Narya – Parte 02

CAPÍTULO VI
A Cidade
Conforme iam se aproximando da cidade, Frodo e Sam ficavam mais nervosos (e também mais assustados) com a idéia de viver, mesmo que por alguns dias, naquele horripilante cenário.
Passaram por uma placa que indicava o limite da cidade.
–Eu moro no Centro da Cidade, — disse Prímula – logo estaremos lá, cerca de uns 20 minutos.
–Estou com medo. – disse Sam. E realmente estava apavorado.
–Não se preocupe, Sam. Eu estou aqui com você, e Prímula também. Ela sabe o que fazer.
–Frodo está certo, Sam. Não se preocupe, não deixarei que nada de mal os aconteça.
Sam se encolheu contra o corpo de Prímula quando surgiram as primeiras casas e os primeiros carros. Finalmente chegaram á avenida, e estavam atravessando-a tranqüilamente (Sam já estava perdendo um pouco do medo), quando um carro buzinou.
 
–O que foi isso? – Disse Sam, muito amedrontado. Saltou da moto e começou a correr, até parar no meio da avenida, entre vários carros, que consequentemente, começaram a buzinar.
–Ei, Sam, volte! – Gritou Frodo.
–Venha, Sam, — gritou Prímula – você não pode ficar aí, vai ser atropelado!
Mas de nada adiantava os gritos. Sam desembainhou a espada e ficou parado, olhando assustado para todos os outros carros em sua volta, desafiando-os. Sentou-se no chão e colocou a cabeça entre os joelhos, chorando.
Prímula desceu da moto. – Fique aqui, Frodo, eu vou buscá-lo. – E com isso apoiou a moto e correu para onde Sam se encontrava. Os carros não paravam de buzinar, as pessoas gritavam coisas como: –Sai daí, garoto! Vai para casa!
–Ei, Sam! Sam! – Prímula chamou-o e levantou sua cabeça encaracolada com as mãos delicadamente. – Vamos, Sam. Não pode ficar aqui.
–Não, eles vão me pegar!
–Quem vai te pegar?
–Eles! – E apontou para os carros que estavam à sua volta.
–Não, Sam. Eles não podem te pegar. Não disse que eu ia protegê-lo?
Sam fez um sinal de sim com a cabeça.
–Então, você está a salvo comigo!
Sam se recusou a levantar de qualquer jeito. Prímula então tomou uma atitude mais drástica.
–Sam, vai ter que me desculpar por isso. – E pegou-o no colo, como uma criança. Levou-o de volta para a moto. Sam foi gritando até chegar lá.
–Assim está parecendo uma criança mesmo. – Disse Frodo.
Sam ficou sem graça, mas agradeceu Prímula, e prometeu não saltar mais da moto.
–Assim está melhor. – Disse Prímula, e acelerou.
Logo já estavam em frente ao prédio onde ela morava, e os dois hobbits ficaram espantados com o tamanho da propriedade.
–Tudo isso é seu? – Perguntou Frodo surpreso.
–Não, não. – Respondeu rindo. – Moro só em um apartamento, não no prédio todo. Esse prédio é dividido em várias outras casas, entendem?
–Acho que sim.
Foram até o estacionamento, deixaram a moto lá, e quando estavam entrando no prédio, o porteiro não se conteve.
–Oi, Prímula, quem são essas crianças?
–São filhos de uma amiga minha. Ela foi viajar e não pôde levá-los consigo, então, me ofereci para ficar com eles por uns dias, até ela voltar.
–Mas não somos cr… – Sam foi detido por um cutucão que Frodo lhe deu.
–Vamos, crianças… – Prímula disse, rindo. Sam pareceu não gostar muito da idéia, mas Frodo não ligou.
Chegaram em frente a uma porta fechada que se abriu sozinha quando Prímula apertou um botão. Entraram . Dentro era um lugar pequeno, cabiam no máximo umas oito pessoas. Apertou outro botão e os dois hobbits sentiram que estavam subindo.
–Para onde estamos indo, Prímula? – Perguntou Sam.
–Para meu apartamento. Fica no 16º andar, estamos subindo pelo elevador.
–E as escadas?
–Não precisamos delas. – O elevador parou e as portas se abriram.
Saíram e se encontraram em um corredor. Havia uma janela no canto, e Prímula os chamou para ver. Na ponta dos pés puderam olhar pela janela.
–Nossa, como é alto! – Exclamou Sam. — Como chegamos até aqui?
–Já disse, pelo elevador. Ele nos traz de baixo para cima, ou daqui de cima até lá embaixo.
