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Os livros eletrí´nicos e o Tolkien Estate

Um dado interessante sobre o recente lançamento de versões eletrônicas dos livros de Tolkien, já noticiado aqui na Valinor: sabe quanto tempo levou para convencer o Tolkien Estate (os responsáveis pelo espólio literário e financeiro do Professor) a topar essa parada? Seis anos. Seis FUCKING anos.

 

 

 

 

A informação vem de uma reportagem da agência de notícias Associated Press. 

"O Tolkien Estate queria ter certeza absoluta de que os e-books não eram algo efêmero", disse à AP o diretor de operações de publicação David Brown, da editora Harper Collins UK, que publica os livros de Tolkien no Reino Unido.  

Após seis anos de negociações, "finalmente conseguimos convencer o Tolkien Estate que o e-book é um formato legítimo e cada vez mais comum", diz ele. 

Sabe o que é mais irônico? J.K. Rowling ainda não quer saber de versões eletrônicas dos livros dela. Ser mais medrosa em relação à tecnologia do que os velhinhos do Tolkien Estate chega a ser engraçado…

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Christopher Tolkien quebra o silêncio

Sim, Christopher Tolkien, 84, não só existe, mas também fala — ou, ao menos, manda fax. O jornalão britânico "The Guardian" falou com o herdeiro literário do Professor via fax sobre a recente publicação de "The Legend of Sigurd and Gúdrun", o novo livro tolkieniano que contêm um longo poema épico inspirado na lenda homônima da mitologia nórdica.
 

Segundo Christopher, os versos são "território desconhecido". "Ouso
dizer que muitos ficarão imediatamente assustados com a mera ideia de
‘longos poemas narrativos’ e não irão em frente. Mas pode muito bem
acontecer, afirma, que os poemas tenham um "impacto inesperado".

"Minha esperança é que aqueles que apreciam e admiram as obras do meu
pai considerem que o livro é iluminador em relação à poesia nórdica
antiga como um todo, no tratamento que ele faz dessa lenda feroz,
apaixonada e misteriosa e nesse novo e pouco conhecido aspecto dele
como filólogo e poeta. Acima de tudo, espero que a poesia lhes traga
prazer."

Christopher relata os detalhes do manuscrito que deu origem ao livro.

"Meu pai deixou um único manuscrito, que estava completo; não há mais
do que algumas páginas de escritos anteriores, e todos os outros
rascunhos desapareceram. O manuscrito foi feito com uma letra boa e
clara, escrito sem correções, e obviamente deveria ser uma cópia final.
Algumas correções menores foram feitas nele bem depois. Minha ‘edição’
se refere basicamente a explicações e esclarecimentos."

O filho predileto do Professor vive na França desde 1975 e aproveitou
para atacar a lenda de que ele impediria a entrada de fãs em sua
propriedade usando uma horda de javalis domésticos.

"A forma completa da história diz que eu tenho não um javali, mas um
bando inteiro deles, expressamente para expulsar fãs de Tolkien que
supostamente se escondem na mata em torno da minha casa. De fato há
muitos javalis por aqui, mas não acho que eles seriam bons cães de
guarda, mesmo que eu quisesse."

E o que Tolkien acharia de sua popularidade hoje? "Ele poderia ficar
alternadamente deliciado, encantado, divertido, confuso, inquieto, sem
saber o que pensar, indignado, mas, no fim das contas,
compreensivelmente impressionado", diz Christopher.

A entrevista na íntegra pode ser lida, em inglês, neste link.

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Ciência da Terra-média: Noldor, cientistas?

Eu odeio quando transformam conceitos e ideias complexos em caricaturas. Não há exemplo melhor disso do que a atitude de Tolkien em relação à ciência. Dizem por aí que ele era um ferrenho inimigo do progresso. Se isso é verdade, não deixa de ser irônico que os maiores heróis da história de Arda fossem, para todos os efeitos, cientistas.
 

"Hã????", dirá você. Calma, que o raciocínio é bem menos estranho do
que parece. Não dá para negar que os protagonistas e heróis trágicos do
universo tolkieniano quase sempre são os Noldor, o segundo grande ramo
da espécie élfica. A etimologia do nome dos Noldor indica que eles são
simplesmente chamados de "os que sabem". O que é exatamente o mesmo
significado de "cientistas" no latim de onde a palavra deriva.

