art. 16 do CEMN) é muito sugestivo. Com efeito, o que se espera de um médico é que cure seus pacientes. Sua matéria-prima é a saúde. Se é ético ou não, só secundariamente importa (como, por exemplo, se começa a revelar a terceiros, sem autorização, as moléstias de que sofre seu paciente). De um engenheiro se espera que calcule bem as estruturas dos prédios que constrói. Sua matéria-prima é a matemática (que não vá, no entanto, reduzir ao limite de risco uma estrutura, para embolsar o valor dos materiais poupados na construção).

Já de um juiz se espera que distribua justiça, o que faz da justiça sua matéria-prima. Assim, se não é justo na vida privada, que garantia teremos de que o será na vida pública? Que confiança terá um litigante num juiz que, quando despe a toga, trai a mulher com a secretária, não registra a carteira de trabalho da empregada, dá calote num amigo e descuida da educação dos filhos, que reclamam de sua ausência de casa?

O mesmo se pode dizer de um advogado, que, em palavras de Piero Calamandrei, “é o primeiro juiz da causa” (Eles, os juízes, vistos por um advogado, Martins Fontes – 2000 – São Paulo),  verificando a justiça do pleito de quem o contrata, para saber se irá abraçar essa causa. Do contrário, se percebe a injustiça do pleito e, mesmo assim, o patrocina, estará sucumbindo à tentação do dinheiro, deixando-se corromper por ele.

O advogado íntegro tem sempre o respeito e a admiração dos juízes, que olham a causa que patrocina com maior atenção, sabendo que não sustentaria uma tese contrária ao direito e à justiça.

Exemplo literário de até que ponto pode chegar um advogado na defesa justa dos interesses de seu cliente encontra-se no romance de juventude de meu pai, só recentemente publicado, intitulado “Um Advogado em Brasília” (MP – 2009 – São Paulo).  Ambientado no começo dos anos 60, pouco antes da Revolução que colocou os militares no Poder, retrata o que havia de corrupção no próprio Poder Judiciário e as relações espúrias com o Poder Executivo. Aventuras, romances, grandezas e misérias de juízes e advogados, políticos e policiais, empresários e sindicalistas, sacerdotes e prostitutas, são os ingredientes que tornam o livro uma obra de atrativa leitura e ponderada reflexão sobre a pergunta: É possível acreditar na Justiça?

VIII) O ESTADO JUSTO

Dizia Tales que, quando num povo não há alguém demasiado rico nem alguém demasiado pobre, então se poderia dizer que aí reina a Justiça. Para Bias, a justiça impera num Estado quando os cidadãos temem as leis tanto quanto temem os tiranos (cfr. Pieper, op.cit. 103-104).

Para S. Tomás de Aquino, reina a justiça numa comunidade quando há ordem nas 3 relações básicas entre governantes e governados (cfr. Summa Teológica, II-II, questão 61):

a) justiça comutativa - relação dos indivíduos entre si (ordo partium partes);

b) justiça distributiva - relação do todo social com os indivíduos (ordo totius ad partes);

c) justiça legal (ordo partium ad totum) – relação dos indivíduos com o todo social.

Propriamente falando, só há justiça entre os iguais, pois é a um outro que se deve alguma coisa concreta e que é passível de mensuração. As demais formas o são por analogia, isto é, guardam semelhanças e dissemelhanças com o que seria a estrita justiça.

Com efeito, quando assinamos um contrato ou fazemos um juramento, sabemos perfeitamente a que estamos nos obrigando: pagar R$50.000,00 pelo carro que compramos; se casamos, ser fiéis na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida, até que a morte nos  separe; se nos tornamos juízes, cumprir e fazer cumprir a Constituição e as leis da República.

Nesses casos, impera o fundamento básico da justiça convencional, que é a regra antiga que vem dos romanos: pacta sunt servanda (os pactos devem ser cumpridos).

Não somos obrigados a comprar um carro, casar ou virar juiz. Mas se o fizermos, temos a obrigação de pagar integralmente o preço do bem adquirido, ser fiéis ao cônjuge (e não traí-lo ou trocar por outro) e distribuir justiça de forma imparcial (sem benefício pessoal).

Já a justiça distributiva e legal carece de parâmetros precisos de fixação do suum cuique tribuere: Qual o nível total de tributos que se pode impor aos cidadãos, frente aos serviços públicos que se lhes promete? Qual  o ponto de equilíbrio de distribuição dos frutos da produção entre capital e trabalho? Como garantir a renda mínima a todos os cidadãos sem cair num paternalismo que acomoda os beneficiários?

Nesse sentido, a Justiça Social é aquela que tende a harmonizar o convívio social, a pacificar os conflitos que surgem na sociedade, dando cumprimento à máxima bíblica, estampada na bandeira do Tribunal Superior do Trabalho, o Tribunal da Justiça Social: Opus iustitiae pax (A obra da justiça é a paz – Isaías, 32, 17).

Obra da Justiça Social é promover a justa distribuição de renda na sociedade, de modo a que a abundância de uns não se dê pela carência de outros. No campo da justiça distributiva, os indivíduos são os credores e o todo social, representado pelo governante, o devedor. Daí a extrema responsabilidade de quem governa e a necessidade de uma especial formação para o fazer sem cometer injustiças, privilegiando uns em detrimento de outros, pois o que caracteriza a justiça distributiva é a partilha segundo o mérito de cada um e não segundo a proximidade do poder.

Chama a atenção, muitas vezes, que aqueles que se dizem e pregam um socialismo de resultados (igualitarismo independente do mérito), com redistribuição de rendas e propriedades, não vivem, na vida pessoal, o desprendimento que apregoam, lembrando a máxima estabelecida pelos porcos na Revolução dos Bichos (Editora Globo – 1993 – São Paulo, pg. 93, publicado originariamente em 1945) de George Orwell: todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros…

Em suma, a justiça distributiva não tem em vista tanto a proporcionalidade dos bens quanto a condição pessoal de cada um, para dar-lhe o que é devido segundo seu mérito (participação efetiva no esforço coletivo), sem deixar de atender à sua necessidade (ponderação do que precisa para sobreviver, se não teve condições reais de contribuir para o bem comum).

Ives Gandra Martins (pai), em sua Uma Breve Teoria do Poder (RT – 2009 – São Paulo), apresenta visão pessimista do homem no Poder, analisando historicamente regimes e governos e mostrando como é generalizada a tendência dos detentores do poder, de se servirem da sociedade e não de estarem a serviço desta. E, no entanto, S. Tomás de Aquino dizia que “realizar a justiça é a finalidade do poder” (Comentário à Epístola aos Efésios, 6, 3, apud Pieper, op. cit., pg. 124), completando ser mais fácil a tirania nascer numa democracia do que numa monarquia, uma vez que o monarca não tem partido, ao passo que o governante eleito tem de promover o bem comum, mas foi colocado no poder por um partido que visa preservar primariamente seus interesses partidários (cfr. Do Regime do Príncipe, 1, 6, apud Pieper, op.cit., pgs. 129-130).

Quão distantes nos encontramos do modelo ideal e quão pouco se pode fazer para remediar a injustiça distributiva, já que o Estado (e o governante que o rege) detém o monopólio da força e, quando injusto em suas leis e comandos, deixa ao cidadão apenas o caminho da desobediência civil, de discutível eficácia e difícil exercício.

IX) CARÁTER ESCATOLÓGICO DA JUSTIÇA

No Sermão da Montanha, Jesus Cristo coloca como uma das bem-aventuranças que configuram o perfil ético de uma pessoa a que trata da virtude da justiça: Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados (Mt 5, 6). E conclui a enumeração desses motivos de alegria e felicidade para a pessoa, com uma espécie de resumo das bem-aventuranças: Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus! (Mt 5, 10).

