"Por que demoraram tanto?", uma resenha de Os Filhos de Húrin

Trinta anos depois de sua morte, Tolkien
produziu um novo romance – com uma pequena ajuda de seu filho. Poderia esse
grande mito levar os leitores de volta à Terra-média?
 

Esta
é, como colocou o neto de Tolkien, Adam, a "versão do diretor" de Os
Filhos de Húrin – embora eu não tenha certeza se o diretor em questão é o
pai ou o filho.

Porém,
o próprio fato de ser esse o modo pelo qual o livro surgiu aponta para uma das
mais reveladoras estranhezas da obra de Tolkien. Ele não era, primeiramente, um
romancista e, como sugeriu A. N. Wilson, não era realmente um escritor. A
tarefa a qual ele se propôs foi a de criar o mundo, a Terra-média, que veio
antes do nosso. Ele assim o fez através de mapas, etimologias, raças inventadas
– principalmente elfos e orcs – e vastas e indecifráveis genealogias complexas.
Os livros surgiram dessa montanha de invenções curiosas. Contudo, eles sempre
foram fragmentos do todo. Ao ler Tolkien, a pessoa fica constantemente ciente
da vasta história de fundo que provavelmente jamais completamente conhecida
pois, como um todo, ela encontrava-se apenas na cabeça de Tolkien. Os romances,
em outras palavras, foram produtos derivados de um projeto muito maior.

A
acusação de Wilson de que Tolkien não era realmente um romancista deixará
milhões horrorizados, mas ele tinha razão. O estilo de Tolkien – de fato, sua
abordagem inteira – era derivado de poemas narrativos ingleses tais como Beowulf
e Gawain e o Cavaleiro Verde, das sagas nórdicas e, especialmente no
caso deste último livro, de Wagner. Essas eram histórias de heroísmo e magia,
de valores absolutos, das últimas coisas. A abordagem óbvia para um autor
contemporâneo que queira recuperar tais formas é atualizar o estilo delas e,
talvez, colocá-las em um contexto contemporâneo. Isso enfaticamente não é o que
Tolkien se propôs a fazer. Ele queria recriar o mundo e os idiomas daquelas
histórias, ajustadas apenas marginalmente aos ouvidos modernos. Uma frase do
primeiro parágrafo de Os Filhos de Húrin confirma isso: "Sua filha
Gloredhel casou com Haldir, filho de Halmir, senhor dos homens de Brethil; e,
na mesma festividade, seu filho Galdor, o alto, desposou Hareth, a filha de
Halmir."

Essa
é uma escrita demasiadamente "retrô".

O
pensamento moderno está claramente sendo arrastado pelo pescoço para longe de
sua zona de conforto literário. O argumento de Wilson foi o de que, tendo feito
esse gesto, o interesse de Tolkien no estilo terminara. Ele o compara a Iris
Murdoch: "Na verdade, Murdoch e Tolkien tinham isso em comum, embora
dificilmente pudessem ser mais diferentes em outros aspectos: como Murdoch,
Tolkien não se preocupava com o 'estilo', simplesmente fazendo uso, onde O
Senhor dos Anéis estava em questão, de sua prosa sub-William Morris".

Isso
está exatamente correto. Anos atrás, desisti de O Senhor dos Anéis e O
Hobbit precisamente porque a prosa parecia ser completamente superficial,
sem nenhuma das tendências mais profundas que constituem uma boa ou excelente
obra. Minha fome infantil por fantasia foi saciada pela inteligência, elegância
e poder da série de romances de T. H. White O Único e Eterno Rei. Depois
disso, Tolkien pareceu raso e freqüentemente puritano, de uma maneira
provinciana e "dônica" [N.T.: "dônica" = relativa aos dons
de Oxford, como Tolkien]. Concordei inteiramente a afirmação de um certo Hugo
Dyson, ao ouvir Tolkien ler uma parte de O Senhor dos Anéis: "Não
outra mer** de elfo".

