Filhos de Húrin, ou Tolkien: Os Estudiosos e os Crí­ticos

Em Babel-17, de Samuel R. Delany, há uma descrição de uma arma que
pode se parecer como uma pedra ou um pedaço pequeno de metal. Ela é basicamente
não é detectável, mas se você introduzi-la sorrateiramente em uma espaçonave e
colocá-la perto de qualquer tipo de "sistema de estase-inércia", a
nave irá se desintegrar assim que você tentar viajar pelo espaço.

 

Acho que O Senhor dos Anéis possui o mesmo tipo de efeito nas teorias
de boa literatura. Pegue a teoria de algum crítico a respeito do que é
"boa literatura", coloque Tolkien nela e observe o edifício inteiro
desmoronar sobre as suas próprias contradições.

Por exemplo, como Tom Shippey mostra de maneira tão bela,
Philip Toynbee diz que "O Bom Escritor" pode escrever sobre qualquer
coisa, até mesmo "duques incestuosos na Terra do Fogo", e cabe ao
público se ajustar à obra e não desconsiderá-la como estranha ou diferente
demais. Aparentemente o Sr. Toynbee deixou de mencionar a cláusula adicional de
sua teoria de que "duques incestuosos não tem problema, mas Elfos não são
permitidos", pois Tolkien encaixa-se perfeitamente na descrição de Toynbee
(e de muitos outros) de "O Bom Escritor", e ainda assim Toynbee, e
"Bunny" Wilson, Salman Rushdie e, mais recentemente, Bryan
Appleyard
, claramente sequer colocariam Tolkien próximo do panteão deles
dos "Bons Escritores".

E mesmo assim ele se encaixa tão bem nos critérios:
Lutar com a recalcitrância da língua inglesa? Confere (exceto que Tolkien sabia
mais sobre a estrutura e complexidade do inglês, sua história e seu
desenvolvimento do que Pound, Eliot ou Joyce – embora Joyce provavelmente
tivesse um sentido fono-estético internalizado tão profundo quando o de
Tolkien, ainda que não tão teorizado explicitamente). Seguir sua imaginação
onde quer que ela vá? Confere. Recusar-se a aceitar os pressupostos de
ideologias contemporâneas? Confere. Escrever para si próprio e não se preocupar
com as opiniões ou com críticos ou com editores ou mesmo com a posteridade?
Confere.

Logo, o que isso mostra? É tentador tentar devolver as palavras dos críticos
hostis a eles em um tipo de judô intelectual, mostrando que Tolkien tem
o seu lugar entre os outros grandes escritores, adequando-se precisamente nas
categorias de Bunny Wilson e outros. Tom Shippey (que é uma pessoa muito mais
gentil e mais razoável do que eu) faz isso muito bem. Ele parece querer dizer a
esses críticos: "Abram os olhos. Usem suas próprias teorias. Isto é o que
vocês disseram que era boa literatura. Tolkien se encaixa em todos os seus
critérios".

Eu, por outro lado, (que não sou nem tão instruído nem tão legal quanto
Shippey) acredito que Tolkien mostra que a maioria das teorias estéticas modernistas
– pelo menos o tipo que foi internalizado pelos críticos que publicam no Times
e em outros meios da elite – são uma bosta. Desculpe, isso não foi educado e
poderia ser melhor reformulado: as teorias estéticas de pessoas como Bunny
Wilson, Toynbee, Judith Shulevitz, Bryan Appleyard, Michiko Kakutani (quando se
dão ao trabalho de articular todas elas) são compostas igualmente de evasivas e
suposições profundamente enraizadas que, assim que são questionadas, não podem
ser sustentadas.

Deixe-me ver a primeira
resenha de Os Filhos de Húrin de J. R. R. Tolkien, feita por Bryan
Appleyard
. É tentador (ah, tão tentador) "esmiuçar" a resenha,
dividindo-a em parágrafos e mostrando o que há de errado com cada um, mas
deixarei isso para outros. Em vez disso, quero chamar a atenção para algumas
suposições muito importantes e não-questionadas as quais acredito que deveriam
ser questionadas.

