O verdadeiro problema com as traduções de O Senhor dos Anéis

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Quem ficou sabendo da abortada nova tradução de O Senhor dos Anéis (leia aqui, aqui e ouça o podcast) em geral ficou de cabelo arrepiado com coisas como “ananos” em vez de anões e “meões” em vez de Pequenos. São detalhes importantes, claro, mas gostaria de argumentar que o verdadeiro problema com as traduções brasileiras da Saga do Anel é outro. É estilístico, sutil, mas importante. A variedade lingüística da Terra-média é apagada.

Pareceu meio cifrado? Então peço que vocês leiam o ensaio abaixo, originalmente submetido por mim a uma disciplina do doutorado na USP. Os termos usados na tradução são essenciais, claro, mas mais complicado ainda é não seguir o estilo único de Tolkien para retratar a fala de cada grupo da Terra-média.

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O presente trabalho pretende abordar o uso de variantes lingüísticas diferentes para o registro oral de cada um dos grupos étnicos e culturais da Terra-média ficcional de Tolkien – e sua manifestação (ou, para ser mais preciso, a falta dela) nas traduções brasileiras de O senhor dos anéis. Pretendo demonstrar que a diversidade de modalidades lingüísticas no texto original de Tolkien, que é importante justamente como marcador da história prolongada e das diferentes culturas de seu mundo ficcional, é minimizada ou totalmente apagada nos textos traduzidos.

É difícil determinar com precisão as causas desse tipo de fenômeno, mas uma hipótese de trabalho razoável, aqui proposta, envolve dois fatores: o primeiro, e talvez menos importante, é a dificuldade de encontrar equivalentes viáveis para a oralidade do mundo de Tolkien; o segundo, e possivelmente determinante, tem a ver com as restrições impostas ao que é considerado “palatável” pelo mercado editorial numa tradução. Em outras palavras, desvios muito gritantes no que se considera a norma do português escrito, ainda que sob a justificativa de recriar de forma acurada o texto na língua de partida, acabam sendo barrados.
Para a presente análise, será utilizado o texto integral de O senhor dos anéis na edição inglesa em volume único de 1995, o qual será comparado com a presente edição brasileira em volume único, publicada em 2001 e traduzida por Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta, e uma nova tradução do livro, ainda inédita, a cargo de Waldéa Barcellos e Ronald Kyrmse. Como revisor técnico, tive acesso a cerca de dois terços dessa nova versão – certamente o suficiente para esse tipo de análise. A comparação, de qualquer maneira, deve se centrar na primeira tradução brasileira, com instâncias acessórias na segunda. Antes de chegar ao cotejamento e análise das traduções, no entanto, é importante esclarecer como se estrutura a diversidade lingüística e as expressões de oralidade dentro da ficção de Tolkien, e quais instâncias dela são especialmente interessantes para este trabalho.
Popular, dialetal, poético

Grosso modo, pode-se dizer que as variantes lingüísticas de Tolkien
se situam num continuum que vai de formas dialetais a mudanças de registro de fala (do informal para o altamente formal e poético). De uma forma ou de outra, todas incorporam elementos de oralidade, tais como pronúncia “desviante” do que poderíamos considerar a norma culta da língua inglesa, uso divergente de estruturas gramaticais (conjugação idiossincrática de verbos, dupla negação – normalmente barrada no inglês) e sintaxe que foge à ordem padronizada SVO (sujeito-verbo-objeto), a mais comum no idioma natal do escritor. Nesse último caso, inversões ou aparentes “truncamentos” da ordem SVO podem refletir tanto a fala “dialetal” e/ou popular quanto a intrusão da linguagem poética tradicional no discurso direto dos personagens.

