Tolkien, antes de Bilbo

Em abril deste ano os fãs de Tolkien tiveram um novo motivo para ansiedade e agitação: o lançamento de The Children of Húrin,
obra póstuma de Tolkien. E o movimento não partiu apenas dos fãs,
diversas resenhas foram publicadas no mundo todo, anunciando a nova
obra do Professor. Aqui na Valinor nós já temos disponíveis as resenhas
de Michael Drout e de Bryan Appleyard, ambas traduzidas por Gabriel Oliva Brum. Fiquem agora com mais esta resenha, de Jeremy Mashall e tradução de Níniel.
 
 
Tolkien, antes de Bilbo (por Jeremy Marshall¹).

NÃO VIRE A PÁGINA, ainda. Isto não é apenas mais uma antologia das
garatujas da gaveta inferior de Tolkien, tirado de um cadafalso com
anotações e fortalecido com notas de rodapé. É um romance completo, num
cenário setentrional imaginado; a sua reformulação do mito e história
do povo é dificilmente peculiar no mundo literário de hoje, embora a
sua dicção tenha o arcaísmo formal familiar aos leitores d’O Senhor dos Anéis. É digno de um conjunto de leitores para além dos devotos de Tolkien.

Pelo longo tempo de gestação este livro é notável. Inspirado pelo conto
escandinavo de Sigurd e Fafnir, Tolkien primeiro escreveu uma história
sobre um dragão em 1899, aos 7 anos de idade. Na escola descobriu o Kalevala,
um poema épico finlandês, e por 1914 tentava tornar o conto de Kullervo
em "uma história curta algo nas linhas de romances de Morris”. Por 1919
tinha combinado estes elementos no que se tornou o conto de Túrin
Turambar, o herói cheio de azedume que mata o dragão Glaurung, mas cujo
triunfo é instantaneamente destruído pelo suicídio da sua esposa, agora
revelada como a sua irmã perdida Nienor, a quem ele se junta na morte.

Estes são os filhos do título; seu pai Húrin é outra figura mítica, o
homem que desafia um deus e observa a maldição resultante jogando com o
destino dos seus filhos. Quando o autor morreu em 1973 deixou várias
versões, todas incompletas, a partir das quais o seu filho teceu esta
narrativa coerente.

Uma vez instalada a escuridão neste conto, ela não se esvai: não há
nenhuma estalagem confortável nos caminhos desolados da floresta.
Muitas das personagens morrem violentamente, e não há final feliz (ou
pelo menos, é fora deste livro, no conto em grande parte não escrito de
Eärendil o marinheiro). N’O Senhor dos Anéis,
Frodo e amigos são preservados do desastre por uma feliz coincidência
ou pelos trabalhos da providência — mas para os miseráveis filhos de
Húrin cada acaso é uma fortuna doente.

É estranho que Tolkien, um crente na redenção cristã que cunhou o termo
“eu-catástrofe” (final feliz repentino) tenha saboreado tal melancolia
rígida; mas como contador de histórias foi dominado pelo conto de
Kullervo. Embora muito tenha humanizado as personagens e transformado a
trama, o incesto desconhecido e o duplo suicídio eram inevitáveis. O
destino do Túrin é pré determinado. Como Édipo, ele é sentenciado pela
maldição no seu pai, embora a maldição aqui esteja na malícia pessoal e
aparentemente desproporcional de um arcanjo caído, mediado por um
dragão malévolo. Como Kullervo, ele é sentenciado pelo próprio caráter
defeituoso: descuidado, chocante, inflexível no orgulho.

O livro é lindo, mas além das ilustrações atmosféricas de Alan Lee, e
uma (misericordiosamente curta) discussão do processo editorial, muito
o que ele tem entre as capas foi realmente publicado ora n’O Silmarillion (1977), ora no Contos Inacabados
(1980). Mas esta versão nova, inteira, serve a um propósito valioso
(além de agradar os fãs e os editores). A trilogia de película de Peter
Jackson elevou o perfil do livro O Senhor do Anéis, mas nada havia de óbvio para ler a seguir. O Hobbit é divertido, mas é escrito para crianças. O Silmarillion é um pouco bagunçado, e as suas hieráticas seções de abertura afastam muitos leitores. O History of Middle-Earth de 12 volumes é estritamente para os especialistas. N’Os Filhos de Húrin podemos pelo menos ter o sucessor d’O Senhor dos Anéis que era tão sinceramente e sem esperança procurado por editores de Tolkien no fim dos anos 50.

Há defeitos, naturalmente. Ocasionalmente a prosa é afetada demais, o
diálogo grandiloqüente demais, os nomes inexplicados e opacos demais: a
primeira menção a Maedhros é totalmente misteriosa, tal como os filhos
de Fëanor não são nomeados na apresentação de maneira útil; uma planta
chamada aeglos nunca é descrita; e se Lothron é "o quinto mês", como o
índice diz, isso é nosso Maio ou o Quintilis romano (julho)?

Não há nenhuma lista de ilustrações, o leitor deve adivinhar o que é
retratado nas páginas. Mas isto são futilidades. Como um trabalho quase
acabado por Tolkien, o Grande Inacabador, este livro merece eclipsar
quase todos os seus outros escritos póstumos, e uma posição como um
monumento digno à imaginação de Tolkien, o Grande Subcriador.

¹ Jeremy Marshall é co-autor do livro The Ring Words: Tolkien and the Oxford English Dictionary.