Duas idéias podemos tirar dessa passagem bíblica e mensagem central do Evangelho:

a) nesta vida, o homem justo será perseguido e injustiçado, a ponto de descrer da Justiça humana, que premia os maus e espertos e constrange e vilipendia os bons e sinceros, o que faz reconhecer a existência de uma outra vida, onde os justos serão premiados e os injustos castigados. A essa conclusão chegava racionalmente Jean-Jacques Rousseau (cfr. “A Profissão de Fé do Vigário de Sabóia”) e à constatação que a embasa chegava poeticamente Luis de Camões:

Os bons vi sempre passar

no mundo graves tormentos,

e, para mais me espantar,

os maus vi sempre nadar

em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

o bem tão mal ordenado,

fui mau. Mas fui castigado.

Assim que só para mim

anda o mundo concertado (Rimas).

b) os que tiverem a ambição de ser justos, esses não deixarão de sê-lo por falta de meios, mas apenas de empenho, pois, como dizia S. Josemaría Escrivá: Paradoxo: é mais acessível ser santo do que sábio, mas é mais fácil ser sábio do que santo (Caminho, n. 282).

Por outro lado, como a justiça diz respeito aos atos exteriores, temos que um homem pode ser justo e ter a intenção de praticar atos justos e, no entanto, ser objetivamente injusto numa ação concreta, se deixa de dar ao outro o que lhe devia. O juiz pode ser justo e cometer erros ao decidir, proferindo sentenças injustas, se dá o objeto do litígio a quem não é devido. Como pode ser isso?

O problema da justiça está em que não basta a intenção de ser justo. É fundamental como postura, mas não é suficiente. É preciso perquirir bem o que é devido a quem.

No filme Ausência de Malícia (1981) de Sydney Pollack, com Paul Newman e Sally Field, esta faz o papel de uma jornalista que, sem maldade, mas com muita leviandade, destróia a vida de um empresário, pelas notícias que publica, sem maior aprofundamento sobre o que realmente aconteceu: foi sumamente injusta, lesando a honra e boa fama de que gozava o empresário, sem sem malícia

A virtude da justiça está, pois, no hábito de buscar efetivamente saber o que cabe a cada um e dá-lo ”com alegria e sem hesitação” (S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 197, art. 4).

Exemplos contrapostos de homens justo e injusto na saga de O Senhor dos Anéis (Martins Fontes – 2002 – São Paulo) de J.R.R.Tolkien são respectivamente Aragorn e Denethor. O primeiro, como descendente de Elendil e legítimo herdeiro do trono do Reino de Gondor, reivindica aquilo que em direito lhe é devido, praticando ações heróicas durante a longa Guerra dos Anéis do Poder. Já Denethor, como Mordomo do Palácio e descendente dos Regentes do Reino até o retorno do Rei, recusa-se a reconhecer sua posição subordinada e pratica ações vis ao longo de toda essa guerra.

Exemplo emblemático de epiquéia (equidade que matiza a justiça) é, no Senhor dos Anéis, a história de Beregorn. Quando Denethor, na sua loucura, leva o filho Faramir, doente e à beira da morte, para serem queimados juntos nas Tumbas dos Reis e Regentes de Gondor, Beregorn, soldado da Terceira Companhia da Guarda de Minas Tirith, luta para salvar Faramir e acaba matando alguns dos guardas das Tumbas. Com a chegada de Gandalf e Pippin, conseguem retirar Faramir da Pira, enquanto Denethor ateia fogo e se joga nela. Terminada a Guerra dos Anéis, Faramir, como Regente de Gondor e já recuperado de sua enfermidade, recebe Aragorn e lhe entrega o Reino. Este é coroado por Gandalf e nomeia Faramir Príncipe de Ithilien, absolvendo Beregond das mortes que havia provocado nas Tumbas dos Reis e Regentes. No entanto, como a lei exigia a degredo pelas mortes, Aragorn nomeia Beregorn como Capitão da Guarda de Faramir, a quem deverá acompanhar para Emyn Arnen. Assim, a absolvição não se fez sem punição, mas adequando a pena às circunstâncias do crime (dosagem da pena), que não foi doloso mas culposo, na busca de se salvar a vida do futuro príncipe de Ithilien.

A estória de Denethor, de orgulho insano e apego ao Poder, ambientada num mundo de espadas e cavaleiros, faz lembrar o Salmo 2, recitado na Idade Média pelos cavaleiros templários, misto de monges e guerreiros, antes de entrarem em batalha, e que fala da insensatez das nações ao rejeitarem a Deus:

Por que se amotinam as nações? Por que tramam os povos vãs conspirações? Erguem-se, juntos, os reis da terra, e os príncipes se unem para conspirar contra o Senhor e contra seu Cristo. Quebremos seu jugo, disseram eles, e sacudamos para longe de nós as suas cadeias! Aquele, porém, que mora nos céus, se ri, o Senhor os reduz ao ridículo. Dirigindo-se a eles em cólera, ele os aterra com o seu furor: Sou eu, diz, quem me sagrei um rei em Sião, minha montanha santa. Vou publicar o decreto do Senhor. Disse-me o Senhor: Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me; dar-te-ei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo. Tu as governarás com cetro de ferro, tu as pulverizarás como um vaso de argila. Agora, ó reis, compreendei isto; instruí-vos, ó juízes da terra. Servi ao Senhor com respeito e exultai em sua presença; prestai-lhe homenagem com tremor, para que não se irrite e não pereçais quando, em breve, se acender sua cólera. Felizes, entretanto, todos os que nele confiam (Salmo 2, 1-11).

Talvez a raiz das injustiças, felonias, violências, opressões e desmandos no mundo, de homens contra homens e do homem contra a Natureza, esteja na revolta do homem contra Deus: ao não reconhecer sua dependência para com o Criador e a ordem por este estabelecida no mundo, provoca uma reação em cadeia de desordens e injustiças, que violenta a Natureza e destrói a fraternidade humana, conduzindo a um mundo de insegurança, medo e violência.

Não serão aos virtudes da justiça (relação entre os iguais), da piedade (relação com os pais, as autoridades e a pátria) e da religião (relação com Deus) o meio e o caminho para se construir uma sociedade mais fraterna e solidária, um mundo habitável e aprazível?

Na Summa contra Gentiles, S. Tomás de Aquino lembra da insuficiência da justiça, se não integrada com as outras virtudes, para harmonizar a vida social e pacificar seus conflitos: ”Querer conservar o mundo na paz e na concórdia através do imperativo da justiça é insuficiente, se o amor não lançar entre os homens as suas raízes” (3, 130).

X) CONCLUSÃO

Concluímos, pois, dizendo que em todos os atos de virtude a justiça está de permeio:

a) na, por se acreditar nos fundamentos da justiça comutativa e distributiva, buscando vivenciá-las na relação com os demais;

b) na esperança, por se acreditar na possibilidade de se construir uma sociedade justa e solidária, trabalhando para isso;

c) na caridade, por se viver a hierarquia no amor, querendo em primeiro lugar a Deus, depois aos familiares, depois aos amigos, aos colegas, até chegar a todas as almas, inclusive aos inimigos (aprendi de meu pai, advogado a mais de 50 anos, que não se deve ter inimigos, mas, eventualmente, adversários, sabendo divergir das idéias sem deixar de querer as pessoas);

d) na prudência, por se procurar decidir, em cada momento, qual o dever a cumprir, e procurar fazê-lo;

e) na fortaleza, quando se vence o medo ou a preguiça no cumprimento do dever;

f) na temperança, quando se vence a tentação de ficar no mais aprazível, deixando de cumprir o dever que nos insta em cada momento;

g) na humildade, já que modera a auto-estima e o amor à própria excelência, reconhecendo o mérito, o valor e a contribuição alheia ao bem comum;

h) na castidade, quando se respeita a pessoa em sua integridade, corpo e alma, e se é fiel aos compromissos assumidos no matrimônio;

i) na laboriosidade, quando se trabalha cumprindo as exigências quantitativas e qualitativas da tarefa confiada;

j) na paciência, quando se resiste à tentação de abandonar a tarefa que devemos cumprir; etc.

