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As Pessoas de Eriador 2000 a 3017 da Terceira Era

“As terras vazias onde nenhum homem vive”

Esse artigo discute o cenário desolado da povoação de Eriador na época da Guerra do Anel. No início da Terceira Era, Eriador havia sido habitada principalmente por Elfos de Lindon, os Anões de Khazad-dûm e Pessoas de Anor. Anor foi arrasada por conflitos internos 861+, a guerra com Angmar 1300+ e a Grande Praga de 1636, “…na qual muitas partes de Eriador foi desolada” (SDA, Conto dos Anos 1636). Em 1974 Anor foi conquistada por Angmar e sua cidade que se mantinha (Fornost Erain) arruinada. Apesar da completa derrota de Angmar em 1975, o Reino do Norte poderia ainda ser revivido. Em 1981 a cidade dos Anões de Khazad-dûm foi perdida para um Balrog. Calmamente colonizadores entraram em Eriador durante a Terceira Era: os Hobbits desde 1050 instalaram-se por Anor e Anões reassentaram-se nas Montanhas Azuis desde 2799, mas a tendência era o declive da população.

No milênio antes da Guerra Do Anel, os sobreviventes de Eriador encararam desastres naturais (como por exemplo, o Inverno Longo em 2758 e o Inverno em) e a ameaça de criaturas do mal (trolls, orcs, lobos). Algumas povoações deterioraram-se (ex. Tharbad), outros sobrevivente (a Aldeia de Bri) e até mesmo prosperaram (ex. O Condado, de onde habitantes instalaram-se na Terra dos Buquês). Na época da Guerra do Anel, no entanto, “… uma grande parte de Eriador estava deserta” (SDA Apêndice F, p.1161). No sul a terra erma de Minhiriath ” tinha sido quase toda deserta … desde a Grande Praga” ( Unf Parte 2, IV, apêndice D, p.262), enquanto no leste, a Elfica Eregion não tinha sido colonizada desde a Segunda Era e Rhudaur era descrita como inabitada: “Ninguém vive nessa terra, Homem uma vez morou aqui, mas nenhum permanece agora.” (Aragorn, SDA L1, CXII, p.218;veja também TH C2 p.40).Exemplos de tipos de comunidades Hobbits ou povoações que continuaram em Eriador entre o ano de 2000 a 3017 da Terceira Era, inclui grupos de caçadores/nômades como os Lossoth, um camarada Másculo que vivia ao longo da Baia de Gelo de Forochel do extremo norte (SDA Apêndice A, I, iii, p.1078); Também na época da Guerra do Anel “… alguns caçadores sigilosos viviam na floresta” de Minhiriath (Unf P.262).

Tharbad: Oficialmente um porto maior, essa cidade declinou depois da Grande Praga em 1636, ainda sobreviveu até ser arruinada pela enchente de 2911 (SDA, Conto dos Anos), quanto então seus habitantes a deixaram deserta; a ‘ Hospedaria Esquecida’: uma casa publica um dia ao leste de Bri, na Estrada Leste-Oeste (SDA L1, CXI, p.204): Aldeia de Bri: Essa consiste nas vilas de Staddle, Coombe, Archet and Bri “Próximo às colinas de Bri estava um interior de campos e florestas insípidas, há apenas algumas milhas de distância. .” (SDA L1, CIX, p.165). Havia necessariamente uma comunidade auto-suficiente, embora eles fizessem negócios com o Condado para a Erva de Fumo e servirem viajante na estrada: O Condado: uma terra bem acentuada e de grande extensão, excepcional em Eriador, embora indique que fosse possível para colonização sobreviver e vicejar. Era em sua maioria agrícola e mantinha pouco contato com outras pessoas e comunidades. Uma variedade tão grande de tamanho de povoamento, mas tinham uma existência em comum: cultivo, colheita ou caça, enfrentando perigos ocasionais causados por bestas caídas, vigiados pelos Guardiões, visitados de tempo em tempo por Anões ferreiros e outros estranhos, pouco tocada por forças do mundo exterior.

Está claro pelos argumentos a cima que os povoamentos eram raros: A Aldeia de Bri é descrita como “… uma região habitada, como uma ilha com terras inabitadas em volta dela”. (SDA L1, CIX, p.165). A maioria dos povoamentos eram raças não Masculinas: Os Elfos de Lindon e Valfenda, os Anões das Montanhas Azuis, Criaturas selvagens ou malignas ( de Charneca Etten, Colinas dos Tumulos, Floresta Velha, etc), e os Hobbits do Condado. As pessoas do Condado, os moradores de Bri e os Guardiões do Norte são as únicas referencias claras de pessoas que ainda habitam de região antiga de Arnor (SDA, L1, CIX, p.165). Isso era tudo que restou?

Eu prefiro a existência de outras povoações pequenas de Homens (e Hobbits), isolados por distância, auto suficiência, e governo próprio, desde a passagem do Reino do Norte (1975). Essa visão faz mais sentido de vários comentários feitos no Senhor dos Anéis e nos Contos dos Anos (por exemplo: o esforço dos Guardiões em repelir os Orcs de Eriador 2740+), e ainda preservar a imagem de Eriador dada pelo professor Tolkien, porque em comparação com as terras do leste das Montanhas Sombrias e no contexto de uma região maior que a Península Ibérica na Europa, a terra ainda seria uma muito escassamente habitada.

As evidências para haver vários outros povoamentos inominados vem de dois comentários gerais. O primeiro diz respeito aos Hobbits:

“Os Hobbits do Condado se referiam a aqueles de Bri, e outros que viviam além das fronteiras como Forasteiros, e eles se interessavam pouco por eles, os considerando enfadonhos e rudes. Havia provavelmente mais Forasteiros dispersados no Oeste do Mundo naqueles dias do que as pessoas do Condado imaginavam”. (SDA L1,CIX, p.166)

O Leste do Mundo se refere a uma região entre o Mar de Rhûn e o Mar do Oeste. Então essa passagem não exclui a idéia que comunidades de Hobbits existiam em Eriador, outras além daqueles do Condado e da Aldeia de Bri, especialmente porque os Hobbits tinha se assentado primeiramente em outro lugar em Eriador, antes do Condado ser estabelecido no ano de 1601 da Terceira Era.

A próxima evidencia diz respeito aos Homens e Hobbits em geral. Os Guardiões do Norte eram descendentes dos Dunedain de Arnor, os quais, depois da queda do Reino, haviam se tornado protetores dos habitantes comuns de seu antigo reino. Eu presumo que eles viviam em acampamentos pequenos, talvez próximos as antigas cidades chefe nas Colinas Vesperturvo e nas Colinas do Norte, ou ainda viviam em casas élficas. Eles eram uma pequena família (SDA L2, CII, p.264): por exemplo, os trintas que vieram do Norte em ajuda a Aragorn na Guerra do Anel eram: “… foram todos de nossos parentes que pudemos reunir em pressa.” (Halbarad, SDA L5, CII, p.806). Quem eles protegiam? Aragorn no Conselho de Elrond falou a respeito de seus papéis e a quem eles serviam:

“Paz e liberdade, você diz? O Norte as conheceriam um pouco, mas por nós. Que estradas alguém ousaria viajar, que segurança haveria em terras tranqüilas, ou nas casas de homens simples à noite, se os Dúnedain estivessem dormindo?” (SDA L2, CII, p.265).

Essa gente “o homem simples”, são as pessoas restantes em Eriador (Pequenos e Homens), vivendo em paz em pequenas vilas ou fazendas. Mas como seus guardiões os Dúnedain, eles são pouco e escassos. Eriador entre o Rio Lune e as Montanhas Sombrias era menos habitada do que a maioria das partes de Rohan, Gondor, Harad ou Rhun e era desolado em partes. De qualquer forma mais povoamentos sobreviveram do que está diretamente mencionado em O Senhor Dos Anéis. Seus nomes e locação exata são desconhecidos a mim, mas com tudo, eu acho que é possível imaginar suas existências.

(* Artigo citado em sua maioria de O Lamento de Aragorn por Boromir*)

[Tradução de Taís 'Linda Sacola' Bachega]

Todos os cavalos dos reis e todos os homens do rei

“Osanwë-Kenta” é um estudo interessante, porém confuso. Christopher Tolkien acredita que ele foi composto ao mesmo tempo que “Quendi e Eldar” (cerca de 1959), cuja maior parte foi publicada no War of the Jewels (N. do T.: Guerra das Jóias, um dos HoME). “Quendi e Eldar” é uma coleção de pequenos estudos que provêm o desenvolvimento etimológico de certas palavras que os elfos usavam para nomear a si mesmo e outros povos, ou para se referir a indivíduos de certas maneiras.

O primeiro texto é carregado com notas históricas e anedotas que revelam muito mais sobre a história élfica que algumas passagens do Silmarillion. Infelizmente, o material do “Quendi e Eldar” não é compatível com O Silmarillion. E apesar de sabermos que as decisões editoriais de Christopher Tolkien impactaram o texto do Silmarillion consideravelmente, as discrepâncias entre esses dois trabalhos vão bem além dos possíveis erros editoriais.

“Quendi e Eldar” é intitulado “Origens e significados do élfico referindo-se aos elfos e suas variedades. Con apêndices dos seus nomes para outros Incarnados.” “Osanwë-Kenta” é intitulado “Investigação sobre a Comunicação de Pensamento”. E se o assunto estipulado desses dois trabalhos não é diferente o bastante, um terceiro corpo de escritos também está associado à eles: um estudo sobre a origem dos Orcs, publicado no Morgoth’s Ring (HoME), com uma introdução na página 415 que menciona “Quendi e Eldar” e “Osanwë-Kenta”.

Christopher publicou o estudo de Orcs primeiramente como parte da coleção de escritos “Myths Transformed”, no qual a cosmologia da Terra-Média foi gradualmente expandida e revisava para excluir algumas das mais velhas tradições datadas de 1916-17.

A conexão entre “Orcs” e “Quendi e Eldar” fica na entrada do Apêndice C do “Quendi e Eldar”, onde Tolkien escreve:

“…Os Orcs das últimas guerras, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-Média, não eram espíritos ou fantasmas, mas sim criaturas vivas, com capacidade de fala, de manufatura e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de seus mestres. Eles se multiplicavam rapidamente sempre que não eram perturbados. É impossível, como a consideração da origem final dessa raça deixa claro, que os Quendi tenham encontrado qualquer raça ou tribo de Orcs, antes de serem achados por Orome e a separação dos Eldar e Avari.”

Christopher escreve: “Sem dúvida meu pai perdeu o controle das palavras em ´É impossível, como a consideração da origem final dessa raça deixa claro…´ para escrever aquele ´consideração´…” E este é o estudo sobre Orcs, quando Christopher colocou no Morgoth’s Ring o que deve ser um dos mais confusos e debilitantes preâmbulos da história da escolaridade literária.

Morgoth’s Ring foi publicado em 1993, e o War of the Jewels veio em 1994. Um ano depois de ler essa introdução ao estudo dos Orcs, finalmente nos permitem ver o trabalho em quase toda sua plenitude. Porém, não o seria até Vinyar Tengwar de Julho de 1998 (número 39) ser publicado, quando finalmente seríamos introduzidos à uma parte substancial do apêndice D do “Quendi e Eldar”, que Christopher tinha omitido da publicação por “falta de espaço”.

Bem, ninguém pode discutir muito com “falta de espaço”. Muitas pessoas esperaram mais de 40 anos para ver como os reais apêndices do Senhor dos Anéis pareciam, graças à “falta de espaço” que forçaram J.R.R. Tolkien a diminuir o material para até metade do conteúdo original. Mas a “falta de espaço” não deixou a coleção “Quendi e Eldar” num estado incompleto e desgrenhado. Porque, você verá, outra parte do “Osanwë-kenta” foi publicado no Vinyar Tengwar de Julho de 2000 (Número 41). As “notas etimológicas no Osanwë-Kenta” eram desconhecidas à Carl Hostetter quando ele publicou “Osanwë-kenta” numa antiga edição do VT.

A história inteira parece com isso:

Perto do ano 1959, J.R.R. Tolkien colocou de lado seus esforços n´O Silmarillion para dar a si mesmo um pouco de história. Numa entrevista à televisão datada da metade dos anos 60, Tolkien disse que ele desgostava da história se não fosse uma história das palavras. Palavras dizem muito sobre as pessoas que as usavam, e ele gostava de explorar tais assuntos. “Quendi e Eldar” é então uma aventura na história pelas palavras. As palavras sozinhas significam pouco a menos que tivessem uma história acompanhando, então Tolkien criou essa história.

Estudando as raízes das palavras élficas para “povos” (e palavras correlatas), Tolkien descobriu de onde as três famílias vieram, e daí ele aprendeu quem eram os pais elfos. Pelo caminho ele notou que os elfos de Cuivienen devem ter encontrado alguns tipos de proto-orcs mas não os verdadeiros orcs das guerras, e ele tinha que descobrir de onde esses orcs vieram para entender porque isso deveria ser.

Mas à medida que ele ia documentando a história da linguagem, seu uso e desenvolvimento, Tolkien não podia deixar de falar sobre a língua e de como os Noldor a estudava. Eles estudavam sua própria língua e o Valarin (a língua de Valinor), assim como o dialeto de Quenya falado pelos Teleri de Alqualonde e o que falavam os Vanyar. O Silmarillion nota que a língua dos Teleri mudou durante sua jornada em Tol Eressëa, e foi sem dúvida essa velha tradição que (em parte) inspirou Tolkien a devanear sobre os obscuros caminhos da história da linguística élfica.

Mas como o “Osanwë-kenta” entra nisso?

A conexão parece ser o evasivo Pengolodh, que aparece aqui e ali nos HoME. Pengolodh era um senhor da tradição Noldorin, um dos Lambengolmor (Conhecedores das Línguas). Ele era um elfo do povo de Turgon em Gondolin, e tinha uma filiagem mista, Noldor e Sindar. Pengolodh sobreviveu à queda de Gondolin e (presumivelmente) vagou com o grupo de exilados do bando de Tuor e Idril. Ele chegou em Eregion na Segunda Era, e eventualmente fugiu da Terra-Média quando aquele reino foi destruído. Pengolodh era o último membro sobrevivente dos Lambengolmor quando navegou através do Mar.