O mero fato de, por um lado, o maior dos Noldor — Fëanor, claro —
jogar quantidades astronômicas de estrume no ventilador e, por outro, a
decisão de Tolkien de retratá-lo não como um vilão, mas como um herói
trágico, diz muita coisa sobre a visão que o Professor realmente tinha
do avanço científico e tecnológico. Para entender isso um pouco melhor,
confira o que ele diz em uma de suas cartas (minhas desculpas ao
Tilion, tradutor das Cartas — estou apenas com a versão em inglês em
casa no momento):

"Esse ramo dos Altos-Elfos, os Noldor ou Mestres da Tradição, sempre
estiveram do lado da ‘ciência e tecnologia’, poderíamos dizer: eles
queriam ter o conhecimento que Sauron genuinamente tinha, e os de
Eregion recusaram os avisos de Gil-galad e Elrond. O ‘desejo’ típico
dos elfos de Eregion — uma ‘alegoria’, se você quiser, do amor pela
maquinaria e por aparelhos tecnológicos — também é simbolizada por sua
amizade especial com os anões de Moria.

Eu não os considero mais malévolos ou insensatos (embora corram o mesmo
perigo) do que católicos que participem de certos tipos de pesquisas
físicas (p. ex. as que geram, mesmo que apenas como subprodutos, gases
venenosos e explosivos): coisas que não necessariamente são más, mas
que, as coisas sendo como são, e a natureza e as motivações dos mestres
econômicos que providenciam todos os meios para o trabalho deles sendo
como são, quase certamente vão servir a objetivos malignos. Pelos quais
eles não necessariamente terão culpa, mesmo que estejam cientes deles."

Os detalhes que emergem dessa carta e de outros textos do Professor
mostram, portanto, que a briga dele não era com a ciência propriamente
dita. Então, qual era o problema?

Liberdade e escravidão
Não dá para dizer que o problema de Tolkien era com a tecnologia. Se
examinarmos a questão a fundo, vamos ver que o Professor era um grande
crítico da tentação manipuladora que a ciência e a tecnologia
representavam. Ele considerava que a ambição à la Noldor de entender
como a natureza funcionava e de criar coisas novas era um direito de
criaturas como os elfos (e nós, claro), mas também reconhecia que isso
abria portas para uma série de tendências não muito agradáveis.

Em grande medida, podemos dizer que ele estava certo. O conhecimento
científico e sua aplicação tecnológica resolvem problemas, mas também
os criam. A poluição, o aquecimento global, a destruição da
biodiversidade na Terra inteira — essas ameaças derivam diretamente
dos últimos séculos de desenvolvimento, quando a humanidade tentou
arrebanhar todos os recursos do planeta para seu próprio benefício.

Para Tolkien, era essa tendência a escravizar a natureza, que sempre
corre o risco de corromper a ciência e a tecnologia, que precisava ser
combatida. O sonho dele era que o conhecimento humano se tornasse mais
parecido com o élfico, no qual as habilidades do Noldor eram usadas
para embelezar ainda mais a natureza e fazê-la florescer, e não para
sugá-la até a última gota. Para o nosso próprio bem, espero que a gente
consiga chegar lá algum dia.

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A volta do hobbit indonésio

Quem acompanha a Valinor há algum tempo deve se lembrar da saga do hobbit da Indonésia — um hominídeo de 1,10 m que viveu na ilha de Flores, no Sudeste Asiático, há 18 mil anos. Alguns antropólogos propõem  que se trata apenas de um humano moderno com deficiência física, mas novos estudos publicados hoje defendem que se trata mesmo de um "hobbit" — de um parente do homem pertencente a uma espécie única. Eu escrevi sobre isso para o G1 hoje. Confira a reportagem na íntegra abaixo.

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 É um novo capítulo na saga do hobbit, e não estamos falando de Frodo, do clássico "O senhor dos anéis". Duas análises publicadas hoje na prestigiosa revista científica "Nature" reforçam a tese de que o hobbit em questão, cujos restos de 18 mil anos de idade foram achados na ilha indonésia de Flores, é mesmo uma espécie bizarramente única de hominídeo (grupo a que pertencem os parentes primitivos do homem e os próprios seres humanos). E, a julgar pelos pés da criaturinha de 1,10 m de altura, ele pode ter sido um hominídeo ainda mais primitivo e estranho do que imaginávamos.

