Liderar, Seguir e Atravessar o Mar

Uma leitura dos relacionamentos heróicos em "O Senhor dos Anéis"
de J.R.R. Tolkien

Em seu ensaio
"Ofermod" de 1953, J. R. R. Tolkien enfoca o assunto do líder e do
subordinado no épico heróico nórdico. Sobre o lugar do subordinado no poema em
inglês antigo "A Batalha de Maldon", Tolkien diz que ele era alguém:
"… que não tinha qualquer responsabilidade para baixo, apenas lealdade
para cima. Orgulho pessoal, portanto, estava nele no seu nível mais baixo, e
amor e lealdade no seu nível mais elevado". O líder, no seu papel de
provedor, "pode realmente receber crédito pelos feitos de seus cavaleiros,
mas ele não pode usar a lealdade destes ou os expor ao perigo simplesmente com
este propósito". Parte do relacionamento heróico, então, envolve lealdade
inabalável por parte do subordinado, e total controle do orgulho por parte do
líder.


 


Em O Senhor dos Anéis, Tolkien desenvolve vários relacionamentos em
concordância com as idéias de lealdade que expressa em "Ofermod".
Essas idéias podem também ser aplicadas ao famoso poema anglo-saxão Beowulf,
e desta forma uma leitura de Beowulf revela muitos paralelos aos líderes
e subordinados em O Senhor dos Anéis. Como Beowulf e Hrothgar, as
figuras dominantes nas muitas jornadas e batalhas da Terra-média possuem
personagens que os auxiliam e seguem a sua liderança. Enquanto nenhum dos
indivíduos participantes desses relacionamentos é retratado como perfeito, o
relacionamento em si é mostrado originar-se de uma concepção ideal da dinâmica
entre o líder e o servo, e o nível ao qual o relacionamento se aproxima desse
ideal ajuda a definir os personagens envolvidos.


O par central em O Senhor dos Anéis (SdA), Frodo e o seu subordinado
Sam, representa talvez o laço mais ideal do livro. No início da trilogia, a
característica inicial que define Frodo é a sua inocência. Como um Hobbit,
Frodo é pequeno, e como um habitante de uma toca da terra rural no longínquo
ocidente, o Condado, a distância de Frodo das ações de Sauron e dos eventos dos
homens de Gondor e Rohan é enfatizada. Quando Gandalf lhe conta os planos de
Sauron, Frodo não consegue compreender, perguntando ao Mago, "– Vingança
pelo o quê? Ainda não entendo o que tudo isso tem a ver com Bilbo, comigo e com
nosso anel" (Volume I, 58). Demonstrando a ingenuidade de Frodo desta
maneira, Tolkien está mostrando um lado do futuro herói que não está de acordo
com o herói tradicional como Beowulf. Tolkien também retrata o medo de Frodo
através do seu encolhimento de ombros e estremecer (I, 58-59). Ao final da sua
conversa, no entanto, Frodo aceita o sacrifício que ele deve fazer com bravura
e humildade:


"– Mas espero que você possa encontrar logo algum outro guardião melhor.
Mas por enquanto parece que represento um perigo, um perigo para todos os que
vivem perto de mim. Não posso guardar o Anel e ficar aqui. Devo deixar Bolsão,
o Condado, deixar tudo e ir embora. – Ele suspirou." (I, 71)


Frodo é mostrado, através do início da série, como sendo uma figura empática
pelo seu medo compreensível, sacrifício admirável e bravura inesperada.


Samwise Gamgi é retratado inicialmente como alguém tomado por idéias de seres
fantásticos, possuidor de um profundo senso de lealdade e de uma certa
sensibilidade. Estas características fornecem um ímpeto natural para o seu
desejo de seguir e servir o "Mestre" Frodo. Sam "acreditava ter
visto um elfo uma vez nos bosques, e ainda esperava ver mais deles algum
dia" (I, 54), e assim que ouve de Gandalf que vai partir com Frodo, ele mostra
um entusiasmo genuíno: "– Eu, senhor? – gritou Sam, pulando como um
cachorro que é convidado para um passeio. – Eu ir e ver elfos e tudo mais?
Viva! – gritou ele, rompendo em lágrimas." (I, 71). Esta cena resume todas
as três características de Sam na empolgação, na comparação com um cachorro, e
nas eventuais lágrimas. A caracterização como um cachorro é importante na minha
discussão, pois é a lealdade a um mestre associada com os cachorros que Sam
possui no decorrer da trilogia.


