A Busca de Narya

Encontros

O sol despertou mais fraco. As gotas de orvalho da noite anterior ainda escorriam pela floresta. A neblina, aos poucos, foi se dissipando mostrando as belezas da Floresta Dourada.

 

Em sua modesta casa, Fingol acordou ansioso com o novo dia. Eldarion, o Rei dos homens, incumbiu-lhe a missão de resgatar Narya, o anel do fogo que pertencia a Gandalf e que este o perdeu na última batalha nos campos de Dagorlad.

Fingol, primeiro marechal de Gondor, foi ao encontro de Eldarion como lhe foi pedido.
Os guardas abriram os portões do palácio. Nenhum ranger foi ouvido. Apenas luzes douradas tocavam seus dedos no chão de pedra da entrada. De dentro, uma mistura de pão e mel, chegou ao nariz de Fingol que sorriu com prazer.

— Bom dia meu Rei. – Fingol ajoelhou-se e quase tocou sua testa no chão.

Do trono adornado com ouro e pedras preciosas, Eldarion, herdeiro de Elessar, levantou-se. Andou em direção a Fingol, ainda ajoelhado. Luzes que passavam livremente pelas abóbadas cintilavam sua armadura que trazia o símbolo dos homens de Gondor no peito. Uma árvore branca. A primeira plantada nas terras dos homens.

Chegando aos pés de Fingol tocou-lhe o ombro esquerdo.

— Levante-se Fingol, primeiro marechal de Gondor! – Fingol subiu seu olhar em direção ao rei que se portara à sua frente como os antigos senhores – Você não precisa fazer isto. Levante-se Fingol! – falou mais forte – E vamos fazer o desjejum. Quero você bastante forte este dia. Pois uma grande viagem deverás fazer.

Fingol ficou de pé. Eldarion conduziu-lhe até a mesa, e lá, comendo um banquete de desjejum, o rei contou-lhe toda a história de Narya, desde sua fabricação, passando pela história de como Gandalf o conquistou, até a sua perda.

O primeiro marechal escutou tudo com bastante atenção, exceto quando Eldarion parava para beber e aproveitava para comer um pedaço de lembas com manteiga.

— Fingol! – continuou – Agora preste bastante atenção! Quero que viaje até Bri. Terás água e comida que poderás viajar até além mar. Lá deverás ir até o Pônei Saltitante. Seis guerreiros, Ceblanth, um elfo. Glóin II, filho de Gimli. Tyrro, um grande marinheiro. Beorn, um dos meus melhores guardas. Nileth, uma bela elfa silvestre. Cuidado com ela. – brincou – Exímia arqueira. E por último, mas é pelo qual tenho mais em conta, Bean Tûk, um hobbit, um pequeno. Será de grande utilidade se precisar "pegar" alguma coisa "emprestada".

— Mandei Beorn na frente para recrutar os melhores de toda a Terra-Média. Já devem estar chegando em Bri. Vá agora. Temos receio de que Narya caia em mãos erradas. Vá agora e que Isildur esteja com você.

Eldarion tirou sua espada da bainha. A espada-que-foi-forjada, Narsil, reluziu à luz do Sol e mostrou toda beleza de Gondor. Colocou-a à frente de seu rosto e Fingol, primeiro marechal de Gondor, foi em direção ao norte com toda velocidade. Em menos de cinco minutos Eldarion via apenas um ponto branco no horizonte em direção ao seu incerto destino.

— Gostaria eu de poder ir nesta busca. Gostaria muito. – Pensou. Virou-se e foi em direção ao interior do palácio com o rosto e corpo fracos.
— Mas Gandalf mandou ficar aqui. – Neste momento a voz de Arwen, Rainha de Gondor, produziu sons que fez Eldarion sorrir novamente. – Você é Rei agora. O mal foi extinguido para sempre. E além do mais Fingol é um ótimo Marechal.
Eldarion olhou para Arwen e sorriu para ela. Virou-se e dirigiu-se a seus aposentos.
— Se precisar de mim – disse com pesar – estarei dormindo.
— Sim meu filho.

Arwen concordou, mas ficou estranhamente com aquele olhar. Foi em direção aos jardins e lá ficou pensando e observando as cores e sentindo os cheiros de bétulas, jasmins entre outras milhares de belas flores.

