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Saruman

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 Saruman o Branco foi o Chefe da Ordem dos Magos, era sábio e poderoso; porém, também era orgulhoso e foi corrompido pelo desejo em obter o Um Anel e foi seduzido pela vontade e poder de Sauron. Ele criou exércitos, maquinários e buscou expandir seu poder. Todavia, no final as obras de Saruman foram desfeitas por um poder maior do que ele poderia imaginar e ele acabou por ser morto pelas mãos de um de seus próprios servos.

Saruman era originalmente um Maia conhecido como Curumo. Os Maiar eram espíritos que ajudavam e serviam aos Valar nas Terras Imortais e Curumo era um dos Maiar de Aulë, o Vala cujo domínio eram as substâncias das quais a terra era feita. Aulë é um ferreiro e mestre de ofícios e trabalhos habilidosos, e dele Curumo obteve muito conhecimento. Sauron também havia sido um Maia de Aulë, porém se corrompeu com o mal e procurou estabelecer seu domínio sobre a Terra-média, de modo que os Valar decidiram enviar emissários para se oporem a ele. Curumo foi escolhido por Aulë e ele se tornou um dos Istari, ou Magos. A missão dos Magos era auxiliar os povos livres da Terra-média em sua luta contra Sauron sem procurarem por dominação ou poder para si próprios.

 

 

Curumo foi para a Terra-média por volta do ano 1.000 da Terceira Era e é tido como o primeiro dos Magos a desembarcar no continente, embora de acordo com outras fontes Yavanna, esposa de Aulë, pediu para que Curumo levasse consigo outro mago que ficou conhecido como Radagast, o Castanho.

Curumo foi chamado Saruman pelos Homens, dentre os quais ele passou a maior parte de seu tempo, e os Elfos o chamavam de Curunír. Como os outros Magos, ele tomou a forma de um velho homem. Saruman era alto e de um porte nobre, seus cabelos eram negros no começo e, embora tenham se tornado brancos com o passar do tempo, as raízes e algumas mechas permaneceram negras. Saruman tinha uma bela voz e uma sutil maneira de falar, a qual ele poderia usar para persuadir os outros. Seu manto era branco, significando que ele era o maior dentro da Ordem dos Magos.

 Em seus primeiros anos na Terra-média, Saruman fez várias jornadas pelas terras, indo até Rhûn no Extremo Oriente com os Magos Azuis. Porém, ao contrário destes, retornou para o oeste da Terra-média. Em 2463, o Conselho Branco foi estabelecido e formado pelos principais Magos e Elfos – incluindo Saruman, Gandalf, Elrond, Galadriel e Círdan. Sua principal preocupação era o poder maligno que ocupava a fortaleza de Dol Guldur na Floresta das Trevas, o qual eles temiam ser Sauron. Quando tiveram que escolher um líder para o Conselho, Galadriel indicou Gandalf, porém ele se recusou e Saruman se tornou o chefe do Conselho Branco.

Saruman se tornou ressentido e invejoso de Gandalf ao descobrir que ele era mais forte, embora mais humilde, e que possuía grande influência entre os povos da Terra-média. Saruman também estava ciente de que Gandalf havia recebido Narya, um dos Três Anéis dos Elfos, e isso tornou Saruman particularmente invejoso pois ele considerava os Anéis de Poder a sua principal área de estudos. Saruman estudou muito a história dos Anéis e sua forjadura e finalmente até mesmo usou de suas habilidades de artífice para fazer Anéis de menor escala de poder. O principal interesse de Saruman era o paradeiro do Um Anel – o Anel Governante forjado por Sauron que havia sido tomado por Isildur e perdido nos Campos de Lis, onde Isildur foi morto. Saruman fez várias visitas aos arquivos de Minas Tirith e aprendeu tudo o que ele podia sobre Isildur. Dentre os pergaminhos descobertos por Saruman havia um escrito pelo próprio Isildur no qual ele descrevia o Anel e a inscrição gravada nele.

Nos arquivos, Saruman também aprendeu sobre os palantíri, ou Pedras Videntes – objetos que poderiam ser usados para obter informação e comunicar uns com os outros mesmo em longas distâncias. Saruman descobriu que havia um palantir na Torre de Orthanc em Isengard, uma fortaleza no Desfiladeiro de Rohan na porção mais ao sul das Montanhas Nevoentas. Embora Isengard ficasse em Rohan, ela pertencia a Gondor, porém a sua guarda se tornou elaxada com o tempo e, em 2759, após os Carroceiros terem sido expulsos de lá pelos Rohirrim, Saruman se ofereceu para morar em Isengard, reparar e manter suas defesas. Assim foi que as Chaves de Orthanc lhes foram entregues por Beren, o Regente de Gondor. No mesmo ano, Saruman compareceu à coroação do Rei Fréalaf de Rohan levando presentes e louvando o valor dos Rohirrim. Rohan havia acabado de passar por uma invasão de Terrapardenses logo após o Grande Inverno. Nos duros anos que ainda viriam eles lucraram muito com sua nova amizade com Saruman e ficaram contentes por terem um Mago de grande poder morando na fortaleza em sua fronteira oriental. Saruman também se tornou amigo de Barbárvore, o mais velho dos Ents residentes na Floresta Fangorn. Saruman andava pelas florestas e conversava com Barbárvore e com ele aprendeu muitas coisas, embora ele mesmo não compartilhasse de nenhuma de suas informações em troca.

 O Conselho Branco se encontrou novamente em Valfenda em 2851 e Gandalf relatou que ele havia estado em Dol Guldur e descoberto que o mal que lá habitava era, de fato, Sauron. Gandalf ainda recomendou que o Conselho Branco atacasse imediatamente Dol Guldur, porém Saruman foi contrário à essa atitude, dizendo que ao Conselho que ele acreditava que o Um Anel havia sido levado pelas águas do Anduin até o Mar, de onde não poderia ser recuperado, e que sem ele Sauron não teria como recuperar a sua força. O Conselho concordou em esperar e observar, embora Gandalf ainda estivesse preocupado. Na verdade, Saruman havia começado a procurar pelos Campos de Lis pelo Um Anel na tentativa de tomá-lo pra si, pois durante o seu longo estudo sobre o Anel de Sauron, ele havia sido corrompido pela armadilha de seu poder e pretendia ocupar o lugar de Sauron que agora era visto por ele como um rival no desejo de dominar a terra. Saruman acreditava que se encontrasse o Anel ele seria capaz de o usar para estabelecer a ordem da maneira que ele achava melhor e governar o mundo dos Homens.

Saruman acreditava que se Sauron permanecesse em Dol Guldur, o Anel poderia se revelar enquanto procurava voltar para seu Mestre. No entanto, em 2939, Saruman descobriu que Sauron também estava vasculhando os Campos de Lis à procura do Anel. Novamente Gandalf propôs um ataque contra Dol Guldur no encontro seguinte do Conselho em 2941 e dessa vez Saruman concordou. Foi através das invenções de Saruman que o ataque foi bem sucedido e Sauron abandonou Dol Guldur. O que o Conselho não sabia era que Sauron havia se preparado para o ataque e ele voltou para a sua primeira fortaleza em Mordor e lá começou a juntar suas forças. Declarou-se abertamente em 2951 e dois anos depois o Conselho Branco se encontrou pela última vez. Descobriram que Sauron estava ávidamente procurando pelo Anel e mais uma vez Saruman lhes disse que o Anel estava no leito do Mar e que Sauron nunca o encontraria.

De fato nem Saruman e nem Sauron jamais encontraram o Anel nos Campos de Lis. Saruman encontrou a corrente que havia sido usada com o Anel, assim como a Elendilmir, um símbolo da realeza do Reino do Norte, que Isildur usava quando foi morto, e escondeu esses itens em Orthanc junto com outros tesouros que ele havia encontrado, porém o Anel já havia sido levado. Gollum, uma criatura que havia sido um Hobbit antes de encontrar o Anel e ser dominado por ele, o levou para as profundezas das Montanhas Nevoentas onde ele acabou sendo descoberto por outro Hobbit chamado Bilbo Bolseiro. Saruman não tinha conhecimento da descoberta de Bilbo, embora estivesse ciente do interesse de Gandalf nos Pequenos e suspeitasse de tudo o que Gandalf fizesse. Saruman visitou o Condado sob um disfarce, mas temia ser descoberto por Gandalf; enviou então agentes a Bri e à Quarta Sul para descobrirem o que pudessem sobre o interesse de Gandalf no Condado.

Saruman também havia secretamente começado a fumar a erva de fumo do Condado, embora ele publicamente recriminasse o uso delas por Gandalf. Ele comprava a erva de fumo das plantações dos Justa-Correias e Sacola-Bolseiros e ele usou dessa conexão para corromper alguns deles para espionarem os outros Hobbits.

Após a última reunião do Conselho Branco, Saruman se isolou em Isengard. Ele havia recebido Isengard para ser um tenente do Regente e guardião da torre, porém agora ele havia tomado a torre para si e começado a reforças suas fortificações e nesse processo ele destruiu os belos jardins de Isengard cavando poços que ele encheu com forjas e maquinários bélicos. Para alimentar seus fogos, Saruman emitiu ordens aos seus escravos para derrubarem a Floresta Fangorn.
Saruman começou a construir seu próprio exército, recrutando Homens da Terra Parda que odiavam Rohan, e também reuniu Wargs e Orcs em suas fileiras. Dentre esses Orcs estava uma raça especial de Uruk-hai que eram maiores e mais fortes do que os Orcs comuns e ainda conseguiam suportar a luz do sol. Havia também um número de Homens a serviço de Saruman que aparentavam ter sangue de Orc em suas veias e essas raças poderiam ser o resultado das experiências de cruzamento entre Orcs e Homens feitas por Saruman. Era dito que Saruman alimentava seus Uruk-hai com a carne de Homens.

Por volta do ano 3000, Saruman começou a usar mais frequentemente o palantir. Primeiramente, havia apenas tido visões de lugares longínquos ou eventos na pedra de Orthanc, porém finalmente entrou em contato com outro palantir, a pedra de Ithil que estava na Torre Negra de Sauron. A integridade de Saruman havia diminuído pelo abandono de seus princípios morais em sua busca por poder, e assim ele ficou vulnerável à dominação da vontade superior de Sauron. Não foi preciso muito tempo para que Saruman se sentisse compelido a reportar-se a Sauron através do palantir. Os usuários do palantir se comunicavam através do pensamento, e é bem possível que Sauron tenha descoberto mais de Saruman do que esse pretendia revelar.

Saruman continuou com seu plano de expandir seu poder, começando pela conquista de Rohan, o mais forte aliado de Gondor, até mesmo porque isso também beneficiaria os planos de Sauron para a conquista da Terra-média. Os Uruk-hai de Saruman desceram das Montanhas Nevoentas e devastaram os cavalos dos Rohirrim enquanto os Orcs de Sauron atacaram Rohan vindos do leste. Saruman recrutou um Homem de Roham chamado Gríma para ser seu agente na corte do Rei Théoden de Rohan. Gríma se tornou o conselheiro de Théoden e logo começou a exercer sua influência sobre o Rei a favor de Saruman. Em 3014, Théoden adoeceu, provavelmente como resultado dos venenos e poções administradas por Gríma. Como um dos efeitos, Théoden aparentou ter envelhecido prematuramente e sua capacidade de julgamento se tornou comprometido, tornando-se cada vez mais dependente dos conselhos de Gríma. Era a intenção de Saruman enfraquecer Théoden e assim deixar Rohan pronta para um ataque decisivo.

Acima de tudo, Saruman desejava encontrar o Um Anel, que ele ainda esperava declarar como seu. Tinha quase certeza de que Gandalf estava ciente do paradeiro do Anel e de que alguma forma os Hobbits do Condado estavam envolvidos nessa trama. Os espiões de Saruman relataram que os Guardiões do Norte estavam vigiando de perto o Condado e, em 3001, essa gurda havia sido dobrada. No verão de 3018, Saruman descobriu que os Nove Nazgûl haviam deixado Mordor e estavam procurando pelo Anel que estava em posse de uma pessoa chamada Bolseiro no Condado, e então resolveu armar uma armadilha para Gandalf e arrancar dele o que ele sabia; enviou Radagast com uma mensagem para Gandalf dizendo que os Nazgûl haviam sido soltos e que ele deveria ir para Isengard o mais depressa para que pudessem discutir sobre o assunto. Gandalf chegou em Isengard em 10 de julho do mesmo ano e Saruman estava usando abertamente um Anel que ele havia criado e revelou a Gandalf que ele não era mais Saruman, o Branco, e sim Saruman, o de Muitas Cores, e seu manto agora era de todas as cores e matizes.

Saruman então propôs a Gandalf que eles se juntassem e governassem o mundo dos Homens e que o meio para isso seria uma aliança com Sauron.

“Um novo Poder se levanta. Contra ele, as velhas alianças e políticas não nos ajudarão em nada. Não há mais esperança nos elfos ou na agonizante Númenor. Esta então é uma escolha diante de você, diante de nós. Podemos nos unir a esse Poder. Seria uma sábia decisão, Gandalf. Existe esperança por esse caminho. A vitória dele se aproxima, e haverá grandes recompensas para aqueles que o ajudarem. Enquanto o Poder crescer, os que se mostrarem seus amigos também crescerão; e os Sábios, como você e eu, poderão, com paciência, vir finalmente a governar seus rumos, e a controlá-lo. Podemos esperar nossa hora, podemos guardar o que pensamos em nossos corações, talvez deplorando as maldades feitas incidentalmente, mas aprovando o propósito final e mais alto: Conhecimento, Liderança, Ordem; todas as coisas que até agora lutamos em vão para conseguir, mais atrapalhados que ajudados por nossos amigos fracos e inúteis. Não precisaria haver, e não haveria, qualquer mudança em nossos propósitos, só em nossos meios.” A Sociedade do Anel: “O Conselho de Elrond”.

Quando Gandalf rejeitou sua proposta, Saruman sugeriu que ele poderia substituir Sauron se eles tomassem o Um Anel para eles, e pediu para Gandalf revelar-lhe sua localização. Mais uma vez Gandalf se recusou e Saruman então o aprisionou no pináculo de Orthanc.

 Com Gandalf fora do caminho, Saruman esperava ser capaz de encontrar o Portador do Anel e assim enviou vários agentes para viajarem entre Isengard e o Condado. Porém antes dos agentes de Saruman reportarem seus avanços, Gandalf escapou, sendo resgatado do topo de Orthanc em 18 de setembro por Gwaihir, o Senhor do Vento, que havia ido até Isengard levando notícias a pedido de Radagast sem saber que Gandalf era mantido prisioneiro lá.

Pouco depois o Senhor dos Nazgûl foi a Isengard, enviado por Sauron que já estava ciente da captura de Gandalf. Sobre essa visita existem diferentes fontes: em uma delas, o Nazgûl chegou dois dias após a fuga de Gandalf e Saruman usou sua Voz para persuadir o Senhor dos Nazgûl de que ele não sabia sobre a localização do Anel, mas que Gandalf sabia e que deveriam procurar por ele nas proximidades de Isengard. Em vez de Gandalf, o Nazgûl acabou por encontrar Gríma, que lhe revelou que Saruman estava escondendo o que sabia; de acordo com outra fonte, Saruman apenas descobriu que Gandalf havia escapado quando o Nazgûl chegou, mas ele fingiu que Gandalf havia acabado de lhe dizer a localização do Condado. O Nazgûl acabou por descobrir através de um Sulista que Saruman sabia muito mais do que ele havia revelado.

Em ambos os casos, Saruman se encontrou em uma posição incômoda, pois ele era um traidor descoberto de ambos os lados. Saruman pensou que ele ainda tivesse tempo para encontrar o Anel pois acreditava que o Portador do Anel ainda não havia deixado o Condado, porém o Sulista vesgo foi confrontado pelo Nazgûl e forçado a lhe prestar serviço. Do agente de Saruman, o Nazgûl descobriu que um Hobbit chamado Bolseiro vivia na Vila dos Hobbits e eles começaram sua incansável caçada a Frodo Bolseiro assim que o Portador do Anel começou sua fuga para Valfenda.

 

Enquanto isso, Saruman começou a avançar seu plano para conquistar Rohan, pois Gandalf havia ido à Edoras após ter escapado para avisar ao Rei Théoden mas acabou sendo expulso de lá pelos conselhos de Gríma. Saruman declarou soberania sobre as terras de Rohan e fechou o Desfiladeiro de Rohan e companhias de Orcs portando seu emblema da Mão Branca começaram a causar problemas aos Rohirrim. Os espiões de Saruman continuaram a sua caçada ao Portador e, em 8 de Janeiro de 3019, um bando de Crebain passou pela Sociedade em Azevim. É bem provável que esses pássaros estivessem a serviço de Saruman e reportaram suas notícias sobre o progresso do Portador rumo ao sul. Em 18 de janeiro do mesmo ano, mensageiros de Moria chegaram a Isengard e reportaram que a Sociedade havia passado por Moria e estava indo em direção ao sul e então Saruman enviou batedores liderados por Ugluk para interceptá-los.

Em Rohan, as forças de Saruman estavam encontrando uma resistência dos Rohirrim liderados por Théodred, filho do Rei, e Éomer, sobrinho do Rei. Saruman então decidiu que Théodred deveria ser eliminado e, em 25 de fevereiro, enviou uma companhia com ordens para matar o filho do Rei. Na Primeira Batalha dos Vaus do Isen, a posição de Théodred foi impiedosamente atacada e ao final dela ele foi morto. Porém, Saruman cometeu um erro estratégico que lhe custaria caro ao não mover imediatamente sua invasão ao Folde Oriental, em parte por causa da força de resistência liderada por Grimbold e Elfhelm.

 No dia seguinte, Uglúk e sua companhia chegou ao Amon Hen onde a Sociedade estava acampada. Saruman havia ordenado a Uglúk que matasse todos menos os Pequenos, que deveriam ser levados para Isengard vivos e incólumes. A companhia de Uglúk capturou Meriadoc Brandebuque e Peregrin Tûk e matou Boromir de Gondor que tentava defender os Hobbits. Um Orc de Mordor chamado Grishnakh queria levar os Hobbits para Sauron, porém Uglúk venceu a disputa e levou os seus prisioneiros para Isengard. Nos limites da Floresta Fangorn, em 28 de fevereiro, a companhia de Uglúk foi cercada por Cavaleiros de Rohan liderados por Éomer e no amanhecer do dia seguinte os Cavaleiros atacaram, matando todos eles. Mas o pior para Saruman foi o fato de que Merry e Pippin escaparam para a Floresta Fangorn, onde eles conheceram Barbárvore, que vinha sendo incomodado pela destruição desenfreada de suas árvores por Saruman. A chegada de Merry e Pippin fez com que os Ents se levantassem e tomassem uma atitude em relação ao que acontecia à Floresta.

Saruman não estava ciente do que havia acontecido aos seus Uruk-hai e estava tão desesperado por obter o Anel que ele mesmo foi até os limites de Fangorn uma noite em fevereiro, onde foi avistado por Gimli, Aragorn e Legolas. Saruman encontrou as carcaças de sua companhia, porém ele não sabia se eles estavam lhe levando o Anel e se estavam, o que lhe havia acontecido. Temendo que os Rohirrim houvessem tomado posse do Anel, Saruman retornou à Isengard e lançou o ataque contra Rohan. Antes do anoitecer de 2 de março, Saruman enviou uma porção de suas forças para interceptar os Rohirrim na Segunda Batalha dos Vaus de Isengard, na qual os Rohirrim ofereceram uma resistência ferrenha, porém à meia-noite Saruman liberou todo o contingente de Isengard: um exército de milhares de Orcs, alguns montados em Wargs, assim como Homens, alguns da Terra Parda e outros que pareciam ter sangue de Orc em suas veias. Os defensores do Vau do Isen foram divididos e espalhados enquanto o exército de Saruman continuou até chegarem à fortaleza do Abismo de Helm, onde o Rei Théoden havia buscado refúgio.

Saruman estava em seus portões assistindo suas tropas deixarem Isengard; porém, quando a última companhia havia passado, os portões foram repentinamente atacados por Ents. Saruman não havia previsto que os Ents se voltassem contra ele e ele não tinha idéia de como lidar com essa antiga força da natureza. Os Ents derrubaram os muitos de Isengard e Saruman refugiou-se em Orthanc, perseguido por Tronquesperto, um Ent cujas sorveiras haviam sido destruídas pelos Orcs de Saruman.

Saruman se trancou em sua torre, a qual os Ents eram incapazes de destruir, e de lá atacou os Ents com fogo líquido e vapores saídos dos poços cavados no jardim de Isengard. Os Ents se enfureceram e começaram a se atirar contra Orthanc e Saruman respondeu com uma risada sinistra, o que fez com que os Ents se tornassem calmos e determinados, desviando as águas do Isen para Isengard e os fogos de Saruman foram apagados e sua sujeira lavada.

Ao amanhecer de 4 de março, o exército de Saruman foi derrotado na Batalha do Abismo de Helm graças à precisa chegada dos reforços reunidos por Gandalf e uma floresta de Huorns enviados por Barbárvore. Muitos dos Homens de Saruman se renderam e receberam misericórdia; seus Orcs, porém, fugiram para dentro da floresta de Huorns e nenhum deles foi visto com vida novamente.

Gandalf e o Rei Théoden foram então para Orthanc dialogar com Saruman e este tentou persuadir Théoden a juntar-se a ele usando o poder de sua Voz.

