O Retorno da Sombra

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Fiz essa fanfic a partir da idéia que o MNeithan e o elsonluiz (do Fórum Valinor) me deram sobre um post meu no “E Se…” (uma seção do Fórum Valinor). Acho que já deve ter algum texto do próprio Tolkien com esse título, mas como eu não sou bom com essa coisa de título vou ficar com esse mesmo.

A minha intenção com esse texto é descrever os acontecimentos da maior ambição que Sauron poderia ter tido, se Tolkien tivesse se voltado para esse caminho em sua história. A história tem início junto com o começo da Segunda Era do Sol, quando os Povos Livres da Terra-média estão reconstruindo suas casas e vidas após a Guerra da Ira e se pensava que o Mal em toda a Terra-média havia sido derrotado para sempre.

 
 
DAS AMBIÇÕES DE SAURON

Durante toda a sua existência após o aprisionamento de Melkor, Sauron buscou o retorno de seu mestre e trabalhou incansavelmente em busca de uma solução para isso. Logo nos primeiros 15 anos da Segunda Era, Sauron se entregou completamente à arte da feitiçaria, e desenvolveu encantamentos diversos nas profundezas de seus esconderijos até decidir por se estabilizar em Mordor e continuar com a obra de Melkor.

Após várias tentativas sem sucesso para encontrar o encantamento exato, Sauron se viu forçado a buscar outras fontes de conhecimento, ao mesmo tempo em que ele via crescer a necessidade de aumentar o seu exército em resposta ao crescente poder dos Elfos. Foi em SE 1400 que ele se deparou com uma solução que resolveria seus dois problemas de uma só vez e essa solução estava nos próprios Elfos. Apesar de terem se passado muitas Eras desde a última vez em que Sauron havia usado uma forma bela aos olhos dos outros seres, ele ainda era capaz de se transformar, assim como todos os Maiar, em qualquer forma que achasse conveniente e, para a ocasião, escolheu uma bela forma Élfica e se apresentou como Annatar. Ao contrário de Elrond em Imladris que, alertado por seu dom da clarividência, desconfiou daquele Elfo e pediu que ele se fosse, Celebrimbor aceitou Annatar em Eregion e com o passar do tempo acabou por aceitar alguns dos conselhos dele, como por exempo, que se forjassem Anéis de Poder, que poderiam ser utilizados para auxiliar na cura dos estragos feitos no Mundo pela maldade de Melkor. Com esse plano em mente, Sauron conseguiu dar um importante passo em seu ambicioso plano, pois teve acesso a muitos dos conhecimentos que aqueles habilidosos Elfos haviam adquirido nas longas Eras que passaram nas Terras Imortais.

Por volta de SE 1500 os Gwaith-i-Mírdain, como eram chamados os Ferreiros Noldor de Eregion, liderados por Celebrimbor deram início, sob a velada supervisão ambiciosa de Annatar, à confecção dos 19 Anéis de Poder. A cada ano que se passava, Celebrimbor ficava mais satisfeito com o desempenho de seus comandados e Annatar cada vez mais se aproximava de seu objetivo, pois além de adquirir o máximo de conhecimento dos Noldor, ele também havia planejado usar desse conhecimento para fabricar o seu próprio Anel e com ele controlar e dominar todos os outros. Em SE 1590 Celebrimbor estava radiante com o resultado final de seus trabalhos, quando os 19 Anéis foram finalmente terminados e esperava a chegada de Annatar, que havia se ausentado meses antes sob o pretexto de investigar rumores sobre uma nova ameaça vinda do leste, para orgulhosamente lhe mostrar o fruto de seu trabalho em conjunto.

Porém, antes de os Gwaith-i-Mírdain entrarem na reta final de seu trabalho, Sauron já havia adquirido todo o conhecimento que achava necessário e, usando a oportunidade de se afastar por um tempo de Eregion sem levantar suspeitas, foi até Mordor para forjar para si, nos Fogos da Montanha da Perdição, o Um Anel e finalmente conseguir conjurar o seu poderoso encanto que iria libertar seu mestre da Prisão do Vazio. Ao terminar de conjurar o encanto, Sauron soube que aquela era a mais poderosa magia jamais utilizada em toda a existência de Arda, algo que superava em muito os Cinturões de Melian em Doriath durante a Primeira Era do Sol e de Galadriel, que ainda estava por ser feito, em Lothlórien durante a Segunda e Terceira Eras do Sol. Todavia, para ser realizada tão grande façanha era preciso um sacrifício enorme e, como Sauron era o único poderoso o suficiente para executar seu maquiavélico plano, ele lançou o encanto sobre si próprio. Na época o seu plano era o de dominar a maior parte da Terra-média possível e deixar seus mais poderosos servos no comando enquanto ele se sacrificaria e iniciaria a missão de resgatar Melkor de sua prisão no Vazio e com ele voltar para a Terra-média. Com o poder do Um Anel, Sauron restauraria a sua forma e ao lado de Melkor o Mundo se ajoelharia a seus pés.

Tão grande foi o seu êxtase ao finalmente conseguir fazer o encanto que Sauron se esqueceu de esconder o Um Anel e, ao retornar a Eregion, seu disfarce foi desmascarado por Celebrimbor, pois ao ver os Anéis de Poder prontos e ao alcance de suas ambiciosas mãos, o Um Anel o traiu e a imagem de Sauron se sobrepôs a de Annatar. A partir de então teve início a Guerra de Sauron e dos Elfos, na qual Sauron tentou por todas as maneiras possíveis se apoderar de todos os Anéis. As batalhas que se travaram devastaram toda Eriador e o avanço de Sauron só foi deitdo quando os Anões, vindo em auxílio dos Elfos, atacaram o flanco e a retaguarda dos exércitos de Sauron e este se viu obrigado a recuar, repensar a sua estratégia e, com o passar de alguns poucos anos praticamente chegar às portas dos Portos Cinzentos, obrigando os Elfos a pedirem ajuda ao Númenoreanos, que prontamente atenderam ao pedido e expulsaram o exército da Escuridão de volata para o Leste. Tão poderosos se mostraram os Homens do Ponente que, quando eles vieram anos mais tarde, até o Morannon, Sauron fez valer os seus anos de malícia ao lado de Melkor e se deixou ser capturado e levado para sua prisão em Númenor.