–Nossa! – Disse Frodo. – Há várias portas aqui. Qual delas leva à sua casa?
–Aquela. – E apontou para uma porta no meio do corredor.
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CAPÍTULO VII
Na Casa de Prímula
Prímula procurou as chaves na bolsa e não as encontrou. "Será que as perdi?". Estava procurando desesperadamente por todos os lugares, até embaixo do tapete (onde ela sempre deixava), mas não encontrava em nenhum lugar.
–Acho que perdi as chaves – disse ela. – Não consigo pensar em nenhum lugar mais por onde procurar.
–E se estiver aberta? – Opinou Sam. – Você pode ter deixado a porta destrancada, talvez tenha esquecido.
–Eu nunca me esqueço de trancar a porta. Tenho certeza de que tranquei. Se não me engano, a chave deveria estar debaixo do tapete, é sempre lá que deixo, a não ser quando ponho-as na bolsa.
–Acho melhor pararmos de discussão. – Disse Frodo. – Prímula, tem certeza de que não deixou a porta aberta?
–Certeza absoluta.
Frodo não disse nada, mas ficou fitando a porta, tentando descobrir como se abria aquela porta, com uma maçaneta tão estranha. – Prímula, se você tivesse deixado a porta destrancada, como eu faria para abri-la?
–É só girar a maçaneta.
Frodo tentou girá-la. Fez um pouco de força e… A porta se abriu.
–Mas… – Exclamou Prímula. – Como foi que você…? – Mas ela viu as chaves sobre a mesa e resolveu não dizer mais nada. "Devo tê-la esquecido aberta, mesmo."
No mesmo instante um cachorro, ou melhor, uma cachorra veio correndo de dentro do apartamento e começou a pular nas pernas de Prímula.
–O que é isso? – Sam não se conteve.
–É um cachorro. – Respondeu ela.
–Eu sei que é um cachorro, eu quis perguntar de que raça é. É bem diferente de todos os outros cachorros que já vi.
–Ah, é um poodle. Deve estar estranhando porque ela tem cabelos encaracolados, como os seus.
–Muito bonito, seu cachorro. – Disse Frodo. – Pequeno e de cabelos encaracolados… daria um ótimo animal de estimação para um hobbit. – Todos riram. – Mas, como eu estava dizendo, como foi que eu consegui abrir a porta se não estava com as chaves? Vou repetir a mesma pergunta: Prímula, tem certeza de que não deixou a porta aberta? – Novos risos.
–Agora, tenho certeza de que deixei realmente a porta aberta. Mas deixemos esse assunto para outra ocasião. Vamos entrando, sintam-se em casa.
–Com todos esses objetos estranhos, acho que será difícil me sentir em casa. &ndas
h; Sussurrou Sam no ouvido de Frodo.
–Concordo plenamente.
–Bem, já está tarde. O que me dizem de jantarmos?
–Jantar? – Sam estava curioso. – O que é exatamente jantar?
–Não sabem? É comer, matar a fome, forrar o estômago.
–Cear, você queria dizer, então.
–É a mesma coisa!
–Não é!
–Se eu digo que é, é porque é!
–Chega! – Gritou Frodo – Será que nunca vão se entender?
Todos ficaram em silêncio, mas nem alguns segundos haviam se passado e ouviram uma voz vindo de dentro do quarto de Prímula:
–Que gritaria é essa? Não se pode mais dormir em paz, não? – E da direção que vieram os gritos surgiu um homem, somente vestido com as roupas de baixo, musculoso e mal humorado, com cara de sono. – Quem são essas crianças?
–Quem é você? – Perguntou Sam. – O que está fazendo aqui?
–Eu é quem deveria perguntar. Sou o namorado de Prímula, e vocês, pelo que parecem, são duas crianças imundas que estavam brincando na terra.
–Ora, seu… – Mas Sam foi impedido por Prímula. – Calma, vamos nos entender como pessoas decentes! Sem brigas!
–Sam, Frodo, esse é Henrique, meu namorado. Henrique, esses são Sam e Frodo, dois amigos que eu conheci quando estava voltando para a Cidade.
–E nós NÃO somos crianças! – Completou Sam.
–Ah, é? O que são então, adultos? Odeio crianças que acham que já cresceram.
–Não, somos hobbits! – Falou Frodo no lugar de Sam.
–E o que é hobbit? Alguma espécie de macaco? – E ele começou a rir.
–Henrique, não seja grosso! Peça desculpas, que depois eu explico tudo o que aconteceu.
Depois de relutar, Henrique finalmente se desculpou.
