Todos os post de Fábio Bettega

Eram os Valar os deuses nórdicos?

Quando Tolkien começou a esboçar sua mitologia, lá pelos meados dos
anos 10 de nosso século, a inspiração mais forte para ele era a dos
mitos do norte da Europa. E, aparentemente, o próprio conceito dos
Valar surgiu influenciado pelos deuses do pantão germânico e nórdico.
 
 
 
A pista para essa possibilidade aparece no livro
The Book of Lost Tales II, que reúne as versões mais antigas das
histórias de Beren e Lúthien, de Túrin, da queda de Gondolin e de
Eärendil. O personagem principal dos Lost Tales, porém, é o marinheiro
humano Eriol, que parte da Europa medieval e navega na direção oeste
até alcançar Tol Eressëa, a Ilha Solitária, onde os Eldar lhe contam as
histórias dos Dias Antigos.

Eriol pertencia ao povo anglo-saxão, e contou aos elfos sobre os deuses
de sua gente, como Wóden e Thunor (para os escandinavos, esses mesmos
deuses seriam Odin e Thor, o senhor de Asgard e seu filho, o deus do
trovão). Ao ouvirem as histórias de Eriol sobre seus deuses, os elfos
imediatamente identificaram Odin com Manwë e Thor com Tulkas.

É claro que essas idéias foram posteriormente abandonadas, tanto pelo
fato de que Manwë não é o pai de Tulkas no Silmarillion que conhecemos,
como pela transformação dos Valar de deuses em Poderes Angélicos, os
guardiões do Criador no mundo. Mas não deixa de ser interessante
imaginar como seria a mitologia do Silmarillion hoje se ela tivesse
continuado com essa orientação.

Bored of the Rings: as histórias que Tolkien não contava

Tudo bem, vamos pôr a coisa em contexto histórico.
O ano é 1969, auge
da contracultura nos EUA, e a edição norte-americana de O Senhor dos
Anéis, lançada pela Ballantine Books em 1965, era um dos maiores
fenômenos da cultura de massa na época. Foi então que dois estudantes
de Harvard, Henry N. Beard e Douglas C. Kenney, resolveram criar a mais
famosa e hilária paródia da trilogia: Bored of the Rings, que copia de
forma corrosiva e às vezes obscena quase todos os aspectos do livro de
Tolkien, até mesmo as línguas élficas, com o seu Auld Elvish,
equivalente ao alto-élfico.
 
 
 

Para se ter uma idéia, imagine como seria esta Companhia do Anel: o
mago Goodgulf (Bomgolfo), os hobbits Frito Bugger (Frito Boiola), Spam,
Mopsi e Pepsi, o humano Stomper (Pisador), o elfo Legolam, o anão
Gimlet, todos contra o temível vilão Sorhed (Cabeça-inchada). Isso sem
falar em Dildo Baggins (Pênis Boiola), tio de Frito, e no alegre e
misterioso Tim Benzedrine (qualquer semelhança com Tom Bombadil NÃO é
mera coincidência).

Entre centenas de cenas hilariantes, vale a pena citar a “brilhante”
solução do mago Goodgulf para abrir os portões de Nikon-zoom (Moria):
“De repente o mago ficou em pé. ´A maçaneta!´, gritou, e ficando na
ponta dos pés, girou a grande maçaneta com as duas mãos”. Ou a tentação
de Frito Bugger por uma elfa, digamos, assanhada: “´Tu gostas do que
vês?´, dizia a voluptuosa donzela élfica enquanto provocativamente
abria seu vestido e revelava as belezas arredondadas e sombrias lá
dentro. ´Deixa que eu te ponha mais à vontade´, disse ela, e começou a
desabotoar o casaco dele. ´Mas…mas…eu sou tão p4queno e peludo, e
você é tão linda!´, sussurrou Frito. ´Há uma coisa que eu quero que tu
faças antes´, disse a donzela élfica. ´Qualquer coisa! Qualquer
coisa!´, disse Frito. ´O Anel. Preciso ter o teu anel´. ´Oh, não!´,
disse Frito. Tudo menos isso!´”

Ainda existem disponíveis exemplares americanos de Bored of the Rings,
numa edição de 1993. Se você se divertiu com essas tiradas heréticas
sobre a obra tolkieniana, não custa tentar encontrá-lo no site da Amazon.

