Narya – Parte 05

CAPÍTULO XXIV
De volta à Vila dos Hobbits

Todos concordaram com Prímula, e se sentiram mais aliviados. Foi como se seus corações estivessem muito mais leves. Pippin já estava melhorando. Ainda estava com dor de garganta e um pouco de febre, mas ao final da tarde estava espantosamente melhor.
–Acho que já podemos ir procurá-los agora, se quiserem. – Disse Pippin num murmúrio quase inaudível.
–Tem certeza de que já está melhor? – Perguntou Merry. – Já fomos descuidados demais com você.
–Tudo bem. – Respondeu com um novo murmúrio – Já estou melhor. Podemos ir.
 
Frodo olhou pela janela e viu que já não ventava mais. Não enxergou mal então em ir. Saíram da estalagem e foram para a toca de Guess. Mas não havia ninguém. Novamente partiram para a toca de Bolly. Novamente vazia.
–Acho que usaram o Anel. – Disse Merry.
–Não seriam tão loucos. – Disse Prímula.
–Onde estão, então? – Perguntou Frodo.
Prímula ficou vermelha e gritou, numa explosão:
–Ai, como pude ser tão burra?
–O que foi? – Perguntou Sam.
–Não acredito que viemos até aqui à toa! – Exclamou ela, furiosa com si mesma.
–Por quê? – Pippin murmurou com esforço.
–A Vila dos Hobbits!
–Será que ainda estão lá? – Perguntou Frodo, também se achando muito burro por não ter pensado nisso antes.
–Devíamos tê-los procurado por lá antes de virmos para cá. – Disse Prímula.
–Temos que voltar, então. – Disse Frodo – Antes que seja tarde demais. Já demoramos o suficiente vindo para cá.
Se apressaram para a estalagem para pegarem suas coisas, e rumaram rapidamente para a balsa. Atravessaram muito cuidadosamente o rio, principalmente Pippin, que não queria cair de novo.
Andaram o mais rápido que puderam. Pararam somente ao final da tarde para dormir, e no outro dia voltaram a andar.
Pippin já estava melhor. Ainda tinha a garganta ardendo e estava um pouco rouco, mas a febre havia passado. Caminharam rapidamente e só pararam para almoçar. Voltaram a andar, e no final da tarde já estavam na Vila dos Hobbits.
Foram para Bolsão para descansarem. Estavam todos exaustos. Dormiram cedo, para acordarem cedo no outro dia. Frodo teve um sono agitado, mas acordou totalmente descansado. Foi o primeiro a acordar, resolveu então preparar o desjejum e, depois de tudo pronto, foi acordar os outros.
Ninguém pareceu satisfeito ou feliz em ser acordado mais cedo do que o costume, mas depois de algum tempo já estavam todos despertados e dispostos para apanhar os ladrões.
{mospagebreak}
Depois de comerem muito rapidamente, os cinco saíram de casa para procurarem os dois hobbits pela vila. Frodo guardou as chaves no bolso e se pôs a falar:
–Eu procuro pelo norte. Você, Sam, vá para o oeste. Merry, você vai pelo leste. Pippin, pelo sul. Prímula, você vai com Pippin. Não se esqueçam: procurem pelas ruas e pelas estalagens. Não quero que fique uma estalagem sem ser revistada. Nos encontramos aqui na hora do almoço. – E partiu para o norte, em passos largos para um hobbit.
Os outros fizeram o mesmo, mas para suas respectivas direções. Sam foi para o oeste, Merry, para o leste. Prímula e Pippin foram para o sul. Olharam em todos os lugares. Procuraram por ruas, estalagens, campos, fazendas, por todo lugar, mas nem sinal deles.
O meio dia se aproximava e nada encontraram. Depois de muito procurar voltaram ao local combinado. Prímula e Pippin foram os primeiros a chegarem. Depois veio Merry, depois Frodo, e por último Sam.
–Não encontramos. – Disse Prímula.
–Eu também não. – Disse Merry.
–Nem eu. – Disse Sam.
–Acho que não estão na vila. – Disse Frodo. – Só se estiverem hospedados na casa de algum amigo.
–O seu amigo! – Exclamou Prímula. – Devem estar lá.
–Quem? – Perguntou Frodo. E os outros hobbits fizeram uma expressão no rosto de "como eu não havia pensado nisso?".
–Fatty! – Todos gritaram. – Vamos para a toca dele.
E foram. Chegando em frente, logo deduziram que havia alguém em casa, pois saía fumaça pela chaminé. Frodo bateu na porta. Não esperaram muito, e Fatty apareceu à porta.
–Olá. – Disse ele. – Que surpresa agradável! Entrem!
Os outros entraram.
–Sentem-se. – E apontou para as poltronas em frente à lareira.
Lá estavam sentados Bolly e Guess. Eles não haviam até então virado para cumprimentar os visitantes, apenas quando Fatty disse:
–Bolly e Guess ainda estão aqui. Foi bom vocês terem vindo. Assim podemos conversar bastante. Quanto mais pessoas para conversar, melhor!
Só então os dois hobbits se levantaram, e deram um sorriso (cínico, na opinião de Frodo).
–Como estão? – Perguntou Frodo.
–Estamos bem. – Eles responderam.
Todos se sentaram em frente à lareira. Frodo e Prímula em poltronas, mas Sam, Merry e Pippin tiveram que se ajeitar no chão.