Esse aprisionamento nada mais foi do que um ato muito bem encenado por Sauron para, mais uma vez, atingir dois objetivos de uma só vez. O principal deles era fazer com que os povos da Terra-média acreditassem que ele havia sido vencido, o que lhes daria paz por um bom tempo para reconstruírem suas vidas e o segundo seria o de se aproveitar da imensa ganancia exibida por Ar-Pharazôn, último rei de Númenor, e seus cortesãos. Durante o tempo em que ficou preso em Númenor, Sauron conseguiu aos poucos envenenar a mente de Ar-Pharazôn e jogar os Númenoreanos contra os Elfos e contra os próprios Poderes de Arda, em um ato que culminou com a total destruição de Númenor e a quase aniquilação total de seus habitantes. Com a Queda de Númenor, Sauron ficou livre para voltar para a Terra-média, porém nunca mais foi capaz de assumir outra forma bela. Antes de tentar assumir sua última forma física, Sauron decidiu tentar colocar em prática o seu plano de resgate indo até os Portões do Vazio todavia, essa se mostrou uma jornada infrutífera, pois Sauron precisaria de seus poderes que ele havia passado para o Um Anel que ele havia escondido em Mordor antes de ser levado para Númenor, sendo assim obrigado a voltar para pegá-los. Quanto tempo essa viajem iria lhe custar ele não tinha como calcular antes de fazê-la e, ao chegar em Mordor, descobriu que havia sido tempo suficiente para que o seu plano de resgate tivesse que esperar mais um pouco, pois os Elfos haviam voltado a recuperar terreno e, para seu espanto, haviam sobreviventes da Queda de Númenor e eles fundaram reinos pretensiosos no norte em Arnor e no sul em Gondor, esse último bem próximo a Mordor.

Mais uma vez, Sauron fez guerras contra os Elfos e agora também contra os Homens e essas gueras duraram por 122 anos até que, unidos sob a mesma bandeira, a Última Aliança dos Elfos e Homens conseguiu derrotar Sauron e Isildur destruiu seu corpo ao cortar o Um Anel de sua mão. Embora ainda continuasse a existir em espírito, Sauron não pôde impedir que Isildur se apoderasse do Um e, seguindo o conselho de Elrond e Círdan, o levasse para a Fenda da Perdição onde eles o instaram para que atirasse o Anel e destruisse para sempre o Senhor do Escuro. Porém, a força de vontade ainda latente de Sauron fez com que o Anel dominasse Isildur e que ele o declarasse como seu espólio de guerra, compensação pela perda de seu pai e irmão e também como a herança de sua casa. Satisfeito ao ver que o Anel conseguiu dominar seu novo dono e que estaria em relativa segurança por um tempo, Sauron abandonou as Esferas do Mundo e seguiu seu caminho em direção ao Vazio.

DA CHEGADA DE SAURON E DA REAÇÃO DOS VALAR

Após muito esforço para conseguir penetrar no Vazio ainda restava a Sauron a mais difícil tarefa, encontrar o local do aprisionamento de seu mestre sem perder o seu ponto de entrada, pois seria o único meio de eles saírem do Vazio. Como ele nunca havia testado essa magia, não sabia qual o tamanho do poder necessário para passar pelos Portões da Noite e ao chegar do outro lado Sauron se deparou com um fato no qual ele não havia pensado: o Vazio era um lugar tão extenso quanto escuro e ali dentro apenas as paredes, que ladeavam os caminhos, emitiam uma fraca e difusa luz que era o suficiente para se ver por onde ia. Todos os corredores eram muito parecidos e sempre haviam Salões ligados por eles. Esses Salões eram como uma miniatura do prórpio Vazio, escuro e sem nenhum ponto de referência, e quem entrasse neles ficaria confuso ao sair, pois não saberia de qual lado do corredor havia vindo e poderia passar a eternidade andando em círculos. Em vista desse novo contratempo, Sauron se viu obrigado a deixar para trás uma parte de sua essência para marcar o ponto de saída, pois sabia que não teria forças suficientes para abrir outra passagem de volta e, no exato momento em que pensou nisso, compreendeu que aquela missão havia acabado de se complicar, porque sabia que tinha pouco tempo antes que os Valar viessem ao seu encalço e temeu não ser capaz de abrir outra passagem para voltarem para as Esferas do Mundo. Começou então a andar sem direção pelos caminhos dos vastos Salões do Vazio enquanto se esforçava ao máximo para conseguir captar alguma pista que o levasse ao seu Mestre e Senhor.

No exato momento em que Sauron arrombou os Portões da Noite e entrou no Vazio, Taniquetil sofreu um grande tremor e então Manwë pôde ver o que ele achou que fosse impossível de acontecer e de imediato enviou Eönwë para descobrir qual criatura havia sido capaz de tal feito e, enquanto isso, o próprio Manwë havia descido de seu trono e se reunido com os outros Valar para, assim que a confirmação chegasse, traçarem um plano de ação. Eönwë voltou com uma expressão de quem ainda não acreditava no que os seus próprios olhos haviam divisado na penumbra dos Salões do Vazio e, ainda espantado com tal poder de um dos seus parentes, contou aos Valar que Sauron era o responsável pelo arrombamento dos Portões da Noite e que ele próprio estava agora caminhando pelos longos corredores sombrios. Ao mesmo tempo todos os Valar pensaram a mesma coisa: Melkor! E se desesperaram pois sabiam que o Maia renegado havia entrado lá com o único propósito de libertar o mais poderoso dos Valar.