Fazia tempo que Gondor não sentia tamanha paz. E como diziam as antigas lendas "Se há grande paz pode haver, em algum lugar, grande temor".

Fingol já estava no seu segundo dia de viagem e o trote nem o tempo mudaram. No fim do segundo dia montou acampamento ao lado do Grande rio. Agora faltavam apenas mais três dias de viagem.

Encostou-se em um tronco após ter comido pão-de-viagem com manteiga, bacon, salsicha e muita cerveja. Caiu num sono profundo, mas atormentado. Sonhou que estava em algum lugar de Isengard. De longe podia avistar Orthanc envolta de neblina. Ouviu barulho de martelos e bigornas, Seus pés começaram a ir em direção da torre. Não podia controlá-los. Ao chegar mais perto viu que toda a Floresta Vigia, outrora chamada de Fangorn, estava destruída. Ajoelhou e chorou pela a morte das velhas árvores que destruíram Isengard. Derrepente seu corpo começou a flutuar e ir em direção à mais alta das janelas da torre. Quando parou viu uma silhueta envolta de muitas cores. Uma poderosa voz, parecida com um trovão, saiu de dentro da torre.

— Assim será!

Fingol começou a cair lá do alto vendo que Orthanc estava inteira novamente. Acordou. Respirava com dificuldade. Ofegando levantou-se. Encilhou seu cavalo e no meio da noite saiu em disparada com apenas um pensamento.

— Preciso chegar em Bri. E rápido.

Com algumas palavras à orelha de Litor, seu cavalo zuniu como uma flecha em direção do norte.
Os últimos três dias de viagem foram tranqüilos para Fingol. Cavalgou sempre à margem do Anduin. No quarto dia chegou à Valfenda, outrora povoada pelo belo povo élfico e governada por Elrond, agora está abandonada pelo motivo da volta do povo dos elfos para o Oeste. Mas ainda mantém suas belezas. Pode-se ver algumas casa sobre as árvores e no meio da floresta a mesa e os assentos onde os povos livres da Terra-Média decidiram o destino do Um anel.

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Mas Fingol não teve tempo para apreciar tamanha beleza. Apenas parou para tomar água e comer um pedaço de lembas. Apreciou a paisagem por poucos minutos, mas foi o suficiente para descobrir as maravilhas do povo élfico que outrora ajudara os homens.

Continuou sua viagem em direção à Bri e na tarde do dia seguinte alcançou sua fronteira.
Diferente do que era no final da Terceira Era, Bri agora, é bastante movimentada e aumentou tanto em população como em beleza. Árvores frutíferas enchem o ar da rua principal com um cheiro maravilhosamente doce. Suas ruas pavimentadas têm muita movimentação e carroças de mercadoria passam de lá para cá num ritmo frenético. Assim que adentrou, um hobbit veio em direção a Fingol.

— Boa tarde meu senhor. – fez uma reverência – Posso ajudá-lo? Conheço Bri c
omo a sola no meu pé, como dizem por aí.

Fingol sorriu alegre.

— Claro meu pequeno. Preciso ir encontrar seis pessoas na estalagem Pônei Saltitante. Sabe onde fica?
— Estranho.
— O que é estranho? – indagou Fingol.
— Bom… Estranho não é bem a palavra certa. A palavra que estou procurando é… Curioso.
— Por que curioso?
— É que seis pessoas chegaram juntas aqui há uns dois dias e se instalaram no Pônei.
— Devem ser eles! – Fingol alegrou-se com a notícia – Vamos, pequeno mestre das fofocas, me leve até lá.
— Agora mesmo. Mas antes, gostaria de saber o nome desta grandeza toda.
— Sou Fingol, filho Faramir, primeiro Marechal de Gondor. Servo fiel de Eldarion, rei daquelas terras. E você meu pequeno? Como se chama?
— Me chamo Broca Tûk. Não Marechal e nem fiel, a não ser a mim e a quem mereça minha fidelidade. Apenas faço um trabalho de guia para os que vêm de fora.

Fingol desceu de Litor e foi andando ao lado do pequeno e robusto hobbit. Depois de alguns minutos estavam em frente ao Pônei Saltitante.

