Camas Quentinhas são Gostosas – Sexo e Libido nos trabalhos de Tolkien

“O demônio é infinitamente engenhoso, e sexo é seu assunto favorito.” – J.R.R. Tolkien [1]

“Sexo” e “Tolkien” podem parecer termos contraditórios. Frequentemente acredita-se que os trabalhos de Tolkien como um todo são assexuados, travessos e inocentes, baseados na falta de conteúdo sexual de seu romance O Senhor dos Anéis. Isto não é verdade. Sexo e libido estão presentes na visão de Tolkien da Terra Média; de fato, é inevitável em tão completo retrato de um mundo imaginário. Sexo foi marginalizado em O Senhor dos Anéis, é uma influência subconsciente destrutiva em O Silmarillion, e é raramente oferecido, ainda assim há sinceras menções nos prelúdios extensos da estória de Tolkien sobre a Terra Média. Amor apaixonado, desejos proibidos, negação da realização sexual, e estupro são pontos principais em várias estórias. Libido e amor com conotação sexual são até retratados de forma positiva, quando eles ocorrem dentro de limites morais apropriados. Este ensaio pretende descobrir e revisar o papel do sexo nos trabalhos de Tolkien, e analisar as reações dos leitores modernos a eles. 

 
 
Tolkien: Antiquado em seu Tempo

“Este é um mundo decadente. O desvio do instinto sexual é um dos principais sintomas da decadência… 'Oh! Oh! Que o amor seja para sempre pecaminoso!' Como disse Chaucer” J.R.R. Tolkien, comentou sobre sexo na Carta 43. [2]

Os acontecimentos da vida de Tolkien e sua época esclarecem os motivos de sua reserva e suas raras declarações diretas sobre sexo. Moralmente, ele era mais Vitoriano que Edwardiano ou verdadeiramente moderno, resultado direto de sua criação.

A criação refinada de classe média alta de Tolkien foi entrelaçada com sua forte fé católica. Ele nasceu em 1892. Quando tinha quatro anos, seu pai morreu; aos doze anos, em 1904, sua mãe católica morreria e ele tornaria-se protegido de padre Francis, um sacerdote católico conservador. Quando Tolkien apaixonou-se pela primeira vez aos dezessete anos, por uma jovem chamada Edith Bratt, a reação de padre Francis foi de desaprovar o relacionamento, e que visse-a até que Tolkien tivesse 21 anos. Muitos jovens teriam rebelado-se contra esta ordem, ou desistido de seu primeiro amor juvenil. Tolkien não fez nenhuma das duas coisas. Ele e Bratt carariam se em 1916, quando Tolkien tinha 24 anos, onde o casamento acontecera em parte como resposta ao serviços militares de Tolkien na I Guerra Mundial. Quando separado de Edith, durante a guerra ou enquanto estudava na universidade, não encontramos qualquer evidência de um único deslize passível de repreensão. [3]

Após a I Guerra Mundial, Tolkien torna-se professor, trabalhando em várias univesidades antes de estabilizar-se com uma cadeira (de professor) em Oxford. O ambiente universitário onde permaneceu por 24 anos, de 1925 a 1959, possuía fortes elementos boêmios. O estilo de vida proibido, intelectualmente sofisticado e alegre evocava “…decerto interesse entre estudantes rebeldes com seus trinta anos, como na divisão em Oxford, por exemplo, entre camaradas e estéticos.” [4] Tolkien não podia estar mais distante do que estava da facção alegre do campus. Por suas vestimentas, sua escolha religiosa e atividades extra-curriculares, Tolkien alinhava-se com os camaradas, e contra os estéticos. [5] Suas cartas da década de 40 expressam firmemente sua crença que conduta sexual conservadora era a correta e a mais apropriada, escrevendo veementemente contra divórcio e segundos casamentos. [6]

A conduta sexual rígida de Tolkien não era a norma para a sociedade britânica ou da literatura britância em sua época. O que Tolkien via durante os anos onde ele trabalhava nas suas estórias da Terra Média, de 1915 até sua morte em 1973? Havia censura e escândalos acadêmicos sobre livros sexualmente controversos: Poço da Solidão (1928) de Radclyffe Hall [7], e a novela O amante de Lady Chatterly, publicado em 1928 e o assunto do processo por obscenidade em 1960.[8] Fora dos holofotes da controvérsia, escritores populares e aclamados novelistas britânicos, tais como H.E. Bates [9] e Nancy Mitford [10], incorporaram a sexualidade em seus trabalhos. Socialmente, a Segunda Guerra Mundial afrouxou as amarras sexuais, e a boêmia do final da década de 50 e começo da década de 60 alcançou sua apoteóse na Revolução Sexual. [11]

Se Tolkien comovia-se com os trabalhos de outros autores britânicos e os eventos de sua época, tudo deve-se à constância de suas próprias crenças. Ele podia abrir sua mente o suficiente para apreciar intelectualmente trabalhos que discutiam homossexualidade em um contexto histórico apropriado, tais como os pioneiros romances de Mary Renault, The King mus Die e The Bull from the Sea. [12] Mas com relação a seus próprios mitos, ele torna-se cada vez mais conservador à medida em que envelhece. No final de sua vida, ele frequentemente voltava atrás, revisando e censurando versões mais antigas de suas estórias da Terra Média. Em duas cartas onde ele discute suas crenças sobre sexo e casamento, ele chega a ser tão conservador a tal ponto de parecer uma comadre beata. E ainda assim, ele demonstra estar profundamente consciente do poder da sexualidade, vendo-a como algo impossível de ser contida. Tensão sexual era uma interferência eterna, impedindo a verdadeira amizade entre homens e mulheres, pois de um lado ou de outro, o instinto sexual dava suas caras.[13]

Conceitos centrais de Sexo nos escritos de Tolkien

“O Casamento, salvo por azar inesperados e raros ou destinos estranhos, era o curso natural da vida para todos os Eldar.” Leis e Costumes dos Eldar. [14]

Por todos os 17 livros publicados de Tolkien, emergem certos conceitos sobre sexo:

  • Sexo somente no casamento – O sexo só era bom se acontecia no casamento. Sexo frustrante acontecia fora do casamento, ou quebrando as regras que governam o casamento. Personagens honrados não tentam forçar o ato sexual fora do casamento. É dito que Sam Gamgee precisa ser chamado a se juntar a Frodo em sua partida de Bolsão não porque sua mão estava dentro da blusa de Rosinha, mas porque ele dizia adeus ao tonel de cerveja. [15]

  • No casamento, o desejo por sexo é normal e saudável – O desejo de casar-se e ter filhos é louvável. O cuidado de Sam com Rosinha neste aspecto após seu casamento parece não deixar espaço para críticas. Os personagens que não desejam casar-se e/ou fazer sexo, mesmo quando eles podem, tais como Boromir e Frodo, tem algo errado com eles.