A justiça, portanto, sintetiza e congrega todas as virtudes, sendo o resumo e a marca distintiva do homem bom, ideal de excelência a ser buscado por cada um de nós.

Sendo este o último artigo do ano de 2009 e pensando nos propósitos de  melhora para o ano de 2010 no campo das virtudes, encho-me de coragem e de desvergonha para revelar quais serão os meus (esperando que o leitor amigo também pense nos seus):

1) Falar pouco (discrição);

2) Ouvir muito (paciência);

3) Comer pouco (temperança);

4) Ponderar muito (prudência);

5) Não pensar mal (justiça);

6) Só falar bem (caridade);

7) Trabalhar muito (laboriosidade);

8) Não cacarejar nada (humildade);

9) Confiar muito (fé e esperança);

10) Cantar a beleza da vida mais ainda (alegria).

IVES GANDRA MARTINS FILHO

Ministro do TST e Conselheiro do CNJ

P.S. Aproveito o final de ano para agradecer as observações e críticas, comentários e incentivos que Bella Cullen, Kaledfwich, Aluado, Zorba, Eldacar, Gildson,  Anwel, Elfah, Fharallwad, Fluoxetina, Arwen Undomiel Evenstar, Meowth, Wild Rikky, Sir Mordrain, O-Fausto, Mandos, Dostoievski, Mina Murray, Ccgimli, Daniela, Ikarus, Melian Vairë, Aldamar, Sidney Ávila, Parthadan, Fëanor, Veänis, Aistano, Neoghoster Akira, Sindar Princess, Aellue, Fringway, JPHanke, Arabael, Falcão Branco, Mrs Gilmour, Ashir, Augustomorgan, Alcarcáno, Gra, Servo de Eru, Vilya, Elenedhel Voronwien, Skywalker, Rodrigo, Lyvio, Lord Treville, Erion Storm Eyes, Ben Kenobi, Pandatur, Gallahad, Herr Löffel, Marcus Lopes de Jesus, Ettelen, Grahan, Hiswen, Tonso, Silmenel, Pedro Freire e nosso Administrador Dilbert fizeram aos artigos que publiquei nesta coluna durante estes 15 meses de sua existência. Com este, termino a série sobre as virtudes cardeais. Para sugestões de novas linhas temáticas e contato direto, passo a disponibilizar o e-mail ivesgsmf@gmail.com, de modo a poder também, dentro das possibilidades de tempo, responder a eventuais questionamentos sobre as matérias tratadas nos artigos. Só coloco uma condição para responder: conhecer a identidade real de cada um, tal como conhecem a minha. A todos, conhecidos e desconhecidos, os melhores votos de um Santo Natal e de um Novo Ano de Alegria com Paz!

Prudência: A Arte de Decidir

I) INTRODUÇÃO

Quantos dilemas temos na vida? Viver é fazer escolhas, que nos limitam a liberdade. Não decidir é já decidir pelo pior. Mas como decidir bem, sem se arrepender das opções feitas? Para isso se destaca a virtude da prudência, como a arte de decidir e de escolher o melhor em cada momento. Vale a pena, pois, deter-nos a examinar em que consiste essa virtude e como se desenvolve.

II) A PRUDÊNCIA COMO PRIMEIRA VIRTUDE CARDEAL

A prudência é considerada a primeira das virtudes cardeais e norteadora de todas as outras (cf. Josef Pieper, Virtudes Fundamentais, Aster – Lisboa, pg. 11). E por que isso? Porque da mesma forma que o ser (realidade) precede o conhecer (verdade ou idéia que fazemos da realidade), que precede o admirar (beleza captada do conhecido), que precede o querer (bem desejado após ser inicialmente só admirado), assim também, na ordem do agir, primeiro se decide (prudência) o que fazer (justiça), vencendo as tentações do medo que afasta (fortaleza) e do desejo que atrai além da medida (temperança).

Nesse sentido é que se diz que a prudência é a forma substancial externa das demais virtudes (cfr. Pieper, op. cit. 15), uma vez que estabelece o padrão, a concepção intelectual, a idéia do que será a obra externa justa, corajosa e disciplinada. Com efeito, antes de se esculpir uma estátua, o artista concebe como será. Pois bem, toda ação humana pode ser uma obra de arte quando antes bem concebida pela virtude da prudência.

Prudência não é mineirice, no sentido popular da expressão, sinônimo de indecisão, de ficar em cima do muro, de saber furtar-se aos riscos pessoais e comprometimentos. Pelo contrário, o ato característico da prudência é a decisão ponderada, que começa observando a realidade, continua pedindo conselho, prossegue ponderando os prós e os contras e termina tomando a decisão mais acertada e a pondo em prática.

Os antigos definiam a prudência como a recta ratio agibilium (a reta razão no agir), ou seja, agir segundo a razão, que capta objetivamente a realidade e, a partir dela, toma o melhor rumo para a conduta, o que explica as partes ou atos que a compõem, tal como os mencionamos.

A prudência está ligada, pois, à perfeição moral do homem, o desenvolvimento de suas qualidades interiores morais, o que difere da recta ratio factibilium, que diz respeito à aquisição das virtudes intelectuais e destrezas técnicas, as quais podem ser usadas para o bem ou para o mal, conforme a prudente decisão do homem que as adquire.

Caso paradigmático é o do desenvolvimento das pesquisas nucleares. O que mais impactou os cientistas que descobriram a energia atômica foi que, ao invés de utilizá-la para iluminar uma cidade inteira com um usina atômica, decidiu-se destruir as cidades com a bomba atômica! Portanto, a excelência técnica nem sempre vai acompanhada da excelência ética, que é o que mais importa. Não basta saber fazer (know-how); é preciso saber por que e para quem fazer (prudentia).

III) A OBSERVAÇÃO

O primeiro ato da virtude da prudência é a observação, ou seja a atenção e a disposição para captar a realidade tal qual é, quer em seus princípios universais (leis), quer em seus aspectos particulares (fatos).

Um juiz, por exemplo, para bem decidir, deve conhecer bem o direito que irá aplicar e os fatos sobre os quais esse direito incide. Pode errar ou por desconhecer as leis, ou por não ter captado o que realmente aconteceu com os litigantes.

Pieper esclarece que ”a primazia da prudência significa que a realização do bem tem como pressuposto o conhecimento da realidade” (op.cit. pg. 19). A prudência seria um conhecimento diretivo, uma consciência circunstancial, ou seja, a razão prática que, partindo do conhecimento dos fins do agir humano segundo a captação da realidade, elege os melhores meios para alcançá-los, levando em consideração as circunstâncias concretas de cada momento.

Além da capacidade natural de observação da realidade, S. Josemaría Escrivá lembra do sentido sobrenatural, isto é, da possibilidade de se ver as coisas como Deus as vê, com olhos de eternidade, o que ajuda a perceber o valor relativo de pessoas e acontecimentos, colocando-os no seu verdadeiro lugar:

”As pessoas, geralmente, têm uma visão plana, pegada à terra, de duas dimensões. – Quando a tua vida for sobrenatural, obterás de Deus a terceira dimensão: a altura. E, com ela, o relevo, o peso e o volume” (Caminho, ponto 279).

IV) O CONSELHO

O segundo ato da virtude da prudência é saber pedir conselho quando não se têm todos os dados, todo conhecimento necessário ou toda a experiência para decidir sobre a questão: trata-se de ouvir os doutos.

Na saga do “Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien, um dos capítulos que mais prende a atenção é “O Conselho de Elrond” (Martins Fontes – 1994 – São Paulo, Volume I, Livro II, capítulo 2, pgs. 361-410). Trata-se de uma reunião singular que se realiza em Rivendell, na casa de Elrond, com representantes dos diversos povos da Terra Média. Elfos, anões, hobbits e homens dos diversos reinos discutem o que fazer para salvar a Terra Média do domínio de Sauron, Senhor das Trevas, em, principalmente, que destino dar ao Anel do Poder que se encontra no momento em suas mãos, mas cujo controle absolutamente não detém.