Assim que conseguiu colocar um pouco de ordem e calma em seus irmãos, Manwë instou para que fosse reunido mais uma vez o Conselho dos Valar e que se preparassem para uma intervenção emergencial. Mesmo que desejassem agir de acordo com a decisão de todos, Tulkas e Oromë eram os mais agitados e surgiram com a idéia mais agressiva de todas pois, enquanto todos os presentes se debatiam na procura de uma medida eficiente de trancar Mestre e Pupilo dentro dos Salões do Vazio para sempre, a dupla, que já havia despachado ordens para se reunirem as hostes e que ficassem todos preparados para marcharem no encalço de Sauron, lembrou-lhes de que, uma vez que Sauron teve um meio de abrir passagem pelos Portões, ele ainda poderia ser capaz de fazer o mesmo para sair de lá.

O poder e a lógica desse fato trazido à tona por Tulkas e Oromë foram tão convincentes que os Valar, ignorando os pedidos de Manwë para que fizessem silêncio, já estavam decididos a liberarem a caçada quando, abandonando a sua costumeira abstenção das acaloradas discussões de seus irmãos, Mandos pediu a atenção de todos e lhes lembrou do único fato que apenas Manwë e ele não haviam esquecido. Ao trancarem Melkor no Vazio, um poderoso encantamento foi lançado sobre os Portões que impossibilitava qualquer ser de sair por eles até que o dia da Segunda Profecia chegasse. O próprio Manwë não poderia sair se decidisse entrar, talvez Melkor, por ser o mais poderoso de todos eles, fosse o único que pudesse escapar, apenas se fosse solto das correntes que o mantinham preso. Ao ouvirem isso, Tulkas e Oromë se deixaram cair sentados em seus tronos enquanto viam seus inimigos se aproximarem da maior vitória que teriam sobre eles, maior ainda do que a destruição das Lâmpadas ou das Árvores.

Enquanto isso Sauron já havia avançado muito pelos tortuosos caminhos do Vazio, porém sem saber qual direção seguir, em pouco tempo se viu andando em círculos e cada vez que passava por um local que ele imaginava já ter visto seu desespero aumentava até que ele se viu próximo ao seu ponto de partida, tão próximo que ele poderia atravessar o Portão para fora do Vazio se andasse mais um pouco. Irritado e desesperado com a imensa perda de tempo que havia sido essa sua incursão seguindo os tortuosos caminhos que apareciam a sua frente, Sauron resolveu fazer, mesmo às cegas, o seu próprio caminho e começou a vagar seguindo para onde agora o seu desespero, mais do que a intuição, o guiava.

Sauron andou por um tempo além da conta por inúmeros corredores amplos até não saber mais distinguir se os corredores já estavam lá ou se eles estavam se formando em sua frente enquanto ele vagava sem direção. Já estava andando tão distraidamente e sem motivação alguma que levou um tempo para percerber que havia parado diante de uma imensa abertura e para além dela não se enxergava absolutamente nada. Então um terror tão imenso quanto súbito lhe percorreu todo o espírito ao se lembrar das poderosas teias de Ungoliant que absorviam toda a luz que chegava até elas e, sentindo suas forças o abandonar, se deixou cair sentado frente a imensa abertura contemplando a escuridão quase tangível para além dela. Quanto tempo ele ficou ali parado, impotente frente aquela situação, até que no seu íntimo surgisse uma pequena e tímida sensação que lhe dizia para seguir em frente através da passagem Sauron não sabia, mas mesmo sem saber bem porque, decidiu por dar o primeiro passo para dentro da escuridão.

Desesperados por encontrarem uma forma de agir, os Valar se entregaram aos seus pensamentos e, com o passar do tempo, já não conseguiam mais se concentrar em nada. Preocupado com a demora em receber alguma ordem, Eönwë, que liderava as hostes dos Valar veio a saber do grande dilema que se abatia sobre seus Senhores, fez uma rápida reunião com seus irmãos, foi ao local onde estavam reunidos os Valar e, após receber permissão para falar, ofereceu a si e mais uma centena de Maiar para irem atrás de Sauron e impedí-lo de libertar Melkor. Aquela atitude sincera e espontânea deixou os Valar sem reação por um tempo até que o silêncio foi quebrado por Mandos para avisar o arauto de Manwë e seus companheiros de que não haveria como saírem do Vazio se passassem pelos Portões. Porém, nada parecia abalar a decisão dos bravos Maiar de se arriscarem para tentar evitar que o mais temido dos terrores da terra-média fosse libertado.

Ante tal determinação, Manwë não teve outra escolha do que abençoar seus guerreiros e lhes desejar sorte. No entanto, Tulkas e Oromë insistiram em participar da missão e dessa vez nem Mandos foi capaz de demovê-los dessa nefasta idéia. Já estavam bem adiantados a caminho dos Portões da Noite quando, ao olharem pela última vez para as verdejantes colinas de Valinor, Oromë e Tulkas se depararam com a imagem de Nessa que tinha o rosto coberto por lágrimas enquanto observava seu marido e irmão, encabeçando um exército com cem Maiar em armaduras completas, longas espadas Élficas e imensos escudos ornados com o emblema de Valinor no centro, avançarem para a morte ou o exílio, de onde nunca mais voltariam até o fim dos tempos.

Foi nesse momento que, em sua ânsia por derrotar Sauron e manter Melkor cativo, Oromë e Tulkas se deram conta de que equeceram de pensar em seus entes mais queridos, principalmente em Nessa, que sempre esteve ao lado deles em qualquer decisão. A imagem de Nessa os encheu de tão profundo sentimento de culpa que, por um breve momento, o tempo parou e quando voltaram a si viram que Eönwë se afastava em direção ao resto do grupo e dizia para não se preocuparem, pois eram muito mais importantes desse lado dos Portões.

