O íšltimo Dia de Beren e Lúthien

Era um dia ensolarado de primavera na Terra Média, e  Beren e Lúthien caminhavam tranqüilamente pela floresta, relembrando as dificuldades que tiveram que passar para enfim viverem juntos. Depois de andar um pouco, o casal parou sob um salgueiro para descansar, pois a idade avançada dos homens mortais já os tinha alcançado e eles se cansavam facilmente. Ficaram sentados na grama, à sombra, admirando a paisagem e sentindo a suave brisa brincar sob seus cabelos.  Beren, atencioso como sempre fora com sua amada, pegou uma bela flor que estava caída aos seus pés e a fincou no cabelo de Lúthien, à altura da orelha. Ela, por sua vez, pegou a mão esquerda de  Beren e a acariciou, olhando fixo nos olhos dele, e disse:
 
- Sinto a idade tomando conta meu coração, Beren. A morte não tardará, pois longos anos se passaram desde que nos conhecemos.
- Começo a sentir o mesmo. A vida dos homens é curta, e ela já se prolongou para mim, mas agora acho que não resistirei muito.
- Fadada é a vida que Ilúvatar deu aos homens, resumida em poucos anos.
- Mas se todos os homens forem tão felizes quanto eu fui ao seu lado, Lúthien, a vida deles poderia ser metade do que é e ainda ser grandiosa o suficiente para se falecer feliz. Só sinto pena por você, que, mesmo sendo uma elfa, também tem que viver os poucos anos de uma mulher comum. E além disso tudo por minha causa.
- Não se culpe, pois você sabe que fui eu mesma quem escolhi viver assim.
- Poderia estar nesse momento em Valinor, ao lado dos grandes Valar, com a mesma beleza da juventude e a vida eterna ainda inteira pela frente.
- Mas estaria infeliz, pois não teria você ao meu lado.
Beren nesse momento acariciou o rosto da ainda bela Lúthien, olhando fundo nos olhos dela e enxergando a sinceridade por trás deles. Inclinou-se um pouco mais e a beijou profundamente, como se os dois fossem ainda jovens. Depois de se afastarem novamente, mas manterem as mãos atadas uma na outra, Lúthien voltou a falar:
- Se pudesse escolher novamente entre a vida eterna em Valinor e a vida mortal ao seu lado, eu escolheria mais uma vez viver com você. Aliás, viveria todos os perigos que vivi ao seu lado novamente, e feliz, se isso me fosse concedido. Na verdade, passar o que passei ao seu lado foi a melhor coisa que me aconteceu.
- E eu daria até a minha outra mão para fazermos novamente tudo o que fizemos. Não me arrependo de nada, a não ser de não ter conhecido-a mais cedo.
- O mesmo para mim.
Nesse momento uma luz ofuscante surgiu e de repente tudo ficou iluminado. Quando tudo voltou ao normal, Beren olhou para suas próprias mãos e viu que estava com as duas. Desviou o olhar para Lúthien e viu que ela estava jovem e bela como fora há anos atrás. Ele também estava mudado, belo como antes. Os dois, assustados, olharam ao redor e se viram na floresta de Doriath, no lugar onde se encontraram pela primeira vez. Lúthien começou então a cantar e a dançar, como antes, e os dois perderam a noção do que viria a acontecer, e tudo começou novamente. Viveram de novo tudo o que passaram como se fosse pela primeira vez, sem saberem o que aconteceria depois. Fizeram exatamente as mesmas coisas, só que não sabiam que estavam vivendo-as novamente. Era como se tivessem voltado ao passado (e voltaram mesmo), mas não se lembravam mais do futuro.
Depois de passados muitos anos, depois de viverem as mesmas agonias e as mesmas alegrias, estavam novamente conversando sob o salgueiro (na mesma cena do início desse conto). De repente, uma nova luz surgiu, ofuscante como a de antes, e Beren e Lúthien se lembraram que tinham vivido tudo novamente. Beren olhou para as mãos, mas não viu nada, pois agora estava sem as duas, e eles tiveram certeza de que Mandos tivera novamente pena deles, e concedido essa graça em troca da mão de Beren, como na promessa que ele fizera sem se dar conta.
- Se realizou. – Disse Lúthien, com as lágrimas brotando dos olhos.
- Perdi minha outra mão, mas não faz mal, pois agora estou mais feliz que outrora. Que Mandos seja louvado.
Os dois encostaram-se à árvore exaustos; Lúthien colocou a mão sobre o braço de Beren, e eles deixaram o mundo para sempre, felizes, sendo relembrados apenas em versos.