A polêmica nunca se afastou muito da misteriosa criatura desde que um grupo de pesquisadores indonésios e australianos anunciaram sua existência para o mundo em 2004, também nas páginas da "Nature". O hominídeo foi batizado como Homo floresiensis e, por causa de características específicas de seu crânio e esqueleto, foi considerado um descendente do Homo erectus, que já habitava o Sudeste Asiático há cerca de 1,7 milhão de anos.

A ideia é que alguns H. erectus teriam ficado isolados em Flores e simplesmente encolhido — um fenômeno que, por incrível que pareça, é comum com mamíferos isolados em ilhas. (Para efeito de comparação, elefantinhos extintos das ilhas europeias de Sicília e Malta chegavam, quando adultos, ao tamanho de um filhote de elefante africano de hoje.)

O problema é, que desde então, outros pesquisadores contestaram o status do hobbit, afirmando que se trataria apenas de um humano moderno com deficiências físicas e presumivelmente mentais, por conta do crânio e cérebro diminutos. Os críticos argumentavam que o cérebro de um hominídeo jamais encolheria tanto assim, mesmo preso numa ilha, onde o órgão diminui pela falta de ameaças e predadores.

As análises de hoje, porém, mostram que o hobbit, seja lá quem ele for, talvez seja realmente uma espécie bizarra e primitiva, diferente da nossa. A equipe liderada por William Jungers, da Universidade de Stony Brook (EUA), fez uma análise anatômica detalhada dos pezinhos do principal exemplar hobbit, uma fêmea conhecida pelo código LB1.

O que acontece é que, embora o dedão da criatura tivesse a mesma posição do nosso, diferentemente do dos chimpanzés, o pé como um todo é um bocado comprido em termos relativos, em especial quando comparado com os ossos da perna. Trata-se de uma característica tão estranha que sugere que a criatura provavelmente não conseguia correr pelas mesmas distâncias ou com a mesma velocidade que um ser humano moderno.

Essa característica, ao lado de algum detalhes mais técnicos, são mais primitivas do que se vê entre os Homo erectus, o que pode indicar que o verdadeiro ancestral do Homo floresiensis é um hominídeo mais antigo que já tinha passado antes pela Ásia, sem deixar vestígios detectados até hoje. Por enquanto, os antropólogos não arriscam dizer quem seria esse ancestral.  

Em outro artigo científico na mesma edição da "Nature", Eleanor Weston e Adrian Lister, do Museu de História Natural de Londres, estudaram outros mamíferos fósseis que viviam em ilhas para entender a misteriosa redução cerebral do hobbit. As contas que eles fizeram mostram que outros animais, como hipopótamos e elefantes anões, passaram por reduções cerebrais compatíveis com as do hobbit ao viver ilhados. Resta saber se esse argumento calará os críticos.

 
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É amanhã: The Legend of Sigurd and Gudrún

Estamos a uma hora do lançamento oficial de um livro inédito de Tolkien para o público de língua inglesa (e para todo mundo que fala inglês, claro): The Legend of Sigurd and Gudrún vem aí. A obra, com introdução de Christopher Tolkien, já pode ser encomendada em livrarias virtuais do Brasil e dos EUA, entre outros locais. O valor fica em torno de R$ 90,00, por enquanto — a edição é de capa dura. A pergunta que fica é: vale a pena?
 

O tema, claro, merece destaque: trata-se de uma versão feita por Tolkien da história de Sigurd, o grande herói da mitologia escandinava (mais conhecido pelo nome alemão Siegfried), conhecido como "o príncipe dos heróis do Norte". Sigurd é o matador do terrível dragão Fáfnir. Mas, por uma trama de ciúme e traição, acaba sendo assassinado, o que leva à terrível vingança de sua esposa.

 Tolkien escreveu sua versão ao longo dos anos 1920, quando era professor na Universidade de Leeds. Talvez o que mais afugente os fãs, no entanto, seja a forma literária adotada: versos que seguem a métrica tradicional escandinava durante a Idade Média. Também é importante lembrar que Tolkien ainda não havia alcançado a maturidade literária nessa época, a julgar por outras obras do período já publicadas. 

Mesmo assim, se você está disposto a um desafio literário e intelectual, e sabe inglês, claro, ouso dizer que terá grande prazer com a leitura. Eu, pelo menos, já vou encomendar o meu. 

 

 

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Ciência da Terra-média: Dragões!

