A "Comunhão dos Santos" na obra de J. R. R. Tolkien

Há uma verdade da fé católica que permeia toda a obra de J.R.R. Tolkien, talvez não percebida claramente pelos seus leitores cristãos, que é a “Comunhão dos Santos”.

Colin Duriez, em seu “J.R.R. Tolkien Handbook”, lembra:          “Tolkien is particularly concerned with time, and Christian apocalyptic. That is, his theme is to reveal the essencial meaning behind human history. Pre-eminently like the biblical Book of Revelation, he is concerned to bring hope and consolation in dark and difficult days” (Baker Books – 1992 – Michigan, pg. 59).

Com efeito, a realidade da “Comunhão dos Santos” é uma das verdades mais consoladoras da fé cristã: a realidade de que não estamos sós.

Impressiona verificar, especialmente nas obras “O Senhor dos Anéis” e “O Silmarillion”, como as vitórias e derrotas pessoais de muitos personagens são sentidas, à distância, pelos demais protagonistas das sagas, que se fortalecem ou se entristecem, sem motivo aparente, mas concomitantemente. Nota-se uma “comunicação invisível” ou “comunhão mística” entre os protagonistas da Guerra dos Anéis.

Essa ligação inexplicável que se capta entre as pessoas é reconhecida no “Credo”, que os católicos recitam todos os domingos na Missa, plasmada na expressão “Comunhão dos Santos”, como uma das verdades reveladas por Cristo e verbalizada por S. Paulo nos seguintes termos, ao falar do “Corpo Místico de Cristo”, ou seja, da união invisível e, por isso, misteriosa, que existe entre Cristo e todos os cristãos:

“Como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo Espírito. Assim o corpo não consiste em um só membro, mas em muitos. (…) Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele. Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros. (I Cor 12, 12-27) (grifos nossos).

S. Tomás de Aquino fala de forma concisa dessa realidade sobrenatural: “Uma vez que todos os crentes formam um só corpo, o bem de uns é comunicado aos outros” (“Expositio in Symbolum Apostolicum”, 10). Não é uma realidade meramente natural, uma vez que o fundamento está na união espiritual de todos os cristãos-membros com Cristo-Cabeça, por Quem nos vêm todas as graças, ou seja, as ajudas espirituais que iluminam a inteligência e movem a vontade para a prática do bem.

O Catecismo da Igreja Católica resume essa verdade da fé nos seguintes termos:

“Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo, dos que são peregrinos na terra, dos defuntos que estão terminando a sua purificação, dos bem-aventurados do céu, formando todos juntos uma só Igreja, e cremos que nesta comunhão o amor misericordioso de Deus e dos seus santos está à escuta das nossas orações” (n. 962).

Portanto, a realidade da “Comunhão dos Santos” é mais ampla do que se possa imaginar: abarca a Igreja Militante (os que ainda peregrinam pela Terra em busca de sua salvação), a Igreja Padecente (das almas que se encontram purificando no Purgatório) e a Igreja Triunfante (dos santos que já se encontram gozando da visão de Deus no Paraíso).

“La visión de Dios hará que el hombre se conozca mejor a sí mismo no sólo en su dimensión individual y particular, sino en cuanto unión con los demás a través de la comunión” (Blanca Castilla y Cortázar, “Comunión de Personas y Dualidad Varón-Mujer”, in “Estudios sobre el Catecismo de la Iglesia Católica”, Unión Editorial – 1996 – Madrid, pg. 191). Ou seja, a relação de cada um com a cabeça – Deus Pai Criador –, de verdadeira filiação, estabelece um laço de fraternidade não meramente retórica, mas palpavelmente sentida.

Ora, essa comunhão significa, fundamentalmente, um laço espiritual entre todos os cristãos em particular e entre todos os homens em geral, pela qual as orações e sacrifícios de uns lucram misteriosamente para todos aqueles para quem eles são dirigidos. Ou seja, mesmo isolado, o cristão sabe que conta com o apoio, as orações e os sacrifícios de todos os seus irmãos na fé, que lhe aumenta a graça santificante e o fortalece na refrega.