–Agora eu entendo por que a porta estava aberta… – disse Prímula. – Deveria ligar antes de vir, Henrique.
–Eu liguei, mas você não estava, então eu resolvi fazer uma surpresa.
–Surpresa? Você quase me matou de susto, pensei que tivesse entrado algum ladrão ou que eu tivesse perdido as chaves! Mas ande! Vá se trocar! Coloque alguma roupa por cima dessa cueca!
Henrique entrou no quarto com a cabeça baixa, parecia nervoso, mas Prímula pareceu não se importar, e perguntou aos hobbits:
–O que vão querer cear?
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CAPÍTULO VIII
Pizza

–Não sei, você deveria oferecer o que você tem, e não perguntar o que queremos, ficaremos gratos com qualquer coisa. – disse Frodo.
–Mas eu não tenho nada, estava pensando em pedir alguma coisa.
–Pedir para quem? – Perguntou Sam. – Nós também não temos nada, bem, só um pouquinho, mas não dá para todos nós.
Prímula riu. – Não estava pensando em pedir para vocês, eu queria dizer pedir para algum restaurante entregar comida aqui em casa.
–Já sei, não precisa explicar: restaurante é onde vende comida, acertei? – Disse Sam.
–Acertou sim, Sam. E o que vão querer? Que tal pizza?
–O que… – Sam nem terminou de fazer a pergunta quando Henrique apareceu, já trocado, e exclamou:
–Pizza! Ótima escolha, eu quero a minha de atum.
–Calma, Henrique, eu nem sei se eles gostam de pizza. Não seja apressado!
–Comemos qualquer coisa, — disse Frodo — mesmo essa tal de… como é que se diz, mesmo?
–Pizza! P-I-Z-Z-A, — disse Henrique. – Não sabem o que é? De onde vocês vem, do passado?
–Na mosca! – Exclamou Prímula. – Agora não atormente mais os coitadinhos, depois eu explico tudo para você.
–Obrigado, Prímula. – Agradeceu Sam. – Mas nós comemos essa tal de pizza mesmo. Nós, hobbits, gostamos de qualquer coisa para comer.
–E o que vão querer beber?
–Agora, se não se importa, eu gostaria de opinar. – Disse Frodo.
–E o que é?
–Cerveja. Isso é, se vocês tiverem, é claro.
–Como é que é? – perguntou Henrique. – Vocês não têm vergonha? Tão pequenos e já tomam cerveja?
–Antes de tudo, eu queria esclarecer uma coisa para esse tal do seu namorado, Prímula. – Disse Sam. E virou-se para ele. – Não nos chame mais de crianças porque agora você já sabe: Eu tenho 45 anos, ou seja, sou bem mais velho que você. E o Sr. Frodo tem 57.
Henrique riu mais alto que nunca. Ele não acreditava que duas pessoas pequenas com cara de crianças poderiam ter 45 anos, muito menos 57. – Estão brincando comigo! – Mas ele viu que todos estavam sérios, e ninguém riu nem um pouco, então ele parou e achou melhor não discutir. Na verdade, estava até começando a acreditar no que eles diziam. Se fosse mentira, sabiam mentir muito bem. Mas não teriam coragem de brincar com uma coisa dessas, talvez nem imaginação o suficiente para inventar isso. Henrique já sabia que algo de estranho estava acontecendo, mas não pensara que chegaria a esse ponto.
–Tudo bem. – Disse ele cabisbaixo. – Vocês me convenceram. Podem tomar a sua cerveja, se quiserem. Eu vou tomar um banho para refrescar a cabeça. Enquanto isso, podem ir pedindo a pizza. – E saiu.
–Vamos, enquanto eu peço, vocês podem ficar assistindo televisão.
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Os hobbits não entenderam, mas se sentaram no sofá em que ela apontou. Sam viu um pequeno objeto sobre a mesinha que estava diante deles. Ficou curioso e o pegou na mão. Ele percebeu que haviam vários botões sobre o objeto, e que apesar de pequeno, deveria servir para alguma coisa útil, pois havia várias coisas escritas sobre os botões. Sam resolveu apertar algum botão para ver o que ele fazia.
–Sam, — apressou-se Frodo – é melhor não mexer. Pode quebrar, ou coisa parecida. Aliás, você nem sabe para que serve.
Prímula virou-se e viu Sam colocando o controle da televisão de volta na mesinha. Ela riu um pouco, pois tinha se esquecido que eles provavelmente não sabiam o que era uma televisão, e disse:
–Apertem o botão vermelho.