  • O desejo de reprodução reflete saúde racial e justiça – É tentador incluir uma longa apologia, explicação, e crítica da visão de Tolkien sobre raças e eugenia, mas isto está fora do foco deste ensaio. O que interessa é que uma raça saudável, seja uma espécie invidual como os Ents, ou um ramo étnico dentro da espécie, como os Dúnedain, eram os que tinham filhos.

  • A tropa de figuras masculinas de autoridade – Retirado diretamente da vida de Tolkien, este episódio acontece recursivamente: uma figura de autoridade masculina dando ou negando aprovação para casamento. Isto acontece em todos os seus grandes romances: Idril e Tuor, Beren e Lúthien, Aragorn e Arwen, Aldarion e Erendis.

  • A separação cultural de homens e mulheres – A maioria das mulheres da Terra Média vivem limitadas pelos – e são até felizes assim – limites de suas próprias culturas e seus papéis tradicionais de gênero. Há poucas mulheres excepcionais:Lúthien, Eowyn, Galadriel. Lúthin é uma semi-deusa, Eowyn e Galadriel têm aspirações que são tradicionalmente masculinas, Galadriel em governar, e Eowyn de ser uma heroína. Mas a maioria permanecem em seus próprios nichos e assim não aparecem nas estórias de Tolkien de aventura e guerras.


Libido como Recompensa em O Senhor dos Anéis


“Quando as coisas estão em perigo, alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam mantê-las. Mas você é meu herdeiro: tudo que eu tive e teria eu deixo para você. E você tem Rosinha…”
Frodo falando para Sam no final de O Retorno do Rei.[16]

Em grande parte da estória de O Senhor dos Anéis, sexo não é assunto. Ele emerge brevemente em As Duas Torres, com a paixonite de Eowyn por Aragorn e a estória de Barbárvore de separação de gêneres e declínio reprodutivo do povo-árvore Ent, mas é categorizado e então ignorado quando a guerra suege em cena, passando para o clímax de proporções bíblicas da destruição dos Anéis para começar então seu longo processo de conclusão.

Os beijos de Eowyn e Faramir sobre as muralhas de Gondor, parte dos apogeu dos eventos, são um prenúncio poderoso e aprovado das uniões sexuais que seguirão. Seu primeiro beijo sobre as muralhas parece casto – Faramir beija a fronte de Eowyn. Mesmo assim, ele é marcado por um artifício sensual que Tolkien permitiu-se por seus escritos: os belos cabelos. “Seus cachos, ébano e ouro, esvoaçavam mesclando-se no ar”. Mais tarde neste capítulo, Faramir declara seu amor por Eowyn e seu beijo é ainda mais íntimo, “e ele não se importou que estivessem ali nas muralhas em frente de várias pessoas. Várias pessoas de fato, os viram…” [17] Após o ápice apaixonante alcançado por Eowyn e Faramir, os casamentos que seguem-se na conclusão parecem frios e realizados por obrigação.

Por seu trajeto aceitável, o casamento, a realização sexual é parte do E Foram Felizes Para Sempre de Tolkien.. Outros personagens que escolheram o bem, e foram bem sucedidos – Aragorn e Sam – recebem sexo e amor como recompensa na narrativa. No apêndice O Conto dos Anos, outros personagens “bons” – Merry, Pippin e Eómer – também casam-se com mulheres apropriadas. Seu indicador mais forte da realização como recompensa podemos usar o realista Sam que teve 13 filhos. [18] Personagens do mal e falhos são descritos ou como assexuados (Denethor, Saruman, Gollum), ou desexualizados. Grima, que desejara Eowyn, é descrito no final como um verme chorão humano.

Se sexo é uma recompensa, por que para outros personagens bons –a Gimli, Legolas, Barbárvore, Gandalf e Frodo – ele é negado? Eles não se casam ou se unem a amantes. Eles são todos descritos de forma assexuada. E nenhum destes personagens, ou suas respectivas raças, pertencem mais à Terra Média no final da narrativa. A ausência de sexo é a negação da continuação de sua existência na Quarta Era, a Era dos Homen. Legolas o elfo, é o mais forte indicador desta desconexão. Gimli está ligado a ele tanto em na ciência do declínio de sua própria raça na Terra Média, e sua ligação com os Elfos, através da amizade e sua adoração por Galadriel. Pois em O Senhor dos Anéis, o tempo dos Elfos chegou ao fim; eles partem ou extinguem-se (literalmente retirando-se da existência física). A única estória (de amor) de elfos discutirod em O Senhor dos Anéis, é de Amroth e Nimrodel, e termina com a morte de Amroth e o desaparecimento de Nimrodel, relacionando-o com a má-sucedida jornada para o Mar, quase uma crítica à sua paixão terrena inapropriada. [19]

O ponto mais pungente que relaciona-se a ligação entre a negação sexual e a “extinção” é o adeus de Barbárvore a Celeborn e Galadrial no capítulo de O Retorno do Rei “Muitas despedidas”. As palavras de despedida de Barbárvore para os dois elfos podem ser traduzidas assim “Belo povo pais de um povo belo”. É uma observação triste de uma raça cuja sexualidade agora é passado, com outra raça em situação semelhante, mesmo reconhecendo o destino melhor do casal élfico com a contribuição para a linhagem de Aragorn, que perdurará no futuro. [20]

Ainda assim, no mundo de Tolkien sexo não é a recompensa final. A recompensa final é divina. Frodo um dos grandes heróis da estória, tem um descanso no qual ele pode tentar completar-se no sentido libidinoso, seu tempo no Condado após o final da Missão, mas isso não é para ele. Ele logo parte para o Mar com os Elfos, uma conexão direta com o lado celestiaml que para ele é uma chance de recuperar-se verdadeiramente. Sam, após a morte de sua esposa, também dirige-se ao Mar, para compartilhar brevemente do processo de cura ali. Aragorn decide morrer quando seu tempo acaba, em uma atitude de livre arbítrio, e no mundo de Tolkien a morte dos homens mortais supõe-se que traga a eles uma forma de união com Deus. [21]

Onde Arwen situa-se nesse cenário, ao permanecer na Terra Média por seu amor e paixão por Aragorn? De alguma forma ela parece ter sido punida. A escolha de Aragorn pela morte, enterra-na em uma triste compreensão sobre a negação humana da morte, e deixa-a sem razão de viver. A decisão de Arwen de permanecer na terra Média e amar Aragorn, motivada por paixão, mostra-se vazia no final. “Devo de fato curvar-me ao Destino dos Homens, queira ou não; a perda e o silêncio” [22] Esta passagem evoca os resultados baseados na paixão dO Silmarillion.