Dito
isso, Os Filhos de Húrin é um tipo diferente de maçada. Não desisti de
lê-lo, principalmente porque um estilo intenso e muito adulto o salva das
falhas de suas outras obras. A prosa ainda é mais gestos do que profundidade,
mas há um sentimento real de grande seriedade. Não é uma história para crianças
como O Hobbit e é muito mais sombrio do que O Senhor dos Anéis. É
Tolkien no modo wagneriano. De fato, pode ser possível dizer que é o echt
Tolkien [N.T.: echt = "genuíno", em alemão]. A popularidade de
suas outras obras pode bem tê-lo desviado da seriedade e intensidade da sua
visão da Terra-média. Ele era um católico devoto, e embora o cristianismo não
esteja explicitamente presente, há um desenrolar dramático de história e
salvação no decorrer da obra. Esse era um homem que realmente queria dizer
aquilo com o que dizia. Mas por quê? O que tudo isso queria dizer? A primeira e
mais óbvia afirmação a se fazer é sobre o contexto. A Terra-média nasceu nos
dias sombrios da primeira guerra mundial e O Senhor dos Anéis foi
escrito durante e logo após a segunda. Seria absurdo ver os senhores do mal
Morgoth e Sauron como o Kaiser e Hitler; Tolkien de fato sempre negou qualquer
intenção alegórica. Entretanto, seus sonhos de lutas antigas e épicas entre o
bem e o mal parecem um modo de dar sentido à matança sem sentido e globalizada
do século XX.


mais uma peculiaridade nisso. Tolkien é visto convencionalmente como uma figura
antimodernista. Ele tinha aversão à tecnologia, e sua busca pelo antigo parece
ecoar aquelas dos Pré-Rafaelitas e do fantasista gótico Augustus Pugin,
projetista do Palácio de Westminster.

Isso
pode ser visto como escapismo, uma rejeição do engajamento modernista com o
presente e o futuro, mas não tenho certeza se isso é realmente justo. Compare,
por exemplo, o projeto de Tolkien com duas das maiores obras da literatura
modernista. Ulisses de James Joyce conta a história da vida comum de um
dia de Dublin como uma recapitulação da lenda do herói errante grego. A
Terra Desolada de T. S. Eliot é um panorama mitológico, baseando-se nas
histórias do passado para lançar uma luz devastadora sobre a condição do
presente, a coisa toda assombrada pelo espectro do colapso mental.

Em
outras palavras, embora completamente diferentes (e artistas muito superiores),
esses escritores estavam fazendo algo similar a Tolkien: tentando lançar uma luz
sobre o presente ao adaptar as histórias e mitologias do passado. O projeto de
Tolkien, na verdade, era mais como simples escapismo – seu passado, afinal de
contas, era inteiramente invenção sua – mas isso não diminui a importância
desse projeto como um sintoma fundamental da condição moderna.

De
fato, em virtude das vendas e do impacto cultural global das histórias da
Terra-média de Tolkien, seria insano tentar diminuir a importância de seu
projeto. Esses livros claramente se fizeram sentir na atualidade. Há uma
demanda, não exatamente por fantasia – tanto Christopher e como Lee concordam
que não querem que Tolkien seja confinado confortavelmente ao gênero da
fantasia –, mas por histórias que pareçam melhores, mais grandiosas, maiores e
mais estranhas do que as narrativas monótonas do mero presente. Enquanto O
Senhor dos Anéis encontrava-se no meio de sua ascensão nas listas de livros
mais vendidos ao redor do mundo, o jogo de tabuleiro Dungeons & Dragons,
vendido pela primeira vez em 1974, dominava quartos fétidos de universitários.
Hoje, seriam jogos de computador igualmente fantásticos, como World of
Warcraft. A magia, em uma era de descrença, persiste em curiosos intervalos do
contemporâneo.