A idéia central da “Comunhão dos Santos”, que se percebe também na saga tolkiana, é a de que, na luta cósmica entre o Bem e o Mal, que se plasma na luta interior que cada um trava consigo mesmo para viver de acordo com a dignidade humana, nunca estamos sozinhos, mesmo que, fisicamente, possamos estar isolados.

Há uma relação misteriosa entre todos os seres, pela qual a vitória de um no caminho do Bem é um pouquinho a vitória de todos e a derrota de um é um pouquinho a derrota de todos.

Fazendo o paralelismo da “Comunhão dos Santos” com o “Senhor dos Anéis”, o diálogo entre Pippin e Beregond, enquanto visitam as muralhas de Gondor, ainda que longo, dá-nos uma primeira pista de que não se está sozinho na grande batalha da vida e que se sente a alegria ou tristeza no coração com a presença do Bem ou do Mal:

- Mas, se quer saber qual, na minha opinião, seria o motivo de os faróis se acenderem, foi a noticia que chegou ontem á noite de Lebennin. Há uma grande esquadra se aproximando da foz do Anduin, liderada pelos corsários de Umbar no sul. Já faz tempo que deixaram de temer o poder de Gondor, e se aliaram ao Inimigo, e agora desferem um pesado golpe a favor dele. Pois esse ataque retirará grande parte da ajuda que procurávamos conseguir de Lebennin e Belfalas, onde o povo é valente e numeroso. Mais que nunca voltamos nossos pensamentos para o norte e para Rohan, e estamos muito alegres por essa noticia de vitória que vocês trazem agora.

- E mesmo assim – ele parou e se levantou, olhando em volta, para o norte, o leste e o sul – os acontecimentos em Isengard devem nos advertir de que estamos presos numa grande rede e estratégia. Não é mais uma contenda nos vaus, atacando por Ithilien e por Anórien, com emboscadas e pilhagens. Esta é uma grande guerra planejada há muito tempo, e nela somos apenas uma peça, não importa o que o orgulho possa dizer. As coisas estão se movendo no extremo leste, além do Mar Interno, sabemos pelos relatos; e também no norte, na Floresta das Trevas e mais além; e ao sul em Harad. E agora todos os reinos deverão ser submetidos à prova, para resistir ou cair sob a Sombra.

- Apesar disso, Mestre Peregrin, temos esta honra: sempre fomos o alvo do maior ódio do Senhor do Escuro, pois esse ódio vem das profundezas do tempo, por sobre as profundidades do Mar. Aqui o golpe do martelo será mais forte. E por esse motivo Mithrandir veio até aqui com tanta pressa. Pois, se cairmos, quem resistirá? E, Mestre Peregrin, você tem alguma esperança de que possamos resistir?

Pippin não respondeu. Olhou as grandes muralhas, e as torres e as altivas bandeiras, e o sol no céu alto, e depois para a escuridão que se adensava no leste; pensou nos longos dedos daquela Sombra: os orcs das florestas e montanhas, a traição de Isengard, os pássaros de olhos malévolos, e os Cavaleiros Negros até mesmo nas alamedas do Condado – e pensou também no terror alado, os nazgúl. Estremeceu, e teve a impressão de que a esperança definhava. E naquele exato momento o sol, por um instante, vacilou e foi obscurecido, como se uma asa negra tivesse passado por ele. Quase inaudível ele teve a impressão de captar, alto e muito acima nos céus, um grito: fraco, mas de estremecer o coração, cruel e frio. Ficou branco e encolheu-se contra a muralha.

- Que foi isso? – perguntou Beregond. – Você também sentiu alguma coisa?

- Senti – murmurou Pippín. – É o sinal de nossa queda, e a sombra da destruição, um Cavaleiro Cruel dos ares.

