O Mundo Sombrio de Homens e Hobbits

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Artigo publicado originalmente no jornal The New York Times em 1º de maio de 1955, "O Mundo Sombrio de Homens e Hobbits" é uma resenha feita por Donald Barr de As Duas Torres, na época de seu lançamento e, portanto, sob a ótica daqueles tempos. Confiram então essa preciosa matéria, traduzida para nós pela colega Thais "Luz do Entardecer". 

 

O Mundo Sombrio de Homens e Hobbits

 
Em 1937, J. R. R. Tolkien escreveu “O Hobbit”, planejado como um livro infantil, mas com toques aqui e ali de terrores que possuíam os envolvimentos mais sombrios do mito e às vezes até mesmo daquele “clangor e gemido de grande ferro” que Chesterton ouvia nas canções de gesta medievais.
 
Agora, em uma trilogia chamada “O Senhor dos Anéis”, o Sr. Tolkien continua de um modo um pouco diferente sua história da terceira era da Terra Média, um mundo habitado por magos, homens, hobbits (pequenos excêntricos corteses, como chefes de família ingleses de três pés de altura com grandes pés peludos), elfos e anões e pelos vorazes orcs e Cavaleiros Negros cegos e seu senhor. É um mundo de um amanhecer mirrado e um mundo de um pesadelo retumbante. Parece, como qualquer era muito distante, ser especialmente ensolarado e ser ameaçado por perigos muito fundamentais, de uma escuridão peculiarmente imaterial.

“As Duas Torres” é a segunda parte. O Senhor do Escuro de Mordor começou seu ataque sobre a sanidade e a graça do mundo. A Sociedade do Anel, o diminuto grupo sobre o qual reside toda a esperança de resistência, é dispersada; o hobbit Frodo parte em direção das fronteiras da própria Mordor, levando o Anel fatal que deve ser destruído nos fogos do domínio do Inimigo. Isso, não importando o que o sumário possa fazer parecer, não é para crianças; nem o é para os amantes de excentricidades e citadores de Alice. Tampouco é o aparato de uma moral morta enfeitada de poesia, como “The Faerie Queen”. É uma obra extraordinária: pura excitação, narrativa fluente, calor moral, regozijo descarado com a beleza, mas principalmente excitação; ainda assim uma ficção séria e escrupulosa, nada confortável, sem pequenas visitas à infância.

Essa obra trabalho é muito admirada por certos críticos que sempre praticaram um intelectualismo altamente consciente e orgulhoso. A fantasia do Sr. Tolkien não é metafísica como a de E. R. Eddison, nem teológica como a de George MacDonald; seu apelo para os intelectuais é, portanto, interessante. Depois da primeira Guerra Mundial, a ficção séria tendeu ao platonismo ou berkeleyimo literário. Com uma espécie de tédio brilhante (chamado “sensibilidade”), romances se refinaram no tocante a estados mentais. Os autores compreendiam que o pensamento era o ato real, do qual a ação era apenas uma cópia duvidosa. Tramas deram caminho a insights. As divergências de grandes retóricas multifacetadas, que fizeram Dickens e Scott, foram substituídas pela voz interna, muito pequena, mas constante. Nunca a distância entre o apetite popular e arte séria havia sido tão grande como então se tornou, inevitavelmente. Muitas pessoas, do que poderíamos chamar de gosto mediano, voltaram-se para contos policiais, os quais pelo menos possuíam tramas; recentemente elas têm lido ficção científica, que possui uma ação forte. O fato de que “O Senhor dos Anéis” deve agradar leitores dos mais simples gostos sugere que eles agora também anseiam pelo tipo antigo, direto e viril de narrativa.

O Sr. Tolkien é um distinto filólogo inglês, e a linguagem de suas narrativas nos lembra que um filólogo é um homem que ama a linguagem. Seus nomes são brilhantemente apropriados; as línguas que inventou para os elfos e orcs expressam perfeitamente, apenas por seus sistemas de ritmo e fonética, a natureza dessas raças; seu estilo é cheio de alegria, a alegria que segue a produção de um gesto perfeito. Mas mais que isso, o autor teve um profundo acesso a uma tradição épica que remete cada vez mais ao passado e desaparece nas brumas de histórias germânicas, de modo que sua história possui um tipo de profundidade ecoando ao fundo, onde ouvimos Snorri Sturluson e Beowulf, as sagas e a Canção dos Nibelungos, mas civilizados pelo gênio suave da Inglaterra moderna.

O Sr. Barr leciona Inglês na Universidade da Columbia.