Resenha: “O Dom da Amizade – Tolkien e C.S. Lewis”

O Dom da Amizade – Tolkien e C.S. LewisImagine um mundo sem “O Hobbit”, “O Senhor dos Anéis” e “As Crônicas de Nárnia”. Aliás, imagine também um mundo sem nenhum dos inúmeros livros, filmes e RPGs que essas obras clássicas inspiraram. Bem, assim seria o mundo caso J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis não tivessem sido amigos do peito.

 

 

Não é segredo para ninguém que esses dois britânicos, ambos pesquisadores acadêmicos e amantes da literatura fantástica, além de escritores de talento, só conseguiram produzir suas próprias obras seminais de fantasia graças à inspiração que deram um ao outro. Essa parceria, no entanto, esteve cheia de altos e baixos, tapas e beijos, e não chegou exatamente intacta ao fim da vida dos dois.

O jornalista e professor britânico Colin Duriez conta essa história fascinante, combinando-a com o desenvolvimento dos universos de ficção da dupla, no livro “O Dom da Amizade – Tolkien e C.S. Lewis”. Não se deixe enganar pela capa não muito imaginativa (enfiaram uma mata cheia de névoa e a imagem de um leão para representar a dupla de escritores). A leitura compensa – em especial para o fã de Tolkien, que tem a chance de conhecer melhor Lewis, hoje menos popular que o Professor por aqui, mas igualmente relevante e instigante.

Acompanhar a trajetória dos dois equivale, em parte, a seguir a história européia do século 20. Os dois perderam parte da família muito cedo e foram marcados, na juventude, pelo impacto devastador da Primeira Guerra Mundial (Tolkien e Lewis foram para o front no continente, e o segundo chegou a ser ferido em combate). Chegaram à idade madura debaixo da sombra dos regimes totalitários e da Segunda Guerra Mundial, e tiveram boa parte de sua visão artística e filosófica moldada por esses eventos.

C. S. LewisA dupla também teve em comum, desde cedo, a paixão pela mitologia, em especial a do norte da Europa, mas as semelhanças terminam aí. Enquanto Lewis se tornou um leitor eclético, capaz de acompanhar dos clássicos da Antigüidade greco-romana aos romances modernistas (embora decerto não gostasse muito desses últimos, em geral), Tolkien foi adquirindo um gosto cada vez mais específico, dedicando-se a aprofundar sua compreensão sobre o inglês antigo e o inglês médio, falados e escritos antes do ano 1400.

Fé e razão
Quando ambos chegaram à idade adulta, outro abismo havia se imposto: enquanto Tolkien tinha quase todos os aspectos de sua vida e pensamento definidos por sua profunda fé católica, Lewis tinha se tornado ateu. E assim poderia ter permanecido caso o erudito, nascido na Irlanda do Norte, não tivesse conseguido um cargo na Universidade de Oxford em 1925 – exatamente o mesmo ano em que Tolkien foi aceito como professor na prestigiosa instituição.

Não demorou muito para que os dois se conhecessem e se tornassem amigos, com interesses comuns sobrepujando as diferenças que existiam. E foi por meio de longas conversas e debates com intelectuais de sólida fé religiosa, como Tolkien e Owen Barfield, que Lewis começou a passar por uma virada em suas próprias opiniões sobre a crença em Deus.

O “gancho” usado por Tolkien – depois explorado no belo poema “Mythopoeia”, cuja tradução comentada pode ser baixada aqui na Valinor – tinha justamente a ver com os mitos. Lewis tinha se acostumado a pensar na mitologia como um conjunto de belas mentiras. Tolkien ia justamente no sentido oposto: a presença de elementos parecidos nos mitos do mundo todo indicaria uma verdade fundamental sobre o homem e o Universo. O nascimento, morte e ressurreição de Jesus Cristo teriam justamente incorporado esses mitos fundamentais, como se eles tivessem “vazado” para o mundo real. Deus era o maior dos criadores de mitos, o maior dos contadores de histórias.

Lewis, de fato, acabou se convertendo, tornando-se um cristão ardoroso, embora não um católico, como desejava Tolkien. E essa visão compartilhada sobre o caráter sagrado da fantasia e da criação de histórias passaria a guiar o trabalho dos dois e de seu círculo de amigos, os chamados Inklings, que se reuniam para ler suas novas obras e discutir todo tipo de assunto na Oxford dos anos 1930 e 1940.

Foi nesse círculo de amigos que Lewis encorajou Tolkien a concluir “O Senhor dos Anéis”, chegando a comover-se até às lágrimas com os capítulos da saga. Uma aposta entre os amigos – um deveria escrever uma história de viagem no tempo e o outro abordar uma viagem no espaço – também deu origem à história de Númenor (sim, até então só havia a Primeira Era de Arda) e à chamada Trilogia Espacial de Lewis, respectivamente. Aliás, o filólogo Elwin Ransom, herói da Trilogia Espacial, foi inspirado, em parte, no próprio Tolkien.

Mas nem tudo eram flores no relacionamento entre os dois grandes amigos. O primeiro pomo da discórdia foi o malucão Charles Williams, outro autor de romances fantásticos cuja obra fascinava Lewis mas deixava Tolkien com o pé atrás, por causa do interesse de Williams pelo ocultismo e de seus textos quase ininteligíveis. William veio morar em Oxford, passou a freqüentar as reuniões dos Inklings e gerou uma certa ciumeira em Tolkien.

J. R. R. TolkienOutras diferenças pessoais e literárias vieram criar tensões na amizade da dupla ao longo do tempo, como a falta de compreensão de Tolkien com o mundo de Nárnia (ele achava que Lewis não estava levando a mitologia suficientemente a sério em sua nova criação) ou com o papel de Lewis como um teólogo popular, tendendo explicar a religião cristã “básica” para as máquinas. (Como católico, Tolkien parecia acreditar que Lewis não era exatamente o homem mais indicado para esse serviço.)

Quando Lewis morreu, em 1963 (cerca de dez anos antes do Professor, portanto), fazia vários anos que a velha dupla não era mais tão próxima, vendo-se muito pouco. No fim das contas, porém, as diferenças que sempre existiram e que às vezes se aprofundaram nunca foram suficientes para submergir seu legado: o de uma tradição rica e poderosa de fantasia moderna, que talvez mantenha viva a chama da mitologia que eles tanto amavam por séculos a fio.

O Dom da Amizade – Tolkien e C.S. Lewis
Colin Duriez
Editora Nova Fronteira
310 págs.
R$ 39,90