Enquanto as características de Frodo e Sam são expandidas, também o são os
aspectos do seu relacionamento. Frodo fica cada vez mais fraco quanto mais se
afastam do Condado, e a lealdade de Sam ganha mais proeminência na história
como que para deixar claro que ele é a razão pela qual Frodo ainda é capaz de
carregar o seu fardo. Depois que Frodo é ferido pelo Cavaleiro Negro no caminho
para Valfenda, Sam mostra os cuidados de um servo leal (I, 251). De maneira
semelhante a Beowulf e Wiglaf, os dois enfrentam juntos uma grande missão,
apesar do líder sentir que o peso do sucesso está somente sobre si. Assim como
Beowulf precisa do auxílio de Wiglaf para matar o dragão, Frodo não pode
completar a sua missão sem a ajuda de Sam. Frodo aceita o desafio de levar o
Anel para o sul com humildade e disposição características: "– Levarei
o Anel – disse ele,  – "Embora não
conheça o caminho" [sublinhado meu] (I, 284). No entanto, por participar
do Conselho para o qual não foi convidado, Sam junta-se ao seu mestre em mais
uma parte da sua jornada: "– Mas certamente o senhor não o enviará
sozinho, Mestre?" (I, 284). A relutante bravura de Frodo ecoa as suas
palavras anteriores sobre ir para leste rumo a Valfenda: "– Vou para o
leste, com destino a Valfenda. Levarei Sam para visitar os elfos; ficará encantado"
(I, 75). Em ambos os casos, a disposição de Frodo em fazer um sacrifício é
seguido pelo papel que será desempenhado pelo leal Samwise.


À medida que o par se aproxima da terra das sombras, a lealdade de Sam
mostra-se ainda mais proeminente. Conforme Frodo é enfraquecido pelo fardo do
Anel, o amor de Sam por Frodo é demonstrado através do cuidado que ele tem em
alimentá-lo (II, 261) e em certificar-se de que Frodo esteja protegido de
Gollum (II, 246). Quando fica aparente a ele que Frodo encontrou o seu fim, Sam
aceita de boa vontade para si a tarefa de destruir o Anel (II, 340), sabendo
que é o que Frodo iria querer que ele fizesse. Após descobrir que o seu mestre
ainda está vivo, no entanto, Tolkien mostra repetidamente que é o amor de Sam
que o impulsiona a continuar:


"Sam não tinha mais dúvidas sobre o seu dever: deveria resgatar seu mestre
ou perecer na tentativa." (III, 173)


"Seu amor por Frodo
elevou-se acima de todos os outros pensamentos e, esquecendo o perigo, gritou:
– Estou chegando, Sr. Frodo!" (III, 175)


"Naquela hora de provação,
foi o amor por seu mestre que mais o ajudou a manter-se firme" (III, 177)


"Fez um esforço para pensar em Frodo, acorrentado, sofrendo ou morto em
algum ponto daquele lugar aterrorizante. Continuou a avançar." (III, 180)


"Não se importava mais com Shagrat ou Snaga ou qualquer outro orc que
jamais fora parido no mundo. Só pensava em seu mestre, desejando uma visão de
seu rosto ou um toque de sua mão." (III, 184)


A lealdade de Sam e o amor pelo seu mestre são retratados como transcendendo a
vida e a morte, a esperança e o desespero, e assim Tolkien estabelece que este
relacionamento é o padrão pelo qual todos os outros deveriam ser julgados.


Uma vez reunido com o seu mestre, Tolkien mostra como a lealdade de Sam é
manipulada pelo Anel, enfatizando ainda mais a importância da lealdade em
qualquer consideração a respeito do caráter de Sam e de seu relacionamento com
Frodo. Como todos que usam o Anel, Sam também acaba sendo vítima do desejo de
possuí-lo, apesar do seu conhecimento a respeito do Anel e do seu amor pelo seu
mestre. Sabendo que o seu mestre não iria se separar do Anel por vontade
própria, Sam ainda assim sente que ele deve se oferecer para dividir o fardo do
Anel (III, 188). A influência do Anel sobre Frodo fica aparente na sua
resposta, e Frodo deixa claro que ele não pode se separar do Anel. No entanto,
mais tarde, quando Frodo reclama do peso do Anel, Sam novamente diz,


"– Então deixe-me carregá-lo um pouco para o senhor, Mestre, – disse ele.
– O senhor sabe que eu faria isso, de bom grado, enquanto me restassem
forças" (III, 214).


Sam não é tolo, e isso foi deixado claro através das suas aventuras em Mordor
(apesar do seu papel como O Tolo possa ser discutível), mas aqui, ele age de
maneira tola ao pedir a Frodo mais uma vez, arriscando a desaprovação do seu
Mestre pelo qual ele já foi profundamente magoado duas vezes antes (III, 214 e
I, 115). O seu desejo pelo Anel é a única razão lógica para as suas palavras, e
os seus poderes de manipulação ficam ainda mais malignos por agirem sobre a
lealdade pura de Samwise Gamgi.