Osanwë-kenta abre com o seguinte parágrafo:

“No fim do Lammas Pengolodh discute brevemente a transmissão de pensamento (sanwë-latya “though-opening”), fazendo várias asserções sobre ele, que evidentemente são baseadas em teorias e observações dos Eldar, que em algum lugar eram dissertadas longamente. Eles estão preocupados primeiramente com os Eldar e os Valar (incluindo os Maiar nessa ordem). Homens não são especialmente considerados, exceto no caso de estarem no mesmo nível dos Incarnados (Mirroanwi). Deles Pengolodh diz apenas: “Homens tem a mesma faculdade dos Quendi, mas são mais fracos graças à força do hröa, sobre o qual a maioria dos homens tem pequeno controle.”

“Osanwë-kenta” é apresentado como o trabalho de um autor inominado – provavelmente Bilbo Bolseiro, apesar de Carl Hostetter notar “é… tentador identificar esse redator, como aquele do ´Quendi e Eldar´, como Ælfwine, o marinheiro anglo-saxão que foi o tradutor e comentador de outros trabalhos de Pengolodh, tais como o Quenta Silmarillion (LR: 201, 203-4, 275 fn) e, notavelmente, Lhammas B (cf. LR:167)”.

Porém, em 1959 Ælfwine tinha desaparecido da mitologia e todas as traduções confiáveis do élfico foram atribuídas a Bilbo (o autor oginial d´O Livro Vermelho do Marco Ocidental) e subsequentes escolados, incluindo Merry, possivelmente um ou mais Tuks, e ao menos um escolado gondoriano: Findegil, o escriba do rei, que fez a cópia do Livro do Thain, que Tolkien alega ser sua fonte para o SdA. Tolkien valida o Livro do Thain como a autoridade suprema em muitas coisas salvo as histórias de Bilbo e Frodo (no prólogo do SdA):

“O Livro do Thain foi então a primeira cópia feita do Livro Vermelho e continha muito que tinha sido omitido ou perdido. Em Minas Tirith ele receber anotações, e muitas correções, especialmente nomes, palavras, e citações nas línguas élficas; e ali lhe foi adicionado uma versão abreviada do Conto de Aragorn e Arwen, fora do conto da Guerra. O conto inteiro é dito ter sido escrito por Barahir, neto de Faramir, algum tempo depois da morte do Rei. Mas a importância maior da cópia de Findegil era que ela continha todo o trabalho do Bilbo em “Traduções do élfico”. Esses três volumes eram um trabalho de grande perícia e conhecimento, no qual, entre 1403 e 1418, ele usou todas as fontes disponíveis para ele, vivas e escritas. Mas desde que eles foram usados por Frodo, quase totalmente preocupado com os Dias Antigos, nada mais é dito dele aqui.”

É possível que o narrador inominado fosse Findegil, ou outro escolástico gondoriano (de fato, foi meu primeiro impulso sugerir isso), mas Bilbo também conquistou um status de sábio nas palavras “Esses três volumes eram um trabalho de grande perícia e aprendizado…”. Quem, devemos perguntar, notou-os serem grandes trabalhos? Talvez a pesquisa de Bilbo só fora totalmente apreciada em Gondor, e provavelmente somente depois que Peregrin retraiu-se para Gondor em FA 64, levando o Livro do Thain com ele (à pedido de Elessar)

Alguns dos comentários dos apêndices do SdA estão entre aspas, que é a maneira de Tolkien de sugerir que está citando diretamente do Livro Vermelho. Por exemplo:

“Nosso rei, nós o chamamos; e quando ele vem para o norte e fica um tempo perto do lago Evendim, então todos do Condado ficam felizes. Mas ele não entra nessa terra, e se prende à lei que criou, que ninguém do Povo Grande deve passar essas bordas. Mas ele cavalga frequentemente com alguns amigos até a Grande Ponte, e lá ele saúda seus amigos, e outros que quiserem conhecê-lo; e alguns cavalgam com eles e ficam em sua casa pelo tempo que desejarem. O Thain Peregrin esteve ali muitas vezes, assim como o Mestre e Prefeito Samwise. Sua filha Elanor a Bela é uma das donzelas da Rainha Vespertina.”

Essa passagem deveria ter sido escrita entre os anos FA 15 e 30, os anos nos quais Elanor virou uma donzela da rainha e casou-se com Fastred de Greenholm. A língua não é nada comparada com os comentários do “Osanwë-kenta” e outros trabalhos sobre os Dias Antigos. Mas não pode ser o comentário de Bilbo porque ele não estava no Condado durante essa época. O “Traduções do Élfico” do Bilbo representa então um espaço em branco que Tolkien teve que preencher com o tempo. “Quendi e Eldar”, “Osanwë-kenta” e “Orcs” (para não mencionar o próprio Silmarillion) são todos partes de trabalhos antigos que Bilbo traduziu e preservou.

Bilbo era um mestre linguista, e sua mão deve ter sofrido à cada história que gerou o Livro Vermelho. Ele sabia Quenya e Sindarin, e deve ter aprendido bastante com os elfos de Valfenda, alguns dos quais se dúvida conheciam Pengolodh. De fato, pode ser que o povo de Elrond, sendo em maioria Noldor, eram mais familiares com Pengolodh do que outros senhores élficos, dos quais muitos poucos são nomeados. O colapso total da civilização Eldarin na Primeira Era, e a perda de muitos elfos no fim da Segunda, teria diminuído o poço de recursos que Elrond lhe proveu, e até os próprios recursos de Bilbo eram limitados.

O propósito de “Osanwë-kenta” é explicar como, ou porquê, dois seres podem se comunicar por pensamento. Mas rapidamente cai numa discussão sobre o personagem de Melkor e suas motivações, opostas às de Manwë. Melkor usa a habilidade inata comum à todas as criaturas racionais (diminuídas em certas ordens, como elfos e homens) para se comunicar por pensamento como uma maneira de aproximar-se e seduzir as vontades dos seres mais fracos. Ele não poderia forçar outra vontade à fazer o que desejasse, não até ele ter iludido-a. Isto é, Melkor não pode influenciar diretamente o pensamento de outro ser, mas poderia indiretamente levar outros seres a pensar que eles quissessem fazer tal. Entre os Eldar de Aman, ele contava com a linguagem, cuja maestria impressionava até mesmo os Vanyar, apesar de Manwë ter-lhes advertido que Melkor teria adquirido tal habilidade com sua língua.

O estudo termina com uma discussão sobre a decisão de Manwë ter restaurado a liberdade à Melkor. Ele concorda dizendo que, se Manwë não tivesse feito isso, ele teria ficado como Melkor, rebelde aos olhos de Ilúvatar. Uma das notas atadas ao estudo também fala de premonição. Comunicação de pensamento, a natureza do bem e do mal, premonição – inclusive a idéia de se um Valar pode ficar preso numa forma escolhida (corpo) – “Osanwë-kenta” viaja por todo lugar, pulando de idéia em idéia quase tão rápido quanto a pena do autor.

O material do final dos anos 50 representa uma era altamente produtiva de carreira de Tolkien, apesar de insatisfatória. Quanto mais escrevia sobre a Terra-Média, mais tinha que escrever para explicar o que tinha escrito. Respostas viraram questões, questões continuaram sem resposta, e idéias rolavam de sua mão como rochedos na montanha de Caradhras.

Parece, todavia, que tudo estava levando de volta à mitologia que Tolkien escreveu para o Senhor dos Anéis. A porção do Apêndice D do “Quendi e Eldar”, que Christopher omitiu do War of the Jewels, fala principalmente com a carreira de Fëanor como um senhor da tradição élfica. O estudo da línguagem de Fëanor e suas motivações políticas são mais elucidadas no “A Senha de Fëanor”, que Christopher publicou no The Peoples of Middle-Earth, o décimo-segundo e último volume da série HoME.

Linguistas focaram-se na primeira parte do “Senha” porque ele provêm detalhes sobre o desenvolvimento do Quenya Noldorin, enquanto historiadores se focaram na segunda parte do “Senha” porque ele oferece detalhes na geneologia final dos Noldor. “A Senha de Fëanor” foi composta em 1968 ou depois, e foi terminado quase uma década depois do “Quendi e Eldar”. Parece, logo, que Tolkien se sentiu insatisfeito com o que escreveu no “Osanwë-kenta” e decidiu expandir a história de Fëanor. Christopher conclui, no HoME, que seu pai usou genealogias escritas no fim dos anos 50 enquanto escrevia no “A Senha de Fëanor”. É possível, até provável, que Tolkien tinha alguns ou todos os papéis do “Quendi e Eldar” ao alcance.

Porém, como Ælfwine, cuja última aparição ocorreu em algum lugar dos anos 50 (de acordo com a própria análise do Christopher), Pengolodh está estranhamente silencioso no “A Senha de Fëanor” e nos textos que o acompanham. Os textos de Pengolodh foram despedaçados com o tempo, e a tradição sobre Pengolodh caiu em más línguas com Tolkien. A necessidade de prover uma voz anciã para as traduções de Bilbo foi colocada de lado pela necessidade de Tolkien de revisar a cosmologia e aplacar seu senso de perfeição. No curso dessas mudanças, ele inevitavelmente esqueceu de alguns conceitos que ele tinha apenas tocado.

Nós sabemos agora que os Vanyar não apenas vagueavam pelas florestas de Valinor ou sentavam-se nos salões de Manwë e ficavam cantando o dia inteiro. “A Senha de Fëanor” (na seção publicada na Vinyar Tengwar de Julho de 2000) e, numa outra extensão, “Osanwë-kenta” indica que os Vanyar tinham seus próprios mestres de tradição, alguns dos quais argumentaram com Fëanor sobre princípios linguísticos. Podemos deduzir que os Vanyar tinham uma curiosidade quanto à linguagem que quase se igualava à dos Noldor. Mas os Vanyar podem não ter se importado com a história da linguagem tanto quanto seu uso. Os senhores de tradição Vanyarin de fato concordam com Fëanor em teoria, sobre a questão de objetar a mudança no som, mas por causa de sua veemência em condenar a mudança, Fëanor alienou seus potenciais aliados entre os Noldor e os Vanyar.

Também é possível deduzir algo da história de Aman depois do fim da Primeira Era de alguns desses escritos e outros textos. Tolkien ocasionalmente joga uma alusão à Aman no presente, talvez inconscientemente, talvez com vontade de tornar possível algum contato com as Terras Imortais. Nos disseram que muitos dos escritos sobre Númenor foram perdidos na Queda. Então, toda a correspondência com os Eldar de Tol Eressëa, e os jornais e contos sobre as visitas dos Elfos, foram perdidos. No máximo, Elendil e seu povo trouxeram alguns livros de Númenor, mas destes muitos se perderam pelos séculos e pelas guerras. A perda das fontes numenoreanas livrou Tolkien de escrever muitas histórias. Mas também reforça a visão de que qualquer texto razoavelmente completo falando dos Dias Antigos está no “Traduções do Élfico” de Bilbo Bolseiro

Apesar de Tolkien ter contemplado como produzir os 3 volumes das “Traduções”, é evidente que ele nunca procedeu muito longe nesse caminho, e preferiu escrever e reescrever as historias principais do “Quenta Silmarillion” e seus textos acompanhantes. Os estudos linguísticos são experimentais, e nos dão pequenos pedaços de sabedoria ao longo do processo de desenvolvimento. Como Humpty-Dumpty na sua cantiga de ninar, as Traduções do Élfico representam uma herança perdida que nem meso um exército de pesquisadores seriam capazes de recuperar. Não há nada realmente a recuperar, mas “Quendi e Eldar”, “Osanwë-kenta” e “Orcs” podem merecer atenção especial no futuro. Nós provavelmente só começamos a juntar as peças.

[Tradução de Aarakocra]

Quem foram os verdadeiros heróis da Terra-Média?

Provavelmente a história mais tocante em todo o legendário de Tolkien é aquela de Beren e Lúthien. Eles são os verdadeiros heróis da Terra-Média, os primeiros e únicos dentre os Elfos e Homens a conseguirem qualquer resultado palpável contra Morgoth na nefasta Guerra das Silmarils. Eles também são os únicos heróis da Primeira Guerra a serem atribuídas quaisquer considerações significativas nas páginas de O Senhor dos Anéis.

Muitos fãs de Tolkien sabem que Beren e Lúthien eram uma metáfora para o relacionamento romântico de Ronald Tolkien e Edith Bratt, mas é raro o impacto da realidade de seu romance sobre as estórias de Tolkien tomados em total consideração pelos críticos ou eruditos. Tolkien era três anos mais novo que Edith, assim como Beren era equivalente em milhares de anos mais novo que Lúthien. O tutor de Tolkien, Padre Francis Morgan, cultivou a educação de Ronald e pretendia que ele alcançasse algo maior na vida do que apenas se juntar com uma garota e ter uma família. Ele parecia sentir que o relacionamento de Tolkien com Edith ameaçava o alcance de uma educação superior. Thingol achava que Lúthien merecia um melhor companheiro do que um simples Homem, especialmente um cuja casa havia sido destruída na guerra.

O Padre Francis obteve sucesso ao separar Ronald e Edith por um período de três anos, mas quando o jovem alcançou a maioridade, ele escreveu a Edith e garantiu que seus sentimentos eram fortes como sempre. Humphrey Carpenter, biógrafo de Tolkien, escreve “Houve declarações e promessas … que Ronald achava que não seriam fáceis de quebrar. Além do mais, Edith havia sido seu ideal nesses últimos três anos, sua inspiração e sua esperança para o futuro. Ele alimentou e cultivou seu amor por ela de forma que cresceu em segredo, mesmo tendo sido alimentado unicamente em suas memórias de adolescência e fotos de Edith em sua infância..” (Carpenter, “Biography”, p.68).

Seu romance inicial incluía excursões secretas e confidenciais, assim como Beren e Lúthien, que se encontravam secretamente em Doriath, principalmente após Padre Francis ter descoberto pela primeira vez o relacionamento deles e ter demandado que Ronald terminasse-o. Como Beren nos bosques de Doriath, Ronald começou seu “pagamento de angústia pelo destino que foi dado a ele” quando ele teve que se despedir de Edith por três anos. “Três anos é algo terrível”, escrevera Ronald em um diário que manteve em períodos que se sentia mal.

