A Esquizofrenia da Modernidade

Há um personagem na saga de ”O Senhor dos Anéis” de J.R.R.Tolkien (publicada em 3 volumes durante os anos de 1954 e 1955) que simboliza cabalmente o dilema da alma humana quando confrontada entre o querer e o dever, considerado o primeiro como aquilo que é apetecido pela vontade e o segundo como aquilo que é visto como apropriado pela inteligência. Esse personagem se chama Sméagol ou, como passa a ser conhecido após se apoderar do Um Anel (ou Anel do Poder) e com ele destroçar sua vida, Gollum.

Para quem assistiu à versão cinematográfica da obra tolkieniana (filmes de 2001, 2002 e 2003), dirigida por Peter Jackson, a imagem é ainda mais viva, com a interpretação de Andy Serkis retratando excepcionalmente bem a esquizofrenia daquele que, interiormente, travava um duelo titânico entre o pacato Sméagol e o pervertido Gollum, cuja mente e coração estavam absolutamente dominados e possuídos por aquele objeto do desejo a que chamava simplesmente my precioussss…

Assim se desenvolve o diálogo interior, tão intenso que extravasa a mente e se exterioriza (com o lado caviloso sempre conspurcando o vernáculo), sendo observado por Sam Gamgi, conforme o descreve Tolkien:

“Gollun estava conversando consigo mesmo. Sméagol travava um debate com algum outro pensamento que usava a mesma voz, mas a fazia guinchar e chiar. Uma luz opaca e uma luz verde alternavam em seus olhos, conforme falava.

-Sméagol prometeu – disse o primeiro pensamento.

-Sim, sim, meu precioso – veio a resposta. – Nós prometemos: salvar nosso precioso, não deixar que Ele o tenha – nunca. Mas está indo para Ele, sim, mais próximo a cada passo. O que o hobbit vai fazer com Ele? Nós fica pensando, sim, nós fica.

-Não sei, Não posso fazer nada. O mestre está com Ele. Sméagol prometeu ajudar o mestre.

-Sim, sim, ajudar o mestre: o mestre do Precioso. Mas se nós fosse mestre, então nós poderia se salvar, sim, e ainda assim manter a promessa.

-Mas Sméagol disse que seria muito, muito bom. Hobbit bonzinho! Tirou a corda cruel da perna de Sméagol. Ele fala comigo com gentileza.

-Muito, muito bom, hein, meu precioso? Vamos ser bons, bons como peixes, minha doçura, para nós mesmo. Não machucar o hobbit bonzinho, claro que não, não.

-Mas o Precioso mantém a promessa – objetou a voz de Sméagol. Então pegue ele – disse a outra -, e vamos ter ele nós mesmo! Então vamos ser mestre, gollum! Fazer o outro hobbít, o hobbit mau e desconfiado, fazer ele rastejar, sim, Gollum!

-Mas não o hobbit bonzinho?

-Oh, não, não se isso não nos agrada. Mas ele é um Bolseiro, meu precioso, sim, um Bolseiro. Um Bolseíro roubou ele. Encontrou ele e não disse nada, nada. Nós odeia os Bolseiros.

-Não, não este Bolseiro.

-Sim, qualquer Bolseiro. Todas as pessoas que têm o Precioso. Precisamos tomar ele.

-Mas Ele vai ver, Ele vai saber. Vai tirá-lo de nós!

-Ele vê. Ele sabe. Ele nos escutou fazendo promessas bobas – contra as ordens d’Ele, sim. Precisamos ter ele. Os Espectros estão procurando. Precisamos pegá-lo.

-Não para Ele!

-Não, minha doçura. Veja bem, meu precioso: se nós o tivermos, então Poderemos escapar, até mesmo d’Ele, hein? Talvez nós fique muito forte, mais forte que os Espectros. Senhor Sméagol? Gollum, o Grande? O Gollum!

Comer peixe todo dia, três vezes por dia, peixes frescos do mar. Preciosíssimo Gollum! Nós quer ele, nós quer ele, nós quer ele!

-Mas tem eles dois. Eles vão acordar rápido demais e nos matar, choramingou Sméagol num último esforço. – Não agora. Ainda não.