No final da trilogia, Frodo escolhe
atravessar os mares e partir da Terra-média. Essa escolha irá terminar o seu
relacionamento com Sam, mas Frodo diz a Sam que agora é esperado que ele lidere
outros, como prefeito, marido, e pai. A "parte [de Sam] na História
continua" (III, 309). Apesar da sua tristeza com a partida de Frodo, Sam,
nas suas últimas palavras da trilogia, demonstra contentamento com a sua nova
posição: "Sam respirou profundamente. – É, aqui estou de volta – disse
ele" (III, 311). Sam, definido como um servo leal no decorrer de toda a
trilogia, torna-se no fim um leal homem de família com respeito e amor pela
família que depende dele assim como pelas pessoas que ele deverá servir como um
oficial eleito. Indubitavelmente, o seu relacionamento com Frodo é o ideal que
Sam tentará manter nos seus novos papéis.

Assim como Frodo e Sam, Merry e Théoden
(do inglês antigo "theoden" que significa "senhor") formam
um relacionamento baseado em amor e lealdade. Relembrando o idoso Hrothgar e o
Beowulf já mais velho de Beowulf (Beowulf, 357, 2209-2210), a
primeira imagem de Théoden é a de um homem velho, "… um homem tão
curvado pela idade que quase parecia um anão" (III, 116). Ele é enganado e
debilitado pela influência do perverso Gríma Língua de Cobra, e só depois que
as palavras de Gandalf reavivam a sua consciência é que vemos o verdadeiro
Senhor de Rohan:

"Ele esticou o corpo, lentamente,
como um homem que se sente enrijecido após ficar um longo período curvado sobre
alguma tarefa enfadonha. Agora erguia-se alto e ereto, e seus olhos azuis
contemplavam o céu que se abria." (III, 120)


"Quando seus dedos tocaram o punho [da espada], pareceu aos que olhavam
que a força e a firmeza retornavam ao seu braço." (III, 123)


Diferente da situação desesperadora de Hrothgar no início de Beowulf (Beowulf,
189-191) e da bravura relutante de Frodo, Théoden é mais como o Beowulf
envelhecido que escolhe lutar com o dragão que devastou a sua terra:


Not one foot Will I retreat from the barrow-keeper, but there by the wall it
must go between us as fate decides, the Lord, for each man (Beowulf,
2524-2527).


Da mesma forma, Théoden diz: " – Eu mesmo irei à guerra para cair à frente
da batalha, se isso tiver de acontecer. Assim dormirei melhor." (II, 123).
Ele ainda é um homem velho, mas é um homem velho cavalgando para guerra por
vontade própria.


No âmago do seu caráter, no entanto, Théoden é um senhor, e um senhor de
qualquer idade requer servos que sejam ambos leais e prestativos. É a
praticidade do Hobbit Merry que o marca ao início da trilogia, e mostra que ele
é alguém disposto a agir em interesse de outros. Foi ele quem ajudou Frodo a
encontrar um lar em Cricôncavo (I, 76), e assim que Frodo, Sam, e Pippin chegam,
ele prova ser um anfitrião atencioso, dando atenção a todos os interesses de
seus convidados:


"Naquela sala, há três banheiras e um caldeirão cheio de água
fervendo. Também há toalhas, tapetes e sabão. Entrem e sejam rápidos!" (I,
111)


"Já preparei praticamente tudo. Há seis pôneis num estábulo do outro lado
do campo; os mantimentos e equipamentos estão todos embalados, com exceção de
roupas extras e da comida perecível" (I, 117).


Merry mostra uma habilidade de ter a situação sob controle quando o assunto é
suprir as necessidades de outros.


Que Merry é corajoso é evidenciado pela sua prontidão em ajudar Frodo na sua
missão, apesar do que ele já sabe sobre o perigo envolvido. Quando está sendo
discutido se alguém deveria acompanhar Frodo, ele diz: "– Sabemos que o
Anel não é brincadeira; mas faremos o possível para ajuda-lo contra o
Inimigo" (I, 117). Essa bravura e disposição de servir fazem de Merry um
exemplo perfeito do tipo de indivíduo que poderia servir da melhor forma um
senhor do tipo inglês antigo.


Quando ele finalmente conhece Théoden, um laço é rapidamente formado entre os
dois e Merry age de forma resoluta ao oferecer os seus serviços ao Senhor dos
Rohirrim:


"Cheio de um súbito afeto por aquele velho, ajoelhou-se sobre um dos
joelhos, tomou-lhe a mão e beijou-a. – Permita-me depositar a espada de
Meriadoc do Condado em seu colo, Rei Théoden! – exclamou ele. – Aceite meu
serviço se lhe aprouver!"


"– Aceito com satisfação – disse o rei, e, colocando as longas e velhas
mãos sobre os cabelos castanhos do hobbit, abençoou-o. – Levante-se agora,
Meriadoc, escudeiro de Rohan, da casa de Meduseld! – disse ele. – Pegue sua
espada e conduza-a para uma sorte feliz!"