- Sim, a sombra da destruição – disse Beregond. – Receio que Minas Tírith deva cair. A noite se aproxima. O próprio calor de meu sangue parece que me foi roubado. Por um tempo ficaram sentados juntos, cabisbaixos e calados. Então, de repente, Pippin ergueu os olhos e viu que o sol ainda estava brilhando e as bandeiras continuavam tremulando ao vento. Sacudiu o corpo.

- Passou – disse ele. – Não, meu coração ainda não vai se desesperar. Gandalf pereceu, retornou e está conosco. Podemos resistir, nem que seja numa só perna, ou até mesmo de joelhos.

- Muito bem dito! – exclamou Beregond, levantando-se e andando de um lado para o outro em largas passadas.

- Não, embora todas as coisas irremediavelmente devam chegar a um fim em determinada hora, Gondor ainda não perecerá. Nem mesmo se as muralhas forem tomadas por um inimigo impiedoso que construa uma parede de cadáveres diante delas. Ainda há outras fortalezas, e caminhos secretos de fuga para dentro das montanhas. A esperança e a memória ainda viverão em algum vale oculto, onde a relva é verde” (J.R.R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, Martins Fontes – 2001 – São Paulo, pgs. ) (grifos nossos).

No caso das forças do Mal, a relação de dependência fica ainda mais patente na passagem em que Sauron descobre, no último momento, a estratégia de seus inimigos:

“(…) De repente o Senhor do Escuro percebeu a presença do hobbit, e seu Olho, penetrando todas as sombras, atravessou a planície na direção da porta que ele fizera; e a magnitude de sua própria loucura revelou-se a ele num clarão cegante, e todas as estratégias de seus inimigos foram finalmente desnudadas diante de seus olhos. Então sua ira incandesceu-se numa chama devoradora, mas seu medo ergueu-se como uma vasta fumaça para sufocá-lo. Pois ele sabia do perigo mortal que estava correndo, e percebia o fio pelo qual estava agora pendurado seu destino.

De todas as suas estratégias e teias de medo e traição, de todos os seus estrategemas e suas guerras sua mente se libertou, e todo o seu reino foi atravessado por um temor, seus escravos vacilaram, seus exércitos pararam e seus capitães, subitamente sem liderança, desprovidos de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois foram esquecidos. Toda a mente e o propósito do Poder que os controlava concentravam-se agora com uma força arrasadora na Montanha. A um chamado seu, rodopiando com um grito lancinante, numa última corrida desesperada voaram, mais rápidos que os ventos, os nazgûl, os Espectros do Anel, e com uma tempestade de asas arremessaram-se em direção ao sul para a Montanha da Perdição” (J.R.R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, op. cit., pg. 1002) (grifos nossos).

Além da idéia da “comunhão invisível” que existia entre Sauron e seus comandados, essa passagem traz à reflexão (e que poderia ser objeto de um estudo exclusivo sobre ela) a necessidade de concentração no que é o principal. Quantas vezes gastamos nosso tempo e mente no supérfluo e esquecemos do necessário, do essencial para nossa vida (mas esta reflexão fica para um próximo artigo).

Como não lembrar, também, que a morte de Boromir é pressentida ao longe por seu pai Dénethor e seu irmão Faramir, conforme o relato que segue (com a devida vênia pela longa transcrição):

“Apesar disso, sentia em seu coração que Faramir, embora fosse muito semelhante ao irmão na aparência, era um homem menos arrogante, ao mesmo tempo mais austero e mais sábio.

— Recordo-me de que Boromir levava uma corneta — disse Frodo finalmente.

— Recorda-se bem, e como uma pessoa que esteve realmente com ele — disse Faramir. — Então talvez consiga ver com os olhos de sua mente: uma grande corneta, feita do chifre do boi selvagem do leste, adornada de prata, e com inscrições em caracteres antigos. Essa corneta os primogênitos de nossa casa carregaram por várias gerações; e afirma-se que se ela fosse tocada num momento de necessidade em qualquer lugar dentro das fronteiras de Gondor, como era o reinado antigamente, sua voz não passaria despercebida.