-Nós quer ele! Mas – e aqui houve uma longa pausa, como se um novo pensamento tivesse acordado. – Não, ainda não, é? Ela pode ajudar. Ela pode, sim.

-Não, não! Desse jeito não! – gemeu Sméagol.

-Sim, nós quer ele! Nós quer ele! Cada vez que o segundo pensamento falava a mão comprida de Gollum se estendia lentamente, procurando Frodo, e depois era retirada de supetão, quando Sméagol falava de novo. Finalmente os dois braços, com longos dedos flexionados e crispados, buscaram o pescoço dele.

Sam estivera deitado e quieto, fascinado pelo debate, mas vigiando cada movimento que Gollum fazia, com os olhos semicerrados. Em sua mente simples, a fome comum, o desejo de comer hobbits, tinha parecido o principal perigo em Gollum. Percebia agora que não era assim: Gollum sentia o terrível apelo do Anel. O Senhor do Escuro era Ele, é claro; mas Sam não podia imaginar quem era Ela. Alguma das amizades repulsivas que o pequeno patife tinha feito em suas viagens, ele supunha. Depois esqueceu o assunto, pois estava claro que as coisas tinham ido longe demais, e estavam ficando perigosas” (J.R.R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, Martins Fontes – 2001 – São Paulo, Volume único, pgs. 665-666).

Na saga dos Anéis, a própria aquisição do Um Anel por Gollum é fruto da tentativa de justificação da injustiça, pois quando Déagol encontra o Um Anel no fundo do rio e o mostra para Sméagol, este, fascinado, reivindica a sua posse, pretendendo que o parente lho dê como “presente de aniversário”. E, pela posse do “presente”, acaba por estrangular seu amigo, vindo a se tornar, com o uso do anel que lhe dá invisibilidade e o leva a cometer seguidas felonias, a figura repulsiva nominada pelos seus soluços: Gollum.

Gollum pode ser colocado como exemplo emblemático da esquizofrenia do mundo moderno, dividido entre o coração e a cabeça, entre o tentador idealismo subjetivista e relativista (misto de sentimentalismo que tudo justifica e de racionalismo que tudo pretende explicar), e o duro e impactante realismo da objetividade (do mundo extra-mental, que está aí para ser compreendido e aceito, agrade-nos ou não).

O dilema que se coloca ao homem moderno na sua busca por conhecer e transformar o mundo em que vive não é diferente daquele estampado na esfinge egípcia: decifra-me ou devoro-te. Ou seja, uma concepção equivocada do mundo e do homem tem como funesta consequência o fracasso na vida pessoal e social: uma sociedade turbulenta, composta por homens angustiados.

Para Sócrates, o homem só erraria ou praticaria o mal por ignorância. O conhecimento do bem conduziria necessariamente o homem a buscá-lo (cfr. Giovanni Reale e Dario Antiseri, “História da Filosofia”, Paulinas – 1990 – São Paulo, pg. 89 do Volume I; Denis Huisman, “Dicionário dos Filósofos”, Martins Fontes – 2004 – São Paulo, pg. 937; Ives Gandra Martins Filho, “Manual Esquemático de História da Filosofia, LTr – 2004 – São Paulo, 3ª edição, pg. 30).

Foi preciso que Aristóteles mostrasse como muitos homens, mesmo conhecendo a realidade e o bem, não o buscam necessariamente, uma vez que possui uma capacidade cognoscitiva (inteligência) distinta da capacidade volitiva (vontade). Ou seja, mesmo vendo o bem de uma determinada conduta, o homem pode escolher com a vontade o contrário do que a inteligência lhe aponta como o bem a ser buscado no caso concreto (cfr. Reale & Antiseri, op. cit., pg. 207 do Volume I; Huisman, op. cit., pgs. 69-70; Martins Filho, op. cit., pg. 41). A criança birrenta é exemplo típico da vontade que não dá o braço a torcer, mesmo quando se dá conta de que, agindo assim, prejudica os próprios interesses. E não são só as crianças que se tornam birrentas…

Para compreender essa atitude, é preciso dissecar o funcionamento do espírito humano, em sua dupla vertente de inteligência e vontade: pela inteligência, conhecemos o mundo exterior em toda a sua variedade de seres, e, pela vontade, queremos alguns desses seres, apresentados pela inteligência como bens apetecíveis.