Depois de conversarem durante algum tempo, Fatty os convidou para almoçar. Todos aceitaram, obviamente.
Foram para a cozinha e se sentaram à mesa, enquanto Fatty preparava a comida.
–E então… – Começou Frodo – Onde é que vocês dormem aqui?
–Em um quarto ao lado do quarto de Fatty. – Respondeu Guess. – Mas não pretendemos ficar muito tempo, mais alguns dias e voltaremos para os Buques.
–Ah, sim.
–Vocês estão calados hoje. – Disse Bolly, referindo-se a Prímula, Merry, Pippin e Sam.
–Nós? – Perguntou Prímula. – Imagine, só estamos um pouco cansados.
Se calaram por um tempo. Fatty serviu a comida e todos começaram a comer. Frodo estava um pouco inquieto na cadeira. Não poderia esperar mais. Tinha que procurar Narya e o Livro Vermelho.
–Vocês me dão licença? – Perguntou ele – Preciso ir ao banheiro.
–Claro, pode ir. – Disse Fatty. – Sabe onde fica?
–Sei, sim, obrigado. Já se esqueceu que eu já vim muitas vezes aqui?
–Claro! Desculpe-me.
E Frodo se levantou, encostando a porta ao sair da cozinha. Caminhou não rumo ao banheiro, mas ao quarto onde Bolly e Guess estavam hospedados.
Entrou silenciosa e sorrateiramente no quarto. Revirou tudo cuidadosamente, tomando cuidado para não deixar nada fora do lugar. Dentro da gaveta do criado-mudo encontrou uma caixa. Frodo fico feliz. "Encontrei" pensou ele, mas se decepcionou ao abri-la, pois nela só encontrou um par de sapatos. Colocou a caixa de volta no criado-mudo e voltou à cozinha, desapontado. É claro que eles deviam guardar Narya e o Livro Vermelho em um lugar mais seguro, talvez até nos próprios bolsos. Enfim, Frodo voltou à cozinha e se sentou, continuando a comer.
Depois de todos comerem, foram se sentar à lareira. Conversaram muito pouco, e Frodo já se ofereceu para ir embora:
–Fatty, temos que ir embora. Obrigado pela recep&ccedi
l;ão e pelo almoço, mas agora estamos indo.
Se despediram, e Frodo, Prímula, Pippin, Merry e Sam saíram da toca.
–Encontrou? – Perguntou Prímula logo após terem dado alguns passos para longe.
–Não.
{mospagebreak}
CAPÍTULO XXV
Uma emboscada

–Não encontrou? – Gritaram todos.
–Não. Procurei pelo quarto todo, mas não os vi em lugar algum.
–É claro. – Disse Prímula – Nenhum ladrão iria deixar algo que roubou em algum lugar desprotegido, para alguém ver. Bolly e Guess devem ter guardado o Anel e o Livro Vermelho em algum lugar mais seguro, talvez em seus próprios bolsos.
–Foi justamente isso que pensei. – Disse Frodo – Por isso voltei rápido para a cozinha. Temos que arranjar outro jeito para conseguir de volta as coisas que eles roubaram.
–Não está pensando em saqueá-los, está? – Perguntou Pippin a Frodo.
–Foram eles quem roubaram primeiro. – Respondeu com um sorriso malicioso.
–Então, — disse Merry – vamos esperá-los aqui fora. Quando saírem, nós os agarramos e fazemo-los contar tudo.
–Boa idéia. – Disse Frodo. – O que você acha, Sam?
–Eu? Bem, eu acho que não devemos fazer nada a força. Temos que esperar, não fazer nada precipitado.
–Eles é que foram precipitados demais quando roubaram o Anel e o Livro no primeiro dia em que me visitaram.
–Você tem razão. – Disse Prímula – Não devemos perdoá-los. Se esperarmos mais, pode ser que seja tarde demais.
–Então está certo. – Disse Frodo, indo em direção à toca de Fatty.
–O que vai fazer? – Perguntou Merry – Vai bater na porta e perguntar "Onde está meu Anel e meu Livro?"
–Claro que não! – Disse Frodo. – Precisamos ser imprevisíveis.
E não disse mais nada, apenas andou para a direção da toca. Os outros o seguiram, já que não pensaram em mais nada a fazer. Mas o que será que Frodo estaria pensando?
–Venham! – Murmurou Frodo tão baixo que somente seus companheiros puderam ouvir. E se abaixou ao lado da casa, atrás de uma moita.
–Agora entendi. – Disse Merry – Vamos fazer uma emboscada!
Os outros também se abaixaram atrás da moita, que era bem grandinha, podendo abrigar todos sem precisarem se espremer. Tiveram que esperar algumas horas antes de ouvirem a porta ranger. Frodo apurou os ouvidos, mas não ouviu nada; ergueu-se cuidadosamente e pôs a ponta da cabeça para fora da moita. Não eram os dois ladrões, era Fatty Bolger, e estava sozinho. Ele estava indo para o centro da Vila, para fazer compras.
Frodo abaixou-se novamente e fez um sinal de negativo com a cabeça para seus amigos. Eles entenderam, e se desanimaram. Essa idéia de fazer uma emboscada estava ficando excitante. É muito emocionante saquear alguém, principalmente se estamos saqueando ladrões.