Além
disso, tanto os filmes de Star Wars como os livros de Harry Potter confirmam o
anseio contemporâneo pela narrativa grandiosa e mágica. Glaurung, o dragão,
parece-se muito com Jabba o Hutt, e a espada falante de Turin poderia pertencer
a Harry. Parece haver uma necessidade, em todas as culturas modernas, pela
história que transcenda tempo e espaço, que, ao escapar dos pormenores e
compromissos do presente, trate diretamente das questões fundamentais da vida.
Se o Tolkien provinciano eleva nossa vista acima do mundano com sua prosa
precipitada e gestual e suas mitologias extravagantes, então quem sou eu para
reclamar? De qualquer forma, como um livro, não apenas como um fragmento de um
projeto, Os Filhos de Húrin, de seu próprio modo pouco sólido, porém
também digno de admiração, funciona.

Seis
mil anos antes de Bilbo Bolseiro encontrar o anel de Sauron, nasceram Turin e
Nienor, filhos de Hurin, chamado de O Inabalável, senhor de Dor-lomin, esposo
de Morwen. Turin guerreou com Morgoth e matou Glaurung, o primeiro dos dragões
de Morgoth. Mas…

Não,
é melhor eu não continuar. O enredo de Os Filhos de Húrin de J. R. R.
Tolkien está prestes a emocionar e intrigar milhões. O livro possui uma tiragem
inicial de 500.000 exemplares ao redor do mundo, mas isso será apenas o começo.
O Senhor dos Anéis de Tolkien vendeu 150 milhões de exemplares –  50 milhões desses desde que os filmes de
Peter Jackson foram lançados. Outros 50 milhões de exemplares de outros
Tolkiens, principalmente O Hobbit, também foram vendidos. É seguro dizer
que o "grande conto" de Turin está prestes a se tornar um mito
global.

O
livro foi restaurado pelo filho de Tolkien, Christopher, a partir dos escritos
reunidos de seu pai. A história foi iniciada em 1918, mas nunca foi formalmente
organizada em um romance. Christopher agora realizou isso, usando, diz-se,
apenas as palavras de seu pai, com poucas mudanças gramaticais. Em teoria, isso
levanta possibilidade de restauração de outros grandes contos deste período – A
Queda de Gondolin, Beren e Luthien foram sugeridos, e A Balada de Leithian – mas,
na prática, nenhum desses parece estar no estado completo, porém disperso, de Os
Filhos de Húrin. Esse provavelmente será o último conto completo de
Tolkien.

O
momento é significativo. Os filmes mudaram fundamentalmente o status dos
livros. Como me conta Alan Lee, o ilustrador de Os Filhos de Húrin e
vencedor do Oscar pela direção de arte dos três filmes, há algo literal sobre o
filme. Ao desenhar para Jackson, ele se viu tendo que detalhar cada nuance.
Enquanto Tolkien podia rabiscar em uma página de prosa, a audiência do cinema
moderno quer a coisa toda na tela. Além do mais, foi criada uma geração de fãs
de o Senhor dos Anéis – mas não necessariamente de leitores de Tolkien. A
ênfase deixou de estar nos livros.

Isso
parece explicar, pelo menos em parte, pontualidade de Os Filhos de Húrin.
Christopher falou pela primeira vez com David Brawn, diretor de publicações da
HarperCollins, sobre o livro há dois anos, quando o rebuliço dos filmes estava
pronto para diminuir. Brawn acredita que foi uma clara tentativa de trazer a
obra de seu pai de volta às páginas impressas. E de fato, para Lee, foi uma oportunidade de escapar do
literalismo dos filmes e voltar para o seu estilo assombroso, sugestivo e muito
inglês de contos de fadas.

Contudo,
um novo Tolkien póstumo é um risco. Em 1977, a publicação de O Silmarillion
foi criticada porque o livro incluía interpolações de Christopher. A acusação
era de que o espólio estava explorando o legado. O livro foi chamado em
zombaria de "The Sell-a-Million" [N.T.: trocadilho com o nome
"Silmarillion"; literalmente "O Vende-um-Milhão"]. A
implicação era a de que Tolkien estava se tornando uma marca em vez de um
autor, um processo certamente acelerado pelos filmes. Por outro lado, é
trabalho dos executores literários encontrar bons materiais não-publicados. Se
Christopher não fez mais do que amarrar uma história coerente a partir da prosa
de seu pai, não vejo muito problema. Ele apenas fez o que seu pai pretendia.

(Fonte: Times
Online
)