— Bem, Fingol, filho de Faramir, primeiro Marechal de Gondor, eis o Pônei. Cevado Carrapicho era seu antigo dono, hoje é administrado por seu neto, Intelbo Carrapicho. Pouca coisa mudou na estalagem, mas uma coisa que continua do mesmo jeito é a cerveja, a melhor da Quarta Sul.
— Muito obrigado pequeno mestre. Eis aqui uma gratificação pela sua ajuda.
Fingol tirou uma moeda de seu bolso e deu para Broca. Seus olhos refletiram a intensa cor dourada do dobrão. Olhando maravilhado viu que de um lado estava a Torre Branca e do outro o perfil de Elessar.
— As ordens. – fez uma última reverência.

Virou as costas e correu para o outro lado da rua, provavelmente para atender outro "cliente".
Fingol parou, respirou fundo e entrou no Pônei Saltitante. O barulho dentro da estalagem era muito alto. Pessoas de todas as raças perambulavam dentro dela. Fingol mal conseguia ouvir seus pensamentos. Olhou a sua volta na esperança de encontrar Beorn. Não viu nem ouviu nada que soasse familiar. Andou em direção ao balcão.

– Em que posso ser útil? – uma voz rouca saiu da boca de um barbudo que estava atrás do balcão com uma toalha encardida jogada no ombro e pedaços do que foi seu almoço espalhado por sua barba. Enquanto fazia a pergunta, enchia uma caneca de ferro com cerveja preta que entregou para um anão parado ao lado de Fingol. – Aqui está, Glóin II! – disse olhando para o anão. Este olhou para cima e encarou o Primeiro Marechal.

Neste momento Fingol pensou em puxar conversa com o anão. Mas, vendo sua expressão ranzinza, achou melhor deixar as coisas como estavam.

— Senhor? – perguntou o barbudo estalando os dedos no ouvido direito de Fingol.
— Ah? – parecia que o Primeiro Marechal tinha acordado de um sonho. Recompôs suas idéias – Sim. Uma caneca do seu melhor vinho e um lugar para dormir.
— Tudo será arranjado. – o homem agachou, depois de alguns segundos colocou a caneca em cima da mesa e a encheu de vinho – Qualquer coisa é só perguntar por Intelbo Carrapicho.
— Sim! – interrompeu Fingol acompanhando o anão. Sentou-se numa mesa onde estavam mais quatro pessoas. Um hobbit com roupas leves, bebendo cerveja e bastante alegre. Um elfo sereno e uma elfa muito bela e ao mesmo tempo intrigante. Um homem alto, loiro e resoluto. Por fim, no canto da mesa estava o anão com um machado a tira colo. Os perfis batiam com o que lhe foi explicado por Eldarion. Mas não viu Beorn. Achou aquilo pura coincidência – Preciso falar com Intelbo. – continuou – onde posso encontrá-lo?
— Ele está ali. – o homem apontou para um sujeito magro e corpo sadio. Beirava os seus vinte anos.

Apenas um menino e já administra esta estalagem. Que coragem!" Pensou Fingol. Intelbo estava encostado na parede conversando com outros homens. O Primeiro Marechal foi a sua direção. No meio do caminho pensou em ter visto as cores de seu sonho passando ao seu lado. Virou-se rapidamente com as mãos no cabo da espada, mas não havia nada. "Por Elendil, preciso de descanso". Suspirou Fingol. Tebtou esquecer o sonho que voltou à sua mente e continuou.

— Com licença senhores. – Fingol falou para os homens à volta de Carrapicho – O senhor é o dono da estalagem? – perguntou ao homem que o barbudo apontara.
— Sim. – respondeu o homem com um largo sorriso – Me chamo de Intelbo Carrapicho. Herdei está estalagem de meu avô. Cevado… – neste momento Intelbo fechou os olhos e ficou imaginando os dias de seu avô. – Tão diferente de hoje em dia – continuou. Fingol não entendeu – Meu pai não quis ficar com ele. Achava que não daria lucros. Mas eu sempre acreditei nele. No Pônei.
Parou de falar e ficou olhando para Fingol como se esperasse alguma pergunta.
Fingol tossiu, tentando disfarçar o incomodo que Intelbo havia constrangido.
— Vim a mando de meu Rei. Sou Fingol, Primeiro Marechal de Gondor e estou procurando seis viajantes que chegariam ontem.

