O Livro Negro de Arda – Capí­tulo 3

Continuamos a publicação da fanfic O Livro Negro de Arda, agora com o Terceiro Capítulo: O Coração do Mundo. Os demais capítulos podem ser encontrados aqui.

 

 
PARTE PRIMEIRA. O CORAÇÃO DO MUNDO
MEDO. O INÍCIO DOS TEMPOS

Naquele tempo eles não eram inimigos – não existia nem a própria palavra “inimigo”. O mundo era jovem, e não havia alegria maior para os jovens Valar do que criar o novo.

…Aulë estava de pé, fitando o fogo; perante seus olhos erguiam-se visões ainda vagas de um novo plano. Vala Escuro aproximou-se silenciosamente e ficou ao seu lado.

– A chama está dançando…

– Você… está vendo algo nela?

– Sim. Olha – a lava rachada lembra escamas, negras e douradas e vermelhas, e as chamas – asas…

– Como você adivinhou? – Aulë alegrou-se. – Ah sim, claro! Sabe, eu só agora entendi até o fim, eu agora mesmo estava pensando sobre isso! Mas será que o vivo pode viver no fogo?..

– Tente…

O mais velho dos Ainur traçava, pensativo, algumas figuras estranhas no ar.

– O que é isso? – interessou-se Aulë.

– A dança das chamas. Você também achou que isso lembra escritas ou runas?

– Que?..

– Sinais, para anotar palavras, pensamentos, formas…

– Para quê?

– Para, ao mudar, não perder uma parte da sabedoria. Nem todos entre aqueles que ainda chegarão ao mundo serão iguais aos Ainur. Será útil para eles. Isso será chamado – C’at-er. Ou – C’ertar. Mas me perdoe, irmão, eu vejo na sua alma surgiu um plano. Eu o deixarei…

…Ele criou do fogo, cobre e ouro enegrecido o flexível corpo escamoso da lagartixa, as asas – de chamas, os grandes olhos alongados – de gotas de obsidiana. A criatura negra-dourada-vermelha escorregou da sua palma para o redemoinho do fogo, e Aulë suspirou e ficou petrificado de surpresa: a criatura dançava, e na dança do fogo ele adivinhava aqueles sinais que Melkor traçara. A base da dança era a runa Llach – o Fogo da Terra, e ele pensou que aquela-que-dança-no-fogo deveria se chamar assim mesmo – Llach.

Aulë sorria feliz, olhando para a nova criatura, imaginando como Melkor ficará surpreso e alegre – ele sabia se alegrar surpreendentemente com as criações dos outros… O sorriso continuou assim mesmo no seu rosto, abrindo-se em dentes raivosamente arreganhados, quando algo ardente, semelhante a um aro ardente invisível, apertou a sua cabaça. Círculos rubros e negros começaram a dançar nos seus olhos e, com um gemido, ele desmoronou lentamente, murmurando sem voz – por que, por que, por que…

“Isso não estava no Plano”.

Ele não ouviu mais nada.

– …Aulë… Meu irmão! O que houve… Acorde… O que houve com você?!

Olhos cor de cobre escuro com minúsculos pontos negros das pupilas. Que nada reconheciam. Cegos. Mortos.

Ele ergueu Aulë do chão – o corpo do Ferreiro pendia molemente nos seus braços, – apertou seus ombros, olhou nos olhos, repetindo como a um feitiço – acorde…

Devagar, muito devagar, o olhar de Aulë começou a adquirir algum sentido, mas agora nos seus olhos havia uma expressão nova – o medo, o horror insano devorando tudo.

– O que aconteceu com você? Está sentindo alguma dor?

– Dor… – por letras, num ritmo sem sentido. – Então, isso é que é dor. Eu não posso mais assim. Não posso.

Ele repetia essas palavras infinitamente – uma firme voz morta, balançando devagar de um lado para o outro. E Melkor começou a entender o que havia acontecido.

– Isso… foi por causa do seu plano?

As mãos de Aulë estremeceram:

– Não havia isso no Plano. Isso não deve existir.

– Irmão!..

Melkor sacudiu-o com força pelos ombros. Aparentemente, funcionou; Aulë agitou a cabeça desesperadamente – e de repente começou a sussurrar de um modo confuso, com ardor:

– Não posso ver isso, dói… Não quero matar… Porque isso está vivo – eu imploro, faça alguma coisa, porque me obrigarão a destruir – isso não deve existir, mas eu não quero, não posso…

– Venha comigo. Verá, me bastarão poderes para protegê-lo.

– Não, não adiantará, nada mais adiantará… Eu não quero, que – de novo, que fique assim – com você…

Melkor encolheu os ombros, mas permaneceu calado.

– Não, é que você não faz idéia de como isso dói… Acredite-me… Sei, você é forte, você sabe e pode mais que todos nos juntos…

Vala Escuro reparou consigo mesmo nesse: “você” e “todos nos”.

– …mas ele é mais forte, ele o vencerá… Eu peço, Melkor, meu irmão – resigne-se… – a cada palavra, ficava mais nítido nos olhos de Aulë – aquele, recente, insuportável horror, ele falava cada vez mais rápido, afogando-se nas palavras. – Ou – vá, esconda-se, proteja-se – compreenda, todos, todos estarão contra você, todos, até eu – sim, sim, e eu também, porque eu não suportarei, não conseguirei – contra todos, mesmo que você amaldiçoe, mesmo que despreze, mas eu tenho medo, eu sei que isso é o medo, eu sei, sei, eu entendo tudo, mas – ficarei com eles… Sei – você não perdoará, já não importa, não há eu, compreenda, não, isso é somente uma casca, mas dentro dela – nada, além do medo – não há nada; você não entenderá, você não sabe o que é isso… E depois, algum dia, as suas forças não serão mais suficientes, então se apresse para criar, você de qualquer jeito não sabe fazer de outra forma, porque de qualquer jeito esse castigo o alcançará, você será destruído, mas não importa – enquanto pode…

Ele parou de repente, um gemido voou dos lábios esbranquiçados – ele caiu no chão, o corpo dele contorceu-se, agitou-se brevemente e ficou imóvel.

Isso era um sentimento novo – como uma onda de fogo negro: a ira. Melkor ergueu-se, cerrando os punhos, endireitou-se e, jogando a cabeça para traz, gritou:

– Você… Único! Deixe-o! É fácil dominar aquele que é mais fraco; mas você tente – comigo!

E ele ouviu palavras vindas do nada, do vazio morto e gelado:

“Você disse”.

Ele esperou um golpe, uma dor – não havia nada. Lançando um breve olhar para o céu, ele ajoelhou-se ao lado do corpo estendido no chão, colocou a mão sobre a fronte de Aulë e ficou imóvel…

– …Venha aqui, pequena, – baixo e triste, estendendo a mão através das chamas. – Olha só como tudo se deu…

A pequena lagartixa de fogo voou para a sua palma, dobrou as asas e enrolou-se – pequeno coágulo de lava fria, só os olhos escuros olham com tristeza e culpa.

– Vai viver comigo, fazer o quê… Só que seria melhor se ele também fosse embora conosco, o que você acha?

A salamandra mexeu-se e piscou.

– Talvez, ele ainda junte coragem…