Sam e Frodo: homossexuais? Ou Vitorianos?
[23]


‘ “Eu não devia ter abandonado meu cobertor antes,” Sam murmurou, deitando-se ao lado de Frodo tentou confortá-lo e aquecê-lo com seus braços e corpo’
Montanha da Perdição, O Retorno do Rei. [24]

Qualquer discussão sobre sexualidade na obra de Tolkien seria incompleta sem a discussão do amor dinâmico entre Sam e Frodo. Começando com a recusa de Sam em deixar Frodo partir da Sociedade sem ele, no final de A Sociedade do Anel, nos intensos contatos físicos que eles compartilham nas duras estradas para Mordor em O Retorno do Rei, e mesmo nas observações finais do livro onde Sam segue Frodo pelo Mar, sua intimidade é excepcional. Leitores modernos frequentemente interpretam essa profunda afeição e amor um pelo outro como estando à beira da homossexualidade.

Não há qualquer forma de pensar que Tolkien quisesse apresentar Sam e Frodo como homossexuais. Para tornar claras suas intenções com estes personagens, precisamos examinar os ideais Vitorianos e medievais de amizade. A relação entre Sam e Frodo, precisamos pesquisar atentamente os ideais pré-século XX de amizade entre homens como sendo a mais elevada classe de expressão humana de companheirismo. “Nos séculos anteriores ‘amigos’ poderiam escrever uns aos outros em termos emocionais que poderiam ser lidos pela sociedade moderna como indicativos de interesse sexual.” [25] Estes ideais podem ser rastreados na literatura desde os tempos dos gregos antigos. Um dos textos folclóricos mais inspiradores para Tolkien, o poema épico finlandês O Kalevala [26], faz uma pungente invocação de tal amizade entre homens em suas estrofes de abertura. [27] No século XIX, relações entre os de mesmo sexo eram frequentemente chamadas de “amizades românticas”, e incluiam várias expressões de homoerotismo sem tornarem-se efetivamente sexuais. Isto mudou na virada do século, mas no Reino Unido ele foi temperado pela reação literária das mortes por conta da guerra, a Primeira Guerra Mundial. “As perdas massivas de vidas na I Guerra Mundial produziram um derrame literário de pesar que fizeram os poemas tanto de autores homossexuais quanto de heterossexuais parecerem impressivamente homoeróticos.” [28]


O Senhor dos Anéis
foi escrito durante a II Guerra Mundial. É possível que a descrição de Tolkien sobre o companheirismo entre Sam e Frodo fosse em parte influenciado pelos eventos e elegias lembrando os que se foram na I Guerra Mundial. Tolkien observou que o personagem Sam foi parcialmente baseado em outros soldados que ele conheceu durante esta guerra. [29]

As amizades masculinas de Tolkien, algumas intensas o bastante para causar brigas com sua esposa, foram uma parte importante de sua vida. Sua amizade com C.S. Lewis atraiu muita atenção, tanto porque ambos eram escritores como por conta do ensaio próprio de Lewis sobre amizade. O biógrafo oficial de Tolkien, Carpenter, observa o papel histórico e que tais amizades “não foram homossexuais… mas ainda assim excluiam as mulheres. É o grande mistério da vida de Tolkien, e compreenderemos pouco se tentarmos analisá-lo… podemos encontrar algo dele expresso nO Senhor dos Anéis” [30]

Isso nos diz muito sobre o tanto que nossa sociedade mudou em 50 anos desde que O Senhor dos Anéis foi escrito, de tal forma que os ideais e experiências de Tolkien a respeito de amizades masculinas sejam consideradas como um fenômeno histórico que necessite de explicação. Quando o filme A Sociedade do Anel foi lançado, a proximidade física e emocional entre Sam e Frodo foi muito comentada em meios de comunicação de gays e lésbicas. [31] Tolkien não ficara muito contente com a atenção que ele recebeu das estetas.


O Silmarillion Censurado


“Mas à medida que ela fitava-o, o destino tomou posse dela, e ela amou-o. Ainda assim, ela espacava-lhe de seus braços e desaparecia com o raiar do dia. E então Beren mantinha-se prostrado no chão desmaiado, como se tivesse sido assassinado de forma fulminante pela felicidade e pelo pesar.”
Sobre Beren e Lúthien, O Silmarillion.[32]

Comparado aO Senhor dos Anéis, o livro O Silmarillion possuim muito mais romance e sexo. Violações sexuais influenciam duas estórias principais: a de Turin, que casou-se com sua irmã Nienor; e a de Maeglin, que desejava sua prima de primeiro grau, a princesa élfica Idril. (Ambas transgressões possuem final trágico. O conto de Turin com duplo suicídio dos irmãos depois da revelação de seu incesto, e Maeglin trai toda uma fortaleza élfica para as forças do mal, na esperança de conseguir Idril para si.) Toda a estória do mortal Beren e da beleza quase divina de Lúthien é conduzida por referências ao quanto Lúthien era desejável. Ele até usar sua sensualidade para ninar o poder maligno de Morgoth, oferecendo-lhe seus serviços de menestrel, e está implícito que Morgoth planeja estuprá-la. Estes eventos, e outros lampejos de franqueza sexual nO Silmarillion, estão todos formulados em termos quase bíblicos.