Sam adorou a sugestão e mal havia colocado o controle sobre a mesa já pegou-o novamente e apertou o botão vermelho. Seguido de um barulho agudo, quase inaudível, o objeto grande que havia sobre a mesa se iluminou e a imagem de uma pessoa apareceu no centro. Ambos os hobbits deram um grito, pois não faziam idéia do que era aquilo. Pensaram que fosse uma pessoa aprisionada em um cubículo.
–Não se assustem, é só a televisão. Ela funciona para que nós possamos ter notícias de tudo o que acontece no mundo.
–Tudo? – Assustou-se Frodo. – Tudo mesmo?
–Bem, quase tudo.
–Mas, como é que esse homem pode ficar dentro de uma caixa menor que ele? – Perguntou Sam.
–Não há nenhum homem aí, é só uma imagem. Na realidade, esse homem está em outro lugar. Entenderam?
–Não. – Disseram os dois hobbits no mesmo instante.
–Tudo bem, mas vocês entenderam que não é ele que está aí, não é?
–Bem, acho
que eu entendi um pouco, pelo menos eu entendi que há coisas muito estranhas nesses tempos. – Disse Frodo.
–E a pizza, você já foi pedir? – Perguntou Sam.
–Já. Desde que vocês se sentaram no sofá.
–Mas eu nem a vi sair. A porta nem sequer abriu. Não teria dado tempo de você sair, está brincando conosco.
–Mas eu pedi pelo telefone!
–Telefone?
–É, serve para falarmos com as pessoas sem termos que sair de casa.
–Verdade? – Frodo espantou-se.
Prímula pegou o telefone e o trouxe para perto dos hobbits. – Aqui está.
–Quero falar com alguém pelo telefone. – Pediu Sam.
–Mas você não conhece ninguém daqui, Sam. – Disse Frodo.
Então Sam desistiu, e satisfez-se somente com ficar olhando para a televisão. Pegou o controle e ficou apertando os botões, admirando-se com cada imagem que aparecia. Frodo também gostou da idéia de ver coisas que acontecem em outros lugares. Os dois se divertiram tanto que nem viram quando a pizza chegou, mas logo que sentiram o cheiro se deram conta de que pizza devia ser uma comida bastante gostosa.
No mesmo instante Henrique também apareceu, ainda secando os cabelos (que eram poucos) com a toalha, e se sentou na cadeira da ponta da mesa. A cachorra de Prímula também pareceu agradada pelo cheiro.
Prímula serviu a todos e eles comeram e beberam, até não agüentarem mais. Os hobbits gostaram da pizza, pois além de gostosa era um tipo de comida para pegar com as mãos, e isso eles sabiam fazer. Gostaram ainda mais da cerveja, apesar de ser um pouco mais forte do que eles pensaram que fosse.
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CAPÍTULO IX
Uma idéia quase perfeita

Após comerem, eles ainda ficaram sentados, conversando à mesa. Quem mais falava era Henrique; mas Prímula resolveu mudar de assunto e conversar um pouco sobre os hobbits e sobre a Vila dos Hobbits.
–Então, como foi que exatamente vocês chegaram até aqui? – Perguntou Prímula.
–Deve ter sido voando. – Brincou Henrique. Os hobbits o olharam com cara feia, e ele resolveu parar de fazer essas brincadeiras (pelo menos por enquanto).
–Não sei ao certo, Prímula, — disse Frodo – mas eu acho que foi quando colocamos o Anel no dedo.
–Anel, mas que anel? – Prímula ainda não sabia do anel.
–Ainda não contamos? – Perguntou Sam.
–Não que eu me lembre. Então contem, assim Henrique pára de falar um pouco, e também ele poderá ouvir como foi que vocês chegaram até aqui, e entenderá realmente de onde vêm.
Então Frodo e Sam contaram tudo desde a partida de Frodo para os portos cinzentos (incluindo o fato de que Gandalf possuía Narya, o Grande). – Bem, — continuou Frodo – eu e Sam estávamos caminhando, com destino à Vila dos Hobbits, quando paramos um pouco para descansar, e eu mostrei Narya para Sam, e nós o colocamos no dedo (os dois juntos); foi quando surgiu um clarão e um estrondo ensurdecedor, como se fosse um trovão, só que muito mais alto. – Sam concordava com a cabeça, ou dizia alguma exclamação de aprovação, como "isso mesmo". – Então percebemos que estávamos no mesmo lugar, mas as coisas estavam diferentes, como se tivéssemos andado no tempo; descobrimos que foi isso mesmo que aconteceu quando encontramos a estrada, e, consequentemente, Prímula.
