Viagem de um Anão – Capí­tulo 2 – Chá de tí­lia e pão com mel

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Depois de um ou dois segundos calados Morit quebrou o silêncio:

-Bom então está pronto?

 

 

-Estou sim Morit… estou farto de estar nesta cidade de homens presunçosos. E no outro bairro é só má gente! Maldita a hora em que me mandaram para aqui. Bom o que interessa e que era suposto eu ter vindo apenas entregar uma carta do meu venerável rei Loirin, o loiro, ao rei dos homens do sul, Sarat, e já cá estou á quase dois anos! Bom eu vou buscar a carroça a casa do guarda Lorent, o único amigo que fiz nesta maldita cidade, trago-a até a entrada da rua e depois carrego com as coisas. Lembre-me de deixar a chave por cima da porta, para a senhoria a levar.

– Rarum, meu amigo, não seria melhor acalmar-se, comer qualquer coisa e beber um chá quente? É melhor acalmar-se, com tanto nervosismo não chegará as montanhas vermelhas sem alguns acontecimentos indesejáveis pelo meio.

– Bom… talvez tenha razão meu sábio amigo. Tenho saudades das montanhas. Como vão as coisas por lá?

– Sinceramente, meu amigo, vão mal. Os seus compatriotas anões por 5 vezes, este ano, tiveram de se refugiar nos subterrâneos Vermgus. Mas as suas cidades continuam, seguras por enquanto.

É preciso descrever como eram as cidades dos anões. Ora estas eram apenas construídas nas zonas interiores das Montanhas vermelhas (e em tempos nos montes solitários que entretanto foram derrotados por inimigos cruéis). As que em tempos foram construídas nos montes externos são agora fortalezas contra os exércitos das ilhas negras.Ora estas cidades são construídas nas pequenas planícies (a maior, onde se situava Galit, a capital, tem apenas 4 km). No centro dessas planícies eram artificialmente elevados pequenos montes onde construíam o núcleo da cidade (palácio do senhor, mercado…), em volta as habitações e os pequenos comerciantes: ferreiros, mineiros, artesãos…) e por fim eram rodeadas por altíssimas muralhas cinzentas. Todas essas cidades eram construídas de forma circular, pois os anões diziam que em noites de lua cheia é a noite dos ferreiros, e os melhores ferreiros do mundo são, sem dúvida, os anões.

Ora Rarum pôs uma chaleira por cima da lareira e colocou lá as ervinhas da tília. Depois cortou duas fatias de pão, fininhas e barrou-as com bastante mel. Colocou cada uma no seu prato, entregou um a Morit e colocou o outro no colo, depois de se ter sentado novamente. Deu uma pequena dentada no pão e disse:

-Bom mas é lá que eu pertenço! Á minha querida terra. E se está em guerra eu combato. Antes de vir para esta maldita terra combati durante largos anos os Orcos de Itridin.

-Eu sei isso. Só estava a tentar avisá-lo de que os tempo por lá estão difíceis… as Ilhas Negras estão a ganhar terreno no reinos dos anões e na parte ocidental da floresta central. Apesar de esta parecer um sitio estranho devido as pessoas que de lá vêem parecerem sombrias isso não é assim: a grande floresta central só é estranha e perigosa num raio de cerca de 200 km a partir da ponte negra. De resto é o sítio mais seguro, neste momento, das terras do norte. Você devia ir para lá, olhe que as hostes de Itridin estão verdadeiramente evoluídas.

-Eu não tenho medo desse negro Feiticeiro, nem do seu negro bordão e muito menos dos seus negros emissários! Se ao menos as terras do sul não fossem inabitáveis (a não ser por homens primitivos, muito pouco evoluídos), e as terras tropicais não fossem atormentadas pelos furacões do verão eu iria para algum desses sítios… mas as terras do norte são as únicas habitáveis, neste milénio! Os tempos antigos passaram, e as terras longínquas do outro lado do mundo estão igualmente perdidas. Por isso eu digo que, contra os exércitos de das ilhas negras, estou tão seguro nas montanhas vermelhas como em qualquer parte da floresta central.

