O Livro Dourado de Galadriel, Parte II

 PARTE II – A Viagem até Valinor

Aqui jaz o relato da segunda parte do Livro Dourado de Galadriel, escrito pouco antes desta deixar Lothlórien.

 

 

“Os fatos que irei relatar aqui são completamente ocultos para qualquer ser vivente da Terra-média. Até mesmo para Mestre Elrond e para Gandalf. Este segredo era meu, e agora, sei que precisarei deixá-lo aqui, para que saibam o que aconteceu após a chegada os Istari.

Enquanto Saruman e os Azuis partiam para o Leste, eu, sozinha e oculta, parti pelos caminhos da Terra-média sobre meu cavalo até chegar aos Portos Cinzentos, onde achei Círdan, que me relatou o seguinte logo ao ver-me chegar:

– Senhora de Lórien, que imenso prazer tenho em vê-la. Mas o que faz por aqui sozinha?

Retirei a manta élfica que me cobria e demonstrei um largo sorriso ao encontrá-lo.

– Quem bom vê-lo, meu caro Círdan. Vim aqui porque senti meu coração ser atraído para cá como nunca fora antes. Algo me dizia que você precisava ver-me.

– E a senhora estava plenamente certa. Aconteceram coisas que não sei se sabe.

– Pois me conte, pois é por isso que viajei sozinha até os Portos Cinzentos.

– Há um tempo, atracou aqui um barco vindo do Reino Oculto.

Diante daquela afirmação eu não pude conter meu espanto. Os Valar estavam tramando algo, e devia ser algo muito importante para enviarem uma embarcação, pensava eu.

– E dele – dizia Círdan, – desembarcou somente uma pessoa. Um senhor idoso, todo trajado em branco, que disse ser Curunír, o Branco. Ele era muito imponente e saiu sozinho, a pé, pelos caminhos que conduziam ao interior.

– E ele disse que era um enviado de Valinor?

– Não. Ele não falou nada. Mas o barco partiu em direção ao Oeste e ele só pode ter vindo de lá.

– Alguém mais veio depois dele?

– Sim. Vieram mais quatro senhores idosos. Mithrandir, o Cinzento, Radagast, o Castanho, e dois senhores que trajavam Azul, mas não se identificaram. Perguntaram pelo destino do Branco e seguiram o mesmo. O Castanho seguiu outra direção. Já Mithrandir permaneceu dois dias aqui nos portos, junto aos elfos. Eu pude sentir nele a força dos Valar e sem que ele me disse, soube que estava aqui para uma missão muito importante e que devia ajudá-lo.

Antes de continuar, Círdan diminuiu o tom de voz e se aproximou de mim.

– Narya está com ele. Refleti o bastante e senti que chegara a hora de Narya ser passado como vira em meus sonhos. Sabia que certamente poderia precisar em sua empreitada misteriosa e obviamente perigosa. É, com certeza, um senhor confiável e muito amável. Depois que lhe dei o anel, ele agradeceu a hospitalidade, se despediu de todos e disse que partiria para as terras de Rhovanion.

– Mas por que eles estão aqui? Por que os Valar enviariam esses senhores para a Terra-média?

– Há algum propósito por traz disso tudo, minha senhora. Senti uma força descomunal em todos eles. Eram Magos com certeza. E magos poderosos.

– Pois eu partirei para o Reino Oculto agora mesmo. Preciso saber o que se passa.

Naquele momento, Círdan me olhou espantado.

– Mas como irá guiar o barco até lá? É impossível…

– Eles me guiarão, Círdan. Sei que irão fazer isso.

Ao dizer estas palavras, eu desci do cavalo e peguei um barco de pequeno porte e saí, sozinha, pelo Mar. A viagem foi calma e o barco foi conduzido, sozinho, até a praia dos teleri. De lá, eu parti para Valimar, em busca dos Valar. Manwë, Aulë, Varda e Yavanna estavam nos portões da cidade. Sabiam que eu viria.

– Galadriel – chamou-me Yavanna, com sua voz doce. – Venha até nós…

Obedeci-a e parei em frente a eles. Eram imponentes e muito poderosos.

– O que a traz de volta ao Reino Oculto? Sabes que ele era proibido – falou Manwë, com um tom de superioridade.

– Sei que poderia voltar a meu lar. Nos deu permissão para isso, meu caro senhor.

– Diga-nos porquê da sua vinda, e sozinha, para Valinor? – perguntou-me Varda, aproximando-se de mim.

Ela era incrivelmente iluminada como se todas as estrelas do Céu estivessem em seus olhos.

– Vim saber, porque amo a Terra-média, quem são os cinco senhores que para lá foram enviados, e foram por vocês, certamente.

Manwë e Aulë trocaram olhares como se pudessem conversar através deles. E certamente era o que faziam.

– Sentimos que podemos confiar plenamente em você, filha Galadriel – falou Aulë agora sorrindo ligeiramente. – Assim como podemos confiar naqueles senhores.

– São de plena confiança? – perguntei desconfiada.

– Sei que Olórin – falou Manwë, – meu enviado, é de extrema confiança.

– Mas para vocês ele não é Olórin – falou Varda. – Ele é Mithrandir, o Peregrino Cinzento.

Lembrei-me naquele momento que Círdan havia cedido o anel a este Mago.

– Sim, nós sabemos – falou Yavanna, lendo minha mente. – Foi algo muito sensato e nobre.

– E por que foram enviados?

– Precisamos ter olhos fixos constantemente na Terra-média. A ameaça de Sauron ainda não acabou – falou Manwë. – Eles estão lá para fazer tudo que for possível para impedir que a Terra-média sofra as conseqüências de Sauron e seu um anel, novamente.

Naquele momento, eu toquei Nenya em meus dedos levemente.

– Guarde-o com sua vida, Galadriel – falou Aulë. – Ninguém jamais deve saber da existência dos Três. Somente você, Elrond, Círdan e Olórin.

– Irei continuar guardando-o e mantendo-o comigo.

– Senti que você possui o poder incrível que também iremos precisar nos fatos que, inevitavelmente, ocorrerão – falou Varda ligeiramente séria, virando-se e começando a andar em direção ao interior da floresta. – Siga-me, Galadriel. Tenho algo reservado para você.

Despedi-me dos Valar e segui o rastro brilhante de Varda.

Ela jazia em uma clareira, parada ao lado de uma incrível fonte cristalina e brilhosa. Em suas mãos trazia um jarro e uma bacia de prata pura.

– Este é o Espelho de Água que irei entregar a você. Leve esta água para a Terra-média e despeje-a na nascente do rio mais belo de Lothlórien. Terá o espelho com você para ajudá-la.

Eu peguei o presente de Varda, retornei sozinha e despejei-o na nascente do rio que viria ser o Nimrodel”.