Tolkien e Idade Média

A obra do escritor inglês J.R.R. Tolkien
foi uma das que mais se destacaram no século XX – pelo estrondoso sucesso e pela
grande influência sobre a cultura pop. Tanto sucesso fez com que diversas
opiniões fossem dadas sobre a obra, e alguns estudos acadêmicos também. Algumas
idéias defensáveis, outra nem tanto, avaliações bem feitas, análises mal feitas
ou superficiais. Como sempre, aliás, ao se pegar um apanhado de textos, seja
qual for o assunto. Uma das associações que são realizadas com maior freqüência
em relação à obra do inglês é com a Idade Média: sua literatura, seus costumes,
etc. E é sobre estas relações imediatas com o período que discorreremos.

 

Tolkien certamente foi inspirado
pela Idade Média e especialmente pela literatura medieval – suas cartas
confirmam isso. Menos: não é necessário ler as cartas para perceber isto. Basta
apenas ler o livro e ver a trilogia dirigida pelo Peter Jackson. As fortalezas
são inspiradas nas medievais européias. A organização social parece-se muito
com a de 1000 anos atrás. As raças e os animais nos remetem a lendas antigas:
elfos, anões, dragões. Cavaleiros lutam para que suas terras sejam mantidas com
eles. O filme muito contribui: o figurino, as armas, Bri, os barcos usados. São
muitas as semelhanças com o que lemos nos textos medievais, tantas com o que
vemos nos filmes com temática medieval – não há como negá-las.

Não à toa, busca-se de forma
intensiva pelas inspirações do Professor Tolkien, e são muitos os textos
associados a ele, das mais variadas formas. Uns para comparar o que a
literatura medieval apresentou com o que Tolkien apresentou – e nesses
confrontos diversos textos são usados. Outros para procurar as influências – Beowulf e Eddas, por exemplo. Algumas dessas buscas são recorrentes, e
muitas delas são inumeramente feitas e refutadas – como a que associa o anel do
Anel dos Nibelungos, do Wagner, com o
anel do Senhor dos Anéis.

Compara-se freqüentemente também a
obra de Tolkien com o que se sabe da Idade Média através dos vestígios:
arquitetura, textos (com registros de crenças, costumes, organização
sócio-espacial…), as armas. Os escritos do Professor lembram mesmo o período
medieval: foram as línguas e as literaturas desse período, afinal, que mais o
motivaram a ler, a escrever, a estudar. Os fãs e estudiosos que se debruçam
sobre a obra dele não podem ignorar isso, e alguns se focam nas apropriações
realizadas pelo autor.

Uma dessas apropriações é a
existência de marcas na Terra Média. “Marca” é o nome medieval para território
de fronteira, o que hoje é chamado de região “tampão”. Pode ser um país
independente, uma região sem governantes fortes – o que caracteriza todas elas
é que são fronteiras.  Marquês era o
título dado ao guerreiro que era o chefe das forças militares das marcas. O
título, com o tempo, passou de função militar a “mera” designação de nobreza.
Tolkien criou as suas, como Terra dos Buques, entre a Vila dos Hobbits e a
Floresta Velha. A Marca mais importante para a história é Rohan. Quem não tem
acesso ao texto original não sabe que Terra dos Cavaleiros (como os rohirrim a
chamam) é a tradução para Mark of the Riders (ou Riddermark, literalmente Marca
dos Cavaleiros)[1]. Eorl e
seu povo tiveram direito a essas terras após lutarem como aliados de Gondor
contra os bárbaros do norte e os orcs. Em Gondor, essa terra foi chamada de
Rohan (terra dos rohirrim, ou terra dos cavaleiros).

Outra apropriação apontada é a
relação dos personagens com a natureza. São obrigados a percorrer grandes
espaços “vazios”, como na Idade Média.  As
curas são feitas por plantas. As florestas, assustadoras (tal como no
imaginário medieval). Pode-se ainda falar da importância das línguas e da
escrita (assim como a pouca amplitude do alcance das letras), a importância do
título da pessoa, da sua linhagem. A forte estratificação social. Entre outros
exemplos.

Acredito, no entanto, que se
essas associações podem ser feitas, elas não são muito úteis para a análise da
obra do Professor. E por dois motivos. O primeiro é que saber que Rohan é uma
Marca não ajuda de forma decisiva a compreensão e análise da história: sabe-se
que foi um território doado para se consolidar uma aliança militar, e que
aquela é uma região de fronteira. E…? Gondor e Rohan são aliados. Ponto
final. Tanto não é essencial saber que Rohan foi concebida como uma Marca que
não foi traduzido como tal e essa versão não alterou muito a compreensão do
texto. Um artigo sobre a aliança entre os dois países pode sim explorar esse
aspecto, e deve. Mas não vai ser ele o fio condutor. As ações que fortaleceram
e enfraqueceram a aliança em momentos diferentes é que ditariam um artigo com
esse tema. Esse foi apenas um exemplo, mas outros poderiam ser citados: para a
análise, precisa-se muito mais do que saber que Tolkien fez apropriações da
Idade Média.