Esperaram mais alguns minutos. Meia hora depois a porta rangeu-se novamente. "Tomara que não seja Fatty voltando" pensou Frodo, levantando a cabeça para poder enxergar.
–Bolly e Guess! – Murmurou Frodo.
Os outros se animaram.
–Quem vem comigo? – Perguntou Frodo. – Preciso somente de uma pessoa.
–Eu vou. – Murmurou Prímula.
{mospagebreak}
Sorrateiramente os dois caminharam para perto dos ladrões. Chegaram por trás silenciosamente e taparam suas bocas, para que não pudessem gritar. Era uma sorte que não havia ninguém na rua a essa hora para presenciar o que acabaram de fazer. Frodo segurou firmemente a boca de Guess, e com a outra mão segurou seus pulsos. Prímula fez o mesmo com Bolly, e os dois foram puxados para trás da moita.
–Não gritem. – Disse Frodo – Se não só será pior para vocês mesmos.
Os dois fizeram um sinal positivo com a cabeça, e Frodo soltou a boca de Guess. Prímula soltou a de Bolly, mas ambos ainda mantinham as mãos firmemente segurando os pulsos dos prisioneiros.
–Comecem a falar! – Ordenou Frodo. Pippin, Merry e Sam ficaram somente observando. Frodo era bom mesmo em preparar emboscadas.
–Falar sobre o quê? – Perguntou Bolly, assustado.
–Não finja de idiota! Você sabe muito bem. Fale-nos sobre o roubo!
–Não sabemos do que está falando!
–Sabem muito bem! Não demorem, contem logo! – Ordenou Prímula.
–Já disse que não sabemos de nada! – Disse Bolly.
–Será pior para vocês. – Disse Frodo. Virou-se para seus amigos – Comecem a revistá-los.
Merry e Pippin começaram a revistá-los enquanto Prímula e Frodo seguravam-nos firmemente. Sam somente observava, horrorizado. Nunca vira seu mestre tão furioso.
–Não consigo encontrar. – Disse Merry.
–Eu também não. – Disse Pippin, ambos ainda revistando.
–Talvez não tenham trazido consigo. – Disse Prímula.
–Para onde é que vocês iam? – Perguntou Frodo.
–Passear um pouco. – Disse Guess. – Estava muito monótono ficar dentro de casa. Íamos andar por aí.
–E onde está? – Perguntou Frodo.
–Onde está o quê? – Perguntou Bolly.
–Ora! — Disse Frodo, largando os pulsos de Guess. – Não se façam de tontos! – Mas nesse instante, Guess se levantou rapidamente e saiu correndo, como o vento. Bolly aproveitou a oportunidade e se desvencilhou de Prímula. Correu também para bem longe.
–Não acredito! – Disse Frodo – Eles fugiram!
Levantou-se e correu para a porta da toca, tentando abri-la, mas essa estava trancada.
–Fatty deixa as chaves com Bolly e Guess? – Perguntou Frodo, revoltado. – Não deixo as minhas com ninguém! Fatty confia demais nos outros!
E saiu a passos largos rumo a Bolsão. Os outros o seguiram.
{mospagebreak}
CAPÍTULO XXVI
Verdade

–Como foi que pude deixar eles escaparem? – Gritava Frodo, revoltado.
–Calma! – Disse Prímula – Não foi culpa sua. De qualquer forma, não adianta chorar leite derramado.
–Não se preocupe, Sr. Frodo. – Disse Sam, animando-o. – Vamos encontrá-los novamente.
–Tomara que sim, Sam. Tomara que sim.
Caminharam rapidamente, e, dentro de poucos minutos já estavam em frente a Bolsão. Frodo levou um susto quando olhou para sua toca. A pequena porta redonda estava aberta, com a fechadura quebrada.
–Arrombaram a porta! – Gritou Frodo.
Neste instante apareceu um vizinho (já bem velho) de Frodo, saindo de Bolsão.
–Parece que tentaram roubar alguma coisa. – Disse o velho.
–O que o senhor está fazendo dentro da minha casa? – Perguntou Frodo, ainda mais revoltado.
–Calma, meu jovem. Eu só estava olhando.
–Olhando? Olhando o quê? Você viu quem arrombou a porta?
–Não vi, mas acho que quem arrombou não levou nada.
–Como é que o senhor sabe? – Perguntou Frodo – Você não sabe as coisas que haviam aqui para dar falta de alguma delas.
–Não sei, mas qualquer ladrão que se preze iria fazer um pouco de bagunça para procurar algum objeto de valor. Nã
o há bagunça alguma.
–Você entrou na minha casa só para ver se o ladrão fez alguma bagunça?
–Claro que não, seu mal agradecido. Eu entrei para ver se você estava em casa. Se estivesse, poderia estar machucado. Ladrões não são crianças com quem a gente brinca.
–Desculpe-me. – Disse Frodo, abaixando a cabeça.
–Mas acho que o ladrão não roubou nada. – Voltou a falar o velho.
–Como o senhor sabe?
–Qualquer ladrão roubaria um anel de ouro se estivesse à vista.
–Que anel de ouro? – Perguntou Frodo, ansioso.
–Um anel com uma pedra vermelha que está em cima do seu criado mudo.
–Anel com uma pedra vermelha? – Disse Frodo, mas não ouviu a resposta que o velho deu, apenas saiu correndo em direção a seu quarto.