“As pessoas que escutavam aquela voz desavisadamente mal conseguiam depois reportar as palavras que tinham ouvido; e quando conseguiam titubeavam, pois pouca força restava nelas. A maior parte do que conseguiam lembrar era o prazer que sentiram ao ouvir a voz falando, e que tudo o que ela dissera parecera sábio e razoável, despertando neles um desejo de, mediante um acordo rápido, parecerem sábios também. Quando outras vozes falavam, pareciam por contraste rudes e grosseiras; e se se opusessem à voz o ódio se acendia no coração dos que estavam sob o efeito do encanto. Para alguns o encanto durava apenas enquanto a voz lhes falava, e quando ela se dirigia aos outros eles sorriam, como os homens fazem quando percebem o truque de um ilusionista diante do qual os outros ficam pasmos. Para muitos, apenas a voz era o suficiente para mantê-los cativos; mas para
aqueles que eram seduzidos por ela o encantamento perdurava mesmo quando estava longe, e eles continuavam escutando a voz suave sussurrando e incitando-os. Mas ninguém ficava impassível; ninguém conseguia recusar seus pedidos e seus comandos sem um esforço de mente e de vontade, enquanto seu mestre tivesse controle dela.”
As Duas Torres: “A Voz de Saruman”.

Entretanto, Théoden não foi enganado ao se lembrar da crueldade do exército de Saruman e ele percebeu que Saruman era apenas uma ferramenta nas mãos de Sauron. Quando Théoden rejeitou a proposta, Saruman voltou sua atenção a Gandalf, porém esse apenas riu e lhe deu a escolha de descer de sua torre e abandonar sua aliança com Sauron. Saruman teve um momento de incerteza, mas o orgulho e o ódio venceram e ele recusou a oferta; então Gandalf se revelou como Gandalf, o Branco, quebrou o cajado de Saruman e o expulsou da Ordem dos Magos e do Conselho Branco. Saruman então voltou a se trancar em Orthanc.

 Gríma atirou o palantir do alto da torre e Pippin o apanhou. Saruman se enfureceu quando ele descobriu o que Gríma havia feito, pois agora ele não tinha meios de se comunicar com Sauron. Um Nazgûl alado já estava a caminho de Isengard a fim de descobrir o que Saruman estava tramando. Quando Pippin olhou no palantir, Sauron pensou que Saruman estava mantendo o Portador prisioneiro. Mais tarde, ainda no mesmo dia, Aragorn olhou na pedra de Orthanc e confrontou Sauron, atraindo a atenção do Inimigo para o retorno do herdeiro de Isildur e incidentalmente aliviando Saruman da ira de Sauron.

Saruman permaneceu prisioneiro em Orthanc vigiado pelos Ents. Em 25 de março de 3019, o Anel foi destruído e o reino de Sauron caiu em ruínas. Barbárbore permaneceu em sua vigilância por vários meses após a tomada de Isengard e deu detalhes da queda de Sauron a Saruman, usando grandes palavras até que Saruman se cansou. O poder de Saruman havia decrescido bastante desde que seu cajado havia sido quebrado, mas ele ainda tinha a sua Voz e com ela ele foi capaz de usar da relutância de Barbárvore em manter aprisionado qualquer ser vivente e acabou por convencê-lo de que não era mais uma ameaça a ninguém. Saruman foi libertado em 15 de agosto e então ele entregou as Chaves de Orthanc para o velho Ent e seguiu para o norte com Gríma.

Em 28 de agosto, Saruman e Gríma foram interceptados por Gandalf e os Hobbits, junto com Galadriel, Celeborn e Elrond a caminho dos Portos Cinzentos. Gandalf e Galadriel ofereceram ajuda a Saruman, mas esse a recusou e ele tripudiou ao ver que os Três Anéis dos Elfos haviam perdido seu poder quando o Um Anel havia sido destruído. Saruman se enfureceu ao ver os Hobbits parecendo prósperos e seguros sob a proteção de Gandalf e então decidiu lhes ensinar uma lição; foi até o Condado com Gríma, chegando em 22 de setembro. Muitos de seus agentes já estavam por lá atendendo uma convocação de Lotho Sacola-Bolseiro, um dos Hobbits que Saruman havia corrompido. Lotho havia se proclamando Condestável do Condado, porém os Homens do Chefe estavam encarregados do Condado, e eles estabeleceram uma série de Leis injustas. Quando o verdadeiro mestre dos Homens, Saruman, chegou, ele assumiu como Chefe. Lotho foi esfaqueado até a morte enquanto dormia por Gríma, a mando de Saruman.

Saruman buscava vingança pela destruição de Isengard tentando arruinar o Condado. Os Homens do Chefe começaram a destruir e queimar aleatoriamente casas, árvores e fazendas. O Novo Moinho foi usado para algum propósito industrial e O Água se tornou poluído com lixo. Saruman se mudou para a casa de Frodo em Bolsão e encheu os jardins com mais lixo. As provisões se tornaram mais escassas e o Chefe mais impiedoso, e os Hobbits que haviam sido aprisionados nos Tocadeados eram frequentemente espancados.

Frodo, Sam, Merry e Pippin retornaram ao Condado em 30 de outubro. Saruman soube de sua chegada e enviou uma mensagem à casa do Condestável no Sapântano para que eles fossem detidos e levados a ele. Porém os quatro Hobbits se adiantaram a seus captores e seguiram pelo Beirágua, onde eles convocaram os Hobbits a se erguerem contra os Homens do Chefe. Na Batalha de Beirágua em 3 de novembro, os Hobbits derrotaram os Homens do Chefe e os expulsaram do Condado. Frodo então foi até Bolsão e encontrou Saruman. O Mago se regozijou ao ver a destruição que ele havia causado e alguns dos Hobbits pediram por sua morte, porém Frodo declarou que a vida de Saruman deveria ser poupada e ordenou que ele deixasse o Condado imediatamente. Saruman tentou apunhalar Frodo, e mesmo assim Frodo não permitiu que os outros matassem o Mago caído.

“Saruman se pôs em pé e encarou Frodo. Havia um olhar estranho em seus olhos que mesclavam espanto, respeito e ódio. “Você cresceu, Pequeno — disse ele. Sim, você cresceu muito. É sábio e cruel. Roubou a doçura de minha vingança, e agora parto amargurado, em divida para com a sua clemência. Odeio você e sua demência! Bem, vou embora e não o incomodarei mais. Mas não espere de mim que lhe deseje saúde e vida longa. Não terá nenhuma das duas coisas. Mas isso não será por obra minha. Estou apenas prevendo.” O Retorno do Rei: “O Expurgo do Condado”.

 

Saruman se preparou para partir e ordenou que Gríma o acompanhasse, porém Frodo disse que ele poderia ficar se desejasse. Saruman revelou então que Gríma havia matado Lotho e quando Gríma respondeu que havia apenas seguido ordens de Saruman, esse caçoou dele e o chutou no rosto. Gríma então pulou sobre Saruman e lhe cortou a garganta. Dessa forma Saruman morreu e seu espírito deixou seu corpo, para nuca mais voltar à Terra-média ou Terras Imortais, de onde ele havia vindo.

 

“Para o assombro dos circunstantes, ao redor do corpo de Saruman formou-se uma névoa cinzenta que, subindo lentamente a uma grande altura qual a fumaça de uma fogueira, pairou sobre a Colina como um vulto pálido e amortalhado. Por um momento vacilou, olhando para o Oeste; mas do oeste veio um vento frio, e o vulto se curvou, e com um suspiro dissolveu-se em nada.

Frodo olhou para o corpo com pena e terror, pois enquanto olhava pareceu que de repente longos anos de morte se revelavam nele, e o corpo encolheu, e o rosto enrugado transformou-se em trapos de pele sobre um crânio hediondo.” O Retorno do Rei: “O Expurgo do Condado”.

 

 Nomes e Títulos

Sauman, o Branco:

O nome Saruman significa “homem habilidoso”. Esse era o seu nome na língua dos Homens do Norte. Em inglês antigo, a palavra searu significa tanto “arte, habilidade, esperteza” quanto “truque, emboscada, plano, traição”. A cor de Saruman era originalmente branca e ele vestia mantos brancos.

 

Curunír:

Curunír significa “aquele com recursos engenhosos” ou “homem habilidoso ou artífice” em Sindarin. O elemento curu significa “habilidade, artífice” e nír é uma forma derivada de dir, uma terminologia masculina. Também era chamado de Curunír ‘Lân, onde ‘Lân deriva de glân, que significa “branco”.

 

Curumo:

Curumo é o equivalente em Quenya de Curunír. Esse é o nome pelo qual Saruman era conhecido como um Maia.

 

Mensageiro Branco:

Quando Saruman chegou na Terra-média ele era conhecido como o Mensageiro Branco pois era um mensageiro dos Valar e vestia um manto branco.

 

Chefe da Ordem dos Magos:

Saruman era o Chefe da Ordem dos Magos, que também incluía Gandalf, Radagast e os Magos Azuis.

 

Chefe do Conselho Branco:

Após a formação do Conselho Branco – composto pelos principais Elfos e Magos – Saruman se tornou o Chefe do Conselho Branco.

 

Saruman o Sábio:

Saruman era chamado por muitos, e se chamava, Saruman, o Sábio.

 

Saruman o fazedor de Anéis:

Saruman também referia a si mesmo dessa forma por ele ter feito ao menos um Anel de Poder menor.

 

Saruman de Muitas Cores:

Saruman abandonou sua cor original em favor de mantos multicolores que assumiam diversas cores aos olhos dos expectadores.

 

‘Branco!’, zombou ele. ‘Serve para começar. O pano branco pode ser tingido. Pode-se escrever sobre a página em branco; a luz branca pode ser decomposta.”  A Sociedade do Anel: “O Conselho de Elrond”.

 

 Chefe:

Saruman foi para o Condado em setembro de 3019 T.E. e assumiu como Chefe no lugar de Lotho Sacola-Bolseiro.

 

Charcote:

Saruman era chamado de Charcote por seu povo em Isengard assim como pelos Homens do Chefe no Condado. Saruman pensou que esse fosse um termo de afeição, porém isso provavelmente era derivado do Órquico para “homem velho”.

 

 

Fonte:
The Thain’s Book

 

Ents

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Ents são uma raça humanóide de árvores na Terra-média de Tolkien. Aparentam ter sido inspiradas nas árvores falantes de muitos dos folclores mundiais. Na época em que se passa O Senhor dos Anéis, não existem jovens Ents (conhecidos como Entings), pois as Entesposas (Ents fêmea) se perderam.
 
 
Etimologia

A palavra “Ent” foi tirade do Anglo-Saxão, onde ela significa “gigante”. (Tolkien extraiu a palavra de fragmentos de poesias Anglo-Saxãs orþanc enta geweorc = "trabalho de sábios gigantes" e eald enta geweorc = "velho trabalho de gigantes". Nesse sentido da palavra, Ents são provavelmente os mais onipresentes de todas as criaturas nas fantasias e folclores, talvez perdendo apenas para dragões. A Palavra Ent como é usada históricamente pode se referir a qualquer número de grandes criaturas humanóides, incluindo, mas não se limitando a, gigantes, trolls, orcs e até mesmo Grendel, do poema Beowulf.

Nesse sentido da palavra, Ents são um dos pilares da fantasia e folclore/mitologia, junto com magos, cavaleiros, princesas e dragões, embora falantes do Inglês moderno provavelmente não os chamem pelo seus nomes tradicionais.

Junto com o Velho Nórdico Jorun, “ent” veio do Germânico Comum *etunaz.

Descrição

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Barbárvore, o mais velho Ent vivo, foi descrito como

… uma figura semelhante a um homem, quase semelhante a um troll, de pelo menos quatro metros e meio de altura, muito robusta, com uma cabeça alta e quase sem pescoço. Se estava coberta por alguma coisa semelhante a casca de árvore verde e cinzenta, ou se aquilo era seu couro, era dificil dizer. De qualquer forma, os braços, numa pequena distância do tronco, não eram enrugados, mas cobertos de uma pele lisa e castanha. Cada um dos pés tinha sete dedos. A parte inferior do rosto comprido estava coberta por uma vasta barba cinza, cerrada, quase dura como galhos na raiz, fina feito musgo nas Pontas. Mas naquela hora os hobbits notaram pouca coisa além dos olhos. Uns olhos profundos, lentos e solenes, mas muito penetrantes. Eram castanhos, carregados de uma luz esverdeada.

Os Ents são uma raça muito antiga que apareceu na Terra-média junto com os Elfos. Aparentemente foram criados por Eru Ilúvatar a um pedido de Yavanna após ela descobrir sobre os filhos de Aulë, os Anões, sabendo que eles iriam derrubar as árvores. Ents foram tidos como Pastores de Árvores, para protegerem as florestas dos Orcs, Anões e outros perigos. Embora os Ents fossem criaturas sentientes na época de seu despertar, eles não sabiam como falar até os Elfos os ensinarem. Barbárvore disse que os Elfos “nos curaram de nosso mutismo” que havia sido um grande dom que não deveria ser esquecido. (“Eles sempre desejavam conversar com tudo, os velhos Elfos queriam.”).

Ents são criaturas parecidas com árvores, tendo se tornado muito parecidas com as árvores que eles pastoreiam. Traços individuais variam, da altura (em média quatro metros e meio) ao tamanho, coloridade e o número de dedos das mãos e pés. Também possuem as fraquezas das árvores, e podem ser queimados e derrubados. Um Ent, individualmente, se assemelha muito às espécies específicas que eles guardam. Por exemplo Bregalad (Tronquesperto) guardava Sorveiras e, assim sendo, se parecia muito com uma (alto e esbelto). Na Terceira Era da Terra-média, a floresta de Fangorn era o único lugar conhecido ainda habitado por Ents, embora os Huorns (criaturas parecidas com Ents) ainda tivessem sobrevivido em algum outro lugar, como na Velha Floresta.

Barbárvore se vangloriou para Merry e Pippin sobre a força dos Ents. Ele disse que eram muito mais poderosos do que Trolls, os quais Morgoth (nos Dias Antigos ou na Primeira Era) supostamente os fez como zombaria dos Ents mas não chegou perto de seus poderes. Ele compara isso com como os Orcs eram as imitações de Morgoth dos Elfos. Ents são altos e muito fortes, capazes de partir rochas e pedras. Tolkien os descreve atirando grandes pedaços de pedra e destruindo as muralhas de Isengard “… como migalhas de pão.”

O nome Sindarin para os Ents (como uma raça) é Onodrim, um único Ent é Onod, e o conjunto de Ents é Enyd.

História

Primeira Era
Quase nada é conhecido da história antiga dos Ents. Após os Anões terem sido postos para dormir por Eru para aguardarem a chegada dos Elfos, Aulë disse a Yavanna, sua esposa que “ama a todas as coisas que crescem na terra”, sobre eles e ela reagiu com: “Eles escavarão a terra, e as coisas que crescerm e vivem sobre a terra eles não ouvirão. Muitas árvores sentirão a mordida de seus machados sem piedade.” Depois disso ela foi até Ilúvatar e apelou a ele para que protegesse as árvores, e os Ents foram o resultado de seu apelo. Yavanna então avisou Aulë “agora avise os seus filhos! Pois caminhará um poder nas florestas cuja ira eles inflamarão quando em perigo”.

Ali eles são mencionados como os “Pastores das Árvores”. Barbárvore falou sobre uma época onde aparentemente toda Eriador era uma imensa floresta e parte de seu domínio, mas essas imensas florestas foram cortadas pelos Numenoreanos da Segunda Era, ou destruídas na calamitosa Guerra dos Elfos e Sauron no 17º século da Segunda Era. As palavras de Barbárvore são suportadas pelas ressalvas que Elrond fez no Conselho de Elrond, onde ele disse “Houve um tempo em que um esquilo poderia ir, de árvore em árvore, de onde é hoje o Condado até a Terra Parda, a oeste de Isengard”, indicando que toda Eriador foi uma vez uma única floresta primitiva, da qual a floresta de Fangorn era apenas “a Parte Oriental dela” de acordo com Barbárvore.

Há apenas uma referência em “O Silmarillion” aos Onodrim em Beleriand, que aparece após Beren Erchamion e uma força de Elfos Verdes emboscaram a força dos Anões que estavam voltando para Nogrod, nas Montanhas Azuis. Os Anões são derrotados pelas forças de Beren e se espalham floresta adentro onde os Pastores de Árvores se encarregariam de que nenhum escaparia. Talvez essa referência ao historico conflito Anão-Ent contribua para a apreensão de Barbárvore quando Gimli entra em Fangorn, em “As Duas Torres”.

Entesposas
Existiam as Entesposas (literalmente “mulher-Ent”), mas elas começaram a se mover para longe dos Ents pois elas gostavam de plantar e controlar coisas, enquanto os Ents gostavam de deixar as coisas tomarem o seu rumo natural, e então elas se mudaram para a região que ficou conhecida como Terras Castanhas, depois do Grande Rio Anduin, embora os Ents ainda as visitassem. As Entesposas, ao contrário dos Ents, interagiram com a raça dos Homens e lhes ensinaram muito sobre agricultura.

Aparentemente os Ents e as Entesposas apresentavam um grau de dimorfismo sexual; os Ents sempre se pareciam com árvores selvagens das florestas que eles guardavam (carvalhos, sorveiras, etc.), porém as Entesposas guarfavam plantas agrícolas, e assim seria provavel que se assemelhassem às várias plantas de agricultura e árvores que guardavam: Barbárvore frisa que os cabelos delas eram amarelos como os grãos de milho.

As Entesposas viviam em paz até seus jardins serem destruídos por Sauron (mais provavelmente durante a Guerra da Última Aliança), e então elas desapareceram. Os Ents procuraram por elas mas nunca as encontraram novamente. Foi cantado pelos Elfos (Ents se contentavam em apenas “cantar os belos nomes delas”) que um dia os Ents e as Entesposas se encontrarão novamente. De fato, em O Retorno do Rei, Barbárvore implora para que os Hobbits não se equeçam de mandar notícias para ele se “souberem de quaisquer novidades” de Entesposas “em suas terras”.

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Em A Sociedade do Anel, Samwise Gamgee menciona que seu primo Hal diz ter visto um gigante parecido com árvore, que se assemelhava a um Olmo, não apenas em tamanho mas em aparência, ao norte do Condado. Durante o episódio de Fangorn, Merry e Pippin disseram a Barbárvore sobre o Condado e Barbárvore disse que as Entesposas teriam gostado daquela terra. Isso, combinado pela visão do gigante-árvore pelo primo de Sam mencionada acima, levaram à algumas especulações pelos leitores de que as Entesposas tivessem vivido perto do Condado. O próprio Tolkien passou muito tempo considerando o que realmente acontecera às Entesposas (em um ponto simplesmente dizendo que até ele mesmo não sabia), entretanto ele declarou em Cartas #144: “Eu acho que de fato as Entesposas desapareceram para sempre, sendo destruídas com seus jardins na Guerra da Última Aliança…”

Ao final da estória após Aragorn ser coroado rei, ele prometeu a Barbárvore que os Ents poderiam prosperar novamente e se espalhar para novas terras com o final da ameaça de Mordor, e renovar as suas buscas pelas Entesposas. Entretanto, Barbárvore tristemente lamenta que as florestas poderiam se espalhar mas os Ents não o fariam, e ele predisse que os poucos Ents remanescentes permaneceriam em Fangorn até eles lentamente minguarem em número ou se tornarem “arvorescos”. “Ovelhas  ficam como pastores e pastores ficam como ovelhas. [...] Mas é mais rápido e próximo, com árvores e Ents”, ele disse.

Entings
Embora nunca vistos e brevemente mencionados, Entings são jovens Ents. Quase não há descrições de Entings, mas é presumível das descrições de Bregalad (um jovem e apessado Ent) e os comentários de Barbárvore como sendo mais “curvados” do que os outros, e eles são muito como os brotos e talvez como mudas em sua idade mais nova. Não está certo se eles nascem como as árvores que eles pastoreiam ou se eles se tornam daquela maneira, ou mesmo como eles são gerados.

De acordo com Barbárvore não existem Entings sobre a Terra-média durante a Terceira Era e não existe nenhum desde há muito tempo. E nunca mais haverão outros Entings “pois não há mais Entesposas”.

A Última Marcha dos Ents
Em As Duas Torres, os Ents – geralmente um povo muito e deliberativo – se enfureceram contra Saruman, cujos exércitos estavam cortando grandes números de suas árvores. Eles convocaram um Entebate, um encontro dos Ents da floresta de Fangorn em Valarcano.

Após sua demorada deliberação (três dias, embora sob a perspectiva dos Ents, isso é uma ação bem rápida), eles marcharam para a fortaleza de Saruman em Isengard: A Última Marcha dos Ents. Foram consuzidos por Barbárvore, o Ent mais velho, e acompanhados pelos Hobbits Merry e Pippin. Os Ents que marcharam contra Isengard eram em torno de 50, mais os Huorns. Eles destruíram Isengard em um assalto massivo, destruindo a muralha que a cercava, e se tornando tão enfurecidos que o poder de suas vozes sozinho já causava destruição – “Se o Grande Mar tivesse se levantado em ira e caído sob as colinas com tempestade, não teria feito maior estrago”. – e aprisionaram Saruman na torre de Orthanc. Tolkien mais tarde notou que a destruição de Isengard pelos Ents foi baseada em seu desapontamento com Macbeth; quando “a Floresta de Birnham vier para Dunsinane”, Tolkien estava menos do que entusiasmado ao descobrir que eram apenas homens andando no palco com folhas em seus chapéus. Ele decidiu que quando ele fizesse aquela cena para si próprio, ele faria direito.