Portanto, antes de querer é preciso conhecer os bens que se nos apresentam. O ato cognitivo precede metafisicamente o ato volitivo: só podemos apetecer aquilo que antes conhecemos como um bem. Ou seja, a inteligência ”influencia” obviamente a vontade, apresentando a realidade de uma forma ou de outra, tal que se possa fazer a escolha entre os bens existentes e conhecidos. Essa é óbvia. O que não é tão óbvio e reconhecido é a ”influência” da vontade sobre a inteligência.

Com efeito, uma vez conhecido determinado bem como apetecível, o interesse da vontade por ele pode ser de tal intensidade que distorça a realidade conhecida, de modo a apresentá-lo como um bem e não como o mal que pode ser.

Para compreender essa situação é preciso fazer outra distinção, entre bem metafísico e bem moral. Do ponto de vista metafísico, tudo o que existe, pelo simples fato de existir, é bom, ou seja, apetecível pelo homem, capaz de atraí-lo. Já sob o ponto de vista moral, há bens que aperfeiçoam e bens que corrompem o homem. Cabe ao homem buscar o que o completa e rejeitar o que o avilta. E esses bens morais são objetivos, ou seja, fundados na natureza humana, comum a todos os homens de todos os tempos, captáveis pela razão através da observação empírica, que mostra como ao homem convém viver as virtudes da prudência, justiça, fortaleza e temperança, tradicionalmente denominadas como cardeais e que são capazes de o conduzir à tão almejada felicidade (a ética das virtudes, contraposta à ética dos deveres, será o tema de nosso próximo artigo).

Ora, a vontade de que a realidade seja tal como se quer pode influenciar de modo tão intenso a inteligência, que a pessoa passa a ver a realidade não como           a experiência sensível lhe mostra que é, mas como a vontade gostaria que fosse, o que resulta numa idealização da realidade.

O pai do idealismo é, sem dúvida, René Descartes, que, em seu “Discurso do Método”, pretendendo dar à filosofia o mesmo rigor e certeza das Ciências Exatas, passou a duvidar dos sentidos e buscar no próprio interior o início de todo o pensar (cfr. Reale & Antiseri, op. cit., pgs. 364-370 do Volume II;   Huisman, op. cit., pgs. 271-272; Martins Filho, op. cit., pgs. 149-150).

Ora, a partir de si mesmo é impossível construir a realidade exterior. E, no entanto, nessa opção intelectual seguiu também Emanuel Kant, sustentando que não seria nossa cabeça que deveria se adequar à realidade, mas a realidade a se amoldar à nossa inteligência.

O idealismo kantiano estampado em sua “Crítica da Razão Pura” desemboca inevitavelmente no relativismo moral calcado na “Crítica da Razão Prática”, onde o imperativo categórico que aponta para o dever moral de cada momento é algo absolutamente subjetivo, em que cada um erige para si e para os demais a norma moral que considera a mais adequada (cfr. Reale & Antiseri, op. cit., pgs. 874-878 do Volume II; Huisman, op. cit., pgs. 553-556; Martins Filho, op. cit., pgs. 205-217).

Esse relativismo absoluto – intelectual e moral – é bem retratado na peça “Copenhague” (1998), na qual Michael Frayn apresenta um diálogo emblemático entre os físicos Niels Bohr e Werner Heisenberg:

“Bohr: Ela (a mecânica quântica) funciona, sim. Mas isso não é o mais importante. Porque você vê o que fizemos nesses três anos, Heisenberg? Sem exagero, viramos o mundo pelo avesso. Sim, escute, é agora que vem a parte importante (…) Trouxemos o homem de volta ao centro do univero. Ao longo da história, vivemos nos achando deslocados. Vivemos nos exilando para aperiferia das coisas. Primeiro, nos transformamos num mero acessório dos propósitos incognoscíveis de Deus. Figuras minúsculas ajoelhando na grande catedral da criação. E assim que nos recuperamos, no Renascimento, assim que o homem se tornou, como anunciara Protágoras, a medida de todas as coisas, fomos jogados de novo para escanteio pelos produtos de nosso raciocínio! Somos de novo apequenados à medida que os físicos constroem as novas catedrais para contemplarmos as leis da mecânica clássica que nos antecedem desde o início da eternidade e que sobreviverão a nós até o fim da eternidade, que existem quer existamos ou não. Até chegarmos ao início do século XX, quando somos subitamente forçados a nos erguer de nossa posição ajoelhada.