E assim foi que, liderados pelo arauto de Manwë, o exército de Valinor entrou na vasta região do Vazio e se colocou em marcha forçada para recuperarem o tempo perdido e alacançarem Sauron antes dele chegar até onde Melkor estava acorrentado. Andaram por muito tempo indo sempre na direção certa, pois antes de partirem Mandos, responsável pelo acorrentamento, os havia ensinado o caminho mais curto para que pudessem ter uma chance. Passaram por muitos Salões vazios e parecidos uns com os outros e alguns dos Maiar pensaram terem visto as colinas que ficavam do lado de fora dos Portões, e os espíritos que se perderam admirando esses salões nunca chegaram a enfrentar Sauron, pois não conseguiram mais encontrar seus companheiros. Seguindo sempre em frente, sem saber da silenciosa perda de seus companheiros, o exército de Valinor já haviam coberto uma boa parte da jornada quando avistaram Sauron indo na direção da Passagem  sobre o Nada, além da entrada onde nenhum tipo de luz conseguia passar e, ao perceber que haviam chegado muito tarde, Eönwë e seus companheiros se lançaram em uma desatinada corrida e se atiraram sobre Sauron antes que ele tivesse entrado e ali se deu o primeiro combate a ser travado dentro do Vazio, desde quando foi criado.

Apesar de nenhuma luz conseguir passar pela entrada da Passagem, os Maiar não precisavam dela para conseguirem sentir a presença uns dos outros e continuaram a lutar. Batalharam por horas a fio e no entanto nenhum dos integrantes do exército de Valinor, nem mesmo Eönwë, tinha a experiência que Sauron havia adquirido ao longo de Eras a serviço de Melkor e mesmo depois, quando ele assumiu o lugar de seu mestre. Dessa forma, Sauron foi capaz de equilibrar um pouco o combate e, com uma malícia e esperteza que ele próprio sabia que não lhe eram comuns, descobriu que estavam sobre uma estreita ponte dentro da Passagem e que seria fatal qualquer tipo de deslise ali em cima. Já estava se preparando para conjurar um feitiço para atacar seus inimigos quando se lembrou que todo o seu poder de feiticeiro deveria ser poupado para ser usado na busca de Melkor e então se viu forçado a usar de outros meios para combater seus inimigos. A partir de então ele se concentrou em avançar um pouco e deixar que seus inimigos viessem até ele e fosse mais fácil de jogá-los para os lados. No meio da confusão Eönwë ficou um pouco para trás e conseguiu perceber a tática ardilosa de Sauron, mas não foi capaz de avisar seus companheiros a tempo de evitar que ao menos metade deles fossem arremessados em direção ao Nada.

Sauron sabia que, cedo ou tarde, sua tática seria descoberta e então ele teria que ser muito rápido e esperto e tentar derrubar o máximo de adversários que conseguisse para não ter tanta desvantagem quando saíssem daquele buraco. E foi assim que com uma tática simples, mas que se mostrou bem eficaz, Sauron conseguiu reduzir seus oponentes a apenas 10, porém não havia se livrado de Eönwë e então a parte mais crítica do combate chegou quando Sauron foi cercado pelos Maiar e eles sacaram suas armas. Normalmente Eönwë teria tomado a frente de seus companheiros e dito para que ele se entregasse e retornasse para ser julgado por seus atos, mas o sentimento de ódio que estava cresendo dentro dele e um desejo de vingança nunca antes sentido por nenhum deles ali presentes fez com que todos só pensassem em derrotar Sauron.

Tal foi a onda de ira que surgiu em cada um deles que se esqueceram de sua superioridade numérica e resolveram atacar sem nenhum tipo de formação tática e, embora Eönwë agora tivesse recuperado sua lucidez e estivesse berrando a plenos pulmões para que não corressem na direção de Sauron daquela forma, dois espíritos já haviam caído aos pés de Sauron, que mesmo cansado e desarmado havia os vencido com uma certa facilidade. Sauron, que podia ter apanhado as armas de seus inimigos derrotados, resolveu arriscar uma manobra perigosa virando as costas para os outros e saindo em uma breve, porém fortuita corrida, pois conseguiu fazer com que alguns dos Maiar corressem atrás dele e se distanciassem mais uma vez de seu comandante.

Porém, desta vez, Sauron havia se posicionado de uma forma que lhe permitiu dominar seu inimigo mais próximo e lentamente, com um prazer que não sentia a Eras, extinguiu a Chama Imperecível que ardia naquele espírito, tomou suas armas e se posicionou, esperando o ataque. Eönwë sabia que, mesmo acuado, Sauron era um adversário muito perigoso e decidiu atacar o quanto antes. Com Eönwë fazendo a abertura, seus companheiros se posicionaram da melhor forma que puderam e se lançaram sobre Sauron em uma incrível seqüência de pesados golpes enquanto ele apenas se defendia da melhor maneira possível com espada e escudo. Tudo o que Sauron desejava naquele exato momento era ter em suas mãos a sua potente maça mas havia vindo sem armas então, apesar de a espada e o escudo terem sido feito pleos Elfos de Valinor, ele teria que se virar com o que tinha e agüentar até conseguir libertar Melkor.

A potência dos golpes de Sauron aumentava gradualmente na mesma medida em que  o entrosamento dos Maiar de Valinor melhorava e então a cadência do ataque passou a ser na ordem de dois atacantes contra Sauron, enquanto esse tinha que se manter atento ao posicionamento dos outros e era obrigado a ficar em constante movimento. Todavia, nem todo o entrosamento de seus inimigos era capaz de superar a experiência de Sauron em batalha aberta e, em uma manobra audaciosa, mais dois Maiar caíram perante Sauron, embora no processo ele também tenha sido ferido por Eönwë e seu braço já não conseguisse mais suportar o peso do escudo, sendo obrigado a lançá-lo fora e apenas utilizar a espada.

Essa nova situação deu um pouco mais de ânimo aos Maiar e a batalha agora havia recomeçado com maior violência nos golpes e, ao se movimentarem constantemente, tiveram a impressão de que agora os Salões do Vazio é que passavam por eles. Os clarões emitidos em cada encontro das espadas iluminavam as longas paredes frias, únicas testemunhas daquela batalha que já se estendia por um tempo além da conta, pois o tempo, como tudo ali dentro, passava de forma diferente e tanto Sauron quanto Eönwë e seus companheiros não eram capazes de dizer com certeza como ele era medido. Após um breve intervalo para recuperarem o fôlego, Sauron notou que os Maiar estavam ficando cada vez mais lentos em seus reflexos e resolveu concentrar suas forças em uma investida contra eles, numa tentativa de tirar proveito da situação. Esse movimento determinado de Sauron fez com que Eönwë, que se sentia mais cansado do que nunca esteve antes, como se um enorme fardo tivesse sido colocado sobre os seus ombros, se colocasse na frente de seus comandados e fosse a primeira linha de defesa.