3901278-3554595051-dark-

Terra-média, o Um Anel de Morgoth

Quem lê sobre o final da Guerra da Ira e a derrota de Morgoth, o primeiro Senhor do Escuro, no Quenta Silmarillion, tende a ficar abismado com a violência do ataque dos Valar. Afinal, para derrotar o Inimigo do Mundo, o exército de Valinor afunda quase toda  Beleriand.
Pouca gente sabe, mas Tolkien deixou um ensaio que explica de maneira muito clara o porquê de toda essa destruição. Publicado no livro Morgoth’s Ring, o décimo da série The History of Middle-earth, o texto explica que Morgoth “fixou” sua forma física, ao contrário dos outros Valar, para “controlar a hroa, a ´carne´ ou matéria física, de Arda. Ele tentou identificar-se com ela, num procedimento muito parecido com o de Sauron e os Anéis, embora muito mais vasto e perigoso. Assim, fora do Reino Abençoado, toda ´matéria´ tendia a ter um ´ingrediente de Melkor´”.
Silma John Howe melkor3

Tolkien explica que, dessa forma, Morgoth foi transferindo sua antiga potência “angélica” para a própria Terra-média: “Por essa razão, Morgoth tinha que ser combatido, principalmente através de força física, e uma enorme destruição material seria o resultado provável de qualquer combate contra ele (…) Esta é a principal explicação para a contínua relutância dos Valar em entrar em combate aberto com Morgoth. A tarefa e o problema de Manwë eram muito mais difíceis que os de Gandalf. O poder de Sauron, relativamente menor, estava concentrado; o vasto poder de Morgoth, disseminado. Toda a Terra-média era o Anel de Morgoth”.

O grande dilema dos Poderes do Mundo era que Arda seria irremediavelmente desfigurada, seja na vitória ou na derrota. Mas no fim, como sabemos, os Valar prevaleceram – ainda que pagando um alto preço.

Que tal seu nome em Quenya?

Se não dá pra simplesmente aprender quenya de uma hora pra outra, saber
o próprio nome na língua mais importante do universo tolkieniano já é
um grande avanço. Esse é o objetivo da página Quenya Lapseparma (Livro
dos Bebês em quenya), que provê um verdadeiro dicionário de nomes
ocidentais traduzidos para o alto-élfico.
 
 
 
De acordo com Ales Bican, criador da página, a
idéia de fazer essa listagem surgiu quando ele leu o artigo “Now we
have all got Elvish names” (Agora todos nós temos nomes élficos),
escrito por Helge Fauskanger, do site Ardalambion, um dos melhores em
atividade sobre lingüística tolkieniana. “Peguei alguns dicionários de
nomes em inglês, como o Oxford Dictionary of English Christian Names, e
comecei a tentar a tradução para o quenya”, conta Bican.

O resultado, bastante completo, revelou algumas surpresas. O nosso
prosaico Marina (em latim, “mulher do mar”) se equipara a Eärwen
(eär=mar + wen=donzela), o nome da mãe de Galadriel; Sansão (em
hebraico, “filho do Sol”) é idêntico ao nome do filho caçula de
Elendil, Anárion (anar=sol + ion=filho de).

Vale lembrar que sobrenomes também podem ser traduzidos, embora não
apareçam na lista de Ales Bican. O brasileiríssimo Silva (em latim “da
floresta”) ficaria Aldaron, enquanto Lopes (espanhol antigo “filho do
lobo”) seria Narmion. O endereço do Quenya Lapseparma é
http://www.elvish.org/elm/names.html

Já o ensaio de Helge Fauskanger pode ser lido em http://www.uib.no/people/hnohf/elfnam.htm

Romance relata saga de Isildur

Embora esboçada em muitos livros de Tolkien, a história da derrota de
Sauron pelos exércitos da Última Aliança, no final da Segunda Era,
nunca foi contada numa narrativa completa. Os irmãos americanos Brian e
Gary Crawford, fãs de carteirinha de O Senhor dos Anéis, decidiram
remediar isso, e escreveram uma das mais elaboradas fans fictions já
inspiradas por Tolkien: o romance Isildur.
 
 
 
A intenção dos dois irmãos, a julgar pela leitura
do livro, foi realmente esclarecer os “cantos escuros” deixados por
Tolkien na narrativa sobre a Última Aliança. Na verdade, a história se
passa depois que as tropas de Elendil e Gil-galad conseguiram invadir
Mordor, impondo um cerco de sete anos a Barad-dûr. Isildur, liderando
os soldados de Gondor, percorre praticamente toda Rhovanion, reunindo
forças para o ataque final a Sauron.

Mas o herdeiro de Elendil
enfrenta a oposição dos Numenoreanos Negros de Umbar, liderados pelo
cruel Malithôr (que, no decorrer das Eras, se tornaria o terrível Boca
de Sauron). Através de ameaças, Malithôr consegue dissuadir muitos
aliados de Gondor a ajudar Isildur, entre eles os homens de Erech, que
são amaldiçoados pelo filho de Elendil (outra história que fica na
sombra em O Senhor dos Anéis). Um último conselho de Elfos e Homens é
reunido em Osgiliath, e a Aliança parte para sua cartada final.

O romance é uma leitura agradável e bastante fiel ao clima do universo
tolkieniano, embora os autores pequem em alguns detalhes.