Heisenberg: A coisa começa com Einstein.

Bohr: A coisa começa com Einstein. Ele mostra que a medição – a medição de que depende toda a possibilidade de ciência –, a medição não é um evento impessoal que ocorre com universalidade imparcial. É um ato humano, realizado de um ponto de vista específico no tempo e no espaço, do ponto de vista específico de um observador possível. Depois, aqui em Copenhague, naqueles três anos em meados da década de 1920, nós descobrimos que não existe um universo objetivo precisamente determinável. Que o universo só existe como uma série de aproximações. Só dentro dos limites determinados por nossa relação com ele. Só pela compreensão alojada dentro da cabeça humana” (Anchor Books – New York, pgs. 71-72, apud Rebecca Goldstein, “Incompletude”, Cia. das Letras – 2008 – São Paulo, pg. 32).

A soberba de Bohr (será que teria pensado assim?) estaria calcada na pretensa derrubada do “mito da objetividade” pelas Teorias da Relatividade (Especial e Geral) de Albert Einstein (os fenômenos ocorridos perto da velocidade da luz variam dependendo do referencial do observador, dada a deformação sofrida pelo espaço-tempo nessas condições), Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg (impossibilidade de determinação simultânea da massa e da velocidade de um corpo nas experiências de Física Atômica, uma vez que o observador acaba influenciando na experiência, com a emissão da onda de luz necessária para observar o fenômeno), e Teorema da Incompletude de Kurt Gödel (quanto mais abrangente for uma teoria, menos consistente se apresentará, e vice-versa, uma vez que a consistência de um sistema formal não pode ser provada dentro do sistema, remetendo necessariamente ao um elemento exógeno ao sistema).

Ora, tal generalização da teoria da relatividade e de suas co-irmãs, para se dizer, como se faz muito na atualidade, que “tudo é relativo” , é algo absolutamente estranho às conclusões ao menos de Einstein e Gödel. É o que procura demonstrar Rebecca Goldstein em seu já referido livro “Incompletude”, onde traça o perfil acadêmico e psicológico de Gödel e sua relação com Einstein.

Com efeito, o próprio Teorema da Incompletude é muito mais uma demonstração da fraqueza do idealismo e do subjetivismo do que de sua solidez, já que um sistema auto-referencial pode até parecer coerente internamente, mas não é capaz de explicar a realidade, já que despreza os dados que servem de comprovação de suas conclusões. Gödel, com seu teorema, deu um golpe mortal ao relativismo, quando demonstrou matematicamente que tais sistemas, além de tudo, não são coerentes: exatamente por quererem ser abrangentes, perdem sua consistência, desembocando em conclusões incongruentes e contraditórias.

Carlos Cardona, em seu “Metafisica de la Opción Intelectual” (Rialp – 1973 – Madrid), que sugestivamente deu título a este singelo artigo, procura demonstrar que a opção pela imanência, ou seja, por colocar o sujeito como referencial da verdade e do bem, e não a realidade extra-mental, não se baseia em dados da realidade que conduzam a essa conclusão, mas numa opção apriorista da vontade, que influencia a inteligência, a qual passa a ver apenas aquilo que a vontade lhe apresenta como bem, quando, ontologicamente, é a inteligência que efetivamente coloca diante da vontade os bens conhecidos, para que sejam escolhidos por ela.