O relacionamento de Beren e Lúthien trouxe imensas mudanças pessoais as suas vidas, assim como às vidas das pessoas que os cercavam. Apesar de que alguns paralelos podem ser encontrados no relacionamento de Ronald e Edith, seria fantástico e poético identificá-los fortemente. Beren era um guerreiro, mas também um fora-da-lei e crescera para a humanidade com seu pai, e perdera sua mãe quando Emeldir levou as últimas mulheres e crianças de Dorthonion.

A Guerra ofuscara o início da vida de ambos os casais. O povo de Beren foi assassinado ou levado na Dagor Bragollach e seus resultados, e o povo de Lúthien foi finalmente levado para a periferia da longa guerra entre os Noldor e Morgoth quando os Orcs começaram a atacar as fronteiras de Doriath. Tolkien partira para servir o exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial, e, enquanto se recuperava de um caso atípico de Febre das Trincheiras, o que o levou a voltar para a Inglaterra, Tolkien começou a escrever os Lost Tales. Nessa altura, todos seus antigos amigos de Oxford, menos um, haviam sido mortos na guerra, tal como Beren, cujos companheiros, em sua maioria, morreram em Dorthonion. Tolkien estava isolado de seu passado.

Talvez a morte mais comovente dentro do pequeno círculo de amigos do Tolkien foi a de Geoffrey Bach Smith, que se uniu ao grupo de amigos de Ronald no colégio, conhecido informalmente como T.C., B.S. (Tea Club, Barrovian Society). Com a influência de Smith e o amor de Ronald por grandes épicos, o grupo começou a desenvolver um total apreço por poesia, e perto do fim de sua breve vida, Smith escreveu a Tolkien: “O meu consolo é que se falhei hoje – estarei indo descansar em alguns minutos – ainda haverá um membro do grande T.C.B.S. para divulgar o que sonhava e naquilo em que todos concordávamos. Pois a morte de um de seus membros não pode, de maneira alguma, desfazer o T.C.B.S. A morte pode nos deixar relutantes e incompetentes como indivíduos, mas não pode pôr um fim aos quatro imortais!…” (Ibid., p. 97).

Em muitas maneiras eu acho que Tolkien manteve vivo o sonho divulgado por Smith, e ele provou as palavras de Smith profeticamente, pois muitos anos após a morte do próprio Tolkien, seu “Lay of Leithian”, apesar de incompleto, é idolatrado pelos muitos fãs que foram privilegiados ao lê-lo. O poema é rico e comovente, romântico e épico em tema e estilo. E ele detalha o amor de Beren e Lúthien com uma paixão que nunca morrerá.

Nós conhecemos apenas um vislumbre do fogo e profundidade da estória, quando Aragorn procura confortar os Hobbits do Condado na escuridão do Topo do Vento. “Vou contar-lhes a história de Tinúviel – disse Passolargo. – Resumida, pois essa é uma longa história da qual não se sabe o fim; e ninguém atualmente, com exceção de Elrond, pode lembrá-la exatamente como era contada há tempos…” (Tolkien, “Sociedade do Anel”, p.203). O mesmo pode ser dito sobre a estória de Ronald e Edith, pois na época que ele escrevera essa passagem, eles tinham ainda muitos anos pela frente, e ele não sabia como seu conto terminaria.

As palavras de Aragorn foram pronunciadas, no entanto, na observação do próprio Sam muitos capítulos (e meses) depois em “As escadarias de Cirith Ungol” onde ele e Frodo estavam no mesmo conto que Beren e Lúthien, pois eles estavam carregando parte da luz da Silmaril resgatada por Beren e Lúthien em um frasco preparado por Galadriel, e eles estavam perseguindo a destruição de Sauron, que havia lutado com o casal eras antes, quando ele mesmo era um servo do grande Senhor do Escuro.

E na vida real, as palavras de Aragorn se refletiram no fato de que Tolkien nunca completara seu conto. Ele sabia, mais ou menos, como as vidas de Beren e Lúthien terminariam, mas os detalhes não foram escritos. Aragorn não poderia ter contado o fim da estória, independentemente de quão relevante fosse a estória para o Senhor dos Anéis. Mas como muitos apontaram, a própria estória de Aragorn é muito similar àquela de Beren. Assim como Beren, Aragorn perdeu seu pai para os servidores do inimigo, mas o pai de Aragorn morreu quando ele ainda era uma criança e Aragorn nunca o conhecera. Aqui o paralelo é mais próximo entre Aragorn e Tolkien, cujo pai morrera quando ele tinha apenas 3 anos de idade, a mesma idade em que Aragorn perdera seu pai.

O patrimônio de Aragorn nunca fora realmente polido, apesar de ter diminuído através dos séculos. Ele era um descendente de reis cujos herdeiros se tornaram capitães de um misterioso povo vagante. Os Tolkiens emigraram da Alemanha para a Inglaterra no século XVIII. Eles construíram um negócio familiar na indústria de pianos, mas o pai de Arthur Reuel Tolkien falira, e foi forçado a procurar sua fortuna em outro lugar, aceitando um cargo na “frica do Sul, onde seus filhos John Ronald e Hillary nasceram. Arthur nunca vira a Inglaterra novamente e sua esposa Mabel retornou a Inglaterra com seus filhos um pouco antes de sua morte.

Aragorn crescera com sua mãe, Gilraen, cujo pai se opusera ao seu casamento com Arathorn II de maneira similar ao modo como o pai de Mabel, John Suffield se opôs ao seu casamento com Arthur Tolkien. Aragorn crescera com seu padrasto, Elrond, que era sábio e desenvolvera uma profunda afeição pelo garoto. O tutor de Tolkien após a morte de sua mãe, Padre Francis, não era de fato sábio, mas ele e Ronald tinham uma afeição um pelo outro e Ronald respeitava as decisões de Padre Francis, apesar de discordar de algumas delas. Portanto, há uma ressonância do problema entre Ronald e Padre Francis em relação ao seu relacionamento com Edith, quando Elrond convoca Aragorn e o avisa que ele está sonhando muito alto, e também o proíbe de ter uma esposa até que haja provas de ele ser digno de tal.

Através dos longos anos em que Aragorn e Arwen trabalharam constantemente para seu objetivo, ela parece ter contribuído pouco, aos olhos de muitos fãs de Tolkien, exceto pelo misterioso estandarte que proclamava o patrimônio de Aragorn ao povo de Gondor. Mas nos raros vislumbres de Arwen, Tolkien nos mostra algo de uma sabedoria mais profunda e uma força e fé que são tão duradouras quanto o amor de Aragorn. Ela é a primeira pessoa que percebe a profundidade do ferimento espiritual de Frodo, e em uma de suas cartas, Tolkien credita a Arwen o papel de pôr em ação os eventos que levam Frodo a embarcar para o Mar a fim de encontrar descanso e cura antes que ele morra.

A luta de Aragorn no amplo mundo é longa e difícil, mas sua luta pessoal é mais profunda e mais comprometida do que a maioria daqueles que o rodeiam. Pode ser que somente os Sábios, assim como Gandalf, Elrond, Galadriel e Arwen (e seus irmãos) entenderam o quanto que o futuro de Aragorn estava comprometido devido a sua escolha. A linhagem de Isildur não continuaria se ele não guiasse o Oeste à vitória sobre Sauron. Não foi simplesmente um modo da linhagem direta de herdeiros acabar com Aragorn. Seu povo era pequeno em número e se perderiam na tempestade se Sauron tivesse sucesso ao recuperar o Um Anel.

A vida de Tolkien nunca alcançou aposta tão grande, mas ele viveu através da Segunda Guerra Mundial e há épocas em que as pessoas se imaginam como tudo se finalizará. Quando Londres e outras cidades estavam sendo bombardeadas, os Ingleses certamente se justificavam sobre o quanto demoraria para os Alemães chegarem em suas praias. Dois dos filhos de Tolkien serviram nas Forças Armadas Britânicas durante a guerra e, tendo visto as devastações provocadas por grandes nações em sua juventude, ele sabia muito bem sobre os perigos que seus filhos enfrentavam na batalha.

Há um certo eco sobre a Segunda Guerra Mundial na estória de Tolkien, mas a Primeira Guerra Mundial parece ter deixado um senso indelével de perseverança determinada, mas desesperada em seu espírito. A futilidade dos ofensivos anéis é claramente mostrada na desesperançosa guerra dos Noldor contra Morgoth. A matança sem sentido e o gradual abandono da civilização sobre a paisagem severa e desnuda de Eriador como no “Conto dos Anos” de Tolkien registra o gradual desaparecimento dos domínios Dúnadan na Terra-Média. E, no entanto, os Dúnedain sobreviveram. Os Dúnedain de Arnor não sumiram ou morreram quando seus reinos chegaram ao fim. Eles passaram pelos ermos, continuando sua antiga guerra contra as criaturas do mal e, através de dez séculos, preservaram a linhagem de seus líderes, mesmo com circunstâncias desfavoráveis a eles.

O sucesso da família sobre as adversidades da vida é o centro da força na personagem de Aragorn, e é um tributo silencioso à perseverança familiar do próprio Tolkien. Arthur Tolkien e Mabel Suffield Tolkien fizeram o melhor que puderam para si próprios e seus filhos, e Ronald foi deixado aos cuidados de um guardião austero, porém preocupado, que tinha certeza que o garoto conseguiria algo como Homem.

Aragorn é uma reflexão tardia sobre Tolkien, assim como Beren é uma reflexão precoce. Beren é um tanto quanto esperto e fora-da-lei, opondo-se aos limites impostos sobre ele pela autoridade, sem realmente contestar a autoridade, atitude esta intensificada devido a sua resolução ao firme amor por Lúthien. Aragorn não é um fora-da-lei, mas sim um homem desprovido de seu patrimônio e que constrói um novo patrimônio para seus descendentes, encorajado e sustentado pelo amor e fé de Arwen.

A estória de Aragorn e Arwen é, em certas maneiras, uma continuação da estória de Beren e Lúthien. Ao invés de deixar Doriath para a solidão quieta de Ossiriand, os heróis permaneceram no norte e ajudaram a conter as forças da escuridão. O último casal não corresponde ao primeiro em ousadia e feitos, mas sua realização provou ser a mais duradoura. A coroação e o subseqüente casamento de Aragorn é, talvez, uma reconciliação de Tolkien com suas paixões mais profundas. Ele passou a compreender que ele, de fato, alcançou seu potencial, que talvez não fora o que Padre Francis via, mas que é de qualquer forma, extremamente válido.

Celeborn Unplugged

Constantemente alguém pede para que eu fale sobre Celeborn. Ele é, talvez, o mais mal-falado e incompreendido dentre todos os personagens de Tolkien. Muitas pessoas consideram o Senhor de Cabelos Prateados de Lórien como sendo tolo ou mesmo ridículo. Por que? Basicamente por uma frase proferida por Galadriel.

E agora os sabres da racionalização começam a censurar em suas bainhas: “Oh, mas ele não faz realmente nada no livro!” dizem os seus detratores. Da mesma forma, Galadriel deixa o seu capacho real e faz alguma coisa? Perdão. Nesse mato não tem Warg. Nenhum dos dois personagens faz muito na história. Os dois realizam muitíssimo no segundo plano: Galadriel ajuda Gandalf e Celeborn ajuda a derrotar as forças de Dol Guldur. Juntos, eles lideram os Elfos de Lórien. A principal reclamação que muitos parecem ter contra Galadriel é perguntar o que ela está fazendo com um idiota como Celeborn. Francamente, pelo meu livro, qualquer um que consegue se casar com uma Galadriel é um vencedor, mas isso é apenas a minha opinião. Chame isso de uma interpretação do texto. Diga que eu estou lendo algo no texto que não está lá. Isto não é como se ninguém houvesse feito isso antes.

O principal problema com Celeborn é que Tolkien nunca se decidiu sobre ele. Por exemplo, Tolkien o chamou “Celeborn o Sábio” e pessoas perguntaram: “Por que?” O único comentário de Robert Foster no verbete em The Complete Guide to Middle-earth é dizer que Celeborn não parece especialmente claro em O Senhor dos Anéis. Ora, quem parece? Alguém pretender questionar se Samwise Gamgi (cujo primeiro nome significa “meio-inteligente”) é um modelo de inteligência? Ou que tal Gimli, filósofo-anão que ele é, exaltando as virtudes das rochas?

Mesmo o personagem mais inteligente na Sociedade, Gandalf, não se deu conta de que Saruman o havia traído. Qual foi a última vez que Celeborn foi capturado por agentes do Inimigo? Ok, talvez isso não seja justo com Gandalf. Entretanto, alguém deve ser capturado, e ele é um prisioneiro conveniente. Ele é astuto e reservado – é admirável que Saruman não o tenha aprisionado mil anos antes.

É claro, a definição de Tolkien para “sábio” parece diferir da definição da maioria das pessoas atualmente. Tolkien não quis dizer “Celeborn o Sabe-tudo”. Quando a Sociedade aparece em Lórien, eles não estavam de olhos vendados, amordaçados, amarrados, arremessados na mala de um Lincoln Town Car e rodaram por aí durante três horas, e então forçados a confrontar o Senhor élfico mau-humorado na escuridão de um armazém. “Se vocês aí pensam que vão conseguir alguma ajuda de nós, se enganaram vindo até aqui! Oh, droga. Lá vem a patroa. Todos aí peguem uma harpa e se comportem como ELFOS!”

Tolkien também não quis dizer “Celeborn o Sábio espirituoso”. “Ei, Gimli! Com quantos anões se troca uma lâmpada?”

Mas quando se fala “os Sábios”, geralmente eu fico com a sensação de que interpreta-se “os Sábios” como os elfos mais inteligentes. E qual seria a justificativa para esse tipo de pensamento? Fëanor foi o elfo mais inteligente de seu tempo, e vejam onde o seu cérebro o levou. Ter inteligência confere algum tipo de sabedoria? Certamente que não. Nsa verdade, pessoas inteligentes cometem os mais estúpidos e tolos erros. A História é marcado pelos erros dos mais brilhantes.

Sabedoria é uma combinação de conhecimento, experiência e intuição. E todos os elfos de Tolkien possuem conhecimento, experiência, e intuição. Até mesmo Legolas, que parece ser jovem para um elfo (provavelmente não teria mais do que algumas poucas centenas de anos), tem conhecimento, experiência e intuição. Ele é sábio além dos anos de qualquer mortal, certamente. Entretanto, ele é um dos Elfos-Sábios? Aparentemente não. Ainda assim, ele aceita partir na missão para a Montanha da Perdição e termina por encontrar seu destino além do Mar. Adeus, Terra-Média. Olá, aposentadoria forçada em Aman.