Ents Nomeados

Na narrativa de O Senhor dos Anéis, seis Ents são identificados por nome. O principal personagem Ent e o primeiro a ser encontrado pelos leitores e Hobbits, é Fangorn (Barbárvore). Os outros Ents são Ossofaia, Bregalad, Fimbrethil, Finglas e Fladrif

  • Fangorn: Também conhecido como Barbárvore. Ao final da Terceira Era, ele, Casca-de-Pele e Mecha-de-Folha, eram os últimos remanecentes dos primeiros Ents que apareceram na Terra-média na Primeira Era das Estrelas, e como tais, estavam entre as criaturas vivas mais velhas do mundo. Na longa passagem do tempo, o domínio dos Ents foi gradativamente reduzido para a floresta de Fangorn, nomeada com o Sindarin para Barbárvore
  • Finglas: Traduzido do Élfico como Mecha-de-Folha. Durante a época da Guerra do Anel, Mecha-de-Folha havia se tornado sonolento e arvoresco. Começou a ficar sozinho em uma campina e dormia durante o verão, no começo ele acordava durante o inverno, porém ultimamente ele ficava adormecido por mais de ano. Se cobria com cabelos folhosos. (Não está claro se Tolkien derivou o nome de Finglas em Dublin, Irlanda, ou se é apenas coincidência.)
  • Fladrif: Traduzido do Élfico como Casca-de-Pele. Ele viveu em sopés de montanhas a oeste de Isengard. Os Orcs de Saruman devastaram essa área, cortando árvores e matando Ents. Casca-de-Pele chegou a ser ferido por eles e recuou bem para cima dos sopés das montanhas para viver entre as bétulas que tanto gostava e se recusou a descer novamente.
  • Ossofaia: Um Ent que foi queimado e morto pelas artimanhas de Saruman. Sua morte endureceu o resto dos Ents. Na adaptação de Peter Jackson para o cinema, um Ent tido como Ossofaia é rapidamente visto apagando o fogo de seu corpo na enchente que envolve Isengard e depois é tido como continuando vivo.
  • Bregalad: Também conhecido como Tronquesperto, Bregalad era um Ent relativamente jovem na época da Guerra do Anel, aparentemente “na flor da idade” e não necessariamente tão velho quanto Barbárvore (embora já fosse um adulto; não haviam filhos de Ent desde o desaparecimento das Entesposas). Bregalad guardava as sorveiras, e muito se assemelhava à elas. A palavra “tronquesperto” é uma palavra dialética Inglesa para uma sorveira. Seu nome Sindarin (Bregalad) traduz parcamente “Tronquesperto” (de bragol “súbito” e galad “árvore”). Ele recebeu esse nome quando disse “sim” antes de um outro Ent ter terminado de lhe fazer uma pergunta; isso mostrou que ele era incomumente “apressado” para sua raça. No Entebate, correspondeu à sua reputação de apressado, sendo o primeiro a decidir por atacar Isengard, pois os Orcs de Saruman haviam destruído muitas de suas sorveiras. Vendo que a decisão de Bregalad já havia sido tomada, Barbárvore o enviou para cuidar de Merry e Pippin enquanto o debate entre os outros Ents continuava. Mais tarde ele desempenhou um importante papel no ataque à Isengard, quase capturando o próprio Saruman. Embora Tronquesperto não apareça implicitamete na adaptação de O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, há um “Ent Sorveira” visto na filmagem que muitos fãs assumem ser Tronquesperto relegado à uma participação sem falas.
  • Fimbrethil: A esposa há muito perdida de Barbárvore, também conhecida como Pés-de-Fada, a dos passos leves. O casal era apaixonado desde antes de Morgoth se tornar poderoso durante a juventude do mundo. Traduzido, seu nome significava de acordo com o Índize de 1966 ‘delgada-bétula’ (de acordo com o Apêndice F ‘esbelta-faia’). Assim como todas as outras Entesposas, Fimbrethil se perdeu desde quando as forças de Sauron destruíram os jardins das Entesposas durante a Segunda Era. Na época da Guerra do Anel, Barbárvore não via a sua amada por mais de 3.000 anos.

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Vanyar

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Nos trabalhos de J. R. R. Tolkien, os Vanyar são os mais belos e nobres dos Altos Elfos. Eles são o menor dos três clãs dos Eldar, e foram os primeiros a chegar em Aman. De acordo com a lenda, o clã foi fundado por Imin, o primeiro Elfo a despertar em Cuiviénen, sua esposa Iminyë, e seus doze companheiros; porém foi Ingwë, o primeiro Vanya a viajar com Oromë para Valinor, quem se tornou seu rei. Eles falavam Quendya, um dialeto de Quenya encontrado apenas em Valinor.

O nome Vanyar (singular Vanya) singifica “(o) Belo” em Quenya, se referindo ao seu cabelo dourado (o significado original da palavra “vanya” mais aproximado de “claro/pálido’). São conhecido às vezes, particularmente entre si próprios, pelo seu nome original, Minyar, que significa “os Primeiros”. A palavra “vanya” em Quenya também é listada como um verbo que significa “partir/deixar/desaparecer”, que pode ter surgido devido à quase completa desaparição desse clã no começo da história Élfica, ou devido ao substantivo “vanya(r)” tempos depois. No entanto, não se sabe se esse é o caso, e parece que Tolkien acabou por usar “vanya” como verbo em suas últimas concepções de Quenya.
História
De acordo com a lenda Élfica Cuiviényarna, os Vanyar são descendentes de Imin, o primeiro Elfo a despertar em Cuiviénen, sua esposa Iminyë, e seis outros pares de Elfos que foram despertados por eles. Os companheiros de Imin, Tata e Enel, mais tarde despertaram grupos de nove e doze pares respectivamente, e Imin decidiu que agora seu grupo seria contado como terceio ao invés de primeiro pois seu grupo era o menor e cada grupo que ele e seus companheiros descobriram era maior do que o anterior. Porém, apenas mais dois grupos foram descobertos, deixando o grupo de Imin, com quatorze membros, como o menor dos três clãs Élficos.Quando os Elfos foram descobertos por Oromë, cada clã escolheu um embaixador para retornar com ele para Valinor e verificar suas alegações de grandiosidade. Os Minyar (companheiros de Imin) enviaram Ingwë e quando ele reotrnou, seu povo foi seduzido por seu testemunho e o aceitaram como seu rei (bastante apropriado, pois o nome Ingwë significa líder em Quenya), e ele os liderou com Oromë para Aman. Ingwë foi então reconhecido como Alto Rei de todos os Elfos, e se tornou conhecido como Ingwë Ingweron, o “Líder dos Líderes”, e seu povo foi conhecido pelo resto dos Eldar como os Vanyar. Ele vive com eles aos pés da Taniquetil, abaixo dos salões de Manwë.

Após chegarem em Aman, os Vanyar foram raramente vistos pelos outros Elfos. Poucos Vanyar foram conhecidos indivialmente além de Imin, Ingwë e sua irmã (possívelmente sobrinha) Indis, a segunda esposa de Finwë (o rei dos Noldor) e mãe de Fingolfin e Finarfin, sendo Finarfin aquele que fundou a única casa dos Elfos Noldorin a terem os cabelos dourados dos Vanyar. Após o assassinato de seu marido por Melkor em seu ataque a Formenos, ela retornou para o seu povo, junto com sua filha Findis.

Os Vanyar puros somente foram vistos na Terra-média uma vez após a sua partida, quando o filho de Ingwë, Ingwion, conduziu uma hoste armada de seu povo de Valinir para lutar na Guerra da Ira (essa provavelmente foi também a unica vez em que Vanyar e Homens se encontraram). Eles retornaram para Aman, junto com a maioria dos Eldar que viviam na agora devastada Beleriand, ao final da Primeira Era.

Embora nenhum Vanyar puro tenha jamais posto os pés na Terra-média após a Grande Jornada, salvo pelos que lutaram na Guerra da Ira, foi através de Indis, a segunda esposa de Finwë e mãe de Fingolfin e Finarfin, que alguns descendentes dos Vanyar vieram para a Terra-média, notavelmente trazendo seus traços marcantes, como seus distintos cabelos dourados de Vanyarin.

Quendya

Como Elfos favoritos de Manwë, os Vanyar teriam se envolvido mais profundamente com os Valar e Maiar do que os Noldor e Teleri, o que presumivelmente teria resultado em ao menos algumas diferenças em sua cultura. O dialeto Vanyarin de Quenya, conhecido como Quendya, leva a sugerir isso, encorporando várias palavras derivadas do Valarin que não são encontradas no dialeto Noldorin, como tulka (“amarelo”, do Valarin tulukha(n)), ulban (“azul”, presumivelmente do mesmo radical Valarin ulu/ullu que sgnifica “água”), nasar (“vermelho”, sem menção ao original Valarin) e miruvózë (a partir de mirubhôzë, do qual também foi derivado miruvor, o cordial* de Valfenda em O Senhor dos Anéis. O Quenya Vanyarin também retém uma acentuação distinta para inflexões substantivas, que foi abandonada na variação exílica Noldorin.

* [N.T.] Cordial pode ser entendido como licor, porém na forma como foi colocada no contexto preferi manter pois, seguindo a Wikipedia, Cordial é qualquer preparação revigorante e estimulante.

Outras versões do Legendarium

Nas primeiras versões da mitologia de Tolkien (veja: The History of Middle-earth), a Primeira Família dos Eldar foi chamada de Teleri, enquanto a Terceira Família, os Elfos conhecidos como Teleri na versão publicada de O Silmarillion, era chamada de Solosimpi. Antes de serem renomeados Vanyar, a Primeira Família era citada em manuscritos como os Lindar (‘Cantores’). Na publicação de O Silmarillion, o nome Lindar foi dado como nome para a Terceira Família como eles se referiam a si próprios, em preferência a algum nome pejorativo dos Teleri (naquela época na evolução do Quenya significando ‘Retardatários’, ‘Últimos’), que era como as outras famílias os chamavam.

O Retorno da Sombra – Parte 2

fanfic_retornosombra_sauron.jpgSobre o Nada e seu conteúdo – No exato momento em que Melkor fez a espada se chocar contra a Parede do Vazio, Sauron pôde sentir que todo o lugar havia ficado em silêncio, não apenas um silêncio coordenado entre diversas vozes, mas um silêncio pesado, quase tangível, que precedeu uma enorme apreensão. Ele chegou a olhar em volta, até mesmo se virou para observar melhor a ampla escuridão que os cercava, mas não soube ao certo por quanto tempo aquele momento havia durado, nem se Melkor também havia sentido aquilo tudo. Quando Sauron estava voltando o seu olhar para Melkor, a esverdeada lâmina da espada já havia se encontrado com a Parede e um intenso, porém curto, brilho foi emitido junto com um enorme estrondo que fez mais uma vez todo o Vazio estremecer. Pego de surpresa tanto pelo clarão quanto pelo estrondo, Sauron se sentiu instantaneamente cego e não conseguiu se manter em pé, caindo de costas e sentindo toda a poderosa vibração do Vazio chegando até ele pelo chão.

 
Fazia um tempo já que os tremores haviam cessado, mas Sauron ainda era
incapaz de enxergar alguma coisa além de um intenso brilho branco,
sabia apenas que Melkor ainda estava perto dele, entretanto esse também
não emitia som algum. Sentindo uma crescente angústia tomar conta de si
e também ansioso por saber o resultado da tentativa de Melkor, Sauron
se pôs de pé e esfregou os olhos várias vezes até conseguir divisar uma
silhueta brilhante que aos poucos foi tomando a forma de Melkor e, para
além dele, uma imensidão se abria. Não uma imensidão como a do Vazio,
completamente desprovida de vida e com um brilho mortiço emanando das
paredes e caminhos. O que Sauron via agora era algo que ele nunca havia
imaginado poder existir e não havia lembrança alguma em seu ser
daqueles tempos remotos em que ele habitava os Salões Atemporais e
vivia em harmonia com os outros Ainur. Estava tão maravilhado com a
primeira visão que tinha daquelas novas maravilhas que havia se
esquecido de todo o resto das coisas; não havia mais a urgência em
voltarem para Mordor, a necessidade de recuperar o seu Anel e
conquistar da Terra-média pareciam agora uma lembrança longínqua, quase
apagada, de um plano menor.

Ali ele teria ficado por tempo incontável, absorto em suas indagações
sobre o que seria aquele lugar, não fosse por Melkor ter tocado em seu
ombro e lhe convidado a segui-lo para explorarem aquela imensidão de
estrelas amontoadas em pequenas e grandes constelações ou espalhadas
entre o que lhe pareceu serem outros mundos, rastros multicoloridos de
poeira cósmica deixados por enormes asteróides que iam e vinham,
enormes vórtices negros como a escuridão do Vazio que sugavam tudo o
que se aproximasse de suas espirais. Sauron sentia-se em êxtase, nunca
antes experimentado por ele, e ele devorava aquelas novas visões como
uma criança se farta de uma imensa tigela de doces, consumindo tudo com
medo de que tudo se acabasse antes de estar completamente saciado.
Estavam andando entre aquelas coisas maravilhosas por bastante tempo
já, mas Sauron ainda não havia sido capaz de divisar onde tudo aquilo
acabava; era como dentro do Vazio, mas diferente porque ali a luz
emanava de todos os cantos e de lugar algum, como se a fonte dela fosse
todos os planetas, estrelas, cometas e etc… o único lugar onde a luz
deixava de existir era dentro dos vórtices negros que ficavam espaçados
simetricamente para que nenhum se juntasse ao outro, fazendo com que
toda a luz criada fosse consumida por eles, de forma a manter um
equilíbrio que ele ainda não havia sido capaz de entender.

De repente, sons começaram a chegar aos seus ouvidos. Até então Sauron
não havia captado som algum, havia apenas uma macia e ensurdecedora
ausência de sons. Uma música bem baixa, porém nítida, invadia a sua
mente e ia aumentando cada vez mais e quando ele olhou com espanto para
Melkor, ele percebeu nos brilhantes olhos daquele poderoso Vala que
aquilo eram memórias dele, de quando ele havia saído das Mansões de
Manwë e ido atrás de seu verdadeiro nome. Sauron havia percebido que,
de alguma forma, naquele lugar sua mente e a de Melkor estavam ligadas
diretamente e tudo o que o Vala sentia ou se lembrava também ele,
Sauron, sentia e lembrava e assim se deixou levar pela constante e
fascinante música que agora começava a tomar forma diante de seus olhos
e assim lhe foi apresentado o Nada e toda a sua magnitude.

No meio de toda aquela enxurrada de coisas novas que lhe era
apresentada, Sauron começava agora a distinguir algumas palavras que se
repetiam com intensidade: Ere, Alcar e Chama. Havia também uma outra
música sendo cantada junto àquela primeira que Sauron prontamente
reconheceu como a Música dos Ainur, na qual ele havia tido uma
participação pequena, e que agora lhe parecia completamente
descompassada e conflitante com o Canto do Universo, que agora
aumentava em intensidade e ritmo. E conforme se seguia a batalha das
Canções, Sauron ia aos poucos conseguindo entender o que se passava na
história e dessa forma ele ficou sabendo como Melkor, primeiramente
chamado de Alcar, havia sido o primogênito dentre os Ainur e também o
mais forte deles. Porém, assim como aquele Vala, ele também não havia
compreendido porque Eru o havia rejeitado e, de certa forma, deixado de
lado em relação aos outros Ainur. Incomodou-se também com a inexpressão
e falta de força daquele nome, Alcar, que em nada fazia jus ao ser e
descobriu o motivo de Melkor estar tão à vontade no meio daquela
imensidão, pois o seu verdadeiro nome, Melkor, havia sido revelado pelo
Nada.

Todas essas novas informações que Sauron adquiria sobre Melkor ele
guardava em sua memória, porém a intensidade e quantidade de
informações agora era tão grande que ele mal conseguia fixar as mais
importantes e tinha que se esforçar por captar o sentido das outras.
Era como se agora as duas Canções houvessem se fundido em uma só e
estivessem sendo tocadas em um compasso mais acelerado. Sauron então
percebeu que a fonte de todas aquelas informações era Melkor, que tudo
o que lhe fora apresentado era parte das lembranças dele e que Melkor
agora começava a vasculhar nas suas memórias em busca de alguma coisa,
a coisa mais importante para ele e que o levou a se aventurar pela
imensidão do Nada. A Sauron apenas havia restado a opção de ouvir as
Canções e observar as belas coisas do Nada passarem por eles enquanto
Melkor os conduzia de um mundo belo a outro mais belo ainda, cada um
com sua própria vida e Luz. Foi observando e comparando esses mundos
que Sauron descobriu o que Melkor procurava avidamente: A Chama
Imperecível. A fonte de todas aquelas luzes que emanavam no Nada.

As Canções agora soavam mais alto dentro da mente de Sauron e ele já
não mais conseguia acompanhar o que elas significavam, apenas foi capaz
de perceber que as duas agora eram uma só poderosa Melodia, porém ainda
eram duas e seguiam juntas como as duas metades de um todo. Sauron se
esforçava por tentar entender o que a Melodia dizia, pois apesar de ter
certeza de que ele já havia sido criado naquele momento da Música dos
Ainur ele também sabia que o que ele ouvia agora era completamente
diferente do que havia acontecido Eras atrás, quando aquele embate
havia acontecido. Sauron conseguiu captar a visão de um mundo estranho,
completamente escuro e frio, mas ele podia sentir a vida pulsando nele
e num momento ele sentia como se estivesse no topo de uma elevada
montanha e o vento trazia as vozes das criaturas que ali habitavam, mas
as vozes nada lhe diziam pois ele não conhecia aquele idioma e logo em
seguida ele sabia que estava no topo de um rochedo, junto a uma imensa
massa de água que era agitada pelo mesmo vento, mas as vozes que lhe
chegavam eram diferentes das que ele havia ouvido no topo da montanha e
agora ele conseguia entender poucas palavras, as mais freqüentes eram:
“Não está aqui. Nunca será tua!”

Sauron estava já há tanto tempo empenhado em ouvir a Melodia e tentar
entender o que ela lhe dizia que já não sabia mais se ele viajava junto
com Melkor ou se já havia sido absorvido pelo poderoso Vala e agora
eram um só na busca da Chama Imperecível. De qualquer maneira que
fosse, Sauron não era mais capaz de enxergar Melkor ao seu lado, o que
o levou a pensar que eles fossem um só, porém ele ainda era incapaz de
entender completamente todos os acontecimentos que presenciava.

Da mesma forma como havia entrado naquele mundo, Sauron havia saído e
agora se encaminhava para perto de um daqueles vórtices que sugavam a
luz emanada dentro do Nada e por um breve momento ele sentiu uma
poderosa atração por ele, como se o vórtice o estivesse sugando junto
com a luz. Aquela atração ficava cada vez mais forte e ele sentia uma
sensação estranha ao se deixar levar pela onda de luz e a Melodia agora
começava a soar cada vez mais fraca e baixa, como se estivesse ficando
para trás. Ao se dar conta disso, Sauron olhou para o lado e se
espantou ao ver a silhueta de Melkor caminhando para uma direção
completamente diferente da sua e toda a tranqüilidade que havia sentido
ao ver pela primeira vez aqueles vórtices havia agora se transformado
em desespero. Sauron sabia que algo estava errado e que ele precisava
voltar para junto de Melkor: tentou chamar por ele mas sua voz parecia
não sair; respirou fundo e gritou com força por seu Senhor, mas as
palavras ao saírem de sua boca foram sugadas para dentro do vórtice.
Estava tentando pensar em um jeito de se livrar daquela correnteza de
luz quando teve uma visão alarmante: umas duas estrelas que estavam
mais adiantadas foram engolidas pelo centro do vórtice e emitiram um
potente clarão seguido de uma suave onda de calor, como se fosse um
último adeus ao Nada.

Sauron sabia que estava por conta própria e que, a não ser que ele
conseguisse saltar para fora daquela correnteza para um dos Mundos que
haviam em sua margem, aquele seria seu fim. Desesperado por pensar em
uma forma de se salvar, ele observou o que estava sendo sugado para
dentro do vórtice: um estreito e longo rastro de poeira multicolorida
fazia a borda externa da correnteza à sua esquerda e na outra
extremidade havia uma fila de rochas pontudas; no centro daquela
esteira haviam muitas estrelas já apagadas, algumas ainda brilhavam
como aquelas duas que ele viu serem engolidas e, para o seu total
espanto, um mundo inteiro estava um pouco à sua frente. Nesse mundo ele
pôde observar uma constante luta entre forças que lhe pareceram
familiares e, apenas observando de onde estava, soube que aquela luta
havia consumido completamente as energias daquele mundo, transformando
tudo em um completo caos e levando o mundo à extinção. Por um breve
momento aquele mundo e aquela luta lhe pareceram ser Eä e a sua luta
contra os Poderes, era como se aquilo fosse uma visão do futuro e o seu
desespero era tão grande que ele já ansiava por entrar naquele mundo e
lutar como nunca havia feito antes para que ele pudesse sentir o gosto,
ainda que efêmero, de dominar toda a Terra-média.

