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[A Sra. Mitchison havia lido provas de páginas
dos primeiros dois volumes da trilogia do Senhor dos Anéis, e escreveu
a Tolkien com várias perguntas sobre o livro. A carta da leitora
perdeu-se, mas Tolkien tinha uma cópia da resposta enviada]
25 de abril de 1954
76 Sandfield Road, Headington, Oxford
Cara Sra. Mitchison,
Foi rude e ingrato de minha parte não ter acusado o recebimento, ou não
ter lhe agradecido pelas suas cartas, presentes, e lembranças
anteriores - ainda mais assim, uma vez que seu interesse, de fato, tem
sido para mim de grande consolo e encorajamento no desespero que
naturalmente acompanha os labores de publicar tal trabalho como O
Senhor dos Anéis. Mas o mais infortunado é que isto tenha coincidido
com um período de trabalhos excepcionalmente árduos e deveres em outras
funções, de forma que às vezes eu tenho estado quase que distraído.
Tentarei responder suas perguntas. Posso dizer que elas são muito
bem-vindas. Gosto das coisas desenvolvidas em detalhes, e de respostas
fornecidas a todas as perguntas razoáveis. Sua carta vai, eu espero, me
guiar em escolher o tipo de informação a ser fornecida (como prometido)
em um apêndice, e consolidar meu estilo com os editores. Uma vez que o
terceiro volume será bem mais fino que o segundo (os eventos se movem
mais rapidamente, e menos explicações são necessárias), haverá, eu
acredito uma certa parcela de espaço para tal assunto. Meu problema não
é a dificuldade de fornecê-lo, mas de escolher dentre todo o material
que eu já compus.
Existe é
claro um conflito entre técnica “literária", e a fascinação de elaborar
em detalhes uma Era mítica imaginária(mítica, não alegórica: minha
mente não trabalha alegoricamente). Como uma história, eu penso que
seja bom que houvesse muitas coisas inexplicadas (especialmente se uma
explicação de fato existe); e talvez tenha deste ponto de vista errado
em tentar explicar demais, e mostrar muita história passada. Por
exemplo, muitos leitores ficaram um tanto perdidos no Conselho de
Elrond. E até mesmo em uma Era mítica devem haver alguns enigmas, como
sempre há. Tom Bombadil é um (intencionalmente).
Mas como muita história adicional (voltada ao passado) como qualquer um
poderia desejar de fato existe no Silmarillion e histórias relacionadas
e poemas, compondo a História dos Eldar (Elfos). Eu acredito que no
caso (que espero que aconteça) de pessoas suficientes estarem
interessadas em O Senhor dos Anéis para pagar o custo de sua
publicação, os galantes editores possam considerar imprimir algo disso.
O Silmarillion foi escrito, de fato, em primeiro lugar, e eu desejava
ter a matéria emitida em ordem histórica, o que teria economizado muita
alusão e explicação no livro presente. Mas não consegui que fosse
aceito. O terceiro volume foi concluído, é claro, há anos atrás, até
onde o conto vai. Terminei tal revisão, como parecia necessário, e irá
ser montado quase imediatamente. Enquanto isso estou aplicando os
fragmentos de tempo que tenho para fazer versões comprimidas de tal
material histórico, etnográfico, e lingüístico para que possa entrar no
Apêndice. Se lhe interessar, eu lhe enviarei uma cópia (bastante
rústica) do material que lida com Idiomas (e Escrita), Povos e
Tradução.
A última tem exigido
muito raciocínio. Esta raramente parece ser considerada importante por
outros criadores de mundos imaginários, porém talentosos como
narradores (como Eddison). Entretanto sou um filólogo, e muito embora
devesse gostar de ser mais preciso em outros aspectos e características
culturais, isso não está dentro da minha competência. De qualquer
maneira “o idioma" é o mais importante, pois a história tem que ser
contada, e o diálogo conduzido em um idioma; mas o Inglês não pode ter
sido o idioma de quaisquer povos naquele tempo. O que eu tenho de fato
feito é comparar o Westron ou a amplamente propagada Língua Comum da
Terceira Era com o inglês; e traduzir tudo, inclusive nomes como O
Condado que estava no Westron em termos ingleses com alguma
diferenciação de estilo para representar diferenças dialetais. Idiomas
bastante diferentes da Língua Comum foram deixadas de lado. Com exceção
de alguns fragmentos da Fala Negra de Mordor, e alguns nomes e um grito
de batalha no Idioma dos Anões, esses são quase totalmente Élficos
(Eldarin).
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