Os homens saíram e sentaram-se em uma mesa longe dali.

— Vou dizer uma coisa Fingol – Intelbo puxou-o para um canto mais silencioso – As pessoas nativas daqui nunca gostaram de viajantes – continuou num sussurro – Mas não se acanhe, apenas costume local. Como você dizia – parou por uns instantes – Seis viajantes?
— Sim. – Fingol se assustou com a conversa do jovem, mas não deu ouvidos. Sempre soube de histórias sobre Bri. – Liderados por Beorn. Um sentinela de Gondor. Meu Rei não lhe mandou nenhum aviso?
— Não. Não estou lembrado de nada. – disse com convicção.

Um homem subiu numa cadeira e começou a entoar uma canção.

— Quer dizer – continuou Fingol – que Beorn e seus companheiros não chegaram?
— Creio que não. Mas veja – apontou para o homem na cadeira – Este sujeito é hilariante. Vamos, vamos. – completou rindo.
Intelbo pegou Fingol pelo braço e o arrastou até o homem, que cantarolava músicas engraçadas e todos riam. Provavelmente porque a grande maioria já estava embriagada.
Após alguns minutos uma mão tocou o ombro de Fingol.
— Isto não é para você. – disse uma voz serena atrás dele.
Fingol virou-se rapidamente sacando sua adaga. Num único movimento colocou-a na garganta do sujeito e agarrou-o por trás. Mas logo após ficou espantado com o que viu.
— Beorn! – falou assustado e ao mesmo tempo alegre – Mas Carrapicho disse que vocês estavam aqui.

Colocou sua adaga na bainha e abraçou Beorn.

— Que bom ver você, Fingol, Primeiro Marechal de Gondor. – fez uma reverencia, colocando o punho direito no lado esquerdo do peito, que trazia a árvore branca. A mesma de todos os militares de Gondor.
— E não se preocupe com Carrapicho. – disse rindo – Ele herdou a falta de memória
de seu avô.
Os dois riram juntos e Beorn conduziu Fingol.
— Vamos querido amigo. Vamos nos juntar aos outros. Assim você poderá contar por que o nosso Rei nos mandou tão às pressas para cá. Ele não me explicou muita coisa. Os outros estão ficando irritados. Estou mantendo-os aqui porque estou pagando comida, bebida e cama. Mas meu dinheiro está acabando. Não sou tão rico como você. Temia que você não chegasse nunca – Fingol riu da situação de seu amigo – Ri porque não é com você. Ande logo Fingol. Vamos ver se sua palavra ainda tem efeito sobre os outros.

Beorn conduziu seu companheiro justamente para a mesa onde estava sentado o anão. Assim que chegou Glóin II olhou para Fingol com olhar de desprezo.

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— É esse? – perguntou de uma forma sarcástica.
— Gostei dele. – disse Bean com a boca na caneca de cerveja – Me parece de confiança.
— E é. – respondeu Beorn olhando com um ar de reprovação para Glóin II – Não o menosprezem. Pois ele é Fingol Frasil, Primeiro Marechal de Gondor. Onde Eldarion rege com bondade. Foi ele quem me mandou aqui para recrutar os melhores. – disse isso olhando para Nileth – Mas ainda não sei muito sobre isso. Meu amigo Fingol terá todas as respostas. Portanto – falou num tom ríspido – todos vocês prestem muita atenção.

Os outros que estavam à mesa se entreolharam e ficaram pensando como Beorn tinha mudado de temperamento. Pois até aquele momento, estava calmo e amigável. Glóin II se levantou.

 — Eu não tenho que ficar aqui e ouvir essas besteiras. – arrastou a cadeira de modo que todos que estavam no Pônei pararam de fazer suas coisas e olharam para a mesa.
Já ia saindo quando Fingol disse com uma voz calma.
— Não se apresse Glóin II, filho de Gimli. Tens razão de estar zangado. Afinal demorei para chegar com as notícias de meu Rei. Mas se quiser ir embora, não sou eu quem vai te prender aqui. Mas lhe garanto que seu pai não gostaria desta sua atitude.