–Daí em diante eu sei o que aconteceu. – Disse Henrique, surpreso em ouvir essa história quase inacreditável. – Então vocês vieram com Prímula até aqui e aqui estamos!
–Não precisaria ser muito esperto para deduzir isso. – Disse Sam com um certo tom de repugnância na voz.
–Ih, já vi que você não gostou de mim, baixinho.
–Vamos parar de discussão! – disse Prímula. – Sam, eu sinto muito pela perda de sua família, meus pêsames.
Tendo dito isso, Prímula reparou que Sam ficou um bom tempo sem falar nada, como se estivesse sufocando o choro. Então ela decidiu mudar de assunto.
–Então, Frodo, continuemos. Onde está o tal Anel que leva pessoas no tempo? Mostre-o para nós.
Frodo tirou o anel do bolso, e eles puderam ver que realmente o anel era muito grande, não era de admirar caber dois dedos indicadores, mesmo sendo de dois pequenos hobbits. Prímula e Henrique ficaram encantados com tamanha beleza. O anel era de ouro, mas não um ouro comum, esse ouro era diferente, tinha uma aparência pura e trazia uma sensação boa. E aquela pedra vermelha realçava a aparência, tornando-o mais belo ainda.
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–Posso tocá-lo? – Perguntou Henrique.
–C… Claro. – Respondeu Frodo meio relutante. – E colocou o anel sobre as mãos de Henrique, que estavam estendidas sobre a mesa.
Depois de muito examinar Henrique perguntou: –Como pode?
–O quê? – disse Frodo.
–Não, eu só estava pensando um pouco alto, mas já que perguntou, como é que um Anel pode ter tanto poder e beleza?
–Foi feito pelos elfos. – Se adiantou Sam. – E os elfos possuem poderes e fazem mágica.
–Não vou perguntar o que são elfos pois você ficaria anos e anos falando deles. Você fala demais! – Henrique tentou dar o troco.
–Não tanto quanto você.
–Vamos parar de brigar? – Disse Frodo. – Não chegaremos a lugar algum dessa maneira.
–Frodo tem razão. – Disse Prímula. – Estamos tentando descobrir a razão por que chegaram aqui, e não quem é mais chato.
Sam e Henrique ficaram um tanto cabisbaixos, mas nada que o tempo não resolva.
–Eu queria saber como é que vamos embora. – Murmurou Frodo.
–Mas não há registros, nada que fale sobre esse Anel? – Perguntou Prímula. – Vocês não sabiam desse poder antes de usá-lo? Nunca leram nada sobre ele?
–Registros? Ler? – Frodo pareceu ter uma idéia. – É isso! Por que não pensei nisso antes?
–O que foi? –Perguntaram todos ao mesmo tempo.
–Você tem lareira? – Perguntou Frodo a Prímula. O rosto de Sam se iluminou, ele entendera a idéia de Frodo.
–Não, mas…
–Não tem? Então eu posso fazer uma fogueira aqui?
–Fogueira? É fogo que você quer?
–Isso mesmo, eu tive uma idéia.
–Serve o fogo do fogão?
–Não sei se serve. Posso vê-lo?
Então Prímula levou Frodo e Sam para a cozinha, e Henrique foi atrás, curioso. Ela acendeu o fogão somente virando um botão e apertando outro. Sam admirou-se com a facilidade com que ela conseguia o que eles queriam.
–Acho que serve. – Disse Frodo. – E aproximou o Anel do fogo, segurando na pedra, para não se queimar. O anel já estava ficando um pouquinho mole quando ele resolveu tirá-lo. Ficou observando o anel por alguns minutos, tentando procurar alguma marca, mas nada.
Frodo passou o anel para Prímula: — Consegue ver alguma coisa? – Perguntou.
–Não, nada.
–Tem certeza? Talvez alguma escrita bem fina.
Prímula observou minuciosamente o Anel e depois o passou para Sam e para Henrique, mas ninguém enxergou nada.
–Como
sou burro! – Exclamou Frodo. – Eu me esqueci, pôr o Anel no fogo não adiantaria nada!
–Mas com o Um Anel funcionou. – Disse Sam.
–Isso porque o Um Anel foi feito por Sauron, e ele sentia falta do calor de sua mão. Mas Narya foi feito pelos elfos, e calor não adiantaria nada.
–Os elfos são um povo puro, — disse Sam – então temos que pensar em alguma coisa pura para envolver o anel. Talvez assim apareça alguma escrita.
–Será que água é pura o suficiente? – Arriscou Henrique. – Não entendo nada sobre elfos, mas talvez possa funcionar.