O segundo motivo é ainda mais
forte. Tolkien viveu a maior parte da sua vida no século XX, foi criado na
virada dos séculos. Suas expectativas, suas percepções, sua escrita, eram de um
homem desse contexto, e de nenhum outro. Os elfos de suas obras não se parecem
com os elfos medievais,a não ser pelo nome. O próprio Tolkien, nas cartas, diz
que talvez outro nome seria melhor (para evitar associações ruins). Segundo o
próprio Tolkien os elfos são “simplesmente uma representação ou apreensão de
uma parte da natureza humana”.  Assim
como os anões e os hobbits. Apreensões de um homem contemporâneo escritas de
forma lendária porque era esse o tipo de texto que agradava o gosto pessoal
desse mesmo homem.

Em uma das cartas em que trata da
natureza do elfos, o autor escreve em 1956 sobre as qualidades dos mesmos: têm
um dom especial para expressões artísticas e agem de forma verdadeiramente
científica. Por "verdadeiros cientistas", o professor entende que são
aqueles que estudam "o outro" como forma de entendê-lo, não para
usá-lo como plataforma para se conquistar poder. Através das ações e
característas de cada raça, Tolkien discorre sobre um debate importante no
século XX: o que é ciência e como deve ser usada. Para o autor, a ação humana
deve se limitar ao necessário para o seu sustento, evitando-se usar o estudo de
outras criaturas como forma de subjugá-las e de dominar outros homens.

Outra forma de expressar a sua
preocupação com a utilização da fauna e da flora foi a antropomorfização
destas. Ents e águias utilizam líguas humanas para manifestar repúdio a ações
puramente depredatórias. Defendem verbalmente o direito de viver e de caçar.
Inicialmente se apresentam desconfiados perante estranhos, mas se os
personagens não apresentam ameaça ents e águias, mesmo não sendo afáveis, se
mostram dispostas a ajudar – mesmo porque eles têm inimigos em comum com os
personagens principais – inimigos esses que ameaçam a sobrevivência de tudo que
é belo e vivo.

Para um estudo historiográfico da
sua obra (que é particularmente o que me interessa), tem-se que estudar o
século XX, muito mais do que o XII ou o XIII. Foi o contexto em que Tolkien se
encontrava o maior inspirador da sua obra, da parte mais importante dela: a
interação dos personagens entre si e com o meio ambiente em que vivem. Saber
que a literatura medieval foi a maior inspiração para a criação dessa geografia
não resolve a questão de saber como as diferentes raças interagem entre si e
com o espaço. Um documento medieval (especialmente literário) não discorre
sobre o que é ciência e como deve ser usada. Se um texto de um teólogo medieval
discorre sobre isso, ainda assim a sua noção de ciência é completamente
diferente da contemporânea, as preocupações são outras. As florestas e as
criaturas do imaginário medieval são assustadoras – elas são o desconhecido
ameaçador. Quando as criaturas não ameaçam, só não o fazem por serem divinas.
As florestas tolkienianas são sim ameaçadoras. Mas não apenas por representarem
o desconhecido inexplorado, mas por auto-defesa. Essa postura perante a natureza
rendeu a Tolkien homenagens póstumas de ambientalistas – um autor medieval não
as receberia de homem de nenhum tempo.

Enfim, a originalidade de Tolkien
reside na combinação de apropriações do medievo com reflexões de um homem do
século XX – e são essas considerações que constituem a parte mais importante do
seu trabalho, que nos permite analisá-lo e criticá-lo.


[1] Uma boa tradução, se notas explicatórias não estão
sendo usadas.

Comentários

  1. […] Ibérica. Mas, de qualquer forma, Tolkien foi o pontapé, pela qualidade da ambientação que fez (até escrevi um post sobre a relação da obra com a Idade Média, na Valinor). Ambientação, aliás, muito bem feita não sem razão: ele também foi medievalista, mas na […]

  2. Nossa, parabéns pelo artigo! Muito bem escrito e pensado!
    Curso história na faculdade e concordo com você que no momento em que se faz uma análise historiográfica de um determinado texto iremos descobrir que ele transmite conceitos da época em que foi concebido, cabendo a nós analisarmos o conteúdo contextualizadamente (para que, entre outras coisas, entendamos realmente o que o sujeito quis dizer e para não cair no famoso anacronismo). Um documento redigido no século XX sobre o século XII certamente nos diz mais sobre o século XX do que o século XII (e como o século XX pensa o século XII), na medida em que os conceitos e a forma de ver o mundo do autor refletem os de seu próprio tempo.