Glóin II virou-se furioso. Sacou seu machado e colocou no pescoço de Fingol. Este não fez um movimento.

— Não fales de coisas que não sabes, Fingol Frasil. Não conheceste meu pai tão bem assim. E meu nome não é Glóin II.
— Como devo lhe chamar então? – Fingol continuava tranqüilo.
— Apenas de Glóin. Assim como meu avô.

Quando terminou de falar, sentiu seu corpo tremer e deixou o machado cair no chão. Uma lágrima rolou em sua face. Enxugou-a e pegou seu machado de volta. Fingol ajudou-o a levantar.

— Tens razão. Não conheci seu pai como deveria. Mas numa hora mais oportuna, ouvirei sua história com prazer.
Glóin se levantou apoiado em Fingol.
— Sente-se Glóin. Espero que agora possa contar o porque de eu estar aqui.

Todos endireitaram-se na cadeira única e ficaram de olho em Fingol. Contou tudo o que Eldarion lhe disse antes de sua partida. Ficaram surpresos em saber que, Gandalf o Branco, perdera seu anel na última batalha. Não sabiam que deste fato e perguntaram tudo. Ao final Fingol se levantou e disse.

— Espero que eu tenha esclarecido todas as suas dúvidas. Amanhã bem cedo iremos partir. Devemos viajar até Valfenda.
— Mas lá não governa mais ninguém. – Nileth disse e revelou sua doce voz – Todos do nosso povo – olhou para Ceblanth – foram embora. Poucos restaram.
— Por isso vamos para lá. – respondeu Ceblanth – Se conheço bem os homens, Fingol, quer fazer tudo em absoluto sigilo. Estou certo? – levantou-se da cadeira olhando para o Primeiro Marechal. Revelou-se um elfo alto e belo. Com um olhar calmo e penetrante. Lembrava em alguns aspectos Elrond.
— Sim. Estas certo Ceblanth. Lá poderemos descansar em paz e discutir melhor nossa busca. Isso aqui é muito barulhento.
Neste momento, Tyrro saiu de baixo da mesa. Estava completamente alcoolizado. Tentou formar uma frase, mas a única coisa que os outros entenderam foi "cerveja toda Terra Média". Depois caiu de cara na mesa.
— Ajudem ele. – disse Bean – Não sei como um marinheiro bêbado pode nos ser útil. Bom, – continuou levantando-se – Vou para meu quarto. Me acordem quando partirem.
— Também vou indo amigo Fingol. Se precisar de mim é só chamar.
— Creio que não precisarei Beorn. Todos estão cansados e vão dormir rápido. Não teremos maiores problemas.
— Se é assim, vou descansar.
Os dois se abraçaram e Beorn subiu. Atrás dele foram Ceblanth e Glóin carregando Tyrro.
— Até. – tentou dizer alguma coisa novamente – Isso é muito bom.
— E você Nileth. Não vai descansar? – perguntou Fingol.
— Preciso conversar com você.
— Sobre o que?
— Você sabe sobre o que. Não se faça de tonto. Depois de tudo aquilo, você tem coragem de me chamar. Muita petulância.
— Mas você sabe muito bem que primeiro de tudo sirvo à meu Rei.
— Você sempre diz isso. Esta é a última chance. Boa noite.
Nileth terminou com um ar ríspido e chateada. Subiu batendo os pés nas escadas.
— Não adianta Nileth. – disse Fingol rindo – Não irás fazer tanto barulho quanto desejas. Afinal, és uma elfa.

Enquanto Fingol ria, Nileth virou-se, olhou para ele com ar de reprovação e continuou. "Preciso descansar também. Amanhã teremos uma viajem. Pode ser calma, mas com esses sonhos que estou tendo, poderá haver problemas". Assim Fingol subiu se acomodou na cama e adormeceu.

Desencontros

Fingol levantou-se cedo para organizar os preparativos da viagem. Arrumou suas coisas na mochila, colocou sua espada reluzente na bainha e desceu para ver como estava Litor. Seu cavalo estava calmo. Exatamente como havia deixado. Deu-lhe comida e voltou para fazer o desjejum. Assim que entrou na estalagem viu que Tyrro, Beorn e Bean já estavam lá. Juntou-se a eles.