Vale ressaltar que todas essas variações não são aleatórias, ou formas ahistóricas de diversidade lingüística. Pelo contrário: elas encarnam uma associação estreita com os diversos povos e culturas que habitam a Terra-média de Tolkien. Na verdade, a explicação para essas variedades lingüísticas é bastante elaborada e ocupa a metade do Apêndice F de O senhor dos anéis, levando o subtítulo On translation, ou Da tradução na versão do livro atualmente disponível no Brasil.
Explica-se: usando o artifício já consagrado da pseudotradução, o autor britânico apresenta seu livro como sendo, ele próprio, o texto traduzido e adaptado de um antigo manuscrito da Terra-média, o chamado Livro Vermelho do Marco Ocidental. Nesse caso, o inglês (e, nas nossas traduções, o português) de O senhor dos anéis estaria apenas representando o westron, ou Língua Geral, idioma que teria sido predominante no Ocidente da Terra-média na época em que a trama se passa.

Como é de conhecimento geral, Tolkien se deleitava com a criação de idiomas ficcionais, tendo arquitetado pelo menos dois deles (as chamadas “línguas élficas” conhecidas como quenya e sindarin) em grau de detalhe suficiente para que fãs da obra consigam compor poesias curtas ou textos simplificados em prosa com eles. O westron tem uma existência bem menos palpável – apenas algumas palavras nos foram legadas pelo autor. No entanto, a incorporação desse idioma à “ficção da tradução” tolkieniana forneceu os alicerces para explicar e historicizar a presença da diversidade lingüística na Terra-média.

É que, na história imaginada pelo autor, o westron é originalmente uma língua humana, falada pela etnia conquistadora dos numenoreanos, os quais fundaram reinos e entrepostos comerciais por todo o Ocidente da Terra-média. Nos cerca de 3.000 anos de história imaginária que antecedem a ação principal de O senhor dos anéis, o westron se tornou a língua franca de toda essa região, equivalente em área à Europa entre as Ilhas Britânicas e o estreito de Dardanelos. Inevitavelmente, porém, ao entrar em contato com os idiomas humanos e não-humanos anteriormente presentes nessa vasta região (já que a Terra-média também era habitada por uma série de espécies inteligentes distintas da nossa), o westron foi sendo modificado de forma desigual pelos diversos substratos lingüísticos, adquirindo tanto empréstimos “eruditos” das línguas élficas quanto variantes regionais “populares”.

Esse cenário ficcional cuidadosamente traçado é a desculpa perfeita para que Tolkien, filólogo de formação com grande interesse pelos dialetos regionais e pela toponímia de língua inglesa, incorpore elementos de oralidade “do mundo real” no discurso direto de seus personagens. Para ser mais específico, é possível notar duas influências filológicas na maneira como os personagens da Saga do Anel falam: o dialeto rural das Midlands Ocidentais, onde Tolkien passou a maior parte de sua infância; e a literatura em inglês antigo, ou anglo-saxão, representada por textos como o épico medieval Beowulf e objeto de grande parte do trabalho acadêmico do escritor na Universidade de Oxford.

A primeira influência é preponderante no que poderíamos chamar de representações da fala popular e/ou “desviante” do westron na obra, enquanto a segunda impacta de forma profunda os momentos em que, de improviso, especialmente em ocasiões solenes ou públicas, os personagens ecoam a(s) tradição(ões) poética(s) da Terra-média. Nesses casos, acontece até de o discurso direto em “prosa” corresponder diretamente à chamada rima aliterativa, a forma poética (não-rimada, apesar do nome um tanto enganador) predominante na Inglaterra durante o período anglo-saxão, do século VI ao XI.
Apesar da formalidade, trata-se também, poderíamos afirmar, de uma poesia de matiz “homérica”, fortemente baseada em elementos da cultura oral. Conforme mencionado acima, tanto os dialetos “populares” quanto as tradições “épicas” da Terra-média têm como ponto de contato o uso de uma ordem “afetiva” ou divergente dos elementos sintáticos.

Para a presente análise, os exemplos escolhidos representam as variantes culturais da Terra-média que mais trazem à tona esses elementos de oralidade, e que, coincidentemente, tendem a ser os mais negligenciados pelas traduções. Do lado das variantes dialetais, o exemplo mais marcante é o da fala “popular” dos hobbits, a mais marcada pelo contato de Tolkien com a oralidade das Midlands Ocidentais.