Mas como fazer para chegar até aquele mundo se ele estava preso ao
fluido de luz que seguia para o vórtice? Nesse momento ele soube que
estava condenado. A sua única esperança de salvação estava em Melkor,
porém esse estava completamente absorto na sua busca pela Chama
Imperecível que não havia sequer dado pela sua falta. E preso como
estava ao fluido ele não conseguiria ir nem em direção às rochas
pontudas da direita e nem tão pouco em direção ao rastro de poeira da
esquerda, que estava mais perto dele. Decidiu então que nada mais
importava além da vontade de entrar naquela Terra-média, desfrutar de
sua conquista e deixar de existir junto com ela. Já se preparava para
dar um salto e entrar no mundo quando uma das estrelas que ainda
brilhavam foi engolida pelo vórtice e junto com o clarão, que lhe cegou
brevemente, veio a suave onda de calor que o apanhou no ponto mais alto
de seu salto, o empurrando um pouco para trás. O clarão fez com que a
mente de Sauron saísse daquele transe e fixação pela Terra-média e o
trouxe de volta à realidade, permitindo que ele descobrisse que a onda
de calor liberada pelas estrelas seria a sua única chance de sair da
correnteza.
Sauron então bolou o seu plano para quando as próximas estrelas fossem
engolidas: como ele estava mais perto da extremidade da esquerda,
observou a parte que ficava além da poeira e contou os mundos que ainda
faltavam. Eram quatro, sendo que o último era o mais próximo ao vórtice
e havia um imenso intervalo entre ele e o terceiro. Sauron sabia que a
onda de calor o empurraria para trás, então ele teria que calcular
muito bem a sua trajetória em direção à margem esquerda. De onde ele
estava conseguia ter uma visão clara de tudo o que tinha à sua frente e
então começou a contar as estrelas que ainda brilhavam: eram sete
estrelas que ainda possuíam algum brilho, seis que já estavam mortas e
por último o mundo que ainda o chamava para dentro de si. Ao pensar no
mundo novamente Sauron imaginou que, se as estrelas podiam emitir um
leve clarão e uma onda de calor que o empurrava para trás quando
estivesse no “ar”, aquele mundo liberaria uma quantidade maior de luz e
calor a julgar pela proporção entre ele e as estrelas e, claro,
assumindo que ele ainda estivesse vivo até chegar ao vórtice.

Com todas essas considerações levadas em conta, Sauron se concentrou em
seu plano e após calcular e mentalmente sincronizar seus saltos com as
ondas de calor ficou em posição. Veio então o momento do primeiro salto
e, evitando olhar em direção ao vórtice para não ser cegado pelo
clarão, ele se lançou para o alto e para a esquerda, girando o corpo
todo de forma que o vórtice ficasse à sua direita e a esteira de poeira
multicolorida, à sua frente. Veio o segundo salto e então ele sentiu
que as coisas complicariam um pouco, pois para se desprender do fluxo
de luz que ia para o centro do vórtice era necessária bastante energia
e ele não sabia se teria condições de executar todos os saltos na hora
certa porque as estrelas não estavam espaçadas simetricamente; na
verdade ele sabia que a sexta e a sétima estavam muito mais próximas do
que as outras. Sauron dessa vez não se deixou dominar pelo desespero e
se concentrou em apenas saltar na hora certa e assim o fez nos saltos
seguintes, porém, ao executar o quinto salto, sentia que suas forças já
lhe falhavam e também que o chamado daquele mundo à beira da morte
ficava cada vez mais forte e parecia não ter ficado um centímetro
sequer mais longe do que antes, parecia até que havia saltado junto com
ele para perto da margem. O que de fato havia acontecido. Sauron não
sabia como, mas aquele mundo havia se movido junto com ele para a
esquerda e, para o desalento completo de Sauron, havia ficado
exatamente na sua frente.

Juntando todas as forças que ainda lhe restavam, Sauron se preparou
para o seu próximo salto e tentou bloquear a sua mente pra qualquer
outro pensamento que não fosse o de sair daquele fluxo. Veio então o
sexto salto e no momento em que ele estava chegando novamente ao
“chão”, Sauron pôde sentir o calor da sétima e última estrela sendo
dissipado no momento em que ela foi engolida pelo vórtice. Sauron
observou bem onde havia chegado e viu que mais aquele impulso final o
teria levado para fora da correnteza e para dentro do terceiro mundo
que havia contado antes do seu fim. Ainda havia o quarto e último
mundo, que se aproximava lentamente, assim como havia aquele mundo
moribundo caminhando lentamente para o seu fim e insistentemente
chamando por Sauron. Diante da ironia de não ter conseguido fugir do
seu fim e ter ficado tão próximo de concretizar o seu sonho de subjugar
toda a Terra-média mas não ter forças para entrar no mundo, Sauron
esboçou um lânguido sorriso para o que o destino lhe reservara e ficou
esperando aquele mundo completar o seu ciclo.

Conforme o fim se aproximava, Sauron sentiu que não teria coragem
suficiente para encarar o seu próprio fim então fechou os olhos com
força e se deixou levar para o vórtice. Tivesse mantido os olhos
abertos, teria visto que aquele decadente mundo estranho havia se
adiantado consideravelmente em direção ao vórtice e agora não mais
chamava por ele, apenas pulsava com uma luz esverdeada que se acumulou
ao seu redor, criando uma capa lúgubre. Sauron já não mais ouvia o
mundo chamar por ele, apenas o silêncio macio de outrora; silêncio esse
que foi quebrado abruptamente por uma voz firme que constantemente o
instava a pular quando fosse ordenado. Intrigado com essa repentina
mudança de atitude do mundo, Sauron abriu os olhos bem no momento em
que o mundo emitia o seu potente clarão e conseguiu apenas vislumbrar a
mortalha esverdeada que cobria o mundo antes de ficar momentaneamente
cego e, no exato momento em que a voz lhe ordenou, colocou todas as
suas forças naquele último salto e sentiu seu corpo ser levado pela
potente onda de calor dissipada por aquele estranho mundo.

Sauron sentiu seu corpo se chocar contra uma maciça parede de rochas e,
como se fosse um meteoro, atravessou aquela parede e mais outras duas
até se chocar com o que lhe pareceu uma árvore e quicar em um terreno
gramado e macio. Ainda cego pelo clarão Sauron apenas sabia que havia
escapado do vórtice e que não estava morto, porém uma dor indescritível
lhe percorria todo o corpo e era isso o que o fazia pensar que estava
vivo. A cada tentativa de movimento a dor aumentava então ele se deixou
ficar ali, deitado naquela relva macia e tentou colocar em ordem seus
pensamentos enquanto a sua visão não voltava ao normal e no meio do
turbilhão de informações, acontecimentos e visões, acabou por
adormecer. Acordou de repente e ficou espantado com a primeira visão
que teve daquele mundo, ao se por de pé com apenas um movimento voltou
a sentir aquela imensa dor que havia pensado ser apenas um sonho e logo
descobriu que, junto com a dor, outras sensações também haviam
despertado nele, como a fome. Essas descobertas o deixaram mais
aturdido do que antes, pois nunca havia sentido essas necessidades dos
filhos de Eru, mal havia começado a pensar se também sentiria fome
quando se deu conta de onde estava e então seus olhos varreram aquela
paisagem de fora a fora mais de duas vezes e ele custou a acreditar
neles.

Estava em pé no centro de uma imensa clareira cercada por altos
pinheiros e ciprestes por cujas copas a luz do dia dava a entender que
o sol havia acabado de surgir naquele mundo e uma estranha sensação de
familiaridade e conforto começava a brotar dentro de seu ser.
Caminhando devagar por causa das dores, Sauron seguiu na direção de
onde havia ouvido o barulho de água correndo e se deparou com um rio
estreito, mas não o suficiente para ser atravessado a pé ou nado devido
à força da correnteza que havia em suas águas. Aquela cena, de certa
forma, lembrou a Sauron como era o curso do Anduin que passava perto de
Dol Guldur e ele então se dispôs a seguir o curso daquele rio na
esperança de que chegasse a algum lugar que não fosse só floresta. E
assim seguiu por horas a fio até perceber que o curso do rio havia se
alargado consideravelmente e logo mais a frente notou que as árvores
começaram a ficar mais escassas e um barulho intenso, que ele ainda não
havia descoberto o que era, começou a crescer vindo de um ponto mais
avançado. Agora já não havia mais árvores próximas a ele e o ruído
agora era bem mais audível e um cheiro adocicado envolvia o ar a sua
volta aumentando cada vez mais a sua curiosidade e vontade de saber
onde estava.

Tamanha foi a sua surpresa ao descobrir que aquele barulho todo era
proveniente de não apenas uma, mas diversas quedas d’água que
convergiam para o mesmo ponto, que Sauron se deixou ficar admirando
aquela paisagem por horas e nesse meio tempo ele se lembrou de ter
contado uma por uma as sete quedas, incluindo aquela onde ele se
encontrava, e cada uma tinha uma particularidade diferente, ora com
rochas protuberantes que insistiam por ficar no meio do caminho da água
que caia com força sobre elas, produzindo uma divisão naquele fio de
água, ora com uma outra saliência que não ficava no meio do caminho,
mas ao lado onde algumas espécies de árvores pequenas e robustas
cresciam e serviam de abrigo para uma multidão de pássaros em seus
ninhos. Ao chegar bem na beirada da sua queda d’água, Sauron olhou para
baixo e viu que aquelas sete cachoeiras gigantescas formavam uma imensa
piscina natural que refletia, na sua parte mais calma, o límpido azul
daquele céu sem uma única nuvem.

Observando melhor aquelas quedas a atenção de Sauron se voltou para as
três quedas que estavam na parte mais a leste, tendo como base o nascer
do sol: a cachoeira do centro (a de número quatro, tendo a sua
cachoeira como a primeira) caia direto, sem nenhum obstáculo em seu
caminho, enquanto que as cachoeiras imediatamente à sua direita e
esquerda tinham suas águas divididas por rochas, sendo que a da direita
(quinta cachoeira) era divida logo no começo da queda por um maciço de
pedras escuras e a da esquerda (terceira cachoeira) mais abaixo, por
uma interessante e incomum formação rochosa que surgia do meio da
espuma das águas, saindo de dentro da piscina, e chegando até a metade
da altura da cachoeira e no seu topo, assim pareceu para Sauron, haviam
quatro troncos de árvores se projetando da borda como se fossem enormes
dedos escuros e por cujos vãos escorria a água. Deixando um pouco de
lado a maravilha daquelas três quedas, Sauron observou que depois de
caírem na imensa piscina, as águas seguiam por um único caminho em
direção ao oeste e para dentro de uma outra floresta, mais densa do que
essa pela qual ele veio e então ele teve que decidir se voltaria pelo
caminho que ele havia feito até ali e tentaria a sorte em outra direção
ou se tentaria achar um jeito de descer até aquela piscina e seguir o
curso de suas águas. Ainda embasbacado com a beleza daquelas sete
quedas a decisão pareceu bem fácil a Sauron e a segunda opção foi
escolhida, porém não foi nada simples encontrar uma maneira segura de
descer.

Tantas alternativas foram formuladas e descartadas na mente de Sauron
enquanto procurava uma maneira de descer que até a idéia de se jogar
para um mergulho na piscina lhe ocorreu, mas sabiamente a rejeitou,
embora tenha ficado vivo na queda ao entrar naquele belo mundo, não
sabia se agüentaria mais um outro impacto e também não se lembrava se
ele era capaz de nadar. Assim sendo ele resolveu voltar um pouco pelo
caminho que havia percorrido e começou a vadear o rio onde a correnteza
se apresentou mais fraca e com um pouco de tempo ele havia conseguido
cruzar o rio, porém teve que seguir por sua margem outra vez até chegar
na borda da queda porque as árvores naquele lado eram bem mais
agrupadas e não lhe permitiram uma passagem fácil. Esse trecho entre a
sua cachoeira e a segunda era bem mais extenso e mais acidentado do que
a outra margem e ao passar pouco mais da metade do caminho, havia uma
enorme árvore caída que barrava o caminho para a próxima queda. Por
mais que tentasse escalar aquele tronco descomunal, Sauron acabava por
escorregar de volta para o chão e ficou desanimado ao perceber que,
apesar de ser descomunalmente largo, aquela árvore era também muito
maior do que as outras e ele não foi capaz de chegar ao seu final
porque ela havia caído por sobre as outras árvores e não havia como
passar por ali e nem contornar.

Aquela árvore parecia ter sido derrubada recentemente ao se observar os
galhos quebrados das outras árvores e então Sauron voltou para o que
foi o topo da árvore e após breve exame encontrou o que procurava: a
marca de um forte impacto logo abaixo da copa, o que indicava que
aquela foi a árvore na qual ele havia batido por último antes de quicar
pela relva da clareira do outro lado da margem. Como não havia outra
alternativa para Sauron, ele começou a juntar os troncos das árvores
derrubadas e os amontoou ao lado da imensa árvore caída até formarem
degraus que possibilitaram uma escalada mais consistente. Sauron
estivera tão envolvido nessa tarefa que mal havia se dado conta de que
o dia já ia adiantado e que o sol já começava a ir se pondo, o que lhe
deixava poucas horas de luz e dali de cima do imenso tronco a situação
não parecia melhor do que antes. Pouco além de onde se encontrava,
Sauron viu que as árvores da floresta chegavam até a borda do terreno e
era tão impenetrável como antes. Porém uma pequena saliência formada do
lado do tronco caído indicava a Sauron que ali poderia haver um tipo de
passagem pela borda do terreno e então ele se deixou cair do outro lado
do tronco e se dirigiu ao local que ficava encoberto pelas folhas da
copa da árvore e descobriu que aquilo era sim uma passagem, mas bem
estreita e que levava para baixo e para frente, sem nenhum indício de
que voltaria a subir antes da terceira queda, que ele havia chamado de
Queda da Mão em homenagem ao promontório que se formava no meio daquela
cachoeira. Decidido a não perder mais tempo e querendo aproveitar ao
máximo a luz do dia, Sauron se pôs a caminhar por aquela passagem que
ficou mais estreita ainda uns poucos metros à frente, o obrigando a se
colocar de costas contra a parede.

Apesar de ser difícil se locomover naquela passagem, Sauron já ia bem
adiantado e ficou surpreso ao descobrir que ela passava por trás da
segunda queda d’água e não por baixo dela, como ele havia pensado
inicialmente, e conseguiu passar por ela sem maiores problemas. Ao
chegar a meio caminho entre a segunda e terceira cachoeiras se deparou
com algo que ele não esperava: a passagem se fechava em um túnel e ele
não conseguia ver para além de sua entrada, apenas sentia o
deslocamento de ar que a água fazia sair por ele. Foi pensando em como
passar por aquele lugar que Sauron não se deu conta de que o terreno
sob os seus pés havia mudado bruscamente de árido e pedregoso para liso
e escorregadio e antes que ele pudesse se recuperar do escorregão
inicial, já havia entrado no túnel e agora ia escorregando pela água em
uma velocidade bem alarmante considerando a altura que ele ainda se
encontrava em relação à superfície da piscina. Sendo jogado de uma
parede para outra pelo túnel, Sauron divisou logo à frente que havia
uma abertura e se ele chegasse nela indo de parede em parede, ele
certamente seria jogado ou contra a parede mais áspera ou direto para a
piscina. Usando as mãos para se estabilizar, Sauron deitou de costas na
superfície e conseguiu se manter o melhor possível na parte mais baixa
daquele túnel e ao chegar na abertura foi surpreendido mais uma vez ao
ser jogado para o alto em direção à palma da Mão que ficava no meio da
terceira queda. Quando estava a meio caminho de passar pelas águas da
terceira queda ele conseguiu virar o corpo de forma a conseguir olhar
para baixo e pôde ver que se tivesse continuado a descer pelo túnel
estaria morto, pois ele acabava em uma pontiaguda formação rochosa na
base de sustentação da Mão.

Embora a força das águas da terceira queda o tenha feito perder
velocidade e altitude, Sauron ainda chegou rápido à palma da Mão e teve
que se segurar em seus “dedos” para não ser atirado diretamente para
fora da piscina. Por mais que a vista de cima da Mão fosse muito bela,
Sauron sabia que não conseguiria ficar ali em cima por muito tempo e
passou para trás da queda d’água e conseguiu encontrar um caminho
semelhante àquele que o havia trazido até ali e com cautela redobrada
se pôs a descer por ele. Andou ainda por um bom tempo com as costas
coladas à parede até chegar em um pequeno patamar de pedra negra polida
pela ação da água que fazia as vezes de soleira de uma ampla abertura
na rocha que parecia ser um enorme salão, o caminho ainda continuava
seguindo colado à parede logo após aquele patamar, entretanto aquele
salão intrigava Sauron e no exato momento em que ele se sentou junto à
uma de suas paredes, o Sol, que emitia os seus últimos raios sobre
aquela bela terra, fez jorrar uma luz vermelho alaranjada através
daquela espessa cortina de água e então ele pôde ver o seu interior de
paredes rústicas, com pássaros em seus ninhos olhando de volta para ele
com a mesma curiosidade, o chão era da mesma pedra negra, mas sem
polimento algum e coberto por uma leve camada de musgo viçoso e bem no
fundo daquele salão havia uma outra passagem pela qual ele ouvia um
barulho de água corrente. Sentindo-se exausto daquele dia incomum
naquele mundo que lhe parecia familiar, Sauron observou o último raio
de sol brilhar através da cortina de água e depois disso houve apenas a
escuridão e o contínuo som das águas.

Nesse salão escuro, Sauron permaneceu deitado quieto e mais uma vez se
pôs a colocar os pensamentos em ordem e já não sabia mais se estava
acordado no salão quando começou a ouvir novamente as vozes da Melodia
do Nada e uma voz dentre elas se destacava, a voz de Eru, que dizia – 
“E mandarei para o meio do Vazio a Chama Imperecível…” “Você vê
demais Alcar” – e então Sauron começou a passar de mundo em mundo, uns
mais belos do que os outros até chegar naquele mundo que o chamou
incessantemente na esteira do vórtice e então compreendeu que aquela
luta que se travara naquele lugar era para conseguir esconder o
paradeiro da Chama Imperecível, porém aquela força da qual a lúgubre
luz esverdeada emanava havia conseguido descobri-la e havia enviado
Sauron em sua direção como um último esforço para que a Chama fosse
descoberta e levada àquele que era o primogênito de Eru para que ele a
utilizasse para mostrar a todos os outros Ainur as coisas que Eru havia
escondido deles.
Se levantando em um só pulo novamente, Sauron sentiu o seu ser
completamente agitado e agora ele sabia exatamente o que estava fazendo
naquele mundo estranho e ao mesmo tempo familiar. Ele precisava
encontrar a Chama Imperecível e entregá-la para Melkor e nesse exato
momento compreendeu que aquela estranha sensação de familiaridade era
nada mais nada menos do que a proximidade da Chama Imperecível e então
começou a seguir aquela sensação, como se fosse uma bússola e foi
andando em direção ao fundo do salão até chegar na parede dos fundos e
descobrir que o barulho de água que havia ouvido na noite anterior
vinha de um corredor e não da abertura no chão como havia suposto.
Ainda contrariando o que havia imaginado antes, ele era capaz de
enxergar na escuridão dos corredores e dessa forma se pôs a seguir pelo
corredor leste, por onde o barulho de água corrente vinha e depois de
descer por uns trezentos metros, se deparou com um salão menor do que o
primeiro, com um teto bem mais baixo e irregular e na outra extremidade
do salão havia uma passagem por onde passava a água direto para uma
abertura no centro do salão e também uma escada que desaparecia parede
adentro e foi por esse caminho que Sauron seguiu. A escada seguia em
uma espiral ampla e com degraus muito bem talhados na rocha da própria
parede e por um momento aquilo o lembrou das construções dos Anões dos
primeiros séculos do Sol na Terra-média, quanto mais ele subia, mais a
escada continuava para cima e lhe pareceu que logo logo estaria de
volta à superfície da floresta. No entanto, não avistou o fim daquela
escadaria e continuou andando por tanto tempo que lhe parecia que
haviam se passado alguns dias já até que ele alcançou uma soleira de
uma enorme porta muito bem conservada, entalhada com runas de uma
língua que lhe era completamente desconhecida e sem maçaneta ou trinco
aparente.

Sauron começou a tatear a porta e ficou muito contente ao descobrir que
ela estava entreaberta e que ele não teria que pensar em nenhum tipo de
encantamento para abri-la. Colocou as duas mãos em uma das folhas da
porta e começou a empurrar para dentro até que o espaço entre elas lhe
permitisse passar. Do outro lado da porta havia um salão pequeno com
quinze tronos, sendo que um deles estava no centro e os outros quatorze
estavam dispostos simetricamente ao seu redor, entalhados na mesma
rocha da parede do salão. O que mais chamava atenção naquele cenário
não eram os tronos em si, mas a incidência de luz em apenas um deles e
esse era o trono que estava no centro. Ao se adiantar em direção ao
centro do salão, Sauron percebeu que cada trono que o circundava era
ladeado por uma passagem estreita e escura e ao chegar no trono do
centro descobriu que aquela luz emitia uma suave onda de calor, assim
como as estrelas que foram engolidas pelo vórtice, e que pela mesma
passagem descia um grosso ramo de cipó que levava para além do teto
daquele lugar.