— Como passaram a noite? – perguntou

Tyrro olhou para ele e não disse nada. Pegou uma caneca de água que estava na sua frente e bebeu num gole só.

Beorn e Bean se entreolharam e bocejaram. Estavam muito cansados.

— Vejo que a madrugada foi longa! – satirizou Cebalnth que estava descendo as escadas. Seus passos eram leves como seda.
— Nem me fale. – respondeu Bean.
— Esse marinheiro ficou passando mal o resto da noite. – completou Beorn.
— E pelo jeito – interrompeu Fingol – Vocês…
— Exatamente! – responderam num tom exaltado.
A comida foi posta à mesa por Carrapicho. Àgua, leite, pão e manteiga foram trazidos.
— Logo trarei o resto senhores. Com licença – Carrapicho fez uma reverência. Sempre cordial, voltou para a cozinha.
O cheiro de pão quente fez Glóin II acordar. Levantou-se de uma vez e desceu correndo.
— Por Balin! – gritou ao topo da escada – Não esperaram por mim? Isto não se faz.
Desceu as escadas e sentou-se ao lado de Bean, que fez uma cara de
nojo.
— O que foi? – perguntou Glóin II já comendo pão com manteiga – Ah! Banho. Meus antepassados não tomavam. Por que eu devo tomar?
— Por uma questão de segurança para o grupo. – respondeu Tyrro tapando o nariz.

Ninguém se conteve e caíram na gargalhada. Glóin II se levantou da mesa e foi para cima de Tyrro.

— Eu vou pegar você seu caolho.
— O que? Caolho? Ninguém me chama assim. Eu é que vou te pegar.
Neste instante Carrapicho apareceu com duas bandejas. Um cheiro doce exalava delas.
— Senhores! – interrompeu – Deixe estas desavenças para depois. Comam. Precisam de energia. – colocou as bandejas sobre à mesa – Bacon, lingüiça, mel, geléia, mais pão e, para quem quiser, vinho da minha safra especial. Mais alguma coisa?
— Água. Mais água! – pediu Tyrro – Para mim e para o anão.

Todos riram e comeram e beberam. Depois de certo tempo, Beorn sentiu a falta de Nileth.

— Onde será que ela está?
— Nem tinha reparado – respondeu Tyrro.
— Deve estar dormindo. – falou Glóin II com um pedaço de lingüiça na boca.
— Ahãm!

Todos olharam para a ponta da mesa.

— Estão falando da senhorita Nileth? – perguntou Carrapicho.
— Sim. – respondeu Fingol – Sabe onde estás?
— Desculpem a minha falta de memória. – falou meio encabulado – No meio da noite ela me acordou e disse para entregar este bilhete aos senhores.

Fingol pegou e leu em voz alta. O papel da carta tinha aroma de jasmim.

Queridos amigos. Deixo vocês, mas voltarei logo. Não me esperem no Pônei. Vão para Valfenda como planejado por Fingol. Lá, devo retornar.

Nileth

Todos olharam para Fingol esperando alguma resposta. Ele ficou em pé durante um tempo. Sentou-se, deu um gole do vinho.

 — Vamos! – falou rápido – Não temos tempo a perder. Arrumem suas coisas. Partiremos e dez minutos.
— O que está acontecendo mestre Fingol? – perguntou Bean. Estava assustado – Por que essa pressa?
— Depois eu explico querido hobbit. Por hora só posso dizer isso. Nileth sabe o que faz. Confiem nela. Vamos, andem logo! – ordenou Fingol.

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Todos se levantaram sem pestanejar. Em menos de sete minutos estavam reunidos no estábulo do Pônei Saltitante. Litor estava lá, junto de mais três cavalos. Todos bem tratados, fortes e animados. Ceblanth subiu em cavalo com uma leveza digna dos Altos Elfos. Beorn levou Bean ma garupa.

— Ah não. Com ele eu não vou! – exclamou Glóin II.
Tyrro olhou para ele.
— Ande logo Glóin. – respondeu Fingol – Não temos tempo para discussões. Tyrro levará você.
O marinheiro já estava em cima do cavalo quando o Primeiro Marechal terminava.
— Se preferir, – começou Tyrro com um olhar sarcástico – pode ir a pé.
— Fique sabendo que, nós anões, temos grande resistência. Se quiser posso ir daqui até Valfenda sem fazer paradas.
— Tá certo Glóin. – interrompeu Ceblanth que ficou ao lado dele – Mas outro dia vocês fazem isso. Se preferir, pode vir comigo.

