Carta a Tolkien

Com o Ano Novo se aproximando é inevitável pensar em tudo o que aconteceu este ano e não vir à mente, de imediato, um julgamento de nossos atos. Será que realmente tudo o que fizemos valeu a pena? Escrevendo estes artigos e rememorando os últimos anos nos quais passei lutando contra as adversidades, e contra mim mesmo, imaginei o que eu escreveria ao Mestre Tolkien para me ajudar a fazer este balanço. Afinal, é o último artigo.

Primeiramente, eu diria a ele que agradeço imensamente por tudo o que ele escreveu. Cada palavra de cada parte de cada apêndice. Agradeceria por ter nos presenteado com uma obra densa e que conseguimos penetrar pois, antes de tudo, é humana e por isso funciona. Funciona nos livros, funciona nos filmes. E funciona na minha própria vida. Ah, as transformações que ocorreram em minha vida após o contato com suas obras. Uma delas bem aqui. Nunca sonhei que receberia algum convite para escrever artigos. E isso foi uma das coisas mais bacanas deste ano. De fato, em geral, não imagino como seria o chegar de um novo ano sem estar em contato com tudo o que provém de suas obras. Não consigo me imaginar como eu seria hoje se nunca houvesse conhecido seus livros.

Gostaria de agradecer não apenas por sua genialidade e criatividade, mas pelos sentimentos que sua própria história de vida suscita nas pessoas que a conhecem. Gostaria de agradecer sobretudo seu amor por Edith, sua eterna Luthien. De todas as histórias envolvendo a biografia do professor, creio que seja a mais tocante e duradoura em meu coração. E isso se reflete em todos seus escritos. O lutar por algo que vale realmente a pena. Mesmo que todo o entorno seja apenas escuridão, apenas treva densa. Em tempos como o nosso, no qual o cinismo, a crueldade, e a falta de amparo se abate sobre a maioria dos povos do globo, no qual a depressão se tornou um distúrbio quase epidêmico, mesmo com todo avanço tecnológico, a crise da mente e do coração humano se torna evidente. Poucas pessoas podem dizer abertamente que nunca experimentaram um mal estar súbito diante dessa modernidade desenfreada, da falta de consciência ou da crise dela. A maioria das pessoas se prende a questões como: “Quem sou e o que estou destinado a ser?” Mas raras pessoas desafiam o destino e lutam contra tudo em busca de algo impossível. Estes são meus verdadeiros heróis. E o professor é um grande herói a meu ver. Por vencer todas as suas adversidades de sua infância e conquistar de forma heróica o amor da mulher que ele amava intensamente. Ele deve ter se questionado se isso não seria impossível, mas escolheu tentar. Assim como os heróis de suas histórias, seus queridos hobbits que apesar de viverem em uma sociedade bucólica e avessa à aventuras, partem em jornadas grandiosas que até hoje, sensibilizam milhões de pessoas.

E é disso que o mundo está precisando, dessa fantasia que reflete o humano, que faz com que milhões de pessoas lotem os cinemas do mundo para assistirem o pequeno Frodo rumo á Montanha da Perdição. Não uma fuga da realidade, mas um espelho dela em proporções maiores. Ali, diante daquela tela, que muitos teóricos compreendem como uma “janela” e não à toa, estamos vivenciando e identificando os nossos próprios conflitos. Senão não teria sentido algum. É nossa mente, nossa experiência eu media nossos sentimentos, e não o contrário. E neste sentido, a adaptação da obra do professor foi um marco.

E foi assim, tendo contato com suas obras e desdobramentos que me tornei quem eu sou, e com muito orgulho. Foi assim que consegui superar grande parte da minha depressão adolescente. Ainda tenho episódios de depressão, mas basta eu ler um pedaço de qualquer livro ou ler a biografia de Tolkien que consigo me refazer. Agradeço pelas eternas lições que aprendi com seus pequeninos heróis e que vou levar para onde quer que eu vá. Dentro do meu coração.

Quem sabe, um dia, não tomamos um chá das cinco observando as praias brancas que nos chamam?

Atenciosamente,

Guilherme.