Formulados, ou, em alguns casos, reformulados. Os rascunhos originais do material de Tolkien para O Silmarillion são frequentemente muito mais francos em termos sexuais que a versão publicada. Tolkien trabalhou nO Silmarillion por 56 anos, e muitas seções passaram por inúmeras provas. Às vezes, Tolkien corrigiria itens que ele escrevera em sua juventude mais afoita, censurando a si mesmo. Por exemplo, no rascunho original do capítulo do Silmarillion “Sobre Maeglin”, o Elfo Negro Eöl aproxima-se da perdida dama élfica Aredhel nas florestas e “toma-a como esposa à força” [33], o eufemismo preferido de Tolkien para estupro e casamento forçado. Em um esboço posterior, ele mudou isto de tal forma que Aredhel foi atraída por Eöl por encantos dele e que “não foi forçada.” [34] Outra mudança significativa foi da abordagem que Lúthien adotou para aproximar-se de Morgoth. Em um esboço anterior, Lúthien não canta para Morgoth; ela dança para ele, e o encontro todo era muito mais sexualizado. [35]

Ainda outra estória que tinha elementos muito mais sexuais que foram posteriormente removidos, é o conto de Turin. Estas mudanças editoriais foram provavelmente feitas por Christopher Tolkien, filho do autor e testamenteiro dele. A versão dO Silmarillion mantém a união incestuosa de Turin e Nienor, e o insulto mortal de elfo atentando a honra das mulheres da família de Turin: “Se os homens de Hithlum são assim selvagens e depravados, que espécie de mulheres há naquelas terras? Elas correm como gazelas, vestidas apenas por seus cabelos?” [36] A versão mais longa desta estória, Narn î Hin Hurin, publicada em Contos Inacabados, inclui detalhes sexuais que beiram aos de um cenário medieval repleto de guerras e realidades cruéis. Há uma condescendência com o homem que forçou seu casamento com Aerin, muito maior ênfase na atração que a donzela élfica Finduilas sentia por Turin, e em um incidente onde Turin, quando foragido, salva uma mulher de ser estuprada por um membro de sua gangue, e a mulher tem uma reação chocantemente libidinosa: “Então a mulher levantou-se e colocou seus braços ao redor dos braços de Turin. Ela fitou o sangue e quando ela voltou-se para Turin, seus olhos havia deleito nos olhos dela. “Mate-no, meu senhor” ela disse “Mate-o também! E então venha comigo. Larnach, meu pai não irá zangar-se. Pois só por duas ‘cabeças de lobo’ ele já distribuiu recompensas.” Está implícito na frase que ela estava se disponibilizando de maneira sexual para Turin. A resposta de Turin foi dizer “Não cortarei as cabeças de meus companheiros para agradá-lo, ou qualquer outro.” Mais tarde, outro foragido fica perplexo com o auto-controle de Turin, e nos mostra sua própria natureza corrupta na interpretação do incidente: “A mulher estava gostando também, e ofereceu-se para ir com ele…Mas ele não a quis e dispensou ela. Assim que tipo de rancor ele guarda contra o capitão (o estuprador) eu não posso adivinhar” [37] Na versão publicada dO Silmarillion, este evento foi apagado por completo, editado em uma única sentença “Mas Turin vagueou por longo tempo com os foragidos, e tornou-se seu capitão. E ele nomeou-se Neithan, o Injustiçado”

 
Uma vez que o material mais explícito foi mais tarde publicado em Contos Inacabados e na série História da Térra Média, não parece que as intenções de C. Tolkien fossem puritanas. Provavelmente C. Tolkien o retirou por considerações editoriais de comprimento e estilo. Grande parte do material explícito está escrito em um estilo bastante diferente do estilo bíblico que é o corpo dO Silmarillion. Por exemplo, o incidente de estupro-resgate apresenta-se em diálogos de terceira pessoa rápidos, com uma abordagem mais intimista e com ampla gama de personagens. E as duas peças de Tolkien mais explícitamente sexuais, “Leis e Costumes dos Eldar” e "Aldarion e Elendis”, ao mesmo tempo que inicialmente foram planejados para que integrassem O Silmarillion, eram ambas incompletas e confusas em formato. Tolkien pode não ficar contente com a exclusão delas baseada em termos estilísticos, mas é bem capaz dele ter aprovado este corte com base moral.

 

Leis e Costumes entre os Eldar: Tudo sob Controle


“Raramente há em qualquer conto menção sobre feitos de luxúria”
– Leis e costumes entre os Eldar. [38]

Depois de SDA, onde acontecem três beijos em mais de mil páginas de romance, e o tom pio usado no Silmarillion que esteriliza qualquer transgressão sexual, o ensaio de Tolkien “Leis e Costumes entre os Eldar” parece-nos explícito de forma atordoante. Ele discute o casamento elfo desde a concepção, gestação e criação dos filhos.

Este ensaio é a expressão máxima do idealismo de Tolkien sobre amor e sexo. O próprio título é um indicativo sobre o papel do sexo no mundo ideal de Tolkien. São “Leis e Costumes” e não “Vidas e Amores” o que governam os Elfos nesses assuntos. A segunda parte do ensaio é uma discussão longa e moralmente tortuosa, centrada em julgamento e debate sobre o porque de casar-se novamente era anti-natural.

Sexo equivale a casamento para os Elfos. “Era o ato de unir dois corpos em um, alcançado pelo casamento” [39] e não a cerimônia em si. Este conceito foi retirado diretamente da Doutrina Católica Romana. [40] Havia pressão social para que se realizasse a cerimônia sob condições normais, pois incorpora extensivas expressões de aprovação paternal. Surpreendentemente, o casamento também equivalia a sexo. “O casamento é principalmente o casamento do corpo, pois é atingido pela união corporal, e seu primeiro feito é a geração dos corpos dos filhos… e a união dos corpos é única, e nenhuma outra união assemelha-se a ela.” [41] Uma vez que saciado, no entanto, “o desejo logo acaba, e a mente volta-se para outros assuntos. A união por amor é com certeza para os envolvidos fonte de grande prazer e alegria,… mas eles possuem muitas outras urgências de corpo e mente que suas naturezas os urgem a também serem satisfeitas.” [42] O sexo é portanto tanto exaltado quanto contido. É apropriado por um breve período de tempo, lugar e papel: o início do casamento.

