Narn Vendeniel – Parte 06

Capítulo VI – Rumo à Lothlórien

No outro dia, Kalimë chamou Vendeniel antes do amanhecer. Esta se vestiu e preparou suas armas. Desceu e limpou sua espada enquanto tomava café. Desde que saíra do Salão de Varda não a tirava da bainha. Vendeniel começava a ficar impaciente com isso, queria encontrar logo uma utilidade para sua espada. Não que ela quisesse carnificina, um pouco de aventura não cairia mal.

 
    Partiram à cavalo pelo caminho deserto, em fila indiana. Elladan e Elrohir, Vendeniel, Haryon, Kalimë, Fingwë e Findar. As montanhas se aproximavam cada vez mais, e em conseqüência, o frio ia aumentando. Vendeniel e os elfos de Hennut não estavam acostumados à neve – em Hennut isso não existia. Mas já tinham visto-a, em Eldamar.
    Começaram a subir por uma passagem estreita e a neve já se amontoava aos seus pés. De vez em quando viam nuvens de corvos sobrevoando. Eram Crebain da Terra Parda, que espionavam para Saruman. Mas não tinham problemas com pássaros, eram apenas elfos indo para Lothlórien. A passagem pelas montanhas durou três dias, longos, frios e escuros. Começaram a descer e passaram pelo Lago Espelho, Kheled-zarâm dos anões e seguiram pelo rio Veio de Prata. Lá longe eles já podiam ver uma densa névoa dourada – a floresta de Lothlórien, que também era chamada de Floresta Dourada. No meio da tarde do quarto dia, eles chegaram a Lórien. Na orla da floresta foram barrados por sentinelas. Depois de explicarem serem filhos de Elrond, lhe foi permitido entrar, pois eram também filhos de Celebrían, e esta era filha de Celeborn, Senhor de Lórien.
    Ao anoitecer chegaram na cidade de Caras Galadhon. Ela era construída inteira em cima das árvores, que eram enorme Mallorns. Os sentinelas os levaram até um salão num dos Mallorns e lá estavam Galadriel e Celeborn, os Senhores de Lórien. Ao olhar para Galadriel, Vendeniel teve a instantânea certeza que a Senhora era uma Vanya.
    – Sinto imensa alegria em vê-los, meus netos! – disse Celeborn. – e também um imenso prazer em receber a Senhora Vendeniel de Além Mar, com sua comitiva!
    Vendeniel fez uma reverência. – Eu lhe agradeço por ser recebida com tanta gentileza, meu senhor!
    Então, Galadriel, que estivera imóvel e quieta, falou. – Você foi enviada por Elbereth. É uma valorosa guerreira, de coração puro e coragem, e ainda diz que não merece gentileza! Vendeniel Ahtangaear, é uma grande honra recebe-la aqui. – e Galadriel pousou seus olhos em Vendeniel, e parecia dar opções para ela. Foi como se ouvisse a bela voz da Senhora de Lórien dizer: Está numa encruzilhada. Você pode escolher entre viver em paz com o homem que ama ou partir para uma tênue felicidade distante. Vendeniel não agüentou aquele olhar por muito tempo. Galadriel olhou daquela maneira para todos os da comitiva, mas só Vendeniel e Haryon conseguiram suportar aquele olhar por mais tempo.
    – Gostaríamos de saber sobre a Comitiva do Anel, meu avô. – perguntou Elladan, e Celeborn começou a falar. Disse que a comitiva partira dali duas semanas atrás, e que haviam passado por Moria. Lá, depois de uma batalha contra um Balrog de Morgoth, Gandalf caiu no abismo de Durin. Mas não morrera, pois uma semana depois apareceu. Estava fatigado e foi vestido de branco. Caíra, mas não morrera, e subira as escadas intermináveis até chegar no alto da montanha. Lá derrubara o Balrog e morrera, mas foi ressuscitado e trazido à Lórien por Gwaihir, o Senhor das Águias. Ele partira para o sul quase que imediatamente. Depois que Celeborn contara tudo, eles jantaram e foram dormir. No outro dia, Vendeniel acordou cedo e estava andando sozinha. Ela ficara melancólica, porque esperava encontar Legolas em Lothlórien.
    – Nem sempre ocorre tudo como desejamos, Vendeniel. – disse uma voz feminina e grave. Havia uma mão em seu ombro, e na mão havia um anel de prata e diamante. Lembrou-se do que Elrond lhe dissera. Era Galadriel.
    Vendeniel levantou-se e virou-se para Galadriel. – Não percebi que a Senhora estava aí.
   – Se o coração se distrai, você se perde em pensamentos. – disse Galadriel. – eu não sei como eu posso aliviar seu sofrimento, Athangaear, mas espero que talvez isso a ajude. Alguém que previra sua chegada pediu que eu lhe entregasse.
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    Vendeniel recebeu de Galadriel um pequeno embrulho de seda. Ela o abriu cuidadosamente e leu um pequeno papel que havia ali. Estava escrito em uma caligrafia tengwar caprichosa e elegante:

Vendeniel,
Se você estiver lendo isso, está em Lothlórien e eu já fui embora daí. Gostaria de dizer que estamos indo para o sul, mas não sei se vamos para leste ou oeste. Gandalf caiu e Aragorn nos lidera. Sinto sua falta. Use isto para lembrar-se de mim.
Sempre seu, Legolas

    Ela viu que junto com o papel havia uma corrente de ouro, com um pingente que lembrava uma Elanor, com folhas de esmeralda e um miolo de diamante. Ela passou a mão cuidadosamente na flor e prendeu a corrente em seu pescoço.
    – Legolas Verdefolha lhe ama profundamente. Posso ver isso nos olhos dele. E você também o ama. Posso ver em seus olhos. – disse Galadriel.
    Vendeniel reverenciou Galadriel. – Agradeço-lhe de coração, Senhora. Isso alivia meu sofrimento e me deixa mais feliz. Mas eu não posso negar que tinha esperanças de encontra-lo aqui. Queria saber o que acontece com ele neste momento.
    Os olhos da Senhora de Lórien brilharam e ela sorriu. Pegou Vendeniel pela mão e a levou até uma espécie de câmara ao ar livre, onde paredes de pedra, árvores e hera separavam as duas do resto das pessoas. Ali estava a nascente do rio Nimrodel. E havia também uma jarra prateada e no centro um pedestal com uma bacia. Galadriel encheu a jarra na nascente e despejou-a na bacia. Então ela assoprou a água e falou:
    – Este é o Espelho de Galadriel. Ele mostra coisas que foram, coisas que são e coisas que podem ser. Você pode ver Legolas aqui, se desejar. Mas não toque na água!
    Vendeniel se aproximou do espelho. Olhou. Só via o céu acima dela. De repente, os mallorns se transformaram: eram altos pinheiros. Ela via o rio Anduin, e três pequenos barcos élficos ali. Eles desciam na margem oeste. E de repente, Orcs, muitos orcs. O corpo de Boromir estava cravejado de flechas. Orcs carregavam Merry e Pippin. Com um grito, Vendeniel saiu de perto do espelho.
    Estava soluçando. – Galadriel! O fim da Sociedade! Eu vi… Ele está em perigo!
    – Acalme-se! – disse Galadriel, doce e suavemente. – O espelho mostra algumas coisas que podem acontecer, outras não. Não posso garantir que o que você viu aí vai acontecer.
    – Galadriel, eu tenho que ir, tenho que ir para o sul!
   
– E você sabe para onde eles irão? Não faça isso, Vendeniel. Deixe que as coisas aconteçam por elas mesmas.