Não é à toa que o autor resolveu atribuir esses traços lingüísticos aos hobbits: na verdade, o “Povo Pequeno” da ficção tolkieniana habita uma versão idílica e romantizada da Inglaterra eduardiana, formada exclusivamente por pequenos vilarejos, bosques e fazendas – daí seu perfil de ingleses rurais. Alicerçando essas características em sua história ficcional, eis o que Tolkien diz: “Os hobbits (…) tinham nessa época adotado a Língua Geral havia provavelmente mil anos. Usavam-na a seu próprio modo, livre e descuidadamente, embora os mais eruditos entre eles ainda tivessem o domínio de uma língua mais formal, quando a ocasião a exigia. (…) A maioria dos hobbits, na verdade, falava um dialeto rústico, enquanto em Gondor e Rohan [reinos humanos] se usava uma linguagem mais arcaica, mais formal e mais concisa”.

E é justamente essa “linguagem mais arcaica, mais formal e mais
concisa”, marcada pela oralidade “poética”, que também é “diluída” na
tradução. Esse é um dos casos mais férteis para a análise que virá a
seguir, mas também é interessante mencionar outra variante com traços
de oralidade, desta vez envolvendo os orcs, criaturas pertencentes a
uma raça guerreira e destrutiva que funciona como tropa de choque e
bucha de canhão dos vilões de O senhor dos anéis. Os orcs apresentam
uma variante dialetal estranhamente “modernizada” e “militarizada”, a
qual, por isso mesmo, destoa dos demais falares da Terra-média.

Tolkien utiliza alguns procedimentos formais sutis, mas eficazes (a
elisão freqüente de pronomes, por exemplo, e um ritmo de fala em
staccato) para caracterizar a cultura orc, e esses traços, como nos
dois outros casos mencionados acima, também tendem a ficar borrados nos
textos traduzidos. A respeito dos orcs, o “tradutor-autor” Tolkien
escreve, ainda no Apêndice F: “Mas os orcs e os trolls falavam de
qualquer maneira, sem amor pelas palavras ou pelas coisas; e sua língua
na verdade era mais degradada e imunda do que a representei. Não acho
que alguém deseje uma descrição mais próxima, embora seja fácil
encontrar modelos. Em geral, pode-se ainda ouvir o mesmo tipo de fala
entre os que têm mentes de orcs; enfadonha e  repetitiva, cheia de ódio
e desprezo, há demasiado tempo afastada do bem para manter até mesmo o
vigor verbal, exceto aos ouvidos daqueles para quem somente o sórdido
soa vigoroso”.

Esses elementos serão analisados individualmente, a começar pelos
traços de oralidade na fala hobbit e sua reprodução (ou não) na língua
de chegada. Salvo quando indicado, todos os exemplos são de discurso
direto.

Hobbits: O discreto charme do campesinato

Tolkien usa uma série de procedimentos, que começam no nível da
pronúncia e escolha vocabular e “sobem” até o nível da sintaxe, para
caracterizar a fala dos hobbits. Não que, dentro da “etnia” (se é que a
palavra pode ser usada para designar tais personagens), não haja algum
grau de variação.

De fato, a classe alta hobbit também domina o westron “clássico” falado
por elfos e humanos de Gondor e Númenor. Mesmo assim, pode-se
considerar que o dialeto hobbit típico é marcado por um conjunto de
procedimentos lingüísticos “dialetais”, entre os quais podem ser
citados o uso freqüente da dupla negativa, “erros” de conjugação verbal
(trocando a primeira pela terceira pessoa do singular nos verbos
auxiliares ingleses, por exemplo), sinônimos “rústicos” para palavras
de uso comum, emprego freqüente de provérbios e expressões de sabedoria
popular e ritmo de fala que poderia ser descrito, de forma, admito, um
tanto impressionista, como “prosa de matuto”.

Os exemplos abaixo, espero, devem deixar mais claras essas
características. Eles serão seguidos das versões apresentadas pelas
duas traduções brasileiras.