Assim, à postura realista, característica da filosofia clássica, emblematicamente representada por Aristóteles, que coloca o início de toda a filosofia na admiração do mundo exterior, buscando compreendê-lo a partir da experiência sensível, contrapõe-se a postura imanentista, característica da filosofia moderna, paradigmaticamente representada por Descartes, que, desconfiando da experiência sensível, coloca na dúvida a gênese da filosofia, pretendendo construir toda a realidade a partir do auto-conhecimento! E não chega a lugar nenhum. Sua moral provisória, até que conseguisse construir todo o edifício da filosofia à luz de seu “penso, logo existo”, numa passou de provisória. E o homem tem necessidade de certezas e não de opiniões ou palpites, quando se trata de agir em busca daquilo que o poderá fazer, ou não, feliz.

Aristóteles, partindo da observação empírica da realidade e dos costumes das mais variadas comunidades humanas “gregas e bárbaras”, chegou a comportamentos reconhecidos de forma generalizada como bons e convenientes à vida social, estampados nas virtudes, que retratariam a retidão no agir, de acordo com a natureza racional do homem (cfr. “Ética a Nicômaco”, Edipro – 2002 – São Paulo, tradução de Edson Bini).

A esquizofrenia do mundo moderno está justamente em não mais “viver como pensa” (seguindo os ditames da razão, que aponta o melhor comportamento, após a observação da realidade e da natureza humana), mas em “pensar como vive” (adequando a visão da realidade ao interesse que se tem neste ou naquele bem concreto – um cargo, uma posição, uma mulher, uma propriedade – que, segundo a moral e até o direito, não lhe caberia).

E a salvação do mundo moderno – tanto sob o prisma psicológico quanto escatológico – está em não inverter a equação, caso haja a contradição entre vida e virtude, entre teoria e prática. Enquanto continuamos a ter como norte a moral objetiva, com sua distinção clara entre o certo e o errado, ainda podemos corrigir o rumo, ao descobrir que o caminho empreendido ao arrepio da conduta devida acabou por nos conduzir à infelicidade e à frustração. Mas no momento em que tentamos justificar nossas escolhas equivocadas, mudando aquilo que antes tínhamos como errado, nesse momento perdemos a bússola, e daí será quase impossível encontrar o caminho de volta.

Na Idade Média (que serve de pano de fundo para a saga tolkieniana), houve muita barbaridade (afinal, começou com as invasões bárbaras…), inclusive por parte daqueles que deveriam ser luz para a sociedade de seu tempo, mas, ao menos, não tentaram mudar a cosmologia ou a ética para as adaptarem a seus desvios morais. Reconheciam os homens e mulheres suas fraquezas e faziam suas penitências quando, arrependidos, descobriam a “canoa furada” na qual haviam embarcado.

Já o Mundo Moderno padece da falta de referenciais: perdeu a bússola. Todas as depravações comportamentais encontram algum defensor de plantão, que explica como, psicologicamente, o natural é agir assim ou assado. Nesse sentido, constitui um retrato de nossa época o conflito bem descrito por J. B. Torelló em seu “Psicanálise ou Confissão?” (Aster – 1967 – Coimbra): no caso de um católico, em vez de reconhecer singelamente as próprias faltas diante de um sacerdote e receber, pelo sacramento da penitência, a absolvição de seus pecados, procura um psiquiatra que, se seguir na linha freudiana, lhe dirá que “assuma” suas condutas desvirtuadas, e, para tanto, cobrando altos honorários, o que não ocorre com a confissão, que nada custa.

No campo da política e do direito é possível observar especialmente a falsidade de muitos discursos, onde a retórica é utilizada como meio de apresentar como justo e de interesse público aquilo que é meramente defesa do interesse próprio ou de um grupo. Quantas mordomias, explorações, injustiças e discriminações não se mantém à base de um discurso retórico, de cunho legalista ou judicial que procura sustentar o insustentável…

Em suma, a esquizofrenia gollumiana na vida pessoal e social pode e deve ser desfeita pela busca sincera da verdade e do bem, independentemente do interesse que se tenha. O segredo para decifrar a esfinge e cortar uma das cabeças da Hidra bicéfala da esquizofrenia é optar pelos fatos frente aos argumentos e pela razão frente ao interesse, reconhecendo humildemente que a realidade não é aquilo que queremos, mas aquilo que é.

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