"– O senhor será como um pai para mim – disse Merry."


"– Por pouco tempo – disse Théoden." (III, 50-51)


O relacionamento é formado por amor, e prospera por conta da lealdade e do bom
serviço de Merry e por causa da liderança de Théoden.


Quando Théoden se apronta para ir para a Guerra e diz a Merry que fique para
trás, o ato de desobediência de Merry é necessário para o cumprimento do seu
juramento. Isso é compreendido ao percebermos que, já que Théoden sabia tão
pouco sobre hobbits e da bravura a qual eles são capazes de possuir, ele estava
fazendo apenas aquilo que sentiu ser o melhor para Merry. Somente Merry é quem
sabe do que ele é capaz e, assim, quando Dernhelm (Éowyn) lhe dá uma chance de
seguir Théoden na batalha, ele aceita:


"– Você deseja ir aonde o Senhor da Terra dos Cavaleiros for: vejo isso em
seus olhos."


"– Desejo – disse Merry." (III, 77-78)


Merry desobedece o comando do seu senhor, mas nunca se distancia do espírito de
lealdade que o faz desejar, acima de tudo, estar ao lado do seu senhor nos
momentos mais sombrios.


Théoden cavalga para a batalha, valorosa e bravamente como era esperado de um
bom líder de acordo com ideal heróico inglês antigo visto em Beowulf e
em "A Batalha de Maldon":


"… a figura curvada do rei de repente se aprumou. Agora ele parecia alto
e orgulhoso novamente; e levantando-se nos estribos gritou numa voz poderosa,
mais cristalina do que qualquer um já ouvira um homem mortal produzir
antes" (III, 113)


"Bem ao centro da tropa ia Théoden, filho de Thengel, e sua lança se
partiu no momento em que ele derrubou o capitão inimigo" (V, 114-115).


Bravura e uma determinação de liderar através de exemplo é o que Tolkien
enfatiza em Théoden, e estes fazem da sua imagem a de um bom líder para os seus
homens e para Merry.


O amor por Théoden e a sua ligação ao seu juramento fazem Merry enfrentar os
seus próprios medos e ajudar Éowyn a matar o Senhor dos Nazgul:


"Merry se arrastava de quatro como um animal que não enxerga, e tamanho
terror o dominava que ele se sentia doente e cego.


– Homem do Rei! Homem do Rei! – seu coração gritava. – Você deve ficar ao lado
dele. O senhor será como um pai para mim, foi isso o que você disse" (V,
115)


"A espada de Merry o ferira por trás, rasgando de cima a baixo o manto
negro e, passando por baixo da couraça metálica, atravessara o tendão atrás de
seu forte joelho." (V, 117)


Esta bravura é sem qualquer egoísmo, e a lealdade de Merry para com Théoden dá
a ele a força para vingar o seu senhor e para ajudar a enfrentar a sombra que
está se espalhando por sobre a sua terra.


Enquanto Merry se aflige por ter desobedecido o comando de Théoden, Théoden o
perdoa e realiza um ato final de bravura no momento em que encara a sua própria
morte:


"… não me sentirei envergonhado. Derrubei a serpente negra. Uma manhã
cinzenta, um dia alegre, e um ocaso de ouro!


Merry não conseguiu dizer nada, mas chorou mais uma vez. – Perdoe-me, senhor –
disse ele finalmente – se desobedeci a sua ordem, e apesar disso não consegui
fazer mais nada a seu serviço do que chorar a nossa despedida.


O velho rei sorriu.
– Não chore! Está perdoado. Não se pode repudiar um grande coração. Viva feliz
agora, e, quando estiver em paz fumando seu cachimbo, pense em mim!" (V,
118)


Assim como Wiglaf demonstrou bravura e lealdade em ajudar Beowulf até o momento
da sua morte (Beowulf, 2752-2755), assim também o faz Merry, e o próprio
Théoden é ainda um líder nobre até mesmo nos últimos momentos do seu
relacionamento.


Em contraste com Merry e Théoden, cujas características individuais os serviram
bem para formar um relacionamento baseado em liderança e servidão, as características
de Pippin e Denethor os fazem indivíduos muito menos que ideais para formarem
um laço heróico nórdico. As características enfatizadas em Pippin através da
primeira metade da trilogia são a sua impaciência, curiosidade e rudeza. Ele é
rápido em perder a paciência com os outros, embora haja um leve tom de
brincadeira nas suas palavras de vez em quando:


"– Sam! Apronte o desjejum para as nove e meia! Já esquentou a água do
banho?


