O Livro Negro de Arda – Parte 2 Capí­tulo 8

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A Valinor/Lothlórien tem a honra de dar continuidade à publicação de O
Livro Negro de Arda, publicando o oitavo capítulo da segunda parte, chamado CÁLICE. Leia mais sobre esta obra aqui na Valinor e confira os demais capítulos já publicados, no índice da obra
 
 

PARTE SEGUNDA. MANDARAM ESQUECER
CÁLICE. ANOS 488-500 DO ACORDAR DOS ELFOS

Desde a partida de Artano, começaram a olhá-lo de um jeito estranho em Valinor, e muitos até o evitavam. Ele atribuía isso ao fato de que Aulë perdeu as boas graças do Rei do Mundo e dos Poderes, mas logo ele teve a chance de verificar que não é assim. Ao oferecer, mais uma vez, os serviços dele ao Ferreiro, ele ouviu um taciturno “Não”.

- Mas por quê, meu senhor?

- Quanto você, quanto aquele foram fundidos na mesma forma, – respondeu Aulë, sombrio.

Curumo não o compreendeu, mas não teve coragem de perguntar mais. Mas pensou e memorizou a resposta do senhor dele.

Um dia, ele percebeu um olhar hostil de Tulkas:

- Do que é que você precisa aqui?

Curumo fez uma elegante reverência:

- Eu fui enviado com um encargo do meu senhor Aulë, Poderoso…

- Então vá… – resmungou Tulkas. E, pelas costas, o Maia ouviu, – cria do Inimigo…

Curumo era inteligente – e não era difícil adivinhar a verdade.

“Então eu, tal como Aulendil, fui criado por Melkor. E eu sou o mais poderoso e o mais sábio entre os Maiar, como ele – entre os Valar… Mas claro! E agora os Valar simplesmente têm medo de mim. Até Tulkas. Servo de Aulë! Que título. O que me espera aqui? O destino de um serviçal? E lá? Claro, ele me receberá, como recebeu Artano…” Curumo fez uma careta de despeito. Artano. Rival.

“Mas não me consideram o mais hábil dos discípulos de Aulë? Obviamente, o poderoso Vala dará devido valor a isso. E então veremos. E, para que ele não duvide da minha devoção, eu lhe oferecerei uma grande oferenda, digna de um Senhor!”

- …O que faz aqui?

Curumo levantou-se num salto e curvou-se ao Ferreiro:

- Oh, meu senhor! Eu pensei em fazer um cálice para o Rei do Mundo…

- Por quê não me disse? – Aulë estava começando a se irritar.

- Ó Grande! Você revelou-me um abismo de sabedorias, e deu-me muitos conhecimentos. Mas eu duvidei, seria eu digno de ser servo de um Vala tão sábio… Portanto, se a minha criação for imperfeita, a culpa recairá somente sobre mim, um aluno pouco aplicado. E caso a minha oferenda seja digna do Rei do Mundo, falarão: quão grande é Aulë, se até o aprendiz dele, um servo, pode criar algo assim? E aumentará a sua fama, meu sábio senhor.

- Não é que você está certo?.. Bom, estou contente com você, e o seu plano me agrada. Pode continuar, – as palavras soavam como se o Ferreiro falasse contra a própria vontade.

Curumo fez uma segunda reverência:

- Agradeço-o, sábio. As suas palavras plantam esperança no meu coração. Sou insignificante demais para ajudá-lo nas suas obras; mas se a minha criação servir para a sua fama, não existirá um prêmio maior para mim…

Ele saiu de Valinor silenciosamente e sem ser percebido; e só tempos depois Aulë a ausência dele.

E Gorthaur encontrou-o no portão negro da fortaleza de Melkor. Ele não teve tempo de falar nada: Curumo pulou para abraçá-lo:

- Oh, meu irmão, como estou feliz por estarmos finalmente juntos!

- Mas… – Gorthaur estava perplexo.

- Leve-me ao Senhor, rápido!