Não conseguindo mais conter a ansiedade dentro de si, Sauron subiu nos
braços do trono e depois passou para o ponto mais alto de seu encosto,
alcançando dessa forma o cipó que pendia acima de sua cabeça e subiu
por ele até chegar em um outro salão muito mais amplo do que o que
estava logo abaixo e se maravilhou ao descobrir que o que emanava toda
aquela luminosidade e calor era uma imensa gema, do tamanho de sua
cabeça, que estava colocada em um pedestal feito da mesma pedra negra
polida, e nesse pedestal haviam as mesmas runas que ele viu na porta lá
embaixo, gravadas em uma cor prateada intensa que contrastava
perfeitamente com a cor escura da rocha. O cipó era proveniente dos
galhos de uma grande árvore que de alguma forma havia conseguido
crescer metade dentro daquele salão e metade dentro da parede e seus
galhos cruzavam o salão fazendo as vezes de teto para ele e depois
subiam para longe das vistas de Sauron, através de uma abertura nas
paredes. Semelhante ao que aconteceu com a porta, Sauron também não
conseguiu decifrar o que estava escrito naquele pedestal, porém isso já
não o incomodava mais pois a única coisa que ele conseguia fazer era
admirar a beleza pacífica e imutável daquela gema. Apenas a visão
daquela gema havia feito toda a insegurança e incerteza de sua mente se
desintegrar e agora ele ria baixinho dos momentos de dúvida e apreensão
pelos quais ele havia passado quando começou a colocar o seu plano de
libertar Melkor em ação. Agora tudo o que precisava era agarrar a Chama
Imperecível e ir ao encontro de Melkor e todos os problemas estariam
resolvidos. Foi pensando dessa forma que ele se aproximou da gema e
colocou suas mãos sobre ela, todavia, nesse exato momento as runas
começaram a brilhar com maior intensidade e Sauron ficou preso por um
instante com as mãos presas na superfície da gema enquanto uma poderosa
onda de luz e calor percorria todo o seu ser e ao final ele foi jogado
contra a parede do salão, como se a gema estivesse tentando reconhecer
aquela criatura que a havia tocado e a resposta tivesse sido negativa.

Ainda atordoado pela reação da Chama, Sauron ouviu um forte barulho
vindo do salão inferior e soube que as portas haviam sido fechadas e
agora aquela passagem por onde ele havia subido pelo cipó também estava
se fechando ao mesmo tempo em que as paredes começavam a ruir revelando
a ele uma visão completamente diferente da que havia tido quando abriu
os olhos pela primeira vez naquele mundo. Sauron estava no topo da mais
alta montanha que havia naquela região e lá de cima ele conseguia
avistar praticamente toda a extensão das terras e para onde quer que
ele olhasse, via apenas destruição e desespero. E ao olhar para onde
outrora fora aquela bela piscina com suas sete quedas ele percebeu que
não havia mais água correndo pelas cachoeiras, mas sim rocha derretida
e já não haviam mais as árvores das florestas, apenas troncos
retorcidos e enegrecidos pela ação do fogo selvagem. Sauron não
conseguia compreender o que havia acontecido àquele planeta, não havia
se passado tanto tempo assim desde quando ele havia chegado e ele não
havia visto nenhum sinal de luta ou desacordo na perfeita harmonia que
regia as coisas ali. Será que ele havia sido o responsável por tudo
aquilo? Seria ele capaz de tal atrocidade? Então ele se encaminhou mais
uma vez para a Chama e estendeu suas mãos para ela, mas antes de
conseguir tocá-la novamente todo o lugar começou a estremecer e então
tudo o que Sauron conseguia pensar era estar novamente junto de Melkor
e seguir a sua jornada. Quando ele finalmente conseguiu agarrar a gema,
toda a montanha ruiu sob os seus pés e agora ele estava em queda livre
na direção da piscina de lava.

Quanto mais ele se agarrava à gema, mais ela lhe queimava as mãos e
quando ele não pôde mais suportar aquela dor imensa ele a soltou e,
conforme se aproximava do mergulho fatal, uma onda de desespero
crescente ia dominando os seus pensamentos e então começou a buscar
novamente seu Mestre com todas as suas forças e,de repente ele se viu
mais uma vez do lado de fora do mundo, preso ao fluxo da esteira do
vórtice e uma intensa sensação de déjà-vu o invadiu ao ver que aquele
mundo começava a pulsar com uma lúgubre luz esverdeada. No momento após
o clarão Sauron pulou e foi apanhado em cheio pela onda de calor
liberada pelo planeta que havia sido engolido pelo vórtice. A força
dessa onda foi tão forte que não apenas conseguiu libertá-lo das garras
da morte, mas também o havia colocado de volta no caminho por onde
Melkor havia passado e ele se deixou ficar ali, no meio do Nada a
pensar no que havia acabado de lhe acontecer. Aquilo tudo não podia ter
sido apenas um sonho, não fazia sentido.
Mas então como explicar o mundo sendo engolido com a mesma mortalha
pulsante esverdeada, e a mesma posição na esteira que ele havia ocupado
antes? De repente, como um estalo em sua mente, Sauron entendeu que
apenas Eru e Melkor conseguiriam colocar as mãos na Chama Imperecível
sem que ela os queimassem: Eru por ser o criador de tudo e Melkor por
ter sido o único a entender toda a magnitude da obra do criador. Ao
pensar nisso, Sauron olhou para as palmas de suas mãos e viu que as
queimaduras estavam lá como prova, porém o quarto mundo também estava
lá, na mesma posição de antes. Resolveu então ir ao encontro de Melkor
e lhe contar sobre a sua aventura, mas então um outro pensamento lhe
cruzou a mente: todos os vórtices que ele havia visto eram idênticos,
simetricamente distribuídos pelo Nada e com as mesmas coisas ao seu
redor. Como ele haveria de se lembrar daquele mundo e vórtice em
especial sem nenhum ponto de referência? Ele já não tinha mais como se
desprender de parte de sua essência, como havia feito nos Portões da
Noite, e mesmo que tivesse, fazer isso seria insensatez demais porque
toda luz que não estivesse devidamente fixada no Nada seria sugada pelo
vórtice. Foi assim, vencido pelas artimanhas do Destino, que Sauron se
resignou a seguir os passos de seu Mestre sem poder lhe dizer que havia
tido em suas mãos o objeto de seu maior desejo.

Não demorou muito para que Sauron conseguisse descobrir o paradeiro de
Melkor e logo que ele se aproximou de seu mestre, ele sentiu sua
essência ser anexada à do poderoso Vala e todas as sensações que ele
havia experimentado antes de ser sugado pelo vórtice haviam voltado. Ao
que pareceu a Sauron, Melkor ainda estava à procura da Chama
Imperecível, porém tal busca já o estava aborrecendo e agora o tempo
gasto em cada mundo no Nada era bem curto e a procura era mais
desleixada, em duas ocasiões Melkor não conseguiu conter a sua ira e
acabou por destruir completamente o mundo onde ele estava, deixando
apenas um amontoado de poeira acinzentada e escombros que aos poucos se
encaminhavam para o vórtice mais próximo. Vendo toda essa demonstração
de poder, Sauron decidiu não mencionar que havia encontrado a Chama
Imperecível e para ter certeza de que não se perderia novamente naquele
lugar, começou a prestar mais atenção à Melodia que ecoava em sua mente
e com o passar do tempo, Sauron já havia se habituado às suas notas e
sua compreensão do que acontecia na mente de Melkor havia crescido
bastante até ele próprio descobrir que também era capaz de manipular a
Melodia e vasculhar as memórias e foi direto ao ponto onde Melkor
estava aprisionado no Vazio.

Para seu espanto, havia apenas o som de uma tempestade de raios e
trovões que se aproximava mas que nunca chegava até o ponto onde ele
estava. Inquieto com aquele som, ele começou a avançar nas memórias até
chegar no momento de sua batalha contra Eönwë e então veio a
confirmação do pensamento que havia rejeitado durante o combate. Sauron
vasculhou cada parte daquela lembrança e ouviu os pensamentos que iam
na mente do grande Vala e se indignou ao descobrir que Melkor havia
cogitado em corromper Eönwë, porém esse sentimento foi facilmente
apagado pela imensa ira e perplexidade de ver que Melkor, o supremo
Senhor do Escuro, flagelo dos Povos Livres, havia chorado ao esmagar o
mesmo Eönwë com Grond.

Aquela havia sido a gota d’água para Sauron. Ele havia arriscado sua
própria existência para poder libertar Melkor e quando ele precisou de
apoio, descobriu que Melkor havia agido a favor de seu inimigo; se
sentiu traído pela intenção de corrupção de Eönwë; ainda não havia
encontrado palavras para descrever o que sentia ao ver a demonstração
de afeto de seu mestre para com o seu inimigo, coisa que Melkor nunca
havia demonstrado para com ele; e sabia agora que Melkor não havia
sequer notado a sua ausência e muito menos o seu retorno repentino. E
então, sem que se desse conta, Sauron havia dado início à sua própria
melodia, tímida e discreta em comparação ao Canto do Universo, que era
como Melkor chamava a Melodia do Nada, porém bem definida e com um
compasso próprio.

Ao perceber uma nota dissonante em meio ao Canto do Universo, Melkor
foi tirado de sua busca pela Chama Imperecível e o fato daquela nota
ser tão pequena em relação a todo o Nada fez com que ele apenas notasse
que era um som diferente e não originado por ele, mas que não
apresentava qualquer ameaça no momento. Encarou como uma tentativa de
Eru o iludir mais ainda na busca da Chama pelos confins do Nada.
Todavia, para Sauron, que agora havia notado a sua pequena obra, aquela
era mais do que apenas uma nota dissonante, era o fruto de sua revolta
e também onde estavam as suas ações futuras como resposta ao causador
dela. Sauron já começava a dar forma à sua pequena melodia, porém como
não possuía a habilidade dos Ainur ele foi moldando aos poucos e se
deliciava com o vislumbre de como ele retribuiria com a mesma moeda as
atitudes de Melkor dentro do Vazio. Com um pouco mais de habilidade, já
conseguia prever algumas cenas criadas pela sua música: Seus servos
mais poderosos, os temíveis Nazgûl, haviam acordado e o maior entre
eles, o Bruxo-rei, havia formado o reino de Angmar, enquanto os outros
haviam voltado secretamente para Mordor e preparavam a sua volta. Há
quanto tempo ele estava lidando com a sua própria criação ele não
sabia, quando sentiu que algo estava acontecendo no Nada.

Melkor havia se fartado daquela busca inútil pela Chama Imperecível e
como suas forças já estavam recuperadas por aquela estadia no Nada, ele
havia decidido que era hora deles voltarem para a Eä, para dominarem
definitivamente toda a Terra-média de uma vez por todas. Antes mesmo de
Sauron conseguir formular a pergunta sobre como fariam para voltar para
as Esferas do Mundo, Melkor habilmente os guiava através de um tortuoso
labirinto de estrelas e mundos passando por formações de algumas
nebulosas e diversas estrelas anãs com uma velocidade surpreendente até
se aproximarem de uma formação de estrelas já bem conhecidas por eles e
um pouco além avistarem a forma de Eä. Sauron não sabia dizer quanto
tempo eles levaram naquela viagem, a única coisa que ele conseguia
pensar era no que a sua pequena melodia martelava dentro de seu ser:
-“Paciência. A sua hora há de chegar!” Como Melkor não tinha mais
nenhum ponto de referência na Terra-média, pois os seus dois reinos
haviam desaparecido completamente junto com Beleriand, foi Sauron quem
deu as coordenadas para a entrada nas Esferas do Mundo. Sauron havia
aprendido muito em suas pesquisas quando era um só com Melkor e sabia
bem o que aconteceria quando eles passassem para o outro lado das
Esferas, e assim, sem ter consciência de que ali começaria a ser
executado de sua melodia, indicou a direção do reino de Angmar como
ponto de entrada.

Auxílio

Todos estavam espantados ao verem que os Portões da Noite foram
arrancados de seus lugares e que agora o Vazio estava à mostra, ao
alcance de qualquer um deles, a sua ausência de qualquer tipo de som e
a parca luz difusa de seus labirintos convidavam os mais avançados da
hoste valariana a passarem para o outro lado. Todos os Valar estavam
paralisados ante tal presságio e após um tempo de hesitação Mandos
lentamente se encaminhou até parar a alguns passos de distância da
enorme boca escura que se abria na parede e ficou ali imóvel, com as
mãos estendidas na direção do Vazio, vez ou outra mexia a cabeça, como
se estivesse buscando um ângulo melhor para sentir as vibrações do
Vazio. Algumas horas haviam se passado e a ansiedade presente no íntimo
de cada um dos ali presentes já era praticamente tangível e, prevendo
que talvez Sauron e Melkor tentassem escapar de alguma forma para
Valinor em algum outro ponto, Manwë pediu para Oromë e Tulkas que
organizassem e distribuíssem as defesas em pontos estratégicos por toda
a extensão das Terras Imortais. Aulë ordenou que os Portões fossem
levados para a sua forja e lá ele permaneceu por um longo tempo no qual
ele os derreteu e os refez mais resistentes do que antes. Os outros
Valar, enquanto isso, mantiveram a vigilância em torno da passagem,
porém nada havia acontecido desde que Mandos se postara diante dela e
assim acabaram por voltar às suas vidas.
Por mais que Mandos tenha se esforçado, nada conseguiu captar dentro do Vazio.

Estava certo apenas de que Melkor e Sauron não voltariam por aquela
passagem, e assim sendo foi até Aulë e discutiu sobre os novos Portões,
que ele havia acabado de reforjar, chegando a um acordo de que deveriam
selar aquela passagem agourenta o mais rápido possível e, tão logo
Mandos se retirou para a sua morada, Aulë e seus ajudantes levaram os
Portões para serem colocados de volta ao seu lugar. Para todos os lados
que olhava, Mandos via que os Vanyar e Maiar, componentes da Hoste dos
Valar, haviam sido estrategicamente colocados em pontos vitais de
Valinor e a tensão em cada um deles podia ser sentida a quilômetros de
distância.

Ainda a caminho de sua morada ele passou pelas melancólicas praias
ocidentais de Valinor, e enquanto caminhava uma melodia profunda, cheia
de pesar, lhe chegava aos ouvidos e, ao olhar um pouco mais para o
oeste, bem próximo às Paredes da Noite, ele divisou uma figura feminina
vestida com uma capa escura como uma noite sem estrelas. Essa era
Nienna, sua irmã, e dela vinha todo aquele lamento e pesar pelos
enviados ao Vazio e, por mais que soubesse que não havia como
consolá-la, Mandos sentiu crescer dentro de si um forte desejo de estar
com ela, mesmo que nada pudesse fazer além de ficar ao seu lado e ouvir
seus lamentos. Já se encaminhava ao encontro dela quando um de seus
servos veio até ele com uma mensagem que o fez relegar a segundo plano
o desejo de se juntar à Nienna. Caminhava agora apressado pela extensa
faixa de areia branca e fina, que sempre lhe deu uma sensação de calma
e serenidade; se fosse como antes, teria se deixado ficar sentado ali e
teria observado a beleza das ondas quebrando logo à sua frente e
sentiria o suave e marcante perfume proveniente do bosque repleto de
Yavannamirë com seus belos e suculentos frutos avermelhados e troncos
perfumados que haviam sido plantados no caminho que dava para a soleira
da sua porta.

Ao entrar em sua morada, foi direto procurar por Vairë, sua esposa,
pois era dela o recado urgente que seu servo havia lhe passado e a
encontrou sentada em um amplo aposento, com um teto abobadado e paredes
repletas de tapeçarias coloridas com imagens dos fatos ocorridos desde
a criação do mundo até aquele momento. No centro daquele imenso
aposento havia um enorme tear feito com a resistente madeira extraída
de uma árvore chamada Laurinquë, que os Númenoreanos em seu auge
souberam muito bem empregar na construção de seus navios, e retirando
dele a sua recém-acabada peça de tapeçaria estava Vairë que, ao vê-lo
ali presente, apanhou mais duas outras peças que ela havia colocado
sobre uma mesa e as colocou em suas mãos ao mesmo tempo em que fazia um
gesto para que ele a acompanhasse para fora do salão. Havia muito tempo
que eles estavam juntos e aquele gesto bastava para que Mandos soubesse
que as imagens tecidas naquelas peças não eram de bom presságio, pois
raramente Vairë saia com qualquer peça para fora daquele lugar.
Enquanto caminhavam pelos corredores de sua morada, Mandos observava
atentamente as imagens e estava tão confuso quanto antes, pois elas não
lhe diziam coisa alguma. Nem mesmo Vairë, a Tecelã, não sabia ao certo
o que aquelas imagens significavam, porém havia algo nelas que ela
sabia ser familiar e o mesmo pareceu a Mandos depois de olhar com muita
atenção para elas.

Intrigados com o que poderia ser aquela sensação de déjà-vu, resolveram
então levar as três peças para Manwë e Varda na esperança de que eles
soubessem procurar nas imagens aquilo que havia passado despercebido
por eles. A caminho de Taniquetil, Mandos e Vairë passaram por Nienna,
que havia se afastado das Paredes da Noite e agora estava no topo de
uma das colinas onde Eönwë e alguns de seus companheiros se deitavam
para olharem as estrelas e aquele sentimento de pesar era o mesmo que
Vairë havia visto naquelas três peças e agora para qualquer lugar que
ela olhasse aquele sentimento, compartilhado por todos em Valinor, lhe
era visível quer fosse nos semblantes ou pensamentos de cada habitante.
Outra coisa que chamou sua atenção foi que cada um deles, Eldar, Maiar
ou mesmo Valar, haviam inconscientemente se fechado em seus pensamentos
de pesar e a angústia e apreensão que agora os dominava era a mesma que
todos haviam sentido quando Melkor havia destruído as Árvores com a
ajuda de Ungoliant Eras atrás. Ao chegarem em Ilmarin, um servo de
Manwë pediu que o acompanhassem até o salão de visitas e então os
conduziu por um imenso gramado verdejante com fontes feitas do mais
branco e belo mármore, adornados com as mais belas pedras lapidadas
pelos habilidosos Eldar, onde vários pássaros se refrescavam e
continuavam a sua alegre existência, alheios ao pesar que mais uma vez
havia penetrado em Valinor.

Foram deixados em um belo salão erguido em paredes do mesmo mármore das
fontes no jardim. Era tão amplo quanto o salão onde Vairë tecia os
acontecimentos do mundo, porém apenas uma de suas paredes possuía algum
adorno, exatamente a peça tecida por Vairë que mostrava uma imagem do
auge da beleza de Valinor com as duas Árvores iluminando suas terras e
os Eldar vivendo em paz entre si junto aos Poderes de Arda. As outras
paredes possuíam amplas janelas que permitiam a visão de boa parte de
Valinor, porém, a mais bela visão era através da janela oeste, pois
quem ali estivesse seria presenteado com uma das mais belas visões de
toda Aman: o pôr do Sol. No centro desse salão havia sido disposta uma
mesa redonda e baixa, seus pés eram de uma madeira escura e neles
haviam sido entalhadas belas figuras que sustentavam em seus braços um
tampo de metal habilidosamente forjado e trabalhado em baixo relevo com
o mapa do que um dia fora a imensa e bela Beleriand. Vairë colocou as
três peças sobre a mesa e foi para a janela apreciar o pôr do sol junto
a Mandos e por um breve momento os pensamentos que a haviam perturbado
se dissiparam e deram lugar a uma reconfortante sensação de segurança e
paz que ela havia experimentado no primeiro momento em que o Sol havia
surgido nos céus acima de Aman.

Antes do sol se pôr por completo e a lua assumir o seu lugar junto às
estrelas, Manwë e Varda vieram ao encontro do Senhor da Casa dos Mortos
e da Tecelã e sem rodeios foram apresentados às peças tecidas por
Vairë. Varda, por mais que se esforçasse não conseguia extrair mais
daquelas imagens do que Mandos e Vairë já haviam feito, entretanto
Manwë que enxergava melhor do que todos os Valar conseguiu divisar algo
além de seus companheiros e lhes disse que o que Vairë havia tecido
eram imagens de antes da criação de Eä, de quando eles ainda habitavam
o Salão Atemporal junto a Eru. Porém, haviam ali imagens que nenhum
outro Vala havia visto, Manwë lembrava que apenas Melkor havia dito
coisas sobre uma outra realidade e que os havia tentado fazer acreditar
nela muito antes de terem começado o Canto dos Ainur, incorrendo na ira
de Eru, e aquelas imagens eram como haviam sido descritas por Melkor
Eras atrás. Todavia, Manwë não sabia o que exatamente as imagens
tecidas por Vairë significavam, nem se elas pertenciam ao passado,
presente ou futuro. Mesmo assim, ele pediu para que as imagens ficassem
em Ilmarin por algum tempo para que pudessem ser analisadas por mais
tempo na tentativa de desvendar o seu mistério.

Aquele não era um pedido comum, mas Vairë sabia que Manwë era o mais
indicado a descobrir o que elas significavam e então decidiu deixá-las
com ele e se retirou para seus aposentos, para continuar o seu infinito
tecer. Mandos saiu com ela, mas ao chegarem aos pés da Taniquetil se
separaram e ele seguiu em direção aos Portões da Noite, que Aulë e seus
ajudantes haviam terminado de fixar e a passagem para o Vazio havia
sido novamente fechada e sua guarda havia sido redobrada. Mandos ainda
estava desconcertado com o fato de os Portões terem sido arrancados de
seus lugares e de Sauron e Melkor terem sumido completamente do Vazio
sem deixarem nenhum rastro, porém uma coisa era certa, eles não haviam
voltado para a Terra-média. Talvez ainda estivessem procurando uma
forma de entrar nas Esferas do Mundo, e nada mais restava além de
esperarem pelos acontecimentos.