A)A decent respectable hobbit was Mr. Drogo Baggins; there was never much to tell of him, till he was drownded.
Um hobbit decente e respeitável, o Sr. Drogo Bolseiro; nunca houve o que dizer dele, até que morreu afogado. (Edição de 2001)

Aqui, é interessante levar em conta dois detalhes. Para suavizar a
inversão (“Um hobbit decente e respeitável era o Sr. Drogo Baggins”,
literalmente), a tradução retira o verbo e insere a vírgula, uma
alteração sutil, mas significativa, no ritmo da frase. Além disso, o
original usa a forma não-padrão drownded (o “correto” seria drowned),
de forma que não há tentativa de reproduzir esse sabor dialetal na
língua de chegada.

B)Don’t go getting mixed in the business of your betters, or you’ll land in trouble too big for you, I says to him
Não
vá se misturar com os negócios que não são para o seu bico, ou você vai
arranjar problemas muito grandes para você, digo eu para ele. (Edição
de 2001)

Aqui, fica clara a preferência por uma forma que já está dentro da
“zona de conforto” idiomática do leitor (em vez de “os negócios dos
seus superiores/melhores”, usa-se “negócios que não são para o seu
bico”). Também não se tenta reproduzir o “erro de conjugação” de I says
to him.


C)Lor bless you, Mr. Gandalf, sir!
Abençoado seja, Sr. Gandalf, senhor! (Edição de 2001)

Embora a tradução reproduza com razoável grau de precisão o ritmo
desordenado e repetitivo da fala hobbit, é curiosa a hipercorreção de
“Abençoado seja” perto da corruptela Lor bless you do original.

D)I’d give a lot for half a dozen taters
Daria qualquer coisa por meia dúzia de batatas (Nova tradução)

De novo, faz-se presente a tentativa de “normalizar” a expressão
para algo facilmente reconhecível na língua de chegada (em vez de
“daria um bocado”, “daria um monte”, a preferência é por “daria
qualquer coisa”). Mais importante ainda, a palavra dialetal taters para
batatas é assimilada ao equivalente tradicional em português. No
entanto, essa assimilação desfaz o contraste com a palavra mais comum
em inglês (potatoes), a qual é utilizada de forma zombeteira logo
depois no texto.

Outros exemplos poderiam ser citados, mas o resultado líquido de
todos esses pequenos detalhes acaba sendo o de reduzir ou apagar as
diferenças entre a fala dos hobbits e a das demais culturas da
Terra-média, com um impacto indireto, mas significativo para o leitor
atento, sobre a ilusão de profundidade cultural que é um dos grandes
trunfos da narrativa de O senhor dos anéis.

Orcs: Escopetas verbais

Não é surpresa que uma raça criada por “engenharia genética mágica”
para servir exclusivamente como bucha de canhão militar use seu idioma
como uma espécie de alinhavado de despachos do front – e é exatamente
isso o que se verifica com os orcs na narrativa de O senhor dos anéis.
Concisão e brutalidade (embora não palavras de baixo calão) também
caracterizam a oralidade orc – é difícil que qualquer sentença se
espalhe por mais de cinco ou seis palavras.

Curiosamente, no entanto, esses detalhes são sistematicamente
suavizados pelas traduções brasileiras, conforme exemplificado abaixo.

A)How do you folk like being called swine?
Pessoal, o que vocês acham de ser chamados de porcos? (Nova tradução)

O uso da vírgula quebra a cadência direta da fala orc, e o vocativo
“pessoal” não tem a impessoalidade (sem trocadilho) e a conotação quase
enraivecida do monossílabo inglês folk. Teria sido melhor omitir a
palavra na língua de chegada, optando por um fraseado mais conciso.

B)Someone else will die too.
Outras pessoas morrerão também. (Nova tradução)

Coincidência ou não, o campo semântico de “pessoa” retorna aqui,
como na tradução anterior – o que parece um equívoco, mais uma vez,
porque o elemento central da frase é justamente sua impessoalidade –
“alguém mais vai morrer”. “Vai morrer”, aliás, talvez fizesse mais jus
ao ritmo do fraseado original, já que o inglês só possui a forma
composta, com verbo auxiliar, do futuro. Na boca de um orc, “morrerão”
soa educado demais.