De um salto Sam se pôs de pé, ainda com muito sono. – Não, senhor, ainda
não!" (I, 81)


"– Água! – gritou Pippin. – Cadê a água?" (I, 82)


Quando a sociedade chega aos portões de Moria:


"– Por que Gandalf não faz alguma coisa logo?" (I, 321)


A sua curiosidade é mostrada quando ele deixa cair uma pedra dentro de um poço
nas Minas de Moria e Gandalf o repreende (I, 326-327). Mais tarde, sua
impaciência e curiosidade em ver o Palantír levam-no a dar uma olhada e como
resultado ele quase trai os seus companheiros dizendo a sua localização para o
Inimigo (II, 196-198). Pippin é uma fonte constante de irritação para Gandalf
no decorrer da trilogia, e uma vez que o mago é uma das forças guias por trás
da jornada para destruir o Anel e frustrar os planos de Sauron, as ações de
Pippin fazem dele uma figura menos idealizada que outros como Frodo, Sam e
Merry, que pouco fazem para testar a paciência de Gandalf.


Em outros momentos, Pippin age de uma maneira insensível, especialmente com
Sam, como já mostrado acima. Isso acontece duas outras vezes, e é curiosamente
em parceria com pistas da sua bravura de juntar-se a Frodo na sua missão:


"– Você precisa ir – portanto nós precisamos ir também. Merry e eu vamos
com você. Sam é um sujeito excelente, e pularia dentro da garganta de um dragão
para salvá-lo, se não tropeçasse nos próprios pés; mas você precisará de mais
um companheiro nessa aventura perigosa." (I, 114)


"– É a coisa mais injusta que já ouvi – disse Pippin. – Em vez de
expulsá-lo e acorrentá-lo, Elrond vai e o recompensa por esse
descaramento!" (I, 285)


Essa bravura é a característica mais importante que ele irá cultivar no
decorrer da trilogia, mas aqui encontra-se manchada pela sua disposição de
diminuir Sam sem provocação. Em contraste com Merry, fica claro que ele não é
apresentado como uma figura subordinada ideal.


Nossa primeira visão de Denethor é a de um homem velho orgulhoso e de um
anfitrião descortês. Assim como Théoden, ele não recebe Gandalf nos seus salões
de braços abertos (III, 26) mas, diferente de Théoden, a razão para o seu
comportamento mostra-se que está dentro dele e que não é o resultado do
trabalho de um outro homem. Apesar da influência do Palantír poder ser
comparada à figura de Língua de Cobra, fica claro que Denethor escolheu olhar o
Palantír por vontade própria, e o seu desejo de fazê-lo nasceu do seu orgulho.
O orgulho é visto em pistas sutis percebidas por Pippin, como quando o Senhor
parece ter um brilho nos olhos ao falar das Pedras (III, 30), ou como ele
demonstra possuir tanto conhecimento sobre terras distantes sem dizer aos
outros como ele veio a saber tanto (III, 80). Seu orgulho está com ele no
início do seu papel na história, e permanece com ele até o fim.


Denethor demonstra exigir muito dos outros, particularmente de Pippin e
especialmente de Faramir. Ele precisa obter informações de Pippin, e as exige
dele antes mesmo de saudá-lo ou de proferir qualquer palavra gentil a ele:


"– Então – disse Denethor. – Você estava lá? Conte-me mais! Por que
nenhuma ajuda chegou? E como você escapou e ele não, sendo um homem tão
poderoso como era, com apenas orcs para enfrentá-lo?" (III, 27)


Ele também é exigente com Faramir, e não-paternal, em contraste com a imagem
que temos de Théoden através do seu relacionamento com Merry. Denethor
considera estar Boromir acima de Faramir por que:


"– … Boromir era leal a mim, e não era pupilo de nenhum mago. Teria
pensado na necessidade de seu pai, e não teria jogado fora o que lhe fosse
oferecido pela sorte. Ele me teria trazido um presente valioso." (III, 86)


O desejo de Denethor em possuir o poder que Boromir deveria proporcioná-lo na
forma da Ruína de Isildur, e que Faramir não pode lhe dar, assim como a sua
necessidade por uma obediência total de seus filhos, o cegou. Denethor, ao
contrário de Frodo e Théoden, vê a lealdade somente em termos de até que grau
aqueles que o servem correspondem às suas expectativas do quanto eles podem
prover ao seu senhor. Aqueles outros líderes foram capazes de ver o âmago da
lealdade naqueles que os serviam. Além disso, ao contrário de Denethor, eles
cumprem as obrigações de um líder de não exigir mais do que um servo é capaz de
dar.