Aproximadamente quinhentos anos se passaram desde a entrada de Sauron
no Vazio e nada havia mudado em Aman ou na Terra-média que indicasse a
presença maligna deles, porém uma preocupação ainda incomodava Ulmo: os
habitantes da Terra-média nada sabiam dos acontecimentos passados em
Valinor. A vida deles havia voltado ao normal e um longo tempo de paz
havia se estabelecido, porém ele sabia muito bem que o mal de Sauron e
seu mestre não havia sido erradicado por completo e recentemente haviam
chegado rumores até ele de que algo havia sido despertado nos confins
da Terra-média, em sua porção mais oriental, mais exatamente nas terras
ao redor de Mordor. Ulmo sabia que era preciso muito mais do que apenas
rumores para que os Poderes de Arda decidissem intervir, se é que eles
realmente voltariam a fazer isso antes da Segunda Profecia de Mandos, e
assim resolveu não comentar nada com ninguém, mas deu ordens expressas
à Uinen e Ossë para que ficassem atentos aos rumores que corriam junto
com as águas pela Terra-média e que eles ficassem o mais perto da
fronteira das Terras Imortais o possível. E assim, com o passar dos
anos, Ulmo recebia uma ou outra notícia de que alguma criatura maligna
havia deixado um local e ido para outro mas nada de muito alarmante.
Mais trezentos anos se passaram e os habitantes de Valinor já haviam
voltado aos seus afazeres e a sombra da ameaça de Sauron e seu mestre
havia ficado em segundo plano.

Porém um dia uma notícia havia despertado a curiosidade de Ulmo os
rumos da Terra-média: das nascentes do Grande Anduin vinham notícias de
um crescente mal que, embora não estivesse ameaçando ninguém
abertamente, começava a reunir seres malignos ao norte e essa era,
depois de Sauron, a maior manifestação do mal na Terra-média. Ulmo foi
até Manwë e lhe apresentou as suas preocupações e por um momento
pareceu a Ulmo que algo diferente seria feito dessa vez, porém a reação
de Manwë, após pensar sobre o assunto, foi a mesma que Ulmo já havia
previsto: nada seria feito pois os problemas da Terra-média não diziam
mais respeito aos Poderes, pois os poucos Eldar remanescentes do outro
lado da Estrada Direta estavam aos poucos deixando definitivamente
aquele mundo para os Homens, e era o dever deles defenderem seus lares.
Embora fosse seu desejo protestar contra a decisão de Manwë usando o
desaparecimento de Melkor e Sauron da prisão no Vazio como motivo, Ulmo
sabia que isso nada acrescentaria de bom ao seu argumento e que mexeria
em uma ferida ainda aberta. Resignou-se a dizer que a atitude de Manwë
era injustificada, mas o fez em um tom que não o ofendesse nem gerasse
mais atrito entre eles e deixou os imensos salões de Ilmarin e saiu
andando sem rumo pelos caminhos de Valinor.

Em todas aquelas Eras de existência, poucas vezes ele havia deixado os
seus domínios para andar entre os habitantes daquele belo reino e essa
era a primeira vez em que ele se dava ao trabalho de observar com maior
atenção tudo o que se passava acima do nível das águas. Olhava para
tudo e para todos como se das fachadas das belas mansões ou dos belos
rostos élficos fossem surgir respostas para as dúvidas que começavam a
crescer em sua mente. Elfos, os Primogênitos, criaturas pelas quais os
Ainur ansiaram tanto por conhecer e se apegaram de tal forma ensinando
tudo o que podiam àquela bela e imortal raça que acabaram por dar pouca
atenção aos Homens, os Sucessores, os Doentes, entre tantos outros
nomes dados a eles pelos Elfos por não serem imortais, adoecerem fácil
e morrerem após um curto período de vida, menor até do que o tempo de
vida dos filhos de Aulë, porém secretamente invejados por muitos por
terem recebido de Eru o dom do sono eterno e com um destino
desconhecido por todos após a sua morte. Seria esse o motivo pelo qual
tanto os Primogênitos quanto os Valar se afastaram deles e agora os
deixavam para se defenderem sozinhos contra criaturas nascidas da mente
doentia e deturpada do maior dos Valar?

E foi assim, procurando respostas, que foi caminhando por lugares que
não se lembrava de ter passado antes e ao longe, nos topos de algumas
colinas mais afastadas, ele viu uns grupamentos de Elfos e se perguntou
se eles seriam realmente capazes de deter Melkor se ele desejasse
invadir Valinor. Um pouco mais além do local onde estava ele ouviu o
doce cantar das gaivotas ritmando um profundo e contínuo lamento e se
lembrou que há muito tempo não visitava aquela região, e
conseqüentemente, Nienna, a quem costumava fazer companhia Eras atrás.
Resolveu então mergulhar nas profundas águas daquele lado de Valinor e
não precisou de muito tempo para se lembrar do motivo pelo qual ele
havia deixado de ir até aquele lugar, pois as águas haviam há muito se
misturado às lágrimas de Nienna e agora elas estavam repletas das
memórias e pesares dela. Fosse em um dia qualquer como antigamente,
Ulmo teria deixado aquelas águas e voltado para os seus domínios,
todavia algo naqueles lamentos o fez mudar de atitude e ele foi até
onde estava Nienna e se apresentou em uma forma simples, sem ostentar a
sua grandeza, e essa visão fez com que, por um momento, Nienna cessasse
os seus lamentos e em seu belo rosto marcado pela preocupação de Eras
surgiu um belo e amplo sorriso ao reconhecer naquela figura o seu amigo
de outrora, porém aquele momento durou pouco pois logo ela descobriu em
seus olhos o que ia dentro da alma do Senhor dos Oceanos e da mesma
forma que ela havia silenciado, agora voltava ao seus lamentos.
Entretanto agora o tom era outro, e como Ulmo não sabia, de fato ele
havia se esquecido, como lidar com esses momentos, ele se virou e
seguiu o caminho para a morada de Mandos em busca de alguns conselhos.

Havia chegado no momento em que Mandos se dirigia aos Salões dos
Espíritos, pois um grupo de Elfos e Humanos haviam deixado a existência
da Terra-média e seus espíritos precisavam ser administrados. Essa era
uma tarefa que Mandos não poderia deixar para depois então não pôde
dedicar muito tempo e atenção às preocupações de Ulmo, apenas lhe disse
que concordava com a decisão de Manwë e que só poderia se pronunciar
abertamente sobre aquilo quando a hora chegasse e, tão logo acabou de
proferir essas palavras, fechou atrás de si uma pesada porta de madeira
escura e o bom senso de Ulmo lhe disse para não atravessar aquela
porta, pois dali em diante apenas Námo podia ir. Como não lhe restava
mais nada a fazer nos domínios de Mandos, ele saiu novamente para os
caminhos que há muito não trilhava e enquanto seus pés seguiam por eles
em sua mente havia surgido mais um pensamento que o incomodava: os
Poderes estavam realmente inclinados a não tomar nenhuma atitude em
relação ao destino da Terra-média e seus habitantes. Por mais que
parecesse absurda a idéia, ele não conseguia encontrar outra explicação
para tudo aquilo. Quando voltou a prestar atenção no que ia a seu
redor, percebeu que havia involuntariamente se desviado das praias
ocidentais evitando mais um desconcertante encontro com Nienna e agora
ele ia por um caminho suave margeado por pequenas árvores com flores
amarelas e que levava a um denso bosque de ciprestes imponentes e
elegantes com suas altas copas verdes. Andando por entre essas árvores
Ulmo avistou ao longe uma bela e alta figura, vestida de verde e
iluminada por um orvalho dourado, que dava a impressão de ser mais um
cipreste mas que se movia por entre eles com muita elegância e vinha em
sua direção.

Ulmo apenas conseguiu reconhecer aquela figura como Yavanna quando ela
já estava a poucos passos dele e pôde perceber um leve riso de alegria
em seu rosto ao mesmo tempo em que lhe dava o braço para juntos
caminharem pelos domínios da Rainha da Terra, repleto das suas mais
belas criações, porém todas essas coisas não conseguiam disfarçar a
tristeza que a acompanhava desde Eras atrás. Todo o esforço feito por
ela para defender as suas criações na Terra-média havia sido
praticamente em vão e agora não eram apenas os servos do Inimigo que as
destruíam, mas também os Homens e Anões devastavam as florestas
indiscriminadamente em nome do progresso e da fabricação de armas para
se digladiarem. Ante tais perspectivas Ulmo sabia que Yavanna também
não o apoiaria, mas decidiu tentar assim mesmo e expôs todas as
notícias vindas da Terra-média, porém foi como se fossem sementes
lançadas em solo improdutivo, e fez com que a Rainha da Terra ficasse
ainda mais melancólica do que já estava. Sabendo que nada conseguiria
com Yavanna dessa vez, Ulmo se despediu gentilmente dela e se
encaminhou na direção dos Jardins de Lórien onde pretendia encontrar
Irmo, o Senhor dos Sonhos e das Visões na esperança de que ele pudesse
esclarecer algumas partes das mensagens trazidas por Uinen e Ossë.

Entrou nos Jardins e foi recebido por Olórin que disse que o Senhor de
Lórien havia sido chamado por Manwë até Ilmarin e que não sabia se ele
se demoraria por lá, mas se Ulmo desejasse esperar por ali ele ficaria
grato em lhe fazer companhia. Ulmo agradeceu ao convite de Olórin mas o
dispensou da companhia pois agora o seu intento era ir até a morada de
Estë e para lá se dirigiu por um caminho que seguia por uma suave
inclinação e era ladeado por formosas plantas com belas, perfumadas e
vistosas flores vermelhas. Tal beleza fez com que Ulmo resolvesse
colher algumas para levar de presente para Estë, porém ficou surpreso e
perplexo ao se espetar em seus caules com resistentes espinhos. Olórin,
que o acompanhava Ulmo a certa distância notou a sua perplexidade, veio
até ele e lhe disse que havia trazido essa singular planta dos jardins
de Yavanna por ter se encantado com a beleza de suas flores e havia
deduzido que os espinhos eram uma forma dela tentar garantir àquela
bela espécie um meio de se defender da ação destrutiva dos outros
seres, porém Yavanna não havia confirmado essa teoria para ele. Com uma
habilidade invejável, Olórin conseguiu rapidamente preparar um arranjo
daquelas flores vermelhas e entregou para Ulmo sem lhe fazer nenhuma
pergunta, apenas se virou e voltou aos seus afazeres. Munido com aquele
arranjo, Ulmo seguia agora pela bela alameda de Laurinquë carregadas de
flores douradas pendentes em cachos ao alcance das mãos dos que seguiam
pelo caminho cuidadosamente pavimentado com pedras recortadas em forma
de retângulo e perfeitamente encaixadas até chegar em um ponto onde a
seqüência de árvores terminava e apenas um belo gramado seguia ladeando
o caminho até chegar às margens do Lago de Lórellin com sua água
cristalina e grande variedade de vida aquática que Ulmo conhecia muito
bem. Mais ao centro do lago Ulmo via agora uma suave neblina se formar
acima da superfície da água e no meio da neblina surgiam altas árvores
com suas copas formando um denso teto verde para a ilha.

Enquanto ia cruzando a ponte de madeira que ligava a ilha à margem do
lao, Ulmo ainda estava envolto em seus pensamentos e se perguntava a
razão para Yavanna ter criado uma espécie que precisasse de defesas
próprias ali em Valinor. Chegou até a duvidar da sanidade da Rainha da
Terra, porém esse foi um pensamento que logo deixou a sua mente dando
lugar a uma confortável sensação de alívio e ao longe, bem no centro da
ilha, ele avistou uma figura de estatura mediana que se movia com
agilidade e beleza por entre as árvores entoando um canto suave e
gostoso de ser ouvido. Ulmo sorriu ao reconhecer a voz de Estë e se
deixou levar por aquela sensação até se achar sentado na parte mais
oriental da ilha e se deu conta de que a noite já ia bem avançada, com
um céu sem nuvens e todas as estrelas de Arda agora pareciam brilhar
com a mesma intensidade de quando elas foram remodeladas. Olhou em
volta e não viu mais ninguém ali, exceto pela distante figura envolta
em um mando cinza que carregava em seus braços o arranjo de flores
feito por Olórin que pareciam mais vermelhas ainda iluminadas pela
pálida luz da lua.

Estë estava contente pois sabia que Ulmo raramente deixava os seus
domínios para andar entre os outros Valar e aquela visita à sua ilha
era inédita, porém ela logo percebeu as aflições que iam na alma dele e
por mais que quisesse ficar e conversar, sabia que o melhor a fazer era
deixá-lo sozinho para refletir sobre suas idéias.
Ulmo já se dispunha a ir atrás de Estë, porém as estrelas conseguiram
prender a sua atenção e logo ele se deitou sobre a relva macia e,
enquanto observava as estrelas, uma suave névoa o envolveu e mais uma
vez ele se dedicou aos seus pensamentos, entretanto dessa vez o fez de
um modo mais organizado, sem pressa. Sabia que as informações que
haviam chegado por último não poderiam ser simplesmente ignoradas,
sabia também que não poderia impor a sua vontade aos outros e que seria
praticamente impossível conseguir convencer Manwë a fazer algo. Ele não
queria depender tanto assim dos outros, como de fato ele não dependia,
porém tomar atitudes contra a decisão de Manwë só causaria mais
desgaste entre os Valar. De repente, uma idéia até então nova para ele
tomou forma e ele checou todas as possibilidades dela ser viável e
internamente sorriu com deleite por ter finalmente encontrado uma
solução para os seus problemas. A manhã chegou e o apanhou ainda em
meio às resoluções finais sobre o que faria, porém só com o primeiro
raio de sol Ulmo finalmente despertou daquele revigorante sono e
percebeu que Estë estava em pé logo à sua direita e que sorria para
ele. Levantou-se e foi até ela e juntos observaram mais um belo nascer
do sol em Valinor e quando Ulmo se virou para fitá-la, viu um rosto
sereno com lábios finos, nariz pequeno e vívidos olhos negros como a
noite, notou também que Estë havia colocado uma das flores vermelhas
como enfeite em seus longos cabelos negros e ele não soube dizer ao
certo se era a flor que realçava os cabelos ou se era o negro dos
cabelos que deixavam ainda mais bela a flor vermelha. Fitou-a por um
longo momento procurando palavras para lhe agradecer pelo revigorante
descanso, mas não conseguiu encontrar nada que fosse adequado, porém em
seus olhos Ulmo podia ver que Estë sabia exatamente como ele se sentia.
Tomado então por um impulso que o compelia a por em prática a sua
idéia, se adiantou um pouco mais e depositou um único e demorado beijo
na fronte e se afastou em direção da ponte de madeira.

Refez seu caminho de volta pela alameda de Laurinquë e viu ao longe que
Irmo e Olórin conversavam alegremente sentados em um dos bancos daquele
imenso e belo Jardim, porém já não sentia mais necessidade de conversar
com o Senhor de Lórien e apenas acenou de longe ao passar por eles e
finalmente estava seguindo pelo caminho que levava às praias orientais
e aos seus domínios. Uinen estava observando o revoar contente que as
gaivotas sempre faziam ao amanhecer e logo que percebeu a aproximação
Ulmo foi ao seu encontro e seguiu com ele para as profundezas de
Ekkaia, encontraram Ossë no caminho voltando de mais uma ronda pelas
fronteiras do imenso mar à procura de novas informações sobre a
Terra-média. Ulmo os reuniu em seu salão principal e expôs todos os
fatos ocorridos enquanto esteve entre os habitantes de Valinor,
inclusive sobre as reações dos outros Valar sobre as suas preocupações.
Ulmo fez então ficou em silêncio como se ainda pensasse sobre a decisão
a ser tomada, respirou fundo e explicou que seu plano era simplesmente
o de ir pessoalmente até a Terra-média e ajudar os Homens da maneria
que lhe fosse possível, pois ele não ficaria ali de braços cruzados
apenas porque os Primogênitos estavam deixando a Terra-média para os
Homens defenderem contra algo que nem os próprios Valar haviam sido
capazes de prender. Já ia se preparando para dizer que não obrigaria
nenhum dos dois a lhe acompanhar nessa jornada incerta, porém antes de
terminar sua frase Ossë se levantou e disse que ele não ficaria para
trás enquanto o seu senhor estivesse se expondo para salvar a
Terra-média. Essa reação havia deixado Ulmo um pouco mais reconfortado
e suas esperanças de ser bem sucedido aviam aumentado
consideravelmente, no entanto Uinen também havia se levantado, mas ao
invés de ser palavras de apoio incondicional, ela lançou uma dúvida
sobre a reação de Manwë ao descobrir que eles haviam deixado Aman sem a
sua permissão.

Aquele comentário atingiu em cheio a base da idéia de Ulmo, porém ele
não via outra opção e o seu apego pelos Sucessores havia crescido tanto
desde a fuga de Melkor que ele estava pronto a se sacrificar para poder
ao menos fazer com que os Povos Livres da Terra-média tivessem uma
chance de se defender das atrocidades que estariam por vir. Assim
sendo, dispensou mais uma vez Ossë e Uinen de irem com ele, mas se
mostrou firme na decisão que havia tomado. Ossë ainda manteve a sua
resposta de antes e se colocou ao lado do Senhor dos Oceanos para ir
até o fim, qualquer fim que fosse. Uinen ficou em silêncio por mais um
tempo ponderando sobre a sua decisão, mas finalmente os seus anos a
serviço de Ulmo a fizeram deixar suas preocupações em segundo plano e
também se colocou à disposição de Ulmo em sua jornada pela Terra-média,
afinal de contas alguém naquele trio teria que pensar um pouco mais do
que os outros nas conseqüências. Ulmo então apanhou a Ulumúri e a fez
soar com tal potência que por todo o Ekkaia o seu eco se propagou e a
mensagem de que Ulmo, o Senhor dos Oceanos estava indo para a
Terra-média foi levada às criaturas aquáticas de toda Aman. E com esse
gesto o destino dos três havia sido lançado e o futuro que lhes
aguardava era incerto, porém as coisas mudariam em breve na Terra-média.

O Retorno da Sombra

fanfic_retornosombra_sauron.jpg
Fiz essa fanfic a partir da idéia que o MNeithan e o elsonluiz (do Fórum Valinor) me deram sobre um post meu no “E Se…” (uma seção do Fórum Valinor). Acho que já deve ter algum texto do próprio Tolkien com esse título, mas como eu não sou bom com essa coisa de título vou ficar com esse mesmo.

A minha intenção com esse texto é descrever os acontecimentos da maior ambição que Sauron poderia ter tido, se Tolkien tivesse se voltado para esse caminho em sua história. A história tem início junto com o começo da Segunda Era do Sol, quando os Povos Livres da Terra-média estão reconstruindo suas casas e vidas após a Guerra da Ira e se pensava que o Mal em toda a Terra-média havia sido derrotado para sempre.

 
 
DAS AMBIÇÕES DE SAURON

Durante toda a sua existência após o aprisionamento de Melkor, Sauron buscou o retorno de seu mestre e trabalhou incansavelmente em busca de uma solução para isso. Logo nos primeiros 15 anos da Segunda Era, Sauron se entregou completamente à arte da feitiçaria, e desenvolveu encantamentos diversos nas profundezas de seus esconderijos até decidir por se estabilizar em Mordor e continuar com a obra de Melkor.

Após várias tentativas sem sucesso para encontrar o encantamento exato, Sauron se viu forçado a buscar outras fontes de conhecimento, ao mesmo tempo em que ele via crescer a necessidade de aumentar o seu exército em resposta ao crescente poder dos Elfos. Foi em SE 1400 que ele se deparou com uma solução que resolveria seus dois problemas de uma só vez e essa solução estava nos próprios Elfos. Apesar de terem se passado muitas Eras desde a última vez em que Sauron havia usado uma forma bela aos olhos dos outros seres, ele ainda era capaz de se transformar, assim como todos os Maiar, em qualquer forma que achasse conveniente e, para a ocasião, escolheu uma bela forma Élfica e se apresentou como Annatar. Ao contrário de Elrond em Imladris que, alertado por seu dom da clarividência, desconfiou daquele Elfo e pediu que ele se fosse, Celebrimbor aceitou Annatar em Eregion e com o passar do tempo acabou por aceitar alguns dos conselhos dele, como por exempo, que se forjassem Anéis de Poder, que poderiam ser utilizados para auxiliar na cura dos estragos feitos no Mundo pela maldade de Melkor. Com esse plano em mente, Sauron conseguiu dar um importante passo em seu ambicioso plano, pois teve acesso a muitos dos conhecimentos que aqueles habilidosos Elfos haviam adquirido nas longas Eras que passaram nas Terras Imortais.

Por volta de SE 1500 os Gwaith-i-Mírdain, como eram chamados os Ferreiros Noldor de Eregion, liderados por Celebrimbor deram início, sob a velada supervisão ambiciosa de Annatar, à confecção dos 19 Anéis de Poder. A cada ano que se passava, Celebrimbor ficava mais satisfeito com o desempenho de seus comandados e Annatar cada vez mais se aproximava de seu objetivo, pois além de adquirir o máximo de conhecimento dos Noldor, ele também havia planejado usar desse conhecimento para fabricar o seu próprio Anel e com ele controlar e dominar todos os outros. Em SE 1590 Celebrimbor estava radiante com o resultado final de seus trabalhos, quando os 19 Anéis foram finalmente terminados e esperava a chegada de Annatar, que havia se ausentado meses antes sob o pretexto de investigar rumores sobre uma nova ameaça vinda do leste, para orgulhosamente lhe mostrar o fruto de seu trabalho em conjunto.