Appleyard começa citando A. N. Wilson no argumento de que Tolkien "não era
realmente um escritor" mas sim um criador de mundos. Esse é um insight
muito útil das idéias de Wilson e Appleyard. Um "escritor", sob esse
aspecto, não é alguém que publica livros ou mesmo escreve privadamente. Um
escritor é algo mais, um membro de algum subgrupo de pessoas que publicam
livros. Um "escritor" (ao contrário de um escritor) pertence a um
grupo específico.

Como é esse grupo? De acordo com o parágrafo seguinte, ficamos sabendo que
escritores devem ser aquele subgrupo de pessoas que escrevem e que estão
preocupadas com o estilo. Esse é um começo promissor; eu mesmo acredito que a
maior lacuna entre Tolkien e os seus críticos é que as metodologias críticas
contemporâneas não são muito aplicáveis ao estilo de Tolkien, de modo que talvez
estejamos chegando a algum lugar.

Mas então ficamos sabendo que Tolkien preocupava-se com o estilo, só
que, aparentemente, da maneira errada. Ele estava interessando no estilo de Beowulf,
de Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, das sagas nórdicas "e,
especialmente no caso deste último livro… de Wagner"
(ênfase
chocada minha): "A abordagem óbvia para um autor contemporâneo que queira
recuperar tais formas é atualizar o estilo delas e, talvez, colocá-las em um
contexto contemporâneo".

Ficamos sabendo agora de coisas ainda mais importantes: para ser um escritor, é
preciso "atualizar" o próprio estilo. Essa é a abordagem
"óbvia". Então, se seguirmos essa linha de raciocínio, embora possa
haver coisas boas e importantes em textos antigos, se alguém vivo agora quiser
escrever sobre essas coisas boas, deverá "atualizar-se" ao estilo ou
mesmo ao contexto contemporâneo. A suposição não-dita porém dominante deve ser
a de que o estilo contemporâneo é melhor do que estilos mais antigos
(do contrário, para que "atualizá-lo" – atualizar implica
melhoramento).

Vemos aqui então que Appleyard (e suponho que Wilson e muitos outros) vem
aceitando inconscientemente uma ideologia estética progressista
enunciada abertamente pela última vez por escritores do final da era vitoriana,
mas que obviamente ainda exerce uma influência muito forte. Se você seguir essa
linha de raciocínio, parece que a arte da escrita está sendo continuamente
aprimorada, de modo que o que é mais recente é melhor (embora a distribuição
desigual de talento no decorrer das eras signifique que alguns grandes
escritores antigos ainda valem a pena ser lidos mesmo que não tenham sido
"atualizados").

Ou há a possibilidade de que possuímos uma variedade de progressivismo estético
na qual não é preciso afirmar que, digamos, Hemingway é esteticamente superior
a Shakespeare, mas que cada um é mais "adaptado" à sua época e,
assim, se Shakespeare escrevesse exatamente as suas palavras em 1941, a obra de
Hemingway seria superior. Creio que provavelmente é onde a maioria dos críticos
literários jornalísticos (como Appleyard, Shulevitz, Kakutani) acabaria: não em
um progressivismo estético absoluto, mas em um relativo: há um estilo
que é apropriado para um determinado período de tempo, e desviar demais desse
estilo constitui uma má literatura.

Mas eis aqui uma rápida experiência de opinião: digamos que alguém descubra, em
algum arquivo empoeirado, um soneto shakespeareano ou uma obra chauceriana
genuína (por exemplo, o perdido Livro do Leão) ou outro poema escrito
pelo poeta do Beowulf. Poderia essa ser uma grande obra de literatura?
Não creio que alguém iria argumentar que não poderia (isso dependeria, é claro,
da qualidade do texto). Agora, imaginemos que, após 100 anos, inúmeros artigos
acadêmicos, etc., descobríssemos que o texto encontrado fosse na verdade uma
criação do século XX. Aquelas mesmas palavras passariam de boa literatura para
má literatura? E se fosse descoberto que uma obra canônica fosse uma invenção
posterior? Se Beowulf tivesse sido escrito no período Tudor ele agora
seria um poema ruim?