Glóin ficou sem graça com a cordialidade do elfo. Afinal, ele era como seus antepassados, não ia muito com a cara desse povo. Não disse nada, apenas pegou sua pesada mochila e subiu na garupa de Ceblanth. Disse aos seus ouvidos.

— Eu não confio nesse cara.

O elfo nada respondeu, apenas olhou para Glóin e sorriu com o canto da boca. Depois de fazer os últimos preparativos, Fingol subiu em Litor e dirigiu-se à Carrapicho.

— Nobre Intelbo. Agradeço sua hospitalidade. Garanto-lhe que, quando tudo isso acabar, terei um enorme prazer em me instalar aqui por mais tempo.
— Eu agradeço sua companhia, querido Fingol. Não se apresse em voltar. Faças o que deves fazer. Vá agora. Nileth estava um pouco assustada. – disse baixinho – Não quis dizer à mesa para não alarmar os outros. Espero que o senhor saiba o que fazer.
— Não se preocupe Intelbo. Farei o que for possível para chegarmos a salvo em Valfenda. Mas agora, – virou-se para os outros – temos que partir. O Sol já está subindo. Precisamos ser rápidos se quisermos encontrar Nileth. Vamos!

Numa esporada, Litor relinchou e zuniu no ar como uma rajada de vento. Os outros cavalos foram atrás. Intelbo Carrapicho ficou parado à soleira da porta. Acenou, mas os companheiros não olharam para trás. Cavalgaram o dia inteiro. Não pararam nem para comer. Bean começava a reclamar.

— Pessoal, preciso comer. Essa viagem está muito demorada. Vamos parar. Por favor. – disse com uma voz de choro.
— Ainda não Bean. – respondeu Beorn – Fingol tem pressa em chegar à Valfenda. Mas não se preocupe. Olhe – disse apontando para o céu – a Lua já aparece. A noite está chegando. Acho que nem Fingol, ou mesmo Litor, o melhor cavalo de toda Gondor, possam continuar sem uma parada.
— Acredito em suas palavras. Mas mesmo assim – colocou sua mão no bolso e tirou um pedaço de pão – não vou esperar.

Beorn riu. Sentia-se tranqüilo com aquele hobbit em sua garupa. Ele lhe fazia esquecer as preocupações que Nileth causara. Assim que a Lua atingiu seu ápice no céu, Fingol parou.

— Aqui. Vamos passar a noite aqui. Parece-me confiável e confortável. Nenhum orc se atreveria a passar por essas estradas. Estamos perto de Valfenda.

Desceu de Litor. Todos fizeram o mesmo. Mal Bean desceu da garupa e começou a recolher gravetos e galhos para fazer uma fogueira.

— Que pressa é essa? Caro hobbit. – perguntou Tyrro.
— Ora marujo. – respondeu Glóin – Deixe o pequeno. Afinal, todos estamos com fome.

Todos concordaram. Arrumaram suas barracas e sentaram-se em volta da fogueira. Comeram pouco. Apenas pão com bacon e algumas ervas. Beberam água. Fingol apagou a fogueira e foi-se deitar. Glóin entrou em sua barraca.

— Mestre Fingol?
— Sim Glóin.
— Disse que conheceste meu pai.
— Sim. – estava com sono.
— Pode me dizer algumas coisas?
— Claro Glóin. Mas que seja breve. Precisamos dormir. Partiremos ao primeiro raio de Sol.
— Claro Fingol. Por que ele fez aquilo?
— Porque Legolas não cumpriu a sua parte.
— Mas, eles eram amigos. Meu pai me contava que da amizade deles, elfos e anões de todas as raças, ficaram unidos. Eu não entendo.
— Simples. Legolas prometeu que conheceria o Forte assim que a guerra acabasse. Mas ele simplesmente, partiu junto com os outros.
— Só por causa disso? Meu pai sempre foi um cabeça dura.
— Nisso você está certo Glóin. Mas faça um favor a seu pai e a si mesmo. Honra o nome que carregas. Seu avô foi um grande guerreiro.
— Sim mestre Fingol. Isso eu faço desde de jovem.
Retirou-se e foi dormir. Preferiu deitar-se sob as estrelas. Ficou lembrando das histórias que seu avô c
ontara. Viajou nos céus e adormeceu.