Alguns parecem acreditar que uma boa capacidade de dedução é um aspecto da sabedoria. De fato, uma pessoa sábia iria colher todas as provas e concluir que Moriarty é mesmo o culpado. Mas Celeborn não é Sherlock Holmes, meu caro Watson. E nem deveria ser. Entretanto, Celeborn sabe quem é o seu inimigo. Ele não é questionado com dúvidas graves ou tentações, tal qual sua esposa. Ele tem um personalidade bastante sólida a esse respeito.

A credibilidade de Celeborn enquanto um sábio é normalmente questionada em três pontos: por que ele é repreendido por Galadriel perante a sua côrte e da Sociedade; por que ele não pertence ao Conselho Branco; e por que ele não quer o Um Anel? É evidente, a razão pela qual ele é repreendido é que Tolkien quer explicar algo ao leitor. E o que o autor está tentando nos dizer?

Celeborn está tão espantado quanto todos os outros quando das (prematuras) notícias da morte de Gandalf. Quando Celeborn diz, “E se isso fosse possível, talvez se pudesse dizer que Gandalf, no último momento, da sabedoria caiu na loucura, entrando sem necessidade nas entranhas de Moria”, muitos leitores reclamam. Ei, não fale assim do nosso Mago favorito!

Mas a reserva de Celeborn é um restabelecimento necessário da advertência anterior de Aragorn para Gandalf não entrar em Moria. A credibilidade de Gandalf como um dos Sábios foi severamente enfraquecida. Ele não pôde encontrar um caminho através de seus obstáculos, e quando prosseguiram ele foi frustrado pelo Balrog (que o arrastou para dentro do abismo). Muitos assumem que o Balrog desejava o Um Anel. Bem, quando nos é dito que ele sabia sobre o Um Anel? Eu acho que Gandalf tinha um Balrog bem por fora de tudo em suas mãos, e isso era tudo. O velhinho arremessou parte da montanha jovialmente no Balrog quando ele não sabia mais o que fazer. Eu tenho certeza de que Balrogs, sendo criaturas tão inflamadas como são, não apreciam ter montanhas arremessadas neles.

O meu ponto é que geralmente os leitores focam demais sua leitura na linha principal da história. Tolkien introduziu um conflito pessoal para Gandalf portanto ele poderia ser removido convenientemente da ação. A queda de Gandalf em Moria é, na verdade, um artifício literário não diferente dos seus negócios urgentes no sul distante em O Hobbit. Ele é um personagem muito poderoso para o autor mantê-lo com a Sociedade do Anel, então ele deve partir.

Mas se livrar de Gandalf diminui a sua credibilidade. Então, alguém que não tenha parecido fraco e tolo deve restabelecer a credibilidade de Gandalf. Agora podemos todos concordar que Galadriel restabelece a reputação de Gandalf ao refutar que contestem as suas decisões. Alguém deve arriscar sua própria credibilidade para que possa colocar Galadriel em posição de defender Gandalf.

A expressão de dúvida não soaria bem vindo de Aragorn ou outro membro da Sociedade. Nem seria apropriado a um dos elfos inferiores no salão que dissessem, “Ei, o Gandalf deu mole dessa vez, chefe!”. A inquietação do leitor acerca da sabedoria e propriedade das escolhas de Gandalf devem vir de alguém com autoridade. E Celeborn tem a autoridade apropriada.

Ao sacrificar (temporariamente) a credibilidade de Celeborn, Tolkien oferece ao leitor um caminho diferente de um enigma literário. Ninguém deve criticar o pobre e velho Gandalf por fazer o que parece uma decisão estúpida. Afinal de contas, a Comitiva poderia apenas ter cruzado o Passo Alto por sobre Valfenda, que era protegido pelos Beornings, e viajado para o sul por terras ameaçadas por orcs nos Vales do Anduin, certo? Ou eles poderiam ter ido através do Desfiladeiro de Rohan quando todos os Orcs estivessem cochilando durante o dia. A parte mais fraca da história é a afirmação de Tolkien (através de Gandalf) que o único caminho para sair de Eriador (e Azevim) com o Anel é ir por Moria até Lórien.

Gandalf, é claro, queria alcançar Lórien. Ele sabia que encontraria ajuda lá. Então, ir através do Desfiladeiro de Rohan não faz sentido, realmente. Foi bom que Gandalf não tenha desperdiçado tempo discutindo com Boromir sobre a validade de se levar o Anel para Gondor. De fato, aprecia-se um pouco mais a sabedoria de Gandalf quando se considera o fato de ele ter desconsiderado este argumento.

É claro, outra reclamação contra Celeborn diz respeito à sua má liderança vez ou outra. As pessoas encaram sua retração em dar as boas-vindas a Gimli (e a todos que vão com Gimli – que são a Comitiva como um todo) como um sinal de estupidez. Deve-se questionar o argumento por trás deste julgamento, entretanto. Afinal de contas, Celeborn reconhece que ele (e, presumivelmente, Galadriel) suspeitavam há muito de que algo poderoso e terrível habitava em Moria. Agora seu maior medo foi confirmado, e ele conclui que seu reino não é ameaçado apenas por Dol Guldur, mas também pelo poder em Moria. E não é apenas um poder qualquer, é um Balrog.

Muitos olham para O Silmarillion e pensam, “Ah, Elfos matavam balrogs a torto e a direito. Então por que Celeborn deveria se preocupar acerca de um só?” Bem, O Silmarillion é enganador. O único conto onde Elfos matam Balrogs é a história sobre Tuor e a queda de Gondolin, e Christopher Tolkien teve que sintetizar um texto muito antigo, um conto pré-Silmarillion de O Livro dos Contos Perdidos para criar aquele capítulo. Na realidade, caso J.R.R. Tolkien houvesse vivido tempo suficiente para reescrever a história para O Silmarillion, ele provavelmente não teria tantos Balrogs sendo assassinados. Ele teria mantido o sacrifício heróico de Glorfindel e seria desse jeito.

Celeborn havia de se preocupar em como manter Lothlórien no mapa tanto tempo quanto fosse possível. A desvantagem de Lothlórien para uma longa sobrevivência era, na verdade, muito grande. Então por que deveria uma pessoa sábia (especialmente um dos Sábios Elfos, que, de qualquer modo, têm suas próprias preocupações) não ficar preocupada nem um pouco ao saber que um balrog mora logo ao lado? O coração de Galadriel deve ter batido mais forte também, e ela foi cautelosa ao ter que expressar sua preocupação com o descontrole de Celeborn.

De fato, a retratação de Celeborn mostrou que ele e Galadriel nem sempre tinham as mesmas opiniões. Suas rápidas desculpas a Gimli, que seguiram a breve repreensão de Galadriel, demonstram uma força de caráter que ela não via em si mesma.Celeborn foi capaz de mudar de direção mesmo no meio da tempestade. Ele não foi compelido pelas suas escolhas do passado em direção a um curso dos acontecimentos. Galadriel, diferentemente, havia mantido a si mesma na Terra-Média por suas próprias escolhas (ou assim somos levados a crer em The Road Goes Ever On). O temperamento de Celeborn é flexível a aberto à persuasão.

Além disso, ele também tem conhecimentos sobre o mundo em geral. Quando Aragorn revela que ele não havia decidido por qual caminho a Comitiva deveria prosseguir, Celeborn lhe poupa um bom tempo dando a Comitiva alguns barcos. Os barcos permitem que Aragorn deixe as opções em aberto. Mas também acelera o grupo no sentido das inevitáves escolhas que eles devem tomar. Aragorn não compreende isso, ele não tem plena noção de quão rápido eles prosseguem pelo rio.

Quando Celeborn convoca a Comitiva uma última vez antes que partam, ele lhes diz: “Pois chegamos agora ao limiar do nosso destino. Aqui, aqueles que desejarem podem esperar a aproximação da hora em que ou os caminhos do mundo se abrirão de novo, ou os convocaremos para a luta suprema de Lórien.” Há um senso de urgência em suas palavras que é enterrado abaixo da dúvida de Aragorn e da habilidade de Celeborn ao lidar com essa dúvida. Enquanto Celeborn evita fazer escolhas pela Comitiva, ele sabiamente limita as suas escolhas.

Vamos supor que a Sociedade estivesse para deixar Lothlórien à pé. Para onde eles iriam? Celeborn os avisa para evitarem a floresta da Fangorn. Então eles poderiam tanto retornar para as montanhas quanto tentar passar por Isengard, ou eles deveriam seguir o rio — talvez ainda tentar cruzar o rio pelas passagens mais rasas. A doação dos botes guia a Comitiva para longe das montanhas e de cruzar o rio muito cedo. O cruzamento será feito no sul como uma conseqüência da decisão de Celeborn.

É claro, considerando-se como os acontecimentos sucederam-se em Fangorn, é natural que perguntemos por que Celeborn deveria alertar a Comitiva para que ficassem longe da floresta. Merry e Pippin, depois de encontrarem Barbárvore pessoalmente, perguntam a ele por que Celeborn os havia advertido para não entrar na floresta. De sua parte, Barbárvore responde, “Hm, ele disse, é? E eu poderia ter dito o mesmo, se vocês estivessem indo daqui para lá.”. Ele reconhece que tanto a sua terra quanto a de Celeborn são muito perigosas para estrangeiros. Gandalf sugere algo similar, também, quando conta a Aragorn, Legolas, e Gimli que eles próprios são perigosos cada qual da sua maneira, exatamente como Barbárvore e os Ents são perigosos.

A advertência de Celeborn é suficiente para provocar a precaução dos viajantes. Ele não pode preveni-los de entrar na Floresta da Fangorn, e nem compeli-los de fazê-lo. Mas em face das dúvidas de Boromir acerca dos velhos contos de avós, Celeborn relembra ao viajantes que “talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.”

Sua observação é curiosamente refletida no próprio epitáfio de Tolkien ao legado de Celeborn, dado no Prólogo: “mas não há registros do dia em que ele finalmente se dirigiu aos Portos Cinzentos, e com ele partiu a última memória dos Dias Antigos da Terra-Média.” Quando Celeborn o Sábio deixa a Terra-Média, muito do que um dia foi útil para o conhecimento dos sábios se foi com ele. De certa forma, Tolkien estava advertindo o leitor a não ter Celeborn como certo. Ele era uma mina de ouro de experiência e conhecimento, e por conseguinte sabedoria. Ele era muito perspicaz and poderia prever a corrente do rio tão bem quanto qualquer outro.

Portanto, quando diz “Adeus” a Aragorn, Celeborn permite que ele possa logo afastar-se de Galadriel. Ele estava inclinado a aceitar a separação, sabedor de que ao tempo certo ele iria segui-la através do Mar. Muitos freqüentemente questionam por que Celeborn deveria permitir que Galadriel o deixasse daquela forma. Mas eu penso que Tolkien explicou bem as razões de Celeborn em várias oportunidades.

Primeiramente, era provável que Galadriel precisasse que alguma cura. Ela não apenas foi uma Portadora de um dos Anéis de Poder, e por essa razão sujeita ao poder do Um Anel (ainda que indiretamente), como também era a última sobrevivente dos líderes da rebelião dos Noldor na Primeira Era. Galadriel havia se fatigado por seu exílio de longos anos, cujo regresso ela havia expressado na canção que ela compôs para a Comitiva ao deixar Lothlórien. Ela necessitava de um tempo até estar novamente em empatia com os Valar. Ela e Elrond eram ainda os últimos Portadores dos Anéis Élficos, e os Anéis de Poder eram originalmente um segundo ato da rebelião élfica. Galadriel, assim, deveria absolver a si mesma da falta em dois casos de “Queda”. Nenhum outro elfo precisou desse tipo de conciliação.

A separação de Celeborn seria ainda a oportunidade de Celeborn de dizer adeus a Terra-Média. Ele estava emocionalmente envolvido com a terra de modo que Galadriel não poderia estar. Agora, há quem acredite fervorosamente que Celeborn veio de Aman exatamente como Galadriel. De qualquer forma, no último ano de sua vida, Tolkien pessoalmente fez sua decisão. Mas à época, Tolkien se esqueceu de muito do que havia escrito, que teria sido útil para si. Em Contos Inacabados, Christopher nos diz:

“Assim, de início, é certo que a concepção mais antiga era que Galadriel atravessou sozinha as montanhas desde Beleriand para o leste, antes do fim da Primeira Era, e encontrou Celeborn em sua própria terra de Lórien. Isso está explicitamente afirmado em escritos inéditos, e a mesma idéia forma a base das palavras de Galadriel a Frodo, em A Sociedade do Anel, II, VII, onde ela diz de Celeborn que Ele mora no Oeste desde os dias da aurora, e eu moro com ele há anos sem conta; pois, antes da queda de Nargothrond ou Gondolin, atravessei as montanhas, e juntos, através de eras do do mundo, combatemos a longa derrota. É muito provável que Celeborn nessa concepção fosse um elfo nandorin (isto é, um dos elfos que se recusaram a atravessar as Montanhas da Névoa na Grande Viagem a partir de Cuiviénen).”

Lembra-se agora como eu disse acima que Tolkien não poderia parecer ter se decidido sobre Celeborn? A origem Nandorin para Celeborn não durou muito. Eventualmente, ele se tornou um príncipe sindarin — parente de Thingol Capa-cinzenta — que à época morava em Doriath, e mais tarde em Harlindon como senhor dos Sindar sob Gil-Galad. A transição foi feita em alguma época dentre os anos de 1956 a 1965, e provavelmente ocorreu em 1965, quando Tolkien modificou O Senhor dos Anéis para estipular a tradição Sindarin.

As mudanças feitas por Tolkien em 1965 para a segunda edição de O Senhor dos Anéis devem ser aceitas como canônicas, sobrepondo-se ao que está na Primeira Edição (assim como a Segunda Edição de O Hobbit trouxe aquela história para a Terra-Média). Celeborn é dessa forma indiscutivelmente um elfo Sindarin. mas as palavras de Galadriel de fato não fazem sentido, a não ser que se invente uma quase incrível história para Celeborn, ou interprete livremente sua fala para Frodo como uma passagem incorreta ou implicando que tanto ela quando Celeborn viajaram pelas Montanhas juntos.