–Você tem razão. – Disse Frodo. E virou-se para Prímula: — Você poderia arranjar algum pote com um pouco de água limpa?
–Claro. – Virou-se e abriu uma prateleira que havia sobre a pia; pegou uma panela e a encheu com um pouco de água mineral. – Aqui está.
Frodo pegou a panela e colocou-a sobre a pia, então mergulhou o anel dentro da água. Esperaram alguns minutos antes de tirarem-no.
–Não consigo ver nada. Pelo menos não até agora. Talvez precise de mais tempo. – Disse Frodo. – Vamos esperar até amanhã.
–Sim, — disse Prímula – e além disso já passou da hora de irmos dormir. Vamos agora, e amanhã veremos o que o Anel terá a nos revelar.
Saíram da cozinha e foram até a sala. Prímula havia se esquecido de que era Sábado e não precisariam dormir cedo, mas Henrique a lembrou e todos ficaram conversando. Já estava ficando tarde, e Sam, que estava sentado ao lado de Frodo, começou a cabecear e lutar contra o sono, até não agüentar mais. De repente Prímula percebeu que Sam não falava nada e viu que ele estava dormindo.
–Nossa, já está muito tarde! Vamos, é hora de dormir. – Disse ela.
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CAPÍTULO X
A Decepção

Sam acordou ao ouvir Prímula chamá-los para dormir e levantou-se rapidamente. Sentiu-se um pouco envergonhado, mas logo passou.
–Vocês gostariam de tomar um banho antes de dormir? – Perguntou Prímula aos hobbits.
–Eu gostaria. – Disse Frodo.
–Eu também. – Completou Sam.
Prímula conduziu-os ao banheiro e colocou duas toalhas sobre a pia. Henrique foi para sua própria casa e prometeu voltar no dia seguinte para ajudá-los com o Anel.
–Para abrir a água quente, girem a torneira da esquerda, e para abrirem a fria, girem a da direita. – Disse Prímula. – Enquanto vocês tomam banho eu irei arrumar a cama de vocês, isso é, se não se importarem de dormir em um colchão no chão.
–De maneira alguma, — disse Frodo – dormimos em qualquer lugar que nos arranjar.
–Ótimo. – Disse ela. – Então, quem vai tomar banho primeiro? Eu só tenho um banheiro.
Os dois hobbits se olharam e depois de muitas gentilezas decidiram que Sam tomaria banho primeiro, pois ele estava mais sonolento. Enquanto Sam se divertia com as torneiras e com a temperatura da água, Frodo ajudou Prímula a colocar dois colchões no chão ao lado de sua cama.
Sam terminou de tomar banho 45 minutos depois, ele adorou tomar banho de chuveiro. Prímula deu-lhe uma camisola para vestir (Sam não gostou da idéia, mas era melhor do que colocar a roupa suja que estava antes) e ele deitou-se e logo adormeceu.
Depois que Frodo tomou banho, também teve que vestir uma camisola, então, todos dormiram.
No outro dia Frodo acordou e encontrou Prímula parada na porta do quarto, olhando para ele. Sam ainda dormia profundamente.
–O que foi? – Perguntou Frodo a ela.
–O Anel. Não há marca alguma nele.
–Não? O que faremos agora? Temos que descobrir outra maneira para voltar para casa.
–Bem, aqui está o anel. – Disse Prímula. – Ainda está molhado, mas não demonstra marca alguma. – E colocou o Anel na mão de Frodo.
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Frodo abaixou o rosto e ficou pensativo, ainda sentado no colchão. Depois levantou-se e foi para a cozinha, acompanhado de Prímula. Ela deu-lhe um copo de leite e algumas bolachas para comer. Ele comeu muito rapidamente e depois ficou sentado observando o anel pensativamente.
Minutos depois Sam apareceu, ainda com os olhos inchados de sono. Também comeu o desjejum muito rapidamente, e se sentou ao lado de Frodo. Ao ver o Anel e a expressão na face de Frodo e de Prímula, Sam deduziu que a idéia da água não havia dado certo.
Meia hora depois a campainha tocou.
–O que foi isso? – Perguntou Sam.
–Foi só a campainha, — disse Prímula – alguém a toca para dizer que chegou.
Prímula abriu a porta; era Henrique. Eles se beijaram e entraram.
–Foi bom você ter chegado, Henrique. – Disse Prímula. – Você pode fazer companhia a eles enquanto eu vou ao shopping comprar algumas roupas para os Pequenos vestirem.
Logo depois Prímula saiu e Henrique se sentou à mesa com os hobbits.