Nesse momento a água do chá começou a ferver e o som da chaleira a expelir vapor ecoou pela pequena sala e o anão correu para a lareira. Serviu duas chávenas de chá, entregou uma a Morit, e sentou-se com a outra na mão. Entretanto o pão com mel já tinha desaparecido e o prato já estava no chão.

Depois disse:

-Estou farto de pão, mel, chá de tília e tudo o mais que as pessoas desta estúpida cidade consideram “adorável” e “delicioso”. Um bom copo de vinho tinto das vinhas do norte, servido com um enorme prato de fatias de presunto, um bom queijo das montanhas e como sobremesa as mais diferente iguarias que os nossos admiráveis amigos Elfos nos fornecem são os melhores alimentos que alguém pode ingerir em todo o mundo! – parou durante uns segundos, enquanto dava um golo no chá quente, e prosseguiu – Maldita cidade “civilizada”! Irei para o norte sim, para defender o reino dos anões do poder de Itridin.

-Você decide, Rarum. Eu não o impeço de nada.

Vejo ser necessário contar quem é e o que fez Itridin. Ora no ano de 944 do 14º milénio, depois das guerras com os bárbaros das terras desconhecidas e de muitas outras guerras antigas, o poderoso feiticeiro Itridin foi encarregue de explorar as ilhas Aljin, no oeste das terras do norte (terras que na altura estavam a começar a ser habitadas, e as terras do sul, tal como as terras de Fultir, no outro lado do mundo, e as ilhas tropicais estavam
abandonadas). A travessia foi feita de barco, atravessando o estreito de Aljin, nas costas centrais do oeste das terras do norte. Itridin teve de fazer um desvio, depois de atravessar o estreito, ao longo da costa, para as praias do norte da Galdûr, a ilha principal, pois ate ai a costa era formada por gigantescas falésias de rocha cinzenta. Quando Itridin desembarcou, dirigiu-se para o centro de Galdûr. No caminho deparou-se com uma extensa e espessa floresta, com copas tão altas que tapavam a face do sol. O chão era coberto por raízes, mas graças a encantamentos Itridin conseguiu manter a sua rota em direcção ao centro da terrível ilha. Quando lá chegou encontrou uma grande rede de cavernas. Aí caminhou durante dias e dias ate que chegou a uma grande porta de ferro, prateado, com letras da língua antiga, que nem ele conseguia decifrar. Aí apenas conseguiu distinguir as duas palavras “Ortig sîn”, ou seja, caverna proibida, em língua antiga. Itridin tentou, de diversas formas (inclusive, com feitiços), abrir a grande porta, mas esta era protegida por algum tipo de feitiço antigo que ele desconhecia. Por fim Itridin desistiu e olhou fixamente para a porta, enquanto descansava sentado. De repente o seu bordão, que estava apoiado no chão, tremeu violentamente e caiu. Depois toda a sala começou a tremer e a porta cedeu. Um raio de sorte acabava de atingir Itridin. Quando o terramoto parou, Itridin correu para a sala de bordão apontado para a frente. O seu bordão (que era preto e com uma grande esfera vermelha) iluminou a sala com uma luz vermelha proveniente da sua esfera, e o que viu espantou-o por completo: uma estante cobria toda a parede, cheia de livros antigos, sobre as línguas perdidas, as lendas e mitos do mundo, todas as batalhas tinham um livro destinado a si, livros intermináveis sobre poções mágicas, fabrico de armas encantadas, livros de bordões mágicos, listas de todos os magos e feiticeiros do mundo e livros sobre… magia negra. No centro desse grande salão estava uma rocha cilíndrica com uma taça em cima que parecia ser de cristal mas totalmente negra. Itridin pensou no que deveria fazer e finalmente chegou a uma conclusão: iria levar a jarra para o exterior, pois não se atrevia a abri-la naquele lugar escuro, e voltaria acompanhado para levar os livros. E assim fez. Caminhou durante vários dias, com a pesada taça numa mão, e o bordão na outra mas graças a sua memória de feiticeiro consegui encontrar a saída.

