O Indescrití­vel Terror Indefinitivo

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Vazio. Certamente essa é a palavra que mais tem me perseguido nesses
últimos dias. O total abandono de minha mente pelos outrora habituais
sussurros de inspiração me fez recorrer aos mais diversos métodos de
abastecimento criativo conhecidos por mim, na tentativa de podermos
iniciar logo nossa longa (assim espero) troca de idéias que teremos
daqui por diante.

 
Nessa Odisséia em busca de um primeiro tema para esta coluna, recorri a tudo que estava ao meu alcance: Desde as palavras de Tolkien, velhas e prestativas companheiras de meus anseios, até as místicas melodias metafísicas de Sgt. Peppers, Houses of the Holy e Nightfall in Middle Earth.Tudo isso no intuito único de encontrar ali o pote de ouro de minhas antigas idéias outrora tão vastas. Nada funcionou.

Na esperança de preencher a vastidão mental que se assolara sobre mim, resolvi então apelar ao mais transcendental dos métodos de inspiração existente, aquele em que tanto homens, elfos, hobbits ou antigos deuses recorrem, estejam eles no Olimpo, no Condado ou em Almaren: A bebida!

Hidromel com gelo e limão, Elixir de Cevada, Néctar de Cristal destilado, enfim, o esforço foi enorme, porém, em vão. O vazio de idéias insistia em permanecer no lugar de meu ofício de criação.

Foi então que tive uma óbvia revelação através dos sinais que me rodeavam: “ Se esse vazio insiste em permanecer é porque clama por atenção, portanto, vou escrever exatamente sobre esse vácuo que tem me perseguido.”

E eis que de um momento de iluminação, surgiu o tema desta primeira coluna: Bloqueio de Criatividade.

Com certeza, este é um mal que afeta todos os artistas em determinado momento de suas vidas criativas (alguns são afetados a vida inteira, vide Latino, Kelly Key, etc). É o que o poeta Samuel T. Coleridge  chamou um dia de "indescritível terror indefinitivo".

Passaram por esse bloqueio no mundo artístico, gênios como Rimbaud, Victor Hugo, Balzac, Beethoven, entre tantos outros que sofreram ou sofrem deste inferno mental disfarçado do mais gélido vazio.

Eu poderia ficar aqui enumerando os motivos pelos quais um artista chega a este estado de consciência, porém, os fatores variam de pessoa para pessoa, mente para mente. Tudo depende a meu ver das formas de concepções artísticas de cada indivíduo e da cobrança externa em relação a um resultado imediato de sua arte.

Em alguns artigos que li sobre o assunto, o grande ponto destacado é o hiato que o bloqueio criativo causa entre uma obra e outra. Porém, eu entendo que esse hiato é benéfico, se comparado ao principal estrago que a falta de criatividade pode trazer: a desastrosa construção da obra pela obra. Sim! A concepção de se criar algo simplesmente pela necessidade de se criar pode ser catastrófica quando o criador em questão passa por esse processo de bloqueio mental.

O caráter comercial que a arte assume nos dias de hoje e a padronização da indústria cultural acaba por favorecer à propagação desta falta de inspiração tão nítida hoje em dia nos produtos culturais que a mídia nos apresenta. Seja em programas televisivos sem o mínimo de conteúdo, canções pop com fórmulas repetidas a exaustão para vender mais, livros de fantasia genéricos e sem atrativos, enfim, é a escravidão da criatividade em prol da padronização dos estereótipos.

Esse vazio de concepções e novas abordagens faz com que muitas vezes os próprios artistas recorram à obras já feitas e como um dos exemplos maiores, posso citar a importância do que Tolkien criou e sua influência no mundo artístico atual.

Seja inspirando livros, filmes, músicas ou jogos, esse universo mitológico criado por J.R. tem sido amigo inseparável dos artistas contemporâneos que agradecem todos os dias pela infinidade criativa e possibilidades de exploração que a Terra Média e seus habitantes nos oferecem.

Se é saudável? Eu mesmo sou suspeito para dizer, pois sou um grande “beberrão” dessa fonte Tolkieniana inesgotável. Porém, na minha concepção, acredito que toda inspiração é bem vinda, desde que se crie algo novo e de qualidade a partir dela, e se propague a fonte criativa para que outros artistas e admiradores futuramente também possam se embriagar de suas águas (ou seria seu elixir?).

O que não é benéfico é a simples repetição de fórmulas já criadas, repetidas à exaustão, envoltas em versões distorcidas e genéricas, embaladas em algo convincente e pronto para consumo. Enfim, a propagação da obra pela obra, o estímulo ao bloqueio criativo através da cópia em detrimento da criação, deixando cada vez mais de lado a importância mística e quase transcendental de se conceber algo autêntico e honesto, se tornando um problema que atinge grande parte de nossos artistas contemporâneos, com os pés tão fincados no mundo real e sem tempo para o sempre inesgotável mundo da imaginação.

É nóis!!!

 
 
 
(Leko Löryen é Wesley Martins Soares, guitarrista da banda Lothlöryen e colunista da Valinor)