— Cinco dias antes de minha partida nesta jornada, há onze dias, por volta desta hora, ouvi o soar daquela corneta: parecia vir do norte, mas chegava fraco, como se fosse um eco na mente. Achamos que era um mau presságio, meu pai e eu, pois não tivéramos notícias de Boromir desde sua partida, e nenhuma sentinela em nossas fronteiras o tinha visto passar. E três noites depois uma outra coisa, ainda mais estranha, me aconteceu.

— Estava sentado á noite à beira do Anduin, na escuridão cinzenta sob uma pálida lua nova, observando a correnteza sempre em movimento, e ouvindo o farfalhar dos juncos tristonhos. Temos sempre o costume de vigiar as margens perto de Osgiliath, que nossos inimigos agora em parte detém, e através das quais enviam expedições para saquear nossas terras. Mas naquele dia o mundo todo adormeceu à meia-noite. Então eu vi, ou tive a impressão de ter visto, um barco flutuando na água, emitindo um vago brilho cinzento, um pequeno barco de formato esquisito com uma proa alta, e não havia ninguém para remar ou conduzi-lo.

— Fui tomado de espanto, pois uma luz pálida o envolvia. Mas levantei-me e me dirigi à margem, e comecei a caminhar para dentro da correnteza, pois me sentia atraído por ele. Então o barco se virou na minha direção, diminuindo de velocidade e flutuando lentamente até chegar ao alcance de minha mão, mas eu não ousei tocá-lo. Calava fundo, como se carregasse um grande peso, e conforme passou sob meu olhar tive a impressão de que estava quase totalmente repleto de água limpa, da qual emanava a luz; no seio da água, um guerreiro jazia dormindo.

— Havia uma espada quebrada sobre seu joelho. Vi muitos ferimentos em seu corpo. Era Boromir, meu irmão, morto. Reconheci seus indumentos, sua espada, seu amado rosto. De uma coisa apenas senti falta: a corneta. Uma coisa apenas não reconheci: um belo cinto, que parecia ser feito de folhas de ouro, cingindo-lhe a cintura. Boromir!, gritei eu. Onde está tua corneta? Aonde vais tu, ó Boromir? Mas ele se fora, O barco voltou a acompanhar a correnteza e desapareceu tremeluzindo noite adentro. Foi como um sonho, mas não foi um sonho, pois não houve despertar. E não tenho dúvidas de que ele está morto e passou descendo o Rio em direção ao Mar” (J. R. R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, op. cit., pgs. 700-701).

A realidade da “Comunhão dos Santos” tem também como derivativo a conclusão de que, pelo fato de ninguém estar nos vendo, não deixamos de estar obrigados a nos comportar bem, ou que o ato heróico que devamos praticar não mereça ser feito. Sam fala a respeito disso com Frodo, quando estão prestes a entrar no Reino de Mordor (mais uma vez, pedimos desculpas pela extensão da transcrição, mas que vale a pena relembrar):

-É, é isso mesmo – disse Sam. – E de modo algum estaríamos aqui se estivéssemos mais bem informados antes de partir. Mas suponho que seja sempre assim. Os feitos corajosos das velhas canções e histórias, Sr. Frodo: aventuras, como eu as costumava chamar. Costumava pensar que eram coisas à procura das quais as pessoas maravilhosas das histórias saiam, porque as queriam, porque eram excitantes e a vida era um pouco enfadonha, um tipo de esporte, como se poderia dizer. Mas não foi assim com as histórias que realmente importaram, ou aquelas que ficam na memória. As pessoas parecem ter sido simplesmente embarcadas nelas, geralmente – seus caminhos apontavam naquela direção, como se diz. Mas acho que eles tiveram um monte de oportunidades, como nós, de dar as costas, apenas não o fizeram. E, se tivessem feito, não saberíamos, porque eles seriam esquecidos. Ouvimos sobre aqueles que simplesmente continuaram – nem todos para chegar a um final feliz, veja bem; pelo menos não para chegar àquilo que as pessoas dentro de uma história, e não fora dela, chamam de final feliz. O senhor sabe, voltar para casa, descobrir que as coisas estão muito bem, embora não sejam exatamente iguais ao que eram – como aconteceu com o velho Sr. Bilbo. Mas essas não são sempre as melhores histórias de se escutar, embora possam ser as melhores histórias para se embarcar nelas! Em que tipo de história teremos caído?

