Mitos Transformados VIII – Orcs

The History of Middle-earth 10Este texto faz parte de um conjunto de ensaios intitulados "Mitos Transformados", contidos no The History of Middle-earth 10. A Valinor já possuía grande parte deles e está agora tradiuzindo os faltantes bem como acrescentando as notas e comentário. Este texto VIII trata da origem dos Orcs.
 
 
 

 
Na última sentença da versão curta original do texto VII meu pai
escreveu que os Eldar acreditavam que Morgoth gerou os Orcs ‘capturando
de Elfos (e Homens) cedo’ (isto é, nos primeiros dias de suas
existências). Isto indica que suas visões sobre este assunto mudaram
desde os Anais de Aman.
 
Para a teoria da origem dos Orcs como esta estava,
no ponto dos registros escritos nas narrativas (1), a este tempo ver os
Anais de Aman. Na forma final de Os Anais de Aman ‘isto é tido como
verdade pelos sábios de Eressëa’:

que todos aqueles dos Quendi que acabaram nas mãos de Melkor, antes de
Utumno ser quebrada, foram lá postos na prisão e por artes lentas de
crueldade e maldade foram corrompidos e escravizados. Desta forma
Melkor gerou a terrível raça dos Orkor em inveja e paródia aos Eldar,
de quem se tornaram após isto os mais amargos inimigos. Pois os Orkor
tinham vida e se multiplicavam à maneira dos Filhos de Ilúvatar; e nada
do que tem vida por si mesmo, nem a aparência de vida, Melkor jamais
poderia criar, desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Começo: assim
dizem os sábios.

No texto datilografado de Os Anais de Aman meu pai escreveu ao lado do
registro da origem dos Orcs: ‘Alterar isto. Orcs não são Élficos’.  

O presente texto, entitulado ‘Orcs’, é um ensaio curto (em grande parte
um registro de ‘pensando com a caneta’) encontrado na mesma pequena
coleção reunida em um jornal de 1959 como os textos III e VI. E como
estes ele foi escrito nos papéis do Merton College de 1955; e como o
texto VI ele faz referência a ‘Finrod e Andreth

 


 
Sua natureza e origem requerem mais reflexão. Elas não são fáceis de inserir na teoria e no sistema.
 
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru podia criar criaturas com vontades independentes e com capacidade de raciocínio.
Mas os Orcs parecem possuir ambas: eles podem tentar enganar
Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele ou criticá-lo.

[2] ? Portanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os Homens não haviam ainda aparecido quando os Orcs já
existiam. Aulë construiu os Anões a partir de sua memória da Música; mas Eru não
sancionaria a obra de Melkor de modo a permitir a independência dos Orcs. (A não ser que os Orcs fossem em essência remediáveis ou pudessem
ser corrigidos e "salvos".)


Também parece claro que, embora Melkor pudesse corromper e arruinar
indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão
absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que
afirma hereditariedade
(2) [Adicionado posteriormente: Este último deve [se
um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os Elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os Orcs
são "imortais" no sentido élfico? Ou os Trolls? Parece claramente
implícito em O Senhor dos Anéis que os Trolls existiam independentemente, mas foram "modificados" por Melkor (3).

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e fala? Esses foram adotados levianamente por mitologias menos
"sérias", mas representam um papel que agora não pode ser cortado. São certamente "exceções" e não muito usados, mas suficientemente para
mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as
criaturas os aceitam como naturais, se não comuns.

 
Mas criaturas
"racionais" verdadeiras, "povos falantes", são todas de forma
humana/"humanóide". Somente os Valar e Maiar são inteligências que
podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser
Maiar – emissários de Manwë. (4) Mas, infelizmente, em O Senhor dos Anéis é
dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor] (5).

De qualquer forma, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar
se tornariam orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da
queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes,
como Sauron, ou menores, como Balrogs. Os menores poderiam ter sido orcs
primitivos (e muito mais poderosos e perigosos); mas, por procriarem
quando encarnados, eles (ver Melian) [se tornariam] cada vez mais
ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito (mesmo
forma demoníaca), até serem libertados pela morte (assassinato), e definhariam em força. Quando libertados eles estariam, claro, como
Sauron, "condenados": isto é, reduzidos à impotência, infinitamente
recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo
de modo efetivo fisicamente (ou não seria o estado órquico muito definhado de
morte um poltergeist?).


Mas novamente – Eru proveria fëar a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os Orcs (6).

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como
sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer
criatura que o tomava por Senhor (e especialmente aquelas que
de modo blasfemo o chamaram de Pai ou Criador) logo tornava-se corrompida
em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa em sua
queda ao morgothismo: ódio e destruição. Quanto aos Elfos serem
"imortais": eles na verdade possuiam vidas excepcionalmente longas, e
foram "cansando-se" fisicamente e sofrendo um enfraquecimento lento e
progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que se deve supor que "falar" não é
necessariamente o sinal da posse de uma "alma racional" ou fëa. (7) Os Orcs
eram feras de forma humanizada [para zombar de Homens e Elfos]
deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima
dos Homens. Sua "fala" era na verdade "gravações" recitadas, colocadas
neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se herdaram isso; e possuíam tanta independência  quanto, digamos, cães ou
cavalos possuem de seus mestres humanos. Sua fala era em grande parte ecoada (como
papagaios). Em O Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou um idioma para eles (8).

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as Águias: os Valar lhes ensinaram um idioma e os elevaram a um nível
superior – mas eles ainda não possuíam fëa.

Mas Finrod provavelmente foi longe demais em sua afirmação de que Melkor
não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru (necessariamente) interferiria para anular a corrupção ou para cessar a
existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido
corrompidas e voltadas para o mal (9).

