Ciência da Terra-média: Filologia élfica

"Nenhuma das ciências é mais orgulhosa, mais nobre ou mais polêmica do que a filologia, nem menos misericordiosa diante do erro." A frase é de Jakob Grimm (1785-1863), filólogo alemão (e um dos irmãos Grimm que compilaram contos de fadas, caso você esteja coçando a cabeça). E, fora algum exagero, ele está certíssimo: a filologia é, de fato, uma ciência. O que faz de Tolkien um cientista, senhoras e senhores.

 

O legal nesse caso é que o Professor não se contentou em deixar
separadinhos as suas duas áreas de interesse, a de cientista-filólogo e
a de escritor de ficção. Uma coisa inspirou a outra tão profundamente
que o resultado são as diversas línguas ficcionais da Terra-média, em
especial as línguas élficas. Qualquer um pode "inventar uma língua": o
difícil é fazer isso de forma que reproduza à perfeição o funcionamento
e a evolução das línguas reais, coisa que Tolkien foi magistral em
realizar.

Ciência (quase) exata
Mas, antes de ir adiante em mais este capítulo de "A Ciência da
Terra-média", é bom deixar claro o que a gente quer dizer com os
aspectos científicos da filologia. Tolkien era filólogo de profissão, e
essa disciplina (que hoje geralmente é igualada à lingüística histórica, embora esta última seja na verdade apenas uma parte da própria filologia)
envolve basicamente a história e a evolução dos idiomas do planeta.

Na verdade, a filologia serviu de inspiração até para métodos da
biologia evolutiva, por uma razão muito simples: ela lida com entidades
que se diversificam por meio de um processo de descendência com
modificação. Pense no nosso bom e velho português, por exemplo. Ele não
passa de latim mal falado, em certo sentido — assim como suas
línguas-irmãs, o espanhol, o italiano, o francês e o romeno (pra citar
só as principais), todas filhas de formas populares do latim trazidas
pelos legionários e burocratas do Império Romano.

Cada língua da família neolatina, como é chamada, diversificou-se de
forma distinta de acordo com a influência das línguas originais faladas
pelas populações conquistadas (os celtiberos, no caso dos portugueses)
e pelos povos que chegaram mais tarde (visigodos e árabes, no caso
luso, mais uma vez). Mas o importante aqui é que as modificações nunca
são aleatórias. Pelo contrário, elas acontecem de forma sistemática,
seguindo certas tendências e leis que funcionam de forma universal,
quase matemática.

Explicando melhor: é muitíssimo mais provável que uma palavra que
começa com "b" tenha essa consoante inicial transformada em "m", por
exemplo — ou em outra consoante que usa como ponto de articulação os
lábios (uma consoante labial, como se diz). É muito difícil que ela
simplesmente vire um "t", digamos. O aparelho fonador (basicamente o
aparelho da nossa boca e vias aéreas) é igual para todos os seres
humanos (e provavelmente para elfos, anões, orcs e hobbits também) e
funciona de acordo com leis parecidas, que podem ser resumidas, grosso
modo, numa espécie de lei do menor esforço.

Outro aspecto importante e universal da evolução lingüística é o grau
de resistência dos chamados "cognatos" – o vocabulário central dos
idiomas, que permanece o mesmo, descontadas as transformações
fonéticas, por até milhares de anos. É a força que faz com que em
português, italiano, e francês nós ainda usemos basicamente a mesma
palavra — "homem", "uomo" ou "homme" — para designar o mesmo
conceito. Ou conceitos parecidos — pode haver um deslocamento de
sentido, mas as palavras cognatas ficam dentro do mesmo campo
semântico.

Na boca dos elfos
Tolkien utilizou todos esses conceitos-chave da lingüística histórica
ao criar as línguas da Terra-média. É claro que ele tinha como
principal objetivo criar idiomas que o agradassem esteticamente,
levando em conta suas línguas reais favoritas — finlandês, galês,
latim, espanhol, italiano e grego, mais ou menos nessa ordem –, mas o
fato de seguir as leis naturais de evolução lingüística dão aos idiomas
tolkienianos um grau de "realidade" sem precedentes.

A comparação sistemática entre o quenya e o sindarin dá um ótimo
exemplo disso. A idéia é que as duas línguas élficas tinham um
ancestral comum mas divergiram por milhares de anos, de forma que o
quenya permaneceu altamente arcaico, enquanto o sindarin teve uma
evolução mais profunda e rápida. É muito parecido com algumas línguas
da família indo-européia (a que engloba quase todos os idiomas da
Europa, mais vários na Índia, Irã e outros pedaços da Ásia). Enquanto o
português e as outras línguas latinas se modernizaram muito, outras,
como o russo e o lituano, preservam uma gramática arcaizante, como a do
grego e do latim.

A transformação sistemática de sons de acordo com os mecanismos do
aparelho fonador humano (tá, élfico) aparece quando colocamos lado a
lado cognatos do quenya e do sindarin, como "alda" e "galadh" (árvore)
ou "rocco" e "roch" (cavalo). Repare principalmente nas consonantes
finais do sindarin: elas não passam de versões "aspiradas" (quer dizer,
basicamente a mesma consoante, com a adição de um sopro) do que se vê
em quenya. (Isso não quer dizer, porém, que o sindarin descende do
quenya; o que ocorre é que o quenya preservou características
primitivas da língua-mãe dos dois idiomas.)

Tolkien, como se sabe, apreciava profundamente as línguas célticas, em
especial o galês, e as diferenças entre quenya e sindarin também
refletem fatores observados por filólogos na evolução dos idiomas
célticos. Um deles é a separação entre línguas célticas do grupo "p" e
as do grupo "q" (fonemas "irmãos", originalmente). Como os elfos
chamavam a si mesmos em quenya? Ora, de Quendi, "os que falam". Já nos
portões de Moria nós vemos a palavra Pedo, "fale". Deu pra sacar a
diferença sistemática entre P e Q?

Até o método aparentemente louco do plural do sindarin tem base na
filologia. Se você sempre estranhou o fato do plural de Aran ser Erain
e o de Adan ser Edain em sindarin, pense um pouquinho: onde você já viu
algo parecido? Ora, em inglês, onde o plural de palavras como man é men
e de goose é geese. É um fenômeno conhecido como "mutação-i". É que,
tanto em inglês quanto em sindarin, o plural dessas palavras malucas
era originalmente feito com um -i no final. Esse -i, por sua vez,
influenciava as vogais antes dele, levando à alteração. Ele acabou
caindo, mas a mudança ficou, levando ao plural irregular.

Os exemplos, creio eu, são mais do que suficientes para mostrar o
realismo científico com que o mapa lingüístico da Terra-média foi
montado. No próximo "Ciência da Terra-média": olifantes!