Sabendo que aquela seria, talvez, a sua única chance de enfraquecer ainda mais seus inimigos, a meio caminho do encontro com Eönwë, Sauron percebeu que ele colocaria mais peso nesse ataque então, em mais uma manobra ágil, esquivou com todo o seu corpo pela direita e desferiu um poderoso golpe pelas costas de seu inimigo. Os outros Maiar ficaram momentaneamente paralisados ao verem a cena e descobrirem que Sauron ainda conseguia se mover daquela forma porém, mais espantado ficou Sauron quando viu Eönwë mostrar que ainda lhe restava um pouco de enregia e, com um ótimo reflexo que lhe salvou a vida, fez o giro pelo lado contrário ao do escolhido por Sauron e, colocando o escudo para bloquear o golpe que lhe atingiria em cheio, foi atirado longe e seu escudo foi estilhaçado com a potência do golpe.

Foi só ao sentir a potência de seu golpe que Sauron soubre que estava próximo de Melkor e que este estava ajudando de alguma forma nesse combate. Então Sauron fez descer toda a sua ira sobre os outros Maiar que ainda estavar boquiabertos com o poder dele. Embora não fossem experientes como Eönwë seus companheiros ofereceram uma ótima resistência aos golpes de Sauron e revidaram com todo o vigor e técnica que lhes restava, mas nada daquilo foi capaz de deter a determinação de Sauron então um a um os Maiar foram caindo perante seus poderosos golpes e súbita recuperação. Ao terminar com o último de seus oponentes, Sauron sentia que Melkor estava muito próximo e agora sabia exatamente qual caminho tomar, então se dirigiu para lá o mais rápido possível, logo após olhara para onde estava Eönwë e se certificar de que ele ainda estava nochão.

Sauron podia sentir a presença de seu mestre cada vez mais perto e agora corria pelos corredores vazios até chegar em um ao mais amplo Salão que lembrava ter visto dentro do Vazio, bem no centro dele havia uma rampa e no topo dela um enorme trono de pedra, esculpido da mesma matéria das paredes daquele lugar. Sentado nesse trono estava o maior de todos os Valar, preso com correntes que ele não poderia quebrar e, ao ver seu pupilo, seus olhos negros brilharam com uma intensa luz vermelha que, por um breve momento, iluminou todo o seu rosto. De cada lado do trono havia um alto pilar onde foram colocados a Coroa de Ferro e Grond, o poderoso martelo de guerra de Melkor, sempre ao alcance de sua vista, mas fora do alcance de suas mãos, como forma de lhe punir pelas atrocidades cometidas contra os povos de Arda e contra os da sua própria raça. Sauron parou em frente ao trono de seu senhor e se pôs a encantar a espada com o resto de sua magia para que ele fosse capaz de quebrar as correntes que prendiam Melkor àquela repugnante réplica de seu trono em Angband.

Ao conseguir se reeguer e ter a visão do que um dia foram os seus companheiros largados no chão, sem a Chama Imperecível em seus corpos, Eönwë se encheu de muita tristeza e ao mesmo a ira que crescia desde quando cruzaram a Passagem sobre o Nada pareceu tomar conta dele. Eönwë sabia muito bem o caminho pelo qual Sauron havia seguido e foi atrás dele.

Quando Sauron havia terminado com o encanto da espada e se preparava para libertar seu senhor, percebeu a presença de Eönwë no local onde há pouco ele havia parado para fazer o encantamento e, apenas com o olhar, Melkor deu a entender que ainda havia serviço a ser terminado. Ainda confiante de que poderia vencâ-lo com a ajuda de seu mestre, Sauron desceu a rampa e estudou por um momento o seu adversário. Eönwë era da mesma estatura de Sauron, mas suas Eras a serviço de Manwë o havia deixado mais belo e sábio do que talhado para a batalha, entretanto seus braços ainda eram fortes o suficiente para empunhar a longa e bem trabalhada espada Élfica que ele havia recebido para essa missão. Não carregava mais o escudo, que havia sido destruido no seu último combate e, para espanto de Sauron, estava no exato momento embainhando sua espada.

A vontade de vencer Sauron era tão grande que Eönwë acreditava não precisar mais de sua armadura, pois ela quase o havia matado por não lhe permitir um movimento mais rápido quando quase foi partido ao meio anteriormente. Assim sendo, aproveitou o momento de contemplação de Sauron, embainhou sua espada e retirou a sua armadura, a colocando de lado e desembainhando novamente a sua espada.

Nesse momento dois pensamentos diferentes passaram pelas mentes perversas de Sauron e de Melkor: Para Sauron a atitude de Eönwë foi de extrema auto-confiança e também uma isca para atraí-lo para um último combate antes dele libertar Melkor, e agora ele, Sauron, faria questão de aceitar o desafio; Para Melkor a atitude de Eönwë se mostrou nobre e ele pôde sentir toda a raiva e desejo de vingança que fluia naquele Maia, o que o fez retirar toda a sua influência sobre ele e deixar o combate igualado.

DO COMBATE ENTRE SAURON E EÖNWË E DA LIBERTAÇÃO DE MELKOR

Sentindo-se leve novamente, Eönwë decidiu que não iria mais esperar pela iniciativa de seu oponente e, com uma impressionante velocidade, partiu para o ataque obrigando seu oponente a se defender da melhor maneira possível. Sauron, pego de supresa pela súbita recuperação de Eönwë, acabou tendo que ceder terreno e acabou encurralado, tendo atrás de si o pilar que sustentava Grond. Sauron apenas teve tempo de pensar em se esquivar, jogando o seu corpo para frente, rolando por debaixo do golpe de Eönwë que atingiu em cheio o pilar e prendeu a lâmina da espada na fenda que foi aberta. Com isso Sauron não só havia conseguido mudar de posição como também agora tinha uma enorme vantagem sobre seu adversário e, pensando em aproveitar essa chance, partiu para cima dele sem se preocupar com o que Eönwë ainda pudesse fazer. Vendo que Sauron vinha para lhe golpear de cima para baixo, como um lenhador usa seu machado para partir lenha, Eönwë eperou pelo golpe e na hora exata esquivou com o corpo para a direita e desferiu um potente soco contra o rosto de Sauron, fazendo com que ele cambaleasse para a direita, e na seqüência acertou um fortíssimo chute no peito nele.