O capítulo é atrativo porque, pela fala de cada um dos personagens, vai-se tendo um quadro completo da situação da Terra Média, indispensável para se tomar qualquer decisão. Por outro lado, os mais sábios do Conselho, Gandalf e Elrond, com toda a sua experiência e sapiência, ajudam a ver o problema com realismo e sem desespero, encontrando uma saída ao mesmo tempo audaciosa e humilde, por fazer a única coisa que o inimigo não esperaria deles: ir direto à Terra de Mordor, reduto do inimigo, para destruir o anel no Monte da Perdição, em que ele fora forjado. A mais prudente das decisões, aparentemente a mais tresloucada aos olhos dos “prudentes”, foi tomada graças à humilde consulta a todos aqueles que poderiam ofertar elementos fundamentais para a tomada de decisão de tamanha envergadura. E graças à decisão acertada, a Guerra do Anel foi vencida pelos povos livres do Ocidente.

S. Tomás de Aquino que ”quem precisa de conselho alheio é porque sabe, se estiver em graça, aconselhar-se ao menos quanto ao fato de precisar de conselho alheio e quanto à distinção entre um conselho bom e um conselho mau” (Suma Teológica, II-II, q.47, art. 14, ad 2). Exemplo de mau conselheiro no Senhor dos Anéls é Língua-de-Verme, cuja perfídia e covardia não é percebida pelo Rei Théoden, já que os conselhos correspondiam à sua desistência da luta. Acontecia com o monarca o problema para o qual alertava o Aquinate como a ruína da memória: a deturpação da realidade, já que a memória fiel ao real seria o primeiro pressuposto da perfeição da prudência (cfr. op. cit. II-II, q. 49, art. 1).

No fundo, apenas pela humildade de se reconhecer a própria incapacidade para dominar e conhecer todos os dados do problema é que torna o homem prudente a ponto de ouvir quem lhe possa melhor aconselhar a resolvê-lo.

Um dos defeitos da juventude é a presunção quanto ao próprio discernimento, desprezando o conselho dos mais velhos e experientes. Há um ditado que diz que devemos “escarmentar em cabeça alheia”, ou seja, tirar experiência dos erros alheios, para neles não incidir. Há, no entanto, pessoas que só escarmentam na própria cabeça, demonstrando, justamente por isso, pouca cabeça.

Com efeito, a história não começou conosco nem conosco terminará. A frase presidencial tão repetida – “nunca antes na história deste país” – só demonstra desconhecimento da história ou presunção que o tempo se encarrega de corrigir. A prudência recomenda sempre levar em conta a experiência do passado e dos que nos antecederam (pais, professores, administradores, etc), para dar continuidade às boas obras e corrigir o que tiver de ser corrigido, mas após uma detida e aprofundada apreensão dos problemas envolvidos.

V) A PONDERAÇÃO

O terceiro ato da virtude da prudência é a ponderação ou reflexão, isto é, o ato de estudar e comparar as razões favoráveis ou contrárias a uma determinada decisão.

Nessa tarefa, é de fundamental importância desenvolver a capacidade de prever as consequências dos atos: é a providência ou juízo de consequência. O imprudente por irreflexão é aquele que logo se arrepende do que disse ou fez, ao perceber que sua precipitação no agir voltou-se contra ele mesmo.

Há pessoas que passam pela vida como por um campo minado, desarmando bombas relógio, prontas a explodir a cada passo, porque não souberam planejar o dia, a semana, o mês. Sem capacidade de previsão. Só seguindo a vontade do momento… E sofrendo as consequências de perdas de tempo, dinheiro, amizade, família, emprego e a vida.

Como ajuda na vida um pouco de organização: uma agenda em que se anotam os compromissos e tarefas, que se consulta e verifica, a cada período de tempo, qual a tarefa a fazer, de acordo com a hierarquia de prioridades que se estabeleceu previamente.

Por outro lado, conspiram contra a prudência nesse momento de ponderação, as segundas intenções e os interesses inconfessáveis que pressionam interiormente a inteligência e a vontade numa determinada direção.

Aqui a prudência perde seu nome de virtude e se transmuda na astúcia e sagacidado daquele que pretende ver prevalecer seus interesses em detrimento da verdade e do bem.

A prudência é o meio de implementar a justiça, ou seja, de se agir respeitando os direitos alheios e cumprindo os próprios deveres. Essa a motivação da virtude da justiça, que influi no processo de tomada de decisão.

As segundas intenções estão geralmente ligadas aos conhecidos sete pecados capitais, que por serem feios, não querem mostrar sua cara: a retórica e o discurso apresentam o agir com pele de cordeiro, escondendo o lobo que há por baixo.

Assim, as motivações humanas veladas acabam sendo, quando não desmascaradas, a avareza de só buscar o proveito próprio em detrimento da justiça; a luxúria oculta numa vaidade manifesta de encantar e atrair quando já se está comprometido; a ira canalizada no espírito de vingança que age de forma destrutiva; a inveja que faz criticar e se opor àquilo que não contou com a nossa participação ou não foi idéia nossa; a vaidade que faz agir movido pelo aplauso ou desejo de manter bem a própria imagem; o orgulho que não admite dar o braço a torcer e mantem opiniões e atitudes insustentáveis; a preguiça que busca encontrar o caminho mais fácil e a opção mais agradável e não a mais eficaz; a gula que nas refeições esquece e desliga das pessoas e conversas, concentrado profundamente na árdua tarefa de meter gorduras pelo tubo digestivo…

Dizia Pieper que ”faltando o desejo do bem, todo o esforço em descobrir o que aqui e agora é prudente e bom redunda em ilusão e atividade vazia” (op. cit. pg. 46).

Com efeito, sem retidão de intenção, nenhum ato é bom e nem prudente, pois a própria noção de prudência diz respeito à reta razão no agir. Daí que uma das atitudes mais necessárias para se adquirir e crescer na virtude da prudência é retificar a intenção, quando percebemos que o que nos move a agir são, na verdade e no fundo, motivos menos nobres e que causariam vergonhas se descobertos.-Afinal de contas: O que nos move? Por quem os sinos dobram?

Também aqui, é paradigmático o caso da bomba atômica. Ainda paira no ar a pergunta histórica: Tendo sido do Presidente Truman a decisão de usar a bomba atômica para encurtar a guerra, por que escolheu as duas cidades católicas do Japão, Hiroshima e Nagasaki? Mera coincidência ou uma segunda intenção velada?

VI) A DECISÃO

O quarto ato da virtude da prudência é a decisão, ou seja, escolher o melhor dos caminhos ou opções que se apresentam.

No entanto, S. Tomás de Aquino nos alerta para um perigo que leva à indecisão, qual seja, querer ter certeza sobre qual a melhor opção ou qual o caminho ideal: a certeza da prudência não pode ser tão grande que afaste por completo a inquietação (Suma Teológica, II-II, q. 47, art. 9, ad 2). E porque é assim? Porque a prudência parte das premissas teóricas da ciência, mas que se aplicam ao que é contingente e circunstancial, sujeito a mutações e não perfeitamente captável pela limitação humana. A casuística de moralistas que pretendem mapear todas as situações possíveis e fixar o comportamento tropeça no mesmo escolho de juristas que sonham com o Código perfeito, abrangendo todas as possíveis situações de conflito e as solucionando previamente.

Quem sonhasse com essa certeza estaria abdicando da liberdade e correspondente responsabilidade: o medo de decidir e de errar faria com que se esperasse de uma instância superior – o chefe ou a lei – a ordem de fazer assim ou assado.

Pieper alerta: Uma vez que se chega à casuística, a primeira coisa que acontece é que a decisão no caso de consciência é subtraída à consciência individual e transferida para a autoridade do especialista”. E conclui: ”A primeira das virtudes cardeais não e apenas o índice da maioridade moral; é também, e precisamente por isso, o índice da liberdade” (op. cit. pg. 44).