Como Merry, Pippin oferece o seu serviço a um senhor mas, ao contrário de
Merry, ele o faz pelo orgulho resultante dos insultos de Denethor:


"Então Pippin olhou nos olhos do velho, pois o orgulho se agitava de
maneira estranha dentro dele, ainda mordido pelo desprezo e pela suspeita
daquela voz fria. – Pouca serventia, sem dúvida, um senhor de homens tão
poderoso achará num Hobbit, um Pequeno vindo do Condado do Norte; mas mesmo
assim vou oferecê-la, em pagamento da minha dívida. – Afastando para o lado a
capa cinzenta num movimento brusco, Pippin puxou a espada e a depôs aos pés de
Denethor." (III, 28)


A impaciência, curiosidade e bravura de Pippin o trouxeram a este momento onde
o orgulho anula o seu julgamento e o faz agir precipitadamente e oferecer o seu
serviço a um homem a quem ele não respeita. Essa falta de respeito é observada
no sarcasmo inerente das palavras com as quais ele decide enquadrar a sua
oferta. Ao mudar conscientemente de hobbit para pequeno e de outra forma se
rebaixando em seu discurso, ele está mostrando que não está completamente
satisfeito em servir esse homem. Entretanto, Pippin quer provar que Denethor
está errado, e para tal ele precisa provar que ele mesmo é um seguidor bravo e
fiel.


Essa união é retratada como completamente desprovida do amor mútuo visto nos
relacionamentos de Merry e Théoden e de Frodo e Sam. Denethor não está
preocupado com o que Pippin pode ganhar com o laço formado com um senhor,
apenas no que este laço pode proporcionar a ele mesmo. Denethor aceita a oferta
de Pippin sob o argumento de que é em retribuição pela morte de Boromir, apesar
de Gandalf e Pippin terem deixado claro que Pippin não deveria ser considerado
culpado (III, 27-28). Em contraste com a livre aceitação de Théoden da espada
de Merry, Denethor exige a arma de Pippin: "– Dê-me a arma!" (III,
28). Uma vez feito o juramento, Denethor não perde tempo em dar ordens ao seu
novo servo:


"(…) minha primeira ordem para você: fale e não deixe de dizer nada!
Conte-me toda a sua história, e trate de recordar-se de tudo o que puder sobre
Boromir, meu filho. Sente-se agora e comece!" (III, 29)


"Pippin jamais esqueceu aquela hora, no grande salão, sob o olhar agudo do
Senhor de Gondor, continuamente apunhalado por suas perguntas
perspicazes." (III, 30)


Pippin vem a ver o seu senhor "como uma aranha velha e paciente"
(III, 79), e percebe que "era agora, num jogo sério como a morte, o
servidor de um senhor severo, correndo o maior dos perigos" (III, 81).
Esse relacionamento não possui a dimensão do respeito que marca os
relacionamentos heróicos mais ideais na trilogia.


A união desses dois personagens que não são apresentados como indivíduos ideais
só pode resultar em uma situação não muito desejável. Como já afirmei, Denethor
está preocupado principalmente com o que Pippin pode dar a ele, e diz a Pippin
que ele deverá "me servir, levar recados e conversar comigo se a guerra e
o planejamento me deixarem algum tempo de sobra." (III, 79). Pippin, no
entanto, não está contente com o seu papel:


"… E não estou habituado, Mestre Beregond, a ficar com fome servindo,
enquanto os outros comem. Isso é uma terrível provação para um hobbit. Sem
dúvida você está pensando que eu deveria sentir a honra mais intensamente. Mas
de que adianta essa honra?" (III, 81)


Pippin e Denethor, como personagens falhos, formaram um relacionamento que não
pode ter um final feliz para o líder ou para o subordinado.


A queda de Denethor é insinuada antecipadamente através do seu orgulho, e a
loucura resultante o faz abandonar o seu papel como líder. O primeiro sinal
desta loucura vem quando ele diz que dorme de armadura (III, 92) e, quando se
torna claro que ele não está mais são, Pippin precisa fazer uma escolha sobre
como deve proceder. Assim como Merry, ele precisa desobedecer o seu senhor para
cumprir o seu papel de protegê-lo. Apesar de Denethor dispensar os serviços de
Pippin enquanto ele mesmo se prepara para encontrar-se com a morte (III, 97),
ele não dá permissão para o seu servo interferir com as suas intenções. Pippin,
percebendo a situação e sabendo que algo precisa ser feito, realiza o seu maior
ato de bravura quando vai ao campo de batalha tentar encontrar Gandalf (III,
101). Apesar de Pippin ter feito muito na trilogia para impedir que o seu
personagem seja interpretado como um covarde, essa ação desprendida por um
homem que deu a ele nada senão tristeza é um verdadeiro ponto de mudança na sua
caracterização.


Ao contrário de Théoden, que foi valente na sua entrada na batalha, Denethor
não demonstra qualquer bravura ao preparar-se para queimar vivo a ele mesmo e a
Faramir:


"… Mas em breve todos estarão queimando. O oeste fracassou. Tudo irá
pelos ares numa grande fogueira, e tudo estará terminado." (III, 128)


"… A batalha é inútil. Por que deveríamos desejar viver por mais tempo?
Por que não deveríamos nos encaminhar para a morte lado a lado?" (III,
129).