Os outros obviamente saíram correndo atrás de Frodo, para verificar se era de Narya que o Velho estava falando. Chegando lá, Frodo viu o Livro Vermelho sobre seu criado-mudo. Em cima dele jazia Narya, com sua escrita em verde mais acesa do que nunca, iluminando sozinha o quarto todo, chegava até a ofuscar.
–Narya! – Gritou Frodo. – Está aqui! E o Livro Vermelho também!
Prímula deu pulinhos de alegria. Merry, Pippin e Sam olhavam espantados para as runas no Anel. Elas estavam realmente muito belas. Parecia que o Anel havia sido tocado por um elfo, de tão luminoso que estava. Normalmente o Anel não mostrava marca alguma quando não era tocado por nenhuma planta.
Frodo levantou o Anel e fitou-o por um longo tempo.
–Como foi que ele veio parar aqui? – Perguntou para si mesmo.
–Talvez Bolly e Guess tenham se arrependido. – Disse Pippin.
–Acho que pressionamos demais os dois. – Disse Prímula, rindo.
–Bem, seja o que for, — disse Frodo – já devolveram o Anel, o que significa que se arrependeram do que fizeram. Não importa que tenham arrombado a porta para devolvê-lo. – Colocou o Anel de volta sobre o criado-mudo e pegou o Livro Vermelho. – Estava com saudades de você! – E abraçou o Livro carinhosamente.
–Estou com fome. – Disse Sam – Que tal comermos alguma coisa para comemorar?
Todos foram alegremente para a cozinha, e desta vez Frodo levou consigo o Anel e o Livro.
Foi Frodo quem preparou a comida. – Hoje é por minha conta! – Disse ele. Cearam um banquete magnífico. Frodo havia caprichado, tamanha era sua alegria.
Comeram fartamente, e foram para a sala. Frodo levou o Anel e o Livro. Conversaram longamente.
–Posso ver o Livro? – Perguntou Prímula – Você prometeu que deixaria eu ver.
–Tudo bem! – Disse Frodo, entregando com o maior cuidado o Livro nas mãos de Prímula.
Ela folheou e observou várias páginas. Enquanto isso, Frodo fitava o anel. De repente ele viu em Narya uma pequena mancha dourada mais fosca.
–O que é isso? – Perguntou a si mesmo, passando o dedo por cima da mancha. – É um pedaço de folha de mallorn! Acho que Bolly e Guess resolveram envolver o Anel em uma folha de mallorn. Foram bem espertos.
–Frodo! – Chamou Prímula. – Você disse que não havia escrito nada sobre Narya no livro. Mas aqui tem várias anotações sobre ele. – E mostrou o Livro a Frodo.
Frodo ficou pasmo e branco ao ver aquelas anotações.
–Não acredito! – Disse ele. E todos olharam assustados. – Essa letra não é minha! É do… não acredito que você possa ter feito isso… Sam?
{mospagebreak}
CAPÍTULO XXVII
Explicações

Sam ficou branco, como se tivesse visto algum monstro.
–Não acredito, Sam… – Disse Frodo. – Quer dizer que Bolly e Guess são inocentes?
–Eu… eu… – e caiu de joelhos – Desculpe-me, Sr. Frodo!
Todos olhavam para Sam surpresos, como se ele fosse alguma criatura nunca vista antes.
–Eu explico! – Gritou, em prantos. – Foi sem querer, eu tentei explicar antes.
–Calma, Sam! – Disse Prímula. – Acalme-se, e conte tudo, desde o começo.
–Eu… – deu um suspiro – eu peguei o Anel e o Livro…
–Como pôde, Sam? – Perguntou Frodo, indignado.
–Deixe ele contar, Frodo! – Disse Prímula.
–Como eu estava dizendo… – Sam continuou, ainda chorando muito – eu peguei o Anel e o Livro para fazer uma experiência. Queria fazer uma surpresa para vocês. Então eu pus os dois em uma caixa, e disse que eram sementes que eu iria plantar sob o pé de mallorn. Na verdade eu fui para o pé de mallorn, mas foi para envolver o Anel, e ver o que acontecia para anotar no Livro Vermelho. No primeiro momento, apareceram somente as escritas, feitas em runas élficas, depois a intensidade da luz foi aumentando, até que o Anel inteiro explodiu em chamas. Essas chamas não eram de um vermelho comum, eram da cor da pedra, exatamente da cor da pedra que há sobre o Anel. O fogo também não era quente. Pelo contrário, era refrescante, trazia uma sensação de prazer à mão. Anotei tudo o que descobri no Livro. Anotei também um pouco sobre nossa viagem. Começou a ficar tarde, já estava anoitecendo quando percebi que estava na hora de voltar para casa. No meio do caminho encontrei o Sr. Frodo, que estava desesperado. Eu ia contar a ele sobre minha descoberta, mas ele me interrompeu, dizendo que haviam roubado o anel. Eu tentei contar que eu havia pego para fazer uma experiência, mas ele não me deu ouvidos, apenas ficou dizendo que Bolly tinha roubado. Tentei novamente contar, mas fui interrompido. O Sr. Frodo disse que nunca perdoaria o ladrão do Anel, mesmo sendo um amigo. Então eu fiquei com medo de contar. "O Sr. Frodo nunca me perdoaria" pensei, e resolvi esperar por uma oportunidade para devolver o Anel sem ser notado. Encontrei essa oportunidade tão esperada quando o Sr. Frodo pediu para irmos procurar Bolly. Nos separamos, e, ao invés de procurar Bolly e Guess, vim a Bolsão para devolver o Anel. A porta estava trancada e eu não tinha a chave, então resolvi arrombar. Peguei a caixa (que estava no meu quarto) e tirei o Anel e o Livro. Coloquei-os sobre o criado-mudo de Frodo. – Deu outro suspiro – E foi isso. Espero que me compreendam, e me desculpem.