Em que pese o pessimismo de seu autor, a conhecida expressão sartreana tem muito de verdade: Estamos condenados a ser livres. Ou seja, não podemos nos furtar a decidir e responder pelo acerto ou erro de nossas decisões.

Com efeito, podemos, no campo do Direito, conhecer bem as leis que regem determinado campo da atividade humana, e saber, teoricamente, como se deve agir numa dada situação. No entanto, para agir é preciso conhecer também os fatos, a situação concreta sobre as quais se aplicam as leis. E estes são mais difíceis de se captar em sua integralidade.

Daí que muitos fiquem paralisados, bloqueados pela ilusão de chegar à solução perfeita para determinada situação, quando, no campo do agir humano, não há certezas matemáticas, mas apenas certezas morais, isto é, a aproximação do que é o justo e o bom no caso concreto.

Se, por um lado, pode-se ficar paralisado diante das várias opções aparentemente igualmente exigentes de sua assunção, por outro, pode-se tomar a decisão errada no momento de fazer a escolha de que caminho a seguir.

Nesse sentido, uma obra que chama a atenção por elencar grandes erros históricos, por decisões equivocadas em momentos cruciais que exigiam escolhas ponderadas e respaldadas na humilde aceitação do conselho dos sábios e prudentes, é “O Minuto Decisivo de Waterloo”, de Stephan Zweig (Livraria Civilização Editora – 1937 – Porto). Descreve não apenas a decisão do Marechal Grouchy, de continuar na perseguição dos prussianos, quando os canhões começaram a troar em Waterloo e seus generais o instavam a sair em socorro do Imperador, já que Bluchër estava se dirigindo para lá e foi o fiel da balança na batalha, a favor de Wellington (cfr. pgs. 7-39), mas também a decisão do Capitão Scott de prosseguir na tentativa de alcançar em primeiro lugar o Pólo Sul, com um membro a mais incluído na expedição, não recomendado por seus comandados, em face da escassez  de víveres, vindo a morrer no final, exatamente por ausência dos suprimentos necessários para o retorno (fls. 91-130).

Exemplos não faltam de que a decisão acertada é fruto não apenas da realista análise dos elementos fáticos, quanto da humilde aceitação de conselhos que, pelo seu teor, se mostram fundamentados e prudentes, ponderando-se sem açodamento as várias opções que se mostram viáveis e acertadas para resolver a questão que nos aflige.

Quando a Rainha Vitória (1819-1901) subiu ao trono da Inglaterra, ainda muito jovem (com apenas 18 anos), seu tio, o Rei Leopoldo I da Bélgica, escrevia-lhe, dando conselhos de prudência, que ela incorporou até ao ponto de tornarem-se proverbiais algumas de suas expressões:

a) nunca tomar de imediato uma decisão sobre um assunto importante de governo, sem refletir ao menos de um dia para o outro (quando a pressionavam com assuntos urgentes, respondia: “I will think it over”); e

b) guardar reserva sobre os assuntos pessoais, abrindo-se apenas com quem tivesse o direito de conhecer sua intimidade (quando lhe faziam perguntas indiscretas, respondia apenas: “We are not amused”) (Cfr. Anka Muhlstein, “Vitória”, Companhia das Letras – 1999 – São Paulo, p. 27).

VII) A AÇÃO

O quinto ato da virtude da prudência é a ação, que significa passar rapidamente da deliberação à prática do que se decidiu.

O principal defeito nesse caso é o atraso em colocar em prática o que se viu claramente como o dever a cumprir. É a falsa prudência, do covarde, do preguiçoso ou do sensual.

Na verdade, a ação já refoge ao campo da prudência, pois esta diz respeito à tomada de decisão. No entanto, podemos colocá-la como o epílogo do processo decisório, para mostrar que o prudente que decidiu e não fez é o imprudente.

Também é imprudente o que estanca a ação diante dos obstáculos encontrados. É natural  que toda ação encontre resistência para ser implementada. É uma das leis de Newton: “A toda ação corresponde uma reação de igual intensidade e em sentido contrário”. Cabe a nós, com a virtude da prudência, prever e contar com os obstáculos e adversidades como coisas de ordinária administração. Não é possível pensar que tudo o que planejamos irá dar certo do começo ao fim. Alguns objetivos atingiremos, outros não. E então, continuaremos no seu encalço, enfrentando as contrariedades.

Um exemplo histórico interessante é o da Operação “Market-Garden”, na 2ª Guerra Mundial, que Cornelius Ryan tornou célebre através de seu livro “Uma Ponte Longe Demais” (Biblioteca do Exército Editora – 1978 – Rio). Para encurtar a duração da Guerra e invadir a Alemanha ainda no final de 1944, o Marechal Montgomery idealizou um avanço de divisões blindadas sobre a Holanda, cuja rapidez dependia da preservação de três pontes sobre os principais rios do país. Para isso, preparou a maior operação de paraquedistas da História, em que os da primeira ponte teriam que preservá-la por 2 dias, até a chegada dos tanques, os da segunda por 5 dias e os da terceira por mais de uma semana! Tudo teria que sair perfeitamente, para que os paraquedistas encarregados da terceira ponte pudessem resistir por tão longo período sem apoio. É claro que a operação acabou fracassando, pois a terceira ponte era “longe demais” para que os reforços chegassem a tempo! Foi, efetivamente, uma imprudência realizar a operação otimizando todas as estimativas. Dos 10.000 ingleses que saltaram para capturar a última ponte, apenas 1.500 conseguiram sobreviver, após abandonar a posição conquistada.

Portanto, a prudência deve prever os obstáculos, ver se são superáveis e contar com tempo para os vencer. Assim, os obstáculos não serão impeditivos de se alcançar os objetivos almejados e nem se deixará de buscá-los ao tropeçar com resistências na busca do bem árduo.

VIII) CONCLUSÃO.

A prudência, como arte de decidir bem, supõe, portanto, detectar onde falha o processo de tomada de decisão: na observação do mundo, no desprezo aos conselhos, na falta de reflexão imparcial, no adiamento para decidir ou para pôr em prática o decidido. O homem prudente, que influi na sociedade com eflcácia e vive uma verdadeira paz e alegria na vida, é aquele realista, humilde, reflexivo, decidido e ativo: espera o suficiente para refletir, e age com a diligência que a situação exige.

Soberba e Humildade: A Grandeza e Miséria Humana

Na Segunda Guerra Mundial, os Aliados acreditavam que bombardeando as fábricas e fontes de energia da Alemanha poderiam levar à falta de suprimentos e ao colapso do regime nazista, o que encurtaria a guerra. No entanto, a relação entre o custo e o benefício dessa estratégia não se mostrava animadora: cerca de 25% dos aviões que partiam em missão eram abatidos pelos caças ou baterias anti-aéreas inimigas e um tripulante de B-17 ou B-24 tinha que cumprir 35 missões para estar liberado e voltar para casa. Assim, para os pilotos, navegadores, artilheiros e bombardeadores americanos, a perspectiva era bem pouco esperançosa de se sair vivo da guerra.