Apanhado de surpresa pela impressionante habilidade de Eönwë e ainda atordoado pela força do primeiro golpe, Sauron apenas teve tempo de colocar os braços cruzados sobre o peito como defesa e, com o impacto do segundo golpe, acabou por deixar cair sua espada e ser lançado para trás. Sauron havia cometido um erro enorme ao achar que, assim como aconteceu com Homens e Elfos, Eönwë se intimidaria ante sua superioridade e agora estava realmente preocupado com o sucesso de sua missão, pois seu adversário, embora não fosse tão experiente como ele em combate, estava determinado a vencê-lo e, para aumentar ainda mais a confusão de seus pensamentos, parecia que Melkor havia interferido a favor do arauto de Manwë de alguma forma. Ainda se colocando em pé, Sauron tinha a sua frente o trono de Melkor, os dois pilares, e Eönwë que agora estava de pé ao lado de sua espada. Nesse exato momento Sauron soube que, se Eönwë pagasse a espada tudo estaria perdido, todo o seu esforço teria sido em vão e ou ele teria a sua Chama Imperecível extinguida ali mesmo ou ele seria aprisionado como o seu mestre. Em um último olhar para Melkor, Sauron percebeu que os olhos daquele poderoso Vala agora brilhavam com uma intensa e lúgubre luz vermelha e que seu rosoto estava virado naquela direção.

Melkor, que assistia ao combate como única testemunha, estava muito impressionado pela força de vontade do arauto de Manwë e se deliciava cada vez mais com a crescente ira com que o mesmo se lançava contra seu discípulo. Do alto de seu trono, Melkor agora ponderava a possibilidade de utilizar dessa ira para se infiltrar e corromper o espírito do fiel mensageiro de Manwë e assim ter mais um poderoso servo entre suas fileiras. Porém, para que pudesse sair daquele buraco, precisava de Sauron para fazer suas correntes virarem pó, só que no exato momento essa possibilidade estava ficando cada vez mais longe pois, com dois incríveis golpes, Eönwë havia não só desarmado Sauron e o lançado ao chão como agora estava de pé ao lado da espada de Sauron. Melkor sabia que, se Eönwë pegasse a espada, tudo estaria acabado e assim concentrou sua malícia e a canalizou na ira do arauto de Manwë, travando uma silenciosa batalha com aquele brilhante Maia e sua devoção às atitudes corretas. Foi uma batalha curta, é fato, porém muito cansativa para ambos os lados e ao final Melkor fez valer a sua vontade sobre Eönwë.

Eönwë estava exausto, já não sabia há quanto tempo atrás ele havia cruzado os Portões da Noite, não tinha mais noção de quando havia sido o primeiro encontro com Sauron na escura Passagem sobre o Nada e as lembranças do distante tempo em que caminhava entre os Poderes de Arda, executava pequenas tarefas para a manutenção do bem estar dos habitantes de Valinor, das longas noites em que se sentava sobre as colinas e passava horas ao lado de seus companheiros apenas observando as estrelas. De repente a lembrança de todos os seus companheiros vencidos por Sauron em seu caminho para libertar o Inimigo do Mundo fez com que ele quisesse fazer justiça com as próprias mãos e, parando ao lado da espada de Sauron, olhou para ela, depois para ele e a chutou para longe e foi em direção ao seu oponente.

Havia passado toda a sua existência servindo como mensageiro de Manwë e havia se envolvido em apenas uma guerra em todas essas Eras. Na Guerra da Ira, havia sido o responsável por carregar o estandarte de Manwë e quando a necessidade exigiu, lutou bravamente com seus companheiros sob o comando dos Poderes de Arda. Mas dessa vez ele estava por sua própria conta e sentiu um enorme prazer em deixar fluir toda a sua ira em cada golpe que aplicava em Sauron.

Sauron sabia que havia cometido um erro e agora estava pagnado por ele, mas teve a certeza também de que seu mestre pouco havia feito para ajudá-lo e agora teria que se virar para conseguir passar por um Eönwë enfurecido e conseguir apanhar sua espada. Apenas o pensamento da suposta traição de Melkor fez com que a ira de Sauron se inflamasse e agora o combate havia se transformado em um digno espetáculo para o deleite daquele que era a fonte de todo o mal existente no Mundo.

A luta já se arrastava por horas quando Sauron, em um golpe de sorte, se deixou ser atingido por mais um dos poderosos chutes de Eönwë e ser lançado na direção de sua espada. Eönwë, ao se dar conta do truque utilizado por seu oponente, percebeu que, a menos que  recuperar sua espada ainda presa no pilar, Sauron venceria. Assim que Sauron começou a cambalear na direção da espada, ele correu na direção do pilar e colocou todas as forças que ainda lhe restavam na tentativa de retirá-la da fenda. Sauron sabia que o único meio de ser capaz de libertar Melkor seria destruindo Eönwë e então resolveu arriscar tudo ativando o encantamento de sua espada, aumentando consideravelmente seu poder em relação a seu oponente que havia retornado ao pilar e estava conseguindo libertá-la.

Eönwë pôde ver de relance que Sauron havia se colocado de pé e com algumas palavras proferidas na Língua Negra havia ativado o ecantamento lançado sobre a lâmina de sua espada, que agora emanava uma sinistra luz esverdeada. Saron havia aprendido com o seu erro de antes e sabia que não poderia peder essa chance pois, se Eönwë recuperasse a sua espada, ele seria vencido pela determinação do arauto de Manwë e dessa vez se aproximou com cautela de seu oponente e desferiu um golpe que descia na diagonal e mesmo se Eönwë tentasse se esquivar ele seria atingido. Em um último puxão, no exato  momento em que a espada de Sauron já estava iniciando a sua descida, a espada de Eönwë saiu da fenda no pilar, todavia Sauron havia se posicionado de forma a não permitir nenhuma manobra evasiva e tudo o que restou a ser feito foi usar a espada para tentar aparar o golpe.

