Papagaios humanoides malignos

Rodrigo JaroszewskiDesesperado por um assunto decente para escrever aqui na coluna até este domingo, perguntei ao meu caro TT1 por MSN: “Cara, preciso de ajuda: o que tu gostaria de ver escrito na minha coluna?”

A resposta: “vixe”.

Um tempo depois ele deu uma resposta um pouco melhor. Disse que sentia falta de conclusões: A qual conclusão chegamos sobre as asas de balrog? Sobre Glorfindel de Gondolin vs. Glorfindel de Valfenda? Sobre a origem dos orcs?

Eu tenho certeza de que vocês têm mais dúvidas (sobre as quais vocês serão bonzinhos e escreverão nos comentários, né?), mas por enquanto eu vou responder exatamente sobre essas questões. Começando sobre Glorfindel:

O Glorfindel de Valfenda é o mesmo de Gondolin?

Sim, é o mesmo. Como pode ser lido neste texto, traduzido pelo Deriel, Tolkien escreveu dois textos sobre Glorfindel que o identificam dessa forma. Os textos em si têm o propósito de criar uma história convincente de como Glorfindel teria ressuscitado, sua vida até a volta à Terra-média e a data dessa volta. Esse texto está originalmente no volume XII da série History of Middle-earth, a partir da página 377.

Asas de Balrog

A pergunta que todos odeiam amar: os balrogs tinham ou não asas? Segundo Michael Martinez, ele próprio um defensor ávido dos balrogs com asa, uma outra pessoa que não compartilha sua visão dos demônios de poder escreveu a Christopher Tolkien perguntando em 1998 sobre as asas e as versões do texto sobre A Ponte de Khazad-dum. Esta seria a resposta:

Via de regra eu não recebi material tardio de Markette (sic) – as versões datilografadas dos textos feitas por meu pai – e nunca as vi em muitos casos… Portanto a versão datilografada final…de A Ponte de Khazad-dum…eu nunca vi. Eu presumo que foi lá que a menção das asas do Balrog se estendendo de parede a parede entraram.

Christopher então diz ao remetente que tente falar com o curador de Marquette para ver a versão datilografada, mas que seria complicado ter certeza da data em que foi escrita. Por fim, ele responde:

Eu mesmo nunca pensei que a segunda menção das asas do Balrog tinha qualquer significado diferente da primeira.

A primeira sendo (SdA:344, grifo meu):

O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas.

A conclusão? A pessoa mais qualificada no mundo para nos esclarecer essa questão não achou motivo nos textos do Professor para duvidar que a menção sobre as “asas” seja sobre algo além da sombra sobrenatural do Balrog.

Origem dos orcs

Essa sim é dose. Tolkien escreveu diversos textos sobre o assunto, e eles estão traduzidos aqui na Valinor: os textos VIII, IX e X do Mitos Transformados.

Como é dito nos textos, o VIII foi encontrado enrolado em um jornal de 1959 junto com outros textos escritos, assim como esse, em versos de papéis de 1955 do Merton College. Já IX não traz indicação de data e X foi encontrado enrolado em um jornal de 1960. Teoricamente estamos lidando com textos em ordem cronológica.

A razão de toda essa complicação por trás da origem dos orcs vem de uma equação teológica utilizada por Tolkien na Terra-média:

Livre-arbítrio + capacidade de fala = presença de alma.

Ademais, uma pergunta assombrava Tolkien: seria Morgoth poderoso o suficiente para transformar elfos “imortais” — cujo tempo de vida é o mesmo da existência do Planeta Terra — em orcs mortais e de vida curta até para os padrões humanos?

As teorias nesses textos são as seguintes:

Orcs como criaturas criadas por Morgoth:
A teoria no texto VIII bate de frente com aquela equação teológica que eu expliquei acima. A explicação de Tolkien é a de que Morgoth teria criado os orcs mais ou menos como Aule criou os anões, mas sem ter a sanção de Eru para dar-lhes livre-arbítrio, Morgoth teria de ter dissipado muito do seu próprio poder, transformando-os em bestas capazes de imitar a fala e de agir com um certo grau de independência. Basicamente eles seriam papagaios humanoides malignos.
Orcs como elfos corrompidos:
Essa teoria é constantemente rebatida por Tolkien pelo fato dos orcs não terem uma vida “imortal” igual à dos elfos, como é dito anteriormente. Mesmo assim, ela não pode ser descartada imediatamente, pois mesmo após Tolkien explorar outras teorias por páginas e páginas, ele volta a citar a teoria como provável.
Orcs como humanos corrompidos:
A teoria é explorada em X. O problema da teoria para Tolkien não era se Morgoth era capaz de corromper os humanos a um nível órquico, mas sim de como encaixar essa hipótese na cronologia dos eventos de Arda.

Eu acredito que a conclusão a que podemos chegar, baseados nesses textos, é a de que orcs são humanos corrompidos.

Além disso não causar qualquer problema no fator “fala = alma”, há alguns indicativos na fisiologia dos orcs que apoiam essa teoria:

  • eles não são imortais;
  • podem “acasalar” com humanos; e
  • eles contraem doenças.

Em todo o material que eu li até hoje eu não lembro de um que mencione que a população élfica sendo afetada pela Grande Praga de 1636, e estamos falando de uma praga que quase acabou com Gondor! De fato eu não lembro de qualquer relato de doença entre os elfos.

Por fim, há o fator comportamental. Tolkien fala em X como os humanos podem ser reduzido a um comportamento órquico em certas condições. Tolkien nota explicitamente em um dos textos que isto não ocorria com anões e elfos.

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