Denethor está agindo guiado pela sua loucura, causada pela visão de velas
negras no Palantír (III, 129), mas o seu orgulho o fez desejar o Anel, e o seu
orgulho o fez usar o Palantír. Ele falha como um líder quando abandona os seus
homens à própria sorte, negligenciando o seu dever como resultado de tornar-se
presa do "ofermod", o orgulho devastador que Tolkien diz ter marcado
o conde na Batalha de Maldon que cedeu terras ao inimigo, como ele não deveria
ter feito. Por sua parte, Beowulf foi também culpado disso ao desafiar o dragão
sozinho, mas ao menos ele encontrou o seu fim em batalha, e morreu valentemente.
Diferente de Beowulf e Théoden, Denethor encara a sua morte sem qualquer
dignidade, apenas ofermod:


"– Mas eu te digo, Gandalf Mithrandir, não serei teu brinquedo! Sou um
Regente da Casa de Anárion. Não me rebaixarei para ser o camareiro caduco de um
arrivista. Mesmo que a reivindicação dele se mostrasse autêntica, ainda assim
ele apenas pertence à linhagem de Isildur. Não me curvaria diante desse
sujeito, o último representante de uma casa destruída, há muito tempo
desprovida de realeza e dignidade." (III, 130)

No relacionamento heróico do líder para
com o subordinado, não existe espaço para qualquer um dos dois se preocupar
mais consigo mesmo que com o laço de respeito mútuo e lealdade. Um deve estar
sempre ciente de que precisa do outro, porém é mostrado repetidamente que
Denethor está cego por seu orgulho. Palavras antes ditas por Denethor tornam-se
irônicas dadas as ações do hobbit que ele aceitou como servo e a queda do seu
próprio caráter:


"– Nesta hora, enviá-la [o anel] nas mãos de um Pequeno desmiolado para
dentro da terra do próprio Inimigo, como você fez, e também este meu filho,
isso é sandice." (III, 87)


Os princípios da loucura estavam em Denethor mesmo nessa hora, porém ela não
conseguia vê-lo e não estava disposto a aceitar a ajuda que outros poderiam ter
lhe oferecido. O relacionamento entre Pippin e Denethor foi baseado em orgulho
no início, mas no final é somente o servo Pippin que cumpre com o seu dever, e
é transformado em uma pessoa melhor como resultado da sua demonstração de bravura
e lealdade que são dele exigidos.


O espírito essencial do relacionamento líder-subordinado demonstrado
anteriormente pode também ser encontrado no par Saruman e Gríma
Língua-de-Cobra, apesar de que talvez a expressão mestre-servo seja uma
descrição melhor dessa união. O que Tolkien nos dá a respeito de Saruman é que
ele não é confiável, já que trai Gandalf e o aprisiona (I, 273), ganancioso na
sua busca pelo poder (I, 272), e que ele aliou-se às forças das trevas. Mais
que tudo, no entanto, ele é enganador, e é capaz de usar o poder das suas
palavras para influenciar e enganar outros. Na Torre de Orthanc, ele fala
àqueles reunidos no seu exterior:


"De repente, uma outra voz falou, suave e melodiosa, seu próprio som um
encantamento." (II, 183)


"A sua ganância faz dele um aliado de Sauron, mas o seu orgulho faz com
que ele busque trair até mesmo o Senhor dos Anéis e recusar argumentar com
aqueles que o derrotaram." (II, 187)


Gríma também é um enganador e manipulador de palavras, e é apresentado como a
causa da apatia e senilidade prematura de Théoden (II, 124-125). Primeiramente
sugerida pelo seu título de Língua-de-Cobra, a sua caracterização como uma
cobra, ou dragão, é a que mais prevalece. Gandalf diz a ele:


"– Você se transformou num verme estúpido. Portanto fique em silêncio, e
mantenha sua língua bifurcada atrás de seus dentes." (II, 117)


E:


"– Ao chão, cobra! – disse ele de repente com uma voz terrível. – De
barriga no chão! Quanto tempo faz que Saruman o comprou?" (II, 124)


Essa caracterização o alinha com o lado da maldade na trilogia, liderado por
Saruman.


Gríma é o servo de Saruman, como reconhecido por Gandalf, e dada a escolha de
lutar por Théoden ou retornar a Saruman, ele escolhe se manter leal ao seu
verdadeiro líder.