Após um longo e tenebroso verão e começo de outono, estamos de volta com mais Ciência da Terra-média! E já gostaria de começar lançando uma polêmica aqui: quando o assunto é dragões, Morgoth provavelmente teria mais facilidade em criar um Glaurung do que um Ancalagon ou um Smaug. Entenda o porquê nos parágrafos a seguir, intrépido leitor.
 

Considerando que um dragão não é, em essência, algo muito diferente de
um réptil supercrescido, biologicamente está claro que esse tipo de
criatura não só existe (crocodilos e dragões-de-komodo, certo?) como já
existiu em dimensões até mais assustadoras.

Um dos verdadeiros problemas para a biologia da Terra-média é, eu
diria, a elevada inteligência dos dragões tolkienianos — de fato,
nunca vimos um réptil com um cérebro tão turbinado. Capacidade de
falar, então? Aí complicou. Mas vamos deixar de lado esse aspecto, até
por uma questão de metodologia — imaginemos que a suposta inteligência
dos dragões é um elemento folclórico introduzido por gerações de
humanos que não conviveram com o bicho verdadeiro e só contam histórias
sobre ele. Desconsiderando a inteligência e a fala, quase todo mundo
vai concordar que o elemento definidor de um dragão é sua capacidade de
cuspir fogo. E aí, rola?

Besouros incendiários
Rola, propõe o biólogo britânico Henry Gee, autor do livro "The Science
of Middle-earth" e editor da respeitada revista científica "Nature".
Por analogia com os dragões, Gee lembra que inúmeros animais produzem
substâncias com potência destruidora em suas glândulas. O caso mais
relevante para a nossa discussão é o dos besouros-bombardeiros, que
produz uma mistura de peróxido de hidrogênio e hidroquinona.

Esse bicho, quando ameaçado, lança as duas substâncias numa "câmera de
combustão", na qual elas reagem com a ajuda de uma enzima (proteína que
acelera reações químicas). Resultado: um jato tóxico e fervendo de
benzoquinona, que é lançado contra o atacante do besouro e pode até
matar outros insetos.

Gee sugere que micróbios simbióticos, "morando" nas glândulas salivares
dos dragões, poderiam transformar os açúcares da alimentação do bicho
em éter dietílico. Essa molécula tem a vantagem de ser facilmente
inflamável e muito volátil — ou seja, vira gás facinho, facinho.
Segundo Gee, bastaria que o dragão ejetasse com força a substância que
o calor de sua garganta seria suficiente para gerar um jato de fogo.

E o éter, claro, tem outra vantagem. Como sabemos ao ler as aventuras
de Bilbo ou de Túrin Turambar, o bafo dos dragões é uma droga poderosa,
capaz de causar entorpecimento — igualzinho ao que o éter faz. Com
tudo isso em vista, até fica menos absurdo imaginar criaturas como
Glaurung, um dragão soltador de fogo hipnotizador não-alado.

Cadê as asas?

O bicho realmente pega quando pensamos nas asas. Considere o seguinte:
as asas dos dragões são um terceiro par de membros numa espécie de
vertebrado. O problema é que nenhum vertebrado tem mais do que dois
pares de membros.

Ao longo da evolução, esse padrão foi definido para todos os
vertebrados terrestres — provavelmente porque ele deriva dos nossos
ancestrais, os peixes, que também possuem dois pares de nadadeiras na
parte de baixo de seu corpo.

Muito provavelmente seria preciso reorganizar brutalmente o programa de
desenvolvimento embrionário de um réptil para conseguir produzir um par
extra de membros e transformá-la em asas sem produzir um lagarto
gigante com poliesculhambose congênita. Nada que os engenheiros
genéticos de Angband não fossem capazes de fazer com milênios de
pesquisa, claro.

E no próximo Ciência da Terra-média: Noldor, cientistas?

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Um Primeiro de Abril tolkieniano

Quem abriu a página inicial da Wikipedia em inglês hoje e olhou a seção "Did you know?" (Você sabia?) teve um presente tolkieniano no Primeiro de Abril.
 

A pegadinha da Wikipedia é a seguinte: "Você sabia que em 1825 a Corte do Tesouro [Court of Exchequer, órgão que cuidava das ações de direito civil na inglaterra medieval] declarou que todos os contratos feitos por hobbits eram ilegais e nulos na Inglaterra?

Como diria a fita do Báteman, tá muito engraçadinho, hein, Robin?