Curumo seguia o Maia Escuro, que andava na frente:

- Quão destemido você é, meu irmão! Eu reverencio a sua coragem e a sua resolução; mesmo suportando todas as humilhações e o desprezo com quais eu fui cercado em Valinor, eu demorei em juntar coragem para seguí-lo…

Eles entraram na sala do trono, e Curumo, em lagrimas, atirou-se no chão, abraçando os joelhos de Melkor:

- Finalmente, meu senhor, finalmente eu vim até você!

Melkor olhava-o, chocado, e finalmente conseguiu pronunciar:

- Levante, o que deu em você? Como é pode humilhar-se assim?!

- Não há perdão para mim, Grande! Eu também estive com eles e servi aqueles que se atrevem a opor-se a você! Mas eu voltei a ver, eu compreendi toda a grandeza dos seus planos. O meu lugar é aqui, ao seu lado, meu senhor… Como estou feliz de ter alcançado, finalmente, a verdade!

- Levante-se, por favor…

- Não, Grande, eu sou o pó sob os seus pés, eu não mereço… Perdoar-me-á? – ele queria beijar a mão de Melkor, mas aquele, quase assustado, arrancou a mão, levantou-se e fez Curumo levantar-se do chão:

- Está bem, está bem, eu te perdôo, perdôo, se você precisa tanto disso…

- Agradeço-o, Grande… Será que você se rebaixará a ponto de aceitar a minha oferenda?

O cálice de ouro vermelho, todo enfeitado com esmeraldas e rubis, enrolado em fino ornamento de diamantes. O pé torcido envolto por uma fita de esmeraldas de quatro faces. Trabalho hábil… mas só de olhar – como é pesado… “Como vou levantá-lo?..” – pôde pensar Melkor.

- Somente você – o verdadeiro Senhor do Mundo – é digno de beber de um cálice assim.

- Senhor do Mundo?..

- Claro que sim, senhor! É engraçado ouvir como condecoram Manwë com o título de Rei de Arda. O poder dele não se estende para além dos limites de Valinor; realmente, somente você governa o mundo, meu senhor…

- Por quê me chama de senhor? -perguntou Melkor, finalmente vencendo a surpresa.

- Há outra forma? Tudo em Arda é obediente a sua vontade; nos somos somente os seus servos, incapazes de compreender a profundidade e a grandeza dos seus planos.

- Basta, – o Vala Escuro, resoluto, interrompeu o discurso de Curumo.

- Eu irritei-o, Grande? Imploro-o, perdoe o seu insignificante servo.

Curumo estendeu-se no chão perante o trono.

- Levante! Se quiser tornar-se meu discípulo, não se atreva a humilhar-se! Como pode me chamar de senhor? Aqui você não é servo – está livre!..

- Eu entendi, Grande, e que seja assim como você deseja. Mas conte-me – você aceita a minha oferenda? Não voltará as costas para mim?

- Não… Não… Fale-me somente, porque fez este cálice?

- Estou feliz em explicar-lhe, Grande… Perdoe se eu falar algo errado, pois ainda sei pouco, e não são muitos os conhecimentos que Aulë pôde me transmitir. Ouro é o metal dos senhores, por isso escolhi este material para a minha criação. Três pedras se combinam neste cálice: rubi – pedra do poder, esmeralda – que expulsa a tristeza e traz a alegria, e o diamante – sinal dos vencedores e guerreiros poderosos, semelhante a sua onipotente vontade, pois é indestrutível… Fale, Grande, será que eu errei?

- Não… Mas tudo o que disse é o olhar de um lado somente. Fale com o Artífice – ele explicará…

- Só uma coisa ainda me parece incompreensível, Artífice: eu não vi aqui nada feito de ouro. Ate as suas jóias são de outros metais. Por exemplo, esse seu anel; ele é belo, mas isso é aço? Pense – será que a beleza do anel não aumentaria se ele fosse de ouro?