Os primeiros raios de Sol tocavam seus dedos quentes no rosto de Fingol que já estava de pé colocando sua mochila em Litor. Foi em direção do acampamento. Tyrro estava acordando.

— Bom dia Tyrro. Dormiu bem?
— Sim Fingol. Muito bem.
— Ótimo. Me ajude a acordar os outros.
Fingol acordou Beorn e Bean. Tyrro chamou Ceblanth, que levantou rapidamente.
— Fingol! – gritou Tyrro. – Não consigo achar o anão!
— Onde será que ele se meteu. – pensou o Primeiro Marechal. – Faremos uma busca rápida. Bean virá comigo. Beorn e Tyrro!
— Sim. – responderam os dois ao mesmo tempo.
— Vocês irão beirando o rio. Ceblanth. Fique aqui no caso de ele voltar. Vamos, voltem só depois que acharem ele ou quando se passarem 4 horas.
— Mas quatro horas é tempo demais. – reclamou Tyrro.
— Não teremos mais desencontros dentro de nossa companhia Marinheiro! – exaltou Fingol. Tyrro ficou encabulado e não agüentou olhar fixamente para Fingol.
— Agora andem. Quatro horas, voltem somente depois de quatro horas.

Os quatro saíram e Ceblanth ficou no acampamento. Aproveitou para arrumar as últimas coisas.
Passaram-se quatro horas e Ceblanth ainda estava sozinho. Foi quando ouviu passos ao se redor. Com uma agilidade de um felino subiu numa pedra. Viu que eles estavam voltando. Mas contava apenas quatro.

— Nada. – esbaforiu Beorn.
— Também não o encontramos. – disse Fingol.
— Não podemos esperar mais. – falou Tyrro num tom exaltado olhando para o Primeiro Marechal.
Todos olharam para eles. Esperavam alguma reação contrária de Fingol. Mas este cedeu.
— Tyrro está certo. – lamentou Fingol – Vamos partir. Que Glóin tenha mais sorte em sua viagem.

Subiram em seus cavalos e já estava tarde quando partiram em direção à Valfenda. Desta vez passaram dia e noite sem paradas. Fingol estava determinado a chegar logo na cidade dos elfos. Depois de um dia e uma noite inteiras de viagem a companhia chegou à Valfenda. A noite iluminava as casas dos elfos sobre as árvores. A beleza da cidade encantou Bean, que ouvira falar da cidade nas histórias de seu tio Frodo, mas ainda não a conhecia. Ficou maravilhado com a música que o vento fazia surgir dos troncos das árvores. Soavam como arpas tocadas por mão leves. Olhou a sua volta e viu que não havia ninguém.

— Então é verdade o que tio Frodo me disse.
— Sim Bean. – respondeu Ceblanth – todos voltaram para o Oeste. Depois da guerra do Anel, sentiram que aqui, não era mais o lugar deles. Outros ficaram. Como eu e Nileth. Arwen também ficou. Mas a grande maioria, liderados por Elrond, tomaram o caminho do Mar.
Uma lágrima rolou do rosto de Ceblanth.
Bean continuou andando. A cada passo descobria coisas novas. Foi indo, sem parar. Seus pensamentos se perderam nas histórias deste belo povo.
— Bean! – berrou Tyrro – Onde vai?

O hobbit virou-se e viu o quanto tinha andado. Os outros estavam em cima das árvores prontos para decidir o caminho que deveriam tomar.

— Ande logo Bean. Depois eu lhe mostro o lugar. – chamou Ceblanth.
Bean voltou correndo e subiu até a casa.
— Desculpem a minha distração. – disse ofegante – É que eu sempre quis conhecer Valfenda. É muito bela. Quero ver o lugar do Conselho.
— Verás. – respondeu Fingol – Mas agora precisamos decidir que caminho tomar. Poderás apreciar melhor quando tudo estiver mais calmo.

Sentaram-se em volta de uma mesa que estava no quarto e começaram as decisões.