Turgon

Turgon foi um elfo Noldor, nascido Tirion na Era das Árvores. Foi o
segundo filho de Fingolfin e tal como este exilou-se de Valinor e
partiu para a Terra-média. Lá fundou Gondolin, a mais famosa das
cidades élficas de Beleriand, e foi o quinto Alto Rei dos Noldor, entre
a Nirnaeth Arnoediad e o cerco à sua cidade.
 
 
Turgon nasceu durante o maior período de prosperidade dos elfos em
Aman, a Era das Árvores, quando Laurelin e Telperion iluminavam a terra
dos Valar, havia paz, e Vanyar e Noldor atingiam a maturidade em
perícia e sabedoria. O seu pai foi Fingolfin, o segundo filho de Finwë,
líder dos Noldor, e a sua mãe Anairë. Teve três irmãos: o mais velho
foi Turgon, o Valente, e os mais novos Aredhel, a Branca e Argon.

Turgon era alto e, ao contrário do seu pai e da maioria dos irmãos,
tinha cabelo preto. Era tido como um dos mais sábios e previdentes dos
senhores dos elfos. Casou-se com Elenwë dos Vanyar e teve uma única
filha, Idril. Ele e o irmão Fingon tinham uma estreita amizade com os
filhos de Finarfin, principalmente Finrod.

Mas a ventura e a paz em Valinor não durariam para sempre. Quando
Morgoth cumpriu o seu castigo de três eras de prisão nos salões de
Mandos, foi julgado pelos Valar, e estes concederam-lhe o perdão pois o
seu arrependimento parecia sincero e muito proveito era tirado dos seus
conselhos e ações.

No entanto, o coração dele continuava a invejar e odiar todas as
criações de Ilúvatar, e os elfos eram quem mais odiava pela sua beleza
e alegria. Os Noldor eram quem mais lhe davam atenção, devido à sua
avidez por conhecimento e segredos, e foi para eles que ele orientou os
seus negros desígnios.

Morgoth começou a espalhar mentiras entre eles, dizendo que os Valar os
enganavam, e os mantinham em Valinor para os ter sobre seu controlo.
Assim eles começaram a suspeitar dos Valar e das suas intenções; e à
medida que crescia neles o desejo de conhecer novas terras, onde
pudessem estabelecer reinos seus, Morgoth ensinou-lhes sobre as armas.
E assim, antes que os Valar se apercebessem, a paz em Aman foi quebrada.

Mas as piores ações de Morgoth ainda estavam por vir. O que ele mais
desejava eram as Silmarili, e queria mais que tudo ficar com elas para
si; mas estavam guardadas em Formenos, a fortaleza de Fëanor, onde este
habitava desde o seu banimento de Tirion, devido a um desentendimento
com Fingolfin.

Aproveitando um momento em que todos os Elfos de Aman e os Valar
estavam em festa em Taniquetil, desceu sobre as duas árvores,
juntamente com a aranha Ungoliant, e destruiu-as. Depois foi até
Formenos, matou Finwë e fugiu com as três Silmarili para as suas
antigas fortalezas na Terra Média.

Levado pelo desejo de vingança contra Melkor e por má vontade contra os
Valar, Fëanor rebelou-se contra eles, e convocou todos os Noldor a
Tirion. Fazendo uso da sua mestria com as palavras, fez um discurso de
que os Noldor para sempre se lembraram, incitando-os a partir de
Valinor em busca de vingança e novas terras onde pudessem ser livres e
governar-se a si mesmos; fez também um terrível juramento, juntamente
com os seus filhos, gritando que perseguiria qualquer um que tivesse na
sua posse uma Silmaril.

Turgon e outros levaram a mal estas palavras, pois um juramento nunca
pode ser quebrado; Turgon era, aliás, contra a partida dos Noldor. Mas
vendo que todos os que lhe eram mais queridos partiam, e também um
pouco tocado pelas palavras de Fëanor, decidiu partir, acompanhando a
hoste do seu pai Fingolfin – e com ele partiu também o seu amigo
Finrod.

O que se seguiu marcaria para sempre todos os Noldor, e seria um dos
atos mais desprezíveis levados a cabo por eles, no seu desespero.
Procurando uma maneira de deixar Valinor, Fëanor pediu a Olwë, senhor
dos Teleri, que lhe desse barcos para levar o seu povo até à Terra
Média. Vendo o seu pedido negado, pois Olwë, senhor dos Teleri, não
desejava auxiliar aqueles que se rebelavam contra os Valar, Fëanor
atacou Alqualondë e tentou roubar os barcos pela força; mas os Teleri
resistiram, e acabaram por desembainhar-se espadas e travou-se uma luta
feroz, na qual muitos morreram.