-Também fico pensando – disse Frodo. – Mas não sei. E é assim que acontece com uma história de verdade. Pegue qualquer uma de que você goste. Você pode saber, ou supor, que tipo de história é, com final triste ou final feliz, mas as pessoas que fazem parte dela não sabem. E você não quer que elas saibam.

-Não, senhor, claro que não. Veja o caso de Beren: ele nunca pensou que ia pegar aquela Silmaril da Coroa de Ferro em Thangorodrim. E apesar disso ele conseguiu, e aquele lugar era pior e o perigo era mais negro que o nosso. Mas é uma longa história, é claro, e passa da alegria para a tristeza e além dela – e a Silmaril foi adiante e chegou a Eãrendil. E veja, senhor, eu nunca tinha pensado nisso antes! Nós temos – o senhor tem um pouco da luz dele naquela estrela de cristal que a Senhora lhe deu! Veja só, pensando assim, estamos ainda na mesma história! Ela está continuando. Será que as grandes histórias nunca terminam?

-Não, nunca terminam como histórias – disse Frodo. – Mas as pessoas nelas vêm e vão quando seu papel termina. Nosso papel vai terminar mais tarde – ou mais cedo.

-E então poderemos descansar e dormir um pouco – disse Sam. Sorriu de um modo sombrio. – E quero dizer exatamente isso, Sr. Frodo. Quero dizer um simples descanso comum, e sono, e acordar para uma manhã de trabalho no jardim. Receio que isso seja tudo que estou esperando todo o tempo. Todos os grandes planos importantes não são para pessoas como eu. Mesmo assim, fico imaginando se seremos colocados em canções e histórias. Estamos numa, é claro; mas quero dizer: transformados em palavras, o senhor sabe, contadas perto da lareira, ou lidas de grandes livros com letras pretas e vermelhas, anos e anos depois. E as pessoas vão dizer: “Vamos escutar sobre Frodo e o Anel!” E eles vão dizer: “Sim, essa é uma de minhas histórias favoritas. Frodo foi muito corajoso, nao foi, papai?” Sim, meu filho, o mais famoso dos hobbits, e isso significa muito.”

-Significa muito demais – disse Frodo e riu, um riso longo e claro, que vinha do fundo de seu coração. Um som assim não se ouvia naquelas partes desde que Sauron chegara à Terra-média. Sam de repente teve a impressão de que todas as pedras estavam escutando e todas as rochas se debruçavam sobre eles. Mas Frodo não deu atenção a elas e riu de novo.

– Olhe, Sam, ouvir você me faz rir como se a história já estivesse escrita. Mas você deixou de fora um dos principais personagens Samwíse, o bravo. “Quero ouvir mais sobre Sam, papai. Por que ele não falou mais coisas, papai? É disso que eu gosto. Acho engraçado. E Frodo não teria ido muito longe sem Sam, teria, papai?”

-Ora, Sr. Frodo – disse Sam -:” o senhor não devia caçoar. Eu estava falando sério.

-Eu também estava – disse Frodo. – Eu também estou. Estamos indo meio rápido demais. Você e eu, Sam, ainda estamos enfiados nos piores lugares da história, e é bem provável que alguns digam neste ponto: “Feche o livro, papai, não queremos ler mais nada.”

-Pode ser – disse Sam -:” mas eu não diria isso. Coisas feitas e terminadas, que já fazem parte das grandes histórias, são diferentes. Veja bem, até Gollum poderia ser bom numa história, melhor do que tê-lo ao seu lado, de qualquer forma. E houve um tempo em que ele mesmo gostava de histórias, por conta própria. Será que ele se considera o herói ou o vilão?

-Gollum! – chamou ele – Você gostaria de ser o herói ora, onde ele se meteu de novo?” (J. R. R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, op. cit., pgs. 750-7521).