–E aí, gostaram de se vestirem como mulheres? – Brincou ele.
–Gostamos, quer um beijinho? – Disse Sam. Os três riram.
–Falando sério, agora. O que estava escrito no anel? – Perguntou Henrique.
–Nada, a idéia da água não deu certo. – disse Frodo.
–Foi idéia sua! – Disse Sam a Henrique.
–Foi uma boa idéia, sim! Pena que não funcionou, vou ter que aturá-lo por mais alguns dias, pelo visto, baixinho.
Logo Sam e Henrique já estavam discutindo. Frodo não estava prestando atenção, estava observando o Anel, procurando alguma pista, pensando em como voltaria para casa. Estava com muitas saudades de Bolsão, havia anos não o via, queria voltar a morar lá. Também queria rever Merry e Pippin, saber o que lhes aconteceu.
Os três nem perceberam o tempo passar. Logo Prímula já estava de volta e só então Henrique e Sam cessaram a discussão. Frodo ainda estava pensativo e levou um susto ao ver Prímula parada à sua frente.
–Comprei algumas vestes para vocês. Vejam se fica bem ao corpo, experimentem!
Sam foi para o quarto pôr as roupas, e Frodo foi para o banheiro. Ficaram felizes em se livrarem das camisolas. Depois de colocarem as roupas (que eram infantis), ficaram ainda mais parecidos com crianças.
–Estão uma gracinha! – Disse Prímula. – Não aparentam ter mais do que nove anos de idade.
–Mas eu não quero parecer uma criança! – Exclamou Sam indignado.
–Mas tem que parecer uma se quiser sair do apartamento e ir lá fora. – Disse Frodo. – Eu também não queria parecer, mas é necessário, não podemos sair por aí com roupas de hobbits.
Estavam vestindo calças jeans, camisetas com coletes e tênis.
–Um toque final. – Disse Prímula ao se aproximar deles com dois relógios de pulso na mão.
–O que é isso? – Perguntaram ambos os hobbits juntos.
–Relógios. Servem para marcar a hora. – Foi Henrique quem respondeu.
–Marcar a hora? Não vêem a hora conforme a posição do Sol? – Perguntou Sam.
–Sim, — disse Prímula – o relógio marca a posição do sol.
Ela agac
hou perto dos hobbits, pediu para estenderem os braços esquerdos e colocou os relógios em seus pulsos. – Pronto! – Disse ela.
–E como vemos a hora aqui? – Perguntou Frodo. Então Prímula ensinou-lhes. Sam ficou impressionado com a quantidade de coisas úteis que haviam no futuro, ele adorou o relógio.
Ficaram conversando durante horas, Frodo e Sam aproveitaram para contar-lhes a história da Guerra do Anel, sobre o Um Anel. Henrique e Prímula ficaram impressionados com as aventuras e os perigos que eles haviam enfrentado.
–Há tantas coisas estranhas assim lá no passado? – Perguntou Henrique.
–Não! Aqui é que há coisas estranhas. – Disse Sam.
–Não vejo nada de estranho aqui.
–Vamos parar logo antes que vocês comecem a discutir. – Disse Frodo.
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CAPÍTULO XI
A Luz

Sam e Henrique abaixaram as cabeças e todos se calaram. Sam foi o primeiro a quebrar o silêncio. Ele olhou no relógio e disse:
–Se não me engano, está na hora de comermos. Meio-dia, certo?
–Certo! – Disse Prímula. – Que tal irmos a um restaurante?
Saíram do apartamento e novamente estavam no corredor. Entraram no elevador e Sam vibrou de alegria quando a porta fechou:
–Daqui a pouco não estaremos mais aqui, certo?
–Certo, estaremos lá embaixo. Ou melhor, já estamos. – Disse Prímula.
A porta se abriu e estavam na recepção. Iam saindo quando o porteiro os abordou:
–Como vão as crianças? Estão indo passear?
Sam se segurou para não gritar (odiava ser chamado de criança). Mas Prímula respondeu:
–Estamos indo almoçar.
E saíram. Foram para a garagem do prédio e pararam em frente a um carro azul.
–O que é isso? – Perguntou Sam.
–Carro. Vamos com ele ao restaurante. – Respondeu Henrique.
–Pensei que fôssemos de moto. – Disse Frodo.
–O carro é meu, não de Prímula, e além do mais, não caberíamos todos na moto.