Mas os Noldor eram mais fortes e venceram a batalha. Muitos recuaram e
desistiram da marcha depois deste terrível acontecimento, incluindo
Finarfin, mas Turgon não se encontrava entre eles, pois era resoluto e
destemido, e não abandonava nunca algo que tivesse começado antes de
chegar ao fim. Fëanor decidiu então apoderar-se dos barcos, e
juntamente com os seus filhos e aqueles que lhe eram fieis, partiu em
direção às costas de Beleriand.

Então Fëanor, num ímpeto de fúria enlouquecida, traiu o seu irmão
Fingolfin e ordenou que queimassem os barcos roubados aos Teleri. Mas
esta atitude apenas reforçou a vontade de Fingolfin em partir, apesar
da sua cólera; e juntamente com o seu povo e os seus filhos, incluindo
Turgon, atravessou as gélidas planícies do Helcaraxë, no norte, a única
ligação por terra entre Valinor e a Terra-Média. Foi uma travessia
penosa em que vários Noldor morreram, e Turgon foi um dos mais
afectados pois a sua mulher, Elenwë, esteve entre os que sucumbiram ao
frio. Mas apesar de tudo, graças à sua extraordinária força e
resolução, conseguiram completar a caminhada.

Mas desde cedo Turgon percebeu que a guerra contra Morgoth estava
destinada ao fracasso, pelo menos enquanto os Noldor o tentassem
derrotar sozinhos. Por isso ele, juntamente com o seu povo, sempre
viveu separado do resto dos seus irmãos e primos. A sua primeira
moradia foi a oeste de Dor-Lómin, em Nevrast, que significa “costa
próxima” em Sindarin. Habitava na cidade de Vinyamar, debaixo do monte
Taras.

Cinqüenta anos depois do nascimento do Sol, partiu para a ilha de Tol
Sirion, em busca de Finrod, e juntos viajaram para sul, ao longo do
rio. Certa vez, junto às suas margens, Ulmo lançou sobre eles um sono
profundo e sonhos pesados. Pois o Vala fora era grande amigo deles, e
sabia que o seu coração estava empenhado em conseguir as Silmarili; pôs
então na mente de ambos o desejo de procurar lugares ocultos e
construir fortalezas escondidas, de onde pudessem preparar uma retirada
caso Morgoth vencesse os exércitos do norte.

Finrod viria mais tarde a contruir Nargothrond, como as mansões de
Menegroth. Já Turgon, lembrando-se de Tirion, com as suas brandas
muralhas, da sua alta torre e da sua grande árvore, desejou erguer uma
cidade à imagem dela. Então Ulmo apareceu diante dele, e mandou-o
regressar ao vale do Sirion, onde o guiou até ao vale escondido de
Tumladen. O único acesso até lá era um caminho fundo debaixo das
montanhas, escavado pelas águas que corriam para se juntar às correntes
do Sirion. No centro do vale erguia-se um monte ilha, pois ali houvera
um grande lago em tempos.

Lentamente e em segredo Turgon começou a construir a cidade que
imaginava. Turgon decidiu chamá-la de Ondolindë, na língua dos elfos de
Valinor, que quer dizer Rocha da Música da Água; mas viria a ser mais
conhecida pelo seu nome sindarin, Gondolin, Rochedo Escondido. Então
Turgon preparou-se para sair, mas Ulmo apareceu-lhe uma última vez.

“ – Agora irás finalmente para Gondolin, Turgon, e eu manterei o meu
poder no vale do Sirion e em todas as suas águas, para que ninguém
assinale a tua ida, nem lá encontre a estrada oculta contra a tua
vontade. Mais longamente do que todos os reinos de Eldalië resistirá
Gondolin a Melkor. Mas não ames demais o trabalho das tuas mãos nem o
engenho do teu coração e lembra-te que a verdadeira esperança dos
Noldor se encontra a Ocidente e vem do mar.”

E advertiu-o de que ainda se encontrava sobre a maldição de Mandos, que
não podia afastar, e que esta poderia encontrá-lo antes do fim e a
traição penetrar nas suas muralhas. Mas disse-lhe que quando esse tempo
chegasse viria alguém de Nevrast avisá-lo, e pediu-lhe para deixar em
Vinyamar armas e uma espada que esse mensageiro pudesse usar.