O que os tripulantes de um B-24 mais temiam era a flak, a artilharia anti-aérea alemã: quando enquadrava um esquadrão de bombardeiros, muitos aviões eram atingidos e, com uma boa dose de sorte, conseguiam saltar de paraquedas, passando o resto da guerra como prisioneiros dos alemães. A maioria, no entanto, explodia junto com seus aviões. Nesse clima, a percepção da impotência na condução da própria existência, bem como da dependência recíproca e de um Poder mais elevado era quase física. Assim descreve Stephen Ambrose as reações dos membros da tripulação do Dakota Queen, pilotado por George McGovern (posteriormente senador e ex-candidato à presidência americana), na missão do dia 16 de dezembro de 1944, para bombardear as refinarias de petróleo de Brux, na Tchecoslováquia (mesmo dia do contra-ataque alemão nas Ardenas):

“McGovern pôs o Dakota Queen em formação numa clareira da cobertura das nuvens, mas ‘de repente sumiu tudo’. A formação inteira estava voando dentro das nuvens. McGovern manteve a sua posição, a de número três, mas ao chegar acima das nuvens descobriu que o avião da posição dois voava à mesma altitude, mas à sua esquerda. Eles haviam se cruzado. ‘Eu fiquei gelado ao ver aquilo’. Ao perceber a situação, o piloto do líder perguntou pelo rádio: ‘O que é que está havendo aqui?’. McGovern gesticulou para o outro piloto subir enquanto o Dakota Queen descia, e eles se cruzaram novamente até chegar à posição correta. ‘Aquele foi o momento em que estive mais perto de morrer, levando comigo a tripulação (10 homens) e o nosso bombardeiro’, disse McGovern. Ele tremeu de medo e de ‘saber quão pouco controle temos sobre nosso destino quando o tempo está no comando. Entre as nuvens não havia nada que se pudesse fazer exceto rezar, porque não dava para ver absolutamente nada’. Nesta ocasião, Rounds (o co-piloto) disse a McGovern: Deus tomou conta de nós’.

“O flak sobre Brux foi intenso. ‘Eles puseram aquela coisa lá em cima’, nas palavras de McGovern, ‘quase como se um artista a tivesse desenhado’. McGovern tinha a impressão de que os artilheiros alemães estavam ficando melhores a cada ataque. ‘Aqueles obuses estavam chegando cada vez mais perto de nós’. Ele rezou muitas orações durante aquele bombardeio, uma coisa que fazíamos instintivamente’. (“Azul Sem Fim”, Bertrand Brasil – 2007 – Rio, pg. 162) (negritos não constantes do original).

A percepção do pouco controle que temos sobre o nosso destino, o que levava os membros das tripulações dos bombardeiros americanos a rezar instintivamente, é uma captação das mais antigas da humanidade. Platão, ao desenvolver o seu projeto educativo (paidéia) na obra As Leis, dizia que o homem seria um fantoche nas mãos de Deus ou dos instintos (n. 645B). A paidéia seria a direção da vida humana pelo fio do logos, manejado por Deus, em vez do homem se deixar levar pelos instintos (cfr. Werner Jaeger, “Paidéia”, Martins Fontes – 2003 – São Paulo, pg. 1315).

A visão de fantoches é poética, para retratar uma realidade palpável: a de que não temos controle sobre os fios que governam nossa vida. Prezamos muito nossa liberdade e auto-determinação, mas nem temos tanta liberdade assim, pois realmente, quem se deixa levar pelas paixões se torna escravo dos instintos, nem conseguimos dar o rumo que gostaríamos à nossa vida.

Com efeito, a sensação que McGovern teve, de ficar gelado ao perceber que acabara de escapar da morte por um triz, é mais comum do que imaginamos. Quem não se sentiu assim, após escapar de um acidente de carro, ao marcar um gol milagroso diante de uma defesa impenetrável (ou defender uma boa indefensável, ou mesmo levar um “frango” inexplicável), ao ser guindado a um cargo ou posição inesperada por confluência de fatores favoráveis (ou, pelo contrário, fracassar, quando fez tudo direito)?

Não posso me esquecer do dia em que, numa excursão, nos idos de 1983, saia do Rio Maranhão, na fronteira norte do Distrito Federal, e, ao subir a encosta da margem num dia chuvoso, senti algo escorregando por entre minhas pernas: era uma cascavel, que, pega de surpresa, não havia tido tempo de armar o bote. Pulei por cima dela, que escorregou em direção ao rio. Na hora, tive a presença de espírito de reagir rapidamente, afastando-me e avisando o resto do pessoal para voltar para o rio e subir mais à frente. Mas, passada a adrenalina momentânea, também gelei ao pensar sobre como e do que havia escapado.

Todas essas experiências e as que cada um traz na memória estão a nos lembrar nossa condição de criaturas, ou seja, de seres contingentes e não senhores do seu destino. Experiências que servem para desenvolver em nós a tão mal compreendida e, por que não dizer, humilhada virtude da humildade. Digo humilhada, porque despojada pela cultura moderna de toda a sua grandeza e importância.

Expliquemo-nos. A palavra que hodiernamente se usa na linguagem comum para falar de uma pessoa apoucada, pobre, tímida e pouco relevante na escala social é que é uma pessoa humilde. Nada mais distante do que seja a virtude da humildade.

S. Tomás de Aquino definia a humildade como a virtude pela qual nos avaliamos da maneira que corresponde à realidade. Faz parte da virtude da temperança, porque supõe encontrar o ponto de equilíbrio para o amor-próprio (cfr. “Suma Teológica”, II-II, q. 161, art. 6; q. 162, art. 3, ad 2). Josef Pieper destaca que o vício oposto à humildade é a soberba, que, mais do que uma falta para com os homens (julgar-se melhor e superior aos demais), é a negação, contrária à realidade, da relação de dependência da criatura para com o Criador: “é um desconhecimento da criaturalidade do homem” (“Virtudes Fundamentais”, Editorial Áster – 1960 – Lisboa, pgs. 268-269).

A soberba é um dos sete pecados capitais, sendo também conhecida como orgulho. Distingue-se da vaidade pelo seu aspecto mais interior e profundo. Dizem que o orgulhoso é aquele que tem tanta convicção de sua superioridade sobre os demais homens que não precisa alardeá-la. Já o vaidoso, não tendo tanta certeza e vivendo a opinião alheia, procura em tudo e com todos mostrar suas virtudes, feitos e qualidades… Parece, este último, defeito feminino, mas é muito mais comum nos homens, pois a vaidade intelectual supera a vaidade física. Característico é o comentário do escritor narcisista: “Já falamos muito de mim: Chega! Agora, falemos um pouco de você: O que você achou do meu último livro?”.

Mas fiquemos inicialmente no orgulho e na soberba, que retratam a nossa aparente grandeza e real miséria.

Na obra de J.R.R. Tolkien, especialmente nos “Contos Inacabados de Númenorë e da Terra Média”, o conto da Ilha de Númenorë, à semelhança da lenda de Atlântida, é das melhores descrições da evolução da soberba, plasmada na dinastia dos reis numenorianos, cada vez mais prepotentes e distanciando-se do tradicional culto à Divindade. Assim podemos resumir essa evolução, em seus passos mais significativos (baseado na sinopse dessa obra, que fizemos em nosso “O Mundo do Senhor dos Anéis”, Martins Fontes – 2006 – São Paulo, pgs. 79-100):

a) Em “O Silmarillion”, Tolkien desenvolve as bases de sua mitologia inglesa, descrevendo de forma poética a criação do mundo e a origem do mal sob a imagem de um Deus Único (Eru ou Illúvatar) que cria seres puramente espirituais (os Ainur ou Vala) e lhes dá uma tema de música para desenvolverem conjuntamente, sendo que um deles (Morgoth ou Melkor), por soberba, deseja desenvolver seu próprio tema e não se submeter à vontade de seu Criador, separando-se dos demais, e passando a ter como propósito da existência destruir tudo aquilo que os demais Vala (que seriam comparados aos deuses da mitologia antiga) vão construindo na esteira da música proposta por Illúvatar.

b) Assim, a estória da Primeira Era da Terra Média é a estória da luta entre o bem e omal: entre Morgoth e os demais Vala, da qual participam as principais criaturas inteligentes de Illúvatar, ou seja, os elfos (seres corpóreos não sujeitos à morte natural) e os homens (seres mortais). Essa Era termina com a vitória dos Vala sobre Morgoth, mas com a destruição da região de Beleriand, onde se haviam construído os principais reinos dos elfos, invadida pelo mar.