Porém, antes de os Gwaith-i-Mírdain entrarem na reta final de seu trabalho, Sauron já havia adquirido todo o conhecimento que achava necessário e, usando a oportunidade de se afastar por um tempo de Eregion sem levantar suspeitas, foi até Mordor para forjar para si, nos Fogos da Montanha da Perdição, o Um Anel e finalmente conseguir conjurar o seu poderoso encanto que iria libertar seu mestre da Prisão do Vazio. Ao terminar de conjurar o encanto, Sauron soube que aquela era a mais poderosa magia jamais utilizada em toda a existência de Arda, algo que superava em muito os Cinturões de Melian em Doriath durante a Primeira Era do Sol e de Galadriel, que ainda estava por ser feito, em Lothlórien durante a Segunda e Terceira Eras do Sol. Todavia, para ser realizada tão grande façanha era preciso um sacrifício enorme e, como Sauron era o único poderoso o suficiente para executar seu maquiavélico plano, ele lançou o encanto sobre si próprio. Na época o seu plano era o de dominar a maior parte da Terra-média possível e deixar seus mais poderosos servos no comando enquanto ele se sacrificaria e iniciaria a missão de resgatar Melkor de sua prisão no Vazio e com ele voltar para a Terra-média. Com o poder do Um Anel, Sauron restauraria a sua forma e ao lado de Melkor o Mundo se ajoelharia a seus pés.

Tão grande foi o seu êxtase ao finalmente conseguir fazer o encanto que Sauron se esqueceu de esconder o Um Anel e, ao retornar a Eregion, seu disfarce foi desmascarado por Celebrimbor, pois ao ver os Anéis de Poder prontos e ao alcance de suas ambiciosas mãos, o Um Anel o traiu e a imagem de Sauron se sobrepôs a de Annatar. A partir de então teve início a Guerra de Sauron e dos Elfos, na qual Sauron tentou por todas as maneiras possíveis se apoderar de todos os Anéis. As batalhas que se travaram devastaram toda Eriador e o avanço de Sauron só foi deitdo quando os Anões, vindo em auxílio dos Elfos, atacaram o flanco e a retaguarda dos exércitos de Sauron e este se viu obrigado a recuar, repensar a sua estratégia e, com o passar de alguns poucos anos praticamente chegar às portas dos Portos Cinzentos, obrigando os Elfos a pedirem ajuda ao Númenoreanos, que prontamente atenderam ao pedido e expulsaram o exército da Escuridão de volata para o Leste. Tão poderosos se mostraram os Homens do Ponente que, quando eles vieram anos mais tarde, até o Morannon, Sauron fez valer os seus anos de malícia ao lado de Melkor e se deixou ser capturado e levado para sua prisão em Númenor.

Esse aprisionamento nada mais foi do que um ato muito bem encenado por Sauron para, mais uma vez, atingir dois objetivos de uma só vez. O principal deles era fazer com que os povos da Terra-média acreditassem que ele havia sido vencido, o que lhes daria paz por um bom tempo para reconstruírem suas vidas e o segundo seria o de se aproveitar da imensa ganancia exibida por Ar-Pharazôn, último rei de Númenor, e seus cortesãos. Durante o tempo em que ficou preso em Númenor, Sauron conseguiu aos poucos envenenar a mente de Ar-Pharazôn e jogar os Númenoreanos contra os Elfos e contra os próprios Poderes de Arda, em um ato que culminou com a total destruição de Númenor e a quase aniquilação total de seus habitantes. Com a Queda de Númenor, Sauron ficou livre para voltar para a Terra-média, porém nunca mais foi capaz de assumir outra forma bela. Antes de tentar assumir sua última forma física, Sauron decidiu tentar colocar em prática o seu plano de resgate indo até os Portões do Vazio todavia, essa se mostrou uma jornada infrutífera, pois Sauron precisaria de seus poderes que ele havia passado para o Um Anel que ele havia escondido em Mordor antes de ser levado para Númenor, sendo assim obrigado a voltar para pegá-los. Quanto tempo essa viajem iria lhe custar ele não tinha como calcular antes de fazê-la e, ao chegar em Mordor, descobriu que havia sido tempo suficiente para que o seu plano de resgate tivesse que esperar mais um pouco, pois os Elfos haviam voltado a recuperar terreno e, para seu espanto, haviam sobreviventes da Queda de Númenor e eles fundaram reinos pretensiosos no norte em Arnor e no sul em Gondor, esse último bem próximo a Mordor.

Mais uma vez, Sauron fez guerras contra os Elfos e agora também contra os Homens e essas gueras duraram por 122 anos até que, unidos sob a mesma bandeira, a Última Aliança dos Elfos e Homens conseguiu derrotar Sauron e Isildur destruiu seu corpo ao cortar o Um Anel de sua mão. Embora ainda continuasse a existir em espírito, Sauron não pôde impedir que Isildur se apoderasse do Um e, seguindo o conselho de Elrond e Círdan, o levasse para a Fenda da Perdição onde eles o instaram para que atirasse o Anel e destruisse para sempre o Senhor do Escuro. Porém, a força de vontade ainda latente de Sauron fez com que o Anel dominasse Isildur e que ele o declarasse como seu espólio de guerra, compensação pela perda de seu pai e irmão e também como a herança de sua casa. Satisfeito ao ver que o Anel conseguiu dominar seu novo dono e que estaria em relativa segurança por um tempo, Sauron abandonou as Esferas do Mundo e seguiu seu caminho em direção ao Vazio.

DA CHEGADA DE SAURON E DA REAÇÃO DOS VALAR

Após muito esforço para conseguir penetrar no Vazio ainda restava a Sauron a mais difícil tarefa, encontrar o local do aprisionamento de seu mestre sem perder o seu ponto de entrada, pois seria o único meio de eles saírem do Vazio. Como ele nunca havia testado essa magia, não sabia qual o tamanho do poder necessário para passar pelos Portões da Noite e ao chegar do outro lado Sauron se deparou com um fato no qual ele não havia pensado: o Vazio era um lugar tão extenso quanto escuro e ali dentro apenas as paredes, que ladeavam os caminhos, emitiam uma fraca e difusa luz que era o suficiente para se ver por onde ia. Todos os corredores eram muito parecidos e sempre haviam Salões ligados por eles. Esses Salões eram como uma miniatura do prórpio Vazio, escuro e sem nenhum ponto de referência, e quem entrasse neles ficaria confuso ao sair, pois não saberia de qual lado do corredor havia vindo e poderia passar a eternidade andando em círculos. Em vista desse novo contratempo, Sauron se viu obrigado a deixar para trás uma parte de sua essência para marcar o ponto de saída, pois sabia que não teria forças suficientes para abrir outra passagem de volta e, no exato momento em que pensou nisso, compreendeu que aquela missão havia acabado de se complicar, porque sabia que tinha pouco tempo antes que os Valar viessem ao seu encalço e temeu não ser capaz de abrir outra passagem para voltarem para as Esferas do Mundo. Começou então a andar sem direção pelos caminhos dos vastos Salões do Vazio enquanto se esforçava ao máximo para conseguir captar alguma pista que o levasse ao seu Mestre e Senhor.

No exato momento em que Sauron arrombou os Portões da Noite e entrou no Vazio, Taniquetil sofreu um grande tremor e então Manwë pôde ver o que ele achou que fosse impossível de acontecer e de imediato enviou Eönwë para descobrir qual criatura havia sido capaz de tal feito e, enquanto isso, o próprio Manwë havia descido de seu trono e se reunido com os outros Valar para, assim que a confirmação chegasse, traçarem um plano de ação. Eönwë voltou com uma expressão de quem ainda não acreditava no que os seus próprios olhos haviam divisado na penumbra dos Salões do Vazio e, ainda espantado com tal poder de um dos seus parentes, contou aos Valar que Sauron era o responsável pelo arrombamento dos Portões da Noite e que ele próprio estava agora caminhando pelos longos corredores sombrios. Ao mesmo tempo todos os Valar pensaram a mesma coisa: Melkor! E se desesperaram pois sabiam que o Maia renegado havia entrado lá com o único propósito de libertar o mais poderoso dos Valar.

Assim que conseguiu colocar um pouco de ordem e calma em seus irmãos, Manwë instou para que fosse reunido mais uma vez o Conselho dos Valar e que se preparassem para uma intervenção emergencial. Mesmo que desejassem agir de acordo com a decisão de todos, Tulkas e Oromë eram os mais agitados e surgiram com a idéia mais agressiva de todas pois, enquanto todos os presentes se debatiam na procura de uma medida eficiente de trancar Mestre e Pupilo dentro dos Salões do Vazio para sempre, a dupla, que já havia despachado ordens para se reunirem as hostes e que ficassem todos preparados para marcharem no encalço de Sauron, lembrou-lhes de que, uma vez que Sauron teve um meio de abrir passagem pelos Portões, ele ainda poderia ser capaz de fazer o mesmo para sair de lá.

O poder e a lógica desse fato trazido à tona por Tulkas e Oromë foram tão convincentes que os Valar, ignorando os pedidos de Manwë para que fizessem silêncio, já estavam decididos a liberarem a caçada quando, abandonando a sua costumeira abstenção das acaloradas discussões de seus irmãos, Mandos pediu a atenção de todos e lhes lembrou do único fato que apenas Manwë e ele não haviam esquecido. Ao trancarem Melkor no Vazio, um poderoso encantamento foi lançado sobre os Portões que impossibilitava qualquer ser de sair por eles até que o dia da Segunda Profecia chegasse. O próprio Manwë não poderia sair se decidisse entrar, talvez Melkor, por ser o mais poderoso de todos eles, fosse o único que pudesse escapar, apenas se fosse solto das correntes que o mantinham preso. Ao ouvirem isso, Tulkas e Oromë se deixaram cair sentados em seus tronos enquanto viam seus inimigos se aproximarem da maior vitória que teriam sobre eles, maior ainda do que a destruição das Lâmpadas ou das Árvores.

Enquanto isso Sauron já havia avançado muito pelos tortuosos caminhos do Vazio, porém sem saber qual direção seguir, em pouco tempo se viu andando em círculos e cada vez que passava por um local que ele imaginava já ter visto seu desespero aumentava até que ele se viu próximo ao seu ponto de partida, tão próximo que ele poderia atravessar o Portão para fora do Vazio se andasse mais um pouco. Irritado e desesperado com a imensa perda de tempo que havia sido essa sua incursão seguindo os tortuosos caminhos que apareciam a sua frente, Sauron resolveu fazer, mesmo às cegas, o seu próprio caminho e começou a vagar seguindo para onde agora o seu desespero, mais do que a intuição, o guiava.

Sauron andou por um tempo além da conta por inúmeros corredores amplos até não saber mais distinguir se os corredores já estavam lá ou se eles estavam se formando em sua frente enquanto ele vagava sem direção. Já estava andando tão distraidamente e sem motivação alguma que levou um tempo para percerber que havia parado diante de uma imensa abertura e para além dela não se enxergava absolutamente nada. Então um terror tão imenso quanto súbito lhe percorreu todo o espírito ao se lembrar das poderosas teias de Ungoliant que absorviam toda a luz que chegava até elas e, sentindo suas forças o abandonar, se deixou cair sentado frente a imensa abertura contemplando a escuridão quase tangível para além dela. Quanto tempo ele ficou ali parado, impotente frente aquela situação, até que no seu íntimo surgisse uma pequena e tímida sensação que lhe dizia para seguir em frente através da passagem Sauron não sabia, mas mesmo sem saber bem porque, decidiu por dar o primeiro passo para dentro da escuridão.

Desesperados por encontrarem uma forma de agir, os Valar se entregaram aos seus pensamentos e, com o passar do tempo, já não conseguiam mais se concentrar em nada. Preocupado com a demora em receber alguma ordem, Eönwë, que liderava as hostes dos Valar veio a saber do grande dilema que se abatia sobre seus Senhores, fez uma rápida reunião com seus irmãos, foi ao local onde estavam reunidos os Valar e, após receber permissão para falar, ofereceu a si e mais uma centena de Maiar para irem atrás de Sauron e impedí-lo de libertar Melkor. Aquela atitude sincera e espontânea deixou os Valar sem reação por um tempo até que o silêncio foi quebrado por Mandos para avisar o arauto de Manwë e seus companheiros de que não haveria como saírem do Vazio se passassem pelos Portões. Porém, nada parecia abalar a decisão dos bravos Maiar de se arriscarem para tentar evitar que o mais temido dos terrores da terra-média fosse libertado.

Ante tal determinação, Manwë não teve outra escolha do que abençoar seus guerreiros e lhes desejar sorte. No entanto, Tulkas e Oromë insistiram em participar da missão e dessa vez nem Mandos foi capaz de demovê-los dessa nefasta idéia. Já estavam bem adiantados a caminho dos Portões da Noite quando, ao olharem pela última vez para as verdejantes colinas de Valinor, Oromë e Tulkas se depararam com a imagem de Nessa que tinha o rosto coberto por lágrimas enquanto observava seu marido e irmão, encabeçando um exército com cem Maiar em armaduras completas, longas espadas Élficas e imensos escudos ornados com o emblema de Valinor no centro, avançarem para a morte ou o exílio, de onde nunca mais voltariam até o fim dos tempos.

Foi nesse momento que, em sua ânsia por derrotar Sauron e manter Melkor cativo, Oromë e Tulkas se deram conta de que equeceram de pensar em seus entes mais queridos, principalmente em Nessa, que sempre esteve ao lado deles em qualquer decisão. A imagem de Nessa os encheu de tão profundo sentimento de culpa que, por um breve momento, o tempo parou e quando voltaram a si viram que Eönwë se afastava em direção ao resto do grupo e dizia para não se preocuparem, pois eram muito mais importantes desse lado dos Portões.

E assim foi que, liderados pelo arauto de Manwë, o exército de Valinor entrou na vasta região do Vazio e se colocou em marcha forçada para recuperarem o tempo perdido e alacançarem Sauron antes dele chegar até onde Melkor estava acorrentado. Andaram por muito tempo indo sempre na direção certa, pois antes de partirem Mandos, responsável pelo acorrentamento, os havia ensinado o caminho mais curto para que pudessem ter uma chance. Passaram por muitos Salões vazios e parecidos uns com os outros e alguns dos Maiar pensaram terem visto as colinas que ficavam do lado de fora dos Portões, e os espíritos que se perderam admirando esses salões nunca chegaram a enfrentar Sauron, pois não conseguiram mais encontrar seus companheiros. Seguindo sempre em frente, sem saber da silenciosa perda de seus companheiros, o exército de Valinor já haviam coberto uma boa parte da jornada quando avistaram Sauron indo na direção da Passagem  sobre o Nada, além da entrada onde nenhum tipo de luz conseguia passar e, ao perceber que haviam chegado muito tarde, Eönwë e seus companheiros se lançaram em uma desatinada corrida e se atiraram sobre Sauron antes que ele tivesse entrado e ali se deu o primeiro combate a ser travado dentro do Vazio, desde quando foi criado.

Apesar de nenhuma luz conseguir passar pela entrada da Passagem, os Maiar não precisavam dela para conseguirem sentir a presença uns dos outros e continuaram a lutar. Batalharam por horas a fio e no entanto nenhum dos integrantes do exército de Valinor, nem mesmo Eönwë, tinha a experiência que Sauron havia adquirido ao longo de Eras a serviço de Melkor e mesmo depois, quando ele assumiu o lugar de seu mestre. Dessa forma, Sauron foi capaz de equilibrar um pouco o combate e, com uma malícia e esperteza que ele próprio sabia que não lhe eram comuns, descobriu que estavam sobre uma estreita ponte dentro da Passagem e que seria fatal qualquer tipo de deslise ali em cima. Já estava se preparando para conjurar um feitiço para atacar seus inimigos quando se lembrou que todo o seu poder de feiticeiro deveria ser poupado para ser usado na busca de Melkor e então se viu forçado a usar de outros meios para combater seus inimigos. A partir de então ele se concentrou em avançar um pouco e deixar que seus inimigos viessem até ele e fosse mais fácil de jogá-los para os lados. No meio da confusão Eönwë ficou um pouco para trás e conseguiu perceber a tática ardilosa de Sauron, mas não foi capaz de avisar seus companheiros a tempo de evitar que ao menos metade deles fossem arremessados em direção ao Nada.

Sauron sabia que, cedo ou tarde, sua tática seria descoberta e então ele teria que ser muito rápido e esperto e tentar derrubar o máximo de adversários que conseguisse para não ter tanta desvantagem quando saíssem daquele buraco. E foi assim que com uma tática simples, mas que se mostrou bem eficaz, Sauron conseguiu reduzir seus oponentes a apenas 10, porém não havia se livrado de Eönwë e então a parte mais crítica do combate chegou quando Sauron foi cercado pelos Maiar e eles sacaram suas armas. Normalmente Eönwë teria tomado a frente de seus companheiros e dito para que ele se entregasse e retornasse para ser julgado por seus atos, mas o sentimento de ódio que estava cresendo dentro dele e um desejo de vingança nunca antes sentido por nenhum deles ali presentes fez com que todos só pensassem em derrotar Sauron.

Tal foi a onda de ira que surgiu em cada um deles que se esqueceram de sua superioridade numérica e resolveram atacar sem nenhum tipo de formação tática e, embora Eönwë agora tivesse recuperado sua lucidez e estivesse berrando a plenos pulmões para que não corressem na direção de Sauron daquela forma, dois espíritos já haviam caído aos pés de Sauron, que mesmo cansado e desarmado havia os vencido com uma certa facilidade. Sauron, que podia ter apanhado as armas de seus inimigos derrotados, resolveu arriscar uma manobra perigosa virando as costas para os outros e saindo em uma breve, porém fortuita corrida, pois conseguiu fazer com que alguns dos Maiar corressem atrás dele e se distanciassem mais uma vez de seu comandante.

Porém, desta vez, Sauron havia se posicionado de uma forma que lhe permitiu dominar seu inimigo mais próximo e lentamente, com um prazer que não sentia a Eras, extinguiu a Chama Imperecível que ardia naquele espírito, tomou suas armas e se posicionou, esperando o ataque. Eönwë sabia que, mesmo acuado, Sauron era um adversário muito perigoso e decidiu atacar o quanto antes. Com Eönwë fazendo a abertura, seus companheiros se posicionaram da melhor forma que puderam e se lançaram sobre Sauron em uma incrível seqüência de pesados golpes enquanto ele apenas se defendia da melhor maneira possível com espada e escudo. Tudo o que Sauron desejava naquele exato momento era ter em suas mãos a sua potente maça mas havia vindo sem armas então, apesar de a espada e o escudo terem sido feito pleos Elfos de Valinor, ele teria que se virar com o que tinha e agüentar até conseguir libertar Melkor.

A potência dos golpes de Sauron aumentava gradualmente na mesma medida em que  o entrosamento dos Maiar de Valinor melhorava e então a cadência do ataque passou a ser na ordem de dois atacantes contra Sauron, enquanto esse tinha que se manter atento ao posicionamento dos outros e era obrigado a ficar em constante movimento. Todavia, nem todo o entrosamento de seus inimigos era capaz de superar a experiência de Sauron em batalha aberta e, em uma manobra audaciosa, mais dois Maiar caíram perante Sauron, embora no processo ele também tenha sido ferido por Eönwë e seu braço já não conseguisse mais suportar o peso do escudo, sendo obrigado a lançá-lo fora e apenas utilizar a espada.

Essa nova situação deu um pouco mais de ânimo aos Maiar e a batalha agora havia recomeçado com maior violência nos golpes e, ao se movimentarem constantemente, tiveram a impressão de que agora os Salões do Vazio é que passavam por eles. Os clarões emitidos em cada encontro das espadas iluminavam as longas paredes frias, únicas testemunhas daquela batalha que já se estendia por um tempo além da conta, pois o tempo, como tudo ali dentro, passava de forma diferente e tanto Sauron quanto Eönwë e seus companheiros não eram capazes de dizer com certeza como ele era medido. Após um breve intervalo para recuperarem o fôlego, Sauron notou que os Maiar estavam ficando cada vez mais lentos em seus reflexos e resolveu concentrar suas forças em uma investida contra eles, numa tentativa de tirar proveito da situação. Esse movimento determinado de Sauron fez com que Eönwë, que se sentia mais cansado do que nunca esteve antes, como se um enorme fardo tivesse sido colocado sobre os seus ombros, se colocasse na frente de seus comandados e fosse a primeira linha de defesa.

Sabendo que aquela seria, talvez, a sua única chance de enfraquecer ainda mais seus inimigos, a meio caminho do encontro com Eönwë, Sauron percebeu que ele colocaria mais peso nesse ataque então, em mais uma manobra ágil, esquivou com todo o seu corpo pela direita e desferiu um poderoso golpe pelas costas de seu inimigo. Os outros Maiar ficaram momentaneamente paralisados ao verem a cena e descobrirem que Sauron ainda conseguia se mover daquela forma porém, mais espantado ficou Sauron quando viu Eönwë mostrar que ainda lhe restava um pouco de enregia e, com um ótimo reflexo que lhe salvou a vida, fez o giro pelo lado contrário ao do escolhido por Sauron e, colocando o escudo para bloquear o golpe que lhe atingiria em cheio, foi atirado longe e seu escudo foi estilhaçado com a potência do golpe.

Foi só ao sentir a potência de seu golpe que Sauron soubre que estava próximo de Melkor e que este estava ajudando de alguma forma nesse combate. Então Sauron fez descer toda a sua ira sobre os outros Maiar que ainda estavar boquiabertos com o poder dele. Embora não fossem experientes como Eönwë seus companheiros ofereceram uma ótima resistência aos golpes de Sauron e revidaram com todo o vigor e técnica que lhes restava, mas nada daquilo foi capaz de deter a determinação de Sauron então um a um os Maiar foram caindo perante seus poderosos golpes e súbita recuperação. Ao terminar com o último de seus oponentes, Sauron sentia que Melkor estava muito próximo e agora sabia exatamente qual caminho tomar, então se dirigiu para lá o mais rápido possível, logo após olhara para onde estava Eönwë e se certificar de que ele ainda estava nochão.

