O Herói é um Hobbit

Algumas pessoas argumentam que precisamos estudar o passado para
compreender os dias atuais. Se isto for uma verdade, a tradução de
nossa colega Níniel para esta resenha do poeta W.H. Auden vem como um
presente para todos os fãs de Tolkien. Publicada no jornal The New York Times em 31 de outubro de 1954, a crítica trata A Sociedade do Anel
como era naquele tempo: uma novidade, sem todo o peso de anos de
debates e leituras com os quais lemos a obra hoje em dia. Com vocês, “O
Herói é um Hobbit”, de W.H. Auden e tradução de Níniel.
 
 

O Herói é um Hobbit (W. H. Auden)

Há dezessete anos apareceu sem qualquer estardalhaço, um livro chamado "O Hobbit" que, na minha opinião, é uma das melhores histórias de crianças deste século. Em "A Sociedade do Anel",
que é o primeiro volume de uma trilogia, J. R. R. Tolkien continua a
história criativa do mundo imaginário que nos apresentou no seu livro
anterior, mas para adultos, isto é, para aqueles entre as idades de 12
e 70. Para qualquer um que goste do gênero ao qual pertence, a Missão
Heróica, não posso imaginar um presente de Natal mais maravilhoso.
Todas as Missões são relacionadas a algum Artefato numinoso, as Águas
da Vida, o Cálice, tesouro enterrado etc., normalmente este é um
Artefato bom que é a tarefa do Herói achar ou salvar do Inimigo, mas o
Anel da história do Sr. Tolkien foi feito pelo Inimigo e é tão perigoso
que mesmo os bons não o podem usar sem serem corrompidos.
 
O Inimigo
acreditava que este estava perdido para sempre, mas acaba de descobrir
que veio providencialmente para as mãos do Herói e dedica todos os seus
poderes demoníacos para a sua recuperação, que lhe daria a senhoria do
mundo. O único meio de assegurar a sua derrota é destruir o Anel, mas
isto só pode ser feito de uma maneira e num lugar que se situa no
coração do país; a tarefa do Herói é, portanto colocar o Anel no lugar
onde se desfará sem ser apanhado.

O herói, Frodo Bolseiro, pertence a uma raça de seres chamados hobbits,
que podem medir apenas três pés de altura; têm pés peludos e preferem
viver em casas debaixo do chão, mas seu o modo de pensar e
sensibilidade assemelham-se muito com esses árcades rústicos que
habitam tantas histórias policiais britânicas. Penso que alguns
leitores podem achar o capítulo de abertura um pouco tímido na sua
construção, mas não se devem deixar enganar, porque, uma vez que a
história começa, as travessuras iniciais desaparecem.

Durante mais de mil anos o hobbits têm vivido uma existência pacífica
num distrito fértil chamado Condado, pouco curiosos sobre o mundo lá
fora. Atualmente, o cenário é bastante sinistro; povoados caíram em
ruínas, estradas em mau estado, campos férteis voltaram a ser sertão,
bestas selvagens e seres malignos que rondam, e viajar é difícil e
perigoso. Além dos Hobbits, há Elfos que são sábios e bons, Anões que
são hábeis e bons no geral, e Homens, alguns guerreiros, alguns
feiticeiros, que são bons ou maus. A presente encarnação do Inimigo é
Sauron, Senhor de Barad-Dûr, a Torre Negra na Terra de Mordor.
Ajudando-o estão os Orcs, lobos e outras criaturas horrendas e, claro,
aqueles homens consoante o seu poder atrai ou intimida. A paisagem,
clima e atmosfera são do norte, recordando as sagas islandesas.
 
A primeira coisa que pedimos é que a aventura seja variada e
empolgante; a este respeito a invenção do Sr. Tolkien é infatigável, e,
no nível primitivo de querer saber o que acontece depois, "A Sociedade do Anel" é pelo menos tão bom quanto "Os trinta e nove passos”¹.
De qualquer mundo imaginário o leitor exige que pareça real, e o padrão
de realismo exigido hoje é muito mais estrito que no tempo de Malory².
O Sr. Tolkien é afortunado por possuir um surpreendente dom para dar
nomes e um olho maravilhosamente exato para a descrição; quando alguém
acaba o seu livro conhece as histórias de Hobbits, Elfos, Anões e a
paisagem que eles habitam assim como conhece a sua própria infância.
 
Para terminar, se alguém quiser levar uma história desse tipo a sério,
deverá sentir que, apesar das personagens e eventos poderem parecer
superficialmente diferentes com os do mundo em que vivemos, estes
representam o espelho da única natureza que conhecemos: a nossa. Nisto
Sr. Tolkien também teve enorme sucesso, e o que aconteceu no ano de
1418 da Terceira Era no Condado na Terra Média não é só fascinante em
1954 mas é também um aviso e uma inspiração. Nenhuma ficção que li nos
últimos cinco anos me deu mais alegria que "A Sociedade do Anel".


¹ Romance do autor escocês John Buchan (1875-1940), publicado em 1915.
² Thomas Malory (1405-1471), conhecido como autor ou compilador de A Morte de Arthur.