O aspecto espiritual do casamento, a idéia de dois espíritos também unidos para sempre após o ato físico, é o foco da segunda parte do ensaio de Tolkien (que está picotado e irregular, ainda no formato de rascunho). Toda essa informação sobre sexo/casamento élfico é fornecido ao leitor para prover uma moldura moral para uma tragédia. Um rei élfico, Finwe, era casado com a mulher élfica Miriel. Após dar a luz ao seu primeiro e único filho, ela declara que está cansada da existência física, expressando um desejo de “escapar de seu corpo”, escolhendo então morrer. Finwe, dizendo especificamente que ele era “jovem e cheio de energia, desejava ter mais filhos” recebeu a licença pelas autoridades (neste caso, os Valar no papel de deuses) de casar-se novamente com a mulher élfica Indis. Nos anos seguintes, os conflitos entre seu primeiro filho Feanor e seus filhos seguintes gera uma trágica fissão entre os Elfos, tornando-os vulneráveis ao Mal. [43] A libido e a reprodução estão intimamente ligados nos eufemismos de Tolkien. Dessa forma, é a libido persistente de Finwe que o atrai para um pecado moral: ele é um exemplo das crenças pessoais de Tolkien que “homens não são (monogamistas). Não é bom fingir que são. Os homens simplesmente não o são.” [44]

O ensaio afunda neste ponto em discussões morais intermináveis sobre a natureza do casamento, onde a idéia central é que as almas (fea) estão eternamente conectadas através do casamento, e só porque um dos parceiros não está em um corpo (hroa) não significa que o casamento chegou ao fim, e assim casar-se novamente após luto é um pecado. Neste domínio de idéias, o divórcio não é nem mesmo possível, apesar de o ser a separação. A decisão de permitir a Finwe de casar-se de novo é vista a longo prazo equivocada, e segundos casamentos não são a partir de então encorajados entre os Elfos. Ninguém pode no entanto culpar C. Tolkien por decidir-se em excluir a segunda parte deste ensaio, resumindo em poucos parágrafos e incluindo uma sentença conciliadora “Mas os filhos de Indis foram importantes e gloriosos, assim como seus filhos: e tivessem eles não existido a história dos Eldar teria diminuído e menos notável”.[45]


A maior estória sobre sexo de Tolkien: Aldarion e Elendis


“Como posso eu dispensar você, se quando olho para ti, novamente como o Sol após um longo inverno!”
Erendis falando a Aldarion, Aldarion e Erendis

Onde “Leis e Costumes” descreve os ideais de Tolkien a respeito de sexo e casamento abstraindo-os, a estória “Aldarion e Erendis” explora-os via uma relação falha entre um rei-marinheiro distraído e sua ressentida esposa. “Aldarion e Erendis” é a quintessencial estória de Tolkien de sexo, uma na qual raramente qualquer sexo aparece, e ainda assim todas as ações são influenciadas por desejo não satisfeito ou reprimido. O casamento deles não é sábio, baseado grandemente na atração animal de Erendis por Aldarion. Mas o maior mal surge no ressentimento que ambos permitem interpor-se entre o desejo que eles sentem um pelo outro. Eles montam um ciclo de negação e maus exemplos.

De certa forma, Aldarion é o homem ideal para Tolkien: um aventureiro, forte, atraente, com consciência política e aliados dos Elfos. Também ele não perde a cabeça por causa de seus desejos. Apesar dele admirar Erendis, sua “psicologia sexual” está sob completo controle, e nem a satisfação de desejos libidinosos ou casamentos estão entre suas maiores prioridades. A mulher que o ama, Erendis, é menos refinada, mais compreensível em seu amor não correspondido, e também mais falível. Ela não é a mulher ideal, mas pode ser a quintessencial de Tolkien; mais envolvida por Aldarion que ele por ela, caseira, preocupada com pequenos problemas, especificamente aqueles que sejam menores em termos de parentesco que Aldarion. Ela não consegue competir com o mundo e as viagens que tentam Aldarion a deixa-la todo o tempo.

A sexualidadade saudável é definida por diversas vezes por esta estória. Ao contrário da figura de autoridade masculina de tropas militares, Aldarion sobre considerável pressão de seu pai Melendur para casar-se com Erendis. Uma vez noivos, Melendur surpreende-se por Aldarion esperar por 3 ou anos e até mais, denunciando certa crítica à falta de libido de seu filho. “Eu fico maravilhado que você consiga aguentar tão longa espera”. [46]

É em suas raras expressões de desejo que os personagens atingem grandeza romântica e inspiração. Erendis sente-se atraída por Aldarion quando ele o vê em uma parada. Numa atitude íntima (e permissiva), Erendis oferece a Aldarion uma lembrança de boa sorte para suas viagens, um ramo verde, que o Rei proíbe-o de levar. Mais tarde, Aldarion sente-se atraído por Erendis por sua vez, quando ele encontra Erendis vagando por entre as árvores, usando a jóia que ele lhe dera. O casamento deles no final é motivo de celebração nacional, e é até mesmo abençoado pela presença de Elfos na cerimônia final. Os Elfos dão a Aldarion e Erendis um presente simbólico – um casal de pássaros “Eles acasalam-se com apenas um companheiro por toda a vida, que é longa”. Naquela mesma noite, Erendis levanta-se de seu leito nupcial, e os dois pássaros-élficos estão pousados na sua janela, um sinal de aprovação de suas atividades noturnas.

Após vários anos, o casal têm uma briga e separação, quando Aldarion sai para aventurar-se novamente, e Erendis recolhe-se inteiramente no mundo das mulheres, vivendo fora da vista do mar numa casa atendida somente por mulheres. Significativamente, ela manda embora os pássaros-élficos “Queridos tolos, vão embora!” ela disse “Aqui não é lugar para tanta alegria como a sua”. Ela e Aldarion nunca fariam sexo novamente.

Quando Aldarion finalmente retorna de suas aventuras, ela não voa para seus armos, tratando-o ao contrário como um convidado, de uma forma que deixa claro que a recusa sexual dela para com ele. “Um quarto de convidados está sendo preparado para o senhor, quando desejar. Minhas criadas esperarão-o. Se sentir frio, peça por fogo.” Aldarion parte cheio de fúria na manhã seguinte, e nunca mais retorna para ela. Erendis mais tarde recusa o decreto do Rei para retornar a Aldarion, usando termos que expressam sua renúncia à sexualidade: “Permita-me então aqui permanecer em minha solidão…” Aldarion ao ouvir isto, diz, “Melhor seria uma bela Rainha que frustrasse-me e zombasse de mim, do que liberdade para governar enquanto a Dama… decai em seu próprio crepúsculo.” Ele lamenta a renúncia que ela fez de seu poder sexual, tanto quanto da conexão emocional com ele. Mesmo que ela o atormentasse e o enfeitiçasse, isso seria sinal que ela ainda se importava com ele.