Sauron podia sentir a presença de seu mestre cada vez mais perto e agora corria pelos corredores vazios até chegar em um ao mais amplo Salão que lembrava ter visto dentro do Vazio, bem no centro dele havia uma rampa e no topo dela um enorme trono de pedra, esculpido da mesma matéria das paredes daquele lugar. Sentado nesse trono estava o maior de todos os Valar, preso com correntes que ele não poderia quebrar e, ao ver seu pupilo, seus olhos negros brilharam com uma intensa luz vermelha que, por um breve momento, iluminou todo o seu rosto. De cada lado do trono havia um alto pilar onde foram colocados a Coroa de Ferro e Grond, o poderoso martelo de guerra de Melkor, sempre ao alcance de sua vista, mas fora do alcance de suas mãos, como forma de lhe punir pelas atrocidades cometidas contra os povos de Arda e contra os da sua própria raça. Sauron parou em frente ao trono de seu senhor e se pôs a encantar a espada com o resto de sua magia para que ele fosse capaz de quebrar as correntes que prendiam Melkor àquela repugnante réplica de seu trono em Angband.

Ao conseguir se reeguer e ter a visão do que um dia foram os seus companheiros largados no chão, sem a Chama Imperecível em seus corpos, Eönwë se encheu de muita tristeza e ao mesmo a ira que crescia desde quando cruzaram a Passagem sobre o Nada pareceu tomar conta dele. Eönwë sabia muito bem o caminho pelo qual Sauron havia seguido e foi atrás dele.

Quando Sauron havia terminado com o encanto da espada e se preparava para libertar seu senhor, percebeu a presença de Eönwë no local onde há pouco ele havia parado para fazer o encantamento e, apenas com o olhar, Melkor deu a entender que ainda havia serviço a ser terminado. Ainda confiante de que poderia vencâ-lo com a ajuda de seu mestre, Sauron desceu a rampa e estudou por um momento o seu adversário. Eönwë era da mesma estatura de Sauron, mas suas Eras a serviço de Manwë o havia deixado mais belo e sábio do que talhado para a batalha, entretanto seus braços ainda eram fortes o suficiente para empunhar a longa e bem trabalhada espada Élfica que ele havia recebido para essa missão. Não carregava mais o escudo, que havia sido destruido no seu último combate e, para espanto de Sauron, estava no exato momento embainhando sua espada.

A vontade de vencer Sauron era tão grande que Eönwë acreditava não precisar mais de sua armadura, pois ela quase o havia matado por não lhe permitir um movimento mais rápido quando quase foi partido ao meio anteriormente. Assim sendo, aproveitou o momento de contemplação de Sauron, embainhou sua espada e retirou a sua armadura, a colocando de lado e desembainhando novamente a sua espada.

Nesse momento dois pensamentos diferentes passaram pelas mentes perversas de Sauron e de Melkor: Para Sauron a atitude de Eönwë foi de extrema auto-confiança e também uma isca para atraí-lo para um último combate antes dele libertar Melkor, e agora ele, Sauron, faria questão de aceitar o desafio; Para Melkor a atitude de Eönwë se mostrou nobre e ele pôde sentir toda a raiva e desejo de vingança que fluia naquele Maia, o que o fez retirar toda a sua influência sobre ele e deixar o combate igualado.

DO COMBATE ENTRE SAURON E EÖNWË E DA LIBERTAÇÃO DE MELKOR

Sentindo-se leve novamente, Eönwë decidiu que não iria mais esperar pela iniciativa de seu oponente e, com uma impressionante velocidade, partiu para o ataque obrigando seu oponente a se defender da melhor maneira possível. Sauron, pego de supresa pela súbita recuperação de Eönwë, acabou tendo que ceder terreno e acabou encurralado, tendo atrás de si o pilar que sustentava Grond. Sauron apenas teve tempo de pensar em se esquivar, jogando o seu corpo para frente, rolando por debaixo do golpe de Eönwë que atingiu em cheio o pilar e prendeu a lâmina da espada na fenda que foi aberta. Com isso Sauron não só havia conseguido mudar de posição como também agora tinha uma enorme vantagem sobre seu adversário e, pensando em aproveitar essa chance, partiu para cima dele sem se preocupar com o que Eönwë ainda pudesse fazer. Vendo que Sauron vinha para lhe golpear de cima para baixo, como um lenhador usa seu machado para partir lenha, Eönwë eperou pelo golpe e na hora exata esquivou com o corpo para a direita e desferiu um potente soco contra o rosto de Sauron, fazendo com que ele cambaleasse para a direita, e na seqüência acertou um fortíssimo chute no peito nele.

Apanhado de surpresa pela impressionante habilidade de Eönwë e ainda atordoado pela força do primeiro golpe, Sauron apenas teve tempo de colocar os braços cruzados sobre o peito como defesa e, com o impacto do segundo golpe, acabou por deixar cair sua espada e ser lançado para trás. Sauron havia cometido um erro enorme ao achar que, assim como aconteceu com Homens e Elfos, Eönwë se intimidaria ante sua superioridade e agora estava realmente preocupado com o sucesso de sua missão, pois seu adversário, embora não fosse tão experiente como ele em combate, estava determinado a vencê-lo e, para aumentar ainda mais a confusão de seus pensamentos, parecia que Melkor havia interferido a favor do arauto de Manwë de alguma forma. Ainda se colocando em pé, Sauron tinha a sua frente o trono de Melkor, os dois pilares, e Eönwë que agora estava de pé ao lado de sua espada. Nesse exato momento Sauron soube que, se Eönwë pagasse a espada tudo estaria perdido, todo o seu esforço teria sido em vão e ou ele teria a sua Chama Imperecível extinguida ali mesmo ou ele seria aprisionado como o seu mestre. Em um último olhar para Melkor, Sauron percebeu que os olhos daquele poderoso Vala agora brilhavam com uma intensa e lúgubre luz vermelha e que seu rosoto estava virado naquela direção.

Melkor, que assistia ao combate como única testemunha, estava muito impressionado pela força de vontade do arauto de Manwë e se deliciava cada vez mais com a crescente ira com que o mesmo se lançava contra seu discípulo. Do alto de seu trono, Melkor agora ponderava a possibilidade de utilizar dessa ira para se infiltrar e corromper o espírito do fiel mensageiro de Manwë e assim ter mais um poderoso servo entre suas fileiras. Porém, para que pudesse sair daquele buraco, precisava de Sauron para fazer suas correntes virarem pó, só que no exato momento essa possibilidade estava ficando cada vez mais longe pois, com dois incríveis golpes, Eönwë havia não só desarmado Sauron e o lançado ao chão como agora estava de pé ao lado da espada de Sauron. Melkor sabia que, se Eönwë pegasse a espada, tudo estaria acabado e assim concentrou sua malícia e a canalizou na ira do arauto de Manwë, travando uma silenciosa batalha com aquele brilhante Maia e sua devoção às atitudes corretas. Foi uma batalha curta, é fato, porém muito cansativa para ambos os lados e ao final Melkor fez valer a sua vontade sobre Eönwë.

Eönwë estava exausto, já não sabia há quanto tempo atrás ele havia cruzado os Portões da Noite, não tinha mais noção de quando havia sido o primeiro encontro com Sauron na escura Passagem sobre o Nada e as lembranças do distante tempo em que caminhava entre os Poderes de Arda, executava pequenas tarefas para a manutenção do bem estar dos habitantes de Valinor, das longas noites em que se sentava sobre as colinas e passava horas ao lado de seus companheiros apenas observando as estrelas. De repente a lembrança de todos os seus companheiros vencidos por Sauron em seu caminho para libertar o Inimigo do Mundo fez com que ele quisesse fazer justiça com as próprias mãos e, parando ao lado da espada de Sauron, olhou para ela, depois para ele e a chutou para longe e foi em direção ao seu oponente.

Havia passado toda a sua existência servindo como mensageiro de Manwë e havia se envolvido em apenas uma guerra em todas essas Eras. Na Guerra da Ira, havia sido o responsável por carregar o estandarte de Manwë e quando a necessidade exigiu, lutou bravamente com seus companheiros sob o comando dos Poderes de Arda. Mas dessa vez ele estava por sua própria conta e sentiu um enorme prazer em deixar fluir toda a sua ira em cada golpe que aplicava em Sauron.

Sauron sabia que havia cometido um erro e agora estava pagnado por ele, mas teve a certeza também de que seu mestre pouco havia feito para ajudá-lo e agora teria que se virar para conseguir passar por um Eönwë enfurecido e conseguir apanhar sua espada. Apenas o pensamento da suposta traição de Melkor fez com que a ira de Sauron se inflamasse e agora o combate havia se transformado em um digno espetáculo para o deleite daquele que era a fonte de todo o mal existente no Mundo.

A luta já se arrastava por horas quando Sauron, em um golpe de sorte, se deixou ser atingido por mais um dos poderosos chutes de Eönwë e ser lançado na direção de sua espada. Eönwë, ao se dar conta do truque utilizado por seu oponente, percebeu que, a menos que  recuperar sua espada ainda presa no pilar, Sauron venceria. Assim que Sauron começou a cambalear na direção da espada, ele correu na direção do pilar e colocou todas as forças que ainda lhe restavam na tentativa de retirá-la da fenda. Sauron sabia que o único meio de ser capaz de libertar Melkor seria destruindo Eönwë e então resolveu arriscar tudo ativando o encantamento de sua espada, aumentando consideravelmente seu poder em relação a seu oponente que havia retornado ao pilar e estava conseguindo libertá-la.

Eönwë pôde ver de relance que Sauron havia se colocado de pé e com algumas palavras proferidas na Língua Negra havia ativado o ecantamento lançado sobre a lâmina de sua espada, que agora emanava uma sinistra luz esverdeada. Saron havia aprendido com o seu erro de antes e sabia que não poderia peder essa chance pois, se Eönwë recuperasse a sua espada, ele seria vencido pela determinação do arauto de Manwë e dessa vez se aproximou com cautela de seu oponente e desferiu um golpe que descia na diagonal e mesmo se Eönwë tentasse se esquivar ele seria atingido. Em um último puxão, no exato  momento em que a espada de Sauron já estava iniciando a sua descida, a espada de Eönwë saiu da fenda no pilar, todavia Sauron havia se posicionado de forma a não permitir nenhuma manobra evasiva e tudo o que restou a ser feito foi usar a espada para tentar aparar o golpe.

No exato momento em que as duas lâminas se econtraram foi emitido um clarão tão poderoso que todo o Salão foi iluminado por um breve momento e a potência do golpe de Sauron fez com que a espada de Eönwë se partisse ao meio e sua lâmina esverdeada continuou descendo até ferir profundamente o ombro direito do Arauto de Manwë. A potência do golpe foi tão grande que, de fato, conseguiu fizer com que o pilar que sustentava Grond viesse abaixo, deixando Eönwë semi encoberto pelos destroços. Sauron sabia que esse era o momento de quebrar as correntes que prendiam Melkor e, ao ver que Eönwë ainda estava vivo, subiu a rampa que levava ao trono e com precisos golpes libertou das correntes aquele que havia passado toda a Segunda Era do Sol e mais todos os quase três mil anos da atual Terceira Era. No exato momento em que foram quebradas as correntes, todo o Vazio sofreu um enorme abalo e muitos de seus Salões ruiram e seus caminhos foram bloqueados e a Passagem sobre o Nada ruiu por completo, impossibilitando a travessia para qualquer lado.

Sauron se sentia exausto e se deixou cair sentado aos pés do grande trono enquanto observava seu senhor descer para recuperar seu poderoso martelo de guerra e sua Coroa de Ferro, com seus sinistros buracos onde, há muito, haviam sido incrustadas as Silmarils e que agora pareciam horrendas órbitas vazias. No momento em que Melkor se encaminhava para o topo da rampa para saber de Sauron o caminho para fora daquela prisão, Eönwë, que havia conseguido sair debaixo dos escombros, cambaleava em sua direção com o barço direito pendendo imóvel junto ao corpo e com o que restava de sua espada empunhada na mão esquerda, parou a alguns poucos metros de distância dele e lutou para se manter de pé e enfrentar sozinho o mais poderoso Vala.

A cena, por si só, teria sido cômica para Melkor, mas sua admiração por aquele Maia só fazia crescer desde quando ele havia cruzado a entrada daquele Salão, de sua extrema disposição para enfrentar Sauron em um combate desarmado e sua imensa força de vontade por tentar vencê-lo em uma batalha mental. Tal admiração fez com que Melkor realmente cogitasse em investir seu tempo na corrupção daquele esplêndido Maia e transformá-lo em um de seus mais poderosos servos, porém a visão de Eönwë parado a sua frente empunhando uma espada, ainda que quebrada ao meio, fez sua mente voar até Eras passadas e, por um breve momento, era Fingolfin quem estava ali em pé com sua espada o  desafiando e imediatamente se lembrou dos ferimentos que sofreu no combate com aquele Elfo quando sua perna começou a latejar onde havia sido atingido. Então, tomado por uma súbita e incontrolável ira, ergueu Grond acima de sua cabeça e o fez descer com toda a sua força sobre aquela visão do seu passado.

O golpe atingiu em cheio Eönwë que, ainda fraco e atordoado pelo esforço tremendo para sair debaixo dos escombros, não teve sequer forças para desviar e dessa forma o exército Valinor foi completamente derrotado e Melkor agora só precisava que Sauron lhe tirasse do Vazio para poder voltar a espalhar o terror pela Terra-média novamente. Com a força de seu golpe mais um tremor atingiu os Salões do Vazio e até os Portões da Noite estremeceram, tamanho foi o impacto causado, e o local onde estava o trono de Melkor se encheu de poeira. Levou um tempo até que tudo parasse de tremer e a poeira fosse dissipada e então Melkor, ainda com Grond enfiado na cratera aberta pelo golpe, se deu conta de que Fingolfin havia sido morto por ele naquele combate há Eras atrás e quem ele havia esmagado sobre seu poderoso martelo de guerra era Eönwë, o Maia que ele aprendeu a admirar e que havia realmente considerado a possibilidade de trazê-lo para o seu lado.

Tomado por uma súbita angústia e desespero jamais sentido, nem mesmo quando foi derrotado na Guerra da Ira e aprisionado naquele lugar, Melkor se ajoelhou ao lado da cratera e uma única e tímida lágrima escorreu pela face da mais poderosa criação de Eru. Sauron, da posição em que se eoncontrava, não pôde ver essa impensável demonstração de afeto de Melkor e acreditou que seu mestre havia se ajoelhado por ter esgotado desnecessariamente suas forças em um golpe brutal sobre um adversário que seria facilmente derrotado, desceu então até onde estava seu mestre e se sentou ao lado dele, porém sem ter percebido a lágrima que ainda estava no rosto do Vala, e começou a explicar o que havia em sua mente para poderem voltar às Esferas do Mundo.

No mesmo instante em que Melkor esmagou Eönwë com Grond, Manwë sentiu um imenso aperto no coração e ao olhar para Mandos teve a certeza de que havia perdido a última esperança de manter Melkor preso, mas muito mais do que isso, se sentiu culpado por ter deixado que aqueles Maiar fossem em uma missão que ele mesmo não se arriscou a ir e a mesma angústia sentida por Melkor nas profundezas do Vazio foi sentida por ele ao saber que havia perdido mais do que um arauto, havia perdido um grande amigo de Eras incontáveis.

Todos os Valar que viram Manwë angustiado daquela forma soubream que algo muito grave havia acontecido, porém Nienna, a Lamentadora foi a única a se afastar e ir se sentar sobre a colina onde Eönwë e seus companheiros costumavam passar horas a fio olhando para as Estrelas de Varda e lá ela soube, através de sua forte ligação com Mandos, seu irmão, que o arauto de Manwë havia sido morto. O lamento de Nienna foi tão profundo que suas lágrimas formaram um lago aos pés da colina e a partir de então todos os que olhassem em sua superfície eram tomados por uma profunda tristeza e ao mesmo tempo por um sentimento de coragem e amor às Estrelas, assim como Eönwë havia sentido, quando se deitava sobre as colinas a noite.

Manwë havia emitido ordens para que fossem colocadas todas as forças de Valinor a postos nos Portões de Noite, ainda que não fosse permitido a ninguém cruzar seus limites. Se Melkor havia conseguido ser libertado aquele seria o local que ele deveria utilizar como saída e a cada dia que se passava, os mais próximos da passagem aberta nos Portões da Noite podiam ouvir os lamentos de seus companheiros que se perderam nos corredores dos vastos Salões ou que haviam sido derrotados por Sauron, mas nenum deles era capaz de ouvir os lamentos do espírito de Eönwë e dos que haviam cruzado a Passagem sobre o Nada.

Após Melkor ter ouvido todo o plano de Sauron se colcaram em marcha para a Passagem sobre o Nada e após caminharem por muito tempo finalmente chegaram até a sua entrada porém, não puderam atravessar pois a ponte havia ruido com os tremores. Sabendo que essa era a única passagem para o outro lado do Vazio, Sauron se deseperou e teria entregado os pontos ali mesmo, porém Melkor, que aos poucos ia recuperando seus poderes e sua astúcia, se lembrou que a espada usada por Sauron para quebrar as suas correntes ainda estava encantada e que ela poderia ser utilizada em uma arriscada, porém necessária, tentativa. Assim sendo, Melkor e Sauron refizeram o caminho de volta para recuperarem a espada. Sauron seguia calado seu mestre enquanto esse parecia estar apenas concentrado na espada, em aumentar o poder do feitiço original de Sauron, e totalmente alheio ao caminho pelo qual seus pés os levava. Haviam entrado em um Salão que não possuia iluniação alguma e Sauron sentiu um tremendo desconforto por não poder enxergar além do pouco que a sinistra luz esverdeada que emanava da lâmina da espada permitia. Desse pouco que era iluminado Sauron apenas se concentrou em pisar nos mesmos lugares que Melkor porque ali dentro não havia um caminho visível sob os seus pés e ele temia acabar caindo em um abismo como o que ficava abaixo da ponte, para onde enviou seus inimigos. Com o passar do tempo Melkor foi dimuindo cada vez mais o seu passo e a luz esverdeada da lâmina foi sendo substituida aos poucos por uma tênue luz vermelha e quando essa nova luz assumiu toda lâmina da espada, Sauron sentiu que ela era bem mais forte do que a anterior, mas o Salão era tão vazio e escuro que nada era iluminado por ela, além dele e de seu mestre, que parecia agora estar muito mais cansado do que quando havia esmagado Eönwë.

Chegaram então a um ponto de onde Melkor não conseguia mais avançar e então Sauron soube que, enquanto ele pensava que estavam andando a esmo, Melkor não só se concentrava em aprimorar o feitiço da lâmina da espada, tranferindo para ela uma parte de todo o seu poder, como também gastou toda a sua energia restante na busca de um caminho que os conduzisse para as Paredes do Vazio. Ali permaneceram sentados por um longo tempo e Melkor explicou a Sauron que havia apenas uma pequena chance naquela tentativa de fuga do Vazio; mesmo que conseguissem passar pela Passagem sobre o Nada, e encontrar o caminho de volta para os Portões da Noite, os mesmos estariam fortemente vigiados e, uma vez do lado de fora, seriam apenas dois contra toda a hoste dos Valar, o que praticamente teria feito com que todo o esforço de Sauron desse em nada e ambos acabassem aprisionados para sempre no Vazio. Pensando em uma maneira alternativa para a sua fuga, Melkor se concentrou completamente no que havia antes sido o seu reino por Eras na Terra-média e ao descobrir qual seria o local que proporcionasse o caminho mais curto chegarem rapidamente em Angband, assim que saíssem dali, ele foi seguindo até parar na Parede do Vazio. Sauron descobriu então que, após ter sido preso, Melkor ainda não sabia que seu reino de Angband havia sido completamente destruído e afundado junto com quase toda Beleriand. No entanto, o que mais intrigava Sauron, era a capacidade de Melkor ainda sentir seu antigo reino e decidiu não dizer uma palavra sobre o acontecido e deixar que seu mestre descobrisse sozinho.

Melkor, julgando estar recuperado o suficiente, se ergueu e colocou-se na frente de onde estaria a Parede do Vazio. Ali ele começou a fazer pequenos gestos com as mão e recitar algo em uma linguagem que Sauron não conhecia, tão antiga quanto o próprio mundo, pois foi com ela que Melkor cantou perante Eru, junto aos outros Valar, no Ainulindalë. Sauron sabia que algo muito maior do que seu encantamento estava sendo preparado ali e silenciosamente se levantou e ficou afastado a uma distância que não atrapalhasse seu mestre. Após um tempo, Sauron viu surgir uma marca brilhante que ficou fixa na Parede do Vazio então Melkor veio até ele e, sem dizer palavra alguma, pegou a espada de suas mãos e se preparou para golpear a brilhante marca.

A explosão criada pelo choque da espada contra a Parede do Vazio foi tão grande que todo o Vazio pareceu vir abaixo e do outro lado dos Portões da Noite toda a hoste dos Valar sentiu o tremor sob os seus pés e de repente todos os lamentos que ouviam antes cessaram por completo e uma onda de choque seguiu os tremores e fez com que os próprios Portões da Noite fossem arrancados de seus lugares e a imensidão do Vazio foi vista pela primeira vez por muitos daquela hoste e Manwë e Mandos souberam que algo muito mais terrível do que a morte de Eönwë havia acontecido nas profundezas do Vazio e temeram pelo pior.

Aqui termina a primeira parte da história que conta como Sauron conseguiu invadir o Vazio e, após derrotar as forças enviadas por Manwë, libertar Melkor. Conta  também de como Melkor chorou pela primeira vez em sua existência ao esmagar Eönwë, arauto de Manwë e líder do exército de Valinor.