–Oh, Sam! – Disse Frodo, comovido – Por que não me disse logo que tinha pegado o Anel e o Livro para fazer anotações? Eu iria entender, eu estava nervoso quando disse que não perdoaria o ladrão. Não estava falando sério.
–Então você me desculpa?
–Claro!
Sam começou a chorar novamente, desta vez não de medo, mas de emoção.
–Obrigado, Sr. Frodo. Você é o melhor mestre do mundo.
Frodo abraçou Sam longamente, e depois Prímula, Pippin e Merry o abraçaram.
–Vocês são os melhores amigos que um hobbit poderia ter! – Exclamou ele, comovido. – Se eu fosse algum de vocês eu não me perdoaria.
–Mas você não é nenhum de nós. – Disse Prímula – E nós o perdoamos.
Sam sentiu-se aliviado depois disso. Aquele Anel e o livro guardados em seu armário eram um peso em sua consciência. Mesmo depois de devolvê-lo Sam ainda sentia-se mal. Sentiu-se mais leve apenas quando contou a verdade a seus amigos. Era muito
bom desabafar. A cada palavra que dizia sentia-se um quilo mais leve.
–Depois de tanta explicação, — disse Sam – tudo o que eu desejo agora é um bom banho e uma cama quentinha. – Todos riram.
–Vamos, Sam. – Disse Frodo – Tivemos um dia muito cansativo hoje, principalmente para você. Merece um bom descanso.
–Obrigado, Sr. Frodo.
Sam estava saindo, quando Frodo disse:
–E não se esqueça, Sam: sempre que for pegar algo para fazer experimentos, me avise. Eu poderia ajudá-lo nisso. Adoro fazer experimentos.
Sam deu uma risada alta e contagiante, e saiu da sala, em direção ao banheiro. Entrou na banheira com água fumegante e sentiu-se flutuando, tamanho era seu alívio. "Nunca mais faço surpresa alguma" pensou ele.
Depois de algum tempo, Frodo, Prímula, Merry e Pippin também se levantaram para tomarem um banho para dormir. Todos estavam muito mais aliviados e reconfortados, tendo descoberto toda a verdade.
Depois de todos tomarem banho, foram dormir felizes. Essa foi a primeira noite em que todos dormiram sossegados, desde o desaparecimento de Narya.
{mospagebreak}
CAPÍTULO XXVIII
Um Pedido de Desculpas

Sam acordou e pensou "Hoje eu conto a verdade". Só depois se lembrou de que já havia contado tudo, e isso o fez se sentir feliz e leve. Foi ao banheiro para lavar o rosto, e depois rumou para a cozinha. Chegando lá, viu que Frodo, Prímula, Merry e Pippin estavam conversando, ao mesmo tempo em que comiam o desjejum. Sam se juntou a eles, e se sentou à mesa.
–Estou morrendo de fome! – Disse ele.
–Nossa, parece que você está bem mais alegre hoje. – Disse Prímula.
–E estou. Me sinto muito melhor depois de ter contado toda a verdade. Livrei-me de um peso!
–Que bom! – Disse Frodo – Agora só nos resta pedir desculpas a Bolly e Guess.
–Verdade. – Disse Pippin – Mas depois de tudo o que fizemos contra eles, eles merecem é uma festa como pedido de perdão.
–Isso é até demais. – Disse Merry – Eu não diria uma festa, mas acho que uma ceia comemorativa cairia bem.
–Concordo. – Disse Sam.
–Vamos convidá-los, então. – Disse Frodo – Esta noite será a Ceia de Desculpas.
–Mas e se nós não os encontrarmos? – Perguntou Prímula. – Eles podem ter ido embora, magoados.
–Iremos atrás deles. – Respondeu Frodo. – Nunca deixarei um amigo ofendido se ele for inocente. Preciso pedir desculpas. Não me sentirei bem pelo que fiz, não enquanto não me desculparem.
–Então vamos logo! – Disse Sam – Antes que eles resolvam realmente partir.
Acabaram com o desjejum e saíram de Bolsão, para procurarem Bolly e Guess. Foram até a toca de Fatty. Bateram na porta.
Foi Bolly quem atendeu a porta, mas no instante em que viu quem eram, fechou a porta imediatamente e a trancou.
–Não sei de nada sobre roubo nenhum. – Disse ele – Eu já disse!
–Mas não viemos perguntar nada! – Disse Prímula.
–Viemos pedir desculpas! – Exclamou Frodo.
Bolly hesitou um pouco, mas acabou abrindo a porta.
–Quem está aí? – Perguntou Guess, aparecendo no corredor. Mas não esperou resposta alguma; no momento em que viu quem eram, saiu correndo para o lugar de onde tinha chegado.
–Volte, Guess! – Gritou Frodo. – Viemos pedir desculpas!