C)What are they wanted for? Do they give good sport?
Querem os meões para quê? Para se divertir com eles? (Nova tradução)

Aqui, o texto na língua de chegada se rende à tentação de explicitar
o que está implícito no original (que usa um mero “eles”, referindo-se
aos “meões”, ou seja, os hobbits) e a reordenar a sintaxe bruta,
agreste do texto da língua de partida. “São/Dão diversão boa?” estaria
bem mais perto do “ritmo orc”.

D)They’re the apple of the Great Eye.
Eles são o xodó do Grande Olho. (Nova tradução)

Esse último exemplo é uma instância clássica de sair da frigideira e
cair no fogo. O trocadilho em inglês está suficientemente claro: o
Grande Olho (metonímia do vilão-mestre Sauron) tem como “menina dos
olhos” os personagens mencionados. Talvez para evitar a associação com
“meninas” de verdade, a tradução opta por “xodó”, cujas associações
semânticas “fofinhas” são tão ou mais impróprias.

Em conjunto, o discurso direto colocado na boca dos orcs é menos
“dialetal” que o dos hobbits, mas o emprego cuidadoso de vocabulário e
ritmo é capaz, ainda assim, de torná-lo distintivo quando comparado ao
dos demais povos da Terra-média. A suavização do falar orc na tradução
deixa essa distinção menos clara e contribui para diminuir a
complexidade lingüística e cultural de O senhor dos anéis.

A tradição épica oral da Terra-média

Do ponto de vista estilístico, a oralidade poética é talvez o
recurso mais interessante em O senhor dos anéis, com inspiração direta
na rima aliterativa anglo-saxã (empregada em épicos antigos como
Beowulf e, no século 20, recuperada por figuras como Ezra Pound e W.H.
Auden). Embora a tecnologia da escrita seja conhecida e empregada na
Terra-média de Tolkien, as culturas do continente ficcional ainda são
largamente orais, e o autor usa essa condição como um mecanismo para
inserir elementos da tradição poética germânica na maneira como os
personagens “de alta estirpe” dos reinos humanos de Gondor e Rohan
falam.

A sintaxe, nesse caso, é fortemente influenciada pela do inglês
antigo, mesmo em prosa. Como língua sintética, tal qual o latim ou o
grego, o inglês antigo possuía ordem sintática relativamente livre, mas
há uma preferência ligeiramente acentuada pela colocação do objeto
direto ou dos adjuntos no começo da frase. Também é freqüente o emprego
da aliteração nas sílabas tônicas das palavras, uma das características
definidoras da chamada rima aliterativa que parece “vazar” mesmo para
textos em prosa. Tanto em inglês quanto em português modernos, essas
características soam estranhas; o que as traduções fazem, em geral, é
suavizar essa estranheza, como demonstro nos exemplos a seguir.

A)Éowyn I am, Éomund’s daughter.
Sou Éowyn, filha de Éomund. (Tradução de 2001)

Esse exemplo é particularmente importante porque, falando “em prosa”
durante um momento crucial da narrativa, a personagem Éowyn emite dois
perfeitos hemistíquios, ou “meias-linhas”, em rima aliterativa
anglo-saxã. (A aliteração, no caso, é feita pelas duas vogais tônicas
na primeira metade da frase, anterior à cesura marcada pela vírgula, e
pela vogal tônica em “Éomund” na segunda metade da frase.)

Para ser mais preciso, a primeira metade da frase é um hemistíquio do
tipo E e a segunda é um hemistíquio do tipo A segundo os critérios da
rima aliterativa anglo-saxã.  O importante, para que a estrutura
poética permaneça, é que as aliterações permaneçam em posições
equivalentes, e em especial que a aliteração na segunda metade da frase
seja a primeira sílaba tônica dela. Ao não perceber esse detalhe, a
tradução joga por terra a estrutura de rima aliterativa da frase, além
de “normalizar” a sintaxe. Uma tradução que preservasse esses detalhes
teria de ser algo na linha “Éowyn eu sou, de Éomund filha”.