Essa espécie de ligação mística entre todos os homens, pela qual uns influenciam a vida de outros, não só pelo exemplo, mas pelas próprias ações boas ou más, fazendo crescer ou diminuir o Bem no mundo, é lembrada em outra conhecida saga do século XX: “Guerra nas Estrelas”.

A percepção que Luke Skywalker, Darth Vader, Obi-Wan-Kenobi, Yoda e a Princesa Leia Organa, para citar apenas os principais personagens, têm do que está acontecendo com os demais, é atribuída à Força que os sustem, como o Deus que se confunde com a Natureza e a Energia do Universo, típica da visão panteísta spinoziana, assumida por Einstein.

Assim fala dela Stephen J. Sansweet: “The Force – both a natural and mystical presence, it is an energy field that suffuses and bindes the entire galaxy. The Force is generated by all living things, surrounding and penetrating them with its essence. Like most forms of energy, the Force can be manipulated, and it is knowledge and predisposition to do so that empowers the Jedi Knights, and the dark siders and Sith” ( “The Complet Star Wars Encyclopedia”, Ballantine Books – 2008 – New York).

Chame-se “Comunhão dos Santos”, “Força”, “Sexto Sentido”, o fato é que a comunicação de bens espirituais se mostra uma realidade percebida e decantada não apenas pela Fé Cristã, mas também por outras tradições. O importante é descobrir que, em nossas batalhas cotidianas em busca da construção de um mundo melhor, mais digno e solidário, não estamos sós, por mais que isso possa parecer. Nosso esforço, ainda que pareça inútil e estéril, tem uma importância capital, pelo suporte que dá, imperceptível talvez para nós, mas real, aos demais.

Esta perspectiva cristã da obra de Tolkien e que tanto me chamou a atenção ao ler seus livros não a encontrei na excelente obra “A Hidden Presence: The Catholic Imagination of J.R.R. Tolkien”, organizada por Ian Boyd e Stratford Caldecott (The Chesterton Press – 2003 – South Orange). Talvez não passe de uma intuição pessoal, mas não consigo deixar de pensar nela ao ler a Saga dos Anéis do Poder.

Para concluir, vêm bem a calhar alguns pontos do livro “Caminho” (Quadrante – São Paulo – 1999, 9ª edição) de São Josemaria Escrivá, que tratam dessa relação misteriosa entre todos os cristãos e que podem nos servir de estímulo e ânimo na luta cotidiana no cumprimento de nossos deveres profissionais, familiares e sociais, e de nossa missão na vida. Citemos apenas quatro:

544 Comunhão dos Santos. – Como dizer-te? – Sabes o que são as transfusões de sangue para o corpo? Pois assim vem a ser a Comunhão dos Santos para a alma.

A imagem é paradigmática. E mais. Usava S. Josemaria a figura dos “vasos comunicantes” da Física para explicar o fenômeno místico. O aumento de graça em um dos vasos, se fosse líquido, faria aumentar um pouco a graça em todos os demais, e vice-versa quanto à diminuição.

545 Vivei uma particular Comunhão dos Santos. E cada um sentirá, à hora da luta interior, e à hora do trabalho profissional, a alegria e a força de não estar só.

546 Filho: que bem viveste a Comunhão dos Santos quando me escrevias: “Ontem senti que o senhor pedia por mim”!

549 Terás mais facilidade em cumprir o teu dever, se pensares na ajuda que te prestam os teus irmãos e na que deixas de prestar-lhes se não és fiel.

Na verdade, essa perspectiva da inter-relação entre todos nós só se compreende melhor tendo em vista a existência de um “Plano Superior” que dirige os acontecimentos para um Fim, plano esse a que os cristãos chamamos “Providência”. Mas esse tema, ligado à Sinfonia Criadora proposta por Illúvatar no início do Mundo (cfr. J.R.R. Tolkien, “O Silmarillion”, Martins Fontes – 2001 – São Paulo, pgs. 4-7), será tema de nossa próxima reflexão nesta coluna.