Após essa renúncia, a estória continua somente em formato de rascunho. Mas há uma surpreendente briga que surge desse desejo dissolvido, e a estória alcança seu ápice de franqueza sexual. A filha deles, Ancalime, aprendeu com a mãe a desgostar intensamente de homens. Erendis diz a ela “Todas as coisas foram feitas para servir [ao homem]… mulheres para suas necessidades corporais, ou se são belas, para enfeitar suas mesas e casas.” Alcalime, destinada a ser Rainha uma vez que não havia herdeiro homem, gera uma enorme confusão política com sua recusa em casar-se. Eventualmente ela casa-se com o nobre Hallacar, e suporta somente o suficiente de suas atenções sexuais para conceber um filho. Apesar disso mais tarde, ela confisca as terras da família de Hallacar, dizendo que ela não teria como marido um fazendeiro.

A nota final da estória é o incidente mais explicitamente positivo em se tratando de sexo em todos os escritos de Tolkien. Alcalime proibira suas criadas de se casarem, apesar delas terem amantes. Seu marido Hallacar “em segredo arranjou tudo para que eles pudessem casar-se.” Ele organizou um banquete e convidou Ancalime, que ela compareceu com todas as suas criadas.


“Ela encontrou a casa toda iluminada como se estivesse arranjada para um grande banquete, e homens trajando grinaldas como se estivessem em seus casamentos, e cada um com outra grinalda a ser dada para suas noivas. “Venha!” disse Hallacar “Os casamentos estão preparados, e as câmaras nupciais estão prontas. Mas uma vez que não podemos imaginar em pedir para Lady Alcalime, Herdeira do Rei, para se deitar com um fazendeiro, então oh! Ela deve dormir só esta noite”… e Alcalime não viria para o banquete, mas permaneceu deitada em sua cama ouvindo os risos ao longe e imaginando que eles eram dirigidos especificamente contra ela”.


Com este evento juntamos todos os temas sexuais abordados por Tolkien. Há o bucólico casamento grupal como uma correção a uma injustiça cometida, e a aprovação de sexo marital na idéia quase obscena de câmaras nupciais. Ao mesmo tempo, há o desafio público de Hallacar e a negação sexual de Ancalime, observado como seu surgimento na cerimônia para usar seus poderes de negação sexual não apenas em seu próprio casamento, mas também para bloquear os casamentos de outrem. Hallacar é a figura de autoridade masculina que permite aos casamentos tomarem lugar, usurpando o poder de Ancalime por uma noite. “Mas ela perseguiu Hallacar com maior ódio mais tarde.”


Reações de Leitores Modernos: Atualizando os mitos

 
“Muitos jovens americanos estão envolvidos nas estórias de uma forma que eu não estou.”  J.R.R. Tolkien, em resposta a uma pergunta a respeito da popularidade de seus livros nos E.U.A. [47]

Parece que a maioria dos fãs de Tolkien estão satisfeitos com os próprios limites que Tolkien impôs à sexualidade. Entre outras coisas, isto assegura a popularidade contínua entre os conservadores cristãos. Muitos fãs são puristas, e muitos outros procuram aventuras libidinosas em mundos de fantasia intimamente relacionados ao mundo de Tolkien, novelas derivadas tais como a série de RPG (role playing game) Shannara, de Terry Brooks.

Para uma minoria substancial de fãs de Tolkien, a assexualidade e as libidos proscritas (sob pena de morte) da Terra Média de Tolkien parece uma aberração. Parece errado, incompleto, infantil, uma ausência marcante. Os críticos literários observaram isto. [48] Ao mesmo tempo, bem afastados dos ideais vitorianos de amizade masculina, a proximidade emocional entre os personagens masculinos é hoje frequentemente vista não como conforto encontrado no companheirismo, mas como uma homossexualidade sub-liminar. Este último tipo de comentário foi feito à exaustão quando O Senhor dos Anéis explode as paradas de sucesso novamente no começo do século XXI, graças aos filmes de Peter Jackson. As paródias e fanfics escritas por fãs de Tolkien modernos sexualizam o mundo e personagens de Tolkien em maior ou menor grau, através de sátiras, auto-inserções e relacionamentos entre os personagens, desejos inventados [pelos fãs] ou enfatizando romances. O filme adaptado de Peter Jackson é o melhor exemplo desta sexualização popular: o papel de Arwen é consideravelmente ampliado e as cenas dela com Aragorn foram adicionadas para dar ao conto “maior interesse romântico”.


Por que?

A resposta é porque o objetivo de Tolkien em criar uma mitologia para a Inglaterra [49] alcançou um sucesso muito além do que poderiam imaginar os seus sonhos mais loucos. Para muitos leitores, os mundos de Tolkien contém uma parte substancial de suas próprias paisagens oníricas e fantasias cultivadas desde tenra infância. A excitação de ter “entrado” o mundo é profunda, como observa um leitor crítico, “A satisfação que eu tinha ao ler O Senhor dos Anéis era sensual, tátil, quase sexual, um sentimento de ter minha mente polida pelas bordas ásperas das diferentes camadas.” [50] Este tipo de sensação foi enfatizado ainda mais com a projeção recente do filme O Senhor dos Anéis, que catapultou a Terra Média por completo em modo Surround-sound em conjunto com poderosas imagens. O mundo de Tolkien faz parte agora da mitologia da cultura popular e parece que assim permanecerá por algum tempo.

