A Solidão intransponí­vel

Creio eu que um dos aspectos mais importantes da vida de qualquer pessoa seja a forma como ela lida com os momentos de solidão. Estar sozinho não é apenas estar afastado das pessoas, isolado. É antes de tudo um estado de espírito incrivelmente cruel. É saber que naquele exato momento você tem um dever tão importante e único e que muitas coisas dependem de você. Embora possa receber ajuda de algumas pessoas que aliviam temporariamente este peso, o fardo está nas suas próprias mãos.

Impossível discorrer sobre isso sem pensar em Frodo e sua jornada rumo à Mordor. Impossível não pensar no pobre Bilbo assustado tendo que encarar Smaug à espreita no interior de Erebor. Impossível não pensar que daqui a exatos sete meses, estarei embarcando rumo à Wellington para tentar conseguir um papel num dos grandes filmes da atualidade. E sinto a mesma solidão e o mesmo peso. Não pelo fato de ir sozinho mas pelo fato de não me sentir completamente preparado. Pelo fato dessa ida gerar expectativas não apenas minhas mas de muita gente que torce por mim. Depois da resposta extremamente delicada e favorável que recebi por e-mail, houve um grande período de agitação em minha vida. Chorei, fiquei feliz, comemorei, pulei, gritei. Meu objetivo maior havia sido alcançado. Eu consegui chamar a atenção de quem eu queria. Mas havia a necessidade de um planejamento. Não me prometeram nada, apenas que eu seria levado em consideração no processo de escalação do elenco. Mas isso mexeu demais comigo. Mudei minha vida completamente para me focar nesta viagem. Mudei de cidade, de emprego, me afastei de pessoas que eu amo, comecei a me focar nos meus objetivos. Digamos que simplesmente eu resolvi assumir o caminho que me foi estabelecido e o momento dos grandes acontecimentos se aproxima. Isso é cada dia mais assustador.

Estes dias eu estava relendo o primeiro capítulo de “O Senhor dos Anéis” e enquanto a festa de Bilbo era preparada o Condado se agitava cada vez mais. Os hobbits fofocavam sobre a morte dos pais de Frodo oferecendo diversas versões do ocorrido, todavia sem chegar a grandes conclusões. Posso dizer que me identifico plenamente com essa parte do livro pois nasci e cresci em um lugar assim. Morei até os dezessete anos em Caçapava e posso afirmar que lá você é definido pela família na qual você nasce e todos já sabem mais ou menos o destino que está traçado para você. Se seu pai tem uma loja de móveis é meio lógico que você seguirá o mesmo caminho. O máximo que vai fazer é comprar um carro, uma casa, casar, ter filhos e morrer. A fofoca corre solta e os poucos que não querem se submeter a estes padrões são considerados estranhos, esquisitos. Pra que sonhar com outras coisas quando aquela vida pacata satisfaz a maioria das pessoas?

Não critico esse modo de viver, pelo contrário, hoje acredito que realmente existam pessoas que são felizes deste jeito. Mas eu sempre fui um dos estranhos. Aquele que olhava os filmes e pensava: “Quero estar lá”. Aquele que era comentado por todos por não ir aos bailinhos do clube da cidade, por não ter uma galerinha animada que sai pra beber todo final de semana. Sempre fui muito sozinho, confesso. E isso nunca me incomodou de fato. Até agora. Mas preciso aproveitar a chance que me foi dada.

Lembro de assistir aos extras da versão estendida dos filmes, e o Peter Jackson dizia emocionado que muita gente ficou sozinha durante as filmagens de “O Senhor dos Anéis” pois os cônjuges, os familiares das pessoas envolvidas não entendiam aquela dedicação toda. Os envolvidos mergulharam a tal ponto no trabalho de contar aquela história que centenas de relacionamentos ruíram. Casamentos acabaram, amizades se romperam, famílias se desfizeram.

Minha vida ano passado era completamente diferente do que é hoje. Isso posso afirmar com certeza. Tive que deixar muita coisa que trabalhei por anos a fio pra me concentrar no que realmente quero, meu projeto de mestrado, por exemplo. Muita gente reclama que às vezes não tem clareza em definir um caminho. Que não sabe o que quer fazer da vida e isso gera insegurança. Mas digo com toda a certeza do mundo, que quando seu caminho se abre perante você de uma forma tão clara, e você toma consciência de tudo que terá que trilhar, é muito mais aterrador. Você é obrigado a reconhecer que às vezes as coisas que você mais ama no mundo terão que ficar para trás, senão seriam apenas um peso no seu caminhar. E isso é duro de admitir. Sempre me pergunto: “Você está disposto a pagar o preço?” E a resposta vem de imediato. Sim, estou disposto. Mas essa solidão que sinto, essa solidão intransponível me acompanhará a cada passo da jornada, como acompanhou Frodo, Bilbo, Tolkien. Estou em boa companhia, então tenho que aprender a lidar com ela. Sete meses, e contando…

Comentários

  1. Nossa… Li esse texto acredito que logo que foi postado aqui… Não sei descrever como ele me fez sentir…
    Sei que lembro dele cada vez que alguém me tortura com pressão psicológica para continuar dançando, sofrendo, chorando, no meio de cobras…
    Acho que chegou meu ponto final. Posso ser acusada de desistente, medrosa… Até talvez seja… Mas me sinto vitoriosa, pois sei que suportei muito mais do que deveria ter suportado…

    Obrigada. Levo comigo semrpe estas tuas palavras.