De acordo com as suposições que Appleyard parece estar seguindo, me parece que
o autor e o período são o que valem, não as palavras específicas no papel.
Contudo, não estou ciente de qualquer argumento lógico para tal ponto
de vista. Joyce ou Eliot serem melhores estilistas da prosa que Tolkien –
"(artistas muito superiores)", diz Appleyard, sem explicar por que –
pressupõe algum modo de julgar o estilo da prosa. Mas quando tentamos
compreender o que o autor da resenha quer dizer com um melhor estilo de prosa,
nos deparamos com evasivas: "profundidade" (indefinida) ou
"tendências mais profundas" (indefinidas).

Appleyard continua (a respeito de Os Filhos de Húrin): "O
pensamento moderno está claramente sendo arrastado pelo pescoço para longe de
sua zona de conforto literário". Essa é uma passagem muito boa, e bem
provável que seja verdadeira, mas ele a diz como se fosse uma coisa ruim.
Parece-me que a maior parte do que ouvi sobre o poder e a importância da arte e
da literatura modernistas e pós-modernistas diz respeito a tirar as pessoas de
suas zonas de conforto: não é essa a mensagem básica de cada uma das Bienais
Whitney desde, digamos, a década de 80? Mas quando Tolkien faz isso é ruim. É
por que há Elfos? (Alguém esqueceu de mencionar novamente a cláusula adicional
"sem Elfos"?)

Appleyard menciona que ele "desistiu" de O Senhor dos Anéis
porque a prosa de Tolkien é "completamente superficial, sem nenhuma das
tendências mais profundas que constituem uma boa ou excelente obra". Aqui
fiquei realmente confuso. Se há algo que o estudo das obras de Tolkien mostrou
é que há uma "profundidade" imensa por trás das escolhas de
palavras e imagens de Tolkien: quando Tolkien usa "eyot" [arc.
"ilhota"] ou "laving" ["lavando"] ou "louver"
["gelosia"] ou "ninnyhammer" [coloq. "idiota
cabeça-dura"] ou "dwimmerlaik" [ing. médio "criatura
espectral"], ele está usando termos técnicos precisos e fazendo a ligação,
através de referências literárias, com obras de literatura mais antigas (assim
como Eliot faz em "A Terra Desolada", que Appleyard menciona). Quando
Tolkien usa construções sintáticas tais como "Come not between the Nazgul
and his prey" ["Não te intrometas entre o Nazgul e sua presa"]
ou "That was a grim meeting" ["Aquele foi um encontro
sinistro"], ele faz uso de referencialidade tradicional para invocar
contextos literários maiores. Quando conta a história de Túrin dormindo por fim
com sua irmã e cometendo suicídio quando descobre, ele está fazendo referências
ao Kalevala finlandês e pegando um tipo de motivo do folclore e
transformando-o em uma história com personagens mais complexos e ironias mais
específicas ("atualizando", se preferir). Infelizmente, se você for
um crítico literário mas não um estudioso, se você for um jornalista que cita Beowulf
ou Sir Gawain e o Cavaleiro Verde mas não os leu com atenção (ou, em um
dos exemplos acima, Rei Lear), você não entenderá o recado.

Logo, não é que a prosa de Tolken careça de profundidade, mas sim que as
profundidades às quais ela faz referência não são as profundidades que o
crítico conhece. Mas por que Tolkien é o culpado aqui? O grande escritor,
segundo Toynbee, não tem que se adiantar e o crítico se esforçar para
acompanhar? Quem determinou que o conjunto de referências e textos deve ser
aquele com o qual o crítico sente-se confortável? Eliot parecia estar zombando
da falta de erudição de muitos críticos quando publicou suas próprias notas de
rodapé para "A Terra Desolada", e os críticos que não compreendem as
referências de Tolkien também carecem de erudição (de um tipo diferente,
"setentrional" em vez de clássica, por exemplo), mas em vez de se
esforçarem para adquiri-la, eles supõem que as referências são obscuras,
"provincianas", "dônicas", "pouco sólidas".