{mospagebreak}
Instantes depois ele voltou, meio inseguro.
–Viemos pedir desculpas – disse Frodo novamente – e convidá-los para uma ceia.
–Uma ceia? – Perguntou Bolly.
–Sim. – Disse Prímula. – Queremos que aceitem nossos sinceros pedidos de desculpas.
–Mas por que fizeram aquilo conosco ontem? – Perguntou Guess, ainda mantendo uma certa distância dos recém chegados.
–Foi tudo um mal entendido. – Disse Sam.
–Haviam roubado algumas coisas nossas, — disse Merry – mas depois descobrimos que não roubaram, apenas pegaram emprestadas.
–E quem foi? – Perguntou Guess.
–Isso não vêm ao caso. – Disse Pippin, logo depois dando um sorriso para Sam.
–Então… – Começou Bolly – Acho que aceitamos o convite.
–Falando nisso, — disse Frodo – onde está Fatty?
–Foi fazer umas compras. – Guess respondeu, já um pouco mais próximo. – Esqueceu de algumas coisas ontem, e foi buscá-las hoje.
–Digam a ele que também está convidado. – Pediu Frodo.
–Diremos. – Disse Bolly.
–Então… – Disse Prímula – esperamos vocês à tarde lá em Bolsão.
–Está certo, então. – Disse Bolly.
Os visitantes saíram pela porta, e Bolly a fechou, sentindo-se mais aliviado.
O dia passou rápido, e a tarde logo chegou. Logo que o Sol se pôs bateram na porta. Frodo foi atender. Eram Fatty, Bolly e Guess.
–Que prazer tê-los aqui! – Disse Frodo. – Entrem! Sintam-se em casa.
Os três entraram, e Frodo fechou a porta. Do corredor apareceram Prímula, Sam, Merry e Pippin. Todos se cumprimentaram e se sentaram diante da lareira, pois ainda era muito cedo para cearem, mas não cedo demais para uma boa conversa. Frodo explicou tudo, sendo ajudado por Prímula, Merry e Pippin. Só Sam não dizia nada. Não contaram apenas quem foi que pegou o Anel e o Livro. Essa parte Frodo achou melhor omitir, disse-lhes que fora um amigo quem pegou o Anel para embrulhar na folha de mallorn e fazer anotações. Sam sentiu-se um pouco culpado. Quase chegou a contar que esse amigo era ele, mas depois achou melhor não dizer nada.
A tarde passou rapidamente, e a noite logo chegou. Foram enfim cear. Prímula já havia deixado tudo preparado, e depois só tiveram que arrumar a mesa. Banquetearam alegremente, contando histórias, vezes por outras cantando, e sempre, sempre rindo. Riam muito.
Tudo que é bom dura pouco, e a noite também passou muito rápida. Bolly, Guess e Fatty tomaram um bom vinho acompanhados de Prímula, Frodo, Merry, Pippin e Sam. Sam também riu muito, cantou, parecia outra pessoa, pois estava se sentindo muito mais aliviado; estava à vontade. Depois, os três convidados foram embora, e Bolly e Guess aceitaram muito bem o pedido de desculpas. Enfim, tudo acabou bem.
Depois de arrumarem toda a bagunça (Prímula não se ofereceu para lavar a louça, pois isso dava-lhe dor nas costas, mas ajudou em outras coisas), todos foram tomar um bom e reconfortante banho, para depois irem dormir.
{mospagebreak}
CAPÍTULO XXIX
A Viagem

Durante uma semana todos viveram alegres, e Prímula, com sua máquina fotográfica, fotografou cada metro da Vila dos Hobbits (ela havia levado muitos filmes). Mas chegou a hora de partirem.
–Está na hora de irmos. – Disse Prímula – Henrique estará me esperando naquele lugar daqui a cinco dias.
–Vocês combinaram data? – Perguntou Merry.
–Combinamos, — respondeu Prímula – pois é muito longe aquele lugar da Cidade onde eu vivo, que, coincidentemente, é aqui, mas no futuro.
–Então por que você e Frodo não colocam o Anel aqui mesmo? – Perguntou Pippin.
–É muito perigoso, Pippin. Alguém pode nos ver. Aquela cidade é muito po
pulosa, e muito maior do que essa vila. Decidimos que o melhor lugar para colocarmos o Anel seria lá, perto dos portos cinzentos, onde não há ninguém por perto, a não ser a estrada que passa por lá.
–Então acho melhor já irmos arrumando nossas mochilas. – Disse Frodo – Partiremos amanhã, logo depois da aurora.
–Eu irei com vocês, Sr. Frodo. – Disse Sam.
–Nós também. – Disseram Merry e Pippin.
E todos foram arrumar suas mochilas. Colocaram nelas poucas roupas, pois queriam deixar espaço o suficiente para bastante comida. Em pouco tempo já estava tudo arrumado. Só tiveram que esperar o tempo passar. Logo a noite chegou, e eles jantaram uma ceia de despedida. Prímula estava alegre, pois veria Henrique novamente; mas por outro lado estava triste, pois perderia seus amigos.
–Vamos fazer um brinde! – Disse Frodo, levantando seu cálice – À Prímula!