Por fim Turgon partiu, e acompanhou-o todo o seu povo; uma terça parte
de todos os Noldor que fizeram parte da hoste de Fingolfin, e um grupo
ainda maior de elfos Sindar. Caminharam sob a escuridão das Ered
Wethrin e nunca ninguém soube por onde tinham ido. Turgon partiu em
último lugar, deixando vazios os seus antigos salões; e ao transpor as
portas das montanhas, estas fecharam-se atrás dele.

Turgon não permitia que quem quer que pusesse os olhos na cidade oculta
alguma vez de lá saísse; e só mais de trezentos e cinqüenta anos depois
Turgon voltaria a transpor as portas, juntamente com o seu exército.
Mas por trás das montanhas o povo de Turgon aumentou e a cidade
prosperava, tornando-se cada vez mais bela e verdadeiramente comparável
a Tirion em Valinor.

“Altas e brancas eram as suas muralhas, lisas as suas escadas e alta
e forte a torre do rei. Lá jorravam fontes luminosas e nos pátios de
Turgon erguiam-se imagens das árvores de antigamente, que o próprio
Turgon fez com a arte élfica. E a árvore que ele fez de ouro chamava-se
Glingal e a árvore cujas flores flores ele fez de prata chamava-se
Belthil.”

Durante vários anos Gondolin manteve-se oculta, participando pouco nas
guerras fora das fronteiras do reino de Turgon (mesmo na Dagor
Bragollach, a Batalha das Chamas Repentinas). Pouco foram os que
entraram nele, e menos ainda os que saíram. A primeira pessoa a partir
foi a própria irmã de Turgon, Aredhel Ar-Feiniel, embora contra o seu
gosto.

Aredhel, que queria encontrar-se com os filhos de Fëanor, acabou por se
separar da sua escolta e se perder nos vales das Ered Gorgoroth, e
Turgon não soube dela por muito tempo, para seu grande desgosto. Na
realidade, Aredhel, desorientada, foi ter à floresta de Nan Elmoth, a
leste de Doriath. Lá habitava Eöl, que a tomou como sua esposa, e de
quem teve um filho, Maeglin. Mais tarde, Maeglin viria a desempenhar um
papel importante na queda de Gondolin.

Outros dois personagens importantes que entraram em Gondolin foram
Húrin e Huor, príncipes da casa de Hador. Foram trazidos por Thorondor,
rei das águias de Crissaegrim, que os encontrou perdidos no vale do
Sirion, e perseguidos por orcs. Turgon ganhou uma grande estima por
eles, e até os deixou partir, embora tenham feito um juramento que os
obrigava a manter silêncio sobre Gondolin – e que cumpriram até à sua
morte.

A Dagor Bragollach, que resultou na quebra do cerco a Angband e no
desmembramento das forças dos filhos de Fëanor, foi um rude golpe para
todos os Noldor. Em desespero, parecendo-lhe que todas as esperanças
dos Noldor tinham acabado, Fingolfin montou o seu cavalo Rochallor, e
empunhando Ringil, a sua espada, cavalgou até às portas de Angband e
desafiou o próprio Morgoth para um duelo.

Apesar de o Valar caído se sentir receoso, não podia ignorar o chamado.
Longo e árduo foi o combate, mas esta era uma luta que nenhum elfo
podia vencer, e Fingolfin acabou por ser derrotado. Então Thorondor
desceu dos céus e resgatou o seu corpo antes que Morgoth o destruísse,
levando-o para um monte com vista para Gondolin, onde Turgon lhe ergueu
um túmulo que orcs algum jamais ousou tocar.

Fingon tornou-se então o Alto Rei dos Noldor no lugar do seu pai. Mas
não houve descanso entre os Noldor, e Maedhros, o mais velho dos filhos
de Fëanor, estava decidido a retaliar contra Angband o mais depressa
possível. Assim, reuniu uma força enorme, juntando os seus exércitos
com os exércitos de Fingon, dos Homens das três casas, e até dos Anões
das Montanhas Azuis, todos decididos a vencer Morgoth.

A batalha viria a ser conhecida como Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das
Lágrimas Incontáveis, pois grande foi o desgosto que dela resultou. A
vitória esteve perto para os exércitos de Fingon e Maedhros, mas a
traição dos Homens de Leste virou-a a favor de Morgoth. Turgon
interviu, e levou consigo uma força de dez mil elfos.

Feliz foi o seu encontro com o irmão Fingon e com Húrin e Huor, e
valentemente combateram; mas nem isso foi suficiente para evitar a
desgraça. Fingon caiu, vencido por Gothmog, senhor dos Balrogs; Huor
foi morto e Húrin capturado e aprisionado por Morgoth nas masmorras de
Angband; e Turgon, agora Alto Rei dos Noldor, recuou de novo para
Gondolin. Apenas devido ao sacrifício dos Homens de Dor-Lómin ele e a
sua hoste conseguiram escapar, e o rei não esqueceu isto.