A comparação de Appleyard com o Único e Eterno Rei de T. H. White é reveladora. A obra de White é repleta
de ironia, aquele condimento multiuso dos escritores modernistas,
críticos e jornalistas. Tolkien tem realmente muito pouco interesse nesse tipo
de ironia (que com freqüência é, na minha opinião, superficial, embora não no
caso de White). A ironia, porém, é fácil para o crítico e lhe permite manter
uma pose de superioridade, que é essencial se você vai dizer às pessoas do que
elas devem ou não gostar (em vez, digamos, explicar como um artefato estético
produz seus efeitos em diferentes leitores). É uma camada adicional de ironia:
não apenas o leitor sabe de coisas que o personagem não sabe, como se supõe
que o crítico sabe de coisas, coisas importantes, que o autor não sabe
.

É irônico, portanto, que Os Filhos de Húrin seja conduzido
por uma série de ironias dramáticas, e talvez por isso Appleyard pareça
basicamente gostar do livro, apesar do uso de "provincianas",
"pouco sólidas" e a menção de que Dungeons and Dragons "dominava
quartos fétidos de universitários" em 1974 (fale pelo seu próprio quarto,
meu chapa) –, tudo com a intenção de mostrar que Appleyard é realmente um dos
meninos legais, com um gosto discriminante.

Há também muita "profundidade" em Os Filhos de Húrin, mas a
profundidade, como Gergely Nagy mostrou no melhor artigo escrito sobre Tolkien
na década passada, está relacionada com o próprio conjunto de textos de
Tolkien. Ao contrário de outras fantasias imitativas, a obra de Tolkien produz
a "sensação" de se estar lendo um mito. Suas camadas de poemas,
histórias, anedotas, anais e rascunhos funcionam para produzir o tipo de
textualidade possuída, por outro lado, apenas por obras que foram tratadas por
muitos escritores e leitores no decorrer de muitos séculos. Nenhuma outra
pessoa conseguiu esse feito, antes ou desde então: não Joyce, Pound, Eliot,
Morrison, Rushdie ou mesmo Eco (Borges talvez chegue perto).

Ora, esse não é o único critério para a excelência estética, mas ao menos
possui a vantagem de ser explícito: O Senhor dos Anéis, e agora Os
Filhos de Húrin
, dispõe-se a algo que era impossível anteriormente:
escrever uma história nova que dê ao leitor a impressão de estar lendo uma
história muitíssimo antiga. Não tenho muito tempo para a discussão inacreditavelmente
tediosa "Tolkien criou uma nova mitologia?" (minha resposta: não no
início, mas talvez ela esteja se tornando uma), mas creio que está claro que
ele conseguiu fazer com que a sua obra parecesse ser mitológica em vez de
inventada. Esse efeito estético não fazia parte do projeto modernista (e é
possível que seja bem contrário a ele), mas ele, no entanto, é um efeito que
muitos leitores sentem intensamente. Um bom crítico deveria tentar explicar os
efeitos do livro sendo criticado.

Meus alunos se divertem com a metodologia crítico-literária (muito) antiquada
de comparar cada obra de literatura com Homero e Virgílio (60% tão bom quanto
Homero e 75% tão bom quanto Virgílio, simplificando). Mas a crítica
jornalística em voga parece estar fazendo exatamente isso, sem o benefício de
nomear os modelos ou de reconhecer a metodologia.

Porém, talvez pudéssemos resolver muitos problemas tornando oficial uma nova
máxima. Chame-a de lei de Dyson: É impossível que a boa literatura inclua um
Elfo.

Não acredito que tal regra tenha sido provada alguma vez, mas a impressão que
fica é a de que muitos críticos a aceitaram como absoluta. Eu adoraria ver as
linhas gerais do argumento.

— 

Michael D. C. Drout é Professor de Inglês na Wheaton
College, em Norton, Massachussets, E.U.A, onde leciona Inglês Antigo (Anglo-Saxão),
Inglês Médio, literatura medieval, fantasia, ficção científica e produção
textual. É autor de Beowulf
and the Critics
, J. R. R. Tolkien Encyclopedia e editor do jornal
literário Tolkien Studies.

(Fonte: Wormtalk and Slugspeak)