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Ciência da Terra-média: Dragões!

Após um longo e tenebroso verão e começo de outono, estamos de volta com mais Ciência da Terra-média! E já gostaria de começar lançando uma polêmica aqui: quando o assunto é dragões, Morgoth provavelmente teria mais facilidade em criar um Glaurung do que um Ancalagon ou um Smaug. Entenda o porquê nos parágrafos a seguir, intrépido leitor.
 

Considerando que um dragão não é, em essência, algo muito diferente de
um réptil supercrescido, biologicamente está claro que esse tipo de
criatura não só existe (crocodilos e dragões-de-komodo, certo?) como já
existiu em dimensões até mais assustadoras.

Um dos verdadeiros problemas para a biologia da Terra-média é, eu
diria, a elevada inteligência dos dragões tolkienianos — de fato,
nunca vimos um réptil com um cérebro tão turbinado. Capacidade de
falar, então? Aí complicou. Mas vamos deixar de lado esse aspecto, até
por uma questão de metodologia — imaginemos que a suposta inteligência
dos dragões é um elemento folclórico introduzido por gerações de
humanos que não conviveram com o bicho verdadeiro e só contam histórias
sobre ele. Desconsiderando a inteligência e a fala, quase todo mundo
vai concordar que o elemento definidor de um dragão é sua capacidade de
cuspir fogo. E aí, rola?

Besouros incendiários
Rola, propõe o biólogo britânico Henry Gee, autor do livro "The Science
of Middle-earth" e editor da respeitada revista científica "Nature".
Por analogia com os dragões, Gee lembra que inúmeros animais produzem
substâncias com potência destruidora em suas glândulas. O caso mais
relevante para a nossa discussão é o dos besouros-bombardeiros, que
produz uma mistura de peróxido de hidrogênio e hidroquinona.

Esse bicho, quando ameaçado, lança as duas substâncias numa "câmera de
combustão", na qual elas reagem com a ajuda de uma enzima (proteína que
acelera reações químicas). Resultado: um jato tóxico e fervendo de
benzoquinona, que é lançado contra o atacante do besouro e pode até
matar outros insetos.

Gee sugere que micróbios simbióticos, "morando" nas glândulas salivares
dos dragões, poderiam transformar os açúcares da alimentação do bicho
em éter dietílico. Essa molécula tem a vantagem de ser facilmente
inflamável e muito volátil — ou seja, vira gás facinho, facinho.
Segundo Gee, bastaria que o dragão ejetasse com força a substância que
o calor de sua garganta seria suficiente para gerar um jato de fogo.

E o éter, claro, tem outra vantagem. Como sabemos ao ler as aventuras
de Bilbo ou de Túrin Turambar, o bafo dos dragões é uma droga poderosa,
capaz de causar entorpecimento — igualzinho ao que o éter faz. Com
tudo isso em vista, até fica menos absurdo imaginar criaturas como
Glaurung, um dragão soltador de fogo hipnotizador não-alado.

Cadê as asas?

O bicho realmente pega quando pensamos nas asas. Considere o seguinte:
as asas dos dragões são um terceiro par de membros numa espécie de
vertebrado. O problema é que nenhum vertebrado tem mais do que dois
pares de membros.

Ao longo da evolução, esse padrão foi definido para todos os
vertebrados terrestres — provavelmente porque ele deriva dos nossos
ancestrais, os peixes, que também possuem dois pares de nadadeiras na
parte de baixo de seu corpo.

Muito provavelmente seria preciso reorganizar brutalmente o programa de
desenvolvimento embrionário de um réptil para conseguir produzir um par
extra de membros e transformá-la em asas sem produzir um lagarto
gigante com poliesculhambose congênita. Nada que os engenheiros
genéticos de Angband não fossem capazes de fazer com milênios de
pesquisa, claro.

E no próximo Ciência da Terra-média: Noldor, cientistas?

Um Primeiro de Abril tolkieniano

Quem abriu a página inicial da Wikipedia em inglês hoje e olhou a seção "Did you know?" (Você sabia?) teve um presente tolkieniano no Primeiro de Abril.
 

A pegadinha da Wikipedia é a seguinte: "Você sabia que em 1825 a Corte do Tesouro [Court of Exchequer, órgão que cuidava das ações de direito civil na inglaterra medieval] declarou que todos os contratos feitos por hobbits eram ilegais e nulos na Inglaterra?

Como diria a fita do Báteman, tá muito engraçadinho, hein, Robin? 

 

Manuscritos hobbits: você leu primeiro na Valinor!

manuscritos.jpgÉ com imenso prazer que este Cisne comunica a publicação do primeiro artigo acadêmico derivado da minha pesquisa de doutorado. E adivinhe só: você leu primeiro na Valinor!