Mitos vivos não permanem os mesmos. Eles são atualizados. Os deuses pagãos tornaram-se os santos cristãos; crenças religiosas cristas e confucianas tornaram-se diferentes baseados na tradução e necessidades políticas do momento. Por séculos os cristãos foram descritos com base em ideais atraentes do momento, com roupagem corrente. Muitos fãs de Tolkien estão atualizando os mítos de Tolkien usando veículos do folclore moderno, em grande parte através da internet e da ampla disseminação de humor, sátira, e trabalhos de revisão que esta mídia permite. Para o melhor ou para o pior, a sexualização de Tolkien é como muitos fãs adaptam os mitos de Tolkien para melhor situa-los em seu contexto [dos fãs]. Dentro da comunidades culturais de Tolkien, alguns desaprovam este tipo de prática enfaticamente, especialmente se traz-se à tona temas como homossexualidade em cena. Outros aprovam esses esforços, conquanto que a reestruturação e escritos dos fãs sejam feitos de forma que respeite e seja acurado à descrição que Tolkien fez de seu mundo. Alguns fãs sexualizam os personagens de Tolkien fazendo paródia, humor, ou para expressar fantasias pessoais – e é frequente que o resultado final dificilmente relaciona-se a Tolkien.

Tolkien imaginou mundoe e épicos com sexo restrito a uma margem segura. Mas o público moderno não pode consegue fazer isso. [51] O poder sexual que Tolkien reconhecia existir, e tenta conter, surge numa enxurrada com o leitor do presente.


Conclusão

Um redator, Turner, comentou que sexo era literalmente algo impossível no mundo de Tolkien. Ela defende que a maturidade e satisfação completa da libido destruiria a atmosfera mística de missões e de camaradagem masculina. [52] Esta opinião foi baseada somente nO Senhor dos Anéis, não no corpo completo do trabalho de Tolkien. No entanto, como vimos, sexo foi considerado como parte da Terra-Média de Tolkien. Seu ponto de vista sobre sexo e romance foram moldados por uma combinação de circunstâncias históricas e pessoais, como o são os seus leitores hoje.

Um aspecto importante final sobre sexo e relacionamentos na Terra-Média é que o próprio Tolkien não considerava-os em um contexto moderno, mas como parte de sua história inventada. Ele deliberadamente não estabeleceu a dinâmica sexual moderna [da época de Tolkien] ou seus costumes na Terra-Média. Em resposta a uma crítica de que Eowyn e Faramir apaixonaram-se de forma extraordinariamente rápida, Tolkien resume como ele via a sexualidade em seu mundo criado. “Em minha experiência, os sentimentos e decisões são tomadas muito rapidamente… em tempos de grande tensão, e especialmente sob o espectro da morte iminente… Este conto [SdA] não lida com uma época de 'Amor Cortês' e suas pretensões, mas é uma cultura mais primitiva (a saber, menos corrupta) e mais nobre.” [53] É uma visão de mundo menos tenso por complicações sexuais e românticas, onde desejo é ao mesmo tempo satisfeito e contido, poderoso mas ainda ético; uma pista do que podia ter sido, na visão de Tolkien, se o mundo fosse mais puro do que é hoje.


Sobre a autora

Eu não sou estudante e não o sou há muito tempo. Ao contrário de Tolkien eu gosto de comida francesa e de gatos. Eu encorajo que mandem-me correspondência e comentários sobre meus escritos para Tyellas@hotmail.com, especialmente se você tiver alguma informação nova e interessante. Um obrigado especial para todas as pessoas mencionadas nos Agradecimentos Editoriais, editores Aayesha e Suzana, e especialmente a Finche ao Philosopher at Large por suas contribuições com relação a Mary Renault e às informações relacionadas ao catolicismo observadas aqui, com uma nota tardia de obrigada para Dmitriy V. Ryaboy por uma correção a respeito dO Kalevala.

 
 
Notas
 
[1] Carpenter, Humphrey, As Cartas de J.R.R. Tolkien. Houghton Mifflin Co., 1995, Carta 43.

[2] Carpenter, Humphrey, As Cartas de J.R.R. Tolkien. Houghton Mifflin Co., 1995, Carta 43.

[3] Carpenter, Humphrey, J.R.R. Tolkien: Uma biografia. HarperCollins., 1977, p.21-77.

[4] Haggerty, George E., Gay Histories and Cultures: An Encyclopedia. Garland Publishing Inc., 2000, p. 471.

[5] Carpenter (Bio), p.167.

[6] Carpenter (Cartas), Cartas 43 e 49.

[7] Souhami, Diana, Os julgamentos de Radclyffe Hall, Virago Press 1999, capítulos 21-23. O romance Poço de Solidão de Radclyffe Hall retrata simpáticamente uma lésbica turrona, nos anos antes, durante e depois da I Guerra Mundial.

[8] Parker, Derek, Uma antologia de prosa erótica, The Bath Press, 1981, p. 180.

[9] Bates, H.E., refere-se a seus trabalhos mais curtos, especialmente a antologia Seven by Five, uma coleção de suas estórias de 1926 a 1961 que incluem estórias sobre lesbianismo, adultério e sedução. Há também sua série popular “Larkin Family”, ecrita entre 1958 e 1963, quatro livros carregados de obscenidades suculentas e afeição pela Inglaterra do campo. A família principal, os Larkins, possuem notável semelhança com os Hobbits de Tolkien, em sua inocência, adoração pela vida rural e apetite por comida.

[10] Mitford, Nancy, refere-se a quase tudo que ela escreveu, vivido com um dissimulado recado de sexo, mas especificamente referindo-se aos romances The Pursuit of Love (1945) e Love in a Cold Climate (1949).

[11] Brecher, Edward, The Sex Researchers. Specific Press, 1979, p. 325. Este livro inclui comentários virulentos por todo o seu conteúdo, que mostra que a fria contenção da repressão Vitoriana, e as idéias de saúde sexual formuladas na época, ainda tinham efeitos profundos 66 anos depois. “Eu acredito que nossa cultura esteja recuperando-se gradualmente de uma doença debilitante: o Vitorianismo” “Muito da miséria sexual e inadequação da cultura ocidental hoje remonta diretamente dos métodos educacionais infantis, encorajados por Dr. Blackwell e outros vitorianos…”

[12] Cartas 294. Mary Renault era um dos estudantes favoritos de Tolkien em Oxford, e o tratamento que ela deu para homossexualidade historicamente apurada nos romances citados causou alguma controvérsia na época. Os romances eram histórica e folclóricamente acurados em vários níveis, num ambiente firmemente pré-Cristão. Obrigada Philosopher at Large por esta referência e pelas informações relacionadas.