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    Vendeniel parou e pensou. – Eu, não sei… mas eu me guiarei pelo meu coração. Eu sinto… eles estão na margem ocidental. – Galadriel parou, imóvel e quieta. Estava pensando, medindo a coragem de Vendeniel. A Senhora de Lórien parou e sorriu.
    – Se é o teu coração que manda, vá! Eu não posso impedi-la. – nesse momento, Galadriel lembrou-lhe muito Varda. Vendeniel sorriu, abraçou Galadriel como se esta fosse sua mãe e correu aprontar as coisas.
    – Partir? – dizia Kalimë, – Já? Acabamos de chegar!
    Vendeniel não perdia tempo arrumando as suas coisas. O bilhete de Legolas ela guardou perto do seu peito, e a corrente também estava com ela. Fingwë e Findar, meio que sem entender, também estava arrumando as coisas deles. E Haryon sumira.
    A vanya não contou tudo aos amigos: contou que vira no espelho de Galadriel que a Sociedade do Anel estava com problemas, e que a guerra logo se iniciaria. Não dissera nada sobre a mensagem ou a corrente, e tinha certeza de que eles não perguntariam. De repente, Haryon entrou, seguido por Elladan e Elrohir. Ele estava lá, pronto para exercer sua "função" de irmão mais velho (mesmo que só por alguns minutos) e estava sério, e um tanto carrancudo.
    – Vendeniel. – disse ele. Quando falava naquele tom, era por que queria dar alguma ordem, ou dizer à irmã o que era certo. – Acabamos de chegar em Lórien. Por que partir.
Vendeniel olhou para o irmão e sorriu. – Ora, Haryon. Eu tenho que ir para o sul.
    – Porque imediatamente? Qual é a pressa? – dizia ele, sem ceder.
    – Por que eu vi no espelho de Galadriel que a guerra está para começar. Iremos na direção de Gondor. Se partirmos rápido, podemos alcançar Aragorn e a comitiva.
    Enquanto Vendeniel arrumava suas coisas, Elladan explicava rapidamente em Sindarin o que era o espelho de sua avó. Ele, Elrohir e Haryon estavam conversando. Vendeniel não quis prestar atenção. Por fim, Elladan falou.
    – Vendeniel, todos nós vamos com você.
    Ela olhou para Elladan. Porque ele estava dizendo aquilo? – Não, Elladan. Você não precisa ir. Eu vou para a guerra.
    – E nós vamos com você. – disse Elrohir. – Aragorn é como um irmão para nós e temos que ajuda-lo. Iremos de qualquer maneira, então você deve nos deixar ir com você. Será mais fácil para todos nós. – ele estendeu sua mão.
    Vendeniel sorriu e apertou a mão de Elrohir. – Então agora somos sete! Preparem suas coisas, então, pois nós partiremos hoje!
    Almoçaram. Galadriel provavelmente já havia falado com Celeborn, pois ele não fez nenhuma objeção à viagem deles. O Senhor e a Senhora de Lórien foram com eles até a orla da floresta. Galadriel vinha acompanhada de uma aia, que trazia um grande embrulho, comprido e fino. Quando estavam saindo, Galadriel pegou o embrulho e o colocou nas mãos de Vendeniel.
    – Tome. Isso lhe ajudará na guerra. – disse a Senhora, sorrindo. Vendeniel abriu o embrulho e se surpreendeu com um estandarte, bordado em pano azul. No centro, estava o brasão de Vendeniel: cheio de elanor, estrelas e com oito pontas que determinavam seu status em Hennut. – Este é o seu brasão, não é? Use-o na guerra, para que todos os seus inimigos lhe reconheçam e se desesperem com sua chegada.
    Galadriel beijou a fronte de todos da nova comitiva, e eles montaram nos cavalos e partiram. Cavalgaram como o vento, e em dois dias atravessavam o rio Limclaro. Passaram pela beira de Fangorn e desceram até o Tol Brandir em nove dias. Vendeniel parou e examinou o solo.
    – Pegadas… e também restos de fogueiras. Não tão recentes. Vamos! – disse ela, guiando os cavalos por entre as árvores. Chegaram à uma clareira grande e um cheiro podre invadiu seus narizes. Logo à frente haviam vários orcs mortos. – Houve uma batalha aqui. Acho que a comitiva foi atacada por esses orcs. Alguém foi levado. Mas já andaram mexendo nessas coisas. Acho que quem mexia deveria ser um bom caçador, pois soube identificar as pistas… Acho que era Aragorn.
    – De onde eles vieram? – perguntou Findar vendo um elmo. Ele possuía uma mão desenhada de branco e uma runa élfica "S".
    Elrohir tomou o elmo de Findar e olhou. – Não é de Sauron. Ele não permite que escrevam o seu nome e não usa o branco.
    Vendeniel pensou no que Gandalf dissera no Conselho. – Saruman… Rohan!
    – Sim, Gandalf disse que Saruman estava criando orcs em Isengard. – disse Elladan. – Saruman vai querer atacar Rohan. Se Aragorn identificou os sinais, o que é muito provável, irá até Edoras avisar o Rei Théoden. E se os rohirrim fugirem, irão para a fortaleza do Abismo de Helm.
    – Elladan, você conhece o caminho? – perguntou Vendeniel.
    Elladan sorriu. – Não muito bem. Mas veja, estamos perto das Ered Nimrais. Devemos seguir à oeste, pois o abismo fica na região entre as Hithaiglin e as Ered Nimrais. Vamos!
    Elladan montou e partiu rapidamente, os outros o seguiram. Em três dias, passavam em frente a Edoras, o centro de Rohan. A cidade estava vazia, então parecia que Elladan estivera certo. Continuaram galopando até uma espécie de riacho, que descia num buraco entre planaltos. Havia um pouco de sangue e marcas de pegadas de um homem adulto e de um cavalo. Mais à frente, havia um corpo de warg morto.