Os alfabetos cientí­ficos de Tolkien

Desconfio que, para grande parte do público e da crítica menos entusiasmada com a obra tolkieniana, poucos elementos do trabalho do escritor são mais desprezivelmente nerds do que o uso de alfabetos especialmente criados para o mundo da Terra-média. Para essas pessoas, a única utilidade dessas construções elaboradas é enfeitar frontispícios de livros – ou se transformar em tatuagens nos ombros de fãs igualmente nerds.

Trata-se, no entanto, de um preconceito injusto. Tal como a invenção de idiomas ou a incorporação dos fragmentos do passado linguístico germânico, os vários alfabetos construídos por Tolkien, entre os quais se destacam a escrita cursiva tengwar e as várias formas do que podemos chamar de runas, são um reflexo da mentalidade essencialmente filológica e “científica” do autor. Não seria exagero demais afirmar aliás, que eles são, ao menos na concepção original, alfabetos “perfeitos” – os alfabetos que os fenícios criariam se tivessem conhecimentos modernos sobre fonologia.

É claro que, do ponto de vista mais pedestre, a explicação para isso é um no brainer, de tão simples: Tolkien era filólogo e não se sentiria à vontade criando alfabetos completamente assistemáticos e bagunçados. Mas, com seu olho costumeiro para o detalhe, o escritor conseguiu entretecer o conceito dentro da história ficcional de seu mundo. Afinal, os tengwar e as runas ou cirth teriam sido criados pelos elfos, com contribuição intelectual majoritária da etnia dos noldor, povo élfico cujo próprio nome quer dizer algo como “os que sabem”.

Os noldor são descritos como protocientistas, com um interesse especial em linguística o qual, de quebra, se fundia com elevada habilidade artística. Eram, numa palavra, filólogos criativos como Tolkien, e esse lado de sua personalidade “racial” inevitavelmente transparece nos sistemas de escrita que acabaram criando. O autor enfatiza até que a relação dos noldor com a língua que falavam estava longe de ser passiva: diferentemente da inovação linguística casual que domina os idiomas humanos, essa casta élfica tomou o processo nas próprias mãos, cultivando e aparando seu idioma como quem lida com um cultivar agrícola. 

(Aliás, as figuras filológicas que funcionam, de certa maneira, como alter ego de Tolkien no interior da obra são relativamente numerosas. É possível farejá-las em personagens tão diferentes quanto os elfos Rúmil e Fëanor em O silmarillion, o pedante coordenador das Casas de Cura de Gondor em O senhor dos anéis e o pároco que decifra “sinais epigráficos” numa espada em Mestre Gil de Ham, entre outros.)

Dito isso, o que fica claro ao analisar os tengwar e os cirth (estes originalmente criados por elfos sindar, moradores da Terra-média, diferentemente dos noldor) é a tentativa de basear os sistemas de escrita em leis fonéticas universais. Para se ter uma ideia, a forma original dos tengwar nem pode ser chamada de alfabética. O primeiro motivo é prosaico: ela empregava diacríticos, e não “letras completas”, para representar vogais.

O segundo, porém, é bem mais importante: mesmo as “consoantes” não tinham valor fixo, mas foram criadas para representar relações entre sons consonantais, de forma a facilitar seu emprego e sua adaptação à fonologia de qualquer idioma existente (ou concebível, caso os noldor resolvessem imitar seu criador e inventar novas línguas).
 Assim, explica Tolkien, as formas básicas de cada tengwa (singular de tengwar), compostas por telco (haste) e lúva (arco), em geral deveriam corresponder ao que chamamos de consoantes oclusivas surdas (t, p, k etc.).

Dobrar o arco equivalia a adicionar “voz” a essas oclusivas, transformando-as em sonoras (d, b, g), enquanto fazer subir a haste (normalmente voltada para baixo) faria essas consoantes ficarem aspiradas (th, ph, kh). Repare no extremo cuidado para que a relação “significante-significado” (se é que se pode usar essa expressão para falar de meros sinais consonantais) seja o menos arbitrária possível. Tolkien chega mesmo a dizer que, para os elfos, a única relação formal entre letras do alfabeto latino que pareceria fazer sentido seria a semelhança entre P e B, e que eles seriam incapazes de compreender a distância entre essas duas letras na ordem alfabética tradicional.

Quando as cirth são abordadas, fica claro que uma lógica semelhante criou a organização visual delas também – a única grande diferença é o fato de que, como as runas do nosso mundo, a aparência delas foi imaginada para facilitar a gravação em pedra ou madeira, ao contrário das tengwar, adequadas para a escrita cursiva com bico de pena.

É interessante perceber, no entanto, que as necessidades da transmissão cultural (afinal, de seu berço original entre os noldor e os sindar, tengwar e cirth ganharam Valinor e a Terra-média inteiras, sendo empregadas por humanos, hobbits, anões e até orcs) acabaram alterando impiedosamente os padrões elevados propostos pelos filólogos élficos. Com o passar do tempo, a tendência foi a solidificação de valores fixos para cada tengwa ou runa, independentemente das características fonológicas do idioma de interesse, e os que desejavam desenvolver uma escrita mais cursiva logo adaptaram letras menos usadas para representar vogais, num fenômeno não muito diferente do que a inovação grega realizou em relação à forma original do alfabeto fenício.

Talvez tenha sido uma decepção para os gênios élficos (embora não tenham chegado até nós invectivas deles contra as inovações). Mas, de novo, é exatamente o que esperar-se-ia que acontecesse, e o que de fato aconteceu, no processo de transmissão linguística do mundo real. Detalhes irrelevantes? Talvez, para aqueles que não percebem como esse detalhamento é crucial para construir o universo tolkieniano em toda a sua complexidade.