c) A estória da Segunda Era da Terra Média se desenvolve especialmente nos “Contos Inacabados de Númenorë e da Terra Média” e começa com os Vala, como recompensa pelos  sofrimentos que os homens haviam passado na luta contra Morgoth, preparando-lhes uma ilha entre a Terra Média e Aman, denominada Númenorë, para a qual se dirige Elros (primeiro rei da ilha) e os descendentes das principais casas humanas (passando a compor o povo dos dúnedain, de notável longevidade). No entanto, aos numenorianos, os Vala impõem, além da mortalidade, a “interdição” de navegarem para o Oeste, para as Terras Imortais.

d) Assim, no princípio de seu reinado, os reis numenorianos reinavam em Armenelos (sua capital) e prestavam o culto divino na montanha de Meneltarma. Com o passar do tempo, a monarquia numenoriana vai se tornando poderosa e navegante, conquistando partes do litoral da Terra Média e participando da Primeira Guerra contra Sauron, braço direito de Morgoth e continuador de seus pérfidos desígnios de dominação e destruição da obra criadora de Illúvatar, que se havia feito passar por emissário dos Vala diante dos elfos, os quais forjaram os anéis do Poder, com a ajuda de Sauron, que, por sua vez, forjou o Um Anel, para a todos dominar.

e) A decadência de Númenorë começa pela arrogância de seus reis, que antes iam à Terra Média para ajudar os homens que lá ficaram, passando a oprimi-los com tributos, trazendo para Númenorë ouro e prata. Começam a desejar ir para Aman, rebelando-se contra seu destino mortal e falando abertamente contra os Vala. Formam-se dois partidos: os homens do rei (contrários aos elfos) e os “fiéis” (que buscam preservar a amizade com os elfos). Quanto mais aumenta a soberba e ambição dos reis numenorianos e seu apego à vida, mais diminui seu tempo de vida. Os últimos reis começa a perseguir os “fiéis” e já não mais reverencia Illúvatar na Meneltarma.

f) O último rei numenoriano é Ar-Pharazôn, que se  torna o mais poderoso e arrogante de todos os reis de Númenorë. Seu desejo de grandeza leva-o a armar uma grande frota, com a qual dirige-se à Terra Média para enfrentar Sauron. Desembarcando com seu poderoso exército em Umbar, intimida Sauron, que decide submeter-se a Ar-Pharazôn, de modo a conquistá-lo para os seus propósitos. Sauron vai para Númenorë como prisioneiro, mas acaba se tornando o principal conselheiro do rei, convencendo-o de que o verdadeiro Senhor do Mundo seria Morgoth, a quem deveriam prestar culto, para obterem a libertação da morte.

g) Ar-Pharazôn constrói um grande templo em honra de Morgoth, no qual oferece sacrifícios humanos, perseguindo dessa forma os “fiéis”. Amandil, descendente dos senhores de Andúnië, decide descumprir a ordem real e a interdição dos Vala e viajar para o Ocidente, para tentar obter nova salvação através dos Vala. Avisa os filhos para ficarem preparados para fugir de Númenorë quando a desgraça vier.

h) Ar-Pharazôn, convencido por Sauron, decide enfrentar os Vala, armando uma grande frota. Quando chega com ela à terra de Aman, Illúvatar provoca uma grande fenda no mar que traga toda a frota de Ar-Pharazôn, separando para sempre a terra abençoada, do restante do mundo. Quando a armada dos numenorianos havia zarpado para Aman, Elendil, filho de Amandil, e seus dois filhos Isildur e Anárion, fogem de Númenorë numa pequena frota, em direção à Terra Média, escapando, assim, da destruição de Númenorë, que é tragada inteira pelas águas. Sauron, com o desastre de Númenorë, perde pela 2ª vez a forma corpórea.

A estória de Númenorë é a história da ascensão e queda do orgulho humano, bem retratada pela música popular brasileira, na “A Banca do Distinto”, de Billy Blanco:

“Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho.
Prá que tanta pose doutor?
Prá que esse orgulho?
A bruxa que é cega, esbarra na gente, a vida estanca.
O infarto te pega doutor, acaba essa banca.
A vaidade é assim, põe o tonto no alto, retira a escada,
fica por perto esperando sentada,
mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão.
Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do tonto
afinal, todo mundo é igual, quando o tombo termina,
com terra por cima e na horizontal”.

Pensando no antídoto contra a soberba, orgulho e vaidade, que é a virtude da humildade, chama a atenção, folheando as páginas do Evangelho, que a única virtude em relação à qual Cristo se coloca expressamente como modelo, não apenas no lava-pés, é justamente a virtude da humildade (de um Deus que se faz homem, despojando-se do apanágio da divindade, para conviver com os homens):

“Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11, 28-30).

Todo o livro do “Senhor dos Anéis”, obra-prima de J.R.R. Tolkien, é uma ode à humildade, no mais genuíno espírito cristão: “Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado” (Mt 23, 12); “Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1, 52). A vitória sobre todo o orgulho e prepotência de Sauron, o Senhor das Trevas, só é possível pela confiança de Gandalf nas mais humildes e fracas, do ponto de vista físico, das criaturas inteligentes da Terra Média: os hobbits. A aparente pequenez dos habitantes do Condado não deixava perceber toda a sua fibra moral.

Pensando em outro paladino da humildade e da grandeza moral, lembro que, numa entrevista sobre o Fundador do Opus Dei, poucos anos após o falecimento daquele, o Bispo de Leeds relembrava que quando pediu a S. Josemaría Escrivá (1902-1975) um retrato seu de lembrança, ele lhe deu um pequeno burrico de madeira. E o bispo disse que o colocou sobre a lareira de sua residência: “Olho para ele quando estou me tomando muito a sério”.

Tomar-nos muito a sério é darmo-nos muita importância. É dar muita importância ao que nos acontece. E aí o orgulho sobe e se acende à menor desatenção de que somos objeto. Daí a importância da virtude da humildade para se viver e trabalhar com eficácia.

S. Teresa de Ávila (1515-1582) dizia que “a humildade é a verdade”. A verdade sobre nós e o mundo. Diante de Deus, que é o Criador, nós somos nada. Essa a verdade que não podemos esquecer.

A imagem do burrico representa plasticamente como devemos ser no trabalho:

“Pensai nas características de um burro, agora que vão ficando tão poucos. Não no burro velho e tosco, rancoroso, que se vinga com um coice traiçoeiro, mas no burrico jovem: as orelhas estiradas como antenas, austero na comida, duro no trabalho, com o trote decidido e alegre. Há centenas de animais mais formosos, mais hábeis e mais cruéis. Mas Cristo se fixou nele, para apresentar-se como rei ante o povo que o aclamava” (S. Josemaría Escrivá, “É Cristo que Passa”, n. 181).

Guimarães Rosa, em seu conto “O Burrinho Pedrês” captou bem essa realidade ao dizer que: “A estória de um burrinho, como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida” (“Sagarana”, Editora Nova Fronteira – 1997 – Rio, p. 18). A descoberta do acadêmico brasileiro é a da grandeza da vida corrente. Os grandes feitos não são possíveis se se descuida do ordinário.

Mons. Escrivá apontava para as várias facetas da vida de um burrico que deveriam nos servir de exemplo:

“Bendita perseverança a do burrico de nora! – Sempre ao mesmo passo. Sempre as mesmas voltas. – Um dia e outro; todos iguais. Sem isso, não haveria maturidade nos frutos, nem louçania no horto, nem teria aromas o jardim. Leva este pensamento à tua vida interior” (“Caminho”, ponto 998).

O nosso trabalho diário não é diferente desse dar voltas em torno da nora, para mover a roda de água ou triturar a cana-de-açúcar nos moinhos. Todos os dias temos umas tarefas concretas para fazer, uma rotina de trabalho que se repete e que, aos poucos, vai construindo a nossa vida profissional e as obras nas quais nos empenhamos. As grandes obras são fruto de uma pedra em cima da outra.

Quando nos virmos assim, como um burrico de nora, o nosso trabalho será eficaz. Em primeiro lugar porque estaremos dispostos a aprender de tudo e de todos. Sem o orgulho de nos acharmos infalíveis ou superiores.