Há, é claro, algum embasamento para a interpretação mais tardia. Nas histórias não publicadas de Galadriel e Celeborn, eles adentram Eriador juntos. Mas assim as coisas se tornam complicadas. Tolkien deixa o papel de Celeborn em Eregion duvidoso, e ele não está certo de quando Celeborn foi para Lórien, ou como, ou por que. Ao tratarmos de Celeborn como um elfo de Doriath, Tolkien cria uma razão para fazê-lo não-amigável aos Anões. Celeborn recorda-se do ataque a Doriath e da morte de Thingol (agora seu parente próximo).

Celeborn não é exatamente hostil aos Anões em O Senhor dos Anéis. Mas se aceitarmos a visão de Tolkien de que Celeborn nãoé afeiçoado a eles, então a antiga lei que Celeborn deixa de lado para permitir que Gimli caminhe livremente em Lothlórien faz sentido. Amroth, rei original de Lothlórien, parece ter sido amigável aos Anões. Ele e seu pai foram indubitavelmente aliados dos Anões Barbas-longas de Khazad-dum. Mas quando os Anões despertaram o Balrog e fugiram, eles despertaram um grande medo no povo de Amroth. Seu reino teve efetivamente um fim no ano de 1981.

Galadriel e Celeborn então se estabeleceram em Lothlórien para restabelecer alguma estabilidade ao reino élfico. Como Lothlórien teve sua população muito diminuída devido ao êxodo, eles iniciaram novas políticas. Lothlórien cessou praticamente todas as relações com outros povos. Eles até mesmo interromperam a comunicação com o reino de Thranduil no norte da Floresta das Trevas. Eles permaneceram amigáveis apenas com Valfenda, possivelmente Cirdan nos Portos, e talvez com os senhores de Gondor. Observando que os anões causaram o êxodo, Celeborn deve ter decidido que que eles não deveriam mais ser considerados bem-vindos em Lothlórien com a intenção de evitar contato com seja lá o que tenham despertado.

Então, sua decisão de deixar de lado a velha lei quando a Comitiva chega é um outro sinal da natureza flexível de Celeborn. Os tempos haviam mudado, e as necessidades de seu povo eram diferente daquelas de há mil anos. Lothlórien havia indubitavelmente crescido em população, e era óbvio naquele momento que os Anões não eram uma ameaça a Lothlórien. Celeborn poderia, por conseqüencia, parecer perigoso. Sua dúvida repentina, após descobrir que um Balrog morava em Moria, é compreensível. Ele havia então mudado o status quo. Gimli deve ser o primeiro de muitos Anões a retornar para Lothlórien depois de um milênio de isolamento. As novas sobre o Balrog eram uma infeliz confirmação da decisão que Celeborn havia então feito.

Desta forma foi para seu crédito que Celeborn pôde considerar verdadeiramente a advertência de Galadriel sobre sua retratação às boas-vindas de Gimli. Celeborn era sábio o suficiente para compreender que as suas considerações não eram as únicas no mundo. Galadriel é tida como tendo sido favorável aos Anões devido a sua origem Noldorin. Seu povo havia sido mais amistoso aos Anões do que o de Celeborn (tanto os Nandor quandos os Sindar). Mas Celeborn era resoluto e guiado pela necessidade. O Balrog tinha saído da toca, por assim dizer. Barrar Gimli e todos que foram com ele não teria realmente nenhum propósito. Celeborn deveria se focar nas suas necessidades presentes, e as palavras de Galadriel o relembraram de que aquelas necessidades eram tão importantes porque os Elfos e seus aliados estavam empenhados em preservar tudo que eles apreciavam.

Galadriel o mostrou bem sutilmente como encontrar uma empatia com Gimli: “Se nosso povo estivesse exilado longe de Lothlórien há muito tempo, quem dos Galadhrim, até mesmo Celeborn o Sábio, passando perto daqui, não desejaria rever seu antigo lar, mesmo que tivesse se tornado um covil de dragões?”

Essas são palavras muito proféticas, e Celeborn deve ter refletido sobre a sua relevância para o futuro. O dia em que Galadriel havia de deixá-lo estava chegando, e eventualmente seguiria-se que ele mesmo deveria deixar a Terra-Média um dia. Saudades do passado e pesar eram sentimentos que Elfos, todos os Elfos, podiam entender e aceitar.Galadriel falou a Celeborn, Elfo para Elfo, e fez a ele exatamente o tipo de questionamento que um Elfo iria concordar. Ele entendeu o que ela estava dizendo sem hesitação, e suas palavras conciliadoras mostram que ele estava desejoso de aceitar a amizade com Gimli.

De todos os senhores élficos mencionados no livro, Celeborn parece ser o menos aturdido pelos acontecimentos. Gildor Inglorion contem-se de ajudar Frodo diretamente contra os Nazgûl. Ele provavelmente teme que desafiando abertamente os agentes de Sauron irá atrair muita atenção. Ele se comunica com Bombadil, Aragorn, e Valfenda a favor de Frodo — e também muitos freqüentemente questionam o que o bondoso Gildor pode fazer por Frodo. Celeborn socorre Frodo prontamente, quase com avidez. Ele vive na fronteira e sabe o que está em jogo.

Mas Gildor era provavelmente também um dos senhores de Eregion, ou ta,vez um senhor de Lindon, que havia se tornado profundamente enredado na política dos Anéis. Os Noldor, ainda que com toda sua sabedoria e amizade com outras raças, cometeram um grande pecado ao criarem os Anéis de Poder e ao falharem em descobrir todos os fatos acerca dos Anéis. Celeborn, ainda que provavelmente sabendo que Galadriel tem um Anel de Poder, era praticamente desprovido de culpa. Enquanto que Elrond foi quase paralisado de medo do Um Anel, Celeborn fez suas escolhas rapida e facilmente. Sim, nós vamos ajudar o Portador do Anel. Sim, nós vamos enfrentar Dol Guldur e qualquer outra ameaça de Sauron.

Se a única dúvida que Celeborn manifesta relaciona-se às suas calorosas boas-vindas a Gimli, uma dúvida tão facilmente posta de lado pelo encorajamento de Galadriel, então ele é seguramente o elfo de vontade mais forte no livro. Mesmo Legolas parece um pouco fraco às vezes. Elrond, com toda sua sabedoria, aparentemente não podia imaginar o que fazer com Frodo. É apenas após a oferta de levar o Anel a Mordor que Elrond junta todas as indicações e conclui que é essa a missão apontada para o Hobbit. Celeborn, por outro lado, enxergando como todos estão pensando no quefazer em seguida, imagina um caminho para ajudá-los a prosseguir em direção a seus objetivos enquanto deixa as opções deles em aberto.

É evidente, há uma outra passagem quando Celeborn parece um pouco incerto. E isso foi para com o final do livro, quando ele e Galadriel estão conversando com Barbárvore. “Eu não acho que iremos nos encontrar novamente”, Barbárvore lhes diz. “Eu não sei, Maisvelho.”, Celeborn diz respeitosamente. Na verdade, eu penso que é um pouco mais tato pessoal do que respeito. É assim, Celeborn provavelmente entende que eles três nunca estarão mais juntos. Muitos apontam a resposta florida de Galadriel “nos prados de salgueiros de Tasarinan” como ligando a lacuna entre estupidez e a física de Einstein.

para mim, o grande significado dessa passagem é que o leitor está sendo preparado para ainda outro vislumbre de uma dessas histórias que Tolkien nunca encontrou tempo para contar. Se você voltar e reler a observação de Barbárvore a Merry e Pippin acerca da floresta de Fangorn e Lothlórien, e então olhar para sua doce despedida deles em “Muitas Despedidas”, torna-se óbvio que Celeborn, Barbárvore e Galadriel têm uma história. O que teriam eles feito em eras passadas? Quantas vezes eles teriam estado juntos?

Quando Tolkien traduziu a saudação em élfico de Barbárvore a Celeborn e Galadriel (A vinimar vanimalion nostari!), ele escreveu: “O cumprimento de Barbárvore a Celeborn e Galadriel significava Ó belos, pais de belas crianças.” Enquanto é de conhecimento comum que Celebrian era filha de Celeborn e Galadriel, não é tão sabido que – por um instante – Tolkien considerou Amroth seu filho, também. Amroth, eventualmente, se tornou filho de Amdir (ou Malgalad), mas as palavras de Barbárvore implicam que ele sabia (e amava) os filhos de Galadriel e Celeborn. Evidentemente, havia mais na conexão Barbárvore/Galadriel/Celeborn do que Tolkien revelara em O Senhor dos Anéis.

E o mesmo é verdade sobre Celeborn pessoalmente. Nós vemos apenas breves cenas das muitas facetas de Celeborn. Ele não é um diamante bruto tanto quanto uma jóia brilhante que jaz meio-enterrada entre outras jóias, algumas mais brilhantes ou menos cobertas. Como o próprio Tolkien poderia ter dito, não há recordação do conto completo de Celeborn, mas seu conto estava selado no coração de Tolkien, e quando Tolkien por fim viu os Portos Cinzentos de sua própria maneira, com ele se foram as últimas memórias não reveladas dos dias de Celeborn na Terra-Média.

Questões Sobre os Beornings

Beorn – John Howe

Um dos mais fascinantes personagens de “O Hobbit” é Beorn, o raivoso madeireiro que vive sozinho exceto pela companhia de seus animais encantados. Beorn era um homem, embora com um toque de mágico de acordo com Tolkien, porque ele podia mudar sua pele [tornando-se um enorme urso]. As origens de Beorn estão ocultas em mistério. Gandalf diz a Thorin e Companhia mais de uma explicação sobre a origem de Beorn, e não é claro sobre qual delas é a verdadeira.

 

 Quando Gandalf e a Companhia de Thorin foram levados com segurança até a Carrocha pelas Grandes Águias das Montanhas Nebulosas, o mago conta a seus companheiros que existiam poucos povos vivendo na região. Existiam vilas de homens mais afastadas ao sul [provavelmente além da Antiga Estrada da Floresta], nos vales das montanhas e ao longo das margens dos rios. Este povo, que era chamado de “Homens da Floresta” em “O Hobbit” estava gradualmente retornando do norte. Eles eram parentes dos Homens da Floresta de Mirkwood de acordo com Tolkien no apêndice de “O Senhor dos Anéis”, mas dentre muitos povos pergunta-se se este era o povo que Beorn um dia veio a governar.

Pode-se apenas supor, realmente, de onde os Beornings vieram ou como eles eram. Eram todos homens, embora talvez uns poucos fossem troca-peles como Beorn. Tolkien não revela se Beorn nasceu com a habilidade de falar com animais e trocar sua pele, mas ele diz que muitos dos descendentes de Beorn possuíram a habilidade de trocar de peles. Então, em algum momento, a troca de peles tornou-se hereditária ou o segredo foi passado de geração a geração.

“O Hobbit” menciona que os dragões caçaram a maioria dos homens expulsando-os das terras no norte, e isto implica que os grandes ursos das montanhas do norte desapareceram quando os gigantes apareceram algum tempo antes da história acontecer. Beorn é associado com ambos ursos e homens do norte. Se os troca-peles não se originaram com Beorn então eles devem ter vivido nas montanhas, e Gandalf que uma vez ele ouviu por acaso Beorn expressando a esperança que ele tinha de um dia retornar para as montanhas.

Bilbo encontrou realmente poucos Homens em “O Hobbit”. Sua primeira conexão com homens depois de ter cruzado as Montanhas Nebulosas foi o ataque pretendido pelo Goblins e Wargs. Gandalf ouviu por acaso os Wargs discutindo um possível ataque às vilas do sul da fortaleza Goblin do Passo Alto. A próxima conexão de Bilbo com homens foi Beorn, que protegeu e auxiliou Thorin e Companhia e sua expedição. Embora Gandalf tenha dito que poucas pessoas viviam perto da Carrocha, ele parece indicar que Beorn não era o único habitante local, e quando Bilbo e Gandalf retornaram com Beorn no próximo ano, ele convidou muitos homens a comemorar em sua casa. Então o povo de Beorn já existia ao tempo da história, apesar de poder ter sido reforçado pelos homens da floresta que estavam migrando para o norte.

Não foi antes de Bilbo e dos Anões terem alcançado a Cidade do Lago sobre Esgaroth, o Lago Extenso, que eles encontraram mais homens. Estes homens, aparentados com os antigos homens de Valle [agora há muito destruída por Smaug], eram corajosos e fortes. Estes continuavam a viver relativamente próximos à desolação do dragão e ao leste de Mirkwood. Os homens da Cidade do Lago viviam em termos amigáveis com os Elfos do norte de Mirkwood [o povo de Thranduil e Legolas] e mantinham comércio com os homens que viviam mais ao sul no Rio. De fato, o comércio se estendia tão longe quando a terra longínqua de Dorwinion, localizada nas margens noroestes do Mar de Rhun.

Embora nunca tenhamos ouvido mais sobre os homens vivendo ao sul da Cidade do Lago, quando Bard restabeleceu o reino de Valle, recrutou homens tanto do oeste quanto do sul. Mas Mirkwood ficava a oeste de Valle e da Montanha Solitária, e além de Mirkwood estavam os Beornings, que parecem ser muito poucos em número para ajudar a popular a cidade. Talvez Bard tenha recrutado homens dos Vales do Anduin, ou então existiam homens da floresta vivendo ao norte da caverna de Thranduil na calha leste da Floresta?

Quando Tolkien escreveu “O Senhor dos Anéis”, encorpou a história destes homens do norte das Terras Ermas. Os Rohirrim tornaram-se uma facção sulista dos homens do norte, que eram todos associados com a Casa de Hador, a Terceira Casa dos Edain em Beleriand, por Faramir quando ele deu a Frodo e Sam uma breve lição de história sobre Gondor. Muito mais material do que o publicado no livro tinha sido preparado por J.R.R. Tolkien, que teve que cortar uma grande parte dos Apêndices para economizar espaço. Chistopher Tolkien publicou parte do material “perdido” no Unfinished Tales, junto a alguns ensaios tardios e histórias escritos por seu pai. O restante do material “perdido” foi finalmente publicado no “The Peoples of Middle-earth”, volume XII do “The History of Middle-earth”. É possível então investigar a história dos povos do norte durante todo o tempo até a Primeira Era.