- Eu entendo-o, Curumo. Mas o Mestre diz que o ouro é um metal pesado e arrogante, poucos possuem força suficiente para domá-lo e mudar a essência dele. Magos e aqueles que têm habilidades de cura preferem a prata, metal da Lua, que não suporta sangue, que dá o poder sobre a essência das coisas e sobre si mesmo. Prata é a sabedoria e a calma, e significa – equilíbrio.

- Isso eu entendo; mas – aço? Por acaso, ele não significa – o poder da força?

- Desculpe-me, mas novamente você olha só por um lado. Tudo depende daquelas mãos que tocam o aço. Aço é vontade e fidelidade; o aço é metal dos defensores e não fica abaixo da prata em nada. Mas, acima dos outros metais, nos apreciamos o ferro.

- Pode isso acontecer? Ferro é um metal rústico e rotineiro…

- E novamente, está certo somente em parte. Ferro é um metal antigo que guarda muitos grandes mistérios. Mas eles serão conhecidos somente por verdadeiramente sábios. O artífice deve possuir alta sabedoria e grande habilidade para trabalhar com o ferro. Esse metal possui uma vontade própria. Nos somente começamos a descobrir os segredos dele, e o Mestre, parece, sabe tudo… sabe, nas mãos dele o ferro canta…

- E o Gorthaur?

- Oh, foram-lhe reveladas muitas coisas. Ele é o primeiro dos discípulos de Melkor.

Curumo fez uma careta. A menção de Artano era desagradável. “Ouro é metal inferior? Como se eles entendessem muito de metais!”

- E as pedras? – perguntou ele em voz alta. “Pelo menos disso eu certamente sei tudo”.

- Você respondeu corretamente ao Mestre, mas… Olhe para este rubi: ele parece o fogo e o sangue ardente, mas ao mesmo tempo é frio como o gelo. A mesma dualidade – nas propriedades dele, e nas propriedades das outras pedras. Rubi – é sinal não somente do poder, mas também da desgraça, diamante – é também a pedra daqueles que curam, e o significado da esmeralda – beleza da natureza e amor do Universo. Você não sabia?

- Claro que sabia, mas…

Curumo não acabou a frase, mas, aparentemente, Geleon-Artífice nem esperava a continuação.

“Ele mesmo não quis explicar. Não se rebaixou. Mandou falar com este burro. Mas deixa. Ele logo compreenderá que eu sou digno de algo maior. Eu provarei…”

- Geleon!

- Sim, Mestre?

- Veja; esse cálice lhe agrada?

O Artífice pensou, e depois respondeu, sem muita certeza:

- Não sei, Mestre… Eu não vejo defeitos… Nunca vi um trabalho tão fino em ouro, e as pedras foram escolhidas com saber e habilidade… todas as proporções estão corretas, mas…

- Mas?

- Perdoe, Mestre, mas por alguma razão eu nem quero tocá-lo, – parecia que Geleon estava surpreso com as próprias palavras. – Quem fez isso?

- Meu… discípulo, – Melkor tropeçou nessa palavra. Devagar, levou o cálice até os lábios…

Ou o ouro vermelho é que pregou nele uma peça, ou isso era um eco daquilo que – será, mas por um instante pareceu-lhe – o cálice está cheio de sangue grosso até as bordas. Ilusão? Mas de onde, então, o gosto salgado nos lábios?..

Melkor atirou o pesado cálice para longe, com horror e repulsa. Este tiniu, rolando pelo soalho de pedra. Melkor fechou os olhos com a mão tremula.

- O que houve, Mestre?!

- Nada… nada… Pareceu-me que…

“Que oferenda é essa que você me trouxe, Curumo? De quem é o sangue neste cálice, de quem é o sangue que você me deu para beber? Isso é um sinal; um presente maldito – ver, sem saber, sem entender o que vê…”

O vinho derramado não lembrava mais sangue, e ele compreendia que foi apenas uma ilusão… mas – forte e nítida demais.