Um dos defeitos que mais atrapalha no ambiente de trabalho é a vaidade e o orgulho exacerbados. É o subordinado que não aceita receber uma bronca do superior, pois sempre acha que está certo. É o superior que não admite um erro, e mantém uma decisão desacertada, mesmo percebendo que os demais têm razão. É o colega que se ofende com qualquer comentário, como se fosse ofensivo, levando tudo para o campo pessoal. É o outro que só fala das suas realizações, dos seus trabalhos, como se fossem a coisa mais importante do mundo…

O problema do vaidoso e do orgulhoso é que se colocam numa vitrine, e depois a cobrança externa é proporcional à aparência da imagem que forjaram, e a queda é proporcional à altura do pedestal em que subiram. Os nervosismos, as angústias e as preocupações que surgem quando se deve estar à frente de um empreendimento são fruto, muitas vezes, desse valorizar-se excessivamente. A insegurança ao falar ou presidir pode vir de se estar contemplando continuamente, como num espelho. E não é possível ser, ao mesmo tempo, protagonista e espectador. São dois programas que não rodam simultaneamente na cabeça! Ao concentrarmos a atenção em nós mesmos, esquecemos o “scripti”.

A preocupação com a própria imagem é o que tira a paz e as forças de tantas pessoas no trabalho: “Será que o chefe está satisfeito comigo?”; “O que estarão pensando de mim os meus colegas?”; “Será que agradei?”.

O nosso trabalho deve ser intenso e não… tenso. A tensão vem justamente dessa preocupação com a própria imagem. Só quando estivermos desapegados da própria imagem, pois o que importa é o que Deus pensa de nós e o serviço que estejamos prestando aos demais, é que teremos a tranqüilidade para trabalhar em qualquer ambiente ou situação, por mais adversa que se apresente num determinado momento. Só quando nos aceitarmos tal como somos, com defeitos e limitações, é que não teremos a preocupação (que desgasta) de querer mostrar uma imagem que não corresponde à realidade (que mais cedo ou mais tarde será desfeita).

Certas pessoas, no trabalho, portam-se como se estivessem em academias de musculação: não apenas pela forma de vestir, mas, principalmente, por estarem como que contemplando num espelho os próprios movimentos. É como dizia um “malhador” inveterado: “É difícil render sem espelho e sem música”. Como se a nossa vida fosse um filme épico ou video-clip, com telão e trilha sonora!

A epopéia deve ser a do dia-a-dia: “transformar a prosa diária em decassílabos, verso heróico” (S. Josemaría Escrivá, “É Cristo que Passa”, ponto 50). O heroísmo está justamente nessa descoberta do valor das pequenas coisas, do realizar bem as pequenas tarefas de cada dia. Não pensar que o nosso dia tem seus momentos importantes – uma entrevista, uma cerimônia, um evento extraordinário – e que o resto é apenas recheio. Se não damos importância ao pequeno, nunca estaremos preparados para receber a responsabilidade pelo grande.

O primeiro Vigário Regional do Opus Dei no Brasil, Mons. Francisco Xavier de Ayala, costumava dizer que todas as atividades que fazemos durante o dia, por mais prosáicas que fossem, poderiam ser consideradas como um trabalho e, como tal, deveriam ser santificadas, sendo realizadas com a maior perfeição possível. Assim, ao acordar, saber arrumar bem a cama, como se fossemos camareiros de hotel. Fazer a barba de manhã como um verdadeiro barbeiro. Procurar dirigir no trânsito com a suavidade e perícia de um bom taxista, que deve satisfazer o cliente e fazer com que o carro dure o máximo possível. E assim por diante.

Dar importância às coisas pequenas, às pequenas tarefas de cada dia, valorizando-as, faz com que tenhamos uma visão mais realista do mundo e, em conseqüência, não fiquemos frustrados ou paralisados diante dos erros e desacertos que vemos à nossa volta (Cfr. J. Malvar Fonseca, “Coisas Pequenas”, Quadrante – 1996 – São Paulo). Há pessoas que, diante das manchetes de jornal que mostram a corrupção no governo, a violência na cidade, a degradação dos costumes, entram em depressão e perdem o ânimo para reagir e realizar o trabalho concreto que lhes compete. Outros, partem para cruzadas quixotescas, pensando que seus atos ou realizações irão deixar marcas indeléveis na sociedade.

Ora, não podemos nem ficar desanimados com o mundo como ele está (não existem tempos melhores ou piores… existe o tempo em que Deus nos colocou para viver), nem pretender ser gerentes do mundo, querendo consertar tudo o que vemos de errado à nossa volta (não somos o modelo da sabedoria ou da perfeição).

Como dizia Arnold Toynbee, ao invés de olhar para o macrocosmos, cuja situação talvez nos oprima, olhemos para o microcosmos interior e percebamos que a fonte dos desacertos do mundo está em nós mesmos, no pecado pessoal: se combatemos este, que é possível para nós, estaremos contribuindo enormemente para reverter o quadro de degradação moral que vemos na sociedade:

“Ele experimenta, afinal de contas, a mesma crise que seus semelhantes em sua comum provação de vida numa sociedade em desintegração; entretanto, o que é para os outros um obstáculo, para ele é um supremo desafio. Quando o élan de desenvolvimento numa sociedade sadia parece ter desaparecido, o indivíduo passivo perde seu domínio sobre os mares ignotos do Universo; mas a reação alternativa para esta sensação de perda de controle não é olhar para o exterior, para um macrocosmo mergulhado em pecado, mas olhar dentro de seu íntimo e reconhecer a derrota moral como um fracasso de autodomínio. Este senso de pecado pessoal apresenta o mais agudo contraste imaginável com a passiva sensação de deriva; pois, quando a sensação de deriva tem o efeito do ópio, instilando na alma uma insidiosa aquiescência a um pecado que se acredita estar nas circunstâncias externas, para além do controle da vítima, a sensação de pecado tem o efeito de um estímulo, porque conta ao pecador que o mal não é externo, afinal de contas está em seu íntimo, e portanto sujeito à sua vontade” (“Um Estudo da História”, Martins Fontes e Editora da UnB – 1987 – São Paulo, p. 260).

Dar importância ao pequeno e não nos darmos tanta importância, esse é o segredo da humildade que devemos ter no trabalho, na família e no relacionamento social. Nossa grandeza está justamente na aceitação das condições concretas em que vivemos. Em vez de viver esperando as COTP (Condições “Ótimas” de Temperatura e Pressão), como aquele amigo que sonhava com a mulher ideal (misto de Miss Brasil com Madre Teresa de Calcutá), o trabalho ideal (Presidente do Brasil sem responsabilidade pelo que diz ou faz), filhos ideais (obedientes, inteligentes, bonitos, dignos da vitrine do colégio, faculdade ou trabalho), patrimônio ideal (duplex no Leblon, Casa de Campo em Tiradentes, Fazenda em São Paulo, iate, jatinho e um apartamento de suporte em Paris), amigos ideais (sintonia total e ao seu gosto) e perfil pessoal ideal (misto de São Tomás, com o Ten. Dick Winters do “Band of Brothers”, Cap. Jack Aubrey do “Mestre dos Mares”, Min. Moreira Alves do STF e Charlon Heston, de tantos épicos como “Ben-Hur”, “El Cid” e tantos outros, unindo santidade, coragem, sagacidade e inteligência, com pinta de galã), o que só existe no Hiperurânio de Platão, aceitar e agradecer as CNTP (Condições Normais de Temperatura e Pressão) nas quais se pode estar vivendo (trabalhando, no entanto, com paciência para melhorá-las): mulher mais gordinha, velhinha, feinha e chatinha; filhos aborrecentes; trabalho desinteressante e estafante (ou desempregado); amigos-da-onça (interesseiros, furões e muitas vezes desleais) e o euzinho intragável (vaidoso, sensual, preguiçoso e um pouco limitado de cabeça).