Aí respirou durante largos segundos o ar fresco do exterior, mesmo que pesado devido á grande floresta. Depois pousou a grande taça numa pedra e ficou a olhar para ela durante uns minutos. A taça era realmente, toda de cristal e tinha duas asas, tinha cerca de cinquenta centímetros de altura e era toda negra. Era extremamente pesada, e isso Itridin já tinha percebido pois o seu braço terrivelmente dorido. Aproximou-se lentamente, colocou a mão na pequena esfera que ornamentava a tampa da taça e abriu-a. De repente um enorme impulso projectou-o para trás. Itridin rastejou até ao seu bordão, agarrou-o e virou-se novamente para a taça. Agora todo o mundo a sua volta era invadido por uma neblina de sombras. Itridin viu o poder das trevas invadirem-lhe a mente. Ele acabara de libertar o poder das trevas, de dentro da taça de Arnail. As sombras que os deuses élficos haviam aprisionado no inicio dos tempos. Itridin ouviu vozes na sua cabeça e foi corrompido. Passou-se para o mal naquele exacto momento. Depois voltou as cavernas. Durante dezenas de anos esteve lá, leu todos os livros da biblioteca, passeou-se pelas cavernas, ate as conhecer tão bem como a palma da sua mão. E lá cresceu em poder. Tornou-se no mais poderoso de todos os feiticeiros, e não haviam segredos na arte da magia para ele. Entretanto, os feiticeiros e magos começaram a estranhar a sua prolongada ausência. Então Vigil, o vigilante, foi enviado as ilhas negras para procurar Itridin. Encontrou-o nas cavernas. Itridin corrompeu Vigil e transformou-o no seu maior servo. Vigil foi enfeitiçado: seu corpo e suas vestes eram agora feitos de fogo e o seu bastão desfeito. Agora o primeiro senhor das trevas tinha um servo. Juntos criaram os orcos, óptimos arqueiros, fortíssimos, os Ogres, gigantes feios e verdes empunhando martelos enormes, e criaram Golin, o cavalo de Vigil, negro com crina, cauda e cascos de fogo. Depois construíram Ortig-sîn, uma grande cidade negra. Fortificaram as cavernas e transformaram-nas em negros recantos, onde os orcos e ogres criavam mas orcos e ogres. Por cima ergueram milhares de torres todas ligadas. Assim era Ortig-sîn, na ponta do negro desfiladeiro a que ele chamou “Montanhas Tar-Matir”. Depois queimaram toda a floresta, arrancaram as suas raízes. Descobriram que a floresta se estendia por toda a ilha de Galdûr e para além dela: também se estendia para Mortim, a segunda ilha. Depois das ilhas estarem transformada em terras de pó negro e estéril, Itridin mandou construir a fortaleza de Dol-Dilai, os portos de Argan, os portos de Escalera, a cidade de Silican, a ponte Galeer, a grande ponte Negra, rodeou Mortim e Galdûr de enormes muralhas ao longo da linha da costa e fortificou as pontes. Abriu as fendas de Escalera, gigantescas fendas no chão de onde ele subtraía a lava com que produzia o metal duríssimo com que fabricava as armas dos seus exércitos. Capturou cinco elfos que corrompeu e transformo nos formidáveis guerreiros Albidan, montados em cavalos negros. Depois de trezentos e cinquenta anos de evolução começou a guerra contra os anões e os elfos da grande floresta Central.

E assim se tem mantido há quatrocentos anos.

Bom voltemos a sala confortável de Rarum. Morit e o anão acabaram de beber o seu chá, e saíram de casa para ir buscar a carroça a casa do guarda Lorent.