Meio intrigados os hobbits entraram no carro, no banco de trás. Quando partiram, Sam e Frodo ficaram satisfeitos com a comodidade do carro. Era muito melhor do que andar de moto ou a cavalo. Henrique acelerou muito e o carro atingiu uma grande velocidade na avenida. Chegaram ao restaurante rapidamente, e logo já estavam fora do carro esperando Henrique estacionar. Quando entraram no restaurante, Frodo e Sam se assustaram com a quantidade de pessoas, todas sentadas em mesas, comendo. Prímula e Henrique escolheram uma mesa no canto, bem no fundo do restaurante, pois não sabiam se os hobbits sabiam comer com talheres, e, se não soubessem, certamente passariam vergonha.
O garçom parou ao lado da mesa e perguntou o que gostariam de comer. Foi Henrique quem fez o pedido. Os hobbits comeram como se não comessem há dias (somente usando as colheres). Tomaram suco de laranja, pois Prímula achou que seria desagradável pedir cerveja para as supostas crianças tomarem.
A hora da sobremesa foi a hora que Sam e Frodo mais gostaram, pois nunca tinham comido doces tão saborosos. Depois de terem pagado a conta, Frodo e Sam experimentaram uma bebida surpreendentemente relaxante: café. Os dois hobbits nunca pensaram que viajar para o futuro pudesse ser tão gostoso.
Quando saíram do restaurante, um jardim (pequeno, mas belo) chamou a atenção de Sam.
–Veja, Sr. Frodo! Que belo jardim!
Frodo olhou para o jardim e fez-se a luz.
–Sam! O jardim! O jardim! – Disse ele.
–O que é que tem o jardim, Frodo? – Perguntou Prímula.
–É isso! – Disse Frodo no momento em que arrancava violentamente algumas folhas e flores.
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O gerente saiu do restaurante e parou ao lado de Frodo:
–O que pensa que está fazendo, moleque?
–Nada! – Respondeu Prímula. – Ele só está brincando, mas nós já estamos indo embora. – E pegou Frodo no colo e foi em direção ao carro.
–Ei, ponha-me no chão, eu posso andar sozinho! – Gritava Frodo.
Henrique e Prímula puseram Frodo e Sam no banco de trás do carro e saíram em um arranque. Frodo ainda segurava firmemente as flores e folhas, mas depois enfiou-as no bolso. Quando chegaram ao apartamento, Frodo correu e sentou-se em uma cadeira, tirando as folhas e colocando-as sobre a mesa.
–Por que você fez aquilo, Frodo? – Perguntou Prímula – O Gerente ficou bravo. Você estragou o jardim dele!
–E era um jardim muito bonito, Sr. Frodo. – Disse Sam – Não deveria ter feito aquilo.
–Mas Sam, você ainda não entendeu?
–Entendi o que?
Frodo estava impaciente. – Onde é que os elfos vivem? Do que eles mais gostam?
O rosto de Sam se iluminou:
–Eles vivem nas florestas, gostam de plantas e árvores!
–É isso, então! – Disse Prímula – As folhas! As flores!
Até Henrique pareceu radiante e feliz com a descoberta, mas continuou com seu jeito convencido:
–Se vocês tivessem me contado sobre os elfos, eu teria descoberto isso há mais tempo.
–Mas você disse que não queria ouvir! – Exclamou Sam.
–Não importa, deveria ter me contado do mesmo jeito.
–Parem de brigar! – Gritou Prímula.
Frodo impacientemente pegou o Anel e embrulhou-o nas flores e folhas. Após alguns instantes ele desembrulhou-o e observou. De seus olhos brotaram lágrimas.
–Consegui! – Gritou ele – A escrita apareceu!
Todos curvaram-se e se aproximaram se Frodo. Puderam ver linhas muito finas, iluminadas de um tom esverdeado, mas bem visíveis.
Do lado de fora do anel havia uma seguinte inscrição.
E do lado de dentro, uma mais extensa.
–Não consigo entender o que está escrito. – Disse Prímula – Parece um tipo de código!
–São Runas Élficas, — disse Sam – eu não sei todas, mas algumas eu entendo.
–Eu posso ler. – Disse Frodo.
–E o que está esperando? – Perguntou Henrique – Leia logo!
–Do lado de fora do anel a escrita diz: NARYA; no lado de dentro está escrito: II-FUTURO ,
 
III-PASSADO.
–O que quer dizer? – Perguntou Henrique.
–Mas não está óbvio? – Disse Frodo – A primeira inscrição é o nome do Anel; a segunda significa que se o anel for usado por duas pessoas, elas serão transportadas para o futuro, e se for usado por três pessoas, elas serão transportadas para o passado! O Anel é uma espécie de PORTAL!