No exato momento em que as duas lâminas se econtraram foi emitido um clarão tão poderoso que todo o Salão foi iluminado por um breve momento e a potência do golpe de Sauron fez com que a espada de Eönwë se partisse ao meio e sua lâmina esverdeada continuou descendo até ferir profundamente o ombro direito do Arauto de Manwë. A potência do golpe foi tão grande que, de fato, conseguiu fizer com que o pilar que sustentava Grond viesse abaixo, deixando Eönwë semi encoberto pelos destroços. Sauron sabia que esse era o momento de quebrar as correntes que prendiam Melkor e, ao ver que Eönwë ainda estava vivo, subiu a rampa que levava ao trono e com precisos golpes libertou das correntes aquele que havia passado toda a Segunda Era do Sol e mais todos os quase três mil anos da atual Terceira Era. No exato momento em que foram quebradas as correntes, todo o Vazio sofreu um enorme abalo e muitos de seus Salões ruiram e seus caminhos foram bloqueados e a Passagem sobre o Nada ruiu por completo, impossibilitando a travessia para qualquer lado.

Sauron se sentia exausto e se deixou cair sentado aos pés do grande trono enquanto observava seu senhor descer para recuperar seu poderoso martelo de guerra e sua Coroa de Ferro, com seus sinistros buracos onde, há muito, haviam sido incrustadas as Silmarils e que agora pareciam horrendas órbitas vazias. No momento em que Melkor se encaminhava para o topo da rampa para saber de Sauron o caminho para fora daquela prisão, Eönwë, que havia conseguido sair debaixo dos escombros, cambaleava em sua direção com o barço direito pendendo imóvel junto ao corpo e com o que restava de sua espada empunhada na mão esquerda, parou a alguns poucos metros de distância dele e lutou para se manter de pé e enfrentar sozinho o mais poderoso Vala.

A cena, por si só, teria sido cômica para Melkor, mas sua admiração por aquele Maia só fazia crescer desde quando ele havia cruzado a entrada daquele Salão, de sua extrema disposição para enfrentar Sauron em um combate desarmado e sua imensa força de vontade por tentar vencê-lo em uma batalha mental. Tal admiração fez com que Melkor realmente cogitasse em investir seu tempo na corrupção daquele esplêndido Maia e transformá-lo em um de seus mais poderosos servos, porém a visão de Eönwë parado a sua frente empunhando uma espada, ainda que quebrada ao meio, fez sua mente voar até Eras passadas e, por um breve momento, era Fingolfin quem estava ali em pé com sua espada o  desafiando e imediatamente se lembrou dos ferimentos que sofreu no combate com aquele Elfo quando sua perna começou a latejar onde havia sido atingido. Então, tomado por uma súbita e incontrolável ira, ergueu Grond acima de sua cabeça e o fez descer com toda a sua força sobre aquela visão do seu passado.

O golpe atingiu em cheio Eönwë que, ainda fraco e atordoado pelo esforço tremendo para sair debaixo dos escombros, não teve sequer forças para desviar e dessa forma o exército Valinor foi completamente derrotado e Melkor agora só precisava que Sauron lhe tirasse do Vazio para poder voltar a espalhar o terror pela Terra-média novamente. Com a força de seu golpe mais um tremor atingiu os Salões do Vazio e até os Portões da Noite estremeceram, tamanho foi o impacto causado, e o local onde estava o trono de Melkor se encheu de poeira. Levou um tempo até que tudo parasse de tremer e a poeira fosse dissipada e então Melkor, ainda com Grond enfiado na cratera aberta pelo golpe, se deu conta de que Fingolfin havia sido morto por ele naquele combate há Eras atrás e quem ele havia esmagado sobre seu poderoso martelo de guerra era Eönwë, o Maia que ele aprendeu a admirar e que havia realmente considerado a possibilidade de trazê-lo para o seu lado.

Tomado por uma súbita angústia e desespero jamais sentido, nem mesmo quando foi derrotado na Guerra da Ira e aprisionado naquele lugar, Melkor se ajoelhou ao lado da cratera e uma única e tímida lágrima escorreu pela face da mais poderosa criação de Eru. Sauron, da posição em que se eoncontrava, não pôde ver essa impensável demonstração de afeto de Melkor e acreditou que seu mestre havia se ajoelhado por ter esgotado desnecessariamente suas forças em um golpe brutal sobre um adversário que seria facilmente derrotado, desceu então até onde estava seu mestre e se sentou ao lado dele, porém sem ter percebido a lágrima que ainda estava no rosto do Vala, e começou a explicar o que havia em sua mente para poderem voltar às Esferas do Mundo.

No mesmo instante em que Melkor esmagou Eönwë com Grond, Manwë sentiu um imenso aperto no coração e ao olhar para Mandos teve a certeza de que havia perdido a última esperança de manter Melkor preso, mas muito mais do que isso, se sentiu culpado por ter deixado que aqueles Maiar fossem em uma missão que ele mesmo não se arriscou a ir e a mesma angústia sentida por Melkor nas profundezas do Vazio foi sentida por ele ao saber que havia perdido mais do que um arauto, havia perdido um grande amigo de Eras incontáveis.

Todos os Valar que viram Manwë angustiado daquela forma soubream que algo muito grave havia acontecido, porém Nienna, a Lamentadora foi a única a se afastar e ir se sentar sobre a colina onde Eönwë e seus companheiros costumavam passar horas a fio olhando para as Estrelas de Varda e lá ela soube, através de sua forte ligação com Mandos, seu irmão, que o arauto de Manwë havia sido morto. O lamento de Nienna foi tão profundo que suas lágrimas formaram um lago aos pés da colina e a partir de então todos os que olhassem em sua superfície eram tomados por uma profunda tristeza e ao mesmo tempo por um sentimento de coragem e amor às Estrelas, assim como Eönwë havia sentido, quando se deitava sobre as colinas a noite.