"– Mas você, Língua de Cobra, já fez tudo o que podia por seu verdadeiro
mestre. Alguma recompensa conseguiu no fim. No entanto, Saruman é capaz de
ignorar as promessas que fez. Devo recomendar que vá rápido e refresque a
memória dele, para que não esqueça seus fiéis serviços." (II, 125)


"Mostrou os dentes; e depois, com uma respiração chiada, cuspiu aos pés do
rei, e, lançando-se para um lado, fugiu descendo a escada." (II, 125)


Quando você considera que deve ter sido mais fácil para Língua-de-Cobra partir
sem precisar enganar os seus inimigos, essas ações podem ser consideradas
corajosas de uma forma muito estranha, uma vez que são evidência do seu desejo
de permanecer fiel ao seu líder e expressar desdém por aqueles que impediram os
dois de completarem a sua tarefa mútua de corromper Théoden com o objetivo de
fazer Rohan cair.


Apesar de Saruman e Denethor compartilharem a característica de um orgulho
avassalador, quando tudo está aparentemente perdido, Saruman não abandona Gríma
aos seus inimigos (II, 179), e desta forma ele possui pelo menos uma
característica que o Regente de Gondor não tem. Gríma ainda serve Saruman mesmo
em face da sua causa estar perdida, indo ao extremo de atirar o Palantír nos
inimigos do seu mestre (II, 189). Apesar de ele ser aparentemente punido pelo
seu ato (II, 190), Gríma permanece com Saruman.


Saruman é orgulhoso, vingativo e cruel até o fim do seu papel na trilogia, e
desta forma ajuda a trazer sobre si o próprio destino. Quando confrontado pelos
hobbits no Condado, ele não se intimida por eles, apesar de estar claro que ele
não possui o poder que um dia já teve, os desafiando a "– Matem-no, se
julgam que estão em número suficiente, meus bravos hobbits!" (III, 298).
Gríma, agora chamado de "Cobra" pelo seu mestre, ainda é leal no fim
da trilogia, apesar de lhe ser oferecida a chance de se desassociar de Saruman
(III, 299). Saruman, no entanto, eventualmente se afasta demais do espírito dos
laços que o unem a Cobra. Primeiro, quando chama atenção para a lealdade do seu
servo só para fazer pouco dela, e depois começa a rir:


"– Você sempre faz o que Charcote manda, não é, Cobra? Bem, agora ele diz:
em frente! – Chutou Língua de Cobra no rosto no momento em que este rastejava,
virou-se e partiu. Mas nesse instante algo se partiu: de súbito Língua de Cobra
se levantou, sacando uma faca escondida e então, rosnando como um cachorro,
saltou sobre as costas de Saruman, puxou-lhe a cabeça para trás, cortou-lhe a
garganta e com um grito correu descendo a ladeira. Antes que Frodo pudesse se
recuperar ou dizer alguma coisa, três arcos hobbits zuniram e Língua de Cobra
caiu morto." (III, 300)


Se você perceber, é somente quando Saruman trai o seu servo mostrando aos
outros que a sua aliança nada mais é que uma chacota de uma situação ideal, é
que Língua de Cobra responde com o assassinato brutal de seu senhor. Apesar de
possivelmente ser merecedor do castigo, Saruman ainda é o mestre de Gríma,
então quando o relacionamento heróico é quebrado pelo servo, o servo também
torna a si mesmo merecedor de castigo. Em contraste com Sam, que foi comparado
a um cão empolgado com um passeio (I, 73), Língua de Cobra aqui é um cachorro
que mata o seu mestre e é, desta forma, merecedor da morte que ele recebe.


O Senhor dos Anéis conta a história do final de uma era onde a servidão
feudal marcada pelo idealismo heróico era o molde. As figuras de Théoden,
Denethor, Frodo, e até mesmo Saruman, são as que mais se aproximam do modelo de
líder que Tolkien discutiu no seu ensaio "Ofermod" e que pode ser
visto em Beowulf. O relacionamento que eles formam com uma figura
subordinada ajuda a definir cada um dos líderes enquanto eles lutam em um mundo
em guerra. No entanto, todos esses líderes deixam o mundo da Terra-média, e
este é talvez o ponto mais significativo da concepção de Tolkien sobre laços
heróicos. Como no nosso mundo, o tempo do provedor de anéis e dos companheiros
de jornada se foi, substituído por oficiais eleitos, enquanto as exigências de
um mundo em constante mudança e cada vez mais complexo provam ser muito fortes
para que a lealdade inabalável persista.


Você pode mandar email para o autor através do mglondon@yahoo.com


Universidade de Maryland, College Park


Maio de 1996


OBRAS CITADAS


Chickering, H.D. Beowulf.
New York; Anchor Books, 1977.
Tolkien, J. R. R. The Lord of the Rings Part I: "The Fellowship
of the Ring"
. Toronto: Methuen Publications, 1977.

Tolkien, J. R. R. The Lord of the Rings Part II: "The Two
Towers"
. Toronto: Methuen Publications, 1977.

Tolkien, J. R. R. The Lord of the Rings Part III: "The Return of
the King"
. Toronto: Methuen Publications, 1977.

Tolkien, J. R. R. The Tolkien Reader. New York: Ballantine Books,
1991.