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem
élfica nos Orcs. (10) Estes podem então ter sido cruzados com feras (estéreis!) – e posteriormente com Homens. Seu tempo de vida seria
diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e seriam mantidos aprisionados
até o Fim.

Ver Melkor. Lá será visto que as vontades dos Orcs e Balrogs etc., são
parte do poder de Melkor "dispersado". O espírito deles é de ódio. Mas
o ódio é não-cooperativo (exceto sob medo direto). Daí as rebeliões,
motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante.  Os Orcs são feras e
os Balrogs Maiar corrompidos. Além disso (n.b.), Morgoth, não Sauron, é a fonte das
vontades dos orcs. Sauron é apenas outro (se não maior) agente. Os Orcs
podem se rebelar contra ele sem perder sua própria fidelidade
irremediável ao mal (Morgoth). Aulë queria amor. Mas, claro, não
pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e
independência
. Se um subcriador finito tenta fazer isso, ele na
verdade quer uma ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão
robótica e torna-se mal.

 
NOTAS

1. Em uma longa carta a Peter Hastings datada de Setembro de 1954, a qual ele não enviou (As Cartas de J. R. R. Tolkien, #153), meu pai escreveu o que se segue com relação à questão de que Orcs ‘poderiam ter "almas" ou "espíritos"’:

… uma vez que em meus mitos de forma alguma eu concebo a criação de almas ou espíritos, coisas de uma ordem igual senão de poder igual aos Valar, como uma possível ‘delegação’, eu ao menos representei os Orcs como seres reais pré-existente nos quais o Senhor Escuro exerceu a totalidade de seu poder remodelando-os e corrompendo-os, mas não os criando… podem ter ocorridos outras ‘criações, contudo, as quais eram mais como títeres preenchidos (apenas à distância) com a mente e vontade de seu criados, ou agindo como formigas sob o comando de uma rainha central.

Anteriormente, nesta carta, ele citou as palavras de Frodo a Sam no capítulo "A Torre de Cirith Ungol": ‘A sombra que os criou só pode arremedar, não pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou’; e ele continua: "Nas lendas dos Dias Antigos é sugerido que o Diabolus subjugou e corrompeu alguns dos primeiros Elfos…". Ele também disse que os Orcs "são fundamentalmente uma raça de criaturas ‘racionais encarnadas’".

2. No Athrabeth Finrod declarou:

Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele [Melkor] pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos…

3. Em O Senhor dos Anéis Apêndice F (I) é dito dos Trolls:

Nos seus primórdios, no crepúsculo dos Dias Antigos, eram criaturas de natureza obtusa e bruta, sem outra linguagem que não a dos animais. Mas Sauron fizera uso deles, ensinando-lhes o pouco que eram capazes de aprender e aumentando sua inteligência com maldade.

Na longa carta de Setembro de 1954 citada na Nota 1 escreveu sobre eles:

Eu não estou certo sobre os Trolls. Eu acho que era eram meras ‘imitações’ e portanto (embora aqui eu esteja, claro, usando apenas elementos de antigos mitos bárbaros que não tinham uma metafísica ‘consciente’) eles retornam a simples estátuas de pedra quando não estão no escuro. Mas há outras espécies de Trolls além daqueles bastante ridículos, embora brutais, Trolls-das-rochas, para os quais outras origem são sugeridas. Claro… quando você faz Trolls falarem você está dando a eles poder, o qual em nosso mundo (provavelmente) denota a posse de uma "alma".

4. Ver comentários finais da Sexta Seção de os Anais de Aman. Ao final da página contendo o breve texto V meu pai escreveu rapidamente a seguinte nota, inteiramente desconectada com o assunto do texto:

Coisas vivas em Aman. Assim como os Valar poderiam se vestir como os Filhos, muitos dos Maiar vestiam-se como outras coisas vivas menores, como árvores, flores, bestas. (Huan.).

5. "Lá vinha Gwaihir, o Senhor dos Ventos, e Landroval, seu irmão, as maiores de todas as Águias do Norte, e os mais poderosos descendentes do velho Thorondor"  ("O Campo de Cormallen" em O Retorno do Rei).

6. A este ponto existe uma nota que começa com ‘Crítica de (1) (2) (3) acima’ (ou seja, os pontos iniciais deste texto) e então se refere obscuramente a ‘última batalha e a queda de Barad-dur etc.’ em O Senhor dos Anéis. Em uma visão do que se segue meu pai estava presumivelmente pensando no capítulo ‘A Montanha da Perdição’:

De todas as suas planos e teias de medo e traição, de todos os seus estratagemas e guerra sua mente se livrou; e através de todo o seu reino ocorreu um tremor, seus escravos se acovardaaram, seus exércitos pararam, e seus capitães repentinamente sem direção, privados de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois eles foram esquecidos.
    
A nota continua

Eles tinham pouca ou nenhuma vontade quando não ‘cuidados’ de fato pela mente de Sauron. Suas traições e rebeliões davam aquela possibilidade a animais como cães etc.?
       
7. Compare com fim do trecho citado na carta de 1954 na nota 3.

8. Apêndice F (I): ‘Diz-se que a Língua Negra foi inventada por Sauron nos Anos Escuros’.

9. Ver a citação do Athrabeth na nota 2. Finrod de fato não afirma a última parte da opinião aqui atribuída a ele.

10. A afirmação de que ‘permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs’ aparece meramente para contradizer o que foi dito sobre serem não mais do que ‘bestas falantes’ sem avançar em novas considerações. No trecho acrescentado ao final do texto a afirmação de que ‘Orcs são bestas’ é repetida.