Manwë havia emitido ordens para que fossem colocadas todas as forças de Valinor a postos nos Portões de Noite, ainda que não fosse permitido a ninguém cruzar seus limites. Se Melkor havia conseguido ser libertado aquele seria o local que ele deveria utilizar como saída e a cada dia que se passava, os mais próximos da passagem aberta nos Portões da Noite podiam ouvir os lamentos de seus companheiros que se perderam nos corredores dos vastos Salões ou que haviam sido derrotados por Sauron, mas nenum deles era capaz de ouvir os lamentos do espírito de Eönwë e dos que haviam cruzado a Passagem sobre o Nada.

Após Melkor ter ouvido todo o plano de Sauron se colcaram em marcha para a Passagem sobre o Nada e após caminharem por muito tempo finalmente chegaram até a sua entrada porém, não puderam atravessar pois a ponte havia ruido com os tremores. Sabendo que essa era a única passagem para o outro lado do Vazio, Sauron se deseperou e teria entregado os pontos ali mesmo, porém Melkor, que aos poucos ia recuperando seus poderes e sua astúcia, se lembrou que a espada usada por Sauron para quebrar as suas correntes ainda estava encantada e que ela poderia ser utilizada em uma arriscada, porém necessária, tentativa. Assim sendo, Melkor e Sauron refizeram o caminho de volta para recuperarem a espada. Sauron seguia calado seu mestre enquanto esse parecia estar apenas concentrado na espada, em aumentar o poder do feitiço original de Sauron, e totalmente alheio ao caminho pelo qual seus pés os levava. Haviam entrado em um Salão que não possuia iluniação alguma e Sauron sentiu um tremendo desconforto por não poder enxergar além do pouco que a sinistra luz esverdeada que emanava da lâmina da espada permitia. Desse pouco que era iluminado Sauron apenas se concentrou em pisar nos mesmos lugares que Melkor porque ali dentro não havia um caminho visível sob os seus pés e ele temia acabar caindo em um abismo como o que ficava abaixo da ponte, para onde enviou seus inimigos. Com o passar do tempo Melkor foi dimuindo cada vez mais o seu passo e a luz esverdeada da lâmina foi sendo substituida aos poucos por uma tênue luz vermelha e quando essa nova luz assumiu toda lâmina da espada, Sauron sentiu que ela era bem mais forte do que a anterior, mas o Salão era tão vazio e escuro que nada era iluminado por ela, além dele e de seu mestre, que parecia agora estar muito mais cansado do que quando havia esmagado Eönwë.

Chegaram então a um ponto de onde Melkor não conseguia mais avançar e então Sauron soube que, enquanto ele pensava que estavam andando a esmo, Melkor não só se concentrava em aprimorar o feitiço da lâmina da espada, tranferindo para ela uma parte de todo o seu poder, como também gastou toda a sua energia restante na busca de um caminho que os conduzisse para as Paredes do Vazio. Ali permaneceram sentados por um longo tempo e Melkor explicou a Sauron que havia apenas uma pequena chance naquela tentativa de fuga do Vazio; mesmo que conseguissem passar pela Passagem sobre o Nada, e encontrar o caminho de volta para os Portões da Noite, os mesmos estariam fortemente vigiados e, uma vez do lado de fora, seriam apenas dois contra toda a hoste dos Valar, o que praticamente teria feito com que todo o esforço de Sauron desse em nada e ambos acabassem aprisionados para sempre no Vazio. Pensando em uma maneira alternativa para a sua fuga, Melkor se concentrou completamente no que havia antes sido o seu reino por Eras na Terra-média e ao descobrir qual seria o local que proporcionasse o caminho mais curto chegarem rapidamente em Angband, assim que saíssem dali, ele foi seguindo até parar na Parede do Vazio. Sauron descobriu então que, após ter sido preso, Melkor ainda não sabia que seu reino de Angband havia sido completamente destruído e afundado junto com quase toda Beleriand. No entanto, o que mais intrigava Sauron, era a capacidade de Melkor ainda sentir seu antigo reino e decidiu não dizer uma palavra sobre o acontecido e deixar que seu mestre descobrisse sozinho.

Melkor, julgando estar recuperado o suficiente, se ergueu e colocou-se na frente de onde estaria a Parede do Vazio. Ali ele começou a fazer pequenos gestos com as mão e recitar algo em uma linguagem que Sauron não conhecia, tão antiga quanto o próprio mundo, pois foi com ela que Melkor cantou perante Eru, junto aos outros Valar, no Ainulindalë. Sauron sabia que algo muito maior do que seu encantamento estava sendo preparado ali e silenciosamente se levantou e ficou afastado a uma distância que não atrapalhasse seu mestre. Após um tempo, Sauron viu surgir uma marca brilhante que ficou fixa na Parede do Vazio então Melkor veio até ele e, sem dizer palavra alguma, pegou a espada de suas mãos e se preparou para golpear a brilhante marca.

A explosão criada pelo choque da espada contra a Parede do Vazio foi tão grande que todo o Vazio pareceu vir abaixo e do outro lado dos Portões da Noite toda a hoste dos Valar sentiu o tremor sob os seus pés e de repente todos os lamentos que ouviam antes cessaram por completo e uma onda de choque seguiu os tremores e fez com que os próprios Portões da Noite fossem arrancados de seus lugares e a imensidão do Vazio foi vista pela primeira vez por muitos daquela hoste e Manwë e Mandos souberam que algo muito mais terrível do que a morte de Eönwë havia acontecido nas profundezas do Vazio e temeram pelo pior.

Aqui termina a primeira parte da história que conta como Sauron conseguiu invadir o Vazio e, após derrotar as forças enviadas por Manwë, libertar Melkor. Conta  também de como Melkor chorou pela primeira vez em sua existência ao esmagar Eönwë, arauto de Manwë e líder do exército de Valinor.