E todos levantaram os seus também, e bateram uns nos outros, produzindo um barulho fino de metal polido. Depois beberam tudo de uma só vez. Não falaram mais nada depois, apenas comeram. Não lavaram a louça após comerem, deixaram todos os pratos e cálices sobre a mesa. Foram diretamente para a sala. Ficaram sentados conversando durante horas, mas não ficaram até tarde. Foram dormir cedo, pois no outro dia teriam de acordar cedo, também.
Depois de um sono tranqüilo, todos acordaram dispostos. Comeram o desjejum rapidamente e colocaram as mochilas nas costas (a de Prímula ainda estava um pouco rasgada, por causa do warg). Frodo abriu a porta e todos saíram. As chaves foram guardadas na mochila de Frodo, e depois de uma última fotografia, todos começaram a caminhar. Bolsão foi ficando para trás, e atrás deles saltitavam várias crianças, dispostas a acompanharem Prímula.
Quando chegaram nas fronteiras da Vila dos Hobbits, Prímula teve que pedir às crianças para que elas não a seguissem mais, pois ela estava indo embora. As crianças não queriam que ela fosse, mas deixaram, quando Prímula prometeu que voltaria. Então eles continuaram a viagem.
–Você vai voltar mesmo? – Perguntou Pippin, meio confuso.
–É claro que não! – Disse Merry. – Você não percebeu que ela só disse aquilo para as crianças não chorarem?
Pippin não respondeu, apenas murmurou em voz baixa, para si mesmo:
–Seria bom se ela voltasse.
–Eu também gostaria de voltar, Pippin.
Pippin olhou para cima, não pensou que ela fosse escutar.
–E por que não volta? – Perguntou Sam.
–Eu já disse, não posso. – Abaixou a cabeça – Henrique não viria comigo, e eu não virei sem ele.
–E se nós o convencêssemos? – Perguntou Frodo.
–É quase impossível, — respondeu Prímula – mas você pode tentar, se quiser.
–Então eu tentarei. – Disse Frodo – Me aguardem! – disse olhando para Merry, Pippin e Sam – Por que quando eu voltar, Prímula e Henrique virão comigo.
Os outros deram risada, inclusive Prímula, embora ela achasse que não voltaria mais.
Lentamente a Vila dos Hobbits foi se distanciando, e lentamente eles estavam cada vez mais próximos de nunca mais verem Prímula. Mas isso não fez com que perdessem o senso de humor e a alegria, pelo contrário: cada vez mais eles faziam brincadeiras e riam, para aliviarem a tensão da partida.
Quando o relógio de Prímula apitou, todos pararam. Eles sabiam que o relógio apitava ao meio-dia. Pararam para comer e descansar, mas logo voltaram a andar. A estrada ia serpenteando, subindo e descendo colinas, e, a cada passo que davam, mais perto do final estavam.
No fim da tarde pararam em uma estalagem para dormirem. Frodo sonhou com o dia tão esperado: o dia em que ele e Prímula colocariam o Anel e voltariam para o futuro. No sonho ele viu Prímula e Henrique se beijarem, depois, os três montaram no carro e foram para a Cidade. No meio do caminho Henrique perguntou para Prímula se ela havia gostado da viagem. Ela balançou a cabeça, dizendo que sim. Depois, chegaram ao apartamento, e Frodo convenceu Henrique a voltar com eles. No outro dia bem cedo estavam voltando ao local de partida; os três colocaram Narya e voltaram para o passado. Sam, Merry e Pippin os receberam calorosamente, felizes em saber que Prímula estava de volta.
Frodo acordou feliz. Ele viu que todos os outros já estavam acordados, comendo o desjejum na sala da estalagem. Sentou-se com eles e começou a comer.
–Você vai voltar, Prímula. – Sussurrou Frodo, de repente, ao ouvido dela.
–Como você sabe?
–Tive um sonho. Sonhei que você, eu e Henrique voltamos, e vocês ficaram morando aqui conosco para sempre.
–Seria bom, se fosse verdade.
Cessou-se o assunto. Todos voltaram aos quartos e arrumaram suas mochilas. Colocaram um pouco mais de comida e partiram.
{mospagebreak}
CAPÍTULO XXX
Troll!

Ainda fazia frio, mas a caminhada esquentava seus corpos. Não havia mais neve, pois o inverno estava chegando ao fim. Estava fazendo um dia nublado, com muitos pássaros cantando a toda volta, e os quatro hobbits e Prímula andavam devagar, pois não tinham pressa: ainda faltavam quatro dias para Henrique ir ao local combinado para buscá-los.
Chegaram à fronteira do Condado, e todos estavam inseguros.
–Por que não combinaram de se encontrar em um local mais seguro? – Perguntou Pippin – Não gosto de estar fora do Condado, a não ser quando estou em Gondor.
–Já expliquei, Pippin! – Disse Prímula – O local que escolhemos é o local mais seguro.
–Mais seguro? – Retrucou ele – Não é seguro estar lá. Há orcs, lobos, trolls, e muitos animais selvagens.
–Não é desse tipo de segurança de que estamos falando. – Disse Frodo – Você não entende, Pippin? Perto da cidade é perigoso, alguém pode nos ver aparecer. Seria uma cena um pouco embaraçosa se nós aparecêssemos de repente bem em frente de uma multidão, não acha?
Pippin não respondeu, apenas abaixou a cabeça.
–Foi você mesmo quem optou por vir, Pippin. – Disse Merry – Agora não há volta, a não ser que você volte sozinho.