[13] Carpenter (Cartas), Carta 43. É muito tentador citar integralmente esta carta. Um comentário conduz a outro e a outro, primeiro homens são castigados e logo depois as mulheres, “Você pode encontrar na vida levianas ou completas devassas…” e então homens novamente. “Cada um de nós poderia saudavelmente produzir, em nossos estranhos 30 anos de virilidade, umas centenas de filhos e gostar do processo.” A carta conclui com uma análise realistica do casamento em geral, e então de seu próprio casamento e a exortação ao amor “a coisa que mais devemos amoar na terra: o Sagrado Sacramento.”

[14] Ensaio sobre Leis e Costumes (LACE), Morgoth´s Ring, p. 210.

[15] Tolkien, J.R.R., A Sociedade do Anel, Ballantine Books, 1954, p. 79.

[16] O Retorno do Rei (ORDR), J.R.R. Tolkien, Ballantine Books, 1955, p. 345.

[17] ORDR, eventos no capítulo O Regente e o Rei.

[18] ORDR, eventos detalhados no Apêndice B, O Conto dos Anos.

[19] ASdA, pg. 353.

[20] Através da neta de Celeborn e Galadriel, Arwen, casada com Aragorn.

[21] ORDR, Apêndice A, O Conto de Aragorn e Arwen.

[22] ORDR, Apêndice A, O Conto de Aragorn e Arwen.

[23] Relativo a normas de conduta consideradas apropriadas na época da Rainha Vitória (1819-1901), cuja conduta pública era austera e impecável para contrapor-se aos escândalos que desacreditaram a Casa de Hannover antes. (http://en.wikipedia.org/wiki/Victoria_of_the_United_Kingdom)

[24] ORDR, Montanha da Perdição, pg. 241.

[25] Haggerty, pg. 778.

[26] Épico nacional finlandês. É uma compilação de versos recontando os feitos extraordinários de 3 semi-deuses irmãos, da mítica Kaleva, terra dos heróis. Sobre isto, leiam o artigo Abordagem de Kalevala por Grimmwotan Idavoll (http://www.valinor.com.br/content/view/6828/39/)

[27] Lönnrot, Elias, traduzido por Magoun, Francis Peabody, The Kalevala or Poems of the Kalevala District, Harvard University Press, 1963. Linhas 6 a 12 do Poema 1, observando-se tartar-se de uma expressão da amizade entre homens, como segue-se:

“Querido amigo, companheiro fiel, meu leal camarada da infância,

Cante agora comigo, recite este versos junto a mim

Agora que viemos juntos, viemos de dois lugares diferentes

Raramente cruzamos estradas, ou encontramo-nos um ao outro

Nestas trilhas desgraçadas, nestas partes pobres do norte.

Vamos dar-nos as mãos, entrelaçar os dedos,

E então cantar sobre as coisas boas, dar voz para as dias melhores.”

[28] Haggerty, pg. 1023.

[29] Humphrey (Biografia), pg. 114 “Meu Sam Gamgee é realmente um reflexo do soldado inglês, dos soldados rasos e escudeiros que conheci na guerra em 1914, e que eu considerava muito superiores a mim mesmo.”

[30] Carpenter (Biografia), pg. 194. Carpenter não faz esforço algum em esconder as coisas em sua análise fria sobre a relação de Tolkien com sua esposa, e podemos assumir que ele fez declarações informadas e acuradas aqui.

[31] The Advocate, 25 de dezembro de 2001, “Tha Gay Guide to Middle Earth”.

[32] Tolkien, J.R.R., O Silmarillion, editado por Christopher Tolkien, Ballantine Books, 1977.

[33] Tolkien, J.R.R., A guerra das jóias (AGDJ): O Silmarillion Tardio, Parte II, volume 11 dAs Estórias da Terra Média, J.R.R. Tolkien, editado por Christopher Tolkien. Houghton Mifflin Co., 1994, pg. 409.

[34] AGDJ, pg. 322.

[35] Shippey, Tom, A Estrada para a Terra Média, HarperCollins, 1992, pg. 279.

[36] O Silmarillion, p. 244.

[37] Contos Inacabados, Narn î Hin Hurin, p. 92-94.
 

[38] Toda vez que leio esta citação, não consigo deixar de pensar que isto não mais é verdadeiro com o advento de estórias de fãs de Tolkien veiculadas na internet! Fábulas de luxúria, de fato. O Anel de Morgoth: O Silmarillion tardio, parte I, Volume 10 das Histórias da Terra Média (HOME), editado por Christopher Tolkien. Houghton Mifflin Co., 1993. O título completo do ensaio é: “Sobre as Leis e Costume entre os Eldar em relação ao Casamento e outros assuntos relacionados; ainda sobre sobre o caso entre Finwe e Miriel e sobre o Debate sobre os Valar e suas criações”. Abreviado para futuras  referências como LACE (Laws and Costumes among Eldar).

[39]LACE pg. 212.

[40]Comunicado pessoal, Philosopher at Large. Este escritor observou que o casamento Católico somente existe quando quatro condições são satisfeitas: as partes interessadas não eram casadas anteriormente; o desejo de casar-se; a compreensão que o casamento implica em um compromisso tomado perante Deus – e que eles podem fazer sexo. O juramento em particular, e o compromisso perante Deus são o suficiente para os votos de casamento; o resto é apenas formalidade social.

[41]LACE pg. 226.

[42]LACE pg. 213.

[43]LACE pg. 237

[44]Carpenter, Cartas, Carta 43 novamente.

[45]Silmarillion, p. 70

[46]Todas as citações nesta seção provém de Contos Inacabados, Aldarion e Erendis: a esposa de um marinheiro, p. 181 até 222.

[47]Carpenter (Cartas), Carta 279.

[48]Shippev, p. 123, cita o artigo de revisão britânico “Não há recados o suficiente a respeito de sexo.” Turner (London Review of Books, “Reasons for Liking Tolkien” v. 23, # 25) endossa isto notando a qualidade pré-puberdade de vários personagens.

[49]Shippey, p. 268.

[50]Turner, 2001.

[51]Turner, 2001, nos dá um exemplo disto: “Apesar de qualquer pessoa sempre se pegar pensando sobre Merry e Pippin, e o príncipe-elfo que esbanjava-preconceito Legolas aproximar-se de Gimli o anão.”

[52]Turner, 2001.

[53]Carpenter (Cartas), Carta 244.