Os últimos anos de Turgon na Terra Média foram manchados por guerras
constantes. Ninguém acreditava mais na vitória contra Morgoth – e
Turgon, ciente de que a única esperança de sobrevivência para a sua
cidade e o seu povo residia no secretismo, foi obstinado como nunca no
cumprimento das leis de entrada e saída de Gondolin.

Mas chegou a altura em que abriu uma exceção, pois o mensageiro que
Ulmo lhe tinha prometido apareceu. O enviado foi Tuor, filho de Huor,
que foi guiado até à cidade por Voronwë, o único a regressar das
viagens em busca de Valinor. Tuor trouxe consigo as armas que haviam
sido deixadas em Vinyamar, e no seu coração tinha a vontade de Ulmo.
Chegando perante o rei, avisou-o de que a maldição de Mandos se
aproximava do seu cumprimento, e deveria abandonar Gondolin e descer
pelo Sirion até ao mar. Mas o amor que tinha à cidade superou a
habitual sabedoria de Turgon, e ele ignorou o conselho – naquele que
foi o primeiro passo para a sua queda e do seu povo.

Tuor permaneceu na cidade, pois Turgon não se esquecera do sacrifício
de Huor e Húrin, e tinha também grande estima por ele; e tão grande era
que permitiu que ele, apesar de ser um homem mortal, casasse com a sua
filha, Idril. Mas ao mesmo tempo o mal havia entrado em Gondolin, pois
Maeglin, filho de Aredhel (que entretanto havia voltado mas fora morta
por Eöl), era invejoso d favor do rei a Tuor e desejava Idril em
segredo. Nas suas perambulações, foi capturado por orcs, que o levaram
à presença de Morgoth; e então estabeleceu um acordo com ele – Maeglin
mostrou o caminho para Gondolin a Morgoth e este prometeu-lhe liberdade
e o senhorio de Gondolin.

Então Morgoth lançou o seu derradeiro ataque sobre Gondolin, o último
dos grandes reinos élficos em Beleriand. O ataque foi levado a cabo em
época de festival, quando todos os habitantes da cidade se encontravam
nas muralhas a leste, à espera de ver o sol nascer; e as hostes de
Morgoth desceram pelo norte, tomando a cidade de assalto
repentinamente.

Mas não obstante a defesa por parte do povo de Turgon foi feroz, e
grande feitos de heroísmo foram levados a cabo pelos seus senhores,
como a batalha entre Echtelion e Gothmog, em que ambos pereceram. No
entanto não havia esperança, e toda a cidade foi saqueada, e a grande
torre foi derrubada – e na sua ruína caiu Turgon.

Mas de Gondolin viria a derradeira esperança de todos os elfos e
Homens, pois uns poucos escaparam, liderados por Idril e Tuor, e entre
eles veio o filho deles, Eärendil, que viria a ser o esperado
mensageiro que traria o socorro dos Valar.

Cronologia:


Era das Árvores

Data desconhecida – Turgon nasce em Tirion.

4995 – Morgoth rouba as Silmarili e foge. Juramento de Fëanor e exílio
dos Noldor, incluindo Turgon e os seus irmãos. Primeiro fratricídio
entre Elfos.

1ª Era do Sol

1 – Chegada de Fingolfin, Turgon e restantes Noldor a Beleriand.

75 – Dagor Aglareb e cerco a Angband.

320 – Aredhel deixa Gondolin; casa-se com Eöl.

390 – Nasce Maeglin, filho de Aredhel e Eöl.

455 – Batalha da Chama Súbita. Cerco a Angband quebrado. Morte de Fingolfin às mãos de Morgoth.

472 – Nirnaeth Arnoediad. Morte de Fingon; Turgon sucede-lhe como Alto Rei dos Noldor.

495 – Chegada de Tuor a Gondolin.

502 – Casamento de Tuor e Idril.

503 – Nascimento de Eärendil.

510 – Cerca de Gondolin e morte de Turgon. Gil-Galad sucede-lhe enquanto Alto Rei dos Noldor.

Nome:


Turgon é uma forma Sindarin para o Quenya Turukáno. Desconhece-se ao
certo o que quer dizer esse nome, embora o significado mais provável
seja algo como “valiant lord” (senhor valente em português).

Outros nomes e títulos:

Turgon o Sábio
Rei de Gondolin

Árvore Genealógica:

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