–Eu não disse nada. Não estou pedindo para ir embora.
Começou uma discussão, que somente se cessou quando de repente ouviram um grunhido. Sentiram o solo sob seus pés tremer.
–O que é isso? – Perguntou Prímula.
–Troll! – Gritaram os outros quatro hobbits, ao verem um enorme troll se aproximando correndo, vindo do meio das árvores mais à . frente. Um troll era um humanóide gigante, com o quádruplo do tamanho de uma pessoa normal, usava como roupas apenas alguns trapos amarrados à cintura, e não vivia armado, sua própria força era sua arma.
–O que faremos? – Gritou Sam, sacando sua espada. Frodo também sacou a sua, mas Merry, Pippin e Prímula não tinham espadas.
O troll não estava vindo na direção deles, mas ao ver as espadas nas mãos de Frodo e Sam, ele se assustou e ficou furioso. Só então come&ccedil
;ou a correr na direção deles.
–Corram! – Gritou Frodo.
Todos saíram correndo, mas o troll era rápido demais, e estava cada vez mais próximo, correndo muito mais em sua fúria.
–Vamos nos separar! – Gritou Sam.
Cada hobbit correu para uma direção, desviando-se das árvores às arvores, mas Prímula permaneceu correndo em linha reta. O troll não sabia em que direção correr. Prímula era mais fácil de ser pega, pois corria somente em linha reta, e era maior. Mas ao invés de correr atrás de Prímula, o troll foi guiado pela fúria, e se virou e começou a correr atrás de Frodo, pois sua espada reluzente convidava-o para um duelo.
Não sabendo o que fazer, Frodo parou de correr.
–O que está fazendo, Sr. Frodo? – Perguntou Sam.
–Não se preocupe. – Disse ele.
–Corra, Frodo, ou virar comida de monstro! – Gritou Prímula.
–Não se preocupem comigo.
{mospagebreak}
O troll chegava cada vez mais perto, e os companheiros de Frodo pararam de correr. Queriam socorrê-lo, mas o troll os mataria. Quando chegou perto o suficiente, o troll parou. Abaixou-se e pegou um pedaço velho de tronco de árvore que havia no chão. Frodo começou a correr novamente, com a espada empunhada. Mas não correu do troll; pelo contrário, correu na direção dele, mas desviou-se antes de colidir. O grande monstro sacudia seu bastão de um lado para outro, tentando acertar Frodo, enquanto este corria em volta dele.
De tanto girar, tentando acertar o pequeno hobbit, o troll ficou tonto e parou. Frodo também parou, ofegante, mas não perdeu tempo: desferiu um profundo golpe na canela do enorme humanóide.
O troll urrou, perdeu o equilíbrio e caiu sentado no chão. Mas não desistiu, estava ainda mais furioso, e investiu com seu bastão, que acertou raspando as costas de Frodo. Diante daquela cena, os outros três hobbits e Prímula se aproximaram correndo, tentando ajudar Frodo, mas não conseguiram chegar muito perto, pois o troll se postara novamente de pé, e corria manco, com o sangue negro jorrando de sua canela, atrás de qualquer pessoa que aparecesse em sua frente. Frodo estava agora machucado, mas não perdera suas forças, ainda corria de um lado para outro, tentando afastar o troll de perto de seus amigos.
Sam foi o único que conseguiu se aproximar de Frodo, pois sua espada deixava o troll relutante. Prímula, Merry e Pippin apenas assistiam de longe a cena de um enorme troll lutando e correndo atrás de dois pequenos hobbits.
Mas depois de tanto correr, Frodo sentiu-se muito cansado, e parou. O troll também estava cansado, mas não tanto quanto Frodo. Aproveitando a situação, Sam correu um pouco para longe (mas não longe o bastante), e deixou Frodo sozinho diante do monstro. Quando o troll foi desferir seu último golpe na cabeça de Frodo, Sam veio correndo por trás e, com um salto, enfiou a pequena espada nas costas do troll, que caiu no chão, quase em cima de Frodo. Frodo levantou-se ofegante e assustado, e correu para perto de Sam, que neste instante estava retirando sua espada da grossa pele imunda.
–Obrigado, Sam. – Disse Frodo, quase não agüentando falar, tamanho era seu susto.
–Não por isso, Sr. Frodo. Eu estava lhe devendo um favor, pelo susto que fiz o senhor passar pelo desaparecimento do Anel e do Livro.
Prímula, Merry e Pippin se aproximaram, pretendendo ficar perto de Frodo e Sam, mas longe do troll.
–Você está bem, Frodo? – Perguntaram os três ao se aproxima-rem.
–Mais ou menos. Estou com um pouco de dor nas costas.
–Deixe-me ver. – Disse Prímula.
Ela viu a camisa de Frodo rasgada nas costas, e se assustou ao levantá-la.
–Está ferido! – Disse ela. – Há um enorme corte nas costas. Pode infeccionar.
Nesse momento, um forte urro saiu da enorme boca do ser deitado no chão.
–Não está morto. – Disse Sam. E enfiou a faca (desta vez mais forte) bem na orelha no troll. Prímula tirou uma fotografia do troll morto.
–Agora está, com certeza. – Disse Frodo, tentando mostrar descontração, mas a dor em suas costas o fez gemer.
–Preciso cuidar disto. – Disse Prímula – Antes que infeccione.