 

 

Estou falando do estudo sobre os manuscritos hobbits que deram origem à Saga do Anel, uma refinada técnica literária conhecida como pseudotradução que Tolkien usou para dar mais realismo e profundidade cultural à Terra-média. A pesquisa sobre o tema acaba de ser publicada na revista Eutomia, publicação online de literatura e lingüística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Quem quiser acessar a versão do trabalho em PDF pode clicar aqui. 

E, para não sair da Valinor, eis a versão que pusemos no ar por aqui mesmo. 

Mais uma vez, obrigado a todo mundo que leu e comentou a versão original aqui na Valinor. E podem ter certeza de que mais novidades vêm por aí!

Livro vai contar história de irmão de Tolkien

Parece que o ano realmente começou bem em termos de lançamentos tolkienianos. Depois do livro inédito do Professor sobre Sigurd, temos o anúncio de uma biografia de Hilary Tolkien, irmão do escritor, que está prestes a ser lançada.
 

Segundo o site "Fantasy Book Review", a ex-dona de livraria e fã de Tolkien Angie Gardner deve lançar o livro sobre Hilary no fim deste mês. O título é "Angie is confident Black and White Ogre: The Lost Tales of Hilary Tolkien" (Ogro Negro e Ogro Branco: Os Contos Perdidos de Hilary Tolkien).

"Hilary não é tão bem conhecido. Os ‘contos perdidos se referem a histórias que ele escreveu num antigo caderno, e algumas delas remontam às que ele e seu irmão inventavam quando eram muito jovens", disse a autora. Quem leu a biografia oficial de J.R.R. Tolkien, escrita por Humphrey Carpenter, talvez se lembre que "ogro negro e ogro branco" eram apelidos dados pelos meninos a moradores da zona rural de Birmingham, onde eles passam o começo da infância.  

Ainda segundo a biografia de Carpenter, Hilary tornou-se fazendeiro. Vai ser interessante saber mais detalhes sobre o relacionamento entre os dois irmãos.

Guillermo del Toro janta com Gandalf

As conversas entre o eterno Gandalf, Sir Ian McKellen, e o diretor Guillermo del Toro para combinar a participação do ator em "O Hobbit" já estão acontecendo, afirma o site "Killer Movies". Na semana passada, os dois se reuniram num jantar em Los Angeles para discutir o assunto.

A informação foi dada pelo próprio Sir Ian durante uma entrevista coletiva em Universal City, Califórnia. "Vocês estão perguntando sobre ‘O Hobbit’ doze horas antes do tempo", brincou o ator.

"Prometi que participaria dos filmes. E, com Guillermo del Toro na direção, sinto-me muito sortudo. Ainda por cima as filmagens vão acontecer na Nova Zelândia, um lugar que eu adoro, então é quase um trabalho ideal para mim."

 

Editora britânica de Tolkien reformula site

Enquanto o mercado brazuca de livros tolkienianos se movimenta graças ao lançamento de "As Aventuras de Tom Bombadil", os editores do Professor lá fora criam novas formas de faturar alto com a Terra-média.

 

O site tolkien.co.uk , criado pela HarperCollins originalmente apenas
para vender edições especiais limitadas dos livros do Professor, fez
tanto sucesso que faturou mais de 100 mil libras esterlinas em apenas
três meses. Aproveitando a onda, o site agora oferecerá as obras
completas de Tolkien para os internautas, incluindo edições de luxo de
todos os livros, com capa dura e outros detalhezinhos saborosos.

A idéia é que o site também incorpora material multimídia, como vídeos,
arte tolkieniana e clipes de áudio. A notícia foi dada pelo site
"mad.co.uk".

Ciência da Terra-média: imortalidade élfica

Nos idos dos anos 1950, quem era fã de SdA e tinha coisas legais a dizer dificilmente ficava sem resposta quando escrevia uma carta para Tolkien. Aliás, nem precisava escrever coisas legais: podia ser pentelhação pura mesmo. Foi o caso do gerente de uma livraria católica de Oxford, que disse ter adorado a Saga do Anel, mas que discordava do fato de que os elfos "reencarnavam" na saga, por ser "má teologia".

 

Tolkien respondeu muito educadamente, dizendo que o principal problema
do ciclo de vida élfico não era teológico, mas biológico. "Elfos e
homens são evidentemente, em termos biológicos, uma raça só, ou não
poderiam se acasalar e produzir descendentes férteis. Mas, como alguns
já afirmaram que a longevidade é uma característica biológica, você não
poderia ter elfos ‘imortais’ e homens imortais, e ainda assim
suficientemente aparentados", escreveu o Professor.