Quando Tolkien escreveu “O Senhor dos Anéis”, encorpou a história destes homens do norte das Terras Ermas. Os Rohirrim tornaram-se uma facção sulista dos homens do norte, que eram todos associados com a Casa de Hador, a Terceira Casa dos Edain em Beleriand, por Faramir quando ele deu a Frodo e Sam uma breve lição de história sobre Gondor. Muito mais material do que o publicado no livro tinha sido preparado por J.R.R. Tolkien, que teve que cortar uma grande parte dos Apêndices para economizar espaço. Chistopher Tolkien publicou parte do material “perdido” no Unfinished Tales, junto a alguns ensaios tardios e histórias escritos por seu pai. O restante do material “perdido” foi finalmente publicado no “The Peoples of Middle-earth”, volume XII do “The History of Middle-earth”. É possível então investigar a história dos povos do norte durante todo o tempo até a Primeira Era.

Os homens do norte, freqüentemente chamados de Homens dos Vales do Anduin, aparentemente dividiam-se em dois grupos. Vamos chamá-los de grupo leste e grupo oeste. Originalmente, os da Casa de Beor [a Primeira Casa dos Edain] e os Marachs [a Terceira Casa] migraram para leste ao longo do mar interior. Os Marchs eram o grupo mais ao norte e eles aparentemente se fixaram nas terras entre os rios Carnen e Celduin. Após restabelecer contato com os da Casa de Beor, alguns dos Marachs continuaram a migrar para o oeste. A maioria dos Beorians os seguiu.

Em Eriador os Beorians alcançaram os Marchs e fixaram-se por todas as amplas terras. A maioria dos Marachs continuou a jornada para o oeste, acompanhados por uma pequena parte dos Beorians. Sob seus líderes Beor e Marach, apenas uma pequena porção de ambos os povos realmente entrou em Beleriand. O resto permaneceu no leste em Eriador e por todas as Terras Selvagens.

Os Edain das Terras Selvagens eventualmente formaram uma aliança com os Anões Barbalonga, o povo de Dúrin. Esta aliança, formada no início da Segunda Era para auxiliar a expulsar os Orcs e outras criaturas que fugiram da destruição de Angband para as terras do leste, prosperou por mais de mil anos até a Guerra dos Elfos e Sauron. Naquela guerra os povos Edaínicos foram quase destruídos, e apenas pequenos enclaves sobreviveram nas Terras Selvagens, tanto em Greenwood a Grande [mais tarde chamada Mirkwood] quanto nas montanhas.

Estes homens que fugiram para as montanhas parecem ser os ancestrais dos Beornings e dos homens do norte que foram para o leste. O grupo leste fixou-se perto da área norte de Greenwood, e no começo da Terceira Era começaram a migrar para o sul ao longo da borda da floresta. Foi destes homens que os povos de Valle, Cidade do Lago e o reinado de Rhovanion descenderam. Em “O Hobbit” parece que os recrutas oeste de Bard podem ter vindo de uma comunidade de homens da floresta vivendo ao norte do reino de Thranduil. Não existe indicação que aqueles homens tinham parado de viver no nordeste da floresta.

Os Beornings e Homens da Floresta, contudo, não são necessariamente um povo “puro”. No “The Disaster of the Gladden Fields” [publicado no Unfinished Tales], o sobrevivente solitário da companhia de Isildur foi auxiliado por homens da floresta vivendo nas bordas oeste de Greenwood, perto de Amon Lanc [mais tarde Dol Guldur]. Estes homens da floresta parecem ser alguns daqueles povos Edaínicos que fugiram para a Floresta durante a Guerra entre os Elfos e Sauron.

Em “Cirion and Eorl” [também publicado no Unfinished Tales], Tolkien relata a parte mais tardia da história do Reino de Rhovanion. Este reino, situado ao leste do sul de Mirkwood, foi destruído pelos Carroceiros em 1860 da Terceira Era. O exército de Rhovanion foi destruído, mas alguns de sua cavalaria escaparam e fugiram para os Vales do Anduin. Mais tarde, muitos foras-da-lei vindo através da Floresta se juntaram a eles. Estes eram os ancentrais dos Eotheod. Embora seja possível que os foras-da-lei incluíssem muitas mulheres e crianças, parece altamente provável que os homens da cavalaria tiveram que casar com mulheres das vilas locais – eles misturaram-se com os homens da floresta que viviam em Mirkwood ou ao longo do rio.

Cerca de 100 anos mais tarde, logo após o reino nortista de Angmar ter sido destruído, os Eotheod migraram para o norte, para os vales onde os rios formadores do Anduin corriam. Lá eles se fixaram por várias centenas de anos. Eles assim o fizeram, Tolkien nos conta no Apêndice dO Senhor dos Anéis, porque os homens estavam aumentando nos Vales do Anduin. Nem todos eram Homens do Norte. Alguns eram leais a Sauron, Orientais, aparentados aos Carroceiros. Os outros homens poder ter sido dos homens da floresta e possivelmente os ancestrais dos Beornings.

Quando Eorl o Jovem conduziu os Eotheod para o sul cinco séculos mais tarde, alguns de seu povo permaneceram no norte. Estes cavaleiros escolheram – seja qual for a razão – não seguir Eorl? Possivelmente, mas se isso realmente ocorreu eles não deram origem a uma grande nação de guerreiros montados. Ao contrário, desapareceram na história e foram esquecidos. O que aconteceu com eles?

Beorn como Urso na Batalha dos Cinco Exércitos

Retornando aO Hobbit, devemos recordar que Gandalf mencionou os dragões como tendo expulso homens do norte. Como Smaug e Valle, os dragões podem facilmente ter destruído muitas cidades e vilas. O primeiro dragão conhecido no norte foi Scatha, mas este dragão foi morto por Fram, filho de Frumgar, o líder que conduziu os Eotheod para o norte por volta do ano 1977. De acordo com o Conto dos Anos em O Senhor dos Anéis, os dragões não começaram a se multiplicar novamente até cerca do ano 2570. A entrada declara especificamente que os dragões começar a afligir os Anões. Eorl tinha conduzido seu povo para o sul cerca de 60 anos antes, então poderia não restar muitos homens no norte distante. Mesmo que existissem alguns, estes deveriam ter sido expulsos para o sul pelos dragões.

Nós também devemos considerar que uma das principais razões pelas Gondor pediu ajuda a Eorl e os Eotheod em 2509/10 era que os Vales sul do Anduin estavam se tornando perigosos para Gondor e seus aliados. Os Balchoth, ou povo Oriental aparentado aos Carroceiros, estavam então vivendo ao longo da borda sul da Floresta. Eles podem, portanto, ter destruído ou expulso muitos dos Homens do Norte restantes, então talvez apenas os Homens da Floresta restaram.

Com os dragões vindo do norte e os Balchoth mantendo o sul, os Homens do Norte dos Vales do Anduin foram fortemente pressionados a encontrarem um local seguro para viver. Eles devem ter entrado em um longo período de declínio a este tempo, e não foi antes do trigésimo século que eles começaram a recuperar suas terras perdidas. Os Orcs começaram a colonizar as Montanhas Nebulosas no final do século 25, e eles foram uma ameaça significativa até a Guerra dos Anões e Orcs [2793-99].

Em algum momento de todos esses anos e guerras, os Beornings devem ter se ramificado dos outros Homens do Norte. É concebível que eles fossem descendentes tanto dos Eotheod remanescentes quanto dos Homens das Florestas que foram para o norte antes que os dragões começassem a inquietar a região. Os cavalos e pôneis de Beorn não são apenas extraordinários [assumindo que o conto de Bilbo foi apenas levemente enfeitado com o objetivo de contá-lo], ele possuía um grande amor por eles – o qual lembrava a devoção dos Rohorrim a seus cavalos. É portanto concebível que os Beornings tenham mantido a tradição da montaria à cavalo.

Da mesma forma que os Rohirrim viviam nas Ered Nimrais e pastoreavam seus rebanhos e manadas nos amplos campos gramados de Calenardhon, então, também os Beornings podem ter morado nas montanhas e pastoreado seus cavalos nas terras baixas. Então segue-se que se Beorn desejava retornar para as montanhas, ele deve ter sido expulso de lá pelos Orcs, e seu povo em geral pode ter sido destruído ou expulso pelos Orcs. Um guerra anterior com os Orcs poderia explicar o pouco número dos Beornings quando Bilbo e Gandalf os visitaram, mas as enormes perdas sofridas pelos Orcs das Montanhas Nebulosas na Batalha dos Cinco Exércitos poderia ter dado os homens do Vale do Anduin uma tão necessária trégua.

Beorn poderia, portanto, ter recrutado novos seguidores dentre os Homens da Floresta que estavam migrando para o norte para ampliar os números de seu povo, e uma vez que Gloin contou a Frodo que os Beornings mantiveram a Passagem Alta aberta ao tempo da Guerra do Anel, os Beornings parecem ter se tornado fortes o suficiente para terem retornado às montanhas.

A cultura dos Beornings pode então lembrar aquela dos Rohirrim, mas em alguns modos deveria ser similar àquela dos Homens da Floresta. Quanto aos Homens da Floresta, contudo, não temos evidências diretas sobre seus modos de vida e costumes. Porém Tolkien descreveu um outro grupo de Homens da Floresta, na Primeira Era: o Povo de Haleth, que vivia de modo similar ao dos Beornings. Como Beorn, o Povo de Haleth freqüentemente vivia sozinho, ou apenas com poucas pessoas juntas. Eles construíam grandes cercas ao redor de suas casas, e a maioria vivia dentro da floresta, na floresta de Brethil.

Tais similaridades podem ser apenas superficiais, Tolkien pode não ter previsto nenhum paralelo próximo entre as culturas do Povo de Haleth e o povo de Beorn; mas por outro lado, ele parece ter enfatizado o relacionamento entre os Rohirrim e os outros Homens dos Vales do Anduin. Fazendo isso, ele poderia estar sugerindo que as culturas de Rohan e dos Beornings não eram muito distanciadas.

[Tradução de Fábio 'Deriel' Bettega]

O Conto de Um Hobbit Caí­do (Sméagol/Gollum)

“Nas profundezas da água escura viveu o velho
Gollum, uma criatura pequena e repugnante. Eu não sei da onde veio, nem
o que era. Ele era um Gollum tão escuro quanto a própria escuridão,
exceto pelos grandes olhos pálidos na sua face magra. Ele tinha um
barquinho, e ele navegava silenciosamente pelo lago, já que esse lago
era grande, fundo e mortalmente frio. Ele remava com seus pés grandes
pendendo pelos lados do barco, mas ele nunca criou uma onda sequer…"?
 
 
 
A nossa primeira impressão de Gollum não nos
remete à fisionomia dos Hobbits. Quando nós o conhecemos, ele nos
pareceu um monstrinho horrível, predando peixes cegos e goblins nas
profundezas escuras da terra, determinado a matar o respeitável Bilbo
Bolseiro. J.R.R. Tolkien diz, “Eu não sei da onde ele veio, nem quem ou o que ele era." A criatura, ele continua, é um “Gollum". Dali por diante, O Gollum se tornou, simplesmente “Gollum".


“…e lá vivia nas margens do Grande Rio perto de uma terra selvagem
pessoas de mãos leves e pés silenciosos. Eu acho que eles eram da
espécie dos Hobbits: parentes dos pais dos pais dos Stoors, “Gandalf
diz ao sobrinho e herdeiro de Bilbo, Frodo Bolseiro muitos anos depois:
“Havia entre eles uma família de alta reputação,"
ele continua. “Os
mais inquisidores e curiosos daquela família era chamado Sméagol. Ele
estava interessado nas raízes e no início de tudo; ele cavava poços
profundos; se enfiava sob árvores e plantas crescidas; criava túneis em
barragens; se recusava a olhar para os topos das montanhas, ou para as
folhas nas árvores, ou para as flores desabrochando no ar: sua cabeça e
olhos miravam sempre para baixo."

Smeágol era uma criatura
miserável enquanto viveu: ninguém o queria, era infeliz, amargo e
invejoso. Ele virou as costas para o mundo e seu próprio povo muito
tempo antes de ser gravemente expulso. As profundezas de seu coração se
tornaram negras de cheias de ódio muito antes de sua aparência externa
se tornar hedionda. Seu espírito pouco lembrava o de um Hobbit.

Existiam três grandes tribos Hobbit: Harfoots, os mais numerosos;
Fallowhides, os mais aventureiros; e os Stoors. Os Stoors viviam nas
margens dos rios, mas eles eram muito mais dedicados ao comércio e à
viagens. Eles freqüentemente se associavam aos anões e aprenderam muito
com eles. Os Stoors eram os mais duros e territorialistas dentre os
Hobbits, isso antes deles encontrarem um lar seguro.

Os
Hobbits viveram nos vales do Anduin por muito tempo. Eles provavelmente
se instalaram por lá perto do fim da Segunda Era, errantes ou
refugiados vindos de terras orientais distantes nos dias em que os
exércitos de Sauron conquistavam vastas regiões no oriente da
Terra-Média. Os Hobbits fizeram amigos entre os Edain de Rhovanion, os
Homens Livres do Norte, de onde depois veio a linhagem dos Beornings,
os Homens do Vale e Long Lake, e os Rohirrim. Nesses primeiros anos os
Hobbits procuraram pelos homens e se instalaram perto de suas cidades,
ou compartilharam cidades, como Bri na Terceira Era.

Muitos
Hobbits – Harfoots e Fallowhides – devem ter migrado para o norte, pois
os Edain foram empurrados para as montanhas e terras distantes durante
a grande guerra entre os elfos e Sauron. Isso deve ter ocorrido muitos
e muitos anos antes deles se tornarem suficientemente numerosos para
colonizar as terras do sul próximas a Lothlórien. Mas enquanto os
homens se multiplicavam e migravam lentamente para o sul, aparentemente
foram deixando os Hobbits para trás. Exceto os Stoors. Esse povo
parecia ter se estabelecido perto do Rio Gladden, originalmente, onde
eles poderiam estar próximos dos anões de Khazad-dûm, onde estariam
relativamente protegidos pelo poder de Khazad-dûm e Lothlórien.