B)Vain was Gandalf’s trust in me.
A confiança que Gandalf depositou em mim foi em vão. (Tradução de 2001)

O caso é simples, mas interessante: “Vã foi a confiança de Gandalf
em mim” seria a tradução mais correta, literal e, por que não dizer,
até mais descomplicada de fazer. Ao colocar o predicativo do sujeito em
primeiro lugar, o fraseado emprestado do inglês antigo põe em relevo o
que realmente importa na frase. A tradução, no entanto, prefere deixar
a sintaxe menos estranha e ser mais explicativa.

C)Helm for Théoden King!
Helm pelo Rei Théoden! (Tradução de 2001)

O diabo está sempre nos detalhes. Em vez de optar pelo mais literal
e esquisito (tanto em português quanto em inglês moderno) “Théoden
Rei”, a tradução coloca as palavras na ordem esperada pelos nossos
ouvidos. No entanto, deixa de lado o fato de que, em inglês antigo, a
“ordem esperada” era justamente essa. A Crônica Anglo-Saxã, que relata
os feitos dos reis ingleses antes da conquista normanda da Inglaterra
em 1066, refere-se exatamente desse jeito aos soberanos: o Rei Alfredo,
o Grande é Aelfred cyning na Crônica. De certa forma, a referência ao
monarca é “des-historicizada” na língua de chegada.

D) Ere the fathers of our fathers rode into the Mark.
Antes que os pais dos nossos antepassados chegassem à Terra dos Cavaleiros. (Nova tradução)

O que aparece de forma mais saliente aqui é um certo grau de
intolerância  com a concretude e o caráter um tanto repetitivo da
“oralidade poética” em O senhor dos anéis. “Os pais de nossos pais”
obviamente não são os avós, e um leitor perceptivo e familiarizado com
esse tipo de linguagem não teria problemas em entender o contexto, mas
a tradução prefere explicar o máximo possível e opta por
“antepassados”.

Outro detalhe interessante é a transformação de Mark em “Terra dos
Cavaleiros”. A palavra Mark é empregada com freqüência por Tolkien, até
por ecoar a Mércia, região do centro-oeste da Inglaterra que englobava
as Midlands Ocidentais durante o período anglo-saxão. O significado
original é “região de fronteira”, mas a tradução opta mais pela clareza
do que pela expressão nuançada.

Conclusão

Espero que, tomados no conjunto, os exemplos citados acima falem por
si sós. O estereótipo da literatura de fantasia como mero “contar de
histórias” cai por terra quando se leva em conta a delicada estrutura
de diversidade cultural, apoiada basicamente em detalhes lingüísticos,
sobre a qual se ergue a narrativa de Tolkien. Os elementos de oralidade
e, por que não dizer, de tradição oral são fundamentais para que ela
funcione. Ignorá-los equivale a um empobrecimento da experiência do
leitor e da sua capacidade de apreender as conexões entre os andares
desse edifício literário.

Comentários

  1. Gostei muito do artigo. Deu até vontade de voltar para a USP e fazer mais umas disciplinas optativas.

    As explicações e as exemplificações foram muito esclarecedoras, mas foi a conclusão que me fez pensar mais. A tradução, ao meu ver, ter ignorado a linguagem em favor do entendimento reflete um pouco da cultura brasileira. Pensando nas editoras, acredito que elas acham que o leitor não vai ter capacidade para aguentar uma linguagem mais trabalhada, e, então, o livro não vai vender tão bem. Pensando na educação, percebi como a literatura mais parece uma disciplina para “inglês ver” e não tem o devido reconhecimento, nem como estudo nem como arte.

  2. Gostei muito do artigo. E quero usá-lo como referência em meu artigo de Pós graduação. Você me poderia passar seu nome e as referências para que eu possa colocá-lo no meu artigo?
    Obrigado.