E aí vem o pulo-do-gato, revelando que Tolkien sabia um bocado mais
sobre biologia teórica do que a gente poderia esperar. "Eu poderia
responder [a essa objeção] que essa ‘biologia’ não passa de teoria, e
que a moderna ‘gerontologia’, ou como você quiser chamá-la, sugere que
o ‘envelhecimento’ é algo bem mais misterioso, e menos claramente
inevitável em corpos de estrutura humana." Boa, Professor. Na mosca,
diriam muitos biólogos.

Dano acumulado
Parece loucura? Pois, ao menos em parte, parece ser verdade. O que
acontece é que o envelhecimento não é um processo exatamente idêntico
às outras fases do ciclo de vida dos animais, como o nascimento, o
crescimento e a chegada à maturidade sexual. Em outras palavras, o
consenso científico atual indica que envelhecemos e morremos
basicamente por causa do acúmulo de danos aleatórios às bases do nosso
metabolismo, até que chega um momento no qual ele perde a
funcionalidade de forma definitiva.

Desse ponto de vista, a morte é, em parte, um mistério, principalmente
do ponto de vista da seleção natural. Pode-se imaginar que indivíduos
imortais teriam uma vantagem reprodutiva sobre os que morrem, uma vez
que seriam capazes de gerar descendentes indefinidamente; dessa forma,
passariam a "imortalidade" a sua prole, de maneira que, no longo prazo,
só restariam membros imortais daquela espécie em dado ambiente.

Acontece, porém, que as coisas não são nem de longe tão simples. No
mundo real, os recursos não são infinitos, nem os ambientes são
totalmente hospitaleiros. É preciso fazer "escolhas" (normalmente
inconscientes, ditadas pela dinâmica do organismo, claro): a energia
que poderia ser gasta para preservar um corpo pelos séculos dos séculos
compete com a que precisa ser investida na produção de bebês.

E é aí que o bicho pega. Uma vez garantida a reprodução, as demandas da
seleção natural ficam enfraquecidas: não faz mais muita diferença o
organismo entrar em colapso se ele já garantiu a geração futura. Aliás,
há indícios de que os genes que favorecem a fertilidade muitas vezes
podem estar envolvidos com os problemas da velhice. É por isso que a
natureza "prefere" majoritariamente as espécies que se reproduzem
loucamente e morrem cedo às que são muito longevas e têm poucos filhos.

Cláusula élfica
Você já deve estar roendo as unhas, perguntando-se onde diabos os elfos
entram nessa história. Bem, digamos que há uma espécie de "cláusula
élfica" capaz de subverter, ao menos em parte, a lógica inescapável do
envelhecimento. A espécie "Matusalém" precisa ter um determinado
conjunto de características — e os elfos se dão impressionantemente
bem nesse quesito, coincidência ou não.

Em síntese, a pressão para se reproduzir — e envelhecer — diminui
muito se você tem tamanho (relativamente) grande, poucos inimigos
naturais, crescimento lento e quantidade reduzida de filhotes.

Ora, todos esses requisitos são preenchidos de forma perfeita pelos
elfos tolkienianos. Vejamos: o tamanho equivalente ao dos seres humanos
é de grande porte para mamíferos (e, oras, elfos são mamíferos); poucos
seres de Arda são capazes de fazer frente aos elfos (fora exceções
malévolas sobrenaturais, tipo balrogs e lobisomens da vida); sabemos
que eles só chegam à maturidade aos 100 anos; e o único elfo a ter sete
filhos na história é Fëanor (a regra é três ou menos rebentos, mesmo
que o elfo em questão viva milhares de anos).

Essas características são as mesmas de seres de vida muito longa no
mundo real, como grandes árvores ou tartarugas marinhas. Ciclos de vida
como os desses seres parecem permitir uma manutenção altamente
eficiente das funções do organismo, sem os malefícios advindos de uma
reprodução desenfreada. Como último indício, poderíamos acrescentar
outro dado empírico: animais que comem pouco, num regime de restrição
calórica (mas sem ficarem desnutridos), parecem ganhar
surpreendentemente em longevidade. Talvez seja esse o conceito por trás
dos pequenos bocados de lembas capazes de sustentar os Eldar por
longuíssimos períodos.

Razão literária
Para encerrar, voltemos à carta de Tolkien. É claro que todos os
elementos citados acima até hoje não foram suficientes para criar uma
espécie não apenas longeva, mas capaz de durar "enquanto Arda durar",
que parece ser o caso dos elfos tolkienianos. O Professor, continuando
seu raciocínio, lembra que seu principal propósito foi literário e
filosófico, e não científico.

"Elfos e homens são representados como biologicamente aparentados nesta
história porque os elfos são certos aspectos dos homens, e de seus
talentos e desejos, encarnados em meu pequeno mundo. Eles possuem
certas liberdades e poderes que gostaríamos de ter, e a beleza e o
perigo e a tristeza da posse dessas coisas é exibida neles."E no próximo "Ciência da Terra-média": dragões e seus genes!