Perto do ano 1000 da Terceira Era, Sauron começou a tomar forma
novamente, e descobriu que Mordor estava suficientemente fortificada
para o seu retorno que se deu nas planícies de Amon Lanc no sul da
grande Greenwood. A colina um dia foi o coração de um reino élfico, mas
desde que os elfos migraram para o norte não há nada na floresta que se
oponha a Sauron. Ele construiu uma grande fortaleza na colina, que
passou a ser conhecida como Dol Guldur [a colina da bruxaria]. E Sauron
começou a colonizar as terras do sul de Greenwood e os vales do sul do
Anduin com as suas criaturas: Orcs, Trolls, Lobisomens, Wargs e homens.
Criaturas orientais sempre foram fontes de problemas para o grande
reino de Gondor, mas agora as tribos chegaram e se assentaram nos vales
do Anduin e os rumores da força negra no sul se espalharam pelo norte.

Os Harfoots, talvez lembrando seu passado ou histórias contadas sobre
as guerras entre os elfos e os antigos poderes negros, passaram pelas
montanhas sombrias indo para Eriador, para nunca mais retornar. Os
Fallowhides os seguiram 100 anos depois, e ao mesmo tempo que os Stoors
abandonaram sua terra natal no rio Gladden atravessando Redhorn para o
antigo reinado élfico de Eregion. De lá os Stoors foram para o norte,
para uma terra chamada Angle, que ficava entre os rios Mitheithel e
Bruinen, ou passaram para o sudoeste até as fronteiras de Dunland.

Os Stoors do Angle viviam sob as leis dos Dunadain de Rhudaur. Os
Hobbits aumentaram o poder desse reino, mas menos de 200 anos depois o
reino de Angmar cresceu nonorte e ameaçou Rhudaur. Os Hobbits deixaram
seus lares mais uma vez. Os Stoors do Angle se dividiram: alguns
migraram de volta pelas montanhas sombrias para os vales do Anduin. O
terror de Angmar parecia maior que o de Dol Guldur. E ao menos nos
vales do Anduin eles estariam próximos de reinos poderosos dos anões e
elfos.

Então, por mais de 1000 anos os Stoors viveram
relativamente em paz. Os Edain que viviam nas proximidades aparentavam
ser amistosos com relação à eles, ou simplesmente não queriam arrumar
problemas com esse povo. Durante esses anos remanescentes de um reino
dos homens ao norte do que hoje seria Mirkwood se alojaram no vale do
Anduin próximo aos Stoors. Esses eram os pais do Éothéod, o povo
cavalo, que migrou para extremo norte anos depois. Mas esse povo
lembrava os Stoors, a quem chamavam cava-buracos, e eles levaram
memórias como essa com eles quando Lord Eorl os levou para o sul e
fundou o reino de Rohan.

No 25o. século da Terceira Era, não
muito depois do nascimento de Eorl, Sméagol o Stoor e seu primo Déagol
foram fazer uma expedição de barco. Era o aniversário de Sméagol.
Déagol pulou na água, talvez para pegar um peixe e achou um anel
dourado caído no meio da lama. Ao emergir, mostrou o anel para Sméagol,
que o ordenou que o desse como presente. “Mas eu já lhe dei o meu presente", Déagol respondeu. “Eu o encontrei e vou ficar com ele."

Mas o desejo pelo anel consumou Sméagol, pois era o Um Anel, o anel
mestre de Sauron, que há muito tempo atrás Isildur cortou da mão de
Sauron e o manteve para si. No final, o anel traiu Isildur, que
resultou na sua morte nas águas do Anduin, e agora o anel foi desperto
pela malícia de Sauron e desejava retornar para seu mestre. Sméagol
matou seu primo e pegou para si o anel. Com o tempo ele aprendeu que,
enquanto usasse o anel ele não poderia ser visto. Ele passou a usar o
anel para benefício próprio e logo se tornou impopular entre seu povo.
Foi então que ele começou a resmungar consigo mesmo “gollum….
gollum", e os Stoors o apelidaram de Gollum.

Um dia, os Stoors
expulsaram Gollum e ele nunca mais foi visto entre seu povo. Ele vagou
pelas terras, só e miserável, até que resolveu ir para as montanhas e
descobrir suas raízes e segredos. Assim ele desapareceu do mundo da luz
e se perdeu na escuridão da terra e levou consigo o Um Anel. Por mais
de 500 anos ele vagou na escuridão, predando Orcs e peixes. O anel
extendeu a vida de Gollum, mas ao invés de garantir-lhe mais vigor,
lentamente o drenou e o escravisou. Ele estava consumido pelo anel, com
quem ele falava constantemente e o chamava de Precioso. Na sua mente, o
Precioso era seu por direito, não por assassinato. O anel o procurou. E
mesmo assim, não lhe deu nenhuma alegria, e não tinha nenhum conforto
ou consolo na sua solidão.

Quando Bilbo entrou na caverna de
Gollum por acidente, os primeiros pensamentos que vieram à mente de
Gollum foram de comida e assassinato, porém, logo depois vieram
memórias de sua juventude, de coisas que costumava gostar. Por uns
momentos, Gollum chegou a gostar do jogo de charadas que mantinha com
Bilbo, até que ele confundiu a preocupação de Bilbo com o que havia em
seu bolso com uma charada de verdade. Nas regras do jogo, Gollum
perdeu, e aceitou a derrota. Mas ao retornar à sua ilha, descobriu que
o se querido anel havia desaparecido.

Bilbo encontrara o anel,
e Gollum descobriu que era ele que estava no bolso do Hobbit. A partir
daquele momento, Gollum foi tomado pela necessidade de reaver o anel.
Ele caçou Bilbo sem sucesso, pois o Hobbit descobriu o poder do anel e
se escondeu da vil criatura. Depois da saída de Bolseiro, Gollum brigou
consigo mesmo na escuridão, com medo da luz, mas com a dor de ter
perdido seu Precioso. Com o tempo ele se lançou ao ar livre e começou a
procura por seu tesouro perdido.

Muitos anos passaram até que
Gollum finalmente encontrou o Um anel. Na época Sauron envocou todas as
criaturas malignas, pois o Senhor do Escuro havia retornado para seu
antigo domínio e começou a reconstruir Barad-dûr. E Gollum, que até
então estava obstinado em sua caça por Bilbo Bolseiro e pelo Anel
acabou por obedecer ao chamado. Ele rumou em direção a Mordor, onde foi
aprisionado e levado à frente de Sauron, onde falou tudo o que ocorrera
com o anel após a morte de Isildur.

Solto por Sauron por algum
propósito oculto, Gollum se tornou um peão num jogo mortal entre os
poderes da Terra Média. Ele logo foi capturado por Aragorn, capitão dos
Dúnedais do norte e levado aos elfos de Mirkwood. Lá ele foi
interrogado por Gandalf, que aprendeu com ele tanto quanto Sauron
havia. Mas, com o tempo, Gollum escapou e rumou para o sudoeste, até
chegar a Moria. Incapaz de escapar, Gollum permaneceu lá na miséria e
esperando morrer [ou talvez querendo morrer]. Em vez disso, a sorte
pareceu sorrir para ele, pois um dia os portões do oeste, que ele não
tinha forças para abrir, se abriram e nove aventureiros entraram: o
mago Gandalf, Aragorn e seus companheiros: a sociedade do anel.

Daquele momento em diante, Gollum perseguiu o anel desesperadamente,
levado por sua malícia e poder. Quando a sociedade foi dividida no
ataque dos orcs, Gollum seguiu Frodo e Sam pelo Anduin, e no vale de
Emyn Muil os interceptou. Mas Frodo e Sam o derrotaram, e o fizeram
prisioneiro, e forjaram uma perigosa parceria com ele.

A
jornada de Gollum com Frodo praticamente o redimiu. Com a gentileza e
sabedoria de Frodo, Gollum passou a se ver novamente como um indivíduo,
e se lembrou de quando ainda era Sméagol, e como era viver e amar
outras criaturas.Mas o servo de Frodo, Sam, impediu sua total redenção.
No momento crucial da redenção de Gollum, Sam não quis ajuda-lo, dando
suas costas para ele. Em retorno, Gollum endureceu seu coração e traiu
Frodo e Sam.

Ainda assim, havia uma grande maldição associada
ao anel e a todos que o desejasse. Escravizado pelo anel, e seguindo
Frodo para onde quer que ele fosse, Gollum não pode dar as costas e
procurar por terras mais seguras. Ele caminhou pelo coração de Mordor e
tentou novamente recuperar o anel. Mas agora ele estava fraco, e o
espírito de Frodo estava muito forte. Mas além disso, o poder do anel
havia crescido também, já que se aproximava da mão de seu mestre e do
local de sua forja.

“Saia!" gritou uma voz vinda do anel.
“E não me importune mais! Se você me tocar novamente, será lançado no
fogo da Montanha da Perdição!"

E era no fogo da perdição,
o Sammath Naur, onde um milênio antes Sauron forjara o anel, que Frodo
pretendia joga-lo. Lá ele esperava lança-lo nas chamas e então
destruí-lo e acabar com as forças de Sauron, pois esse depositou grande
parte de seu poder no anel. Gollum agora entendera o objetivo de Frodo,
e ao tentar desesperadamente impedir a destruição de seu Precioso, ele
passou por cima de Sam na Montanha da Perdição e seguiu Frodo até a
borda. Lá ele atacou Frodo novamente e, na briga, arrancou o dedo e o
anel de Frodo.

No júbilo de sua vitória, Gollum pulou alto e
dançou em êxtase, mas errou ao não notar a proximidade que estava da
borda, e assim, tropeçou e caiu nas profundezas do vulcão. E com ele
foi o anel, e quando o fogo destruiu o anel do poder de Sauron, seu
reino maligno caiu. Sauron ficou tão fraco que seu corpo foi destruído
quando as ruínas de sua fortaleza negra ruiu sobre ele, e seu espírito
negro desapareceu, impotente.

A história da relação de Gollum com Frodo é longa e comovedora. “Para mim," Tolkien escreveu para seu filho Christopher, “eu
estava particularmente comovido pela descrença de Sam na história, e,
na cena em que Frodo adormece em seu colo, e a tragédia de Gollum que,
naquela hora veio com um sinal de arrependimento, freado por uma
palavra dura proferida por Sam."

A história de Gollum e
seu relacionamento com o anel é trágica e patética, ainda que Tolkien
nota que o anel não era a causa da natureza ruim de Gollum:


“A dominação do anel foi muito forte para a alma má de Sméagol. Mas ele
não teria sentido-a se não tivesse se tornado um ladrão quando o anel
chegou até ele. A necessidade nunca havia cruzado o seu caminho? A
necessidade de algo perigoso nunca atravessou nenhum de nossos
caminhos? A resposta para isso pode ser encontrada ao tentar imaginar
Gollum superando a tentação. A história teria sido bem diferente!
Contemporizando, sem arrumar a semi-corrompida vontade de Sméagol, ele
ruma para a bondade com os bons tratos de Frodo e se enfraquece,
perdendo a chance, quando o amor dirigido a ele por Frodo é amargado
pela inveja de Sam na cova de Laracna. Depois disso ele se perdeu."

Existe uma dualidade na natureza da tragédia: Gollum se redime porque
existe algo nele que pode ser redimido, e Sam falha ao perceber ou
apreciar esse fato. “Para mim o momento mais trágico na história é quando Sam falha ao notar a completa mudança no tom de voz e aspecto de Gollum",
Tolkien escreveu para um fã. Sua recuperação é interrompida e toda a
piedade de Frodo é [de certa forma] desperdiçada. A toca de Laracna
parecia inevitável.

Isso é devido, claro, ao curso lógico da
história. Sam dificilmente teria agido de forma diferente. [Ele chega
ao ponto da piedade, mas tarde demais para Gollum.] Se tivesse sido
antes, o que teria acontecido? O caminho da entrada para Mordor e a
luta para chegar à Montanha da Perdição teria sido diferente, assim
como o final. O interesse teria sido redirecionado à Gollum, eu creio,
e a batalha seria travada entre seu arrependimento e seu novo amor de
um lado, e o anel de outro. Apesar de que o amor seria fortificado
dia-a-dia, ele não seria páreo para a vontade de ser o senhor do anel.
Eu acho que de alguma forma Gollum teria tentado [talvez não
conscientemente] satisfazer os dois lados. Certamente em algum ponto
não muito antes do fim, ele teria roubado o anel, ou tomado-o por meios
violentos [como acontece na história original]. Mas tendo satisfeita a
necessidade da “posse", eu creio que ele teria se sacrificado em nome
de Frodo e voluntariamente se jogado nas chamas do vulcão.

Mas
da forma como ocorreu, a redenção de Gollum nunca aconteceu. Sam
endureceu seu coração, destruindo com uma palavra toda a mudança que
Frodo operou em Gollum. Frodo perdeu todo o interesse pela Terra Média
por causa do Um anel, mas apesar de que, através de seu sacrifício a
Terra Média foi salva e Frodo encontrou a paz no extremo oeste. Gollum,
por sua vez, fez o maior dos sacrifícios: ele perdeu sua alma.

Orc que é Orc não usa Windows!

Pesquisando sobre os Uruk-hai, me deparei com um
fato interessante: não existiam Uruk-hai na primeira vez que Tolkien
escreveu o capítulo que os introduziu. Ele não os havia concebido até
então. O título original do capítulo era “Uma caçada Orc" (“An
Orc-raid"?).
 
 
 
Bem, isso não soa muito excitante, não é? Na
verdade, na época em que Tolkien chegou nessa parte da história, os
Uruks (principalmente Uruk-hai) ainda estavam por aparecer.

Espere um pouco!, como diria Harry Potter. Vamos voltar um pouquinho e começar tudo de novo.

Enquanto a maioria das pessoas sabe que “orc" raramente aparece no O
Hobbit (Christopher Tolkien encontrou apenas uma aparição na primeira
edição do livro, por exemplo), você ainda pode encontrar algumas poucas
passagens com o termo “orc" na segunda e terceira edição. O que é
importante sobre a raridade de “orcs" em O Hobbit (e a quase raridade
de “goblin" em O Senhor dos Anéis) é que o uso dessas palavras
representam uma transição fundamental em relação às idéias de Tolkien
relativas às criaturas que ameaçaram os Hobbits.

Os goblins
assombravam a imaginação de Tolkien desde os tempos de escola. O mais
antigo exemplo que existe sobre os goblins na literatura é o poema
“Goblin feet", que foi publicado em 1915 na Oxford Poetry:


Eu estou fora da estrada Onde lanternas das fadas reluzem Onde pequenos
morcegos voam Uma escassa faixa cinzenta se afasta rastejante E as
cercas-vivas e a grama suspiram O ar está tomado por asas E besouros
estúpidos Que o avisa com seus zumbidos e zunidos O! eu escuto as
pequenas cornetas De duendes encantados E dos pés fofos de muitos
gnomos que se aproximam

O! as luzes! O! os lampejos! O! o som tilintante: O! o farfalhar de
seus pequenos mantos silenciosos! O! o eco dos seus pés – de seus
alegres pequenos pés: O! as suas lâmpadas que balançam em pequenos
globos iluminados pelas estrelas! Devo seguir no seu trem Pela a
tortuosa estrada das fadas Para onde os coelhos há muito partiram E
onde eles cantam argenteamente Em um círculo que se move sob a luz da
lua Todos brilham com as jóias que usam Eles se empolgam rodeando o
círculo Onde os vagalumes queimam palidamente E o eco dos seus pés
fofos se esvanece O! Está batendo no meu coração – Deixe-me ir! O!
Deixe-me começar! Pois as pequenas horas mágicas estão voando!

O! o calor! O! o zunido! O! as cores na escuridão! O! as brisas das
abelhas douradas! O! a música dos seus pés – dos seus pés de goblin
dancantes! O! a magia! O! a tristeza quando ela morre
.

Os Goblins são, claro, um dos principais elementos do folclore inglês.
Eles estão lá, glorificados por Shakespeare e contos de antigas
esposas, por tanto tempo quanto se pode lembrar. E os goblins têm
aparecido nos contos e poemas de Tolkien por tanto tempo quanto se pode
lembrar, mas apesar de hoje nós dizemos com confiança que goblins e
orcs são iguais, nem sempre foi assim.

No índice para The Book of Lost Tales, Part Two, Christopher Tolkien indexou o seguinte registro:

GOBLINS Freqüentemente usado como um termo alternativo para Orcs (cf.
Melko’s goblins, the Orcs of the hills 157, mas algumas vezes
aparentemente diferenciados, 31, 230)…

A primeira deriva do “Tale of Tinúviel", e descreve Angamandi (a fortaleza de Melko): “…Junto
estavam as câmaras tristes onde o noldo-escravo trabalhava amargamente
sob o comando dos Orcs e dos goblins das colinas…"

A
segunda passagem aparece em “The Nauglafring", e descreve como
Naugladur, um rei anão, reúne um exército de criaturas negras: “Além
disso ele reuniu em sua volta uma grande hoste de Orcs, e goblins
errantes, prometendo a eles uma boa retribuição, e o prazer de seu
Mestre eternamente, e uma boa pilhagem ao final…"

Ambas
as distinções são relativamente ambíguas. Tolkien poderia estar
utilizando Orcs e goblins de modo trocado para se referir a criaturas
similares, ou ele poderia estar sugerindo que algumas criaturas eram
Orcs e algumas eram goblins. Não está claro a sua intenção naquele
momento.

Porém, quando Tolkien escreveu O Hobbit para divertir
seus filhos, ele negligentemente misturou elementos de diversas
tradições, buscando deixar a sua história mais interessante. Ao
publicar o livro, ele a resumiu um pouco, e manteve os Orcs a um
mínimo, enquanto goblins abundam pelo conto.

Os goblins se
tornaram, em meados da década de 30, um dos elementos principais na
dieta das aventuras imaginárias da família Tolkien. As Father Christmas
Letters, enviadas por JRRT aos seus filhos entre 1920 e 1943,
ocasionalmente deleitaram as crianças com incidentes (e desenhos que
demonstravam como a confusão se resolveu) envolvendo goblins, pequenas
criaturas negras que podiam realizar travessuras infindáveis.

Os goblins de O Hobbit são uma mistura de diversas criaturas, tiradas
do folclore, do conhecimento de Tolkien e de idéias do livro The
Princess and the Goblin, de George Macdonald. Esses goblins não
precisam ser de maneira nenhuma muito sérios. Eles capturam Bilbo e
seus companheiros anões, mas deixam Gandalf, que mata seu líder, o
Grande Goblin, no coração da Cidade Goblin.

Mas os goblins de
O Hobbit gradualmente se tornam criaturas mais assustadoras,
parcialmente como parte do efeito do contar-de-histórias de Tolkien e
parcialmente devido à necessidade de introduzir uma ameaça convincente
próxima do fim da história. A Batalha dos Cinco Exércitos não havia
sido imaginada ainda, e Bolg do Norte marca a primeira aparição de um
personagem goblin de importância (mesmo que um que não fale nada)
visando publicação. Isto é, ele não havia sido concebido até que
Tolkien precisou apresentar um conto finalizado para o editor.

Quando O Hobbit se tornou um sucesso publicado, Tolkien tentou
brevemente trazer suas histórias do Silmarillion para publicação. Seus
editores queriam publicar mais livros sobre Hobbits, entretanto, e
Tolkien teve que colocar O Silmarillion (que substituiu The Book of
Lost Tales como seu projeto mitológico primário) de lado por muitos
anos.

Entre 1937 e 1948, Tolkien se empenhou em produzir uma
seqüência para O Hobbit que não se limitasse a entreter os seus
leitores, mas que também pudesse interessar a ele. Durante esses anos,
ele usou a palavra “goblin" menos e menos – chegando ao ponto de
reservá-la a umas poucas passagens de diálogo entre Hobbits – e “Orc"
mais e mais.

Enquanto pode se dizer que “Orc" soa mais
ameaçador que “goblin", Tolkien deve ter tido uma razão mais urgente
para abandonar a palavra que usara por muito tempo. Como filólogo, ele
indubitavelmente sabia da história da palavra “goblin", que veio para o
inglês arcaico do francês normândico. Isto é, goblins não são monstros
ingleses. Em vez disto, eles são nomeados para um gobelin, um espírito
que se diz ter assombrado a cidade francesa de Evreux em 1100.

Por outro lado, “Orc" possui um passado muito misterioso. Muitos
comentaristas agora sugerem que provavelmente veio da palavra
anglo-saxã orcneas, usualmente traduzida como “baleias" (porque vem do
Latim Orca, que significa “inferno" ou “morte"). O texto anglo-saxão
original é encontrado em “Beowulf", linha 112, “eotenas ond ylfe ond
orcneas"(Ettins e Elfos e Orcs – descendentes de Caim).

“Ettins" são gigantes ou trolls. Elfos são, no ponto de vista cristão,
criaturas malignas. Orcs são impossíveis de se descrever, exceto que
eles devem ser criaturas fantásticas familiares à audiência do poeta
Beowulf. Algumas pessoas hoje (e talvez até Tolkien) sugerem que eles
podem ter sido espíritos ou demônios (apesar de referir como um
descendente de Caim desta maneira não faz sentido). Entretanto, se um
Orc é um espírito ou um demônio, e um goblin é um espírito maligno,
então substituir Orc por goblin começa a fazer sentido.

Então,
em certo ponto de seu desenvolvimento da Terra-média, Tolkien pode ter
decidido abandonar “goblin" em detrimento de “Orc", porque “goblin"
possui uma história lingüística maculada (Tolkien não gostava muito da
língua Francesa).

E aqui as coisas se tornam interessantes,
porque mesmo que ele tenha sugerido algumas mudanças a serem feitas em
O Hobbit em 1947 para torná-lo mais compatível com O Senhor dos Anéis,
Tokien parece ter começado a experimentar assuntos-Hobbits anterior
àquele tempo.

Por exemplo, na Nota 35 para “O Anel vai para o
Sul", publicado em The Return of the Shadow, Christopher para para
refletir no uso de seu pai para “Orcs" na seguinte passagem (onde a
Sociedade discute sobre as Minas de Moria):

‘Eles não estão
longe’, disse o mago. Eles estão nessas montanhas. Eles foram feitos
pelos anões da família de Dúrin muitos séculos atrás, quando elfos
habitavam Hollin, e existia paz entre as duas raças. Naqueles dias
antigos, Dúrin habitou Caron-dun, e havia tráfego no Grande Rio. Mas os
Goblins – ferozes orcs em grande número – os expulsou após muitas
guerras, e muitos dos anões que escaparam rumaram para o norte
longínquo…

A nota é a que segue:

35 Esta não é
a primeira vez que a palavra Orc é usada nos rascunhos do SdA: Gandalf
se refere a ‘orcs e goblins’ entre os servos do Senhor do Escuro, pp
211, 264; cf. também pp 187, 320. Mas a raridade do uso neste estágio é
digno de nota. A palavra Orc nos remete ao Lost Tales, e difundido em
todos os escritos subseqüentes de meu pai. No Lost Tales os dois termos
foram usados como equivalentes, apesar de algumas vezes aparecerem de
formas distintas (vide II. 364, registro Goblins [1]). Uma
pista pode ser encontrada em uma passagem que ocorre tanto no antigo
Quenta quanto no novo (IV. 83, V. 233): ‘Eles podem ser chamados de
goblins, mas nos dias antigos eles eram fortes e caídos.’ Neste ponto
parece que ‘Orcs’ são para serem considerados como um tipo de ‘goblin’
mais formidável; então no primeiro esboço para ‘As Minas de Moria’ (p.
443) Gandalf diz “existem goblins – de uma espécie muito maligna, maior
que os normais, verdadeiros orcs.’ – é incidentalmente notável que na
primeira edição de O Hobbit que a palavra Orcs é utilizada apenas uma
vez (ao final do capítulo VII ‘Estranhos Alojamentos’), enquanto no SdA
publicado, goblins é raramente utilizada.

Ao escrever a
primeira versão de “A ponte de Khazad-dûm", Tolkien fez com que Gandalf
descrevesse que ele viu quando olhou para fora da Câmara de Marzabul
(da mesma forma que Gandalf faz na versão final da história): “‘São goblins: muitos deles,’ ele disse. ‘Eles parecem malignos e grandes: Orcs negros…’"

A frase “Orcs negros" foi eventualmente trocada por “Uruks negros de
Mordor", mas isso não aconteceria até a revisão de “Uma caçada Orc"
meses depois de Tolkien inventar o nome “Urukhai"e decidir que alguns
Orcs, maiores que outros, seriam chamados Uruks. E mesmo assim, a
importância dos Uruks só foi reunida nos apêndices, que Tolkien não
começou a trabalhar antes de 1950 (dois anos após ele ter completado o
texto primário de O Senhor dos Anéis).

Nas versões mais
antigas de “Os Herdeiros de Elendil" e “O Conto dos Anos", não existem
menções de Uruks, que no livro publicado se diz que apareceram pela
primeira vez no governo de Denethor I, regente de Gondor. Tudo o que
Tolkien diz sobre eles é “nos últimos anos de Denethor I a raça dos
uruks, orcs negros de grande força, apareceram pela primeira vez fora
de Mordor, e em 2475 eles passaram impetuosamente por Ithilien e
tomaram Osgiliath…"(O Senhor dos Anéis, Apêndice A).

No apêndice F, Tolkien tratou dos Orcs e da Língua Negra. No primeiro parágrafo, ele escreveu:


Orc é a forma do nome que as outras pessoas deram para esse povo
horrível como era na linguagem de Rohan. Em Sindarin era orch. Não há
dúvida que a palavra uruk está relacionada com a Língua Negra, apesar
de ter sido aplicada como regra apenas para os grandes soldados-orcs
que nessa época eram despachados de Mordor e Isengard. As raças menores
eram tratadas, especialmente pelos Uruk-hai como snaga ‘escravo’.

Assim, Tolkien afirma que ele utilizou a palavra derivada do inglês
arcaico ornceas, para representar a palavra Rohirric para os Orcs. A
transição de goblin para orc está completa, mas não de Hobgoblin para
Uruk.

Isto porque em O Hobbit, Tolkien utilizara a palavra
“hobgoblin" como um nome para Orcs maiores. Mas no folclore inglês, um
hobgoblin é um goblin pequeno, não um grande (na verdade, eles deveriam
ser espíritos domésticos). Tolkien estava, efetivamente, virando o
folclore inglês de cabeça para baixo, afirmando que os piores goblins,
os verdadeiros orcs, eram os hobgoblins.

De certa forma,
Tolkien estava corrigindo um erro. Ele transformou seus goblins,
espíritozinhos maliciosos em Orcs, criaturas caídas enviadas de Angband
(Inferno). Mas ele também elevou seus hobgobilns (Orcs maiores) ao
distinguir eles como “goblins das colinas" e “Orcs das montanhas". Eles
não eram espíritos domésticos como Robin Goodfellow. Eles eram Uruks.

Mais adiante, os Uruks se tornaram malignos, mortíferos, monstros
sérios capazes de intimidar e apavorar mesmo os maiores inimigos. Uruks
não babavam como os goblins de George Macdonald, não possuíam pezinhos
tamborilantes, e eles não eram nem um pouco amigáveis aos homens ou aos
amigos dos homens. Uruks são os Orcs mais malignos e malevolentes,
corrompidos até o ponto em que seus malignos senhores conseguem,
conservando apenas as qualidades humanas mais essenciais como coragem,
lealdade, amizade e (no caso dos Uruk-hai de Saruman), orgulho.

E Tolkien os fez muito parecido com os homens, inclusive mostrando suas
semelhanças físicas. Ele não queria, de maneira alguma, fazer com que
os Uruks parecessem pequenas criaturinhas de contos de fada. Nem ele
pretendia que se associasse os Uruks com fantasmas e espíritos, como
aqueles que teriam assombrado cidades da França medieval. Os Uruks eram
reais, tão reais que Gandalf (no texto publicado) não precisou
chamá-los de “Orcs de verdade".

Porém, o fascínio de Tolkien
pelos “Orcs de verdade" não terminou com O Senhor dos Anéis. Ele fez
fortes alusões a eles na seqüência abandonada para O Senhor dos Anéis,
The New Shadow, onde Orcs se tornaram pouco mais do que uma memória
assombrando a história dos Dúnedain e a sensibilidade da Gondor da
Quarta Era. Meninos brincavam de Orcs, sem ter uma idéia real do mal
que os Orcs um dia infligiram.

No lapso entre algumas
gerações, Tolkien supôs, que a memória dos “Orcs de verdade" se apagou
e foi substituído por um conceito mais divertido. E como a verdadeira
história inglesa pareceria para ele? Os Orcs de Beowulf foram
esquecidos e trocados na imaginação popular por um goblin francês. Mas
quem poderá um dia esquecer dos Uruks?

[1] Nota do Tradutor: Christopher Tolkien está se referindo à passagem do Book of Lost Tales 2, descrita logo acima neste mesmo texto no §11.